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FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS DE SÃO PAULO

Neoliberalismo: Lebensführung e Weltanschauung


Reflexões sobre a contemporânea subjetividade capitalista

LEONARDO AGULHON ROMANELLO

São Paulo
2019
LEONARDO AGULHON ROMANELLO

Neoliberalismo: Lebensführung e Weltanschauung


Reflexões sobre a contemporânea subjetividade capitalista

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao programa de Graduação em Administração
de Empresas da Fundação Getulio Vargas de
São Paulo como requisito à obtenção do título
de Bacharel em Administração de Empresas

Campo de Conhecimento: Sociologia

Orientador: Prof. Daniel Pereira Andrade

São Paulo
2019
ROMANELLO, Leonardo Agulhon.
Neoliberalismo: Lebensführung e Weltanschauung: Reflexões sobre a contemporânea
subjetividade capitalista. Leonardo Agulhon Romanello. – 2019. 58f.

Orientador: Prof. Daniel Pereira Andrade.


Monografia (bacharel) – Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação
Getulio Vargas.

1. Neoliberalismo. 2. Capitalismo. 3. Subjetividade. 4. Empresa de si mesmo. 5.


Patologias. I. Pereira Andrade, Daniel. II. Monografia (bacharel) – Escola de Administração de
Empresas de São Paulo. III. Título.
LEONARDO AGULHON ROMANELLO

Neoliberalismo: Lebensführung e Weltanschauung


Reflexões sobre a contemporânea subjetividade capitalista

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao programa de Graduação em Administração
de Empresas da Fundação Getulio Vargas de
São Paulo como requisito à obtenção do título
de Bacharel em Administração de Empresas

São Paulo, ____ de _________ de 2019

BANCA EXAMINADORA

________________________________________
Prof. (Nome do orientador)
Afiliações

________________________________________
Prof. (Nome do professor avaliador)
Afiliações

________________________________________
Prof. (Nome do professor avaliador)
Afiliações
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, que proporcionaram, integralmente, os recursos, de todas as espécies,


necessários para usufruir das oportunidades com as quais me deparei ao longo de minha vida.
Sem este auxílio, seria absolutamente infactível chegar até o presente instante.

Aos meus amigos e colegas, plenamente disponíveis a todo momento. Impossível


conceber a completude deste caminho trilhado na ausência destas pessoas. A individualidade
de cada uma marcou, seguramente, diversos episódios da minha vida. Agradeço, com especial
atenção, à minha amiga Talita Ferrantelli, adicionalmente pelo seu zelo e discussões sobre esta
monografia.

Aos meus professores, que auxiliaram na construção das bases do meu pensamento
crítico. Não há palavras para retratar a relevância destas pessoas na edificação da minha
formação.

Ao meu orientador, sempre à disposição, durante o ínterim de elaboração deste trabalho,


para propor reflexões, correções e sugestões primordiais de redação. Um modelo de pessoa e
de profissional, que marcou parte de meu trajeto universitário com suas admiráveis aulas,
responsáveis, ultimamente, pela escolha do presente tema.

À minha universidade e a todo o seu pessoal, que proporcionaram um ilustre ambiente


de fomento ao saber. Nunca esquecerei das aprazíveis experiências vividas na Fundação Getulio
Vargas, durante estes últimos anos.

A todos os outros envolvidos, tanto direta quanto indiretamente, que, de alguma forma,
colaboraram para materializar este instante. Reconhecendo a dificuldade de abranger, com
exaustão, todas estas pessoas, aproveito a oportunidade para compartilhar, sem pormenores,
meus mais puros agradecimentos.
RESUMO

A lógica estruturante do capitalismo se transformou. Uma nova forma de existência foi criada,
com moldes econômicos e sociais inovadores, particularmente desenhados para sustentá-la.
Trata-se do neoliberalismo, uma racionalidade política, social, econômica e subjetiva,
estruturante de uma nova razão de mundo e ramificada para todas as dimensões da existência
humana, sendo a concorrência a diretriz universal de conduta e a empresa a referência de
subjetivação. Esta inovação dos valores morais e do espírito do capitalismo contemporâneo
transformou a realidade das empresas, do trabalho, de práticas governamentais, de políticas
institucionais, de estilos gerenciais e, mais profundamente, do indivíduo. Na sociedade
neoliberal, as esferas de pertencimento do sujeito, antes heterogêneas, múltiplas e, em certa
medida, conflituosas, se consolidam em uma única. Os discursos humanos – psicológicos,
sociais e espirituais – se homogeneízam, inteiramente e individualmente, em torno da figura da
empresa. Ao passo que todas as dimensões da vida humana são submetidas aos termos da
racionalidade de mercado, o neoliberalismo vê o sujeito como uma criatura competitiva, cuja
autonomia moral é medida pela sua capacidade de prover suas necessidades e servir suas
ambições. Como consequência, o sujeito se torna accountable, livre e integralmente
responsável pelos resultados de suas ações, independentemente de quaisquer restrições que
possa ter, em um processo de autocoerção e autoculpabilização. Neste novo modo de vida, do
“nada é impossível”, impõe-se a necessidade de valorização constante do eu – através de
investimentos em competências, habilidades e aptidões -, como se os indivíduos fossem
empreendedores de si mesmos e como se se tornassem verdadeiros capitalistas, reproduzindo,
ampliando e reforçando as relações de competição entre si. A forma moderna da epimeleia
heautou, i.e, do “cuidado de si”, portanto, é a da gestão de um portfólio de atividades e de
projetos, do desenvolvimento de estratégias de aprendizagem e da administração do capital da
empresa de si mesmo. Assim, observa-se a substituição das estruturas simbólicas dos sujeitos
pela instituição da empresa. Não é de se surpreender que a competitividade exacerbada, a
existência social individualizada - cada vez mais desvinculada de laços coletivos -, a
transitoriedade do mundo, a responsabilização e vitimização motivacional do eu pelas suas
conquistas e fracassos, o excesso de estímulos, o risco permanente ligado à condição e estilo de
vida de empresa de si mesmo, e a redução do tamanho e escopo das provisões estatais de bem-
estar social impliquem inúmeras patologias somáticas e psicossomáticas, típicas do
neoliberalismo, presentes, em diferentes moldes, em todas as faixas etárias, como burnout,
depressão e ansiedade. Está-se a falar, pois, em uma sociedade patológica, genuinamente
desumana, que tem, na figura do atleta profissional – incluindo suas condições de esforço,
desgaste e vícios, assim como o próprio léxico do esporte –, a caricatura do tempo e o seu
princípio de ação. As consequências finais da anátema do desempenho são dramáticas, sendo o
esgotamento último, a morte, o único ponto possível de realização plena do otimizado sujeito
neoliberal, incapaz de aproximar as figuras do seu eu-ideal com o seu eu-real. O que se deseja
com este trabalho, fundamentalmente teórico descritivo, é dar luz ao debate ao redor do tema
da nova subjetividade capitalista e às suas patologias correlatas, esforçando-se para
compreender melhor o nosso tempo, suas crises, a maneira pela qual conduzimos nossas vidas
(Lebensführung) e nossa mundividência (Weltanschauung), visando, no limite, pela sua
excepcional importância hodierna, esclarecer o tema àqueles que ainda não tiveram contato
com esta literatura e fomentar discussões futuras sobre racionalidades alternativas.

Palavras-chave: Neoliberalismo; Capitalismo; Subjetividade; Empresa de si mesmo;


Patologias.
ABSTRACT

The arranging logic of capitalism has changed. A new form of existence has been introduced,
with innovative economic and social patterns, particularly designed to support it. It is the
neoliberalism, a political, social, economic and subjective rationality, which structures a new
world reason and spreads itself throughout all dimensions of human existence, on the basis of
the competition as the universal guideline of conduct and the company as the reference of
subjectivation. This revolution of the moral values and of the spirit of contemporary capitalism
has transformed the reality of business, work, government practices, institutional policies,
managerial styles, and, more profoundly, the individual. In the neoliberal society, the previously
heterogeneous, multiple and, to some extent, conflicting, spheres of subjectivity are
consolidated into one. Human discourses - psychological, social and spiritual - are
homogenized, entirely and individually, around the figure of the company. Whereas all
dimensions of human life are subject to the terms of market rationality, neoliberalism views the
subject as a competitive creature whose moral autonomy is measured by its ability to meet its
needs and serve its ambitions. As a consequence, the subject becomes accountable, free and
fully responsible for the results of his actions, regardless of any restrictions he may have, in a
process of self-coercion and self-blame. In this new way of life, of “nothing is impossible”,
there is a need for constant valorization of the self - through investments in skills, abilities and
aptitudes - as if individuals were entrepreneurs of themselves and as if they became true
capitalists, reproducing, expanding and reinforcing the relations of competition with each other.
The modern form of the epimelea heautou, i.e. “self-care”, therefore, is that of managing a
portfolio of activities and projects, developing learning strategies, and managing the self-
company’s capital. Thus, there is a substitution of subjects’ symbolic structures by the
institution of the enterprise. Not surprisingly, exacerbated competitiveness, individualized
social existence - increasingly detached from collective ties - the transience of the world, the
accountability and motivational victimization of the self by its achievements and failures,
overstimulation, permanent risk linked to the condition and lifestyle of the self as enterprise,
and the reduction in the size and scope of welfare state provisions trigger innumerable somatic
and psychosomatic pathologies, typical of the neoliberalism period - across all generations, in
different ways - such as burnout, depression and anxiety. Therefore, we are talking about a
genuinely inhuman pathological society, which has in the figure of the professional athlete -
including his conditions of effort, wear and addiction, as well as the sport lexicon itself - the
caricature of the time and its principle of action. The final consequences of the anathema of
performance are dramatic, as the only possible source of full realization for the optimized
neoliberal subject, unable to approximate the figures of his ideal self with his real self, is his
ultimate exhaustion, his death. The aim of this paper, fundamentally theoretical descriptive, is
to shed light on the debate around the new capitalist subjectivity and its related pathologies,
striving to better understand our time, its crises, the way in which we conduct our lives
(Lebensführung) and our worldview (Weltanschauung), aiming, at the limit, by its exceptional
current importance, to clarify the theme to those who have not had contact with this literature
and to foster future discussions about alternative rationalities.

Keywords: Neoliberalism; Capitalism; Subjectivity; Self as enterprise; Pathologies.


SUMÁRIO

1. Considerações iniciais _________________________________________________________ 10

1.1. Apresentação do tema _____________________________________________________ 10

1.2. Delimitação do objeto _____________________________________________________ 11

1.3. Formulação do problema e justificativa da escolha _______________________________ 11

1.4. Objetivos do trabalho proposto ______________________________________________ 12

1.5. Abordagem metodológica __________________________________________________ 13

1.5.1. Organização da monografia _______________________________________________ 13

2. Passagem entre regimes de acumulação ____________________________________________ 15

2.1. Ascensão e queda do regime fordista _________________________________________ 15

2.2. Uma nova racionalidade ___________________________________________________ 17

3. O neossujeito ________________________________________________________________ 25

3.1. Desempenho e sucesso_____________________________________________________ 25

3.2. Patologias e fracasso ______________________________________________________ 37

4. Considerações finais ___________________________________________________________ 47

5. Referências bibliográficas ______________________________________________________ 52


“Es ist alles so verzwickt geworden, daß, es zu bewältigen, ein ausnahmsweiser Verstand
gehörte. Denn es genügt nicht mehr, das Spiel gut spielen zu können; sondern immer wieder
ist die Frage: Ist dieses Spiel jetzt überhaupt zu spielen und welches ist das rechte Spiel?”
Ludwig Wittgenstein, Vermischte Bemerkungen, 1970
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

1.1. Apresentação do tema

A lógica estruturante do capitalismo se transformou. Uma nova forma de existência foi


criada, com moldes econômicos e sociais inovadores, particularmente desenhados para
sustentá-la. A fase do capitalismo Fordista não mais é a marca do nosso tempo. Uma nova
relação entre o regime de acumulação da atualidade – correspondente à lógica econômica
distributiva1 – e o modo de regulamentação a ele associado – correspondente ao conjunto de
normas, hábitos, leis, valores morais, et.al., que buscam materializar e estabilizar o regime de
acumulação2 - se estabeleceu para a inauguração do chamado neoliberalismo.

Características inovadoras desta fase do capitalismo a distinguem de momentos


anteriores. Elenca-se, notadamente, a maneira singular de pensamento e condução da vida do
sujeito neoliberal. Este agente age e se deixa agir por uma inédita chave de racionalidade, que
vê, na instituição da empresa, os critérios para como se comportar. O sujeito, portanto, opera
como se empresa fosse, nas mais diversas esferas de sua existência.

O presente trabalho se propõe a dar luz ao debate ao redor do tema da nova


subjetividade3 capitalista, tanto em relação (i) às suas estruturas fundantes, quanto em relação
(ii) às consequências, majoritariamente nocivas, que emanam desta maneira de viver, a exemplo
da depressão e do esgotamento total do sujeito (burnout).

1
O regime de acumulação é, em essência, o modo como ocorre a alocação entre acumulação (produção) e
consumo, de trabalhadores e capitalistas, em dada sociedade. Ele precisa ser intrinsicamente coerente e capaz de
desfazer as contradições do capitalismo, sob o risco de gerar crises econômicas. Medidas paliativas, contudo,
podem ser utilizadas para suprir eventuais incoerências do sistema de acumulação.
2
O modo de regulamentação permite o direcionamento das condutas dos vários agentes econômicos, por
intermédio do controle social, promovido via instrumentos de conversão, de caráter situacional e microssocial,
dispersos ao longo de variadas instâncias da sociedade.
3
Entende-se, aqui, como subjetividade, a “síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo
conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos
identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem
são experienciados no campo comum da objetividade social. Esta síntese — a subjetividade — é o mundo de
ideias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas
vivências e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais”
(BOCK; TEIXEIRA; FURTADO, 2018). Para maiores reflexões entorno das discussões sobre a construção das
subjetividades contemporâneas, ver (TAYLOR, 1989).
10
1.2. Delimitação do objeto

É necessário, agora, delimitar, com maior precisão, o objeto a ser estudado. Não se
discutirá, como temática principal, as singularidades das fases anteriores do capitalismo, por
mais que, em alguns momentos, isso venha a ser feito, sobretudo com o Fordismo, para melhor
esclarecer o tópico pretendido.

Igualmente, não serão discutidas, com tamanha atenção, outras facetas da sociedade
neoliberal, a exemplo da crise da democracia contemporânea. O foco será, respectivamente, na
construção da subjetividade na sociedade neoliberal, em relação às suas origens e principais
transformações - comparativamente a períodos históricos anteriores -, e nas patologias a ela
associadas.

Não se deseja, de modo algum, com o presente estudo, homogeneizar por completo as
diferenças existentes ao longo do espectro social. No entanto, apesar de não serem ressaltadas
tais diferenças, optou-se, devido ao receio de superficialidade e limitações práticas, por não
examinar, pormenorizadamente, o estado daqueles sujeitos já instalados na periferia ou que já
estejam desfiliados, não integrados por completo no plano social. O indivíduo aqui enfocado, se
apropriando da terminologia desenvolvida por Robert Castel (2015), será aquele integrado, em
maior grau, na sociedade.

Por fim, não será proposta uma alternativa à conjuntura social-política-econômica e aos
seus problemas correlatos, relacionados à singular racionalidade neoliberal. De grande pretensão
seria desejar dar uma resposta absoluta às crises contemporâneas, em um estudo deste porte.
Busca-se, apenas, mapear o atual debate em torno do tema da subjetividade no neoliberalismo e
incitar discussões pospostas que tenham, como objetivo último, propor uma narrativa distinta à
lógica contemporânea.

1.3. Formulação do problema e justificativa da escolha

A motivação principal para a reflexão sobre o tema se deu pelo interesse nos atuais
modos de gerenciamento de nossas vidas e avaliação de nossas ações. Neste cenário, a

11
subjetividade neoliberal, pelo sério desconhecimento popular, pela sua velada complexidade
sistêmica – refletida nas diversas consequências, mormente negativas, resultantes desta lógica
-, e pela sua absoluta penetração, no cotidiano, como regra de conduta total, acabou sendo
considerada a alternativa perfeita de tema.

Após averiguação prévia sobre o sujeito neoliberal, foi possível apreender a existência
de uma vasta literatura, primordialmente internacional, referente ao assunto. No entanto, a
análise conduzida pelos autores acerca da contemporaneidade, surpreendentemente, não é, nem
mesmo superficialmente, compreendida por uma parcela significativa da população, ainda que
sujeitas à lógica deste tempo.

Destarte, anuncia-se como principal querela a ser tratada neste estudo a compilação do
debate, internacional e nacional, sobre a ética neoliberal de transformação dos sujeitos em
“empresas de si mesmos”. A aspiração, portanto, é de melhor interpretar este fenômeno,
explanando as conclusões ao longo deste estudo, tendo como pergunta norteadora “qual a
mudança de subjetividade promovida pelo neoliberalismo e os efeitos daí decorrentes?”.

1.4. Objetivos do trabalho proposto

O que se deseja com este trabalho é averiguar a estrutura da racionalidade neoliberal,


sob a perspectiva do sujeito, e as suas patologias correlatas4, esforçando-se para, ainda que
genericamente, dentre outros propósitos, compreender melhor o nosso tempo, suas crises, a
maneira pela qual conduzimos nossas vidas - ou seja, a nossa nova Lebensführung – e nossa
mundividência (Weltanschauung).

Em resumo, esforça-se para, com esta pesquisa, constituir um levantamento crítico sobre
a subjetividade neoliberal, sua raison d’être e consequências principais, visando, no limite, pela

4
A análise das patologias associadas ao neoliberalismo, essencialmente de natureza mental, se justifica por ser
“nel linguaggio della salute mentale che si esprimono ormai i numerosi conflitti e le tensioni della vita in società,
ed è dal suo vocabolario che noi attingiamo ragioni d'agire e modi d'agire su di essi. È attraverso i suoi concetti
che comprendiamo i nostri mali personali come mali comuni, che possiamo trovare, anche quando non arriviamo
a ridurli praticamente, un significato più vasto rispetto a noi alle nostre sventure individuali. Nel giardino delle
specie patologiche raggruppate dalla salute mentale, abbiamo trovato un linguaggio per la forma individualistica
dell'inquietudine umana, per il timore che l'inevitabile dissoluzione dei legami di dipendenza, senza cui non
esistono individui liberi e uguali, ci conduca a una separazione reale. Con queste specie, possiamo servirci dei
nostri mali per fare società. Esse sono ormai le affezioni elettive della società dell'uomo-individuo”
(EHRENBERG, 2010).
12
sua excepcional importância hodierna, ainda que com grande aspiração, esclarecer o tema
àqueles que ainda não tiveram contato com esta literatura e fomentar discussões futuras sobre
racionalidades alternativas.

1.5. Abordagem metodológica

Esta monografia foi construída sob as seguintes bases metodológicas, quanto aos
critérios de tipo e objetivo de pesquisa, fontes utilizadas, e abordagem e resultados apurados.

Quanto à espécie de estudo, está-se diante de pesquisa fundamentalmente teórica


descritiva, voltada a entender e ilustrar as principais variáveis correspondentes à subjetividade
capitalista neoliberal, associando-se a um debate de lege lata, voltado à interpretação da
realidade.

As fontes utilizadas foram, principalmente, teóricas, na qual se incluem livros, artigos,


dissertações, teses e periódicos científicos, nacionais e, em maior grau, internacionais, devido
à maturidade e consolidação de registros sobre este assunto em outros países. Quanto às áreas
de conhecimento, as fontes percorrem, majoritariamente, estudos tradicionalmente
desenvolvidos no âmbito da administração de empresas, economia, psicologia, filosofia e
sociologia.

Cabe apontar, por fim, que a utilização de um caso empírico, relativo ao fenômeno ora
analisado, foi afastada para este trabalho. Isto se justifica pela dificuldade em abordar, com
precisão e integralidade, os diversos assuntos, variáveis e tópicos almejados por meio de um
único relato prático.

1.5.1. Organização da monografia

Esta monografia aborda o tema da subjetividade neoliberal em dois grandes ângulos,


sendo elas, nesta sequência de aparecimento, a das caracterizações dos sistemas capitalistas e a
das facetas do neossujeito.

13
Nesta primeira aproximação (“2. Passagem entre regimes de acumulação”), dividida em
duas subpartes, propôs-se a entender os aspectos principais do regime capitalista fordista e de
sua crise (“2.1. Ascensão e queda do regime fordista”) e, em sequência, a atual fase do
capitalismo, o neoliberalismo (“2.2. Uma nova racionalidade”), que substituiu, profundamente,
a lógica sistêmica anterior.

Após, o tema será desenvolvido através da lente do sujeito neoliberal (“3. O


neossujeito”). Neste momento, a monografia foi dividida em outras duas subpartes,
representando, cada qual, as opostas perspectivas do sujeito de sucesso (“3.1. Desempenho e
sucesso”) e a do sujeito fracassado, patológico (“3.2. Patologias e fracasso”).

A monografia se encerrará recuperando as essenciais conclusões pinceladas no decurso


deste ensaio, dando, pretensamente, uma resposta ao objetivo de pesquisa formulado (“4.
Considerações finais”).

Alerta-se, ainda, sobre possível desordem temática a ser experienciada ao longo do


texto. Apropriando-se de lúcido aviso formulado por Eva Illouz, “even as we strive for clarity,
our analysis is inevitably messy, because it must cope with social spheres and values that are
irrevocably intertwined with each other” (ILLOUZ, 2013). Por fim, escusa-se por eventuais
imprecisões terminológicas, uma vez que serão versados, atrevidamente, temas que tangenciam
variadas áreas do saber, a exemplo da sociologia, psicologia, filosofia e medicina.

14
2. PASSAGEM ENTRE REGIMES DE ACUMULAÇÃO

Em momento imediatamente anterior ao neoliberalismo, durante longos anos do século


XX, o capitalismo passou por uma relevante fase histórica, conhecida como fordismo.
Imprescindível, em um primeiro passo, abordar com maiores detalhes este transcurso para bem
compreender, por meio de contrastes de fundamentos, o tópico principal de estudo desta
monografia, qual seja, a sociedade neoliberal e seu subjugado sujeito.

2.1. Ascensão e queda do regime fordista

O Fordismo, como fase histórica do capitalismo, se estabeleceu durante o século XX,


com maior clareza entre os anos 1945-19735. Tratou-se de um novo modelo de sociedade, com
marcas inovadoras nos sistemas de reprodução, gerência e controle da força de trabalho, e na
estética e psicologia de massa (HARVEY, 2004)6.

Este regime foi constituído por um pacto tripartite entre trabalho organizado, capital
corporativo e nação-estado. Um equilíbrio de forças de interesse marcado, por um lado, por
ganhos de salário e de direitos sociais pelos sindicatos para os seus trabalhadores, em troca de
cooperação para a implementação da nova forma de controle do trabalho, por outro, pela
atuação do Estado como agente garantidor de estabilidade e de bens públicos, investindo em
infraestrutura e em bem estar social, e, por fim, pelo estímulo das grandes corporações
capitalistas ao crescimento econômico, à geração de empregos e ao barateamento dos produtos.

5
Tentativas anteriores de implementação do sistema fordista ocorreram. No entanto, foi com o fim da segunda
guerra mundial que o novo sistema pôde se consolidar, devido à (i) nova planificação estatal da economia para a
alocação de recursos, que possibilitou o surgimento de um modelo generalizado de intervenção estatal, e (ii) à
aceitação do novo método, mais produtivo, de organização do trabalho, sobretudo nos países participantes da
guerra.
6
Contudo, o estabelecimento do regime fordista não ocorreu sem resistência, grandes lutas e cenários de assinalada
desigualdade, seja por parte de grupos marginalizados dentro do fordismo, seja, propriamente, por trabalhadores,
membros de sindicatos representativos. Ele dependeu da superação da resistência (i) ao novo modelo de
organização do trabalho – ausente de controle do trabalhador sobre o projeto, ritmo e organização do processo
produtivo - contrário às tradições artesanais, e dos (ii) modos e mecanismo de intervenção estatal, i.e., do modo
de regulamentação até então vigente (HARVEY, 2004).

15
O trabalho, aspecto estruturante das relações sociais e, mais profundamente, da natureza
humana, também se transformou na época fordista. Como consequência, um modo específico
de viver e de pensar e sentir a vida - inseparáveis do trabalho, nos termos de Antonio Gramsci
– se consolidou em escala global7.

A condição salarial fordista, para utilizar o termo cunhado por Robert Castel8, encontra,
na empresa, seu lugar de excelência. Ela se diferencia da precedente pelos seguintes elementos9:
(i) “Uma nítida separação entre os que trabalham efetiva e regularmente e os inativos ou os
semi-ativos que devem ser excluídos do mercado do trabalho ou integrados sob formas
regulamentadas”10; (ii) “A fixação do trabalhador em seu posto de trabalho e a racionalização
do processo de trabalho no quadro de uma ‘gestão do tempo exata, recortada,
regulamentada”11; (iii) “O acesso por intermédio do salário a ‘novas normas de consumos
operários’, através do que o próprio operário se torna usuário da produção de massa”12; (iv)
“O acesso à propriedade social e aos serviços públicos”13; e (v) “A inscrição em um direito do
trabalho que reconhece o trabalhador como membro de um coletivo dotado de um estatuto
social além da dimensão puramente individual do contrato de trabalho”14 (CASTEL, 2015).

7
A evolução do Fordismo ocorreu de maneira variada entre as nações, mesmo entre os países capitalistas
avançados. No entanto, a lógica do novo regime de acumulação e do modo de regulamentação se manteve, em
linhas gerais, parelha.
8
Segundo o autor, três são as formas de relações de trabalho na sociedade industrial: (i) Condição Proletária.
Situação de quase exclusão do corpo social, na qual o trabalhador, ausente de uma renda que lhe permite investir
e de garantias legais de trabalho, vive apenas para se reproduzir, sem se encaixar na sociedade; (ii) Condição
Operária. Trata-se de uma condição de ampliada participação e integração social promovida pelo consumo, ainda
que instável. A consciência de classe é estruturada, em um contexto de estratificações mais complexas; (iii)
Condição Salarial. A escala social possui gradações crescentes, mais complexas. A partir da posição ocupada como
assalariado, define-se a própria identidade do trabalhador.
9
Para Castel, os fatores que alicerceiam e distinguem, pois, uma relação salarial, são o modo de remuneração da
força de trabalho – o salário -, a forma de disciplina do trabalho, e o quadro legal que suporta a relação de trabalho.
10
Através do emprego de políticas patronais de sedução e de coerção, foi possível alcançar certa moralização do
povo, com o propósito de erradicar a figura do ‘vagabundo’, i.e., daqueles que se recusavam a se submeter a um
modelo disciplinar rigoroso do trabalho.
11
O trabalhador perdeu a sua autonomia e foi coagido a executar tarefas reprodutivas de baixo nível técnico,
rigorosa e cientificamente controladas, o que permitiu o desenvolvimento de uma produtividade máxima, pela
aplicação dos novos princípios da administração científica. Simultaneamente, a nova forma de gestão fordista, ao
criar a identidade operária, foi responsável pela formação de uma consciência de classe e pelo surgimento dos
sindicatos.
12
O operário fordista não era apenas uma engrenagem produtiva, mas, também, um consumidor dos produtos da
sociedade industrial. Este é um aspecto basilar da nova configuração social, que fez surgir nos trabalhadores uma
preocupação de bem-estar, i.e., uma possibilidade de acessar o novo registro do desejo. A produção em massa,
portanto, se conjuga ao consumo em massa.
13
O contrato de trabalho se associa a uma série de formas legais de proteção social, como seguridade e
aposentadoria, auxiliando os trabalhadores a saírem do pauperismo da sociedade industrial.
14
Com este reconhecimento, cria-se, por intermédio de atuação central do Estado, uma união dos membros de um
mesmo grupo social. A partir de então, horizontalizam-se as relações assimétricas entre trabalhadores e

16
O regime fordista, apesar de ter usufruído de períodos de intenso crescimento
econômico, que resultaram em acelerada criação de riqueza, distribuída, em certa medida,
também para a classe operária – melhorando, em termos reais, a condição do trabalhador, e
reduzindo a desigualdade social -, não se sustentou indefinidamente. Já nos anos 60, críticas ao
Estado burocrático despersonalizado e ao gerencialismo fordista se intensificaram,
paralelamente a práticas contraculturais, relacionadas à formação de uma nova subjetividade.
Na economia, um cenário de hiperinflação, crise fiscal, crise do petróleo e de desequilíbrio entre
oferta e demanda15, aliado a um sistema rígido de produção, implicou um abalo absoluto do
fordismo que, em 1973, se desmantelou16 e o regime de acumulação de então perdeu a sua
coerência, trilhando o caminho para a instauração de um novo sistema socioeconômico, o
regime de acumulação flexível.

2.2. Uma nova racionalidade

Em contraste à rigidez fordista17, o regime de acumulação flexível se apoia na


“flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de
consumo”. Mais precisamente:

capitalistas, via atuação dos sindicatos. Minora-se, por consequência, a vulnerabilidade social, através de
conquistas sociais progressivas e estabilidade empregatícia.
15
Este desequilíbrio em muito se assemelha à crise de superprodução prenunciada por Karl Marx. Segundo o autor
(MARX, 1998), a revolução burguesa instituiu a igualdade normativa e o livre mercado. A concorrência que
adveio, entre os vários capitalistas, os obrigou a desenvolver, continuamente, a força produtiva, via, dentre outros
meios, a simplificação do trabalho. Com trabalhos menos demandantes, maior a mão-de-obra disponível e, por
consequência, maior a pressão para a redução de salários, implicando menor consumo pelos trabalhadores, que
resulta, por fim, em uma crise de superprodução.
16
Em linhas gerais, a estabilização da demanda, advinda da saturação dos mercados internos, e a oferta excedente,
decorrente da difusão global generalizada do modelo fordista, enquanto em um momento de reinvindicação
crescente de direitos, foram os estopins para a desaceleração econômica e para as consequências que se seguiram.
A crise do fordismo chegou ao seu epílogo com a descontinuação do pacto fordista, quando as empresas rompem
a cooperação com os sindicatos, já incapazes de controlar os seus trabalhadores, agora organizados em movimentos
de base espontâneos – frequentemente marcados por episódios de sabotagem fabril -, e iniciam processos de
demissão em massa.
17
A passagem de uma fase do capitalismo para outra não é um desenvolvimento racional lógico, mas uma resposta
aos problemas contemporâneos enfrentados. Assim, frente aos problemas de estoques, redução dos lucros das
empresas, disciplina dos trabalhadores e queda da qualidade de produção, foram desenvolvidos (i) sistemas de
controle de qualidade – como TPM, KanBan, 5s, entre outros-, (ii) de redução de estoques (just in time) e (iii) de
aumento da autonomia dos trabalhadores, seguindo proposições de orientalização do ocidente formuladas for
William Ouchi, em seu livro “Theory Z: How American Business Can Meet the Japanese Challenge (1981)”.
Quanto ao último aspecto mencionado, a maior autonomia dos trabalhadores se desdobrou no desenvolvimento de
trabalhos em equipes semiautônomas, em rodízio de funções e, simultaneamente, no enriquecimento do trabalho

17
[A acumulação flexível se] caracteriza pelo surgimento de setores de produção
inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros,
novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação
comercial, tecnológica e organizacional (HARVEY, 2004).

A transição do Fordismo para o atual regime neoliberal, ou regime de acumulação


flexível, seguiu uma transformação dos regimes de acumulação e dos modos de
regulamentação. As duas grandes marcas da época, que nortearam o rascunho inicial do modelo,
foram (i) a rejeição à hierarquia, à separação entre execução e controle – um “movimento de
ordem moral e sociológico, buscando igualdade formal e respeito às liberdades individuais” -
, e (ii) a regra, agora global, da concorrência – que implicou a valorização da flexibilidade e da
inventividade organizacional (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009)18. A marca do novo tempo,
pois, em resposta às mencionadas tendências, é a de:

Empresas enxutas a trabalharem em rede com uma multidão de participantes,


uma organização do trabalho em equipe, ou por projetos, orientada para a
satisfação do cliente, e uma mobilização geral dos trabalhadores graças às
visões de seus líderes19 (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009).

pelo compartilhamento de um novo imaginário, o da filosofia empresarial, norteada pelas ideias de cultura, missão,
visão e valores da empresa. O trabalhador, agora, compartilha o poder de planejamento do trabalho.
Conforme complementam Dardot e Laval, “o neoliberalismo não é apenas uma resposta a uma crise de
acumulação, ele é uma resposta a uma crise de governamentalidade”, i.e., uma “crise generalizada de um modo
de governar os homens” (DARDOT; LAVAL, 2016).
18
Como bem aponta Jeremy Rifkin, ao se referir à nova Era do Acesso, trata-se da substituição das instituições
tradicionais de trocas proprietárias do mercado pelo acesso de bens, a curto-prazo, por agentes que se relacionam
em uma economia de rede. “As empresas já estão a caminho da transição da propriedade para o acesso [...] No
mundo comercial contemporâneo, quase tudo o que é necessário para dirigir uma empresa é emprestado”
(RIFKIN, 2001).
19
Para garantir o correto funcionamento da máquina empresarial, frente à rejeição à hierarquia, entram em cena a
figura dos líderes, catalisadores e visionários - cuja autoridade é extraída de suas qualidades pessoais - responsáveis
por obter a adesão voluntária dos trabalhadores a suas visões de gestão. A palavra alemã Führer é a melhor forma
de caracterizar este fenômeno, por significar, ao mesmo tempo, o sujeito líder, condutor, chefe e guia. O líder,
portanto, é aquele que “assegura uma referência ao ideal e que suscita as identificações comuns a todos”
(ENRIQUEZ, 1990).

18
Há uma mudança consequente no tipo de operário desejado20 – e, em última instância,
de tipo de ser humano21. Não se busca mais o operário passivo executor, mas o proativo,
criativo, especialista, flexível e carismático – no sentido weberiano do termo -, com qualidades
de líder e empreendedor. « L’entreprise attend de ses employés qu’ils soient forts, dynamiques,
compétents, disponibles, sûrs d’eux, capables de faire face aux contradictions et de remplir des
objectifs toujours plus ambitieux » (GAULEJAC, 2005). O mercado, assim, decide o novo
sentido do desenvolvimento individual, em espécie de servidão voluntária do sujeito neoliberal.
Esta transformação indica o surgimento de uma nova fase do capitalismo.

O controle, exercido via mecanismos de poder que moldam as condutas e a


subjetividade, a partir de então, adaptado à nova realidade – paralelamente a uma adaptação
dos valores morais da sociedade ao novo espírito do capitalismo - se desloca de dispositivos
coercitivos externos para a interioridade dos trabalhadores. Representativo deste movimento é
a histórica colocação de Margaret Thatcher ao Sunday Times, em 1981, segundo a qual
"economics are the method; the object is to change the heart and soul”.

Este mecanismo de autocontrole – da tirania sem tirano22, conforme expressão de


Hannah Arendt (2009) - vendido aos trabalhadores como espécie de libertação– em comunhão
aos imperativos da criatividade, flexibilidade23 e reatividade -, ganha forma a partir da atuação
dos líderes, dos valores e visão da empresa24, do princípio de satisfação do cliente, ou seja, da

20
Interessante notar certa simultaneidade da evolução dos estudos de gestão com a evolução das fases do
capitalismo. No início do século 20, ocorreu um fenômeno de sistematização dos estudos de “management and
organization”, por meio da escola da administração científica. Seguiu-se, em meados de 1920, um movimento de
legitimização da administração, pelos esforços da escola de relações humanas. Após, por volta de 1940, os estudos
se profissionalizaram, tornando-se, propriamente, a administração, um sistema de crenças, valores, ideias e
estruturas sociais. Por fim, em 1980, ocorreu uma desestabilização deste campo, através da escola de estudos
críticos de gestão. De acordo com esta linha, “conventional ways of thinking about management are problematic
because they often focus on simplified rational and technical versions of the world and ignore moral debates about
the nature, purpose and impact of management and organizations” (CUNLIFFE, 2014).
21
“[…] like all the previous ideologies that were unleashed in the twentieth century (communism, nazism...),
neoliberalism wants nothing less than to create a new individual” (DUFOUR, 2008).
22
« On peut accuser le capitalisme, le libéralisme, le système, mais on n’a aucune prise sur lui. La hiérarchie,
comme les collaborateurs et les subordonnés, n’arrivent pas à contrôler. Chacun essaie de décharger son
agréssivité sur l’autre, contribuant ainsi à renforcer la logique du sauve qui peut » (GAULEJAC, 2005).
23
“A flexibilidade é uma maneira de nomear essa necessidade do ajustamento do trabalhador moderno à sua
tarefa (e às flutuações da demanda)” (CASTEL, 2015).
24
Busca-se o controle via formação de trabalhadores ‘homogêneos’, que compartilham, harmoniosamente, dos
valores escolhidos pela empresa. Neste contexto, “[…] the company’s philosophy came alive and guaranteed the
socialization of employees, especially the newest ones, by shaping their subjectivities and guiding their conduct
during participative decision-making processes” (ANDRADE, 2013).

19
pressão exercida pelo próprio mercado25, via concorrência, e da ameaça do desemprego. O
saldo, pois, apesar do acréscimo de produtividade26, é de acentuação do disciplinamento, da
vulnerabilidade27 e maior exigência do trabalhador28.

As empresas, isto posto, adotam uma inovadora retórica e ideologia administrativa, sob
um novo discurso de gestão29, denominado market rationalization. Fenômenos como a redução
da força de trabalho, eliminação de camadas hierárquicas e departamentos funcionais, e
outsourcing são característicos do tempo. Nesta lógica, há a internalização do discurso de
mercado para dentro das organizações. Isto significa, em resumo,

[…] posing customers as the ultimate source of authority orienting work


process to the projects of gratifying the customers’ transient, fluid, and
increasingly fussy needs, dissolving traditional hierarchies and replacing them
with networks governed by market principles, empowering those who ‘add
value’, and ‘dieting away’ those who do not (KUNDA; AILON-SOUDAY,
2006).

25
A vigilância, na nova configuração, não deriva mais de uma simples relação vertical hierárquica, mas de agentes
em múltiplas vertentes, a exemplo do método de avaliação 360º, construído com base no cenário de concorrência,
empregando os critérios da atribuição de pontos e “rankeamento”. “Metas, prazos, controles, previsões, resultados
trimestrais, estímulo à competição desenfreada, bônus, multiplicidade de tarefas, pouco tempo para treinamento,
pouco espaço para se expressar, quase nenhum espaço para se manifestar, são algumas das características deste
processo de assédio moral” (GONÇALVES JUNIOR, 2019). « Le management de projet, l’avancement au mérite,
la qualité totale, le zéro défaut, les flux tendus, l’individualisation des gratifications et la flexibilité sont autant de
procédures qui mettent en concurrence les individus dans une exigence de faire toujours mieux » (GAULEJAC,
2005).
26
Tal acréscimo se justifica pelo fato de que a “positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do
dever [...]. O sujeito do desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência” (HAN, 2015).
27
“[...] le società moderne sono costruite sul terreno dell’insicurezza poiché sono società di individui che non
riescono a trovare una garanzia di protezione né in se stessi né nell’immediato entourage. Se è vero che queste
società si sono dedicate alla promozione dell’individuo, è altrettanto vero che esse promuovono anche la sua
vulnerabilità proprio nel momento in cui lo valorizzano. Ne risulta che la ricerca delle protezioni appartiene in
maniera sostanziale allo sviluppo di questo tipo di società” (CASTEL, 2011).
28
Surge, portanto, uma contradição notável no novo sistema. A maior autonomia cedida aos trabalhadores resulta
em um maior disciplinamento, controle e vulnerabilidade. Com precisão, “a queda da instância dominadora não
leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se
entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho” (HAN, 2015).
29
Conforme bem explicitado por Stephen Barley e Gideon Kunda, “since the 1870s American managerial
discourse has been elaborated in waves that have alternated between normative and rational rhetorics”
(BARLEY; KUNDA, 1992). Os autores identificaram seis grandes movimentos de progressão das ideologias
gerenciais, sendo elas, alternativamente com ênfase em pessoas e em processos, respectivamente: (i) melhorias
industriais; (ii) gerenciamento científico; (iii) relações humanas; (iv) racionalismo de sistemas; (v) cultura
organizacional; e (vi) racionalismo de mercado. Deve-se ter sob perspectiva que as “normative ideologies see the
organization as a locus of shared values and moral involvement in which control rests on shaping workers’
identities, emotions, attitudes, and beliefs. Rational ideologies, on the other hand, view the organization as a
machine consisting of calculative actors in which control rests on managerial ability to manipulate systems”
(KUNDA; AILON-SOUDAY, 2006).

20
As garantias do trabalho, marcas do momento histórico anterior, já não são mais um
valor dominante, sendo substituídas pela “garantia de desenvolvimento” ofertada pelas
empresas30. Assim, o conceito de empregabilidade, composta pela soma das competências
individuais, cria uma nova moeda de troca relacional entre trabalhadores e empresa31, a do
capital pessoal, controlado pelo imperativo da reputação.

A conjuntura do emprego, igualmente, muda de maneira radical. “A diversidade e a


descontinuidade das formas de emprego estão em via de suplantar o paradigma do emprego
homogêneo e estável” (CASTEL, 2015). A vulnerabilidade social e o desemprego funcional,
assim, são marcas características do novo tempo32. E não se trata de fenômeno que aflige

30
« Le contrat de travail y est moins fondé sur le droit que sur une attente de reconnaissance réciproque. C’est
un contrat narcissique par lequel l’employé investit sa libido dans un ensemble dont il devient partie prenante et
qui lui offre reconnaisance et idéalisation. L’individu attend de l’entreprise qu’elle favorise son accomplissement,
l’entreprise attend de l’individu qu’il adhère totalement à ses objectifs et à ses valeurs. Ce contrat narcissique
crée une osmose intense entre l’individu et son entreprise, osmose qui perdure tant que l’entreprise lui apporte
les gratifications qu’il attend. Lorsque ce contrat fantasmatique est rompu, émergent le ressentiment, la perte de
confiance, le rejet, le dépit et la démobilisation psychique » (GAULEJAC, 2005).
31
Distingue-se o efeito em relação a jovens e trabalhadores mais experientes. Quanto aos últimos, “a corrida à
eficácia e à competitividade, no seio da própria empresa, acarreta a desqualificação dos menos aptos. A
administração participativa exige a mobilização de competências não apenas técnicas, mas também sociais e
culturais, que pegam no contrapé a cultura profissional tradicional de uma maioria de assalariados”. Quanto aos
primeiros, a falha na função integradora da empresa eleva “os níveis de qualificação exigidos para a admissão,
desmonetizando uma força de trabalho antes mesmo que tenha começado a servir” (GONÇALVES JUNIOR,
2019).
32
“A precarização do emprego e do desemprego se inseriram na dinâmica atual da modernização. São as
consequências necessárias dos novos modos de estruturação do emprego, a sombra lançada pelas reestruturações
industriais e pela luta em favor da competitividade que, efetivamente, fazem sombra para muita gente” (CASTEL,
2015).
Chauí, ao abordar as consequências do regime neoliberal, afirma que, “social e economicamente, ao introduzir o
desemprego estrutural e a terceirização toyotista do trabalho, [o neoliberalismo] dá origem a uma nova classe
trabalhadora denominada por alguns estudiosos com o nome de precariado para indicar um novo trabalhador
sem emprego estável, sem contrato de trabalho, sem sindicalização, sem seguridade social, e que não é
simplesmente o trabalhador pobre, pois sua identidade social não é dada pelo trabalho nem pela ocupação, e que,
por não ser cidadão pleno, tem a mente alimentada e motivada pelo medo, pela perda da autoestima e da
dignidade, pela insegurança” (CHAUÍ, 2019).

21
exclusivamente um único estrato social, mas toda a massa de sujeitos, de todas as classes33 34.
Nesse sentido,

On the one hand, the new organization of work made tasks increasingly more
difficult to prescribe, making companies more dependent on the subjective
engagement of workers to innovation, decision making, analysis of the
continuous flow of information, and on good working relations among team
workers and with clients. On the other hand, this engagement was required at
a time when many workers had been fired as a result of restructuring and
outsourcing and while the dismantling of labor laws enabled an expansion in
precarious contractual ties (ANDRADE, 2013).

Christophe Dejours, psiquiatra e psicanalista especialista do trabalho, cria uma


associação entre os processos psicológicos de banalização do mal35 - termo cunhado por
Hannah Arendt – em regimes totalitários, como o nazismo, e no neoliberalismo, particularmente
pelo trabalho. De acordo com o autor,

Ce que nous avons tenté de mettre au jour – le processus de banalisation du


mal par le travail – n’est pas nouveau ni extraordinaire. Ce qui est nouveau,
ce n’est pas tant l’iniquité, l’injustice et la souffrance imposées à autrui par le
trunchement des rapports de domination qui lui sont coextensifs, c’est
seulement le fait que ce système puisse passer pour raisonnable et justifié;
qu’il soit donné pour réaliste et rationnel; qu’il soit accepté, voite approuvé,

33
Está-se diante de um processo contínuo de triplo desmonte, caracterizado pela (i) desestabilização dos estáveis
– explicitada pelo fechamento sem precedentes de postos de trabalho -, (ii) instalação na periferia – tida como uma
trajetória de trabalho errática, aleatória, de alternância entre emprego e desemprego (vide, por exemplo, a explosão
de empregos, naturalmente frágeis, em aplicativos de economia compartilhada, como Uber, Rappi, et.al.) - e (iii)
desfiliação – conceituada pela não integração no plano social, cívico e político, em absoluta inutilidade social,
formadora dos chamados hominis sacri (CASTEL, 2015).
Complementares as considerações de Gideon Kunda e Galit Ailon-Souday sobre este aspecto, afirmando que
“work conditions that were once typical of peripheral employees are now shared by core employees (…);
managers went from one of the most secure organizational occupations to one of the least (…); [and] more and
more companies increasingly institute a two-tier system composed of a shrinking, salaried core that is augmented
by an expanding pool of contingent workers who have weak ties to the company, are generally hired for finite
periods, and typically receive no benefits” (KUNDA; AILON-SOUDAY, 2006).
Há, pois, uma fluidez entre a precariedade e a estabilidade, entre a legalidade e a ilegalidade.
34
Os sindicatos, diante deste cenário do desemprego como regra, da intensificação de terceirizações, da
prevalência de pequenas e médias empresas, da concorrência globalizada e, mormente, da liberdade da autocoerção
para a superação pessoal contínua – após a massificação da regra da empresa de si - são fatalmente enfraquecidos,
abrindo espaço para um desmonte dos direitos dos trabalhadores e da sociedade salarial, de modo que, hoje, atuam
apenas para impedir o avanço da precarização do trabalho.
35
“Par bannalisation du mal, nous n’entendons pas seulement l’atténuation de l’indignation face à l’injustice et
au mal, mais, au-delà, le processus qui, d’une part, dédramatise le mal (alors qu’il ne devrait jamais être
dédramatisé), et qui, d’autre part, mobilise progressivement une quantité croissante de personnes, au service de
l’accomplissement du mal, et fait d’elles des « collaborateurs »" (DEJOURS, 1998).

22
par une majorité des citoyes; qu’il soit enfin prôné ouvertement, aujourd’hui,
comme un modèle à suivre, dont toute entreprise devrait s’inspirer, au nom du
bien, du juste et du vrai. Ce qui est nouveau donc, c’est qu’un système qui
produit et aggrave constamment souffrance, injustice et inégalités, puisse faire
admettre ces dernières pour bonnes et justes. Ce qui est nouveau, c’est la
banalisation des conduites injustes qui en constituent la trame (DEJOURS,
1998)36 37.

A própria relação com os consumidores, no tempo do neoliberalismo, é alterada. Não se


busca mais o fomento a um consumo de massa supérfluo, voltado a distrair as pessoas do
capitalismo produtivo, como ocorrera no período fordista. O materialismo, agora, é substituído
por “states of mind”, i.e., experiências de consumo subjetivas, hedônicas, personalíssimas e
conscientes, construídas com fundamento no princípio de pousse-à-jouir38. As companhias,
portanto, se adequaram pela introdução de produtos inovadores e customizados, relações
próximas, e de longo prazo, com seus consumidores, atuação em mercados de nicho e adoção
de um “marketing da experiência”. A métrica do momento, na atualidade, é a do customer
lifetime value (CLV), ou o valor monetário atribuído ao relacionamento da empresa com os
consumidores, ao longo de suas vidas (RIFKIN, 2001).

Na sociedade da transparência, paralelamente, ocorre a mercantilização do imagético


pessoal na vida privada, como nas redes sociais, responsável pelo aniquilamento da dignidade
do ser humano e sua substituição sincrética por valores comerciais, como se estivéssemos, a
todo o momento, inseridos, sendo negociados e negociando em uma vasta, e universal, loja

36
Complementar a colocação de Fisher: « The ‘mental health plague’ in capitalist societies would suggest that,
instead of being the only social system that works, capitalism is inherently dysfunctional, and that the cost of it
appearing to work is very high » (FISHER apud ROSE, 2019).
Ilustrativo, igualmente, Gaulejac, ao afirmar que « la domination de l’idéologie gestionnaire banalise la violance
considérée comme la conséquence inéluctable de changements nécessaires, d’une modernisation obligée. Plutôt
que de dénoncer la violence d’un système économique injuste et destructeur, chacun se débat dans la solitude face
à des conditions de travail qui ne cessent de se dégrader, dans un contexte où les droits sociaux sont désignés
commes des entraves à la perfomance » (GAULEJAC, 2005).
37
Quanto à diferença entre o sistema neoliberal e o nazista, Dejours afirma: « Dans le cas du néolibéralisme,
l’objectif visé est en dernière instance le profit et la puissance économique. Dans le cas du totalitarisme, l’objectif,
c’est l’ordre et la domination du monde. Dans la rationalisation néolibérale de la violance, la force et le pouvoir
sont des instruments de l’économique. Dans l’argumentation totalitaire, l’économique est um instrument de la
force et du pouvoir. La différence redouble aussi en aval sur les moyens mis en œuvre: intimidation dans le système
néolibéral, terreur dans le système nazi » (DEJOURS, 1998).
38
A participação no mundo do consumo, agora, passa a ser, propriamente, uma condição para usufruir da condição
de cidadania. Comentando os novos hábitos de consumo, Peter Miller e Nikolas Rose afirmam: “These offer new
ethics and techniques of living that do not set self-gratification and civility in opposition, as in the ethical codes
of the puritan sects that Weber considered so important in the early phases of capitalism, but affiliate them in an
apparently virtuous liaison of happiness and profit. In engaging with these formulae, albeit in creative and
innovative ways, individuals play their own part in the games of civilization that shape a style of life through
participation in the world of goods” (MILLER; ROSE, 2008).

23
comercial. Sobre este aspecto, Eva Illouz percebe um movimento de economização da vida
privada, ao passo que as relações econômicas se tornaram cada vez mais emocionais39, processo
referido como emotional capitalism.

In the culture of emotional capitalism, emotions have become entities to be


evaluated, inspected, discussed, bargained, quantified, and commodified. In
this process of inventing and deploying a wide battery and range of texts and
classifications to manage and change the self, they have also contributed to
creating a suffering self, that is, an identity organized and defined by its
psychic lacks and deficiencies, which is incorporated back into the market
through incessant injunctions to self-change and self-realization. Conversely,
emotional capitalism has imbued economic transactions – in fact most social
relationships – with an unprecedented cultural attention to the linguistic
management of emotions, making them the focus of strategies of dialogue,
recognition, intimacy, and self-emancipation (ILLOUZ, 2013).

Inaugura-se, em vista disso, o chamado neoliberalismo, uma racionalidade política,


social, econômica e subjetiva, estruturante de uma nova razão de mundo e ramificada para todas
as dimensões da existência humana, fundada na “generalização da concorrência como norma
de conduta e da empresa como modelo de subjetivação” (DARDOT; LAVAL, 2016).

Não se deve, por fim, confundir esta nova fase do capitalismo com os movimentos
iniciais do liberalismo40.

O neoliberalismo não se pergunta mais sobre que tipo de limite dar ao governo
político, ao mercado [Adam Smith], aos direitos [John Locke] ou ao cálculo
da utilidade [Jeremy Bentham], mas, sim, sobre como fazer do mercado tanto
o princípio do governo dos homens como do governo de si. Considerado uma
racionalidade governamental, e não uma doutrina mais ou menos heteróclita,
o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento da lógica do mercado
como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o mais íntimo da
subjetividade (DARDOT; LAVAL, 2016).

39
Segundo a autora, “capitalism has made us Rousseauian with a vengeance, not only in the sense that emotional
fields of action have made identitity publicly exposed and publicy narrated, not only in the sense that emotions
have become instruments of social classification, but also in the sense that there are now new hierarchies of
emotional well-being, understood as the capacity to achieve socially and historically situated forms of happiness
and well-being” (ILLOUZ, 2013).
40
O “[...] “neo” no neoliberalismo, [significa] a saber, a reengenharia e a reestruturação do Estado como
principal agência que conforma ativamente as subjetividades, as relações sociais e as representações coletivas
apropriadas a tornar a ficção dos mercados real e relevante” (WACQUANT, 2012).
24
3. O NEOSSUJEITO

“O mercado é nosso guia e conselheiro e, às vezes, a maldição de nossa


existência” (RIFKIN, 2001).

Importante, neste momento, passar para a análise pormenorizada da subjetividade do


agente inserido e influenciado pela sistemática socioeconômica até então exposta. Em outras
palavras, será examinada a lógica de desempenho e as conexas patologias do sujeito neoliberal,
o neossujeito.

3.1. Desempenho e sucesso

Na sociedade neoliberal, as esferas de pertencimento do sujeito, antes heterogêneas,


múltiplas e, em certa medida, conflituosas – a exemplo da esfera das crenças, da comunidade
política e do trabalho – se consolidam em uma única, seguindo o movimento histórico de
mercantilização e contratualização das relações humanas41, regidas pela lei da eficácia, típico
da sociedade industrial weberiana42.

Diferentemente do que ocorreu no utilitarismo clássico, no qual diversas atividades


sociais e, sobretudo, a pluralidade interna do sujeito, não puderam ser integralmente explicadas
pelo princípio da utilidade, a racionalidade neoliberal foi capaz de homogeneizar, inteiramente
e individualmente, os discursos humanos – psicológicos, sociais e espirituais - em torno da

41
No modelo neoliberal, há uma contratualização em massa das relações humanas, por uma vasta e profunda rede
de contratos. “Advanced liberal rule is characterized by the politics of the contract, in which the subject of the
contract is not a patient or a case but a customer or consumer. Parents (or children – the issue is contested) are
consumers of education, patients are consumers of health care, residents of old people’s homes are in a contractual
relation with those who provide care, and even those occupying demeaned categories (discharged prisoners
shifted to halfway houses, drug users in rehabilitation centres) have their expectations, rights and responsibilities
contractualized” (ROSE, 2004).
42
Para que o sujeito se adequasse a esta subjetividade, foi preciso impor um “arranjo de processos de
normatização e técnicas disciplinares que constituem o que podemos chamar de dispositivo de eficácia. [...] Era
preciso pensar e implantar [...] os tipos de educação de mente, de controle do corpo, de organização do trabalho,
moradia, descanso e lazer que seriam a forma institucional do novo ideal de homem”, uma verdadeira gestão das
mentes (DARDOT; LAVAL, 2016).

25
figura da empresa, operando “uma unificação sem precedentes das formas plurais da
subjetividade” (DARDOT; LAVAL, 2016).

Assim, tudo passa a funcionar, no novo modelo normativo, como se mercado fosse43.
Nesse mesmo sentido:

O neoliberalismo pode ser definido como o conjunto de discursos, práticas e


dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens segundo
o princípio universal da concorrência (DARDOT; LAVAL, 2016).

Esta inovação dos valores morais e do espírito do capitalismo contemporâneo, ao longo


de toda a sociedade, transformou a realidade das empresas, do trabalho, de práticas
governamentais44, de políticas institucionais, de estilos gerenciais e, mais profundamente, do
indivíduo.

43
Esta afirmação não equivale a dizer que tudo se torna mercado, ou que o modelo de Estado seja o livre-mercado,
integralmente privatizado, enquanto no neoliberalismo, mas que o funcionamento das instituições e das atividades
dos indivíduos se dão conforme a lógica do mercado.
44
O Estado não se isolou das mudanças promovidas pelo neoliberalismo, sustentando a visão de que este ente não
possui uma essência imutável. Pelo contrário, sendo uma instituição humana, ele é notadamente mutável.
Tampouco é o Estado um ente homogêneo, podendo se guiar por racionalidades políticas heterogêneas.
No caso do neoliberalismo, o Estado o incorporou, para o seu interior, e auxiliou a difundi-lo, ativamente. Quanto
à difusão, para que a lógica neoliberal pudesse ser propagada – dado que as pessoas não são naturalmente
competitivas e empreendedoras de si mesmas - exigiu-se uma atividade política, construtivista, em variadas
esferas, por parte do Estado, para moldar e disciplinar a sociedade de acordo com o modelo de mercado, tendo sob
plano de fundo a noção de que o poder do Estado é “both an individualizing and a totalizing form of power”
(FOUCAULT, 1982). Seguindo esclarecimentos de Wendy Brown, “the state is not without a project in the making
of the neo-liberal subject. The state attempts to construct prudent subjects through policies that organize such
prudence” (BROWN, 2003).
Cita-se, como exemplo, a promoção de políticas sociais condicionadas - como o seguro desemprego condicionado
a cursos de capacitação profissional e prova de procura ativa de empregos, para a concessão do benefício.
Evidencia-se, então, o paradoxo do neoliberalismo, segundo o qual deve-se valorizar a atuação do mercado, em
substituição ao Estado, ao mesmo tempo em que depende dele para a difusão de seus valores.
Acerca da incorporação do neoliberalismo para dentro do próprio Estado, ela implicou na transformação deste
ente, enquanto inserido em um mercado de concorrência global, com vistas a se tornar mais competitivo e atrair
investimentos, pela adoção de “práticas de boa governança”. Fenômeno este que ficou conhecido como reforma
gerencialista do Estado.
Precisa a colocação de Loïc Wacquant, ao conceber “o neoliberalismo como uma articulação entre Estado,
mercado e cidadania, aparelhando o primeiro para impor a marca do segundo à terceira. Essa concepção repatria
a penalidade para o centro da produção de um Estado-centauro, que pratica o laissez-faire no topo da estrutura
de classes e o paternalismo punitivo na base” (WACQUANT, 2012). Há autores que sustentam e enfatizam, no
entanto, que o neoliberalismo é primordialmente sustentado por um modo de regulamentação descentralizado, que
circula livremente ao longo de toda a sociedade. Assim, a força de sustentação do ideário neoliberal se
materializaria não pela tríade mercado-cidadania-Estado, mas simplesmente pela “disseminação e a concatenação
de técnicas de “condução de condutas” através de múltiplos lugares de autoprodução, incluindo o corpo, a
família, a sexualidade, o consumo, a educação, as profissões, o espaço urbano” (LARNER apud WACQUANT,
2012), não reconhecendo o papel ímpar do Estado-centauro no projeto neoliberal.

26
Na perspectiva do sujeito, ao passo que todas as dimensões da vida humana são
submetidas aos termos da racionalidade de mercado45, o neoliberalismo o vê como uma criatura
competitiva46, cuja autonomia moral é medida pela sua capacidade de prover suas próprias
necessidades e servir suas próprias ambições. O sujeito “empresarial” deve “trabalhar para
sua própria eficácia, para a intensificação de seu esforço, como se essa conduta viesse dele
próprio [...]”, ou seja, “como se [sua conduta] lhe fosse comandada de dentro por uma ordem
imperiosa de seu próprio desejo, à qual ele não pode resistir” (DARDOT; LAVAL, 2016).
Assim, o neoliberalismo

[…] equates moral responsibility with rational action; it relieves the


discrepancy between economic and moral behavior by configuring morality
entirely as a matter of rational deliberation about costs, benefits, and
consequences47 (BROWN, 2003).

Análise semelhante é feita por Marilena Chauí, ao designar o neoliberalismo como um novo totalitarismo. Segundo
a autora, “totalitarismo: por que em seu núcleo encontra-se o princípio fundamental da formação social
totalitária, qual seja, a recusa da especificidade das diferentes instituições sociais e políticas que são
consideradas homogêneas e indiferenciadas porque são concebidas como organizações. O totalitarismo é a
afirmação da imagem de uma sociedade homogênea e, portanto, a recusa da heterogeneidade social, da existência
de classes sociais, da pluralidade de modos de vida, de comportamentos, de crenças e opiniões, costumes, gostos
e valores. Novo: por que, em lugar da forma do Estado absorver a sociedade, como acontecia nas formas
totalitárias anteriores, vemos ocorrer o contrário, isto é, a forma da sociedade absorve o Estado. [...] Nos
totalitarismos anteriores, o Estado era o espelho e o modelo da sociedade, isto é, instituíam a estatização da
sociedade. O totalitarismo neoliberal faz o inverso: a sociedade se torna o espelho para o Estado, definindo todas
as esferas sociais e políticas não apenas como organizações, mas, tendo como referência central o mercado, como
um tipo determinado de organização: a empresa – a escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o centro
cultural é uma empresa, uma igreja é uma empresa e, evidentemente, o Estado é uma empresa. Deixando de ser
considerada uma instituição pública regida pelos princípios e valores republicano-democráticos, passa a ser
considerado homogêneo ao mercado (CHAUÍ, 2019).
45
Jeremy Rifkin, sobre este fenômeno, afirma que “a característica distintiva do capitalismo moderno é a
expropriação de várias facetas da vida em relações comerciais” (RIFKIN, 2001). Como exemplo, pode-se
mencionar a esfera da moralidade, da religião, da universidade, do casamento, de atividades de lazer e, até mesmo,
do sexo. No mesmo sentido, “not only is the cost-benefit cultural repertoire of the market now used in virtually all
private and domestic interactions but it is also as if it has become increasingly difficult to switch from one register
of action (the economic) to another (the romantic)” (ILLOUZ, 2013).
Eva Illouz, em outra obra, trabalha o tema do amor na era do capitalismo. Na ocasião, a autora afirma, sobre uma
das esferas do fenômeno dating, que “whether the romantic bond is oriented toward long-term commitment or has
the fiery brevity of an affair, the sphere of consumption provides the framework within which the bond is forged
through the cyclical consumption of formal or liminal rituals of leisure” (ILLOUZ, 1997). Igualmente, Han aponta
que “a total ausência de negatividade transforma o amor, hoje, num objeto de consumo e o reduz ao cálculo
hedonista” (HAN, 2017).
46
Diferentemente do homem benthaniano, que era “o homem calculador do mercado e o homem produtivo das
organizações industriais [...] o homem neoliberal é o homem competitivo, inteiramente imerso na competição
mundial” (DARDOT; LAVAL, 2016). O neoliberalismo, agora, reduz a humanidade a uma coleção de
“calculating individuals motivated only by their rational self-interest and in unbridled competition with one
another” (DUFOUR, 2008).
47
Sobre o esvaziamento da moral: “Anything relating to the transcendent sphere of principles and ideals has been
discredited because it cannot be converted into commodities or services. (Moral) values have no (market) value.

27
Como consequência da ética do empreendedor, o sujeito se torna accountable, “livre”48,
e integralmente responsável49 pelas consequências de suas ações50, independentemente de
quaisquer restrições que possa ter - a exemplo de falta de competência, educação insuficiente,
recursos financeiros escassos, limites físicos e estéticos51, et. al -, em um processo de
autocoerção e autoculpabilização52. O indivíduo se torna, em essência, um gerente de seu
próprio ser. Esta racionalidade produz o sujeito de que necessita,

[...] ordenando os meios de governá-lo para que ele se conduza realmente


como uma entidade em competição e que, por isso, deve maximizar seus
resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira responsabilidade por
eventuais fracassos53 (DARDOT; LAVAL, 2016).

Andrew S. Grove, ex-CEO e um dos fundadores da Intel Corporation, representa com


nitidez esta noção de responsabilização individual, ao associar o sucesso ao valor da paranoia,
em seu livro “Only the Paranoid Survive”. Segundo o autor,

As they are worthless, there is no justification for their continued survival in a world that has been completely
commodified” (DUFOUR, 2008).
48
O controle dos sujeitos se dá, ironicamente, pela própria liberdade em conduzir as suas escolhas, ao arcarem
com a correlata responsabilização individual por seus atos. Os indivíduos não são apenas “‘free to choose’, but
obliged to be free, to understand and enact their lives in terms of choice. They must interpret their past and dream
their future as outcomes of choices made or choices still to make” (ROSE, 2004). Similarmente, “as novas técnicas
[refinadas] da ‘empresa pessoal’ chegam ao cúmulo da alienação ao pretender suprimir qualquer sentimento de
alienação” (DARDOT; LAVAL, 2016).
49
Pode-se, com certa autonomia, comparar a condição de responsabilização individual, na sociedade liberal, com
a responsabilização no universo do jogo das seduções, particularmente no momento de rejeição. Sobre o tema:
“Rejection is so terrible in democratic countries because it cannot be blamed on the wickedness of the state or
ukases issued by a church. If I am not received with open arms, I have only myself to blame; I may be dying of
desire, but it is my being as such that leaves the other person cold. The judgment is as final as one handed down
by a court: no thanks, not you” (BRUCKNER, 2012).
50
Decorre daí que “a mismanaged life becomes a new mode of depoliticizing social and economic powers and at
the same time reduces political citizenship to an unprecedent degree of passivity and political complacency”
(BROWN, 2003). A cidadania, portanto, é reduzida ao sucesso da empresa de si.
51
O próprio corpo e, consequentemente, seus limites, passam a ser produtos de escolhas de responsabilidade dos
indivíduos. Consequentemente, todos os sujeitos são igualados, biologicamente, na busca pela performance e gozo
máximos. Um verdadeiro inferno do igual, criado pela eliminação da alteridade, do outro.
52
Este processo centrado na culpabilização individual diferencia o capitalismo das religiões. “[...] Em
contraposição à suposição muito difundida [...], o capitalismo não é uma religião, pois cada religião opera com
culpa e desculpa. O capitalismo só é inculpador. Não dispõe de qualquer possibilidade de expiação, que pudesse
livrar os culpados de sua culpa” (HAN, 2017).
53
“A naturalização do risco no discurso neoliberal e a exposição cada vez mais direta dos assalariados às
flutuações do mercado, pela diminuição das proteções e das solidariedades coletivas, são apenas duas faces de
uma mesma moeda. Transferindo os riscos para os assalariados, produzindo o aumento da sensação de risco, as
empresas puderam exigir deles disponibilidade e comprometimento muito maiores” (DARDOT; LAVAL, 2016).

28
The sad news is, nobody owes you a career. Your career is literally your
business. You own it as a sole proprietor. You have one employee: yourself.
You are in competition with millions of similar businesses: millions of other
employees all over the world. You need to accept ownership of your career,
your skills and the timing of your moves. It is your responsibility to protect
this personal business of yours from harm and to position it to benefit from
the changes in the environment. Nobody else can do that for you (GROVE,
1996).

Trata-se do governo da (ultra)subjetivação contábil financeira, do tratamento do sujeito


como capital humano54. Esta nova forma global de controle, seguindo os ensinamentos de
Foucault sobre a caracterização das relações de poder,

[…] applies itself to immediate everyday life which categorizes the individual,
marks him by his own individuality, attaches him to his own identity, imposes
a law of truth on him which he must recognize and which others have to
recognize in him. It is a form of power which makes individuals subjects55
(FOUCAULT, 1982).

Como consequência deste novo modo de vida, do “nada é impossível”, impõe-se a


necessidade de valorização constante do eu – através de investimentos em competências,
habilidades e aptidões, com o objetivo de sobrepujar a concorrência -, como se os indivíduos
fossem empreendedores de si mesmos e como se se tornassem verdadeiros capitalistas. Os
sujeitos, então, organizam toda a vida com base na lógica da empresa privada56, da
racionalização de seus desejos e sob o mantra “you must stand out from the crowd”,
reproduzindo, ampliando e reforçando as relações de competição entre si. A forma moderna da
epimeleia heautou, i.e, do “cuidado de si”, portanto, é a da gestão de um portfólio de atividades

54
É cabível defender, neste aspecto, que o indivíduo deixa de ser um corpo para ter um corpo. Assim, não mais o
indivíduo é o que é, mas o que possui e é capaz de produzir.
55
Como explica o autor, “there are two meanings of the word "subject": subject to someone else by control and
dependence; and tied to his own identity by a conscience or self-knowledge. Both meanings suggest a form of
power which subjugates and makes subject to” (FOUCAULT, 1982).
56
O trabalhador, enquanto empresa de si mesmo, “deve procurar um cliente, posicionar-se no mercado, fixar um
preço, gerir seus custos, fazer pesquisa-desenvolvimento e formar-se. Enfim, considero que, do ponto de vista do
indivíduo, seu trabalho é sua empresa, e seu desenvolvimento define-se como uma empresa de si mesmo”
(AUBREY apud DARDOT; LAVAL, 2016).

29
e de projetos57, do desenvolvimento de estratégias de aprendizagem e da administração do
capital da empresa de si mesmo (AUBREY apud DARDOT; LAVAL, 2016)58, como se os
indivíduos assumissem a qualidade de engenheiros da própria alma, para usar termo cunhado
por Nikolas Rose.

Para tanto, a realização de cursos, workshops e outras formas de capacitação pessoal e


profissional se tornam cada vez mais populares, tratando os sujeitos como produtos plenamente
comerciais, em todos os seus domínios da existência59, como se em um processo de
commodification of selfhood. Irrompe, neste contexto, como nunca antes visto, práticas de
coaching, voltadas às mais diversas esferas da vida humana, cujo aprimoramento é vislumbrado
como verdadeira business opportunity. Conforme bem descrito por Daniel Andrade,

Individuals are incited to think about themselves as human capitals by


corporate training, business reviews, educational programs for
entrepreneurship, the media’s making a hero of the entrepreneur, and by
financial self-help literature and positive psychologies60 (ANDRADE, 2013).

O coaching surge, neste contexto, como uma maneira de tornar os indivíduos mais
eficazes e produtivos, via fortalecimento de suas subjetividades, e de preservar e desenvolver o
capital humano, constantemente ameaçado de desvalorização, sobretudo naqueles mais
confrontados pela idade. Difunde-se, pois, em massa, a normatividade da positividade e do bom
desempenho, paralelamente à valorização dos meios para alcançá-la61, com maior intensidade

57
A palavra projeto, no capitalismo moderno, ganha uma importância representativa, dado que “contemporary
individuals are incited to live as if making a project of themselves: they are to work on their emotional world, their
domestic and conjugal arrangements, their relations with employment and their techniques of sexual pleasure, to
develop a 'style' of living that will maximize the worth of their existence to themselves” (ROSE,1998).
58
Interessante notar o ressurgimento do discurso da meritocracia, uma vez que não são mais os direitos adquiridos
com o nascimento os determinantes teóricos de uma vida de “sucesso”, mas as conquistas alcançadas pelo esforço
individual.
59
Compreende-se, então, que o processo de individualização do neoliberalismo não acompanha um processo de
emancipação do sujeito, mas tendências de “institucionalização e padronização de estilos de vida. Os indivíduos
libertados se tornam dependentes do mercado de trabalho e, consequentemente, também da educação, do
consumo, de regulações e provimentos previdenciários, do planejamento viário, de ofertas ao consumo, de novas
possibilidades e de modismos no âmbito do aconselhamento e do acompanhamento médico, psicológico e
pedagógico” (BECK, 2010).
60
Pode-se citar, ainda, como formas alternativas de experiências voltadas ao aperfeiçoamento da inteligência
emocional, buscadas por trabalhadores, notadamente executivos, na contemporaneidade, “therapies, yoga,
gymnastics, massages, healthy habits, practice of collective and radical sports, drama classes and skills training”
(ANDRADE, 2013).
61
Uma ideologia “qui pousse à tout évaluer sous l’angle du plaisir et du désagrément, cette assignation à
l’euphorie qui rejette dans la honte ou le malaise ceux qui n’y souscrivent pas. Double postulat: d’un côté tirer le

30
pelo valor do sujeito, na contemporaneidade, estar objetivamente, e holisticamente, associado
ao que é capaz de produzir, ao seu valor como recurso humano, podendo ser facilmente
descartado caso não cumpra com os imperativos de performance demandados.

Criam-se, por este empuxo, plenas máquinas de desempenho, ausentes de


negatividades62 63
e, por consequência, de espírito e existência humana. É precisamente o
arquétipo do idiot savant, do idiota prodígio, que é potencializado pela dinâmica valorativa do
fortdenken (pensar continuamente), em substituição ao nachdenken (refletir). « Le système
managérial suscite un modèle de personnalité narcissique, agressif, pragmatique, sans état
d’âme, centré sur l’action plutôt que la réflextion, prêt à tout réussir » (GAULEJAC, 2005).

Dentre os campos de desenvolvimento enfocados pela sistemática de capacitação e


investimento em si, pode-se citar o das emoções, e da correlata inteligência emocional64, tidas
como competências – de caráter pessoal ou social65 - que podem afetar “the success of
individual careers, the performance of organizations, and macroeconomic growth”66. Estas
qualidades as transformam, portanto, em espécie de capital (emotional capital), a ser estimulado

meilleur parti de sa vie; de l’autre s’affliger, se pénaliser si l’on n’y parvient pas. Perversion de la plus belle idée
qui soit: la possibilité accordée à chacun de maîtriser son destin et d’améliorer son existence” (BRUCKER,
2002).
62
A ausência de negatividade, aqui, não está a conotar um sujeito feliz e pleno de prazer. Pelo contrário, o sujeito
neoliberal não será capaz de atingir um estado de felicidade, por estar submetido, justamente, ao mecanismo de
desempenho. Torna-se, então, contemporânea a assertiva de Freud, ao afirmar que “o programa de ser feliz, que
nos é imposto pelo princípio do prazer, é irrealizável, mas não nos é permitido – ou melhor, não somos capazes
de – abondonar os esforços para de alguma maneira tornar menos distante a sua realização. Nisso há diferentes
caminhos que podem ser tomados, seja dando prioridade ao conteúdo positivo da meta, a obtenção de prazer, ou
ao negativo, evitar o desprazer. Em nenhum desses caminhos podemos alcançar tudo o que desejamos” (FREUD,
2011). Seguindo a mesma linha de raciocínio, George Bernard Shaw certa vez afirmara que “there are two
catastrophes in life: when our desires are satisfied and when they are not” (SHAW apud BRUCKNER, 2012).
63
A condição de ausência de negatividade é fomentada, ainda mais, pela impossibilidade das gerações mais velhas
de introduzirem este aspecto nas gerações mais novas, enquanto em um mundo fundado na positividade. Nesse
sentido: “(…) Parents are the people who say ‘no’, who initiate and permit a certain ‘Work of negativity’ which
frustrates the youthful craving for omnipotence. Their role has become difficult, not only because it is very
unattractive at a time when everyone, and especially the elders, are faced with a categorical imperative to ‘be
young’, but also because the ability to say ‘no’ that they incarnate can no longer be exercised in the name of the
principles on which the world is supposedly based. They therefore have to accept the criticisms and rebellions
born of the frustrations that their ‘no’ inevitably provokes. This symbolic precedence, which stems from the fact
that authority is made incarnate for someone, is now, and probably for the first time, being denied” (DUFOUR,
2008).
64
“Emotional intelligence connects intelligence and emotions in a double meaning: emotions can make thought
more intelligent and, inversely, we can think about emotions in an intelligent manner” (MAYER; SALOVEY
apud ANDRADE, 2013).
65
A exemplo de motivação, comprometimento, entusiasmo, autoconfiança, lealdade, honestidade,
responsabilidade, solidariedade e espírito de equipe.
66
Nesta visão, “emotions must be taken into account in economic theory as they can have major impacts and
economic returns, if well managed and utilized” (GENDROM apud ANDRADE, 2013).

31
por investimentos feitos pelo próprio sujeito ou pelas corporações. Deriva, daí, a construção de
vidas emocionais de trabalhadores e consumidores, pela introdução da “rationality of
management logos as intelligence over emotions and giving rise to the emotional economic
man” (ANDRADE, 2013).

Cabe ao sujeito, pois, sob a dinâmica capitalista do cuidado de si (care of self) e do


modelo econômico de gestão das vidas, em um processo contínuo de fortalecimento do eu, de
um fomento intrapsíquico à motivação individual, e de uma interiorização gradual de coerções
e racionalizações técnicas,

[…] always seek new experiences that increase its intelligence and emotional
competencies, and [...] permanently surpass itself. The incessant investment
in experiences promotes quick emotional fluidity, variation, fluctuation and
intensification in a frantic and restless movement of perpetually overtaking
one’s own experiential limits (ANDRADE, 2013)67.

Sintomático, igualmente, a explosão do fenômeno do empreendedorismo. Sendo a ética


do tempo a da entreprise de soi, do “homem-ator de sua vida” e do self-made-man, não
surpreende o grande número de indivíduos68 interessados em se sujeitarem à atividade
autônoma e ativa de empreender, em ser, ao mesmo tempo, trabalhador e acionista, em

67
Ao prezar pela valorização de categorias psicológicas, a gestão neoliberal do sujeito introduz significante
arbitrariedade e subjetividade ao processo de avaliação de competências do indivíduo, idealmente objetivo e
impessoal. Em resposta, deve-se ter em mente que não é propriamente o resultado da avaliação que importa, mas
o poder e o controle exercidos por ela, característicos de uma autêntica relação de poder e sujeição dos avaliados
por superiores hierárquicos e áreas de recursos humanos.
68
Em estudo mais recente realizado pelo IBGE sobre o tema empreendedorismo, calculou-se que, “em 2015,
existiam 2,5 milhões de empresas ativas com 1 ou mais pessoas ocupadas assalariadas, no Brasil e, deste total,
25 796 eram empresas de alto crescimento (1,0%). Estas empresas ocupavam 3,5 milhões de pessoas
assalariadas”. Importante ter em mente, para a análise dos dados, as seguintes definições adotadas pelo instituto:
“Empreendedores: são pessoas, necessariamente donos de negócios, que buscam gerar valor por meio da criação
ou expansão de alguma atividade econômica, identificando e explorando novos produtos, processos e mercados;
Atividade empreendedora: é a ação humana empreendedora que busca gerar valor, por meio da criação ou
expansão da atividade econômica, identificando novos produtos, processos e mercados; e Empreendedorismo: é
o fenômeno associado à atividade empreendedora” (IBGE, 2017).
Ainda sobre o tema, um estudo sobre a atividade empreendedora no mundo (“Global Entrepreneurship Monitor”),
realizado em 49 países, identifica que, no Brasil, o percentual de empreendedores, em comparação à população
ativa, foi de 38% em 2018, comparativamente a 36,4% em 2017 e 36% em 2016. Dentre os pontos positivos locais
para o empreendedorismo apontados no relatório, cita-se “a vocação do brasileiro para empreender; a dinâmica
do mercado brasileiro (oportunidades de negócio); programas governamentais” e, como pontos limitantes, as
“políticas governamentais (ex. muita burocracia, legislação tributária complexa); escassez de apoio financeiro
(em especial para empreendimentos iniciais); precariedade do sistema educacional básico”. Paralelamente,
recomendou-se “ampliar os programas de ensino de empreendedorismo, aumentando o escopo de atuação desde
os níveis mais básicos de educação (ensino primário) até os níveis mais elevados (pós-graduação) [...] [e] criar
programas diferenciados para trabalhar com comportamentos, com técnicas, com competências e nos mais
diferentes setores da economia” (SEBRAE, 2018).
32
performar e usufuir ilimitadamente do seu trabalho, i.e., em se submeterem ao zênite do
imaginário subjetivo neoliberal, cujo lado oculto é a transfiguração rigorosa, conforme será
esclarecido, ao desnudo estado de realização e otimização pessoal em direção ao perecimento.
Sobre o assunto, Alain Ehrenberg magistralmente o sintetiza:

O empreendedor foi erigido como modelo da vida heroica porque ele resume
um estilo de vida que põe no comando a tomada de riscos numa sociedade
que faz da concorrência interindividual uma justa competição. Quando a
salvação coletiva, que é a transformação política da sociedade, está em crise,
a verborreia de challenges, desafios, performances, de dinamismo e outras
atitudes conquistadoras constitui um conjunto de disciplinas de salvação
pessoal. Quando não temos mais nada senão a nós mesmos para nos servir de
referência; quando somos a questão e a resposta; o mito prometeico do
homem sozinho no barco de seu destino e confrontado com a tarefa de ter de
se construir; encontrar para si próprio, e por si mesmo, um lugar e uma
identidade sociais torna-se um lugar comum. Numa relação com o futuro
caracterizada pela incerteza, que vê recuar, em nome da mudança permanente,
a crença no progresso linear que simbolizava o Estado-providência, a ação de
empreender é eleita como o instrumento de um heroísmo generalizado. É por
isso que o sucesso empreendedor é considerado como a via real do sucesso
(EHRENBERG, 2010).

A nova subjetividade, da regra da “empresa de si mesmo”, leva a um ímpeto constante


e super-humano de superação além de si, enquanto “les parcours individuels ressemblent
souvent à une course d’obstacles où le présent doit se conquérir sans répit” (AUBERT, 2009).
O ideal de conduta passa a ser o da performance máxima, atlética, não havendo margem para a
derrota enquanto em um ambiente de elevada, e contínua, competição, nas mais diversas esferas
da vida, estabelecendo-se uma associação profunda entre os campos do desempenho absoluto
e do gozo69 excelso. Trata-se, conforme interessante colocação de Pierre Dardot e Christian
Laval, da passagem do princípio freudiano do prazer70 para o além do princípio do prazer. A

69
Não é de toda aleatória a terminologia do gozo, aplicada no âmbito do neoliberalismo. Dany-Robert Dufour
sabidamente aproxima a fase atual do capitalismo à pornografia, a partir do traço comum do excesso. Vive-se,
portanto, uma completa orgia sadeana, fundada na genealogia do gozo excessivo. Segundo o autor: “O liberalismo
triunfante projeta uma pesada ameaça sobre o ser-si-mesmo e o ser-junto: a assunção de um homem sadeano
afirmando seu egoísmo e obedecendo a um mandamento supremo: “Goze!” [...]. Em nossas democracias
ultraliberais, a função tirânica é democraticamente repartida, pois cada um age em função de uma interiorização
individual da lei do mercado, procedendo de um descrédito de toda instância terceira entre os indivíduos, na
busca desenfreada de satisfações pulsionais que a economia global trata imediatamente de lhe fornecer. O ideal
sadeano, “ser tirano”, afeta então a maioria, e a Cidade torna-se perversa” (DUFOUR, 2013).
70
Retomando a conceituação de Freud, o princípio do prazer “é cada vez provocado por uma tensão desprazerosa,
e assume uma direção tal que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com uma evitação
de desprazer ou uma produção de prazer”, sendo o desprazer, portanto, a manutenção ou o aumento da tensão, e
o prazer a supressão desta tensão (NASIO, 1999).

33
autoestima do sujeito, ironicamente, cresce em paralelo à sua insatisfação com desempenhos
passados.

Nicole Aubert se refere a este momento como o reino da urgência, da instantaneidade e


da imediatidade, o reino do temps court, em substituição a momentos históricos anteriores do
reino do temps long71, iluminando, pois, um aspecto complementar do neoliberalismo, a sua
velocidade, paralelamente ao culto à performance, ao consumo e à rentabilidade72. Os
fundamentos dessa nova relação com o tempo residem “dans l’alliance qui s’est opérée entre
la logique du profit immédiat, celle des marchés financiers qui règnent en maîtres sur
l’économie, et l’instantanéité des nouveaux moyens de communication”. Quanto aos indivíduos
submetidos a esta lógica, eles “se contractent et se compriment toujours plus pour répondre
aux exigences d’une économie et d’une société qui tournent à vitesse toujours plus grande,
exigent des performances toujours plus poussées et des actions toujours plus immédiates”.
Cria-se, assim, um sujeito prisioneiro do tempo real e da lógica do mercado, “un homme à flux
tendu [...] [que,] entre urgence et désir, entre vide et trop plein, [...] recherche dans l’intensité
de la vie une immédiate éternité” (AUBERT, 2009).

Como consequência, o emprego, já banalizado, de meios facilitadores, como drogas de


aumento de performance – a exemplo de aderol, ritalina, venvanse e outros estimulantes,
derivados da anfetamina -, se intensifica exponencialmente73 74, sobretudo por aqueles sujeitos
galvanizados pela urgência e pela necessidade de cumprir com o intenso ritmo da existência
contemporânea. Sintomático, portanto, o aumento de drogas utilizadas para check-in, com fins

71
Uma passagem de um “mode de fonctionnement “à temps long” – où les repères se comptaient en années à
l’échelle de l’individu, en siècles à celle de l’histoire – à un mode “à temps court”, société du zapping, du fast,
des clips et des spots dans laquelle il s’agit de vivre l’intensité sans la durée et d’obtenir des résultats à efficacité
immédiate” (AUBERT, 2009).
72
“Notre époque est en train de vivre une mutation radicale dans son rapport au temps […] [, uma mutação que]
affecte profondément notre manière de vivre et de travailler et contribue à l’émergence d’un nouveau type
d’individu, flexible, pressé, centré sur l’immédiat, le court terme et l’instant, un individu à l’identité incertaine et
fragile” (AUBERT, 2009).
73
Apesar de socialmente difundido o mito da meritocracia, segundo o qual todos os indivíduos são capazes de
atingir seus objetivos, sendo reféns, unicamente, de seus esforços individuais, o cenário de competição, por óbvio,
não é igualitário. Tanto é assim que até mesmo o acesso a performance enhancing drugs é uma questão de
privilégio social, sendo acessíveis a poucos.
74
A própria medicina começa a participar do jogo de melhoramentos e otimização do sujeito, transbordando a sua
dimensão tradicional de cura de patologias. “Las nuevas tecnologías, pues, no se limitan a tratar de curar el daño
o la enfermedad orgánicos, tampoco a mejorar la salud, como es el caso de los regímenes alimenticios o los
programas orientados a lograr un buen estado físico, sino que cambian aquello en lo que consiste ser un
organismo biológico haciendo posible refigurar – o abrigar la esperanza de refigurar – los procesos vitales
mismos con el fin de maximizar su funcionamiento y mejorar sus resultados” (ROSE, 2012).

34
de doping, ou enhancement, como se prefere chamar hoje em dia, em substituição a drogas
utilizadas para check-out - muito populares em momentos históricos anteriores, como no
movimento da contracultura.

Aliado ao excesso de desempenho, passa-se a um estado de excesso de trabalho, sem


precedentes na história da sociedade industrializada75. A noção de trabalho foi tomando uma
amálgama de dimensões, até chegar ao seu ápice de significados e funções no capitalismo
contemporâneo76, ao passo que o lazer77 e outras esferas da vida humana78 se ressignificaram,
paralelamente.

Our paid employment has taken on myriad roles. Our jobs now serve the
function that traditionally belonged to religion: They are the place where we
seek answers to the perennial questions “Who am I?” and “Why am I here?”
and “What’s it all for?” They also serve the function of families, giving
answers to the questions “Who are my people?” and “Where do I belong?”
Our jobs are called upon to provide the exhilaration of romance and the depths
of love. It’s as though we believed that there is a Job Charming out there—
like the Prince Charming in fairy tales—that will fill our needs and inspire us
to greatness. We’ve come to believe that, through this job, we would somehow
have it all: status, meaning, adventure, travel, luxury, respect, power, tough
challenges, and fantastic rewards (ROBIN; DOMINGUEZ, 2008).

Intrigante, nesse sentido, a colocação de Arlie Hochschild, segundo a qual as pessoas,


hoje, não possuem um único trabalho, mas três, quais sejam “work, home, and repair of

75
Vicki Robin e Joe Dominguez constataram que três horas de trabalho, historicamente, seria a média diária
necessária, para a sobrevivência, na vida adulta. Uma métrica que não mais é compatível com a jornada, oficial e
teórica, de 8h diárias de trabalho (ROBIN; DOMINGUEZ, 2008). “Le surtravail est devenu un signe ostentatoire
de puissance; et tandis que les classes laborieuses aspirent à l’oisiveté, les classes dites oisives deviennent
laborieuses, affichent des semaines de 60 à 80 heures et brandissent le surmenage comme indice de leur
supériorité ” (BRUCKER, 2002).
76
Em última instância, é o sucesso profissional o determinante de uma vida de “sucesso” e da realização pessoal.
Esta ética moderna do trabalho, da empresa de si, não se confunde com as éticas cristãs e protestantes, que viam
no trabalho a certeza da salvação do sujeito.
77
“Our concept (as a society) of leisure has changed radically. From being considered a desirable and civilizing
component of day-to-day life, it has become something to be feared, a reminder of unemployment during the years
of the Depression. As the value of leisure has dropped, the value of work has risen. The push for full employment,
along with the growth of advertising, has created a populace increasingly oriented toward work and toward
earning more money in order to consume more resources” (ROBIN; DOMINGUEZ, 2008).
78
“[…] during the last half century we’ve begun to lose the fabric of family, culture, and community that give
meaning to life outside the workplace. The traditional rituals, the socializing, and the simple pleasure of one
another’s company all provided structure for nonwork time, affording people a sense of purpose and belonging.
Without this experience of being part of a people and a place, leisure leads more often to loneliness and boredom.
Because life outside the workplace has lost vitality and meaning, work has ceased being a means to an end and
become an end in itself” (ROBIN; DOMINGUEZ, 2008).

35
relationships damaged by ever more time at the office”79 (HOCHSHILD apud ROBIN;
DOMINGUEZ, 2008). Associadamente ao tempo de trabalho, as próprias pausas não são mais
para a celebração, mas para a recuperação do ser, que necessita continuar trabalhando.

O trabalho, ainda, diferentemente do que ocorria no discurso do capitalismo de


produção, não é mais visto como um limitador ao gozo pleno de si. Pelo contrário, na
dramaturgia capitalista do gozo ilimitado, a absolutização do trabalho não impõe um sacrifício
ao sujeito, mas incita este animal laborans ao prazer, pela ferramenta da valorização à
performance irrestrita.

A empresa, pois, passa a ser vista, idealmente, como o local soberano das inovações, da
mudança, da flexibilidade face à volatidade de mercado, da corrida pela excelência em um
cenário de rubra concorrência, da realização e desenvolvimento pessoal, do propósito
derradeiro e dos valores, e da perfeição. Gigantes da tecnologia, como Google, Facebook,
Yahoo, Apple e Twitter, diante deste distinto momento histórico, inovaram seus ambientes
físicos e as maneiras de cuidar de seus funcionários, sendo tidas, hoje, como modelos de
administração no campo da gestão de pessoas.

Caricato do jogo neoliberal as novas formas de gestão defendidas, com empregos


altamente criativos e flexíveis – nos quais o funcionário é capaz de, livremente, organizar seus
horários de trabalho, podendo, até mesmo, trabalhar em sua residência80 -, ambientes de
trabalho que permitem a fagocitose da vida privada pela vida laboral – pela disponibilização de
diversas facilidades, como restaurantes, muitos com comidas gratuitas, academia, cabeleireiros,
massagistas, médicos, entre outros serviços dentro da própria organização, além de ambientes
dog-friendly -, espaços de repouso (para o trabalho, e não do trabalho), e diversos cursos de
especialização – precipuamente voltados para o desenvolvimento de capacidades queridas pela
companhia.

Quando se desligam, ou são desligados, da companhia, no entanto, muitos destes


profissionais veem um aspecto significativo de suas subjetividades e personalidades,

79
A família, neste cenário, “tende a tornar-se um malabarismo constante com desgastantes ambições de
multiplicação entre demandas profissionais, obrigações educacionais, cuidados com as crianças e a monotonia
do trabalho doméstico” (BECK, 2010).
80
Considerando que ele ainda possui uma, na hipótese de não ter sido completamente substituída pelo escritório
da empresa.

36
construídas com fundamento nos seus trabalhos, esfalecer81, uma vez que as organizações
criaram, no sujeito, uma espécie de identificação de tipo materno – a um só tempo ideal do Ego
e do Superego -, sendo perpetuada “tanto por motivos racionais, quanto por motivos de ordem
mais profunda, que passam despercebidos no nível da consciência” (MOTTA, 1991). Isso
implica uma série de problemas psicológicos e psiquiátricos, a exemplo de estados depressivos.

Está-se diante, agora, de uma peça cujo epílogo rascunhado é o de ganhos plurilaterais,
supostamente benéfica a todas as partes envolvidas. No entanto, da lógica do ganho e da
urgência emergem dois tipos extremos de indivíduos.

D’un côté, l’individu adapté, “multibras, multiprise” qui jouit de


l’accélération, bondit d’un sujet à l’autre et jette un oeil fébrile sur un flash
d’infos en sentant vibrer son téléphone portable, de l’autre, l’individu
pulvérisé par la vitesse d’une société qui l’écrase parce qu’il ne peut plus y
inscrire le moindre projet (AUBERT, 2009).

Conforme se verá, o desfecho da obra neoliberal não é de todo inócuo e celebrativo para
o seu público.

3.2. Patologias e fracasso

No século XXI, a sociedade se afirma como “sociedade do cansaço”, conforme termo


cunhado pelo filósofo sul-coreano Byung-chul Han, em substituição à denominada “sociedade
do discurso imunológico”82, de proteção contra um risco externo, típico da Guerra Fria. Na
sociedade do cansaço, as patologias neurais sistêmicas, surgidas do excesso de positividade -
no mais das vezes invisível, imperceptível e imanente - nas várias esferas da vida, são o novo

81
« La disparition de l’activité professionnelle est une véritable amputation du Moi qui réduit les stimulations et
les étayages dont le sujet a besoin pour développer ses fonctions défensives, narcissiques et élaboratives »
(GAULEJAC, 2005).
82
Eugène Enriquez, comentando o notável texto de Freud “Die Zukunft einer Illusion”, aponta um aspecto típico
desta sociedade, qual seja, o emprego da agressão, usada para “reforçar a coesão do grupo, permitindo-lhe tratar
os estrangeiros como inimigos que podem ser desprezados e destruídos. A civilização adota, assim, uma dupla
estratégia: impedir a agressividade de se exprimir entre os membros do grupo, reforçando, ao contrário, o vínculo
libidinal e as identificações mútuas; e favorecer a manifestação da agressividade contra os outros grupos que, de
adversários respeitáveis, tornam-se inimigos inferiores e causa de todos os males sofridos pelo grupo”
(ENRIQUEZ, 1990).
37
mal do século. A concepção de que todas as metas e objetivos podem ser alcançados, aliada à
valorização da máxima produtividade como norte da existência humana, ao longo de toda a
vida do sujeito, são responsáveis por fundar uma espécie de “sociedade do desempenho”, sendo
o slogan “yes, we can”, da campanha presidencial de Barack Obama, a sua pedra angular.
Diferentemente da sociedade industrial e disciplinar do século XX,

A sociedade do século 21 não é mais a sociedade disciplinar, mas uma


sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais
‘sujeitos da obediência’. São empresários de si mesmos. [...] No lugar de
proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A
sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera
loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz
depressivos e fracassados (HAN, 2015).

No reino do temps court e da urgência, não é de se surpreender que a competitividade


exacerbada, a existência social individualizada - cada vez mais desvinculada de laços coletivos
(processo de individualização-descoletivização) -, a transitoriedade do mundo, a
responsabilização e vitimização “motivacional” do “eu” pelas suas conquistas e fracassos – no
controle de sua vida, uniões, reprodução e, até mesmo, sua morte -, o excesso de estímulos83, o
risco permanente (“risco do mercado”)84 ligado à condição e estilo de vida de empresa de si
mesmo, e a redução do tamanho e escopo das provisões estatais de bem-estar social, em resumo,

83
Byung-chul Han, sobre este ponto, menciona o multitasking como um exemplo de excesso de estímulos, cuja
consequência mais imediata é a fragilização do caráter contemplativo da vida e a repulsa ao tédio e ao ócio, sendo
substituídos pela hiperatenção, i.e., pela atenção dispersa, ausente de foco, típica da vida selvagem. Decorre, daí,
perdas para o desenvolvimento cultural da humanidade, a exemplo da filosofia, que deve à atenção profunda
grande parte de seu progresso (HAN, 2015).
Extremamente contemporânea e pertinente a colocação de Friedrich Nietzsche em sua obra “Humano, Demasiado
Humano”: “Como sinal de que decaiu a valorização da vida contemplativa, os eruditos de agora competem com
os homens ativos [inquietos] numa espécie de fruição precipitada, de modo que parecem valorizar mais esse modo
de fruir do que aquele que realmente lhes convém e que de fato é um prazer bem maior” (NIETZSCHE, 2000).
Compreensível, pois, que os equivalentes modernos aos sábios ou aos mestres sejam, justamente, os managers,
aqueles com altos postos de gerência nas empresas. Ocorre, assim, uma ressignificação do que Aristóteles definia,
em “Política”, como boa-vida, em contraste à mera-vida.
84
Na sociedade neoliberal, todos os sujeitos, e não mais apenas os empreendedores, se sujeitam ao risco típico de
mercado. A incerteza, portanto, é a nova regra do jogo da vida. Paralelamente, a gestão comercial de uma série de
riscos passa a ser oferecida por empresas – e não pelo Estado (“al lavoro divenuto mobile e al mercato divenuto
volatile doveva corrispondere uno Stato sociale divenuto flessibile” (CASTEL, 2011)) – como forma de mitigação
das adversidades enfrentadas pelos indivíduos. Assim, “ao mesmo tempo em que se produz o sujeito de risco,
produz-se o sujeito da assistência privada”, a quem cabe, ativamente, analisando as informações a ele disponíveis,
a escolha da cobertura de seus riscos (DARDOT; LAVAL, 2016). Nesse sentido, “essere protetti significa anche
essere minacciati” (CASTEL, 2011). Está-se diante de características típicas do que Ulrich Beck denominou de
Risikogesellschaft (sociedade de risco).

38
a substituição das estruturas simbólicas dos sujeitos pela instituição da empresa85, implique
inúmeras patologias típicas do neoliberalismo, presentes, em diferentes moldes, em todas as
faixas etárias.

Problemas humanos relacionais, derivados da concorrência permanente entre as pessoas


e do enfraquecimento dos coletivos, fortalecem o isolamento do sujeito86. Laços de lealdade,
companheirismo, confiança e solidariedade, inclusive a solidariedade de classes87 são

85
Não se trata, propriamente, de uma dessimbolização total das instituições, mas de uma troca constante e
instrumental dos símbolos, de acordo com as necessidades do discurso capitalista. Pode-se, em outros termos,
tratar o fenômeno como uma substituição de ilusões – fenômenos essenciais ao processo civilizatório e
responsáveis por preencher os mais profundos desejos do sujeito, ou seja, fontes plenas de consolo e proteção às
prescrições da civilização, provendo os homens com instâncias benevolentes e protetoras e permitindo-os assumir
o papel de crianças amadas e protegidas, contrariamente aos seus instintos de violência – a citar as ideias religiosas.
Nesse contexto, “caso se ensine (aos homens) que não existe um Deus todo-poderosos e justo [...] eles se sentirão
isentos de toda e qualquer obrigação de obedecer aos preceitos da civilização. Sem inibição ou temor, seguirão
seus instintos associais e egoístas, e procurarão exercer seu poder; o Caos, que banimos através de muitos
milhares de anos de trabalho civilizatório, retornará [...]. Se você expulsar a religião de nossa civilização
europeia, só poderá fazê-lo através de outro sistema de doutrinas, e esse sistema, desde o início, assumiria todas
as características psicológicas da religião – a mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição do
pensamento – para sua própria defesa” (FREUD apud ENRIQUEZ, 1990). Aqui, é precisamente a instituição da
empresa que assume esta posição.
No mesmo sentido, Marcel Gauchet: “[the market model’s] sphere of application is destined to expand far beyond
the realm of commodity exchanges, the weakening, and even the debasement, of the symbolic function is the price
we will have to pay. We therefore have to make a new analysis of the symbolic in the era of postmodernity”
(GAUCHET apud DUFOUR, 2008).
O adjetivo kafkiano, neste contexto niilista, bem resume as consequências decorrentes da aniquilação das
narrativas do ser. O sujeito neoliberal, assim como os protagonistas dos contos de Kafka, inacabados em sua
construção como indivíduos, sofrem de sentimentos de desamparado e desestruturação. Características associadas
a um desenvolvimento frágil do narcisismo do indivíduo – no caso de Kafka, pela débil atenção recebida por sua
mãe, ao longo da infância do escritor. Cita-se, ilustrativamente sobre este aspecto, as obras “O Castelo”, “Um
Médico Rural” e “A Muralha da China”. Paralelamente, o sujeito se aprisiona em uma estrutura social e em suas
degradações sem questionar a sua submissão, associadamente a um sentimento de culpa, caso não o faça. Seus
livros “O Processo” e “Carta ao Pai”, e seus contos “11 Filhos” e “O Veredicto” exemplificam esta faceta também
presente do sujeito neoliberal. Trata-se, esta, de uma relação edipiana, substanciada pela perseguição por uma
figura opressora, de qualidade paternal – na vida do escritor, seu notável e conturbado relacionamento com o pai
assumiu esta função.
Como Mark Fisher aponta, "post-Fordist workers are like the Old Testament Jews after they left the 'house of
slavery': liberated from a bondage to which they have no wish to return but also abandoned, stranded in the desert,
confused about the way forward. The psychological conflict raging within individuals cannot but have casualties”
(FISHER apud ROSE, 2019).
86
Tocqueville, mesmo ao escrever sobre seu tempo, continua sendo marcantemente contemporâneo, ao afirmar
que “each person, withdrawn into himself, behaves as though he is a stranger to the destiny of all the others. His
children and his good friends constitute for him the whole of the human species. As for his transactions with his
fellow citizens, he may mix among them, but he sees them not; he touches them, but does not feel them; he exists
only in himself and for himself alone. And if on these terms there remains in his mind a sense of family, there no
longer remains a sense of society” (TOCQUEVILLE apud SENNETT, 1992).
Pertinente a posição de Richard Sennett, em “The Fall of Public Man”, ao comentar sobre os reinos da vida privada
e da vida pública na modernidade. O autor bem coloca que a vida pública foi, progressivamente, sendo destruída
após o capitalismo industrial, quando as expectativas privadas, narcísicas, e as categorias psicológicas individuais
foram escaladas até a esfera pública. Vide (SENNETT, 1992).
87
Ulrich Beck expõe a perda do ideal de classe como fenômeno que advém do “impulso social individualizatório”
da sociedade industrial. Segundo o autor, “sobre o pano de fundo de um padrão de vida material comparativamente
alto e de uma seguridade social bastante avançada, as pessoas foram dissociadas, numa ruptura da continuidade

39
corroídos, enquanto o sujeito deve, agora, individualmente, ser capaz de superar os obstáculos
a ele impostos, sem o auxílio de outros88, na ausência de capital social89. Os sentimentos
humanos são questionados, quando extraordinariamente manifestados – nutrindo um panorama
fértil para o surgimento de oportunistas – tendo como plano de fundo um cenário de
vulnerabilidade constante ao qual estão expostos os trabalhadores, capaz de eliminar qualquer
eventual espécie de “cola” social entre os sujeitos - e esfacelar as fronteiras entre a vida
profissional e pessoal.

Richard Sennett (2010) defende, propriamente, a corrosão do caráter90 individual,


enquanto na sistemática capitalista moderna, pela dificuldade de construção de uma narrativa
de vida pelo trabalho, nos moldes do que era possível em momentos históricos anteriores, a
exemplo do capitalismo burocrático fordista. Assim questiona o autor:

histórica, de condicionamentos tradicionais de classe e de referenciais de sustento ligados à família, e remetidas


a si mesmas e ao seu próprio destino individual no mercado de trabalho, com todos os seus riscos, oportunidades
e contradições [...]. Nesse sentido, a individualização acarreta a suspensão dos fundamentos vitais de um
pensamento baseado em categorias tradicionais da sociedade dos grandes agrupamentos – ou seja, classes,
estratos ou estamentos. [...] O indivíduo mesmo (homem ou mulher) converte-se em unidade reprodutiva do social
no mundo da vida. Dito de outra forma: tanto dentro como fora da família, os indivíduos convertem-se em agentes
que asseguram existencialmente sua mediação pelo mercado e a organização e o planejamento biográficos com
ela relacionados” (BECK, 2010).
88
Sobre a importância do vínculo social para o bem-estar mental, a Organização Mundial da Saúde corrobora, em
seu relatório Social Determinants of Mental Health, a hipótese relacionando desordens mentais com o “level,
frequency, and duration of stressful experiences and the extent to which they are buffered by social supports in the
form of emotional, informational, or instrumental resources provided by or shared with others, and by individual
capabilities and ways of coping” (WHO, 2014).
John Cacioppo, um dos grandes nomes da neurociência, identificou que índices de mortalidade e morbidade são
maiores em adultos solitários do que em adultos não solitários. A solidão, portanto, é um fator de risco e um
preditor de declínio cognitivo, bem como mudanças nos estados psicológicos podem contribuir para a morbidade
e mortalidade, incluindo sintomatologia depressiva, ansiedade e hostilidade. “Feelings of isolation engender
depression and hostility and impair self-regulation” (CACIOPPO apud ROSE, 2019).
A ideia fomentada pelo neoliberalismo de que uma vida individual, sem laços sociais, é possível e desejável, é de
todo absurda, conforme expõe Monbiot: “Though our wellbeing is inextricably linked to the lives of others,
everywhere we are told that we will prosper through competitive self-interest and extreme individualism… Of all
the fantasies human beings entertain, the idea that we can go it alone is ihe most absurd and perhaps the most
dangerous. We stand together or we fall apart” (MONBIOT apud ROSE, 2019).
89
Termo utilizado, pela primeira vez, por Pierre Bourdieu, para se referir ao: “aggregate of the actual or potential
resources which are linked to possession of a durable network of more or less institutionalized relationships of
mutual acquaintance and recognition – or in other words, to membership in a group (…) - which provides each
of its members with the backing of the collectivicy-owned capital, a ‘credential’ which entitles them to credit, in
the various senses of the word” (BOURDIEU apud ROSE, 2019).
No neoliberalismo, a existência individualizada, por pressuposto, esvazia a proteção originada pelo capital social
dos sujeitos – em seu sentido mais amplo, sem distinções de intensidade e natureza -, que não mais podem contar
com uma rede interpessoal de trocas, simbólicas ou materiais, assentada na confiança, fundamental, dentre outras
funções, para a preservação do bem-estar mental.
90
Entendendo, por caráter, “os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os
outros nos valorizem” (SENNETT, 2010).

40
Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto
prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser
humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa
sociedade composta de episódios e fragmentos? (SENNETT, 2010).

Logo, a dinamicidade, a flexibilidade91, os riscos, as incertezas, as precariedades do


tempo e a ausência de um senso comunitário impõem um esvaziamento gradual do caráter do
sujeito irônico, cuja vida é, agora, representada na forma de um mosaico de colagens
(SENNETT, 2010).

A fragilização dos laços, o impulso darwiniano por competir e o correspondente


sentimento de culpa permanente – que surge da incapacidade de cumprir com a contemporânea
imposição de exigências sobre-humanas, paradoxalmente sem sujeito, i.e., que não possuem
autores ou fontes, já que são auto impostas - impelem a explosão de doenças físicas92 e

91
Como aponta Gaulejac, « la flexibilité produit la précarité » (GAULEJAC, 2005).
92
Conforme estudo recente financiado pela Caisse Nationale d’Assurance Maladie, conclui-se que “long working
hours (LWHs) [working time >10 hours daily for at least 50 days per year] are a potential risk factor for stroke”
(FADEL et al., 2019). No mesmo sentido, o Institute for Employment Studies, em pesquisa de 2003, atestou que
“long hours working is associated with (but is not proved to cause) various negative effects, such as decreased
productivity, poor performance, health problems, and lower employee motivation. […] The most common reasons
for working long hours are to increase pay (where overtime is paid) or to meet the needs of the job (where it is not
paid)” (KODZ et al., 2003).

41
mentais93, sobretudo no ambiente de trabalho94, como cansaço95, burnout96 (SB), depressão97,
medo, ansiedade98, frustração, apatia, raiva, síndrome de hiperatividade (TDAH)99, transtorno

93
Como contraste, tem-se, como definição de saúde mental, talhada pela OMS, “um estado de bem-estar no qual
a pessoa pode se realizar, pode superar as tensões normais da vida, pode executar um trabalho produtivo e frutoso
e contribuir para a vida de sua comunidade” (MORIN; AUBE, 2009).
94
Tanto é assim que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aborda as
condições do ambiente de trabalho como um aspecto chave das políticas dos países componentes do bloco, em
relatórios sazonais sobre o tema, reconhecendo que “mental illness is responsible for a very significant loss of
potential labour supply, high rates of unemployment, and a high incidence of sickness absence and reduced
productivity at work” (OECD, 2012).
Christophe Dejours e Isabelle Gernet, oferecendo uma visão precisa sobre a significância do trabalho no contexto
das patologias mentais, afirma: “Le travail occupe en effet une place décisive dans les processus impliqués dans
la construction de la santé mentale, comme dans le déclenchement des troubles psychopathologiques” Esta
concepção, em seu turno, sobre a relevância patológica do trabalho, moldou uma importante corrente francesa de
pensamento, denomidada psychopathologie du travail (DEJOURS; GERNET, 2012).
95
Em levantamento recente realizado pela Conectaí, empresa do IBOPE Inteligência, 98% dos brasileiros se
sentem cansados mental e fisicamente, sobretudo jovens entre 20 e 29 anos. As principais causas apontadas da
fadiga são o stress e a “correria do cotidiano”. Ao contrário, o bom sono foi tido como um dos principais fatores
daqueles que expressaram vigor no dia-a-dia (GAUCHAZH, 2019).
Sobre este último elemento, pertinente notar, no contexto norte-americano, que, segundo o Conselho Nacional de
Segurança dos Estados Unidos, em relatório de 2015, “43% dos trabalhadores do país dormem menos do que o
período recomendado pela Fundação Nacional do Sono” (GAGLIONI, 2019).
96
De precisão cirúrgica a ilustrativa narração de Gonçalves Júnior sobre uma situação hipotética de burnout: “A
história é sempre a mesma, o cidadão já não estava rendendo adequadamente. Chegava atrasado, não cumpria
prazos, não se envolvia como antes no dia a dia do trabalho. Estava comprometendo as metas. Voltou a fumar,
foi visto bebendo. Passou a tomar calmantes e antidepressivos. Alguns comentavam em voz baixa que talvez usasse
substâncias ilícitas. Oscilava entre um comportamento irascível e a franca depressão. Envolveu no seu problema
familiares, amigos, companheiros de trabalho. Foi parar algumas vezes no pronto-socorro com suspeita de
infarto, procurou um cardiologista, um clínico e um psiquiatra. Dizem que fez terapia. Medicina alternativa,
integrativa, energética, também. Fez coaching, programação neurolinguística e algumas outras coisas que o RH
sugeriu. Procurou ajuda religiosa. Mas ninguém pôde ajudá-lo. Julgou-se que o melhor era ele partir em busca
de novos desafios. Parece que até ele concordou. Assim foi feito. O sujeito que entrou no lugar é muito
profissional. Seguimos em frente. Como era o nome dele mesmo?” (GONÇALVES JUNIOR, 2019).
Irônico notar, ainda, que, precedentemente aos acontecimentos narrados, a síndrome de burnout é comumente
antecedida de um momento de euforia com relação ao trabalho.
97
A Organização Mundial da Saúde bem define os aspectos gerais tocantes à depressão, uma condição que afeta
mais de 300 milhões de pessoas no mundo: “La dépression est une affection courante dans le monde qui concerne
300 millions de personnes selon les estimations. Elle diffère des sautes d’humeur habituelles et des réactions
émotionnelles passagères face aux problèmes du quotidien. Quand elle perdure et que son intensité est modérée
ou sévère, la dépression peut devenir une maladie grave. [...] La dépression résulte d’une interaction complexe
entre des facteurs sociaux, psychologiques et biologiques. Les personnes exposées à des événements malheureux
dans leur vie (chômage, deuil, traumatisme psychologique) sont plus susceptibles de développer une dépression.
Celle-ci peut, à son tour, générer un surcroît de stress et de dysfonctionnement et aggraver la situation de la
personne touchée, ainsi que la dépression elle-même [...] La charge de la dépression et des autres pathologies
mentales est en augmentation dans le monde” (ORGANISATION MONDIALE DE LA SANTÉ, 2019).
98
De acordo com dados publicados pela OMS, no relatório Global Burden of Disease Study, em 2015, o número
de pessoas com ansiedade, no Brasil, em 1990, era de pouco mais de 7% da população, ao passo que, em 2015,
esse número passou de 9% da população (OSTETTI; ALMEIDA, 2017). Nos EUA, com maior intensidade, a
ansiedade “is already the most common mental health disorder (…), affecting 18.1 percent of Americans each
year and nearly one-third of Americans over their lifetimes, according to the Anxiety and Depression Association
of America and the National Institute of Mental Health” (JENNINGS, 2019).
Para mais dados acerca da explosão de doenças mentais nos países desenvolvidos, verificar relatórios mencionados
por Nikolas Rose, em Our Psychiatric Future, pgs. 45-48.
99
« La combinaison d’une attente de reconaissance inassouvie, de critères flottants définissant concrètement le
travail à faire et de l’incertitude face à la logique d’obsolescence, produit un sentiment de menace. Alors se produit
l’imprévisible: au lieu d’un désinvestissement ou d’un retrait relatif de la personne, c’est l’hyperactivité au travail

42
de personalidade limítrofe (TPL), stress100, entre outras101 102. « La culture de l’anxiété devient
la norme: peur de ne jamais en faire assez, de ne pas être à la hauteur, de ne pas remplir ses
objectifs, d’être mis sur la touche, de perdre son emploi » (GAULEJAC, 2005).

Está-se a falar, pois, em uma sociedade patológica, genuinamente desumana, que tem
na figura do atleta profissional – incluindo suas condições de esforço, desgaste, esgotamento e
vícios103, assim como o próprio léxico do esporte – a caricatura do tempo e o seu princípio de
ação104. Preciso e atemporal Charles Baudelaire, em L’Âme du Vin, ao se referir ao homem
trabalhador como um athlète de la vie.

No lado dos consumidores, outros sentimentos negativos, como vergonha, humilhação


e baixa autoestima, são vivenciados por aqueles que não são capazes de conquistar as mesmas
experiências emocionais de consumo com a frequência e/ou intensidade de outros.

Interessante notar o surgimento, em paralelo, de um novo segmento de negócios, que


busca capitalizar, via livros, aplicativos, gadgets, entre outros produtos atinentes tanto à vida

qui se manifeste, exacerbée, comme une façon de se protéger et de défendre le métier qui apparaît menacé »
(RHÉAUME apud GAULEJAC, 2005).
100
Pertinente a diferenciação proposta por Nicole Aubert entre os termos stress e neurose profissional. O stress
profissional, termo muito utilizado na literatura anglo-saxônica, designa “o processo de perturbação engendrado
no indivíduo pela mobilização excessiva de sua energia de adaptação para o enfrentamento das solicitações de
seu meio ambiente profissional, solicitações estas que ultrapassam as capacidades atuais, físicas ou psíquicas,
deste indivíduo.” A neurose profissional, termo mais alinhado com a literatura francesa, se refere “a um estado
de desorganização persistente da personalidade, com consequente instalação de uma patologia, vinculada a uma
situação profissional ou organizacional determinada. Neste sentido, a neurose profissional é uma das
consequências possíveis do stress profissional” (AUBERT, 1993).
101
Ehrenberg se refere a essas condições como “le patologie dell’ideale e, più in generale, i disturbi della
soggettività individuale classificati dalle nozioni di salute mentale e di sofferenza psichica (depressione,
dipendenza, traumi, ansia, ma anche fobia sociale, iperattività dell’adulto, ecc.). [...] Sono la forma di espressione
assunta dalla passione quando tutti i valori e le norme orientano verso l´azione, verso l´attività dell´individuo”
(EHRENBERG, 2010).
102
Sistematizando tais problemas somáticos e psicossomáticos, Vincent de Gaulejac cita classificação proposta
pela medicina do trabalho entre (i) problemas psíquicos – como crises de ansiedade, fobias e insônias -, (ii)
digestivos – como úlceras gástricas -, (iii) dermatológicos – como crises de urticárias – (iv) cardiovasculares –
como infartos do miocárdio – e (v) comportamentais – como tabagismo, alcoolismo e suicídio (GAULEJAC,
2005).
103
Para enfrentar a condição patológica neoliberal permanente, os sujeitos optam por uma dopagem total de suas
vidas, seja através da utilização de medicamentos psiquiátricos ou outras drogas, como álcool e entorpecentes, seja
por meio de dependências de consumo de mercadorias, dentre outros vícios. « La prise de psychotropes –
antidépresseurs, tranquillisants -, autant que celle de vrais drogues, reflète une culture de la conquête qui devient
nécessairement une culture de l’anxiété. Le fait que ces médicaments soient utilisés pour renforcer les capacités
corporelles et psychiques exprime la recherce forcenée de tenir le coup dans la compétition. Lorsque la pression
est trop forte, la tentation est grande d’avoir recours à des produits pour la supporter» ( LAURE apud
GAULEJAC, 2005).
104
Interessante notar a associação comumente almejada pelas empresas com o mundo dos esportes e com a imagem
de atletas de sucesso, via patrocínios, refletindo o quão similar é o modelo esportista ao modelo capitalista
neoliberal.

43
pessoal quanto ao ambiente de trabalho, o crescimento das mencionadas patologias neurais.
Trata-se do que comumente passou a ser conhecido como economia da ansiedade.

The Anxiety Economy explores how instability and disruption are having a
profound impact on culture and emerging trends. Behavior driven by fear,
from the extreme (and the paranoid) to the more justified, is creating new
market opportunities as consumers seek ways to self-soothe and navigate the
storm (J. WALTER THOMPSON INTELLIGENCE, 2019).

Discorrendo sobre as patologias da sociedade do desempenho, Alain Ehrenberg enuncia


que a depressão surge, fundamentalmente, do cansaço. Este, por sua vez, é resultado da
autoexploração do ser, individualmente responsabilizado e pressionado por performar acima de
seu limite e entregar o impossível105. Possível afirmar que “la dépression nerveuse semble
alors, sur le plan symbolique, le seul moyen qu’aurait trouvé la nature pour “ralentir” le
temps” (AUBERT, 2009). Trata-se, portanto, de condição caricatural da contemporaneidade,
sendo ela o “adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade” (HAN,
2015)106.

La depressione minaccia l’individuo simile a se stesso come un tempo il senso


di colpa insidiava l’uomo lacerato dal conflitto o, ancor prima, il peccato
incalzava l’anima rivolta a Dio. Più che un infortunio affettivo, la depressione
è oggi un modo di vivere. [...] La depressione e la dipendenza non sono che il
diritto e il rovescio dell’individuo sovrano, dell’uomo che si crede l’artefice
della propria vita mentre ne è solamente il «soggetto, nel duplice senso del
termine: attivo e passivo» [...] Se, come pensava Freud, «l’uomo diventa
nevrotico perché incapace di sopportare il peso della frustrazione impostagli
dalla società», diventa depresso perché deve invece sopportare l’illusione che
tutto è possibile. [...] Svuotato di progetti, svuotato di motivazioni, svuotato
di abilità comunicative, il depresso è l’esatto contrario delle nostre norme di
socializzazione. Non sorprendiamoci quindi dell’esplosione, in psichiatria
come nel linguaggio comune, di termini come depressione o dipendenza. Se
infatti ci si assume la responsabilità di essere se stessi, bisogna poi saper curare
anche la patologia che ne deriva. L’uomo deficitario e l’uomo compulsivo
sono le due facce di questo Giano (EHRENBERG, 1999).

105
“Soumises à des pressions trop fortes, “malades de l’urgence”, certaines personnes dynamiques, fonceuses et
motivées, sombrent dans des processus dépressifs” (AUBERT, 2009).
106
Han, em A Agonia do Eros, defende que “a depressão é uma enfermidade narcísica. O que leva à depressão é
uma relação consigo mesmo exageradamente sobrecarregada e pautada num controle exagerado e doentio. O
sujeito depressivo-narcisista está esgotado e fatigado de si mesmo. Não tem mundo e é abandonado pelo outro.
Eros e depressão se contrapõem mutuamente. O eros arranca o sujeito de si mesmo e direciona-o para o outro. A
depressão, ao contrário, mergulha em si mesma” (HAN, 2017).
44
Nesta mesma linha, sobre a experiência neoliberal,

[…] the incessant flows of information that overwhelm the social brain,
which, when coupled with the constant demands of attention and the
wholesale marketization of desire, result in panic and depression. In this
experience, to which we give the name of autonomy, the soul is enslaved:
every dimension of the human mind - language, creativity, affects - is trapped
in the trick of self-enterprise, as it is mobilized to generate value; depression
becomes a common experience, and one that is inevitably managed by
psychiatric medication (BERARDI apud ROSE, 2019).

Tais negatividades passam a ser consideradas, na sociedade neoliberal, como doenças,


i.e., patologias médicas, ligadas ao mal funcionamento do organismo, e não como
consequências da racionalidade moderna107. Trata-se, portanto, de condição sujeita aos
cuidados da neurociência e da psiquiatria, ao passo que à antropologia, à psicologia, à
sociologia e a outras ciências humanas108, é relegado um espaço de marginalidade109. Sua cura,
nos mesmos moldes, é alcançada através de mudanças em estilos de vida e, fundamentalmente,
em investimentos em capital emocional e biológico – via terapias para os normais melhorarem

107
Não é por acaso que houve um incremento substancial na classificação e no diagnóstico de desordens
psiquiátricas registradas em manuais médicos, desde 1980 (Le BRETON, 1998; ORTEGA, 2003 apud
ANDRADE, 2013).
108
Neste aspecto, interessante a defesa, de certo modo contrária, de Nikolas Rose acerca da relevância das teorias
psy na atualidade. Segundo o autor, “psy disciplines and psy expertise have had a key role in constructing
‘governable subjects’. Psy, here, is not simply a matter of ideas, cultural beliefs or even of a specific kind of
practice. I suggest that it has had a very significant role in contemporary forms of political power, making it
possible to govern human beings in ways that are compatible with the principles of liberalism and democracy. At
one level, this has been through the ways in which that psy has helped to resolve a range of difficulties in the
practical management of human beings: helping organize and administer individual and groups within schools,
reformatories, prisons, asylums, hospitals, factories, courtrooms, business organizations, the military, the
domesticated nuclear family. Each of these practices depends upon the co-ordination of human conduct and the
utilization or reform of human capacities in relation to certain objectives. (…) In producing positive knowledges,
plausible truth claims, and apparently dispassionate expertise, psy makes it possible to govern subjects within
these practices and apparatuses in ways that appear to be based, not upon arbitrary authority, but upon the real
nature of humans as psychological subjects. The human sciences have actually made it possible to exercise
political, moral, organizational, even personal authority in ways compatible with liberal notions of freedom and
autonomy of individuals and ideas about liberal limits on the scope of legitimate political intervention” (ROSE,
1999).
109
“Unfortunately, this 'brain-first' view does shape a funding regime and a system of professional status that
directs the efforts of the most able researchers towards neurobiology rather than to the exploration of the causal
webs that start from the sociopolitical environment, and seeks to unravel the mechanisms by which they act on
body and brain” (ROSE, 2019). Deslegitima-se, portanto, a ideia fundante de que « la souffrance psychique et les
problèmes relationnels sont les effets des modes de management » (GAULEJAC, 2005), e não problemas, à
origem, de ordem médica.

45
a sua performance, ao invés de terapias para os patológicos buscarem uma cura -, já que, no
limite, o fracasso é tido como uma patologia e a patologia, por sua vez, assume o lugar da
normalidade. A responsabilidade da condição negativa experienciada recai, novamente, no
sujeito econômico110 e em suas correlatas “escolhas”111 e, em segunda instância, na medicina112.

Em resumo, na sociedade do “poder”, de maneira distinta à anterior sociedade do


“dever”, o aparato psíquico e, subsequentemente, o modo de agir dos indivíduos, foi
radicalmente alterado, através do cultivo do excesso de positividade. Paralelamente, suas
condições doentias típicas se modificaram e o sujeito narcisista do prazer – ou, melhor dizendo,
da insatisfação, da carência e da culpa, por nunca ser capaz de chegar a um ponto absoluto de
repouso - se vê envolto em uma série de novas coerções, por ele próprio impostas. Segue, daí,
uma condição de esgotamento sistêmico consigo mesmo, como se a tarefa de Sísifo não fosse
repetir a incumbência de levar a rocha, repetitivamente, até o topo da montanha, mas como se
o seu caminho montanhoso não tivesse fim.

As consequências finais da anátema do desempenho – similar à vontade de Ícaro de voar


tão perto do Sol - são dramáticas, sendo o esgotamento último, a morte, o único ponto possível
de realização plena do otimizado sujeito neoliberal, incapaz de aproximar as figuras do seu eu-
ideal (moi idéal) com o seu eu-real (moi réel)113 114.

110
« Faute de pouvoir transformer les conditions de travail pour les rendre moins pathogènes, chaque travailleur
est renvoyé à lui-même. Le stress, l’anxiété, l’épuisement professionael sont traités au niveau individuel dans leurs
effets psychiques ou psychosomatiques, avec l’aide de psychologues et de psychiatres. L’entreprise externalise
ainsi les conséquences de la violance des relations du travail qu’elle génère. Le chômage, comme le stress, n’est
pas un problème pour l’entreprise puisqu’elle n’a pas à en subir les conséquences. C’est aux travailleurs et aux
citoyens d’en assumer la charge psychique et financière ». Tanto são as patologias neoliberais tidas como
condições de responsabilidade individual e maus-necessários da moderniddade que, v.g., « il est tellement répandu
que la résistence au stress est exigée comme une qualité nécessaire pour réussir. Plûtot que de s’interroger sur
ces causes, on apprend à le gérer » (GAULEJAC, 2005). Assim sendo, « tout se passe comme si s’admettre
stressé, déprimé, mal dans sa peau, insomniaque ou angoissé relevait d’une mauvaise gestion personnelle de soi-
même et pouvait constituer un indicateur public d’inaptitude ou d’inefficience, handicap certain dans un contexte
collectif de course à la performance » (AUBERT; GAULEJAC, 2007).
111
Questiona-se a liberdade do sujeito ao fazer as suas escolhas, uma vez que, em última instância, são as
necessidades organizacionais e culturais da administração que ditam os valores enaltecidos e, consequentemente,
a serem perseguidos, holisticamente, pelos trabalhadores. Está-se diante, assim, de uma servidão voluntária dos
sujeitos neoliberais.
112
Vê-se, aqui, outro grande e lucrativo locus de atuação capitalista, qual seja, o mercado farmacêutico, no qual
empresas lucram montantes substanciais pela venda de medicamentos para o tratamento dos sujeitos tidos como
patológicos, via, exemplificadamente, antidepressivos e ansiolíticos.
113
“Il semble que se produise, sous la pression de l’Idéal du moi, nourri d’exigences personnelles ou sociétales,
une sorte de clivage du Moi en deux instances: le moi-image et ce que Freudenberger appelle le “véritable moi”,
le moi réel. Ce moi-image n’est autre en fait que le Moi idéal, c’est-à-dire un Moi idéalisé, un Moi identifié à des
idéaux élevés de réussite et de toute-puissance” (AUBERT; GAULEJAC, 2007).
114
Na impossibilidade de realização pessoal, outra analogia bem retrata a contemporaneidade. “O navio Holandês
voador, cuja tripulação, como conta a lenda, consiste de zumbis, pode ser tomada como analogia para a sociedade

46
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

“There is no morality, no faith, no heroism, indeed no meaning outside the


market” (BROWN, 2003).

A preservação da ordem ora exposta, da individualização radical do destino e da


atribuição de todas as crises, inclusive sociais, à esfera individual, relativa à nova subjetividade
do sujeito contemporâneo, depende, em muito, da continuidade sustentável do regime
neoliberal. No entanto, a sua configuração atual, como se conhece, pode estar em crise - apesar
do poder dessa nova racionalidade, decorrente da interiorização sistêmica das regras do jogo,
ou seja, da comunhão do governo de si com o governo dos outros115. Afinal, “um regime que
não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar
sua legitimidade por muito tempo” (SENNETT, 2010).

O capitalismo contemporâneo, em seu estágio final de transformação da totalidade das


relações econômicas, nunca conseguiu criar a coerência sustentável, do regime de acumulação,
que o fordismo criou. Uma série de crises econômicas, algumas delas crônicas, marcam o novo
tempo116. Não o bastante, a própria democracia, assim como a economia, mostra sinais de ter

do cansaço de hoje. O Holandês voador, que navega “sem rumo, sem descanso, sem paz” “como uma seta” se
equipara ao sujeito de desempenho esgotado e depressivo de hoje, cuja liberdade serve como danação de ter de
explorar eternamente a si mesmo. A produção capitalista também não tem meta definida. Já não está em função
do bem viver nem morrer. Está condenado a viajar eternamente no inferno do igual, anelando por um apocalipse
que possa redimi-lo do inferno do igual” (HAN, 2017).
115
“[…] the great strength of this ideology, as opposed to its predecessors, is that it has not started by addressing
the individual itself, through re-education or coercive programmes. It simply gives objects a new status, defines
them as mere commodities and then waits for the inevitable to happen: for human beings to transform themselves
while they adapt to the commodities, which are henceforth promoted as the only reality. Individuals are now being
knocked into shape in the name of a real, and it is advisable to give in rather than resist. The process always has
to look soft, like something we want or desire […] The new capitalism was in the process of discovering and
implementing much less coercive and less costly ways of guaranteeing its own success: it is no longer reinforcing
the secondary domination which has produced submissive subjects. It is destroying institutions and putting an end
to primal domination in such a way as to produce individuals who are supple, insecure, mobile and open to all the
market’s modes and variations” (DUFOUR, 2018).
Simultaneamente, “a dimensão planetária da forma econômica neoliberal faz com que não exista um “fora” do
capitalismo, uma alteridade possível, levando à ideia de “fim da história”, portanto à perda da ideia de
transformação histórica e de um horizonte utópico” (CHAUÍ, 2019).
116
Interessante notar que o modelo neoliberal se aproveita de suas crises para se relançar. Não ocorre, como em
momentos anteriores do capitalismo, em tais situações, uma migração para outras fases. Há, pelo contrário, a
intensificação do controle, representado pelo modo de regulamentação, objetivando o fomento ao próprio modelo
em crise.
O capitalismo contemporâneo, durante seus vários momentos históricos de crise, adotou uma série de respostas
nocivas, a exemplo, cronologicamente, da impressão de papel moeda, do aumento da dívida pública, do aumento

47
entrado em crise117, em paralelo a movimentos sociais de indignação popular 118, impelidos por
um “novo tipo de Estado, que reivindica sacralizar o mercado e abraçar a liberdade, mas, na
realidade, reserva o liberalismo e seus benefícios àqueles que estão no topo, enquanto impõe
o paternalismo punitivo àqueles que estão na base” (WACQUANT, 2012).

No âmbito do ser, a partir do momento em que a liberdade é transformada em uma


obrigação moralizadora de desempenho, todos os sujeitos, democraticamente, são submetidos
aos males do neoliberalismo – de natureza física e mental. Cria-se, pois, uma sociedade
patológica, de sujeitos narcisistas-depressivos, cujo união se dá por um “infarto [coletivo] da

do crédito disponibilizado para as famílias e da transformação da dívida privada em pública, seguida de momentos
de austeridade.
117
Durante o fordismo, havia uma conciliação entre a forma de alocação de recursos pelo mercado – que advoga
uma menor intervenção do Estado, com resultados alegadamente mais eficientes – e pela democracia – baseada na
ideia de justiça social, que pretende resolver o problema das desigualdades produzidas pelo mercado. Contudo,
com a crise desta fase, ocorre um desmembramento dos dois modos, prevalecendo a primeira das citadas formas
de alocação.
Nesse sentido, “não os trente glorieuses mas as várias crises que se seguiram representam a condição normal do
capitalismo democrático — uma condição pautada por um conflito endêmico entre mercados capitalistas e
políticas democráticas, que recrudesceu com o término do alto crescimento econômico dos anos 1970”
(STREECK, 2012). Em termos similares, “liberal democracy cannot be submitted to neo-liberal political
governmentality and survive. There is nothing in liberal democracy’s basic institutions or values – from free
elections, representative democracy, and individual liberties equally distributed, to modest power-sharing or even
more substantive political participation – that inherently meets that test of serving economic competitiveness or
inherently withstands a cost-benefit analysis” (BROWN, 2003). A democracia, portanto, assume um papel vazio,
meramente retórico e comemorativo, quando confrontada pela racionalidade neoliberal.
118
Sucedendo as clássicas mobilizações operárias da época do fordismo - focadas na luta por melhores condições
de trabalho – e a sua crise antidisciplinar, novos movimentos, de natureza identitária, encabeçados por minorias
assujeitadas, passaram a combater as normas rígidas sobre papeis de gênero, sexualidade, etnias e modelo
tradicional de família, amplamente difundidas ao longo da sociedade. Luta-se, pois, contra verdades e valores
morais universais, arbitrariamente impostos por um grupo sobre a identidade de outro – contra, assim, a gênese da
construção de privilégios e da subsequente condenação de sujeitos no jogo neoliberal da competição – e pelo
direito de definição da própria identidade – sejam elas fluidas e/ou fragmentadas -, através da reinvindicação do
discurso para si.
Ainda mais recentes são os novíssimos movimentos sociais, que surgem em meados de 2011, após a propagação
dos efeitos da crise econômica. Tais grupos se organizaram contra o aumento da vulnerabilidade e da insegurança
do trabalho – marcada pela incerteza econômica permanente, pela piora dos níveis de emprego e pelo aumento do
ritmo do trabalho – e contra a crise da democracia representativa – após a reforma do Estado para se adequar ao
modelo de empresa e a subsequente blindagem do sistema político a demandas populares -, utilizando as redes
sociais como sustentáculo primário para se organizarem. Estes movimentos, caracterizados por Gerbaudo como
“cyberpopulism movements”, consideram a Internet “as a “popular space”, a generic space which is populated
by ordinary citizens, and mostly dedicated to non-political activities, (…) but which can nevertheless be politicized,
and turned towards the purpose of popular mobilization against the neoliberal elites responsible for economic
and social disarray” (GERBAUDO, 2017). A defesa de formas de auto-organização independentes do Estado e
de mecanismos de democracia direta, no entanto, não resultou em reformas consistentes das instituições,
deteriorando e desmoralizando estes movimentos, que foram substituídos pela eclosão de frentes de extrema
direita, canalizadores das indignações não atendidas.
Cabe adicionar que os citados movimentos recebem tais designações por inovarem, cada qual, nas três
características principais tipificadoras de conflitos sociais, sendo elas a (i) identidade dos agentes, (ii) o tipo de
conflito e (iii) o espaço de conflito (LACLAU, 2019). Com especial atenção à América Latina, Laclau aponta que
a novidade dos movimentos sociais que emergiram na região é que “as mobilizações populares não mais se
baseiam num modelo de sociedade total ou na cristalização, em termos de equivalência de um único conflito que
dividia a totalidade do social em dois campos, mas numa pluralidade de exigências concretas, conduzindo a uma
proliferação de espaços políticos”.
48
alma”, i.e., uma fadiga sistêmica, que deriva – e ao mesmo tempo contraria – a essência de
desempenho e produtividade da sociedade neoliberal (HAN, 2015). “Plus que la notion de
progrès, c’est celle des peurs et des risques partagés qui semble constituer maintenant le seul
référent commun de notre société” (AUBERT, 2009).

Pression pour ceux qui se laissent bercer par les sirènes de la réussite,
dépression pour ceux qui n’arrivent pas à répondre aux exigences de la haute
performance, stress pour tous ceux qui doivent supporter la culture du
harcèlement. Les uns se dopent pour rester dans la course, les autres se
médicalisent pour soigner leurs blessures, tous vivent dans l’anxiété et la peur
(GAULEJAC, 2005).

Deve-se reconhecer, por fim, como uma das respostas à esgotada, histórica, e nada
natural, moldura gerencialista capitalista contemporânea ora exposta, que possui a chave da
eficácia e do desempenho como métricas absolutas,

[…] that the political, ethical, social, philosophical problem of our days is not
to try to liberate the individual from the state and from the state's institutions
but to liberate us both from the state and from the type of individualization
which is linked to the state. We have to promote new forms of subjectivity
through the refusal of this kind of individuality which has been imposed on us
[…] (FOUCAULT, 1982).

“Surtout ne pas conclure” - conforme Philippe Pignarre e Isabelle Stengers bem


encerram seu livro La Sorcellerie Capitaliste - identifica-se que o trabalho a ser executado por
ideologias contrárias, na sua maior parte de esquerda, não se deve pautar, simplesmente, no
reconhecimento da nova lógica do tempo e, similarmente, na sua crítica. Deve-se,
fundamentalmente, propor uma racionalidade e governamentalidade alternativa - que busque o
fim de uma opressão, e não uma exigência de gozo generalizado - sob o risco de severa
desacreditação caso não o faça. Não se pleiteia, portanto, uma resposta política. Pelo contrário.
Pleiteia-se algo maior, uma reavaliação completa da nossa visão de mundo
(Weltanschaaung)119.

119
É salutar ter consciência de que a negação da lógica neoliberal possui, contemporaneamente, em si, um custo,
possivelmente maior do que o custo de adequação à sua estrutura. Em outras palavras, “si nous avons, au cours de
ce livre, dénoncé quelques-uns des excès de la course à l’excellence, il ne s’agit pas pour autant de rejeter cette
démarche en la considérant globalement comme trop “coûteuse” en termes humains. On pourrait en effet, tout

49
Nestes termos, com este estudo, buscou-se mapear, mesmo que não exaustivamente, o
atual debate em torno do tema da subjetividade no neoliberalismo, aí incluídos os seus
mecanismos estruturais de funcionamento e suas patologias correlatas. Vislumbra-se, à frente,
amplo espaço para teóricos e especialistas se debruçarem sobre as críticas sistêmicas
contemporâneas e proporem uma narrativa substituta à normatividade mercantilista, distinta do
alvitre de retorno a fases anteriores do capitalismo, que implique uma nova forma de conduzir
o sujeito consigo mesmo e com relação aos outros, amparada, v.g., na cooperação e na
assistência mútua. Uma narrativa a criar um

[…] monde dans lequel la compétition serait consacré à reduire les inégalités
sociales et éradiquer la misère. Un monde dans lequel l’exploitation des
ressources ne serait plus conçue sur le mode du pillage, mais sur celui de la
conservation et du renouvellement des ressources naturelles. Un monde
construit pour que chaque humain puisse avoir une place comme citoyen,
comme sujet et comme acteur. Un monde dans lequel le bien-être de tous serait
plus précieux que l’avoir de chacun. Non plus un monde à gérer, mais un
monde à aimer, que nous serions fiers de transmettre à nos petit-enfants
(GAULEJAC, 2005).

Adaptando a colocação de Pascal Bruckner, em “La tyrannie de la pénitence”, não há


dúvidas de que nossa sociedade deu à luz diversos monstros. Contudo, ao mesmo tempo, ela
deu à luz teorias que tornam possível compreender e eliminar estes monstros. Nietzsche, neste
mesmo sentido, afirmara que

[...] os homens podem em consciência resolver continuar a desenvolver-se no


sentido de uma nova civilização, enquanto que antes se desenvolviam
inconscientemente e ao acaso: agora podem criar melhores condições para a
geração dos seres humanos, para sua alimentação, sua educação, sua instrução,
para administrar economicamente a terra como um todo, para equilibrar e
ordenar as energias dos homens em geral, umas em benefício das outras
(NIETZSCHE, 2000).

aussi bien, démontrer que la “non excellence” génère un coût bien supérieur, à maints points de vue, à celui de
l’excellence. Il s’agit donc simplement de prendre conscience que cette quête sans relâche du “toujours plus”,
“toujours mieux”, “toujours plus vite” ne constitue pas une panacée universelle et qu’il faut trouver le juste milieu
nécessaire et ajuster les mécanismes compensateurs adéquats pour que le coût humain du processus ne soit ni
trop élevé ni trop désorganisateur” (AUBERT; GAULEJAC, 2007).
50
Albert Camus, no seu ensaio Le mythe de Sisyphe, frente à questão « est-ce que la
réalisation de l’absurde nécessite le suicide ? », responde: « Non, elle nécessite la révolte ! ».
Isto posto, de adequação patente o chamado de Pablo Neruda, em Los versos del Capitán: La
bandera: «[...] tú, levántate/ pero conmigo levántate/ y salgamos reunidos/ a luchar cuerpo a
cuerpo/ contra las telarañas del malvado/ contra el sistema que reparte el hambre/ contra la
organización de la miseria».

51
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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