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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Segredo de Uma Paixão


(Hidden Love)
Carole Mortimer
Sabrina Nº 290

De repente, o pacato
mundo de Rachel des-
moronou. Como num
pesadelo, viu-se forçada a
casar com o famoso
tenista Mike St. Clare,
homem extremamente fascinante, mas
que não passava de um estranho para ela.
O que levou Rachel a aceitar um
casamento absurdo e sem amor? Não
poderia ser feliz ao lado de um marido
arrogante e cruel que, além de não
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

esconder que não a amava, não estava


disposto a esquecer suas antigas aven-
turas amorosas. Rachel e Mike só se
entendiam bem quando faziam amor,
mas isso não era suficiente. A felicidade é
bem mais do que simples satisfação dos
sentidos. Rachel, porém, só percebeu
tarde demais...

Digitalização: Ale M.
Revisão: Analice Fernandes

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO I

Danny roçava sensualmente os lábios


no pescoço de Rachel, mas a moça não
parecia muito disposta a retribuir-lhe os
carinhos. Pelo menos não num parque
cheio de gente, para onde tinham ido com
uma cesta de sanduíches e uma garrafa
de suco de frutas. Nada como um
piquenique no meio da semana para
quebrar a monotonia dos já familiares
almoços na Universidade. E nada como
aquele gramado verde, macio, que
convidava à descontração total.
Mas Danny começava a passar dos
limites e Rachel não conseguia mais
controlar o nervosismo para com aquela
atitude do namorado. E logo em público!
— Vamos, querida, relaxe.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

A voz rouca, quente, soava como um


apelo quase desesperado.
— Danny! Quer parar com isso?
Rachel levantou-se, irritada. Danny
também ficou em pé.
— E você quer deixar de ser tão
puritana? Eu só estava lhe dando uns
beijinhos!
— Eu sei, mas é que... olhe lá, Danny! —
Rachel franziu a testa e apontou com
preocupação para o outro lado do
parque. — Você está vendo aquela moça
ali? Ela parece estar passando mal!
— Ora, Rachel, aquela moça está
grávida! Deve estar com um pouco de
enjôo ou algo parecido. Minha irmã já
passou por isso.
— Não sei não.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ei, Rachel, quer fazer o favor de se


concentrar em mim e não numa moça
grávida tomando sol num parque?
E recomeçou a beijá-la. Deitaram-se na
grama e, enquanto acariciava os cabelos
de Danny, Rachel pensava que todas as
suas colegas da Universidade gostariam
de estar em seu lugar. Danny era o rapaz
do momento. O mais paquerado. Tinha
cabelos escuros, olhos cor de avelã e um
sorriso encantador. Usava sempre velhos
jeans desbotados, que lhe davam um ar
displicente. Muitas garotas dariam tudo
para sair com ele e morriam de inveja por
Rachel ter sido a escolhida.
Mas, nesse momento, ela não conseguia
lhe dar a mínima atenção. Seus
pensamentos estavam voltados para
aquela moça pálida, sentada a poucos
metros dali. Não teria mais que 25 anos e
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

estava em adiantado estado de gravidez.


Seu olhar era desesperador. Será que
estava prestes a dar à luz?
Danny levantou a cabeça com
impaciência.
— Rachel, que está acontecendo? Você
parece estar com a cabeça na lua!
— Oh, Danny, sinto muito, mas acontece
que estou preocupada com aquela moça.
Ela deve estar muito mal.
Rachel levantou-se, tirando a grama que
havia em seus jeans. Era uma jovem
bonita, atraente. Seus cabelos negros,
longos, combinavam com doces olhos
cinzentos recobertos por fartos cílios
escuros. Tinha um nariz pequeno,
arrebitado, e havia sempre um sorriso
em seus lábios. Não era alta e seu corpo
sem curvas fazia lembrar a figura de um

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

garoto. Aparentava ter menos que seus


18 anos.
Danny também se levantou e, dessa vez,
ficou aborrecido.
— Ora, Rachel ela deve ter andado
muito e com certeza está cansada. É só
descansar um pouco e logo estará
melhor.
Rachel não se convenceu.
— Espere só um minutinho. Vou ver se
ela precisa de alguma coisa. Ia sair
quando Danny a segurou pela mão.
— Já está na hora de voltarmos, querida.
— Mas... E a moça?
— Ora, Rachel, ela deve estar esperando
o marido!
— E se não estiver? E se estiver
precisando de ajuda? Danny largou-lhe a
mão, aborrecido.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, eu é que não vou perder o meu


tempo. Minha aula vai começar em dez
minutos.
Rachel lançou-lhe um olhar desafiador.
— E desde quando você se preocupa em
chegar cedo às aulas? Aquilo pareceu
embaraçá-lo.
— Não me preocupo mesmo, você sabe
muito bem.
— Então não vai morrer se esperar mais
dois minutos, não é?
— Vá logo, então. Mas não demore!
Pobre Danny! Ele se considerava o dom-
juan da Universidade e agia de acordo
com a imagem que fazia de si próprio.
Mas, quando esquecia de bancar o
machão, até que era boa companhia. Às
vezes no entanto, conseguia ser bastante
desagradável.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel pensava nisso enquanto se


aproximava da moça que, muito pálida,
tinha a respiração irregular e ofegante.
— Olá. Você precisa de alguma coisa?
A moça olhou para Rachel e lágrimas
apareceram em seus olhos. E falou com
um forte sotaque norte-americano:
— Graças a Deus alguém veio falar
comigo! Será que pode me ajudar? Rachel
sentou-se ao lado dela e apertou-lhe a
mão.
— É claro que sim. O bebê está para
nascer?
— Sim, eu... eu acho que ele vai nascer
logo. As dores começaram há uma hora.
Dores tão fortes.
— Será que já está na hora de ir para a
maternidade?

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— Acho que sim. Estou tentando sair


daqui e tomar um táxi, mas parece que
ninguém quer me ajudar.
Rachel apertou-lhe a mão para
tranqüilizá-la. Sabia o que ela deveria
estar sentindo. Certa vez, vira um homem
caído no meio da rua e ninguém para
socorrê-lo. Não que as pessoas fossem
más ou insensíveis. Elas apenas não
queriam se envolver. Assim como Danny.
— Vou ajudar você — prometeu. —
Chamarei um táxi e...
— Então vai mesmo me ajudar? — a
pobre moça parecia incrédula.
— Claro que sim! Quer que eu avise
alguém?
— Chame Mike. Ele virá. Eu... Ai, meu
Deus! — murmurou apertando os dedos
de Rachel com força.
— Você teve outra contração?
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Tive. sim. Elas estão vindo


regularmente, agora. Acho que o bebê
não vai demorar...
Rachel não era nenhuma especialista no
assunto, mas teve a mesma impressão.
— Olhe, há uma cabine telefônica ali
adiante. Vou chamar uma ambulância.
Mike também.
— Não, chame só a ambulância — disse
a moça, tirando um pedaço de papel da
bolsa. — Olhe, aqui está o telefone de
uma clínica particular. Meu nome é Kay
Lennon. Depois avisaremos Mike.
— Fique tranqüila. Vou ligar já para a
clínica.
— Rachel!
Danny, cansado de esperar, aproximou-
se dela.
— Nós precisamos voltar!

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela mordeu o lábio, nervosa, sabendo


que ele não ficaria nada satisfeito com o
que pretendia fazer.
— A Sra. Lennon vai ter um bebê,
Danny.
— Dá para perceber.
Rachel balançou a cabeça e levantou-se.
— Eu quero dizer que a Sra. Lennon vai
ter um bebê agora! Vou chamar uma
ambulância.
— Ótimo, minha boa samaritana. Mas
não conte comigo.
— Problema seu. Eu é que não vou ficar
indiferente.
— Bem, se é isso o que quer, vire-se. Eu
tenho uma aula agora. Procure-me
quando terminar de bancar a babá.
— Danny! — ela tentou alcançá-lo,
puxando-lhe o braço para que parasse. E
pediu, quase suplicando: — Talvez você
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

possa fazer companhia à Sra. Lennon


enquanto eu telefono.
— Não, não posso. Ei, por acaso ficou
louca? Primeiro é só um telefonema. No
final, ela vai acabar pedindo para você
acompanhá-la até a maternidade. Ora,
não tem cabimento!
— Ela não vai pedir, Danny — disse
Rachel, largando-lhe o braço. E
acrescentou, decidida: — Não vai pedir
porque vou me oferecer!
— Então faça tudo sozinha. Você está
sempre se metendo na vida dos outros,
hein? Por que não deixa esta moça se
arranjar sozinha?
Os olhos dela brilharam de indignação.
— E deixar que o bebê nasça na grama
do parque?
— Mas quem disse que o bebê vai
nascer agora?
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Vai, sim! Bem, tenho que telefonar já


para a maternidade. Pode ir, Danny.
— Mas Rachel...
Ela estava desapontada. Havia acabado
de constatar que o namorado era mais
uma entre as muitas pessoas que não se
importam com as outras.
— Eu disse até logo, Danny! — E dessa
vez virou-se e foi embora.
Danny voltou para a Universidade e
Rachel duvidou que aquele namoro
pudesse continuar. Talvez fosse mesmo
melhor acabar com tudo. Ela não tolerava
pessoas insensíveis.
Encaminhou-se rapidamente para o
telefone e comunicou-se com a clínica.
Indicou onde estavam e pediu uma
ambulância com urgência. Depois voltou
para perto da moça.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Fique tranqüila. Já liguei e a


ambulância vai chegar logo.
Kay Lennon pareceu aliviada.
— Muito obrigada. Você é tão boa...
Sabe, o nascimento estava previsto para
daqui a três semanas e por isso achei que
poderia sair para fazer algumas
compras... Mike vai ficar bravo quando
souber o que aconteceu.
Rachel imaginou como aquele homem
deveria ser tolo. Ficar bravo só porque o
bebê decidira chegar um pouco antes do
tempo previsto.
— Fique sossegada. Tenho certeza de
que ele vai compreender.
— Você fala assim porque não conhece
Mike.
Rachel pensou que não fazia mesmo
muita questão de conhecê-lo. Kay parecia
preocupada demais com a opinião do
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

marido, o que provava que ele devia ser


um homem arrogante e autoritário.
— Fique tranqüila. Assim que
chegarmos à clínica telefonarei a Mike. E
sei que, no momento que vir o bebê, ele
vai se esquecer de ficar bravo.
— Duvido. Hoje de manhã, antes de sair
de casa, ele me recomendou ter muito
cuidado.
Rachel não simpatizou com aquele tal
de Mike Lennon mesmo sem conhecê-lo.
A ambulância chegou depressa. Kay
Lennon logo dava entrada na sala de
partos, enquanto Rachel se dirigia à sala
de espera.
Pouco depois um médico apareceu,
dizendo que o bebê nasceria em algumas
horas. Rachel já havia tentado localizar o
marido de Kay mas, como não o
encontrara, resolvera deixar o recado
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

gravado na secretária eletrônica. E


decidiu não deixar a maternidade até que
ele chegasse.
Havia várias revistas na sala de espera,
mas nenhuma a interessou. Os minutos
transformaram-se em horas e, de
repente, Rachel percebeu que já era
noite. Ainda não tinha recebido notícias
de Kay e Mike Lennon não dera o ar de
sua graça.
Tentou ligar novamente, mas tudo que
ouviu foi a secretária eletrônica repetir a
mensagem de sempre. Então pensou que,
daquele jeito, o bebê iria estar com um
ano quando o pai resolvesse aparecer.
Sentou-se, impaciente. E nesse
momento o médico voltou.
— Nada do Sr. Lennon?
— Nada.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, neste caso... Foi você quem


acompanhou a sra. Lennon, não foi?
— Sim. Algum problema?
— Acontece que o bebê só irá nascer
daqui a uma ou duas horas e a Sra.
Lennon não pára de perguntar pelo
marido. Será que você poderia falar um
pouquinho com ela, tranqüilizá-la, dizer
que ele já foi informado?
A idéia de entrar na sala de partos não a
deixou muito entusiasmada. Ela não
gostava de hospitais, como a maioria das
pessoas. Mas, mesmo assim,
compreendeu que já estava muito
envolvida naquele caso para recuar.
Decidiu ir em frente.
Kay estava tendo contrações
freqüentes. A camisola e a touquinha que
usava não eram nada atraentes. Rachel
passou alguns momentos ao lado dela,
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

assegurando-lhe que Mike deveria estar


a caminho. Mas, no fundo, duvidava que
ele aparecesse.
Saiu da sala de partos meio nauseada.
Aqueles momentos ao lado de Kay não
tinham sido fáceis. Logo depois, uma
enfermeira apareceu, trazendo uma
xícara de chá e um sanduíche.
Estava deliciando-se com o lanche
quando alguém abriu a porta e entrou.
Rachel olhou para o recém-chegado e
reprimiu um grito de espanto. À sua
frente estava um dos homens mais
bonitos e charmosos que já tinha visto!
Era loiro, tinha olhos azuis e sua pele
incrivelmente bronzeada dava-lhe um ar
saudável e viril. Estava vestido de preto e
tinha um corpo musculoso de quem
pratica esportes. Seu rosto era sério e

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

arrogante, mas os olhos tinham um


brilho quase infantil.
Por um momento aquele rosto pareceu
familiar a Rachel, que colocou o
sanduíche no prato enquanto o recém-
chegado aproximava-se. Devia ter uns 30
anos e seu andar era decidido, seguro.
Era o homem mais impressionante que
ela já tinha encontrado.
— É a Srta. James?
A voz grave e sensual a fez estremecer.
— Sim, sou eu.
Aquele homem não podia ser médico.
Médicos se vestiam de branco, não se
vestiam? E ele não parecia ter aquele ar
frio, profissional...
— Como vai, Srta. James? Recebi o seu
recado e aqui estou.
Rachel não conseguiu reprimir o
espanto. Mal podia acreditar no que via.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Meu Deus! O senhor é Mike?


— Sim, sou.
Ele sorriu e seu belo rosto se iluminou,
dando-lhe um ar de garoto. Mas o poder
e a segurança que emanavam dele
faziam-na duvidar de que algum dia
havia sido um menino. Parecia ter
nascido como era naquele momento:
poderoso e experiente.
Rachel sentiu-se confusa. Mike não era
exatamente o tipo de pessoa que estava
esperando. Não parecia ser o marido de
Kay. Ou melhor, não parecia ser o marido
de pessoa alguma!
Foi com surpresa que percebeu que ele
a olhava de um modo insinuante e
convidativo. Ficou revoltada com aquilo.
— Já era hora de o senhor ter aparecido,
não? Passei a tarde toda tentando
localizá-lo!
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

O ataque não pareceu atingi-lo.


— Só ligou duas vezes, senhorita.
— Liguei as duas e às cinco!
— Então não ligou a tarde inteira.
Rachel ficou vermelha.
— Isso não muda o fato de que liguei há
quatro horas!
— Eu não estava em casa.
— Que o senhor não estava é óbvio!
Ele pareceu se aborrecer. Seu rosto
endureceu e seu tom de voz elevou-se.
— Escute uma coisa, Srta. James: não lhe
devo nenhuma explicação!
— Eu sei. Mas deve todas as explicações
do mundo àquela pobre moça que está
tendo um bebê...
— O médico disse que tudo está
correndo bem.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Correto. Mas o senhor não acha que


ela estaria muito melhor se já estivesse a
seu lado?
A voz de Mike soou irônica quando ele
falou:
— A última coisa que Kay deseja é a
minha presença durante o parto. Ela não
me quer lá, tenho certeza.
— Não há nada de errado em ver uma
criança nascer. Eu acho muito bonito!
— Também acho. Agora, Srta. James,
faça o favor de me ouvir. Vim até aqui
para agradecer os cuidados que teve com
Kay e não para ouvir críticas. Estava
trabalhando, ouviu? E pare de me acusar
por não estar ao lado dela. Ela odiaria que
eu ficasse lá.
— Mas Kay ficou o tempo todo
chamando o seu nome!
— Verdade?
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Juro!
— Eu não vejo o porquê deste "juro",
Srta. James.
— Meu nome é Rachel. E é evidente que
ela chamou pelo senhor. Qualquer
mulher chamaria pelo marido numa hora
destas!
— Ah, então Kay chamou pelo marido!
— disse Mike com calma, e seu rosto
começou a se descontrair. — É claro, eu
sei que um marido seria importante
nesta hora... — ele sorriu e cruzou os
braços fortes e musculosos. As mangas da
camisa estavam arregaçadas, deixando à
mostra um lindo relógio de ouro. — Mas
veja você — acrescentou com ironia —,
eu não sou o marido de Kay.
Rachel engoliu em seco.
— Não é?

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mike balançou a cabeça, parecendo


divertir-se com aquela confusão. Rachel
ainda tentou argumentar:
— Mas Kay chamou pelo senhor!
— É mesmo? Não duvido.
Rachel então se lembrou de que não
tinha reparado se Kay Lennon usava ou
não aliança. No mais ela tinha chamado
por Mike, e isso significava que ele fosse
seu marido... Bem, se aqueles dois não
eram casados, na certa deveriam morar
juntos.
Mike a olhou de modo arrogante e
sorriu com ironia. Rachel ficou vermelha.
Não que fosse puritana, mas sentiu pena
do bebê. Afinal, teria um pai que não lhe
dava a mínima!
— Eu sinto muito, mas não podia
imaginar que não fossem casados. Mike
sentou-se numa poltrona e sorriu.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu não sou casado, mas Kay é.


Deus do Céu! Aquilo era mais
complicado do que parecia! Mike não era
marido de Kay, mas Kay era casada. E de
quem era o pobre bebê? De Mike ou do
marido dela?
— Antes que a sua imaginação voe
muito alto, acho melhor informá-la de
que sou irmão de Kay.
— Irmão?
— Sim. Irmão adotivo.
Rachel sentiu-se uma idiota. Era claro
que Mike estava divertindo-se às suas
custas. Que papel ridículo tinha feito!
Balançou a cabeça, afastando os longos
cabelos pretos e lisos que quase lhe
tocavam a cintura.
— Muito engraçado! — comentou,
enquanto recolhia os livros. — Já que está
aqui, acho melhor eu ir embora.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mas, antes que pudesse dar um passo,


ele colocou-se à sua frente, impedindo-a.
— Não vá, por favor — disse com voz
rouca, enquanto apertava-lhe o braço
com força.
Rachel assustou-se com aquela
impetuosidade e deixou que os livros
caíssem. Mike desculpou-se e a largou
abaixando-se para pegá-los.
Rachel ficou imóvel, esperando
recuperar-se da sensação selvagem e
estranha que o toque daquele homem lhe
provocou. Mike estava à sua frente,
observando-a com aqueles olhos azuis
profundos, intensos.
—Ei, eu não machuquei você,
machuquei?
A voz era suave, e ele estava tão
próximo que Rachel podia sentir o

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

perfume que usava assim como o ardor


daquela masculinidade.
Então foi tomada por uma onda de
profundo desejo, algo diferente, que
nunca sentira, uma vontade enorme de
abraçá-lo. Era algo louco, fora de
propósito.
Desde que Mike entrara naquela sala ela
começara a sentir emoções diferentes.
Talvez o tivesse agredido tanto porque
havia pensado que era o marido de Kay.
Ele a olhava com um ar de riso. Claro,
deveria estar tentando adivinhar o que
havia de errado com ela!
— Machuquei você? — voltou a
perguntar.
Ela molhou os lábios secos, sentindo-se
uma criança boba perto daquele homem
sofisticado e seguro. Principalmente

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

naquele momento, quando agia como


uma adolescente assustada.
— Não, você não me machucou —
tentou responder com voz firme. — É que
um dos livros caiu no meu pé.
— Estes livros são muito pesados, não
são?
— Sim, são.
Rachel estendeu a mão para pegá-los,
tomando cuidado para não tocar em
Mike.
— Negócios nos Anos Oitenta — citou
ele, lendo o título de um dos livros. —
Que assunto mais estranho para uma
colegial estar estudando!
— Acontece que não sou nenhuma
colegial, Sr. ...
— Ora, não precisa me chamar de
senhor. Rachel ficou vermelha.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Como pode ver, não sou nenhuma


colegial — repetiu, omitindo o nome dele.
— Estou na faculdade. Estudo Economia
e Administração.
— Então você faltou à aula para
acompanhar minha irmã? Ela confirmou
com a cabeça.
— Nós ficamos muitos gratos por isso,
Rachel.
— Não foi nada — respondeu, ainda
confusa com a estranha sensação que
Mike lhe causava. — Sua irmã estava
precisando de ajuda. Bem, agora preciso
ir. Ainda tenho uma aula.
— Também estuda à noite?
— Estudo línguas. Francês e alemão.
— Quem diria... Estuda Administração,
Línguas... Por acaso tem tempo para si
mesma?

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas é claro que sim! — Rachel ficou


vermelha de novo. Nesse momento, a
porta se abriu e um médico entrou.
— Sua irmã gostaria de vê-lo — disse,
dirigindo-se a Mike.
— Ela está bem?
— Sim, está. É só um minutinho. Mike
olhou para Rachel.
— Será que pode me esperar?
— Claro. Fique tranqüilo.
Assim que ficou sozinha, ela começou a
pensar por que ainda estava ali. Já tinha
feito sua boa ação do dia; Kay Lennon já
havia sido atendida.
Mike estava lá... Não, não havia razão
para continuar. Exceto pelo pedido
daquele homem perturbador.
Mas aquilo não fazia sentido! Seu lugar,
àquela hora, era numa aula de francês,
não numa sala de hospital esperando um
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

homem arrogante que acabara de


conhecer. Imaginou o número de
mulheres que existiriam na vida dele. Era
ridículo permanecer ali. Porém estava no
mesmo lugar quando Mike voltou.
Ele estava pálido. Afundou-se numa
poltrona, procurando relaxar.
— Meu Deus, como uma mulher sofre
para dar à luz!
— Nem sempre. Há partos tranqüilos e
bem conduzidos. Depende de como foi
vivida a gravidez, sabia?
— Não, eu não posso saber. Não sou
casado.
— Mas não é por isso que não pode ter
um filho.
Mike empalideceu.
— Escute uma coisa: se eu tivesse um
filho, ele iria receber todo o meu amor,

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

carinho e atenção! Seria diferente de


meus pais, que nunca ligaram para mim...
Rachel achou melhor mudar de assunto.
— Onde está o marido de Kay?
— Em Nova York. Está viajando a
negócios. Antes de ir ele me pediu que
tomasse conta dela. Kay não deveria ter
saído sozinha.
— Mas só foi fazer umas compras!
— Roupinhas para o bebê, obviamente!
Como se já não tivesse bastante! Por falar
nisso, você avisou Richard?
— Richard? Quem é Richard? O marido
de Kay?
— Isso mesmo. Bem, então vou avisá-lo.
— Ouça, eu preciso ir...
— Não vá, por favor. Espere. O médico
falou que não vai demorar. Por que não
espera até o bebê nascer? Pode ser uma
menina e talvez Kay decida colocar o seu
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

nome, para homenageá-la — acrescentou


com ironia. — Como se chama mesmo?
— Rachel — respondeu ela com
irritação.
— Muito bem, Rachel, vamos esperar
para ver. Eu posso levá-la à sua aula
depois.
— Será tarde. Minha aula está
começando agora. Começou há cinco
minutos, para ser mais exata.
— Que pena! Eu sinto muito.
— Não tem importância. Tenho os livros
e posso fazer os exercícios em casa.
— Vejo que você não é só bonita,
Rachel...
Ela fez o possível para não ficar
vermelha, mas seus esforços foram
inúteis. Percebeu aquilo quando viu o
olhar vitorioso de Mike, que sabia que a

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

estava impressionando e parecia


satisfeito com isso.
Rachel logo imaginou que aquele
homem deveria ter uma namorada tão
bonita e sofisticada quanto ele. Sensual
como ele. Alguém que soubesse satisfazê-
lo... Estremeceu ao pensar nisso e
resolveu perguntar:
— Você não vai telefonar para seu
cunhado?
— Vou, sim. Quer que eu avise alguém
que você está aqui? Rachel balançou os
longos cabelos pretos.
— Não, obrigada. Meus pais já sabem.
— Ótimo. Agora vou tratar de avisar
Richard que o filho dele vai nascer com
três semanas de antecedência. Ele vai
ficar furioso! Bem que não queria fazer
esta viagem, vai ver que estava até
pressentindo algo.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel sorriu sem muita vontade e Mike


saiu da sala, com movimentos ágeis e
bonitos.
Ela sentiu o coração disparar. Mike não
se parecia com nenhum homem que
conhecera e ela agia como uma menina
boba cada vez que ele a olhava.
Pensou na estranha reação de Mike ao
comentário de que também poderia ser
pai. Achou que deveria desculpar-se, mas
logo mudou de idéia. Seria melhor
esquecer aquilo.
Mike retornou momentos depois.
— Falou com seu cunhado?
— Falei. Ele vai voltar no primeiro
avião, e ficou muito aborrecido por não
poder estar ao lado de Kay. Eu disse a ele
que não estava perdendo nada...
Rachel sorriu.

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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Aposto como você não vai querer


estar presente quando sua mulher tiver
um filho!
— Bem, vai depender.
— De quê?
— De ela aceitar ou não a minha
presença...
Rachel ficou vermelha de novo e não
respondeu. Logo depois, a porta se abriu
e o médico entrou.
— Parabéns! A sra. Lennon teve uma
menina de três quilos — anunciou,
sorrindo. — As duas estão passando
muito bem. A sra. Lennon está um pouco
cansada, mas gostaria de ver vocês dois
antes de ir para o quarto.
O médico conduziu Rachel e Mike até a
sala, onde a mãe orgulhosa e eufórica
segurava seu bebezinho embrulhado
num xale.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ela não é linda? — disse Kay, olhando


para o irmão.
Mike olhou para aquele embrulhinho e
viu um rostinho enrugado e vermelho.
— Ela é linda, sim, minha querida. Tão
linda quanto você.
— Rachel — disse Kay, sorrindo e
olhando para ela — muito obrigada por
tudo que fez por mim e por ter chamado
Mike. Pena que ele tenha chegado um
pouco atrasado.
— Ora, Kay, eu passei a tarde inteira na
frente de um juiz! Como podia adivinhar
que você fosse precisar de mim?
Naquele momento Rachel se deu conta
de que Mike devia ser advogado. Tentou
imaginá-lo num tribunal, de terno e
gravata, na frente de um juiz... Era
engraçado, mas não conseguia vê-lo
assim.
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, é melhor você descansar um


pouco, Kay — disse Mike. — Amanhã
venho visitar vocês duas. Agora vou sair
com Rachel para celebrar o nascimento
do bebê. Cuide-se bem. E mande um beijo
para a minha linda sobrinha.
— E, quando ela crescer, vou contar
como seu tio foi valente e corajoso!
Saíram do quarto e Mike segurou o
braço de Rachel.
— Eu sinto muito — disse ela —, mas
não vou poder sair esta noite.
— Por quê? Por acaso já tem outro
compromisso?
— Oh, não. É que preciso estudar para a
aula de amanhã.
— Alguém já lhe disse que você estuda
muito?
Danny já tinha falado aquilo muitas
vezes. Mas Rachel estava determinada a
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Segredo de uma paixão Carole Mortimer

seguir a carreira que havia escolhido; não


estava na universidade apenas para
preencher o tempo. Queria entrar no
mundo dos negócios.
— Eu agradeço muito, mas...
— Mas ainda assim recusa.
Estavam andando em direção ao
estacionamento, onde Mike havia
deixado o carro. Rachel arregalou os
olhos quando ele parou em frente a um
magnífico Jaguar vermelho, mas
disfarçou a surpresa e disse:
— Infelizmente não posso mesmo sair.
Como você vê, estes livros são
complicados e eu sempre leio antes o
capítulo que é dado na aula seguinte.
— Meu Deus, como você é estudiosa!
Rachel entrou no carro e, assim que
Mike sentou-se a seu lado, sentiu o calor
que emanava dele. Ficou feliz por ter
40
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

recebido um convite daquele homem; era


uma pena que não pudesse aceitar.
— Você também tem aula amanhã à
noite? — perguntou ele, enquanto dava a
partida no carro.
— Amanhã?
— Podemos celebrar amanhã, se você
quiser... Ela ficou tentada. E como ficou!
Por que não? Tomar um drinque e
conversar um pouco não lhe faria mal
algum. Era evidente que aquele homem
charmoso e encantador não devia ter
outro interesse que não o de agradecer o
que ela havia feito por Kay.
— Acho que podemos sair para um
drinque, amanhã — respondeu meio
envergonhada.
— E também para jantar? Ela sorriu
feliz.
— Para jantar também.
41
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ótimo. Agora é melhor dizer onde


mora.
Rachel indicou-lhe o caminho e
conseguiu relaxar um pouco. Mike
colocou uma fita dos Rolling Stones e a
música encheu o ambiente. De vez em
quando ela o olhava com o canto do olho,
mal conseguindo acreditar que iriam
jantar na noite seguinte. Pensou na roupa
que deveria usar e achou melhor
comprar um vestido novo. Teria que ser
algo muito sofisticado e...
— Chegamos — disse Mike.
Rachel olhou e percebeu que estavam
na frente da casa onde havia morado toda
sua vida.
— Muito obrigada pela carona — disse
ela, abrindo a porta do carro. Mike
segurou-lhe o braço.
__Amanhã as oito, está bem?
42
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

__Está ótimo. Boa noite, Mike.


— Boa noite, Rachel. E muito obrigado
por tudo — dizendo isso, ele beijou-a
suavemente nos lábios.
Ela ficou vermelha e desceu do carro.
Acenou para ele, abriu a porta da casa e
entrou. Que coisa mais incrível!
Conhecera-o há apenas algumas horas e
já estava contando os minutos para vê-lo
de novo!
Entrou na sala, onde seus pais assistiam
à televisão, e imaginou o que eles
pensariam de Mike. Observou sua mãe,
rechonchuda e caseira, tricotando um
suéter para o filho da vizinha. Olhou seu
pai, muito entretido com o noticiário...
Eram pessoas comuns e ela os amava
profundamente. Quanto a Mike, poderia
ser tudo, menos um homem comum. Ele
tinha algo diferente, inexplicável, um
43
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

charme especial que encantava e cativava


quem estivesse por perto.
— Oi, filha. Foi menino ou menina? —
perguntou-lhe a mãe. O pai a olhou e
sorriu.
— Tudo bem, querida?
— Tudo bem, papai — virou-se para a
mãe: — Nasceu uma menina, mamãe. Eu
nunca imaginei que os recém-nascidos
fossem tão pequenos!
— Você nasceu tão bonitinha, Rachel. O
parto foi prematuro e você só pesava 2
quilos! Os bebês prematuros são sempre
mais bonitos.
— Você precisava ver a reação do tio do
bebê quando viu a sobrinha pela
primeira vez... Ela estava toda
embrulhada, só o rostinho enrugado de
fora e, mesmo assim, a mãe a achava
linda!
44
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Você disse "tio do bebê"? Que tio?


— É que o marido da Sra. Lennon está
viajando e o irmão dela foi até a
maternidade.
Naquele momento ela olhou para a
televisão e não conseguiu segurar um
grito.
— Meu Deus, papai, o que é aquilo?
Aquilo o quê?
— Na televisão! O que eles estão
mostrando?
— Ora, Rachel, estão mostrando o
torneio de tênis, só isso. Rachel pôde ver
perfeitamente a imagem dos dois
homens jogando bravamente.
— Mas que torneio? — perguntou
agitada, tentando descobrir algo que
ficava cada vez mais claro.

45
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Torneio de Wimbledon, querida —


respondeu a mãe. — Hoje foram as
semifinais.
Rachel ficou sem fala. Um dos jogadores
era Mike! Não era de admirar que seu
rosto parecesse familiar!
Ele era Michael St. Clare, um tenista
mundialmente famoso, vencedor de
vários campeonatos nos últimos 12 anos.
E o juiz a quem ele havia se referido era o
juiz da partida, não o de um tribunal.
Aquilo parecia um sonho. Mike havia
passado a tarde inteira jogando no
famosíssimo torneio de Wimbledon!

46
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO II

Rachel ficou tão confusa que mal


conseguia raciocinar. Havia aceitado
jantar com um tenista famoso que, com
seus 30 anos, já tinha vencido muitos
campeonatos. E o modo como havia
jogado aquela semifinal mostrava
claramente que a vitória estava a seu
alcance. Vestido com o uniforme de tênis,
parecia ainda mais viril e sensual. Seus
cabelos loiros estavam caídos na testa e
seus olhos azuis tinham a confiança dos
vencedores.
— Ele ganhou? — perguntou Rachel,
segurando a respiração.
— A qual dos dois você se refere? Quem
ganhou foi Michael St. Clare. E facilmente,
até.
47
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Aquilo até parecia mentira. Rachel tinha


combinado sair para jantar com um
homem bonito, chamado Mike, mas não o
famoso tenista Michael St. Clare.
— Danny ligou — avisou a mãe.
— Ligou?
Rachel franziu a testa. Tinha esquecido
completamente da existência dele nas
últimas horas!
— E ficou muito surpreso por você ter
passado a tarde toda na maternidade.
— Ele nem acreditou quando eu decidi
ir, mamãe. Se fosse por ele, a sra. Lennon
ia ter que se virar sozinha.
— Vocês brigaram querida?
— Não, mamãe. Não exatamente.
— O que quer dizer com este "não
exatamente"? Eu pensei que você
gostasse muito dele.

48
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu gostava! Quero dizer, gosto. Mas


ele foi muito egoísta.
— Os homens são sempre egoístas,
minha filha. Pode acreditar nisso! Mas,
naquele momento, Danny era o que
menos preocupava Rachel.
Precisava cancelar o jantar com Mike de
qualquer modo. Pensou em ligar, mas a
simples idéia de voltar a falar com ele
causava-lhe arrepios. Achou que o
melhor a fazer seria telefonar para Kay
Lennon e desmanchar o compromisso
com Mike. Assim não correria o riso de
conversar com ele e ouvir de novo aquela
voz rouca e sensual.
Sim, faria exatamente aquilo. Afinal,
precisava cair fora daquela confusão o
mais rápido possível.
Mais tarde, deitada em sua cama, ela
tentou convencer-se de que estava
49
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

agindo corretamente, de que não deveria


encontrar-se com ele de novo. Um
homem como Mike lhe mudaria a vida e
nada mais seria como antes. Seu mundo
podia parecer monótono, mas era feliz
nele: gostava do curso que fazia, amava
os pais e era amada por eles. Achava
divertido sair com rapazes como Danny;
não precisava da sofisticação de um Mike
St. Clare para estragar tudo.
Deus do Céu, mas será que algo já não
havia mudado? Aquele encontro não
teria feito com que sonhasse coisas que
jamais poderia viver? Será que já não
sonhava com Michael St. Clare?
Enterrou a cabeça no travesseiro,
tentando tirar aqueles pensamentos da
cabeça. Não devia vê-lo de novo e não o
veria mesmo. Ponto final.

50
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

A primeira coisa que Rachel fez na


manhã seguinte foi ligar para a
maternidade. Kay ainda dormia. Deixou
recado com a enfermeira e, sentindo-se
mais tranqüila, seguiu até a Universidade
e entrou na classe antes que o professor
começasse a aula.
— O que aconteceu ontem à tarde? —
sussurrou Cynthia.
Rachel e Cynthia tinham-se conhecido
no ano anterior e tornaram-se muito
amigas. Eram as únicas mulheres do
curso de Economia e Administração e,
por isso, muito paqueradas.
— Depois eu conto — respondeu
Rachel, vendo o professor entrar. Tinha
que contar a alguém sobre Mike, senão
iria explodir.
Mas quem quase explodiu foi Cynthia. E
de susto. Estavam no intervalo da aula,
51
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

tomando café, quando Rachel lhe contou


o que acontecera.
— Não é possível! Você deve estar
brincando!
— Bem que eu queria!
— Mas por que, Rachel?
— Você nem imagina! Falei com ele
assim, como estou falando com você.
Como se fosse uma pessoa comum...
— O fato de ser um tenista famoso não
o torna diferente dos outros, Rachel.
— Você fala assim porque não o viu.
Ele... Bem, ele tem um magnetismo, um
poder estranho... Ele é diferente, Cynthia,
pode acreditar.
— Bem, de qualquer modo deve ter
gostado muito de você, senão não iria
convidá-la para sair.
— Tenho certeza de que só me convidou
para agradecer.
52
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ninguém precisa fazer um convite


desses só para agradecer, Rachel. Se fosse
só gratidão, uma caixa de bombons
resolveria o problema. Ele quer mesmo é
sair com você!
— Não é possível.
— Só quero ver a reação de Danny
quando souber!
— Danny?
— O próprio — respondeu Cynthia,
lançando um olhar para o rapaz que se
aproximava.
Rachel virou-se e o viu chegando. Tinha
uma expressão de poucos amigos no
rosto.
— Olá, Cynthia — cumprimentou ele,
sem muita vontade.
— Olá — respondeu ela. Não gostava de
Danny e não fazia questão de esconder
isso.
53
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Posso falar com você? — disse ele,


virando-se para Rachel. — Em particular,
se for possível.
— Fiquem à vontade. Vou tomar outro
café — disse Cynthia, levantando-se. —
Podem conversar em paz.
Danny sentou-se na cadeira vaga.
— Você não foi gentil com Cynthia,
Danny.
— Acontece que não estou com muita
vontade de ser gentil com ninguém, se
quer saber. Por acaso sua mãe falou que
liguei ontem?
— Falou.
— E por que você não me telefonou?
— Voltei tarde, Danny. Foi isso. Passei o
tempo todo na maternidade.
— Eu disse que você ia acabar se dando
mal, Rachel...

54
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Acontece que não me dei mal. Fiquei


lá porque quis. Ela teve uma menina, se
isso lhe interessa.
— Não interessa.
— Já estava desconfiada.
— E agora, Rachel? O que vai acontecer
conosco?
— Nada — murmurou ela, recolhendo
seus livros. — Minha aula já vai começar.
Preciso ir.
Danny segurou-lhe o braço.
— E o nosso compromisso para hoje à
noite? Ainda está de pé?
Ela tinha esquecido completamente que
havia combinado ir ao cinema com ele.
Mas não sentia a mínima vontade de ir. A
companhia de Danny não lhe agradava
mais.
— Não vou poder ir, Danny.
— Mas por quê?
55
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— É que... eu, bem...


— Fale Rachel! Por acaso está tentando
dizer que está tudo acabado? Como
Rachel odiava terminar namoros!
Principalmente com Danny, que não
parecia muito disposto a colaborar.
— Olhe Danny, eu acharia melhor...
— Ora, Rachel! Não me venha com essa
de querer terminar o namoro e ficar
apenas minha amiga! Deve haver uma
razão e eu quero saber qual é!
— Por favor, Danny, tente
compreender...
— Ah! Acho que já estou sabendo qual é
a razão! Você é mesmo uma puritana
boba, não é, Rachel? Quer terminar
porque não tem coragem de me dar nada
além de beijos.
Rachel ficou vermelha.

56
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Será que você só pensa nisso, Danny?


Acha que só pode esperar sexo de uma
mulher?
Danny sorriu com desdém.
— E o que mais poderia esperar? Ora,
você acha que estou pretendendo levar
este namoro a sério?
— Eu não espero nada, Danny. Inclusive
acho que você precisa crescer muito
ainda para poder levar qualquer coisa a
sério.
Nesse momento, Cynthia apareceu.
— Vamos, Rachel?
— Vamos, já estamos atrasadas —
respondeu ela, olhando para o rosto
enfurecido de Danny.
Já no elevador, a caminho da classe,
Cynthia perguntou o que havia
acontecido.

57
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Nada de mais. Só disse que não


queria mais nada com ele.
— O quê? Isso quer dizer que você
terminou com Danny Maxwell?
— Terminei Cynthia.
— Meu Deus, é inacreditável!
— Por que tanta surpresa? Afinal, esta
não é a primeira nem será a última vez
que um namoro termina.
— Mas aposto que é a primeira vez que
alguém dá o fora em Danny!
— Sempre existe uma primeira vez, não
é mesmo?
— Sabe Rachel, estou contente. Eu
nunca gostei dele. Tudo que possui é um
par de jeans apertados e alguns
músculos. Mas Michael St. Clare é aquilo
que eu chamaria de um homem com "H"
maiúsculo!

58
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não quero mais falar sobre ele,


Cynthia. É assunto encerrado!
— Olhe Rachel, acho que você ficou
louca. Por que não aceita o convite só
desta vez? Mesmo que nunca mais volte a
vê-lo, vai ter sempre esta noite para
recordar.
Rachel sabia que a amiga tinha razão.
Sair com Mike só uma vez não lhe faria
mal algum. Mas de que isso iria adiantar?
— Acho que não estou interessada,
Cynthia.
O resto do dia foi terrível e custou a
passar. Rachel nem prestou atenção às
aulas. Só pensava em Michael St. Clare.
— Vamos ouvir discos em casa, Rachel?
— convidou Cynthia quando saíam da
Universidade.

59
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Sei, sei. Por acaso você não está


querendo arrancar os meus segredos
mais íntimos? — disse Rachel, rindo.
— Nossa! Como adivinhou?
— Bem, conhecendo você, não é difícil
imaginar. Obrigada pelo convite, fica para
outra vez. Vou ter que lavar o cabelo.
Cynthia olhou, admirada, para os longos
cabelos da amiga...
— Deve dar um trabalhão, não é?
— E verdade. Mas minha mãe me ajuda
a secá-los... Leva horas!
Cynthia balançou o cabelo curto.
— Às vezes me arrependo de ter
cortado o meu assim tão curtinho, mas
quando vejo o trabalho que tem com o
seu fico aliviada.
— Mas levar tempo para arrumar o
cabelo até que tem suas vantagens...
— Que vantagens?
60
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, serve para preencher uma noite


vazia... E parece que vou ter muitas delas
de agora em diante!
Cynthia sorriu.
— Você poderia preencher esta noite
com Mike St. Clare e não com um vidro de
xampu, Rachel.
— Por favor, pare de falar nele!
— Ora, ora, ora! Quem vejo por aqui?
Uma garotinha que gosta de namorar
tenistas famosos!
Rachel virou-se e viu Danny, que se
aproximava com dois amigos. Bob e
George eram simpáticos, mas
conseguiam ficar desagradáveis na
companhia de Danny. Os três sorriam
com muita ironia.
— Quem lhe contou Danny?
— Quem haveria de ser... A sua
amiguinha, obviamente! Ela está muito
61
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

orgulhosa porque a sua melhor amiga vai


sair com Mike St. Clare!
Cynthia ficou vermelha e Rachel
percebeu imediatamente que Danny
estava falando a verdade.
— Cynthia, como pôde fazer isso?
— Eu sinto muito, Rachel — respondeu
ela, embaraçada.
— É claro que você não quer mais sair
comigo — continuou Danny. — Um
tenista famoso cheio da nota aparece e
sou colocado de lado!
— Não foi bem isso!
— Rachel?
Ela empalideceu ao som familiar
daquela voz e virou-se para ver Michael
St. Clare se aproximar. Ele estava a
poucos metros do grupo e, como sempre,
irresistível.
Danny ficou vermelho de raiva.
62
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas que maravilha!—- disse com


ironia. — Seu namorado veio buscá-la!
Rachel ficou vermelha e sem ação. Mas
Mike parecia divertir-se com Danny.
— Vamos, Rachel? — perguntou, e ela
ficou imaginando o que ele estava
fazendo lá. Afinal, nem havia contado
onde estudava!
— Vamos, Mike — respondeu ela, quase
sem respirar.
— Eu disse a seus pais que iria levá-la
para casa.
Rachel engoliu em seco e ele
acrescentou, sorrindo:
— Ei, você esqueceu o nosso
compromisso?
— Eu... Não, claro que não. Até logo,
pessoal — disse ela, sem conseguir
encarar os amigos.

63
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Será que a sua amiga não quer uma


carona? — ofereceu ele, olhando para
Cynthia.
Pobre Cynthia! Ela parecia hipnotizada
e mal se mexia.
— Você quer uma carona? — perguntou
Rachel, quase implorando para que ela
aceitasse.
Mas Cynthia mal conseguiu responder.
Parecia estar em estado de choque e só
conseguiu balbuciar uma recusa.
— Vejo você amanhã, Rachel — disse
Danny em tom íntimo, insinuando que
poderia tê-la quando quisesse.
— Pode ser que veja mesmo —
respondeu ela. — Afinal, a Universidade
não é tão grande assim.
Mike despediu-se do grupo, passou o
braço pelo ombro de Rachel e conduziu-a
até o carro, perguntando:
64
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ele é seu amigo?


Rachel estava nervosa. Ainda não havia
conseguido entender o que Mike fazia ali.
— Ele "era" meu amigo.
— Era? Não é mais?
— Não.
— Por acaso era ele o rapaz que estava
beijando você no parque? Rachel gelou.
Não tinha se dado conta de que Kay
Lennon a vira com Danny; com certeza
tinha sido ela quem passara a
informação.
— Acho que era ele mesmo — disse
Mike, sem esperar resposta. — Você não
sabe que existem lugares mais discretos
para se fazer amor?
Rachel ficou vermelha.
— Acontece que não estávamos fazendo
amor. Estávamos só nos beijando. E não é
da sua conta onde faço isso.
65
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Seria da minha conta se fosse eu o


homem que você estava beijando...
Aquelas palavras fizeram com que ela se
calasse. Lembrou-se do beijo rápido e
suave que Mike lhe dera na noite anterior
e sentiu uma violenta emoção.
— Sua irmã lhe deu o recado? —
perguntou, para disfarçar o embaraço.
— Que você não poderia jantar comigo
esta noite? Deu, sim.
— Meu Deus, Mike! Se recebeu o recado,
por que foi me buscar?
— Ora, para levá-la para casa. Sua mãe
me disse onde você estudava e...
— Minha mãe? Você esteve com ela?
— Estive. Por quê?
— Mas é que... eu... bem...
Mike sorriu.
— Você quer falar alguma coisa, Rachel?

66
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Quero, sim — disse ela, tomando


coragem. — Posso saber o que foi fazer
na minha casa? Se recebeu o recado, não
tinha nada que me procurar.
— Passei pela sua casa para entregar
umas flores e sua mãe me disse que você
ainda não tinha chegado.
— Mas que flores?
— Não sei, não sou especialista no
assunto — respondeu ele, sorrindo. Mas
logo parou de brincar e ficou sério. —
Rachel, por que cancelou o nosso
encontro?
— Eu... é que...
— Você não gaguejava assim ontem,
Rachel.
— É que, quando eu falei com você
ontem, não sabia que era Michael St.
Clare.

67
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E agora, que sabe quem sou não quer


mais sair comigo.
— Isso mesmo.
— E posso saber por quê?
Rachel estava rezando para que ele não
perguntasse. Em vão.
— É difícil dizer. Ontem à noite, ao
chegar em casa, vi você na televisão e tive
um choque... Parabéns pela vitória.
—- Obrigado. Mas sabe, eu também
gosto de vencer com as mulheres...
Rachel podia imaginar. Já tinha visto
muitas fotografias dele nos jornais ao
lado de mulheres lindíssimas.
— Acontece que não sou troféu de
nenhuma competição. E, se soubesse
quem você era, jamais teria aceitado o
convite.
— Mas, uma vez que aceitou, não é nada
educado desistir.
68
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu não estou desistindo.


— É claro que está.
— Não estou.
— Rachel, eu vou levá-la para jantar. E
não quero mais discussão.
— Por acaso você já foi contrariado
alguma vez?
— Nunca.
Rachel franziu a testa.
— E meus pais? O que disseram?
— Nada. — Mike estacionou o carro e
olhou para Rachel. — Meu cunhado
queria lhe mandar flores para agradecer
tudo o que você fez por Kay e eu me
ofereci para entregá-las. Sua mãe me
recebeu e disse que você não estava. Ela
é muito simpática, aliás.
Rachel tentou imaginar a reação da mãe
ao abrir a porta e encontrar Michael St.
Clare.
69
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Rachel? — disse Mike, tocando-lhe o


rosto de leve.
— Por que decidiu levar as flores, Mike?
— Acho que nós dois sabemos a
resposta... — ele sorriu e aproximou-se
ainda mais, roçando-lhe os lábios. —
Sabe que a sua boca tem sabor de mel?
Nesse momento o barulho do tráfego
pareceu parar, o burburinho dos
pedestres não mais existia. Toda a
realidade da vida estava nos olhos de
Mike. Ele a beijou com loucura e Rachel
se perdeu naqueles braços fortes.
— Néctar puro. — murmurou ele
sensualmente.
Os olhos dela brilhavam e Mike sorriu.
— Somos explosivos, não acha? E agora,
ainda recusa o meu convite? Naquele
momento Rachel sentiu que não poderia
negar-lhe nada.
70
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Esqueceu todos os motivos que tivera


para não vê-lo mais e desejou ficar ao
lado dele para sempre.
Os pais de Rachel talvez tivessem ficado
surpresos em ter Michael St. Clare
sentado na sala de estar, mas nada
demonstraram. A mãe ofereceu-lhe uma
xícara de chá e Rachel voou para trocar
de roupa.
Ao entrar no quarto, viu um lindo buquê
de rosas arrumado num vaso sobre sua
mesinha de cabeceira. Abriu o cartão que
o acompanhava. Era de Richard Lennon,
que agradecia sinceramente sua ajuda.
Ainda meio tonta, abriu o armário e
começou a escolher uma roupa. Acabou
experimentando todos os vestidos e, no
fim, decidiu-se por um cinza, de seda, que
combinava com a cor de seus olhos.
Voltou para a sala, dizendo:
71
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— As rosas são tão lindas! Agradeça a


seu cunhado por mim, Mike.
— Você se importa se passarmos
primeiro no meu apartamento? Preciso
trocar de roupa — falou Mike assim que
saíram da casa.
Rachel sentiu um frio na espinha. Nunca
havia entrado no apartamento de um
homem solteiro e a idéia não lhe agradou.
Mas não iria se comportar como uma
criança boba na frente de Mike.
— É claro que não me importo.
Assim que chegaram, Mike ofereceu-lhe
um drinque. O apartamento era uma
cobertura magnífica, muito próxima às
quadras de Wimbledon.
— Fique à vontade — disse ele. — Vou
tomar um banho e já volto.
Rachel andou pela sala, nervosa. Tudo
aquilo era muito luxuoso para seu gosto,
72
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

e achou que o apartamento parecia ter


sido tirado de uma revista de decoração.
— Você gosta?
Ela virou-se ao som da voz de Mike,
engolindo em seco ao perceber que ele só
vestia um robe preto de seda. Tentou
dizer algo quanto à beleza do
apartamento e abaixou a cabeça,
embaraçada.
— Você gosta de comida italiana?
Reservei dois lugares num pequeno
restaurante que conheço.
— Eu gosto, sim.
— Que bom — Mike a beijou
suavemente, e os lábios dela pegaram
fogo. Que estranho poder tinha aquele
homem para enfeitiçá-la daquela
maneira? — Rachel, será que você
poderia pegar as minhas roupas no
armário enquanto eu tomo banho?
73
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Aquilo era demais!


— Pegar suas roupas? Ora!
— Vamos ver... Vou usar o blazer creme
e a camisa preta. Tudo bem? Mike entrou
no banheiro e Rachel foi até o quarto.
Abriu um armário enorme e começou a
rezar para achar logo aquelas roupas,
mas não foi fácil. Encontrou-as no
momento em que ouviu o chuveiro ser
desligado.
Mike saiu do banheiro enrolado numa
toalha. Parecia um deus; seu peito era
musculoso e ele exalava virilidade.
— Olhe as suas roupas estão aqui.
Agora, com licença — disse ela, saindo
apressadamente do quarto.

74
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO III

Rachel tremia quando entrou na sala.


Talvez Mike estivesse acostumado a ter
mulheres lhe escolhendo roupas, mas o
problema era que ela não estava. E
continuava a agir como uma criança
assustada.
Mike apareceu na sala pouco depois.
— Podemos ir?
Ela respirou aliviada por poder sair
daquele apartamento e sentiu-se segura
quando entraram no carro.
Já estava mais calma quando chegaram
ao restaurante. Gostou daquele
lugarzinho aconchegante. Era pequeno,
com luz indireta e mesas cobertas por
75
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

toalhas vermelhas. Uma atmosfera


íntima e acolhedora.
Ela percebeu que muitas pessoas
paravam de comer para olhar Mike,
embora ele parecesse não se incomodar
com aquilo.
— Não ligue — disse, percebendo que
Rachel ficara embaraçada.
Era fácil falar! Ela não estava
acostumada a tantos olhares. Mas o vinho
tinto que Mike pedira ajudou-a a relaxar,
e logo aqueles olhares não a
incomodavam mais.
— É uma pena que tenha que levá-la
para casa agora — disse ele. quando
tomavam café. — Jogo amanhã às duas
horas e Sam vai me matar se eu perder
por ter ido dormir tarde...
— Quem é Sam?
— Sam Freeman, o meu técnico.
76
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ah, sei, já ouvi falar nele.


— Eu lhe devo muito, sabe?
— Ele já jogou, não é?
— Há muitos anos. Acho que faz tanto
tempo que ele nem lembra mais — disse,
rindo. — Sam chegou a vencer muitos
torneios, naquela época.
Os olhos de Rachel brilharam.
— Então, ele deve ter sido mesmo muito
bom!
— Rachel, você não quer assistir à
partida amanhã? Pega de surpresa, ela
engoliu em seco.
— Ver você na quadra?
— Bem, eu ficaria um tanto quanto
desapontado se você quisesse ver outra
pessoa — brincou ele. — Pode ficar com
Sam e Susy. Que tal?
Rachel compreendeu que teria que se
sentar nos boxes reservados para os
77
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

técnicos, à vista de todos. Não, aquilo era


demais. Balançou a cabeça e sorriu.
— Muito obrigada pelo convite, mas não
posso aceitar.
Mike tomou-lhe a mão.
— Posso saber por quê?
— Porque tenho aula amanhã.
— Mas pode faltar, não pode?
— Acontece que vou ter exames finais
na próxima semana e...
— Eu gostaria tanto que você fosse! —
disse ele, dando-lhe um sorriso
encorajador. — Quem sabe me dá sorte.
— Você é supersticioso?
— Não como Bjorn Borg, que sempre
deixa crescer a barba até o final do
campeonato...
— Eu gostaria de ir, mas infelizmente
não posso.
— Mas será somente uma tarde, Rachel.
78
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Era impossível recusar.


— Bem, então... Tudo bem, aceito. Como
posso fazer para entrar?
— Vou deixar recado com Sam.
O sorriso de Mike era largo. Rachel
percebeu que mais uma vez ele tinha o
controle da situação.
— Quem é Susy? — perguntou,
tentando não mostrar interesse. Mas
aquele nome não saía de sua cabeça.
Ele sorriu.
— Por quê? Quem acha que é?
-— Não faço idéia — respondeu
vermelha. Conhecia aquele homem há
dois dias e já morria de ciúme dele!
Mike sorriu irônico.
— Susy é filha de Sam e eu a conheço
desde menininha.
Ele falava como se fosse um irmão mais
velho e Rachel suspirou, aliviada.
79
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Talvez seja melhor irmos embora,


Mike. Amanhã você vai jogar e tem que
estar em forma.
— É, vamos. Sabe Rachel, às vezes fico
pensando se tudo isso vale a pena.
— Deve valer, sim. Quando você ganha.
— Quando eu ganho vale mesmo. Mas
quando perco... Às vezes, numa partida,
sinto que o meu adversário é bom demais
para ser vencido e que não há nada que
possa salvar o jogo. É uma sensação
horrível!
— Posso avaliar.
Mike sorriu.
— E amanhã tenho certeza de que Paul
vai me dar muito trabalho!
— Você está falando de Paul Shepley?
— Ele mesmo — respondeu Mike,
levantando-se. — Nós dois somos muito
briguentos e por isso o jogo vai ser difícil.
80
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel lembrou-se de que já havia


assistido a uma partida entre Mike e Paul
Shepley e achara, naquela época, que
Mike era mais controlado que seu
adversário.
Mas ele não parecia nada controlado
quando parou na frente da casa dela e a
beijou. Seus lábios ferviam e suas mãos
queimavam a pele de Rachel. Ele se
comportava como um animal enfurecido.
— Eu não gostaria que isso se tornasse
um hábito, Rachel...
— Isso o quê?
— Namorar você no carro. É muito
desconfortável. E público.
Rachel sentiu-se novamente
envergonhada e procurou mudar de
assunto.
— Você gostaria de entrar e tomar um
café? Mike olhou o relógio.
81
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Será que seus pais ainda estão


acordados? São mais de dez e meia.
— É, a esta hora eles já estão dormindo.
Mike sorriu e abriu a porta do carro.
— Então eu adoraria entrar um pouco!
Mas, assim que entraram, o café foi
esquecido. Mike a abraçou e a beijou
novamente. Quanto a Rachel, mais uma
vez derreteu-se em seus braços.
De repente alguém acendeu a luz da
sala.
— Rachel, é você?
Era sua mãe, que vinha da cozinha e
ainda pôde vê-los abraçados.
— Oh, desculpem! Eu não sabia que o sr.
St. Clare estava aqui...
Mike largou Rachel rapidamente.
— Eu é que peço desculpas, sra. James.
Já estou de saída.

82
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, boa noite, então, sr. St. Clare —


disse ela, subindo a escada.
— Acho que teria sido melhor se sua
mãe não tivesse visto esta cena, não é?
— Acho que sim.
— Vou embora agora, então. Espero que
isso não lhe cause problemas... E, na
próxima vez, vou me certificar de que não
seremos interrompidos.
— Próxima vez? Mas que próxima vez?
— Vejo você amanhã — disse ele,
deixando a pergunta de Rachel no ar.
— Boa noite, Mike.
Acenou para ele e fechou a porta. Subiu
e encontrou os pais lendo na cama.
— Sinto muito, Rachel — disse a Sra.
James, largando o livro. — Eu não podia
imaginar que...
— Tudo bem, mamãe. Tudo bem.

83
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Divertiu-se, querida? — perguntou o


pai, sem demonstrar preocupação.
— Sim, papai, muito. — Rachel olhou
para a mãe, que balançava a cabeça.
Aliviada, percebeu que ela não contara a
cena ao marido.
— Mamãe, papai, Mike me convidou
para assistir à partida de amanhã.
A Sra. James franziu a testa.
— Mas a partida não é à tarde? Amanhã
você tem aula, não tem?
— Eu sei, mas é só um dia. Com certeza
nunca mais vou ter uma chance dessas.
— Tudo bem então, querida. Durma
bem.
Dormir bem! Rachel não pregou olho
aquela noite. Não conseguia relaxar. Só
pensava que era a convidada especial de
Mike St. Clare no torneio de Wimbledon e
que todos iriam notar sua presença.
84
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Imagine só a cara de Danny, quando


souber! Ele vai ficar verde!
— Mas ele não vai saber, não é mesmo,
Cynthia?
— Juro que não vou contar nada desta
vez. Mas ele pode ver pela televisão.
— É verdade, mas espero que não veja.
— Pois eu espero que sim. Bem, eu vou
para casa agora e ligarei a televisão.
— Não vai assistir às aulas da tarde?
— Mas é claro que não! Este jogo vai ser
mais interessante do que qualquer aula!
Elas se despediram e Rachel voltou para
casa. Precisava trocar de roupa. Escolheu
uma calça comprida preta e uma blusa
branca de seda. Deixou os cabelos soltos
e sentiu-se bonita. Mike teria orgulho
dela. Terminou de se arrumar e seguiu
para Wimbledon.

85
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Chegando lá, viu-se perdida num


verdadeiro formigueiro humano. Pessoas
passavam apressadamente e, por um
momento, achou que Mike esquecera o
convite. Afinal, aquele era um jogo
decisivo e ele devia ter outras
preocupações na cabeça.
— Srta. James?
Ela virou-se ao som daquela voz
feminina. Deu graças a Deus por Mike ter
mandado alguém encontrá-la.
Mas, ao virar-se, o sorriso que tinha nos
lábios desapareceu. A pessoa que a
chamara era uma das mulheres mais
lindas que já tinha visto. Alta, loira, tinha
olhos azuis e um nariz reto, pequeno.
Usava um brilho colorido que lhe
realçava os lábios perfeitos e um vestido
marrom que marcava as linhas do corpo

86
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

esguio e sensual. Devia ter uns vinte e


cinco anos.
Ela parecia uma manequim profissional
e, fosse quem fosse, deveria haver algum
engano. Mike nunca poderia ter mandado
aquela mulher encontrá-la.
— É a Srta. James? — repetiu com
irritação, notando que Rachel continuava
a encará-la.
— Sim, sou eu...
A tal moça a olhou com curiosidade.
— Você não é exatamente o que eu
estava esperando...
— Não? — Rachel estava nervosa.
— Não. Quando Mike me contou que
tinha prometido um lugar para uma das
suas pequenas fãs e me pediu para vir
buscá-la, pensei que fosse mais jovem.
Uma criança, talvez.

87
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel odiou aquela moça


imediatamente.
— Talvez seja isso o que Mike pensa de
mim, não é?
— Com certeza. Ele me contou que lhe
deve um favor por ter ajudado Kay.
— É verdade.
A tarde estava linda e ensolarada ,mas
aos olhos de Rachel, tudo havia se
transformado. Então era isso que Mike
pensava dela... Apenas uma criança!
— Vamos indo — continuou a moça. —
O jogo vai começar a qualquer momento.
Ah, já ia me esquecendo! Sou Susy
Freeman.
A moça começou a andar e Rachel não
teve outra escolha senão segui-la. Então
aquela era Susy Freeman! A estonteante
Susy Freeman, a quem Mike jamais
poderia considerar apenas uma irmã.
88
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Os jogadores já estavam prestes a


começar quando elas chegaram ao box.
Sam Freeman levantou-se para
cumprimentar Rachel e parecia muito
simpático, embora visivelmente tenso.
Ela respondeu ao cumprimento e olhou
para a quadra. Viu dois jogadores
poderosos, determinados a vencer de
qualquer maneira. A partida era decisiva
e o ar parecia carregado de muita tensão.
Durante as horas que se seguiram,
Rachel ficou sentada na ponta da cadeira,
vibrando, torcendo e sofrendo por cada
ponto marcado, por cada set ganho. Ao
final de duas horas cada jogador havia
vencido dois sets e haveria um último
para o desempate. E, naqueles últimos
minutos, a sorte pareceu abandonar
Michael St. Clare. Paul Shepley venceu.

89
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel sentiu lágrimas nos olhos


quando viu o olhar de desapontamento
de Mike. Entretanto, ele cumprimentou o
adversário sem demonstrar qualquer
rancor.
— Ah, meu Deus — disse Susy enquanto
seu pai levantava-se para encontrar
Mike. — É agora que tudo vai começar.
— Começar o quê?
Rachel estava muito triste. Mike tinha
jogado tão bem! Ele deveria ter ganhado,
mas de que adiantava dizer aquilo? Tinha
perdido e na certa estava se sentindo
arrasado.
— Agora vão começar as discussões
sobre o porquê da derrota da Mike —
disse Susy, levantando-se.
Rachel também se levantou.
— Mas ele podia ter vencido
facilmente...
90
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Podia, mas não venceu. Pode


acreditar, meu pai e ele vão passar horas
tentando ver o que aconteceu, o que
deveria ter sido feito, essas coisas.
— Mike fez o que podia!
— Mas não venceu. É isso que meu pai
vai tentar descobrir: por que perdeu.
Rachel ficou embaraçada.
— Então eu não posso ver Mike agora?
— Por quê? Ele disse que queria vê-la?
— Bem, não. Mas eu pensei...
— Mike falou que você iria assistir à
partida, mas não disse nada sobre
pretender vê-la depois.
Rachel olhou com frustração para Susy.
Se Mike não tinha dito que queria vê-la,
provavelmente não queria mesmo.
Com certeza ele só a convidara por
gratidão. Ela é que tinha interpretado

91
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

mal. Não havia interesse nenhum por


parte dele.
— Além disso — disse Susy —, sempre
saio com Mike depois de uma partida.
Para festejar. Ou para consolá-lo — olhou
para Rachel com desdém. — Duvido que
você possa consolá-lo... da maneira como
eu posso.
Rachel sentiu-se corar. Será que Mike e
Susy eram amantes? E por que não? Ela
era mais madura, interessava-se por
tênis e era linda!
— Obrigada por tudo, Srta. Freeman.
— Susy, por favor.
— Obrigada, Susy. Gostei muito de tudo,
mas agora já vou indo.
— Fico contente, então. Só sinto que
Mike tenha perdido.
— Eu também sinto. Você pode dizer
isso a ele?
92
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas é claro que sim. Bem, é melhor


eu ir agora e salvar Mike de meu pai. Ele
pode ser agressivo quando perde.
— Mike ou seu pai?
— Os dois. Geralmente faço o papel de
mediadora.
— Então não vou mais segurar você. Até
logo.
— Até logo, Rachel. Darei o seu recado a
Mike.
— Obrigada mais uma vez.
Rachel virou-se e foi embora, lutando
desesperadamente contra as lágrimas.
Mas o que esperava? Era lógico que o
convite havia sido feito por gratidão.
— Chegou cedo, querida — disse a Sra.
James ao ver a filha entrar em casa. —
Pensei que não viesse para o jantar.
— Você viu o jogo, mamãe?

93
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Vi, sim. E não me admiro que o Sr. St.


Clare não sinta muita vontade de ter
companhia hoje.
Bem, dependia de que tipo de
companhia!
— É verdade.
— O jantar está quase pronto. Vamos
comer?
— Vamos.
Rachel não tinha fome, mas resolveu
comer assim mesmo.
— Olhe que gracinha este macacão que
tricotei para a filhinha da Sra. Lennon —
disse a Sra. James após o jantar. — Será
que ela vai gostar?
— É lindo, mamãe — respondeu Rachel,
admirando a perfeição do trabalho.
— Comecei ontem à noite e terminei
hoje, enquanto assistia à partida. É fácil
fazer um macacãozinho tão pequeno!
94
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas acho que pode ficar um pouco


grande para Eve Rachel... Ah! Contei que
o bebê vai se chamar Eve Rachel em
minha homenagem?
— Eu li no cartão do Sr. Lennon e achei
muito simpático da parte dele. Ah, nós
vimos você na televisão, querida.
— O quê?
— Você foi focalizada duas vezes. Estava
sentada perto do técnico, não estava?
Rachel confirmou.
— E quem estava entre vocês dois?
— Susy Freeman, a filha do técnico.
— Filha de Sam Freeman?
— Sim.
— Essa Susy é linda!
— É mesmo. Mamãe, você acha que é
muito tarde para levar este macacão até
o hospital? — disse ela, tentando mudar
de assunto.
95
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Falar sobre a beleza de Susy Freeman


era demais para seus nervos.
— Não, não é tarde. Mas...
— Então vou levá-lo agora. Não demoro.
— Mas Rachel...
— O que foi mamãe?
— Não chegue tarde, querida. Lembre-
se de que amanhã você tem aula.
Rachel tomou um ônibus e logo chegou
ao hospital. A recepcionista indicou-lhe o
quarto de Kay Lennon e ela dirigiu-se
para lá. Quem abriu a porta foi um
homem de cabelos curtos, com mais ou
menos 30 anos. Vestia-se de modo muito
formal e tinha um rosto sério.
— Rachel! Entre, querida — disse Kay
ao vê-la. — Não a deixe ficar aí parada,
Richard! Faça-a entrar!

96
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Richard Lennon não era nada do que ela


esperava. Era sério demais, comparado à
alegre personalidade da esposa.
— Agradeça a sua mãe por mim — disse
Kay docemente ao ver o lindo
macacãozinho cor-de-rosa.
— Talvez fique um pouco grande...
— Do jeito que Eve Rachel está
comendo, logo logo vai servir direitinho!
— disse Richard, e Rachel achou que ele
não era tão sério quanto parecia.
— Você quer segurar um pouco minha
filha? — perguntou Kay, entregando o
bebê a Rachel.
Ela tomou a criança nos braços e viu que
tinha lindos olhos azuis.
— Sua filha é linda, Kay!
— Sabe, no primeiro dia eu morria de
medo de pegá-la. Ela parecia de

97
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

porcelana, tão frágil... Dava a impressão


de que ia quebrar!
— E agora você a joga como se fosse um
saco de batatas! — disse uma voz
familiar.
— Mike! — saudou Kay alegremente.
Rachel virou-se e o viu fechando a porta.
Vestia jeans e tinha o rosto cansado.
— Oi, Rachel. — O cumprimento foi frio
e distante.
— Oi — disse ela, engolindo em seco.
— Mike o que houve? Eu tinha certeza
de que você iria vencer! — disse Kay.
— Eu também, mas acho que me distraí
um pouco e Paul se aproveitou disso.
Mike evitava olhar para Rachel e
procurava ignorá-la.
— Quem sabe no próximo ano... —
encorajou-o Richard. Mike balançou a
cabeça.
98
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não sei não, mas acho que não vai


haver um próximo ano.
— Você está querendo abandonar o
tênis? — protestou Kay.
Rachel sentiu-se mal por presenciar
aquela discussão. Foi até a janela e fingiu
olhar o tráfego, muito intenso àquela
hora. Embora tentasse não participar da
conversa e brincar com o bebê, podia
ouvir tudo.
— Ora, Kay, eu não vou poder jogar
tênis para sempre!
— Mas é ridículo parar aos trinta anos!
— Eu já tenho muito dinheiro. Agora
chega.
— Eu não estou falando em dinheiro,
Mike. Sei que isso você tem de sobra. Falo
no que gosta de fazer, em realização
profissional. Veja o caso de Newcombe,
por exemplo.
99
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Acontece que não tenho a categoria


dele.
— Não fale isso, Mike. Meu Deus, você só
perdeu uma partida!
— E a chance de disputar à final.
— Mas não é nenhuma vergonha perder
para Paul Shepley!
— Eu não disse isso. Disse apenas que já
é hora de me afastar das quadras.
— Quando se chega a uma semifinal de
Wimbledon não é hora de pensar em
afastamento!
Rachel concordava com Kay. A idéia de
Mike era absurda. Mas aquela era uma
discussão de família e ela resolveu ficar
quieta. De qualquer modo, Mike não iria
se importar com sua opinião.
Ele estava muito deprimido e não
parecia o homem alegre e divertido da
noite anterior. Rachel tentou imaginar o
100
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

que teria acontecido com os esforços de


Susy Freeman para consolá-lo. Talvez ela
ainda não tivesse começado... Afinal, era
cedo.
— O que você acha Rachel? —
perguntou Kay.
Ela virou-se.
— Desculpe Kay, mas não estava
prestando atenção à conversa.
— Você não acha que Mike é bom
demais para parar?
Rachel o olhou com desespero.
— Acho que o Sr. St. Clare não está
muito interessado na minha opinião.
Mike franziu a testa.
— Ao contrário. Eu gostaria muito de
ouvi-la.
Rachel viu cinismo naquele olhar.

101
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Concordo com sua irmã. Quando


alguém chega a uma semifinal em
Wimbledon, não pode querer parar.
— Eu não disse? — falou Kay,
triunfante. — Você é muito bom para
parar. Está só um pouco deprimido, e isso
é normal. Assim que começar a sua nova
tournée em Boston vai se sentir muito
melhor.
Kay falava muito, mas Rachel não ouvia.
Queria saber por que Mike ignorava
daquele jeito.
— E fique sabendo que você é um tio
muito desnaturado, ouviu? Nem olhou
para a sua sobrinha!
A voz de Mike era cortante quando
disse:
— Não olhei mesmo, Kay. Parece que
Rachel resolveu monopolizar o seu bebê
hoje!
102
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Aqui está sua sobrinha — disse-lhe, e


entregou-lhe o bebê. — E agora, com
licença.
Rachel deixou o quarto
apressadamente, segurando as lágrimas.
Aquilo era demais. Estava furiosa com
Susy Freeman, furiosa com Mike, furiosa
consigo mesma... Não estava entendendo
o porquê de tanta hostilidade.
— Rachel?
Era Mike, que se aproximava.
— Sim. Sr. St. Clare?
— Sr. St. Clare? Você ficou louca,
Rachel?
— É o seu nome, não é?
— Engraçado, até há pouco tempo você
me chamava de Mike...
— Se prefere que eu o chame de Mike,
será Mike. Não terá muita importância, já
que nós temos tão pouco tempo.
103
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Por que você foi embora, Rachel?


Aquilo a pegou de surpresa.
— E não era para ir?
— Não! Você sabia que eu queria que
ficasse ganhando ou perdendo!
— É que... Bem, é que a Srta. Freeman...
— Susy me deu o seu recado.
— Mas que recado, Mike?
— Ora, o recado de que você sentia
muito a minha derrota e adeus! Foi isso,
não foi? Ninguém ama um perdedor, não
é?
— Eu não entendo Mike! O que quer
dizer?
— É óbvio! Eu perco você vai embora.
— Acontece que só fui por que...
Rachel achou melhor omitir o nome de
Susy Freeman. Afinal, Mike a conhecia há
muito tempo. Preferiu não falar nada.

104
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Fui embora porque achei que você


iria preferir ficar sozinho.
— Logo quando perco uma das partidas
mais importantes da minha carreira? Eu
a queria a meu lado! Você não imagina o
que senti quando Susy me transmitiu a
sua despedida
— Mas eu não quis dizer adeus! Só achei
que você não iria querer companhia! É
verdade, acredite em mim!
Mike a olhou demoradamente.
— Então prove Rachel.
— Provar?
— Jante comigo.
Rachel procurou um ar de zombaria
naqueles olhos azuis, mas não encontrou.
— Mas eu já jantei.
— E que tal um drinque?
— Está bem.

105
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel mal acreditava naquilo.


Lembrou-se de Susy Freeman e de seus
"esforços" para consolar Mike. O que
teria acontecido com eles? Mike
conduziu-a até o carro e abriu-lhe a
porta.
— Sabe Rachel, estou morrendo de
vontade de ficar bêbado. Você me
acompanha?
— Eu...
— Ah, eu tinha esquecido. Você não
bebe. Mas preciso de um drinque e quero
companhia. Ajude-me.
— Mas eu não disse que não bebo.
Tomei vinho ontem, lembra-se? Só não
bebi muito porque tinha aula hoje.
— E por falar em aulas, o que disse o seu
namoradinho? Danny havia dito coisas
muito desagradáveis, mas Rachel não
quis comentá-las.
106
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ele não disse nada, Mike. E não é mais


meu namorado. Para onde estamos indo?
— Eu quero ficar bêbado, Rachel, mas
não quero uma multa por dirigir
embriagado.
— Isso quer dizer que...
— Que nós vamos tomar este drinque
no meu apartamento.

CAPÍTULO IV

Rachel estava uma pilha de nervos


quando chegou ao apartamento de Mike.
Lembrou-se de seu embaraço na noite
anterior; temia pelo mau humor de Mike,
mas não queria agir como uma criança
boba.
107
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ele foi direto às bebidas e serviu-se de


uma dose dupla de uísque.
— Você me acompanha Rachel?
— Eu prefiro vinho.
— Vinho? Tem certeza?
— Sim. Vinho branco. Você tem?
A expressão de Mike mostrou que ele
não aprovava a escolha.
— Vinho branco? Devo ter, sim, na
cozinha. Prefere seco ou doce?
— Seco, por favor. Mike franziu a testa.
— Tem certeza de que não prefere
tomar champanhe? Para brindar à minha
derrota?
Rachel mordeu os lábios, nervosa. Ele
continuava cínico e mal-humorado.
— Não quero champanhe. Prefiro vinho.
— Vou ver o que tenho.
Rachel sentiu-se aliviada quando Mike
desapareceu na cozinha. Sentia que
108
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

estava diante de uma bomba-relógio,


prestes a explodir a qualquer momento.
— Aqui está — disse ele, voltando à sala.
— E sabe de uma coisa? Também vou
tomar um pouco — serviu Rachel e
depois serviu-se. — Até que não está mal
— disse, esvaziando o copo.
Ela ficou preocupada. Aquele
comportamento sarcástico não lhe
agradava. Nem o jeito como misturava as
bebidas. Lembrou-se da calma e do
espírito esportivo com que ele encarara o
final da partida e surpreendeu-se com
aquela amargura.
— Quer mais vinho?
— Não, obrigada. Mike, você acha que
deve?
— Devo o quê? — o sorriso dele era
cruel.

109
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Você acha que deve beber tanto


assim? Amanhã vai estar com uma
ressaca terrível e...
— Pode ser — disse ele, sentando no
sofá e colocando os pés na mesinha em
frente. — Mas, esta noite, com você aqui,
vou me sentir fantástico!
Rachel levantou-se.
— Talvez eu deva ir embora. Já está
ficando tarde.
— Sente-se!
— O que foi que disse. Mike?
— Desculpe Rachel. Acho que estou
esquecendo de ser educado.
— Talvez seja melhor você ficar
sozinho.
— Não! Pelo amor de Deus, Rachel, pare
de ficar falando em ir embora! Eu preciso
de você esta noite. Meu Deus, eu preciso

110
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

da sua beleza, da sua juventude! Fique


comigo! Se soubesse como eu te quero.
Rachel assustou-se com aquele tom de
súplica e sentou-se de novo Procurou
mudar de assunto.
— Sua irmã está sempre tão alegre, não?
— Não há nada que faça Kay infeliz,
pode acreditar! — Mike serviu-se de mais
uísque. — Ela é daquelas pessoas que
estão sempre felizes. Ao contrário de
Richard, que é muito pessimista.
— Posso imaginar.
— E o engraçado é que eles formam um
dos casais mais perfeitos que já conheci!
Richard traz Kay de volta ao mundo e Kay
o alegra com o seu bom humor.
— Eles moram em Londres?
— Moram, sim. Richard nasceu aqui e
Kay não se importa onde more desde que
esteja com ele.
111
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Que bom!
— Como eu disse, eles são muito felizes!
Durante as horas que se seguiram Mike
encheu o copo várias vezes, preocupando
Rachel. A voz dele parecia ficar cada vez
mais fraca, mas pela conversa que
mantinham, ela podia notar que
continuava lúcido e alerta.
Mas Rachel logo percebeu, com certo
desespero, que ele tinha bebido todo o
uísque da garrafa enquanto ela se servia
do segundo copo de vinho. Mike não
poderia levá-la para casa naquele estado.
Pensou em como resolver isso quando o
ouviu dizer:
— Será que você pode me ajudar a ir
para a cama? Suspirou, aliviada. Pelo
menos ele iria dormir um pouco.
— É claro que ajudo.

112
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Aproximou-se e colocou o braço ao


redor da cintura dele, que se apoiou nos
ombros dela. Assim que chegaram ao
quarto, Mike sentou-se na cama.
— Só que você vai ter que tirar a minha
roupa também. Acho que não vou
conseguir fazer isso sozinho.
Rachel mordeu o lábio.
— Será que você não pode dormir
vestido?
— É claro que não!
Rachel nunca se sentiu tão desajeitada
como nessa hora. Ajudou-o a tirar a
camisa e sentiu um frio na espinha
quando viu aquele peito másculo e
bronzeado. Estava indecisa quanto a tirar
ou não os jeans de Mike quando ele
deixou-se cair no travesseiro, num sono
profundo. Não teve escolha. Abriu o zíper
da calça e procurou tirá-la com cuidado.
113
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Depois pegou um cobertor e o cobriu.


Quando estava saindo do quarto, o
telefone começou a tocar. Apressou-se
em atendê-lo antes que o barulho
acordasse Mike.
— Alô? — disse ofegante.
— Quem está falando? — perguntou
uma voz feminina já conhecida. Susy
Freeman! O tom era arrogante e ela
parecia estar aborrecida por Mike estar
com outra mulher no apartamento.
— É Rachel James.
— Rachel? Posso falar com Mike?
— Não, acho que não.
Não queria que ela soubesse que Mike
estava bêbado, não importava que tipo de
relacionamento tivessem.
— Por que não posso falar com ele?
— É que está dormindo. Estava muito
cansado.
114
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ah, não diga!


— Ei, quem está ao telefone? — disse
uma voz atrás dela.
Rachel virou-se com espanto e viu Mike
aproximar-se, usando somente a cueca.
Seus cabelos estavam em desalinho.
Rachel estendeu-lhe o fone.
— É a Srta. Freeman.
— Susy? Mas que diabo ela quer?
— Não faço idéia.
— Tudo bem, eu atendo — disse,
pegando o fone e segurando o braço de
Rachel com a outra mão. — Não vá,
Rachel. Fique comigo.
— Mas...
— Fique por favor! — apertou-lhe o
punho com suavidade e começou a falar
ao telefone. — Oi. Susy! Que tal meter-se
na sua própria vida? Pare de ficar atrás
de mim o tempo todo! Quando quiser
115
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

algum conselho, eu peço, ouviu bem? — e


desligou.
— O que ela queria?
— Queria se meter na minha vida. Mas
não permito que ninguém faça isso.
Mike a puxou.
— Você não devia ter-me deixado
dormir, Rachel — o tom de voz havia
mudado; ele estava calmo e gentil.
— Eu não me lembro de tê-lo deixado
dormir, Mike. Para falar a verdade, pensei
que você tivesse desmaiado.
Mike balançou a cabeça.
— Se eu tivesse desmaiado, não estaria
aqui agora. A partida de hoje e o uísque
fizeram com que dormisse um pouco.
Mas estou bem agora. Talvez o
telefonema de Susy tenha servido para
alguma coisa, afinal...
— Por quê?
116
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Hum... Porque você estava prontinha


para escapar, não estava?
Rachel preferia não estar tão perto dele.
Ficar assim tão próxima àquele corpo
tentador a deixava embaraçada.
— É verdade, eu já estava indo embora.
— Mas, se o telefonema de Susy não
tivesse me acordado, eu acordaria de
qualquer jeito.
Rachel procurou afastar-se, mas Mike
passou-lhe os braços ao redor da cintura
e a apertou com força, falando com voz
rouca e sensual:
— Ei, querida, sinto muito pelo modo
como me comportei hoje. Mas já estou
bem, o meu mau humor já passou.
— É melhor que eu vá embora, Mike.
— Não, por favor, não vá. Eu estou bem
agora.
— Sei disso, mas...
117
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu disse que estou bem, Rachel. — As


mãos de Mike tocaram o rosto de feições
delicadas e ele a beijou demoradamente.
— Seus lábios são lindos, Rachel —
murmurou com voz rouca. — Macios e
convidativos, com gosto de...
— Com gosto de vinho — brincou ela,
escondendo a vergonha. Mike sorriu.
— Eu ia dizer que tinham gosto de mel.
Vou tomar um bom banho. Não demoro,
está bem?
— Ainda acho melhor ir embora...
— Não. Eu preciso muito de você. Não
quero ficar sozinho esta noite.
— Então eu o espero, Mike — como
poderia ir se ele havia dito que precisava
dela?
— Volto em cinco minutos — prometeu
ele, beijando-a na ponta do nariz.

118
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel ficou pensativa. Devia ir embora


logo; já era tarde e seus pais não sabiam
onde estava.
— Rachel.
Ela virou-se e viu que Mike se
aproximava. Tinha apenas uma toalha em
volta da cintura e seu cabelo ainda estava
molhado. Chegou bem perto dela.
— Eu devia ter perguntado se você
também queria tomar banho...
— Não, eu... Acho que não.
Mike tomou o rosto de Rachel nas mãos,
beijando-lhe os cabelos e o pescoço.
— Meu Deus, Rachel, eu quero você.
A paixão daquelas palavras fez com que
ela se entregasse completamente àqueles
braços musculosos e fortes.
Mike a pegou no colo e levou-a até o
quarto. Rachel ainda tentou protestar,
mas foi cedendo e seu corpo amoleceu
119
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

quando Mike a colocou na cama,


beijando-a loucamente. Não protestou
quando ele lhe desabotoou a blusa e
estremeceu ao sentir aquela boca úmida
beijando-lhe os seios. Um fogo ardente
envolvia-lhe o corpo. Nenhum outro
homem a havia tocado tão intimamente.
Mike desceu o zíper da calça dela,
tirando-lhe também a calcinha. E então
eles se amaram com o ímpeto de uma
paixão selvagem, perdendo a noção de
tudo que se passava ao redor. Depois,
exaustos, adormeceram um nos braços
do outro.
Quando Rachel abriu os olhos,
encontrou Mike vestido, sentado na
poltrona do quarto, observando-a com
ironia. Aquela expressão a assustou. Não
havia sombra de paixão naqueles olhos
azuis.
120
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Conseguiu o que queria Rachel?


Ela tomou consciência de sua nudez e
procurou vestir a blusa. Mike continuava
a observá-la friamente, com cinismo.
O que ele estaria pensando? Ela mal o
conhecia; só sabia que era um tenista
famoso que detestava perder e que
gostava de mulheres. E que tinha muita
experiência em fazer amor! Ele soubera
exatamente como agir para acabar com
todas as inibições dela e reduzi-la a uma
pobre apaixonada... Apaixonada? Mas
onde o amor entrava naquilo? Amava
Mike?
Ela sempre havia desejado um amor que
crescesse cada vez mais com o passar do
tempo, um amor seguro, que inspirasse
confiança. Como amar alguém que não se
conhece?

121
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu fiz uma pergunta, não ouviu? —


disse Mike.
Rachel mordeu o lábio e sentou-se na
cama, sentindo as pernas moles.
— Eu não entendi a sua pergunta —
respondeu, tentando imaginar se aquele
homem era o mesmo que há poucas
horas lhe havia sussurrado tantas
palavras apaixonadas.
— Ora, Rachel, não sei como não pensei
nisso antes. Ah, meu Deus, pensei que
você fosse como as outras com quem saí,
pensei que fosse experiente... Mas não,
você era virgem! Imagine, uma virgem na
minha cama! Por acaso o seu encontro
com Kay foi acidental ou você planejou
tudo só para me conhecer? Rachel mal
podia acreditar naquelas palavras.
— Como eu poderia ter arranjado a
gravidez de sua irmã?
122
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não a gravidez de Kay, mas talvez a


sua... Rachel empalideceu.
— O que quer dizer? Não estou
entendendo!
— Não tente agir como se tivesse saído
de um convento! Você sabe do que estou
falando!
— Não estou entendendo nada, ouviu?
E, se você está sugerindo que eu devo ir
agora, eu vou. Não há necessidade de ser
tão desagradável!
— Desagradável! Você e a sua maldita
formalidade britânica! Eu ainda nem
comecei a ser desagradável, se quer
saber!
Ela se levantou, trêmula de raiva.
— Eu vou embora.
Ele a segurou com força, chegando a
machucá-la.

123
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Você não vai a lugar nenhum


enquanto tudo não estiver resolvido!
— Está tudo resolvido, Mike. Adeus.
— Até que você me venha reclamar a
paternidade do seu filho, não é?
— O quê? Mas que história é essa de
paternidade? Você ficou louco?
— Não se faça de boba! — disse ele,
sacudindo-lhe o braço. — Eu não fiz nada
para evitar e, levando-se em conta que
era virgem, nem você. A menos que tenha
planejado tudo... Por acaso planejou
perder a virgindade na cama de um
tenista famoso?
— Não!
— Então se case comigo! Nenhum filho
meu vai crescer pensando que eu não o
quis! Sofri muito na infância e não quero
isso para os meus filhos. Mas vou fazê-la
pagar por essa estupidez!
124
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela estava cada vez mais pálida e


assustada com toda aquela brutalidade.
— Acontece que você não vai me ver de
novo. Portanto, não poderá fazer com que
eu pague por qualquer coisa.
— Você não acha que eu pretendo
resolver tudo com um advogado, como
meu pai fez, acha?
— Resolver? Advogado? Do que está
falando, Mike? Não há nada o que
resolver. O que está feito está feito.
Vamos terminar logo com isso.
— Terminar? Você não sabe que pode
existir um bebê nessa história? Meu
bebê!
Uma criança! O fruto daquela noite
cheia de loucura! Estranhamente, a idéia
não assustou Rachel. Seus pais a amavam
e sem dúvida ficariam a seu lado. Mas, e
Mike? Ele não parecia ser o tipo de
125
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

homem que ignoraria o próprio filho. A


possibilidade, entretanto, era tão
remota...
— Mike, você está sendo muito
precipitado! Nós só fizemos amor uma
vez!
— Não seja ingênua! Você não sabe que
uma vez é mais que suficiente?
— Ouça: se eu ficar grávida, não vou
reclamar nada!
— Tenho certeza de que minha mãe
disse a mesma coisa a meu pai... Antes de
entrar com um processo judicial!
— Mas que história é essa, Mike? Não
estou entendendo nada!
— Minha mãe entrou com um processo
de reconhecimento de paternidade e
infernizou a vida de meu pai até não
poder mais. E eu cresci naquele ambiente
horrível, de disputas, sabendo que não
126
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

era amado nem desejado! Mas você não


vai fazer o mesmo, porque vamos nos
casar.
— Acontece que eu não quero casar com
você.
Mike chegou perto dela.
— Ah, vai, sim. Nenhum filho meu vai
crescer sem lar.
— Não! Não vou me casar, ouviu? Por
nada neste mundo eu casaria com você!
Nunca!
— Vamos nos casar sim, Rachel.
— Nunca! Você não pode me obrigar a
fazer isso!
— Bem, veremos!
— Ora, Mike, não seja ridículo! Sequer
sabemos se posso ficar grávida! Por que
não esperar algumas semanas?
— E deixar todos saberem que você se
casou grávida? Ouça, sou filho ilegítimo e
127
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

sei como isso é terrível. A sociedade é


tola, preconceituosa, não aceita. Sem
contar que todo o escândalo prejudicaria
a minha carreira. Já estou até imaginando
as fofocas!
— Pare de supor que existe uma
criança!
— Não quero correr o risco!
— Bem, tudo isso já está me deixando
irritada. Nunca mais quero vê-lo, quanto
mais me casar! Não seja tão pretencioso!
Vou embora e pretendo esquecer que um
dia o conheci. Até nunca mais!
Saiu correndo e bateu a porta com força.
Chegou rapidamente à calçada e foi com
alívio que entrou num táxi e rumou para
casa.
Dentro do táxi, virou a cabeça e olhou o
apartamento de Mike. Era inacreditável
que tivessem feito amor há poucas horas!
128
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Não ousou questionar o próprio


comportamento nem seus sentimentos
por Mike. Só pôde pensar que aquela
noite tinha sido um erro, um erro que
deveria ser esquecido.
Seus pais ainda estavam acordados
quando ela chegou. Tentou agir com
naturalidade e logo subiu para seu
quarto. Não queria que eles percebessem
nada.
Deitou-se e deixou-se ficar, olhando
para o nada. Poderia estar carregando o
filho de Mike no ventre!
Enterrou a cabeça no travesseiro,
soluçando.
— Deus do céu, e agora? E se ele estiver
certo?
O pior era que Mike pensava que tudo
aquilo fora feito de propósito...

129
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

No dia seguinte, ela mais parecia um


fantasma. Estava se sentindo péssima,
mas achou melhor ir à Universidade para
não despertar suspeitas. Passara a noite
em claro e a voz ameaçadora de Mike
ainda ecoava em seus ouvidos. Sentia-se
perdida.
— Que aconteceu, Rachel? Você está
horrível! Rachel procurou ignorar o
comentário de Cynthia.
— Rachel?
— O que foi?
— Algo errado?
— Não, nada. Está tudo bem.
— Mas você não parece estar bem.
— É que estou um pouco indisposta. Só
isso.
— Dor de cabeça?
— É, um pouco.

130
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Cynthia começou a remexer em sua


bolsa.
— Acho que tenho uma aspirina...
— Obrigada, já tomei — Rachel recusou
o remédio, sabendo que poderia arriscar
enquanto não soubesse se estava grávida
ou não.
Cynthia sentou-se a seu lado.
— Você está triste porque Mike St. Clare
perdeu? A partida de tênis, a derrota de
Mike e seu desapontamento pareciam ter
acontecido há tanto tempo!
— Alguém tinha que perder, Cynthia.
— Mas é que...
— Fique quieta. O professor Adams vai
começar a aula! Mas era como se o
professor estivesse falando grego o
tempo todo. Ela não entendeu nada e não
conseguiu se concentrar. Sua mente
parecia entorpecida. Mas, afinal, nem
131
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

tudo estava perdido. Talvez não ficasse


grávida e Mike não poderia forçá-la a
nada.
— Onde está o seu famoso tenista? —
disse uma voz familiar, na hora do
intervalo.
Rachel e Cynthia tinham decidido tomar
um café — frio, como sempre — na
cantina da Universidade e mal haviam
trocado duas palavras. Rachel olhou para
Danny, que sentou-se à mesma mesa.
— Perdeu. Que pena, não? — disse com
um sorriso de satisfação nos lábios.
Ela o olhou friamente.
— Não era a namorada dele que estava
a seu lado, Rachel? Ela se irritou. Não
podia imaginar que Danny fosse tão mau
caráter e vingativo.
— Ela é linda, sofisticada. —
acrescentou.
132
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel pensou em Susy Freeman, que


na certa nunca teria caído naquela
armadilha. Ficou pálida só em pensar
naquilo.
— Quer dizer que o tenista deu o fora
em você e arranjou outra? continuou ele.
— Vá embora — disse Cynthia. — Vá
divertir os seus amiguinhos com as suas
palhaçadas. Não vê que não suportamos
você?
— Vamos embora — disse Rachel,
levantando-se.
— Não durou muito, não é, Rachel? — a
ironia de Danny era insuportável.
— Vá pro inferno! — disse Cynthia.
Voltando para a classe, Cynthia tentou
encorajá-la:
— Por favor, Rachel, anime-se. Tenho
certeza de que, seja lá o que estiver

133
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

acontecendo, não deve ser tão ruim


assim.
— É pior!
— Algo que você queira me contar?
— Não, Cynthia, prefiro não contar. Mas
obrigada pelo apoio.
— Quando precisar de uma amiga sabe
que pode contar comigo. Rachel
procurou sorrir e agradeceu. Pensou na
terrível hipótese de estar grávida. Não
tinha dúvidas de que os pais aceitariam o
fato e ficariam a seu lado, mas seria muito
difícil dizer-lhes. Lembrou-se dos exames
que se aproximavam e achou que seria
reprovada se continuasse naquele
estado, naquela depressão.
— Ei, Rachel, acho que isto vai alegrar
você! — sussurrou Cynthia quando
deixavam a Universidade.
— O quê?
134
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Olhe lá adiante.
Rachel olhou e quase desmaiou quando
viu o Jaguar de Mike estacionado no
meio-fio. Assim que ele a viu, caminhou
em sua direção.
Rachel pensou em sair correndo, mas o
orgulho fez com que ficasse e o
enfrentasse. Se ele queria guerra, era
guerra que iria acontecer.
— Olá, Cynthia — disse ele,
cumprimentando-a primeiro.
— Como vai, Sr. St. Clare? Ele virou-se e
encarou Rachel.
— Vamos?
— Eu...
— Você quer uma carona hoje, Cynthia?
— Aceito.
— Vamos indo, então?
Rachel estava numa posição difícil e não
teve como recusar.
135
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Vamos. Mas acontece que Cynthia e


eu temos um trabalho para fazer. Acho
melhor você nos deixar na casa dela.
Mike abriu a porta do carro para que
elas entrassem.
— Não pode ficar na casa de Cynthia,
Rachel. Seus pais estão nos esperando...
— O quê? Meus pais? Você esteve com
eles?
— Acabei de deixá-los.
Rachel sentiu-se perdida. Por um
momento achou que Mike havia contado
tudo, mas logo afastou aquele
pensamento terrível.
Parecia estar num pesadelo. E foi nesse
estado que viu Cynthia descer do carro e
entrar em casa, sorrindo às gentilezas de
Mike.
Uma gentileza que desapareceu assim
que eles ficaram a sós.
136
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Escute aqui. Sr. St. Clare...


— Essa formalidade vai parecer muito
estranha quando chegarmos à sua casa,
Rachel.
— E posso saber por quê?
— Porque seus pais estão nos
esperando para discutirmos os
preparativos do nosso casamento!

CAPÍTULO V

— Você ficou louco?


As mãos de Rachel tremiam e ela estava
pálida. Mike encolheu os ombros.
— Bem, já que você não disse a eles que
vamos nos casar, eu tive que contar.

137
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não! Você não tinha esse direito! E eu


não vou me casar! — Rachel percebeu
que o pesadelo da noite passada ainda
não havia terminado.
— Vai, sim — o sorriso dele era irônico.
— Posso saber o que meus pais
disseram?
— Ficaram um pouco surpresos.
— Ora. surpresos! Tenho certeza de que
ficaram muito mais do que isso!
— Talvez tenham ficado um pouco
desapontados por você não ter falado
nada...
— Um casamento não se resolve assim,
ouviu Mike? — disse Rachel
amargamente. Havia lágrimas em seus
olhos, que ela procurava esconder.
— Sabe o que contei a seus pais?
— Meu Deus, Mike, o que foi que você
disse?
138
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não contei a eles que fizemos amor,


se é isso que quer saber. Quanto menos
pessoas souberem, melhor!
— Então posso saber o que você falou?
— A cabeça dela rodava, e Rachel não
conseguia coordenar as idéias.
— Falei que estamos apaixonados e
queremos nos casar antes da minha
tournée em Boston.
— Mas isso é mentira!
— Acontece que seus pais são pessoas
um tanto quanto conservadoras e tenho
certeza de que ficariam muito chocados
com a verdade, não acha?
— Ficariam muito mais chocados com
as suas mentiras!
— Eu acho que não. Seus pais ainda
pensam que você é uma menina pura e
inocente.

139
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Por favor. Mike, eu não quero me


casar com você por causa de uma simples
noite de amor!
— Que você não quer se casar comigo
estou cansado de saber — disse Mike,
rindo. — Mas eu já disse que não há
escolha. Talvez muitos homens, no meu
lugar, agissem de modo diferente, não
assumindo a criança ou coisa parecida.
Mas eu não quero isso para meus filhos.
Eu desejo este filho, ouviu bem?
— Sabe, Mike, para mim você é
completamente louco! O que aconteceu,
aconteceu! Ninguém precisa se casar por
isso!
— Não pense que eu a quero como
esposa, Rachel.
— Nem eu o quero como marido!
— Eu sei. Mas agora é tarde.

140
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel desistiu de discutir. Era


impossível argumentar com um homem
daqueles.
— Meus pais não vão acreditar que
estamos apaixonados.
— É lógico que vão.
— Não vão, já disse. O amor não
acontece assim, de repente.
— Quer saber de uma coisa, Rachel?
Seus pais se casaram uma semana após
terem se conhecido...
— Não é verdade!
Mike a olhou com ironia e sorriu.
— Você não sabia?
— Não!
— Mas é verdade. Sua mãe me contou
que estava com vinte e poucos anos
quando se apaixonou perdidamente por
seu pai. Foi fácil convencê-los de que nós
também estamos apaixonados e
141
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

queremos nos casar antes que eu vá para


Boston, na semana que vem.
— Semana que vem? Mas eu não posso
casar na semana que vem!
— Pode, sim — disse Mike com
arrogância, parando o carro em frente à
casa de Rachel. — E não pretendo
discutir isso na frente de seus pais.
Lembre-se de que eles ficariam muito
chocados com a verdade.
Aquilo era demais. Aquele homem, além
de louco, era um chantagista! Rachel
sentiu que não poderia casar com ele
naquela semana ou em qualquer outra.
Nunca, aliás.
— Meus pais vão entender se eu lhes
contar a verdade, tenho certeza.
— Não. E já falei que estou apaixonado
e quero me casar — de repente o tom da
voz dele mudou, tornou-se muito
142
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

sensual. — Talvez você não ache a idéia


do casamento assim tão má.
Rachel procurou não se deixar levar por
aquelas palavras. Já tinha caído na
armadilha uma vez e não pretendia cair
de novo.
Mas, nesse momento Mike tocou
sensualmente seus lábios e ela
estremeceu.
— Afinal — continuou ele —, o
casamento também tem suas
recompensas...
A voz de Mike, rouca e cheia de desejo,
não fazia lembrar o homem agressivo de
instantes atrás. Ele tomou o rosto de
Rachel nas mãos e a beijou com loucura.
Ela sentiu que era impossível resistir
àquele beijo e, nesse momento, esqueceu
o ódio, o ressentimento. Ficava
enfeitiçada cada vez que ele a tocava.
143
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E se eu não estiver grávida? —


perguntou ela, ainda nos braços dele.
Ao som daquelas palavras o rosto de
Mike endureceu e ele voltou a ser
agressivo.
— Bem, se não estiver grávida, você sai
de minha vida. Rachel encolheu-se como
um animalzinho assustado.
— Você parece surpresa. O que
esperava que eu fizesse? Uma declaração
de amor?
— Não.
— Ainda bem, porque não vou fazer
declaração nenhuma, ouviu? Nunca!
Agora vamos entrar, porque seus pais
estão esperando. Eles pensam que
estamos apaixonados e espero que você
não faça nada para desmentir isso.
Rachel sentia-se sem forças para
discutir com aquele homem arrogante e
144
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

autoritário. Resolveu ceder. Depois


pensaria numa forma de fazê-lo entender
a própria loucura.
— Nós tentamos persuadir Mike a
esperar mais um pouco para ver se é
exatamente isso que vocês querem.
Mike passou o braço pelos ombros de
Rachel.
— Nós já sabemos o que queremos Sr.
James. Queremos nos casar, não é
mesmo, querida?
— Eu... Nós queremos, sim.
— Mas tudo aconteceu tão depressa! —
interrompeu a Sra. James. — E lembre-se
de que você tem exames finais dentro de
duas semanas, querida.
Os exames! Rachel os tinha esquecido
completamente.
— Acredito que você não se importe que
sua esposa tenha uma profissão, não é?
145
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— De modo algum, Sr. James. Rachel


tem o direito de fazer o que achar melhor.
Ela julgou que teria uma chance de cair
fora de toda aquela confusão. Tomou
coragem e disse claramente.
— Eu quero prestar os exames. Acho
que é melhor adiarmos o casamento.
— Não — interveio Mike. — Não é
necessário. Você pode ficar e prestar os
seus exames. Eu vou estar mesmo muito
ocupado em Boston.
— Eu sei, mas...
— Ora, querida, pense bem. Por que
adiarmos o casamento? — Os dedos de
Mike tocaram a pele de Rachel e ela
sentiu-se em brasa.
— Acho que você tem razão.
O Sr. James percebeu a hesitação da
filha e franziu a testa.

146
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Se você não está segura da sua


decisão, é melhor falar agora, minha
querida. Vocês se conhecem há tão pouco
tempo!
— Mas nós queremos mesmo ficar
juntos, Sr. James. Espero que o senhor
entenda, queremos agir de modo correto,
dentro das normas estabelecidas. Nada
de agir impetuosamente. É por isso que
precisamos nos casar.
O Sr. James corou ao perceber o
significado daquelas palavras.
— Rachel ainda é muito jovem, mas
você é um homem experiente. Com
certeza poderá controlar a situação.
Ela começou a ficar pouco à vontade
com o rumo da conversa. Não estava
acostumada a discutir assuntos íntimos
na frente dos pais. E, com certeza, ficaria
muito mais embaraçada se tivesse que
147
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

contar a eles que já havia feito amor com


Mike, que a olhava com ironia e parecia
estar se divertindo com tudo aquilo.
— É exatamente por ser um homem
experiente que sei quanto à situação
pode ser perigosa.
O Sr. James balançou a cabeça.
— É isso que você quer minha filha?
— Eu... — começou Rachel, Mike passou
os dedos no rosto dela, que mais uma vez
sentiu-se em brasa. — É isso mesmo que
quero papai.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Então acho melhor começarmos os
preparativos.
Mike a olhou com ar de triunfo,
enquanto a Sra. James a abraçava,
emocionada.

148
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu não tive escolha, Mike! Foi por


isso que aceitei! Mas a idéia de ser sua
mulher me enoja!
— Não teve escolha mesmo, Rachel.
Bem, volto para apanhá-la às sete. Aí
poderemos visitar Kay e contar-lhe as
novidades. — Mike franziu a testa ao
percebei a palidez de Rachel. — Você
parece doente.
— É assim que eu me sinto: doente.
— Mas ainda é cedo para enjôos, Rachel.
— Não vou sentir enjôos, Mike. Porque
não estou grávida.
— Se não estiver, peça o divórcio.
— Pedirei a anulação deste maldito
casamento!
— Que anulação, Rachel? Impossível!
Nós vamos nos casar e, com certeza, não
vou me esquecer dos prazeres da vida de
casado.
149
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela engoliu em seco.


— O que quer dizer com isso? Você está
pensando num casamento normal?
— É claro que sim! Por acaso pensou o
contrário? Rachel ficou vermelha.
— Deus do céu, vou rezar para não estar
grávida!
— Eu também. E agora acho melhor
você me beijar. Não tente recusar, porque
seus pais estão nos olhando da janela.
Não quer beijar o seu noivinho, Rachel?
Ela suspirou e o beijou rapidamente.
— Mas que beijo mais sem graça! Não
foi muito convincente!
— O que espera Mike? Que eu me
comporte como uma mulher apaixonada
no meio da rua?
— Você reserva a sua paixão para o
quarto, não é? — O sorriso dele era cruel.
— Passo por aqui às sete. Até lá.
150
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel entrou em sua casa


vagarosamente. Seus pais estavam certos
de que ela e Mike se amavam e a
cumprimentaram, felizes.
Kay também pareceu convencida disso
quando a visitaram à noite.
— Estou tão emocionada! Nunca pensei
que Mike fosse se casar!
— Tenho certeza de que nunca pensei
em casamento até encontrar Rachel, não
é querida?
— Nunca pensei que o meu querido
irmão mais velho acreditasse em amor à
primeira vista!
— É que Rachel é diferente, Kay. Nunca
encontrei ninguém como ela.
A ironia dele era tão óbvia que deixou
Rachel embaraçada. Aquilo tudo mais
parecia um sonho mau, e sonhos

151
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

costumam ter um fim. Talvez aquele


acabasse logo.
Os dias que se seguiram foram muito
atribulados. Rachel, além de
providenciar o vestido e os preparativos
para a recepção, continuou a freqüentar
a Universidade. Mike parecia mais
educado, tratando-a com mais gentileza.
A única discussão que tiveram aconteceu
quando Rachel decidiu que ficaria em
Londres quando ele fosse para Boston.
— Pois eu não tenho intenção de ir para
Boston e deixar minha esposa aqui!
Estavam no apartamento de Mike, às
vésperas do casamento. Era a primeira
vez que ficavam a sós depois daquela
noite nefasta.
-— Quero prestar os meus exames. Se
for a Boston, vou perdê-los e eu não
quero que isso aconteça.
152
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas os seus exames não são


importantes, Rachel. Como minha
esposa, você...
— Eu posso não ser mais sua esposa no
ano que vem!
— Então pretende seguir carreira?
— É lógico que sim!
— E, por isso, tenho que ficar sem você!?
— Mas você disse que não teria tempo
para mim, em Boston...
_ Eu arranjo tempo, sim... Para isso! —
Mike a tomou nos braços e a beijou,
enquanto tentava lhe desabotoar a blusa.
Rachel não queria aquilo, não podia
deixar acontecer de novo. Mas, mesmo
assim, não ofereceu nenhuma
resistência. Não conseguia recusar nada a
ele.

153
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Tudo estava acontecendo exatamente


como da outra vez. Sua cabeça começou a
girar e...
— Não! — gritou ela, afastando-se. —
Não quero!
Mike a olhou com espanto.
— Está bem. Agora não, mas arranjo
tempo para isso em Boston.
— Eu não vou!
— Eu a quero lá, comigo!
— Só que não vou!
— Por quê? Posso garantir que o nosso
"casamento" não vai ser prejudicado
pelos jogos.
— Esses exames são muito importantes
para mim, Mike!
— Mais importantes que eu?
Rachel empalideceu ao som daquelas
palavras. Mike teria descoberto seu
segredo? Como poderia ter descoberto
154
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

aquela coisa terrível que ela nem con-


seguia admitir para si mesma? Amava
Mike profundamente, e talvez tivesse
sido essa a razão pela qual concordara
com toda aquela farsa.
— Você não é importante para mim,
Mike. Claro que prefiro prestar os
exames.
— Você vai se arrepender por isso,
ouviu?
— Você já disse isso muitas vezes. Não
pode dizer outra coisa?
— Está bem, então! Fique aqui! Duas
noites com você já me são suficientes!
— Quando você viaja?
— No sábado, de manhã.
— E quanto tempo vai ficar fora? Mais
ou menos uma semana. Depois vou para
Washington.

155
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E depois? — Rachel prendeu a


respiração, esperando pela resposta.
— Depois volto para os braços da minha
querida esposa.
— Quando?
— Acho que estarei aqui na segunda
quinzena de julho. Depois devo viajar de
novo. Com certeza já saberemos algo
nessa época.
— Sim. Até lá a gravidez poderá estar
confirmada.
— Então saberemos quando eu estiver
disputando o Campeonato Americano de
Tênis.
— Você joga o tempo todo, Mike?
— Se eu quiser, passo o ano jogando.
— E gosta disso?
— É claro que gosto!
— Não pensa mais em se afastar?
Mike sorriu.
156
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Fiquei muito deprimido quando


perdi aquela partida, mas agora não
penso mais nisso. Quero vencer pelo
menos uma vez em Wimbledon antes de
me afastar das quadras.
— Você ainda tem muito tempo.
— Não tanto assim. Bem, acho que é
melhor levar você para casa — disse,
levantando-se. — Amanhã o nosso dia
será muito agitado.
Ela vestiu o casaco.
— Vai tentar impressionar meus pais de
novo?
Mike sorriu.
— Parece que eles gostam muito de
mim, não é?
— Também, do jeito que você é
bajulador...
— Um bom relacionamento com os
sogros é muito importante, não acha?
157
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

O dia seguinte amanheceu ensolarado,


mas, para Rachel, pareceu triste e
funesto.
A cerimônia seria realizada às onze e
meia, na casa dos James, e haveria um
almoço para os convidados. Mike
convidou apenas a irmã, o cunhado, o
técnico Sam Freeman e Susy. Os outros
eram amigos e parentes de Rachel.
Ela preferia que não houvesse ninguém
além dos pais, mas sua mãe não
concordara e Rachel não tivera outro
jeito senão aceitar. Cynthia também fora
convidada e chegou mais cedo para
ajudar a noiva a se arrumar.
— Seu vestido é lindo! — disse ela,
enquanto colocava a tiara em Rachel.
Ela se olhou no espelho.
_ Sabe, Cynthia, apesar de não ser um
casamento religioso, meus pais
158
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

insistiram para que eu me vestisse de


branco.
_ E Mike? O que foi que ele disse?
_ Aceitou.
_ Eu a invejo, Rachel. Ter Mike St. Clare
como marido deve ser a melhor coisa do
mundo. Como eu gostaria que um homem
lindo e famoso como ele se apaixonasse
perdidamente por mim!
Rachel teve que rir com a observação da
amiga, esquecendo um pouco a tensão
que a dominava.
Mas essa tensão voltou com força total
quando seus olhos encontraram os de
Mike, na sala onde a cerimônia seria
realizada. Ele usava um terno escuro que
contrastava com os cabelos loiros.
— Você está tão linda, Rachel! — disse
Kay. — Não é mesmo. Mike?
— Muito, vamos querida?
159
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ele pegou-lhe a mão e conduziu-a para


onde a cerimônia seria realizada. Nesse
momento Rachel notou que um par de
olhos azuis a fitavam com rancor. Era
Susy Freeman. Ela a odiava e não havia
dúvidas do porquê de tanto ódio...
— Aceito — a voz de Mike a assustou:
fez com que ela se desse conta de que a
cerimônia já estava quase no fim.
— Aceito — Rachel nem acreditou nas
próprias palavras. O juiz os declarou
marido e mulher e disse, sorrindo:
— Pode beijar a noiva, meu rapaz.
— Com todo o prazer!
Mike a beijou apaixonadamente,
deixando embaraçados os convidados.
Mas Rachel logo conseguiu livrar-se dele
e preparou-se para receber os
cumprimentos.

160
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ficou tensa quando viu Sam e Susy


Freeman aproximarem-se. O técnico a
cumprimentou calorosamente, mas
Susy a olhou com hostilidade.
Entretanto, foi sorrindo que se virou para
Mike.
— Não sei se lhe dou pêsames ou
parabéns...
Rachel suspirou ao ouvir a provocação,
mas Mike permaneceu imperturbável.
Apenas sorriu e retribuiu o beijo da
amiga.
— Só o tempo dirá Susy.
— E tenho certeza de que devo
cumprimentá-la, Srta. James.
— Sra. St. Classe — corrigiu Rachel.
— Não por muito tempo, eu acho —
Susy beijou Mike novamente e se afastou.

161
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— O que ela quis dizer com essa história


de eu não ser a Sra. St. Classe por muito
tempo?
— Mike! — disse o Sr. James,
aproximando-se. — Quero lhe apresentar
os avós de Rachel e mais alguns parentes,
que estão loucos para conhecê-lo.
— É claro, Jim. Você me dá licença por
um minuto, Rachel?
— É só um minutinho, minha filha. Já
devolvo seu marido.
Mike sorriu irónico.
— Volto logo, querida. Não vá morrer de
saudades, hein?
Rachel o observou afastar-se. Os
convidados estavam encantados com ele,
todos se divertiam muito, sua mãe
parecia perfeita no papel de anfitriã,
enfim, a festa era maravilhosa e todos
estavam felizes. Menos ela, a noiva.
162
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Viu Mike pegar um de seus priminhos


no colo e brincar, alegre.
— Ele é ótimo com crianças, não é
mesmo, Rachel? Ela virou-se e viu Susy
Freeman.
— Isso é bom. Afinal, logo haverá um
bebê — continuou Susy.
— De que você está falando? Que bebê?
— Estou sabendo de tudo, Rachel. Mike
não esconde nada de mim.
Principalmente porque nos amamos.
Rachel sentiu uma vertigem e pensou
que fosse cair.
— Com licença, vou até o jardim tomar
um pouco de ar.
— Boa idéia, vou com você. Está quente
aqui!
Mas a última coisa que Rachel desejava
era a companhia daquela mulher que a

163
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

odiava. Queria ficar sozinha e tentar


colocar os pensamentos em ordem.
— Mike sempre foi muito mulherengo
— continuou Susy. — Mas eu o aceito
assim e ele sabe que estarei sempre à
espera. No entanto, sempre fala que
ainda sou muito jovem para me casar. O
que não entendo é o que ele vai fazer com
uma noiva como você, que mais parece
uma criança.
— Não pode imaginar?
— Bem, sem dúvida você vai diverti-lo
por um tempinho. Mas, quando ele
estiver cansado das suas brincadeiras,
saberá que estarei esperando, como
sempre estive.
Rachel espantou-se com o
descaramento de Susy.

164
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Talvez você não precise esperar


muito. Se não houver um bebê ele será
seu de novo.
Seguiram pelo amplo jardim e uma
brisa fresca soprou, fazendo com que
Rachel se sentisse melhor.
— Sabe — continuou Susy —, esperei
tanto tempo para me casar com Mike. e
agora ele se casa com outra. Mas sabendo
a razão deste casamento, não invejo você.
Acho que Mike deve odiá-la.
— Ele não me odeia Susy.
— É lógico que odeia. Acha que você
planejou tudo, exatamente como a mãe
dele fez. Todos sabem do passado de
Mike.
— Acontece que eu não sei nem estou
entendendo. Pode me explicar melhor?
— Ele não lhe contou nada?
— Não.
165
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Sei que você deve estar sofrendo,


Rachel.
— Vai me contar ou não?
— E por que não? O passado de Mike
nunca foi segredo. Mas vamos nos afastar
um pouco. Uma das suas primas está se
aproximando com o namorado...
— Eles são casados — corrigiu ela.
— Nossa! Como a sua família casa cedo!
Por acaso sentiu medo de ficar para titia?
Rachel procurou ignorar a provocação.
— Estávamos falando sobre Mike. Vai
me contar ou não?
— E lógico que vou. A vida de Mike é um
livro aberto.
— Então fale.
— Os pais dele não eram casados. O pai,
homem muito rico, não fazia segredo de
que a mãe de Mike não passava de uma
aventura em sua vida, embora fosse
166
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

óbvio que ela tivesse programado a


gravidez para obrigá-lo a assumir a
paternidade. O caso ficou muito tempo
nos tribunais, e, quando finalmente a mãe
de Mike perdeu, fez três coisas: confessou
que o Pai da criança poderia ser pelo
menos uma dúzia de homens, casou-se
com o advogado que a defendia e colocou
a criança num orfanato.
— Mike?
— Exatamente. Ela nunca o quis mas,
enquanto o caso esteve nos tribunais,
parecia o modelo ideal de mãe... Mike
tinha três anos quando foi abandonado.
Há cerca de dez anos. quando ele se
tomou jogado profissional, um repórter
descobriu esse passado e o escândalo
veio à tona novamente. E Mike nunca
negou nada...

167
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel compreendeu quanto ele devia


ter sofrido. E pôde entender-lhe também
a determinação em querer casar de
qualquer modo. Com certeza devia estar
pensando que ela agira como a mãe que o
abandonara, premeditando tudo.

CAPÍTULO VI

Susy continuou a história, contando


sobre a adoção de Mike, aos quatro anos,
e do amor e felicidade que encontrara no
novo lar.
Mas Rachel mal a ouvia. Seus
pensamentos estavam voltados para o
menininho infeliz e rejeitado que Mike
tinha sido um dia. As cicatrizes dessa
168
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

infância cruel deviam estar ainda muito


presentes dentro dele, ajudando a formar
a personalidade do homem em que se
havia transformado, um homem que
sabia ser rude e agressivo.
— Vamos entrar? — convidou Rachel.
— Vamos. Mas lembre-se de que Mike
me ama e de que eu o amo. Ele sempre
será meu, esteja ou não casado com você.
Nesse momento Mike aproximou-se.
— Eu estava à sua procura, querida.
Susy sorriu com ironia.
— Nós estávamos tendo uma conversa
de mulher para mulher.
— E posso saber sobre o que falaram?
— Conversinhas femininas, Mike.
Susy se afastou e Rachel suspirou,
aliviada.

169
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Você não podia esperar pelo menos


até o fim da festa para mostrar a todos
que não se incomoda comigo?
— E por que esperar? — respondeu
Rachel, sentindo desaparecer toda a
emoção que a conversa com Susy lhe
despertara. — E desde quando você
esconde que me odeia?
— É melhor irmos, Rachel. Já é tarde e
temos pouco tempo para estarmos
juntos. E não sei por quanto tempo
ficaremos casados.
— Tenho certeza de que a Srta. Freeman
ficará muito contente em tomar o meu
lugar.
— Vamos entrar Rachel. Precisamos nos
despedir de todos.
— Minhas malas estão no quarto.
— Que quarto?
— Mike, por favor.
170
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Que quarto Rachel?


— Este aqui — disse ela, abrindo a
porta.
Mike entrou e a puxou p dentro.
— Posso saber que tipo de conversa
você teve com Susy?
— Nós... Falamos sobre você.
— Eu tinha certeza. Devem ter feito
muitas fofocas!
— Nós não comparamos o seu
desempenho na cama, pode ficar
sossegado. Afinal, não tenho muita
experiência nisso, não é?
— Ainda não, querida, mas logo terá —
a voz era irônica como sempre, e Raquel
procurou enxergar nele o garotinho
infeliz que havia sido um dia. — E acho
bom começarmos logo. — Mike apanhou
as malas e saiu do quarto.

171
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Vocês já vão? Que pena! — disse a


mãe de Rachel, desapontada ao ver que
os noivos já estavam de saída.
Mike sorriu com carinho.
— Já é hora de irmos, Sra. James. Afinal,
Rachel e eu não vamos ter muito tempo.
Devo partir depois de amanhã.
— Claro, claro. Compreendo que vocês
devem estar ansiosos para ficarem a sós.
Vou chamar Jim.
Todos os convidados se aproximaram
para ver os noivos partirem. Deram
adeus, desejaram boa sorte, a mãe de
Rachel chorou.
Seguiram para o apartamento de Mike,
onde deveriam morar. No caminho
Rachel não conseguiu controlar-se e
desmanchou-se num choro convulsivo.

172
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ora, não fique assim — disse Mike


secamente. — Seus pais estarão ao seu
lado quando tudo terminar.
Rachel procurou recompor-se e tirou
um espelhinho da bolsa. Olhou-se e levou
um susto. Seus olhos estavam inchados e
vermelhos.
Que rosto horrível para uma recém-
casada! pensou. Procurou algum assunto
para conversar e distrair-se.
— E seus pais, souberam do casamento?
— Meus pais morreram há dez anos,
num acidente automobilístico. Rachel
sentiu pena dele novamente.
— Deve ser por isso que você e Kay são
tão unidos!
— Nós sempre fomos. Sempre. Ela foi o
bebê mais lindo que já vi em toda a minha
vida. Bem diferente de Eve, quando

173
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

nasceu — completou, com ar de


zombaria.
— Mas Eve está bonita agora.
E era verdade. Em apenas uma semana
o bebê havia engordado e, levando-se em
conta que tinha somente nove dias, a
transformação tinha sido enorme. Nove
dias! Nesse curto espaço de tempo, a vida
de Rachel mudara de modo assustador!
Para ela tudo havia acontecido há tanto,
tanto tempo
— Você gosta de crianças, Rachel?
Nunca me lembrei de perguntar.
— Eu adoro!
— Não precisa ser tão exagerada. Um
simples sim seria suficiente.
— Mas eu as adoro muito e acho que...
— Continue.

174
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, eu posso estar grávida, não se


esqueça. E o fato de gostar de crianças só
vai me ajudar.
— Sei — concordou ele de modo
distante, estacionando o carro em frente
ao apartamento.
— Chegamos Sra. St. Clare.
Sra. St. Clare! Ela era a Sra. St. Clare!
Seria possível? Não importava o que
aconteceria depois, nesse momento era a
Sra. Michael St. Clare e sua vida estava
irremediavelmente ligada àquele homem
que nada mais era do que um estranho,
que a conhecia mais intimamente que
qualquer outra pessoa no mundo.
Entraram no apartamento e Rachel
pensou com tristeza que, dali em diante,
aquele seria seu novo lar.

175
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu gostaria de tomar um banho. —


Rachel ainda usava o vestido branco da
cerimônia.
— Tudo bem, pode ir — respondeu
Mike, servindo-se de uma dose de uísque.
— Qual é o meu quarto?
— "Nosso" quarto será este aqui. Mike a
conduziu ao aposento onde eles tinham
se amado e colocou as malas no chão.
— Este é o banheiro — disse ele,
abrindo uma porta. — O chuveiro é aqui,
mas, se preferir a banheira, pode usar o
toalete principal. Fique a vontade.
— Eu prefiro o chuveiro. Não vou
demorar.
— Eu já disse, fique à vontade.
Já no banho. Rachel pensou nos traumas
que ele tivera na infância e mais uma vez
sentiu pena. Não era à toa que pensava
que ela era igual à mãe... Afinal, eles não
176
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

se conheciam, eram dois estranhos


amarrados a um casamento de
conveniência, de duração indeterminada.
O banho morno a acalmou, ela saiu do
banheiro enrolada numa toalha e abriu
sua mala, procurando uma roupa para
vestir. Nesse momento Mike entrou no
quarto.
Ele tinha trocado de roupa e agora
usava jeans. Seu cabelo estava úmido,
deixando claro que também havia
tomado banho.
— Eu... Eu não estou vestida.
— Dá para perceber. Quer comer
alguma coisa agora ou depois?
— Depois? O que quer dizer?
— Ora, Rachel, nós agora estamos
casados! E eu não pretendo desperdiçar
um só minuto destes dias.
Rachel engoliu em seco.
177
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Acho que prefiro comer agora.


— Tarde demais — sussurrou ele. — Eu
também estou com fome. Fome de você.
— Mas Mike...
— Você é minha esposa, Rachel.
— Mas é que...
— Minha esposa, ouviu? — e a beijou
com ardor, fazendo-a perder o equilíbrio
e cair na cama.
— Eu quero comer algo, Mike!
Ele deitou-se ao lado dela e beijou-lhe o
pescoço.
— Só existe uma coisa que quero de
você, Rachel. E quero ter essa coisa aqui e
agora, ouviu? Ou será que vou ter que
lutar para amar minha própria esposa?
— Mike, por favor!
— Vou, Rachel?
— Vai, sim! Vai ter que lutar! E sabe por
quê? Porque eu não te quero. Você me
178
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

forçou a este casamento, mas não vai


conseguir nada de mim!
Ele sorriu e arrancou a toalha que
cobria a nudez da esposa.
— Não! Eu não quero! — protestou ela
enquanto Mike estudava cada centímetro
de seu corpo nu.
— Sim, Rachel, vou ter o que quero.
Tudo isso é meu, comprado e pago
através de uma certidão de casamento
que não vale sequer um centavo!
— Então faça o que quiser! E vá pro
inferno!
— Eu conheci o inferno naquele maldito
dia em que a encontrei, mas quero o seu
corpo. Porque ele é meu, todo meu! É a
única coisa que espero deste casamento.
— Então acabe logo com isso! Estou
aqui, pode me usar e não me aborreça
depois!
179
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não, Rachel, não vai ser assim tão


fácil. Não quero uma boneca enfeitando a
minha cama. Quero uma mulher ardente,
que corresponda aos meus carinhos
como aconteceu naquela noite.
— Nunca! Prefiro ir até o inferno a
corresponder aos seus carinhos!
— Ah, Rachel, você vai, eu prometo que
vai.
— Perca as esperanças. Mike!
Deus do céu! Como o corpo humano é
traidor! Rachel estava certa de que iria
resistir aos carinhos de Mike, mas havia
esquecido toda a experiência que ele
tinha. Em poucos minutos gemia de
prazer, correspondendo àquelas carícias
selvagens.
E, mesmo depois do êxtase final, Mike
não se sentiu satisfeito e a levou a alturas

180
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

que ela nunca havia atingido. Depois,


ambos caíram num sono profundo.
Quando Rachel acordou, o apartamento
estava escuro. Olhou o relógio luminoso e
viu que já eram dez horas. Mike também
acordou, olhando-a de modo sonolento.
Seu braço enlaçava a cintura dela de
modo possessivo.
— Já é de manhã, Rachel? — perguntou
ele com voz rouca.
— Não.
— Ainda não?
— Ainda é noite, Mike.
— E que horas são?
— Quase dez.
— E você está com fome?
— Não, não estou.
— Nem eu. Não por comida.
— Mike...

181
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Somos explosivos, não somos? Eu


quero você de novo, Rachel.
Ela também o desejava e mais uma vez
viveram momentos de grande paixão.
Comeram muito pouco no dia seguinte,
quase não se falaram e se amaram muito,
tempestuosamente. Rachel nunca
estivera tão perto de uma pessoa quanto
de Mike. Eles não precisavam falar. Seus
corpos falavam por eles.
Mas, no sábado, Rachel acordou e não o
viu a seu lado. Sentiu certo pânico e saiu
da cama para procurá-lo. Estava nua, mas
a nudez agora não a envergonhava mais.
Mike não estava no banheiro, nem na
cozinha. Na verdade, não estava em lugar
nenhum. Rachel achou um bilhete perto
do telefone: "Se você precisar de mim
com urgência, ligue para este número".

182
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ele tinha ido para Boston! Após dois


dias de sexo intenso, Mike havia ido
disputar o torneio em Boston sem ao
menos se despedir dela!
Os pais de Rachel convidaram-na para
almoçar no domingo. Sabiam que ela
sentiria falta do marido. E como sentia!
Passara o sábado todo esperando por um
telefonema que não houve.
O orgulho fez com que ela não ligasse.
As palavras "com urgência" estavam
muito claras naquele bilhete. Ela só
deveria telefonar se estivesse doente ou
se descobrisse que não estava grávida!
Seus pais notaram-lhe a tristeza.
— Você está tão quieta, minha filha.
Talvez tivesse sido melhor acompanhar
Mike.
— Eu tenho os meus exames, mamãe.
— Eu sei, mas você está tão abatida.
183
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Tudo bem — disse ela, tentando


sorrir. — Ele volta logo. E não sei se
gostaria que eu fosse. Mike vai estar
muito ocupado e, além disso, não pode se
distrair.
— Mas Rachel, eu acho que...
— Quem sabe eu possa ir uma outra vez.
— Mas...
— Deixe os dois, Dorothy —
interrompeu Jim. — Tenho certeza de
que eles podem se arranjar sozinhos.
— Mas Jim, eu só estava tentando
consolá-la!
— Por favor, deixe-os, Dorothy. Senão
Mike vai pensar que tem uma sogra
muito intrometida!
— Não é isso, Jim. É que estou
preocupada com Rachel — disse ela,
indignada por ter sido chamada daquele
modo. — Não é nada comum ver uma
184
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

noiva sozinha dois dias após o


casamento.
— Ora, coisas muito piores acontecem.
Eles, pelo menos, podem conversar pelo
telefone. Não é mesmo, Rachel?
— É claro, papai.
Logo depois a Sra. James foi para a
cozinha e Jim aproveitou para conversar
a sós com a filha.
— Rachel, diga sinceramente: está tudo
bem?
— É claro que sim. Por quê?
— Sabe, sua mãe e eu nunca
conversamos com você sobre a vida de
um casal. — ele estava tenso e
embaraçado por tocar naquele assunto.
— Mas, francamente, acho que Mike é o
tipo de homem que sabe como tratar uma
noiva inexperiente.

185
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel também ficou embaraçada.


Como seu pai dissera, sexo era um
assunto que nunca havia sido discutido
entre eles.
— Fique sossegado, papai. Foi tudo
muito bem.
— Ele parece ser uma boa pessoa. Você
está feliz, querida?
— Estou, sim, só que com saudades! —
e forçou um sorriso.
— Fico contente, amorzinho. Você sabe
que pode contar conosco. Para falar a
verdade, esta casa está tão triste desde
que você se foi. Sua mãe e eu sentimos
tanto a sua falta!
Rachel sorriu e beijou o pai.
Quem sabe vocês poderiam ter outro
filho. — disse brincando.

186
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Na nossa idade? Não, minha filha,


agora é hora de esperar pelos netos!
Vocês querem ter filhos logo?
Ao som daquelas palavras, Rachel
empalideceu.
As duas semanas seguintes foram
monótonas e custaram a passar, Mike não
deu sinal de vida. Nem ao menos um
telefonema. Rachel ocupou a primeira
semana com os exames da Universidade
e, quando estes terminaram, tentou
preencher o tempo fazendo compras com
Cynthia ou visitando a mãe.
Mas suas compras se resumiam em
admirar as vitrines. Podia ser esposa de
Mike e morar num apartamento luxuoso,
mas ele não lhe deixara nenhum
dinheiro. Ela possuía algumas economias
e as usou para pagar contas.

187
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Imaginou que Mike voltaria na segunda-


feira e planejou comprar alimentos para
a sua volta.
Entretanto, já estava na cama, domingo
à noite, quando ouviu um ruído na
fechadura. Mike! Tinha que ser ele!
Pulou da cama, esquecendo-se do
silêncio daquelas duas semanas, e correu
para a sala.
Mike parecia pálido e cansado. Ele
colocou a mala no chão, tirou a jaqueta,
jogando-a displicentemente no sofá, e
virou-se.
— Rachel! — disse, como se estivesse
surpreso em vê-la. Ela mordeu o lábio e
sentiu-se insegura. Não sabia como
recebê-lo.
— Oi, Mike.
Ele sorriu com desdém.

188
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Meu Deus, que maneira de receber o


marido! Ela aproximou-se e o beijou no
rosto.
— Seja bem-vindo, Mike.
— Ei, Rachel, você não pode fazer
melhor que isso? — brincou ele.
Ela começou a ficar irritada. Afinal, o
que ele poderia exigir depois de duas
semanas? Forçou um sorriso e o abraçou:
— Como foi o torneio? Parabéns pela
vitória em Boston! Você deve estar
cansado. Quer um cafezinho?
Mike pareceu confuso com aquele
comportamento.
— Rachel, mas que diabo você está
falando? Ela o olhou friamente.
— O que você esperava? Estou agindo
como uma esposa deve agir, só isso. E
também estou tentando me interessar
pelo trabalho de meu marido, se bem que,
189
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

em geral, os maridos não costumam


passar duas semanas sem dar notícias e...
— Rachel, fique quieta, por favor.
— O quê?
— É isso mesmo! Fique quieta e deixe-
me beijá-la!
Rachel mais uma vez estava
determinada a não corresponder, mas foi
inútil. Ela se derretia quando chegava
perto dele. Nessa noite, seu desejo era
sem fim e eles se amaram muitas vezes.
Quando Rachel acordou, no meio da
noite, viu que Mike não estava a seu lado.
Mas, dessa vez, os ruídos no apartamento
provavam que ele estava lá.
Mike voltou ao quarto, vestindo um
robe.
— Rachel, não há comida na geladeira.
Ela ficou vermelha.

190
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— É... é que eu ia comprar alguma coisa


amanhã.
— Mas como não tem comida? Rachel
engoliu em seco.
— Bem, eu...
— Fale, estou esperando!
— É que você não deixou dinheiro para
comprar. Na verdade, você não deixou
dinheiro para nada. O homem da
lavanderia trouxe alguns temos e o
leiteiro também veio cobrar. E eu tive que
pagá-los.
— Você pediu dinheiro a seus pais?
— É claro que não, Mike! Usei as minhas
economias. Nunca pediria nada a eles!
— E o dinheiro acabou?
— Acabou.
— Quando?
— Bem, ainda tenho um pouco, mas
pretendia usá-lo para comprar comida
191
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

amanhã. Queria preparar alguma coisa


decente quando você voltasse...
— E quando parou de comer, Rachel?
— Eu... Quando?
— Eu não parei de comer, Mike!
Somente passei a comer menos.
— E, dá para perceber — disse ele,
estudando cada centímetro de seu corpo.
— Para falar a verdade, deu para sentir.
Por que você não me ligou, Rachel? Eu
deixei um número de telefone!
— Deixou, sim, Mike! Mas só para uma
emergência!
— E você não acha que passar fome é
uma emergência?
— Mas eu não passei fome!
— Não? Ora, Rachel, se você já era
magra, agora está um esqueleto!
— Não, Mike. É que eu sempre fui
magra.
192
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ora, Rachel, você está pele e osso! —


Mike a olhava de modo crítico e parecia
zangado.
— E de quem é a culpa? Certamente não
é minha! — disse ela, começando a
chorar. — Sinto muito, Mike, eu não quis
dizer isso...
— Você não tem nada que sentir —
disse ele, sorrindo. — A primeira coisa
que vamos fazer assim que amanhecer é
ir ao supermercado e comprar tudo que
encontrarmos pela frente. E você vai
comer bastante, está bem?
— Sinto muito se o meu desempenho
não foi dos melhores — disse ela,
chorando de novo.
— Você foi ótima, como sempre — Mike
sorriu e sentou-se a seu lado na cama.
— Não chore, Rachel. Não há motivo
para chorar. Pare, por favor.
193
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela, porém, não parou. Enterrou o rosto


nas mãos e deixou as lágrimas correrem
livremente.
Mike a puxou para perto dele e
acariciou-lhe os longos cabelos.
— Não fique assim, Rachel. Eu esqueci o
dinheiro e sinto muito. Esse é o tipo de
coisa que não me preocupa, sabe?
Ela procurou sorrir.
— As pessoas ricas geralmente não se
preocupam com dinheiro.
— É verdade, e eu peço desculpas. E
vamos abrir também uma conta conjunta
no banco, assim isso não tornará a
acontecer. — Mike continuava a
acariciar-lhe os cabelos. — Meus Deus,
Rachel, eu queria que você tivesse
telefonado.
— Eu não queria incomodar, Mike.

194
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Nunca pense isso de novo — disse


ele, acariciando-lhe os ombros. — Deus
do céu, como senti a sua falta! —
murmurou roucamente, e Rachel sentiu a
pele em brasa.
— Mike...
— Senti tanto a sua falta.
— Mas...
Mike a silenciou com um longo beijo.
Na manhã seguinte, Rachel acordou
com o delicioso aroma de café fresco e
espreguiçou-se gostosamente na cama.
Logo depois Mike entrou no quarto,
segurando uma bandeja.
— Bom dia! — disse alegremente.
— Obrigada, Mike. Você não precisava
ter-se incomodado.
Ele sentou-se perto dela e sorriu.

195
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Fui até o supermercado e fiz algumas


compras. Espero que você goste deste
café da manhã.
Rachel olhou para a bandeja e sentiu
água na boca.
— Hum! Que delícia de banquete! Ovos
com bacon, torradas, geléia e café
fresquinho! Você também vai comer?
— Não, Rachel, já tomei o meu café.
Quando você acabar, vamos sair.
Foi estranho ouvir o gerente do banco
chamá-la de Sra. St. Clare. Somente o
zelador e o leiteiro a tinham chamado
assim.
Rachel não havia contado aos colegas da
Universidade sobre o casamento porque
não sabia o tempo que permaneceria
casada.
Ao deixarem o banco, Mike a levou para
almoçar, e Rachel sentiu-se muito feliz.
196
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Conversaram sobre as partidas que ele


havia jogado, sobre o torneio de Boston,
que ele havia vencido, e o de Washington,
que acabara perdendo.
— É isso, Rachel. Às vezes se ganha, às
vezes se perde.
— Mas você ganhou muitas partidas?
— Algumas, embora não tenha sido
muito fácil. Diga, Rachel, como passou
esse tempo todo?
Ela ficou vermelha.
—- Ainda não sei de nada sobre bebê
algum, se é isso que quer saber.
— Não, você está muito enganada. Não
foi isso que eu quis dizer.
Rachel ficou ainda mais embaraçada.
— Não?
— Não. Só queria saber como passou
estas semanas, como foram os seus
exames.
197
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

—Tudo bem, Mike — ela ficou surpresa


com aquele interesse.
— Acha que passou?
— Acho que sim.
— Mas você não vai poder continuar o
curso se estiver grávida, vai?
— Vou até onde for possível. De
qualquer modo, este ano foi muito útil
para mim.
— O que você pretende fazer? Montar
algum negócio?
Ela confirmou com a cabeça.
— Gostaria de fazer isso um dia, Mike.
Se tiver dinheiro suficiente, é lógico.
Mike tomou mais um gole de vinho
branco.
— Talvez eu pudesse ajudar.
— Não!
— Mas por quê?

198
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não, Mike. Se o nosso casamento


acabar, sairei dele da mesma forma que
entrei. Isto é, sem nada!
Mike sorriu com desdém.
— Isso é o que você diz agora.
Rachel empalideceu e toda a alegria que
sentira naquela manhã desapareceu.
— Eu sinto pena de você, Mike! — disse
ela, devolvendo o sorriso irônico.
Conhecia todo o sofrimento de Mike na
infância, mas também sabia do amor que
seus pais adotivos lhe deram e de todo
carinho que Kay continuava a lhe dedicar.
Não havia razão para tanta amargura.
— Eu realmente sinto pena, Mike. Você
não confia em ninguém!
Ele levantou-se.
— Só não confio em meninas
espertinhas como você! Agora preciso ir...

199
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ir para onde? — perguntou ela,


tentando não demonstrar o
desapontamento.
Mike ignorou a pergunta. Olhou o
relógio.
— Já estou atrasado. Tenho treino esta
tarde.
— Mas nós ainda nem tivemos a nossa
lua-de-mel! O olhar de Mike foi
desdenhoso.
— Vamos ter logo, Rachel. Agora
preciso ir. Sempre treino algumas horas
por dia, mesmo quando não estou
disputando nenhum torneio. Preciso
fazer isso.
— E por acaso a Srta. Freeman estará
presente?
— Geralmente está.
— Não me espanto com isso.

200
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bem, volto para casa na hora do


jantar.
Rachel pensou que não se importaria se
ele não voltasse mais, mas sabia que não
era verdade. Estava apaixonada. Mesmo
assim, foi fria durante o jantar e Mike
pareceu divertir-se com aquilo. Mas, no
momento em que foram para a cama, ela
se entregou com loucura e paixão.
Tudo continuou daquela maneira nos
dias que se seguiram. Passavam as
manhãs juntos, freqüentemente na cama.
Depois Mike ia treinar e passavam a noite
juntos. Era uma vida tranqüila, gostosa, e
Rachel procurava não lembrar que um
dia tudo aquilo iria acabar.
Jantaram com os pais dela uma noite.
Como gostavam de Mike! E ele parecia
retribuir o sentimento. Era gentil e
educado com os dois.
201
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

O sábado chegou logo e, com ele, a


viagem de Mike, que não mencionou o
fato de levar Rachel. Ela também não
disse nada, com medo de que ele
recusasse.
— Eu gostaria de acompanhá-lo ao
aeroporto, Mike — disse ela na sexta-
feira à noite, após terem se amado.
Ele sorriu.
— Eu não gosto de despedidas. Nunca
gostei.
— Deu para perceber.
— Escute, Rachel, tenho um jeito
melhor de dizer adeus sem precisar usar
as palavras.
— Mike...
— Você vai gostar deste adeus —
murmurou ele, cobrindo o corpo dela
com o seu.

202
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Quando acordou, no dia seguinte, ela


estava novamente sozinha. Apenas o
perfume de Mike, que tinha ficado no
travesseiro, e seu robe, jogado na cama,
evidenciavam que aquela última semana
não havia sido um sonho, ou um
pesadelo. Ela havia caído numa mentira
muito perigosa. Estava apaixonada, podia
morrer por aquele amor e sentia que sua
vida não teria mais sentido sem ele.
Sabia que não era somente atração
física, como tentava convencer-se.
Era amor de verdade, um amor
profundo que ela nem imaginava existir.

203
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO VII

A semana seguinte foi ainda pior, custou


mais a passar, Rachel sentia muito a falta
de Mike e agora assumia todo o amor que
sentia por ele.
Desde o momento que o encontrara na
maternidade e pensara que era marido
de Kay não havia conseguido tirá-lo da
cabeça. Esse amor tinha crescido sem que
ela tivesse consciência e fora um choque
perceber quanto era imenso.
No começo, ficar sem ele era uma
verdadeira agonia. Rachel acordava
diversas vezes à noite, percebendo que
abraçava o travesseiro. Então chorava,
204
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

sabendo que morreria se aquele


casamento acabasse.
Kay a convidou para jantar no sábado e
ela ficou feliz em aceitar o convite. Como
da outra vez, Mike não se comunicara
com ela, só que agora o silêncio era pior,
mais doloroso.
Mas jantar com Kay e Richard Lennon
também não era lá uma boa idéia. A
felicidade do casamento deles
contrastava com o seu. O único elo que
ligava Mike a ela eram seus corpos. O
casamento dos Lennon, ao contrário, era
repleto de amor; ambos mantinham uma
profunda amizade.
— Meu irmão foi muito injusto, Rachel
— disse Kay. — Imagine, viajar e deixar a
esposa sozinha todo esse tempo! Ora,
mas que coisa se cabimento!
Rachel tentou defendê-lo.
205
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas Kay, ele precisa jogar...


Eles já haviam jantado e estavam na sala
de estar, brincando com Eve.
— Eu sei, só que acho que ele deveria tê-
la levado.
— Kay! Pare com isso! — advertiu
Richard. — Deixe Rachel em paz!
— Eu sei que não devo interferir, mas
acho que Mike deveria ter levado Rachel,
já que as aulas na Universidade
terminaram. É o que eu acho e não
consigo ficar quieta quando vejo algo
errado.
— Eu iria atrapalhar, Kay.
— Isso é ridículo! Não iria atrapalhar
nada! Susy Freeman viaja sempre com ele
e com Sam e não atrapalha!
Rachel levantou-se.
— Acho melhor ir embora. Já está
ficando tarde e...
206
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ora, é cedo! São só nove e meia!


— É melhor eu ir. E obrigada pelo jantar.
Kay franziu a testa e a acompanhou até
a porta.
— Ei, Rachel, você ficou brava com
alguma coisa que eu disse? Sinto muito se
a aborreci.
— É claro que não fiquei aborrecida,
Kay. Só acho melhor ir porque Mike pode
telefonar.
— Ah, este é um bom motivo para ter
pressa! Diga a ele que mando um beijo.
— Posso levar você para casa? —
ofereceu Richard.
— Não, obrigada. Estou de carro. Por
falar nisso, venham vê-lo. Estava na
garagem do prédio quando Mike viajou.
Foi uma surpresa que ele me fez.

207
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Um belo presente! — disse Kay,


olhando o veículo. — Bem, eu ligo para
você.
Rachel voltou ao apartamento e sentiu-
se mais sozinha do que nunca. Chegou a
ficar com inveja do calor e da união que
emanava do lar dos Lennon e começou a
andar sem rumo pelos quartos. Quando o
telefone tocou, sentiu um frio percorrer-
lhe o corpo e correu para atender. Mas
talvez fossem seus pais, que ligavam
todas as noites.
— Rachel?
Ao ouvir a voz de Mike, quase caiu da
cadeira.
— Mike?
— Claro! Por quê? Esperava outro
telefonema?
— Oh, não! Mas é que eu não estava
esperando que você ligasse!
208
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— O que anda fazendo? Divertindo-se?


— Mas é claro que sim! Estou saindo
todas as noites para me divertir um
pouco.
— Com quem?
Ela riu.
— Você quer que eu enumere todos
eles?
— Rachel!
— Ora, pelo amor de Deus, Mike! Não
seja ridículo! Eu estava só brincando!
Fiquei em casa todas as noites, se isso lhe
interessa!
— Mas você não estava há uma hora.
Liguei e ninguém atendeu. Aonde foi?
— Jantei na casa de sua irmã. Acho que
ela sentiu pena de mim.
— Espero que não tenha aberto a boca
para contar a ela sobre o nosso
casamento.
209
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

De repente, toda a alegria de estar


falando com Mike desapareceu como por
encanto.
— Ah, sim, é claro! Eu contei a ela como
você é cruel e que não passo de uma
escrava sexual para você! — Rachel
estava mesmo brava. — E como ousa
ligar para me insultar? Posso saber o que
quer?
— Quero que venha me encontrar no
Canadá.
— O quê?
— Estou me sentindo muito sozinho,
Rachel. Queria você aqui comigo.
Ela engoliu em seco e ficou sem fala. Ele
estava sozinho? Seria possível?
— Rachel?
Ela mordeu o lábio.
— Eu não sei o que responder, Mike.
— Que tal responder sim?
210
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu...
Nesse momento ela ouviu alguém dizer:
— Mike, querido, já está pronto para o
jantar?
Rachel mal acreditou na voz rouca e
sensual de Susy Freeman chamando
Mike.
— Ah, então é assim que você está
sozinho? Quanto descaramento da sua
parte! Acho que vou sair para encontrar
alguém que me tire um pouco desta
solidão!
Desligou o telefone com força e correu
para o quarto. Enterrou a cabeça no
travesseiro e seus soluços altos a
impediram de ouvir o telefone que
chamava de novo.
Acabou adormecendo, cansada de tanto
chorar. Acordou na manhã seguinte,
ainda vestida e com o travesseiro sobre a
211
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

cabeça. Pensou na ousadia de Mike em


telefonar quando Susy Freeman estava
com ele! E ficou sem entender o porquê
daquele telefonema, uma vez que Susy
poderia tomar-lhe o lugar na cama de
Mike.
Rachel não conseguiu ficar em casa
remoendo tantos pensamentos. Resolveu
passar o dia com os pais, fazendo tudo
para esquecer que tinha um marido cruel
e sem caráter.
Voltou ao apartamento por volta das
dez horas e, já da porta, pôde ouvir o som
do telefone. Devia ser Mike, e ela pensou
em não atender. Mas, sabendo que ele
insistiria, resolveu pegar o fone e
murmurou um "alô" sem vontade.
— Rachel? — a voz do outro lado do
telefone não era de Mike. — É Susy
Freeman quem fala.
212
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela estava tão certa que era Mike que


mal pôde acreditar no que ouvia.
— E o que você quer?
— Quero dizer que você não foi muito
esperta ontem à noite.
— De que está falando, Susy?
— Que Mike detesta qualquer
demonstração de ciúme. Eu já tinha dito
isso, lembra-se? Você não vai continuar
com ele por muito tempo se insistir em
agir dessa maneira. Afinal, atração física
não é tudo, você sabe.
— Mas foi o suficiente para Mike querer
me ver tão depressa!
Rachel estava muito irritada e logo se
arrependeu por deixar transparecer toda
essa irritação. Afinal, Susy não precisava
saber que tinha o dom de aborrecê-la
profundamente.

213
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mike odeia dormir sozinho! —


continuou Susy.
Rachel engoliu em seco.
— E daí?
— E, como você se recusa a acompanhá-
lo... Bem, entende o que eu digo, não?
Ela entendia muito bem e ficava doente
só em pensar nos dois juntos.
— Então você só me ligou para avisar
que dormiu com meu marido na noite
passada?
— Não só por isso. Apesar de achar que
você deveria saber.
— Muito obrigada pela informação!
— O prazer foi meu... E digo isso nos
dois sentidos, compreende? Mike é um
amante excelente, não acha?
— Acho.
—Tenho certeza de que nós duas somos
profundas conhecedoras das proezas de
214
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mike na cama, não somos? Bem, já


falamos muito sobre isso. Eu só telefonei
a pedido dele.
— A pedido de Mike? Ah, que bom!
Então foi ele quem pediu para você me
ligar e contar que dormiram juntos?
— Ele não negaria se você lhe
perguntasse.
— Escute uma coisa, Susy, não tenho
intenção de perguntar coisa alguma a
Mike!
— Como queira, Rachel. Seu marido está
agora no meio de um treino, mas tentou
falar com você durante o dia e parece que
ninguém atendeu.
— Eu estive fora o dia todo.
— Eu sei. E Mike não gostou disso.
— Grande coisa!

215
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu não agiria dessa maneira, Rachel.


Ele não tem um temperamento muito
fácil, você sabe.
— Estou cansada de saber.
— Bem, pouco me importa tudo isso.
Afinal, quanto mais depressa vocês se
afastarem, melhor para mim.
— Não diga!
— Bem, vamos deixar isso de lado.
Liguei porque Mike ainda a quer aqui.
— Quer dizer que os seus esforços para
convencê-lo do contrário não foram
muito... eficientes?
— O que acontece é que Mike está
preocupado com o que a imprensa pode
dizer. Não será bom para a imagem dele
se todos souberem que deixou a esposa
na Inglaterra logo após o casamento.
Nesse momento Rachel sentiu ódio de
Mike. Ele não a queria a seu lado porque
216
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

a amava, só não queria estragar sua


imagem!
— E, já que estamos falando em
casamento — continuou Susy, com
desdém —, Mike e eu gostaríamos de
saber se você já tem alguma novidade. Se
está grávida ou não.
— Mesmo se eu soubesse, não contaria
à amante de meu marido! — respondeu
Rachel, desligando o telefone.
A verdade era que ela ainda não sabia se
estava grávida ou não. Com tudo que
acontecera nos últimos dias, seu
organismo estava tenso, desregulado.
Mike telefonou novamente, tarde da
noite.
— Susy me contou que você não vem —
disse ele.

217
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel ficou surpresa. Não podia


imaginar que Mike voltaria a ligar depois
da conversa que tivera com Susy.
— E por que não vem?
— Tenho certeza de que Susy já contou
os meus motivos.
— Contou. Mas ainda assim quero você
comigo.
— Susy me disse por que você faz tanta
questão da minha presença aí e...
— E?
— Não vou, já decidi. Pouco me importa
o que possam falar sobre o nosso
casamento.
— Mas Rachel...
— Não vou. Já disse.
Rachel sentia-se ferida. Mike a queria lá
mas não a amava nem estava preocupado
com ela. Estava era preocupado com sua
própria imagem e com o que a imprensa
218
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

poderia dizer. Mike odiava boatos e


certamente fora por isso que resolvera se
casar daquela forma repentina e maluca.
Temia escândalos em torno de seu nome.
Mais uma vez Rachel o odiou.
— Eu preciso de você, Rachel. Venha,
por favor!
— Estou muito bem aqui.
— Mas você é minha esposa!
— E você é meu marido, não se esqueça
disso!
— O que quer dizer com isso?
— Pense, Mike. Boa noite!
— Mas Rachel...
— Boa noite!
Dessa vez Mike não tornou a ligar e ela
mal conseguiu dormir. Precisava aceitar
que o abismo que existia entre eles era
cada vez maior e mais assustador.

219
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

O tempo foi passando e a chegada de


Mike se aproximava. O nervosismo e a
ansiedade de Rachel crescendo. Afinal,
enfrentá-lo ao telefone era uma coisa,
mas enfrentá-lo pessoalmente era algo
completamente diferente.
Uma tarde, Rachel foi fazer compras
para se distrair um pouco. Ao voltar,
encontrou uma moça esperando-a na
frente do apartamento.
— É a Sra. St. Clare?
— Sim, sou eu — respondeu, tentando
equilibrar os pacotes e abrir a porta.
— Deixe-me ajudá-la — disse a garota,
pegando uma das caixas.
— Obrigada — disse Rachel abrindo a
porta. — Não quer entrar? A garota a
acompanhou até a sala, onde colocaram
as compras.

220
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Acho que você quer falar com Mike,


não é? Acontece que ele não esta. —
Rachel estava certa de que aquela moça
deveria ser alguma amiga dele.
— Eu sei que Mike não está.
Deus do céu! Quem seria aquela garota?
Outra amante de Mike?
— Ele só vai voltar no domingo — disse
Rachel.
— Eu sei.
— Então... Bem, então não sei em que
posso ajudá-la. A moça sorriu com muito
embaraço.
— Eu sinto muito. Sabe, estou
começando agora neste emprego e não
tenho muita prática. Acho que devo me
apresentar, Sra. St. Clare. Meu nome é
Anna Hill. Trabalho no Morning News e...
— Então você é repórter?
— Sou, sim.
221
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Meu Deus!
— Todas as pessoas reagem desta
maneira. Estou começando a me
acostumar, sabe?
— Não me leve a mal — respondeu
Rachel, sorrindo. — Não é nada pessoal,
por favor.
— Eu sei, não se preocupe.
— Bem, ainda não sei em que posso
ajudá-la.
— É a Sra. St. Clare, não é? A Sra. Mike
St. Clare?
— Eu mesma. Mas me chame de Rachel,
por favor — de repente o pavor tomou
conta dela. — Meu Deus, aconteceu
alguma coisa a Mike? Fale, por favor!
Anna Hill suspirou.
— Não, não aconteceu nada a ele, a não
ser o fato de ter sido eliminado do torneio
do Canadá.
222
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Oh, não!
— Temo que sim. Sabe, fomos
informados de que se casou com Mike St.
Clare há pouco tempo.
— E quem deu essa informação?
— Não tenho a mínima idéia. Meu editor
somente me pediu para fazer esta
reportagem e, para dizer a verdade,
detesto fazer isso.
— Fazer o quê?
— Bem, a verdade é a seguinte, desde
que se casaram, Mike St. Clare tem jogado
muito mal e vem sendo eliminado de
todos os torneios. Estou aqui para tentar
descobrir se você acha que o casamento
afetou a vida profissional de Mike.
Rachel suspirou profundamente.
— Com certeza alguém deve achar isso,
não é?

223
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Pessoalmente, eu não acho. Por


favor, compreenda o meu papel. Só estou
aqui por causa do meu trabalho.
— Compreendo.
— Acho que você preferia que eu não
tivesse vindo, não é?
— Eu...
— Tudo bem, eu não me importo. Já
estou me acostumando. No princípio
ficava muito aborrecida, mas agora não
ligo muito quando sinto que a minha
presença não é desejada.
Rachel não pôde deixar de simpatizar
com Anna Hill, embora não gostasse da
razão pela qual ela estava ali. Mike era
um tenista famoso e não era de admirar
que seu casamento despertasse
interesse. Mas esse interesse não
agradava a Rachel. Aquilo a embaraçava
e a deixava nervosa.
224
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Será que poderíamos fazer a


entrevista? — pediu Anna Hill
gentilmente.
— Bem, depende das perguntas que
quer me fazer.
— Sem dúvida. Mas quero lhe dizer uma
coisa, Rachel. Se eu não pegar esta
história, com certeza outro jornal pegará.
E eu talvez possa lidar com esse caso
melhor que muitas pessoas.
Rachel suspirou. Tinha visto muitas
manchetes sensacionalistas nos jornais e,
uma vez que Mike tinha sido eliminado
de um torneio tão importante, a história
de seu casamento tão recente seria um
prato cheio. Mas Anna Hill parecia muito
sensata e simpática. Suspirou novamente
e acabou concordando.
— Tudo bem, eu concordo com a
entrevista. Que tal uma xícara de chá?
225
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ótimo, obrigada.
Depois de tanto tempo de solidão, era
gostoso ter companhia. Rachel então
começou a contar sobre como conhecera
Mike e reparou que sua história parecia
um conto de fadas.
— Que história linda! — disse a
repórter. — Então foi amor à primeira
vista?
— Não exatamente... Acho que foi amor
à segunda vista!
— Meu Deus, como você tem sorte!
Rachel compreendeu que Anna Hill
deveria ser fã de Mike e não deixou de
sentir um pouco de ciúme.
— Tenho muita sorte mesmo —
respondeu, sentindo a ironia das
próprias palavras.

226
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não me admira Mike estar fora do


campeonato... Com certeza ele deve estar
morrendo de saudades!
— É verdade.
— Por que não está no Canadá com ele?
— Bem, ele me pediu para ir, mas achei
que não deveria. Sabe, sei que a minha
presença naquele torneio iria fazer com
que ele não se concentrasse direito.
— Sei... Para falar a verdade, esta deve
ter sido uma decisão muito difícil de ser
tomada. Se você fosse, iria distraí-lo. Se
não fosse, iria fazê-lo sentir saudades.
— É verdade.
— Acredito que você também deve
sentir muito a falta dele, não é?
— É verdade — Rachel procurava não
falar demais.

227
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Bom, acho que já tenho o suficiente


— disse Anna levantando-se. — Muito
obrigada por tudo.
Após as despedidas Rachel viu-se
sozinha de novo e começou a pensar se
tinha falado muito. Afastou logo aquele
pensamento. Afinal, só havia dito a
verdade e sua história, exceto pelo fato de
Mike ter forçado o casamento, parecia
mesmo muito romântica.
O tempo passou e ela não ouviu mais
falar em Anna Hill. Começou a ficar
preocupada e chegou mesmo a ligar para
o jornal, sem contudo encontrá-la.
Deixou então um recado para que a
repórter a procurasse.
Já era muito tarde quando a campainha
tocou. Era ela.

228
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Sinto muito por ter vindo a esta hora,


mas estive ocupada o dia todo, cobrindo
um incêndio.
— Entre, por favor.
Anna entrou e a encarou com certo
receio.
— Sabe, Rachel, tenho uma confissão a
fazer... Rachel empalideceu.
— O que foi que aconteceu?
— Sinto tanto! Não houve tempo! Sabe,
esta manhã pediram para que eu fosse
cobrir esse incêndio e.
Rachel fechou os olhos e sentiu-se tonta.
— Você quer dizer que a reportagem já
foi impressa?
— Juro que não foi culpa minha! Meu
editor mandou que eu cobrisse o
incêndio e acabei esquecendo sua
história sobre a mesa... E meu editor viu e
a levou.
229
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel mordeu os lábios.


— Posso ler a reportagem agora?
— É claro, eu trouxe uma das cópias. A
foto saiu boa, não saiu? Rachel havia dado
uma das fotos do casamento para ser
publicada, a que mais mostrava o charme
de Mike e a expressão sonhadora de seus
olhos.
Ao começar a ler a reportagem, ela
gelou. Seu depoimento mais parecia um
conto de fadas e soava ridiculamente
romântico.
— Você não gostou, não é?
Não que ela não tivesse gostado, Mike é
que não iria gostar. A matéria havia sido
escrita com muita sensibilidade e Anna
tinha acrescentado alguns toques de
romantismo.
— Não posso dizer que não tenha
gostado.
230
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Será que fui muito longe?


— Bem, acho que foi.
— Sinto muito. Foi uma pena que não
tenha gostado.
— Não se preocupe com isso, por favor.
Assim que ficou sozinha, Rachel
começou a imaginar o que Mike diria
quando lesse a reportagem. Mas
provavelmente não chegaria a lê-la, uma
vez que estava no Canadá.
No entanto, todo mundo acabou lendo.
Rachel recebeu mensagens de
cumprimentos e boa sorte de muitos
amigos que não via há vários anos e a
reportagem foi muito comentada. Mas
não ouviu nenhum comentário vindo de
Mike. o que a deixou mais tranqüila.
Desejou ardentemente que a história
fosse esquecida rapidamente.

231
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Na sexta-feira foi ao supermercado


fazer compras. Planejou um gostoso
jantar a dois para quando ele chegasse.
Mas não houve jantar algum. Mike não
voltou para casa na sexta-feira. Nem no
sábado. No domingo a noite ainda não
tinha chegado. Rachel estava muito
preocupada, mas achou que não deveria
procurá-lo. Com certeza ele ficaria
irritado.
Estava sentada na sala de estar quando
ouviu o barulho da chave na porta. Tinha
que ser Mike, e seu coração quase
explodiu de alegria. Mas seu orgulho a
manteve sentada. Afinal, ele não havia
feito nenhum esforço para avisá-la que
chegaria com atraso.
Para seu espanto, ele a ignorou por
completo e dirigiu-se ao quarto. Voltou
para a sala minutos depois e, ainda sem
232
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

dizer nada, foi diretamente à garrafa de


uísque e serviu-se de uma dose. Bebeu
tudo de um gole só e serviu-se de outra,
deixando a sala com o copo na mão. Um
pouco depois Rachel ouviu a água do
chuveiro cair.
Mike parecia muito cansado e abatido,
mais magro até. Rachel arrependeu-se
por não ter ido ao seu encontro. Afinal,
ele deveria estar exausto! Mas, assim que
saísse do banho, prepararia algo para
comer e então poderiam sentar-se e
conversar.
Mas os planos de Rachel foram por água
abaixo. Ela esperou em vão que ele
retornasse e, como estivesse demorando
muito, resolveu investigar. O quarto
estava escuro e Mike já estava deitado.
Sua respiração mostrava que tinha
acabado de adormecer.
233
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel deixou o aposento sem fazer


barulho, desapontada. Aquele tempo de
separação fizera com que o desejasse
ardentemente. Somente na cama
conseguiam se entender e ela queria
aquela proximidade mais do que
qualquer outra coisa na vida.
Achou que ele talvez pudesse estar
cansado do vôo, mas logo viu que aquele
não era um bom motivo. Mike já estivera
cansado muitas outras noites, e. mesmo
assim, seu desejo não tinha fim.
Ele nem se mexeu quando Rachel se
deitou, imerso num sono profundo.
Quando ela acordou, no dia seguinte,
percebeu que Mike não estava mais a seu
lado. Somente a cama desarrumada dizia
que ele havia dormido lá. Rachel
levantou-se e olhou o armário,
suspirando de alívio ao ver que a mala
234
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

estava no lugar da sempre. Felizmente


ele não havia partido.
Rachel não sabia o que pensar. Por que
Mike estava agindo daquele modo?
Ele voltou para casa na hora do almoço,
mas não disse uma palavra. Pegou seu
uniforme de treino e saiu.
Rachel ficou ainda mais confusa e achou
que Mike devia estar ressentido por
causa da última conversa que haviam
tido pelo telefone. Ou talvez por ter lido a
reportagem!
Estava preparando o jantar quando ele
chegou e, dessa vez, correu ao seu
encontro.
— Não vou jantar.
— Mas Mike...
— Vou sair de novo.
— Mike!
— O que você quer?
235
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Preparei o seu jantar favorito, bisteca


ao molho tártaro.
— Pode deixar para amanhã. Não vou
jantar aqui hoje.
Rachel havia passado a tarde inteira
preparando a refeição e ainda fizera uma
deliciosa torta de maçã.
— Mas amanhã vai ficar horrível. Mike!
— Então jogue no lixo!
— Mike!
— O que é agora?
— Não é nada.
Voltou à cozinha e jogou a comida fora.
Não tinha o mínimo apetite.
— Até logo — disse ele momentos
depois, batendo a porta com força.
— Mike, espere! — Rachel correu para a
sala, tentando alcançá-lo, mas ele já tinha
ido.

236
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mas ido para onde? Ele não tinha


jantado e na certa iria fazer isso com
alguém. Quem? Não era difícil imaginar.
Com certeza Susy Freeman estaria à sua
espera...
Rachel foi cedo para a cama e dormiu
profundamente. Ao acordar percebeu
que Mike tinha dormido a seu lado, mas
não conseguiu saber a que horas havia
chegado.
Aquilo não podia continuar. Mal se
falaram durante o dia todo e Mike se
afastava cada vez mais.
Rachel não agüentava mais. Na sexta-
feira à noite, em vez de ir para a cama
antes de Mike chegar, resolveu esperar
por ele, que chegou de madrugada.
— Posso saber o que você está fazendo
acordada? — o tom de sua voz mostrava
que ele estivera bebendo.
237
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Estou esperando você, Mike. O que


mais poderia estar fazendo?
Ele a olhou com desdém.
— Bem, eu sinto muito, mas não estou
com vontade de fazer o que você quer.
Rachel ficou vermelha ao ouvir aquele
insulto.
— Parece que você não tem sentido
muita vontade ultimamente, não é?
— Por acaso está sentindo falta?
— Não. Nem um pouco, se quer saber.
— Sua mentirosa! É lógico que sente
falta! O modo como se comportou
durante todas as noites me diz que sim!
Eu sei que você me deseja, Rachel!
— Mike, por favor! O que está
acontecendo? O que há de errado entre
nós?
— Errado? — repetiu ele asperamente,
servindo-se de mais uma dose de uísque.
238
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela franziu a testa com preocupação ao


ver que ele bebia tudo como sã fosse
água.
— Você já não bebeu demais, Mike?
— Bebo quanto quiser, ouviu? E digo
mais, não há nada de errado entre nós.
Como pode haver algo errado se a minha
adorável esposa está aqui, a meu lado?
Tenho uma querida mulher, que amo
acima de tudo, até acima das quadras de
tênis! O que um homem pode querer
mais da vida?
— Você leu os jornais?
— Não só li como tive uma dúzia de
repórteres atrás de mim, loucos para me
entrevistar!
— Eu sinto muito.
— Você sente! Por que deveria sentir?
Não, Rachel, sou eu que sinto muito por
seu plano ter fracassado!
239
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Plano? Mas que plano? Anna Hill me


procurou para a entrevista e...
— Anna Hill? E quem é ela?
— A repórter...
— Engraçado, Rachel! Você nunca me
contou que tinha uma amiga repórter!
— E nunca tive, Mike!
— Não?
— Não!
Mike franziu a testa.
— Não importa. O seu plano não
funcionou.
— Mas que plano? De que você está
falando?
— Ora, não se faça de boba! Seu plano
de ser conhecida e tentar parecer
simpática ao público não funcionou. Não
pense que isso vai me impedir de tirá-la
da minha vida no momento em que

240
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

souber que não preciso mais continuar


com este casamento ridículo!
— Você está falando sério, Mike?
— É claro que estou!
— Então acho melhor arrumar a minha
mala.
— O que quer dizer com isso? Por acaso
está querendo dizer quê...
— É isso mesmo. Vou embora. Vou
abandonar este casamento ridículo.
Satisfeito?
Mike apertou-lhe o braço com força. Ela,
porém, não sentiu nenhuma dor. O que
tinha por dentro era tão doloroso que
qualquer dor física nada significava. Fez
as malas e as levou até a sala.
— Quer dizer então que não está
grávida! E há quanto tempo sabe disso?
— Uns dois dias.
— E por que não me contou?
241
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Ela adiara o momento de contar-lhe na


esperança de que ele aprendesse a amá-
la. Mas a última semana havia mostrado
que aquilo nunca iria acontecer.
— Como poderia contar, Mike? Você
não parou aqui um minuto!
— Então está indo embora?
— Não foi este o combinado?
— Foi.
— Então já estou indo. E, como você não
gosta de despedidas, eu me despeço por
você. Adeus, Mike — sua voz era fria e
não demonstrava as emoções que sentia.
— Rachel...
— Adeus, Mike — repetiu, fechando a
porta.

242
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO VIII

A jovem senhora que andava tranqüila e


confiante pela rua em nada fazia lembrar
a garotinha tímida e assustada que
deixara o apartamento de Mike dois anos
atrás. Rachel amadurecera bastante, não
era mais a menina insegura que ficava
vermelha à toa. Havia brilho em seus
olhos, um sorriso nos lábios e seu andar
era leve e seguro.
O tempo consegue apagar a dor,
substituir um amor por outro. E esse
outro amor fora Johnny, que lhe dera
motivação para viver quando tudo eram
sombras pesadas.
— Como estão as coisas, Cynthia? —
perguntou ela à amiga postada atrás do
balcão de uma livraria.
243
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Tudo bem. Agora é minha vez de


almoçar, estou morrendo de fome! Ele
nem se mexeu!
Rachel tomou o lugar da amiga e olhou
para a caminha improvisada. Aos
quatorze meses, Johnny era um menino
forte e sadio. Os cabelos eram claros,
como os do pai, mas os olhos tinham a
mesma tonalidade cinzenta dos de
Rachel.
Como Mike ficaria orgulhoso do filho se
soubesse de sua existência!
Johnny foi a razão pela qual Rachel
deixara Mike. Se ele ao menos tivesse
demonstrado algum carinho, ela teria
ficado. Mas nem isso aconteceu.
Rachel não concordava com Mike que
uma criança precisa de pai e mãe para
crescer feliz. Mike a odiava e ela o amava.

244
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Como uma criança poderia ser feliz num


lar assim complicado?
Por isso ela se fora. Era o mais lógico a
ser feito. Não podia fingir que os dois
últimos anos tivessem sido fáceis. Mas,
com o apoio emocional e financeiro dos
pais ela conseguira superar a dor. Seu pai
a ajudara a montar uma livraria com
Cynthia e, embora aquele não fosse o tipo
de negócio que ela mais queria, já era
pelo menos um começo.
Seus pais foram maravilhosos, tomando
conta de Johnny quando a livraria fora
aberta e ajudando-a no que podiam. Ela
já havia conseguido pagar o empréstimo
ao pai, mas sabia que poderia contar com
eles para o que quer que fosse.
Nunca mais tivera notícias de Mike nem
havia tentado localizá-lo. Afinal, não fazia
mais parte de sua vida. Ocasionalmente
245
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

lia algo sobre ele nos jornais,


especialmente quando decidira afastar-
se das quadras após uma espetacular
vitória em Wimbledon, um ano antes.
Rachel não havia sentido vontade de ir
assistir à partida, na época, mas não
conseguira tirar os olhos da televisão.
Mike jogara como um demônio. Sua
concentração era intensa e havia um
sorriso estranho em seus lábios.
Rachel acabara assistindo à partida
toda, com o coração disparando. Mas
tentara parecer calma na frente dos pais
e somente na privacidade de seu quarto
deixara as lágrimas caírem livremente.
Susy Freeman estava entre os
espectadores e, quando fora focalizada
bem de perto, Rachel notara um imenso
anel de brilhantes em sua mão direita.
Sabia que Mike não poderia se casar com
246
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Susy porque não havia se divorciado, mas


aquele anel evidenciava que já estavam
juntos. E, após o afastamento, Rachel
pouco ouvira falar dele. Até a noite
anterior, quando o noticiário da televisão
informara que ele voltaria às quadras no
torneio de Wimbledon, mas dessa vez
como técnico de um tenista mais jovem.
Seus pais a olharam com ansiedade,
tentando adivinhar-lhe a reação. Mas
Rachel permanecera impassível.
Logo após o noticiário, subira ao quarto
e observara o pequeno Johnny, que
dormia. Ele parecia um anjo, bem
diferente do demoniozinho que era
durante o dia. Estava vestido com um
pijaminha azul e cercado por ursinhos de
pano.
Olhando para ele, Rachel sentira que
aqueles dois anos haviam sido válidos.
247
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Johnny, com seus cabelinhos loiros


encaracolados e seus oito dentes, crescia
num mundo de amor. Seus avôs o
adoravam e Rachel o amava acima de
qualquer coisa. E, como resultado, ele era
alegre e saudável, dono de um sorriso
encantador que amolecia qualquer
coração. Como teria crescido em meio à
relação de amor e ódio sustentada por
seus pais? Cada vez que Rachel se fazia
esta pergunta, compreendia que tinha
agido corretamente. Era a única coisa que
poderia ter feito.
E a vida continuava daquela maneira.
Levava Johnny para a livraria, gostava de
seu trabalho, tinha boas amigas como
Cynthia, enfim, encontrara novamente a
paz.

248
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Chegou uma cartinha para você,


Rachel — disse a Sra. James, pegando o
neto no colo.
Ela abriu o envelope. Era um convite
para a festinha de aniversário de Eve
Rachel Lennon.
— Algum problema? — perguntou-lhe a
mãe, preocupada com a palidez da filha.
— Nada de interessante — respondeu
ela, amassando o papel e jogando-o no
lixo.
Kay Lennon fizera várias tentativas
para se aproximar dela depois do
rompimento com Mike, mas Rachel
sempre a evitara. Afinal, não poderia ver
Kay no sexto ou sétimo mês de gravidez!
Depois de tantas recusas Kay deixara de
procurá-la. Mas, quando Rachel estava no
final da gravidez, recebera um
telefonema da cunhada, convidando-a
249
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

para ser madrinha de Eve. Aquela fora


uma recusa difícil, mas não era possível
aparecer daquele jeito na frente de Kay. E
com certeza Mike também estaria lá,
tornando as coisas mais complicadas.
Depois houvera o convite para o
primeiro aniversário de Eve, que Rachel
simplesmente ignorara. Afinal, queria
mostrar a Kay que não desejava qualquer
tipo de aproximação ou amizade.
Exatamente como Mike fizera. Passara
aqueles dois anos sem mandar nenhuma
notícia, era como se estivesse morto.
Meses após a separação Rachel ainda
tinha esperanças de que ele a procurasse,
em vão. E, quando vira Susy
cumprimentá-lo com um beijo
apaixonado ao final do campeonato do
ano anterior, tivera certeza de que Mike
nunca mais a procuraria.
250
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

E, agora, aparecia aquele convite de Kay


para o segundo aniversário de Eve!
Rachel pensou que nunca mais ficaria
livre dos St. Clare. Talvez o divórcio
resolvesse o problema, mas, como Mike
não a havia procurado mais, tudo deveria
continuar como estava. De mais a mais,
um encontro com ele num tribunal
poderia trazer à tona a existência de
Johnny, e isso ela não queria.
Mas agora Mike estava novamente na
Inglaterra, de volta a Wimbledon como
técnico. Rachel começou a ficar
preocupada, temendo encontrá-lo nas
ruas ou até na soleira de sua porta.
Johnny captou a preocupação da mãe e
começou a sofrer uma série de pequenos
acidentes domésticos. O último acabou
resultando num pequeno corte na nuca,
alguns pontos e uma noite no hospital.
251
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel não pôde ficar com ele, não era


permitido. Assim, esperou que o menino
caísse num sono profundo e voltou para
casa chorando. Era a primeira vez que
dormiria longe de Johnny.
E foi chorando que entrou e se atirou
nos braços da mãe.
— Como está Johnny, minha filha?
— Bem, Meu Deus, mamãe, estou tão
preocupada! Vou morrer de saudades
dele esta noite!
— Acho que cheguei no momento
errado — falou uma voz familiar, uma
voz vinda do passado.
Rachel levantou a cabeça e viu Mike. Era
o mesmo homem que deixara há dois
anos, charmoso, atraente, elegante.
— Posso voltar outra hora — disse ele.
— Não! Não quero que você volte mais!
E o que veio fazer aqui?
252
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Leve Mike para a varanda, Rachel —


disse o Sr. James. — Sua mãe e eu
estaremos aqui, se você precisar.
— Só os deixo a sós se Rachel garantir
que ficará bem na presença deste senhor
— interveio a Sra. James.
Rachel molhou os lábios ressecados. Ele
não tinha nenhum direito de estar lá.
— Ficarei bem, mamãe. Sossegue.
Caminhou até a varanda e Mike a
acompanhou.
— Acho que não cheguei numa boa
hora.
Ela procurou não demonstrar a
perturbação que sentia.
— E o que o faz pensar que qualquer
outra hora seria uma boa ocasião para
vir? Posso saber o que veio fazer na
minha casa?
— Eu... Eu estava em Londres e...
253
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Em Wimbledon.
— Você sabia?
— Claro que sim. E só ler os jornais.
Quer dizer que agora você é o famoso
técnico de Bob Franks!
— Eu pensei em ver você e...
— Por que quis me ver?
— Você mudou, Rachel. Está tão
diferente. Agora é uma mulher de
verdade!
— Todos nós mudamos, não?
— É verdade. Eu também mudei — a
voz de Mike era calma e suave. — Não sou
mais o que era antes, Rachel. Tenho
pensado muito no nosso casamento, no
motivo pelo qual ele aconteceu.
— Você não acha que dois anos é muito
tempo para pensar nisso?
— Rachel...

254
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Você não é bem-vindo nesta casa,


Mike. A sua presença não é desejada aqui.
Ele estremeceu.
— Seus pais sabem por que nos
casamos?
Rachel tivera que lhes contar a verdade
para justificar sua recusa veemente em
voltar para o marido.
— Eles sabem — confirmou ela.
— Eu já esperava. Percebi que sabiam
de tudo pela maneira como me trataram.
Foram muito frios.
— E o que você esperava? Um tapete
vermelho de boas-vindas?
— É claro que não. Posso me sentar?
— É lógico que pode — a voz de Rachel
continuava distante.
— Você não vai sentar também?
— Não. Quero ficar em pé.
— Hoje é o aniversário de Eve.
255
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu sei.
— Kay me disse que a convidou.
— Convidou mesmo.
— Você não quis ir?
— É evidente que não!
— Por minha causa?
— Você? Não seja pretensioso, Mike.
— Kay ficou desapontada por você não
ter ido.
— Eu estava ocupada.
— Sei que estava. Ocupada com Johnny.
Rachel sentiu o coração disparar.
— O que você sabe sobre ele? —
perguntou, ofegante.
— Somente o que seus pais contaram.
— E o que foi que eles contaram?
— Que você o estava visitando no
hospital. Quem é ele, Rachel?
Ela suspirou, aliviada. Seus pais não
haviam falado nada.
256
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Johnny é um amigo. Por quê?


Mike ficou tenso.
— Que tipo de amigo?
— Um amigo muito íntimo, se quer
saber.
— Sei. Agora entendo por que seus pais
relutaram tanto para falar dele, esse
Johnny é seu namorado, não é?
— É.
— Ele está doente?
— Nada grave.
— Mas você parecia muito preocupada
quando chegou.
— E lógico, Mike. E um choque ter uma
pessoa tão querida no hospital.
— Você gosta muito dele?
— Muito.
— E o ama?
— Amo.
— Meu Deus.
257
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— O que você esperava, Mike?


— Você dorme com ele.
— Sempre.
Mike empalideceu e levantou-se.
— Bem, então acho que não há mais
nada para ser dito. Espero que seja feliz,
Rachel.
— Eu sou. E você, Mike? É feliz?
— E o que é a felicidade?
— Ainda não descobriu?
— Com certeza você já a encontrou,
Rachel. E fico contente com isso. Adeus.
— Você não gostava de despedidas,
lembra-se?
— Mas parece que não tenho escolha
desta vez.. Acredito que você queira o
divórcio.
— Ainda não pensei sobre isso.
— Você não quer se casar com Johnny?

258
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu nunca quis me casar com


ninguém!
— Boa sorte, então, Rachel. E se um dia
quiser o divórcio, Kay saberá onde me
encontrar.
— Eu me lembrarei disso.
— E...
— Eu pensei que você estivesse indo
embora, Mike.
— Já estou indo, Rachel. Meu Deus,
como me enganei!
— Adeus, Mike.
A voz dela era calma. Mas, se ele não
fosse logo embora, soltaria todos os
gritos sufocados em sua garganta
naqueles dois anos.
— Eu acho que prefiro dizer até logo.
— Mas eu prefiro adeus.
Mike suspirou e se foi. Então um tremor
violento tomou conta de Rachel. Vê-lo
259
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

nessa noite era a última coisa que


esperava.
— Rachel?
Sua mãe aproximou-se.
— Foi uma surpresa para nós também,
querida. Quando seu pai e eu voltamos
para casa hoje à noite, vimos o carro dele
parado. Ele estava à nossa espera e
perguntou onde você estava. Acabamos
falando que estava fazendo uma visita no
hospital.
— Está tudo bem, mamãe. Ele pensa que
Johnny é meu namorado.
— E será que isso é bom?
— E o que mais eu podia dizer, papai?
— Por que não falou a verdade?
— Ora, Jim!
— Papai! Como podia falar a verdade?
— Você sabe, Rachel, que nunca achei
justo esconder Johnny do próprio pai.
260
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mas Mike nunca se interessou por


mim, nunca se preocupou em saber se eu
estava viva ou morta! Sequer estava
presente quando o filho nasceu!
— Ele não sabia, Rachel.
— Mas deveria estar comigo, de
qualquer modo!
— Você ainda o ama?
— Não!
— Acho que não está sendo muito
honesta, minha filha.
— Está bem, talvez eu ainda o ame, não
sei. Mas amar Mike só me fez mal.
— No entanto lhe deu Johnny, não se
esqueça.
Rachel sorriu ao som do nome de seu
filhinho. Ele era toda a razão de sua
existência.

261
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E o que ele queria aqui? — continuou


o Sr. James. — Por que apareceu depois
de tanto tempo?
— Eu não sei. Perguntei a ele, mas só
disse que queria me ver. E também
mencionou o fato de eu não ter ido à
festinha de aniversário de Eve.
— Mas que desculpa mais esfarrapada
para um homem com a inteligência de
Mike! — brincou o Sr. James.
— Se ele tivesse um pingo de
inteligência, teria amado a nossa Rachel
— disse a sorridente Sra. James. — E
sabem de uma coisa? Estou começando a
achar que esse tal de Michael St. Clare é
um grande idiota!
Rachel sorriu.
— Ele disse que podemos nos divorciar
a qualquer hora.
— E você quer o divórcio?
262
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não sei, papai. Ainda não pensei


nisso.
— Pense bem, então, querida. O
divórcio é um passo muito sério e
definitivo.
— Não se preocupe. Desta vez não vou
agir com precipitação.
Mais tarde, já na cama, ela começou a
pensar na possibilidade de separar-se
legalmente de Mike. Mas, se a existência
de Johnny viesse à tona, talvez houvesse
brigas na Justiça pela custódia do
menino. Não, ela nem podia imaginar
aquilo. Sem Johnny sua vida não teria
muito sentido.

CAPÍTULO IX

263
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Assim que amanheceu Rachel foi buscar


Johnny. Entrou no quarto e encontrou-o
acordado, uma enfermeira lhe estava
colocando a roupinha. Logo que viu a
mãe, ele estendeu os bracinhos e sorriu.
Rachel o abraçou e a jovem enfermeira
deixou que ela terminasse de vestir o
menino, que a puxou pela mão para
mostrar-lhe os brinquedos que ganhara
durante sua curta permanência no
hospital.
Rachel sorriu.
— Espere só para ver os presentes que
a vovó comprou para você, querido!
Johnny pulou de felicidade e ambos
seguiram para casa. onde vários pacotes
coloridos o esperavam. A alegria no
rostinho infantil emocionou a todos.

264
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Cynthia apareceu à noite, levando um


caminhãozinho de madeira.
— Como está o meu homenzinho
valente hoje? — disse ela, pegando-o no
colo.
— Estragado — sorriu Rachel. — Nós
estamos tão felizes com a volta dele que
as suas mínimas vontades estão sendo
satisfeitas. E, como meus pais o estavam
paparicando muito, mandei-os ao cinema
antes que Johnny ficasse mimado demais.
— Mas ele merece ser paparicado, não
é, meu querido?
Johnny ficou encantado com o
caminhãozinho e começou a correr pela
casa.
— Como está ele, Rachel? Parece bem,
não parece?

265
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ele está bem, sim. O médico me disse


que não houve complicação alguma. Não
foi nada sério.
— Eu me sinto tão responsável! Se pelo
menos não tivesse colocado as caixas
naquele lugar!
_ Ora, Cynthia, a culpa não foi sua. Se
Johnny não tivesse sido desobediente
não teria subido nas caixas nem cairia.
— Mas...
— Chega de mas, Cynthia. Quer parar de
se sentir culpada? Se a culpa for de
alguém, certamente é minha! Afinal, era
eu quem estava com ele.
Cynthia sentou-se numa poltrona
enquanto o pequeno Johnny brincava
alegremente pela sala.
— Rachel — disse, com certa hesitação
—, sobre o acidente...

266
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Sei o que você vai falar, Cynthia. Já


conversei com meus pais e minha mãe
concordou em tomar conta de Johnny na
parte da manhã.
— Bem, já é alguma coisa. Eu não
gostaria de tocar neste assunto, mas
desde que Johnny começou a andar...
— Eu sei que os acidentes vão começar
a aumentar, Cynthia. Mas não vejo outra
saída. Não quero colocá-lo numa creche,
agora, nem posso pagar uma babá.
Cynthia respirou fundo.
— Charlie me pediu em casamento,
Rachel.
— Que maravilha!
Cynthia estava namorando Charlie
Crawford há seis meses e a notícia do
casamento era maravilhosa.
— Estou tão feliz, Cynthia! Espero que
tenha dito sim!
267
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— É lógico que disse, Rachel. Sou louca


por ele. Estou apaixonada, sabia? Mas o
que eu queria dizer é quê... Bem, se você
quiser sair da loja. Charlie estaria
interessado em comprar a sua parte.
— É mesmo? — Rachel arregalou os
olhos e os abriu ainda mais quando
Cynthia mencionou a quantia que ele
poderia oferecer.
— Nossa, mas Charlie tem todo esse
dinheiro?
— Ele é rico, você sabe.
— Eu... Posso dar uma resposta
amanhã?
— Mas é claro que sim. Não estou
esperando uma resposta imediata,
Rachel. Pense bem e depois decida.
Cynthia tinha razão. Seria difícil cuidar
de Johnny e da loja ao mesmo tempo.

268
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Afinal, ele estava começando a andar e a


dar muito trabalho.
— Pode pensar o tempo que quiser,
Rachel. Charlie e eu não temos pressa.
Nem marcamos a data do casamento
ainda. Mas vou fazer um convite, quero
Johnny como meu pajem de honra!
As duas amigas se abraçaram.
— Bem, já está tarde. Acho melhor ir
andando. Vou me encontrar com Charlie
esta noite.
Cynthia pegou Johnny no colo e o beijou.
— Sabe de uma coisa, Rachel? Se este
diabinho fosse um pouco mais velho, eu
me casaria com ele!
— Diga a Charlie que estou muito
contente com a notícia do casamento. E
parabéns, Cynthia. Você merece muito
ser feliz!

269
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Cynthia saiu e Rachel ficou a sós com o


filho. Acho que ele estava cada vez mais
parecido com o pai e tremeu ao lembrar-
se de Mike.
— Vamos para a cama, querido?
Johnny pegou seu caminhãozinho de
madeira.
— Caminhão — disse ele, deixando
claro que não queria largar o brinquedo.
— Tudo bem — sorriu Rachel. — Pode
levá-lo. Mas, se quiser levar todos os
brinquedos para a cama, não vai sobrar
espaço para você!
Deu um banho em Johnny, colocou-o na
cama e ainda leu uma história para ele. E,
exausta, deixou-se cair numa cadeira.
Aquele havia sido um dia agitado.
Johnny, com suas peraltices, iria dar cada
vez mais trabalho. E havia a proposta de
Cynthia.
270
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel sabia que alguma coisa devia ser


feita, no entanto, a idéia de ficar sem
trabalho não lhe agradava muito. Mas
Johnny vinha em primeiro lugar e
qualquer decisão a ser tomada visaria o
bem-estar dele.
Rachel ligou a televisão para se distrair
um pouco e dois rostos muito familiares
apareceram no vídeo. Ela pulou da
cadeira e aumentou o volume para
escutar o que havia acontecido, mas a
notícia já estava no fim. Só pôde ouvir
que Bob Franks, o tenista que Mike
treinava, também estava em estado grave
por causa de um acidente
automobilístico.
Também estava em estado grave? O que
significava isso? Quem mais estaria
machucado? Mike?

271
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel ficou desesperada e resolveu


ligar para Kay. Com certeza ela saberia de
alguma coisa.
Mas não houve resposta no lar dos
Lennon. E por quê? Ora, era lógico que
Kay deveria estar com Mike! Mas onde?
Bem, só havia uma maneira de descobrir,
ligar para todos os hospitais de Londres.
Os pais de Rachel chegaram quando ela
estava em meio a uma discussão com a
recepcionista de um pronto-socorro, que
se recusava a fornecer o nome dos
pacientes internados. No final. Rachel
acabou desligando o telefone no meio da
conversa.
— Quanta burocracia!
— Meu Deus, minha filha, o que houve?
— Estou tentando descobrir se Mike
está morrendo e...
— Morrendo? Do que está falando?
272
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Ele sofreu um acidente e não consigo


saber se está machucado ou não. Mas
pode estar morrendo!
— Rachel, quer fazer o favor de se
acalmar?
— Mas é que houve um acidente e
Mike... bem, ele deve estar machucado e
eu... estou desesperada!
— Pare de se preocupar. Rachel —
disse-lhe o pai. — Mike não estava no
carro.
— Mas...
— Nós ouvimos as notícias no rádio,
querida. Mike não estava, mas Bob
Franks e sua noiva se machucaram
bastante.
— Quer dizer que Mike está bem?
— Está, querida.

273
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Meu Deus, como fui boba em ficar


preocupada! Afinal, o que tenho a ver
com ele?
— Mike é pai de Johnny, Rachel. É
natural que você se preocupe.
— Quem aceita uma xícara de chocolate
quente? — ofereceu a Sra. James.
— Ótimo, mamãe. Estou mesmo com
fome. Johnny está dormindo como um
anjo, precisa ver que gracinha.
Rachel já estava no quarto quando seu
pai entrou, levando-lhe o chocolate
quente.
— Aqui está, minha querida — disse ele,
sentando-se na cama ao lado dela.
— Obrigada, papai. Gostaram do filme?
— Mais ou menos. Sua mãe se divertiu
bastante e foi bom sair um pouco.
— Cynthia veio me visitar.

274
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E como vai ela? Fazia tempo que não


aparecia, não é? Com certeza deve estar
muito ocupada com Charlie Crawford.
— Eles vão se casar papai. Fiquei muito
feliz com a notícia.
Ele sorriu.
— E Cynthia também veio me fazer uma
proposta — continuou ela. — Charlie
Crawford está interessado em comprar a
minha parte na livraria.
— Você quer vender?
— Não vejo outra saída. Johnny precisa
mais da minha atenção a cada dia que
passa. Você e mamãe são maravilhosos,
mas...
— Mas não somos a mãe dele. Nem seu
pai.
Rachel percebeu algo no ar.
— O que está querendo dizer, papai?

275
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Sua mãe e eu conversamos muito


esta noite. O fato de ver Mike novamente
nos fez pensar que talvez seja injusto
manter Johnny afastado dele.
— Injusto? Tem coragem de dizer isso,
papai?
— Lembre-se de que Mike é o pai do
menino, Rachel.
— E eu sou a mãe dele! Se Mike souber
da existência do filho, nem sei o que pode
acontecer!
— Por que não volta para ele, Rachel?
Sei que ainda o ama.
— Você não pode estar falando sério,
papai!
— Johnny precisa de um pai.
— Não! Não precisa! Ele é muito feliz e
ninguém pode dizer o contrário.
— É claro que seu filho é feliz. Mas ele
precisa de um pai, como qualquer outra
276
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

criança. E mais tarde, quando souber de


tudo, Johnny talvez prefira a companhia
de Mike em vez da sua...
— Não!
— É um fato que precisa ser encarado,
Rachel. Mike é um homem rico, famoso, e
talvez possa oferecer mais a Johnny do
que você.
— Ele não pode amá-lo mais do que eu
o amo! Desejo meu filho comigo e não
quero mais ouvir falar no nome de Mike.
Nunca mais!
Seu pai levantou-se para sair do quarto.
— Pare de pensar só em você. Pense em
Johnny também.
Mas Rachel não poderia viver com Mike,
sabendo que ele não a amava. Não
poderia suportar a idéia de estar com um
homem que apenas a tolerava por causa
de seu filho.
277
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel levantou cedo no dia seguinte e


foi trabalhar. O movimento na livraria foi
intenso e o tempo passou depressa.
Cynthia saiu para almoçar ao meio-dia,
deixando Rachel sozinha. E, então, ela
aproveitou para verificar alguns livros
numa estante alta.
— Já vou indo! — disse ela do alto da
escada ao perceber que um freguês se
aproximava.
— Não tenha pressa.
Rachel quase caiu ao som familiar
daquela voz.
— Segure-se bem. Eu a ajudo a descer —
disse Mike, sorrindo. Ele a segurou pelos
braços, fazendo-a voltar ao chão.
— Oi — foi a única coisa que ela
conseguiu dizer.
— Como vai?
— Posso ajudá-lo em algo?
278
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mike nem pareceu ouvi-la. Observou a


pequena loja.
— É muito bonitinho aqui.
— E o que você esperava, uma
espelunca? Ele balançou a cabeça.
— Eu não esperava nada, Rachel. Nem
sabia que você tinha esta livraria. Foi Kay
quem me contou.
— Kay? E quem contou a ela?
— Não sei. Mas lembre-se de que minha
irmã sempre sabe de tudo. Como vai
você, Rachel?
— Bem, como há dois dias.
— E Johnny?
— Está mesmo interessado em saber?
— Não. Por que eu iria me interessar
pelo homem que dorme com minha
mulher?
— Então por que perguntou?

279
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Perguntei para iniciar a conversa, só


isso.
— Mas que começo de conversa mais
ridículo!
— Rachel, por favor...
— Aceita um café, Mike? Só tenho café
instantâneo aqui na loja. Se quiser, vai ter
que se contentar com ele.
— Café instantâneo é ótimo.
Nesse momento Cynthia entrou na loja.
— Olá, Cynthia, como vai? — perguntou
Mike.
Ela não esperava vê-lo ali e respondeu
ao cumprimento com certa cerimônia.
— Vamos comer alguma coisa, Rachel?
Eu estou com fome.
— Eu... Mike sorriu.
— Estou morrendo de fome. Passei a
noite em claro no hospital e estou louco
de vontade de comer alguma coisa.
280
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Tudo bem, então, Mike, mas não


posso demorar. Cynthia não pode ficar
sozinha por muito tempo.
Acabaram almoçando num pequeno
café, nas proximidades. O local estava
lotado e não parecia muito convidativo
para conversas íntimas.
— Sinto muito o que aconteceu a Bob
Franks, Mike.
— É mesmo uma pena. Ele era um ótimo
jogador.
— Era? O que quer dizer com "era"?
— Bob quebrou as duas pernas no
acidente e duvido que possa voltar ao
tênis.
— Mas que pena, Mike...
— Mas felizmente Susy não se
machucou muito. Quebrou um braço e
sofreu arranhões no rosto.
— Susy?
281
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— É, Susy Freeman. Não se lembra dela?


— E como esquecer, Mike?
— Acho que este acidente vai adiar um
pouco o casamento.
— Casamento? Mas você ainda nem se
divorciou, Mike!
— O que disse, Rachel? Acho que não
entendi.
— Como quer se casar com Susy
Freeman se ainda somos casados?
— Casar com Susy? — repetiu ele
vagarosamente. — E quem disse que vou
me casar com ela?
— Não vai?
— É evidente que não, Rachel. Que idéia
absurda!
— Mas...
— Acho melhor sairmos daqui. Vamos
até o meu apartamento. Lá poderemos
conversar melhor.
282
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não posso. A loja...


— Com certeza Cynthia tomará conta
dela até você voltar.
— Não tenho por que ir a seu
apartamento, Mike. Acho que não temos
mais nada a nos dizer.
— Não, Rachel. Eu preciso falar com
você. Em particular — acrescentou
sorrindo ao ver que uma mulher, na mesa
ao lado tentava ouvir a conversa. — Por
favor, só meia hora! Será que é pedir
muito?
— Então só por meia hora, Mike. Não
quero me demorar mais do que isso.
— Meia hora. Depois eu a levo à loja. Se
você ainda quiser voltar, claro.
— Eu vou querer.
— Tudo bem, então. Só quero que ouça
o que tenho a dizer. Depois pode ir
embora. Não vou impedi-la.
283
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não seja tão pretensioso, Mike. Vou


aonde quero e saio quando quiser sem
que ninguém me impeça. Não tenho a
mínima intenção de ficar ao seu lado um
minuto a mais do que o necessário.
Era estranho estar de volta àquele
apartamento, tão cheio de lembranças.
— Você toma um drinque?
— Não, obrigada.
O apartamento estava exatamente igual
e tudo parecia familiar. Os enfeites de
barro que ela havia arrumado em cima de
uma mesa estavam no mesmo lugar e até
os discos que tanto haviam escutado
enquanto faziam amor eram os mesmos.
— Nada mudou aqui não é?
— É que quase não fiquei em Londres.
Passei muito tempo morando nos
Estados Unidos.
— E por que manteve o apartamento?
284
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Na esperança de... Quero dizer,


mantive este apartamento para ter um
lugar onde ficar quando viesse à
Inglaterra.
— Bem, Mike não tenho muito tempo.
Vamos ao que interessa.
Ele balançou a cabeça.
— Por que pensou que eu fosse me
casar com Susy? Para mim ela nunca
passou da filha de Sam.
— Mas você mencionou um casamento
e, como estão sempre juntos, pensei que...
— Susy vai se casar, mas não comigo.
Ela está noiva de Bob Franks.
— Meu Deus, eu não sabia!
— Você teria se incomodado se o noivo
fosse eu?
— Bem...
— Fale a verdade, Rachel. Eu quero a
verdade.
285
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E por que quer saber? Por acaso isso


lhe interessa?
— Interessa. E sabe por quê? Porque eu
amo você. Porque sempre amei. Estive
sempre apaixonado, Rachel.
Ela pensou ter ouvido mal. Não podia
ser verdade.
— Mike, o que você disse?
— Eu disse que amo você, Rachel. Que
você é a grande paixão da minha vida.

286
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

CAPÍTULO X

Rachel levantou-se e andou pela sala.


Estava agitada. Começou a achar que
Mike deveria estar louco. Aquilo mais
parecia uma brincadeira, as palavras dele
não tinham sentido.
— Eu te amo, Rachel.
Ela tentava dizer algo mas não
conseguia.
— Rachel, pelo amor de Deus, diga
alguma coisa! Mesmo que seja somente
um "eu te odeio"!
— Eu... eu não odeio você, Mike.
— Bem, já é alguma coisa!
— Fale de novo. por favor. Fale de novo,
Mike. Eu não estou acreditando.
— Eu me apaixonei no momento em que
a vi naquela maternidade.
287
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não! É mentira! Não posso acreditar!


— Mas é a verdade, Rachel. Desde o
momento em que vi você senti algo aqui
dentro tão difícil de explicar.
— Meu Deus, Mike! Então por que
sempre agiu como se me odiasse?
— Porque me senti enganado, Rachel.
Pensei que você tivesse premeditado
tudo, como minha mãe.
— E agora?
Mike dirigiu-lhe um olhar selvagem.
— Agora quero fazer amor com você,
Rachel. Eu te desejo tanto!
— Então faça amor comigo agora, Mike.
Se soubesse quanto preciso de você.
— Rachel, eu nunca vou deixar você ir
embora de novo. Como te amo!
O que se seguiu foi a experiência mais
bonita que ambos já tinham vivido.
Depois ficaram abraçados, como se
288
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

tivessem medo de que aquele momento


mágico terminasse. Rachel descansava a
cabeça no peito de Mike e este lhe
enlaçava a cintura.
— Sei que você me ama, Rachel.
— É verdade. Eu te amo.
— E quando descobriu isso?
— Desde o princípio.
— Meu Deus, Rachel! Por que não me
disse?
— E por que você não me disse também,
Mike?
— Por orgulho. Eu te amava muito e a
minha atração por você era imensa. E
naquela noite, quando perdi a partida
para Paul Shepley, você não fez nenhuma
objeção em passar a noite comigo.
Rachel sorriu.

289
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Eu era muito ingênua. Quando você


me convidou, não imaginei que fosse ficar
aqui a noite inteira.
— Minha menininha linda, como adoro
você!
— Eu não estava acostumada a sair com
homens que acham normal levar para a
cama garotas que conheceram há dois
dias.
Mike sorriu.
— Dois dias? Menos tempo ainda,
querida. Eu não era nenhum santo. Você
veio com a sua doçura e beleza, e eu me
encantei. Mas, quando percebi que era
virgem, a minha cabeça quase explodiu.
Pensei no que minha mãe havia feito e
ainda havia aquele rapaz do parque, não
é?

290
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Danny? Oh, eu só estava tentando me


livrar dele quando percebi que Kay
precisava de ajuda.
— Bem, mas eu não sabia disso na
época. E, juntando tudo, acabei pensando
que você queria fazer chantagem.
Também, com o passado que tive!
— Eu não sabia nada sobre a sua vida
até Susy me falar, Mike. Ela me contou
tudo sobre a sua infância no dia do nosso
casamento.
— No casamento?
— Você lembra que nós duas
conversamos muito naquele dia? Foi
sobre isso. Ela disse que você me odiava
e também contou que tinham planos para
se casarem após o nosso divórcio.
— Susy e eu? Acho que estava louca!
Nunca tivemos nada, juro! Mas por que

291
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

você contou a ela sobre o verdadeiro


motivo do nosso casamento?
— Eu não contei, Mike! Foi você quem
contou!
— Não contei, Rachel! Eu nunca disse
nada a ninguém!
— Mas Susy não podia adivinhar. Você
deve ter contado!
— Eu juro que não contei. Talvez ela
tenha desconfiado. Será que não foi isso?
Lembrando aquela conversa, Rachel
percebeu que talvez tivesse contado mais
do que Susy realmente sabia. Ela talvez
tivesse caído numa armadilha.
— Susy sabe ser um demônio, Rachel.
— Vocês dormiram juntos várias vezes,
não dormiram?
— Eu nunca dormi com Susy.

292
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E o que ela fazia no seu quarto


quando você ligou e pediu que eu fosse
para o Canadá?
— Ela estava com Sam. Eu ia jogar no dia
seguinte e estávamos acertando os
últimos detalhes para aquela partida. Foi
por isso que você não quis ir ao Canadá?
— Foi, Mike.
— Meu Deus! Estou começando a achar
que subestimei Susy durante todos estes
anos! Quer dizer que ela esteve por trás
dos nossos problemas o tempo todo!
Chego até a ter pena dela. Deve ser uma
pobre coitada!
— Acho que foi a nossa falta de
confiança que esteve por trás dos nossos
problemas, Mike.
— Pode ser, mas Susy deu uma boa
ajuda. E quanto àquela reportagem? O
que realmente aconteceu?
293
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Foi aquilo mesmo que eu disse. Uma


repórter veio me entrevistar e eu falei o
que achava que devia.
— Fiquei tão bravo quando li a matéria!
Pensei que fosse um plano seu para ficar
conhecida e ter apoio e simpatia de todos
quando o nosso casamento acabasse.
— E agora, Mike? Por que voltou? Faz
dois anos, dois longos anos.
— Eu nunca a esqueci, Rachel. Pensei
em procurá-la várias vezes, mas não tive
coragem. Só agora consegui ser mais
forte que os meus medos — Mike lhe
acariciava os cabelos enquanto
conversavam. — Eu nem acredito que
estamos juntos de novo, meu amor.
Nem Rachel podia acreditar. Nem em
seus sonhos mais lindos havia imaginado
tanta felicidade.

294
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— E agora tudo que você precisa fazer é


terminar com esse tal de Johnny —
continuou Mike. — Nem o conheço e já
morro de ciúmes dele!
Johnny! Rachel levantou-se, assustada,
ao som daquele nome. Tinha até
esquecido dele! E o que Mike diria ao
saber da existência do próprio filho? De
repente aquela grande felicidade pareceu
desaparecer.
— O que houve Rachel? Eu não estou
bravo por você ter dormido com ele.
Afinal, nós estávamos separados e você
tinha o direito de dormir com quem
quisesse.
— E você, Mike? Teve alguém neste
tempo todo?
— Não, ninguém. Mas eu só quero que
acabe com esse Johnny e...

295
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Não posso Mike! Não posso terminar


com ele!
— Não? Mas você não pode amar dois
homens ao mesmo tempo.
— Posso, sim.
— Você o ama muito, não ama? — Mike
estava pálido e tenso.
— Amo, Mike. Deixe-me explicar, por
favor.
— Não! Nunca mais quero ver você,
Rachel. Agora é para sempre. Vá embora.
Rachel deixou o apartamento
rapidamente, dirigindo-se para sua casa.
E faria a única coisa que restava fazer,
levaria Johnny para conhecer o pai.
Mas, ao chegar, o menino ainda dormia.
Ela não quis acordá-lo e teve que esperar.
— Algo errado, minha filha?
Rachel sentiu-se um pouco embaraçada
em contar o que acontecera aquela tarde,
296
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

limitando-se apenas a dizer que talvez


estivesse voltando para Mike.
— Olhe, mamãe, acho que Johnny está
acordando.
— Acho que sim. A campainha está
tocando. Vá ver quem é enquanto eu fico
com ele.
Ela caminhou até a porta e não conteve
um grito:
— Mike!
Ele estava pálido e havia lágrimas em
seus olhos.
— Posso entrar?
— Por que veio?
— Porque eu sabia que você não
voltaria. E não posso mais viver sem você.
E se o único modo de tê-la a meu lado é
aceitar Johnny, eu aceito. Fique com ele
mas, pelo amor de Deus, fique comigo
também. Eu te quero Rachel, por favor.
297
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— Mike... Johnny está aqui.


— O quê? Você não perde tempo, não é?
Rachel sorriu e levou-o até a outra sala,
onde o menino brincava.
— Mamãe, mamãe! — gritou ele ao vê-
la, escondendo o rosto no colo dela.
Rachel tomou o menino nos braços e o
beijou.
— Dormiu bem, meu querido? — e,
virando-se para Mike, entregou-lhe o
filho.
Johnny hesitou um momento, mas logo
sua vergonha desapareceu e ele atirou-se
nos braços do pai.
Mike estava tão espantado que mal
conseguia falar.
— Este é seu pai, Johnny. Fale papai.
Repita comigo: papai!
— Pa... pai — repetiu ele, triunfante.
— Rachel... ele é meu filho?
298
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— É, Mike.
— Meu Deus, por quê?
— Eu também tenho o meu orgulho,
Mike. Quando soube que estava grávida,
percebi que não podia ficar a seu lado. Eu
te amava loucamente e achava que você
me odiava tanto. Não era possível viver
daquele jeito. Assim, decidi ir embora. Eu
sei que não deveria ter escondido o bebê,
sei que foi egoísmo de minha parte, mas...
— Se você foi egoísta, eu fui muito mais.
E sabe de uma coisa Johnny, nosso filho
— sorriu ao pronunciar aquele nome —,
pode ter sido concebido após o
casamento. Eu não fiz nada para evitar
porque queria que você ficasse grávida.
Eu a queria a meu lado de qualquer jeito,
mas não podia admitir que te amava
loucamente.
— E agora? Agora admite que me ama?
299
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Mike sorriu e seu doce sorriso não


escondeu o que sentia nesse momento.
— Com você a meu lado Rachel, posso
vencer o mundo! E, com você e Johnny,
posso ter o universo! — de repente ele
ficou sério. — Vocês estarão a meu lado,
Rachel?
— Papai! — gritou Johnny.
Rachel sorriu.
— Bem, seu filho parece que já se
decidiu, Mike.
— E você, querida?
— Acho que nunca tive escolha. E sabe
de uma coisa? Nunca quis ter escolha
alguma. Meu desejo, desde o princípio,
era ficar com você.
— Eu te amo, Rachel.
— Eu também te amo. Mike.
— E à noite, minha querida, vou mostrar
a você quanto.
300
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

Rachel sorriu e o beijou no rosto.


— E fique sabendo — continuou ele —
que você, Sra. St. Clare, não vai dormir
nem um pouquinho esta noite. Vai apenas
mostrar quanto sente por me ter
enganado este tempo todo.
Uma tosse alta e forçada anunciou a
chegada da sra. James na sala.
— Não quero interromper nada, mas a
mamadeira de Johnny está pronta.
O menino correu para os braços da avó,
bebendo avidamente o leite batido com
chocolate.
— Ele é um demoniozinho, não é,
Rachel?
— Como o pai.
Ele a tomou nos braços e a apertou com
força.
— Este é um novo começo para nós —
disse, enxugando uma lágrima que
301
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

teimava em cair de seus olhos. — Espero


que você possa um dia esquecer todas as
coisas horríveis que lhe fiz.
Ela sorriu e o beijou novamente.
— O passado ficou para trás, Mike.
Estamos juntos agora e é só isso que
importa.
— Tudo vai mudar, minha querida. A
única coisa que não mudará é o amor
imenso que sentimos. Só que desta vez
ele não ficará escondido. A minha
felicidade é tanta que tenho vontade de
berrar ao mundo inteiro que te amo!
Rachel também enxugou uma lágrima.
— Eu não acredito que possa estar
vivendo tanta felicidade. Tenho você e
Johnny; o que mais posso querer da vida?
— Não se esqueça de que Johnny pode
ganhar um irmãozinho ou uma irmãzinha
pelo que aconteceu esta tarde.
302
Segredo de uma paixão Carole Mortimer

— O quê? O que está querendo dizer,


Mike? Vai começar tudo outra vez?
Ele sorriu com muita ternura.
— Só que agora estarei a seu lado,
Rachel. Sempre estarei. Nunca mais
quero ficar longe de você, nunca mais.
Aquela era uma promessa para o futuro
e Rachel sabia que ele a cumpriria.

FIM

303

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