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Teste Formativo 9

Grupo I

A. Lê o texto apresentado.

DE TARDE

Naquele pic-nic de burguesas,


Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,


Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,


Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda


Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, Cânticos do Realismo e Outros Poemas, Lisboa: Relógio d’Água, 2006, p.139.

Educação literária

1. Divide o texto nas suas partes lógicas, justificando a resposta.


2. Refere os traços principais que definem a personagem feminina.
3. Indica as imagens do poema que podem ser associadas a uma aguarela.
4. Mostra de que modo o espaço e o tempo são representados.
B. Lê o texto apresentado.

Em Petiz
I
De tarde

Mais morta do que viva, a minha companheira


Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro1 e bravo rapazito,
Como um homenzarrão servi-lhe de bandeira!

Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,


Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas,
E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás, malhadas e turinas2.

Do seio do lugar - casitas com postigos -


Vem-nos o leite. Mas batizam-no3 primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregão4 vos tira ao vosso sono, amigos!

Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:


Várzeas, povoações, pegos5, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu costume de percale6.

Já não receias tu essa vaquinha preta,


Que eu segurei, prendi por um chavelho7? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

Cesário Verde, Cânticos do Realismo e Outros Poemas, Lisboa: Relógio d’Água, 2006, p.125.

5. Resume o pequeno episódio evocado no poema.


1
ágil.
2
raça de gado bovino.
3
adicionam-lhe água.
4
anúncio publico feito em voz alta.
5
sítios fundos dos rios.
6
fato de algodão.
7
chifre.
6. Analisa a relação que se estabelece no texto entre o presente e o passado.

Grupo II

A Lisboa de Cesário Verde é uma cidade de contrastes. Ele vê e nota uma cidade
que é, ou a da Baixa pombalina, traçada com rigor geométrico, carregando o peso de um
passado já distante, ou a dos bairros novos, “modernos”, feitos ao jeito “mercantil,
contente” de uma jovem burguesia, que se substitui à nobreza caduca.
Mas é neste mesmo espaço que, quando visto em movimento, se instala a
presença de outra cidade, a dos trabalhadores em que à primeira vista se denuncia a
origem camponesa; assim se marca que esta cidade, e a sociedade que a habita, estão em
mudança, pois não se completou a absorção destes corpos que lhe são estranhos.
No seu deambular, o eu que assume o discurso vai desvendando (para si próprio
e para o leitor) o outro lado desta prosperidade – saberemos então que esse centro
cosmopolita da cidade está cercado pelos bairros pobres onde se “apinham” os “homens
de carga” que sustentam o movimento diurno da urbe. A ironia deste olhar “de luneta de
uma lente só” vai ao ponto de se fixar sobre algumas personagens intermédias entre um
mundo e o outro; são exemplo disto “o criado” de Num Bairro Moderno, os
“caixeiros” , “lojistas” e “dentistas” de O Sentimento dum Ocidental. E, no
caleidoscópio em que este eu transfigura o que vê, não deixa até de aparecer o negativo
desta imagem: refiro-me à “atrizita” de Cristalizações, cujas “botinhas de tacões
agudos” dificilmente se adaptam ao piso irregular de um bairro periférico; esta
personagem é o mais cruel retrato dessa cidade dúplice, que esconde (gato com rabo de
fora…), no brilho alucinante da “crua luz” de um teatro à moda de Paris, a sua condição
de origem e o bairro onde ainda habita.
Deste modo, em Cesário Verde, ver é conhecer, é descobrir o que se esconde
atrás das evidências de um real aparente. Por isso a sua perceção da cidade é de extrema
acutilância e minúcia, como se, à imagem dos arquitetos de Pombal, ele traçasse “a
compasso e esquadro”, iluminando as zonas sombrias do desenho.
Mas se a cidade é vista, não o esqueçamos, um sujeito a vê, uma consciência a
filtra, detrás da “luneta” que se interpõe entre as sensações percebidas e a inteligência
que as seleciona e trabalha. (…)
Este eu cosmopolita conhece/vê a cidade e vê-se a si no espelho que ela é. Daí,
aliás, a presença nos textos de múltiplos vidros, montras, águas paradas, funcionando
como espelhos multifacetados (…).
Raramente, no Cesário citadino, os espaços se situam no interior; o sujeito que
deambula está em movimento, transporta a sua consciência de lugar em lugar, como
numa via-dolorosa. É em Sentimento dum Ocidental que o confronto com o próprio eu
se agudiza, numa progressão que cresce à medida que a cidade entra na noite.
Paula Morão, Viagens na Terra das Palavras, Lisboa: Edições Cosmos, 1993, p. 312.
Leitura / Gramática

1.Para responderes a cada um dos itens de 1.1. a 1.5., seleciona a única opção que
permite obter uma afirmação correta.

1.1. O texto apresenta características específicas do género


A. apreciação crítica.
B. exposição.
C. artigo de opinião.
D. artigo de divulgação científica.

1.2. Cesário Verde “pinta” uma cidade múltipla:


A. a Lisboa de Pombal e a do século XX, moderna.
B. a Lisboa pombalina, a das novas avenidas e dos novos bairros.
C. a Lisboa geográfica e a Lisboa humana.
D. a Lisboa antiga e a contemporânea.

1.3. O olhar do sujeito poético, em Cesário Verde,


A. revela diferentes quadros sociais.
B. elege as figuras femininas.
C. elimina os elementos banais.
D. seleciona jovens burgueses.

1.4. Os conectores “Mas” (l. 5), “Deste modo” (l. 21) e “Daí” (l. 28) contribuem
para
A. a coesão frásica.
B. a coerência textual.
C. a coesão interfrásica.
D. a coesão lexical.

1.5. O referente do determinante possessivo em “a sua condição de origem” (l. 20) é


A. “cidade dúplice”.
B. “bairro periférico”.
C. Cesário Verde.
D. esta personagem.

2.Responde de forma correta aos itens apresentados.


2.1. Indica a função sintática do pronome relativo presente em “que lhe são
estranhos” (l. 8).
2.2. Indica a função sintática da expressão “dessa cidade dúplice” (ll. 18-19).
2.3. Divide e classifica as orações da frase “Este eu cosmopolita conhece/vê a cidade
e vê-se a si no espelho que ela é” (l. 28).
Grupo III

Os momentos de lazer são imprescindíveis na vida das pessoas.

Tendo em conta a afirmação anterior, redige um texto de opinião, com 180 a 220
palavras, no qual fundamentes o teu ponto de vista com dois argumentos e com, pelo
menos, um exemplo concreto e significativo para cada um.