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Caso Nº1

1. Qual a responsabilidade de A e B pelas obrigações sociais de cada uma das


sociedades?

À luz do art 1º/2 do CSC “são sociedades comerciais aquelas que tenham por objetivo a
prática de atos de comércio e adotem o tipo de sociedade em nome coletivo, da sociedade por
quotas, de sociedade anónima, de sociedade em comandita simples ou de sociedade de
comandita por ações.”, ou seja, este artigo só nos indica quais as espécies de sociedades que
podem existir e que se consideram comerciais aquelas que têm o intuito de praticar atos de
comércio, existindo neste preceito um elemento material (relativo à prática de atos de
comércio) e um elemento formal (é um elemento essencial porque a entidade que adote um
tipo de sociedade comercial irá se regular pelo Direito das Sociedades). O art 1º/4 refere que
as sociedades que não tenham por objeto a prática de atos não comercias também se regulam
pelo Código das sociedades, podendo adotar os tipos de sociedades referidos supra.
Admitindo que estamos perante uma sociedade, temos que ter igualmente em conta o art
980º do CC, relativo ao contrato de sociedade. Este preceito refere que este é um contrato
pelo qual duas ou mais pessoas se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício
em comum de certa atividade económica, que não seja de mera fruição, a fim de repartirem os
lucros resultantes dessa mesma atividade.
Neste caso existem apenas dois sócios e administradores (A e B).
No que toca à primeira sociedade, Solar do Arneiro Lda, esta é uma sociedade por quotas e
por isso A e B são solidariamente responsáveis pelas entradas estabelecidas no contrato social
(art 197º/1). Refere o nº3 do mesmo artigo que só o património social responde para com os
credores pelas dívidas da sociedade. A e B respondem perante a sociedade, pela realização das
entradas dos seus consórcios, porém, não assumem nenhuma responsabilidade perante os
credores da sociedade. Com isto, verificamos que esta responsabilidade é uma
responsabilidade limitada.
Em relação à segunda sociedade, VitArneiro – Exploração vinícola SA, esta corresponde a
uma sociedade anónima. Por isto, A e B respondem pelas suas próprias entradas e não pelas
dos consórcios, à luz do art 271º, estes não respondem pelas dividas da sociedade. Com isto,
os sócios têm uma responsabilidade duplamente limitada em duas vertentes. Na vertente
externa porque estes não respondem perante os credores e pelas dividas da sociedade e na
vertente interna, estes não respondem por nenhuma divida sem ser pela sua própria entrada.
Por último, a sociedade Arneiro e Arneiro, SNC corresponde a uma sociedade em nome
coletivo. No disposto do art 175º, na sociedade em nome coletivo o sócio responde
individualmente pela sua entrada, respondendo pelas obrigações sociais subsidiariamente em
relação à sociedade (os credores sociais só podem exigir o cumprimento aos sócios quando o
património social se esgote) e solidariamente com os outros sócios (os credores da sociedade
podem exigir a qualquer sócio a totalidade da divida). Em suma, A e B respondem perante a
sociedade pela sua obrigação de entrada e respondem perante os credores da sociedade pelas
obrigações desta.

2. A sociedade Arneiro e Arneiro, SNC presta habitualmente serviços de consultadoria


agronómica, de acordo com o seu objeto social. Os seus sócios, porém, deliberam
adquirir um lote de construção no Algarve onde pensam edificar um aldeamento
turístico para revenda. Quid iuris?

Neste ponto temos um problema sobre o objeto da sociedade.


O objeto da sociedade deve estar inevitavelmente dos seus estatutos ao abrigo do art. 9º/1
d). É o seu objeto ou fim que vai determinar a capacidade da sociedade. O objeto deve-se
manter intacto durante todo o tempo em que a sociedade existe, sendo que ao abrigo do art
141/a) e c) verificamos que a sua realização completa ou a sua ilicitude superveniente
constituem casos de dissolução imediata da sociedade.
À luz do art. 9º/1 d), um dos elementos do contrato de sociedade será o objeto da sociedade.
O objeto imediato desta sociedade é a prestação de serviços de consultoria agronómica,
sendo, o seu objeto principal a obtenção de lucros. Nos termos do nº3 do mesmo artigo, este
explicita que os preceitos dispositivos desta lei só podem ser derrogados pelo contrato de
sociedade, a não ser que este expressamente admita a derrogação por deliberação dos sócios.
A aquisição do lote de construção no Algarve com o intuito de edificar um aldeamento
turístico para revenda parece constatar uma alteração do objeto social, pelo que, como
decorre do referido preceito, a mesma terá de ser feita pela deliberação dos sócios.
Estão em causa atos praticados fora do objeto, porém estes podem ser válidos, mas podem
criar efeitos de responsabilidade para quem o praticou se implicarem danos.
A deliberação não é o contrato de compra e venda. Quem celebra a compra e venda em
nome da sociedade é o órgão de administração.
Do objeto da sociedade só resultam consequências internas.
Em suma, os sócios deliberam (art. 58º/1 a) CSC) e esta deliberação é contrária ao contrato de
sociedade. Os gerentes celebram o contrato de compra e venda, havendo uma vinculação
externa (art. 6º/1 e 4 e art. 192º CSC). Nas sociedades anónimas e por quotas, conjugamos os
artigos 6º/4 com 260º/2 e 409º/2 e a sociedade só pode invocar o desrespeito pelo objeto
como limite da sua capacidade perante terceiros de má fé quando não haja confirmado o ato.
Porém, estamos perante uma sociedade em nome coletivo. O poder sobre esta sociedade
pertence aos sócios. Pertencem à Assembleia todos os sócios da sociedade, sendo estes
competentes para deliberar sobre todos os assuntos que constam da lei ou do contrato, sendo
objeto de deliberação dos sócios a apreciação do relatório de gestão e dos documentos de
prestação de contas, a aplicação dos resultados, a resolução sobre a proposição, transação ou
desistência de ações da sociedade contra sócios ou gerentes, a nomeação de gerentes de
comércio e o consentimento referido no art. 180º/1, ao abrigo do art. 189º/3.

3. O negócio do vinho alvarinho está a correr bastante bem aos irmãos Arneiro, que
sonham agora em lançarem-se na exportação. Para efeito, a VitArneiro, SA. necessita
de contrair um financiamento bancário, o que exige a constituição de uma hipoteca.
Todo o património imobiliário (incluindo os hectares da vinha) é propriedade da
Solar Arneiro, Lda. Para além disso, António necessita de um financiamento pessoal
que exige igualmente a constituição de uma garantia real.

É o art. 160º do CC que articula a matéria da capacidade nas pessoas coletivas. Neste artigo
temos a consagração do principio da especialidade. A capacidade das pessoas coletivas é
limitada por este principio. Esta redação está praticamente constituída no art. 6º/1 CSC.
O principio da especialidade está espelhado no CSC, no seu art. 6º.
A interpretação que é mais compatível com o sistema e com a lógica das sociedades
comerciais e o art. 6º é uma interpretação que tenta fazer apelo a uma diferenciação entre o
objeto imediato (atividade comercial concreta da sociedade) e mediato (realização nos termos
que estão traçados no art. 980º CC). Com isto, o principio da especialidade é limitativo da
capacidade jurídica das sociedades em função do objeto mediato.
Como já sabemos, a sociedade tem por objeto a realização de lucros, ou seja, os atos que a
sociedade realize que sejam contrários com o objeto mediato (produção de lucros)
confrontariam com o principio da especialidade.
O problema da capacidade das sociedades tem sido alvo de críticas nomeadamente quanto à
concessão de garantias pela própria sociedade.
O art. 6º/3 veio proibir as sociedades de prestar garantias, salvo se existir justificado interesse
próprio da sociedade garante ou se se tratar de sociedade em relação de domínio ou de grupo.
De acordo com o Prof. Menezes Cordeiro, estas exceções de certa forma consomem a própria
norma. O interesse justificado é definido pela própria sociedade, por meio dos seus órgãos.
Com isto é notório que, quando se presta uma garantia, é fácil invocar o interesse próprio
justificado.
Contudo o art. 6º/3 tem de ser combinado com o seu nº1. Não faria sentido que a lei proibisse
a prestação de garantias por parte da sociedade, podendo existir uma justificação de interesse
próprio desta na prestação dessas garantias.
A meu ver, aqui pode existir uma violação do art. 6º/3 relativo à garantia real prestada a A,
dado que a sociedade tem por objeto a realização de lucros, os atos que a sociedade pratique
que sejam contrários com o objeto mediato (produção de lucros) acabam por afrontar com o
principio da especialidade. Com isto, a constituição de uma garantia real para financiamento
pessoal de A parece contrária a esse fim e por isso violaria o preceito da norma.
Por outro lado, quanto ao financiamento bancário que a VitArneiro, S.A. que precisa e exige a
constituição de uma hipoteca, do meu ponto de vista parece que estamos perante uma
situação de interesse justificado próprio da sociedade garante, já que, como referi supra, o
objeto mediato da sociedade é a produção de lucros, podendo englobar, precisamente, o
aproveitamento dos hectares de vinha (que pertencem à sociedade garante), para a produção
de vinho. Com a isto, a possibilidade de utilização dos hectares pode representar um aumento
dos lucros da sociedade garante (a Solar Arneiro) e por isso podemos afirmar que há um
interesse próprio justificado da sociedade em conceder a garantia.

4. Uma conhecida publicação da área do turismo e lazer fez uma reportagem sobre o
Solar do Arneiro. A reportagem em causa era bastante desfavorável ao
empreendimento e divulgava dados incorretos, alguns deles completamente falsos...
A sociedade Solar Arneiro, Lda. moveu uma ação contra a referida publicação,
pedindo a condenação da mesma no pagamento de indemnização por violação do
direito ao bom nome e à imagem, a fixar nos termos do artigo 496º/3 do CC. A e B,
moveram igualmente uma ação contra a publicação, pedindo uma indemnização por
violação dos seus direitos de personalidade. Quid juris?

As sociedades são centros de imputação de normas jurídicas, estas são capazes de ser titular
de direitos subjetivos ou de se encontrar sujeita a obrigações.
Com isto, realçam os direitos de personalidade, destacando-se os direitos ao bom nome e à
honra. O direito ao nome é um elemento essencial nas sociedades comerciais (art 9º/1/a ).
Como refere o enunciado, a reportagem feita sobre o Solar do Arneiro foi uma reportagem
bastante desfavorável ao empreendimento e ainda divulgaram dados incorretos. Posto isto,
estamos perante um problema de violação de direitos de personalidade, mais precisamente
um problema de violação do direito ao bom nome e à imagem da mesma.
Temos que averiguar a capacidade da sociedade para intentar uma ação, esta matéria está
prevista no art 6º do CSC. Este mesmo artigo, no seu nº1 na parte final, refere que fica excluída
da capacidade, os direitos e deveres inseparáveis da capacidade singular. Todavia o art. 12º/2
CRP refere que as pessoas coletivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos direitos
compatíveis com a sua natureza, não ficando por isso de lado, o direito ao bom nome e o
direito à honra.
Concluindo, a sociedade é titular de direitos de personalidade como o direito ao bom nome e o
direito à imagem, tendo também capacidade para intentar uma ação que permita garantir que
os mesmos direitos estão a ser respeitados.
É importante referir ainda que, os direitos de personalidade começaram por ser configurados
quanto a pessoas, existindo duas dimensões: a externa e interna. No direito ao bom nome,
falamos do direito à honra com uma proteção externa e uma dimensão interna.
As pessoas coletivas não têm um substrato humano que lhes permita o sofrimento da
construção da dimensão interna, mas temos a dimensão externa. A dimensão da honra tem
impacto na sua rentabilidade e na sua possibilidade de desenvolver a atividade comercial.
O art. 496º CC deixa clara a pretensão indemnizatória da ofensa ao direito ao bom nome das
pessoas coletivas. Neste ponto, já apresentei o direito em causa, faltando saber qual o tipo de
dano que aqui é sofrido, se é um dano patrimonial ou não patrimonial. Se verificarmos, os
danos morais estão associados ao sofrimento. Os danos não patrimoniais não são
transponíveis para as pessoas coletivas isto porque as pessoas coletivas não têm características
da pessoa humana (não choram, não sentem dor) então, se a pessoa coletiva não sofre, não é
suscetível deste tipo de danos. Com isto, a ofensa do bom nome e reputação das sociedades é
dano patrimonial indireto, não sendo possível existir uma indemnização por danos não
patrimoniais.
Assim, e tendo apenas sido violado o direito à imagem e ao bom nome da sociedade, A e B
podem propor a ação enquanto representantes da sociedade, não enquanto pessoas
singulares, já que os seus direitos de personalidade não foram violados, mas sim os da
sociedade enquanto pessoa coletiva titular de direitos e obrigações.

5. Os credores da Solar Arneiro, Lda. estão com enormes dificuldades em obter


a satisfação dos seus créditos. António e Bento refugiam-se na autonomia
patrimonial da sociedade para não pagar. Poderão os credores da sociedade ter
esperança em que o vasto património dos sócios seja chamado a satisfazer as dívidas
sociais?

O levantamento da personalidade é o instituto pelo qual, em circunstâncias muito especiais, é


possível não ter em conta as normas que sustentam a personalidade coletiva, de modo a
imputar as obrigações da sociedade às pessoas singulares que lhe sirvam de suporte: seja aos
administradores, seja aos sócios, conforme as circunstâncias.
Pelas dívidas da sociedade respondem os bens desta.
O levantamento da personalidade jurídica é um instituto que surgiu posteriormente para
sistematizar e explicar diversas soluções concretas, estabelecidas para resolver problemas
reais, postos pela personalidade coletiva. A sociedade tem o seu próprio património e esse
património serve para prosseguir os fins da sociedade. Se serve para servir outros fins,
estamos a desviar-nos dessa regra base.
O critério é a afirmação de que em todos estes casos há um abuso da personalidade coletiva.
Todavia, como já vimos, é no art 197º/1 e 3 que retiramos o entendimento que os sócios
respondem perante a sociedade pela sua obrigação de entrada e pela realização de entradas
dos seus consórcios, não respondendo perante os credores da sociedade (responsabilidade
limitada). Porém o art 198º vem permitir estipulações contratuais contrárias em que um ou
mais sócios podem responder perante os credores sociais até determinado montante. Esta
estipulação veio impedir a afirmação que a irresponsabilidade dos sócios perante os credores
sociais é uma característica essencial da sociedade por quotas.
Posto isto, os sócios podem responder pelas dívidas da sociedade, mas não podem responder
ilimitadamente por essas dividas. O montante especificado, tem de corresponder mais ou
menos à atividade social. Este não pode ser desajustado da faturação da sociedade porque
pode servir para mascarar o regime das responsabilidades, passando este a ser ilimitado.
Concluindo, os credores sociais podiam satisfazer o seu crédito se fosse estabelecido no
contrato que A e B (ou apenas um), para além de responderem perante a sociedade
responderiam também perante os credores sociais.

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