PNEUMATOLOGIA E GRAÇA
Prof. Pe. Luiz Eustáquio dos Santos Nogueira
PROGRAMA
INTRODUÇÃO
A. O “gracioso” na vida humana
B. O enigma do humano
I. TEOLOGIA DA GRAÇA
1.1. A Graça segundo as Escrituras
a) Antecedentes do conceito no Primeiro Testamento
b) Os vários enfoques do Segundo Testamento
1.2. Esboço histórico da doutrina da Graça
a) A tipologia oriental: a Graça como divinização do homem
b) A tipologia latina: a guinada antropológica com S. Agostinho
c) A Reforma e o Concílio de Trento
d) De Trento ao Vaticano II
e) Apanhado crítico
1.3. Natureza e Graça na teologia católica do século XX
a) A questão do sobrenatural e o extrinsecismo clássico
b) O debate na teologia contemporânea
c) Algumas conclusões
g) O Numinoso imprevisível
h) A experiência do Despertar
2.4. A experiência cristã de Deus
a) A experiência de Deus de Jesus de Nazaré
b) A experiência trinitária do Espírito (Graça Incriada) em Cristo
III. PNEUMATOLOGIA
3.1. Os pontos de partida da pneumatologia atual
3.2. O Espírito Santo e a teologia da vida
a) Perspectivas bíblicas
b) A missão atual do Espírito
3.3. A vida no Espírito
a) A nova espiritualidade da vida
b) A santificação da vida
c) As forças carismáticas da vida
d) Renovação carismática católica: origens, mudanças e tendências
3.4. A personalidade do Espírito
a) Pessoa: um conceito problemático
b) Metáforas para as experiências do Espírito
c) A impetuosa personalidade do Espírito divino
d) A personalidade trinitária do Espírito
BIBLIOGRAFIA GERAL
01. DOS ANJOS, Márcio Fabri (org.). Sob o fogo do Espírito. Paulinas, 1998.
02. BOFF, Leonardo. A Graça Libertadora no mundo. Vozes, 1976.
03. BOFF, Leonardo. Experimentar Deus; a transparência de todas as coisas. Verus, 2002.
04. CANTALAMESSA, R. O canto do Espírito; meditações sobre o Veni Creator,. Vozes, 1998.
05. CASTIÑEIRA, Angel. A experiência de Deus na pós-modernidade. Vozes, 1997.
06. COMBLIN, José. O Espírito Santo e a libertação. Vozes, 1987.
07. COMISSÃO TEOLÓGICO-HISTÓRICA DO GRANDE JUBILEU DO ANO 2000. Senhor, a terra está
repleta do teu Espírito. Paulinas, 1997.
08. CONGAR, Yves M.-J. A Palavra e o Espírito. Loyola, 1989.
09. CONGAR, Yves M.-J. Espírito do homem, Espírito de Deus. Loyola, 1986.
10. DE LA PEÑA, Juan L. R. O dom de Deus; antropologia teológica. Vozes, 1997.
11. HILBERATH, B. J. Doutrina da Graça in: SCHNEIDER, T. (org.) Manual de Dogmática II. Vozes,
2001, pp.13-49.
12. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Dominum et Vivificantem. Loyola, 1986.
13. LAURENTIN, René. O Pentecostalismo entre os católicos. Vozes, 1977.
14. LELOUP, J.-Yves. Carência e Plenitude.Vozes, 2001.
15. MATEOS, M. Díaz. A Vida Nova; Fé, Esperança, Caridade. Vozes, 1993.
16. MESLIN, Michel. A experiência humana do divino; fundamentos de uma antropologia religiosa. Vo-
zes, 1992.
17. MIRANDA, M. de França. Libertados para a práxis da justiça. Loyola, 1980.
18. MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da Vida; uma pneumatologia integral. Vozes, 1990.
19. MOLTMANN, Jürgen. A Fonte da Vida; o Espírito Santo e a teologia da vida. Loyola, 2002.
20. MÜHLEN, H. Fé cristã renovada: Carisma, Espírito, Libertação, Loyola, 1980.
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21. NOGUEIRA, Luiz E. S. O Espírito e o Verbo: as duas mãos do Pai. Paulinas, 1995.
22. NOGUEIRA, Luiz E. S. Panorama da literatura pneumatológica publicada no Brasil nos últimos trinta
anos, in: Perspectiva Teológica 30 (1998) 251-272.
23. PIXLEY, J. Vida no Espírito; o proj. messiânico de Jesus depois da Ressurreição. Vozes, 1997.
24. PRANDI, R. Um sopro do Espírito, EUSP, 1997.
25. RÉCUEIL SCHILLEBEECKS. A experiência do Espírito, Vozes, 1979.
26. ROLIM, Francisco C. Pentecostalismo; Brasil e América Latina, Vozes, 1995.
27. SANTA ANA, J. de et al. A presença do Espírito nos processos históricos atuais, Paulinas, 1992.
28. SEGUNDO, J. L. Graça e condição humana; teologia aberta para o leigo adulto II. Loyola, 1977.
29. SCHERZBERG, L. Pecado e Graça na teologia feminista, Vozes, 1997.
30. SCHWEIZER, Edward. O Espírito Santo, Loyola, 1993.
31. VV.AA. Mysterium Salutis IV/7-8, Vozes, 1978.
Obs.: Os títulos grifados correspondem aos textos que serão mais diretamente referendados em classe.
CRONOGRAMA DO CURSO
AGOSTO
SETEMBRO
OUTUBRO
06 - Semana Teológica
07 - Semana Teológica
13 - Não haverá aula
14 - Os pontos de partida da pneumatologia atual
20 - O Espírito Santo e a teologia da vida [grupo 4]
21 - A nova espiritualidade da vida
27 - Nascidos de novo para uma viva esperança [grupo 5]
28 - A santificação da vida – “Experiência da meditação cristã”
NOVEMBRO
INTRODUÇÃO
Em seu significado costumeiro, "graça" denota uma oferta imerecida. Tal aspecto, no
entanto, está bem longe de ser exclusivo: graça é "palavra-símbolo" globalizadora de múltiplos
aspectos; abrange o "dar graças", o "conceder a graça", o "estar na graça de alguém", o "perder a
graça"... Como reverso da des-graça, a graça denota salvação, felicidade, júbilo, vitalidade,
integridade pessoal. É "dom que reanima e faz viver, porque procede do amor e da benevolência das
pessoas. Por isso podemos falar de «cair em graça» ou «cair em desgraça», quer dizer, ser aceito ou
ser rejeitado por alguém. Não se trata só de receber coisas, mas de estabelecer ou fortalecer uma
comunhão, uma amizade. A graça une em comunhão" (M. Mateos).
A linguagem e o "clima" da graça situam-se na esfera do amor, do convívio interpessoal
gratuito e autêntico, sob a égide da espontânea alegria. Como expressão do ser e da vida divina, "a
graça é linguagem de um Deus que ama sem que mereçam (Os 14,5), mas sobretudo de um Deus
que tem prazer em fazer o bem aos mortais (Jr 32,40), que não se resigna diante da desgraça do
homem. Concede-lhe sua amizade e com ela a graça de vida (1Pd 3,7)" (M. Mateos). Por outro
lado, "quando nos entregamos ao mistério da vida, quando não nos pertencemos mais, quando não
nos colocamos mais em primeiro lugar, quando nos fazemos serviço e doação aos demais, quando
cremos e esperamos que, apesar de tudo, nada escapa ao desígnio do Mistério e que, por isso,
nenhum mal e nenhuma desgraça, por mais cruel que se apresentem, nos podem separar do Amor de
Deus, então experimentamos aquela realidade que o cristianismo chama de graça" (L. Boff).
Falar da graça, enfim, é tomar consciência do mistério que nos abarca - "nele vivemos, nos
movemos e somos" (At 17,28), na abertura ao Deus de infinito amor: Presença que reanima o
decaído, liberta o oprimido, consola e protege o desesperado. A graça, reverso da desgraça, emerge
como força libertadora na história. Essa perspectiva histórica, porém, nem sempre foi referendada
pelos discursos tradicionais. Na maior parte deles, a graça não passava de "uma entidade dos
manuais de teologia ou da vida da alma". Fica-nos, contudo, uma certeza: os sistemas teológicos
sobre a graça não são a graça. Não podem aprisioná-la. "A graça contém o homem, a Igreja e o
mundo”, transcendendo, pois, a todo sistema doutrinal.
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B. O enigma do humano
Conforme vimos em Gn 1,27, Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança.
Apesar da deformação histórica do pecado, esta é a sua “determinação original”, que há de se
processar e dinamizar historicamente.
Dizer que o homem é imagem de Deus significa prescrever-lhe como destino vital a
“divinização”. Segundo S. Irineu, Deus se humanizou pela encarnação do Verbo para que fôssemos
divinizados. Destarte, o ser humano é convocado para um desfeche que ultrapassa sua estrutura
meramente natural e finita. É chamado a se superar em Deus! Esta participação na existência divina,
porém, não lhe é facultada pelas suas próprias forças. Somente por força da comunicação amorosa
e gratuita de Deus poderá alcançar o objetivo para o qual fora criado.
Eis o paradoxo: o que somos por criação, em nossa condição de imagem e semelhança, não
nos é suficiente para chegarmos ao que devemos ser, conforme os santos imperscrutáveis desígnios
de nosso Criador. Por mais capazes que sejamos, não estamos aptos a ultrapassar o limite de nossa
fronteira ontológica e galgar, autonomamente, o espaço pleno de nosso ser consumado em Cristo.
Nas palavras de Ruiz de la Peña, “o enigma do humano reside, afinal de contas, na impossibilidade
humana de realizar sua mais autêntica e original possibilidade. Criando o homem, Deus quis criar
um ser finito, mas chamado à infinitude. Se esta ocorrência divina é algo mais que uma brincadeira
trágica ou um cruel desatino, isto só pode significar que Deus criou o homem finito com o único
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propósito de ser Ele mesmo quem complete sua finitude; com a única intenção de reservar para si a
plenificação de seu déficit, fazendo saltar as barreiras de sua limitação”.
I. TEOLOGIA DA GRAÇA
“Deus ama o homem: a teologia cristã da justificação e da graça não é senão uma
explanação desta asserção (...). O amor de Deus está no começo (Deus cria por amor), no fim (Deus
plenifica sua criatura por amor) e em todo o trajeto entre o começo e o fim de cada existência
humana (da qual Deus trata permanentemente com generosa benevolência” (Ruiz de la Peña).
Segundo a fé bíblica, Deus cria com vistas à aliança. Esta, por sua vez, pressupõe a eleição.
Por sua livre e gratuita iniciativa, Javé entra em contato com seu povo, mantendo com ele uma
relação estável e permanente. Afeiçoado de Israel, Javé o elegeu (cf. Dt 7,6-8; verbo bahar=
escolher, desejar, preferir, inclinar-se para), preferindo-o entre outros povos para ser o mediador de
um desígnio universalista (cf. Gn 12,3; Is 49,6). Da experiência de eleição sucede uma tarefa para o
homem. O “eleito” de Deus é também o seu “servo” (cf. 1Rs 11,34; Is 41,8s). A uma incondicional
oferta salvífica divina há de corresponder uma incondicional disponibilidade do eleito para o
serviço. Não que seja este o motivo da eleição, pois a iniciativa de Deus é totalmente
desinteressada. Com efeito, o servo é aquele que se sabe eleito, recolhido na extremada misericórdia
de Deus (cf. Sl 79,2). A missão é conseqüência do reconhecimento da própria eleição, resposta
agradecida a um amor predileto que alcança o eleito e, através dele, a tantos outros. Outro aspecto
importante a ser salientado é o caráter dinâmico e irrevogável da eleição. Javé atualiza
permanentemente o seu desígnio de graça no decurso da história de Israel mediante sucessivos
chamados, não obstante a tibieza e inconstância de seu povo.
Enquanto desígnio atemporal, a eleição de Israel por parte de Deus historiciza-se na
experiência concreta da aliança (berit = laço, acordo vinculador, obrigação). Em seu uso profano, o
termo berit permeia dois campos semânticos: o da obrigação e o do amor-amizade. O Primeiro
Testamento utiliza-o sob três modalidades: como autocompromisso ou promessa de Deus (alianças
patriarcais pré-sinaíticas - cf. Gn 15,4-18), como imposição de uma obrigação ou preceito (aliança
do Sinai - cf. Ex 19s) e como compromisso mútuo (Os 2,4-7.18.22). Percebe-se aí uma evolução na
compreensão teológica do termo. Do Deus que se “obriga” a voltar-se para seu pequenino rebanho,
passa-se pelas obrigações éticas e religiosas assumidas pelo povo da aliança num contexto mais
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Apesar de ter sido eleito por Deus, o homem padece o risco da escolha, instado a optar pela
vida ou pela morte, pela justiça ou pelo pecado, atestam as Escrituras (cf. Dt 28; Ez 36,24-28; Eclo
3,11-20). Pode fácil e deliberadamente desviar-se de seu Criador, incorrendo no mal. Mas para
regressar ao convívio com Deus, desvencilhar-se da culpa e perseverar no caminho do bem, há de
contar com a moção divina (cf. Jr 2,22; Pr 20,9). Na contrição diante dos próprios pecados,
primeiro passo para a conversão, o israelita já percebe como reflexo do perdão de Deus em
andamento. “Converte-me e me converterei”, suplica o profeta (Jr 31,18; cf. Sl 51). O cancelamento
do pecado e a renovação interna do coração completam o itinerário da conversão. Suplicada pelo
pecador e oferecida dadivosamente por Deus, a graça transforma o penitente, repercutindo em sua
vida em forma de gozo e alegria (cf. Sl 51,10; 16,11).
A experiência da reconciliação do homem com Deus acontece, pois, no âmbito dialógico
da interpessoalidade. Dois termos semitas, hanan e hesed situam o processo. À entrega agradecida
do homem (hanan) corresponde o amor gratuito de Deus, que se doa de forma inesperada (hesed).
A associação de hesed com emet (constância), confere à bondade divina a idéia de um amor
indefectível, estável e definitivo; associado a rahamim (rehen = seio materno), denota o caráter
visceral, misericordioso e cheio de ternura do amor de Deus (cf. Os 2,21). Tratando o homem com
hesed, Deus espera, de alguma forma, ser assim também acolhido (cf. Os 12,7). Não obstante a
primazia da iniciativa divina, emerge aqui o ideal de uma reciprocidade entre eles. E no momento
em que a ternura amorosa de Deus inflama o coração do homem, obtendo deste o hesed
correspondente, o processo de conversão chega ao ápice. Respondendo com amor ao amor, o hesid
(aquele que pratica o hesed - cf. Sl 18,26) experimenta todo o encanto místico da união esponsal:
“Desposar-te-ei comigo em fidelidade, e tu conhecerás Javé” (Os 2,21s).
* Os evangelhos sinóticos
Tomando como base o anúncio do Reino de Deus, apresentado por Jesus como oferta única
de salvação - e não de condenação -, os sinóticos pontuam a originalidade da mensagem cristã. Nas
“parábolas do Reino”, colocam em relevo a absoluta gratuidade da salvação oferecida por Deus, ao
mesmo tempo em que reivindicam dos ouvintes a inadiável decisão ante os apelos recebidos (cf. Mc
4,26-29; Mt 13,31-33; 25,1-12; Lc 13,6-9; 16,1-8). O caráter cristocêntrico da salvação subentende-
se, porém, na premissa do seguimento a Jesus, via decisiva de acesso ao Reino (cf. Mc 4,11s; 8,34).
Precedido de um chamamento, o seguimento deve ser absolutamente prioritário e incondicional (cf.
Mc 10,17-22), levando o discípulo ao despojamento de si e ao abraçamento da cruz, mediante um
ato de fé que expressa uma profunda adesão pessoal ao Mestre.
Outro aspecto significativo da mensagem soteriológica dos três primeiros evangelhos está
na dimensão paterno-filial da nova relação estabelecida entre Deus e o homem, a partir do
precedente de Cristo. Segundo Jesus, Deus é Pai, e como tal há de ser invocado terminantemente.
Ao homem compete devotar-Lhe toda a sua vida, com a humildade e confiança filiais próprias a
uma criança (cf. Mt 18,3s). Ainda mais quando se vê surpreendido pelo ilimitado amor de quem
sempre o considera como filho, jamais como servo, mesmo quando submergido no pecado (cf. Lc
15,21-32). Aliás, o amor divino se transmuta em predileção pelos mais insignificantes e pelos
pecadores: aos mais necessitados de seu amor, Deus ama mais, simplesmente porque assim o quer
(cf. Mt 20,1-15). Buscando a recuperação e promoção do humano desde baixo, a começar pelos
mais destituídos de dignidade, Deus Pai radicaliza o seu amor, mediatizado pela prática concreta de
seu Filho (cf. Mt 18,14). E assim convida os seus filhos todos a criar uma comunidade nova,
efetivamente acolhedora, misericórdia e fraterna, seguindo o caminho do Reino aberto por Jesus (cf.
Mt 5,44; 18,21).
* A doutrina paulina
São Paulo, certamente, é o maior expositor da doutrina bíblica da graça. Coube a ele trazer
para o domínio teológico o vocábulo grego s, conceito este nuclear em sua visão da fé cristã.
Partindo da experiência de sua própria vocação (episódio de Damasco), Paulo está convicto de que
os crentes assim o são devido a um chamado prévio de Deus, a uma eleição (cf. 1Ts 1,4). A
subsistência do resto de Israel corresponde a uma predestinação graciosa, pela qual Deus toma a
iniciativa de santificar e glorificar os seus filhos em Cristo (cf. Ef 1,11b). Não poupando o seu
Filho, mas entregando-o por nós, a benevolência divina se mostra imperiosa, radicalizando a
compreensão veterotestamentária do Deus compassivo e misericordioso (cf. Rm 8,31-39).
Resumindo todas as etapas do desígnio redentor, a graça, segundo o apóstolo, traduz o poder
escatológico de Deus que destitui o pecado do mundo, fazendo nele imperar a salvação universal
(cf. Rm 3,23s). E este poder manifesta-se em Cristo: é Ele o dom supremo do Pai. Em outras
palavras, sermos salvos pela graça equivale a uma vida nova, libertada e dignificada em Cristo (cf.
Rm 6,23; 8,32).
Estreitamente vinculado ao termo graça, sobressai-se também no Corpus Paulinum a
categoria justificação. Em Gl 2,16 lê-se o axioma: “O homem não se justifica pelas obras da lei,
mas pela fé em Jesus Cristo”. Paulo aqui descreve a iniciativa salvífica de Deus em termos de “ação
justificadora”, pela qual comunica aos seres humanos sua justiça. Em que consiste a “justiça
divina”? Na fidelidade de Deus à aliança, disposto a outorgar o perdão e a misericórdia a seu povo,
tornando-o justo por uma transformação real interior (cf. Rm 6,3s). A justificação, insiste Paulo,
vem pela fé e não pelas obras. Não basta cumprir a vontade de Deus prescrita na lei mosaica, mas é
determinante para a salvação que se creia em Jesus Cristo, conformando-se, de forma agradecida, à
sua vida nova, expressa em “auto-entrega” gratuita no amor (cf. Gl 2,20; Cl 3,3).
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Na epístola aos Romanos, Paulo questiona uma economia de salvação arraigada no mérito
e na retribuição, reivindicando outra balizada pelo gratuito amor divino. À uma justiça distributiva
contrapõe a justiça pela fé (cf. Rm 3). Ato genuinamente humano e maximamente livre, a fé paulina
manifesta a radical incapacidade da pessoa humana de alcançar, por si mesma, a própria salvação.
Reconhecendo no Cristo seu absoluto necessário, o crente se confia inteiramente a Ele. E o faz num
ato de “obediência”, aderindo incondicionalmente à sua palavra, aceita como força de salvação (cf.
Rm 1,5.15-17). Sim, “a fé vem da pregação” (Rm 10,14-17), é resposta a uma proposta vital, que
conduz o crente à lei em sua plenitude, ou seja, à caridade (cf. Rm 13,8-10; Gl 5,6). Sem
desvincular ortodoxia e ortopráxis, Paulo entende o amor ao próximo como a verdadeira “obra da
fé” (cf. 1Ts 1,3), corolário da ação do Espírito de Cristo no homem carnal (cf. 1Co 13).
* Os textos joaneus
Diz-nos o evangelista: “Porque tanto amou o mundo, Deus deu seu Filho único, para que
todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (Jo 3,16). Cheio de “graça e de
verdade” (Jo 1,14), o Lógos encarnado abre à humanidade a chance de participar de sua própria
plenitude. Cristo é “o pão da vida”, “a luz da vida”, “a vida” puramente (cf. Jo 6,35ss; 8,12; 11,25).
E esta vida é oferecida a todos que a acolhem na fé: “Quem crê no Filho tem a vida eterna!” (Jo
3,26). A fé, contudo, também para João, é dom gratuito (“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me
enviou, não o atrair” - Jo 6,44). Sem a “inteligência” dada pelo Pai para o conhecimento da
Verdade, não pode o homem fazer nada para a sua salvação (cf. 1Jo 5,20). De modo paradoxal, a fé
expressa - assim como em Paulo - tanto uma resposta livre do homem quanto uma graça de Deus.
Permanecendo em Cristo, o crente dá frutos (cf. Jo 15,1-6). Sendo Deus amor (cf. 1Jo 4,8),
recebemos de seu amor na vida entregue de Cristo, que nos impulsiona a prolongar o mesmo dom,
amando-nos uns aos outros (cf. 1Jo 4,20). Eis a lógica do amor e da vida na graça, enquanto
“vontade de autodoação”: o Pai nos entrega ao Filho que a nós se entrega de modo a entregarmo-
nos aos irmãos. Vivendo por meio de Cristo e renascendo constantemente em seu amor antecedente
(1 Jo 4,7), experimentamos o dom da salvação que nos leva à comunhão defitiva com o Deus da
Vida (cf. Jo 17).
Os padres gregos assimilam o "já e agora" da salvação. A glória divina irradiada por
Cristo ao mundo transfigura-o, deifica-o, seja: ontologicamente, pelos sacramentos, seja
eticamente, por uma vida virtuosa (imitatio Christi), seja misticamente, pela união extática com
Deus (ascese espiritual). O paradigma fundamental da teologia grega é o da união hipostática: o
Logos, assumindo a matéria, recapitula em Deus toda a humanidade. Nas palavras de S. Irineu de
Lyon, “o Verbo de Deus, (...) por causa de seu imenso amor, tornou-se o que nós somos para
conseguir que fôssemos o que Ele é” (Adv. Haer. 5). O caráter encarnatório da graça é também
destacado por S. Atanásio: “O Verbo, ao assumir a carne, não ficou diminuído; pelo contrário,
converteu em divino o que revestiu” (Contra Ar.1,42). Em suma, na teologia oriental da graça, o
enfoque é predominantemente cristológico e pneumatológico, e menos antropológico, como será a
orientação latina. Isso explica um certo otimismo idealístico subjacente às suas formulações. De
todo modo, vale lembrar que para os gregos a divinização do homem corresponde à sua plena
humanização, cuja natureza última encontra-se conformada a Deus (cf. Gn 1,27).
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d) De Trento ao Vaticano II
Período romântico (séc. XIX): a graça é vista sobretudo como inabitação da Trindade na
vida do justo. Principal representante do período: M. Scheeben (1835-1880). Enquanto presença de
Deus no homem, gera a adoção filial. O experiencial da fé e valorizado, dando-se prioridade sobre a
graça incriada em relação à criada. A tendência racionalista, no entanto, continua presente na
teologia católica, fazendo vigorar o esquema dos "dois pisos". A escola neotomista procura uma
síntese a partir do antigo aforismo: "Gratia naturam non destruit sed ean supposit et elevat".
Teologia moderna (séc. XX): assiste-se à crise dos "sistemas teológicos", então
substituídos por uma nova linguagem ("Nouvelle Theologie") sobre a graça de corte bíblico,
histórico, existencial e social, deixando sua marca em vários pronunciamentos do Concílio Vaticano
II. Em vários documentos do Concílio, a graça divina é concebida como uma realidade gratuita e
transcendental, mas tendenciada à encarnação histórica, de cunho existencial-dialógico-relacional,
contendo uma abrangência universal, não obstante a unicidade da mediação de Cristo.
e) Apanhado crítico
"A elaboração da doutrina da graça esteve sempre muito condicionada pelos erros que se
quis combater". Procurou sempre se manter, a duras penas, no equilíbrio entre duas posições
extremas: de um lado, o otimismo ingênuo de um Pelágio, para quem a força e a capacidade da
liberdade humana para a realização do bem suplantaria a necessidade da graça; de outro, o
pessimismo trágico de um Lutero, para quem o homem decaído não é livre para construir nada de
bom com vistas à própria salvação. Frente a esses extremos, a teologia da graça e o magistério
eclesiástico fizeram valer dois princípios fundamentais: primeiramente, a necessidade absoluta da
graça, quer para a adesão da fé, quer para o que a prepara e sustenta (tudo é graça!). Em segundo
lugar, a liberdade humana participa da ação salvadora de Deus. A graça, como dom de Deus, "não
ignora o homem ou anula sua liberdade, mas, libertando-a, aperfeiçoa" (Mateos). A graça não é
algo estranho, acrescentado ao homem, mas justamente a perfeição do humano, sua plenitude.
Os sistemas da graça surgem com o intuito de compreender e explicitar essa articulação
existente entre dom gratuito de Deus e ação livre do homem. Se, por um lado, as escolas teológicas
aprofundaram e enriqueceram a reflexão sobre a graça, incorreram, por outro, no perigo do
conceitualismo, evadindo-se do mundo concreto. Segundo Mateos, "o resultado desses sistemas ou
elaborações intelectuais e abstratos foram os efeitos negativos sobre a vivência da graça na vida
cristã. (...) De saída, apresentam uma visão abstrata e reificada (“coisificada”) da graça. A graça
seria uma entidade indefinida que possuímos, conservamos, perdemos, aumentamos, mas sempre
uma coisa, embora sagrada e misteriosa. Por isso falamos de 'ter a graça', 'aumentar a graça', 'perder
a graça'. No fundo, está refletida uma visão extrinsecista e dualista da graça. O homem pode viver
sem essa 'coisa' que no máximo o ajuda a viver sua 'vida interior'. Esquece-se de que o homem vive
na graça; como diz Rahner, deve-se falar do homem 'não abstraído da graça, mas mergulhado nela'.
(...)
Do extrínseco se passa para o impessoal. Fala-se de natureza e graça em vez de falar de
pessoa. Não aparece a dimensão pessoal da graça nem em relação com Deus,nem na criação de uma
comunidade. Trata-se só de minha vida de graça. (...) Do impessoal se passa para o a-histórico. A
graça assim concebida não tem incidência histórica, não tem nada a dizer aos problemas do homem
e a suas ânsias de libertação. Trata-se de uma teologia da graça que não leva em conta a desgraça do
mundo, uma teologia da salvação que ignora as ameaças constantes e uma teologia da vida que não
leva em conta a onipresença da morte em nossa história. A graça está confinada aos ritos e aos
sacramentos, assim como à interioridade da alma. (...)
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No fundo de tudo isto temos uma concepção dualista, não unitária do homem, composto
de corpo e alma. A graça é vida da 'alma'. Este dualismo abarca também a história da salvação ao
contrapor a ordem da natureza e da graça, a da criação e a da redenção. O mais grave de todo este
dualismo é que, na prática, ignora o teocentrismo e o cristocentrismo da graça e da salvação. Como
dizia K. Rahner, isto era devido sobretudo à teologia bíblica, tão pouco acertada nos séculos
precedentes" (A Vida Nova, p.65-66). Em suma, segundo as palavras textuais do próprio Rahner,
"os sistemas da graça já não desempenham papel importante algum na teologia".
a) O imanentismo de Blondel
natureza concreta, histórica, do homem se encontram além da consciência, mas se fazem justamente
sentir na experiência do homem" (In: Natureza e Graça, 1957). Rahner faz oposição ao
extrinsecismo sem por em perigo a gratuidade da graça. O fato de estar orientada para a graça não
significa que uma pessoa seja atualmente agraciada. Diz ele: "Não há espírito sem uma
transcendência aberta ao sobrenatural. Todavia, espírito sem graça sobrenatural tem sentido. A
essência do espírito não exige a graça, ainda que esteja aberta a ela".
Teilhard integra o conceito graça a uma visão holística ou de totalidade da realidade. Para
ele, tudo converge para Deus, numa linha ascendente de amor unificante. O "meio divino" (le
milieu divin) é humano do princípio ao fim, e a humanidade segue em evolução e ação. Pelo
trabalho humano, o "pleroma" de Cristo vai sendo paulatinamente construído sobre a terra, como
que imanentizando historicamente a graça do escatológico.
Em "A Graça Libertadora", Boff conjuga gratuidade da graça e ética. Pensa a graça em
termos de encontro e relação: "As pessoas são sempre algo mais. Assim, a graça é a realidade
suprema que as envolve, significando encontro, abertura sem limites e comunhão... Os humanos só
no divino são humanos". A graça "é Deus se autocomunicando e os seres humanos abrindo-se de
par em par". Boff também repensa a graça em termos de libertação. Em sua concepção, as formas
humanas de libertação (sócio-econômico-político) encerram um valor sacramental: expressam de
modo histórico e concreto a libertação de Deus, antecipando, não apenas no plano da existência
individual mas também no coletivo/estrutural o que Deus preparou definitivamente para todos.
h) Conclusão
"Falar hoje sobre a graça é falar sobre a relação entre Deus e a humanidade no contexto da
vida concreta e abarcando todos os aspectos da existência humana" (H. Mertens). Para um
humanismo horizontalmente aberto e verticalmente orientado para Deus aponta a teologia atual o
seu olhar, o que tão bem vemos refletido nas palavras de P. Schoonemberg: "Nossa divinização é
nossa humanização".
Constatamos hoje uma vasta crise das imagens de Deus nas religiões, igrejas e sociedades
contemporâneas. Se houve quem apressadamente falasse da morte de Deus, muitos procuraram
elaborar imagens mais adequadas à nossa percepção atual. Não seria também isso uma roupagem
para a crise, buscando-se apenas substitutos para as antigas imagens? “Há, diz L. Boff, os que
procuram pensar a partir de uma instância mais originária do que as imagens: a existência humana,
histórica, aberta e dinâmica, onde, de fato, transparece o Mistério, a dimensão de imanência e a de
transcendência, isto é, aquilo que chamamos Deus. No início de tudo está o encontro com Deus, não
ao lado, dentro ou acima do mundo, mas juntamente com o mundo, no mundo e através do mundo”.
Deus se torna significativo e real para o ser humano quando emerge das profundezas de
sua experiência no mundo com os demais. “Por ser real e significativo, apesar de ser Mistério,
ganha um nome; pro-jetamos imagens dele; construímos re-presentações”. De todo modo, persiste o
problema das imagens: como relacioná-las a Deus? Talvez o testemunho dos místicos possam
trazer-nos alguma ajuda, os quais, ao usarem a linguagem do imaginário, seguem um caminho de
três passos: afirmam, negam e voltam a afirmar.
Numa primeira etapa, damos nomes a Deus: invocamo-lo como Senhor, Pai, Mãe, Santo
etc. A palavra fixa uma representação e não possuímos, ainda, a consciência de que a representação
é apenas uma representação do não-representável. Experimentamos Deus, concretamente (e não
como uma realidade figurativa), como um Pai bondoso ou Mãe infinitamente terna. Pela
sofisticação de discursos e argumentos filosófico-teológicos minuciamos os meandros do mistério
divino e de sua comunicação com o mundo. Mediante conceitos, doutrinas, credos, catecismos,
procuramos repletar de sentido último nossa existência. Encontrando Deus no íntimo do coração, a
ele falamos, rezamos, apresentamos nossas queixas e esperamos dele a graça da salvação. Nesta
primeira etapa, portanto, “a montanha é montanha, Deus-Pai-Mãe de infinita ternura”.
construção. Deixamos de pretender uma ciência Deus, ao passo que nos dispomos a saborear a
sabedoria divina que permeia todas as coisas. Podemos, então, ver o amor, a bondade, a beleza de
Deus em tudo, pois tudo é figurativo e transparência do Mistério. Mas isso só se torna possível
depois de galgadas as duas primeiras etapas, ou seja, tendo nos libertado da simples “sabedoria da
linguagem” (1Co 1,17) e tendo passado pela “doutrina da cruz” que derruba a ciência dos cientistas
(1Co 1,18-23), como lembra-nos o apóstolo.
Tudo que dissermos sobre Deus é antropomorfo. “Mas Deus, pensa Boff, pode ser
antropomorfo (à imagem do homem) porque o homem é teomorfo (à imagem de Deus). Tudo é
simples. Nada há para se refletir. Basta ver, mas ver em profundidade. Deus, sem se confundir com
as coisas, está presente nelas, porque as coisas são – para quem vê em profundidade – trans-
parentes”. Embora não seja tudo, Deus está em tudo. Junto ao Criador, vinda dele, embora distinta
dele, encontra-se a criatura. Eis a verdade do panenteísmo.
Quem alcançou esta última etapa não deixa nada de fora. Tudo assume, pois em tudo vê a
revelação de Deus. Certa feita, um discípulo perguntou ao mestre zen: “Quem é o Tao?” Este
respondeu: “A mente diária de cada um... Quando fatigados, dormimos; quando temos fome,
comemos”. Tudo é manifestação do divino, de sua gratuidade amorosa. Tal simplicidade faz todas
as coisas, sejam elas boas ou más, para a sua unidade em Deus. “Quer comamos, quer bebamos,
quer façamos qualquer coisa, que seja feito tudo para a glória de Deus” (1Co 10,31). Aquele que
experimentou o Mistério não se questiona mais: “vive simplesmente a transparência de todas as
coisas e celebra o advento de Deus em cada situação”.
A experiência de Deus não se reduz, todavia, a este momento derradeiro do sabor. Trata-se
de uma experiência total que açambarca o saber, o não-saber e o sabor. Não devemos nos fixar a
nenhum destes momentos. Como sabiamente lembra-nos L. Boff, “o terceiro momento torna-se
novamente primeiro e inicia o processo onde os nomes de Deus são afirmados, negados e
reassumidos. Todo esse per-curso, continua, constitui a experiência concreta, dolorosa e gratificante
de Deus. Ele se dá e se retrai continuamente; se re-vela e se vela em cada momento porque ele será
sempre o Mistério e o nosso eterno Futuro”.
Superior summo meo, Deus é superior a tudo que possamos imaginar, testemunham os que
fizeram dele uma profunda experiência. Como o Totalmente Outro que habita numa luz inacessível
(cf. 1Tm 6,16), Deus encontra-se na inteligência humana, embora também a ultrapasse. Enquanto
mistério essencial nunca desvendável, sempre habita e desafia o conhecimento: mais o conhecemos,
maior o mistério. Perpassando tudo e a todos, Deus não pode ser retido por nenhuma presença
concreta. Por sua transcendência, “a ele nunca vamos nem dele jamais saímos. Sempre estamos
nele. Embora dentro, ele está para além de tudo”.
Problemático se torna quando passamos a representar o Deus transcendente como o Deus
acima do mundo ou fora do mundo. Chega-se a um Deus sem mundo. O mistério torna-se um
enigma a ser decifrado, ao passo que o místico o concebe como um acontecimento a ser acolhido.
19
Como enigma não alcançado pela razão, pensa-se logo Deus como sendo o limite da razão, ao passo
que ele é mais propriamente o ilimitado da razão.
Quando Deus é representado como totalmente fora do mundo, ele deixa de ser
experimentável. Feito objeto de revelação e de fé, transmuta-se em conceitos e verdades
intelectuais, não permeáveis aos cinco sentidos. Tal compreensão de Deus muito se aproxima de
uma visão deísta, em que Deus mais se assemelha a uma projeção do homem do que a uma
presença viva ante a qual nos prostramos em adoração. Separando-se a Transcendência do mundo,
como encarar a encarnação de Deus em Jesus Cristo? Torna-se impossível conceber a sua Kénosis,
a densidade humana daquele que se despoja para assumir nossa nadidade...
As conseqüências de uma representação similar da transcendência divina para a vida de fé
são desastrosas. Divorciada a fé da vida concreta, compreendida então como adesão a verdades
abstratas sobre Deus, a Igreja se reduz a “uma instituição centralizada na defesa do depósito de
verdades reveladas e na proclamação de princípios morais distantes da concretez da existência”. O
temor, não raro, substitui o amor e a entrega generosa, total e livre do homem ao Mistério. Outra
conseqüência desta pregação de um Deus sem o mundo é o aparecimento de um mundo sem Deus.
Em A Gaia Ciência de Nietzsche lemos: “Anuncio-vos a morte de Deus. Nós o matamos, você e eu.
Todos somos assassinos”. Com efeito, Nietzsche postula a morte não de Deus, propriamente, mas
de uma falsa transcendência que nos leva a moldar representações e confundi-las com Deus. Do
ateísmo negador das representações de Deus, nasce, portanto, a oportunidade de uma efetiva
experiência do Mistério.
Na fé vivenciada, Deus se apresenta como Aquele que está mais íntimo a nós do que nós a
nós mesmos (intimior intimo meo). No coração de todas as coisas, em tudo que vemos, tocamos,
pensamos, Deus se manifesta atemática e irreflexamente, ou seja, nada escapa à sua presença,
mesmo o inferno.
Novamente o problema surge quando ousamos representar a imanência de Deus e a
identificamos sem mais com a presença de Deus. Embora presente em tudo, Deus não aniquila ou
sufoca a legítima autonomia e consistência do mundo. Equiparar, no entanto, a ação de Deus no
mundo às causas segundas imanentes representa um terrível engano. A vontade divina não se
assemelha à vontade humana, sua justiça tampouco. Deus não é um fenômeno do mundo, como se
pudéssemos sem mais vê-lo diretamente em todas as coisas (concepção epifânica). Toda entificação
de Deus – favorecendo visões, audições e consolações interiores diretas – não passa de uma ilusão.
Outrossim, o que experimentamos não é Deus, mas nossas imagens criadas a respeito dele.
Uma compreensão antropomórfica de Deus suscita profundas conseqüências eclesiológicas
e políticas. A lei divina identificada às leis humanas favoreceu todo tipo de manipulação por parte
das instituições. A única Palavra de Deus acabou sendo fracionada em muitas palavras divinas das
Escrituras. Dogmas e preceitos, cada vez mais minuciosos, se fizeram imperar. Daí nasceu para os
fiéis o questionamento: será Deus e seus desígnios tão complicados assim? Tudo isso não é apenas
linguagem humana para interpretar o único Mistério? De fato, é necessário opor à concepção
epifânica outra teológica, que se serve de mediações, sinais e símbolos. A razão vê Deus através da
realidade e não diretamente em si mesmo. Donde a importância da reflexão, como “itinerário da
mente para Deus” (S. Boaventura).
Além disso, diluir Deus nas categorias do mundo resulta numa nova negação do Mistério.
Significa fazer da religião, muitas vezes, ópio do povo, estrutura ideológica de poder a serviço de
interesses particularistas. “Ó Deus! Vós não sois senão o amor – mas vós sois um outro amor! Vós
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não sois senão a justiça – mas vós sois uma outra justiça’, rezava De Lubac. Quer o
transcendentalismo, quer o imanentismo, ofuscam a verdadeira presença de Deus. É possível
afirmar tanto a Deus quanto o mundo?
a) Que é experiência?
b) A experiência religiosa
O que confere uma qualidade religiosa a uma experiência vivida? O que o sujeito
experiencia na experiência religiosa? Sendo uma experiência de natureza particular, individual, não
será apenas um estado subjetivo? Como acontece a volta refletida do sujeito sobre si mesmo?
Perante essas questões, Émile Boutroux adverte: "para que uma experiência, mesmo
subjetiva, possa ser chamada de experiência (...), é preciso distinguir nela o sujeito dado que
experiencia certas emoções e um sujeito conhecedor que constata, impessoalmente, a existência
dessas emoções". Na experiência mística, em particular, é preciso saber que ocorreu o
desdobramento do sujeito, condição sine qua non para toda experiência real. A dualidade se
verificará entre "sujeito cognoscente experimentante" e "sujeito interpretante testemunhal". Na
circunstância dessa dualidade poderá ser auscultada, em sua radical alteridade, a Palavra divina.
Para Rudolf Otto, o fundamento da experiência religiosa é a realidade do Sagrado. Trata-se
de um Absoluto, distinto do sujeito experimentante. Analisando as repercussões psicológicas
provocadas por uma instância sagrada interior ao homem, acarretando em informação, mudança de
atitudes e nova qualidade de vida, Otto se ergue contra toda visão redutora que limita o fato
religioso a uma mera questão de "estados subjetivos". No entanto, embora transcendente e
Absoluto, o Sagrado só pode ser captado, conhecido e experienciado na esfera do existencial
humano. Assim sendo, na qualidade de "Sagrado-vivido", a experiência religiosa consiste, segundo
as expressões de Michel Meslin, no encontro do homem com "esse poder misterioso", "esse divino
22
que se revela"... É o encontro com "a alteridade surpreendente", um face-a-face com esse "outro
que espanta".
Uma indagação crucial: o que autoriza uma pessoa a dizer que sua própria experiência é
genuína e oriunda de Deus? A autoridade vem da fé! Da fé do sujeito advém a objetividade de sua
experiência. Fé esta inscrita no coração mesmo do próprio conhecimento emergido na experiência
religiosa. Contudo, a fé não é um ato quimicamente puro e absolutamente espontâneo. Inserida num
todo, a fé se mescla a um complexo de elementos subjetivos, psicológicos, intelectuais, culturais,
éticos, sociais etc. Aquele que crê e experimenta a Deus é sempre um sujeito encarnado no tempo.
* A experiência mística
Qual o significado próprio desse "padecer Deus", dessa pati divina? Os místicos sugerem
uma espécie de conhecimento sensível, repentino e imediato, em meio à própria passividade
intelectiva. Mas, poderá de fato o místico, na sua finitude, alcançar direta e sensorialmente a
infinitude de Deus? Na verdade, bem pouca importância dão os verdadeiros místicos às percepções
sensoriais, às visões ou vozes. Sua linguagem sempre se move no terreno do simbólico-metafórico.
O que eles descrevem, em vários escritos, "é o que experimentam muitas vezes de maneira
negativa: o espírito vazio de imagens, incapaz de conceitualizar..." Não refletem sobre Deus ao
modo dos metafísicos e teólogos, intelectivamente. Imagens desconcertantes tipo "invadido por
uma chama divina, queimado pelo fogo da caridade" (padre Pio), querem apenas traduzir, de forma
bastante imperfeita, uma experiência indizível de união, um arrebatamento inabalável e
inesquecível.
Na experiência mística, tomando consciência de seu "nada", o homem se abre ao "tudo de
Deus". Segundo São João da Cruz, tendo a criatura alcançado o cume de todo um processo ascético
purificador, chega, por fim, a um espaço ilimitado "em que Deus reside no nada substancial de sua
presença". Num face-a-face, explicita Meslin, "em que o nada de seu eu se desdobra no tudo de
Deus, nada y todo, o místico conhece a união divinizante, essa fusão do amante com a amada em
que a amada é transformada no amante" . Todavia, semelhante igualdade do amor somente se
verifica se Deus, em sua infinitude, conceder ao homem, limitado e finito, a possibilidade mesma
de vir a amá-lo tal como Ele o ama infinitamente. "A alma nesse estado, escreve São João da Cruz,
ama a Deus tanto quanto é amada por Ele, porque um só amor é o deles, dos dois". O encanto
jubiloso desse amor é, então, imensurável: nele Deus concede à criatura o que ela tanto almejava.
"Por isso o ser humano subsiste, enquanto pessoa, no seio desse amor. Ele não é nem absorvido
nem aniquilado em Deus, uma vez que este o torna capaz de amá-lo, no mesmo amor que Deus tem
por ele, e que ele lhe retribui nessa união mística" (M. Meslin).
Uma bela hermenêutica da experiência da Graça, bastante adequada aos interlocutores pós-
modernos, nos oferece Jean-Yves Leloup em seu livro “Carência e Plenitude”, cujo 2º capítulo
aqui resumimos. O conceito “Numinoso”, por ele empregado, torna-se equivalente do conceito
teológico cristão “Graça”. O vocábulo “Numinoso” – do latim numen, foi originariamente cunhado
por Rudolf Otto como designativo “do ente sobrenatural, do qual ainda não há noção mais precisa”.
a) Introdução
c) O Numinoso na natureza
entre nós. E quando o faz, podemos dizer à pessoa amada: “Tu não
morrerás” (G. Marcel).
f) O Numinoso no litúrgico
g) O Numinoso imprevisível
h) A experiência do Despertar
Proclamando a Boa Nova do Reino vindouro (cf. Mc 1,15), Jesus não diz algo inteiramente
novo. Recolhe as expectativas das melhores tradições de seu povo, condensando-as sobre si mesmo.
Jesus se apropria sobretudo da visão dos profetas, que enfatiza o reinado de Deus como sendo a
implantação do direito aos pobres. Para os profetas, Deus é definitivamente um Deus amoroso e
misericordioso, cujo amor se faz eficaz e operante na história. Falam de um Reino que chegará
como reconciliação do mundo, que não experimentará mais a opressão (cf. Is, Os, Am...) e que,
30
portanto, poderá prestar um autêntico culto a Deus, porque baseado na misericórdia e no direito (e
não no sacrifício, de pessoas!). Na visão profética, o Reino chega para libertar a todos os pobres.
Não obstante o peso da tradição profética, coexistem no tempo de Jesus outras visões até
mesmo conflitantes sobre o Reino, com as quais Jesus terá de enfrentar:
Fariseus - reinado da Lei (perfeita observância e elitismo religioso e moral);
Zelotas - teocracia política (o novo reino virá da insurreição violenta contra os
inimigos);
Apocalípticos - fim deste eon, começo de novo céu e nova terra (depois de uma
catástrofe espetacular e imprevisível, sucederá um grande juízo da parte de Deus).
Onde está a raiz da práxis de Jesus? Onde está o fundamento de sua vida "pro-existente"?
Em sua experiência singular do PAI. A entrega de Jesus aos homens é resultante de sua entrega ao
Pai que o acolhe fielmente. Do Reino de Deus chega-se ao Deus do Reino. O agir singular de Jesus
decorre de sua imagem e experiência de Deus como Pai (Aba). "Mostre-me a sua práxis que direi
qual é seu Deus". Se a práxis farisaica firma-se na imagem de um Deus juiz, legalista, inflexível,
31
que cobra, pune e marginaliza, a práxis jesuânica consolida-se na imagem do Deus Pai-Mãe justo,
e misericordioso, que acolhe, reergue e se compromete com o outro.
Toda a história de Jesus pode ser lida como a história de sua entrega ao Pai, que por ele se
entrega aos homens. A entrega de Jesus exprime-se em sua atitude fundamental de fé, como algo
crescente em sua vida. Fé que é obediência (fidelidade, escuta) não raro sofrida (cf. Hb 5,7-9) na
intimidade de uma vida cotidianamente orante.
A sintonia profunda de Jesus com o Pai (seu rochedo e segurança) é que o torna tão
escandalosamente livre e humano, capaz de vencer as tentações egocêntricas (cf. Hb 2,18; Mt 4,1-
11). Jesus não tem projeto de vida pessoal: seu projeto é o Pai e seu desígnio (o Reino). Não busca a
auto-realização. É o protótipo do homem radicalmente livre para amar, fazer-se, construir-se no
outro, pelo outro, a partir do outro.
Assim vivendo, chegando ao despojamento máximo do amor na cruz, Jesus foi salvo e
ressuscitado. O mesmo acontece para todo aquele que configura a própria vida em Cristo. A atitude
fundamental de Cristo (experiência radical do amor na obediência a Deus) converte-se em
indicativo do seguimento cristão, normativa ética para todo homem de boa vontade.
Na história da tentação, vemos o Espírito a guiar Jesus ao deserto. Seu reinado messiânico
é ali posto à prova (prefiguração da sua paixão); o caminho da fraqueza se antepõe à dominação
pela força. Digno de nota é que o Espírito não apenas conduz, mas de fato acompanha Jesus no
caminho da paixão, como “companheiro de sofrimento”. Assistimos à progressiva kénosis do
Espírito juntamente com Jesus. Sem identificar-se com o Filho, o Espírito está bem ligado ao seu
destino, enquanto Espírito do crucificado, da paixão (pneumatologia crucis) – Hb 9,14: “Cristo,
pelo Espírito eterno, se ofereceu como vítima imaculada a Deus”. A teologia da entrega de Jesus é
obra do Espírito Santo.
Em Marcos, a paixão termina com o grito de abandono de Jesus na cruz. Sofrendo ao seu
lado, o Espírito se prolonga como a vida indestrutível em cuja força Jesus se entrega em lugar de
muitos. Embora suporte no Gólgota os sofrimentos do Filho, o Espírito não morre com ele. Ao
contrário, graças ao Espírito, Jesus não somente suporta o abandono divino em lugar do mundo
abandonado, reconciliando-o com Deus, mas recobra novamente a vida. Na entrega de Jesus, para
além da morte, o Espírito se revela como força do novo nascimento. Paixão e ressurreição, sendo
assim, constituem um único processo, evocando as dores e alegrias do “parto do Espírito”.
O Espírito é também referido no Segundo Testamento como aquele que liberta Jesus da
morte (cf. 1Tm 3,16; 1Pd 3,18: “Ele sofreu a morte em sua carne, mas voltou à vida pelo Espírito”).
Os primeiros cristãos são unânimes em reconhecer na ressurreição de Jesus o primeiro fruto da ação
do Espírito recriador de tudo, em sua condição de “auctor resurrectionis”.
A presença nova de Jesus como “aquele que vive” irrompe agora na comunidade como
revelação do Espírito de Deus. Na contemplação do Cristo ressuscitado experimenta-se a força
vivificante do Espírito e na força vivificante do Espírito percebe-se a Cristo, a ponto do Espírito ser
o Espírito de Jesus Cristo e Cristo o Espírito vivificante – Espírito de Deus como Espírito de Cristo
(Rm 8,9), Espírito do Filho (Gl 4,6), Espírito de fé (2Co 4,13), o enviado do Filho (Jo 16,7).
Com efeito, o Espírito experimentado pela comunidade traz a marca de Cristo.
Diretamente, a fé se dirige a Cristo e a esperança ao Reino de Deus. O Espírito, por sua vez, insurge
como intermediação, como condição oculta (“É escuro ao pé do farol!”) para a concretização de
Cristo e do Reino vindouro. A pneumatologia, portanto, compõe a mediação e união entre a
cristologia e a escatologia. No Espírito, origem e acabamento se fazem presentes.
Em João, diferentemente de Paulo, a mudança do Cristo do Espírito para o Espírito de
Cristo não se dá automaticamente. O processo é antes trinitário. Há um novo começo da parte de
Deus Pai, antecedido pela súplica do Filho: “Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito” (14,16).
O Espírito está no Pai e seu envio é pedido pelo Filho.
Movidos pelo Espírito gritamos: “Maranatha!” É ele que nos faz buscar o Reino de Deus,
fazendo-nos resistir a um mundo violento e homicida. Duas dimensões dessa expectativa
sobressaltam-nos o olhar:
►Dimensão positiva
Quanto mais profunda a experiência da presença do Espírito no coração e na comunidade,
tanto maior será a confiança em sua vinda universal. A experiência atual do Espírito é início e
penhor do Reino da Glória (Rm 8,23). As forças carismáticas do Espírito diferem-se de dons
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sobrenaturais, mas são “forças do mundo futuro” (Hb 6,5). A esperança no agir renovador do
Espírito nasce da experiência não de uma deficiência no presente, mas da superabundância da
experiência do Espírito e da indomável alegria pela vinda já de Deus ao mundo. Quanto mais
numerosos os sinais da convalescença, maior será nossa inquietude e expectativa.
►Dimensão negativa
“Quando a liberdade está próxima, as algemas começam a doer”. O positivo da liberdade
começa com a negação do negativo. O “I have a dream” de M. Luther King é o sonho que surge
da negação realística. A negação definida do negativo advindo em forma de profundo gemido por
este mundo não redimido constitui uma das mais significativas experiências do Espírito (que não só
se manifesta no júbilo efusivo). O clamor por Deus, por si, é divino. No anseio humano por Deus,
impera a força atrativa de Deus mesmo, o anelo do Espírito.
“Das profundezas clamo a ti, Senhor!” (Sl 130,1). No clamor de Israel atormentado no
Egito (cf. Ex 3,7), no clamor de Cristo na cruz dos romanos (cf. Mc 15,34), no clamor dos
oprimidos e das crianças moribundas do terceiro mundo reverbera o suspiro do Espírito, a perpassar
simultaneamente as profundezas da criatura e da própria divindade.
III. PNEUMATOLOGIA
Há 30 anos atrás era comum o lamento de que a teologia ocidental havia se esquecido do
Espírito Santo. Com essa crítica, surgiu uma avalanche de escritos pneumatológicos. Mas do
esquecimento, diz J. Moltmann, nasceu uma certa obsessão.
Olhando os resultados, constata-se muitos aspectos isolados esclarecidos. Não se chegou,
porém, a um paradigma novo na pneumatologia. A maior parte dos trabalhos não passam de
atualizações das doutrinas tradicionais. Ora seguem a doutrina católica sobre a graça, ora o esquema
protestante “palavra-espírito”. Só com relutância chegou-se ao menos por em discussão a base da
pneumatologia ocidental firmada no “a patre filioque”. Não menos relutante é a consideração do
novo movimento pentecostal na Igreja e de suas experiências peculiares do Espírito.
Entre a pneumatologia da antiga Igreja ortodoxa e as experiências pentecostais mais
recentes das jovens igrejas, colocam-se as questões abertas nos tempos modernos na Europa em
34
* Espiritualidade ou vitalidade?
“Espiritualidade” é mais do que religiosidade (ânsia pelo mais elevado) e piedade (busca de
interioridade). Trata-se de um intenso convívio com o Espírito de Deus, é nova vida
No Primeiro Testamento e no judaísmo, o Espírito de Deus (Ruah Yahweh) é entendido
como a força da vida das criaturas, o espaço de vida em que podem desenvolver-se. A bênção divina
vem aumentar e não amortecer sua própria vitalidade. Ao contrário, assistiu-se na tradição cristã a
tendência de se deslocar essa vitalidade criativa a partir de Deus para a renúncia de uma vida
espiritualizada em Deus. A contraposição ao mundo sensível na introspecção psíquica passa a ser o
indicativo de um estado espiritual.
Urge, no entanto, reiterar que a proximidade de Deus não despreza, mas faz a vida
novamente merecedora de ser amada. Como bem atesta o Segundo Testamento, o Espírito Santo
chega aos corpos humanos doentios, frágeis, mortais como “força de vida da ressurreição”,
tornando-os “templos de Deus”. Segundo a bela expressão de Paulo, “o corpo é para o Senhor e o
Senhor para o corpo” (1Co 6,13).
A espiritualidade cristã genuína clama, pois à vitalidade, ao amor à vida. A vida espiritual,
insiste Moltmann, consiste na afirmação da vida em liberdade, não obstante suas doenças,
obstáculos e fraquezas. Uma vida contra a morte.
psicologia que determinou, fortemente no ocidente, a repressão do corpo e dos valores terrenos e a
tendência ao individualismo, com sua ênfase na alma racional.
O futuro de Deus na história, nessa perspectiva francamente espiritualista, acaba sendo
substituído pela eternidade divina, o reino vindouro, pelo céu, o Espírito da ressurreição da carne,
pela imortalidade da alma. Espiritualizada e idealizada a redenção, destituída do seu realismo
cristão, a esfera da carne se reduz ao corpo, aos instintos e às necessidades corporais. A libertação da
alma, e não a redenção do corpo (como professava Paulo), toma a direção.
Nesse dualismo gnóstico, a esperança cristã está voltada para cima, o céu, e não para frente,
o futuro da nova criação. O binômio tempo-eternidade silencia o conflito apocalíptico entre passado-
futuro, enquanto o conflito impulso de vida-impulso de morte se desloca para o dualismo
antropológico corpo-alma.
b) A santificação da vida
A santificação hoje
vida dos outros seres que compartilham conosco da condição de criaturas de Deus”. Surge assim
este duplo mandamento: “Ama a terra como a ti mesmo e a ti mesmo como a esta terra”. O amor ao
Deus vivo requer, necessariamente, o amor à vida de todos os seres vivos, particularmente aos mais
vulneráveis.
Santificação hoje, pois, corresponde à defesa da criação de Deus contra a agressão, em múltiplos
aspectos: pessoal, social e político. Em termos concretos, a renúncia à violência contra a vida
significaria a recusa do serviço à guerra, à prontidão para “viver sem armas”; também significaria
minimizar o uso técnico da violência contra a natureza, passando de uma técnica mais intensiva
para outra menos intensiva; viver de modo não violento pediria, igualmente, suspender a tirania da
razão contra o corpo humano.
Este respeito à vida como o viver do Espírito da vida não se confina ao autodomínio moral, mas
instaura uma nova espontaneidade da fé, resumida por S. Agostinho neste axioma: “Ama et fac
quod vis” (= Ama e faze o que queres). Tal espontaneidade se traduz numa espécie de confiança em
si mesmo, mas que no confiar-se a Deus se esquece de si próprio. Na santificação da própria vida, o
santificado não é o que a pessoa faz, e sim, sua existência mesma.
A busca atual da santificação leva-nos ao encontro de “concordâncias e harmonias da vida”, ou seja,
ao esforço de superar e abolir as divisões mortais que separam a alma do corpo, a pessoa da
comunidade, a comunidade da seqüência das gerações, as gerações humanas da casa comum que é a
terra. Nesta mística do respeito e do cuidado, recusamo-nos a viver à custa dos outros, sentindo-nos
obrigados a viver em favor dos outros. E numa última instância, santificação hoje inclui além da
saúde da vida, a aceitação da natural fragilidade humana em sua vida mortal. Embora resistamos ao
impulso da morte, não nos cabe reprimir a morte, dando-nos conta de ser ela uma parte integrante
da vida.
A vida santa
O vocábulo “santo”, sanctus em latim, recebe no inglês a tradução holy e no alemão, heilig.
Conforme a lingüística germânica, as palavras heil, heilen e heilig (são, sanar, santo) compõem um
grupo que significam o mesmo que pleno, sadio, preservado, completo, ou o “ser próprio” de
alguém. Destarte, sanar equivale à tornar novamente inteiro o que estava quebrado, sanar o que se
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Como já vimos, aquilo que Deus criou e ama é santo, a vida já é santa. Santificá-la consiste em
vivê-la com amor e alegria. No fundo, nem pela ascese, nem pela disciplina, podemos “fazer” uma
vida santa. Mas está em nossas mãos “deixá-la existir e deixar com que ela venha: Let it be!”, posto
que os frutos do Espírito amadurecem por si mesmos. Podemos suprimir os obstáculos que
dificultam a vida ser o que ela é. Embora a luz brilhe por si mesma, depende de nós abrir-nos a ela e
permiti-la brilhar. Se de certo existe uma santificação consciente da vida pelas forças da vontade
humana libertada, existe, contudo, “uma santificação inconsciente da vida através da existência.
Existe também uma santificação da vida inconsciente no Espírito. A expressão da vida vem das
profundezas que a consciência não ilumina. Em todas as dimensões, não se trata de santificar uma
vida que não é santa, mas de santificar a vida santa. Aprender a vê-la e amá-la assim como Deus a
vê e ama: boa, justa e bela”.
Moltmann propõe-se a investigar, em primeiro lugar, sem pretender uma sistematização acabada, as
metáforas comumentemente relacionadas às experiências do Espírito, para em seguida refletir de
uma nova maneira sobre suas relações de origem e suas relações trinitárias na imanência do
Mistério.
Estas imagens não condizem nem a sujeitos, tampouco a ações de sujeitos, mas a forças
modelantes. A experiência do Espírito como força de vida e energia está ligada à noção hebraica da
ruah. Denota um preenchimento total de vitalidade, tornando o ser portador de um dinamismo novo.
“A experiência da força de vida é tão variada como são variados os seres vivos, e no entanto, é uma
única força de vida que chamou tudo quanto vive à grande comunhão da vida, e que tudo aí
conserva. A comunidade de Cristo, vivendo na diversidade dos carismas e das energias e unida na
comunhão da mesma força do Espírito, pode ser um modelo disto”. É próprio do Espírito estimular
energética e contagiantemente “espíritos de vida” em comunidades de vida. Quando, ao contrário, só
se experimenta repulsão e rejeição, a vida é afetada e a comunhão se desfaz e os corpos definham-se.
A experiência de Deus vincula-se intimamente à experiência interpessoal. Na proximidade do Deus
vivo, os que foram despertos irradiam, corporalmente, as energias da vida vivificante, seja pela face
luminosa e pelo olhar brilhante, seja pelos gestos ternos e atenciosos.
Um adequado espaço vital é condição para que toda vida possa desenvolver-se. Não basta a
energia vital interna. Os espaços sociais é que nos sustentam a liberdade e lhe possibilitam
florescer. “Numa sociedade meramente de concorrência, que garante a liberdade pessoal, mas não
põe à disposição os espaços livres, a liberdade pessoal definha para a ‘liberdade dos lobos’ e para a
‘liberdade’ dos sem trabalho e dos sem pátria. Esta é a miséria de um ‘mundo livre’, que respeita as
liberdades subjetivas mas não os espaços sociais”. Nas Escrituras, o Espírito de Deus é
experimentado como o espaço amplo e aberto (cf. Sl 139) onde não mais existe aflição, e sim,
proteção e alento.
Nos espaços vitais, surgem das energias vitais as múltiplas figuras da vida. “Numa figura
vital, o lado de dentro e o lado de fora de um ser vivo alcançam o equilíbrio. Os contornos limitam
uma figura, mas seus limites são abertos, eles estabelecem comunicação. Por isso as figuras vitais
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individuais se formam em comunhão de vida com outros seres vivos, através da troca de energia que
sustenta a vida”. A figura vital humana, sendo modelada pelas condições genéticas, ecológicas,
culturais e sociais da existência, apresenta, no entanto, algo de inconfundível e indedutível. De modo
similar configura-nos a experiência da vida na experiência de Deus. No caminho concreto e pessoal
de nossa vida, o Espírito Santo configura-nos a Cristo: à sua vida messiânica, à sua conduta de vida
que salva e cura, à sua trajetória de sofrimento e, na esperança, ao seu corpo glorioso. Em suma,
conjugando todas as metáforas precedentes, “a experiência do Espírito é a experiência da vida
divina, que torna viva nossa vida humana”.
* Metáforas de movimento: o Espírito como vento impetuoso, como fogo e como amor
Estas imagens, derivadas da experiência mística, insinuam uma união tão íntima do Espírito
Santo com o humano que chega a ser difícil distingui-los. A metáfora da luz aplicada a Deus é
comuníssima nos textos sagrados. Fala da luz que ilumina os olhos para que possam ver. A luz
divina é a um só tempo fonte e objeto de conhecimento racional e amoroso. Inundados da luz do
Criador, da “racionalidade divina”, podemos compreender, afirmar e amar a Criação. Mas o que há
de mais especial no uso dessa metáfora da luz na experiência do Espírito, diz Moltmann, “está na
transição fluida da fonte para o raio de luz e para o esplendor luminoso. É uma e mesma luz que se
encontra na fonte, no raio e no esplendor. A diferença está na emanação”. Continua corajosamente
o teólogo: “Não nos leva adiante introduzirmos aqui mais uma vez a diferença entre criador e
criatura, entre eternidade e tempo, entre infinitude e finitude. A pneumatologia tem que assumir o
conceito de emanação, difamado como ‘neoplatônico’, com o qual o qual as criaturas são
‘divinizadas’ e Deus é glorificado nas criaturas”.
A metáfora da água se apresenta quase sempre associada às imagens da fonte e do poço.
Enquanto a luz vem de cima, a água procede da terra. E ambas produzem juntas a vida. Deus se
compara a uma “fonte de água viva” (Jr 2,13), da qual recebemos “graça sobre graça” (Jo 1,16).
Esta fonte não se encontra fora, mas emerge gratuitamente de dentro do homem.
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Espírito Santo é a presença amorosa, que se comunica, se espalha e se derrama, da eterna vida
divina do Deus uno e trino”.
Não obstante a unidade e a conexão interna das ações trinitárias ad extra, desde cedo tem-
se atribuído a obra da criação ao Pai, da reconciliação ao Filho e da santificação ao Espírito.
Joaquim de Fiore, especialmente, descreve diacronicamente pela seqüência salvífica dos reinos
consecutivos (ou “eras”) do Pai, do Filho e do Espírito, aquilo que sincronicamente está
representado no conceito monárquico da Trindade. A concepção joaquimita do movimento salvífico
do Espírito, que tanto influenciou a compreensão histórica moderna (fé no progresso dos tempos),
entende a história como impelida para a frente, para o cumprimento escatológico no Espírito. No
Reino ou na inabitação do Espírito o Evangelho de Cristo alcançaria a sua meta e se tornaria
possível a visão imediata de Deus. É incorreto afirmar que Joaquim teria esperado uma “era do
Espírito” sem Cristo. As pessoas não se excluem ao longo desse movimento histórico. “A mudança
dos sujeitos na lista das obras econômico-salvíficas é uma mudança dentro da Trindade, não um
dissolver-se da Trindade na história”. Se o Pai cria o mundo por meio do Filho no Espírito, do
mesmo modo o Espírito ilumina o mundo por meio do Filho no Pai. “Ao assumirem um após o outro
a condução, o Pai, o Filho e o Espírito Santo determinam o dinamismo escatológico da história da
salvação. O que o Pai inicia [a criação] aponta para o completar-se no Espírito [a glorificação]”.
Como conseqüência da figura monárquica, onde Deus é reconhecido em suas obras, ali são
despertados a gratidão e o louvor da criação. “Ação de graças, oração, adoração e o mergulhar
silencioso no espanto vêm das forças do Espírito vivificador, dirigem-se ao Filho e juntamente com
o Filho chegam ao Pai. Aqui toda atividade parte do Espírito que inabita, toda mediação se dá
através do Filho, e o Pai é o puro receptor das ações de graças e dos hinos de louvores de suas
criaturas. O Espírito glorifica o Filho e através do Filho o Pai”. Esta descrição do ser de Deus
mediante o seu receber e não pelo seu agir foi melhor desenvolvida pelas Igrejas ortodoxas, que
fazem da liturgia eucarística o lugar vital da experiência da Trindade. Na missão do Filho e do
Espírito, a Trindade abre-se para a história da criação como amor transbordante. Em seu buscar as
criaturas abandonadas e moribundas, Ela se torna vulnerável. “Mas na Eucaristia do Espírito começa
o retorno das criaturas reencontradas (...). A história do sofrimento de Deus na paixão de Cristo
serve à história da alegria de Deus no Espírito pelo retorno dos homens e de todas as criaturas ao
Reino de Deus”. Para que fôssemos divinizados, Deus se fez homem, exclamou Santo Atanásio.
Reverso do conceito monárquico em sua linearidade Pai – Filho – Espírito, este conceito
eucarístico da Trindade sugere o seguinte movimento unitário de Deus: Espírito – Filho – Pai. Se
para a dinâmica monárquica sugere-se a expressão “tríplice variedade”, para esta dinâmica fala-se
em “tríplice unidade”. Enquanto conceitos econômicos da Trindade, ambos açambarcam os dois
lados da salvação, ou seja, o que vem “de Deus” e o que leva “para Deus”. “Mas enquanto a
Trindade monárquica da missão se baseia numa experiência de identidade, segundo a qual Deus
mesmo está presente em sua revelação, na Trindade eucarística da glorificação nos deparamos com
uma experiência da diferença, segundo a qual nossos conceitos humanos e históricos não são
capazes de apreender a Deus mesmo, e por isso eles nos levam ao total espanto diante dele, ao
silêncio apofático e à esperança escatológica da visão divina”.
diante do mistério o homo revelatus. “Na luz da glória, os homens passam a ser transparentes a si
mesmos e aos outros, porque se encontram na luz divina e são por ela inundados”.
Adorado e glorificado por causa dele mesmo, Deus se apresenta ao homem como eterno
parceiro e interlocutor. No Espírito Santo, a eterna presença se manifesta como eterna alteridade.
Sem suspender a Trindade monárquica, histórica e eucarística, a doxologia trinitária conduz à
perfeição os movimentos divinos. Donde ser vista como o pressuposto para a origem destes mesmos.