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Lrá Elias de Castro


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REDESCOBRINDO O BRASIL
6í Ea\ 500 anos depois

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DINÂMICA REGiONAL BRASILEIRA
Nos ANOSNO\,'ENTA: RuMo À
DeswrrcnaÇÀo Cotr,rpsrlnvaz

Tânia Bacelar

GRANDES FASES DA DINÂMICA


REGIONAL BRASILEIRA

De um país de população dominantemente rural e de economia


primário-exportadora baseada no regime escÍavocrata emerge, no século
XX, um Brasil urbano, industrial e de relações de trabalho dominantemcn-
te capitalistas: uma transformação de grande profundidade. O padrio
locacional das afividades econômicas e a di-nâmica espacial do PaÍs tam-
bém se alteram profundamente.
As antigas bases primário-exportadoras eram dispersas cm divcrsas
regiÕes do PaÍs, tendo, associadas a elas, as indústrias tradicionais. A
moderna e ampla base industrial, montada no atual século, ao contrírio,
tendeu a concenhar-se, Iortemente, no Sudeste, que, com 11% do território
brasileiro, respondia, em 1.970, por 8lo/" da atividade ind ustrial do País, sen-
do que Sâo Paulo, sozinho, gerava 587" da produção da indListria existentc.
Na fase primário-exportadora, a dinâmica espacial de cada "econo-
mia retional" cra comandada pcla demanda externa (por açúcar, minério,
borracha, ou ca[é). Eram dinâmicas nio necessariamente confluc,ntcs no
lcmpo: dlí a cconolltia tÇlrcnl,irt do Nor(jcslc |odi;r ir nt,rl cltqlt,tnlo,l
c«rttonria c.rlccir'.r rlo SLrlcstc i;r rrrtrito bcu.'l rnhluros, ,rssirn, "illras"
rt'giorrais, bt'nr localizncl.rs, cont rliniirnicas autônonlas LlLr(', juntas, conslr- )

trríanr o "arquipólago" brasileiro, IraÍn Lrsar a intagcnr tle Francisco dc (


Olivt'in (OIivcira, 1990).
o rocesso de indtrstriali znção, com and a do cla clemanda inlerna,
íoi "montan o Lll la o. Foi soldanclo a dinâmiãa
IC Srona brasileira Íase mais recen te, uando a acessl I-
a e c a a ela iníra-eslÍutrrra de trans rtes e d unrca çoes sc Ju s-
tap ao av do movlmen to acelerado de oli o osa tes
econoÍucos úb cos andes vados des nacr
nais e kansnacionais o rão de f n a dinâmica onal
sea tera prof amente, solidarizando as diversas dinâmi cas reslonars.
Cada v ez mais tcava CI o Nordeste ir mal se o Sudeste ia bem, Obser-
vava-se o contrário: a integração firodutiva comandada pela dinâmica da
REDESCOBRINDO O B RASI L INTEGRAÇÁO ECONÔMICA 75

acumulação irdustrial ia impondo uma dinâmica cada vez mais semelhar- das, como fica claro no aÍti8o em que anal.isei a crescente complexidade da
te entre as regiões brasileiras, guardadas apenas as variantes definidas realidade nordestina (Araújo, 1995) e no trabalho onde Sérgio Buarque
pelas especializaçôes produlivas de cada região. Era possÍvel observar rit- identifica profundas diÍerenciaçóes na organização do espaço econômico
mos diferenres (uns maiores, outros menores), mas, se a tendência era da Íegião Norte (Buarque, 1995).
expansiva, a expansão atingia todas as regiões, o mesmo acontecendo se a Essa crescente diferenciação intra-regional em diversas macrorte-
tendência era recessiva. gióes brasileiras teria sido a contrapartida do processo de integração do nter-
Já nas décadas recentes, começavâ a se verificar, no Brasil, um cado tacional, comandado a Wrtir de São Pqulo, segv\do Wilson Cano. Para
modesto movimento de desconcentração espacial da produção nacional. esse autor, bloqueando as possibilidades de "industrializações autôno-
Esse movimento se inicia via ocupação da fronteira agropecuária (anos 40 mas", como sonhara o GTDN para o Nordeste, no Íinal dos anos 50, o
e 50), primeiro no sentido do Sul e depois na direção do Centrooeste, movimento de integração do mercado nacional forçava o su-rgimento de
Norfe e parte oeste do Nordesle. A partir dos anos 70 ele se estende à "complementaridades" inter-regionais e fazia desenvolverem-se "especia-
industria. Na medida em que o mercado nacional se integrava, a indGtria lizações" regionais impoltantes (Cano, 1985). Servem, como exemplos, o
buscava novas localizações, desenvolvendo-se em vários locais das regiões desenvolvimento de pólos como os de eletroeletrônicos na Zona Franca de
menos desenvolvidas do PaÍs, especialmente nas suas áreas mekopolita- Manaus, mineração no Pará, bens intermediários quÍmicos no Nordeste
nas. Êm 1990, o Sudeste caíra para 69% seu peso na indúskia do Brasil, São oriental, têxteis no Ceará e Rio Grande do Norte, entre ouhos.
Paulo recuara sua importância relativa para 49%, enquanto o Nordeste Embora a lógica da acumu.lação Íosse a mesma no imerso território
passava de 5,7"k pa.,a 8,4% seu peso na produção industrial brasileira, do pa ís, como bem destaca Francisco de Oliveira e estivéssemos construin-
entre 1970 e 1990, O mesmo movimenlo de ganho de posição relativa acon- do uma "economia nacional, regionalmente localizada" (Oliveira, 1990), as
tecia com o Sul, Norte e Cenkooeste. Os efeitos da desconcenkação das heterogeneidades intemas às macroregiões não diminuíram. Muito ao
atividades agrícolas, pecuárias e industriais afetaram o terciá o, que tam- conhário, tenderam a se ampliar, nos anos setenta e oitenta. A pÍioridade
bém tendcu à desconcentraçâo. principal era a da integração do mercado intcrno nacional e a cla consoli-
O resultado é que, embora a produção do paÍs ainda apresente um dação da integração Íísico-territorial do paÍs
padrão de localização fortemente concentrado, em 1990 a concentração era - objetivo importante dos
governos m.ilitares, E nesse contexto, da mera articulação comercial entre
menor que nos anos 70. Enhe 1970 e i990, o Sudeste cai de 657o para 600/" as regiões passa-se à integração produtiva comandada pelo 6;rande capital
seu peso no PIB brasileiro, enquanlo o Sul permanece estável, responden- industrial e pelo Estado nacional, como mostra konardo Cuimarães Neto
do por cerca de 77'k da produção nacional, mas o Nordeste, Norte e (Gümarães Neto, 1989). Com ela, as regiões se htegram à mesma lógica
Centro-Oeste ganham importância relativa (juntos, passam de 18% para da acumulação enquanto ficam mais complexas e diferenciadas irterna-
23% sua participação no PIB do Brasil). mente, Assim era o Brasü até os anos oitenta.
Ao mesmo tempo em que constatavam a tendência a desconcentrar a
dinâmica econômica no espaço territorial do País nas últimas décadas,
dive$os esh.rdos enÍâtizam a crescente diferenciação intema das macror- MUDANÇAS RECENTES NA DINÂMICA
regiÕes brasiieiras. Carlos Américo Pachedo, por exemplo, chama atenção ECONÔMICA NACIONAL
para o aumento da hctcrogeneidade inha-regional que acompanhou o
processo recente de desconcenkação e que legou uma coúiguração ao País Num contexto mundial marcado por importantes transformações, o
bastante distinta da que possuía em 1.970. Constata ele que o desenvolvi- ambiente econômico brasileiro sofre grandes mudanças nos anos noventa.
mento da a ricultura e da indúst a " riÍérica" não a as modif lcou a Dentre as principais destacam-se uma polÍtica de abertura comercial inten-
imensão r.uos de o mas kars formou as estruturas produti- sa e rápida, a priorizaçáo à integação competitíoa, rcf.otmas profundas na
vas lvem resu alor nc a o esPa ço ação do Estado e finalmente a implementação de um programa de estabi-
nâclonâ com aumcÀto da hctcro cncidadc intc rna c ccrtas tização quc já cntrou no quarto ano. Paralelamcnte, o setor privado passa
ializações", gerando os mento "ilhas" de ridade, mes- por uma reestruturação produtiva também intensa e muito rápida.
mo em contex estasnacão (Pacheco, 1996). No NoÍdcstc e no Norte, Nesse novo contexto,Íotças trcuns aluafi no sentido dc induzir à drs-
por exemplo, essa diferenciação intema se amplia muito nas últimas déca- coüc?ilruçAo espocíoL abertuÍa comeÍcial podendo favorecer "focos expoÍta-
76 ITEDESCOtsRINDO O BRASI L I NTEG RAÇÀO ECONÔMICÀ 77

doÍes", mudanças tecnológicâs quc rcduzem custos de investimento, cres- múto recentes, os estudos têm convergido para sinalizarenl, no mÍnimo,
cente papel da logÍstica nas dccisões de localização dos estabelecimentos, para a inteEupção do movimento de desconcentraçào do desenvolvimen-
importância da proximidade do cliente final para diversas atividades, ação to na direção das regiões menos desenvolvidas. Alguns autores chegam a
ativa de governos locais oferecendo incentivos, peso de fatores tradicic falar em reconcentração, como é o caso de Clélio Campolina Diniz, para o
nais como mão-de-obra abLuldante, barata e não oÍganjzada (para setores caso da atividade industrial, como se mostrará a seguir. Mesmo sem ir tào
intensivos em mão-de-obra, como con[ecçóes e calçados), entre outro§. longe, estudo recente da Confederação Nacional da lndústria, com base
Enquânto isso, outras forças atuam no sentldo da conceitrdçdo de em dados da Fundação Getulio Vargas, confirma a hipótese de que, no
inacstitnettos \as áreas iá mais dinâmicas e competitivis do paÍs (ver dados mínimo, se interrompeu a desconcentração (CNl, 1997).
no Anexo 2, p.91). Atuam nesse sentido, em especial, os novos requisitos A CNI usa os dados do Programa de Estudos dos Estados da EBAP/
locacionais da acumulação flexÍvel, como: melhor ofcrta de recursos FCV e compara estimativas do PIB real dos diversos Estados e Regiões,
humanos qualificados, maior proximidade com centlos de produção de revelando que enEe 1990 e 1995 a região Sudeste não só deixa de perder
conhecimento e tecnologia, mâior e mais eficiente dotação de inÍrâ- posição relativ.l da produção nacional
estrutura econômica, proximidade com os mercados consumidores de duas últimas décadas
- trajetória que percorrera nas
como volta a ganhar importância na economia
mais alta renda. -
brasileira, o mesmo acontecendo com os Estados de São Paulo e do Rio de
Autores colno Pacheco chamam a atençào também para os condicio- ]aneiro, as duas maiores bases econômicas do País.
nantes da recstrutLtraçào produtiva e cm especial para a íorrna como vcm No caso da indústria, estudos e dados recenles pcrmitem falar de
.t, se daurlo a irrsr,rçrio lrrlr,rrrnr:jorrrrl do llrasil, espccillmentc no quc diz rcsl)ei- lendência a concentÍação do diramismo em deterntinados espasos do ter-
to às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da "globalDação" tório brasileiro. Estimativas do PIB industrial por macrorregião, elabora-
da economia mundial. E constatam que, ao contrário do que se poderia das pelo IPEA, constatam que, nos anos noventa, as regiões Sudeste e Sul
c5 perar, a globalização reÍoÍça as estratégias de especialização regionnl deixam de perder posição relativa na produção indrrslrial nacional e vol-
C
o mân, 1994). A nova organização tende a resultar, tam à ampliâÍ sua prcsença nessa ativlalâde, no contexto do pâís, o mcsnto
de um lado, d a ruca a a dâs randes em re- acontecendo com o Estado de São Paulo, onde historicamente se conccn_
sas tores o ars e da res ta dos Estados nacionais ara enfrentar os trara a indústria brasileira (IPEA, 1996 a,).
i'.'l'lilg rLr 'l'artrbiur identiÍicando urla lortc tcndôncia
lSt:lg::lui!,s slutraliz,rç&. à concentração espacial
O fato ó que, nos anos noventa , tende-se a romper o padrão domi- do dinamismo industrjal recente, trabalho elaborado pelo cconomjsta
nante no Rrâsil das Líltimas décadas, onde a prioridade eÍa dada à monta- Clélio Campolina, da UFlr,lC, localizou os atuilis ccnLros Lrrbanos d inâmicos
gem de uma base econô mjca que operava essencialmente no es aço naclo- do paÍs, em termos dc cresciDtenlo indLtslri,ll ConslaloLl qrrc, a grancic
na : enl ora ork'mc11l
9_Il!I! t la L{a [ror ôllcrrtcs ccolrônricos lrn snacio- r)rniori.r rl(,las sc ('ncontrn nrrnt |()lll\) () (lr,r(,c()r (,\,t crtr li,l0 IlrrIizonlt.,
níÀ=1 rt rnL'lltc (l esc(»rc('rrtrilndo t rla-di§Ciir cspaços P(rr úé. vii a Uberlnndià (M(;), dosce na tlircçio dc t\4.rrin6i (l,lt) aló l)orto Alcgre
ricos do Pâís. A ofa, rlo za-se a inse o com a os ocos rnaml- (R5) e retorna a Belo l.lorizontc via ljlorianóPolis (SC), Curitjba (pll) c Sio
cos do aís na cconomia mund ial, em rípida sl oba liza c ao o Esta do
José dos Campos (SP).
nacionil, r sua vez, ue JoSava um I ativo nesse tanto r Das 68 aglomeraçôes urbanas com intcnso dinantisDlo industrial
suas olÍticas ex citamente lonalS, como suas oiiticas ditas de rece e, 79o/o estão situadas nas regiões Sul/Suds51s, lsyo no Nordeste e
corte set ona nacional, como pela ação de suas Es tatais a ora retr r-se apenas 6% no Norte € Centro-Oeste (CampoUna Diniz & Crocco, 1996). Na
sua maioria, são capitais ou cidades de porte médio, muitâs delas bases
PÍ'^ t(rí'í'
h dinâmicas recentes, como Sete Lagoas, Divinópolis, pouso Alegre e Ubá,
As TENDÊNCTAS DE LocALTzAÇÃo DA pRoDUÇÀo
' tl6Í[I ' em Miras Gerais; Araçatuba, Piraçurunga, Jaú e Tatú em São paulo; ou
Pato Branco e Ponta Grossa, no Paraná; enhe oukas, As deseconomias de
No resente, as decisões dominantes tendem a ser as do mercado, aglomeração tiram as maiores Regiões Metropolitanas, Rio e São paulo,
dada a crise o e as novas orienta vernamentai ao lado de desse foco dinâmico industrial, mas essa última concentra cada vez mais o
uma evl en te indefini ão e atomiza a marcado a DolÍtica de comando financeiro da economia nacional.
desenvolv imento Íesional no Brasil. Embora as tendências ainda sejarn É certo que as conseqLiências espirciais dc políticas inrPortnnl,.a aon,o
,\§ ,
78 REDESCOBRIN DO O BR ASI L
TNTECRAÇÀO ECONÔMICA ,-t(0 "' 7s

i
agriculhua, a extração miaeral e a agroirdústria não lêm peso dominante
a de abertura comercial e a de integração competitiya comandada pelo mer-
na composição do PIB brasileiro. i
cado, aliadas a aspectos impolLantes da polÍtica de estabilização (como cârrr
No momento em que a poütica governamentál opta por promover
bio valorizado, juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impac!
uma abertura comercial rápida e intensa, cabe analiÀar as tendências das
tado negativamente em vários segmentos da indústsia instalada no Brasil e
exportações brasileiras, da perspectiva regional. Conlo revelam os dados
afetado especialnente o Sudeste (São Paulq em particular). É certo também
oficiais (MICT/SECEX), em 1995,82% das exportaçõês do Brasil se origi-
que algumas empresas de gêneros industriais mais mão-de-obra interuivos
naram nas regiões Sul/Sudeste. Esse percentual era 68% em 1975 e passa-
têm brrscodo se relocalizâf nô inteÍlor do Nordcste, para competlr com corF
ra para 81,5% em 1990 (Campolina, 1994). O dinamismo maior, no período
cofientes extemos (principalmente com os paGes asiáticos), atraídos pela srr
pós-aberh.rra acelerada, se verifica na base exportadora da Região Su.l, que
peroferta de mão-de.obra e baixos salários, e pela possibiüdade de flexibili-
amplia sua presença no total vendido pelo País ao exterior de 21,5o/o em
zar as relações de habalho (adotardo subcontratação), ao se mudarem.
- Mas esses Íatos não alteram significativamente as tendências e as
1990 para 24,5'k, em'1995.
Nas regiões periféricas, o Centro-Oeste tem reafirmado o diramismo
preferências locacionais identificadas pelos estudos de Campolina Diniz,
de sua base exportadora, crescendo sua modesta participação no total bra-
acima apresentadas. Tendências e preferências que beneficiam as regiôes
sileiro de 1,8% em 1990 para 2,1./. em1995.
mais licas e industrializadas do país (o Sudeste e o Sul). Por sua vez, o Prof.
Tendência oposta se veriJica no Nordeste, que respondia por 17% das
Paulo Haddad tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul
a pqsa tendência de allastar o crescimento indtrstrial para o espaço que fica
exportações brasileiras, em '1975, cai paú 9,6ó/", em 1990, e para 9,1ol., em
abaixo\de Belo Horizonre (Haddad, 1996). 1995. Isso apesar do dinamismo, nessa Região, de segmentos com tendências
: \--No que se refere às aüvidades do s€tor primário, constatava-se que, exportadoras, como a indúsbia de papel e celuJose (BA), química (NE orien_
em décadas anteriores, a fronteira agrÍcola avançara na di_reção do Norte e tal), alumÍnio (MA) e como a fruticulhra (vales do São Frincisco e do Açu).
sobreUdo o CenEo-Oeste. Essa r.ütima região passara de 11% , em196g/20, Um destaque merece o Mercosul, posto que o comércio brasileiro
para 23o/o em \989 / 91, seu peso na produção nacional, Íace ao dinarnismo com os paÍses-membros desse Mercado vem crescendo intensamente nos
intenso da produção de grãos (especialmente soja). No perÍodo mais recen- últihos anos. As tsocas do Brasil com o Mercosu.l pularam de US$ 1,7 bi
te (1991/94), a agricultuÍa gaúa presença na região Sr]], que passa a res- em 1985, para US$ 3,6 bi em 1990, para US$ 8,7 bi em 1993 e alcançam
ponder por 52% da produção brasileira de grãoi, contra 4bol" àbservados US$ 13,1 bilhões, em 1995. Tal dinamismo geral está encobrindo diÍeien_
no triênio 1989/91. Vale destacar que, sozinlo, o Rio Grande do Sd pro- ciações de impactos regionais, visto que:
duz, do total nacional, quantidade que representa quatro vezes a produção
de grãos de todo o Nordeste e 10% a mais do que toda a proàução da . nas tlocas comerciais, as vendas privilegiarn exportaçôes de bens
região Centro.Oeste (Campolina Diniz, 1994). industrializados (o que favorece Sul/Sudeste),
Por sua vez, a fronteira mineral, no seu dinamismo recente, buscou .: . deve-se ampliar a competição com atividades agrícolas e agroin-
áreas como o Pará, que já disputa com Minas Gerais o primeto lugar como dustriais, como grãos, frutas e derivados, laticínios (onde o-s par-
produtor blasileiro de minérios, Goiás (rico em amianto, estanho, fosfato e i ceiros do Brasil são Íortes), têxteis, couro (produtos que o Braiil

nióbio) e Bahia (com ocorências diversificadas). No Nordeste, começa-se a .\Á tem tradição de importar de outros países do MercosLr.l). Com isso,
investir na construçâo de gasodutos, aparecendo com reservas importantes \ esperam-se eÍeitos negativos no Sul e Centro-Oeste (grãos), Minas
de gásnahxal Estados como Búia, Alagoas e Rio Grande do Norte. Sua terF (laticÍnios) e NE (fruticultura),
dência espacial recente foi, portanto, descenkalizadora. Mas as exploraçôes . dêve-se promover uma atticulação comercíal mais intensa dos ,l
recentes não foram induskializântes, como em Minas Gerais, onde se desen- ouhos países do Mercosul com o Sul/Sudeste brasileiro, e
volveu, associado à mineração, um complexo siderúrgico-metalúrgicG. . em termos de investimentos, deve-se Íavorecer nvcstimenl os cru- Aro/. l'r
u
\ri,
mecânico e de produção de material de transportes. Isso porque as novas zados Ê associaçoes de empresas instaladas no este e com ç(\tl$q hrttí,r.
áreas de exploração mineral (como Carajás) tenderam a especializar-se na os demais países do Bloco. Assim, o movimento de iú?gração pto-
produção para exportâção, tendendo a corstituir modelo tipo enclave. drtiua que buscava o Nordeste e o Norte nas décadas ánteriores,
Percebe-se, assim, a diramização de diversos focos dinârrricos em ag_ora tende a se redirecionar para o Mercosul. Vale lembrar que o
diÍelentes subespaços das macrorregiões, contrabalançando a tendência à PIB do Mercosul (sem Chile e sem o Brasil) é mais que o dobro do
concentração do dinamismo industrial. Vale lembrar, no entanto, que a PIB do NE e NOi juntos.
80 REDESCOBRINDO O B RASI L INTEGRAçÃO ECONÔMICA 81

AS PREFERÊNCIAS LOCACIONAIS 3,4'l"; a indGtria de produtos alimentícios e de bebidas, cerca de7,8o/"; a de

DOS INVESTIMENTOS PRIVADOS papel e cel ose, aproximadamente 13%; a de química, cerca de 16,7o/o: a têx'
r.r.l

til,4,6% e a eletrônica e de material de comunicações, cerca de 3%; ou seja,


As inÍormações disporuveis sobre os investimentos futuros não Per- esse conjunto de segmentos produtivos comPreendem quase 89% do total
mitem mais que esboçar algumas tendências referentes à íutuJa distribui- dos investimentos aqú considerados.
ção espâ€ial da atividade no País, Levantamento que vcm sendo realizâdo Quando se examina a localDação regional preferencial desses diver-
pêlo Minlstérlo da hdústria, Comércio e Turismo sobre as intençôes de sos segmentos da indústria, percebe-se que há, sem dúvida, uma divisão
investimentos indu-srriais, pÍevalenremente da iniciativa privada, não des- espacial de babalho que induz os investimentos do grupo metal-mecânica,
carta o caráter espacialmente seletivo dos investimentos irdushia-is anun- automobilística e química, os segmentos básicos da chamada indústria
ciados. Esses hvestimentos tendem a privilegiar alBuns espaços específi- pesada, para o Sudeste e, simultaneamente, possibilita a indúshia de mine-
cos nas diversas Íegiôcs, tornando-as extremamenle heteroSêncas, na rais não-metálicos, geralmcnte de um padrão de lo,calizaçio nrais descon-
medida em que não se diÍundem pelo resto dos espaços regionais. centrado, e a indus fria têxtil, produtos alimentares e bebidas, e papel e celu-
Em termos macrorregionais, os dados do Ministério da lndústria, lose, além da indústria elelro-eletrônica e material de comunicaçoes, por
Comércio e Tulismo, antes reíeridos, revelam que dos 73,4 bilhões de clóla- razões muito especíÍicas (Zona Franca de Manaus), para as demais regiôes.
No entanto, o que se deve ressaltar é que a divisão do território bra-
res dos investimentos a se realizarem até o ano 2000
regionalizados
- que podem ser
cerca de 64,3% deverão concenkâr-se no Sudeste (sendo sileiro em macrorre giões esconde mais do ue revela o fato de ue há, da
-,
28,2olo em São Paulo), 17,6% no Nordeste e 9,4% no Sul. Embora com repre- rte do ra ves tmen ()ln ustr ta uma randc se cti vidadc cs
sentatividade menor, na regiào Norte deve scr investido o equivalente a cial, notadamente uando orientado ara as demais re ões, ue não o
7,5% do total previsto para o País. No Centro-Oeste, seÍiam investidos nâo u c.s_ te esle particular, ressalla-se a presença, no or cste, o sta o a
mais que 1,2% do total (ver Anexo l, p. 90). Bahia, em grande parte dos segmentos; no Norte, o Estado do Amazonas,
Dois aspectos chamam a atenção quando se desce ao exame porme- quando se trata dos segmentos eletroeletrônico e de material de cornunica-
norizado dos investimentos segundo sua localização por unidade da ção, e o Estado do Pará no tocante à metalúrgica básica; e no c.rso da região
Federação e por segmentos produtivos do setor industrial. No que se refere Sul, o Rio Grande do Sul, no que se reíere à qúnica, e o Paraná, quando se
ao primeiro aspecto, quanto se corrsidera, por exemplo, um patamar mlni- trata da irdústria de produtos alimentíciob e bebidas.
mo de 10o/o da participação d ta o5 no rnves timento total, observa-se A tendência parece ser, com base dos do Ministério da
que as intenções de investimentos se concentram em basicamente três uni- Indústria, Comérció e furismo, de um lado, o avan ço, no futuro ilnediilto,
dades da Federação: São Paulo (28,2%), Rio de Janeiro (19,3%) e Minas na consoli da o dos se mentos básicos e esha icos no Sudeste, com-[úa Á
Gerais (14%), todos no Sudeste, que, somados, abrangem mais de 60% dos o rova mente maior do Rio de anelIo/ e um lado. De outro
investimentos previstos para a irdústria até o ano 2000. Reduzindo mais o lado, a consolidação de es pecial tzaçoes em ou s os que, em a Íora
patamar mftrimo coruiderado na participação nos invesliDrentos, o que se da re rao ln us gulram/ a rav e atores os mals
obserya é o surgimento de oubas macrorregiões, que se fazem representar diÍerentes (recursos naturais, ortes rncen rvos reglonals, con o es de
por um número muito reduzido de ruridades Íederadas. Considerando-se o inÍra-estsui uJa a llair s tos es tcos ue mem s reas dinâmi-
patamar de 4%, destacam-se, na Região Norte, o Estado do Pará (4,2'/.); no cas e elnas em contexto s nos quais prevalecem, ain a, subáreas tra l-
Nordeste, a Bahia (9,4olo) e na Região Sul, o tuo Crande do Sul (4,6%). Esses cionais e estagna das. Vale o re tistro, neste particular, para a quase ausência
Estados, somados ao Paraná, com 3,2% dos investimentos, deverio concen- da reg lao en tro-Oeste na previsão dos investimentos industriais para o
har cerca de 83%, aproximadamente, do total dos investimentos previstos futuro imediato. O destaque para sua participação Íica no tocante à indus-
(ver Anexo 2, p. 91), tria de produtos alimentícios e bebidas, concentrada em Goiás.
Quaado se observa o peso dos segmentos produtivos mais importan- kvantamento semelhante, realizado pelo BNDES, chega a números
tes destacam-se os seguintes percentuais: no total dos investimentos previt e condusôes semelhantes aos que se encontram com os dados do MICT.
tos, a indústria de fabricação e montagem de veÍculos automotores, rebo- Com dados que vêem até o primeiro semestre de 1997 o BNDES estima
ques e carroceÍias participa com 11,87o; a de extração mineral com 15,4%; a estarem em curso ou anunciados investimentos que até o ano 2000 chegam
de metalúrgica básica com 12,9%; a indúslria dc n'rinerais não-me1illjc-os i a valores próximos a US$ 100 biihôes, Desse tolal, São Paulo sozinho caçr-
i 't'
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82 RE DESCOBRINDO O BRASIL I NTECR AÇÃO ECONOMIC 83


^
ta 30,770 e o restante do Sudcste atrai outros 30%, Para a região Sul se diri- INSERÇÃO PASSIVA NA GLOBALIZAÇÀO
gem 19olo, percentual que. somado âo total do Sudeste, chega aos 807o. En- E DINÂMICA REGIONAL PROVÁVEL
quanto isso, o Nordeste atrai aPenas 12% (3,5% na Bahia), o Norte fica com
quase 67o e o Centro-Oeste com aPenas 3%. As tendências acima identificadas para a década de noventa refletem
Por sua vez, recursos aprovados Pelo Próprio BNDES para i-nvesti- de um lado a lógica do meÍcado, e de outro as opções Principais do pouco
mentos nos próximos anos também indicam concentração no Sul e de políticas públicas de médio PÍazo que conseguem ser identiÍicadas (vis-
Sudêgte. Os recüsos aprovados mostram ántca de Inals nadà uma tendên- to que o esforço principal dos diversos governos de 1990 para cá se conccn-
cia ao crescimento gradativo dos valores a aplicar, com exceção de 1993. trou no combate à inÍlação, na redefinição do ambiente macroeconômico e
De fato, as aprovações passam de 3,8 bilhões de dólares em 7997, para 4,8 na reforma do Estado).
bilhões no ano seguinte, caindo para 3,7 bilhões em 1993, passando, em Os dados das tendências de investimentos are onde nos
següda, para 5,9 bilhões. Desde 1995 os lecursos aprovados já se situam levam as ten nclas o merca o. um contexto de lobaliza çã o intensa e
em torno dos US$ 10 bilhôes de dólares. de reestruturação ro utiva a nada erar u
Nesta tendência ascendente do total das aprovações, o Nordeste e o "atores bais" usquem no Brasil os es ços ue Ihes interessam "focos" I(
Norte perdem posição relativa, embora no caso do NoÍdeste sua participa- definidos nos Plan os a ot
ção no total airda continue, na maio! parte dos anos, similar ou um pouco mismo desses "Íocos com etitivos" existentes nas diversas r ões, embora
meior que sua participação na geração do produto interno do PaÍs. malS or men te concentrados este e do Sul do País. E
A participação da Região Norte que era, em 1991, de aproximada- ten e também a am liar a SI niJicativa diferenci intra-re ional, her-
mente 7olo, passa para 21o, em 1995. O Nordeste, de uma participação de dada da ase mais recente da vida nacional. Levada ao extremo, lende a
24% no primeiro ano da série, cai para l5% em 1995. Já a participação do Íra ntar um continenta lehe o como o Brasil, to ue aos
CentÍo-Ocste é crcsccnte, embora com oscilaçôes muito grandes:4ol" em a tes rivados não c.rbc sar nos demais es s:osn ctitivos
7997,20% em 1,992,71,ok em 7993 e "16o/o e 81o em, respectivamente, 1994 e ou os que estão o submetidos a intensos .p-rqçesso§_dçl§9*Mlylg.ç-qor!

1995 (BNDES, 1996). eles existem no Brasil, abr ndo muitos dos brasileiros
O Sudeste, embora registre um percentual na particjpação dos recuÍ- Cabe, portanto, ao Estado naciona a tareÍa de assegrrrar uma dinâmi-
sos aprovados menor do que a sua participação na economia nacional, ca regional mais harmônica, menos seletiva, intcgÍadora ao invés dc Írag-
mentadora do País. É assim qLle se passa em outros países c a té em Blocos dc
f\t i,r
mostra uma tendência ascendente entre 1991 e 1995, que se torna bem mais
Mercado em Íormação, como a União Européia (UE), onde uma Política
patente quando são considerados os valores absolutos dos recursos apro-
ReBional explícita e com instrumentos especíÍicos trata da intcgração dc
vados. O mesmo ocorre com o Sul, com a particularidade de que esta
áreas ou setores menos dinâmicos ou da reestruturação de regiõcs inteiras.
Íegião registra, em todo período, um percentual bem maior do que a sua
E no Brasil, como isso se passa? Observe-se, então, a política de
con[ibúção na geração do produto interno do País.
investimentos comandada pelo Coverno Federal, expressa no programa

tanto
A reconcenEação estaria, assim, beneficiando, sobrehrdo, a Região Sul,
pelo aurnento da sua participação relativa como pelo Íato de regisbar
"Brasil em Ação" ', Itlntlt
Para o que interessa ncsse trabalho, tomcm-se o s prejetos ae inír.r- Nt
um percentual bem maior do que seu peso relativo na economia nacional. .economlcas lnler- !,irrv,htt
estrutura que têm capacidade de deÍinir.lrticulaçõ
Em resumo, os indicadores soble os investimentos industriais reva- regionais ou internacionais, e, portanto, são capa z e inÍluir na organiza-
ü
lentemente rivados su erem, se nãó uma nÍtida reconcen tração das ativi- + (N(t I iíx
ção territorial do Brasil, em tempos de gl obali o, Os demais sào projetos
dades econ micas no Sudes elo menos uma rande s etivi a e clos importantes, mas de impacto ritos a uma ou outra reSião do Nf
às
lnv n no es a onal brasileiro, com as atividades mais estra- País (a exemplo da conclusão d impacto no Nordeste). Por sua
cas e ue definem a dinâmica da ecônomia na clona concentrândo-se elagem territorial do BrasiJ, fica de fu+nr.urnkti
no Sudeste e os demais men sdain ded Y.:!8'^ nde importância pa
, 1.r,1,)ralr'1
/lora dêsse análise o Programa de Desenvolvimento das telecomunicações
capital marcando presença em altuns estados específicos Íora da r s (PAsrgtb or não ler sido apresentado com o detalhe da localização regional
i, '"
l-l t
maÉ induskiá tza ll4,Seus lnv estimentos (orçados em l($ 16 bilhõcs para o biênio) c o Programa 'tt .t

de Ilecuperaçio dc Rodovias, tambóm scm localizaqão clivulgaciir


;
-i
84 REDESCOBRIN DO O BRASI L INTEGR AÇÃO ECONÔMICA 85

A análise dos projetos prioritários de irúra-estrutura econômica do humanos qualiÍicados, Locais bem-dotados desses akibutos são preferidos
Governo Femando Heüique, estratéticos para a futura organizaçã o terri- para aEair investimentos.
torial do Brasil, revela al Sumas cáÍac as Cabe desde logo destacar que o dispêndio em C&T realizado no Brasil
Portantes
nos anos 90 continua müto baüo (0,7% do PIB), quando comparado aos paÍ-
. têm uma opção prioritária clara pela integração dos espaços dinâ- ses do G7 e a al8urs "bgres" que despendem entre 2 e 3% de seus PIB'S para
r$\ micos do Brasil ao mercado externo, em especial ao Mercosul e ao promover o desenvolvimento cientíJico e tecnológico.
\\\ \\\ restante dâ Américá do Sul, consis(ente com a opção brasilelra de Das 158 instituições de pesquisa câdastradas pelo CNPq,81% eram
promover a integraçdo competitíla. Essa orientação estratégica de natueza pública. E metade se localiza numa única região: o Sudeste. O
secuÍrdariza a integração interna; Nordeste alriga 20% das iÍrstitu.ições cadaskadas (sendo que metade delas
. prioriza dotar de acessibilidade os "focos dirlâmicos,, do Brasil estão em dois Estados: Pemambuco e Bahia). Como se vê é histórica a con-
\ (agrícolas, agÍoinduskiais, agropecuários ou industriais), deixan- centração espacial dos Centro Produtores de Conhecimento no paÍs
do em segundo plano as áreas nlcnos d inâmicas, ou os tÍadicionais (IPEA/ DPRU/CCPR,/Nora Tócnica, 1996).
investimenlos "autônomos", onde o Estado patrocina inÍra- O último levantamento efetuado pelo CNPq registrava 7 mil grupos
estluturas que potencializam dinamismo econômico futuro. Na de pesquisa ativos no País, no primeiro semestre de 1995, fortemente con-
opção atual, o Estado segue o mercado, enquanto com os irvesti- centrados no Sudeste (69ol.) e especialmente em São paulo (40,7% do total
mentos "autônomos" se antecipa a ele. Na opção do,,Brasil em nacional). Considerando@ FoZ uçã) desses grupos, no biênio 1993-94,
Ação", o Coverno busca ampliar a competitividade de espaços que constata-se uma dishibuiç:o-estraíãl aiÍrda màis concentrada no Sudeste
já são competiüvosi que a distribuição dos Grupos de Pesquisa. Â região responde por g55o/o
. concenka os investirnentos no Sul-Sudeste, na fronteLa Noroeste, e dos artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiÍos por pesqui-
em pontos dinâmicos do Nordeste e Norte, se guindo os espaços que sadores do Brasil. A distribüção espacial dos produtos e processos tecnG.
vôm concênhando maior dinarnismo hos o nos rêcentes lógicos desenvolvidos revela, mais üma vez, uma forte concenlração no
Sudeste (com destaque para fuo deJaneiro e São Paulo). por sua vez, a dis-
Mais recentemente, o Governo Federal anunciou a irtenção de deta- tribuição das patentes outortadas para produtos gerados por Grupos de
lhar conhecimento e propor intervenções prioritárias prr" 12 ,,Eiro. Pesquisa no Brasil mostra que, à exceção de pE e DF, neúuma outia Uni-
Nacionais de Integração e Desenvolvimento,.. Embora apresentando avan_ dade da Federação fora do Sudeste e Sul conseguiu tal intento.
,.\ ços em relação às caracleÍísticas locacionais dos projetos do ,,Brasil em Finalmente, em termos [inanceiros, dados Íornecidos pelo CNpq
Açâo", a preocupação ainda está excessil,amente centrada na inserçào para 1994 (último disporuvel) revelam qlre a alocação regional dos gastos
externa do País. em C&T confirm.i que a União tcndc a íortalcccr os mais Íortes, tiimbónr
,,Eixos,, nesse campo, ao concentrar seus Íinanciamentos na base científica e tecn(F
\_+ _ Por sua vez, a abordagem a partir de seria adequada se o
único objetivo das polÍticas públicas do Brasil fosse o de ampliai a compe_ lógica instalada no Sudeste brasileiro (62,1, do total, contra apenas 9,/" no
titividade de áreas di_nâmicas em função de seu atual potencial exportaàor Nordeste, dos quais 1/3 só em Pernambuco).
(Eliezer Batista, por exemplo, tem essa preocupação, e trabalha com a Ora, o papel esperado do Estado, é o de contrabalançar com sua re-
P
noção de Eixos Estratégicos de forma adequada), O alcance desse objetivo sen a a va au a nva os. E não concen rar-se
requer determinados investimentos (sobretudo em inÍra-estrutura que onde o e rivado refere se localizar, onde o dinamismo
amplie a acessibilidade) e pode permitt certas articulações com outias la ló ica do mercado á é mais intenso, onde os novos fatores de com
áreas do paG. Mas essa é uma abordagem muito reskita para dar conta da tiúvidade ásãoa u antes, A pação que daÍ d erlva e so o des-
compleidade regional brasileira e dos mriltiplos objeúvàs a serem perse. tino das chamadas áreas " não-compe vas o ordeste, muitas dela
guidos, como se tentará mostrar adiante. a m icativo con ente como o rân es
árido não eldea focos de a tura i ou
Outro investimento i8ualmente estratégico, Íace ao novo paradigma
área total dessa su aon
tecnológico e produtivo e face às novas condiçôes de concorrãncia ium
mercado mundial em globalização, sâo os realizados na geração e difusão Como ficou claro das análises apresentadas até aqui, no Brasil dos
anos recentes, já no novo contexto de abertura, predomínio da integração
de conhecimentos científicos e tecnológicos e na Íormição dc recursos
tu(o! ,L rur,,r ii,!,1,1,,{., I '(íi'qi
u
rit- (ui/i','n\ia)
r! , tu it,-o, Í, f, f1 r-ál
* tr. (-t ffilrt,r 1 REDESCoBRINDo o BRASIL INTEGRAçÀO ECONÔMICA 87

competitiva e estabilização, parece se conÍirmar uma tendência a interrom-


O BRASIL RUMA À DESINTEGRAÇÂo CoMPETITIVA
per a desconcenkação espacial do crescimento que ocorria nos anos 70 e
OU HÁ ALTERNATIVAS?
80, quando a análise é feita na escala macrorregional. Essa intelrupção
vem sendo comandada pelo mercado e referendada pelas políticas públi-
O Íuturo parece apontarpara o aprofurdamento da heterogeneidade
cas federais, de corte nacional/setorial, Em termos regionais, o que sobre-
herdada do passado recente, Tenderão a se ampliar as diÍerenciaçÕes den-
vive são instrumentos e políticas herdadas do passado, com reduzida
ko das macrorregiões. E a hegemonia atual da preocupação governamen-
capacidade de impactar as realidades regionais e contrapor-se às novas
lal com a integraúo competitiua do País no mundo em globalDação coloca
forças que tendem a se consolidar.
em evidência apenas as chamadas áreas compefidvas do Brasil. Elas exis-
A ausência depolíticas regionais explícitas do Govemo Federal abriu
tem, são até nrmerosas, mas não representam nem de longe â maior paÍte
espaço à deflagração de uma "guerra fiscal" entre Estados e Municípios
dos espaços significativamente já ocupados demográfica e economicamen-
que buscam conkibuir para consolidar algrms "focos de dinamismo,, em
te. Concentlar excessivamente os esÍorços nesses ,,focos competitivos,,
suas áreas de atuação. A combinação desses dois fatos, vai deixando gran-
des áreas do país à margem: sâo os ditos "espaços não{ompetitivos".
pode ser o caminho da "desirtegração competitiva,,. E esse não é o rjnjco
Por sua vez, as tendências prováveis dos investimentos sugerem camirüo possível.
que, após a fase de desconcentração modesta, poderá ocoírer l.rlÍr processo É possível identiÍicar, internacionalmente, exem plos contemporâ-
de concentração espacial do dinamismo econômico em algumas sub- eos de inserção menos passiva que a que o Brasil v em conduzindo nos
regióes (focos dinâmicos) do País, no futuro imediato. 'á| anos noventa, com txna presença de políticas públicas mais agressivas e .,{,\i'r\
A conclusão preocupante que emerge das observaçôes e análises abrangentes, lnd usive políticas regionais explÍcitas e ab-rangerltes,. - - - - . -
A primeira providênciglzaraqcgra* à.'desin ti,-gração comperi tiva,,
aqui apresentadas é a de que, muito provavelmente, a inserção do Brasil na .§., seria adotar uma ação mai{proativa,inais negociadora, mais coordcnado-
economia mundial globalizada tende a ser amplâmente diferenciada,
ra, mais presente , do Estadà'nacionall A adoção de uma política Nacional .tj''
segr,rndo os diversos subespaços econômicos desse amplo e hctcrogênco
de Desenvolvimento Regional, montada em bases contem porâneas
País. Essa diíerenciaçào tende a aljmentar a ampliação de históricas À pro- é, nes- ,,
fundas desigualdades. Não se lepetirão, certamente, as formas pelas quais se sentido, firndamental. Um marco reÍerencial inicial e possÍvel fez parte
se materializaram essas desigualdades ao longo do seculo XX, mas prova_ de comunicação apresentada no recente Encontro Nac ional da
ANPUR
velmente se obseryará o aumento da heterogeneidade no interiôr das (ver Araújo. Tânia Bacelar, "Dinâmica Regional Brasileira:
rumo à desinre_
macrorregiões. Essa é uma forte fendência, pois, como supõe pacheco, o graçào competitiva?", in Anais do Encontro da ANpUR, 1997).
próp o estilo de crescimento da economia mundial é profundamente assi- O Brasil, além de "sub-regióes dinâmicas e competitivas, tem muitas
mélrico (Pacheco, 1996) e aos atores globais interessam apenas os espaços ouhas, sendo possível identificar, em cada uma das macrorregiões, pelos
competitivos do Brasil. Espaços identificados a partir de seus interesses menos alguns oukos tipos, como: sub-rcgiões en processo d.e reíst*u)açno,
p vados e não dos interesses do Brasil. sub-regiões cstagudas, ou sub-regiõcs e áreas dc pote ciol pouco utilízado.
Face ao ex posto até a qui, parece claro que as tendências atuais atuam A abordagem proposta pelo Govemo Federal (SEpLAN/BNDES),
no sentido dea ro LIJ'I AI AS iferenciações reglonais através do mapeamento do Brasil em 12 grandes Eixos, e a ênfase
em
e[r tar o Brasil, oos investimentos em acessibilidade são incapazes de dar resposta à
taca e com ti e de dina- diÍeren_
mismo" do res o o ciação regional brasileira. E não permitem alcançar outros objetivos,
omla bal a u da que
do o e o tratamento secundário concedido ao ob não o da inserção externa. E há pelo menos alguns outros objetivos impor_
vo da inte-
gr nos tem osa Iizam nessa tantes, como:
A inserçõ.o sele tiun promovida pelas novas tendências terá como con-
traface da mesma moeda, o abandono das,,áreas de exclusão,, (ditas não . acelerar o plocesso de reestruturação produtiva de áreas com
competitivas). Poderia estar sendo traçado, assim, o roteiro da fragmenta- bases produtivas com problemas de competitividade. Esse seria o
ção brasileira. E pelo quejá se observa no Nordeste, a região acompanhará
caso de áreas como a caravieira do Nordeste oriental, ou como a
a tendência geral. Isso num espaço onde a herança de desiguáldade é pecualista da fronteira do Rio Crande do Sul, entre outras. Isso
muíto grave. requer outro tipo de irtervençâo, de investimentos. E certamente a
deÍiniçào de novos setores a promover e novas articulaçôes econô-
REDESCOBRIN DO O BRASIL INTEGRAÇÃO ECONÔMICA 89 I
88

micas a estimu.lar (com ouEas áreas do PaÍs e com o mercado inter- BNDES (1997). "Cenários de Desenvolvimento Regional" Rio: BNDES.

nacional); BNDES / SEPLAN (1997). "Eixos Nacionais de lntegração e Desenvolvimento"


. reconvelter a base produtiva de áreas estagnadas. Esse é o caso da
(mimeo).
região cacaueira da Bahia, da enorme e PoPulosa Porção semi- BUARQUE, Sérgio.?t alii (1995). "Integração Fragmentada e CÍescimento da
Fronteira Norte". In: "Desigualdades Regionais e Desenvolvimento." FUN-
árida do Nordeste (que envolve áreas do Piaü ao norte de Minas
DAP,/ Ed. L,NESP: são Paulo.
Gerais), entre ouhas. Isso requer â introdução de mudanças Pro-
CAMPOLINA DINIZ, Clélio (1994). "A Dinâmica Regional Rcccntc da Economi,'r
fundas, pois implica cnconlrar oportunidades que pos6am ter urn
BÍaslleira e suas Perspectivas". IPEA: Brasília.
desenvolvimento sustentável nas atuais condiçôes da economia
mundial e nacional. Dependendo do que se pensalia promover, CAMPOLINA DINIZ Clélio & CROCCO, Marco Aurélio (1966). "Reestruturasão
novas articulaçóes econôrnicas (intemas e extemas) poderiam ser e(onômica e impacto legional: o novo mapa da indúshia brasileira".ln:Reulslll
Nooa EconoflíaruFMc. Belo Horizonte: v.6, n2 1, jd./96.
estimúadas;
L\ . ampüar a ocupação econômica de áreas de flonteira, ainda pouco CÁNO Wilson (1985). "Desequilíbrios regionais e concentIâção industrial no Brasil:
--\\ exploradas ou de áreas ainda praticamente iaexploradas do paÍs?
183G1970". Ed. Global,/ Ed. UNICAMP: São Paulo
CNI / DEPÂRTAMENTO ECONÔMICO (1.996'1. Econonia Brasileiro
\ Novos desafios especÍicos e inter-lelaçôes intelnas e externas a
RegroÍrls. Rio deJaneiro: CNI, n? 2.
- Conparrçôcs
Promover;
. ampliar o Programa de ReÍorma Agrária, em áreas do paÍs mais
CUIMARÃES NETO, Leonardo (1989). "Inkodução à Formação Econômica do

-\§
Nordeste". ReciÍe: Ed. Massangana.
propÍcias a ações massivas desse tipo. Os investimentos, açÕes e
(1995). "Desigualdades Regionais e Federalismo". In: AFFONSO, R. B. &
instrumentos são também especiais.
SILVA, P. L. B. (orgs.). Desígualdades Regionois e Desentolui,,leíto. São paulo:

(l\ Os Eixos mis luÍam sihrações diversas e criam espaços "homogêneos"


artúiciais (como o chamado Eixo Trarsnordestino, ou o da Franja CosteiÍa
- FUNDAP /Ed. UNESP, pp. 1!59.
Dinâmiu Rpgionol Brusileia. Relató o Preliminar. Brasília: IPEA.
HADDAD, Paulo R. (1988). A Questào R$ional no Brnsil do Sécrlo XXI: a lonll r rccnl
lFronteira Gaúcha e Paranaense] para citar apenas dois exemplos. Fica, por-
i tanto, claro que não está súicientemente discutida uma nova proposta de -(7997).
citrante persistência dos desequilíbrios de dcsenooloifiefito no espaço econôntico.
Campinas: Seminário Brasil Seculo XXI (mimeo),
regionalização do país, embora seja importantíssimo fazer essa discussão.
(1996). "PaÍa onde vão os investimentos?". lÍ:l: CozeÍa Mercantil,16-18 de
As macrorregiões são cada vez mais heferogêneas, e o "corte" espacial
Íevereiro/1996, São Paulo.
a esse rúvel cada vez menos auxilia a tomada de decisões consistentes de
polítjcas de desenvolvimento. Os Eixos, agora deÍinidos, têm problemas
-IPEA (1996 a). Ptodrto lnterfio Brúto pot Unidadc dd F.d.raçiio. Autores: SILVA,
Antônio Braz de Oliveira el alii. IPEA: Brasília (Texto para Discussão n9 424).
como os que aqü foram levantados. Mas têm urn mérito. Tenta-se revjsitar (1996 b). Nola Téctlica sohre Gestão en C & T (mimeo).
a dinâmica econômica regional contemporânea do Brasil. E escolher áreas
OLIVEIRÁ, Francisco de (1990). "A Metamoríose da Arribaçào
de intervenção diferenciada. É preciso debatê-los na Academia e nos - tundo público e
ambientes empresariajs e políticos. Para que se pense na integração naciG
- regulação autoÍiÉria Íú expansão econômica do Nordeste". Ln: Nooos Eslados.
CEBRAP, n?27.
nal, possível de conciüar com a iruerção competiüva do Brasil no mundoem OMAN, C. (1994). "Globalizaçâo/regionalização: o desafro para os países em
globaüzação. Para que não se consolide a "desintegração competitiva" que desenvolvimento". Int Reoista Brasileira de Comércío Exte ot,n? 39, aú./jua.
integra apenas "partes" do Brasil. PACHECq Carlos Âmérico (1996). "Desconcentração Econômica e Fragmentaçào
da Economia Nacional". lfi Reuisla Economia e Sociednde. Campinas: UNI-
CAMP, n:6, pp. 11340, jun.
BIBLIOGRAFIA

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AFFONSO, R.B; SILVA, P.L.B, oÍgs. DcsEualdades Regionais e Dcsenooloimento
(Federalismo no Brasil). FUNDAP / Ed. UNESP:Sâo Paulo, pp. 125-56.
(1997 ). " Di^àmica Regional BrasileiÍa: rumo à desintegração competiliva?"
In Anais do Encontro Nacionalda ANPUR, Recife: ANPUR.

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