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PARA UMA MELHOR

COMPREENSÃO ( P R I N C Í P I O S )
D E S S A LITERATURA
do A n t i g o T e s t a m e n t o
E P A R A FORNECER
E S T R A T É G I A S (M É T O D O S )
PARA SE PREGAR E
ENSINAR E S S E GÊNERO.

INTERPRETAÇÃO DOS
Interpretação dos livros históricos © 2011, Editora Cultura Cristã. © 2006 by Robert B.
Chisholm Jr., com o título Interpreting the Historical Books: An Exegetical Handbook.
Originally published in the USA by Kregel Publications, Grand Rapids, Michigan. Traduzido
com permissão. Todos os direitos são reservados.

1aedição 2011 - 3.000 exemplares

Conselho Editorial
Ageu Cirilo de Magalhães Jr.
Cláudio Marra (Presidente)
Fabiano de Almeida Oliveira
Francisco Solano Portela Neto
Heber Carlos de Campos Jr.
Mauro Fernando Meister
Tarcízio José de Freitas Carvalho
Valdeci da Silva Santos Produção Editorial
Tradução:
Sandra Salum
Revisão:
Wendell Lessa
Márcia Gomes
Michele Cunha
Editoração:
Rissato
Capa:
Leia Design

C542Í Chisholm Jr., Robert B.


Interpretação dos livros históricos / Robert Chisholm Jr.; Traduzido por Sandra
Salum. _ São Paulo: Cultura Cristã, 2011.

192 p.

Tradução Interpreting the historical books

ISBN 978-85-7622-386-3

1. Estudo bíblico 2. Exegese 3. interpretação I. Título


CDU 22.07


6DITORA CULTURA CRISTÃ
R. Miguel Teles Jr., 394 - Cambuci - São Paulo - SP - 01540-040
Caixa Postal 15.136 - 01599-970 - São Paulo - SP
Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 - Fax (11) 3279-1255
www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Ao meu irmão,
Douglas Chisholm,
com quem tenho muitas discussões
animadas e estimulantes
sobre questões bíblicas e teológicas.
SÉCULO
8oa.C.
SÉCULO
8° a.C.
REINO DO NORTE - ISRAEL

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REINO DO SUL- JUDÁ

Gráfico desenvolvido e projetado pelo Rev. Errol G. Corner; revisado por Robert B. Chisholm Jr.
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S u m á r io G eral

Prefácio........................................................................................................... 15
Abreviações.................................................................................................... 17

1. O que é literatura narrativa?..................................................................... 19

2. Principais temas dos livros históricos...................................................... 69

3. O preparo para a interpretação............................................................. 103

4. A interpretação dos textos narrativos...................................................... 131

5. A proclamação dos textos narrativos....................................................... 147

6. Do texto à aplicação: dois exemplos....................................................... 157

Glossário....................................................................................................... 179
*
S u m á r io

Prefácio ...................................................................................................... 15
Abreviações.................................................................................................... 17

1. O que é literatura narrativa?..................................................................... 19


A dimensão literária da narrativa............................................................... 19
Elementos básicos da narrativa............................................................. 20
O C ontexto........................................................................................ 20
P ersonagens........................................................................................ 22
E nredo................................................................................................ 25
Aspectos estruturais................................................................................ 29
Estrutura discursiva.......................................................................... 29
Estrutura dram ática........................................................................... 36
Sequenciamento de p a in éis............................................................... 40
Q uiasm o............................................................................................. 41
Narrativas com sobreposição e flashbacks........................................ 43
Falas e diálogos........................................................................................ 46
Tipos de discurso................................................................................ 46
Funções da linguagem ....................................................................... 48
Lacunas e ambigüidade.......................................................................... 54
Autoridade e perspectiva do narrador................................................. 57
Macroenredo............................................................................................ 60
Intertextualidade..................................................................................... 62
P refiguração....................................................................................... 62
Paralelismo e tipologia narrativa..................................................... 62
Alusão................................................................................................. 64
E co...................................................................................................... 65
Repetição d e palavras-chave.............................................................. 66
Conclusão: princípios de interpretação............................................... 68
12 Interpretação dos livros históricos
2. Principais temas dos livros históricos..................................................... 69
Josu é................................................................................................................ 69
Principais temas....................................................................................... 69
Objetivo geral........................................................................................... 72
Juizes............................................................................................................... 72
Principais temas....................................................................................... 72
Objetivo geral........................................................................................... 75
R u te................................................................................................................ 77

l— 2Sam uel..................................................................................................... 78
Principais temas....................................................................................... 78
A chegada de um profeta (ISm 1—7) ................................................... 78
A escolha de um rei (ISm 8—12)........................................................... 80
O falso início da monarquia (ISm 13—1 5 )........................................ 82
A história de Davi (ISm 16-2Sm 20)................................................. 84
Reflexões sobre a carreira de Davi (2Sm 2 1 -2 4 )............................... 86
l-2 R eis........................................................................................................... 87
Principais temas....................................................................................... 87
Sementes de destruição: Salomão reina (lRs 1 -1 1 )........................... 88
Desintegração e tragédia: o reino dividido (lRs 12-2Rs 2 5 ) ......... 89
l —2C rônicas................................................................................................... 92
Principal tem a......................................................................................... 92
Unidade nacional e um ideal de rei: Davi e Salomão (lC r 1—2Cr 9) 92
Paradigma de liderança divina: lições da dinastia davídica (2Cr 10-36) 93
Esdras— N eemias............................................................................................. 95
Esdras........................................................................................................ 95
Neemias..................................................................................................... 96
Principais temas....................................................................................... 98
Ester................................................................................................................ 98
Sumários tem áticos........................................................................................ 99
A história deuteronômica: Josué—2Reis .............................................. 99
A literatura pós-exílica: l-2Crônicas, Esdras—Neemias, Ester........ 101
Síntese temática geral dos livros históricos......................................... 101

3. O preparo para a interpretação................................................................ 103


M ontar o cenário dos livros históricos......................................................... 103
Cronologia bíblica................................................................................... 103
A conquista, os juizes e a monarquia unida (1400 —931 a.C .)...... 104
14 0 0 - 1200 a.C............................................................................... 104
1200 -93 1 a.C.................................................................................. 106
Sumário 13
A monarquia dividida (931 —722 a.C.) ............................................. 106
931 - 841 a.C.................................................................................... 106
841 - 745 a.C.................................................................................... 108
745 - 722 a.C.................................................................................... 109
O reino de Judá (722 —586 a.C .)........................................................ 109
7 2 2 -6 8 1 a.C.................................................................................... 109
681 - 626 a.C.................................................................................... 110
626 - 586 a.C.................................................................................... 111
O exílio e o retorno(586 —433 a.C .)................................................... 112
Determinar o que o texto é: crítica textual.................................................. 113
Introdução................................................................................................ 113
Dois princípios básicos........................................................................... 113
Não se deve supor de imediato que o texto hebraico tradicional
( massorético) preserva o texto origin a l....................................... 113
As conclusões críticas sobre o texto devem se basear principalm ente
em fatores internos...................................................................... 114
D eterminar o que o texto diz: tradução...................................................... 116
Semântica.................................................................................................. 116
Ferramentas........................................................................................ 116
Métodos e princípios........................................................................... 118
Sintaxe ...................................................................................................... 122
Gramáticas de n ível interm ediário.................................................. 122
Gramáticas de nível avançado......................................................... 123
Leitura de outras opiniões: apoio bibliográfico.......................................... 123
Introduções.............................................................................................. 123
Trabalhos sobre a arte da narrativa............................................... ....... 123
Obras específicas..................................................................................... 124
J o s u é .................................................................................................... 125
Ju íz es................................................................................................... 126
R ute..................................................................................................... 126
l —2Sam uel.......................................................................................... 126
1—2Reis............................................................................................... 127
l —2C rônicas....................................................................................... 128
Esdras— N eemias................................................................................. 129
E ster.................................................................................................... 129

4. A interpretação de textos narrativos....................................................... 131


Métodos diacrônicos................................................................................. 131
A evidência das fontes..................................................................... 131
Os desafios críticos da coesão textual........................................... 132
Um estudo de caso: Davi e Golias............................................. 132
14 Interpretação dos livros históricos
A necessidade de sensibilidade literária e teológica................. 135
Harmonizações: épreciso cau tela.............................................. 137
M étodos sincrônicos.................................................................................. 140
Ênfase na unidade........................................................................... 140
Respeito à autoridade do autor...................................................... 141
Identificação do(s) leitor(es) implícito(s)..................................... 142
Uma proposta do método exegético-literdrio........................................... 144

5. A proclamação dos textos narrativos....................................................... 147


Uma proposta de estratégia hom ilética.................................................... 147
Identificação do(s) princípio(s)................................................................ 149
Aplicação do(s) p rin cíp io(s)..................................................................... 153

6. Do texto à aplicação: dois exemplos....................................................... 157


Massacre em Betei: meninos malvados, um profeta calvo e duas ursas
selvagens (2Rs 2.23-25)............................................................................ 157
O que o texto é? O que o texto diz?.............................................. 157
O que o texto queria dizer?............................................................ 159
Coloque o texto em seu contexto................................................ 159
Analise o texto do ponto de vista literário................................ 159
Faça a síntese do(s) tema(s) da história e com o eles
contribuem para o(s) tema(s) do livro to d o .............................. 164
Avalie como a história deve ter impactado o(s) leitor(es)
implícito(s), considerando sua época, seu lugar e suas
circunstâncias.............................................................................. 165
O que o texto significa para leitores da comunidade da fé em
nossa época?...................................................................................... 165
Uma luz nas trevas: manifestação d e am or sacrificial (Rt 1 ).................... 167
O que o texto é? O que o texto diz?.............................................. 167
O que o texto queria dizer? ............................................................ 167
Coloque o texto em seu contexto................................................ 168
Analise o texto do ponto de vista literário................................ 168
Faça a síntese do(s) tema(s) da história e como eles
contribuem para o(s) tema(s) do livro to d o .............................. 176
Avalie como a história deve ter impactado o(s) leitor(es)
implícito(s), considerando sua época, seu lugar e suas
circunstâncias.............................................................................. 176
O que o texto significa para os leitores da comunidade da fé em
nossa época?...................................................................................... 176

Glossário....................................................................................................... 179
P r e f á c io

Quando as pessoas ouvem a palavra “História”, geralmente pensam em


datas, nomes, lugares e acontecimentos. Normalmente, a historiografia não é
um gênero de literatura apreciado, pois as pessoas a têm como um registro
árido de meros fatos que sucederam no passado. Essa é a razão por que muitos
se esquivam da leitura dos livros históricos do Antigo Testamento. Todavia, se
aproximarmos nosso olhar dessa literatura, descobriremos a existência de muitas
histórias empolgantes e fascinantes, e a maioria das pessoas ama uma boa
história, principalmente em nosso contexto contemporâneo pós-moderno. Por
causa dessa dimensão literária, a leitura dos livros históricos é mais parecida
com a de um romance histórico completo, com estrutura de enredo e
desenvolvimento de personagens. O próprio Deus aparece como um
personagem no drama que se desenvolve. Tais histórias adquirem relevância
especial, quando levamos em conta o fato de que são verdadeiras. De fato, de
todas as histórias que foram escritas na História da humanidade, as bíblicas
são as mais relevantes, pois somente elas são Escritura inspirada. Temos que
admitir que alguns desses fatos aparentemente áridos que normalmente são
associados à História —listas, genealogias e datas —estão presentes, mas até
esses detalhes adquirem significado quando os vemos contribuindo para a
História maior na qual estão integrados. As mais extensas são, às vezes, chamadas
narrativas. Para o maior proveito da leitura dos livros históricos do Antigo
Testamento, é bom saber algo a respeito de como o gênero narrativo “funciona”.
Com esse intuito, o capítulo 1 busca responder à pergunta: “O que é literatura
narrativa?”. O capítulo termina com uma lista de princípios de interpretação
que devem ser considerados quando se lê literatura narrativa, quer seja nos
livros históricos quer seja em qualquer outro lugar no Antigo Testamento.
Os livros históricos do Antigo Testamento são Josué, Juízes, Rute,
l-2Sam uel, l-2R eis, l-2Crônicas, Esdras, Neemias e Ester. Seguindo a
estrutura da Septuaginta (a antiga versão do Antigo Testamento em grego),
esses doze livros estão agrupados em nossa Bíblia e seguem uma seqüência
cronológica aproximada. Contam a história de Israel desde a conquista de
16 Interpretação dos livros históricos
Canaã nos dias de Josué até o retorno do exílio séculos depois, ainda que haja
alguma sobreposição entre Samuel, Reis e Crônicas. A Bíblia hebraica, que
consiste na Lei, nos Profetas e nos Escritos, organiza os livros de maneira
diferente. Josué, Juízes, l-2Samuel e l-2Reis aparecem nos Profetas. Juntos,
são conhecidos como os Antigos Profetas.1 Os seis livros restantes aparecem
nos Escritos. Nessa terceira divisão do cânone hebraico, Rute e Ester são dois
dos cinco Megilotes ou Rolos (os outros são Cântico dos Cânticos, Eclesiastes
e Lamentações), enquanto que Esdras—Neemias e 1—2 Crônicas estão no final
da Bíblia hebraica.2
Os termos técnicos se encontram definidos no glossário no fim do livro e
são marcados em negrito no texto, quando aparecem em novas partes.

A b r e v ia ç õ e s

AB Anchor Bible
ANEP Pritchard, James (org.) The Ancient NearEast in pictures relating
to the O ld Testament. Princeton, 1954.
ANET Prichard, James (org.) Ancient Near Eastern texts relating to the
Old Testament. 3a ed., Princeton, 1969.
AUSS Andrews University Seminary Studies
BDB Brown, E, S. R. Driver e C. A. Briggs. A hebrew an d english
lexicon o fth e Old Testament. Oxford, 1907.
BHS Biblia Hebraica Stuttgartensia
BSac Bibliotheca sacra
CBQ Catholic B iblical Quarterly
COS Hallo, W. W. (org.) The context ofScripture. Leiden, 2003.
DSS Dead Sea Scrolls
HALOT Koehler, L., W. Baumgartner, e J. J. Stamm. The hebrew an d
aramaic lexicon o fth e Old Testament. Traduzido e organizado
sob a supervisão de M. E. J. Richardson. Edição para Estudos.
2 vols. Leiden, 2001. (O editor disponibilizou também uma
versão eletrônica, bem como uma edição impressa mais cara
em cinco volumes, idêntica em conteúdo à Edição para
Estudos, mas com letras maiores.)
IBHS Waltke, Bruce K., e M. 0 ’Connor. An introduction to biblical
hebrew syntax. WinonaLake, Indiana: Eisenbrauns, 1990.
JANESCU Jo u rn a l o f the A ncient N ear Eastern S ociety o f C olum bia
University
JAOS Journal o fth e American Oriental Society
JBL Journal o f Biblical Literature
JNSL Journal o f Northwest Sem itic Languages
18 Interpretação dos livros históricos
JSOTSup Journal for the Study of the Old Testament: Supplement Series
LXX Septuaginta
NAC New American Commentary
N et New English Translation
NICOT New International Commentary on the Old Testament
Niv New International Version
NIVAC NIV Application Commentary
OTL Old Testament Library
PRU Le palais royal d ’Ugarit
SBLDS Society of Biblical Literature Dissertation Series
SJOT Scandinavian Journal o f the Old Testament
VT Vetus Testamentum
WBC Word Biblical Commentary
WTJ Westminster Theological Journal
O QUE É
LITERATURA NARRATIVA?

Os livros históricos são geralmente classificados como literatura narrativa


porque fazem o relato da história de Israel no estilo dos livros de história.
A narrativa do Antigo Testamento, como se mostra nos livros históricos, abran­
ge vários gêneros literários, incluindo histórias, relatos, genealogias e listas.
As histórias têm uma estrutura de enredo e comumente apresentam persona­
gens. Elas variam em extensão. A história de Eúde, por exemplo, inclui apenas
19 versos (Jz 3.12-30), enquanto que a história de Davi ocupa metade de
1 Samuel e todo o livro de 2Samuel. Um relato não apresenta estrutura de enre­
do e criação de personagens; tipicamente, faz um breve sumário de um aconte­
cimento ou do reinado de um monarca. Os relatos se encontram entremeados
por todo o texto de 2Reis (p.ex., 2Rs 15). As genealogias consistem em árvores
genealógicas das tribos e subtribos (p.ex., lC r 1—9). Aparecem vários tipos de
listas, incluindo, entre outras, os reis derrotados (Js 12.7-24), divisas e cidades
(intercaladas ao longo do texto de Js 13—21), guerreiros (2Sm 23.8-39) e retor­
nos de exílios (Ed 2). Outros gêneros literários se acham incorporados dentro
da literatura narrativa, incluindo canções de vitória (p.ex., Jz 5) e orações (p.ex.,
ISm 2.1-10). A tarefa do intérprete é explicar a linha da história na literatura e
mostrar como a diversidade de conteúdo contribui para o todo.
A DIMENSÃO LITERÁRIA DA NARRATIVA
Os evangélicos afirmam que as descrições do Antigo Testamento, inclu­
indo as narrativas, são historicamente precisas, embora também reconheçam
que ambas tenham uma dimensão literária. As narrativas do Antigo Testamen­
to não apenas informam o leitor sobre o que sucedeu. Elas têm uma dimensão
literária e estética que contribui para seu propósito teológico geral. Em outras
palavras, as narrativas do Antigo Testamento contam a história de Israel de uma
maneira envolvente e emocionante, que ressalta o relacionamento de Deus com
seu povo. Quando a história termina, deixa traçado um retrato de Deus, que
20 Interpretação dos livros históricos
contribui para a representação divina total na Bíblia. A dimensão literária da
narrativa é, geralmente, o meio pelo qual os fatos rudimentares da história
adquirem uma dimensão teológica.
Elementos básicos da narrativa

As histórias do Antigo Testamento, como toda história, têm três elemen­


tos básicos: o contexto (onde e quando acontece), os personagens (como os
participantes são apresentados e criados) e o enredo (como se desdobra e envol­
ve mentes e corações).3
O contexto
O contexto tem dimensões culturais, temporais e físicas.4 O contexto
físico de um relato pode ser geográfico e/ou topográfico. Por exemplo, a luta de
Sansão com o leão acontece perto das vinhas deTimna (Jz 14.5), ao passo que
a luta de Elias com os capitães do exército de Acazias ocorre num monte não
identificado (2Rs 1.9). Geralmente, as referências ao ambiente físico ajudam o
leitor a visualisar a cena; os elementos do cenário físico são os objetos do palco,
por assim dizer. Mas, às vezes, o contexto físico pode ter uma função mais
significativa. Como nazireu, Sansão não podia beber o fruto da videira
(Nm 6.4; cfr. Jz 13.4). Quando Sansão se aproxima das vinhas de Timna, a
história adquire um tom sinistro e, então, percebemos que nesse ambiente há
ameaças ao status de Sansão como nazireu.
O mesmo acontece mais tarde na história, quando Sansão se apaixona
por uma mulher que mora no vale de Soreque (literalmente “vale da videira”).5
O território onde habita tem um nome nefasto e ela prova ser a derrocada de
Sansão ao conseguir seduzi-lo a abrir mão do seu status de nazireu em troca dos
seus encantos. Em 2Reis 1, Elias está sentado no cume de uma colina quando
os capitães se aproximam e exigem que ele desça. A atitude dos dois primeiros
capitães mostra que eles consideram o profeta sujeito às ordens do rei; mas, na
verdade, Elias, como profeta do Senhor, tem autoridade sobre o rei e seus
mensageiros, fato que é simbolizado por sua posição física acima deles.
O contexto temporal de uma história pode ter significado. Por exemplo,
o livro de Rute inicia com a frase “Nos dias em que julgavam os juízes”. Essa
simples oração temporal informa ao leitor a época em que a história ocorre,
mas adquire significação maior no desenrolar da história. A época dos juízes
foi um período de caos moral, em que as pessoas seguiam seu próprio código
de ética e não o de Deus (Jz 17.6; 21.25). Mas a história de Rute brilha
intensamente, contrastando com esse tenebroso cenário, pois retrata personagens
que demonstram as virtudes da compaixão e do amor leal, qualidades que, na
maioria das vezes, estavam ausentes na época dos juízes.
O que é literatura narrativa? 21
A percepção do contexto cultural de uma história é muito importante
para a interpretação. Por exemplo, não se pode estimar completamente o
significado dos atos de Elias em IReis 17 sem certo conhecimento da mitologia
semítica ocidental. A viagem de Elias à Fenícia ocorre durante o reinado de
Acabe, que se casou com uma mulher fenícia e tornou o culto a Baal uma
religião oficial em Israel (lRs 16.30-34). Para os cananeus, Baal era o deus da
chuva, responsável pelo crescimento da colheita. Que apropriado e irônico o
fato de o Senhor ter mandado uma seca à terra, como punição por causa da
apostasia de Acabe (lRs 17.1)!
Segundo o mito semítico ocidental, a chegada da seca foi um sinal de que
Baal fora derrotado, ao menos temporariamente, por seu maior inimigo, Mot,
o deus da morte e do inferno. Durante a época da seca, Baal era prisioneiro de
Mot e incapaz de cumprir sua responsabilidade como rei, que era suprir a ca­
rência do povo e assegurar a fertilidade.
Contrapondo-se a esse contexto, os feitos de Elias em IReis 17 assumem
grande significado. Por meio de Acabe, o deus Baal, por assim dizer, invade o
território israelita. Mas, então, enquanto Baal está incapacitado e impossibilitado
de recompensar seus fiéis adoradores, o profeta do Senhor invade a base
domiciliar dele. Por intermédio de seu profeta Elias, o Senhor cuida de uma
viúva carente, suprindo-a milagrosamente com gêneros de primeira necessidade
(farinha e óleo). Enquanto Baal definha nas profundezas do inferno como
prisioneiro da morte, o Senhor demonstra seu poder sobre a morte, ressuscitando
o filho da viúva. Os acontecimentos registrados em IReis 17 preparam o terreno
para o confronto entre Elias e os profetas de Baal no monte Carmelo (lRs 18).
Os profetas de Baal se retalhavam com facas, num esforço para ressuscitar o
deus deles da morte. O mito semítico ocidental indica que essa automutilação
era um ritual de lamentação destinado a facilitar o retorno de Baal. Mas o
Senhor prova que reina sobre as intempéries, quando consome o sacrifício
com raios e a seguir envia uma chuva torrencial.
A noção do mito semítico ocidental também ajuda a compreender melhor
o significado das provas de Gideão com a lã (Jz 6.36-40). À ordem do Senhor,
Gideão derriba o altar de Baal que era de seu pai. Quando os homens da
cidade ameaçam matá-lo, seu pai desafia Baal a defender sua honra. Ele dá um
novo nome a Gideão, Jerubaal, que significa (ou pelo menos sugere), fazendo
um jogo sonoro, “Baal contenda contra ele”. A escolha dos sinais feita por
Gideão não é arbitrária ou aleatória. As provas têm a intenção de demonstrar o
controle do Senhor sobre o orvalho. Segundo o mito semítico ocidental, Baal
controlava a chuva e o orvalho. Em uma lenda, a fraqueza de Baal causa o
desaparecimento da chuva e do orvalho.6 Uma das filhas de Baal se chama
“Orvalho” (“Tallaya”).7 Gideão tinha derribado o altar de Baal, privando-o
dos sacrifícios. Seu novo nome, Jerubaal, o tornou alvo dos raios de Baal.
Vendo a demonstração de que Deus é soberano sobre o orvalho - um campo
22 Interpretação dos livros históricos
supostamente controlado por Baal —,Gideão tem garantia de que está protegido
da vingança do deus.8
Personagens
Os personagens são um dos ingredientes necessários de qualquer história.
Sem eles, tudo o que temos é um palco vazio ou uma imagem fixa, desprovida
de enredo. Como os personagens têm papéis tão importantes, é essencial anali­
sar como o autor os descreve e como eles agem. Deve-se procurar responder as
seguintes perguntas: como o autor apresenta o personagem? Se o personagem
se desenvolve no decorrer da história, como isso acontece? De que maneira(s),
se houver alguma(s), o personagem é um exemplo para se imitar ou para se
evitar? O que a experiência do personagem nos ensina sobre a maneira como
Deus se relaciona com as pessoas?
Deve-se atentar especialmente para a maneira como o narrador avalia
cada personagem, incluindo quaisquer comentários sobre seus pensamentos e
motivações íntimas. Por exemplo, os vários personagens em Juízes 17—21 po­
dem ser avaliados de uma forma negativa à luz de uma declaração sucinta que
aparece no começo e no fim do trecho (cfr. 17.6; 21.25). Os personagens prin­
cipais das histórias ilustram a observação de que “cada qual fazia o que achava
mais reto”, sem considerar o que a lei de Deus ordenava. Até a motivação mes­
quinha de Mica para empregar o levita nômade nos é revelada (Jz 17.13).
Infelizmente, os narradores fazem poucos comentários avaliativos desse
tipo direto, quando o fazem. Eles preferem simplesmente descrever o apareci­
mento e as ações de um personagem, deixando que o leitor faça uma avaliação
baseada na apresentação completa do mesmo em toda a história. Isso torna a
tarefa de interpretar desafiadora e, de alguma forma, subjetiva. Por exemplo, a
primeira parte da história de Davi procura convencer o leitor de que Davi é
realmente o rei escolhido por Deus, em oposição a Saul, que foi rejeitado.
Falando de modo geral, o narrador apresenta Davi sob uma ótica positiva, pelo
menos se comparado a Saul, mas isso não significa que tudo o que Davi faz
mereça uma nota positiva. Em muitos aspectos, a história de Davi termina em
tragédia, enquanto sua família e seu reinado se desintegram à sua volta. À me­
dida que a história se desenrola, vários acontecimentos perturbadores prenun­
ciam a degradação moral de Davi. Por exemplo, apesar dos seus êxitos, que
foram resultado da bênção e da presença protetora de Deus (2Sm 5.10,12),
Davi possui um harém, violando alei de Deuteronômio (Dt 17.17; 2Sm 3.2-5;
5.13-16). Enquanto essas esposas, que parecem ser “garotas de programa”, não
o levam a se inclinar para outros deuses (a principal consideração de Dt 17.17),
o harém, que se torna cada vez maior, mostra que Davi tem uma fascinação
pelas armadilhas da vida monárquica da sua sociedade. Seu ato abre um mau
precedente que, posteriormente, causa um conflito interno em sua corte e leva
O que é literatura narrativa? 23
Salomão a uma evidente desobediência à lei de Deus (cfr. lRs 11). Davi tam­
bém falha em disciplinar seus filhos Amnom (2Sm 13.21 [LXX, DSS; cfr. no­
tas textuais de NRSV, ESV]) e Adonias (lRs 1.6). Ele mostra ser um persona­
gem bastante humano e complexo. Revela grande fé, mas também as piores
imperfeições do ser humano.
Os personagens podem ser analisados de várias maneiras. Eles podem ser
classificados de acordo com o papel que desempenham na história. Os principais
são aqueles sobre quem o narrador concentra sua atenção, enquanto que os
secundários geralmente cumprem uma função simples. Pode haver mais de
um personagem principal numa história, mas geralmente há somente um que
é central, ou protagonista. Os personagens centrais podem ser apresentados de
forma positiva ou negativa. Alguns são heróis (p.ex., Eúde), outros são mal-
sucedidos (p.ex., Saul). Muitos são uma mistura muito parecida com o ser
humano, que se situa entre esses dois polos (p.ex., Davi). Como a história de
Israel é, em sua maior parte, a história da falha humana, os personagens
frequentemente têm uma dimensão trágica (p.ex., Jefté, Sansão, Saul, Davi).
Os personagens também podem ser classificados de acordo com a extensão
do seu desenvolvimento. Podem ser esféricos ou planos. Personagens esféricos
parecem bastante humanos e manifestam uma ampla variedade de emoções e
de traços de personalidade. Suas limitações e fracassos, bem como seus êxitos e
pontos fortes são registrados (p.ex., Abraão, Jacó, Gideão, Sansão, Samuel,
Saul, Davi, Elias). Personagens planos são unidimensionais, geralmente exibindo
apenas um número limitado de traços de personalidade (p.ex., Eúde,
Abimeleque, filho de Gideão, Boaz).
Quando se analisa personagens, ambas as categorias devem ser
consideradas. Para visualizarmos isso, podemos traçar um eixo vertical que
representa a extensão do desenvolvimento do personagem, com “esférico”, na
extremidade superior, e “plano”, na extremidade inferior. A seguir, cruzando-
o, podemos traçar um eixo horizontal, com o “principal” à esquerda e o
“secundário” na extremidade direita.

PRINCIPAL SECUNDÁRIO

PLANO
24 Interpretação dos livros históricos
Os personagens que se situam no quadrante superior esquerdo criado
pela interseção dos eixos são principais e esféricos. Podem ser denominados
protagonistas. A maioria dos personagens nas histórias mais longas da Bíblia
são protagonistas (p.ex., Saul e Davi).
Os personagens que se encaixam no quadrante superior direito são
esféricos, mas secundários. Podemos chamá-los de atores e atrizes coadjuvantes.
Existem relativamente poucos personagens desse tipo no Antigo Testamento.
Jônatas é um excelente exemplo (ISm 13—14; 18—20; 23; 31). A figura dele
tem certo grau de elaboração, mas não na extensão da figura de Saul ou de
Davi. Como um personagem secundário, ele funciona principalmente como
contraste de Saul. Quando Saul vacila, Jônatas demonstra fé e coragem. Embora
Saul falsamente acuse Davi e procure matá-lo, Jônatas o reconhece como o rei
escolhido por Deus e jura lealdade a ele. Jônatas é também um exemplo muito
triste de como a falha de Saul causa impacto negativo em tantas pessoas que
são próximas a ele.
Os personagens do quadrante inferior esquerdo são principais, mas planos.
Podemos chamá-los de tipos. Os tipos geralmente dão exemplo de um traço de
caráter que é para ser imitado ou evitado. Por exemplo, Eáde é um tipo de
líder corajoso, cuja fé se torna um canal através do qual Deus liberta seu povo
da opressão (Jz 3.12-30). Com exceção da sua fé, que é revelada num ato
destemido e decisivo, num episódio único de sua vida, quase não sabemos
mais nada sobre esse homem.
Finalmente, os personagens do quadrante inferior direito são secundários
e planos. Eles geralmente funcionam como meros agentes na história. Eles
têm um papel restrito para cumprir, cujo objetivo normalmente não é servir
como modelo de comportamento. De vez em quando, um agente serve como
contraste de um personagem principal. Por exemplo, Orfa é o contraste de
Rute (Rt 1.4-19). Quando Noemi insiste com as moças para que retornem a
Moabe, Orfa faz o que é esperado - ela se despede e volta para casa. Mas o
amor de Rute por Noemi a faz permanecer com sua sogra, mesmo quando essa
dedicação parece ser ilógica e absolutamente imprudente. Orfa não é uma
pessoa má. Ao contrário, ela é uma boa nora, que tratou bem a Noemi. Ela
merece e recebe a bênção de Noemi (Rt 1.8). Mas a bondade de Rute vai além
—seu amor por Noemi transcende a norma. Assim, a comparação entre as duas
moças não é expressa em termos de boa versus má, mas de boa versus excelente.
Fazendo menção de Orfa, o narrador tem como objetivo destacar Rute.
Uma das características impressionantes das histórias bíblicas é que Deus,
com frequência, aparece como um personagem. O intérprete fica numa situação
embaraçosa, pois pode parecer um sacrilégio ver Deus como um personagem
de uma história e analisá-lo como se faria com o herói de um romance.
No entanto, precisamos resistir ao impulso de nos esquivarmos dessa análise.
O que é literatura narrativa? 25
Afinal de contas, é entrando na história do homem e se revelando em histórias
por ele inspiradas, nas quais desempenha papel proeminente, que Deus nos
convida a aprender algo sobre ele mesmo, a partir dessas apresentações literárias
que revelam sua pessoa no espaço e no tempo. Ao analisarmos como Deus é
caracterizado, devemos nos lembrar de que essas histórias refletem a
autorrevelação de Deus de uma forma culturalmente contextualizada e
condicionada. Quando abrimos as Escrituras, descobrimos que mesmo o
primeiro livro contém histórias, não uma teologia sistemática. O interesse dessas
histórias não é tanto fazer declarações filosóficas sobre o caráter divino, mas
revelar um Deus dinâmico e pessoal, que deseja se relacionar com seu povo e
os conduz em direção ao alvo que tem para eles.
Se buscarmos apenas a verdade ontológica sobre Deus na narrativa bíblica,
provavelmente ficaremos frustrados com a diversidade evidente na caracterização
de Deus. Mas se abordarmos o texto como ele é e procurarmos descobrir o que
diz a respeito da maneira como Deus se relaciona com seres humanos, sairemos
revigorados e encorajados com o retrato de um criador soberano, onipotente,
que entra de maneira pessoal e íntima no mundo que lhe pertence. Em Gênesis,
faz uma visita pessoal a Abraão (Gn 18) e até se inclina a lutar com um
personagem particularmente recalcitrante (Gn 32.22-32).
Também descobrimos Deus trabalhando nos bastidores, por meio de
ações e escolhas humanas, e agindo, apesar delas, à medida que transforma
providencialmente as ações pecaminosas e malévolas de um grupo de irmãos
cheios de ódio, em redenção para uma família, cumprindo a promessa feita a
um servo fiel que passara por um difícil teste de fé (Gn 37-50; cfr. Gn 22).9
No final, esses elementos se complementam —os polos da transcendência e da
imanência, bem como a dimensão intermediária da providência, refletem a
relação de Deus com o mundo que lhe pertence.

Enredo
O terceiro elemento básico de uma narrativa é o enredo, ou a seqüência
dos eventos. No cerne de um enredo se encontra um conflito que envolve o
personagem principal. Esse conflito geralmente implica um teste ou um desafio.
O conflito do protagonista pode ser exterior, colocando-o de fronte a um
antagonista. São exemplos: a luta de Davi com Golias (ISm 17), o esforço
contínuo de Saul para matar Davi (ISm 18—27) ou o confronto de Elias com
os profetas de Baal e com a patrocinadora deles, a perversa rainha Jezabel (lRs
18). Os conflitos do protagonista também podem ser interiores, como na
história de Elias (lRs 19).
Tanto a dimensão exterior como a interior podem estar presentes numa
história. Por exemplo, dentro do contexto do conflito exterior de Elias com
Jezabel, ocorre uma luta mais profunda na alma do profeta. Apesar da sua
26 Interpretação dos livros históricos
vitória no Monte Carmelo, ele estremece face à ameaça de vida feita por Jezabel
e foge para o longínquo Monte Sinai, quase abandonando sua vocação profética.
Ali o Senhor o confronta, tenta encorajá-lo e restaura seu comissionamento.
O Senhor lhe ordena que unja, pela ordem, Hazael (como novo rei da Síria),
Jeú (como novo rei de Israel) e Eliseu (como seu profeta sucessor) (v. 15-18).
Mas na batalha interior, Elias é derrotado. Ele vai diretamente a Eliseu e o
unge (v. 19), como se dissesse a Deus: “Eu desisto. Deixai que Eliseu assuma”.
Mais tarde, é Eliseu, e não Elias, que anuncia a ascenção de Hazael ao trono da
Síria (2Rs 8.13) e unge Jeú rei de Israel (2Rs 9.6).
Assim como o intérprete procura avaliar o modo como o enredo de uma
história contribui para o significado dela, é de grande auxílio trabalhar com
algumas categorias. A meta final da exegese não é rotular o tipo de enredo de
uma história ou encaixar a história dentro de uma classificação de formas, mas
considerar como o tipo de enredo e a estrutura de uma história podem ajudar
a compreender as características dramáticas dela e sua função dentro de seu
contexto mais abrangente.
As histórias bíblicas exibem uma variedade de tipos de enredo. De um
lado do espectro, encontramos as tragédias, as histórias de punição e as
histórias de exemplo negativo. Em uma tragédia, o protagonista, que tem
potencial, ou pelo menos tem oportunidade, de ter êxito e alcançar glória,
falha e cai, geralmente em razão de uma limitação humana e fatal. Os exemplos
bíblicos são abundantes - Sansão, Saul e Davi são algumas das figuras trágicas
mais conhecidas.
As histórias de punição destacam o tema da justiça de Deus. Um
transgressor viola os padrões morais de Deus e sofre as conseqüências do seu
comportamento, frequentemente por meio de uma combinação de intervenção
divina direta e de manipulação providencial de eventos, como no caso de
Abimeleque, o tirano homicida, e os cidadãos de Siquém (Jz 9). Abimeleque
mata seus meio-irmãos e se torna rei de Siquém. Em resposta à maldição de
Jotão, o Senhor envia um espírito para provocar hostilidade entre Abimeleque
e o povo de Siquém. Por meio de uma série de relatos transmitidos no tempo
oportuno, Abimeleque ataca e destrói Siquém, mas em seguida é morto por
uma mulher que lança sobre ele uma pedra de moinho.
As histórias de exemplo negativo apresentam um personagem sob uma
ótica negativa, como um modelo a ser evitado. A história de Jefté, embora
tenha uma dimensão trágica, caracteriza-se melhor como uma história de exem­
plo negativo (Jz 10-12). Jefté tem uma causa justa e é fortalecido para a batalha
pelo Espírito de Deus, mas sua fé vacila e ele barganha com Deus, prometendo
sacrifício humano em troca de vitória sobre os amonitas. Colocando-se em
uma enrascada, é obrigado a oferecer sua filha em holocausto para cumprir um
voto que era fruto do medo e que refletia a influência do paganismo sobre sua
O que é literatura narrativa? 27
maneira de pensar. Sua fé débil e sua falta de visão o fizeram uma antítese
daquilo que Israel necessitava em um líder.
Podem-se distinguir esses tipos de enredo pela reação emocional que
produzem no leitor. As tragédias nos fazem chorar de tristeza, as histórias de
punição trazem um sentimento de satisfação ao vermos o transgressor
recebendo o que merece, e as histórias de exemplo negativo nos fazem franzir
a testa e sacudir a cabeça, em desaprovação ao comportamento desordeiro do
personagem principal.
Do lado positivo do espectro, encontram-se os enredos alegres, as
histórias de recompensa e as histórias de admiração. Num enredo alegre, o
protagonista enfrenta desafios e obstáculos, mas os ultrapassa pela fé e pela
intervenção divina. Por exemplo, o livro de Rute tem um tipo de enredo
alegre. A vida da personagem principal, Noemi, reduz-se à pobreza com a
morte do seu marido e de seus dois filhos. Ela volta para casa com amargura,
pensando que Deus é seu inimigo. Mas, quando o Senhor intervém
providencialmente nas circunstâncias da vida dessa mulher, por meio da
dedicação de sua nora Rute e da bondade de Boaz, seu parente, ela se
transforma. Na cena final da história, seus amigos, que a viram derramar seu
amargo ressentimento ao chegar a Belém, a fazem lembrar que o Senhor a
abençoou com um neto que irá protegê-la na velhice.
As histórias de recompensa, da mesma forma que as histórias de punição,
ilustram a justiça de Deus. No entanto, nas histórias de recompensa, Deus
galardoa um personagem que é fiel e obediente. A história da mulher sunamita
(1 Rs 4.8-17) é um bom exemplo. Prover o bem-estar de Eliseu toda vez que ele
passava por Suném se tornou uma prática habitual para ela. Para recompensar
a bondade dela, Eliseu, obviamente em sua função de profeta, anuncia que ela
finalmente terá um filho.
As histórias de admiração, em oposição às histórias de exemplo negativo,
apresentam um personagem sob uma ótica positiva, como um exemplo a ser
seguido. A história de Ester ilustra esse tipo de enredo. No harém do rei, Ester
se encontra numa posição estratégica, embora insegura. Quando Mordecai a
desafia a agir e interceder em favor do seu povo, ela aceita o desafio e arrisca
sua vida para salvá-los.
Esses tipos de enredo positivos podem também ser distinguidos pela reação
emocional que causam no leitor. Os enredos alegres nos fazem chorar de alegria,
as histórias de recompensa despertam aplausos calorosos quando o personagem
fiel recebe aquilo que merece e as histórias de admiração nos fazem sorrir e
aprovar o comportamento louvável do personagem principal.
Muitas vezes, os tipos de enredo aparecem combinados numa única
história. Embora haja um tipo de enredo dominante ou principal, outros
elementos estão às vezes presentes. Por exemplo, ISamuel 25 é essencialmente
28 Interpretação dos livros históricos
uma história de admiração. Davi é tentado a se vingar de Nabal, um tolo que
não mostra respeito pelo futuro rei de Israel. Mas Davi ouve a voz da sabedoria
personificada em Abigail, desiste da violência e permite que o Senhor traga a
punição a Nabal. Ao mesmo tempo, Nabal, o antagonista, é um exemplo
negativo de alguém que se opõe a um rei escolhido por Deus. Sua morte
acrescenta um elemento negativo à trama. A história de Ester é uma de
admiração, mas possui também elementos de um enredo de punição, no qual
o antagonista, Hamã, é merecidamente punido por seu pecado e termina
pendurado na forca que havia preparado para Mordecai. Quando o foco é
Noemi, o personagem principal do livro de Rute, a história tem um enredo
alegre; mas, no brilhante exemplo de Rute, pode-se também detectar tanto os
elementos de recompensa quanto de admiração.
A estrutura do enredo pode variar, dependendo da extensão, da
complexidade e do(s) tipo(s) de enredo da história. A estrutura das histórias de
admiração e das histórias de exemplo negativo pode ser bastante simples. Após
alguma referência à ambientação da história, o protagonista, de uma maneira
típica, enfrenta um desafio ou teste no qual ele fracassa (p.ex., Caim em
Gn 4.1-16) ou tem êxito (p.ex., Abraão, que entrega seu filho Isaque em
Gn 22.1-19). Os elementos das histórias de punição ou de recompensa às
vezes aparecem no desfecho da narrativa.
Os enredos trágicos e os alegres geralmente são mais complexos. Uma
vez estabelecido o contexto, surge um conflito, criando uma complicação que
requer uma solução. Com o desenvolvimento da história, essa tensão será
posteriormente resolvida de uma forma ou de outra, mas geralmente com
reviravoltas no enredo e acréscimo de tensão. Por exemplo, a história de
recompensa em 2Reis 4.8-17 é imediatamente seguida de um enredo alegre,
no qual a mulher sunamita enfrenta um tremendo desafio de fé. Enquanto
trabalhava no campo (v. 18 = contexto), seu filho repentinamente se queixa de
uma terrível dor de cabeça (v. 19 =complicação). A tensão aumenta no momento
em que o menino morre no colo da mãe (v. 20). Essa reviravolta inesperada no
enredo geral do capítulo ameaça solapar a história de recompensa anterior.
A tensão continua quando a mulher deita seu filho na cama do profeta e vai
para o Monte Carmelo (v. 21-26). Pode-se até ter a impressão de que ela seja
bastante estóica com relação ao que sucedeu, mas logo se vê que esse não é
realmente o caso. Seus sentimentos verdadeiros explodem quando encontra
Eliseu e insinua que ele deve ter pregado uma peça nela (v. 27-28). Nota-se sua
fé através de sua atitude (v. 27, ela abraça os pés de Eliseu) e de suas palavras
(v. 30, ela insiste em permanecer com Eliseu). A tensão é de certa forma aliviada
quando Eliseu manda que Geazi vá e tente ressuscitar o menino (v. 29-30),
mas atinge um nível insuportável quando ele volta e conta que a criança não
reagiu (v. 31). O enredo alcança seu clímax no versísulo 34, quando o profeta
O que é literatura narrativa? 29
se estende sobre o menino e a carne da criança aquece. Quando o menino
começa a respirar novamente, o leitor respira aliviado, pois a complicação da
história foi solucionada e sua tensão foi afastada. Quando a mulher toma o
filho nos braços, o leitor se convence da integridade do profeta do Senhor e
daquele que o enviou.
Aspectos estruturais

Estrutura discursiva
Além da estrutura do enredo, as histórias do Antigo Testamento tam­
bém mostram uma estrutura discursiva.10A análise e a descrição da estrutura
do discurso nos ajudam a ver os contornos básicos da história no nível su­
perficial e contribuem para a análise da estrutura dramática e outras caracte­
rísticas literárias (vd. a seguir). A estrutura discursiva de uma história é composta
de três elementos principais: a linha central da narrativa, as construções inde­
pendentes e as falas.
A linha central é, em essência, a linha da história —a seqüência de ações que
forma a espinha dorsal da história. As histórias podem iniciar de várias maneiras,
mas a linha da história em si é iniciada de forma típica e a seguir levada adiante
com orações introduzidas por formas verbais do wayyiqtol (ou tempo pretérito),
geralmente denominadas consecutivas de vav com imperfeito). A maioria das
orações com wayyiqtol são seqüenciais ou consequenciais, mas também podem
ter uma série de funções menos comuns.11A lista a seguir, embora não seja exaus­
tiva, indica as funções principais das orações com wayyiqtol.

1) Iniciatória: a oração com wayyiqtol põe a história propriamente dita


em movimento.
2) Seqüencial: a oração expressa uma ação que sucede a ação precedente.
3) Consequencial: a oração expressa uma ação que sucede a ação precedente
tanto logica quanto temporalmente.
4) Introdutória: geralmente uma oração com w ayyiqtol (especialmente
uma que consiste de TH —lit. “e era” mais uma palavra ou frase
temporal) introduz um episódio ou cena, criando um pano de fundo
para a história prosseguir.
5) Flashbach. às vezes, o narrador interrompe a seqüência de eventos e
emprega uma oração com wayyiqtol para se referir a uma ação anterior
que agora se torna relevante. O flashback pode iniciar um episódio
ou cena, remeter a uma ação que precedeu cronologicamente o
episódio ou cena, ou, com mais frequência, lembrar um evento que
ocorreu dentro do plano temporal da história que está sendo contada.
6) Focalizadora: uma oração com w ayyiqtol muitas vezes tem função
de focalizar ou particularizar. Ela pode focalizar um indivíduo
30 Interpretação dos livros históricos
específico envolvido no evento que acabou de ser descrito, dar uma
descrição mais detalhada do evento ou de um aspecto dele, ou
fornecer um exemplo específico de um enunciado anterior.
7) Ressuntiva: uma oração com w ayyiqtol pode desempenhar uma
função de reatamento. Quando é assim usada, segue um enunciado
suplementar, focalizador ou de flashback. Esses exemplos podem ser
denominados ressuntivo-consequenciais. Em algumas ocasiões, o
wayyiqtol de reatamento repete um enunciado feito antes do encaixe
do comentário ou da cena que interrompeu a narrativa. Essas orações
podem ser chamadas de ressuntivo-reiterativas.
8) Complementar: uma oração com wayyiqtol às vezes complementa o
enunciado anterior, mostrando a outra face da mesma moeda ou
descrevendo uma ação que de forma natural ou típica acompanha o
que vem antes.
9) Sintetizadora ou concluinte: uma oração com wayyiqtol por vezes
faz uma declaração que é uma síntese, frequentemente em relação à
narrativa precedente, e/ou pode ser usada para concluir uma narrativa
ou cena, às vezes com um comentário prosaico.

As orações independentes se desviam do padrão do wayyiqtol. Na maioria


das vezes, a conjunção é seguida imediatamente de um termo não verbal,
geralmente o sujeito da oração (às vezes chamada de oração disjuntiva).
A seguir vem o predicado, quer seja explícito (tipicamente uma forma verbal
do perfeito ou do particípio) ou implícito (em enunciados de estado, onde o
sujeito se liga ao seu predicado por meio de um verbo “ser” elíptico; p.ex., 1KÍ2
ntjni? naiíS ruiíxni, “a mulher [era] mui formosa”, 2Sm 11.2). As construções
independentes frequentemente são descritivas e não incrementam a ação na
história. Em tais casos, elas tendem a dar informação suplementar. No entanto,
às vezes contribuem para a linha da história expressando uma ação contrastiva
e oposicional. Em outros casos, elas mudam o foco dramático de um personagem
para outro. A seguinte lista, embora não seja exaustiva, aponta as funções
principais das orações independentes:

1) Introdutória ou informativa: as orações independentes às vezes


marcam formalmente o início de uma nova cena ou episódio; nesse
caso, elas fornecem tipicamente informações preliminares para a
história que vem a seguir.
2) Suplementar: as orações independentes muitas vezes dão informação
suplementar (ou parentética) que é encaixada dentro da história.
3) Circunstancial: as orações independentes às vezes expressam as
circunstâncias presentes numa ação, tais como tempo ou modo.
O que é literatura narrativa? 31
4) Contrastiva: muitas vezes, uma oração independente expressa uma
ação que contrasta com a que a precede ou a qualifica de alguma
maneira.
5) Dramática: uma oração independente, principalmente quando é
introduzida por njni, “e vejam!”, pode ter uma função dramática,
convidando os leitores a entrar na história como participantes ou
testemunhas oculares. Esse recurso pode também sinalizar uma
mudança de foco de um personagem ou participante para outro,
por vezes incluindo um flashback.
6) Concluinte: as orações independentes podem ser empregadas para
marcar formalmente o desfecho de um episódio ou cena.

As falas (incluindo diálogos), terceiro elemento básico na estrutura do


discurso de uma história, são muito comuns na narrativa do Antigo
Testamento. O discurso com falas mostra vários tipos de discurso e de funções
(vd. discussão a seguir). A estrutura sintática das falas pode variar, dependendo
do tipo de discurso.
Como uma imagem geralmente é melhor do que mil palavras, sugerimos
um esquema que exemplifica a estrutura discursiva de uma passagem (Jz 4).
As orações com w ayyiqtol que compõem a linha central da história são escritas
com fonte normal e as construções independentes estão em negrito. As falas
estão em itálico. A classificação que propomos para cada oração com wayyiqtol
e cada oração independente aparece na terceira coluna do quadro. Depois de
cada parágrafo, há comentários sobre a estrutura discursiva. A tradução é uma
pequena adaptação da tradução do autor, preparada para a NET Bible.
Juizes 4 se compõe de três unidades literárias principais —um prólogo
(v. 1-3), a história propriamente dita (v. 4-22) e um epílogo (v. 23-24).

1-3 Prólogo Tipo de oração

1a Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era inicializadora e


mau aos olhos do S e n h o r seqüencial
1b após a morte de Eúde. circunstancial
2a 0 S e n h o r os entregou nas mãos de Jabim, rei consequencial
de Canaã, que reinava em Hazor.

2b Sísera era o comandante do seu exército; suplementar

2c o qual vivia em Harosete-Hagoim. suplementar


3 Os filhos de Israel clamaram ao S e n h o r , ressuntivo-
porquanto Sísera tinha novecentos carros de consequencial
ferro e, por vinte anos, oprimia duramente os
filhos de Israel.12
32 Interpretação dos livros históricos
Comentário sobre o prólogo
1. Esse importante episódio de Juízes começa com um relato convencional:
“Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau perante o Senhor” (3.7,12).
A forma verbal de wayyiqtol inicia a ação, mas é também seqüencial em rela­
ção à unidade literária anterior (3.12-31). Introduz um relato histórico que
sucede a história de Eúde registrada no capítulo anterior.
2. A oração independente no verso lb é circunstancial/temporal, informando-
nos de que a rebelião descrita inicialmente acontece depois da morte de Eúde.
3. A oração independente suplementar no verso 2b nos apresenta Sísera, que
desempenha um papel importante na história que segue. A oração indepen­
dente anexada no verso 2c dá informação adicional sobre o local de residên­
cia desse personagem.

4-22 História em si Tipo de oração

4 Ora, Débora, profetisa, m ulher de Lapidote, 1ntrodutória/informativa


julgava a Israel naquele tempo.
5a Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre 1ntrodutória/informativa/
Ramá e Betei, na região montanhosa de Efraim; descritiva
5b e os filhos de Israel subiam a ela a juízo. Complementar
6a Débora enviou mensageiros Inicializadora
6b e mandou chamar a Baraque, filho de Abinoão, de Seqüencial
Quedes de Naftali.
6c Ela disse a ele: Seqüencial ou descritiva
6d “Não ó verdade que o S e n h o r Deus de Israel te deu
uma ordem, dizendo: ‘Vai, dirige-te ao Monte Tabor!
Leva contigo dez mil homens de Naftali e de Zebulom!

7 E farei Sísera, o general do exército de Jabim, vir a


ti, no rio Quisom, com os seus carros e suas tropas.
Eu o darei nas tuas mãos’”.
8a Baraque disse a ela: Seqüencial
8b “Se fores comigo, irei. Mas se não fores comigo,
não irei”.
9a Ela disse: Seqüencial
9b “Certamente irei contigo. Mas não será tua a honra
da investida que empreendes, pois o S e n h o r
entregará Sisera às mãos de uma mulher”.
9c Débora levantou-se Seqüencial

9d e foi com Baraque para Quedes. Seqüencial


O que é literatura narrativa? 33
10a Baraque convocou homens de Naftali e Seqüencial
Zebulom em Quedes.
10b Dez mil homens o seguiram. Seqüencial
10c Débora também subiu com ele. Reiterativa
11a (Ora, Héber, queneu, se tinha afastado dos Suplementar
queneus, os descendentes de Hobabe, sogro
de Moisés.
11b Ele havia armado as suas tendas perto do Ressuntivo-sequencial
carvalho de Zaananim, que fica próximo de Quedes).
12a Quando Sísera ficou sabendo que Baraque, Ressuntivo-sequencial
filho de Abinoão, tinha subido ao Monte Tabor,
13a convocou todos os seus carros - novecentos Consequencial
carros com rodas de ferro - e toda as tropas
que estavam com ele para irem de Harosete-
Hagoim para o rio Quisom.
14a Débora disse a Baraque: Seqüencial
14b “Entra em ação, porque este é o dia em que o
S enhor está entregando Sísera nas tuas mãos!
0 S e n h o r não saiu adiante de ti?”
14c Baraque desceu rapidamente do Monte Tabor Consequencial
14d com dez mil homens após ele. Circunstancial

15a 0 S e n h o r derrotou Sísera, todos os seus Seqüencial


carros e todo o seu exército a fio de espada,
diante de Baraque.
15b Sísera saltou do carro Seqüencial
15c e fugiu a pé. Seqüencial
16a Ora, Baraque perseguiu os carros e o Deslocamento dramático
exército até Harosete-Hagoim. do foco

16b Todo o exército de Sísera morreu a fio de Seqüencial


espada;
16c sem escapar nem sequer um. Complementar-reiterativa/
enfática
17a Ora, Sísera fugiu a pé para a tenda de Jael, Deslocamento
mulher de Héber, queneu, porque Jabim, rei dramático do foco
de Hazor e a fam ília de Héber, queneu,
haviam feito um acordo de paz.
18a Jael saiu ao encontro de Sísera. Seqüencial

18b Ela disse a ele: Seqüencial


18c “Entra e descansa, meu senhor! Entra e
descansa comigo! Não temas!”
34 Interpretação dos livros históricos
18d Então Sísera parou para descansar na tenda dela Consequencial

18e E ela pôs uma coberta sobre ele. Seqüencial

19a Ele disse a ela: Seqüencial

19b “Dá-me um pouco de água para beber, pois estou


com sede”.
19c Ela abriu um odre de leite Seqüencial
19d e deu-lhe de beber. Seqüencial

19e A seguir o cobriu novamente Seqüencial

20a Ele disse a ela: Seqüencial

20b “Coloca-te à porta da tenda. Se alguém vier e


perguntar: ‘Há alguém aqui?’, responde: ‘Não’”.

21a Então Jael, mulher de Héber, tomou uma estaca Seqüencial


da tenda em uma mão,

21b e um martelo na outra mão, Complementar

21c e foi-se mansamente a ele, Seqüencial

21d e lhe cravou a estaca na fronte, Seqüencial

21e e a estaca penetrou na terra Seqüencial

21f enquanto ele dormia - Circunstancial

21g porque ele estava exausto - Suplementar/


explicativa
21h e ele morreu. Ressuntivo-
consequencial

22a Ora, Baraque estava perseguindo Sísera. Deslocamento


dramático do foco
22b Jael saiu ao seu encontro. Seqüencial

22c Ela disse a ele: Seqüencial

22d “Vem aqui e te mostrarei o homem que procuras”.

22f Ele entrou na tenda com ela Consequencial

22g e ali ele viu Sísera, que jazia morto Deslocamento


dramático do foco
22h com a estaca fincada na fronte. Circunstancial
O que é literatura narrativa? 35

Comentário sobre a história propriam ente dita


1. A oração independente no verso 4 introduz um novo personagem, que de-
sempenha um papel importante na história (v. 4-22). Essa oração marca a
transição para a história em si (o relato da libertação de Israel da opressão) e
fornece informação para a narrativa.
2. A oração independente no verso 5a dá informação mais específica sobre o
papel de Débora como juíza. A forma verbal no wayyiqtol em 5b não inicia
a história, mas complementa o enunciado precedente, informando que os
filhos de Israel iam até ela para resolverem seus litígios.
3. Depois da informação dos versos 4-5, a forma do verbo no wayyiqtol no
verso 6 inicia a ação da história em si.
4. O verso 11, que inicia com uma oração independente (“Ora, Héber”), dá infor­
mação parentética que, embora interrompa a narrativa (observe que os v. 10 e
12-13 focalizam o posicionamento estratégico de forças), é potencialmente
significante para o desenrolar da história e suscita a curiosidade do leitor.
5. A forma do verbo em wayyiqtol em 11b introduz uma oração que dá seqüên­
cia à oração suplementar que a precede (vd. v. 5).
6. A oração independente em 16a desloca o foco do fugitivo Sísera para o
vitorioso Baraque. As orações independentes desempenham essa mesma fun­
ção em 17a (trazendo de volta o foco para Sísera), 22a (trazendo de volta o
foco para Baraque) e 22g (deslocando o foco para Sísera morto). Essa suces­
são de orações independentes tem também uma função estrutural no discurso.
A oração independente em 16a (“Ora, Baraque”) marca a transição da batalha
para suas conseqüências. Nos versos 17-21, o fugitivo Sísera (cfr. v. 15b) se
torna o foco quando a cena se desloca da área comum mencionada no verso
16 para a tenda de Héber, citado anteriormente (cfr. v. 11). Uma oração
independente (“Ora, Sísera”) marca esse deslocamento da cena. Em 22a,
também iniciado por uma oração independente (literalmente “E vejam”), o
foco retorna para o perseguidor Baraque (cfr. v. 16), que chega à tenda de
Héber para descobrir que uma mulher já liquidara o general inimigo.
As orações independentes finais (22g e 22h) marcam o desfecho da cena.
A descrição do assassinato de Sísera é, dessa forma, delimitada pela persegui­
ção de Baraque ao inimigo (cfr. v. 16, 22), destacando o fato de que a glória
pelo assassinato do general cananeu não pertence a ele (cfr. v. 9), apesar de
seu ardoroso empenho.
7. O deslocamento para o perfeito em 16c é algo esperado após a partícula
negativa. A oração não tem conjunção no início; não é algo que surpreende,
dada a sua função reiterativo-complementar (e, portanto, enfática).
8. A oração circunstancial no verso 21 nos indica o que suspeitamos (cfr. v. 19),
ou seja, que Jael pode, dessa forma, matar Sísera, porque ele dormia profun­
damente. No entanto, quando retarda em fazer referência a isso, o narrador
36 Interpretação dos livros históricos
acrescenta drama à ação.13À medida que lemos os feitos descritos em 21 a-d,
podemos desconfiar que Sísera está dormindo, mas não temos certeza plena
disso. A minimização da vulnerabilidade de Sísera faz com que o ato de Jael
pareça ainda mais heróico e corajoso.
9. A forma do verbo em wayyiqtol em 21g introduz uma oração que é subordi­
nada à oração circunstancial antecedente e explica a razão pela qual Sísera
adormecera imediatamente. Veja outros exemplos de orações com wayyiqtol
com função explicativa em Números 1.48 e Isaías 39.1.
10. A oração independente em 22a convida dramaticamente o leitor a se colo­
car na perspectiva de um observador (atente para n3n, “E vejam”).
11. A oração independente em 22g convida dramaticamente o leitor a se colo­
car na perspectiva de Baraque (atente para n3n, “E vejam”). Com esse tom
de finalização, é também um marcador do desfecho da história.

23-24 Epílogo Tipo de oração

23 Naquele dia, Deus humilhou a Jabim, rei de Canaã, Sintetizadora


diante dos filhos de Israel.
24 Cada vez mais os filhos de Israel prevaleciam contra Consequendal
Jabim, rei de Canaã, até que o exterminaram.

Comentário sobre o epílogo


O epílogo (v. 23-24), embora esteja ligado à narrativa que o precede por
uma forma do verbo em wayyiqtol, é marcado por um deslocamento de sujeito
(“Deus”) e pela frase “naquele dia”. O uso do nome “Deus” completa satisfato­
riamente a narrativa da libertação de Israel. O relato prossegue quando Débora
anuncia a palavra do S enhor Deus de Israel (v. 6) e conclui declarando que esse
mesmo Deus deu a vitória exatamente como tinha prometido. A referência
tríplice a Jabim, rei de Canaã, liga esses versos da conclusão aos versos da intro­
dução (cfr. v. 2, observe que Jabim é chamado “rei de Hazor” no v. 17) e estabe­
lece um enquadramento (inclusio) para a narrativa toda.

Estrutura dramática
Além da estrutura discursiva, as histórias do Antigo Testamento também
possuem uma estrutura dramática completa, com episódios e cenas. Pode-se
perceber a transição entre os episódios e as cenas de várias maneiras. Uma mu­
dança no cenário - quer seja temporal ou geográfica —,geralmente indica uma
transição. Os narradores às vezes usam marcadores transicionais formais, tais
como o marcador temporal ou uma estrutura de oração disjuntiva inde­
O que é literatura narrativa? 37
pendente (conjunção + sujeito + verbo). Podem também empregar o recurso
literário do enquadramento, para marcar um episódio ou cena. Nesse caso,
certas palavras ou frases aparecem tanto no início quanto na conclusão de uma
unidade literária e formam uma estrutura ou um suporte em torno delas.
A longa unidade narrativa que compreende o texto de Juizes 6.1—10.5 é
um bom exemplo desse tipo de estrutura dramática. A parte central do livro de
Juizes (3.7—16.31) se divide em seis unidades distintas, cada qual iniciando
com uma referência aos filhos de Israel praticando o que era mau aos olhos do
Senhor (3.7-11; 3.12-31; 4.1-5.31; 6.1-10.5; 10.6-12.15; 13.1-16.31).
A referência à iniqüidade de Israel em 6.1 marca, desse modo, um novo ciclo
narrativo dentro da parte central do livro. A estrutura literária desse ciclo inclui
um prólogo (6.1-10), uma narrativa principal contendo seis episódios (6.11—
8.27), um epílogo (8.28-32) e uma seqüência (8.33—10.5):

Título Referência
Prólogo: A mesma velha história 6.1-10
História: De covarde a rei 6.11-8.27
Episódio 1: Uma atitude cética 6.11-24
Cena 1: Um encontro impressionante 6.11-18
Cena 2: Em meio à fumaça 6.19-21
Cena 3: O culto de um cético 6.22-24
Episódio 2: Dando passos de criança 6.25-32
Cena 1: Uma noite trabalhosa 6.25-27
Cena 2: De madrugada, confusão na cidade 6.28-32
Episódio 3: A hora do teste decisivo 6.33-7.23
Cena 1: De cara com o inimigo 6.33-35
Cena 2: Outra vez hesitação 6.36-40
Cena 3: Redução drástica das tropas 7.1-8
Cena 4: Tranqüilizando o general 7.9-14
Cena 5: Respondendo ao desafio 7.15-23
Episódio 4: Entrada em Efraim 7.24-8.3
Episódio 5: A captura dos opressores 8.4-21
Cena 1: Falta de apoio 8.4-9
Cena 2: A derrota do inimigo 8.10-12
Cena 3: A vingança - Parte 1 8.13-17
Cena 4: A vingança - Parte 2 8.18-21
Episódio 6: Gideão rejeita a coroa - ou faz? 8.22-27
Epílogo: Uma trama problemática 8.28-32h

Seqüência: Guerra civil 8.33-10.5


Prólogo: Israel volta a cultuar Baal 8.33-35
A História: Ascensão/queda do “rei” Abimeleque 9.1-57
Episódio 1: Abimeleque mata seus irmãos 9.1-6
Episódio 2: Jotão clama por justiça 9.7-21
Episódio 3: Maldição esmaga um crânio 9.22-57
Epílogo: Restauração da estabilidade 10.1-5
38 Interpretação dos livros históricos
O prólogo (6.1-10) inclui um relato de opressão (v. 1-6) e uma mensa­
gem profética (v. 7-10). O marcador temporal C’iT]) no início do verso 7 separa
formalmente as duas partes, enquanto que a repetição verbal (observe a frase
“Tendo os filhos de Israel clamado ao S enhor” tanto em 6b quanto em 7a) as
liga temática e formalmente.
Os limites do primeiro episódio são marcados por um enquadramento
(observe as referências a Ofra e o[s] abiezrita[s] tanto no v. 11 como no v. 24).14
O episódio se divide em três cenas: um diálogo introdutório (v. 11-18), o relato
do sacrifício oferecido por Gideão (v. 19-21) e um diálogo de conclusão (v. 22-
24). A oração independente no início do verso 19 marca a transição do diálogo
inicial para o relato do sacrifício, enquanto que a oração independente no fim
do verso 21 conduz o relato para a sua conclusão.
Um marcador temporal e uma referência ao período da noite introduzem
o segundo episódio da narrativa (6.25-32). O episódio pode ser dividido em
duas cenas (v. 25-27 e 28-32), que correspondem à noite (o aparecimento de
“noite”, próximo ao início do v. 25 e no final do v. 27 forma um
enquadramento para os v. 25-27) e ao dia (v. 28a). O verbo D?2Í, “levantar-se
de madrugada”, e a oração 71371 (“vejam”!) no verso 28 também demarcam um
deslocamento da ação de Gideão à noite para o seu ato subsequente. A repeti­
ção das palavras *5173 (Baal), snil (“derribar”), IISTO (“altar”) nos versos 28 e 32
fazem um enquadramento para a segunda cena. (Esses mesmos termos estão
agrupados no v. 30b, exatamente antes do ponto central em que o sujeito se
desloca dos homens da cidade para o pai de Gideão).
O terceiro episódio, o relato da luta propriamente dita (6.33-7.23), con­
tém cinco cenas. A primeira (6.33-35) começa com uma oração independente
(v. 33), lembrando-nos do problema maior que foi apresentado nos versos 1-10
e que está oculto por trás da cena. Mais três orações independentes lançam a
base para o que vem a seguir. O palco parece estar pronto para uma batalha,
mas Gideão ainda não está bem preparado para esse passo. Ao contrário, ele
busca a confirmação do êxito. Essa segunda cena (6.36-40) mostra dois qua­
dros, cada qual relatando o pedido de Gideão (v. 36-37) e a resposta de Deus
(v. 38, 40).
Mudanças de nome (observe “Jerubaal”) e de foco (o autor descreve a
localização dos acampamentos dos israelitas e dos midianitas) marcam a
transição para a terceira cena (7.1-8). A oração independente na segunda metade
do verso 8 marca a conclusão da cena. A referência à localização do
acampamento midianita forma um inclusio (enquadramento) com o verso 1.
À parte de sua delimitação (v. 1, 8b), a cena consiste de quatro subunidades,
cada uma delas sendo introduzida pelas palavras “disse o S enhor a Gideão”
(v.2-8a). Um indicador temporal e uma referência à hora noturna (v. 9a; cfr.
6.25) introduzem a cena 4 (7.9-14), que descreve de que modo o Senhor
O que é literatura narrativa? 39
comunica a Gideão confirmação adicional de seu sucesso. As referências ao
fato de Deus entregar o inimigo nas mãos de Gideão (v. 9, 14) formam um
enquadramento para a cena. A oração independente parentética central (v. 12)
funciona como uma articulação entre as instruções do Senhor (v. 9-11) e a
resposta de Gideão (v. 13-14).
Na quinta cena (7.15-23), que se inicia com um marcador temporal,
finalmente se trava a batalha há tanto tempo aguardada. A cena consiste em
instruções e preparações de Gideão (v. 15-18) e na batalha (v. 19-23), que é
iniciada com uma descrição das manobras do exército de Gideão (v. 19a).
O quarto episódio (7.24-8.3), iniciado com uma oração independente,
descreve a contribuição dos efraimitas para a batalha e a disputa deles com
Gideão. Os versos 24 e 25 relatam o convite de Gideão e a resposta positiva dos
efraimitas. Em Juizes 8.1-3, Gideão soluciona um conflito com os efraimitas,
que estavam ofendidos por não terem sido convocados antes para a guerra.
A oração final, iniciada com m, “então”, relata a solução.
No quinto episódio (8.4-21), lemos sobre a tentativa de Gideão para cap­
turar os chefes dos midianitas, Zeba e Salmuna, e o remanescente do exército
deles. O episódio tem dois painéis paralelos (v. 4-9, 13-17//v. 10-12, 18-21)
abrangendo quatro cenas distintas (v. 4-9,10-12, 13-17, 18-21). Do verso 4 ao
9, os homens de Sucote e de Penuel se recusam a apoiar Gideão, porque não
estão convencidos de que ele sairá vitorioso. A oração independente no início
do verso 10, que nos informa onde estão os chefes dos midianitas e sobre a
capacidade do exército, introduz a cena seguinte da narrativa —o ataque surpre­
sa de Gideão e a vitória final. A oração independente no final do verso 12
completa a cena. O trecho dos versos 13-17, que descreve como Gideão cum­
pre a ameaça que fez a Sucote e Penuel, corresponde ao trecho dos versos 4-9.
O trecho dos versos 18-21, que descreve a execução de Zeba e de Salmuna,
corresponde e completa o trecho dos versos 10-12.
O sexto e último episódio (8.22-27), embora intimamente ligado ao que
o precede (observe o consecutivo vav introdutório e a referência às jóias dos
midianitas no v. 26 [cfr. v. 21]), é marcado por um deslocamento de assunto
(são os homens de Israel que falam agora) e de tema (reinado).
A conclusão (8.28-32) contém uma síntese previsível e prosaica sobre
libertação e paz (v. 28; cfr. 3.11, 30; 5.31b), mas também informa sobre a
família, a morte e o sepultamento de Gideão (v. 29-32). As referências a Joás,
a Ofra e ao(s) abiezrita(s) formam um enquadramento para toda a narrativa
sobre Gideão (cfr. 6.11) e contribui para seu desfecho. (Embora esse ciclo da
parte central do livro comece em 6.1, Gideão, seu personagem principal, não
é apresentado antes de 6.11.) De igual modo, essa informação estabelece o
alicerce para a parte seguinte, mencionando Abimeleque, seus setenta meio-
irmãos e Siquém.
40 Interpretação dos livros históricos
A história de Abimeleque é a seqüência da narrativa sobre Gideão. Junta­
mente com 6.1—8.32, ela forma uma grande unidade literária. Contém um
prólogo (8.33-35), a narrativa central (9.1-57) e um epílogo (10.1-5). A se­
qüência se inicia com 'ITI (8.33) e uma referência à insistência de Israel no
culto a Baal. O prólogo prepara o cenário para a narrativa central, dando um
panorama da ascenção de Abimeleque ao poder, ao passo que o epílogo registra
como se restaura a aparência de estabilidade na terra após a sua morte, mas com
a presença de repercussões negativas.
A narrativa central tem três episódios. A transição do prólogo para o
primeiro episódio é marcada por uma referência a Abimeleque. Do verso 1 a 6,
narra-se como Abimeleque faz uma aliança com os homens de Siquém e mata
seus irmãos. As referências a Abimeleque e a Siquém aparecem nos versos 1 e 6,
com o uso do verbo “ir”, formando um enquadramento para a unidade.
A parábola contada por Jotão é registrada do verso 7 ao 21. As referências às
manobras de Jotão delimitam a unidade. Tanto na introdução como na
conclusão do seu discurso (v. 7b, 20), ele se dirige aos nobres de Siquém
(D3Ç “líderes de Siquém”). Novamente, Abimeleque se torna o foco da
narrativa no verso 22, que introduz o terceiro episódio. Esse longo registro
começa e termina com declarações sobre a intervenção do Senhor (v. 23-24,
56-57). A parte principal do episódio (v. 25-55) narra como o Senhor causa,
de maneira providencial, a morte de Abimeleque e a destruição de Siquém.
Essa parte se divide em três cenas. A primeira trata da rebelião de Gaal
(v. 26-41). Após a partida de Gaal (v. 41), começa uma segunda cena com
(v. 42a) e o amanhecer de um novo dia. Com o deslocamento de
Abimeleque de Siquém para Tebes (v. 50) começa uma nova cena, apesar de
não haver uma introdução formal.
Sequenciamento d e painéis

É possível detectar outras estruturas literárias que são encaixadas dentro


de uma história. Uma dessas estruturas é o sequenciamento de painéis, no
qual a repetição de elementos aparece em deslocamentos sucessivos.15 A histó­
ria de Gideão analisada anteriormente inclui pelo menos dois exemplos desses
painéis. Em Juízes 6.36-40, Gideão realiza dois testes para confirmar se o
Senhor é capaz de lhe dar vitória na batalha que está por vir. Os registros de
ambos os testes possuem a mesma estrutura:

Primeiro painel (6.36-38) Segundo painel (6.39-40)

Pedido de um sinal (v. 36). Pedido de um sinal (v. 39a).


Descrição do sinal (v. 37). Descrição do sinal (v. 39b).
Cumprimento do sinal (v. 38). Cumprimento do sinal (v. 40).
O que é literatura narrativa? 41
A quinta cena da história (8.4-21) oscila entre os relacionamentos de
Gideão com Sucote/Penuel e as fugas dos reis midianitas:

Primeiro painel (8.4-12) Segundo painel (8.13-21)

Gideão ameaça Sucote/Penuel (v. 4-9). Gideão ameaça Sucote/Penuel (v. 13-17).
Gideão captura os reis (v. 10-12). Gideão captura os reis (v. 18-21).

Às vezes, os painéis introdutórios usam repetição de ação para criar ten­


são dramática, que é resolvida no desenrolar da história. Mudanças significati­
vas no padrão de repetição, especialmente no painel final, marcam o desfecho e
a conclusão do enredo. Por exemplo, a cena do menino Samuel em seu primei­
ro encontro profético com Deus (ISm 3.4-14), encaixada num episódio maior,
mostra quatro painéis:

Primeiro painel (3.4-5) Segundo painel (3.6-7)

O Senhor chama Samuel (v. 4a). O Senhor chama Samuel (v. 6a).
Samuel responde (v. 4b). Samuel vai a Eli (v. 6b).
Samuel corre a Eli (v. 5a). Eli diz a Samuel que volte a se
deitar (v. 6c).
Eli diz a Samuel que volte a se deitar (v. 5b). O narrador comenta (v. 7).
Samuel volta a se deitar (v. 5c).

Terceiro painel (3.8-9) Quarto painel (3.10-14)

O Senhor chama Samuel (v. 8a). O Senhor se aproxima de


Samuel (v. 10a).
Samuel vai a Eli (v. 8b). O Senhor chama Samuel (v. 10b).
Eli entende que o Senhor está chamando Samuel responde conforme o
o menino (v. 8c). orientado (v. 10c).
Eli diz a Samuel para se deitar (v. 9a). O Senhor revela sua mensagem
a Samuel (v. 11-14).
Eli instrui Samuel a responder (v. 9b).
Samuel volta a se deitar (v.9c).

Outros exemplos de seqüência de painéis são: a sedução de Sansão por


Dalila (Jz 16.6-21), o registro da guerra civil com Benjamim (Jz 20.18-36a) e o
encontro de Elias com os capitães do rei (2Rs 1.9-15).16

Quiasmo
Quiasmo (da letra grega chi, que tem a forma de um X) é uma estrutura
literária simétrica, na qual a segunda metade da unidade literária reflete a primei­
ra metade. A forma mais básica de quiasmo é uma estrutura simples de AB//BA’:
42 Interpretação dos livros históricos
A
B
B’
A

Às vezes há um elemento de articulação C que não tem correspondente:


AB/C/B’A’:

A
B
C
B’
A’

Alguns estudiosos querem encontrar estruturas de quiasmo em toda a


literatura bíblica, mas se tem a impressão de que as propostas são mais uma
prova da criatividade deles do que uma criação propositada do escritor bíblico.
Falando de maneira geral, o quiasmo é mais comum em unidades literárias
menores, tais como uma estrofe ou um verso poético. Quanto maior a unidade,
mais artificial e forçada parece ser a proposta.
Todavia, pode-se ocasionalmente detectar estruturas de quiasmo em his­
tórias. Por exemplo, a interação de Deus com Gideão em Juizes 7.1-14 reflete
as ações anteriores de Gideão (registradas em Jz 6). Usando a palavra DN, “se”,
Gideão inicialmente pede um sinal miraculoso de Deus (6.17). Recebendo o
sinal e juntando um grande exército, ele, em seguida, pede confirmação por
meio de dois testes com a lã (6.36-40). Novamente ele introduz suas observa­
ções com a palavra “se” (v. 36). Mas então o Senhor dispensa o exército, e o faz
por meio de um plano com duas etapas, que envolvem teste e observação (7.1-8;
cfr. 6.36-40). E assim, usando a palavra preferida de Gideão, “se”, o Senhor lhe
concede um último sinal de confirmação (7-9-14). Assim sendo, trata-se de
uma estrutura de quiasmo:

A Gideão pede um sinal e o recebe (6.17-24).


B Gideão reúne um exército e busca confirmação da promessa de
Deus por meio de dois testes (6.33-40).
B’ Deus desmantela o exército por meio de dois testes (7.1-8).
A’ Deus dá a Gideão um sinal de confirmação (7-9-14).

Observe que o sinal inicial ocorre em plena luz do dia, ao passo que o
último acontece à noite. Os testes de Gideão sucedem à noite. Os de Deus,
durante o dia.
O que é literatura narrativa? 43
Embora a estrutura de quiasmo esteja presente, é importante observar
que não é a estrutura predominante da história. Parece que vários versos
(6.25-32) não se ajustam ao esquema do quiasmo. Se olharmos a estrutura
maior que se estende até 7.23, verificaremos o seguinte esquema:

A Gideão pede um sinal e o recebe (6.17-24).


B Gideão aceita o desafio de destruir o altar de Baal (6.25-32).
C Gideão reúne um exército e busca confirmação da
promessa de Deus por meio de dois testes (6.33-40).
C’ - Deus desmantela o exército por meio de dois testes (7.1-8).
A’ Deus dá a Gideão um sinal de confirmação (7.9-14).
B’ Gideão aceita o desafio inicial de libertar Israel de Midiã
(7.15-23).

Há uma estrutura de quiasmo encaixada na estrutura maior (AC//C’A),


mas os elementos B/B’ estão localizados em posições diferentes devido às ne­
cessidades da estrutura do enredo.
É relativamente raro encontrar uma estrutura de quiasmo que abranja
uma história inteira, mas o livro de Ester parece estar simetricamente organizado17
de acordo com o seguinte esquema:

A Prólogo: celebração persa e ascensão de Ester (1.1—2.23).


B Complicação: judeus ameaçados por seu maior inimigo (3.1-15).
C Resposta: o apelo estratégico de Mordecai (4.1-17).
D Desenvolvimento: o primeiro banquete de Ester
(5.1-8).
EPonto central: a queda de Hamã e a ascensão
de Mordecai (5.9—6.14).
D ’ Conseqüência: o segundo banquete de Ester (7.1-10).
C’ - Solução: o apelo estratégico de Mordecai (8.1-17).
B’ Desfecho: judeus vitoriosos sobre seus inimigos (9.1-19).
A’ Epílogo: celebração judaica e ascensão de Mordecai (9.20-10.3).
Narrativas com sobreposição e flashbacks

As narrativas do Antigo Testamento nem sempre avançam seguindo


um molde cronologicamente linear de “A a Z ”. O narrador pode justapor
dois relatos complementares de um evento e adicionar detalhes nesse processo,
ou pode entremear os eventos tematicamente, em vez de cronologicamente.18
Em ambos os casos, há certo grau de sobreposição temporal, incluindo
flashbacks cronológicos.
44 Interpretação dos livros históricos
Juízes 20.26-48 traz dois relatos complementares da batalha culminante
da guerra civil entre Benjamim e as outras tribos de Israel (v. 31 -36a, 36b-46)
colocados entre um prólogo (v. 26-30) e um epílogo (v. 47-48). No prólogo,
Israel busca orientação divina (v. 26-28) e se dispõe para a batalha (v. 29-30).
O epílogo descreve o resultado da batalha. Podemos esquematizar os versos
26-48 da seguinte forma:

Prólogo: Preparação para a batalha (v. 26-30).


Versão condensada da batalha (v. 31-36a).
Versão expandida da batalha (v. 36b-46).
Epílogo: Resultado da batalha (v. 47-48).

O primeiro relato da batalha começa com o ataque de Benjamim (v. 31).


Israel recua e os benjamitas matam trinta soldados de Israel. No entanto, trata-se
apenas de uma tática para induzir os benjamitas a se afastarem de Gibeá (v. 32).
Os versos 33-36 nos contam como as tropas de Israel, que foram divididas em
dois grupos, contra-atacaram e derrotaram os benjamitas, matando vinte e
cinco mil soldados.
Os versos 36b-46 são paralelos a 31-36a e os complementam. Esse
segundo relato faz uma descrição mais detalhada da estratégia de Israel e dos
eventos ocorridos durante a batalha. Ele omite as preliminares da batalha
(cfr. v. 26-30) e retoma a história com o ataque de Benjamim. O valente exército
de Israel recua e atrai as tropas de Benjamim para longe de Gibeá (v. 36b; cfr.
v. 31-32). Então, dez mil tropas de elite, que estavam de tocaia (cfr. v. 29,
33b), apressam-se e atacam Gibeá, exterminam a população e colocam fogo na
cidade (v. 37-38; cfr. v. 34). Quando o valente exército vê a fumaça subindo
da cidade, ele ataca os benjamitas (v. 38-39a). Retornando ao assunto do ataque
inicial dos benjamitas, o verso 39b recapitula como Benjamim perseguiu
confiantemente os israelitas que recuavam (cfr. v. 31-32a). A seguir, o verso 40
retorna aos eventos registrados nos versos 38-39a, mas reflete a perspectiva de
Benjamim. Quando a fumaça sobe da cidade e os israelitas contra-atacam, os
benjamitas, vendo a fumaça que subia, percebem tardiamente que foram vítimas
de um ardil (v. 41). Os versos 42-46 fazem um relato mais detalhado de como
e onde examente as tropas benjamitas em fuga são aniquiladas.
Por vezes, o narrador apresenta os eventos numa ordem temática, em
vez de estritamente cronológica. Por exemplo, Juízes 11.29-40 nos conta como
Jefté derrota os amonitas; mas, a seguir, para cumprir um voto insensato e
tolo, é obrigado a entregar sua filha em sacrifício. Quando sua filha fica sabendo
da sua sorte, ela pede e recebe permissão para vaguear pelos montes por dois
meses, lamentando o fato de que ela nunca teria a alegria de ser esposa e mãe
(v. 38-39). O episódio termina com a grave declaração de que Jefté “lhe fez
0 que é literatura narrativa? 45
segundo o voto por ele proferido” (v. 39). Juizes 12 registra um episódio que
acontece após a vitória de Jefté sobre os amonitas. Os efraimitas perguntam
por que eles não tinham sido convocados para a batalha. Jefté explica que ele
os convocou, mas eles não responderam ao convite. Irrompe uma guerra civil,
na qual o exército de Jefté aniquila os efraimitas. E provável que esse episódio
ocorra logo após a batalha, durante o período de lamentação da filha de Jefté.
Se assim for, então Juizes 12.1 deve ser entendido como um flashback
cronológico. Nesse caso, o narrador desenvolve e conclui um subenredo
(o voto de Jefté e suas terríveis conseqüências) antes de iniciar outro enredo
(o conflito efraimita).
Outro exemplo de entrelaçamento de temas aparece em 1Samuel 27 —
2Samuel 1,191Samuel 26.25b narra como Davi e Saul tomam rumos diferentes
pela primeira vez. Durante os seis capítulos seguintes, a atenção do narrador
oscila entre Davi e Saul. Embora haja uma progressão cronológica na história
como um todo, o conteúdo não tem uma seqüência estritamente cronológica.
1 Samuel 27 narra como Davi, desesperado, foge para o território filisteu e se
torna um soldado mercenário de Aquis, rei de Gates. Quando os filisteus se
preparam para fazer guerra contra Israel, Aquis convoca Davi e seus homens
para se juntarem ao exército filisteu (ISm 28.1-2). Assim, o foco se desloca
para Saul que, na véspera da batalha com os filisteus, consulta uma médium e
ouve do espírito do falecido profeta Samuel que no dia seguinte ele vai morrer
em batalha (ISm 28.3-25). Em 1Samuel 29, o foco retorna para Davi e seus
homens, que se juntaram ao exército filisteu. De acordo com 29.1, os filisteus
se ajuntaram em Afeque. Isso deve ter acontecido antes da disposição das suas
tropas em formação de combate, em Suném, na véspera da batalha (cfr. 28.4).
Consequentemente, os fatos registrados no capítulo 29 sucedem antes da visita
de Saul à médium, recontados no capítulo 28. Os supersticiosos líderes filisteus
enviam Davi e seus homens de volta a Ziclague. Quando ali chegam, após três
dias de viagem (cfr. ISm 30.1), descobrem que os amalequitas tinham raptado
suas mulheres e seus filhos. Eles vão atrás dos amalequitas e resgatam suas
famílias. O foco retorna a Saul em ISamuel 31, que narra como ele é aniquilado
em batalha. Quando os filisteus encontraram seu cadáver, eles o afixaram no
muro da cidade de Bete-Seã. No entanto, os homens de Jabes-Gileade o
retiraram e, tomando os ossos, fizeram-lhe um sepultamento apropriado e, em
seguida, jejuaram por sete dias. 2Samuel nos leva de volta a Ziclague e nos faz
retroceder pelo menos cinco dias no tempo, porque o verso 1 nos informa de
que esse episódio aconteceu no terceiro dia após a morte de Saul. A oscilação
nesses capítulos é semelhante ao filme O Senhor dos anéis: o retorno do rei, de
Tolkien, em que o foco oscila entre Gondor, onde Gandalf e seus guerreiros
estão em batalha, e Mordor, onde Frodo e Sam continuam sua jornada em
direção ao monte Doom. A narrativa prossegue, mas comflashbacks cronológicos
que acompanham os deslocamentos de foco.
46 Interpretação dos livros históricos
Falas e diálogos

A narrativa do Antigo Testamento é repleta de falas e diálogos que con­


tribuem para a caracterização dos personagens e para o enredo. Por exemplo,
o diálogo aparentemente trivial entre Saul e seu servo, registrado em 1Samuel
9.5-10, contribui para que o narrador caracterize Saul. Saul parece hesitante
e passivo, traços de caráter que vão resultar em dificuldades para ele, à medi­
da que a narrativa prossegue. Sua tendência é impedir a ação, em vez de
fazê-la avançar.20
Como observamos anteriormente, Davi surge como um personagem muito
humano, demonstrando ter tanto virtudes quanto defeitos. Essa ambigüidade
é notória em suas falas, estrategicamente colocadas no início e no final da nar­
rativa. A primeira vez em que ele fala na narrativa (ISm 17.26), mostra certo
grau de interesse próprio e de ganância (“O que farão ao homem que ferir esse
filisteu?”), assim como uma preocupação saudável com a honra de Deus (“Quem
é esse incircunciso filisteu para afrontar os exércitos do Deus vivo?”). Em seu
leito de morte, ele exorta Salomão a obedecer à lei do Senhor, mas a seguir
convoca o filho a manchar suas mãos em sangue e tratar de se vingar de Joabe e
Simei (lRs 2.1-10).
As primeiras e as últimas palavras de Sansão tipificam sua vida, que foi
consumida pela paixão sexual desenfreada e uma obsessão de vingança contra
os filisteus. Posteriormente, essa combinação explosiva foi a causa de sua mor­
te. Quando fala pela primeira vez, ele diz a seus pais: “Vi uma mulher em
Timna, das filhas dos filisteus; tomai-ma, pois, por esposa” (Jz 14.2). Suas
palavras finais são uma oração na qual ele clama por vingança imediata contra
os filisteus: “Morra eu com os filisteus.” (Jz 16.28,30).
As falas e os diálogos podem também desempenhar um papel significativo
no desenvolvimento do enredo e frequentemente aparecem em pontos
estratégicos da narrativa. Por exemplo, Deus urge o hesitante Gideão para que
ataque os midianitas, mas ele também diz a Gideão que espreite os guardas
midianitas se ele ainda precisa ter certeza da vitória (Jz 7.9-11). Gideão resolve
aceitar a proposta de Deus. Quando ele ouve, por acaso, o relato do sonho de
um guarda e a interpretação de seu companheiro (v. 13-14), Gideão se
transforma num poderoso guerreiro (v. 15). Palavras estrategicamente colocadas
na experiência de Gideão são o divisor de águas na narrativa.

Tipos de discurso

Podem-se encontrar vários tipos de discurso nas falas. Uma simples fala
pode incluir mais de um tipo de discurso. Os principais tipos encontrados são
os seguintes:
O que é literatura narrativa? 47
1. Discurso profético: o locutor narra o que irá acontecer; os profetas
geralmente falam dessa maneira. Por exemplo, em ISamuel 10.2-6, o
profeta Samuel descreve a Saul uma série de eventos que ocorrerão
assim que Saul partir.21 As formas mais complexas de discurso proféti­
co podem conter um elemento avaliatório. Numa fala profética de jul­
gamento, uma acusação pode introduzir o anúncio de um julgamento
iminente (vd. 2Sm 12.7-12; 2Rs 1.16-17). Ou num tom mais positi­
vo, um enunciado elogioso pode preceder uma promessa de bênção
(vd. Gn. 22.15-18).
2. Discurso narrativo: por vezes, o locutor repete o que aconteceu. Nesse
caso, a narrativa inserida na citação é encaixada na narrativa maior
contada pelo narrador. Por exemplo, em Juízes 7.13, um guarda
midianita conta ao seu companheiro os detalhes de um sonho alegóri­
co. Em 2Samuel 11.23-24, o mensageiro de Joabe relata ao rei Davi os
detalhes de uma batalha.
3. Discurso exortativo: neste tipo, o locutor insta, ordena ou exorta o(s)
ouvinte(s) a praticar ou a se abster de uma ação. Os imperativos e ou­
tras formas volitivas são usadas, tipicamente, em conjunto com argu­
mentos inspiradores (discurso expositivo, vd. na 4 a seguir). Por exem­
plo, em Juízes 4.6-7, Débora conclama Baraque para que lute e lhe
assegura que o Senhor estará presente para protegê-lo.
4. Discurso expositivo: o locutor explica ou discute um caso. Por exem­
plo, Dalila, na quarta tentativa de fazer com que Sansão revele o se­
gredo de sua força, questiona a sinceridade do amor de Sansão
(Jz 16.15).22 Como dissemos anteriormente, o discurso expositivo
geralmente acompanha o discurso exortativo. Por exemplo, Noemi
insiste para que suas noras retornem a Moabe, argumentando que ela
é muito velha para lhes dar outro marido, e que elas não devem pro­
longar a sua dor (Rt 1.11-13).
5. Discurso normativo (ou instrutivo): o locutor explica com o se faz algo.
Por exemplo, em 2Samuel 5.23-24, o Senhor expõe uma estratégia de
batalha, passo a passo, a ser seguida por Davi. O discurso normativo
está intimamente relacionado ao discurso exortativo (cfr. o item 3 aci­
ma). Embora haja uma leve distinção, o discurso exortativo dá ênfase
ao que deve ou não ser feito, enquanto que o discurso normativo se
concentra em como uma tarefa deve ser cumprida. Com frequência,
encontram-se tanto elementos exortativos quanto normativos num dis­
curso. Por exemplo, em Juízes 6.25-26, o Senhor ordena que Gideão
derribe o altar de Baal e erga um altar ao Senhor naquele lugar (discur­
so exortativo). Além disso, ele também inclui instruções referentes ao
sacrifício que Gideão deverá oferecer (discurso normativo).
48 Interpretação dos livros históricos
Funções da linguagem
Além de analisar os tipos de discursos encontrados nas falas, pode-se exa­
minar a função da linguagem. O tipo de discurso diz respeito à forma e à
função superficial de uma fala, ao passo que a função da linguagem, como é
definida aqui, refere-se à intenção mais profunda ou subjacente dessa elocução.
No passado, via-se a linguagem como sendo cognitiva (referente à realidade
objetiva) ou emotiva (relativa aos sentimentos).23 Estudos posteriores mostra­
ram que se trata de algo mais complexo. Na verdade, a linguagem possui uma
ampla variedade de funções. Muitos enunciados têm funções múltiplas, por­
que incluem mais de uma ou até várias delas. As principais funções da lingua­
gem são as seguintes:24

1. Informativa: a linguagem informativa é como o noticiário sobre o tem­


po - uma simples apresentação dos fatos, destinada a informar o(s)
ouvinte(s). Os relatos de mensageiros são geralmente informativos (p.ex.,
ISm 26.1).
2. Persuasivo-dinâmica: de acordo com Macky, a linguagem dinâmica
tem “intenção de transformar os ouvintes pessoalmente”. Como ele
observa, pode ser afetiva (“cujo alvo é suscitar emoções”), pedagógica
(“com o objetivo de iluminar as trevas”) ou transformadora (“com o
propósito de mudar as atitudes, os valores e os comprometimentos
do(s) ouvinte(s), geralmente, provocando emoção e iluminando as tre­
vas em primeiro lugar”).25 Muitas vezes, apresenta um caso ou um ar­
gumento que se destina a convencer o(s) ouvinte(s) sobre a verdade de
uma afirmação. Por exemplo, em ISamuel 22.14-15, o sacerdote
Aimeleque se defende das acusações de Saul. Outros exemplos de lin­
guagem persuasivo-dinâmica aparecem em ISamuel 24.9-15 (primeira
defesa de Davi perante Saul), 25.24-31 (a súplica de Abigail a Davi), e
26.18-20 (segunda defesa de Davi perante Saul).
3. Expressiva: nesta função, o locutor verbaliza “sentimentos, sem preo­
cupação de influenciar a outros”.26 Os lamentos, com os quais o falante
expressa dor pela morte de alguém, são exemplos desse tipo de função
(p.ex., lRs 13.30). Como aponta Macky, “muitas vezes, esse enuncia­
do expressivo se integra a outros tipos quando sabemos que outros nos
ouvem”.27 Por exemplo, a resposta de Davi à narrativa de Natã
(2Sm 12.5) expressa seu senso de indignação, mas também é avaliatória
(vd. n2 4 a seguir) e sendo em forma de juramento tem uma função
performativa (vd. n2 5 a seguir).
4. Avaliatória: nesta função, “o locutor expressa seu julgamento sobre a
qualidade de algo”.28 A condenação de Saul feita por Samuel (ISm
15.18-19) é avaliatória.
O que é literatura narrativa? 49
5. Performativa: a linguagem performativa é a produção de um ato de
fala no qual a elocução “desempenha certo ato não lingüístico, como
um juiz que decreta: ‘O réu está absolvido’”.29 O decreto de Samuel em
ISamuel 15.29-30, que se toma solene com a declaração de que Deus
“não é homem para que se arrependa”, é um exemplo dessa função da
linguagem, pois sela a transferência do trono de Saul.
6. Relacionai: nessa função, o locutor busca “realçar relacionamentos pes­
soais”.30 O apelo de Jônatas a Davi em ISamuel 20.14-15 é um exemplo.

Ao analisar a função da linguagem, é importante considerar a resposta e/


ou o resultado esperado. A visita de Jael a Sísera (Jz 4.18) é superficialmente
relacionai e dinâmica, mas a verdadeira intenção de Jael é acalentá-lo com um
falso senso de segurança para poder matá-lo. Na superfície, o relato de Natã
sobre o homem rico e o homem pobre (2Sm 12.1-4) é informativo, mas o
profeta pretende apanhar Davi numa armadilha. O artifício funcionou, pois o
relato de Natã impele Davi a reagir com uma declaração (v. 5-6) expressando
sua indignação, que é avaliatória (ele condena o homem rico) e que é
performativa (ele pronuncia o julgamento do homem rico, estipulando a pena­
lidade a ser paga e, dessa forma, sela sua própria condenação).
Ao investigar como as falas dão sua contribuição à narrativa, convém que
se identifique tanto o tipo de discurso quanto a função da enunciaçao. Por
exemplo, a descrição feita por Samuel quanto às práticas do futuro rei de Israel
(ISm 8.11-18) é um discurso profético. A linguagem é persuasiva e dinâmica,
e não meramente informativa; destina-se a convencer Israel de que a monar­
quia é, em última análise, opressiva, e pretende dissuadir Israel de pedir um rei.
Da mesma forma, o discurso profético em ISamuel 10.2-6 é dinâmico e não
simplesmente informativo. Os eventos profetizados servem como sinal de que
Deus realmente escolheu Saul (v. 1); o sinal, por sua vez, deveria motivá-lo a
agir (v. 7).
A identificação da função da linguagem pode, muitas vezes, ajudar o
intérprete a resolver questões teológicas complexas. Um exemplo que levanta
questionamento a respeito da onisciência de Deus é a conversa que ele tem com
Abraão sobre a iminente destruição de Sodoma e Gomorra. Em Gênesis 18.20-
21, o Senhor anuncia: “Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se
multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito. Descerei e verei se, de
fato, o que têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim; e, se
assim não é, sabê-lo-ei”. As palavras do Senhor indicam que ele pretende achar
informações. O verbo HÍO, “ver” é colocado com a interrogativa h e em sete
outros exemplos, sempre significando “ver se”.31 Em cada caso, a descoberta
de informação está em foco. Em qualquer outro lugar, o uso da forma da
primeira pessoa com prefixo (imperfeito ou exortativo) do verbo 17T “conhecer”
50 Interpretação dos livros históricos
(cfr. n in s) tem diferentes acepções, incluindo “conhecer com toda a certeza”
(Gn 15.8; 24.14; 42.33-34), “conhecer mais completamente” (Êx 33.13),
“descobrir” (Nm 22.19; ISm 22.3), “experimentar” (Is 47.8) e “ter consciência
de” (SI 51.3). Como o Senhor já tem presciência da situação das duas cidades
(Gn 18.20), “conhecer com toda a certeza” se ajusta muito bem ao verso 21.
Contudo, isso dá a entender que existe falta de conhecimento completo, tal
qual esperamos que um ser onisciente possua.
É impressionante ouvir um Deus onisciente falar dessa maneira, especial­
mente logo após ter revelado seu conhecimento sobrenatural, lendo os pensa­
mentos céticos de Sara (cfr. Gn 18.12-15). Tradicionalmente, os teólogos de­
nominam tais declarações de antropomórficas, mas ainda há uma questão que
se levanta: por que um Deus onisciente se revelaria de uma maneira aparente­
mente desorientada e imprecisa? Uma resposta típica é que ele deve agir assim,
porque somos muito limitados em nosso entendimento.32 Em outras palavras,
para nos ajudar em nossa limitação, Deus precisa se apresentar semelhante a
nós, pelo menos num certo grau. Mas essa explicação está longe de ser satisfatória.
Os teólogos que classificam esses textos como antropomórficos alegam que
conhecem a verdade sobre o assunto —que Deus realmente sabe de todas as
coisas. Assim sendo, no final das contas, nosso pensamento não parece ser tão
limitado. Se nós realmente conseguimos chegar a entender a verdade de que
Deus é onisciente, então a linguagem antropomórfica, em vez de facilitar o
entendimento, parece apenas complicar as coisas!
Precisamos de uma explicação melhor, que analise com mais cuidado a
anatomia do antropomorfismo. Para fazer isso, precisamos examinar a estrutu­
ra metafórica dentro da qual o Senhor fala e, a partir daí, atentar para a função
da linguagem na frase em questão. O contexto enfatiza o papel do Senhor
como juiz do universo. Ouvindo o Senhor falar sobre sua preocupação com a
situação moral de Sodoma e de Gomorra, Abraão começa a negociar em favor
das cidades, certamente por causa de sua preocupação com Ló e sua família.
Suplicando justiça de Deus, ele pede retoricamente: “Não fará justiça o Juiz de
toda a terra?” (v. 25). Os juízes precisam entender os fatos corretamente antes
de tomarem decisões e impor castigos.33 Fica evidente que, nesse contexto, o
Senhor assume o papel de juiz e fala de forma compatível com esse papel.
Devemos também considerar a questão da função da linguagem. É pro­
vável que a fala do Senhor nos versos 20 e 21 é mais do que meramente in­
formativa. O Senhor se sente no dever de comunicar suas intenções a Abraão
(v. 17). Isso demonstra que a linguagem é dinâmica, pretendendo causar im­
pacto significativo em Abraão e talvez impulsioná-lo a agir. O Senhor pode
estar preparando emocionalmente a Abraão para o que já determinou fazer.
Os anjos informam Ló de que o Senhor os enviou para destruir a cidade, por­
que o clamor contra ela é grande (19.13). Eles insistem para que Ló saia da
O que é literatura narrativa? 51
cidade e anunciam que o Senhor está prestes a destruí-la. Eles não dão evidên­
cias de que está havendo uma avaliação. Pode-se presumir que eles já decidiram
destruir a cidade antes de chegarem e que o objetivo de sua vinda é de apenas
avisar Ló. No entanto, não é preciso chegar à conclusão de que o destino da
cidade esteja selado antes da chegada dos anjos. No momento em que os anjos
falam em Gênesis 19.13, a culpa de Sodoma se torna evidente e a necessidade
de julgamento é ratificada pelo comportamento moralmente atroz dos sodomitas
(observe como o texto enfatiza a participação de “todos os homens —tanto
jovens quanto velhos, de todos os lados da cidade de Sodoma”, no v. 4).
Os anjos vêm para avaliar a situação e, se necessário, destruir a cidade. Tendo
feito a avaliação, eles podem falar que sua missão é de julgamento, sem necessa­
riamente implicar um final previamente determinado desde o princípio. Se o
julgamento não é um final determinado antes da chegada dos anjos, então é
possível que a fala do Senhor em Gênesis 18.20-21 se destina a compelir, ou
pelo menos convidar, Abraão a interceder, exatamente como ele faz.34 Isso seria
um antecedente do tema de Abraão como intercessor profético, um papel que
se sobressai mais em Gênesis 20.7.
O que o Senhor diz em 18.20-21, quando visto dentro da estrutura me­
tafórica de Deus como juiz, deve ao menos convencer Abraão de que o Senhor
se compromete a ser justo (evidentemente uma preocupação do patriarca,
cfr. 18.25). Mas isso não é tudo. A linguagem também torna evidente que o
povo das duas cidades tem seu destino em suas próprias mãos. Deus não irá
destruí-las arbitrariamente. Ao contrário, como qualquer juiz honesto e justo,
ele ouve a queixa, examina a prova e aplica a punição merecida. O uso da
linguagem antropomórfica, mesmo se mascarar a verdade ontológica da onis-
ciência de Deus, comunica mais enfaticamente essas verdades do que o faria a
linguagem teologicamente acurada. Nesse contexto, ao que tudo indica, o
Senhor está mais interessado em se revelar como um reto juiz do que em mos­
trar sua onisciência, enfatizando a importância da responsabilidade humana e
chamando Abraão para participar do forjamento do futuro.
A declaração do Senhor em Gênesis 22.12 levanta um problema seme­
lhante. Deus prova a fidelidade de Abraão (cfr. v. 1) e, em seguida, afirma, por
intermédio de seu Anjo: “Agora sei que temes a Deus” (v. 12). O advérbio de
tempo (nny, “agora”) dá a nítida impressão de que Deus obtém uma informa­
ção que ele desconhecia anteriormente. O narrador inicia o capítulo com um
enunciado que resume o que virá a seguir: “Depois dessas coisas, pôs Deus
Abraão à prova”. A luz da declaração do anjo no verso 12, o verbo HDO, “pôs à
prova”, significa, nesse contexto, “pôs à prova com o objetivo de confirmar
(a fidelidade de Abraão)”.35 Como deixa claro o verso 12, a prova tem o intuito
de beneficiar Deus principalmente, e não Abraão.36
A afirmação (’3 iny"l ’ nny, “Agora sei que”) no verso 12 exige uma
análise mais cuidadosa. E uma frase que ocorre em muitos outros textos. Em
52 Interpretação dos livros históricos
Êxodo 18.11, Jetro, tendo ouvido sobre os grandiosos feitos do Senhor em
favor de Moisés e dos filhos de Israel, declara: “Agora eu sei [= estou convenci­
do] que o Senhor é maior que todos os deuses”. Em Juizes 17.13, Mica, tendo
empregado um levita para servir no santuário de sua família, declara com toda
a certeza: “Agora sei [com certeza] que o Senhor me fará bem”. Em ISamuel
24.20, Saul, após ter sido mais uma vez poupado por Davi, afirma: “[Agora]
tenho certeza de que serás rei.” (Observe que run, “ver”, aparece após npll?,
“agora”, nesse texto). Em IReis 17.24, a viúva de Sarepta, tendo testemunhado
que Elias ressucitara seu filho, diz: “Conheço agora [estou convencida] que tu
és um profeta”. (Observe que HT, “este”, vem após nria, “agora”, nesse contex­
to). Em Salmos 20.6, o salmista, provavelmente em resposta a uma mensagem
divina de salvação, diz: “Agora sei que o S enhor salva o seu ungido”. Em cada
exemplo, a frase vem como resposta a algum tipo de demonstração da verdade
que se torna conhecida e pode ser traduzida: “Agora eu entendo”, “Agora eu sei
com toda a certeza” ou “Agora estou convencido”.37 Em cada exemplo, nota-se
um progresso no conhecimento ou uma confirmação daquilo que era tido como
verdadeiro de maneira provisória ou menos confiante.
Mas por que Deus precisa fazer um teste para revelar o caráter de Abraão?
Afinal de contas, em outros textos, dos quais alguns parecem mostrar generali­
zações, indivíduos afirmam que Deus conhece intimamente o caráter e os pensa­
mentos dos seres humanos (lC r 29.17; SI 7.9; 44.20-21; 94.11; 139.1-4;
Jr 20.12). Além disso, o próprio Deus diz que ele conhece no íntimo o caráter
e os pensamentos das pessoas (ISm 16.7; Jr 17.10; Ez 11.5).
Assim como em Gênesis 18, é preciso considerar o contexto. No início da
narrativa, Deus escolhe Abraão para fazer com ele uma aliança; o acordo se
compara à relação entre um rei e seu súdito, como vemos no antigo Oriente
Médio. Ao término da narrativa, Abraão provou sua fidelidade (vd., principal­
mente, Gn 22.12, 15-18) obedecendo às ordens de Deus (cfr. Gn 26.5). Deus
promove o patriarca ao status de súdito predileto, que possui agora privilégios
reais concedidos pelo próprio Rei.38 Deus contextualiza sua autorrevelação a
Abraão (e aos leitores de sua história) dentro de um esquema relacionai e me­
tafórico de Senhor da aliança, que é uma função que exerce como monarca,
talvez o motivo predominante da autorrevelação de Deus no Antigo Testamento.
Consequentemente, podemos esperar vê-lo agir e ouvi-lo falar de maneiras que
refletem o papel relacionai que ele assumiu dentro desse esquema metafórico.
Uma análise mais cuidadosa da maneira como os reis falavam com os
súditos que lhe eram fiéis pode facilitar nossa compreensão do que Deus diz
em Gênesis 22.12. Como exemplo, podemos analisar o relacionamento do rei
hitita Suppiluliuma (início do séc. 14 a.C.), que havia incorporado a cidade-
estado de Ugarit ao seu império, com seu súdito Niqmandu, o administrador
local de Ugarit. Quando os reis vizinhos se rebelaram contra seu soberano
O que é literatura narrativa? 53
senhor e tentaram forçar Niqmandu a se juntar a eles na rebelião, Niqmandu
permaneceu fiel. Depois de derrotar os rebeldes, Suppiluliumas reconheceu
oficialmente a lealdade de Niqmandu e o recompensou. Ele disse: “Niqmandu
é inimigo dos meus inimigos e amigo dos meus amigos. Ele é totalmente fiel ao
Grande Rei Sol, seu Senhor, e irá manter o pacto de amizade com Hatti. Assim
sendo, o Grande Rei Sol viu a lealdade de Niqmandu.”39
Em meados do século 7° a.C., o rei assírio Asurbanipal disse a Sin-tabni-usur,
governador de Ur, que inimigos desse magistrado tinham tentado colocar o rei
contra ele, mas o rei reconhecia a lealdade do governador e lhe garantia que o
favor do monarca era extensivo aos seus filhos também: “Ele e Umanigash
conspiraram para matar-te; mas como eu reconheço [lit. “conheço”] tua lealda­
de, concedo-te (mais e mais) privilégios... e os privilégios que a ti concedo
continuarão a ser concedidos até aos teus netos”.40
Embora nenhum desses textos possua expressão idêntica à que se encontra
em Gênesis 22.12, ambos contêm declarações formais de que o rei reconhece
(“O Grande Rei observou”, “Eu conheço”) a lealdade de seu súdito. Dentro do
esquema da aliança de Deus com Abraão, somos levados a ver as palavras “Agora
eu sei que tu és temente a Deus (i.e., um súdito leal, obediente)” como a declara­
ção formal de Deus a seu súdito, dizendo que a lealdade foi provada em meio a
uma crise, e agora é digna de ser recompensada com uma promessa confirmada.
Devemos também considerar a função da linguagem identificada na de­
claração do Senhor. O enunciado não é meramente informativo; é também
avaliatório (Deus expressa um julgamento positivo a respeito da qualidade do
caráter de Abraão) e performativo. Como observamos anteriormente, a lingua­
gem performativa designa “um enunciado que desempenha diretamente algum
ato não lingüístico”.41 Embora não seja tecnicamente um juramento, o enunci­
ado do verso 12 é o prefácio do juramento de confirmação (cfr. v. 15-18), e,
para aqueles que estão acostumados com o funcionamento das relações de ali­
ança, indica que um ato de fala divina de alto significado está para acontecer,
em resposta ao temor de Deus e à obediência demonstrados por Abraão.
Portanto, em suma, por que Deus mascara sua onisciência e se manifesta
como se estivesse testando (v. 1) seu servo e descobrindo qual é o verdadeiro
caráter dele (v. 12)? Como sugerimos com respeito a Gênesis 18.21, revelando-
se dessa maneira, Deus dá ênfase ao fato de estar num relacionamento dinâmi­
co com Abraão, no qual as ações e reações do patriarca desempenham um papel
de prescrever a maneira como o futuro irá se desenvolver. Resumindo, Abraão,
o parceiro responsável na aliança com Deus, é favorecido com a honra da cau­
salidade. Como Deus assume o papel de supremo senhor, não devemos nos
surpreender de vê-lo agindo e ouvi-lo falando como tal. A linguagem avaliatória
e performativa dava certeza ao patriarca de que a promessa estava segura devido
à sua fidelidade.
54 Interpretação dos livros históricos
Lacunas e ambigüidade

Inevitavelmente, todas as narrativas apresentam lacunas em que o autor


omite informação que o leitor gostaria de ter recebido. Por vezes, os autores
omitem um conteúdo apenas temporariamente e para efeito dramático.
A narrativa da luta de Jacó com Deus é um exemplo disso (Gn 32.22-32).
No início, Jacó luta com um “homem” (v. 24). Somente mais tarde é que
realmente descobrimos que o adversário de Jacó é, de fato, Deus (v. 28 e 30).
O autor assume a perspectiva limitada de Jacó e retém a identidade do opo­
nente de Jacó com propósitos dramáticos. Outro exemplo de omissão tem­
porária ocorre em Juizes 14.1-4, onde Sansão pede que seus pais tomem pro­
vidências para ele se casar com a moça de Timna. O leitor certamente se
solidariza com os pais, que alegam que não seria apropriado que Sansão se
casasse com uma moça filisteia. Mas o narrador nos surpreende anunciando
que os pais de Sansão não estavam percebendo que, na verdade, o Senhor
estava por trás disso! Retendo essa pequena porção de informação importan­
te, o narrador destaca o caráter único da situação e a dimensão surpreendente
da providência de Deus nesse exemplo.
Para a infelicidade dos leitores curiosos, os autores nem sempre revelam
informações como essa. Por vezes, as lacunas permanecem devido ao fato de
nós, leitores, estarmos tão afastados do tempo, da língua e da cultura do con­
texto da narrativa. Muitas das lacunas que notamos numa narrativa eram au­
sentes para uma antiga audiência do povo de Israel, pois leitores do passado
entenderiam intuitivamente as nuances da sua linguagem e os aspectos da sua
cultura melhor do que nós o fazemos. Essa é uma das razões pelas quais os
intérpretes devem aprender tanto quanto possível a respeito da cultura e do
funcionamento do hebraico da Bíblia.
Mesmo quando nos empenhamos para preencher as lacunas provocadas
por barreiras culturais e lingüísticas, sem dúvida a ambigüidade permanece, em
alguns casos, por intenção do autor. Afinal de contas, o estilo narrativo do
hebraico antigo tende a ser descritivo e relativamente conciso. Isso naturalmen­
te cria ambigüidade e gera especulação interpretativa. Meir Sternberg, em sua
extensiva análise de lacunas e ambigüidades, observa que o “preenchimento de
lacuna” é, às vezes, “realizado de um jeito desordenado, equivocado e tendenci­
oso” que é “iniciado e mantido pelos interesses subjetivos do leitor... e não pelas
normas e diretrizes do próprio texto”.42 Para exemplificar o “preenchimento
ilegítimo de lacunas”, Sternberg traz algumas leituras rabínicas de narrativas
bíblicas: As hipóteses que eles levantam são geralmente baseadas em suposições
que não têm relevância para o contexto da Bíblia (p.ex., que Jacó e Esaú fre­
qüentaram uma escola), não têm qualquer apoio de pormenores textuais e nem
mesmo completam o que a própria narrativa exclui. Onde houver disposição, o
midrash sempre encontrará espaço.43 Em círculos cristãos, os pregadores que
O que é literatura narrativa? 55
empregam o preenchimento de lacunas justificam essa especulação chamando-a
de “imaginação santificada”.
Diante desses excessos, pode haver uma tendência de se evitar completa­
mente o preenchimento de lacunas. No entanto, se por um lado devemos inter­
pretar com cautela, evitando “interpretar demais” o texto, por outro lado não
devemos exagerar e “sub-interpretar”. Algumas vezes, o autor nos dá informa­
ção suficiente para tentarmos resolver a ambigüidade. Em tais casos, é válido
observar as dicas textuais, ligar os pontos, por assim dizer, e propor explicações
sensatas, que sejam coerentes com o que o autor nos diz no contexto e com o
que dita o bom senso.
Por exemplo, em 2Samuel 11.16-17, lemos como Joabe faz planos para
que Urias morra na batalha. Ele não segue as orientações secretas de Davi (v. 15),
mas usa um método alternativo. O leitor naturalmente procura um motivo
para tal discrepância. De imediato, o bom senso nos permite preencher a lacu­
na na narrativa. Davi pede a Joabe que coloque Urias nas linhas de frente e faça
seus homens retrocederem de repente, para que Urias fique isolado e seja mor­
to. O plano é certamente ridículo e denuncia o pânico em que estava Davi.
Afinal de contas, como alguém executaria um plano tão absurdo —fazendo
com que cada soldado sussurrasse para o companheiro ao lado: “Cai fora, mas
não fala nada para Urias”? Mesmo se Joabe conspirasse contra Urias, o que isso
causaria na moral dos soldados? Além disso, Urias recuaria se visse os outros
fazendo isso. Com certeza, Joabe percebe que a ordem do rei taticamente não
faz sentido, mas ele também trata de cumprir a meta geral dele —a morte de
Urias. Ele põe Urias nas linhas de frente e ordena um assalto frontal à posição
do inimigo, fazendo com que a morte de Urias fosse quase inevitável. Certa­
mente, vários outros deveriam morrer também, mas esse é um pequeno preço a
ser pago para satisfazer o desejo do rei. Como aponta Sternberg, o narrador
nunca avalia o plano de Davi. Ele simplesmente deixa que a resposta de Joabe o
faça.44 O narrador também não nos conta o que passava na mente de Joabe. Ele
deixa isso por conta do bom senso do leitor.
O intérprete enfrenta um desafio maior em 2Reis 9.30-31, que narra a
reação de Jezabel à chegada de Jeú em Jezreel, após ele ter matado o rei Jorão,
filho de Jezabel. Ela se prepara para a chegada de Jeú, embelezando-se e debru-
çando-se na janela. Quando ele chega, ela lhe faz uma pergunta insultante e
sarcástica, comparando-o a Zinri, que tinha matado Elá quarenta anos antes e
então, cometido suicídio alguns dias depois (cfr. lRs 16.9-20). O leitor curioso
naturalmente quer saber por que Jezabel age e fala dessa maneira. Talvez ela
ache que seu destino é inevitável e, como rainha, queira morrer com estilo. Mas
dada à caracterização de Jezabel feita pelo autor anteriormente, é possível que
ela esteja se oferecendo a Jeú. Ao se enfeitar, ela tenta se fazer sexualmente
atraente. Ao comparar Jeú a Zinri, ela o faz lembrar de que ele se acha numa
56 Interpretação dos livros históricos
situação perigosa. Como assassino que necessita firmar sua força, ele pode achar
que ela lhe seja útil.45 Em outras palavras, por meio da sua aparência, ela está
dizendo: “Você me quer”. Por meio da sua pergunta, ela está dizendo: “Você
precisa de mim!”. Essa ideia é coerente com a caracterização de Jezabel, feita pelo
autor anteriormente, como pessoa arrogante, sedenta de poder e fraudulenta.
A análise das possíveis motivações dos atos de Jezabel é exemplo de que às
vezes podemos propor alternativas legítimas para preencher lacunas, sem que­
rer forçar uma explicação como certa. O relato do assassinato de Sísera por Jael
em Juizes 4 é outro exemplo disso. Sabemos que o marido de Jael, Héber, era
um aliado de Sísera (v. 17). Consequentemente, esperaríamos que ela ajudasse,
e não que matasse Sísera. Todavia, quando Sísera entra em cena, Jael explora a
confiança dele, deixa-o vulnerável e o mata com uma estaca da tenda e um
martelo, enquanto ele está dormindo. O texto nunca revela os motivos de Jael.46
Será que ela estava defendendo sua honra?47 Será que os sentimentos dela, ao
contrário dos sentimentos do marido, foram a favor dos israelitas o tempo
todo?48 Ou será que ela simplesmente percebeu que o bom senso e a experiência
agora exigiam que seu clã transferisse para Israel a lealdade a um Sísera derrota­
do?49 Não podemos ter certeza. Aparentemente, para o autor, o que realmente
conta são os atos de Jael e não seus motivos.
Se o texto não traz informação suficiente para preencher suas lacunas, o
procedimento mais seguro é respeitar o silêncio do mesmo e se concentrar
naquilo que ele realmente destaca. De fato, a intenção do narrador em não
preencher uma lacuna pode ajudar o leitor a focalizar o que o escritor julga
importante. Por exemplo, a narrativa do encontro de Davi e Bate-Seba (2Sm
11.1-5) em nenhum momento nos dá ideia das emoções, pensamentos e mo­
tivos dela. O foco está nas ações de Davi. Uma série de orações com w ayyiqtol
nos informa de que “ele levantou-se, passeou, viu, enviou, enviou [novamente]
e deitou-se com ela (NET, “colocou-se”)”. Ao longo da narrativa, Bate-Seba é
descrita tanto pelo narrador (v. 2b, com uma oração adjetiva e uma oração
independente) quanto pelo mensageiro de Davi (v. 3b), mas ela não participa
da linha central da narrativa até o verso 4, onde ficamos sabendo que ela
“veio” a Davi e depois ele “se deitou” com ela.50 Porém, o foco volta rapida­
mente para Davi, quando nos é contado que “ele teve relação sexual com ela”.
Somente neste ponto, que é a seqüência do encontro, Bate-Seba se toma o
foco (ela voltou, concebeu, mandou mensagem, disse [NET “dizendo”])”.
E evidente que o narrador quer enfatizar a maneira determinada com que
Davi foi atrás de Bate-Seba e a culpabilidade dele. O papel de Bate-Seba no
drama parece ser passivo; não se deve tentar inocentar Davi, mesmo em par­
te, colocando Bate-Seba no papel de sedutora astuta. Além disso, não temos
nem mesmo certeza de que a resistência a uma ordem do rei era uma opção
válida para ela.
O que é literatura narrativa? 57
A utoridade e perspectiva do narrador

Nas narrativas do Antigo Testamento, o narrador geralmente assume um


ponto de vista divino e onisciente, que transcende o fato propriamente dito e
extrapola o que uma mera testemunha ocular perceberia. Ele pode invadir a
privacidade da mente de um personagem (ISm 20.26), está ciente dos eventos
e das declarações que estão fora do alcance do material da fonte normalmente
disponível aos autores bíblicos (Jz 3.24-25; 5.28-30), e tem entendimento teo­
lógico sobre o significado dos eventos (Jz 14.4). Como tal, o narrador fala com
autoridade divina. Yairah Amit observa:
O narrador conhece tudo o que existe para conhecer sobre o universo da
narrativa —até os pensamentos e sentimentos ocultos dos personagens,
incluindo Deus. Portanto, numa narrativa bíblica, confia-se em Deus por
razões de fé e confia-se no narrador, sob esse ponto de vista, como acima de
Deus e como fonte do relato sobre Deus. Tanto Deus quanto o narrador
devem ser dignos de confiança e, por esse motivo, são pontos de referência
de confiabilidade para todas as outras pessoas. Tudo o que estiver em
harmonia com o que o narrador e com o que Deus diz deve estar fora de
qualquer dúvida.51

O princípio da autoridade do narrador é fundamental para uma correta


interpretação. No atual contexto pós-moderno da hermenêutica, está na moda
desconstruir um texto e contestar seus pressupostos e seu propósito teológico.
No entanto, se as narrativas do Antigo Testamento são verdadeiramente as
Escrituras, o intérprete deve respeitar a autoridade do narrador. Por exemplo,
alguns desconstroem a narrativa do confronto entre Davi e Nabal (ISm 25) de
tal forma, que transformam Nabal em um personagem simpático, vítima de
extorsão por um homem (Davi) que comandava um crime organizado “prote­
tor” no estilo da máfia. Davi pode bem ter se envolvido numa forma de extor­
são, embora seja possível também que tenha protegido os pastores de Nabal do
ataque de bandidos. Por causa da situação perigosa em que se achava, Davi foi
forçado a chantagear para sobreviver. De qualquer modo, ele não se tornou um
bandido vulgar que simplesmente rouba e saqueia vítimas indefesas. Como um
fora da lei, ele se situava no extremo mais civilizado do espectro. Todavia, esse
não é o foco do narrador. Sem necessariamente endossar o ato de Davi, o narrador
retrata Nabal como tolo (v. 3), uma avaliação com a qual tanto os servos de
Nabal (v. 17) quanto a mulher dele (v. 25) concordam. A atitude de Nabal faz
um nítido contraste com a atitude de sua sábia esposa (cfr. v. 3), que está bem
consciente do chamado divino e do destino de Davi (v. 28-30). Suas palavras
dão a entender que Nabal deveria ter respondido de maneira positiva a Davi
em razão de quem Davi era —o rei escolhido por Deus e protetor de Israel. De
modo contrário, Nabal tratou a Davi como se ele fosse simplesmente um fora
58 Interpretação dos livros históricos
da lei. Não foi por qualquer falta que tenha cometido que Davi foi obrigado a
se submeter àquela ocupação, mas Nabal deveria ter enxergado a situação de
uma forma mais ampla e mostrado compaixão, em gratidão pelo que Davi
tinha feito por Israel no passado. Se a narrativa é realmente a Escritura, o intér­
prete não tem o direito de arruinar a descrição e a avaliação que o narrador faz
de Davi e de Nabal.52
É óbvio que o narrador, algumas vezes, falará de perspectiva limitada.
De vez em quando, por questões retóricas ou dramáticas, o narrador refletirá o
ponto de vista de um dos personagens ou de um observador.53 Os narradores
muitas vezes interrompem a linha central do discurso com uma oração iniciada
com nrn, “e vejam”, para indicar um deslocamento de uma perspectiva exter­
na para um ponto de vista interno.54 Por exemplo, em Rute 3.8, quando Boaz
acorda, lemos: “E vejam! Havia uma mulher deitada a seus pés”.55 Até certo
ponto, o enunciado é correto, mas é também muito mais vago do que pode­
ríamos esperar. Afinal de contas, sabemos que a mulher é Rute, porque o narrador
nos contou (v. 6-7), mas ele intensifica o efeito dramático, assumindo a pers­
pectiva de Boaz e, com isso, chamando-nos para vivenciar a situação como
Boaz vivenciou.56
Infelizmente, os narradores bíblicos comumente não marcam o uso de
uma perspectiva limitada. Em muitos casos, o intérprete deve se valer de indi­
cações contextuais mais gerais para saber quando este artifício literário está
sendo empregado. A falha em detectar esse uso pode levar a conclusões históri­
cas erradas. Por exemplo, conforme se vê em Juízes 1.19, os homens de Judá,
apesar de terem a companhia e a força do próprio Senhor, foram incapazes de
derrotar os moradores do vale, porque esses últimos “tinham carros de ferro”
no arsenal. Essa afirmação nos faz perguntar: “Desde quando carros são um
obstáculo para os propósitos e para o poder de Deus?”. Afinal de contas, o
Senhor destruiu os carros egípcios no Mar Vermelho (Ex 14.23-28; 15.4). Ele
prometeu entregar os carros de ferro dos cananeus nas mãos de Israel e ordenou
que Josué os queimasse (Js 11.4-6, 9). Mais tarde, Josué garantiu à tribo de José
que os carros de ferro dos cananeus não os impediriam de conquistar os vales
(Js 17.16-18). Em Juízes 4-5, lemos como o Senhor aniquilou os carros de
Sísera. Mas, de acordo com Juízes 1.19, o exército de Judá não foi capaz de
dominar carros de ferro, mesmo tendo o Senhor ao seu lado! Em seu contexto
literário mais geral, a passagem não pode significar o que parece estar dizendo.
Logo percebemos que aí existe algo que vai além do que conseguimos enxergar.
Um pouco mais adiante, o autor explica que o fracasso do povo era realmente
causado por falta de compromisso espiritual e idolatria (Jz 2.1-5). Juízes 1.19
deve refletir a perspectiva limitada e distorcida do povo e não a interpretação
pessoal do autor.57 O autor está brincando com sua audiência aqui. Num tom
irônico, por assim dizer, ele aumenta nossa curiosidade, dando-nos um sinal de
O que é literatura narrativa? 59
que há algo errado. Esperando nosso estranhamento, ele prepara o caminho para
a verdadeira explicação do motivo por que Israel não teve vitória completa.
As vezes, é difícil saber quando o narrador está empregando uma perspec­
tiva limitada. Por exemplo, 2Crônicas 28.23 nos conta que Acaz “ofereceu sa­
crifícios aos deuses de Damasco, que o tinham derrotado” (Tradução literal).
Vamos tomar essa afirmação ao pé da letra? O texto pode simplesmente refletir
a perspectiva politeísta de Acaz: ele pensava que os deuses o tinham derrotado.
No entanto, não devemos nos apressar para essa conclusão. Na visão de mundo
do narrador, esses deuses talvez existam de fato e tenham a capacidade de der­
rotar o povo de Deus. Se esse é mesmo o caso, o cronista caracteriza essa visão
deixando claro que esses deuses conseguiram derrotar Judá somente porque o
Senhor entregou seu povo rebelde nas mãos do inimigo (vd. v. 5, 19).
Em razão da retórica, o narrador autorizado, às vezes, impõe uma pers­
pectiva idealizada no relato dos eventos que não coincide necessariamente com
a realidade histórica. Por exemplo, o livro de Juizes vê Israel de uma maneira
unificada, que pode não ter caracterizado a nação no período dos juizes.
O prólogo do livro fala de Israel como uma nação. Enquanto o capítulo 1
focaliza os esforços individuais de várias tribos —o encontro em Boquim é
apresentado como algo que inclui a nação inteira (2.1-4). A interpretação teo­
lógica do período em Juizes 2.6—3.6 adota, sistematicamente, uma perspectiva
nacional. E Israel que peca, que sofre, que clama por socorro e que experimenta
o livramento do Senhor. Essa perspectiva também marca o relato de Otniel no
início da parte central do livro (3.7-11). A filiação tribal de Otniel não é men­
cionada; ele é simplesmente o libertador de Israel. No prólogo do livro, sabe­
mos que Otniel habitava no sul, porém resgatou Israel de um invasor do norte.
A perspectiva pan-israelita também aparece na estrutura da parte central do
livro e no epílogo, onde vemos as tribos congregadas em Mispa e Betei para
lidar com problemas trazidos pelo assassinato da concubina do levita.
Essa perspectiva pan-israelita parece ser inventada quando se analisa
detalhadamente as narrativas da parte central, pois os fatos narrados se limita­
vam a determinados locais.58A opressão cananeia nos reinados de Jabim e Sísera
abrangia apenas as tribos do norte. Zebulom e Naftali foram especialmente
convocados para a guerra (4.6, 10; cfr. 5.18), embora a canção de vitória men­
cione o envolvimento bem como a não participação de outros (5.14-17). Judá
chama a atenção por sua ausência. As tropas de Gideão vieram do norte e das
regiões centrais (6.35) e não do sul. Abimeleque, apesar de ser chamado rei de
Israel (9.22), parece ter atuado na região de Siquém. Jefté atuou principalmen­
te no centro e no sul (10.8-9), ao passo que as atividades de Sansão se localiza­
ram no sul. Embora seja dito que ele governou Israel por vinte anos, ele sofreu
oposição do povo de Judá, ao menos inicialmente (15.11-13).
As tradições que se encontram na parte central do livro podem muito
bem ter tido origem independente e ter funcionado inicialmente no âmbito
60 Interpretação dos livros históricos
tribal ou nos círculos regionais. Mas é inútil especular sobre sua prévia existên­
cia oral ou literária. A realidade é que o editor responsável pelo formato final
do livro integrou tematicamente essas narrativas com o prólogo e lhes deu uma
moldura pan-israelita. Isso pode parecer artificial e anacrônico, pois o Israel
unificado que é descrito em Josué ressurge somente após o período dos juizes e,
portanto, apenas por um período relativamente breve. Contudo, convém dar
ao narrador uma margem de confiança. Vendo os acontecimentos regionais
com dimensão nacional, a estrutura presente no livro mantém diante dos leito­
res o ideal de um Israel unificado como é retratado em Josué. Ela também força
os leitores a considerar os desdobramentos teológicos mais amplos de inciden­
tes tribais. Para o narrador, quando uma região sofria uma invasão, Israel sofria
também. A disciplina divina pode ter causado um impacto direto somente em
algumas tribos, mas expressava o desagrado de Deus com o pecado de uma
nação inteira. Quando a paz era restaurada em uma região, Israel se tornava
coeso e a nação toda experimentava descanso.59 A representação de juizes
regionais com autoridade nacional reflete o ideal da unidade nacional sob uma
liderança correta (Dt 17.14-20; cfr. Jz 17.6; 21.25). Em resumo, o esquema
editorial reage agressivamente contra o espírito de desunião e de desintegração
nacional retratado na narrativa, mantém vivo o ideal apresentado em Josué e
prepara o caminho para a concretização do ideal na monarquia.
M acroenredo

As narrativas do Antigo Testamento não são simplesmente antologias com


pequenas histórias independentes e isoladas. Embora possam ser diferentes de
um romance moderno, as narrativas do Antigo Testamento apresentam um
macroenredo - um enredo mais amplo que engloba, mas, ao mesmo tempo,
transcende as narrativas separadas. Cada narrativa isolada deve ser vista como
parte do contexto desse macroenredo. Assim como não se pode apreciar uma
cena de um filme de maneira completa e apropriada sem se ver o filme inteiro,
não se pode também entender o propósito de uma cena ou de uma história
particular numa narrativa bíblica separada do seu macroenredo.
Por exemplo, 2Samuel 16.1-4 narra como Ziba, servo de Mefibosete, o
filho aleijado de Jônatas (2Sm 9.1-13), encontra Davi quando ele estava fugin­
do de Jerusalém frente à revolta de Absalão. Ziba traz dois jumentos e boa
quantidade de alimento para Davi. Ele informa a Davi que Mefibosete, seu
senhor, ficou em Jerusalém na expectativa de que a casa de Israel o fizesse rei.
Tomando o relato de Ziba ao pé da letra, Davi ordena que os bens de Mefibosete
sejam dados ao leal servo. Mas não se pode ler esse episódio isoladamente.
Quando Davi retorna à cidade após a morte de Absalão, Mefibosete saúda o
rei, declara sua lealdade e diz que Ziba mentiu (2Sm 19.24-30). Davi não sabe
ao certo quem está falando a verdade. Assim, ele reverte o que havia decretado
O que é literatura narrativa? 61
a Ziba anteriormente e divide os bens de Mefibosete em partes iguais entre os
dois. Mefibosete recusa a oferta, alegando que seu único interesse é a segurança
do rei. O texto nos dá alguma pista para resolver esse dilema? O narrador nos
diz que Mefibosete ficou pesaroso desde o dia em que Davi deixara a cidade
(v. 24). Esse seria um jeito estranho de agir se ele esperava se tornar rei
(cfr. 2Sm 16.3). Olhando para trás, a explicação da ausência de Mefibosete
dada por Ziba parece pouco provável. Parece que Ziba estava mentindo.
O episódio registrado em Gênesis 38 parece ser uma narrativa indepen­
dente sobre Judá, com sua estrutura de enredo própria. Apesar de ter provavel­
mente circulado de forma autônoma entre os descendentes de Judá no passado,
possui agora um contexto literário que mostra seu significado e valor. Integra a
narrativa conhecida como a história de José em Gênesis 37-50, que, na verda­
de, é a narrativa de como dois irmãos, Judá e José, foram providenciais na
história de sua família e no cumprimento da promessa de Deus a Abraão e aos
patriarcas.60 No começo do macroenredo, Judá serve como um contraste para
José - sua falta de domínio próprio contrasta nitidamente com a pureza moral
de José (Gn 39). No desenrolar da narrativa, a intervenção providencial de
Deus transforma o Judá ambicioso e hipócrita do capítulo 38 no Judá dedica­
do e compassivo do capítulo 45 e prepara o caminho para que haja harmonia
na família, a qual é essencial para que a comunidade da aliança experimente o
cumprimento da promessa de Deus.
Como se observou anteriormente, a narrativa do Antigo Testamento con­
tém vários gêneros, além de suas histórias. Ao explicar o macroenredo de um
livro, o intérprete tem a tarefa de elucidar como a organização do material
literário em um dado livro contribui para a totalidade e o propósito da mensa­
gem. O livro de Rute é um exemplo clássico de narrativa, mas termina com
uma genealogia. A princípio, parece ser uma maneira imperfeita de terminar
uma história tão agradável e profunda. Uma reflexão cuidadosa revela que a
genealogia tem uma importante função como epílogo da história. No episódio
final do livro, o povo de Belém pede a Deus que abençoe o casamento de Boaz
e Rute com um filho que traga renome à família e continue a linhagem de Perez
(Rt 4.11-12). A genealogia mostra que a oração foi atendida e que as bênçãos
de Deus muitas vezes se estendem além do tempo de vida dos que a receberam.
Através de Davi, bisneto de Rute e Boaz, Deus recompensou a fidelidade deles
de uma maneira que trouxe grande fama à família e a Israel, seu povo.
As listas de limites territoriais em Josué 13-21, apesar de serem monóto­
nas e aparentemente irrelevantes para os leitores modernos, tinham função tan­
to prática quanto teológica em seu antigo contexto. Se houvesse litígio sobre
limites e reivindicações territoriais entre tribos, os juízes poderiam consultar as
listas para resolver a disputa. De forma mais significante, as extensas listas indi­
cam claramente que Israel tinha estabelecido uma posição segura na terra. Deus
tinha cumprido a promessa de dar a terra ao seu povo.
62 Interpretação dos livros históricos
Intertextualidade

Prefiguração

Reconhecer que a narrativa do Antigo Testamento é tanto estória quanto


história nos permite detectar a intertextualidade, as inter-relações entre os tex­
tos. A análise literária revela a presença de prefiguração, um artifício que é
bastante conhecido na literatura e no cinema modernos. Em Êxodo 2.17-19,
Moisés defendeu as filhas de Reuel contra alguns pastores. Esse episódio breve
e aparentemente secundário coloca Moisés no papel de libertador e é uma
prefiguração de como o Senhor irá usá-lo para libertar Israel oprimido. Em
Juizes 14, Sansão, capacitado pelo Espírito de Deus, mata um rugiente leão
(v. 5-6) e, mais tarde, come mel do favo encontrado na carcaça do leão (v. 8-9).
Ambos os acontecimentos revelam traços importantes do caráter de Sansão e
têm uma função prefigurativa na narrativa. Matar o leão revela o que Sansão é
capaz de realizar no poder de Deus. Mais adiante na narrativa, os filisteus ata­
cam Sansão como um leão.61 Os gritos deles correspondem ao bramido do
leão. O Espírito de Deus desce (nbs) sobre Sansão e ele, de maneira sobrenatu­
ral, derrota os filisteus, da mesma maneira como matara o leão. Comer o mel
denota a dificuldade de Sansão em controlar seus desejos físicos e sugere que,
para ele, a satisfação do apetite é mais importante do que a preservação de sua
condição de nazireu. Isso também prenuncia seu fim, que tem raízes em sua
desenfreada compulsão por satisfação sexual. A doçura do mel prefigura os
encantos de Dalila, que usa seu controle psicológico sobre Sansão para destruí-lo.
Sansão pode enfrentar leões e derrotá-los, mas não o faz com o mel.62 Com
doçura nos dentes, ele é um matador de leões!
Paralelismo e tipologia narrativa

A análise literária também revela a presença de paralelismo no nível do


macroenredo e da macroestrutura. Em uma ocasião, no período em que Saul
está tentando matar Davi, este encontra o rei dormindo onde estava acampado
(ISm 26). Abisai, sobrinho de Davi, oferece-se para matar Saul, mas Davi manda
que ele não o faça (v. 7-12), provando assim lealdade a Saul. Quando, mais
tarde, já como rei, Davi foge de Absalão porque corria risco de morte, um
benjamita, chamado Simei, parente de Saul, o confronta (2Sm 16.5-14). Simei
atira pedras e terra contra Davi, amaldiçoa-o, acusando-o de assassino. Na opi­
nião de Simei, o Senhor está punindo Davi por seus crimes contra a casa de
Saul, tomando dele o reinado e transferindo-o para Absalão.63 Quando Simei
cospe seu discurso venenoso, Abisai toma a frente para silenciá-lo com o golpe
ligeiro de sua espada. Mas Davi o repreende e o proíbe de fazer mal a Simei.
Esse episódio faz um paralelo com o incidente anterior em que Abisai se oferece
para matar Saul. A recusa de Davi em matar esse benjamita deixa clara a ideia
O que é literatura narrativa? 63
de que Davi nunca iniciou ou apoiou qualquer ação hostil contra Saul ou
contra sua casa.
Em Juizes e em ISamuel, as mães anônimas de Sansão (Jz 13) e de Mica
(Jz 17) funcionam como contrastes de Ana (ISm 1). Contrastando com a mãe
de Sansão, cujo filho nazireu, milagrosamente concebido, fracassou em com­
preender seu verdadeiro papel de libertador enviado pelo Senhor e nunca se
posicionou efetivamente à altura de um líder, Ana, de maneira sobrenatural, dá
à luz a um filho nazireu, por meio de quem o Senhor iria restaurar uma lideran­
ça competente para Israel. Em contraste com a mãe de Mica, cujos atos equivo­
cados e obsessão pelos ídolos contribuíram para o culto ilegítimo dos danitas,
a consagração de Ana ao Senhor se toma o catalisador para o ressurgimento da
adoração genuína a Jeová, com a liderança espiritual de Samuel, seu filho.
Os três relatos começam da mesma maneira:

1. Juízes 13.2 rráç iam . . . ninsrç nns mx ,n,i


“Ora havia um certo homem de Zorá ... cujo nome
era Manoá”

2. Juízes 17.1 tom DnsK-"ino ffl,N",rn


“Ora havia um homem da região montanhosa de
Efraim cujo nome era Mica”

3. ISamuel l . l mpbx tom . . . □''rmrrmi ■ nnx arx Tri


T It : v : • - t t r v • • :-

“Ora havia um certo homem de Ramataim... cujo


nome era Elcana”

A fórmula “ora havia um (certo) homem de (nome geográfico).,, cujo


nome era (nome próprio)” parece ser uma forma estilizada de iniciar uma nova
narrativa. No entanto, no Antigo Testamento, essa fórmula aparece somente
nessas três passagens e em ISamuel 9.1, onde se apresenta a origem da família
de Saul. Isso sugere que a fórmula introdutória é um artifício de articulação no
nível da macroestrutura.64
Às vezes, o paralelismo literário envolve uma tipologia narrativa, em que
personagens que aparecem antes fornecem o modelo para um personagem
posterior na narrativa. Isso, por sua vez, permite que o leitor perceba a avaliação
que o narrador faz da trajetória posterior desse personagem. Por exemplo,
1 Samuel 17 retrata um Davi vigoroso, como sendo um novo matador de gigante
nos moldes de Josué, Calebe e Otniel. No entanto, posteriormente, quando ele
sucumbe à luxúria,65 ele se torna um novo Sansão. A partir desse ponto,
assassinato, estupro e guerra civil dominam o cenário literário de 2Samuel.
O relato da desordem que toma conta da sua casa e do seu reinado lembra o
período dos juízes como é descrito no epílogo do livro de Juízes (Jz 17—21),
64 Interpretação dos livros históricos
que ironicamente sucede (literária, mas não cronologicamente) a narrativa da
morte de Sansão.
Alusão
Muitas vezes, o narrador faz alusão, conscientemente, a uma narrativa
precedente para traçar uma relação temática e/ou teológica entre os eventos.
Um exemplo clássico de alusão literária é Juizes 19, que mostra paralelos óbvios
com Gênesis 19.66Na narrativa precedente, quando os anjos chegaram a Sodoma,
Ló os convidou para irem à sua casa. Eles disseram que passariam a noite na
praça, mas Ló, sabendo do perigo que havia na cidade, insistiu para que ficas­
sem com ele. No relato de Juizes 19, quando o levita chega a Gibeá com sua
concubina, ninguém demonstra hospitalidade para ele, com exceção de um
homem velho que não é natural da cidade. Como Ló, ele insiste para que os
visitantes não passem a noite na praça. Quando os homens de Sodoma ficam
sabendo dos hóspedes de Ló, eles pedem que ele os traga para fora para que
sejam estuprados. Da mesma maneira, os homens de Gibeá insistem para que o
ancião lhes entregue o levita para que abusem dele. Como Ló, o homem velho
segue uma ideia distorcida da lei da hospitalidade quando oferece duas mulhe­
res para os homens que estavam do lado de fora de sua casa. No entanto, sua
oferta é sutilmente mais insensível que a de Ló. Ló ofereceu suas duas filhas; o
homem velho oferece sua filha e a concubina de outro homem. Além disso, Ló
disse aos sodomitas: “Tratai-as como vos parecer” (Gn 19.8; literalmente “tratai-as
de acordo com o que é bom aos vossos olhos”). O homem velho usa palavras
quase idênticas (Jz 19.24, lit. “fazei com elas conforme o que é bom aos vossos
olhos”), mas ele introduz essa frase com as seguintes palavras: “Eu as trarei para
fora e vós podeis abusar delas”. A ideia da alusão é clara —Gibeá se torna uma
nova Sodoma, habitada por criminosos que são moralmente cegos. Na pers­
pectiva do narrador, isso é o que pode acontecer, e o que realmente aconteceu,
quando “cada homem fazia o que achava que era certo” (Jz 17.6; 21.25; lit.
“cada homem fazia o que era certo aos seus olhos”).
Outro exemplo de alusão literária ocorre em 2Samuel 13, onde, sem som­
bra de dúvida, existem ecos de Juizes 19. Como observamos anteriormente, a
fraqueza moral de Davi o coloca no papel de um segundo Sansão. Em Juizes,
Sansão é o último líder que aparece. Juizes 17—21, que é a seqüência direta da
narrativa de Sansão, retrata uma época de anarquia caracterizada por assassina­
to, guerra civil e abuso de mulheres - coisas próprias da experiência de Davi
depois que pecou com Bate-Seba. Robert Polzin traça vários paralelos entre
Juizes 19-21 e 2Samuel 13, dos quais os mais impressionantes são:

1. Depois de abusar de Tamar, Amnom diz friamente a ela: “Levante-se e


saia!”. Suas palavras fazem eco com o que o levita disse à sua concubina
quando a descobriu na manhã seguinte à horrível experiência que ela
O que é literatura narrativa? 65
tivera, “Levante-se, vamos embora!” Em ambos os casos, são emprega­
dos mp e
2. Ambos os crimes são denominados “loucura” Jz 19.23-24;
2Sm 13.12).
3. A reação de Israel ao assassinato da concubina (Jz 19.30) é muito se­
melhante ao apelo deTamar a Amnom (2Sm 13.12).
4. Ambas as passagens usam o P iei de rtJJJ, “abusar, humilhar”, para des­
crever o crime (cfr. Jz 19.24; 20.5 com 2Sm 13.12, 14, 22, 32).
5. O apelo do efraimita aos homens de Gibeá (“Não, irmãos meus! Não
façais semelhante mal!” —Jz 19.23) é estruturalmente idêntico às pala­
vras de Tamar ditas a Amnom (“Não, meu irmão! Não me forces!” —
2Sm 13.12). Como indica Polzin, “tal expressão ( ’al+ ‘irmão[s]’ + ’a l +
verbo) não ocorre em nenhum outro lugar na narrativa bíblica.67

Resumindo, parece que o autor está dando o seguinte título à violação de


Tamar por Amnom: “Gibeá revisitada”. O pecado de Davi semelhante ao de
Sansão trouxe para a casa do rei o caos típico da época dos juízes. Logo, esse
caos se espalhou por toda a nação, quando Absalão inicia uma guerra civil e os
filhos de Davi lutam pela coroa.
Eco
O eco é um recurso literário que é uma espécie de técnica do déjà vu.68Tem
sido mal compreendido pela crítica da fonte, que o rotulam tipicamente de
“dubleto” e comumente o atribuem a fontes literárias diversas e conflitantes.
Nesse caso, um episódio dentro de uma narrativa maior faz eco com um episódio
precedente, levando o leitor a notar a semelhança, fazer comparações e/ou con­
trastes e inferir as correspondências temáticas e até teológicas entre os episódios.
Essa repetição pode parecer artificial, mas qualquer um que tenha refletido seria­
mente sobre o velho adágio “a história se repete” sabe que a história e as experiên­
cias de vida das pessoas são caracterizadas por tais repetições e padrões.69
Um exemplo bem conhecido dessa técnica se encontra nos dois relatos
em que Abrão/Abraão mente sobre a identidade de sua mulher (Gn 12.10-20;
20.1-18). No segundo episódio, observamos que Abraão usou tipicamente essa
manobra durante suas viagens (20.13). Mais tarde, até seu filho lança mão da
mesma estratégia (Gn 26.7-10). O narrador inclui o segundo relato para mos­
trar que exatamente antes do nascimento de Isaque o caráter de Abraão é ainda
imperfeito e sua fé é ainda insuficiente, apesar de tudo o que ocorreu durante
esse período intermediário de vinte e quatro anos. Isso eleva a tensão da narra­
tiva, na medida em que nos mantém curiosos para saber se Abraão provará que
é fiel ao chamado de Deus e se receberá a promessa do pacto de forma completa
(vd. 17.1-8). Isso prepara o cenário para o derradeiro teste, no qual Abraão é
aprovado com grande êxito (Gn 22.1-17).
66 Interpretação dos livros históricos
Um dos usos mais complexos de eco ocorre na narrativa de Jacó.
Ao retornar a Betei, ele está totalmente comprometido com o Senhor. O Senhor
satisfez as condições de Jacó (!) (cfr. 35.3 com 28.20) e Jacó está mais do que
pronto para servi-lo. Deus lhe dá outra vez um novo nome (cfr. 35.10 com
32.28) e uma vez mais torna Jacó o recebedor da promessa de Abraão
(cfr. 35.11-12 com 28.13-15). Jacó uma vez mais santifica o lugar e lhe dá o
nome de Betei (cfr. 35.14-15 com 28.18-19).
A repetição de atos e enunciados anteriores em 35.10-15 pode sugerir que
diversas fontes/tradições foram mescladas na narrativa, mas uma explicação mais
provável é que as declarações anteriores são formalizadas (tornadas formais) e os
eventos anteriores são reatualizados no capítulo 35. Quando Jacó retorna a Betei,
sua jornada espiritual se completa. Deus reitera a promessa, ligando-a ao novo
nome de Jacó como se para lembrá-lo de que a dependência no Deus da promes­
sa é a chave para que a bênção divina seja alcançada. Em sua primeira visita a
Betei, Jacó não está pronto para aceitar o Deus da promessa nos termos desse
Deus. Mas agora, depois da luta em Peniel, ele está preparado para fazê-lo. Como
é oportuna a reatualização da mudança de nome em Peniel, enquanto a promessa
é reiterada e Jacó reatualiza sua adoração, desta vez sem barganhar com Deus!
Repetição d e palavras-chave
Outro uso retórico da repetição na narrativa envolve palavras-chave. Com
a repetição de certos termos ou frases, o narrador pode desenvolver temas e
ressaltar ironia e contrastes. Um magnífico exemplo disso ocorre em 2Reis 1.9-15.
Um dos capitães do rei Acazias ordena de uma maneira desrespeitosa que Elias
“desça” ( iT ) do cimo do monte onde ele está assentado e se reporte ao rei
(v. 9). Elias responde ordenando que desça fogo (”!"P) sobre o capitão e seus
cinqüenta soldados (v. 10a). A seguir, o narrador relata que o fogo realmente
desceu (TV) e os consumiu (v. 10b). Outro capitão é enviado e o resultado é o
mesmo. (Observe o uso de T V : por três vezes nos v. 11-12). A repetição da
palavra enfatiza que o desrespeito dos mensageiros (tipificado por sua ordem
“desça”) é o motivo da destruição deles (descrita pelo relato “fogo desceu do
céu”). No terceiro painel da narrativa, um terceiro capitão finalmente demons­
tra o devido respeito ao profeta como servo de Deus e acima do rei. O Senhor
ordena que Elias “desça” (“TV, v. 15), indicando que o profeta está sujeito à
autoridade do Senhor e não à do rei. Nessa ocasião, quem desce (TV) é Elias e
não o fogo destruidor, provando que o respeito ao profeta de Deus produz
resultados positivos, ao passo que o desrespeito tem repercussões negativas.
A repetição da palavra-chave DHí (na raiz verbal do Niphal) produz ironia
na narrativa da rejeição de Saul em 1Samuel 15. Conforme o verso 11, o
Senhor “se arrependeu” (orp) de ter constituído Saul rei. Mais adiante, o narrador
repete essa ideia (v. 35). No verso 29, Samuel afirma solenemente que Deus
não mente nem “muda de ideia” (0113). Amit chega à falsa conclusão de que
O que é literatura narrativa? 67
Samuel diz erroneamente que Deus não se arrepende, quando tanto Deus como
o narrador afirmam o contrário (v.l 1, 35).70 Embora o mesmo verbo hebraico
seja usado em todas as três passagens, isso não quer dizer necessariamente que
tem a mesma nuance de significado ou de conotação em cada caso. As afirma­
ções de Deus e do narrador se ligam a uma ação passada (Deus constituiu Saul
rei) da qual Deus se arrepende posteriormente. A declaração de Samuel está
ligada ao curso futuro da ação de Deus com relação a Saul. Ao dizer que Deus
não se arrependerá nesse caso, Samuel faz o anúncio da morte de Saul como
sendo um decreto incondicional. Em resumo, a análise semântica de Amit con­
funde alhos com bugalhos, por assim dizer.71Ao ver uma contradição, ela perde
a ironia que se destila na passagem. Deus “muda de ideia” (se arrepende) por ter
constituído Saul rei e, em conseqüência, decide que não irá “mudar de ideia”
(revogar seu decreto) com respeito a afastar Saul do reinado.
A história de Jonas contém vários exemplos de palavras-chave. A raiz SSn,
“ser mau”, destaca-se de maneira especial no livro. Em Jonas 1.2, Nínive é
caracterizada como uma cidade moralmente “corrupta” (ni?-lJ. Apesar de ter
sido chamado para denunciar a iniqüidade dos ninivitas e adverti-los do julga­
mento iminente, ele foge e se torna, ironicamente, um agente do Í7ITJ (“mal”)
no mundo pagão, quando ele põe em risco a vida dos marinheiros. Em Jonas
1.7-8, a palavra hebraica H1H se refere à tempestade e tem a conotação de “de­
sastre” ou talvez até de “julgamento”. Quando Jonas finalmente cumpre sua
missão, os ninivitas se arrependem dos seus “maus” (HÀH) caminhos (3.8,10),
levando Deus, conforme seu caráter misericordioso (4.2), a se compadecer e
reter a “destruição” ou o julgamento (niH) que ele prometera (3.10). No entan­
to, o fato de Deus ter demonstrado graça aos ninivitas deixou Jonas extrema­
mente “desgostoso” (ny~, 4.1). Com o propósito de suavizar o “desconforto”
(nin) de Jonas, Deus faz crescer uma planta que subia por cima do profeta,
dando sombra sobre ele. No entanto, quando o Senhor remove essa planta no
dia seguinte, percebe-se o duplo sentido nas palavras de Jonas 4.6 (lit. “livrar
Jonas do seu n in ”). O principal objetivo de Deus é livrar Jonas de sua atitude
moral errada, e não de lhe proporcionar conforto físico. Ironicamente, o livro
iniciou com os ninivitas pagãos caracterizados pelo niTl; em sua conclusão, a
palavra é mais apropriada para descrever o profeta!
Outra palavra-chave em Jonas é o adjetivo bíia, “grande”. Por ser uma
grande cidade (1.2; 3.2-3; 4.11), a recuperação de Nínive justifica a atenção de
Deus e o leva a intervir de formas extraordinárias nas circunstâncias humanas.
Para fazer com que seu profeta relutante e fugitivo se dirija para essa grande
cidade, o Senhor lançou sobre o mar um forte vento que, por sua vez, ocasio­
nou uma grande tempestade (1.4,12; a ação divina se reflete na esfera humana,
quando os marinheiros lançam ao mar a carga do navio e, em seguida, Jonas,
cfr. 1.5,15). Embora Jonas dormisse profundamente durante a tempestade até ser
acordado pelo capitão do navio, os marinheiros reagem, é claro, com grande
68 Interpretação dos livros históricos
temor (1.10,16), algo que Jonas alega possuir (cfr. 1.9). Quando os mari­
nheiros atiram Jonas ao mar, o Senhor manda um grande peixe para salvá-lo.
Depois de envidar todo esse esforço, Deus finalmente compele o profeta a ir a
Nínive. Os ninivitas se arrependeram em massa, de modo que até os animais
foram incluídos no ritual de lamentação e jejum. No entanto, esse aconteci­
mento causa grande descontentamento em Jonas (4.1, a primeira declaração
enfática sobre o profeta no livro). Enquanto ele faz cara feia debaixo do sol
quente, Deus lhe providencia mais sombra, fazendo com que ele fique muito
alegre (4.6). Ironicamente, enquanto Deus está realizando uma grande obra
para recuperar uma cidade importante —obra que causou grande temor entre
os pagãos —a palavra no caso de Jonas, somente se aplica ao seu descon­
tentamento com a salvação dos ninivitas e à sua expressão de egoísmo.
CONCLUSÃO: PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO
Este capítulo tentou mostrar a importância de se reconhecer a dimensão
literária da narrativa do Antigo Testamento na interpretação desse gênero da
Escritura. A partir da nossa análise, surgem vários princípios de interpretação.
Aqui estão alguns parâmetros para a interpretação da literatura narrativa:
1. Analise os elementos básicos da narrativa (espaço, personagens, enre­
do) e avalie como contribuem para a mensagem.
2. Identifique a estrutura discursiva, a estrutura dramática e outras ca­
racterísticas estruturais do texto e explique como eles contribuem para
a mensagem e para o impacto da história.
3. Analise as falas e os diálogos da narrativa com relação ao tipo de dis­
curso e à função da linguagem.
4. Evite excessos ao preencher lacunas, mas tente resolver a ambigüidade
de uma maneira cuidadosa, levando em conta o contexto e usando
bom senso.
5. Respeite a autoridade do narrador e procure descobrir a avaliação que
ele faz dos eventos e personagens. Mas fique atento ao uso retórico
[pelo narrador] de uma perspectiva limitada ou idealizada.
6. Relacione as histórias particulares ao seu macroenredo e explique como
os diversos gêneros empregados num livro contribuem para a totalida­
de da mensagem.
7. Seja sensível às questões de intertextualidade e ao modo como elas
contribuem para a mensagem da narrativa.
Alguns desses componentes (principalmente falas e alusões intertextuais)
podem não estar presentes em todos os textos, mas a maioria das narrativas
contém quase todos esses elementos, se não todos. Em alguns casos, certos
aspectos podem se sobressair mais do que outros ou ser retratados apenas de
forma mínima.
P r in c ip a is tem as d o s

LIVROS HISTÓRICOS

JOSUÉ

Este livro narra como Josué conduziu Israel até a terra prometida. Israel
derrotou os cananeus e se estabeleceu na terra. Josué distribuiu a porção desig­
nada a cada tribo e conclamou a nação a ser fiel ao Senhor e a tomar posse do
território a ela prometido.
P rincipais temas

O tema predominante do livro é a fidelidade a Deus. Depois de uma


extensa lista de distribuição de terras, o narrador faz o seguinte resumo:

“Desta maneira, deu o S e n h o r a Israel toda a terra que jurara dar a seus
pais; e a possuíram e habitaram nela. O S e n h o r lhes deu repouso em redor,
segundo tudo quanto jurara a seus pais; nenhum de todos os seus inimigos
resistiu diante deles; a todos eles o S e n h o r lhes entregou nas mãos. Nenhuma
promessa falhou de todas as boas palavras que o S e n h o r falara à casa de
Israel; tudo se cumpriu” (Js 21.43-45; cfr. 23.14).

Os relatos iniciais dos triunfos militares de Israel e a longa lista das divisas
territoriais das tribos provam a verdade da asserção do narrador. Num nível pes­
soal, Calebe, um paradigma de fé, recebeu a terra que o Senhor tinha prometido
a ele por sua fidelidade no deserto (14.6-15), assim como Josué (24.29-30).
A presença de Deus com seu povo é resultado de sua fidelidade. Logo no
início do livro, o Senhor assegura a Josué que estaria presente (1.5,9,17). Quando
Israel atravessou o Jordão, a arca da aliança, lembrança visível da presença do
Senhor no meio do seu povo, foi levada em processional diante de Israel
(capítulos 3 e 4). Em Jericó, os sacerdotes carregaram a arca, rodeando a cidade
70 Interpretação dos livros históricos
(cap. 6). Antes da campanha contra Jerico, o Senhor enviou o general do seu
exército celestial para assegurar a Josué que o Senhor, estaria presente na bata­
lha (5.13-15) e o próprio Senhor assegurou a Josué que ele, o Senhor, derrota­
ria a cidade (6.2). Mais tarde, Josué lembrou o povo de que “o S e n h o r , vosso
Deus, é o que pelejou por vós” (23.3).
O poder do Senhor é mostrado e afirmado por todo o livro. Raabe, a
prostituta cananeia, disse aos espias israelitas que os moradores nativos da terra
estavam tomados de pavor por ouvirem sobre o que o Senhor maravilhosamente
operara no Mar Vermelho e a respeito das vitórias sobre os reis dos amorreus,
que estavam ao leste do Jordão (2.10-11). O Senhor reproduziu a travessia do
Mar Vermelho quando fez secar as águas do Jordão para que o povo passasse à
terra prometida em terra seca (4.23). Uma vez mais, a notícia a respeito do
poder do Senhor encheu os cananeus de temor (5.1). Na seqüência desse evento,
Josué revelou ao povo o propósito do Senhor ao demonstrar seu poder. Ele
queria que todas as nações reconhecessem seu poder e desejava que essa
demonstração da sua grandeza motivasse seu povo a temer (obedecer) a ele
(4.24). Na batalha em Gibeão, o Senhor fez cair do céu grandes pedras sobre o
inimigo e interferiu de maneira sobrenatural para que Israel pudesse alcançar a
vitória (10.6-14). Ao norte, os israelitas derrotaram os exércitos dos cananeus,
embora os inimigos possuíssem cavalos e carros (11.4-9). Como se para
confirmar que o Senhor era mais poderoso do que os cavalos e os carros nos
quais o inimigo tinha tanta confiança, Josué jarretou os cavalos e queimou os
carros. Mais tarde, garantiu à tribo de José que os cavalos e os carros dos cananeus
não representavam um obstáculo real à vitória (17.16-18).
No entanto, a vitória não seria imediata. O Senhor capacitaria o povo
para levar a cabo a conquista e expulsar as nações remanescentes somente se
eles permanecessem fiéis ao Senhor. O povo deveria guardar a Lei de Moisés,
evitar alianças com as nações e rejeitar os deuses das nações (23.5-8). Josué
os fez lembrar de como o Senhor os tinha libertado do Egito e os tinha
trazido para a terra (24.2-13). Somente ele era digno da obediência e da
adoração deles. Não deveriam cultuar os deuses de seus ancestrais, os deuses
do Egito ou os deuses dos amorreus (24.14-15). A aliança deveria ser
preservada. Com esse propósito, o povo renovou a aliança em Gilgal depois
de atravessar o Jordão. A nova geração, que não havia sido circuncidada,
submeteu-se ao rito da aliança (5.2-9). Depois da vitória em Ai, Josué ajuntou
o povo em Ebal e Gerizim e leu para eles a Lei, lembrando-os das bênçãos
(promessa de recompensa pela obediência) e das maldições do pacto (ameaças
de julgamento pela desobediência) (8.30-35). Josué avisou ao povo que a
assimilação do modo de viver dos cananeus poderia ser um desastre (23.9-13).
A fidelidade do Senhor era uma faca de dois gumes. Suas promessas eram
fiéis (23.14), mas suas advertências eram também fidedignas. Se Israel violasse
Principais temas dos livros históricos 71
a aliança e adorasse outros deuses, o Senhor os removeria da terra que ele lhes
tinha dado (23.15-16). Numa cerimônia final de renovação da aliança, Josué
lembrou o povo de que o Senhor é “um Deus zeloso”, que os puniria caso fossem
rebeldes (24.19-28).
Conforme é relatado anteriormente no livro, o Senhor tinha dado a
Israel lições claras e objetivas sobre a importância da obediência. Quando Acã
furtou coisas condenadas de Jericó, ele foi executado e coberto com um montão
de pedras (7.25-26). Tendo Israel expurgado o mal que se achava entre eles,
Deus os abençoou com uma retumbante vitória em Ai, onde os israelitas
levantaram outro montão de pedras sobre o rei inimigo que havia sido enforcado
(8.29). Esses dois montões de pedras permaneceram, para Israel, como
lembranças dos resultados da desobediência e da obediência.
Ao contrário do desobediente Acã, Calebe e Josué eram exemplos da
bênção de Deus. No deserto, quando os espias tentaram desanimar o povo,
Calebe permaneceu fiel ao Senhor. O Senhor lhe prometeu uma parte da terra
prometida. Quando Israel ocupou a terra, Calebe, fortalecido pelo Senhor,
tomou dos poderosos anaqueus a parte que lhe era destinada (14.6-15; 15-13-
17). Por sua fé e lealdade, Calebe simbolizava tudo o que Israel deveria ser e se
tornou um modelo de pessoa recompensada pelo Senhor por sua obediência.
Josué também foi um exemplo de obediência. Ele recebeu a Lei de Moisés e
fielmente guardou os mandamentos do Senhor (11.15). Como líder modelo,
ele declarou, diante de todo o povo, que ele e sua família serviriam ao Senhor
e não aos deuses da terra (24.15).
Embora o povo, respondendo à inspiradora liderança de Josué, tenha
declarado, com entusiasmo, o desejo de seguir ao Senhor (1.16-18; 24.16-18,
21-24), o livro de Josué nos lembra de como foi de fato extenuante para a
nação se firmar na terra. Os gibeonitas conseguiram ludibriar os israelitas para
fazer um acordo com eles. O esquema não teria funcionado se Israel tivesse
apenas seguido o conselho do Senhor no caso (9.14). Por todo o livro,
intercalam-se lembretes de que Israel falhou em expulsar os cananeus (15.63;
16.10; 17.12-13; 19.47).
Em harmonia com sua ênfase nas obrigações de Israel como povo da
aliança de Deus, o livro ressalta a importância da unidade das tribos dentro da
nação. (Esse tema é importante na história geral da qual o livro de Josué é o
prólogo, pois a unidade da nação desapareceria nos séculos subsequentes.) Logo
no primeiro capítulo, vemos as tribos transjordânicas apoiando de bom grado
seus irmãos e ajudando-os a conquistar a terra a oeste do Jordão (1.12-18).
Mais tarde, quando as tribos do oeste pensaram, por engano, que as tribos do
leste tinham abandonado o Senhor, a questão foi resolvida com uma cuidadosa
investigação (22.10-34). O episódio mostra o zelo da nação pelo Senhor e seu
compromisso com a unidade.
72 Interpretação dos livros históricos
O episódio de Acã também contribui significativamente para esse tema.
Quando Acã pecou, o Senhor não considerou o erro como um problema
estritamente individual. Ele ficou irado com toda a nação (7.1) e declarou que
Israel tinha pecado (7.11). Embora isso possa parecer injusto para nossa
mentalidade moderna, o Senhor via Israel como uma entidade coletiva. Os
atos de um indivíduo poderiam afetar —e de fato afetaram —negativamente a
comunidade inteira. Israel estava contaminada aos olhos do Senhor (7.13) e,
como nação, deveria eliminar o mal do meio dela (7.24-26). Esse episódio
enfatiza a unidade da nação aos olhos de Deus.
O b je t iv o g e r a l

Resumindo, o livro tem um duplo objetivo:

1. Provar que o Senhor cumpriu sua promessa de dar a terra ao seu povo
e que sua presença poderosa era tudo o que Israel necessitava para ter
êxito contra os adversários. No contexto da narrativa maior que o livro
de Josué inicia, esse tema serve como apologia do Senhor. As
subsequentes derrotas de Israel, que culminaram em exílio, não foram
resultado de qualquer falha da parte do Senhor.
2. O livro também desafia Israel a permanecer fiel ao Senhor, lembrando
ao povo que a desobediência traz a disciplina divina e ameaça destruir
sua posição como comunidade da aliança do Senhor. Esse tema tam­
bém contribui para a apologia do Senhor na história. A falha subse­
quente de Israel foi devida à rejeição da autoridade do Senhor.
JUÍZES
Israel tinha derrotado seus inimigos e estabelecido uma base na terra pro­
metida. Mas quando Josué desapareceu de cena, o desafio de ocupar de fato a
terra permaneceu. O livro de Juízes narra como a nação falhou nesse aspecto.
A comunidade da aliança se desintegrou moral e socialmente, na medida em
que assimilou a cultura e as crenças dos cananeus. Deus tanto puniu como
libertou o rebelde Israel, mas o declínio continuou. A necessidade de uma lide­
rança competente se tornou patente, preparando o caminho para o surgimento
da monarquia.
P r in c ip a is tem as

O livro de Juízes reúne três unidades literárias principais: um prólogo


(1.1—3.6), uma parte central que contém vários relatos individuais sobre os
juízes (3.7—16.31) e um epílogo (17.1-21.25). O prólogo se compõe de duas
subunidades paralelas e complementares (1.1—2.5; 2.6—3.6), narrando, em
ambas, o fracasso de Israel após a morte de Josué. O capítulo 1 é essencialmente
Principais temas dos livros históricos 73
descritivo, refletindo, em sua maior parte, a perspectiva de um observador.
O narrador oferece uma perspectiva teológica em certos momentos (v. 19a,
22), mas isso parece ter intenções retóricas, visto que ele permite que predomi­
ne a perspectiva das pessoas (v. 19b). A descrição prosaica do fracasso de Israel
em cumprir o mandado de Deus estimula o leitor a indagar: por que o povo
falhou? O registro do incidente em Boquim (2.1-5) fornece ao menos uma
resposta parcial, deixando claro que o fracasso de Israel não foi realmente devi­
do ao poder militar e à persistência dos cananeus (a impressão que se tem em
1.19, 27, 35), mas foi a conseqüência da assimilação da cultura e da idolatria
dos cananeus. O Senhor lembrou Israel da advertência de que ele não expulsa­
ria as nações, caso o povo se envolvesse na idolatria.
A segunda subunidade no prólogo (2.6—3.6) é bem mais teológica e
avaliatória. Ao retomar o tema de 2.1-5, o narrador aponta a idolatria como o
problema fundamental de Israel (2.11-13). Ele faz um panorama do período,
no qual apresenta um padrão cíclico. Durante esse período, Israel pecou, levan­
do o Senhor a entregar a nação aos inimigos por razões de disciplina (v. 14-15).
Quando o povo clamava ao Senhor (v. 18b), ele levantava libertadores (“juízes”)
para salvá-los (v. 16, 18a). Esses juízes traziam certa estabilidade por um tem­
po, mas o povo persistia em seus maus caminhos (v. 17, 19), levando o Senhor
a declarar que ele não mais expulsaria as nações, mas as usaria para provar a
fidelidade de Israel (2.20-3.4). No capítulo 3.5-6, há um sumário do período.
O verso 5 reflete o estilo descritivo do capítulo 1 e reitera seu tema central
(Israel habitava no meio de povos nativos). Como o capítulo 2, o verso 6 tem
um tom mais teológico e avaliatório, identificando o problema fundamental de
Israel como sendo a assimilação da cultura e da idolatria dos cananeus.
A parte central do livro (3.7—16.31) ilustra os principais temas do prólogo
—a inclinação de Israel para o pecado, o julgamento disciplinador do Senhor e o
desejo do Senhor de libertar seu povo dos seus opressores. No prólogo, o
Senhor declara que a conquista seria adiada até que ele tivesse provado a lealda­
de de Israel (2.20-3.4). A parte central do livro evidencia de forma específica
por que essa decisão foi necessária, à medida que retrata a persistência ou a
recorrência da idolatria e uma alienação crescente entre Deus e seu povo.
As narrativas do prólogo também deixam evidente o modelo simples da
oração que é seguida da resposta divina. As histórias mostram que Deus não
pode ser manipulado como um amuleto da sorte e que ele muitas vezes age
fora dos padrões esperados. Na história de Gideão, ele confronta o pecado do
seu povo antes de enviar um libertador; na história de Jefté, ele se enfada de
intervir, mesmo quando eles insistem em clamar e aparentemente se arrepender
da idolatria. Mas, na história de Sansão, ele decide salvar, embora ninguém
tivesse pedido seu auxílio. O prólogo retrata Deus libertando seu povo por
meio de seus instrumentos escolhidos; as narrativas mostram que a libertação
74 Interpretação dos livros históricos
geralmente aconteceu de maneiras inesperadas, até mesmo através de instru­
mentos imperfeitos.
Apesar de ilustrarmos interesses temáticos do prólogo, as narrativas não
se restringem a essa função literária. Há pelo menos dois temas importantes
que emergem nas narrativas e que não aparecem no prólogo:

1. O prólogo descreve os juizes em termos bastante positivos, como ins­


trumentos de Deus que procuravam dar ao povo direção moral (vd.
2.17). As narrativas os descrevem como guerreiros vitoriosos capacita­
dos por Deus, mas também retratam suas imperfeições. Na realidade, é
possível traçar um padrão de qualidade decrescente dos juizes, culmi­
nando em Sansão.72 O prólogo contribui indiretamente para esse de­
senvolvimento temático, apontando Josué e Calebe como paradigmas
de liderança competente, que se tornam contrastes para os líderes fra­
cassados das histórias. Mas o prólogo não fala dos juizes de forma ne­
gativa. O tema da liderança mal-sucedida, em vez de emergir do prólo­
go, surge nas histórias e prepara o caminho para o epílogo, que lamenta
especificamente a condição moral que acometeu a terra por causa de
liderança falha (vd. 17.6; 21.25; assim como 18.1 e 19.1).
2. As narrativas também retratam o agravamento do conflito civil, um
tema que não está presente no prólogo, pelo menos de forma direta.
A canção de vitória de Débora critica algumas tribos por não con­
tribuírem com a causa comum (5.15b-17), enquanto Gideão enfrenta
oposição de seus próprios compatriotas após sua vitória sobre os
midianitas (7.24—8.17). Abimeleque, filho de Gideão, provocou uma
guerra civil (cap. 9) e Jefté massacrou os efraimitas após sua vitória
sobre os amonitas (12.1-6). Na história de Sansão, os homens de Judá
entregaram Sansão, um danita, nas mãos dos filisteus. Tudo isso cons­
trói o caminho para o epílogo, onde o conflito civil é a ordem do dia.

O epílogo (caps. 17-21) contém duas histórias. A primeira delas (17.1-


19.1 a) conta sobre o santuário doméstico de Mica e como os danitas tomaram
de Mica o seu sacerdote e os seus objetos de uso no culto e estabeleceram para
si um centro de adoração particular da tribo, na longínqua região do norte,
distante da terra que fora atribuída a eles. A segunda história (19.1b-21.25) é
um sórdido registro de estupro e homicídio em Gibeá que provocou uma guer­
ra civil em Israel. A guerra quase exterminou a tribo de Benjamim e resultou
em mais atrocidades contra as mulheres de Israel. Antes de lutar contra os
benjamitas, Israel foi a Betei para perguntar a Deus quem deveria pelejar pri­
meiro. O Senhor respondeu dizendo que Judá deveria ser o primeiro (20.18).
Essa cena evoca a introdução do livro, em que as tribos perguntaram ao Senhor
Principais temas dos livros históricos 75
quem deveria lutar primeiro contra os cananeus e ele apontou Judá (1.1-2).
A ironia é evidente e trágica. No início do livro, Israel estava preparado para se
unir contra o inimigo comum, os cananeus; no fim do livro, a concretização do
ideal inicial fracassou e as tribos estavam se unindo contra seus próprios irmãos.
O tema do epílogo aparece em 17.6 e 21.25 (vd. a versão resumida em
18.1 e 19.1). Os dois relatos do epílogo ilustram o que aconteceu na sociedade
israelita por falta de liderança competente e mostra porque Israel necessitava
de um rei que fosse um padrão de excelência (vd. Dt 17.14-20).
O b je t iv o g e r a l

Ao analisar esses temas, torna-se óbvio que o livro tem um plano defini­
do, que engloba pelo menos três objetivos importantes:

1. As ênfases temáticas do prólogo indicam que Juizes, assim como Josué,


é, de certo modo, uma apologia do Senhor, cuja reputação fora coloca­
da em risco por causa da falha de Israel. O prólogo explica porque
Israel fracassou e indica claramente que desde o início o Senhor adver­
tiu o povo sobre essa possibilidade.73 O restante do livro justifica a
decisão do Senhor de provar seu povo, ao permitir que o inimigo per­
manecesse na terra. As derrotas de Israel foram punitivas, em vez de
serem causadas por uma suposta incapacidade do Senhor ou ao poder
dos povos estrangeiros e de seus deuses.
Outro elemento na defesa da honra do Senhor no livro é a afirmação de
seu compromisso como seu povo no prólogo. Apesar da falha do povo e
da dura disciplina do Senhor, ele mostrou compaixão e continuou a livrá-
los da opressão. As narrativas que estão na parte central do livro confir­
mam essa afirmação, ao relatarem como o Senhor reagiu ao sofrimento
do povo e como interveio para salvá-lo. Como Fretheim diz:
“Somos surpreendidos por um Deus que, para fazer o bem, acha meios de
agir em, com e debaixo de situações muito comprometedoras em que as
pessoas se colocaram. Em meio à infidelidade, a fidelidade de Deus se revela,
um Deus que nunca rompe a aliança”.74

A terceira característica da apologia do livro é sua dimensão polêmica.


Num nível bastante geral, o livro mostra que a obsessão de Israel pelos
ídolos não trouxe vitória. Pelo contrário, a idolatria causou sistemati­
camente derrota e humilhação. O livro se preocupa, particularmente,
em denunciar a devoção de Israel a Baal, divindade dos cananeus (2.13;
6.25-32; 8.33; 10.6). Dá razões suficientes pelas quais Israel deveria ter
escolhido o Senhor em vez de Baal. A canção de Débora retrata o
Senhor como o rei soberano, que usa elementos da chuva para derrotar
Interpretação dos livros históricos
o exército cananeu (5.4-5). O relato de Gideão, juntamente com sua
seqüência a respeito de Abimeleque, também contém uma forte polê­
mica anti-Baal. Baal não conseguiu se vingar completamente do ataque
de Gideão (Jerubaal) ao seu altar e terminou com seu templo siquemita
derribado.75 A dimensão polêmica tem uma configuração diferente na
história de Sansão. Sansão queimou o cereal supostamente dado por
Dagom, deus filisteu da fertilidade (15.4-5).76 Apesar de parecer que
Dagom vencera o confronto (16.23-24), Sansão acaba derribando o
templo desse deus (16.30). A polêmica contra esses dois deuses conti­
nua em ISamuel. Ana exaltou o poder do Senhor para conceder fertili­
dade (ISm 2.1-10), a arca do Senhor humilhou Dagom no próprio
templo do deus (ISm 5) e o Senhor trovejou sobre os filisteus e os
derrotou após Israel ter rejeitado o culto a Baal (ISm 7).
2. O livro de Juízes também adverte Israel sobre os perigos da assimilação
da cultura daquela terra.77 Como fica claro no prólogo do livro, Israel
falhou em concluir a conquista da terra. Eles se casaram com mulheres
cananeias e abraçaram os deuses delas.78A persistência na idolatria trouxe
derrota e opressão como conseqüência. Na realidade, Deus decidiu adiar
seu plano original de dar a terra ao seu povo. As nações permaneceram
para provar a fidelidade de Israel. As narrativas da parte central do livro
confirmam esse tema. Cada relato gira em torno de um libertador divi­
namente capacitado, que liberta Israel da opressão trazida para julga­
mento por causa da idolatria. Embora Deus fosse sensível ao sofrimen­
to que Israel causara a si mesmo, o círculo vicioso continuou enquanto
Israel “fez o que era mau aos olhos do S e n h o r ” . Como Israel se tornava
mais semelhante aos cananeus, sua identidade nacional de comunida­
de da aliança de Deus começou a se desfazer. A nação unificada da
época de Josué começou a desintegrar-se, tornando-a mais vulnerável à
invasão, como mostra a história. O conflito entre tribos ameaçava a
estabilidade da nação; a lealdade tribal à custa de justiça finalmente
precipitou uma guerra civil.
3. O livro de Juízes também mostra que Israel tinha necessidade de uma
liderança competente. O prólogo fala dos juízes de forma positiva, pro­
vavelmente porque procura demonstrar a provisão do Senhor para seu
povo. Quando clamavam por socorro, ele fazia surgir líderes para livrá-
los. As narrativas, em harmonia com o prólogo, contam como Deus
realizou grandes obras através de líderes humanos. No entanto, as nar­
rativas também apresentam outra perspectiva. Elas exemplificam como
a falta de fé e de sabedoria arruinou os líderes de Israel e impediu que
realizassem seu potencial. O epílogo vê a liderança de Israel nessa pers­
pectiva mais crítica. Israel necessitava de um líder que, de acordo com
Principais temas dos livros históricos 77
o ideal de Deuteronômio (Dt 17.14-20), conduzisse a nação de volta
para Deus e para as ordenanças do pacto e assentasse o alicerce para
um avivamento espiritual. Mais especificamente, Israel precisava de
um rei que assegurasse a ordem social e a pureza do culto. Sem esse
líder, a nação rejeitava a autoridade de Deus e cada indivíduo seguia
seu próprio código de conduta. Somente quando Israel novamente
reconhecesse o Senhor como seu verdadeiro Rei, a visão original, que
aparentemente tinha morrido após Josué, seria concretizada. O epí­
logo leva o tema da liderança para sua alarmante conclusão e prepara
o caminho para 1Samuel, que narra como o Senhor restabeleceu em
Israel uma liderança competente como a de Josué e Calebe, pelo me­
nos por um tempo.
RUTE
Do livro de Rute, emergem pelo menos dois temas teológicos principais.
Primeiramente, o livro mostra que Deus se preocupa com as pessoas necessitadas.
O Salmo 146.9 declara: “O S e n h o r guarda o peregrino, ampara o órfão e a
viúva”. O livro de Rute encarna essa afirmação teológica. O livro mostra como
o Senhor sustentou duas viúvas necessitadas, Noemi e Rute. Noemi tinha
perdido seu marido e ambos os filhos quando vivia em Moabe. Quando voltou
a Belém, era uma mulher amargurada e empobrecida, com pouca esperança, se
é que tinha alguma. Mas o Senhor mudou a situação dela e tirou-a da aflição.
Ele realizou essa obra por intermédio de duas pessoas, Rute e Boaz, que
desejavam seguir os princípios divinos de fidelidade e bondade. Assim, ao nos
mostrar a preocupação de Deus com os que necessitam de socorro, o livro
também nos lembra de que, em muitos casos, Deus supre as necessidades dessas
pessoas por meio daqueles que desejam fazer o que é justo e querem se sacrificar
pelo bem de outros.
Um segundo tema importante do livro poderia ser expresso da seguinte
maneira: Deus recompensa a fidelidade daqueles que se comprometeram em
relacionamentos concedidos por ele. O salmo 18.25 diz: “Para com o benigno,
benigno te (referindo-se ao Senhor) mostras; com o íntegro, também íntegro”.
O livro de Rute ilustra essa verdade. Por duas vezes, a palavra hebraica “tçn,
“bondade, amor fiel, devoção, compromisso, fidelidade”, é usada no livro de
Rute. Em Rute 1.8, Noemi diz às suas noras: “... o S e n h o r use convosco de
benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo”. Rute já tinha
se dedicado a Noemi e sua família quando estavam em Moabe, mesmo antes de
fazer o voto solene que está registrado em 1.16-17. Mais tarde, Boaz diz a Rute
em 3.10: “Bendita sejas tu do S e n h o r , minha filha; melhor fizeste a tua última
benevolência que a primeira”. Amor é também uma palavra que caracteriza
Rute. Em 4.15, as mulheres da cidade, comovidas com o nascimento de Obede,
78 Interpretação dos livros históricos
disseram a Noemi: “pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela é melhor do que
sete filhos”. Deus mostrou a Rute o mesmo compromisso e devoção que ela
tinha mostrado a outros. Ele lhe deu um marido, a capacidade de gerar um
filho e um descendente notável.
E não termina aí. Na conclusão (4.18-22), a genealogia mostra que as
bênçãos de Deus às vezes se estendem além do tempo de vida dos que as rece­
bem. Por meio de Davi, o bisneto de Rute, Deus recompensou a fidelidade
delas de uma maneira que trouxe grande notoriedade à família e a Israel, seu
povo. Por meio de Davi, e finalmente com o Messias, as bênçãos concedidas a
Rute foram alargadas a Israel e ao mundo todo. Elas excederam a mais fantásti­
ca imaginação e transcenderam o tempo de vida de Rute. Na English Bible, a
referência a Davi, seguindo de perto o que se declara em Juizes a respeito da
necessidade de Israel de ter um rei ideal, prepara o caminho para o surgimento
de Davi em 1Samuel 16.79
1-2SAMUEL
Os livros de Samuel formam uma única entidade na Bíblia hebraica. Eles
são o cerne teológico da história tratada nos Antigos Profetas, pois registram a
restauração da liderança ideal apresentada em Josué e esperada em Juizes.
A importância que dão à aliança davídica estabelece o pano de fundo frente ao
qual a teologia de 1—2Reis, bem como a história e o futuro de Israel devem ser
compreendidos.80
P r in c ip a is tem as

1—2Samuel continuam a história de Israel, retomando-a do ponto onde


Juizes encerra. Os livros giram em torno de três personagens principais —Samuel,
Saul e Davi —cujas histórias se sobrepõem e se cruzam. O tema dominante é a
monarquia. Juizes prenuncia um soberano ideal, como aquele que é descrito
em Deuteronômio 17. Os livros de Samuel narram como a monarquia foi
finalmente instituída em Israel; porém, com um começo errado e alguns sola­
vancos pelo caminho. Quando termina a história, dois reis tinham vivido tra­
gédias pessoais, as sementes da destruição tinham sido semeadas e o ideal de rei,
de acordo com Deuteronômio, permaneceram sem realização. Todavia, como
veremos, a formação canônica do livro mantém vivo o ideal de rei expresso na
aliança davídica.
A CHEGADA DE UM PROFETA ( I S m 1 - 7 )

1 Samuel começa com uma história de opressão, um tema que também se


apresenta no epílogo de Juizes. Mulher estéril, Ana era insultada por uma rival,
a outra esposa de seu marido. Desesperada, ela suplicou ao Senhor que a liber­
tasse, pedindo-lhe um filho e prometendo dedicá-lo ao Senhor. Ana contrasta
Principais temas dos livros históricos 79
com as mães de Sansão e de Mica. Como observamos anteriormente em nossa
análise sobre o paralelismo na narrativa, Ana, de maneira sobrenatural, deu à
luz um filho nazireu, por meio de quem o Senhor restaurou a liderança efetiva
em Israel. O filho nazireu da mãe de Sansão, milagrosamente concebido, fa­
lhou em compreender seu verdadeiro papel de libertador enviado pelo Senhor
e nunca alcançou o nível de um líder eficaz. Em oposição à mãe de Mica, cujas
ações desorientadas e cuja obsessão pelos ídolos contribuíram para o culto ile­
gítimo dos danitas, o compromisso de Ana com o Senhor foi o catalizador de
uma restauração do genuíno culto a Jeová, por meio da liderança espiritual de
seu filho Samuel.
Quando o Senhor livrou Ana da opressão e da esterilidade, ela o lou­
vou. Seu cântico (ISm 2.1-10) expressa princípios teológicos importantes.
Conforme Ana, o Senhor é o incomparável rei e salvador que está compro­
metido com a justiça. Ele humilha o soberbo e assiste ao necessitado. Ele é
soberano sobre a vida e a morte, assim como sobre as intempéries. Em outras
palavras, o Senhor, e não Baal, é o único Deus digno de louvor e a verdadeira
fonte de vida e de fertilidade. Ana também esperava que o Senhor levantasse
um rei israelita a quem ele capacitaria para a luta. A imagem militarista indi­
ca que o Senhor libertaria Israel dos seus inimigos, assim como ele fez com
Ana. Uma vez mais, percebemos um contraste com a mãe de Sansão, que
errou por não contar a seu marido sobre o futuro de seu filho como liberta­
dor de Israel (vd. Jz 13.5-8).
A seqüência do relato do nascimento de Samuel apresenta outro tema
importante do epílogo de Juízes - a corrupção do culto. Os filhos de Eli ti­
nham corrompido o culto de Siló com seu comportamento ímpio (ISm 2,12-17,
22-25). O narrador os contrasta com Samuel, que servia o Senhor (ISm 2.11,
18-21, 26; 3.1a). Por meio de Samuel, o Senhor confirmou uma profecia de
julgamento contra Eli e sua casa sacerdotal proferida anteriormente (ISm 2.27-
36; 3. lb -18). Por seu desrespeito ao Senhor, Eli perdeu uma dinastia sacerdotal
que o Senhor tinha intenção de manter permanentemente (ISm 2.30). No
entanto, o Senhor não abandonou Israel. Mais tarde, ele levantaria outra famí­
lia de sacerdotes para servi-lo (ISm 2.35). Nesse meio tempo, por meio do
ministério de Samuel, o Senhor revitalizou o serviço profético e o lugar de
culto em Siló (ISm 3.19-4.1a).
D esses oráculos proféticos, surgem im portantes temas que
posteriormente irão voltar à tona nos livros de Samuel;

1. O Senhor não tolera aqueles que o tratam com desprezo.


2. As promessas do Senhor são, algumas vezes, condicionais e podem não
se concretizar se os recebedores delas o tratarem com desonra.
3. O Senhor recompensa a fidelidade e honra aqueles que o honram.
80 Interpretação dos livros históricos
A narrativa sobre a arca (lSm 4—7) demonstra que a palavra profética de
Deus é certa. O exército filisteu derrotou Israel e matou os dois filhos de Eli.
Quando Eli recebeu a notícia, ele caiu e morreu. Essa narrativa também mostra
que a arca, o símbolo cultuai da presença de Deus, não era um amuleto que
garantia a vitória. A arca tinha poder, porém, não podia ser manipulada. Deus
escolhia quando e onde revelaria esse poder. Ele não interveio em favor de
Israel nem evitou que os filisteus tomassem a arca, pois sua primeira intenção
era julgar Eli. No entanto, para assegurar que a captura da arca não transmitisse
a mensagem teológica errada a Israel e a seus inimigos, o Senhor demonstrou
seu poder em território estrangeiro. Quando os filisteus colocaram a arca no
templo de Dagom, a imagem do deus caiu diante dela, com a cabeça cortada
como se fosse um guerreiro derrotado. Para onde quer que a arca fosse levada
em território filisteu, era seguida da peste. Finalmente, os filisteus enviaram a
arca de volta para casa, mas ela causou mais perdas na cidade fronteiriça de
Betè-Semes, onde alguns homens erraram ao tratá-la presunçosamente. Ali ela
permaneceu até que Davi a trouxe para Jerusalém.
Mais tarde, os israelitas se arrependeram da idolatria e se desfizeram dos
ídolos de Baal. Samuel intercedeu em favor do povo e, em seguida, conduziu
Israel na luta contra os filisteus. Como se para confirmar a sabedoria dos seus
atos, o Senhor trovejou dos céus e aterrou os filisteus, demonstrando que ele, e
não Baal, controlava a tempestade.
Dessa narrativa, surgem vários temas:

1. Quando Deus decreta um julgamento, ocorrerá julgamento.


2. Deus não pode ser manipulado para socorrer seu povo. Quando o
povo de Deus peca, Deus pode resistir a eles, em vez de livrá-los.
O arrependimento é o alicerce para a restauração do favor divino.
3. Mesmo quando Deus parece ter sido derrotado, ele permanece sobera­
no e invencível.
4. Deus deseja que as pessoas honrem sua santidade; não fazê-lo repre­
senta risco para a saúde.
A ESCOLHA DE UM REI (IS m 8 -1 2 )

A questão da monarquia fica em primeiro plano em 1Samuel 8-12.


A crítica diacrônica vê múltiplas fontes e pontos de vista conflitantes nessa
parte. Supostamente, esses capítulos contêm duas ou três tradições da origem
da monarquia em Israel:

1. Samuel secretam ente unge Saul “líder” ( T M) de Israel (9 .1 -1 0 .1 6 ).


2. Saul é escolhido rei (^bo “rei”) por sorteio em Mispa (10.17-27).
3. Saul é proclamado rei em Gilgal, após uma vitória militar (11.1-15).
Principais temas dos livros históricos 81
Supõe-se também que esses capítulos apresentem tanto a perspectiva
positiva sobre a monarquia (9.1—10.16; 11.1-15) quanto a negativa (8.1-22;
10.17-27; 12.1-25).
No entanto, uma leitura atenta do texto como ele se apresenta revela a
natureza falha desse consenso crítico, que presume algumas graves deficiências
por parte dos editores responsáveis pelo texto em sua forma atual. Esses capítu­
los não contêm relatos múltiplos e conflitantes sobre a origem da monarquia.
Samuel ungiu Saul secretamente antes de coroá-lo rei em uma cerimônia públi­
ca. Isso deu a Saul certo tempo para encarar sua missão (o sinal tríplice mostra
que isso era necessário, cfr. ISm 10.1-7) e permitiu que Samuel deixasse clara a
natureza do reinado de Saul antes da ostentação da cerimônia pública
(cfr. 10.1,6-7). Como o texto deixa transparecer cristalinamente (observe a
presença de “renovem os', em 11.14), a cerimônia de coroação depois da
vitória de Saul sobre os amonitas foi uma confirmação do reinado de Saul,
exigida pela reação pouco entusiástica mencionada em 10.27.
Nesses capítulos, a monarquia, propriamente dita, não é vista
negativamente, mas o desejo do povo de ter um rei como as nações é criticado,
pois, em sua exigência, estava implícita uma rejeição da autoridade do Senhor
(8.7). Eles não confiavam que o Senhor os salvaria dos seus inimigos; como
todos os outros povos, eles queriam um rei visível, que lhes daria cobertura de
segurança nacional e seria um objeto tangível de confiança.81 Muito tempo
antes disso, o Senhor prenunciara o pedido de Israel por um rei como todas as
nações (Dt 17.14). Ele queria lhes dar um rei, mas com certas restrições
(Dt 17.15-20). O rei ideal de Deus não deveria estabelecer um grande exército,
fazer aliança com estrangeiros ou acumular grandes riquezas. Ele deveria ser
um líder espiritual que promovesse a Lei do Senhor por palavra e ação. (Gomo
observamos anteriormente, é esse o tipo de rei imaginado em Jz 17.6 e 21.25.)
No entanto, nesse caso, o Senhor considerou o pedido do povo uma afronta à
sua soberania, porque o pedido foi expresso essencialmente em termos militares
(8.20), “destronando” o Senhor como guerreiro de Israel. Ele disse a Samuel
que avisasse o povo sobre como um rei agiria tipicamente e informasse o povo
que ele não interviria em favor deles quando clamassem para que fossem libertos
do domínio opressor desse rei (ISm 8.9-18). O povo não deu atenção ao aviso
e pediu um rei; o Senhor agiu prontamente para lhes dar o que queriam e
acabar com aquilo (8.19-22a). Mas Samuel, no seu papel de profeta intercessor,
não executou a ordem do Senhor imediatamente. Em vez disso, ele se esquivou
e mandou o povo voltar para casa (8.22b).
Logo a seguir, o Senhor ordenou a Samuel que ungisse Saul para ser um
“líder” (T33) para o povo de Israel. Ele os libertaria dos seus inimigos e os
“governaria” ("1337) (9.16-17). A ausência da raiz ~bl2 (mlk, da qual se derivam
o substantivo “rei” e o verbo “governar”) em sua forma nominal e verbal é
82 Interpretação dos livros históricos
surpreendente, considerando sua importância no capítulo 8 (vd. 8.5-7, 9-11,
18-20, 22), e o fato de o Senhor usar quatro vezes a expressão “meu povo” em
9.16-17 indicam que ele não estava propenso a abrir mão de sua autoridade
sobre Israel. (Em 8.7, o Senhor se refere a eles simplesmente como “o povo”.)
Nesse aspecto, confirmam-se o s indícios no capítulo 10. Ao ungir Saul
secretamente, Samuel o designou TM, “líder”, sobre o povo/herança do Senhor
(10.1; ver LXX). Na coroação pública, Samuel repreendeu o povo por rejeitar o
Senhor Deus de Israel (v. 17-19). O povo proclamou Saul “rei”, mas Samuel se
referiu a ele simplesmente como “aquele a quem o S e n h o r escolheu” (v. 24,
com grifo do autor). Isso contrasta com 8.18, onde Samuel se referiu ao rei
solicitado como “vosso rei que houverdes escolhido”. Após a coroação, Samuel
explicou os “direitos do reino” (nsban COSÇD) ao povo (v. 25). Se esses direitos
eram as diretrizes traçadas em Deuteronômio 17.14-20, isso explica por que
alguns reagiram com tal ceticismo (v. 27), pois os regulamentos de
Deuteronômio colocam claramente limitações significativas sobre o rei de
Israel e se destinam a evitar que ele seja como os reis das nações vizinhas.82
De acordo com 12.1-2, Samuel alegou que ele tinha concordado com a solici­
tação do povo por um rei (cfr. 8.22), mas ele prossegue enfatizando que o
Senhor permanecia como chefe teocrático da nação a quem tanto o rei quanto
o povo deveria continuar fiel (v. 13-15). O Senhor, que confirmou a veracidade
das palavras de Samuel com uma demonstração miraculosa do seu poder sobre
a tempestade, tinha o futuro do rei e da nação em suas mãos (v. 16-25). Quando
o povo viu a demonstração do poder de Deus, confessou seu pecado e reconhe­
ceu que pedir um rei foi iniqüidade.
Vários temas aparecem nos capítulos 8—12:

1. O povo de Deus age irracionalmente quando pede segurança sem levar


Deus em conta, pois Deus é a única fonte de verdadeira segurança
(cfr. 10.18-19; 12.7-11).
2. Mesmo quando Deus concede aquilo que o seu povo lhe pediu, o
povo ainda continua sujeito à sua autoridade.
3. Deus promete segurança em troca de fidelidade e ele também a restau­
ra quando o povo pecador clama a ele.
4. Às vezes, uma advertência enérgica sobre o poder de Deus pode chamar
o povo de Deus à consciência espiritual e ajudá-lo a perceber que rejeitar
a Deus e sua palavra profética não é o caminho que leva à segurança.
O FALSO INÍCIO DA MONARQUIA (ISM 13-15)
ISamuel 13—15 descreve a derrocada de Saul, que se mostrou indigno de
liderar o povo de Deus. Saul estava preocupado com o ritual e com os aspectos
formais da religião (como Mica e sua mãe; ver Jz 17). Isso o impediu de atacar
Principais temas dos livros históricos 83
o posto avançado dos filisteus (cfr. 10.7-8 com 10.13-16) após os três sinais
terem sido cumpridos. Em vez de iniciar a libertação de Israel das mãos dos
filisteus, Saul subiu ao lugar alto, ao que tudo indica, para adorar. Sua obsessão
pelo ritual o impeliu a oferecer sacrifícios antes do tempo, em vez de esperar a
chegada de Samuel, conforme as instruções que tinha recebido (13.8-10). Sua
preocupação com o formalismo primeiramente o fez atrasar o ataque contra os
filisteus (14.18-19) e, em seguida, o levou a uma série de juramentos (14.24,
39, 44) que prenunciaram a imposição de julgamento divino sobre seu próprio
filho (observe o paralelo evidente com Jefté e sua filha em Jz 11), sobre o exér­
cito e sobre si mesmo. A obsessão de Saul pelo ritual alcançou seu ponto máxi­
mo quando ele, contrariando a ordem específica de Deus, deixa de destruir o
rei amalequita e o melhor dos animais, porque achou que seria melhor oferecê-
los em sacrifício ao Senhor (15.8-9, 14-15).
O primeiro incidente em Gilgal (ISm 13) revelou a imperfeição do pen­
samento de Saul. Primeiro, sua preocupação com as forças que minguavam
revelou uma crença de que a batalha seria decidida pelos exércitos humanos, e
não pelo Senhor. Segundo, sua preocupação em oferecer um sacrifício mostrou
uma teologia falha que põe o ritual acima da obediência (cfr. 15.22-23) e tende
a pensar que esse ritual pode, de alguma maneira, manipular o Senhor. Tercei­
ro, Saul ultrapassou seus limites. Ele era o rei, mas estava sob a autoridade do
profeta, que intercedia pela nação (vd. 7.9; 12.18-19, 23, bem como a declara­
ção das moças a Saul em 9.13). Esse desrespeito ao ofício do profeta posterior­
mente se tornou um grande problema em Israel.
Samuel acusou Saul de comportamento néscio e o culpou por desobede­
cer à ordem do Senhor. Em seguida, Samuel anunciou que Saul tinha perdido
a oportunidade de ter uma dinastia duradoura. O Senhor iria encerrar sua
dinastia e substituí-lo por outro que tinha designado. Esse novo governante
seria um homem “segundo” (lit. “conforme, de acordo com”) o “próprio coração”
do Senhor. Levando em consideração a ênfase contextual na desobediência de
Saul, essa frase deve significar “co m a mesma mente”, i.e., “comprometido a obe­
decer às ordenanças do Senhor” (Vd. uso da frase “conforme, de acordo com o
teu coração” em ISm 14.7, onde a NIV traduz “coração e alma”).
O segundo incidente em Gilgal (ISm 15) revelou o desrespeito de Saul
pela autoridade absoluta do Senhor. Samuel explicou que, para o Senhor, a
obediência é mais importante do que o ritual (15.22-23; cfr. Is 1.10-17; Jr
7.21-23; Os 6.6; Am 5.21-24; Mq 6.6-8; Mc 12.28-34). Aos olhos do Senhor,
a rebelião é tão má quanto a feitiçaria e a idolatria. A rebelião de Saul transgrediu
a advertência feita anteriormente por Samuel (ISm 12.14-15) e o rei deve sofrer
as conseqüências. Por ter Saul rejeitado a palavra do Senhor, Deus também o
rejeitou como rei (15.26). Samuel deixou claro que essa mensagem profética era
um decreto divino incondicional, que não poderia ser revertido (15.29).
84 Interpretação dos livros históricos
Destacam-se pelo menos dois temas no relato da rejeição de Saul:

1. O Senhor dá prioridade à obediência, em vez de mero ritual.


2. Prioridades mal colocadas e desobediência podem ser catastróficas para
os líderes escolhidos por Deus e podem destruir o seu legado.
A h is tó r ia d e D av i (IS m 1 6 -2 S m 2 0 )

Em 1Samuel 16, Davi aparece no cenário da história de Israel. Quando


ele foi ungido, o Senhor declarou que escolheria o próximo rei com base em seu
padrão e não em ideias que as pessoas tinham a respeito de como deveria ser
um rei. Os seres humanos veem a aparência externa; o Senhor atenta para as
qualidades internas (ISm 16.7). O Espírito do Senhor, cuja unção era essencial
para governar bem, desceu sobre Davi (16.13). Quando o Espírito se moveu de
Saul para Davi, o Senhor enviou “um espírito maligno” para atormentar Saul e
acelerar sua destruição (16.14).
A partir daí, a história se afasta para mostrar a superioridade de Davi
sobre Saul e sua inocência na derrocada da dinastia de Saul. Saul, com medo,
ficou paralizado diante do herói filisteu, mas Davi, como o Calebe de outrora,
confiou no Senhor e derrotou o gigante. A afeição do povo se voltou para Davi,
que, embora fosse totalmente fiel a Saul, tornou-se o alvo das tramas assassinas
do rei ciumento. O Senhor, providencialmente, protegeu Davi e o livrou dos
complôs e dos ataques de Saul. Jônatas, o filho de Saul, que funciona como
contraste literário de seu pai, declarou lealdade a Davi e ansiava pelo dia em
que Davi governasse Israel (20.12-17; 23.16-18). Mesmo Saul foi forçado a
reconhecer mais tarde que Davi não era culpado por nenhuma maldade e que
um dia seria rei (24.17-21; 26.21-25). Quando Davi foi tentado a matar Nabal,
Abigail, a encarnação da sabedoria, o fez se lembrar de seu futuro e o desafiou
a agir à altura dele (25.28-34). No furor da sua ira, Saul assassinou Aimeleque
e os sacerdotes de Nobe, mas Davi protegeu o único sobrevivente (22.11-23).
O Senhor protegeu Davi do perigo por meio de revelação especial, mas se recu­
sou a revelar sua vontade a Saul (23.1-14; 28.6). Desesperado, Saul procurou
uma médium, violando a lei de Deus. Ela invocou o espírito do falecido Samuel,
que declarou a destruição de Saul (28.16-19). Como no caso de Eli e seus
filhos, a palavra profética de Samuel foi cumprida quando Saul e seus filhos
morreram em batalha logo no dia seguinte. Enquanto isso acontecia, o Senhor
deu garantia de vitória a Davi por meio de uma mensagem profética (30.7-8) e
lhe deu poder para derrotar um bando de retaliadores amalequitas.
O texto isenta Davi de qualquer responsabilidade pela morte de Saul.
Os filisteus o tinham dispensado de seus exércitos antes da batalha (ISm 29).
Quando um amalequita alegou ter matado Saul e deu a Davi a coroa do rei
como prova visível, Davi ordenou sua execução imediata (2Sm 1.1-16). Davi
Principais temas dos livros históricos 85
compôs um cântico de lamentação por Saul e Jônatas, expressando sua admi­
ração e sua devoção a ambos (2Sm 1.17-27). Em vez de voltar correndo para
Judá para lutar pelo trono, ele primeiramente buscou a vontade do Senhor
(2Sm 2.1). Apesar de ter aceitado a aclamação de Judá, ter contado com o
apoio de leais súditos de Saul e aparentemente ter autorizado uma guerra con­
tra as forças de Isbosete, Davi não autorizou os assassinatos de Isbosete e de
Abner (2Sm 2-4). Parece que ele desejava uma transição pacífica e tinha inten­
ção de acolher os descendentes de Saul como seus súditos. Em cumprimento à
promessa feita a Jônatas, ele tornou Mefibosete, o filho aleijado de Jônatas,
protegido do Estado (2Sm 9).
Davi teve sucesso militar: ele tomou Jerusalém dos jebuseus, derrotou
os filisteus e conquistou as nações do leste (2Sm 5 e 8). Ele também centralizou
o culto em Jerusalém, trazendo a arca para a cidade; porém, não sem perturbação
(2Sm 6). Quando Davi anunciou sua intenção de construir um templo
(lit. “casa”) para o Senhor, o Senhor adiou o projeto. Em vez disso, Deus fez
uma aliança com Davi, prometendo a ele uma dinastia duradoura (lit. “casa”)
(2Sm 7). Se os descendentes de Davi fossem desobedientes, o Senhor os puniria,
mas ele iria manter a dinastia.
Apesar do êxito de Davi, não estava tudo bem. Formando um harém,
ele plantou as sementes da destruição. Enquanto estava em Hebrom, teve
seis filhos de seis diferentes mulheres (2Sm 3.2-5). Antes disso, Davi tinha
apenas duas mulheres (Ainoã e Abigail; ISm 25.43; 30.5), com excesão de
Mical, a quem Saul dera a outro homem (ISm 25.44). Pelo menos um desses
casamentos foi aparentemente contraído com o objetivo de consolidar uma
aliança política. Maaca era filha do rei Talmai de Gesur, localizada a leste do
rio Jordão. Essa descrição da expansão da corte e da influência de. Davi é
perturbadora, considerando Deuteronômio 17.17, que estabelecia que o rei
de Israel não podia multiplicar esposas.83À medida que a história prossegue,
criam-se tensões dentro da atulhada corte, especialmente entre os meio-irmãos
Amnom e Absalão e, posteriormente, Salomão e Adonias. Depois que Davi
se mudou para Jerusalém, ele tomou mais duas mulheres (2Sm 5.13-16).
Levando-se em conta a avaliação positiva de Davi no contexto anterior
(v. 10, 12), pode haver a tendência para dizer que a nota sobre um harém
que crescia está incluída para impressionar o leitor com o crescimento do
status de Davi, e para retratá-lo como alguém que era abençoado por Deus
com uma prole numerosa. Mas, por toda a história de Davi, o narrador
incluiu aspectos negativos da trajetória de Davi, muitas vezes sem fazer
comentários. Como em 2Samuel 3.2-5, devemos ver além do superficial e
não permitir que os aspectos positivos da carreira de Davi deturpem nossa
interpretação de cada detalhe. Deuteronômio 17.17 proibia o rei de Israel de
multiplicar mulheres. Embora o harém de Davi não afastasse seu coração do
86 Interpretação dos livros históricos
Senhor, a aquisição de mais e mais mulheres sugere que ele tinha se envolvido,
em certa medida, com o pensamento da cultura. Além disso, ele abriu um mau
precedente que foi prejudicial a Salomão.
A insistência de Davi em criar um harém culminou no incidente com
Bate-Seba, em que Davi, dominado pela lascívia e pela cobiça, violou a mulher
de Urias e, em seguida, tentou acobertar seu pecado ordenando a morte do
marido dela. Davi sofreu as duras conseqüências da sua vergonhosa transgressão
da lei de Deus. Respondendo à parábola de Natã, Davi involuntariamente
declarou a penalidade por seu crime com pagamento quadruplicado
(2Sm 12.6). Como era de se esperar, no desenrolar da história, morrem
quatro filhos de Davi. O Senhor fez morrer o filho sem nome que Bate-Seba
deu à luz (2Sm 12.15-18). Mais tarde, Amnom (pela mão de seu meio-irmão
Absalão), Absalão (pela mão de seu primo Joabe) e Adonias (pela mão de seu
meio-irmão Salomão) morreram de maneira violenta em cumprimento da
promessa de Natã segundo a qual a espada não se apartaria da casa de Davi
(2Sm 12.10). Quando Amnom violentou sua meio-irmã Tamar, Davi não
corrigiu seu filho. Absalão vingou sua irmã e matou Amnom (2Sm 13).
Aparentemente paralizado, Davi não puniu Absalão por seu crime, exatamente
como tinha ignorado os crimes de assassinato cometidos por Joabe em mais
de uma ocasião. A falha de Davi em exercer justiça voltou a persegui-lo quando
Absalão se apresentou como o rei justo, que se preocupava em que houvesse
justiça em Israel (2Sm 15.1-12). A autopromoção de Absalão culminou na
sua tentativa de tomar o trono e, em seguida, em sua morte, que deixou Davi
emocionalmente arrasado (2Sm 15-18).
Mas Davi também experimentou a misericórdia de Deus no meio do
castigo. Em resposta à confissão de pecado feita por Davi, o Senhor poupou
sua vida (2Sm 12.13). Após a morte do seu filho recém-nascido, o Senhor deu
outro filho a Davi e a Bate-Seba, ao qual o Senhor chamou Jedidias (“amado
do S e n h o r ” ; 2Sm 12.24-25). Essa criança, mais conhecida como Salomão,
veio a ser rei. Por meio da difícil experiência da rebelião de Absalão, Davi,
entendendo que ele estava sendo punido por seus crimes passados, recebeu a
crítica de seus inimigos como parte da disciplina de Deus (2Sm 16.10-11).
Ao mesmo tempo, porém, Davi esperava a misericórdia de Deus e a experimentou,
o que lhe abrandou o sofrimento em certa medida (2Sm 16.12).

R e f l e x õ e s s o b r e a c a r r e i r a d e D a v i (2 S m 2 1 - 2 4 )

Os capítulos finais de 2Samuel estão dispostos em uma estrutura de


quiásmo, em que os elementos da segunda metade da unidade literária
correspondem tematicamente aos da primeira metade, mas em ordem inversa,
criando um efeito paralelo:
Principais temas dos livros históricos 87
A O pecado de Saul e sua reparação: o rei Davi como juiz (21.1-14).
B Os grandes feitos dos homens de Davi (21.15-22).
C Cântico de Davi em ações de graças (22.1-51).
C’ Últimas palavras de Davi (23.1-7).
B’ Os grandes feitos dos homens de Davi (23.8-39).
A’ O pecado de Davi e sua reparação: Davi como sacerdote real (24.1 -25).

As unidades A/A’ e B/B’ dessa parte final correspondem ao curso da car­


reira de Davi como se desenvolve em 1—2Samuel. A parte A (21.1-14), com o
contraste entre Davi e Saul, complementa 1Samuel 15—2Samuel 4, que mostra
que Davi, e não Saul, era o legítimo rei de Israel e que Davi não era responsável
pela morte de Saul e seus descendentes. Ao contrário, Davi sempre procurou
honrar Saul e sua família. As partes B (21.15-22) e B’ (23.8-39) correspondem
a 2Samuel 5—10, que narra as vitórias militares de Davi. A parte A’ (24.1-25) é
tematicamente paralela a 2Samuel 11—20, que narra a queda moral e a punição
de Davi. Bem no centro dessa análise temática, os textos poéticos nas partes C
(22.1-51) e C’ (23.1-7) trazem um comentário teológico a respeito da carreira
de Davi.
0 apêndice dos capítulos 21 e 24 destaca os temas principais da carreira
de Davi —sua eleição divina e sua superioridade em relação a Saul, seu êxito na
guerra e a disposição de Deus em restaurá-lo ao seu favor após atos pecamino­
sos e tempos de castigo. Os fatos e os poemas incluídos nessa parte resumem e
fornecem um microcosmo da carreira e do caráter de Davi. Colocando dois
poemas (ISm 2.1-10; 2Sm 22), os quais se referem aos reis como ungidos de
Deus (ISm 2.10; 2Sm 22.51), no início e no final de 1 e 2Samuel, o narrador
mantém vivo o ideal de rei que é expresso na aliança davídica.

1-2REIS
P r in c ip a is tem as

1 e 2Reis traçam a história de Israel desde a ascenção de Salomão até o


exílio, abrangendo um tempo que tem a duração de mais de quatrocentos anos.
A história é, sobretudo, trágica, considerando-se que Israel transgrediu as exi­
gências da aliança com o Senhor e experimentou as conseqüências de sua deso­
bediência. Salomão, filho e sucessor de Davi, plantou as sementes da idolatria e
perdeu a maior parte do reino, aparentemente, prejudicando a aliança de Deus
com Davi. O reino foi dividido, com a dinastia de Davi reinando apenas sobre
Judá e Benjamim.
No norte, a idolatria se instalou quando Jeroboão iniciou um culto idóla­
tra que concorria com o culto de Jerusalém e Acabe, mais tarde, transformou o
culto a Baal em religião oficial. Quando o Senhor confrontou essa iniqüidade
88 Interpretação dos livros históricos
por meio dos profetas, os reis do norte os perseguiram. Finalmente, Deus pu­
niu essa rejeição de sua autoridade fazendo com que o reino do norte fosse para
o exílio.
Em Judá, a idolatria também ameaçou a segurança da nação, mas dois
reis em particular, Ezequias e Josias, promoveram avivamentos espirituais que
deram condições a Judá de viver mais do que o reino do Norte. Mas, no final,
Judá também foi para o exílio. No entanto, há o lado bom da história, pois as
promessas de Deus para a dinastia davídica nunca morreram e continuaram a
alimentar a esperança da restauração dos destinos da nação.
S em entes d e d e s t r u iç ã o : S alo m ão r e in a (IR e is 1 -1 1 )

1 e 2Reis narram a sucessão de Salomão no trono de seu pai. Adonias


ambicionava o trono e começou a dar passos para consolidar seu lugar como
futuro rei. No entanto, com certo estímulo de Bate-Seba, Davi decretou que
Salomão, e não Adonias, deveria ser o próximo rei. Em seu leito de morte, Davi
convocou Salomão. Ele estimulou Salomão a cumprir suas responsabilidades
de rei com coragem, exortou-o a obedecer aos mandamentos do Senhor e o fez
se lembrar da promessa da aliança do Senhor feita à dinastia (vd. 2Sm 7). No
entanto, em seguida, Davi instruiu Salomão para que demandasse vingança
sobre Joabe e Simei e garantisse morte violenta a ambos. Essa ordem é exemplo
da ambigüidade moral que caracterizava a vida de Davi. Na primeira ocasião
em que fala na história (ISm 17.26), ele demonstra um grau de interesse pró­
prio e ambição (“O que farão àquele homem que ferir este filisteu?”), assim
como uma preocupação sadia pela honra de Deus (“Quem é esse incircunciso
filisteu para afrontar os exércitos do Deus vivo?”). Em seu leito de morte, ao
mesmo tempo em que exorta Salomão a obedecer à lei do Senhor, ele incita o
filho a cobrir as mãos de sangue. As palavras de Davi também ilustram sua
fraqueza moral. Ele reconhecia que Joabe era um assassino, porém nunca teve
coragem de puni-lo e, por fim, deixou esse encargo a Salomão. Ele prometeu a
Simei que nunca o puniria, mas depois voltou atrás em sua palavra e disse a
Salomão que o matasse. Davi tinha transmitido o legado de derramamento de
sangue a seu filho, cujo nome, ironicamente, significa “paz”. Vendo-se como o
instrumento de justiça do Senhor, Salomão seguiu o conselho de seu pai (lRs
2.28-46; vd., principalmente, v. 32 e 44).
A violência de Salomão não se limitou a aniquilar os inimigos de seu pai.
Encorajado por ele a derramar sangue e eliminar possíveis inimigos, Salomão
exterminou seu principal rival, seu irmão Adonias. Após a morte de Davi,
Adonias pediu que Abisague lhe fosse dada por mulher. Salomão interpretou
esse pedido como um pretexto para conquistar o trono. Como Abisague tinha
dormido com Davi (embora ele, já idoso, não tivesse tido relações sexuais com
ela), podia-se considerá-la como parte do harém do rei. Pedindo alguém que
Principais temas dos livros históricos 89
fazia parte do harém de seu pai, Adonias se expôs à acusação de tentar usurpar
o lugar dele. Salomão explorou ao máximo a imprudência de Adonias. O acu­
sou de traição e ordenou sua execução. Com a morte de Adonias, a pena pelo
crime de Davi foi totalmente paga (cfr. 2Sm 12.6).
A ambigüidade que cerca Salomão (chamado “paz”, que ordenou a morte
de três indivíduos) continua em IReis 3-11. No aspecto positivo, o texto o
louva por sua lealdade ao Senhor (3.3a). Quando lhe foi dado escolher um
dom de Deus, ele escolheu sabedoria para governar o povo eficientemente (3.9).
Deus se agradou dessa decisão e lhe prometeu riqueza e honra (3.10-13).
A reputação da sabedoria de Salomão se espalhou (3.28; 4.29-34) e a nação
prosperou (4.20-28). O Senhor cumpriu a promessa tornando Salomão rico e
afamado (9.11; 10.10, 14—18, 21, 25). Salomão construiu o templo em honra
ao Senhor (8.18-21). Ele intercedeu em favor da nação, suplicando a Deus que
perdoasse o povo no futuro (8.22-53), enquanto encorajava-os a serem fiéis à
aliança (8.54-61). O Senhor reiterou a promessa da aliança com a linhagem de
Davi, mas advertiu que a idolatria o levaria a deixar o templo e mandar o povo
para o exílio (9.1-9).
Apesar desses traços positivos, o reinado de Salomão foi maculado. No
início do seu governo, ele se casou com uma princesa egípcia para selar uma
aliança com o faraó, pai dela (3.1; cfr. 9.16). Mais tarde, em flagrante violação
à lei de Deus, ele acrescentou centenas de mulheres ao seu harém e cultuou os
deuses delas (11.1-8; cfr. Dt 17.17). Ele acumulou cavalos e carros, contrarian­
do a vontade de Deus (10.26-29; cfr. Dt 17.16) e ofereceu sacrifícios nos altos
(3.3b). Como conseqüência da idolatria, o Senhor disse que tiraria o reino do
filho de Salomão, deixando para ele apenas uma tribo (por amor de Davi, 11.9-
13; cfr. 11.29-39). A partir daí, Salomão enfrentou inimigos de fora e de den­
tro do reino (11.14-40). O Senhor mesmo engendrou a divisão do reino, fa­
zendo com que Roboão rejeitasse as solicitações do povo do norte (12.1-24;
vd., especialmente, v. 15). Há uma grande tensão na história, pois a promessa
davídica parece estar comprometida —mesmo condicionalmente, existe a pro­
messa de uma dinastia como a de Davi a Jeroboão (11.37-38), mas as palavras
do Senhor parecem indicar um ressurgimento da linhagem de Davi em algum
momento no futuro (11.39).
D e s in te g r a ç ã o e tr a g é d ia : o r e in o d iv id id o ( I R e is 1 2 - 2 R e is 2 5 )

O restante de l —2Reis narra como os reinos do Norte (Israel) e do sul


(Judá) foram afinal para o exílio. A história avança em ordem cronológica,
oscilando entre o norte e o sul.
No norte, Jeroboão I estabeleceu um culto concorrente para que seu povo
não viajasse para Judá para adorar. Ele construiu dois bezerros de ouro e colo­
cou um em Betei, perto da fronteira com Judá, e outro em Dã, no longínquo
90 Interpretação dos livros históricos
norte. Ele os chamou de “teus deuses que te fizeram subir da terra do Egito”
(lRs 12.28) e nomeou sacerdotes para assistir nos altos em Betei. Por causa da
grosseira violação à ordem contra fazer imagens (Dt 5.8-9), Jeroboão perdeu a
continuidade tanto da sua linhagem quanto da nação (lRs 13.33-34; 14.8-11,
15-16). Durante os dois séculos seguintes, os reis de Israel persistiram na preser­
vação desse culto concorrente, o qual 1 e 2Reis insistem em denunciar repetida­
mente (cfr. lRs 15.26, 34; 16.2, 19, 26, 31; 22.52; 2Rs 3.3; 10.29, 31; 13.2, 6,
11; 14.24; 15.9, 18, 24, 28; 17.22). O pior rei foi Acabe, que teve a audácia de
legitimar o culto de Baal como religião oficial (lRs 16.30-33; 21.25-26).
Em meio a essa idolatria, o Senhor provou sua autoridade soberana e
estabeleceu seu direito de culto exclusivo de Israel. Como resultado do culto a
Baal, o Senhor trouxe grande seca sobre a terra, mostrando que ele, não Baal,
tinha autoridade sobre a fertilidade na agricultura. No monte Carmelo, provou
que ele, não Baal, controlava a chuva. Os reis do norte tentaram silenciar os
profetas de Deus, mas os profetas afirmaram sua autoridade sobre os reis. Eles
anunciaram a queda de vários reis (lRs 13.1-3; 14.4-16; 16.1-4; 20.35-42;
21.17-24; 22.15-28; 2Rs 1.3-4) e mostraram o poder dado por Deus para aben­
çoar e para destruir (lRs 13.4-6; 17.1—18.46; 2Rs 1.9-15; 2.19-25; 4.1-37;
5.1-27; 6.1-23). O Senhor queria que o rei e o povo o considerassem como
Jeová (lRs 20.13, 28), o Deus que os libertara do Egito e fizera uma aliança
com eles. Mas eles o rejeitaram (2Rs 17.7-23). Paradoxalmente, um general
estrangeiro, que funciona como contraste literário de Israel, reconheceu que o
Deus de Israel é inigualável e único digno de adoração (2Rs 5.15-17).
No sul, as sementes da idolatria plantadas por Salomão desenvolveram
profundas raízes sob o reinado de seu filho Roboão. O povo construiu altos e
adorou deuses cananeus (lRs 14.22-24). Abias, filho de Roboão, seguiu os
passos de seu pai; todavia, o Senhor o abençoou com um filho para continuar
a dinastia, em cumprimento da promessa feita ao fiel Davi (lRs 15.3-5). Esse
filho, Asa, obedeceu ao Senhor e purificou a terra das práticas religiosas cananeias
(lRs 15.11-13). Infelizmente, ele não eliminou os altos, embora o narrador o
elogie por sua lealdade ao Senhor (lRs 15.14).
A partir desse ponto, a devoção de Judá ao Senhor oscilou. Josafá, como
seu pai, Asa, foi fiel ao Senhor, mas permitiu que a adoração nos altos conti­
nuasse (lRs 22.43). No entanto, seu filho Jeorão se afastou do Senhor e seguiu
as práticas de Acabe no norte. Ele chegou a fazer uma ligação da dinastia davídica
com a de Onri, casando-se com Atalia, filha de Acabe (2Rs 8.18). Apesar do
pecado de Jeorão, o Senhor novamente mostrou misericórdia a Judá por causa
de sua promessa a Davi (2Rs 8.19). Acazias, o filho de Jeorão e Atalia, prosse­
guiu na idolatria de seu pai (2Rs 8.26-27). Quando Acazias foi assassinado por
Jeú, Atalia resolveu destruir a dinastia davídica, pensando, ao que tudo indica,
que isso daria a ela estabilidade no poder (2Rs 11.1). A tia de Joás o resgatou e
Principais temas dos livros históricos 91
o escondeu no templo por seis anos, após os quais o sacerdote Joiada conduziu
um levante vitorioso contra Atalia e estabeleceu Joás como rei. Joiada renovou
a aliança entre o Senhor e o povo, e estes, então purificaram a terra do culto a
Baal que fora estabelecido por Jeorão e apoiado por Atalia (2Rs 11.2-20). Joás
e seus sucessores obedeceram ao Senhor, apesar de não terem tirado os altos
(2Rs 12.2-3; 14.3-4; 15.3-4; 34-35). Porém, quando Acaz subiu ao trono,
outra crise surgiu. Ele sacrificou nos altos e importou práticas religiosas pagas
do reino do norte (2Rs 16.3-4). Seu filho Ezequias reverteu suas diretrizes.
Ezequias demonstrou sua consagração ao Senhor destruindo os cultos pagãos e
eliminando os altos, algo que não havia sido feito anteriormente na longa his­
tória de Judá (2Rs 18.3-6). O narrador elogia Ezequias por sua fé e obediência,
declarando “de maneira que depois dele não houve seu semelhante entre os reis
de Judá, nem entre os que foram antes dele” (2 Rs 18.5). O Senhor estava com
Ezequias e lhe concedia bom êxito (2Rs 18.7). Quando os poderosos assírios
cercaram Jerusalém, o Senhor milagrosamente livrou a cidade, em resposta à
oração de Ezequias (2Rs 18.13—19.37). Ele também curou Ezequias de uma
enfermidade mortal e lhe acrescentou quinze anos de vida (2Rs 20.1-11).
O reinado de Ezequias mostrou ser a bonança que antecede a tempestade.
Embora ele fosse o melhor dos reis de Judá até essa data, seu filho Manassés foi
o pior. Ele permitiu o culto a Baal, instituiu várias práticas idólatras, e matou
muitos inocentes (2Rs21.1-9, 16). O Senhor considerou Judá mais pecador do
que os nativos amorreus, que tinham habitado a terra antes da chegada de
Israel. Ele declarou que Jerusalém seria destruída e que o povo seria levado ao
exílio (2Rs 21.10-15). O declínio continuou sob Amom, filho de Manassés
(2Rs 21.20-22), embora tenha sido contido temporariamente por Josias. Josias
se arrependeu, submeteu-se à lei de Deus e purificou a terra da idolatria. Ele
eliminou os altos, que tinham sido reconstruídos após a purificação feita por
Ezequias, e chegou a destruir o alto em Betei, em cumprimento a uma antiga
profecia (2Rs 22-23). Todavia, o nobre empenho de Josias foi muito pequeno
e tardio demais. Por causa dos pecados de Manassés, o Senhor estava determi­
nado a destruir Judá (2Rs 23.26-27; 24.3-4), o que, sem demora, sucedeu após
a morte de Josias (2Rs 24-25). A dinastia davídica chegava ao fim, embora um
descendente de Davi tenha permanecido vivo na Babilônia (2Rs 25.27-30).
A análise que o narrador faz da história de Judá mostra vários temas:

1. Ao contrário dos reis do norte, vários reis da dinastia davídica foram


fiéis ao Senhor. Especialmente dois, Ezequias e Josias, foram defenso­
res zelosos do genuíno culto a Jeová e inimigos do paganismo. Em
comparação ao flagrante fracasso do reino do norte, torna-se evidente
que o íuturo de Israel se liga ao êxito da dinastia davídica (Vd. nossa
discussão a seguir).
92 Interpretação dos livros históricos
2. Alguns reis, embora reconhecidos por sua lealdade, não tiveram êxito
na remoção dos altos. Vários reis de Judá promoveram a idolatria, in­
cluindo o culto a Baal que tinha sido estabelecido no norte. Jeorão
chegou a unir a dinastia davídica à casa de Acabe, uma decisão que
suscitou uma resposta radical da parte do Senhor.
3. Ao longo de toda a história de Judá, o Senhor foi misericordioso para
com a dinastia e a preservou de vários perigos, incluindo o ataque de
Atalia à família real e o cerco de Senaqueribe a Jerusalém.
4. No final, o Senhor foi obrigado a enviar a nação para o exílio por causa
da recusa do povo em fazer prevalecer as medidas de reforma de Ezequias,
um dos maiores reis de Judá.
1-2CRÔNICAS
P rincipal tema

Crônicas traz uma história de Israel que tem partes em comum com o
relato feito em Samuel —Reis e que o complementa. No entanto, há diferenças
significativas na extensão e no objetivo. Crônicas focaliza a dinastia davídica e,
consequentemente, o reino de Judá. No geral, seu retrato histórico é mais oti­
mista do que o que encontramos em Samuel —Reis, que destacam o rebaixamen­
to moral e o declínio político. A história deuteronômica (vd. páginas 99-100),
quando lida na perspectiva do exílio, apresenta um raio de esperança para o
futuro. Crônicas, por meio de sua representação mais idealizada do passado, é
muito mais otimista ao exibir figuras-chave do passado como paradigmas do
líder ideal vindouro.
U nidade nacional e um ideal de rei: Davi e Salomão ( I C r 1 - 2 C r 9 )

O primeiro livro das Crônicas começa com listas genealógicas que ascen­
dem a Adão. Logo que a lista alcança Jacó e seus filhos (ICr 2.1-2), Judá ocupa
a posição mais importante (2.3—4.23), mas todas as tribos de Israel estão repre­
sentadas (4.24—8.40). A comunidade exílica (9.1-34) compreendia principal­
mente os membros das tribos de Levi, de Judá e de Benjamim, embora se men­
cione de passagem que alguns de Efraim e de Manassés estavam entre os que
retornaram (9.3). As listas genealógicas estabelecem, antes da comunidade exílica
(a audiência implícita de 1 e 2Crônicas), um ideal de Israel unificado, encabe­
çado por Judá e pela linhagem de Davi mais especificamente (3.1-24).
A história em si começa com um relato da rejeição de Saul por causa de
sua desobediência (vd., especialmente, ICr 10.13-14) e ressalta que Deus trans­
feriu o reinado a Davi (ICr 10.1-11.3). Em contraste com ISamuel, a narrati­
va não cobre a trajetória de Saul, mas registra apenas sua morte. E evidente que
o foco do cronista é Davi; o reinado interrompido de Saul é um mero prólogo
e Saul é um simples contraste de Davi.
Principais temas dos livros históricos 93
O relato do reinado de Davi (lC r 11—29) destaca seu papel como líder da
adoração (15.1—16.43), com ênfase especial nas preparações para a construção
do templo e para a organização do culto no templo (22.1—26.32; 28.1—29.20).
O cronista também dedica atenção cuidadosa à aliança de Davi com o Senhor
(17.1-27) eà sua liderança militar (11.4-12.40; 14.8-16; 18.1-20.8; 27.1-24),
com ênfase no fato de que ele tinha o apoio de todo o Israel (12.23-40).
Incidentes negativos da carreira de Davi, tais como seu pecado com Bate-
Seba e o assassinato de Urias, são, em sua maioria, omitidos. A morte lastimá­
vel de Uzá é registrada (13.1-14), mas Davi sabiamente reconheceu que a causa
eram as profanações do culto e fez as correções necessárias para assegurar que a
arca fosse manuseada com o devido respeito ao ser transportada para Jerusalém
(15.1—16.6). O incidente da praga é registrado (cfr. 2Sm 24), mas Davi se
arrependeu e intercedeu pela nação como líder da adoração (lC r 21.1—22.1).
Embora 2Samuel 24.1 atribua o ato pecaminoso de Davi em fazer o censo do
povo (cfr. 24.10) diretamente à ira e à incitação do Senhor, o cronista o atribui
a “um adversário” (lC r 21.1).84 De modo geral, o relato do reinado de Davi é
uma versão saneada de sua carreira, a qual apresenta Davi como rei modelo,
prefigurando um rei ideal por vir.
O mesmo acontece com o relato do reinado de Salomão (2Cr 1—9).
Salomão, o sucessor de Davi cuidadosamente escolhido (lC r 29.21-25), rece­
beu do Senhor sabedoria e riqueza (2Cr 1). Ele é apresentado como construtor
do templo (2.1—5.1) e como intercessor e líder da adoração (5.2—7.22) que
angariou fama e sucesso (8.1-9.28; cfr. principalmente 9.22-23). Não se faz
nenhuma referência às suas várias mulheres (cfr. lRs 11.3-8); mas, na verdade,
a filha do faraó é mencionada como se ela fosse sua única mulher (2Cr 8.11).
O quadro não é inteiramente positivo, pois os versos que concluem o relato de
seu reinado se referem à sua riqueza e ao acúmulo de cavalos (9.25-29; cfr. Dt
17.16-17) e a profecia de Aías sobre o castigo de Deus é também mencionada
de forma resumida (9.29; cfr. lRs 11.29-39). Todavia, o relato é, na maior
parte, idealizado. A esse respeito, Dillard e Longman afirmam: “Em Crônicas,
Davi e Salomão são retratados como figuras gloriosas, obedientes, em tudo
vitoriosas, que desfrutam não somente da bênção divina, mas também do apoio
de toda a nação”. Eles observam que essa “idealização dos reinados de Davi e de
Salomão”, em vez de ser “uma espécie de exaltação ‘dos velhos tempos’, revela
uma ‘historiografia messiânica’, na qual Davi e Salomão encarnam uma espe­
rança escatológica”.85

Paradigma de liderança divina: lições da dinastia davídica ( 2 C r 1 0 - 3 6 )

O restante de 2Crônicas se concentra na história de Judá (2Cr 10—36).


Ressalta as realizações positivas dos reis davídicos, especialmente sua liderança
na adoração (24.4-14; 29.1-31.21; 34.8—35.19), seu apoio aos levitas (17.7-9;
94 Interpretação dos livros históricos
19.8-11), e sua oposição à idolatria, principalmente aos altos e ao culto da
fertilidade de Baal e de Aserá (14.2-5; 15.1-18; 17.3-6; 19.3; 34.2-7).
O compromisso de Deus com a dinastia de Davi, embora muitas vezes
não seja mencionado, é, todavia, um importante tema subjacente (13.5; 21.7;
23.3). O rei Abias lembrou ao reino do norte que Deus tinha estabelecido uma
aliança perpétua com Davi e defenderia a dinastia no campo de batalha (13.5-
12). O narrador nos informa de que o Senhor poupou Judá da destruição por
causa de sua promessa a Davi, mesmo quando o rei Jeorão se casou com a filha
de Acabe (21.6-7). Quando Atalia usurpou o trono de Judá, muitos fizeram
uma aliança para constituir Joás rei, de conformidade com a promessa de Deus
a Davi (23.3).
O cronista salienta que reis podem vencer batalhas contra vantagens
esmagadoras se eles confiam no Senhor (13.2-19; 14.8-15; 20.1-30; 25.7-13;
32.1-23), e demonstra que a obediência traz as bênçãos divinas (26.5; 27.6).
Embora suplantado a uma razão de dois por um (13.3), Abias obteve grande
vitória sobre Israel, porque o Senhor interviu na batalha em resposta à confi­
ança que Judá tinha nele (13.3-18). Asa, sendo inferior aos etíopes em núme­
ro, teve uma vitória retumbante quando clamou ao Senhor (14.8-15). Na
verdade, Josafá venceu uma aliança moabita-amonita sem usar um exército,
quando o Senhor interferiu de forma sobrenatural, levando o inimigo ao
pânico e à autodestruição (cap. 20). Quando orientado a enviar seus merce­
nários israelitas para casa, Amazias obedeceu e o Senhor o recompensou com
vitória (25.1-13). Quando os assírios cercaram Jerusalém, Ezequias, que con­
fiava que Deus era capaz de proteger sua cidade (32.6-8), orou pedindo a
intervenção divina, e o Senhor destruiu o exército assírio, forçando
Senaqueribe a retornar para casa (32.1-23).
De acordo com o cronista, a desobediência em forma de idolatria (21.6;
22.3; 24.18; 25.14; 28.2-4,22-25; 33.2-9,22), a aliança com estrangeiros (16.1-
10; 19.2; 22.5; 28.16-21) e a hostilidade para com os profetas de Deus (16.10;
24.19-22; 25.16) eram imediatamente punidas, muitas vezes com morte e,
com frequência, em cumprimento à palavra profética (16.12-13; 21.8-19; 22.7-
9; 24.23-26; 25.20-28; 28.5-8; 33.10-11, 22-25).
Como na história deuteronômica, os profetas são porta-vozes de Deus e
devem ser tratados com honra. Logo após aprisionar o profeta Hanani (16.10),
Asa contraiu uma doença nos pés que lhe causou a morte (16.12). O texto
afirma que ele não recorreu ao Senhor, dando a impressão de que sua vida
poderia ter sido poupada se ele assim tivesse feito. Seu desrespeito a Hanani era
sintoma de um problema subjacente que, posteriormente, contribuiu para sua
morte. Durante o reinado de Joás, os profetas confrontaram o povo por causa
da idolatria (24.17-19). O rei mandou matar o profeta Zacarias; mas, antes de
morrer, o profeta orou para que o Senhor vingasse sua morte (24.20-22). Logo
Principais temas dos livros históricos 95
depois disso, um exército sírio militarmente inferior derrotou Joás (24.23-24).
Ferido em batalha, o rei foi morto por seus servos (24.25). De acordo com o
narrador, sua morte foi conseqüência do que ele fizera a Zacarias. Amazias
ordenou que um dos profetas do Senhor parasse de pregar, levando o profeta a
anunciar a morte do rei (25.14-16). Logo em seguida, Amazias se precipitou
insensatamente em guerra contra Israel e conheceu a derrota (25.20-24).
O narrador nos informa de que o Senhor levou Amazias a fazer isso porque
desejava puni-lo em razão de sua idolatria (v. 20). No restante de seu reinado,
Amazias foi ameaçado por tramas de assassinato, uma das quais finalmente
veio a acontecer (25.25-28).
O cronista dedica atenção especial a Ezequias e a Josias, que promoveram o
culto no templo e procuraram reunir os reinos do norte e do sul, de acordo com
o antigo ideal de um Israel unificado (30.1-12; 34.9). Dois reis são apresentados
particularmente numa ótica mais positiva do que em 1 e 2Reis. De acordo com
IReis 15.3, Abias seguiu as práticas iníquas de seu pai Reoboão; mas, em 2Crôni-
cas 13, ele declara sua fé no Senhor na iminência da batalha (vd. v. 11) e alcança
uma retumbante vitória. 2Reis 21 denuncia Manassés e atribui a conseqüente
queda de Judá ao seu pecado, mas 2Crônicas 33 o retrata como um pecador
arrependido que rejeita a idolatria e restaura o culto genuíno (vd. v. 12-17).
2Crônicas termina com um tom positivo, com o Senhor movendo Ciro,
o rei da Pérsia, para decretar o retorno dos exilados a Jerusalém (36.22-23).
O sentido é claro: o Senhor ainda tinha planos para seu povo. O cronista expõe
à comunidade exílica um ideal de um Israel unido sob o governo de um rei
davídico que promove o culto no templo de Jerusalém. Ele lembra à comuni­
dade que Deus pode conceder vitória em condições de inferioridades enormes,
mas a obediência é essencial para receber sua bênção.
ESDRAS-NEEMIAS
E sdras

Os livros de Esdras —Neemias retomam a história de Israel no ponto em


que 2Crônicas a deixa (cfr. Ed 1.1-2 com 2Cr 36.22-23). O autor dá ênfase ao
compromisso do Senhor com o futuro da comunidade exílica. Ele levou Ciro,
o soberano da Pérsia, a promulgar um decreto que permitia o retorno dos exi­
lados a Jerusalém e que autorizava a reconstrução do templo (1.1-4). Ele tam­
bém moveu vários líderes da comunidade exílica para responderem favoravel­
mente ao decreto (1.5—2.70). Usando a frase ITH TS?n, “despertou o espírito”
(1.1,5), o narrador ressalta a intervenção soberana de Deus nos assuntos huma­
nos para realizar seus propósitos (vd., também, ICr 5.26; 2Cr 21.16; 36.22; Jr
51.11; Ag 1.14); nesse caso, o restabelecimento dos exilados em sua terra natal.
Assim sendo, o livro de Esdras inicia com um tom positivo, indicando que o
exílio não frustrara os planos e as promessas do pacto divino.
96 Interpretação dos livros históricos
O foco do autor é a reconstrução do templo e a restauração do culto no
templo (Ed 3). Esse tema duplo é especialmente importante no período subse­
quente ao exílio. Antes da invasão de Jerusalém pela Babilônia, Ezequiel viu o
Senhor saindo do templo, deixando-o vulnerável à destruição (Ez 10). A re­
construção do templo e a reinstituiçao do culto indicariam que o Senhor tinha
novamente feito morada no meio do seu povo. A presença do Senhor em Jeru­
salém era, com certeza, vital para o êxito futuro da comunidade.
Os exilados que retornaram enfrentaram oposição durante cerca de 1°
século (4.1-24), mas pela instrumentalidade dos profetas do Senhor (Ageu e
Zacarias), de três diferentes soberanos persas (Ciro, Dario, Artaxerxes) e do
sacerdote Esdras, o templo foi finalmente reconstruído e o culto no templo
reinstituído (5.1—7.28). Esdras sabia muito bem que o Senhor era responsável
pelo êxito da comunidade (7.27-28). Ele reconhecia que o Senhor movera o
coração do rei Artaxerxes. Uma vez mais vem à tona o tema da soberania do
Senhor sobre os governantes humanos. O restabelecimento dos exilados era
verdadeiramente ação de Deus e, por essa razão, tinha a vitória garantida.
Esdras convocou os levitas para o ministério, buscou diligentemente a
bênção de Deus e ofereceu sacrifícios por todo o Israel (8.15-36). Embora a
maioria dos exilados que retornaram fosse descendente de Levi, de Judá ou de
Benjamim (cfr. Ne 11), a comunidade se identificou com Israel em seus moldes
antigos, composto de doze tribos (8.35).
O autor também enfatiza a importância da pureza étnica da comunidade
da aliança. Esdras, um escriba que era versado na lei de Moisés (7.6), tinha o
compromisso de guardar a lei e ensiná-la à comunidade (7.10). Conhecendo o
que ela ordenava com respeito ao casamento com estrangeiros, Esdras se preo­
cupou com o fato de que muitos homens, incluindo muitos sacerdotes (10.18-
44), tinham feito isso. Esdras confessou o pecado do povo por ter se casado
com estrangeiros e a comunidade, arrependida, despediu suas mulheres estran­
geiras (9.1—10.44). Como o antigo Israel, a comunidade pós-exílica se colocou
debaixo da autoridade da Lei. Diferentemente do antigo Israel, essa comunida­
de se purificou da influência forasteira. Dessa maneira, o livro de Esdras termi­
na com um tom positivo, retratando uma comunidade que respondeu à lei de
Deus de maneira correta. Na possibilidade de esse compromisso ser mantido, o
futuro despontaria de forma promissora.
N eemias

O livro de Neemias se preocupa com a segurança da comunidade da ali­


ança em Jerusalém. Afligido com a notícia de que os muros de Jerusalém ainda
não tinham sido reconstruídos, Neemias orou para que pudesse ir para Jerusa­
lém e reedificá-los (Ne 1.1-11). Ele confessou os pecados da nação (v. 6-7), mas
também lembrou a Deus de sua promessa de restaurar o povo se eles se arrepen­
Principais temas dos livros históricos 97
dessem e renovassem seu compromisso com a Lei (v. 8-9; cfr. Dt 30.1-10). A ora­
ção de Neemias combina com equilíbrio perfeito os temas da soberania divina
e da responsabilidade humana. O êxito da comunidade dependeu totalmente
do favor de Deus; mas, ao mesmo tempo, a disposição renovada do povo em
obedecer foi o catalisador da intervenção de Deus. Essa mesma seqüência é
evidente em Deuteronômio 30, onde o arrependimento e a obediência renova­
da por parte dos remanescentes (v. 2) despertam o favor de Deus, que traz
restauração à terra (v. 3-5), transformação moral sobrenatural (v. 6) e bênção
divina renovada (v. 9).86
O rei lhe concedeu permissão, mas tendo chegado a Jerusalém e projeta­
do a reconstrução, ele e a comunidade enfrentaram oposição dos estrangeiros
que habitavam a terra (2.1-4.23; 6.1-19). No entanto, o povo concluiu a obra
(6.15) e dedicou o muro (12.27-47).
Neemias sabia muito bem que o seu sucesso era devido à intervenção do
Senhor. O rei se dispôs a lhe conceder permissão para retornar por causa da
“mão de Deus” (2.8,18). Quando ele chegou a Jerusalém, tinha consciência da
direção de Deus (2.12). Enfrentando oposição, ele assegurou ao povo que Deus
lhes daria vitória na reconstrução do muro (2.20). Quando seus inimigos es­
carneceram deles, Neemias e o povo oraram enquanto prosseguiam no traba­
lho (4.4-5,9). Como resposta, Deus frustrou as intenções malignas dos inimi­
gos (4.15),87 fazendo com que Neemias garantisse ao povo que Deus estava
“lutando” por eles (4.20). A oposição continuou, mas Neemias orou pela inter­
venção do Senhor contra o inimigo (6.14). Quando o povo concluiu o muro,
seus inimigos estavam desanimados porque entenderam que Deus tinha capa­
citado seu povo para realizar aquela grande obra (6.16). A cerimônia de dedica­
ção foi um culto de adoração no qual o povo agradeceu a Deus por lhe ter
concedido alegria (12.43).
Neemias, Esdras e outros líderes procuraram estabelecer uma sólida base
espiritual para a comunidade. Neemias promoveu a justiça social (5.1-19) e a
pureza étnica (13.1-3, 23-31). Conclamou o povo a temer o Senhor, atitude
com a qual ele servia de modelo diante deles (5.9, 15). Neemias também elimi­
nou irregularidades referentes ao templo (13.4-14) e implantou a observância
do sábado (13.15-22). Esdras leu a Lei para o povo (8.1-18), levando-o a con­
fessar seus pecados (9.1-3) e a se consagrar à obediência e à pura adoração no
templo (9.38—10.39).
Os levitas oraram em favor do povo, recordando a aliança de Deus com
Abraão e sua bondade para com Israel, apesar da ingratidão e da desobediência
do povo (9.4-37). O tema central da oração deles é a grande compaixão de
Deus (9.17, 19-21, 27-28, 31). Ele mostrou misericórdia e compaixão por seu
povo após o incidente com o bezerro de ouro (v. 17-18; cfr., especialmente, v. 32),
durante os quarenta anos que vaguearam no deserto (v. 19-21) e em várias
98 Interpretação dos livros históricos
ocasiões por toda a sua história maculada pelo pecado (v. 27-28, 31). A com­
paixão de Deus é, sem dúvida, uma conseqüência natural da sua fidelidade,
outro tema importante dessa oração (v. 32-33). Os exilados entenderam que
estavam em cativeiro por causa do pecado de seus pais, e não por alguma falha
da parte de Deus (v. 34-37). Todavia, por causa da compaixão e da fidelidade
de Deus, estavam prontos para se consagrar novamente a ele e confiar nele com
respeito ao seu futuro (v. 38).
Principais temas

Em resumo, os livros de Esdras e Neemias narram sobre uma comunida­


de da aliança restaurada, criada pela intervenção providencial do Senhor e sus­
tentada por sua compaixão e bondade. O Senhor moveu os poderosos
governantes da Pérsia para favorecer os esforços dos que retornaram do exílio e
protegeu seu povo dos inimigos hostis. Embora os muros de Jerusalém estives­
sem sendo reconstruídos, proporcionando-lhe certa segurança física, o sucesso
futuro da comunidade pós-exílica dependia da sua disposição de obedecer à lei
de Deus em questões civis e religiosas. Ela precisava preservar sua identidade
étnica e a integridade de sua adoração no templo.
ESTER

O livro de Ester narra a história de um exilado judeu chamado Mordecai


e de sua formosa prima Ester. Por meio de uma série de situações fascinantes,
eles conseguiram livrar os exilados judeus do plano sanguinário de Hamã, fato
que deu origem à festa judaica de Purim.
A característica mais curiosa do livro é a ausência do nome de Deus.
Apesar dessa flagrante omissão, muitos sustentam que o livro ilustra o controle
providencial de Deus nos eventos. Mas, se esse fosse o caso, era de se esperar
que houvesse alguma referência ao seu envolvimento nos incidentes humanos.
Convém atentar para o ponto de vista do narrador nesse momento.88 O autor
da história pode ter omitido a presença de Deus de forma deliberada para refle­
tir a perspectiva dos exilados, que moravam numa terra distante onde parecia
que Deus estava ausente. Encobrindo a presença de Deus e focalizando o papel
dos personagens na libertação dos exilados, o autor também enfatiza a impor­
tância da responsabilidade humana na realização dos propósitos de Deus. Dillard
e Longman observam: “Essa doutrina da soberania divina é fundamental no
livro de Ester, mas não é um tipo de fatalismo. Pois onde não transparecem as
obras e os propósitos de Deus, a importância da obediência e da fidelidade
humanas se torna o que é mais evidente”.89
À medida que os personagens dão um passo à frente e assumem responsa­
bilidade, coincidências óbvias se revelam de maneira tal que os exilados são
Principais temas dos livros históricos 99
preservados da destruição. Quando a história termina, pergunta-se: “Esses exi­
lados simplesmente viveram uma vida de encantamento ou há na história mais
do que mera boa sorte?”. Na perspectiva de um observador que vivia no exílio,
Deus estava aparentemente ausente. Todavia, o desdobramento dos eventos,
especialmente a presença de Ester no lugar certo e na hora certa, leva a crer que
essa perspectiva é limitada. Mesmo quando parece que Deus está ausente, a
estrutura dos eventos revela sua presença. Como se observou antes, as princi­
pais unidades literárias do livro estão dispostas num padrão simétrico. Os eventos
que ocorrem na primeira metade do livro correspondem tematicamente a eventos
registrados na segunda metade dele.90 O ponto central da estrutura é 5.9—6.14,
onde os papéis de Mordecai e de Hamã são invertidos. Dentro desse episódio,
a cena principal se encontra em 6.1-11, em que o rei não consegue dormir e
termina por conceder a Mordecai a honra que Hamã pretendia para si. Essa
reviravolta nos eventos prefigura a conclusão do livro, que conta sobre o desti­
no dos judeus (cap. 9). Johnston explica: “a reversão dramática e inesperada na
situação de Hamã e de Mordecai em 6.1-11 prefigura a futura reversão no
destino dos judeus: move-se de uma situação de serem ameaçados pelos inimi­
gos para uma situação em que surgem triunfantes sobre os inimigos”.91 A vitó­
ria dos judeus sobre seus inimigos (9.1-19) contrasta com as tramas de seus
inimigos contra eles (3.1-15). A simetria literária e a prefiguração indicam que
os eventos, em lugar de serem coincidentes, eram parte de um projeto mais
amplo, que precisava ter sido orquestrado por Deus.
Usando uma perspectiva literária limitada que reflete a realidade da vida
no exílio, o narrador mostra seu ponto de vista sobre a presença de Deus de
maneira mais efetiva do que se tivesse introduzido uma perspectiva onisciente
na história. Em vez de dar aos leitores uma interpretação teológica dos eventos,
o narrador os força a buscar uma resposta às perguntas levantadas pelas miste­
riosas coincidências da história. Um exame cuidadoso desse ponto mostra que
há um padrão para os eventos e que, afinal de contas, eles não são tão coinci­
dentes. Isso, por sua vez, conduz os olhos da fé a apenas uma conclusão cabível:
apesar das aparências, Deus estava com seu povo, mesmo naquele lugar distan­
te e remoto. Além disso, mesmo quando as circunstâncias parecem
desesperadoras e ameaçadoras, Deus, em sua providência, pode propiciar uma
saída, especialmente quando seu povo corajosamente faz frente ao desafio e
sujeita seu bem-estar pessoal ao da comunidade da aliança.
SUMÁRIOS TEMÁTICOS
A h is tó r ia d e u t e r o n ô m i c a : J o s u é - 2 R e is

Na Bíblia hebraica, os livros de Josué, Juizes, 1 e 2Samuel e l e 2Reis são


chamados de Antigos Profetas, sendo assim denominados porque os profetas
100 Interpretação dos livros históricos
exercem um papel muito importante na história.92 Há muito tempo, os especi­
alistas reconhecem que esses livros compreendem uma única história, na qual
os temas deuteronômicos são proeminentes. Todavia, discordam no que concerne
ao objetivo geral e à extensão dessa narrativa. Alguns, da mesma maneira que
Martin Noth, entendem a história basicamente sob uma ótica negativa, como
sendo uma explicação do motivo pelo qual a nação foi para o exílio e como
uma apologia da decisão de Deus em julgá-la. Outros veem um aspecto positi­
vo na história. Gerhard Von Rad vê alguma esperança na história em razão do
registro da promessa a Davi. Hans Wolff vê a história como uma chamada ao
arrependimento dos exilados. Frank Cross propõe uma elaboração dupla da
história, a primeira procedendo a época de Josias e a segunda o período do
exílio. A primeira foi criada para motivar as reformas de Josias, a segunda para
motivar os exilados a renovar seu compromisso.93
Nossa análise leva a crer que é preferível ter essa visão mais equilibrada da
história, ao contrário da interpretação excessivamente pessimista de North.
A história é, sob vários aspectos, um deprimente relato da desintegração e do
exílio da comunidade da aliança de Deus. Ele é um documentário da transgres­
são da lei deuteronômica pela nação e uma descrição de como os julgamentos
prenunciados em Deuteronômio (as “maldições” da aliança) vieram a aconte­
cer. Embora isso tenha sido previsto em Deuteronômio, mantém-se a esperan­
ça de um futuro promissor além do exílio (Dt 30.1-10). A história dá base para
esse otimismo, mesmo que na forma de um raio de esperança em meio a espes­
sas nuvens. A história demonstra o compromisso de Deus com seu povo. Ele,
tantas vezes, mostrou-lhes misericórdia; imagina-se que mesmo um julgamen­
to tão radical como o exílio não poderia impedir que Deus fosse atrás de seu
povo. Deus prometera a Davi e seus descendentes seu amor paciente e leal,
indicando um final positivo para a história de Israel (2Sm 7.15-16). Talvez por
essa razão o Senhor concluiu a mensagem do julgamento de Salomão com a
declaração breve - porém, importante e caracterizadora - , de que a dinastia
davídica seria humilhada, “todavia, não para sempre” (lRs 11.39). A oração de
dedicação de Salomão, que faz alusão a Deuteronômio 30, prenuncia o exílio,
mas também roga a Deus que seja misericordioso quando seu povo se arrepen­
der (lRs 8.46-53). De acordo com 2Reis 13.23, o Senhor foi misericordioso
para com Israel durante o reinado de Jeoacaz por causa da aliança que fez com
Abraão, Isaque e Jacó. Apesar de ser apenas uma referência à aliança com Abraão
na história, é evidente que Deus levou a sério essa promessa, que é mencionada
várias vezes em Deuteronômio (1.8; 6.10; 9.5, 27; 29.13; 30.20; 34.4). Final­
mente, a preservação da dinastia davídica por toda a história de Judá expressa
esperança. De fato, 2Reis termina com a observação de que um descendente
davídico permaneceu vivo na Babilônia (25.27-30).
Principais temas dos livros históricos 101
A LITERATURA PÓS-EXÍLICA: 1-2C R Ô N IC A S, ESDRAS - NEEMIAS, EsTER

Esses livros lembram aos exilados que Deus ainda estava com seu povo,
onde quer que estivessem. Embora possa agir de forma velada e providencial
(Ester), Deus estava interferindo na história em favor deles. Ele era soberano
sobre os poderosos reis persas e estava empenhado em estabelecer uma nova
comunidade da aliança em Jerusalém. Ele era compassivo com seu povo e fiel às
antigas promessas da aliança com Abraão (Ne 9.7-8) e Davi (2Cr 13.5; 21.7;
23.3). Essa nova comunidade deveria obedecer à lei de Deus, conservar sua
pureza étnica e adorar a Deus no seu templo reconstruído. Como a história dos
reis de Judá exemplifica, a obediência constante traria a bênção divina, culmi­
nando com a restauração do ideal da dinastia davídico-salomônica e com o
cumprimento do ideal da aliança de um Israel unificado, comprometido com
Deus e abençoado por ele.
S íntese temática geral dos livros históricos

Há pelo menos quatro grandes temas que predominam por toda a exten­
são dos livros históricos. O relacionamento pactu ai de Deus com Israel, seu
povo, encontra-se no cerne da história. A aliança é renovada em Josué 23—24,
mas Juízes —2Reis narra como a condição mais básica da aliança (culto exclusi­
vo a Jeová) foi transgredida repetidamente, culminando no exílio do povo.
O templo, símbolo da presença do Senhor no meio do seu povo, foi deixado
em ruínas e a terra prometida foi abandonada. Vários anos antes, Salomão
previu esse acontecimento e rogou que o Senhor finalmente restaurasse o povo
rebelde (lRs 8.46-53; 2Cr 6.36-42). Os livros de Esdras e de Neemias narram
como a visão de Salomão de uma comunidade da aliança renovada começou a
tomar forma quando os exilados voltaram para Jerusalém, reconstruíram o tem­
plo e os muros da cidade e se comprometeram a guardar a lei de Moisés.
Em segundo lugar, o tema da monarquia domina o cenário dos livros
históricos. O livro de Josué deixa claro que o Senhor era o rei de Israel, pois era
ele o dono da terra prometida, a qual separou para seus súditos, esperando que
eles o honrassem e o adorassem em gratidão por sua dádiva. Como Israel deso­
bedeceu ao Senhor e perdeu sua diretriz moral e étnica, tornou-se evidente que
Israel precisava de um rei humano para exemplificar e promover a fidelidade ao
Senhor (cfr. Jz 17.6; 21.25 com Dt 17.14-20). Quando Israel requisitou um
rei, ele o fez por razões erradas (ISm 8; cfr. Jz 8.22-23). O Senhor lhes conce­
deu um rei, mas com o entendimento de que esse governante humano era um
vice-regente de Deus, sujeito à autoridade divina (ISm 12). Quando Saul deso­
bedeceu, o Senhor o retirou do cargo e o substituiu por Davi, com quem insti­
tuiu um acordo pactuai especial, assegurando a ele uma dinastia duradoura
(2Sm 7; 1Cr 17). A idolatria de Salomão trouxe punição sobre a dinastia, quando
102 Interpretação dos livros históricos
Deus separou da casa de Davi todas as tribos, exceto uma, e estabeleceu uma
dinastia concorrente no norte. A história subsequente é um amargo relato de
fracasso e de julgamento, embora alguns descendentes davídicos tenham se
mostrado fiéis ao Senhor. No final, tanto o reino do norte como o reino do sul
foi levado para o exílio, embora Deus tenha preservado um descendente davídico.
Quando os exilados voltaram da Babilônia, nem a independência de Judá nem
a dinastia davídica foram restauradas. No entanto, Zorobabel, um descendente
davídico, tornou-se governador (lC r 3), o sacerdócio foi restaurado e, com o
encorajamento dos profetas Ageu e Zacarias, o templo foi reconstruído e o
sistema de culto, restabelecido. O cronista, escrevendo nesse contexto de espe­
rança renovada, faz um relato idealizado da era de Davi e Salomão, lançando
uma visão do que se esperava para a dinastia davídica.
Resumindo, os livros históricos narram uma história que começa com
grande esperança, quando o povo de Deus entra na terra prometida. A histó­
ria assume uma feição trágica quando o povo de Deus rejeita a autoridade do
Senhor e se volta para outros deuses. Ela parece chegar ao fim quando Deus
manda seu povo para o exílio, deixando o templo em ruínas, a terra prometi­
da abandonada e a dinastia davídica humilhada e destituída de seu trono.
Das ruínas do exílio, porém, surge uma nova comunidade. Ela retorna para
sua terra, reconstrói o templo e renova seu compromisso com Deus, imbuída
da memória do que outrora tinha sido e de uma visão do que poderia se
tornar. Embora não resolvam a tensão do macroenredo no Antigo Testamen­
to, os livros históricos, de fato, sugerem que o futuro é promissor, porque o
Deus de Israel se compromete a vencer todos os obstáculos, até mesmo os
fracassos morais do seu povo, e realizar seu plano, em cumprimento às suas
antigas promessas.
O PREPARO PARA A
INTERPRETAÇÃO

Preparando-se para interpretar um texto, deve-se situá-lo em seu contex­


to histórico, determinar o que o texto é e o que ele diz e consultar o trabalho de
outros que têm trilhado o caminho da interpretação. Neste capítulo, discutire­
mos cada um desses aspectos preparatórios da interpretação.
MONTAR O CENÁRIO DOS LIVROS HISTÓRICOS
Como vimos no capítulo 1, é essencial que o intérprete reconheça a
dimensão literária das histórias do Antigo Testamento, mas é importante lem­
brar também que esses relatos bíblicos são narrativas reais que têm sua raiz na
história. Consequentemente, é importante compreender o contexto histórico
dos livros históricos. Com esse intuito, oferecemos aqui um estudo do perío­
do que esses livros compreendem, integrando, onde for possível, o registro
bíblico e a história antiga do Oriente Médio. A linha do tempo coberta pelos
livros históricos começa com a invasão da terra prometida por Israel, sob a
liderança de Josué e termina no período pós-exílico com a reconstrução de
Jerusalém por Neemias.
C ronologia bíblica

Ao reconstruírem a cronologia bíblica, os estudiosos primeiramente se


esforçam para determinar uma data ou datas fixas. Isso se faz correlacionando
informações bíblicas e dados sobre o antigo Oriente Médio.94 De acordo com
os registros assírios, houve um eclipse solar no ano de Bur-Sagale (um sobera­
no assírio). Isso pode ser datado em 15 de junho, 763 a.C. Noventa anos
antes desse fato (853 a.C.), no sexto ano de seu reinado, o soberano assírio
Salmaneser III lutou contra uma aliança ocidental em Qarqar; Acabe, o rei de
Israel, era membro dessa coligação. No décimo oitavo ano de seu reinado
(841 a.C.), Salmaneser III recebeu homenagem do rei Jeú, de Israel. De acor­
do com o Antigo Testamento, doze anos separaram os reinados de Acabe e de
104 Interpretação dos livros históricos
Jeú. Assim sendo, o reinado de Acabe terminou em 853, enquanto que o de Jeú
começou em 841.
Situando esses anos, os estudiosos podem usar os dados cronológicos da
Bíblia para calcular a data dos reinados dos reis que vieram antes e depois.
A divisão do reino ocorreu em 931 a.C. e Salomão começou a reinar quarenta
anos antes, em 971 a.C. De acordo com IReis 6.1, Salomão iniciou a constru­
ção do templo em seu quarto ano (966 a.C.), 480 anos depois da saída do
Egito. Se essa figura é tomada literalmente, o êxodo aconteceu em 1446 a.C.95
Nesse caso, a invasão da terra por Josué ocorreu em 1406 a.C.
No entanto, nem todos os estudiosos estão convencidos de que esse es­
quema de datação do êxodo é correto. Com base na evidência bíblica e arque­
ológica, alguns colocam o êxodo no século 13. Eles consideram que a figura
dos 480 anos é estilizada, representando doze gerações, que teriam compreen­
dido aproximadamente 300 anos. A tentativa de solucionar esse debate vai
além do escopo da nossa discussão. Para acomodar ambas as posições, estuda-se
a seguir o período que se inicia por volta de 1400 a.C.
O estudo divide a história de Israel em quatro períodos principais:96

1. A conquista, Juízes e a monarquia unida (1440—931 a.C.): a maior


parte do conteúdo dos livros históricos abrange esse período, incluin­
do Josué, Juízes, Rute, 1 e2Samuel, IReis 1—11 e 1Crônicas 10-2Crô-
nicas 9.
2. A monarquia dividida (931—722 a.C.): IReis 12—2Reis 17 e 2Crôni-
cas 10—28 tratam desse período.
3. O reino de Judá (722—586 a.C.): 2Reis 18—25 e 2Crônicas 29.1-36.21
registram os eventos-chave desse período.
4. O exílio e o retorno (586—433 a.C.): os versos finais de 2Crônicas
(36.22-23) narram sobre o decreto de Ciro permitindo que os exilados
voltassem a Jerusalém. Os livros de Esdras, Neemias e Ester também se
originam nesse período.
A CONQUISTA, OS JUÍZES E A MONARQUIA UNIDA (1 4 0 0 -9 3 1 A.C.)

1400-1200 a. C.
No século 14 a.C., Canaã era organizada em cidades-estado, sujeitas ao
faraó. No entanto, a correspondência de Amarna mantida entre os reis das
cidades-estado cananeias e os governantes egípcios Amenhotep III (1417—1379)
e Ikhnaton (1379-1362) atestam uma situação confusa em Canaã.97 Um gru­
po conhecido como Habiru é mencionado nas cartas como sendo agitadores na
terra. Por causa da semelhança com a grafia de “hebreu”, alguns acreditam que
esses Habiru eram de fato os israelitas invasores.
O preparo para a interpretação 105
No entanto, essa proposta traz dificuldades por uma série de razões.
As referências aos Habiru não se limitam às cartas de Amarna. Textos do Antigo
Oriente Médio que datam de várias épocas e lugares os mencionam. As referên­
cias aparecem já no período de Ur III (fim do terceiro milênio a.C.) e proce­
dem de Mari, Babilônia, Alalakh, Nuzi, Boghazkoi, Ugarite e Egito. Eles não
são grupos étnicos diferentes, ao contrário dos hebreus, que parecem descender
de Héber (cfr. 11.16), ancestral de Abraão. A descrição dos Habiru nas cartas
de Amarna é, em muitos pontos, diferente do relato bíblico sobre os israelitas
invasores. As cartas mostram que os Habiru também estavam envolvidos na
Síria e na Fenícia nessa época, mas Josué 11.8 descreve a investigação israelita
mais ao norte como sendo breve e se estendendo apenas até Sidom. Os Habiru
também aparecem nas cartas como mercenários que eram contratados pelos
governantes cananeus locais, chegando a receber terra. Essa troca entre os
cananeus e os Habiru não se harmoniza com a descrição bíblica da invasão
israelita. Essa invasão pretendia exterminar os cananeus e não estabelecia regras
de acordos com a população local (o trato com Raabe e o incidente de Gibeão
são exceções). As cartas também retratam a organização dos Habiru em peque­
nos grupos, que consistiam provavelmente de cinqüenta a cem homens. Isso
não se encaixa com a figura bíblica de um grande exército unificado, liderado
por Josué, embora pudesse refletir um estágio de ocupação em que as tribos
israelitas estavam agindo de forma independente e numa escala menor. As táti­
cas militares dos Habiru também diferem daquelas dos israelitas de duas ma­
neiras significativas. Os Habiru queimavam cidades e usavam carros, o que, os
israelitas normalmente não faziam (Js 24.13).
Considerando essas observações, convém não identificar os Habiru com
os israelitas (hebreus) invasores liderados por Josué. No entanto, a situação
descrita nas cartas de Amarna é o que se esperaria como conseqüência da inva­
são destruidora de Josué e a subsequente ocupação da terra pelas tribos israelitas,
a qual foi parcial, mas não totalmente vitoriosa. Muitos dos reis mais podero­
sos na terra foram derrotados (Js 12.9-24), deixando um vácuo de poder e
produzindo inúmeros refugiados desalojados. Ocorreram lutas de poder nesses
lugares não ocupados pelos israelitas. Líderes famintos de poder deram as boas-
vindas à submissão dos párias da sociedade. Nesse contexto, os Habiru, que
não eram respeitados na terra, aparecem como mercenários e saqueadores que
tiravam vantagem da situação de anarquia generalizada.98
Durante a maior parte do século 14, o Egito exerceu pouca influência
sobre Canaã e sobre a Síria. Nos reinados de Suppiluliuma (1380—1346),
Mursilis (1346—1315) e Muwatallis (1315-1296), o império hitita, localizado
na região central e na região leste da atual Turquia, expandiu para o leste e para
o sul, reivindicando a extensão de território no sul até Biblos.99 Os hititas fize­
ram alianças com várias cidades estado da Síria. A paralização egípcia em Canaã
106 Interpretação dos livros históricos
e na Síria aparentemente continuou até o reinado de Seti I (1318—1304), que
encetou uma campanha militar dentro de Canaã.100 Ramsés II (1304-1236) se
empenhou em expandir a influência egípcia na Síria, mas foi impedido pelas
forças hititas em Kadesh. Posteriormente, ele negociou um acordo com os hititas
e selou uma aliança por meio de um casamento. Mais tarde, no século 13, o rei
egípcio Merneptah (1236-1223) fez campanha na Palestina. Numa inscrição
que data de seu quinto ano, ele alega ter conquistado Israel. Essa é a mais antiga
referência extrabíblica existente, mencionando Israel como uma entidade
sociopolítica (o nome próprio é atestado em textos mais antigos).

1200-931 a.C
Por volta de 1200 a.C., um grande grupo de invasores vindos do Ociden­
te, conhecido como Povos do Mar, conquistou o império hitita. Eles também
ameaçaram o Egito, mas Ramsés III (1198-1166) conseguiu derrotá-los.101
Ramsés mencionou vários grupos étnicos ou tribais diferentes entre os Povos
do Mar, incluindo os Peleset (os Filisteus da Bíblia, que aparecem como uma
poderosa força em Canaã nessa época, de acordo com o registro bíblico em
Juizes e l e 2Samuel). Embora os egípcios tivessem sido capazes de repelir os
invasores, a influência egípcia na Palestina declinou a seguir, como mostra o
Relato de Wen-Amon.102Esse texto, que é datado de cerca de 1100, narra sobre
uma viagem de um oficial egípcio a Biblos para conseguir madeira. Ele foi
tratado com desrespeito, o que leva a crer que a autoridade do Egito não era
mais reconhecida na Palestina.
Em meados do século 14, os assírios começaram a despontar como uma
força importante no norte da Mesopotâmia. Os assírios tentaram, com pouco
sucesso, apossar-se do território dos hititas. No entanto, após a queda do império
hitita, o rei assírio Tiglate-Pileser I (1115—1077) conseguiu invadir a Síria. Em
várias ocasiões, ele travou guerra com os arameus. Essa é a primeira referência
clara aos arameus na literatura do antigo Oriente Médio.103 Saul (1050?—1011)
lutou contra os reis arameus de Zobá (ISm 14.47) e Davi (1011-971) derrotou
vários grupos arameus (2Sm 8.3-8; 10.1-19). Durante o reinado de Salomão,
Damasco teve bom êxito na oposição à autoridade de Israel (lRs 11.23-25).104
A MONARQUIA DIVIDIDA (931-722 A.C.)
931-841 a.C.
Após a morte de Salomão, as tribos israelitas do norte rejeitaram Reoboão,
o filho de Salomão, e se desligaram de Judá em 931. Sisaque, rei do Egito,
atacou Jerusalém no quinto ano do rei Reoboão (926) e saqueou o templo e o
palácio real (lRs 14.25-26; 2Cr 12.2-9). Uma inscrição egípcia registra vários
lugares conquistados por Sisaque na Palestina.105
O preparo para a interpretação 107
Logo a seguir, os assírios começaram a despontar como uma poderosa
força no Oriente Médio. No reinado de Adad-Nirari II (911—891) e Tukulti-
Ninurta II (890-884), iniciaram a expansão em direção ao oeste, preparando o
terreno para as mais ambiciosas iniciativas imperialistas de seus sucessores
Assurnasirpal II e Salmaneser III (vd. a seguir).
Quando começou a guerra entre Asa, rei de Judá e Baasa, rei de Israel, Asa
fez aliança com Ben-Hadade I, rei de Damasco (lRs 15.16-20; 2Cr 16.1-4).
Ben-Hadade atacou Israel e tomou várias cidades do Mar da Galileia.106
Depois de estabelecer uma nova dinastia em Israel, Onri (885-874) con­
quistou Moabe. De acordo com a inscrição de Mesa,107Onri “oprimiu a Moabe
por muitos dias”. Mesa, rei de Moabe, atribuiu o êxito de Onri à ira de Quemos,
uma divindade moabita. Mesa alegou ter se livrado do domínio opressivo do
“filho” de Onri e alardeou que Israel tinha “desaparecido completamente e para
sempre”. De acordo com 2Reis 3, Mesa foi vassalo de Acabe, filho de Onri
(874-853). Quando Acabe morreu, Mesa se revoltou contra Jorão, filho de
Acabe (vd. v. 5; cfr. 2Rs 1.1). Jorão (852-841) contou com o apoio de Josafá,
rei de Judá (873—848). Quando eles se levantaram contra Moabe, Mesa ofere­
ceu seu filho primogênito em sacrifício, fazendo com que os israelitas e os
judeus se retirassem.
Israel também estava ativamente envolvido com os arameus nessa época.
Acabe repeliu os esforços de Ben-Hadade para subjugar Israel (lRs 20). Embo­
ra o Senhor quisesse que Acabe executasse o rei arameu, Acabe, ao contrário,
fez aliança com ele, provavelmente para manter uma intermediação estável en­
tre Israel e a Assíria. Acabe foi, por fim, morto na batalha contra os arameus em
Ramote-Gileade (lRs 22). 2Reis 5-9 narra sobre a visita de um general arameu
a Eliseu, sobre um exército arameu ferido de cegueira de forma sobrenatural,
sobre o livramento de Samaria do cerco de Ben-Hadade realizado pelo Senhor,
sobre o assassinato de Ben-Hadade por Hazael e sobre a derrota de Jorão nas
mãos de Hazael (9.14-15).108
Apesar da tensão entre os israelitas e os arameus, ambos os lados eram
forçados por vezes a pôr de lado as hostilidades e se aliar contra um inimigo
comum que ameaçava destruir ambas as nações. O governante assírio
Assurnasirpal II (883-859) fez ousada campanha no oeste. Ele marchou em
direção à Síria, alcançou o Mar Mediterrâneo e fez com que várias cidades
costeiras (incluindo Tiro, Sidom e Biblos) pagassem tributo.109 Os anais de
Asurnasirpal II atestam sua índole sádica e sanguinária. Seus soldados usavam
várias formas crueis de tortura; eles arrancavam a pele, empolavam, queima­
vam, encarceravam e cortavam os braços e pernas, o nariz, as orelhas e as mãos
dos cativos.110
Seu sucessor, Salmaneser III (858-824) encetou várias campanhas milita­
res no oeste. Em 853, guerreou em Qarqar (localizada a noroeste de Hamate)
108 Interpretação dos livros históricos
contra uma coligação formada por Hadadezer, de Damasco e Acabe, de Israel.
De acordo com a inscrição monolítica de Salmaneser,111 Hadadezer contribuiu
com 1.200 carros, 1.200 cavaleiros e 20.000 soldados de infantaria para a coli­
gação, enquanto que Acabe contribuiu com 2.000 carros e 10.000 soldados.
Embora Salmaneser alegasse ter tido grande vitória, um exame mais atento da
evidência dá a entender o contrário.112

841-745 a. C.
Salmaneser era persistente. Em 841, logo após a ascenção de Hazael ao
trono de Damasco e ao golpe de Jeú (841), ele marchou para o oeste, derrotou
Hazael e forçou Jeú (841—814) a pagar impostos. O obelisco negro de Salmaneser
retrata Jeú se curvando diante do soberano assírio.113
De acordo com 2Reis 10.32-33, Hazael, apesar de sua derrota pelas
mãos de Salmaneser, conseguiu mais tarde tomar o território de Jeú. Hazael
também ameaçou Judá e se retirou de Jerusalém somente quando Joás (835—
796) o subornou com tesouros dos cofres do templo e do palácio real (2Rs
12.17-18). Hazael e seu filho Ben-Hadade continuaram a pressionar Israel
(2Rs 13.3, 7, 22), mas quando Jeoacás, filho de Jeú (814—798) rogou ao
Senhor que livrasse Israel, o Senhor “deu um salvador a Israel” (2Rs 13.5-6,
23). Esse libertador pode ter sido Adad-nirari III, um rei assírio (810—783)
que lutou no oeste nessa época e pode ter desviado a atenção dos arameus
de Israel.114
Depois da morte de Hazael, seu filho Ben-Hadade tentou aumentar a
influência de Damasco ao norte. A inscrição de Zakur115 conta como Ben-
Hadade formou uma aliança de sete reis e marchou contra Zakur, rei de Hamate
e Lu ath. Ben-Hadade sitiou a cidade de Hatarikka (Hadraque), de Zakur, mas
este declarou que seu deus Baal-shamayn respondeu sua prece e o livrou de
seus inimigos. Ben-Hadade também sofreu derrota no sul. Jeoás, rei de Israel
(798-782), filho de Jeoacás, conseguiu recuperar território israelita de Damasco
(2Rs 13.24-25).
No reinado de Jeroboão II (793-753), filho de Jeoás, Israel prosperou e
expandiu suas fronteiras. De acordo com 2Reis 14.28, Jeroboão fez de
Damasco um estado vassalo. Durante esse período, os assírios também esta­
vam enfraquecidos. O rei assírio Salmaneser IV (782—773) guerreou contra
Damasco, nessa época governada por Hadianu. No entanto, depois disso, a
Assíria passou por difícil período de agitação política e derrota militar duran­
te o qual aconteceu uma peste. Foi durante esse período geral de tempo que
Jonas (contemporâneo de Jeroboão II, vd. 2Rs 14.25) visitou Nínive. Ao sul
de Israel, Judá, liderado por Uzias (792-740) também experimentou renova­
do prestígio e influência.
O preparo para a interpretação 109
745-722 a.C.
Após a ascençao de Tiglate-Pileser III (745-727) ao trono da Assíria, a
situação política em Israel e em Judá mudou abruptamente. Ele reergueu o
império assírio ao realizar uma série de campanhas militares.116Em 743, exigiu
que Rezim, rei de Damasco, Menaém, rei de Israel (752—742) e vários outros
reis do Ocidente pagassem tributos (2Rs 15.19-20).
A ameaça assíria forçou Israel e Damasco a formar uma aliança antiassíria.
Peca (752—732), que matou Pecaías (742-740), filho de Menaém e Rezim,
tentou forçar Acaz (735-715), rei de Judá, a fazer aliança com eles, mas este a
recusou. Em 735, atacaram Judá e ameaçaram substituir Acaz por um governante
local (chamado de “filho deTabeal”, vd. Is 7.6 e 2Rs 16.5-6; Is 7.1). Em vez de
confiar no Senhor, Acaz confiou na ajuda de Tiglate-Pileser e se tornou súdito
dele (2Rs 16.7-10). Tiglate-Pileser estava seriamente envolvido com o Ociden­
te no período de 734—732. Em 732, derrotou Damasco e a reduziu a província
(2Rs 16.9). Em seguida, invadiu e conquistou Israel, dividindo grande quanti­
dade do seu território em províncias. Ele estabeleceu Oseias (732-722), que
assassinou Peca, como um rei títere sobre um estado de Israel territorialmente
reduzido e grandemente enfraquecido (2Rs 15.29-30).117
Os dias de Israel estavam contados. Durante o reinado de Salmaneser V
(727-722), Oseias iniciou uma política antiassíria e requisitou a ajuda do Egito.
Salmaneser atacou Israel, levou Oseias prisioneiro, sitiou Samaria por três lon­
gos anos antes de, finalmente, tomar a cidade em 722, e deportou 27.500
israelitas (de acordo com os registros assírios) para a Assíria (2Rs 17.3-6). Sargão
II, sucessor de Salmaneser (722—705) declarou ser o conquistador de Samaria,118
mas essa alegação é em parte propagandista. Sargão provavelmente era general
do exército de Salmaneser quando a cidade foi tomada.
O reino de J udá (7 2 2 -5 8 6 A.C.)

722-681 a. C.
Com Israel fora do cenário, Judá era agora um vizinho da Assíria, que
tinha reduzido o território israelita a províncias administradas por governantes
assírios. Mas aconteciam mudanças na Assíria também, onde Sargão II (722-
705) substituiu Salmaneser V como rei. A mudança no governo despertou re­
beliões no sul e no oeste. Assim sendo, Sargão, após consolidar seu poder em
casa, também tinha que estabilizar seu império. No sul, uma coligação de elamitas
e caldeus, liderada por Merodaque-Baladã (vd. 2Rs 20.12), repeliu os assírios
em Der, em 720. Sargão não conseguiu expulsar Merodaque-Baladã da Babilônia
até 710.
No oeste, Sargão enfrentou uma coligação siropalestina formada por forças
rebeldes de Damasco, Samaria e Gaza, entre outras. Em 720, Sargão derrotou os
110 Interpretação dos livros históricos
rebeldes em Qarqar, percorreu a Filístia e chegou até à fronteira egípcia, forçan­
do Judá, governado por Acaz (735—716) a pagar tributo. Sargão também con­
cluiu com êxito o cerco a Tiro, o qual fora iniciado por Salmaneser. Depois de
fazer campanha no leste por dois anos, Sargão foi forçado a sufocar uma rebe­
lião do rei Asdode (vd. Is 20.1).
Após a morte de Sargão em batalha em 705, Senaqueribe (705-681) as­
cendeu ao trono da Assíria. Logo em seguida, houve rebeliões no império. Em
703, Merodaque-Baladã tentou em vão retomar o trono da Babilônia. Em 701,
Ezequias, rei de Judá (729-686), além de suas reformas religiosas e de seu es­
forço para revitalizar a glória da monarquia davídica, fez aliança com os reis de
Sidom e de Ascalom e com os líderes de Ecrom, numa tentativa de destronar o
rei da Assíria. Senaqueribe veio para o oeste para sufocar a rebelião. O rei de
Sidom fugiu para Chipre, o rei de Ascalom foi levado para o exílio e os líderes
rebeldes de Ecrom foram empalados. Sobrou Judá.
Senaqueribe invadiu Judá com duas frentes. A primeira avançou pelo
centro de Judá e estabeleceu uma linha de aproximação e de abastecimento
pelo norte de Sefelá. Essa tropa capturou Azeca, Gate e as cidades de Sefelá,
incluindo Laquis. A segunda tropa partiu de Laquis para Jerusalém, destruindo
várias cidades pelo caminho. Em seus anais, Senaqueribe descreveu sua con­
quista da terra e seu cerco de Jerusalém.119 Ele se vangloriou de ter capturado
quarenta e seis cidades muradas, subjugado 200.000 cativos, forçado Ezequias
a pagar alta quantia de tributos e aprisionado o rei judeu na cidade real “como
um pássaro engaiolado”. O relato bíblico (vd. 2Rs 18.17—19.36; Is 36-37) nos
dá uma descrição mais completa do que aconteceu. Nele, descobrimos que o
Senhor destruiu 185.000 soldados assírios, forçando Senaqueribe a retomar
para a Assíria. Senaqueribe não registrou essa ruína; isso não causa surpresa,
dada sua tendência bastante notória de falsificar a história em seus anais re­
ais.120 Senaqueribe não afirmou ter tomado Jerusalém ou ter deposto Ezequias.
Seu silêncio nesse caso fala bem alto.121
No restante de seu reinado, Senaqueribe se ocupou com rebeliões no sul.
Em 700, ele derrotou Merodaque-Baladã e seus aliados elamitas e arameus. Em
695-691, fez campanha contra os elamitas, enquanto que, em 689, destruiu a
Babilônia depois de sitiá-la por nove meses. De acordo com 2Reis 19.37 (vd. Is
37.38), Senaqueribe foi assassinado por dois de seus filhos, quando cultuava
no templo de um de seus deuses. Eles fugiram para a Armênia e Esar-Hadom
(681—669), filho de Senaqueribe, assumiu o trono assírio.
681—626a. C.
Esar-Hadom reconstruiu a Babilônia, reconquistando a lealdade dos
babilônios e consolidando seu domínio no sul. No oeste, Esar-Hadom mante­
ve o controle das províncias e dos súditos assírios, incluindo Judá, desta feita
O preparo para a interpretação 111
governado por Manasses (696—642), filho de Ezequias, que é citado como um
dos súditos de Esar-Hadom numa inscrição do rei assírio.122 Esar-Hadom tam­
bém fez campanha contra os egípcios e chegou a forçar os príncipes do Baixo
Egito a reconhecer sua soberania.
O sucessor de Esar-Hadom, seu filho Assurbanipal (668—627), empe-
nhou-se em fortalecer o controle assírio sobre o Egito. Ao final do reinado de
seu pai, os egípcios tinham se rebelado contra o soberano da Assíria. Após ter
subido ao trono, marchou contra o Egito e derrotou os rebeldes. No entanto,
logo que o exército principal se retirou, os egípcios não cooperaram com as
tropas de ocupação assírias, as quais tiveram que sufocar a insurreição.
Algum tempo mais tarde, provavelmente depois de 648, Manassés, rei de
Judá, rebelou-se contra o soberano assírio. Ele foi levado à Babilônia de forma
humilhante, mas ao final teve permissão para retornar a Jerusalém (vd. 2Cr
33.11-13). Manassés foi sucedido por seu filho Amom (642-640), que por sua
vez foi sucedido por Josias (640-609). Durante o reinado de Josias, ocorreram
importantes mudanças políticas no Oriente Médio, no momento em que o
império assírio desmoronou e os babilônios e egípcios apressaram-se para ocu­
par o espaço.
626-586a. C.
Assurbanipal foi sucedido por seu filho, Assur-Etil-Ilani, que teve que
sufocar duas insurreições internas durante seu breve reinado. Durante essas
lutas internas (se não antes, em alguns casos), a Babilônia, a Palestina, a Fenícia
e a Média repudiaram o domínio assírio. Por volta de 623, Sin-Sar-Iskun usur­
pou o trono de seu irmão Assur-Etil-Ilani, com a ajuda do caldeu Nabopolassar,
que já tinha se rebelado contra a Assíria em 626. Sin-Sar-Iskun, em seguida,
rompeu relações com Nabopolassar. A Assíria e a Babilônia continuaram ini­
migas até a queda da última, poucos anos depois. Em 615, os medos, sob o
domínio de Quiaxares invadiram a Assíria, capturando a cidade de Assur.
Quiaxares e Nabopolassar fizeram uma aliança e derrotaram Nínive em 612,
fato descrito na Crônica da Babilônia123 e profetizado por Naum. As tropas
assírias, sob o comando de Assur Ubalit, um oficial do rei, reorganizaram-se
em Harã.
Em 609, os egípcios, sob o domínio de Neco (que tentava manter um
equilíbrio de poder no Oriente Médio), marcharam em direção ao norte para
auxiliar os assírios. Josias, rei de Judá, o desafiou em Megido e foi morto em
batalha (2Rs 23.29-30). Judá então se tornou súdito do Egito. Em 609, Jeoacaz
se tornou rei de Judá. Ao que tudo indica, ele se rebelou contra o domínio
egípcio, pois Neco imediatamente o substituiu por seu irmão Jeoaquim (608—
598) (vd. 2Rs 23.31-35).
112 Interpretação dos livros históricos
Em 605, os egípcios e os babilônios liderados por Nabucodonosor II
(605—562), confrontaram-se em Carquemis (vd. Jr 46.2). Os babilônios ergue-
ram-se vitoriosos e Nabucodonosor marchou para o sul em direção à Palestina,
fazendo Jeoaquim seu súdito. Quando Jeoaquim se rebelou em 601 (vd. 2Rs
24.1), Nabucodonosor enviou tropas para o oeste, restabelecendo o controle
sobre Judá e exigindo o território até a fronteira egípcia (2Rs 24.2,7). Joaquim
(598-597) sucedeu Jeoaquim no trono de Judá. Ao que tudo indica, Judá se
rebelou nessa época, pois Nabucodonosor sitiou Jerusalém, substituiu Joaquim
por Zedequias e deportou muita gente para a Babilônia, incluindo Joaquim
(vd. 2Rs 24.10-17).124 Zedequias (597-586) permaneceu leal por certo tempo;
mas, assim como seus predecessores, ao final se rebelou contra o domínio
babilônico. Em 588, Nabucodonosor sitiou Jerusalém, que finalmente se ren­
deu em 586. Os babilônios saquearam a cidade, queimaram o templo e arrasta­
ram a maior parte do povo para o exílio (2Rs 25). Os exilados retornaram para
casa somente quase cinqüenta anos mais tarde, quando os persas, liderados por
Ciro, conquistaram a Babilônia125 e permitiram que os exilados voltassem.
O EXÍLIO E O RETORNO (586-433 A .C .)
Após o decreto de Ciro permitindo o retorno dos exilados a Judá (538),
Sesbazar chefiou um grupo de exilados na volta para a terra (Ed 1—2). Embo­
ra a obra tivesse começado logo, o projeto foi interrompido devido à oposi­
ção e à indiferença (Ed 3—4). O templo foi finalmente concluído em 515 a.C.
(Ed 5—6). Esdras trouxe mais exilados de volta para Jerusalém em 458, du­
rante o reinado de Artaxerxes I , o rei da Pérsia (464—424) (Ed 7—8). Esdras
se opôs as práticas de casamento existentes na comunidade pós-exílica.
Muitos homens tinham se casado com mulheres que não eram da comunida­
de judaica. Esdras os exortou a se divorciarem dessas mulheres e se compro­
meterem a se tornar uma comunidade etnicamente pura, que refletia o ideal
da aliança divina (Ed 9—10).
Em 445, Neemias veio à cidade e organizou a reconstrução do muro.
Embora os judeus enfrentassem oposição e ameaças de alguns povos vizinhos,
eles concluíram a obra (Ne 1—7). Esdras leu a Lei de Moisés para o povo, que se
comprometeu a obedecer a ela (Ne 8—10). O serviço sacerdotal foi organizado,
o muro foi dedicado e reformas adicionais foram implementadas (Ne 11-13).
E evidente que nem todos os exilados retornaram à sua pátria. O livro
de Ester, que registra os eventos ocorridos durante o reinado de Xerxes (486—
465), narra como o Senhor, providencialmente, livrou seu povo da destrui­
ção através de Mordecai e de Ester, uma exilada judia que se tornou a esposa
favorita de Xerxes. A festa judaica de Purim teve origem nessa época, para
comemorar o livramento dos judeus do perverso plano genocida de Hamã
contra eles.
O preparo para a interpretação 113
DETERMINAR O QUE O TEXTO É:
CRÍTICA TEXTUAL

Introdução

A identificação do texto é logicamente anterior à tradução e à interpreta­


ção; mas, na prática, propriamente dita, deve ser feita concomitantemente com
elas, pois as decisões críticas não podem ser feitas num vazio ou somente com
base na evidência textual externa.
De modo ideal, um crítico de texto reúne as várias testemunhas textuais
e, a partir dessa evidência, escolhe ou reconstrói a leitura do texto original. No
entanto, na prática, a maioria dos intérpretes começa com o texto hebraico
clássico publicado na Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS). Usando o aparato
textual da BHS e as notas críticas sobre o texto trazidas pelos comentários téc­
nicos convencionais, pode-se identificar variantes de leitura e assim escolher ou
reconstruir uma proposta de leitura textual original, com base na evidência
disponível. Antes de tentar fazer a crítica textual, o intérprete precisa ter cons­
ciência das provas textuais existentes, da produção desses textos e das versões e
dos métodos críticos adequados. Encontram-se várias introduções à crítica tex­
tual práticas, entre elas:

1. Brotzman, Ellis R. Old Testament textual criticism. Grand Rapids:


Baker, 1994.
2. McCarter, P. Kyle, Jr. Textual criticism. Filadélfia: Fortress, 1986.
3. Tov, Emanuel. Textual criticism o f the hebrew bible. Mineápolis:
Fortress, 1992.
4. Wurthwein, Ernst. The text o fth e Old Testament. Trad. de Erroll F.
Rhodes. 2a ed., Grand Rapids: Eerdmans, 1995.
Dois princípios básicos
Embora a crítica textual seja uma disciplina que exige perícia de seus prati­
cantes, ela também requer uma boa dose de bom senso. Ao tentar construir a
leitura do texto original, os críticos de texto devem seguir dois princípios:126
1. Não se d eve supor d e im ediato que o texto hebraico tra dicion al
(massorético) preserva o texto original
O texto hebreu tradicional (massorético), por ser geralmente superior a
outras provas textuais, imediatamente leva alguns a preferirem sua leitura ao
invés de outras tradições textuais. No entanto, o texto massorético não preserva
o texto original em todas as ocasiões. Uma comparação dos manuscritos de
Qumran (rolos do Mar Morto) com a Septuaginta (a antiga tradução grega do
Antigo Testamento) indica que essa última, muitas vezes, guarda a melhor lei­
114 Interpretação dos livros históricos
tura, especialmente em 1 e 2Samuel.127 Em vários casos em 1 e 2Samuel, o
texto massorético, que é a base para a maioria das traduções modernas, está
alterado devido a erros acidentais de cópia. Por exemplo, o texto hebreu mais
curto de 1Samuel 10.1 é o resultado de erro de cópia; a Septuaginta (LXX)
preserva a leitura original (o conteúdo adicional da LXX está em itálico):

O S enhor te escolheu para conduzir Israel, seu p o vo ! Tu reinarás


sobre o povo do S e n h o r e tu os livrarás do pod er dos inimigos que os rodeiam.
Este será para ti o sinal de que o S e n h o r te escolheu por príncipe sobre a
sua herança.

O olhar do escriba responsável pela leitura no texto hebreu saltou do


primeiro aparecimento da oração em negrito, “O S enhor te escolheu”, para a
segunda ocorrência da oração (também em negrito), produzindo a omissão
do conteúdo interposto. A seqüência do contexto dá apoio à leitura mais
longa da LXX; o “sinal” referido na versão (grega) mais longa é descrito nos
versos subsequentes.
O mesmo tipo de erro é evidente no texto hebreu de ISamuel 14.41-42,
onde a LXX novamente guarda o texto original. Os versos 41-42 devem ser
lidos como se segue (o conteúdo adicional da LXX está em itálico):

Falou Saul: “Ó, Senhor Deus de Israel, p o r que não respondeste ao


teu servo hoje? S e essa iniqüidade está em m im ou em Jônatas, m eu filho,
Ó, S e n h o r Deus de Israel, dá Urim. Mas se essa iniqüidade está no teu
povo Israel, dáThummim”. Saul e Jônatas foram indicados e os soldados
saíram livres, (v. 41)

Disse Saul: “Lançai a sorte entre mim e Jônatas, meu filho! Deixai
que ele, a quem o S e n h o r indica, morra”! E embora os soldados dissessem:
“Que assim não suceda ” a ele, Saul prevaleceu sobre eles e lançaram sorte
entre ele e Jônatas, seu filh o . E foi indicado Jônatas. (v. 42, trad. do autor)

No verso 41, o olhar do escriba responsável pela leitura do texto hebreu


saltou da primeira ocorrência de “Israel” para a terceira; no verso 42, seu olhar
saltou do primeiro uso de "filho” para o segundo. Em ambos os casos, isso
resultou na omissão do conteúdo interposto.

2. As conclusões críticas sobre o texto devem se basear principalm ente em


fatores internos

Fatores internos incluem a semântica (sentido das palavras) e sintaxe


(relações gramaticais). Esta é uma regra básica a ser seguida: a leitura superior
O preparo para a interpretação 115
(original) é aquela que melhor explica a existência das outras. Se há duas vari­
antes (A e B), então supomos primeiramente que A é a original e procuramos
uma explicação para a existência de B. Em seguida, invertemos o processo,
partindo da ideia de que B é a original, tentando explicar a existência de A.
Nesse momento, uma das hipóteses deve ser mais plausível do que a outra.
Por exemplo, em Juizes 16.13-14, lê-se no texto hebraico:

Disse Dalila a Sansão: “Até agora tens zombado de mim e me


tens dito mentiras. Declara-me, pois, agora, como poderias ser
amarrado?”. Ele lhe respondeu: “Se teceres as sete tranças da minha
cabeça no tecido do tear”. Então ela as amarrou com o pino e disse a
ele: “Os filisteus estão aí, Sansão”. Ele despertou do seu sono e arrancou
o pino do tear e o tecido. (Trad. do autor)

A LXX tem uma versão mais longa do relato. As palavras em itálico de­
monstram o conteúdo adicional que aparece na LXX:

Disse Dalila a Sansão: “Até agora tens zombado de mim e me


tens dito mentiras. Declara-me, pois, agora, como poderias ser
amarrado?”. Ele lhe respondeu: “Se teceres as sete tranças da minha
cabeça com o tecido e (o) firm ares na p a red e com o pino, eu m e
enfraquecerei com o qualquer outro hom em ”. Então, enquanto ele dormia,
Dalila tomou as sete tranças da cabeça dele e as teceu com o tecido. Ela o
firmou na parede com o pino e disse: “Os filisteus estão aí, Sansão!”.
Ele despertou do seu sono e arrancou da parede o pino do tear. (versão
do Vaticano; trad. do autor)
Se considerarmos que o texto hebreu mais curto é original, é difícil expli­
car como surgiu o texto grego mais longo. Teríamos que defender a hipótese de
que o tradutor grego aumentou o texto deliberadamente, para adequá-lo
estilisticamente aos grupos anteriores. Se admitirmos que a LXX guarda o texto
original, então o texto hebraico foi encurtado por um erro acidental. Observe
que a última palavra antes do conteúdo adicional da LXX é rDOan, “o tecido”
(colocada em negrito na tradução acima para ser facilmente reconhecida). Essa
mesma palavra aparece no final do “adicional”, indicando que o olhar do escriba
saltou da primeira ocorrência da palavra para a segunda, resultando na omissão
das palavras interpostas.128
Fatores contextuais dão apoio à versão mais longa. Na versão mais curta,
a explicação de Sansão parece truncada e incompleta, especialmente quando
comparada com as explicações que ele dá a Dalila tanto antes (v. 7, 11) quanto
depois disso (v. 17). Na versão mais curta, a resposta de Dalila não corresponde
às instruções de Sansão, em oposição ao padrão que vemos antes (v. 8, 12) e
depois disso (v. 19). Numa narrativa com painéis como essa (v. 6-9, 10-12, 13-
116 Interpretação dos livros históricos
14, 15-22), espera-se uma simetria estrutural, que conduz ao clímax, onde é
comum haver um desvio estrutural. A versão mais longa traz essa simetria espe­
rada e é contextualmente mais compatível.
Os críticos dos textos muitas vezes sustentam que se deve preferir o texto
mais curto e/ou mais difícil. Mas esse exemplo mostra que às vezes um texto
pode ser mais curto e mais difícil devido a erro de cópia. Se há suspeita de
expansão textual ou de elucidação interpretativa, então o texto mais curto e/ou
mais difícil é preferível, mas esse princípio não deve ser aplicado de uma ma­
neira mecânica e inflexível.
Os estudantes, por vezes, esquivam-se de fazer crítica textual por parecer
algo tão técnico e exigir conhecimento especial de hebraico, grego e de outras
línguas antigas. No entanto, como assinala McCarter, a primeira ferramenta
que alguém necessita para fazer crítica textual é o bom senso.129 Se alguém tem
conhecimento prático de hebraico e de grego e acesso a bons comentários críti­
cos que abordam as questões cruciais do texto, deve ser capaz de avaliar a evi­
dência das leituras concorrentes e tomar decisões bem fundamentadas.
DETERMINAR O QUE O TEXTO DIZ: TRADUÇÃO
Determinar o que o texto diz é básico para o processo de interpretação.
A tradução do texto exige que o intérprete faça a análise semântica e sintática de
uma passagem. A semântica trata do sentido das palavras, enquanto que a sintaxe
diz respeito à relação entre palavras e frases dentro de uma sentença. De preferência,
começa-se fazendo uma tradução baseada numa análise semântica e sintática
pessoal; mas, na prática, o intérprete raramente trabalha independentemente.
E perda de tempo e é desnecessário “reinventar a roda”. Outros já trabalharam
no texto e o intérprete sabiamente interage com as traduções e comentários
correntes no início do processo interpretativo. Na interação com outros, pode-se
discernir mais rapidamente quais são as questões-chave e dedicar atenção a esses
pontos. Isso não quer dizer que o intérprete irá simplesmente conservar as
interpretações e pontos de vista alheios. Ao contrário, à medida que o intérprete
interage com o trabalho de outros, ficará mais evidente o fato de que raramente
há unanimidade em questões interpretativas. Deve-se interagir criticamente com
traduções, comentários e outras ferramentas de estudos e chegar a uma conclusão
pessoal baseada na evidência textual e no argumento de outros.
S emântica

Ferramentas
Ao fazer o estudo de palavras, o intérprete precisa de ferramentas confiáveis,
incluindo dicionários (às vezes chamados de léxicos), glossários e concordâncias.
Os três dicionários de hebraico-aramaico mais importantes são:
O preparo para a interpretação 117
1. Brown, Francis, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A hebrew and english
lexicon o ft h e O ld Testament. Oxford: Clarendon Press, 1907. Uma
reimpressão do BDB, indexada à Strongs concordance, é publicada por
Hendrickson.
O ponto mais forte do BDB é a análise meticulosa do uso bíblico; é
precioso principalmente para o estudo de palavras bem atestadas.
Como é de se esperar, por causa da data de publicação, o BDB é
obsoleto em alguns aspectos, principalmente em seus comentários em
inglês e em sua análise de palavras raras. As definições dadas pelo BDB
são muitas vezes arcaicas e não refletem o uso contemporâneo do in­
glês. Os significados propostos para as palavras raras se baseiam na
evidência limitada de línguas cognatas (especialmente o árabe) ao al­
cance no início do século 20. Por causa de várias descobertas arqueoló­
gicas do século 20 e dos avanços da semântica do hebraico, estamos
agora numa situação melhor para compreender o significado de muitas
dessas palavras raras.
2. Clines, David J.A. (org.). The dictionary ofclassical hebrew. Sheffield:
Sheffield Academic Press, 1993.
Essa obra cara, em vários volumes, é uma ferramenta de referência
especialmente rica por causa da sua abordagem lingüística do som. Com
raras exceções, contém todas as ocorrências de cada palavra hebraica.
Os verbetes são de acordo com a função sintática e com as unidades
léxicas. Por exemplo, uma entrada de um substantivo agrupa textos
onde ele funciona como sujeito e mostra todos os verbos com os quais
é empregado. Outros agrupamentos contêm ocorrências do substanti­
vo em orações substantivas, como o objeto de um verbo (com os vários
verbos alistados), na forma declinada antes de um modificador no
genitivo e em locuções com várias preposições e adjetivos. Para os ver­
bos, o dicionário faz a lista de vários sujeitos, objetos e preposições
com os quais a palavra se relaciona, bem como todas as passagens onde
o agrupamento específico pode ser encontrado. Embora as unidades
léxicas possam ser facilmente achadas com um bom programa de busca
de computador, convém ter os dados reunidos num lugar. Suas exten­
sivas listas e seu enfoque nas unidades léxicas fazem desse dicionário
uma ferramenta extremamente valiosa para os intérpretes. No entanto,
como o dicionário destaca o uso hebraico, não é muito proveitoso de­
terminar o significado de palavras raras onde se deve utilizar a evidên­
cia etimológica das línguas cognatas.
3. Koehler, LudwigeWalterBaumgartner. The hebrew andaram aic lexicon
ofth e Old Testament: study edition. 2 vol. Revisão de Walter Baumgartner
e Johann Jakob Stamm; trad. e org. de M. E. J. Richardson. Leiden:
E. J. Brill, 2001 (abreviação: HALOT). O publicador também lançou
118 Interpretação dos livros históricos
uma edição eletrônica, assim como uma edição impressa mais cara em
cinco volumes, que é idêntica em conteúdo à edição de estudo, mas
tem letras maiores.
Recomenda-se a Study edition em dois volumes, de fácil manejo,
bem como a versão eletrônica. Embora não seja tão completa como o
BDB ou o DCH em sua análise do uso, o HALOT mostra as últimas
pesquisas em semântica do hebraico e em línguas cognatas. Por isso, é
uma indispensável ferramenta ao lidarmos com palavras raras. Será um
modelo de ferramenta lexical durante muitos anos.

Há duas coleções de glossários que são especialmente úteis para o intérprete:

1. Theological dictionary o fth e Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans,


1977.
2. New International dictionary o f Old Testament theology an d exegesis.
Grand Rapids: Zondervan, 1997.

Uma concordância é sempre uma ferramenta padrão para o estudo de


palavras. A melhor das concordâncias convencionais é a de Abraham Even-
Shoshan, A new concordance o fth e Old Testament. 2a ed. (Grand Rapids: Baker,
1989). No entanto, com ferramentas de busca do computador agora facilmen­
te disponíveis, a concordância convencional em capa dura está se tornando
obsoleta rapidamente. As ferramentas computadorizadas revolucionaram o es­
tudo da Bíblia, pois seus programas de busca dão ao intérprete acesso rápido à
informação. Além de servirem como uma concordância convencional, esses
programas de busca podem também ser usados para localizar unidades léxicas e
para realizar pesquisas gramaticais. Incluem-se como programas com essas ca­
racterísticas os seguintes:

1. Accordance Bible Software: www.accordancebible.com


2. Bible Works: www.bibleworks.com
3. Logos Bible Software (Libronix): www.logos.com
4. Bible Software from the Gramcord Institute: www.gramcord.org
M é to d o e pr in c ípio s

Polissemismo. Ao determinar o sentido de uma palavra, é necessário exa­


minar o uso do termo no Antigo Testamento. Tal análise geralmente revela
categorias ou nuances de sentido. Raramente uma palavra tem de fato apenas
um simples significado ou referente. A maioria dos termos são polissêmicos,
trazendo duas ou mais nuances de sentido. E evidente que, em quase todos os
casos, somente um desses sentidos se aplicará em um dado contexto.
O preparo para a interpretação 119
Ao levantar as categorias de sentido de uma palavra, o intérprete deve
fazer distinção entre o sentido ou referente básico (ou literal) e sentidos ou
referentes por extensão (geralmente metafóricos). Por exemplo, o substantivo
hebraico “)ÍX se refere, literalmente, a “luz”, incluindo a luz do dia ou a luz que
emana de um corpo celestial. Mas pode ser também usada metaforicamente
para vida e salvação (p.ex., SI 27.1; 56.13). O substantivo ^~H significa literal­
mente uma estrada; mas, por extensão, pode ser usado para se referir a uma
jornada ou um empreendimento (p.ex., Gn 24.21; Nm 9.10). E usado metafo­
ricamente com o sentido de comportamento ou conduta (uma maneira de
viver) (p.ex., Dt 32.4; Os 14.9). O substantivo “112 se refere, literalmente, a
cisterna, mas pode também se referir a sepultura e ao mundo dos mortos (p.ex.,
SI 28.1; Is 14.15).
Muitas vezes, pode-se distinguir nuances de significado com base em uma
metonímia, onde a causa é substituída pelo efeito ou vice-versa. Por exemplo,
o verbo II 3XJJ (não confundir com o homônimo I “formar, dar forma”)
tem o sentido literal de “ser ferido”, tanto fisicamente (p.ex., Ec 10.9) quanto
emocionalmente. No último caso, significa “entristecer-se” por causa de uma
perda trágica (p.ex., 2Sm 19.2; Is 54.6). Mas a palavra, muitas vezes, descreve
mais do que mera tristeza. Pela metonímia da causa pelo efeito, pode significar
“estar constrangido, envergonhado”, isto é, emocionalmente ferido ou afligido
ao ponto de se perturbar consigo mesmo ou com outros por causa de um ato
inadequado (p.ex., Gn 45.5; ISm 20.3, 34; lRs 1.6; Ne 8.10-11). Finalmente,
o uso metonímico do verbo pode ser ampliado ainda mais. Às vezes, significa
“ser ofendido, insultado”, isto é, emocionalmente ferido ou afligido ao ponto
de estar ofendido pela ação de outro e buscar se defender (p.ex., Gn 6.6; 34.7;
SI 78.40; Is 63.10). É nesse sentido que o verbo é usado, referindo-se à resposta
de Deus ao pecado do homem.
O verbo *73(2, “ser sábio, vitorioso”, é outro exemplo de uso da
metonímia.130 O sentido literal do verbo, que é usado predominantemente
com a raiz Hiphil, é “entender, compreender, ter discernimento”. No entan­
to, pela metonímia da causa pelo efeito, também pode significar “alcançar
sucesso, prosperar”, porque o discernimento pode e realmente traz sucesso
e prosperidade. (Cfr. expressão “ele é um empresário talentoso”, que é mais
do que um comentário sobre a inteligência do empresário. A afirmação geral­
mente significa “ele é bem-sucedido”.)
Unidades léxicas. Muitas vezes, pode-se estudar o uso de uma unidade
léxica e não apenas uma palavra isolada. Por exemplo, a expressão Dü
“chamado por um nome”, indica propriedade ou autoridade. Aquele por cujo
nome o objeto é “chamado” possui ou tem autoridade sobre esse objeto (p.ex.,
Dt 28.10; 2Sm 12.28; lRs 8.43; 2Cr6.33; 7.14; Is 4.1; 63.19; Jr 7.10-11, 14,
30; 15.16; 25.29; 32.34; 34.15; Dn 9.18-19; Am 9.12). No entanto, quando a
120 Interpretação dos livros históricos
expressão é D£í fOp (“ele invoca um nome”), ~b Ciií X"ip (“ele dá um nome a”)
ou ~b (“é chamado [de] ”) essa noção não está presente. Essas expressões
significam simplesmente que algo ou alguém recebeu um nome que era apro­
priado (p.ex., Gn 16.13; Rt4.17; ISm 9.9; 2Sm 18.18; Is 1.26; 32.5; 35.8; Jr
19.6). Aquele que dá nome não possui ou exerce, necessariamente, autoridade
sobre a coisa ou ser a que se dá o nome. Qualquer ideia semelhante deve ser
derivada do contexto (p.ex., quando um vencedor muda o nome de uma cida­
de, como em Jz 1.17); não é inerente à expressão em si. Isso quer dizer que o
fato de o homem dar nome aos animais (Gn 2.20) e à mulher (Gn 2.23; 3.20)
não refletia ou estabelecia necessariamente sua autoridade sobre eles. Essa no­
ção, se estiver presente, deve se derivar do contexto e não do mero uso de uma
unidade léxica para o ato de dar nome.131
Felizmente, a disponibilidade de programas de software bíblicos com ca­
pacidades de busca sofisticadas torna relativamente fácil a obtenção de infor­
mação necessária para uma análise como essa. Isso é uma ótima notícia para o
intérprete, porque a análise das unidades léxicas pode ser a chave para uma
interpretação correta. Um magnífico exemplo disso é o estudo da bênção de
Noemi em Rute 2.20, por Basil Rebera.132 Noemi ora: “Bendito seja ele do
Senhor, que ainda não tem deixado a sua benevolência nem para com os vivos
nem para com os mortos”. Não fica imediatamente evidente a quem se refere o
pronome relativo ”!2ÍN, “que” —é a Boaz ou ao Senhor? Pode-se pensar que o
Senhor é o antecedente, uma vez que o pronome segue imediatamente o seu
nome. Porém, a análise da unidade léxica revela que o antecedente é Boaz e não
o Senhor. Em outro lugar, quando “lítíK, “quem”, segue a fórmula da bênção
(“bendito”, particípio passivo Qal + nome próprio/pronome), sempre
apresenta a razão pela qual o recebedor da bênção merece uma recompensa. Se
aqui o pronome se refere ao Senhor, então esse verso, em oposição ao uso em
outros lugares, não dá razão para que o recebedor seja abençoado. 2Samuel 2.5
traz o paralelo sintático mais próximo a Rute 2.20 e confirma nossa conclusão.
Assim diz o texto: “Que sejais abençoados pelo Senhor, vós que ("TOX) estendestes
tal bondade a Saul, vosso senhor” (Trad. do autor). O pronome relativo “IttíNse
refere ao pronome independente no plural DHN, “vós”, como indica o segundo
verbo no plural Drrto, “vós fizestes”, depois de TiiN, “que”. Noemi pede ao Se­
nhor que abençoe Boaz porque ele demonstrou bondade para com os viventes
(as viúvas) e consequentemente para com os mortos (seus maridos falecidos).
Deve-se ter muito cuidado quando se faz análise de unidades léxicas para
evitar interpretações errôneas. Por exemplo, Marc Brettler argumenta que o
anjo que visitou a mulher de Manoá a engravidou.133 Ela diz ao marido: “Um
homem de Deus veio a mim” (Jz 13.6). Brettler assinala que a expressão idio­
mática bx KÍ2, “vir a”, pode ter conotação sexual (vd. Jz 15.1; 16.1) e pode ser
traduzida como: “O homem de Deus dormiu comigo”. Ele dirige a atenção
O preparo para a interpretação 121
para a ênfase do texto nas qualidades humanas do mensageiro e observa que
um parentesco angélico explicaria bem os poderes sobre-humanos de Sansão.
Ele faz um paralelo com Gênesis 6, onde, em sua opinião, anjos coabitam com
mulheres. E também estranho que não haja uma subsequente referência à con­
cepção da mulher de Manoá no contexto (cfr. com Gn 21.2; 25.21; 30.23;
ISm 1.20), mas somente ao fato de ter dado à luz a criança (vd. v.24).
O que fazer com essa proposta? A expressão idiomática bx XÍ2, “vir a”,
dificilmente é uma expressão técnica para denotar relação sexual. E usada cen­
tenas de vezes sem essa conotação (p.ex., Jz 3.20; 4.21-22; 6.18; 8.15; 9.46, 57;
11.7, 12, 34; 18.8, 10,15; 19.22, 29; 21.8). Todavia, o aparecimento dessa
expressão num contexto onde a concepção é um tema central é de fato surpre­
endente. Além disso, em outros lugares, quando uma mulher usa a expressão
“vir a mim”, existe uma conotação sexual.134 No entanto, um exame mais mi­
nucioso do contexto imediato trabalha contra a proposta de Brettler. No verso
8, Manoá roga ao Senhor que permita que o homem de Deus “venha outra vez
a nós” (Trad. literal). Certamente a expressão “vir a” não tem conotação sexual
aí. E óbvio que se poderia argumentar que Manoá, que demonstra uma ten­
dência para se confundir em outro lugar do capítulo, não entendeu completa­
mente as implicações da declaração de sua mulher no verso 6. No entanto, o
verso 9 nos informa de que o anjo de Deus, em resposta ao pedido de Manoá,
“veio outra vez à mulher” (Trad. literal).135 Por que ele precisaria ter relação
sexual com ela outra vez se ele já a tinha engravidado (cfr. v. 5)? Nesse caso, não
há conotação sexual e a ação é vista como repetição do incidente anterior (ob­
serve “ril?, “outra vez”). No verso 10, ela simplesmente conta a Manoá que o
homem “apareceu” (HiO}) a ela. Isso sugere que S k XÍ3, “vir a” (v. 9), refere-se
meramente ao aparecimento dele à mulher e não tem conotação sexual. Nesse
caso, podemos seguramente considerar que a expressão idiomática bn KÍ3, “vir
a”, no primeiro relato que ela faz a Manoá (v. 6) se refere ao aparecimento do
homem a ela (cfr. KT.l, “e ele apareceu”, no v. 3) e nada mais. Embora o ponto
de vista de Brettler deva ser rejeitado, pode haver uma sutileza na linguagem,
que manipula o uso da expressão que denota contato sexual. Na verdade, o
anjo não engravidou a mulher de Manoá, mas ele fez de fato um pronuncia­
mento profético que, para todos os efeitos, assegurava que ela conceberia. Ele
não “veio a” ela no sentido sexual, mas a visita dele realmente precedeu a con­
cepção. Talvez no contexto original esse uso irônico da expressão idiomática
tinha a intenção de introduzir certo humor na narrativa.
Palavras raras. A Bíblia hebraica contém um grande número de palavras
raras. Isso levanta um problema especial para o intérprete, que deve empregar
outros fatores, que não sejam o uso, para determinar o sentido nesses casos. Quando
palavras raras estão em questão, o intérprete deve examinar a evidência das lín­
guas semíticas cognatas, de outras palavras do hebraico da Bíblia que são deriva­
das da mesma raiz, do uso no hebraico pós-bíblico e dos indícios contextuais.
122 Interpretação dos livros históricos
Bastarão alguns exemplos. Em 2Samuel 22.12, a difícil forma ITYijn é uma
forma de construto feminino singular de um hipotético rntín, que o HALOT
define como “asa, peneira”.136 Essa palavra é um hapax legomenon, significado
que aparece uma única vez no hebraico bíblico. Em que base o HALOT define
esse termo? Observa-se que a palavra é derivada de uma raiz hipotética “Ittín,
que é atestada em ugarítico numa forma nominal “asa, peneira” e, no hebraico
pós-bíblico e no aramaico, numa forma verbal “peneirar, espalhar”.137 Com
base nisso, seria razoavelmente admissível propor que a frase D'f2'rnçn em
2Samuel 22.12 significa literalmente “coador de água”, que é provavelmente
uma alusão poética às nuvens de chuva. Isso seria compreensível no contexto
em que Deus vem nas nuvens de chuva para livrar o salmista da morte.
O verbo H!Sn aparece apenas quatro vezes na Bíblia hebraica (Dt 28.49;
SI 18.10; Jr 48.40; 49.22). Todavia, pode-se determinar que o seu significado é
“voar, planar”,138 baseando-se na seguinte evidência: (1) em três desses textos é
usado se referindo a uma águia e, em dois, é semelhante a “abrir suas asas”;
(2) no salmo 18.10, o verbo se refere ao Senhor voando nas asas do vento,
cavalgando num querubim semelhante a um pássaro e se assemelha ao verbo
que melhor atesta o sentido de voar (*]!!?); (3) o verbo tem um cognato no
ugarítico, com o sentido de “voar”.
S intaxe

Ao determinar o que o texto diz (tradução), o intérprete deve também


lidar com questões de sintaxe. A sintaxe se volta para as relações entre palavras
e frases dentro de uma sentença. Algumas das principais questões de sintaxe
que se tem pela frente na tradução são: a análise das funções das desinências dos
nomes, a identificação dos antecedentes dos pronomes, a análise da função da
raiz e do aspecto verbal e a determinação da função das orações subordinadas.
Tratar dos detalhes da sintaxe do hebraico vai além do objetivo deste estudo.
O intérprete deve consultar as ferramentas sobre sintaxe que estão ao alcance.
Incluem-se as seguintes:
Gramáticas de n ível intermediário
1. Arnold, Bill T., e John H. Choi. A gu id e to biblical hebrew syntax.
Cambridge: Cambridge University, 2003.
2. Chisholm, Robert B. From exegesis to exposition, p. 57—117. Grand
Rapids: Baker, 1998.
3. Van der Merwe, Christo H. J., Jackie A. Naudé, e Jan H. Kroeze.
A biblical hebrew reference grammar. Sheffield: Sheffield Academic
Press, 1999.
4. Williams, Ronald J. H ebrew syntax: an outline. 2a ed. Toronto:
University of Toronto, 1976.
O preparo para a interpretação 123
Gramáticas d e nível avançado
1. Kautzsch, E. (org.) Gesenius’ hebrew grammar. 2a ed. em inglês.
Revisão de A. E. Cowley. Oxford: Clarendon Press, 1910.
2. Joüon, Paul. A Grammar o f Biblical Hebrew. 1- ed. corrigida. Trad. e
rev. deT. Muraoka. 2 vols. Roma: Pontificai Biblical Institute, 1993.
3. Waltke, Bruce K. e M. 0 ’Connor. An introduction to biblical hebrew
syntax. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1990.
LEITURA DE OUTRAS OPINIÕES:
APOIO BIBLIOGRÁFICO
Introduções

1. Hamilton, Victor P. Handbook on the historical books. Grand Rapids:


Baker, 2001. Esse comentário sucinto dá um panorama dos livros
históricos, dando ênfase a questões introdutórias, ao conteúdo e a
temas principais.
2. Howard, David M., Jr. An introduction to the Old Testament historical
books. Chicago: Moody, 1993. Howard discute questões introdutórias
e problemas interpretativos importantes, estuda a estrutura e o
conteúdo dos livros e faz um sumário dos seus temas teológicos.
3. Long, V Philips. The art o f biblical history. Grand Rapids: Zondervan,
1994. Long discute a natureza da história bíblica, escrevendo numa
perspectiva evangélica. Usando a narrativa da ascenção de Saul ao
trono como exemplo, ele mostra como a historicidade, a arte literária
e a teologia devem ser mantidas em equilíbrio na interpretação da
literatura histórica da Bíblia.
4. Mathewson, Steven D. The art ofpreaching Old Testament narrative.
Grand Rapids: Baker, 2002. Mathewson mostra como passar “do
texto para a ideia” e a seguir “da ideia para o sermão”. O livro também
traz vários exemplos de sermões nos textos narrativos do Antigo
Testamento.
5. McConville, J. Gordon. Grace in the end: a study in deuteronom ic
theology. Grand Rapids: Zondervan, 1993. Esse estudo da teologia
de Deuteronômio contém dois proveitosos capítulos para os
interessados na teologia dos livros históricos: “A ideia deuteronômica
em Josué - Reis” e “Teologia deuteronômica”.
T rabalhos sobre a arte da narrativa

1. Alter, Robert. The art o f biblical narrative. Nova York: Basic Books,
1981. Alter apresenta razões convincentes em favor de uma
abordagem literária da narrativa bíblica. Ele discute e dá exemplo
124 Interpretação dos livros históricos
de várias técnicas literárias usadas pelos autores bíblicos, tais como
as cenas-padrão e a convenção literária, o diálogo, a repetição e a
caracterização de personagens. Após o trabalho pioneiro de Alter,
vários outros críticos literários escreveram introduções defendendo,
descrevendo e dando exemplo de uma abordagem literária da
narrativa do Antigo Testamento. Muitos consideram o estudo de
Stemberg (na lista abaixo) programático.
2. Amit, Yairah. R eading b ib lica l narratives. Trad. de I. Lotan.
Mineápolis: Fortress, 2001.
3. Bar-Efrat, Shimon. Narrative art in the bible. Trad. de D. Shefer-
Vanson. Sheffield: Almond, 1989.
4. Berlin, Adele. Poetics an d interpretation o f biblical narrative. Winona
Lake, IN: Eisenbrauns, 1994.
5. Brichto, Herbert Chanan. Towarda gram m ar o f biblicalpoetics-, tales
o f the prophets. Nova York: Oxford, 1992.
6. Fokkelman, Jan P. R eading biblical narrative. Trad. de I. Smit.
Louisville: Westminster John Knox, 1999.
7. Gunn, David M. e Danna Nolan Fewell. Narrative in the hebrew
bible. Nova York: Oxford, 1993.
8. Sternberg, Meir. The poetics o f biblical narrative. Bloomington, IN:
Indiana University, 1987.
9. Trible, Phyllis. Rethorical criticism: context, method, an d the book o f
fonah. Mineápolis: Fortress, 1994.

Os estudiosos evangélicos têm dado sua contribuição para esse debate.


As seguintes obras são especialmente proveitosas:

1. Longman, Tremper, III. Literary approaches to biblical interpretation.


Grand Rapids: Zondervan, 1987.
2. Pratt, Richard L., Jr. Ele nos deu histórias, São Paulo, SP: Cultura
Cristã, 2004.
3. Ryken, Leland. How to read the bible as literature. Grand Rapids:
Zondervan, 1984.
O bras específicas

Na seção seguinte, damos uma lista de alguns dos principais estudos para
cada um dos livros históricos, começando com comentários em cada caso. Em
vez de citar cada comentário separadamente, daremos as características das vá­
rias séries de comentários que estão representadas na bibliografia.
Os comentários da série da Anchor Bible (AB) e da Old Testament Library
(OTL) mostram uma posição não evangélica e empregam um método
O preparo para a interpretação 125
diacrônico. As séries Berit Olarn e Interpretation adotam uma abordagem mais
literária e sincrônica. As séries Word B iblical C om m entary (WBC), New
International Commentary (NICOT) e New American Commentary (NAC) têm
ampla orientação evangélica e exegética. A série NAC, embora de maneira geral
nao seja tão técnica quanto as outras duas, faz um ótimo equilíbrio entre a
visão da exegese e da aplicação. A série NIVApplication Commentary (NIVAC),
como sugere o título, dá muita importância à aplicação contemporânea. Cada
seção do comentário é dividida em três partes, entituladas “Sentido original”,
“Conexão de contextos” e “Significação contemporânea”.
Josué
Há vários comentários ao alcance do intérprete, tais como:

1. Boling, Robert G., e George E. Wright. Josbua. AB. Garden City,


NY: Doubleday, 1982.
2. Butler, Trent C. Josbua. WBC. Waco, TX: Word, 1983.
3. Hawk, L. Daniel. Josbua. Berit Olam. Collegeville, MN: Liturgical
Press, 2000.
4. Hess, Richard S. Josbua: an introduction an d commentary. Downers
Grove, IL: InterVarsity, 1996.
5. Howard, David M., Jr. Josbua. NAC. Nashville: Broadman &
Holman, 1998.
6. Nelson, Richard D. Josbua: a com m entary. OTL. Louisville:
Westminster John Knox, 1997.
7. Woudstra, Marten H. The book o f Josbua. NICOT Grand Rapids:
Eerdmans, 1981.

Além dos comentários, os seguintes estudos literários merecem ser con­


sultados:

1. Hawk, L. Daniel. Every prom ise fulfilled : contesting plots in Joshua.


Louisville: Westminster John Knox, 1991.
2. Mitchell, Gordon. Together in the land: a reading ofth e book o f Joshua.
Sheffield: JSOTSup, 1993.
3. Polzin, Robert. Moses and the Deuteronomist. Nova York: Seabury,
1980. Essa obra trata tanto de Josué como de Juizes.

Para obter sugestões de como se pode proclamar a mensagem de Josué,


consultar:

1. Davis, Dale Ralph. No fa llin g words: expositions o fth e book o f Joshua.


Grand Rapids: Baker, 1988.
126 Interpretação dos livros históricos
Juizes
Estão entre os comentários sobre Juizes:

1. Block, Daniel Isaac. Judges and Ruth. NAC. Nashville: Broadman


& Holman, 1999.
2. Boling, Robert G. Judges. AB. Garden City, NY: Doubleday, 1975.
3. Matthews, Victor Harold .Judges an d Ruth. Cambridge: Cambridge
University, 2004.
4. McCann, J. Clinton./z^^Ef. Interpretation. Louisville: John Knox, 2002.
5. Younger, K. Lawson. Judges an d Ruth. NIVAC. Grand Rapids:
Zondervan, 2002.

Duas outras obras valiosas sobre Juizes são:

1. Davis, Dale Ralph. Such a great salvation: expositions o fth e book o f


Judges. Grand Rapids: Baker, 1990. Esse é um trabalho valioso para
os que querem proclamar a mensagem de Juizes para uma audiência
contemporânea.
2. Webb, Barry G. The book ofth e Judges: an integrated reading. Sheffield:
JSOTSup, 1987. A análise literária de Webb considera o livro como
uma peça literária unificada e está repleta de valiosos insights.
Rute

Além dos comentários de Block e de Matthews citados na lista anterior


(vd. Juizes), o intérprete irá considerar a ajuda dos seguintes:
1. Bush, Frederic William. Ruth, Esther. WBC. Waco, TX: Word, 1996.
Esse comentário é um dos melhores sobre qualquer livro da Bíblia.
E um modelo de como a exegese deve ser feita e é repleto de úteis
observações lingüísticas e literárias.
2. Campbell, Edward F. Ruth. AB. Garden City, NY: Doubleday, 1975.
3. Hubbard, Robert L. The Book o f Ruth. NICOT. Grand Rapids:
Eerdmans, 1988.
4. Nielsen, Kirsten. Ruth: A Commentary. OTL. Louisville: Westminster
John Knox, 1997.
l—
2Samuel
Entre os comentários sobre 1 e 2Samuel, encontram-se:

1. Anderson, A. A. 2 Samuel. WBC. Dalas: Word, 1989.


2. Arnold, BillT. 1 an d 2 Samuel. NIVAC. Grand Rapids: Zondervan,
2003.
O preparo para a interpretação 127
3. Bergen, Robert D . 1, 2 Samuel, NAC. Nashville: Broadman &
Holman, 2002.
4. Gordon, Robert P. 1 an d 2 Samuel-, a commentary. Grand Rapids:
Zondervan, 1988.
5. Klein, Ralph W. 1 Samuel. WBC. Waco, TX: Word, 1983.
6. McCarter, P. Kyle. 1 an d 2 Samuel. AB. Garden City, NY: Doubleday,
1980-1984.

Os livros de 1 e 2Samuel contêm narrativas intrigantes sobre os mais


fascinantes personagens de toda a Bíblia. Consequentemente, têm recebido
especial atenção dos críticos literários. As seguintes obras estudam os as­
pectos literários de 1 e 2Samuel e contêm a análise dos principais persona­
gens da história:

1. Edelman, Diana V. K ing Saul in the historiography ofjudah. Sheffield:


JSOTSup, 1991.
2. Fokkelman, J. P. Narrative art and poetry in the books o f Samuel.
Assen: Van Gorcum, 1981.
3. Gunn, David M . The fa te ofk in g Saul: an interpretation o fa biblical
story. Sheffield: JSOTSup, 1980.
4. --------- . The story ofk in g David: gem e and interpretation. Sheffield:
University of Sheffield, 1978.
5. Long, V. Philips. The reign and rejection ofk ing Saul: a casefor literary
an d theological coherence. Atlanta: Scholars Press, 1989.
6. Polzin, Robert. D avid and the deuteronomist: 2 Samuel. Bloomington,
IN: Indiana University, 1993.
7. ------ . Sam u
Harper & Row, 1989.
1—2Reis
1. Cogan, Mordechai. 1 Kings. AB. Nova York: Doubleday, 2001.
2 . -------, e Hayim Tadmor. 2 K ings. AB. Garden City, NY:
Doubleday, 1988.
3. Cohn, Robert L . 2 Kings. Berit Olam. Collegeville, MN: Liturgical
Press, 2000.
4. DeVries, Simon J. 1 Kings. WBC. Waco, TX: Word, 1985.
5. Hobbs, T. R. 2 Kings. WBC. Waco, TX: Word, 1985.
6. House, Paul R. 1, 2 Kings. NAC. Nashville: Broadman & Holman,
1995.
7. Walsh, JeromeT. 1 Kings. Berit Olam. Collegeville, MN: Liturgical,
1996.
128 Interpretação dos livros históricos
l—
2Crônicas
Entre os comentários, encontram-se:

1. Braun, Roddy. 1 Chronicles. WBC. Waco, TX: Word, 1986.


2. Dillard, Raymond B. 2 Chronicles. WBC. Waco, TX: Word, 1987.
3. Hill, Andrew E. 1 a n d 2 Chronicles. NIVAC. Grand Rapids:
Zondervan, 2003.
4. Japhet, Sara. 1 an d 2 Chronicles. OTL. Louisville: Westminster
JohnKnox, 1993.
5. Knoppers, Gary N. 1 Chronicles 1—9- AB. Nova York: Doubleday,
2003.
6. ---------. 1 Chronicles 10—29. AB. Nova York: Doubleday, 2004.
7. Pratt, Richard L., Jr. 1 a n d 2 Chronicles. Fearn, Ross-shire: Mentor,
1998.
8. Selman, Martin J. 1 Chronicles: an introduction an d commentary.
Downers Grove, IL: InterVarsity, 1994.
9 . ---------. 2 C h ron icles: a com m en tary. Downers Grove, IL:
InterVarsity, 1994.
10. Williamson, Hugh G. M. 1 a n d 2 Chronicles. NICOT. Grand
Rapids: Eerdmans, 1982.

Os estudos seguintes analisam a retórica e a teologia do autor


de Crônicas:

1. Duke, Rodney K. Thepersuasive appeal o fth e chronicler: a rhetorical


analysis. Sheffield: Almond, 1990.
2. Dyck, Jonathan E. The theocratic ideology o fth e chronicler. Leiden:
Brill, 1998.
3. Graham, Matt Patrick (org.) The chronicler as author: studies in text
andtexture. Sheffield: Sheffield Academic, 1999. Essa obra contém
dezesseis ensaios que tratam dos vários aspectos literários de Crônicas.
4. Kelly, Brian E. Retribution and eschatology in chronicles. Sheffield:
Sheffield Academic, 1996.

Ao estudar Crônicas, é importante comparar e contrastar o relato que o


cronista faz sobre a história de Israel com os relatos sinóticos em 1 e 2Samuel
e l e 2Reis. O livro de Newsome facilitará esse trabalho comparativo:

1. Newsome, James D. A synoptic harm ony o f Samuel, Kings, an d


Chronicles. Grand Rapids: Baker, 1986.
O preparo para a interpretação 129
Esdras—Neemias
Entre os estudos sobre Esdras e Neemias estão:

1. Blenkinsopp, Joseph. Ezra—N ehem iah: a com m entary. OTL.


Filadélfia: Westminster Press, 1988.
2. Breneman, Mervin. Ezra, N ehemiah, Esther. NAC. Nashville:
Broadman & Holman, 1993.
3. Eskenazi, Tamara C. In an age o f prose: a literary approach to Ezra—
Nehemiah. Atlanta: Scholars Press, 1988.
4. Fensham, E Charles. The books o f Ezra an d Nehemiah. NICOT.
GrandRapids: Eerdmans, 1982.
5. Williamson, Hugh G. M. Ezra an d Nehemiah. Waco, TX: Word,
1985.
Ester
Além dos trabalhos de Bush (vd. Rute) e Breneman (vd. Esdras eNeemias),
há os seguintes comentários sobre Ester:

1. Berlin, Adele. Esther. Filadélfia: Jewish Publication Society, 2001.


2. Jobes, Karen H. Esther. NIVAC. Grand Rapids: Zondervan, 1999.
3. Levenson, Jon D. E sther: a com m en tary. OTL. Louisville:
Westminster John Knox, 1997.

Entre os vários estudiosos que analisaram os aspectos literários do livro


de Ester, encontram-se:

1. Berg, Sandra B. The book o f Esther: mottfs, themes an d structure.


Missoula, MT: Scholars Press, 1979.
2. Day, Linda. Three fa ces o f a queen: characterization in the books o f
Esther. Sheffield: Sheffield Academic, 1995.
3. Dorothy, Charles V. The books o f Esther: structure, gen re an d textual
integrity. Sheffield: Sheffield Academic, 1995.
4. Fox, Michael V. Character and ideology in the book o f Esther. 2- ed.
Grand Rapids: Eerdmans, 2001.
.... ■
Bi
A INTERPRETAÇÃO DOS
TEXTOS NARRATIVOS

Como se observou no capítulo 3, a preparação para a interpretação com­


preende, pelo menos idealmente, a determinação e a tradução do texto. Isso
feito, estamos em condições de fazer a pergunta que logicamente vem a seguir
no processo interpretativo: que sentido teve o texto para seus leitores im plícitos
em seu contexto literário e histórico-cultural? Essa pergunta, que está no centro
do processo interpretativo, reconhece a natureza contextualizada do texto. Ela
tenta definir o que o texto significa para leitores implícitos, para os quais o
texto foi intencionalmente composto em seu contexto de origem.
MÉTODOS DIACRÔNICOS
A maioria dos evangélicos tem como certo que o texto da Escritura co­
munica uma mensagem coerente. Essa mensagem pode ser complexa, demons­
trando várias facetas e refletindo perspectivas diferentes; mas, em última análi­
se, é uma mensagem unificada, vinda de seu autor divino. A crítica bíblica
moderna tem questionado esses conceitos sobre a unidade e a autoridade do
texto. Os que postulam métodos diacrônicos, tais como a crítica da fonte, a
crítica da forma e a história da tradição argumentam a partir da evidência
interna que o texto se modifica no decorrer de um longo período, à medida que
diversas tradições e fontes são acrescentadas.139
A EVIDÊNCIA DAS FONTES

Certamente há evidência de que muitas vezes os autores bíblicos usaram


fontes na composição dos livros históricos. Dentro da própria Bíblia, são feitas
referências a algumas dessas fontes, incluindo o Livro dos Justos (Js 10.13; 2Sm
1.18, “o Rolo do Justo”, NET), o Livro das Guerras do Senhor (Nm 21.14) e
vários anais da realeza (lRs 11.41; 14.19, 29).
A evidência crítica do texto também indica que esses livros são compos­
tos de várias fontes. Por exemplo, um fragmento de Qumran (4QJudga) omite
132 Interpretação dos livros históricos
o texto de Juizes 6.7-10, que é o relato de um confronto do profeta com
Israel, em resposta ao clamor de angústia do povo. No passado, alguns estu­
diosos, sem o auxílio da evidência de Qumran, suspeitavam de que essa pas­
sagem era um acréscimo posterior —uma hipótese que agora parece ser con­
firmada pela evidência.140
Um exemplo até mais convincente se encontra em 1Samuel 17—18, a
história de Davi e Golias. A LXX (versão do Vaticano) traz uma versão mais
curta da história. Faltam 39 dos 88 versos desses capítulos, incluindo 17.12-
31, 41, 48b, 50, 55-58; 18.1-6a, 10-11, 17-19, 21b, 29b-30. Também faltam
24 elementos mais curtos, desde uma até cinco palavras e há 17 “acréscimos”,
que variam de palavras isoladas até sentenças inteiras. A existência dessa tradi­
ção textual alternativa tem sido explicada de duas maneiras: (1) o texto grego
(ou o texto hebraico em que foi baseada) foi abreviado para amenizar dificul­
dades e aparentes contradições; (2) o grego é baseado num texto hebraico que
precedeu a versão mais longa da história apresentada no texto hebraico.141
Tov argumenta que a primeira explicação é improvável, porque o texto grego
é uma tradução muito literal, nem todas as discrepâncias foram editadas a
partir do texto grego nos livros de Samuel e nem todas as omissões no grego
podem ser explicadas por essas linhas.142 Parece provável que a versão mais
longa combinou pelo menos duas fontes para produzir uma versão mais com­
pleta da história.143
O S DESAFIOS CRÍTICOS DA COESÃO TEXTUAL

Um estudo de caso: Davi e Golias

Os defensores dos métodos diacrônicos geralmente ouvem vozes contra­


ditórias e conflitantes no texto e não encontram uma mensagem unificada nele.
Por exemplo, a maioria dos intérpretes considera as fontes em 1Samuel 17-18
contraditórias e não lidam com a história como se ela fosse um relato homogê­
neo e integrado. As críticas que fazem objeção à unidade textual apresentam os
seguintes argumentos:

1. Davi é apresentado a Saul em duas ocasiões: 16.17-23 e 17.55-58


(a última não está no grego [LXX]).
2. Saul oferece uma de suas filhas a Davi em duas ocasiões: 18.17-19
(não está na LXX) e 18.20-27.
3. O primeiro relato da tentativa de Saul de matar Davi (18.10-11 [não
está na LXX]) está fora de seu lugar e é praticamente repetido em 19.9-
10. Na versão da LXX (mais curta), o ódio e a inimizade de Saul para
com Davi crescem gradualmente; a explosão descrita em 18.10-11 é
prematura.
A interpretação dos textos narrativos 133
4. Davi e Jessé, seu pai, são apresentados em 17.12 (não na LXX), embo­
ra o capítulo 16 já os tenha identificado.
5. Davi é escudeiro e excelente guerreiro em 16.14-23, mas aparece como
um pastor desconhecido em 17.12-31, 55-58 (não na LXX).
6. Davi se torna oficial do exército de Saul por duas vezes: 18.5 (não na
LXX) e 18.13.
7. O relacionamento de Saul com Davi (como é descrito em 18.20-27) e
a declaração de desmerecimento feita por Davi (18.23) são incoerentes
com o critério estabelecido em 17.25.
8. A reação de Eliabe para com Davi em 17.28 parece incoerente com
16.13, onde ele e seus irmãos testemunharam a unção de Davi.
9. Narra-se duas vezes que Davi “matou” o filisteu - uma com uma funda
(e sem uma espada na mão; cfr. 17.50, o que é omitido na LXX) e outra
com a própria espada do gigante (17.51).

As tentativas do próprio terto de amenizar algumas dessas dificuldades


(vd. 17.12, 15; 18.21b) são dispensadas como harmonizações posteriores.
No entanto, somente por que as fontes são evidentes em 1Samuel 17-18
não significa necessariamente que sejam contraditórias ou que a forma canônica
atual do texto é internamente incoerente. Há respostas cabíveis para os argu­
mentos expostos acima:

1. Em 17.55-58, Saul pode estar perguntando sobre a identidade do pai


de Davi, visto que ele tinha prometido isenção de impostos ao pai da
família de quem matasse Golias (17.25). (O paralelo mais próximo à
pergunta de Saul se encontra em Gn 24.23-24, onde o principal inte­
resse do servo é a identidade do p a i da futura noiva de Isaque.) Saul
tinha ouvido o nome de Jessé antes (16.18), mas é possível que o tenha
esquecido no decorrer do tempo. Na seqüência da luta, Saul se refere a
Davi como “(este) jovem” e “este moço”, sugerindo que ele não conhe­
cia a identidade de Davi. Mas as palavras de Saul não insinuam isso
necessariamente. Antes disso, ele tinha chamado Davi de “moço”, em
contraste com Golias, um guerreiro experiente (v. 33). Sua descrição
de Davi após a luta conserva aquela maneira de pensar anterior,
enfatizando o contraste entre a idade do vencedor e a do inimigo der­
rotado e, com isso, o caráter extraordinário da façanha de Davi.
2. O próprio texto (cfr. 18.21b, “segunda vez”) põe em harmonia 18.17-
19 e 18.20-27. Em sua essência, não há nada improvável a respeito de
Saul tentar essa tática pela segunda vez.
3. O texto de 18.10-11 realmente interrompe a narrativa ou aumenta o
suspense e o drama? (Essa explosão acontecerá outra vez?)
Interpretação dos livros históricos
4. ISamuel 17.12 apresentaform alm ente Davi e sua família, pois é somen­
te nesse momento que ele se torna o foco da narrativa. Samuel é o perso­
nagem central em 16.1-13, embora Saul predomine em 16.14-23.
5. ISamuel 17.15 explica a razão pela qual Davi, embora fosse escudeiro,
guerreiro e músico da corte, não estava no local da luta. A descrição
que Saul faz de Davi em 17.33 não entra necessariamente em conflito
com 16.18. Comparado a Golias, Davi era relativamente inexperiente.
O rótulo “guerreiro” em 16.18 pode refletir o potencial de Davi, e não
a realidade, mas é, com certeza, justificado, considerando-se as faça­
nhas de Davi quando era pastor (cfr. 17.34-37, ocasião em que Davi
deduz que sua capacidade de matar animais selvagens o faz capaz de
derrotar o filisteu). lCrônicas 12.28, 38 chama Zadoque de “1273, “jo­
vem” (trad lit.; cfr. ISm 17.33), e “ I Í 2 3 , “poderoso homem de For­

ça” (Trad. lit.; cfr. ISm 16.18), e o coloca entre os “homens de guerra”
(Trad. lit.; cfr. ISm 16.18).
6. ISamuel 18.5,13 provavelmente se refere a posições diferentes no exér­
cito de Saul. Em 18.5, Davi é promovido da posição de escudeiro (cfr.
16.21), ao passo que, em 18.13, ele é elevado a um posto até mesmo
mais alto.
7. A hesitação de Davi (18.18, 23) embora aparentemente incompatível
com 17.25, é, com certeza, compreensível se considerando 18,10-11.
Davi suspeitou das intenções de Saul?
8. A reação de Eliabe para com Davi (17.28) pode parecer incompatível
com 16.13, mas devemos subestimar a força do ciúme humano, espe­
cialmente entre irmãos (cfr. 16.6-7)?
9. O suposto “assassinato duplo” do filisteu em 17.50-51 pode ser expli­
cado logicamente quando se observa com cuidado o texto hebraico.
No verso 50, uma forma H iphil de ITIO, “morrer” Oinrrp'’! “ele o ma­
tou”), é usada com “ele o derrubou”, ao passo que no verso 51 uma
forma Polel de mü, “morrer” (innnÕ’l) é usada para descrever como
Davi matou o filisteu com a espada. A locução verbal no verso 50 tem
o sentido de “deu um golpe mortal”. O Polel de níQ (v. 51) é usado em
outras oito passagens do Antigo Testamento. Em três textos poéticos,
parece significar simplesmente “matar, causar a morte” (SI 34.21; 109.16;
Jr 20.17). Mas nos textos narrativos (todos em Juizes —Samuel) parece
ter uma nuance específica de sentido, denotando liquidar alguém que
já está mortalmente ferido (Jz 9.54; ISm 14.13; 2Sm 1.9-10, 16).
A declaração de Abimeleque (Jz 9.54) é particularmente esclarecedora
—ele pediu que o escudeiro o matasse (Polel de ni/2) porque, de outra
forma, o povo diria que uma mulher o tinha matado (o verbo é 3"in,
“matar”). Então, quem matou Abimeleque? Duas respostas são possí-
A interpretação dos textos narrativos 135
veis e ambas estão corretas - a mulher (ela desferiu um golpe mortal
que tornou a morte inevitável) e o escudeiro (ele desferiu o golpe mor­
tal no sentido técnico = Polel de ma). Como Davi matou o filisteu?
Novamente, duas respostas são possíveis e ambas estão corretas —com
uma fimda (Davi desferiu um golpe mortal com a funda, tornando a
morte inevitável) e com a espada do filisteu, que usou para desferir o
golpe de morte num sentido técnico (= Polel de nra).144

Surge outra explicação possível para o “assassinato duplo” quando se leva


em conta a estrutura do discurso de 1Samuel 17.49-51. O verso 49 emprega
seis orações wayyiqtol para descrever como Davi feriu o filisteu com uma pedra
na funda. Ele meteu a mão no alforje, tomou uma pedra e a atirou. A pedra
atingiu o filisteu e lhe penetrou a testa, fazendo com que ele caísse com o rosto
em terra. As três orações wayyiqtol no verso 50a são um resumo da vitória de
Davi: ele prevaleceu contra o filisteu com apenas uma funda e uma pedra,
feriu-o e o matou. Porém, a história não termina aí. Os versos 50b-51 relatam
com mais detalhes sobre como Davi, na verdade, liquidou o filisteu, que prova­
velmente estava inconsciente com o golpe que recebera na testa. A oração
disjuntiva no verso 50b nos faz voltar para onde o verso 49 parou; faz-nos
lembrar de que Davi não tinha uma espada nas mãos quando o gigante caiu.145
O verso 51, usando uma série de orações wayyiqtol, conta-nos que Davi correu,
lançou-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada e o matou, cortando-lhe com ela
a cabeça. Nesse caso, a declaração compacta do verso 50a olha para trás e para
frente. As afirmações “Então Davi prevaleceu contra o filisteu com uma funda
e uma pedra” e “ele feriu o filisteu” sintetizam o verso 49, ao passo que a afirma­
ção “e o matou” é repleta de detalhes nos versos 50b-51.
A necessidade de sensibilidade literária e teológica
Muitas vezes, os críticos das fontes são simplesmente limitados em sua
análise. Por exemplo, em sua abordagem sobre 1Samuel 20.11-17, McCarter
argumenta que “a súplica de Jônatas em favor de sua família é provavelmente
uma inserção secundária” que quebra a transição da pergunta de Davi no verso
10 para a resposta de Jônatas no verso 18.146 Ele também classifica os versos 23
e 40-42 como secundários, porque eles mantêm o tema apresentado nos versos
11-17. A respeito dos versos 40-42, ele afirma: “Fica evidente o tempo todo
que se Jônatas estava dando indícios de más notícias, Davi tinha que fugir
imediatamente (v. 22). Aliás, se era possível os dois homens se encontrarem e
conversarem como acontece nessa passagem, não havia necessidade de planejar
sinais de forma elaborada originalmente!”.147
Parece que McCarter perde a dimensão humana da história. Jônatas
acreditava que um dia Davi seria rei (v. 15); ele também sabia que Saul se
136 Interpretação dos livros históricos
tornara inimigo mortal de Davi. Quando Davi espera que Jônatas o ajude e
Jônatas promete protegê-lo, que hora mais propícia para que ele assegure o seu
futuro e o de sua família! Quanto aos versos 40-42, é verdade que o plano
requeria a fuga imediata de Davi ao receber o sinal de Jônatas (v. 22). Mostrava
cuidado extremo e preocupação com a segurança de Davi. Mas tendo dado o
sinal, Jônatas despediu o servo, aparentemente esperando que Davi aparecesse
para se despedir. Davi, percebendo que o perigo havia passado e certo da afável
dedicação de seu amigo, de fato deu um passo à frente e os dois amigos
reafirmaram sua promessa. A abordagem fria e analítica do texto feita por
McCarter é insensível às suscetibilidades de afeto presentes na história. Sim,
Davi tinha que fugir uma vez que o sinal fora dado, mas esses amigos nao
poderiam se apartar antes de dizer um adeus final.
Outro exemplo de enfoque limitado da crítica da fonte é a abordagem de
Mordecai Cogan sobre o cumprimento parcial da promessa referente à morte
de Acabe. Elias anunciou que os cães lamberiam o sangue de Acabe no mesmo
lugar onde tinham lambido o sangue derramado de Nabote (1 Rs 21.19). De
acordo com IReis 22.38, a profecia foi cumprida quando os cães lamberam o
sangue de Acabe num açude onde os carros cheios de sangue foram lavados
após a morte do rei em combate. O autor afirma sem reservas que isso foi
“segundo a palavra que o Senhor tinha dito” (Trad. lit.). Todavia, a profecia
não estava totalmente cumprida. Os cães lamberam o sangue de Acabe num
açude em Samaria, não em Jezreel, o lugar da execução de Nabote (lRs 21.1-
14). Cogan afirma que havia duas tradições sobre as circunstâncias da morte de
Acabe. Ele levanta a hipótese de que IReis 22.38 expressa uma “tradição alter­
nativa... que não estava em harmonia com as narrativas de Elias”.148
No entanto, talvez as palavras do profeta, em vez de serem incondicionais
em todos os detalhes, tinham função mais do que simplesmente informativa
(vd. discussão anterior sobre função da linguagem) com flexibilidade suficien­
te para se adaptar a ações humanas. Nesse caso, então, o propósito da profecia
não era simplesmente nos informar sobre os detalhes que envolviam a morte de
Acabe. A linguagem se destinava a comunicar o sentimento de indignação de
Deus por aquilo que tinha acontecido e seu compromisso de assegurar que a
justiça fosse feita de maneira apropriada. A verdadeira questão sobre a profecia
não é muito a sua geografia, mas a verdade que ela transmite: Deus puniria
Acabe de forma apropriada ao seu ato assassino. Acabe morreria tragicamente,
assim como Nabote, vítima da injustiça do rei, e passaria pela mesma humilha­
ção que Nabote sofreu.
Mas há outro aspecto que entra em jogo. Em certa medida, Deus dá
espaço para a liberdade humana e contingências resultantes na realização de
seus planos (cfr. a Confissão de Fé de Westminster, V, 2). Deus não evitou que os
homens do rei levassem Acabe para Samaria. Quando assim fizeram, eles con-
A interpretação dos textos narrativos 137
tomaram a última parte da profecia referente ao lugar onde os cães lamberiam
o sangue de Acabe (tudo indica que os homens do rei não tiveram intenção de
fazer isso). Mas, da mesma forma, Deus posicionou cães em Samaria e a profe­
cia foi cumprida em sua essência. Acabe teve uma morte trágica e humilhante;
a punição correspondeu ao crime. Na perspectiva do autor bíblico, isso é tudo
o que realmente importa. A soberania e a justiça de Deus triunfam no final,
mesmo quando as ações humanas concorrem de modo contrário à sua vontade
moral e ele permite que as circunstâncias se desenvolvam de tal maneira que
seus propósitos pareçam frustrados. Mas nesse caso, o caráter impreciso do
cumprimento, na verdade, ressalta a soberania de Deus sobre a situação. Não se
pode escapar da sua justiça. Quando se veem e se ouvem os cães de Samaria
sorvendo o sangue de Acabe, deve-se concluir que a palavra profética estava
longe de falhar; ela foi inflexível na caça ao criminoso. Somente os cães de
Jezreel têm motivo para contestar, por razões técnicas!
Harmonizações: épreciso cautela
Embora os evangélicos se inclinem a ver a unidade dos textos, isso não
significa que devemos minimizar os problemas e tensões ou recorrer a
harmonizações arbitrárias. Como afirma Raymond Dillard:
C o m demasiada frequência, as harmonizações são feitas com certa arrogância.
R eações negativas são provocadas pelo que parece ser u m apelo improvisado
a qualquer con ju n to de circunstâncias que irá con ciliar passagens; para os
que estão im ersos em m étodos da alta crítica, essa alegação é rejeitada por
carecer de qualquer con tro le m etod ológico específico além da necessidade
de um a solução rápida. N em estão as harm onizações de im ed iato abertas à
aprovação ou à desaprovação; elas podem ter graus variáveis de probabilidade,
algumas m ais convincentes do que outras e algumas, no geral, inventivas
dem ais para sustentar a solução que p ro p õ em .149

Podemos ilustrar a veracidade da observação de Dillard verificando as


harmonizações propostas para 2Samuel 21.19, que, de acordo com o texto
hebraico, diz que Elanã matou Golias, o geteu, e 1Crônicas 20.5, que, de
acordo com o texto hebraico, declara que Elanã matou Lami, o irmão de Golias.
A identificação de Elanã como assassino de Golias também parece contradizer
lSamuel 17, que narra como Davi matou Golias (vd. ISm 21.9; 22.10). Os
vários textos foram harmonizados de diferentes maneiras:

1. Elanã é outro nome de Davi, ou “Davi” é um título e não um nome


próprio.
Resposta: Isso é muito improvável. Em 2Samuel 21.15-22, o nome
Davi aparece seis vezes e Elanã apenas uma. Não há indícios de que os
138 Interpretação dos livros históricos
dois são intercambiáveis. Além disso, 2Samuel 21.17 sugere que Davi
parou de entrar nesse tipo de combate antes do assassinato de Golias
por Elanã.

2. Golias é um título, ou havia dois diferentes filisteus com o mesmo


nome.
Resposta: Isso é muito pouco provável. Em 2Samuel 21.16,18, são
dados os nomes próprios de guerreiros filisteus (Isbi-Benobe e Safe,
respectivamente); é provável que Golias seja também um nome pró­
prio. A descrição da haste da lança em 2Samuel 21.19 remete à descri­
ção da haste da lança de Golias em ISamuel 17.7, sugerindo que se
trata do mesmo guerreiro.

3. O texto de 2Samuel 21.19 é adulterado. 1Crônicas 20.5 conserva (na


maior parte) o texto correto.
Resposta: Isso é possível, mas é questionável. Não se pode ter ne­
nhum dos textos como original; evidentemente, ambos apresentam al­
terações. Em 2Samuel 21.19, o acréscimo CDIX após o nome de Jair
não é correto; aparece no final do verso e é omitido em 1Crônicas
20.5. A palavra “Lami” (’Qnb) em lCrônicas 20.5 é quase certamente
uma alteração de uma palavra no original “Bethlehemite” ('Qn^n ira).
Talvez o texto original seja como segue:

rpbn tik nx 'aròn rra T ir -p pròx -p


“Elanã, filho de Jair, o belemita, matou o irmão de Golias”.

A seqüência de alterações textuais a seguir parece plausível: o origi­


nal TIX JIX foi alterado para 'JIK devido a haplografia (as duas formas
são quase idênticas). Isso gerou duas diferentes alterações secundárias
nas respectivas tradições: a) na de 2Samuel 21.19, 'flX, “irmão de”, foi
lido como marcador do objeto direto (nx), que era necessário antes do
nome próprio seguinte, “Golias”; b) na de lCrônicas 20.5, n1? e foi
alterado para I1Ke mudado para 'pnb, um nome próprio. Talvez
isso tenha sido considerado necessário porque, em outro lugar, a frase
“irmão de [nome próprio]” invariavelmente sucede e se justapõe a um
nome próprio. É aí que se situa a dificuldade dessa solução da crítica
para esse texto. O texto original reconstruído tem apenas “o irmão de
Golias” como objeto do verbo, sem nome próprio precedente.

4. 2Samuel 21.19 contém a verdade sobre a morte de Golias. Davi ma­


tou um gigante filisteu de nome desconhecido (no texto original). Mais
A interpretação dos textos narrativos 139
tarde, o nome Golias (que era outro gigante morto por Elanã) foi erronea­
mente ligado ao gigante morto por Davi. A esse respeito, deve-se observar
que o nome Golias aparece apenas duas vezes em ISamuel 17 (v. 4, 23).
Resposta: Essa explicação é possível. Se essa abordagem for aceita, o
erro também foi incluído em ISamuel 21.9 e 22.10. Além disso,
1 Crônicas 20.5 indicaria que, posteriormente, um escriba teria tenta­
do elucidar a contradição aparente entre ISamuel 17 e 2Samuel 21.19.

Das quatro harmonizações propostas, as duas primeiras são as “mais fá­


ceis”, já que resolvem a aparente contradição de uma forma simples, que pre­
serva a integridade de todos os textos em questão. No entanto, são excessiva­
mente cômodas e anuladas por uma análise contextual cuidadosa. A terceira
harmonização, uma solução crítica do texto, presume a existência de alteração
textual proposital e acidental tanto na tradição de Samuel como na de Crôni­
cas. Porém, o texto original reconstruído não é coerente com o estilo hebraico,
tornando essa proposta questionável. A quarta proposta, que é provavelmente a
menos atraente para a maioria dos evangélicos, pelo menos reconhece que os
fatos muitas vezes eram confundidos no processo de transmissão do texto, pro­
vocando harmonização por parte dos editores e escribas.
Às vezes, os intérpretes são forçados a admitir que não é possível uma
harmonização convincente, pelo menos com base no que podemos compreender
atualmente. Dillard cita, como exemplo, os dois relatos da morte de Acazias.
De acordo com 2Reis 9.27-28, Acazias fugiu de Jezreel, mas os homens de Jeú o
alcançaram perto de Ibleão e o feriram. Ele foi para Megido, onde morreu.
2Crônicas 22.8-9 apresenta um cenário diferente. Aí, Acazias é capturado em
Samaria, onde estava escondido, é trazido a Jeú e é executado. Dillard admite que
“se pode amalgamar as duas passagens” que envolvem Acazias sendo capturado e,
em seguida, fugindo. Mas, como ele diz: “persiste um desconfortável sentimento
de que essa ‘solução’ é forçada e artificial”.150Além disso, por que cada autor faria
somente um relato parcial do que aconteceu, omitindo detalhes-chave?
Ao enfrentar essas tensões, o que o intérprete deve fazer? Dillard reco­
menda a sugestão de Edward J. Young:
E bem possível que h aja algumas passagens que, a não ser p or torcer e
fo rç a r, n ó s n ã o p o ssa m o s h a rm o n iz a r. S e fo r esse o c a so , seja m o s
s u fic ie n te m e n te h o n e s to s e fra n co s p ara a d m itir q u e não p o d em o s
harm onizar as passagens específicas em questão; pois o emprego de m étodos
de harm onização que forçam e distorcem não é intelectu alm ente h onesto...
E m u ito m e lh o r a d m itir n o ssa in c a p a cid a d e do q u e p ro d u z ir u m a
harm onização à custa de honestidade e de integrid ade.151

Além disso, muitas vezes, as soluções podem ser encontradas em leituras


literárias (sincrônicas) do texto, e por isso nos voltamos para elas agora.
140 Interpretação dos livros históricos

MÉTODOS SINCRÔNICOS
Ênfase na unidade

Os novos métodos retóricos e literários até certo ponto têm sido um de­
safio para o consenso da alta crítica. Em vez de tentar reconstruir a história de
como o texto chegou à sua forma atual, a crítica sincrônica, em última análise,
dá ênfase à forma canônica. Embora geralmente reconheça que o texto de fato
passou por algum tipo de processo evolutivo para chegar até a sua forma atual,
duvida da capacidade dos críticos modernos de reconstruir esse processo.
A crítica diacrônica costuma ter um baixo conceito a respeito do trabalho dos
editores que são responsáveis pela forma atual do texto. Todavia, os críticos do
método sincrônico têm um conceito relativamente alto da capacidade dos edi­
tores e tendem a considerar a forma atual do texto literariamente coesa. Eles
preferem ver o texto num ângulo literário, observando os pontos estudados no
primeiro capítulo deste livro.152De acordo com os críticos dos métodos sincrônicos,
esse tipo de análise literária cuidadosa muitas vezes questiona as conclusões dos
críticos dos métodos diacrônicos, demonstrando a unidade textual.
Os críticos dos métodos sincrônicos se recusam a aceitar as tensões do
texto como obstáculo para sua tentativa de avaliar o texto do ponto de vista
literário. Na introdução de seu estudo sobre 1Samuel, Robert Polzin, depois de
pesquisar a história da crítica diacrônica sobre esse livro, opta por uma aborda­
gem sincrônica. Ele diz:
E ste livro presum e que o texto de 1 Sam uel faz sentido, p o r m ais que seja
cuidadosam ente exam inado quanto à cópia e quan to à herm enêutica, e por
m ais deficiente que seja, criticam ente falando. Talvez essa atitude receptiva
irá enco brir ou ju stificar alguns laços textuais ou falhas lingüísticas óbvias,
mas esses erros são, em m in h a opinião, um preço ju sto a pagar na tentativa
de reparar um a lam entável negligência feita a um antigo tesouro. “O que de
fato é ” tem certam ente tan to valor quanto todo o valioso “pode ter sido”
sobre o qual os estudiosos da B íb lia con tin u am a focalizar a atenção. M uitos
que têm lido a B íb lia ao longo dos séculos têm percebido isso.153

Opondo-se aos críticos dos métodos diacrônicos, Robert Alter também


faz uma abordagem das tensões do texto que aparentemente põem em dúvida
sua unidade. Ele fala sobre “arte compósita” e argumenta que as tensões podem
muito bem ser intencionalmente projetadas. Usando as “contradições internas”
de Números 16 como exemplo, ele observa que “o relato bíblico, na verdade,
parece feito de propósito para confundir as duas histórias e os dois modos de
destruição”.154Alter reconhece que o propósito do autor ao fazer isso “limita-se
a permanecer no campo das conjecturas, porque se opõe radicalmente aos con­
ceitos recentes a respeito de como se junta as partes de uma história”. Todavia,
ele não acha que “a confusão pode ser facilmente atribuída à mera negligência
A interpretação dos textos narrativos 141
do redator, pois o texto mostra certo cuidado com a estruturação temática e
estética da narrativa”. Alter resolve ser humilde e dar ao autor o benefício da
dúvida: “Tudo isso nos leva a crer que o escritor hebreu talvez soubesse o que
estava fazendo, mas nós não o sabemos”.155 Com respeito à história da apresen­
tação de Davi a Saul (ISm 16—17), Alter conclui que o narrador incluiu ambas
“as versões aparentemente contraditórias”, para dar uma noção completa do
caráter de Davi e incluir perspectivas complementatres de sua ascenção à fama.156
R espeito à autoridade do autor

Muito embora a ênfase na criação do autor do texto em sua forma canônica


final represente um afastamento positivo das desgastadas abordagens diacrônicas
que tanto caracterizam os comentários tradicionais, a nova onda das análises
sincrônicas tem seu lado negativo. Alguns críticos dos métodos sincrônicos,
fortemente influenciados por tendências filosóficas pós-modernas, rejeitam a
ideia de um sentido consagrado, com raízes na História, e preferem “construir o
sentido” do texto na medida em que o apreendem, partindo de sua perspectiva
pessoal. Esse tipo de crítica leitor-resposta traz para o texto a cosmovisão do
crítico; não há um sentido unificado que reflita a intenção do autor, mas uma
multiplicidade de sentidos criados por vários leitores. As formas radicais desse
tipo de crítica manifestam desprezo pela autoridade do escritor. Assumindo uma
posição mais cínica, alguns “desconstroem” as pressuposições do texto.
Por exemplo, Esther Fuchs alega que a acusação que Jefté faz à sua filha
(Jz 11.35), embora não reflita necessariamente o ponto de vista do autor, pode
ser considerada “como a única avaliação explícita das ações da filha”.157 O silên­
cio do escritor e de Deus coloca Jefté como vítima. Ela também sustenta que a
resposta relativamente calma e equilibrada da filha (v. 36) confirma e justifica o
ponto de vista de Jefté.158 Resumindo, ela afirma que o estilo da narrativa tem
a intenção de proteger da crítica tanto Jefté quanto o Senhor.159 Fuchs tem
razão quando diz que no texto não há uma avaliação direta de Jefté, mas a
narrativa do Antigo Testamento raramente manifesta esse tipo de comentário
moral. A narrativa parece mostrar a perspectiva de um pai, talvez para gerar empatia
por Jefté e ressaltar a dimensão trágica e irônica do que sucedeu. Afinal de contas,
ele é o personagem central nessa parte de Juizes. Esse foco narrativo não indica
necessariamente que o narrador põe a culpa na filha de Jefté. As palavras de Jefté
demonstram realismo; quando as pessoas encaram as conseqüências de seu
comportamento tolo, elas geralmente tentam colocar a culpa em alguma outra
coisa. Pressler descreve essa resposta como “um caso clássico de culpar a víti­
ma”.160 Talvez o contraste entre a acusação irracional de Jefté e a atitude de
obediência de sua filh a ressalte a insensatez dele assim como a
vulnerabilidade dela. O contexto maior da história deve também ser levado
em conta.161 O livro de Juizes traça a mudança de papéis das mulheres e a
142 Interpretação dos livros históricos
correspondente deterioração da liderança masculina. Comparada a esse ambi­
ente, a filha de Jefté certamente é uma figura bondosa, enquanto a insensatez
de Jefté indica uma piora na liderança mais adiante.
Identificação do(s) leitor(es) implícito (s)

A crítica sincrônica, quando feita de forma apropriada, empenha-se em


descobrir e explicar como o texto, sendo uma unidade literária coesa, teria sido
escrito e compreendido em seu contexto de origem. Isso implica a identificação
do(s) leitor(es) implícito(s) do texto pelo intérprete. O leitor implícito é a
audiência que o autor imaginou lendo o texto e sendo impactado por ele. Quem
são exatamente os leitores implícitos dos livros históricos? A audiência dos li­
vros do exílio e do pós-exílio (1 e 2Crônicas, Esdras-Neemias, Ester) é obvia­
mente a comunidade pós-exílica (início do Judaísmo do Segundo Templo).
O livra de Rute pode vir do início da monarquia (cfr. 4.22), mas a situação da
história de Deuteronômio é mais complexa. O corpus obviamente evoluiu com
o passar do tempo, contudo, em sua forma canônica final, quando visto como
uma entidade, tem a comunidade do exílio como seus leitores implícitos
(cfr. 2Rs 25.27-29).
Isso significa que os livros podem ser lidos em diferentes níveis, incluin­
do, e talvez fundamentalmente, a perspectiva da comunidade do exílio. Por
exemplo, como observamos anteriormente, o livro de Juizes tem pelo menos
três objetivos centrais:

1. Em parte, é uma apologia do Senhor, cuja reputação foi prejudicada


pelo fracasso de Israel.
2. Advertiu Israel sobre os perigos da assimilação ao meio ambiente, o
que, por sua vez, comprometia a unidade nacional.
3. Demonstra a necessidade de Israel de uma liderança competente.

No entanto, a mera separação desses objetivos não nos permite localizar a


data do livro ou suas fontes. A apologia jeovista, especialmente a dimensão
polêmica, teria sido relevante no período pré-exílico, quando o povo se inclina­
va para a adoração de outros deuses. Também teria sido relevante no período
exílico e no pós-exílico, quando a história de Israel tinha culminado em fracas­
so e muitos talvez estivessem perguntando a respeito das implicações desse fra­
casso para a fé jeovista. Os acontecimentos recentes refletiam a história inicial
da nação e eram de fato a conseqüência inevitável de seu fracasso anterior.
O declínio moral de Israel e o exílio tinham suas raízes na assimilação da cultu­
ra e da religião dos cananeus e tinha começado após a morte de Josué e de sua
geração. Como no período dos juizes, o Senhor uma vez mais tinha permitido
que seu povo experimentasse a derrota, mas isso não significava que ele os tinha
A interpretação dos textos narrativos 143
abandonado. Juizes mostra que, mesmo nos períodos mais tenebrosos, Deus está
sempre presente, realizando os propósitos salvíficos que ele tem para seu povo.
O duplo tema da assimilação do paganismo e perda da unidade nacional
teria sido relevante por toda a história de Israel. As gerações pré-exílicas perma­
neceram nos pecados da época dos juizes. Eles fracassaram na prova de fidelida­
de, recusando-se a se afastar das influências pagas que os cercavam. A nação,
então dividida em duas, movia-se, inexoravelmente, em direção ao desastre do
exílio. Numa perspectiva do exílio e do pós-exílio, Juizes expôs a raiz do
problema dos exilados e a razão fundamental de estarem em tão terrível apu­
ro. Os profetas mantiveram a esperança de uma nação restaurada, mas havia
necessidade de uma genuína renovação da aliança para evitar que o velho ciclo
de pecado e julgamento se repetisse no futuro. O povo deveria considerar seri­
amente seu chamado para ser separado das nações ao seu redor e adquirir a
visão de uma comunidade da aliança unida.
O tema da liderança teria sido relevante em qualquer momento da histó­
ria de Israel. No período pré-exílico, Juizes teria apresentado a justificativa para
a monarquia e para a dinastia davídica particularmente, mas as palavras de
Gideão ao povo (8.23) lembravam que reis humanos deveriam ser submissos
ao verdadeiro Rei. Como fica evidente no epílogo, um rei eficaz para o povo
apontava em direção à autoridade de Deus, para que cada pessoa deixasse de ser
uma lei para si própria. Em vez de dar carta branca à monarquia, o livro de
Juizes fez Israel se lembrar do ideal de realeza e serviu como repreensão aos reis
rebeldes do período pré-exílico. Para a comunidade exílica e pós-exílica, Juizes
complementava a mensagem dos profetas. O Israel do futuro necessitava de um
rei —o tipo correto de rei —para evitar os erros do passado.
Consideremos também a trágica história de Davi, o novo Calebe que se
transformou num novo Sansão. No Israel antigo, a história de Davi teria sido
lida de diferentes maneiras, em diferentes momentos. Por exemplo, no período
da monarquia unida, quando muitos benjamitas talvez quisessem promover a
família de Saul como legítima herdeira ao trono de Israel, a história de Davi
teria funcionado como uma apologia da dinastia davídica, cujo propósito era
mostrar que Davi era o herdeiro legítimo e que Saul tinha sido rejeitado por
Deus. No período da monarquia dividida, quando as tribos do norte rejeita­
ram a casa de Davi, a história dele serviria para lembrar do ideal de Deus e de
seu compromisso com Davi. Mas, em sua forma canônica final, como parte da
história que se estende de Josué a 2Reis, a história de Davi deveria ser lida num
contexto exílico. Israel tinha começado bem, mas fracassou. Juizes 2.7, 10-11
diz: “Serviu o povo ao S enhor todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos
que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué e que viram todas as
grandes obras feitas pelo S enhor a Israel... Foi também congregada a seus pais
toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o
144 Interpretação dos livros históricos
Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel. Então fizeram os filhos de
Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins”. Essa corrupção
foi a causa do caos no período dos juizes, do qual Davi parece ter libertado a
nação. Seu maior líder, Davi, começou bem; mas, em seguida, ele também
fracassou, como a nação. Israel e o rei davídico foram então prisioneiros no
exílio; mas, por meio dos profetas, Deus propõe um novo começo aos exilados.
A história de seus ancestrais e do grande rei Davi se tornou a séria lembrança de
que bons começos nem sempre significam boas conclusões. A história antiga
também os desafiava a evitar os pecados do passado, a começar bem e, princi­
palmente, a terminar bem.
UMA PROPOSTA DE MÉTODO EXEGÉTICO-LITERÁRIO
Propomos um método interpretativo que é essencialmente sincrônico,
mas que é também relacionado ao contexto cultural e histórico do texto e res­
peita a autoridade do escritor. Reconhecemos que o texto, na forma como se
apresenta, pode conter várias fontes, mas preferimos nos concentrar na forma
do texto que temos e pressupor uma unidade textual. Talvez haja vozes
conflitantes, mas uma análise cuidadosa mostra que elas se complementam e
caracterizam umas às outras. Usando métodos literários, procuramos mostrar a
mensagem unificada do texto como ela é, partindo da ideia de que os responsá­
veis pela forma atual do texto eram literatos que faziam parte de uma tradição
jeovista que tinha objetivos teológicos. Todavia, a análise literária não deve ser
feita no vazio; deve-se levar em conta o que sabemos sobre o contexto históri-
co-cultural do texto.162 E preciso também ser sensível ao macroenredo e ao
contexto canônico. Isso quer dizer que um texto pode ser legitimamente lido
em seu contexto histórico imediato, mas também em relação ao seu contexto
literário maior.
Ao tentar determinar qual era o sentido do texto em seu contexto original,
devem-se abordar os seguintes pontos:

1. Inserir o texto em seu contexto histórico, cultural e literário mais amplo.


2. Analisar o texto do ponto de vista literário, observando os princípios
estudados no capítulo 1. Para facilitar ao leitor, repetiremos aqueles
princípios:
a. Analisar os elementos básicos da narrativa (espaço, personagens, en­
redo) e determinar como eles contribuem para a mensagem.
b. Identificar a estrutura discursiva do texto, a estrutura dramática e
outras características estruturais, e explicar como elas contribuem
para a mensagem e o impacto da história.
c. Analisar as falas e diálogos na narrativa respeitando o tipo de discur­
so e a função da linguagem.
A interpretação dos textos narrativos 145
d. Evitar exageros ao preencher lacunas, mas não ter receio de tentar
resolver ambigüidades de uma maneira cuidadosa, levando-se em
conta o contexto e usando o bom senso.
e. Respeitar a autoridade do escritor e se empenhar em identificar a sua
avaliação dos eventos e dos personagens. No entanto, estar atento ao
uso retórico de uma perspectiva limitada e/ou idealizada.
f. Relacionar cada história com o seu macroenredo e explicar como os
vários gêneros contidos num livro contribuem para a mensagem total.
g. Ser sensível a questões de intertextualidade e à sua contribuição para
a mensagem da narrativa.
3. Fazer a síntese do(s) tema(s) da história e de como eles contribuem
para o(s) tema(s) do livro como um todo.
4. Analisar como a história deve ter impactado o(s) leitor(es) implícito (s),
considerando sua época, lugar e circunstâncias.

O processo acima esboçado não deve ser visto como uma fórmula, como
se o fato de seguir os passos recomendados nessa mesma ordem fosse produzir
“a interpretação correta” de uma passagem. Mesmo tendo seu aspecto técnico
(principalmente quando se faz análise lexical, sintática e crítica do texto), a
interpretação não deve se reduzir a uma fórmula matemática. As sugestões aci­
ma apresentadas são orientações propostas para auxiliar os intérpretes a fazer a
análise contextual, holística e literária das narrativas do Antigo Testamento.
A atenção a essas questões não deve ser um critério linear nem deve ser vista
como um processo mecânico. Muitas sugestões se inter-relacionam. Na práti­
ca, acabam sendo convergentes. E importante lembrar que para se interpretar
um texto, precisa-se de arte tanto quanto de técnica.
Agora estamos preparados para passar para a próxima pergunta do pro­
cesso de interpretação: o que o texto significa para os leitores contemporâneos
que compõem a comunidade da fé (aplicação)? O próximo capítulo tratará
dessa questão.
A PROCLAMAÇÃO DOS
TEXTOS NARRATIVOS

Tendo analisado o sentido do texto no seu contexto original, estamos


preparados para considerar a questão para a qual converge todo o processo de
interpretação: o que o texto significa para leitores contemporâneos que compõem a
com unidade da fé? Essa pergunta reconhece o texto como Escritura que tem um
sentido e uma relevância que transcendem seu contexto original. Buscando
uma resposta para essa pergunta, passamos da esfera da exegese propriamente
dita para as áreas correlatas da teologia bíblica e da homilética. A teologia bíbli­
ca constrói a ponte entre o passado (o que o texto significava para seus leitores
implícitos) e o presente (o que o texto significa para a comunidade da fé).
A homilética, então, completa o processo, declarando como o texto se aplica a
leitores contemporâneos.
UMA PROPOSTA DE ESTRATÉGIA HOMILÉTICA
Há os que usam a literatura histórica do Antigo Testamento somente
como ilustração. Como observamos muitas vezes que os escritores do Novo
Testamento faziam o mesmo, devemos supor que esse uso das narrativas é váli­
do e coerente com a afirmação de Paulo no que diz respeito à aplicação prática
da Escritura (2Tm 3.16-17): “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para
o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim
de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra”. Por exemplo, Tiago ilustra sua afirmação sobre a eficácia da oração re­
correndo ao exemplo de Elias (Tg 5.16-18).
No entanto, esse uso das histórias bíblicas para ilustrar, não reflete necessa­
riamente o(s) propósito(s) de seu(s) primeiro(s) autor(es) no contexto em que os
textos apareceram inicialmente. Por exemplo, o autor de Hebreus inclui quatro
juizes (Gideão, Baraque, Sansão e Jefté) em sua “Galeria da Fé” (Hb 11.32).
Todos eles exercitaram a fé e como conseqüência “subjugaram reinos”, “esca­
param ao fio da espada” e “fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga
exércitos de estrangeiros” (Hb 11.33-34). O autor os usa corretamente como
148 Interpretação dos livros históricos
exemplos de seu princípio predominante - Deus pode usar poderosamente aqueles
que nele confiam. Ao pregar uma mensagem em Hebreus 11, seria sábio e apro­
priado se referir às histórias desses juizes e mostrar como Deus recompensou a fé
desses homens, concedendo-lhes vitórias sobre os inimigos de Israel.
Todavia, se a pregação ou o ensino aborda Juizes como texto principal,
esse tema seria secundário. Uma análise literária das histórias desses quatro
juizes revela que eles foram líderes falhos, cuja falta de sabedoria e/ou fé (pelo
menos quando comparados ao paradigma de líder apresentado na introdução
de Juizes) arruinou suas carreiras e contribuiu para uma derrocada que, poste­
riormente, deixou um vazio de liderança em Israel. Eles tinham um grau de fé
que os capacitava para combater o combate de Deus, mas como líderes, tam­
bém mostravam limitações que causaram o declínio espiritual de Israel durante
esse período.163
Embora o uso das narrativas do Antigo Testamento como ilustração possa
ter seu lugar, é inadequado tratar esses textos como entidades teológico-literárias
que apresentam temas específicos e expressam um propósito geral. Assim como
também é inadequado aplicar o texto na forma em que Deus o concedeu a nós.
O uso de uma narrativa do Antigo Testamento como ilustração funciona melhor
quando é empregada para complementar uma mensagem sobre outro texto. Mas,
se o texto principal é o texto narrativo, precisamos usar uma abordagem diferen­
te, que faz justiça ao objetivo do próprio texto. Essa abordagem envolve análise
temática, análise teológica e aplicação contemporânea.
Primeiramente, nós nos voltamos para o universo do texto e tentamos
responder à pergunta: o que esse texto queria dizer em seu antigo contexto
israelita? Isso exige uma leitura exegético-literária cuidadosa do texto, que faz
vir à tona as ênfases temáticas de cada unidade literária maior. Os capítulos
anteriores deste livro se concentram nesta parte do processo (vd., principal­
mente, cap. 4).
A seguir, saímos do universo do texto e tentamos responder as seguintes
perguntas: quais princípios teológicos emergem da análise temática do texto?
Como esses princípios apresentam variações em seu contexto canônico mais
amplo? Teremos uma discussão mais completa desse ponto mais adiante, sob o
título “Descobrir o(s) princípio(s)”.
Finalmente, nós nos voltamos para nosso contexto atual, onde tomamos
as ênfases temáticas do texto com suas nuances teológicas e criamos trajetórias
homiléticas partindo dessas perspectivas. Se o fizermos com habilidade e inte­
ligência, a audiência conseguirá compreender como o texto antigo revela os
princípios, como o restante da Escritura apresenta nuances dos princípios e
como a audiência, tanto individualmente como em grupo, deve e pode ade­
quar os princípios à sua vida e à vida da igreja. Discutiremos esse ponto de
forma mais completa a seguir, sob o título “A aplicação dos princípios”.
A proclamação dos textos narrativos 149
Outra maneira de pensar o processo é em termos de contextualizaçao,
descontextualização e recontextualização. Na exegese, examinamos o sentido
contextualizado do texto no universo do(s) seu(s) leitor(es) implícito(s). A se­
guir, em certo grau, descontextualizamos esse sentido, examinando os princípi­
os teológicos que emergem do texto e transcendem o seu contexto histórico-
cultural. O contexto se amplia para abranger a Bíblia como um todo. Final­
mente, tomamos esses princípios teológicos e os recontextualizamos em nossa
situação presente, perguntando como eles são relevantes para nossa vida. Dessa
maneira, a proclamação e a aplicação do texto, porque têm raízes numa teolo­
gia bíblica resultante de uma sólida exegese, têm um fundamento de autorida­
de que não estaria presente se um leitor simplesmente trouxesse para o texto a
sua própria proposta e “construísse o sentido” dele.
IDENTIFICAÇÃO DO(S) PRINCÍPIO(S)
Descobrir os princípios numa narrativa não significa que nós simples­
mente reduzimos as histórias a uma série de lições morais. Essa abordagem
tende a produzir uma lista de afirmações no estilo de provérbios, que podem
ou não estar relacionadas umas com as outras e podem ou não refletir a inten­
ção do(s) autor(es). Como discutimos anteriormente, deve-se ver a história
como um todo antes de tentar extrair os princípios da narrativa. Só então o
intérprete está em condição de avaliar como cada parte se ajusta ao todo.
O processo é parecido com assistir a um filme ou ler um romance. Não para­
mos após cada cena ou episódio e avaliamos a lição que talvez eles estejam
ensinando. Essa abordagem otimista nos levaria a uma interpretação caótica.
Podemos avaliar a significação de uma cena ou de um episódio somente quan­
do eles são vistos em seu contexto mais amplo e avaliados à luz do(s) tema(s)
que abrange(m) toda a obra.
Ao tentar extrair os princípios teológicos de uma narrativa bíblica, con­
vém fazer as seguintes perguntas, que, por vezes, inter-relacionam-se:

1 . C o m o o s te m a s d a h is tó r ia , le v a n ta d o s n o p ro c e ss o in te rp re ta tiv o (vd.
ca p . 4 ) , a d q u ire m n u a n c e s e se d e se n v o lv e m n a B íb lia to d a , p rin c ip a l­
m e n te n o N o v o T e sta m e n to ?
2. O que Deus revela sobre sua pessoa na história? O que a história revela
sobre a maneira como ele se relaciona com as pessoas? Como a
autorrevelação de Deus na história se compara/contrasta com sua
autorrevelação na Bíblia toda?
3. A história oferece algum insight sobre como as pessoas deveriam reagir
e se relacionar com Deus? Como poderíamos avaliar as respostas hu­
manas que vemos na narrativa tendo em vista os princípios encontra­
dos na Bíblia toda?
150 Interpretação dos livros históricos
4. Como a história deve ser avaliada à luz da ênfase cristológica e dos
temas bíblicos?

Quando abordamos as histórias do Antigo Testamento, chegamos a pelo


menos dois pressupostos fundamentais:

1. Deus é imutável.
2. O antigo Israel, a comunidade da aliança de Deus no período do
Antigo Testamento, é um modelo (para im itar ou rejeitar,
dependendo do caso) para a comunidade da fé em nossos dias.

Munidos desses pressupostos, somos tentados a tratar as ações de Deus e


de outros personagens da história como normativas. Os pressupostos estão cor­
retos e as histórias, de fato, revelam princípios eternos que são relevantes para a
comunidade da fé em todas as épocas. No entanto, deve-se evitar o erro de
excessiva generalização, que pode resultar na atribuição de normatividade a
todas as ações.
Embora Deus seja essencialmente imutável, isso não significa que ele sem­
pre se revela da mesma maneira ou se relaciona com as pessoas do mesmo jeito.
Por exemplo, conforme mostra nosso estudo anterior sobre a autorrevelação de
Deus a Abraão (vd. cap. 1), de vez em quando, Deus se revelou na história dos
patriarcas como se ele fosse menos onisciente, porque seu principal objetivo era
enfatizar que ele é justo e que os seres humanos são responsáveis pelos atos que
praticam. Sua autorrevelação foi adequada ao seu propósito no universo da
história. Se existe algo que aprendemos das histórias do Antigo Testamento é
que Deus não pode ser colocado numa caixa onde sempre encontramos respos­
tas previsíveis. Ao contrário, ele é livre para agir como lhe apraz, mesmo que na
nossa perspectiva seus atos talvez pareçam contraditórios ou incoerentes.
Por exemplo, como demonstramos anteriormente (vd. cap. 2), as históri­
as de Juizes indicam que Deus não pode ser manipulado como se fosse algum
amuleto da sorte e que ele, muitas vezes, age fora das normas previstas. Na
história de Gideão, ele confronta o pecado do seu povo antes de nomear um
libertador; na história de Jefté, ele se farta de agir, mesmo quando o povo insis­
te em clamar e, aparentemente, arrepende-se da idolatria. Mas na história de
Sansão, ele decide livrar Israel mesmo que ninguém tenha suplicado seu auxí­
lio. Em cada caso, Deus disciplina Israel por causa do pecado (Jz 6.1-6; 10.6-9;
13.1), embora seu ato subsequente varie de história para história. Devemos
levar em conta a realidade da liberdade divina e evitar a tentação da excessiva
generalização sobre Deus nas histórias em que ele se revela. Não seria correto
extrair um princípio universal de qualquer um desses três relatos. Um princí­
pio desse tipo talvez tomasse uma das seguintes formas: 1. Deus sempre insta
A proclamação dos textos narrativos 151
seu povo a se arrepender, antes de intervir em favor deles (cfr. a história de
Gideão), ou 2. Deus sempre retira seu auxílio quando seu povo peca (cfr. a
história de Jefté) ou 3. Deus é sempre misericordioso quando seu povo peca,
mesmo quando se recusam a buscar seu auxílio (cfr. a história de Sansão). Con­
vém sintetizar o que distingue os três relatos num princípio único e composto,
que poderia ser expresso da seguinte maneira: “O pecado leva Deus a discipli­
nar seu povo, embora em seguida ele lide com esse povo pecador da maneira
que ele julgar apropriado. Muitas vezes, ele pode instar o povo a que se arrepen­
da ou pode retirar seu auxílio. Porém, em outras ocasiões, ele pode intervir
graciosamente em favor do povo, mesmo quando não o buscam e não reconhe­
cem seu auxílio”.
Se devemos avaliar com cuidado os atos de Deus para saber o que é e o
que não é normativo, então é lógico que devemos ter muita cautela ao avalia­
mos os atos de personagens humanos nas histórias bíblicas. Os atos e experiên­
cias de seres humanos pecadores e falhos não são necessariamente normativos
ou destinados a ser modelos para seguir. Nesse aspecto, a análise do tipo de
enredo da história e dos personagens é importante. Como observamos ante­
riormente (vd. cap. 1), as histórias de exemplo negativo e as histórias de admi­
ração tendem a apresentar personagens como exemplos para se evitar ou para
serem imitados, respectivamente; mas os personagens de outros tipos de enre­
do, especialmente as variações cômicas e trágicas, são mais difíceis de avaliar.
Os personagens simples geralmente são exemplos de um traço de caráter que é
para ser rejeitado ou imitado, enquanto que os personagens complexos são mais
difíceis de se determinar. Os personagens complexos talvez sirvam como exem­
plo de algum modo, mas isso não significa que todos os seus atos estabeleçam
uma norma moral ou um ideal. Cada ato deve ser avaliado à luz da apresentação
total do personagem pelo escritor no contexto mais amplo da história.
Por exemplo, consideremos o uso da lã por Gideão para confirmar a dis­
posição de Deus de libertar Israel (Jz 6.36-40). Desconsiderando o contexto
literário mais amplo, alguns têm usado os atos de Gideão para justificar a busca
da vontade de Deus de formas semelhantes hoje. No entanto, quando os atos
de Gideão são observados no contexto da história, percebe-se que esse episódio
contribui para a avaliação global que o autor faz de Gideão como alguém que é
cético e tem falta de fé. A prova da lã, em vez de dar exemplo de como se deve
buscar a vontade de Deus, ressalta as deficiências de Gideão nesse momento da
história e retarda, em vez de apressar, o plano de Deus. Em vez de dar uma
norma de como devemos buscar a vontade de Deus, a história ilustra a paciên­
cia de Deus para edificar a fé débil de uma pessoa.
De forma semelhante, alguns têm apontado Jefté como exemplo positivo
de alguém que manteve o voto para com Deus, mesmo com um enorme custo
pessoal. No entanto, no contexto da história, Jefté é uma figura trágica, tão
152 Interpretação dos livros históricos
corrompida pelo paganismo que o cercava, que transformou uma grande vitó­
ria numa absoluta tragédia. Seu ato de sacrificar a própria filha é um contraste
com a bondade com que Calebe trata sua filha Acsa, descrita no prólogo do
livro (Jz 1.14-15). Como tal, Calebe, cujo comportamento como personagem
simples é exemplar, funciona como contraste de Jefté, cuja maneira de ser ilus­
tra a séria decadência na qualidade da liderança de Israel durante o período dos
juizes. A disposição de Jefté em cumprir seus votos dificilmente é o centro da
história, que deixa evidente que seu voto era desnecessário e sua forma era
inadequada e paga. A história ilustra as conseqüências devastadoras, e às vezes
inevitáveis, da fraqueza de fé e da falta de visão de um líder.
E fortíssima a tendência de considerar normativos os inspiradores relatos
das intervenções de Deus. Por exemplo, 2Crônicas 20 narra como o Senhor
derrotou milagrosamente os inimigos de Josafá. Judá nem mesmo entrou em
batalha; em vez disso, um grupo de musicistas conduziu o povo até o campo de
batalha (vd. v. 21). Pode-se depreender o seguinte princípio da história:
“Somente Deus é a fonte de segurança do seu povo. Ele é capaz de libertar seu
povo, não importa quão intensas sejam as adversidades”. Pode-se imaginar um
pregador extremamente zeloso, tratando a história como normativa em todos
os seus detalhes e apresentando o princípio da seguinte forma: “Porque Deus é
nossa única fonte de segurança, ele requer de nós confiança total. Devemos
confiar somente nele para nos proteger do perigo”. Nesse instante, um pequeno
passo para a aplicação poderia levar à defesa de uma forma bizarra de fé, que
rejeita todos os recursos e instrumentos de bênção divina (tal como a medici­
na, para curar nossas doenças físicas). Isso seria, é óbvio, uma apresentação e
uma aplicação ilegítimas do princípio. Esse evento foi excepcional, não
normativo, na experiência de Israel. Embora Deus muitas vezes interviesse na
guerra em favor de Israel, em muitas ocasiões ele ordenou que Israel lutasse.
A história não nos ensina que nós nunca devemos usar recursos na realização
dos propósitos de Deus; ela nos faz lembrar de que Deus é, em última análise,
nossa fonte de segurança e isso deve nos dar confiança ao enfrentarmos nos­
sos inimigos espirituais.
Ao levantar princípios das histórias bíblicas, alguns intérpretes erram
quando tornam a cultura bíblica normativa. Por exemplo, seria errado concluir
que o povo de Deus tem o direito de se engajar em alguma forma de guerra santa
porque Deus autorizou Israel a destruir os cananeus e capacitou Sansão para
matar filisteus (cfr. Jz 14.19; 15.14-15). Deus não deu tal ordem para a igreja.
Ao contrário, Paulo nos diz que não fazemos guerra contra “o sangue e a carne”,
mas contra “os principados, os dominadores deste mundo tenebroso” e “as forças
espirituais do mal, nas regiões celetes” (Ef 6.12). Qualquer princípio oriundo do
contexto cultural da guerra santa do Antigo Testamento, deve ser aplicado num
contexto do Novo Testamento, dentro do arcabouço da guerra espiritual.
A proclam ação dos textos narrativos 153
APLICAÇÃO DO(S) PRINCÍPIO(S)
Tendo encontrado o(s) princípio (s) teológico (s) do texto, podemos esta­
belecer as trajetórias homiléticas. Por exemplo, como observamos anteriormente
(vd. cap. 2), o livro de Juizes tem três objetivos centrais:

1. De certa forma, o livro é uma apologia de Deus. As derrotas de Israel


foram conseqüência do pecado e não causadas por alguma falha da
parte de Deus. Todavia, apesar da desobediência e da infidelidade de
Israel, o Senhor permaneceu fiel a eles. Ele os disciplinou; mas, em
seguida, levantou líderes para libertá-los e para restaurar a paz e a esta­
bilidade na terra. Embora Israel estivesse decidido a cultuar deuses es­
trangeiros, o Senhor se mostrou superior a todos os deuses, provando
que somente ele era digno da consagração do seu povo.
2. O livro também demonstra como a assimilação da religião e da cultura
dos cananeus por Israel por meio do sincretismo e do casamento com
os estrangeiros ameaçou a genuína identidade da nação. Isso, por sua
vez, fomentou uma mentalidade tribal que ameaçou a unidade nacio­
nal e resultou em conflito interno e guerra civil.
3. Juizes também mostra como essa cultura cananizada produziu líderes
incompetentes, que não alcançaram o ideal estabelecido por Josué,
Calebe, Otniel e Eúde. Sua falta de fé e/ou sabedoria apropriada os fez
incapazes de impedir o firme declínio de Israel para o caos. O epílogo
ressalta esse vazio de liderança, ilustrando como Israel seguia seu pró­
prio código moral nesse período. Fazendo-nos lembrar de que não ha­
via rei, mantém diante de nós o ideal deuteronômico de monarquia e
nos prepara para a concretização desse ideal em ISamuel.

Para ser fiel à mensagem do livro, uma abordagem homilética deve estar
relacionada a cada um desses temas, à medida que aparecem e se desenvolvem
no livro. Esses temas nos dão ângulos homiléticos ou posições favoráveis, de
onde podemos examinar a relevância do texto para nós. Ao proclamar a
mensagem de Juizes, deve-se levar em conta o que o texto ensina e ilustra
sobre: 1. O relacionamento de Deus com a comunidade da aliança, 2. Os
efeitos da desobediência e da transigência sobre a comunidade da aliança de
Deus e 3. A necessidade de liderança competente na comunidade da aliança.
Para dar exemplo do processo, vamos examinar a história de Gideão em
Juizes 6-8. Outra vez, a rebelião de Israel traz um invasor estrangeiro para a
terra (6.1-6). Deus continua sendo misericordioso para com o povo da alian­
ça, que sofre, mas não se arrepende. No entanto, a denúncia profética que
precede a história da libertação divina indica que há uma questão moral
subjacente, que mais cedo ou mais tarde precisa ser tratada (6.7-10). Talvez
154 Interpretação dos livros históricos
chegue o momento em que Deus não responderá imediatamente à súplica de
Israel por auxílio (cfr. 10.6-16).
A persistência de Israel no pecado produz um vazio de liderança. Quan­
do o Senhor chama Gideão, ele hesita (6.11-18). Todavia, o Senhor paciente­
mente aperfeiçoa a fé no coração do seu servo escolhido. Primeiramente, Deus
convence Gideão de sua identidade como Jeová, o Deus de Moisés, que dese­
ja socorrer seu povo (6.19-24). A seguir, ele exige que Gideão demonstre
fidelidade diante de uma séria oposição de seus próprios compatriotas (6.25-
35). Quando mais tarde Gideão regressa e questiona a capacidade do Senhor,
Deus pacientemente se adapta aos testes de Gideão e dá a ele mais confirma­
ção de suas promessas (6.36-40). O aperfeiçoamento de Gideão chega ao seu
estágio final quando ele é forçado a depositar toda a sua confiança no poder
do Senhor. Gideão finalmente se coloca à frente como guerreiro de Deus e
uma vez mais o Senhor mostra que pode realizar grandes coisas, mesmo por
intermédio de instrumentos menos prováveis (7.1-25). Aliás, quanto mais
obscuro for o contexto, mais brilhante e extraordinária será a demonstração
divina. Diante de adversidades imensas, Deus liberta de uma maneira que
não deve deixar dúvida a respeito de sua soberania e do seu direito ao culto
exclusivo por Israel.
No entanto, quando o povo de Deus se torna obstinado no paganismo,
a cegueira espiritual pode impedi-los de responder apropriadamente à sua
autorrevelação. Quando Gideão destrói o altar de Baal sem que haja nenhu­
ma reação por parte desse deus cananeu, seus próprios compatriotas se prepa­
ram para matá-lo (6.30). Quando o Senhor coloca o inimigo em fuga, alguns
se preocupam apenas com a honra pessoal (8.1-3), enquanto que outros se
recusam a reconhecer a mão de Deus agindo (8.22). Quando a batalha chega
ao fim, o povo atribui a vitória a Gideão, não ao Senhor, e rapidamente
transforma em ídolo o que poderia ter sido uma lembrança concreta da pre­
sença de Deus.
Até mesmo Gideão diminui seu sucesso, dando prioridade a inimizades
pessoais, tomando decisões insensatas como líder e permitindo que o sucesso
suba à sua cabeça (8.4-27). Sua preocupação com vingança pessoal transmite
uma mensagem falsa e dá um exemplo enganoso. Apesar de conhecer a inclina­
ção do povo e de sua própria família pelos ídolos, ele faz uma estola que rapida­
mente se torna um objeto de culto. Ao se casar com várias mulheres e dar a um
de seus filhos o nome de um rei, ele age como se fosse rei. Enquanto cultuava a
majestade do Senhor apenas com os lábios, seus atos contradiziam suas pala­
vras e preparavam o terreno para novos abismos de agitação civil e caos.
Ao final da carreira de Gideão, podemos ver algumas rachaduras óbvias nos
alicerces da sociedade israelita. Na história seguinte (Jz 9), essas rachaduras se
alargam e ameaçam trazer a estrutura toda ao chão.
A proclamação dos textos narrativos 155
Tendo em mente os princípios teológicos do livro, podemos criar as se­
guintes trajetórias homiléticas da história de Gideao:

1. Deus é um rei compassivo. Mesmo quando seu povo permanece afas­


tado dele, ele continua agindo em suas vidas e busca reconquistar a
fidelidade deles. Ele mostra quem são realmente os falsos deuses e pro­
va sua capacidade de protegê-los. Ele é maior do que todos os outros
supostos deuses e merece fidelidade e adoração exclusivas de seu povo.
2. Quando a comunidade da aliança se amolda à cultura paga que está à
sua volta, é possível que ela desenvolva um apego irracional aos falsos
deuses e não é capaz de ver a mão de Deus agindo. Quando Deus age
no mundo, a comunidade da aliança tende a tributar honra aos instru­
mentos humanos dados por Deus em vez de honrar Aquele que é ver­
dadeiramente digno do louvor. À medida que a comunidade se torna
mais pagã em sua mentalidade, ela perde o senso de unidade e propósi­
to comum. O autointeresse mesquinho e o orgulho podem se tornar
uma ameaça de destruição da comunidade.
3. Mesmo em condições que não são totalmente ideais, Deus escolhe
realizar seus propósitos por meio de instrumentos humanos. Líderes
potenciais levantados num ambiente pagão são suscetíveis ao ceticismo
e provavelmente mostrarão uma fé débil. Todavia, Deus quer trabalhar
com tais pessoas e transformá-las em instrumentos eficazes por inter­
médio dos quais ele realiza grandes obras. No entanto, tais indivíduos
podem ser propensos a colocar a honra pessoal em primeiro lugar e
tomar decisões insensatas, que fomentam o paganismo e ameaçam a
unidade da comunidade.

Podemos sintetizar essas ideias numa simples afirmação:


A p erm anência no pecado gera um a con dição de cegueira espiritual e de
insensibilidade; mas, nessas ocasiões, D eus con tin u a a m ostrar com paixão
para c o m seu povo e p od e realizar grandes coisas p o r in te rm é d io de
instrum entos que pou co prom etem . E m tais m o m entos som brios, D eus
pode p acien tem ente transform ar pessoas vacilantes em heróis da fé. N o
entanto, os propósitos de D eus pod em ficar com prom etid os quando seus
instrum entos escolhidos perdem o fo co da sua missão, tom am decisões
inprudentes e insensatas, p erm itind o que o seu estilo de vida entre em
con trad ição co m um a m ensagem teologicam ente correta.

Aplicando o(s) princípio(s) extraído(s) do texto, pode-se ir mais além do


contexto cultural antigo. Por exemplo, o confronto de Elias com Baal mostrou
que o Senhor era a única fonte de prosperidade e de segurança para seu povo e,
por isso, o único Deus digno da adoração de Israel. Mas as pessoas não cultuam
156 Interpretação dos livros históricos
a Baal em nossa época, embora em muitas culturas eles adorem esses ídolos.
Ao revelar esse princípio teológico para uma audiência contemporânea, deve-
se tratar da questão sobre o que constitui a idolatria. A maioria dos ouvintes
contemporâneos, pelo menos no contexto da igreja ocidental, não está envol­
vida em idolatria no sentido literal. No entanto, o Novo Testamento, além de
denunciar a idolatria literalmente, também dá uma dimensão ética ao con­
ceito. Paulo chama a avareza de “idolatria” (Cl 3.5). De acordo com Tiago
4.4, “a amizade do mundo” constitui adultério espiritual (uma metáfora para
idolatria na Bíblia hebraica). Nesse contexto, Tiago associa a amizade do
mundo com a avareza e o orgulho, a inveja e a inimizade que ela invariavel­
mente produz (vd. 4.1-3, 5-6).
Neste capítulo, propusemos uma estratégia para passar da exegese (o que
o texto significou em seu contexto original) à proclamação (o que o texto signi­
fica para a comunidade da fé hoje). Uma vez que se tenha feito a exegese do
texto, são necessários mais dois passos básicos antes da pregação:

1. Encontre os princípios teológicos que estão presentes na narrativa. Para


que isso se torne mais fácil, podem-se fazer as seguintes perguntas:
a. Como os temas da história levantados no processo de interpretação
(cap. 4) adquirem nuances e são desenvolvidos na Bíblia toda, espe­
cialmente no Novo Testamento?
b. O que Deus revela sobre sua pessoa na história? O que a história
indica sobre seu relacionamento com as pessoas? Como a
autorrevelação de Deus na história se compara/contrasta com sua
autorrevelação na Bíblia toda?
c. A história dá alguma ideia de como as pessoas devem responder e se
relacionar com Deus? Como devemos julgar as respostas humanas
que vemos na história, à luz dos princípios que vemos na Bíblia
toda?
d. Como a história deve ser examinada à luz da ênfase cristológica e dos
temas da Bíblia?
2. Usando esses princípios como base, estabeleça trajetórias homiléticas
que serão o fundamento para princípios da aplicação. Como uma ima­
gem fala mais do que mil palavras, ilustramos o processo proposto no
próximo capítulo.
DO TEXTO À APLICAÇÃO:
DOIS EXEMPLOS

Neste capítulo final, ilustramos o método proposto nos capítulos anteri­


ores. A primeira ilustração utiliza um pequeno excerto da história de Eliseu na
qual o profeta amaldiçoa uns rapazes e duas ursas despedaçam quarenta e dois
deles (2Rs 2.23-25). A história levanta questões sobre a natureza de Deus e,
pelo menos superficialmente, coloca um desafio formidável aos que pretendem
pregar ou ensinar. Que aplicação dessa história tão estranha seria possível fazer
hoje? Nosso segundo exemplo é Rute 1, um texto mais longo, que propicia
uma aplicação aparentemente mais clara.

MASSACRE EM BETEL: MENINOS MALVADOS,


UM PROFETA CALVO E DUAS URSAS SELVAGENS
(2Rs 2.23-25)

O QUE É O TEXTO? O QUE O TEXTO DIZ?

Como vimos no capítulo 3, o intérprete, pelo menos de modo ideal,


primeiramente identifica o texto original e lida com questões básicas de exegese
que envolvem semântica e gramática. O leitor se lembrará de que a crítica tex­
tual, embora logicamente anterior à interpretação, é feita melhor quando asso­
ciada à exegese, pois as decisões críticas sobre o texto devem levar em conta a
semântica e a gramática. Nesse pequeno trecho, o aparato crítico do texto da
BHS não menciona variantes textuais. No entanto, há alguns problemas lexicais
que merecem atenção.164
O primeiro é referente ao sentido do substantivo plural □"HM, que é
modificado pelo adjetivo CSBp, “pequeno” (v. 23). O substantivo "1IJ3, “menino,
rapaz”, abrange uma faixa etária ampla, incluindo crianças e jovens. Mas a
frase adjetiva indica que esses rapazes eram relativamente novos. (Observe que
a NIV traduz a expressão toda como “moços”.) Uma análise gramatical revela
158 Interpretação dos livros históricos
que a expressão aparece apenas outras cinco vezes no Antigo Testamento (que
estão todas no singular): ISamuel 20.35 (denotando o “rapaz” que apanhou as
flechas que eram sinal de Jônatas); IReis 3.7 (usada pelo jovem Salomão para
se descrever após ter se tornado rei); 1Reis 11.17 (usada para descrever o “j ovem”
Hadade, o herdeiro do trono edomita); 2Reis 5.14 (usada para descrever a pele
de Naamã após ser curado; sua pele estava como a de “uma criança”); e Isaías
11.6 (usada pelo profeta na visão de um tempo em que “um pequenino” guiará
predadores outrora selvagens sem nenhum perigo de ser atacado). A referência
de Salomão a si mesmo como “criança” talvez seja uma indicação de que a
expressão pode ser usada para se referir a jovens, mas o uso nesse caso é
evidentemente retórico e hiperbólico. Salomão queria enfatizar que, como rei,
ele era relativamente jovem. Então ele se descreveu em termos exagerados.
O uso indica que se trata de meninos em 2Reis 2.23, talvez no início da
adolescência ou até mais novos.
O verbo hebraico 10i?j?n"'i (da raiz o b p j , “zombavam”, descreve a
provocação ao profeta feita pelos meninos. Esse verbo ocorre em apenas outros
três textos: Ezequiel 16.31 (que compara a infiel Jerusalém a uma prostituta
que, por incrível que pareça, “desprezou” o pagamento); Ezequiel 22.5 (que
descreve como as nações circunvizinhas “escarneceriam” de Jerusalém); e
Habacuque 1.10 (que descreve como os arrogantes babilônios “escarnecem”
de outros reis). Como o verbo é tão pouco usado, convém examinar suas flexões
nominais oS|5 e HD^p, que ocorrem em Jeremias 20.8 (usada para se referir ao
profeta sendo “opróbrio” para outros); Ezequiel 22.4 (usada para descrever
como Jerusalém se tornara “objeto de escárnio” das nações); e os Salmos 44.13
e 79.4 (usadas pelo povo aflito para se descrever como motivo de “zombaria” às
nações vizinhas). Essa pesquisa sobre o uso, mostra que o verbo e suas flexões
não se referem à mera brincadeira jocosa ou gracejo infantil, mas a zombaria
sarcástica que mostra desprezo.
E também importante entender exatamente como Eliseu respondeu a
esse escárnio. O texto diz que ele “os amaldiçoou em nome do S enhor” (v. 24).
Isso não se refere a um insulto ou resposta blasfema, tal como nós às vezes
queremos declarar em português, quando dizemos que alguém “praguejou”
ou “xingou” outra pessoa. Uma maldição era um pedido formal ao Senhor
para reivindicar a causa de alguém por meio de um ato de julgamento.
A expressão exata aí usada (P iei de bb p colocado com a frase “em nome de”)
ocorre somente nesse texto, mas uma expressão semelhante é usada por Golias,
que “amaldiçoou Davi pelos seus deuses” (ISm 17.43). A ideia parece ser
que Eliseu fez um apelo ao Senhor para que executasse julgamento contra
aqueles meninos. Logicamente, supõe-se que o Senhor enviou as duas ursas
para destruir os meninos.
Do texto à aplicação: dois exemplos 159
O QUE O TEXTO QUERIA DIZER?

A próxima etapa do processo interpretativo é mais complexa. Devemos


olhar para essa passagem numa perspectiva literária, considerando as várias
questões que estudamos no capítulo 4. Por uma questão de conveniência, repe­
timos aqui a lista que ilustra o método proposto.
Coloque o texto em seu contexto
Parece que esse incidente ocorreu durante o reinado de Jorão (852—841
a.C.), um filho de Acabe (2Rs 3.1). O rei Acabe permaneceu nos pecados de
Jeroboão I, que estabelecera um bezerro ídolo em Betei (lRs 12-13). Além
disso, casou-se com Jezabel, uma rainha fenícia, e instituiu o culto a Baal como
religião oficial no reino do norte (lRs 16.31-33). Era uma época em que os reis
de Israel não adoravam o Senhor nem respeitavam a autoridade dos profetas de
Deus (cfr. lRs 19.1-2; 2Rs 1.1-17). Nesse período, os profetas do Senhor fo­
ram perseguidos. Jezabel ordenou que muitos deles fossem mortos, aparente­
mente com a aprovação e o apoio de muitos israelitas (lRs 18.4; 19.2, 10, 14;
22.27; 2Rs 1.9-12; 6.31). No contexto mais amplo, Betei aparece como um cen­
tro de idolatria (lRs 12-13). A passagem registra um incidente que ocorreu no
início da carreira do profeta Eliseu, que é a figura central de 2Reis 2-8. Esse relato
contribui para a descrição global que o escritor faz de Eliseu como o sucessor
escolhido de Elias. (vd. mais adiante nossos comentários no n° 6.)
Analise o texto do ponto de vista literário
1. Analise os elementos básicos da história (espaço, personagens, enredo)
e determine como eles contribuem para a sua mensagem.
Como vimos anteriormente, o incidente ocorre no caminho próxi­
mo a Betei, que era o centro de um culto idólatra (lRs 12-13). Após o
incidente, Eliseu vai primeiramente para Carmelo, o lugar de triunfo
de Elias sobre os profetas de Baal e o lugar onde o Senhor demonstrou
sua autoridade e seu poder soberanos. A seguir, ele vai para Samaria, a
capital do reino do norte. Os ambientes geográficos do episódio têm
grande significado simbólico. O profeta invoca julgamento sobre al­
guns habitantes da idólatra cidade de Betei. Como se estivesse se identi­
ficando com Elias (vd. 2Rs 2.9-10, 13), em seguida ele visita a cena do
maior triunfo de seu predecessor antes de ir a Samaria para desafiar o
perverso rei do norte. Os três lugares citados simbolizam o ministério
de Eliseu. Ele confronta os idólatras no espírito e no poder de Elias e se
opõe à dinastia que permite a rebelião contra o Senhor.
Eliseu é o personagem central nesse episódio e nos adjacentes.
Embora seja o personagem principal em 2Reis 2-8, ele é uma figura
160 Interpretação dos livros históricos
relativamente plana que aparece como aquele profeta típico que é cha­
mado por Deus para confrontar a injustiça e demonstrar a autoridade
do Senhor sobre seu povo. Como tal, ele é representante do Senhor.
Consequentemente, quando os meninos o confrontam, seus atos po­
dem ser vistos como uma afronta contra o próprio Senhor. Os meni­
nos que se opõem a Eliseu são antagonistas, mas como eles aparecem
apenas de forma breve nesse único episódio, é melhor chamá-los de
agentes. O episódio tem um tipo de enredo punitivo: o Senhor pune
os meninos por causa do desrespeito deles. Como agentes da história,
eles representam seus pais e Israel como um todo.
A estrutura do enredo do episódio é simples. Acontece a confron­
tação, cria-se a tensão, mas essa tensão é rapidamente resolvida quando
a maldição de Eliseu é imediatamente concretizada. A rapidez da solu­
ção do enredo ressalta o compromisso do Senhor com o bem-estar do
seu profeta e o caráter de gravidade do ataque verbal dos meninos.

2. Identifique a estrutura discursiva, a estrutura dramática e outros tra­


ços estruturais do texto e explique como elas contribuem para a mensa­
gem e o impacto da história.
Pode-se esquematizar a estrutura do discurso do texto da seguinte
maneira: 165

Versos Estrutura do discurso Tipo de oração

23a Dali, Eliseu subiu a Betei Iniciatória e seqüencial


23b indo ele pelo caminho Circunstancial
23c uns rapazinhos saíram da cidade Sincrôníca
23d e zombavam dele Seqüencial
23e Eles diziam-lhe: Focalizadora
23f “Sobe, calvo! Sobe, calvo!"

24a Ele se virou para trás, Seqüencial


24b viu-os Seqüencial
24c e os amaldiçoou em nome do S enhor Seqüencial
24d Então, duas ursas saíram do bosque Seqüencial
24e e despedaçaram quarenta e dois deles. Seqüencial
25a E dali ele foi para o monte Carmelo Seqüencial

25b de onde voltou para Samaria. Conclusiva


Do texto à aplicação: dois exemplos 161

Comentários sobre a estrutura discursiva


a. A oração w ayyiqtol à o verso 23a, embora dê prosseguimento à história,
também inicia um novo episódio, no qual Eliseu se dirige a Betei.
b. A narrativa hebraica às vezes justapõe orações disjuntivas para indicar
ações simultâneas, como no verso 23bc (vd. Jz 15.14). A primeira
oração, que tem um particípio como predicado, indica uma ação
que é uma circunstância da ação descrita na segunda oração, que,
por sua vez, tem uma forma verbal do perfeito como predicado.
Alguns rapazinhos saíram da cidade enquanto Eliseu ia pelo caminho.
c. A oração w ayyiqtol no verso 23e, juntamente com a fala anexada,
especifica como os rapazinhos zombavam de Eliseu.
d. A oração disjuntiva no verso 25b, interrompendo a seqüência de orações
wayyiqtol, indica o desfecho do episódio. Observe também que o
próximo episódio começa com uma oração disjuntiva (3.1).

Esse incidente é um pequeno episódio dentro de uma história maior


que se estende de 2Reis 2—8. Como tal, não possui estrutura dramática
própria. (Quanto ao seu lugar dentro do macroenredo mais amplo, ver
nossos comentários ne 6 a seguir.) O episódio tem um enquadramento
{inclusió). O escritor se refere aos movimentos de Eliseu no início e no
final do relato; observe o uso de DSíp, “dali”, nos versos 23a e 25ab.

3. Analise as falas e os diálogos da narrativa com respeito ao tipo de dis­


curso e à função da linguagem.
O episódio contém apenas uma fala curta - as palavras de sarcasmo
que os meninos disseram ao profeta. O tom é exortativo, pelo uso que
os meninos fazem de uma forma imperativa “sobe”. O uso de um estilo
exortativo diz muito sobre a atitude deles em relação ao profeta. Quem
eram eles, simples crianças, para ordenar que o profeta fizesse algo?
A última vez em que pessoas sem autoridade usaram um tom exortativo
de superioridade para dar ordens a um profeta de Deus, sua insolência
lhes causou a morte (2Rs 1.9-12). O mesmo será verdadeiro no episódio
de 2Reis 2.23-25 (vd. n2 7 a seguir). A função da linguagem é mais
bem entendida como expressiva. As palavras dos meninos expressam
externamente o desprezo interior que sentiam pelo profeta de Deus e
indiretamente pelo próprio Deus.

4. Evite excesso no preenchimento de lacunas, mas não tenha receio de


tentar uma solução para a ambigüidade, com atenção e sensibilidade
para com o contexto, usando bom senso.
Interpretação dos livros históricos
Essa pequena narrativa tem algumas lacunas que podem ser
preenchidas atentando para o contexto. O narrador para bruscamente,
a fim de dizer que Deus enviou as ursas para despedaçar os meninos,
mas o aparecimento delas im ediatam ente após Eliseu ter os
amaldiçoado não deixa dúvida de que elas eram instrumentos do
julgamento divino. O escritor não mostra por que os meninos
zombaram do profeta, mas o fato de serem de Betei dá uma dica
(vd. n2 6 a seguir). Finalmente, o significado do movimento de Eliseu
em direção a Carmelo e, em seguida, a Samaria não é explicado.
Mas uma vez mais, o contexto mais amplo indica uma explicação
(vd. n2 1, na p. 159).

5. Respeite a autoridade do escritor e tente identificar a avaliação que ele


fez dos eventos e dos personagens. No entanto, fique também atento
ao uso retórico de uma perspectiva limitada e/ou idealizada.
Esse pavoroso relato das ursas despedaçando os meninos pode
ofender a nossa moderna sensibilidade ocidental, mas não devemos
deixar que nossa aversão pela violência obscureça nossa interpretação
da história. Eliseu é claramente apresentado de maneira positiva no
contexto literário global. Esse episódio indica que o Senhor estava ao
seu lado no seu confronto com o Israel idólatra. Consequentemente,
esse episódio deve ser lido à luz do retrato positivo que o escritor faz
do profeta, cujas ações devem ser vistas como justificadas (vd. mais
sobre isso no na 6 a seguir).

6. Relacione cada uma das histórias com seu macroenredo e explique como
os diferentes gêneros de um livro contribuem para sua mensagem global.
O episódio de 2Reis 2.23-25 precisa ser avaliado à luz do seu
contexto geral. Em 2.1-18, o escritor apresenta Eliseu como o legítimo
sucessor de Elias (cfr. lRs 19.19-21). Eliseu vê a impressionante
retirada de Elias (2Rs 2.10-12) e usa o manto desse profeta para
separar as águas do Jordão, exatamente como Elias tinha feito (v. 13-
14; cfr. v. 7-8). Quando os profetas não conseguem achar Elias, fica
evidente que o manto tinha sido passado para Eliseu (v. 15-18). Os
dois breves episódios em 2.19-25 demonstram a autoridade de Eliseu
e sua capacidade dada por Deus para dar vida e abençoar aqueles
que reconhecessem sua autoridade, ou decretar morte e julgamento
aos que o rejeitassem. O capítulo 2 funciona como prólogo dos
capítulos seguintes, em que Eliseu exerce sua autoridade em
diferentes situações e prova ser o instrumento do Senhor para
julgamento e bênção.
Do texto à aplicação: dois exemplos 163
Não ler esse episódio à luz do seu contexto literário global e do seu
macroenredo pode resultar em conclusões teológicas falhas.
A interpretação que David Penchansky faz de 2Reis 2.23-25,
desenvolvida num capítulo entitulado “O profeta bravo e o Deus
abusador” ilustra nossa ideia.166Na introdução do seu estudo, ele conta
que pede para suas classes lerem as histórias bíblicas com a seguinte
pergunta em mente: “Se tudo o que você conhece de Deus fosse
mostrado através dessa passagem, como você descreveria a pessoa de
Deus?”.167 Em seguida, ele diz que segue este método em seu livro.
Partindo de uma perspectiva pragmática, essa é uma pergunta válida
quando se inicia o estudo de uma passagem, pois nos faz lembrar de
considerar um texto pelo que ele é, e não atribuir a ele ideias diferentes.
No entanto, quando se interpreta uma passagem e se constrói uma
teologia bíblica, não se pode interpretar textos isoladamente, pois como
os linguistas demonstram, nenhum texto tem sentido fora do seu
contexto. Ler um texto isoladamente é como isolar uma cena de um
filme e tentar julgar seus personagens e sua mensagem sem assistir o
filme todo. Podemos entender certas ações de Deus somente se as virmos
à luz do contexto literário global do texto.
Quando o episódio em Betei é visto isoladamente, como faz
Penchansky, pode-se concluir que quando enviou as ursas para
despedaçar os meninos, Deus, grosseiramente, reagiu de forma
exagerada à brincadeirinha sem importância. Nesse caso, parece que
Eliseu é “bravo” e Deus é “abusador”. Mas não se devem examinar
incidentes num vazio moral e literário. No macroenredo de Reis, esse
episódio é a palha que quebra o dorso do camelo, pois Betei era o
centro de um culto idólatra permitido por uma monarquia que se
opunha a Deus e matava seus porta-vozes proféticos. A atitude dos
meninos para com o profeta era um sintoma de uma enfermidade que
infectava a sociedade israelita e simbolizava o desrespeito da nação
pela autoridade de Deus. O ataque sofrido pelos meninos, embora seja
difícil de ser justificado pela mentalidade ocidental, tem sentido quando
é compreendido dentro do esquema dos antigos conceitos israelitas de
responsabilidade e culpa coletivas, em que a punição divina podia e de
fato se direcionava, às vezes, para a prole de um pecador.168

7. Seja sensível a questões de intertextualidade e à maneira como às vezes


elas contribuem para a mensagem da narrativa.
Quando se estuda os detalhes do episódio tendo como pano de
fundo o contexto literário global, surgem elementos intertextuais sig­
nificativos. A ordem que os meninos dão a Eliseu para “subir” talvez
164 Interpretação dos livros históricos
indique mais do que os olhos podem ver. Superficialmente, parece que
estão dizendo a ele que continue sua jornada (observe bjn, “e ele subiu”
no início do v. 23), como se eles não quisessem que ele parasse em
Betei. Só isso já seria uma grave ofensa, mas as palavras deles também
são eco da descrição que o escritor faz da partida de Elias (cfr. v. 11,
‘« n , “e ele subiu”). É possível que os meninos tivessem ouvido o rumor
de que Elias tinha sido elevado ao céu e estavam sarcasticamente inci­
tando Eliseu a fazer o mesmo?
O episódio reflete um episódio anterior no qual se mostra desres­
peito por Elias. Em 2Reis 1.9-12, dois oficiais do rei, usando o modo
imperativo, ordenam a Elias que desça do cimo do monte. Elias faz cair
fogo do céu sobre eles e sobre a tropa. Finalmente, um terceiro oficial
mostra o devido respeito ao profeta. Em vez de usar uma forma do
imperativo e ordenar que o profeta obedecesse ao rei, ele emprega um
jussivo e suplica por sua vida e pela vida dos seus soldados (v. 13-14).
O Senhor poupa essas vidas (v. 15). O incidente registrado em 2.23-25
é semelhante a esse episódio anterior. Nele, uns meninos ordenam que
Eliseu “suba” (um antônimo do verbo “desça”, usado em 1.9, 11), le­
vando o profeta a invocar um julgamento sobre eles. Por meio desse
paralelo, o escritor indica que esses meninos demonstram a mesma
atitude de desrespeito pelo profeta de Deus que os oficiais do rei mos­
traram numa ocasião anterior e semelhantemente merecem uma forma
de julgamento severa.
Na própria passagem, a repetição da frase KS’ , “sair de” parece
ser significativo. Tem uma conotação hostil no verso 23, que descreve
os meninos saindo da cidade e zombando do profeta. Seguindo a mal­
dição de Eliseu, duas ursas saem do bosque e despedaçam os meninos.
Uma vez mais, a frase tem conotação hostil. A repetição desloca a aten­
ção para o fato de que o ataque hostil das ursas é resposta ao ataque
verbal hostil que os meninos fizeram ao profeta.
Faça a síntese do(s) tema(s) da história e como eles contribuem para o(s)
tema(s) do livro todo
O tema principal dessa história pode ser definido da seguinte forma: o
profeta do Senhor é digno de respeito, pois ele representa o Senhor junto à
comunidade da aliança. Desrespeitar os porta-vozes de Deus é fatal. Como
observamos anteriormente, o livro de Reis conta como o reino do norte foi
atrás de ídolos. Em resposta, o Senhor mostrou sua autoridade soberana e esta­
beleceu seu direito de adoração exclusiva por Israel. Os reis do norte tentaram
silenciar os profetas do Senhor, mas estes demonstraram sua autoridade sobre
os reis e o poder que Deus lhes dera para abençoar e para destruir.
Do texto à aplicação: dois exemplos 165
Avalie como a história deve ter impactado o(s) leitor(es) implícito(s), conside­
rando sua época, seu lugar e suas circunstâncias
Durante o período pré-exílico, essa história, juntamente com outras dos
livros de Reis, deve ter persuadido o povo de que o Senhor era o único Deus
verdadeiro, digno de receber adoração exclusiva. Eles também devem ter en­
tendido que os profetas de Deus eram seus instrumentos escolhidos e mereci­
am respeito. Rejeitar um verdadeiro profeta era rejeitar o Deus que o enviara
para pregar. A comunidade pré-exílica e a pós-exílica, ao ler a história no
contexto da História deuteronômica, deve ter sido encorajada a responder
positivamente à vontade de Deus revelada por intermédio de seus profetas,
que estimulavam e encorajavam o povo a se tornar a comunidade que Deus
desejava que fossem.
O QUE O TEXTO SIGNIFICA PARA LEITORES DA COMUNIDADE DA FÉ EM
NOSSA ÉPOCA?

Essa é a etapa da aplicação na qual o intérprete torna a mensagem do


texto atual para uma audiência da nossa época. Como observamos no capítulo 5,
uma etapa inicial desse processo é extrair princípios teológicos do texto.
Ao fazemos isso no texto de 2Reis 2.23-25, repetimos os quatro grupos de
perguntas que sugerimos como parte desse processo:

1. Como os temas da história levantados no processo interpretativo variam


e se desenvolvem na Bíblia toda, especialmente no Novo Testamento?
A mensagem que permeia toda a Bíblia é que o Deus de Israel,
revelado no Antigo Testamento, é o único Deus verdadeiro que é digno
da adoração exclusiva de todas as pessoas. Ele se revelou de várias for­
mas ao longo da História. Durante o período do Antigo Testamento,
falou por meio dos profetas; mas, em tempos mais recentes, revelou-se
mais completamente na pessoa de Jesus Cristo, a Palavra viva (Hb 1.1-2;
Jo 1.1-14). Como nos tempos antigos, a Palavra de Deus é digna de
nossa reverência. Os que aceitam essa Palavra acham graça diante de
Deus, mas aqueles que o rejeitam são condenados à destruição (Jo 3.16-
21; 14.6). Os que entre nós aceitaram a Palavra viva pela fé devem viver
de maneira coerente com essa confissão. Os que seguem a Palavra viva
são porta-vozes de Deus, responsáveis pela proclamação da Palavra ao
mundo (Rm 10.1-15). Quando somos perseguidos por causa da nossa
fé e testemunho, somos consolados pela promessa de que o Senhor, por
fim, defenderá os seus, exatamente como ele fez com os profetas do
passado (2Ts 1.5-10).
Interpretação dos livros históricos
2. A autorrevelação de Deus na história se compara/contrasta com sua
autorrevelação na Bíblia como um todo?
Deus se revela na história como juiz que responde resolutamente ao
legítimo apelo de Eliseu, seu servo perseguido. E verdade que a puni­
ção é severa; mas, como nos lembra C. S. Lewis em suas Crônicas de
Nãrnia, Deus não é um leão domesticado (ou talvez devêssemos dizer
“urso”!). Sua paciência não deve ser posta à prova. Ele tem o direito,
como rei que foi ofendido, de punir os rebeldes quando e como ele
achar melhor. A história nos lembra de que Deus nem sempre agrada
ou protege. Ele defende seus fiéis seguidores; pois, em última análise,
um ataque a eles é um ataque contra Deus.

3. A história serve para esclarecer sobre como as pessoas devem res­


ponder e se relacionar com Deus? Como devemos julgar as respos­
tas humanas que vemos na história à luz dos princípios que vemos
na Bíblia toda?
Os que decidem se tomar inimigos de Deus e desonram sua Palavra
revelada irão morrer eventualmente. Opor-se ao(s) mensageiro(s) de
Deus é opor-se ao próprio Deus (Mt 25.40).
A história retrata o profeta invocando uma maldição sobre seus ini­
migos. É certo aos cristãos perseguidos fazerem o mesmo atualmente?
O Novo Testamento mostra que os cristãos não têm que responder à
perseguição dessa maneira (Mt 5.44-45; Lc 6.28; Rm 12.14). Isso não
significa que aqueles que amaldiçoaram seus inimigos estavam errados
ao agir assim. Nem quer dizer que os cristãos não devem ansiar por um
tempo em que Deus tomará vingança (2Ts 1.5-10). No entanto, nessa
época presente, quando Deus suspende temporariamente o julgamen­
to enquanto proclama uma mensagem de paz e de reconciliação pela
cruz de Cristo (Ef 2.14-18), ele deseja que seus seguidores e mensagei­
ros reflitam a paciência e a misericórdia dele para com seus inimigos.
Assim sendo, embora esse episódio da carreira de Eliseu seja instrutivo
para nós, ele não nos dá um exemplo de como devemos reagir para
com os nossos inimigos.

4. Como a história deve ser julgada à luz da ênfase cristológica e dos


temas da Bíblia? (vd. nossos comentários no na 1 na p. 165).
Tendo considerado os princípios teológicos da história, estamos
agora em condições de propor uma ideia de aplicação para nossa pas­
sagem. Nossa discussão revelou dois temas correlatos. Se atentarmos
para o fim dos meninos, vemos o seguinte princípio para aplicação:
“O desrespeito à Palavra de Deus leva à morte”. Se nosso enfoque for
Do texto à aplicação: dois exemplos 167
na maneira como Deus defendeu seu profeta, vemos este princípio:
“Deus defende seus porta-vozes quando são perseguidos”. Podemos
combinar os dois princípios em uma única afirmação: “O desrespei­
to à Palavra de Deus leva à morte, pois Deus defende seus porta-
vozes quando são perseguidos”.
UMA LUZ NAS TREVAS:
MANIFESTAÇÃO DE AMOR SACRIFICIAL (Rt 1)
O QUE O TEXTO É? O QUE O TEXTO DIZ?

Por causa do espaço limitado, não podemos fazer uma análise exegética
detalhada de Rute 1. O aparato crítico do texto da BHS tem nove notas de
crítica do texto para esse capítulo. Nenhuma delas afeta a interpretação de
forma significativo.169Talvez a questão textual mais importante esteja no verso
21, em que a Septuaginta tem “ele me humilhou” em oposição à hebraica “ele
testificou contra mim”. Temos aí um problema de vocalização. O texto hebraico
tem a forma Qal H31J, enquanto que a Septuaginta supõe um homônimo, que
na raiz Piei (H3U) significa “humilhar”.170
Sobre os vários problemas gramaticais e lexicais relacionados à tradução
do texto, as seguintes perguntas são de particular importância:
1. Qual é o sentido do termo hebraico “I0n, comumente definido como
“benevolência, amor fiel” (v. 8)? Quando colocado com a frase DI7
“fazer com” , qual é o seu sentido?
2. Como a expressão de comparação está funcionando na frase D3D "7XÍ2
literalmente, “a mim me amarga demasiadamente por vós”
(v. 13)? Noemi está indicando que o seu sofrimento excède o de suas
noras ou está dizendo que o sofrimento dela é demasiado para as noras
suportar?
3. rPlj^N (v. 15) é um plural numérico verdadeiro (“seus deuses”) ou
simplesmente um plural de grau (“seu deus”), talvez com referência a
Quemos, o patrono dos deuses moabitas?
4. Como se deve traduzir a segunda metade do juramento de Rute
(v. 17b): “se qualquer coisa que não a morte me separar de ti” ou “mes­
mo que a morte me separe de ti”?
5. O que significam os nomes 'ÇW, “Noemi” e “Mara” (v. 20)?
6. Qual é exatamente a nuance de sentido do verbo 1n n (v. 21)?
O QUE O TEXTO QUERIA DIZER?

Aqui, olhamos a passagem sob um ângulo literário, considerando as vári­


as questões que discutimos no capítulo 4. Por ser conveniente, repetimos aqui
aquela lista, ilustrando o método proposto.
168 Interpretação dos livros históricos
Coloque o texto em seu contexto
De acordo com o cabeçalho do livro (v. 1), essa história aconteceu durante
a época dos juizes. Foi um período de treva moral na história de Israel, quando
a maioria das pessoas seguia seus próprios códigos de moral e de ética, em vez
dos padrões do Senhor estabelecidos em sua lei (Jz 17.6; 21.25). Como infor­
mação sobre o sentido literário do contexto temporal do livro, leia nossos co­
mentários no ponto ne 1, sob o título “Avalie o texto numa perspectiva literá­
ria” a seguir. Nossa passagem contém o primeiro ato da história. A história é
autônoma e não é parte de uma unidade literária mais ampla, embora o cabeça­
lho do livro nos convide a comparar e contrastar o que acontece na história
com os incidentes registrados no livro de Juizes.
Analise o texto do ponto de vista literário
1. Analise os elementos básicos da narrativa (espaço, personagens, enre­
do) e determine como eles contribuem para sua mensagem.
O contexto temporal da história (a época dos juizes) tem grande
significado literário. O cabeçalho exibe um contexto sombrio para a
inspiradora história que vem em seguida. Numa época em que as pes­
soas eram egoístas e se recusavam a seguir a bússola moral que Deus
lhes tinha dado, essa história narra sobre uma mulher (além disso, uma
não-israelita!) que demonstra amor genuíno por sua sogra e por seu
marido que falecera. Seus atos se colocam em nítido contraste com o
caos moral que caracterizava essa época.
Noemi é a personagem central. A história começa com sua retirada
para Moabe, juntamente com sua família (1.1-2), e termina com ela
segurando um neto que é a expressão da bênção de Deus (4.16-17).
Noemi manifesta uma série de emoções humanas, que variam desde
uma profunda amargura até uma grande alegria e, portanto, pode ser
considerada uma personagem esférica.
Rute também é um personagem importante na história. O desejo
que a impulsiona é ajudar Noemi e dar descendência a seu marido
falecido, para que a linhagem da família dele pudesse permanecer. Ela
pode ser considerada um tipo que personifica a lealdade e coloca as
necessidades dos outros acima do seu próprio bem-estar.
Vários outros personagens aparecem no capítulo 1. O marido
(Elimeleque) e os filhos (Malom e Quiliom) de Noemi são simples
agentes, cujas mortes deixam Noemi em uma situação crítica: viúva
alienígena numa terra estrangeira. Eles não falam na história e as únicas
ações atribuídas a eles são a mudança para Moabe, o casamento (no
caso dos dois filhos) e a morte. Orfa, outro agente da história, cumpre
uma função literária importante como contraste de Rute. Sua mera
Do texto à aplicação: dois exemplos 169
bondade (cfr. 1.8) faz contraste e realça a magnitude de Rute. As mu­
lheres da cidade (v. 20) funcionam como uma ressonância de Noemi.
Embora sejam meros agentes, elas têm um papel significativo na histó­
ria. No capítulo 1, elas ouvem o lamento e a acusação que Noemi faz
contra Deus; mas, no capítulo 4, elas corrigem a perspectiva de Noemi
(4.14-15) quando louvam a Deus e a fazem lembrar de que afinal de
contas ela não retornou de Moabe com as mãos vazias (cfr. 1.21).
A história tem uma estrutura de enredo cômica, em que Noemi é
liberta de seu sofrimento e acaba sendo abençoada. A tensão é intro­
duzida na história quase imediatamente, em primeiro lugar através
da referência à fome, que tira Noemi e sua família da terra natal e a
seguir através da morte dos homens, que deixam Noemi aparente­
mente sozinha e vulnerável numa terra estrangeira. A superação da
fome (1.6, 22) traz um vislumbre de esperança, bem como a determi­
nação tenaz e zelosa de Rute em permanecer com Noemi. O enredo
caminha para a solução com o encontro de Rute e Boaz, embora com
reviravoltas potenciais antes da resolução, que ocorre no capítulo 4.
O capítulo 1, que é o foco do nosso estudo, contribui para o enredo
introduzindo e aumentando a tensão da história, mas também a
encaminhando para o desfecho. O capítulo encerra com Noemi e
Rute chegando a Belém no início da colheita da cevada. Onde ha­
via fome e morte, o Senhor restaurou a fertilidade e a vida para seu
povo. Não se pode deixar de perguntar: ele fará o mesmo para as
viúvas Noemi e Rute?

2. Identifique a estrutura do discurso, a estrutura dramática e outros


traços estruturais e explique como eles contribuem para a mensagem e
o impacto da história.
Podemos esquematizar a estrutura discursiva do texto da seguinte
maneira:171
Verso Estrutura do discurso Tipo de oração

1a Nos dias em que julgavam os juizes, Introdutória

1b houve fome na terra, Introdutória

1c e um homem de Belém de Judá, com sua mulher e Iniciatória


seus dois filhos, saiu para morar na terra de Moabe
por um tempo.

2a 0 homem se chamava Elimeleque, Suplementar

2b sua mulher, Noemi Suplementar


170 Interpretação dos livros históricos

2c e os dois filhos se chamavam Malom e Suplementar


Quiliom.

2d Eles eram efrateus, de Belém de Judá. Suplementar

2e Vieram a Moabe Ressuntivo-sequencial

2f e ficaram ali. Seqüencial

3a Ora, Elimeleque, marido de Noemi, morreu, Seqüencial

3b E ela ficou com seus dois filhos. Consequencial

4a Eles se casaram com mulheres moabitas, Seqüencial

4b uma chamava-se Orfa, Suplementar

4c e a outra, Rute. Suplementar

4d Ficaram ali quase dez anos, Ressuntivo-sequencial

5a mas tanto Malom como Quiliom também Seqüencial


morreram,

5b e Noemi ficou sem seus dois filhos e sem Consequencial


seu marido.

6a Então ela se levantou com suas noras Iniciatória e seqüencial

6b e voltou da terra de Moabe, pois ouvira em Seqüencial


Moabe que o S e n h o r se lembrara do seu
povo, dando-lhe alimento.

7a Ela saiu do lugar onde estivera morando Focalizadora ou seqüencial


(vd. comentário a seguir)

7b (suas duas noras estavam com elas) Suplementar

7c e iniciaram a viagem de volta à terra de Judá. Ressuntivo-sequencial

8a Então disse Noemi às suas duas noras: Seqüencial

8b “Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe.

8c Que o S e n h o r use de benevolência para


convosco, como vós usastes com os que
morreram e comigo.

9a Que o S e n h o r v o s faça felizes, cada uma


em casa de seu marido".
Do texto à aplicação: dois exemplos 171

9b E as beijou Seqüencial

9c e elas choraram em voz alta Seqüencial

10a e lhe disseram: Seqüencial

10b “Iremos contigo ao teu povo”.

11a Porém, Noemi disse: Seqüencial

11b “Voltai para casa, minhas filhas. Por que irieis


comigo? Terei ainda mais filhos para que
sejam seus maridos?

12 Voltai, minhas filhas; sou velha demais para


ter marido. Mesmo que eu acreditasse que
ainda haveria esperança para mim - mesmo
que esta noite eu tivesse um marido e então
gerasse filhos -

13 Esperaríeis até eles crescerem?


Permaneceríeis sem marido por causa deles?
Não, minhas filhas. É mais amargo para mim
do que para vós, porque a mão do S e n h o r se
estendeu contra mim1”.

14a Naquele momento, elas choraram de novo, Seqüencial

14b e então Orfa despediu-se de sua sogra com Seqüencial


um beijo,

14c porém Rute apegou-se a ela. Contrastiva

15a Disse Noemi: Seqüencial

15b “Vê, tua cunhada está voltando ao seu povo


e aos seus deuses. Volta com ela”.

16a Disse, porém, Rute: Seqüencial

16b “Não me instes para te deixar e não te seguir.


Onde fores, eu irei, e onde ficares, eu ficarei.
Teu povo será o meu povo e teu Deus o meu
Deus.

17 Onde morreres, morrerei eu e ali serei


sepultada. Faça o S e n h o r o que bem lhe
agradar, se qualquer coisa que não seja a
morte me separar de ti”.
172 Interpretação dos livros históricos

18a Noemi, vendo que Rute estava resolvida a


acompanhá-la, Seqüencial

18b deixou de insistir com ela. Seqüencial

19a Então, as duas mulheres se foram até que Seqüencial


chegaram em Belém.

19b Ao chegarem em Belém, Introdutória

19c toda a cidade se comoveu por causa delas, Iniciatória

19d e as mulheres diziam: Seqüencial

19e “Esta não é Noemi?”.

20a Ela lhes dizia: Seqüencial

20b “Não me chameis Noemi. Chamai-me Mara,


porque o Todo-Poderoso me deu grande
amargura.

21 Eu parti satisfeita, porém o S e n h o r me fez


voltar pobre. Porque me chamareis Noemi?
O S e n h o r me afligiu; o Todo-Poderoso trouxe
sobre mim a desventura”.

22a Assim voltou Noemi da terra de Moabe Sintetizadora

22b acompanhada de sua nora Rute, que era Suplementar


moabita,

22c chegando em Belém no início da colheita Conclusiva


da cevada.

Comentários sobre a estrutura discursiva


a. A oração disjuntiva no verso 4b é assindética (a conjunção inicial é
omitida).
b. A oração wayyiqtol no verso 6a, embora dê continuidade à história em
andamento, começa a ação do episódio e dessa cena inicial.
c. A oração wayyiqtol do verso 6b é de difícil análise. Poderia ser a síntese
da história que se segue (Noemi retornou; cfr. v. 22). Nesse caso, a
oração wayyiqtol do verso 7a inicia um relato mais focalizado e mais
detalhado do retorno de Noemi. Outra opção é entender a seqüência
vebal (ela se levantou... e ela voltou) como uma locução que tem um
efeito ingressivo, “ela se levantou para retornar” ou “ela iniciou a via­
gem de volta”. Nesse caso, o verso 7a é apenas seqüencial.
Do texto à aplicação: dois exemplos 173
d. Literalmente, o verso 9c diz: “e elas ergueram sua(s) voz(es) e chora­
ram”. Há duas orações wayyiqtol aí, mas a construção é vista como uma
oração única no esquema dado. (vd. também v.l4a).
e. A oração disjuntiva no verso 14c estabelece um contraste entre a ação
de Rute e o beijo de despedida de Orfa.
f. A oração wayyiehi no verso 19b marca o início de uma nova cena, com
a oração wayyiqtol do verso 19c iniciando a ação dessa cena.
g. A oração wayyiqtol no verso 22a tem função de sintetizar, enquanto
que a oração disjuntiva do verso 22c indica o desfecho do primeiro ato
da história.

O capítulo 1 é o primeiro ato de um drama em quatro atos.172No interior


do capítulo, pode-se depreender duas unidades principais. Os versos 1-5 são
um prólogo que fornece detalhes do contexto da história. As referências ao
retomo de Noemi à sua terra natal delimitam a segunda unidade literária
(observe os enunciados sintetizadores nos v. 6b a 22a), que é um episódio com
uma oração disjuntiva no verso 22c marcando formalmente o desfecho. No
interior dessa unidade literária, a oração 'iTl no verso 19b marca formalmente
uma nova cena. Podemos esquematizar essa estrutura da seguinte forma:

Prólogo (v. 1-5)


Episódio 1 (do livro) (v. 6-22)
Cena 1 (v. 6-19a)
Cena 2 (v. 19b-22)

3. Analise as citações e os diálogos da narrativa no que diz respeito ao


tipo de discurso e à função da linguagem.
Esse capítulo contém várias citações. Nos versos 8-9, Noemi insiste
para que suas noras voltem para Moabe e declara uma bênção sobre
elas, por terem agido com benevolência para com ela. Esse é um dis­
curso exortativo; a bênção formal é um discurso performativo e dinâ­
mico. Abençoando as noras, Noemi demonstra que elas têm sido leais
e merecem recompensa. Certa de que elas cumpriram seu dever, Noemi
pensou que elas queriam agir de acordo com o bom senso e ir para casa.
A resposta breve, porém firme, das noras, no verso 10, é um discurso
profético com uma função dinâmica e emotiva. As mulheres expres­
sam sua firme lealdade a Noemi e com isso esperam convencê-la a per­
mitir que elas a acompanhem na volta para Judá.
A longa resposta de Noemi nos versos 11-13 é um discurso exortativo
e expositivo. Uma vez mais ela insiste para que elas voltem para casa;
Interpretação dos livros históricos
mas, desta vez também, prepara um argumento convincente para mos­
trar por que elas deveriam agir dessa maneira. A linguagem tem função
persuasivo-dinâmica. Seu argumento causa o efeito desejado em Orfa,
mas Rute faz a seguir um longo discurso que é tanto exortativo quanto
profético (v. 16-17). Seu juramento é performativo e tem função dinâ­
mica. Num momento anterior nesse capítulo, o uso da linguagem
performativa por Noemi não dissuade as mulheres (cfr. v. 10), mas a
autoimprecação de Rute tem seu efeito almejado em Noemi, que desis­
te e permite que ela a acompanhe (v. 18).
Quando Noemi chega à cidade, as mulheres lhe fazem uma breve
pergunta (v. 19) que expressa o impacto delas com a chegada de Noemi
em cena, após uma longa ausência. A longa resposta de Noemi (v. 20-21)
é tanto exortativa (ela solicita que a chamem de um nome diferente)
quanto expositiva (ela dá uma justificativa convincente para a mudan­
ça de nome). A função que melhor define suas palavras é a emotiva -
ela dá vazão às suas emoções, expressando seu desapontamento e seu
sentimento de que é inimiga de Deus.

4. Evite excessos quando preencher lacunas, mas não tenha receio de ten­
tar uma solução para a ambigüidade de uma maneira cuidadosa, levan­
do em conta o contexto e o bom senso.
Por que os homens morreram? Alguns presumem, baseados em parte
nas declarações de Noemi nos versos 13 e 20-21, que o Senhor julgou
Elimeleque por ter deixado a terra prometida e castigou Malom e
Quiliom por ter casado com mulheres estrangeiras. Noemi acha que o
Senhor é responsável pela morte de seu marido e de seus filhos. Ela está
certa? Ao interpretarmos literatura narrativa, não devemos presumir
que as falas das personagens reflitam o ponto de vista do escritor.
O intérprete deve avaliar as falas à luz do contexto e do(s) tema(s) da
história ou do livro em geral. Quando se estuda o livro de Rute, nota-
se que o escritor não atribui as mortes a Deus, nem o coloca no papel
de antagonista. Ao contrário, o escritor o apresenta como aliado de
Noemi e como sua fonte de bênção. A esse respeito, nota-se que não se
atribui a fome ao Senhor (cfr. 1.1), mas ele se caracteriza como aquele
que traz alívio da fome (1.6). Embora Noemi alegue que Deus a esco­
lheu para ser castigada (1.20-21), uma observação objetiva a vê como
um alvo da bênção divina (4.14). Consequentemente, convém evitar a
tentação de preencher essa lacuna na história. Não podemos partir do
princípio de que Deus abateu Elimeleque e seus filhos. O contexto
indica que não.173
texto à aplicação: dois exemplos 175
5. Respeite a autoridade do escritor e procure identificar a avaliação que
ele faz dos eventos e dos personagens. No entanto, esteja também aten­
to ao uso retórico de uma perspectiva limitada e/ou idealizada.
Como observamos anteriormente (vd. n2 4), deve-se respeitar o si­
lêncio do escritor e não supor que ele concorda com a avaliação que
Noemi faz da situação dela. O escritor parece agir em oposição a Noemi;
ele não atribui a fome e as mortes a Deus, antes, o apresenta como
alguém que abençoa o povo a restaura a fertilidade e a vida.

6. Relacione cada uma das histórias ao seu macroenredo e explique como


os vários gêneros no interior de um livro contribuem para sua mensa­
gem total.
O capítulo 1, como o primeiro do drama, levanta mais perguntas
do que respostas. Ao final do capítulo, ficamos com a pergunta: Noemi
está certa de imaginar Deus no papel de adversário? Deus irá restaurar
as forças dela como ele fez com Judá? O contexto seguinte irá respon­
der essas perguntas.

7. Seja sensível a questões de intertextualidade e à maneira como elas


contribuem para a mensagem da narrativa.
O discurso de Noemi às mulheres sofre um ajuste no capítulo 4.
Noemi lamenta que Deus a tenha atingido e deixado pobre. A declara­
ção é irônica, dado o fato de que a fiel Rute está logo ali ao seu lado,
comprometida com o bem-estar da sogra. As mulheres corrigem a pers­
pectiva de Noemi em 4.14-15, ao observarem que Deus a abençoou
com um parente-redentor para protegê-la na velhice. Elas também afir­
mam que Rute, que foi ignorada na primeira declaração de Noemi, é
melhor do que sete filhos.
A bênção de Noemi sobre Rute (1.8-9) é percebida à medida que a
história se desenvolve, mas não como prevista por Noemi. O Senhor
de fato dá a Rute um novo marido e um novo lar, mas em Judá, não em
Moabe. Ironicamente, o argumento aparentemente lógico de Noemi
de que ela não poderia dar a Rute um novo marido, mostra-se míope,
pois ela desconsiderou a possibilidade de um de seus parentes se casar
com Rute.
No interior do capítulo 1 há uma interessante interação de atos de
fala. A bênção de Noemi (v. 8-9) aparentemente libera Rute do relaci­
onamento e lhe garante a bênção de Deus, mas a maldição autoimposta
de Rute contrabalança e sobrepuja a bênção. Porém, ironicamente, o
juramento de Rute apoia a bênção de Noemi, por dar prova do seu
amor leal e do merecimento do favor divino.
176 Interpretação dos livros históricos
Faça a síntese do(s) tema(s) da história e como eles contribuem para o(sj
tema(s) do livro todo
O livro de Rute tem três temas correlatos:

1. A experiência de Noemi demonstra que o Senhor cuida dos necessita­


dos. Quando são abatidos e são vítimas das cruéis realidades do mundo
caído, Deus é o aliado deles e deseja transformar a tristeza em alegria.
2. O exemplo de Rute demonstra que Deus muitas vezes ajuda os neces­
sitados de maneira providencial, por meio de indivíduos comprometi­
dos que demonstram amor sacrificial.
3. O Senhor recompensa os que amam aos outros sacrificialmente, geral­
mente, de maneiras que vão muito além da imaginação deles e que
transcendem o seu tempo de vida.

Dentro desse arcabouço temático, o capítulo 1 dá uma importante con­


tribuição à história. Noemi tenta convencer Rute a deixá-la, argumentando
que seu sofrimento é pesado demais para os ombros de Rute e que Deus a fizera
alvo de seu julgamento. Em outras palavras, a permanência de Rute com Noemi
não significaria nada além de dor e possivelmente até morte. Todavia, Rute sela
seu compromisso com um juramento, dando-nos um modelo de amor sacrificial
que está pronto para correr riscos e entregar-se, a despeito do que aparenta ser
perfeitamente lógico. Quando Noemi posteriormente lamenta o fato de ter
retornado pobre, faz-nos lembrar de que o amor sacrificial às vezes não é valo­
rizado por quem o recebe.

Avalie como a história deve ter impactado o(s) leitor(es) implícito(s), conside­
rando sua época, seu lugar e suas circunstâncias
A história deve ter feito os leitores antigos se lembrarem de que Deus
espera que seu povo ame o seu próximo, mesmo quando isso parecer difícil e
perigoso. O livro desafia os leitores a estender a mão ao que é pobre e vulnerá­
vel e assumir com seriedade sua responsabilidade no seu contexto social. Em
qualquer ponto da história de Israel, essa mensagem teria sido oportuna e coe­
rente com o que é vital na aliança de Deus.
O QUE O TEXTO SIGNIFICA PARA OS LEITORES DA COMUNIDADE DA FÉ EM
NOSSA ÉPOCA?

Essa é a etapa da aplicação, na qual o intérprete torna a mensagem do


texto relevante para a audiência contemporânea. Como observamos no capí­
tulo 5, um primeiro passo nesse processo é extrair princípios teológicos do
Do texto à aplicação: dois exemplos 177
texto. Ao fazermos isso com Rute 1, repetimos as quatro questões que sugeri­
mos como parte desse processo:

1. Como os temas da história levantados no processo interpretativo variam


e são desenvolvidos na Bíblia toda, especialmente no Novo Testamento?
O amor sacrificial está no centro da mensagem do evangelho do
Novo Testamento. Jesus diz que a lei toda pode ser resumida em dois
mandamentos: amar ao Senhor Deus e amar ao próximo (Mt 22.37-
39). Quando ele ordena aos discípulos que amem uns aos outros, ele os
adverte que a maior expressão de amor é dar a própria vida em favor
dos amigos (Jo 15.12-13). Isso implica que o amor genuíno pode ofe­
recer riscos e até exigir o sacrifício extremo.

2. O que Deus revela sobre a sua pessoa na história? O que a história


mostra sobre a maneira como ele se relaciona com as pessoas? Como a
autorrevelação de Deus na história se compara/contrasta com sua
autorrevelação na Bíblia toda?
A única ação divina mencionada pelo escritor é uma ação graciosa -
Deus vem em socorro do seu povo e reverte os efeitos da fome (1.6).
Noemi vê Deus como alguém que recompensa o que é digno (1.8-9),
embora ela também o descreva como o inimigo que a afligiu matando
seu marido e seus filhos (1.13,20-21). Como se observou anteriormen­
te, o capítulo nos deixa querendo saber se ela está correta. O restante
do livro soluciona essa questão à medida que descreve o Senhor como
rei justo que ampara o necessitado (cfr. SI 146.7-9) e recompensa os
que demonstram amor leal aos outros (SI 18.25).

3. A história dá alguma ideia de como as pessoas devem responder e se


relacionar com Deus? Como devemos julgar as respostas humanas que
vemos na história à luz dos princípios que vemos na Bíblia toda?
Quando provamos uma grande dor e uma tragédia pessoal, não
devemos necessariamente atribuir esses acontecimentos a Deus, nem
devemos lançá-lo no papel de inimigo. Quando vemos pessoas que se
sentem como alvos da ira divina, devemos estender a mão em amor a
elas, tornando-nos instrumentos de Deus para erguê-las das profundezas
do desespero.

4. Como a história deve ser avaliada à luz da ênfase cristológica e dos


temas da Bíblia?
O amor sacrificial de Rute prefigura o amor sacrificial de Cristo, o
qual devemos imitar.
178 Interpretação dos livros históricos
Tendo analisado os princípios teológicos da história, estamos agora em
condições de propor uma sugestão de aplicação da nossa passagem. Talvez seja
possível sintetizar os princípios da aplicação do livro de Rute da seguinte
maneira: primeiramente, quando experimentamos dor e tragédia, temos
conforto no fato de que Deus está ao nosso lado e não contra nós. Ele ampara
o necessitado. Em segundo lugar, devemos amar sacrificialmente o necessitado,
pois o Senhor suprirá as necessidades deles por meio de nós e nos recompensará
ricamente pelo nosso empenho.
O capítulo 1 contribui para a compreensão de ambos os temas. Apesar
da acusação de Noemi contra Deus, ele surge no contexto como aquele que
traz alívio da fome e não o que causa a fome. Quando Rute se apega tenazmente
a Noemi, somos advertidos de que o amor sacrificial requer grande coragem
moral e compromisso, pois pode ser arriscado. Podemos agora combinar os
dois princípios de aplicação do capítulo 1 numa única afirmação: quando as
pessoas estão passando por uma tragédia e se sentem rejeitadas por Deus,
devemos lhes estender a mão em amor, mesmo que esse amor seja talvez arriscado
e não seja valorizado.
Neste capítulo, demos exemplo de uma estratégia para interpretar os
livros históricos. Resumindo, o método proposto tem três etapas básicas que
respondem a questões fundamentais sobre o sentido do texto:

1. O que o texto é? O que o texto diz? Essa etapa compreende uma análise
lexical, sintática e uma análise crítica do texto.
2. O que o texto significou? Nessa etapa, o intérprete estuda o texto do
ponto de vista literário, levanta os temas da narrativa e avalia como o
texto teria impactado seu(s) leitor(es) implícito(s).
3. Qual é o significado do texto para os leitores da com unidade da f é em nossa
época? Esse estágio final do processo procura levantar os princípios te­
ológicos e estabelecer trajetórias homiléticas que servem de base para
uma aplicação contemporânea.

Esse método alicerça a aplicação contemporânea no sentido original do


texto, como concebido por seu Autor divino. Quando, dessa maneira, a procla­
mação moderna é corretamente fundamentada, ela tem o alicerce fortalecido
pela autoridade da Escritura e tem o poder de transformar corações, mentes e
vidas. Esse deve ser o alvo fundamental do intérprete, pois é a razão principal
por que Deus nos deu as Escrituras:
Toda a Escritura é inspirada por D eus e útil para o ensino, para a repreensão,
para a correção, para a educação na ju stiça, a fim de que o h o m em de Deus
seja p erfeito e perfeitam ente habilitad o para tó d a b o a obra. (2T m 3 .1 6 -1 7 )

G l o ssá r io

Agente —Personagem plano, secundário, que cumpre um papel limitado numa


história e cujo objetivo, na maioria das vezes, não é ser um modelo de
comportamento.
Antagonista —Alguém que se opõe ao personagem principal (ou protagonista)
de uma história.
Antropomórfico —Mecanismo literário ou expressão idiomática com que se
descreve Deus em termos humanos.
Audiência/leitores implícitos —O(s) leitor(es) imaginado(s) pelo(s) autor(es)
original(ais) de um texto.
Avaliatória (função da linguagem) - Quando um interlocutor avalia e expressa
um juízo sobre uma pessoa ou situação.
Cena —Uma divisão de um episódio. Registra um incidente que acontece num
lugar diferente e/ou numa ocasião diferente dos incidentes que a
precedem ou que a sucedem. Ver também episódio.
Contextualização - Falar ou agir de uma maneira que reflete o contexto cultural
e histórico do destinatário ou observador e que facilita a compreensão e
o relacionamento.
Contraste —Uma personagem que se coloca em contraste com outra
personagem, destacando, dessa maneira, um ou mais traços ou
características desse último.
Crítica da fonte —Um método que procura identificar e distinguir as supostas
fontes literárias de um texto.
Crítica da forma - Um método que procura identificar o(s) gênero(s) de um
texto e a(s) situação(ões) de vida que deram origem a essas formas.
Crítica sincrônica - Métodos críticos que focalizam o significado do texto em
sua forma atual.
Crítica diacrônica - Métodos de crítica que dão ênfase à origem, às fontes e à
gênese do texto.
Culto - Um sistema de ritual e adoração religiosa formal.
180 Interpretação dos livros históricos
Desfecho — A maneira como o narrador conclui uma unidade literária ou
indica que a unidade está sendo concluída.
Dinâmica —Ver persuasivo-dinâmica.
Discurso exortativo - Quando um interlocutor conclama, ordena ou exorta
o(s) ouvinte(s) a agir(em) ou a deixar(em) de agir.
Discurso profético - Quando um interlocutor descreve o que ele prevê que irá
acontecer.
Eco —Uma situação em que, por escolha do narrador, um episódio dentro da
narrativa maior faz eco com um episódio anterior, levando o leitor a
notar a semelhança, a fazer comparações e/ou contrastes e a inferir a
correspondência temática e teológica entre os episódios.
Enquadramento (Inclusio) —Um mecanismo literário em que certas palavras
ou frases aparecem tanto no início quanto na conclusão de uma unidade
literária, marcando-a como uma unidade estrutural distinta.
Episódio - Um incidente ou uma série de incidentes que formam uma sub-
unidade literária distinta em uma narrativa ou história. Um episódio
pode conter duas ou mais cenas. Ver também cenas.
Escatológico - Relativo a fatos futuros, especialmente os que representam a
culminação de uma era da história.
Esquema metafórico - Uma metáfora controladora (tal como um árbitro) que
determina como Deus se revela no discurso e nas ações. Tais metáforas
se destinam a facilitar a compreensão e geralmente refletem o
relacionamento de Deus com o destinatário ou observador.
Estrutura discursiva - Uma estrutura formal da narrativa, consistindo de
diversos tipos de orações integradas em parágrafos.
Estrutura do enredo —A estrutura do enredo de uma narrativa, que culmina
com a solução da complicação.
Estrutura dramática —A disposição das cenas e dos episódios de uma história,
por vezes reconhecida na estrutura discursiva da narrativa. Ver também
estrutura discursiva.
Evidência textual externa - Uma expressão usada pelos críticos textuais para
definir as provas textuais que dão apoio às diversas leituras do texto. Por
exemplo, pode-se descobrir que a leitura tradicional do texto de Hebreus
(leitura A) tem apoio na versão siríaca; ao passo que uma leitura
concorrente na Septuaginta (leitura B) tem apoio num manuscrito de
Qumran. Nesse caso, a evidência externa para a leitura A inclui o texto
hebraico e o siríaco, enquanto que a evidência externa para a leitura B
inclui a Septuaginta e o manuscrito de Qumran.
Forma canônica - A forma atual ou final do texto como se mostra no cânone
da Escritura, em contraste com uma forma hipotética que o texto pode
ter tido antes de ser colocado em seu lugar atual no cânone da Escritura.
Glossário 181
Função da linguagem —Ver função da enunciação.
Função da enunciação (ou da linguagem) - O(s) sentido(s) subjacente(s) ou
mais profundo(s) de um discurso, em contraste com sua função
superficial.
Haplografía —Quando uma letra, uma seqüência de letras ou uma palavra que
deve ser repetida é acidentalmente escrita apenas uma vez.
Imanência —Quando usado referindo-se a Deus, um termo que expressa o
fato de que Deus se relaciona e age dentro dos parâmetros de sua criação.
Informativa (função da linguagem) - Uma apresentação simples e objetiva,
cuja intenção é informar o(s) ouvinte(s) - como o noticiário sobre
meteorologia.
Intertextualidade —Uma situação em que há uma relação temática entre as
partes de um texto ou entre dois ou mais textos. No último caso, o
intérprete analisa como os textos posteriores se ajustam aos anteriores
ou interpretam-nos.
Jogo sonoro - O uso criativo de palavras cujo som é semelhante, mas que não
são necessariamente derivadas da mesma raiz.
Macroenredo. O(s) tema(s) e o mecanismo geral de uma narrativa ou história,
quando vistos como um todo composto de partes. É um enredo mais
amplo, que engloba, mas também transcende as unidades literárias
separadas; por exemplo, pode-se falar de um macroenredo do livro de
Gênesis.
Macroestrutura - A estrutura geral de uma narrativa ou história, quando vista
como um todo que se compõe de várias partes. E uma estrutura mais
ampla, que engloba, mas também transcende as unidades literárias
separadas.
Metonímia - A substituição de uma palavra ou frase por outra com a qual é
intimamente associada na realidade. Por exemplo, no enunciado “A Casa
Branca disse hoje”, a expressão “Casa Branca” é uma metonímia que se
refere ao presidente dos Estados Unidos, que lá reside. A metonímia
geralmente envolve uma relação de causa e efeito. Por exemplo, no
enunciado “o fumo pode matar você”, “o fumo” é uma metonímia da
causa pelo efeito (o câncer que ele produz).
Ontológico —Relativo ao ser ou à essência da pessoa ou da coisa.
Palavra-chave —Um termo ou uma frase que se repete para desenvolver temas
e reforçar a ironia e os contrastes.
Pan-israelita - A perspectiva literária de Juizes, que vê Israel como uma nação
unificada, em vez de meramente tribos separadas.
Performativa (função da linguagem) - Um ato de fala no qual o enunciado
apresenta um efeito não-linguístico.
182 Interpretação dos livros históricos
Perspectiva ou ponto de vista idealizado - Quando um narrador, por razões
retóricas e/ou teológicas, afasta-se da realidade histórica e por sua conta
impõe aos eventos uma perspectiva que promove um ideal teológico.
Persuasivo-dinâmica (função da linguagem) - Um ato de fala cujo objetivo é
causar impacto e mudar o ponto de vista do ouvinte e persuadi-lo a agir
de certa maneira.
Polissemismo - Quando uma palavra tem mais de um sentido.
Perspectiva limitada —Quando o narrador deixa sua perspectiva onisciente,
de quem tudo sabe, e assume, por razões retóricas, a perspectiva limitada
de um personagem da narrativa ou de um observador.
Providência-A maneira como Deus governa o mundo e indiretamente cumpre
seus propósitos na história humana, geralmente usando as decisões e
ações dos seres humanos.
Quiasmo - Uma estrutura literária simétrica na qual a segunda metade de
uma unidade literária reflete a primeira metade; tal estrutura é
denominada quiástica.
Sequenciamento de painéis —Um mecanismo literário estrutural, em que
elementos repetidos aparecem em movimentos sucessivos, produzindo
uma estrutura do tipo ABC//ABC.
Sobreposição temporal —Uma técnica literária em que o narrador justapõe
episódios ou cenas que se sobrepõem cronologicamente, em vez de
apresentar os eventos numa sucessão estritamente cronológica.
Tipo de discurso - Um tipo de enunciado que tem um propósito definido e
uma estrutura formal.
Tipologia narrativa —Um caso em que, por deliberação do narrador, um
personagem ou evento anterior fornece o modelo para um personagem
ou evento posterior na narrativa.
Transcendência —Quando se refere a Deus, um termo que expressa o fato de
que Deus existe acima de sua criação e não depende dela.
Notas
1 N a segunda parte da B íblia hebraica, os últimos Profetas são Isaías, Jeremias, Ezequiel e os
Doze (estes doze são os chamados Profetas M enores).
2 Para um a breve discussão sobre a formação do cânone do Antigo Testam ento, ver Paul D .
Wegner, The jou m ey form texts to tramlations: the origin and development o f the Bible
(Grand Rapids: Baker, 1 9 9 9 ), p. 1 0 1 -1 8 . Para uma análise mais com pleta do assunto,
ver Roger Beckw ith. The Old Testament canon o f the New Testament church and its
background in early judaism (Grand Rapids: Eerdmans, 1985).
3 Ver Leland Ryken, Howto read the Bible as literature (Grand Rapids: Zondervan, 1984), p. 35.
4 Ibid.
5 C onferir HALOT, 136 2 ; e Stanislav Segert, “Paronomasia in the Samson Narrative in
Judges xiii-x v i,” VT3 4 (1 9 8 4 ): 4 5 8 .
6 Para o texto, ver J . C . L. G ibson, Canaanite myths andlegends , 2 ed. (Edimburgo: T & T
Clark, 19 7 8 ), p. 115.
7 Ver ibid., p. 4 6 , 48.
8 Ver Fred E. Woods, Water and storm polem ics against baalism in the deuteronomic history
(Nova York: PeterLang, 19 9 4 ), p. 6 8 -6 9 .
9 Para um estudo da caracterização de Deus em Gênesis, ver W. Lee Humphreys, The
character o f God in the Book o f Genesis: a narrative appraisal (Louisville: W estm inster
Jo h n K nox, 2 0 0 1 ).
10 Para estudar a estrutura de narrativa do hebraico, ver Roy L. Heller, Narrative structure
and discourse constelations: an analysis ofclausefunction in biblical hebrew, Harvard Semitic
Studies 55 (W inonaLake, IN : Eisenbrauns, 1994); e DavidAllan Dawson, Text-linguistics
and biblical hebrew, JSO T u p 177 (Sheffield: Sheffield Academic, 1994).
11 Para uma análise mais detalhada do uso das formas do wayyiqtol no discurso narrativo
com exemplos das categorias propostas, ver Robert B . Chisholm Jr., From exegesis to
exposition: a p ra ctica lgu id e to using biblical hebrew (G rand R apids: Baker, 1 9 9 8 ),
p. 1 1 9 -2 3 ; B ill T. Arnold e Jo h n H . C h oi, A guide to biblical hebrew syntax (Nova York:
Cambridge University Press, 2 0 0 3 ), 84 -7 ; Christo H . J. van der Merwe, Jackie A. Naudé
e Jan H . Kroeze, Bruce K . W altke e M . 0 'C o n n o r , An introduction to biblical hebrew
syntax (W inona Lake, IN : Eisenbrauns, 1990), p. 5 4 7 -5 4 .
12A oração final do verso 3 com eça com um a estrutura disjuntiva (vav + sujeito + verbo),
mas parece ser um a extensão da oração causai que a precede (cf. G n 2 .5 ).
13 Sobre esse assunto, veja os com entários de Adele Berlin, Poetics and interpretation o f
biblical narrative (W inona Lake, IN : Eisenbrauns, 19 9 4 ), p. 71.
14 Ver Barry G . W ebb, The book oftheJudges: an integrated reading , JS O T S u p 4 6 (Sheffield:
Sheffield Academic Press, 1 9 8 7 ), p. 148-9.
184 Interpretação dos livros históricos
15 Essa estrutura, em bora de natureza repetitiva, é um a técn ica para contar história
particularmente eficaz quando contada oralmente. Somente após a invenção da imprensa,
possibilitou-se amplo acesso à leitura. As histórias da B íblia eram ouvidas e não lidas, na
maioria das vezes. M uitos mecanismos estruturais e técnicas retóricas das histórias bíblicas
refletem essa dimensão oral. Veja H . Van Dyke Parunak, “Oral Typesetting: Some Uses o f
Biblical Structure”, BiblicaGl (1 9 8 4 ): p. 1 53-68.
16 Para um a análise das estruturas com painéis em Juizes 1 6.6-21 e em 2Reis 1 .9 -1 5 , ver
R obert B. Chisholm Jr., Form exegesis to exposition: a practicalguide to using biblical
hebrew (Grand Rapids: Baker, 1998), p. 162-3.
17 O esquema citado é de Gordon H . Johnston, “A Funny T h in g Happened on the W ay to
the Gallows! Irony, Humor, and O ther Literary Features o f the B ook o f Esther”, em
Giving the sense: understandingand using Old Testament historical texts, David M . Howard
Jr. e M ichael A. Grisanti (org.) (Grand Rapids: Kregel, 2 0 0 3 ), p. 3 8 4 . Johnston amplia
o esquem a in clu in do episódios e propõe um a apurada estrutura sim étrica, que
corresponde aos episódios do livro.
18 Brichto chama a primeira dessas técnicas de técnica sinótica/ressuntiva. Ele explica:
“Basicamente, é o tratam ento duplo de um evento. A primeira narração do evento... é
geralmente mais breve (portanto sinótica ) do que a segunda e é uma unidade literária
independente, autônoma”. Ele acrescenta: “O segundo episódio, geralmente mais longo
do que o primeiro, pode ou não ser autossuficiente”. D e acordo com Brichto, pode-se
também usar os termos “concluinte” e “expansivo” para as respectivas abordagens. Ele
explica que a segunda abordagem faz “um relato mais detalhado (portanto, ressuntivo/
expansivo)de com o o primeiro episódio chegou àquele ponto (portanto, concluinte ) ”.
Ver H erbert Chanan Brichto, Toward a grammar o f biblical poetics: tales o fth e prophets
(Nova York: O xford University, 1992), p. 13-4.
19Ver um quadro que m ostra a ordem cronológica provável dos eventos desses capítulos em
R obert D . Bergen,1,2 Samuel, N A C (Nashville: Broadm an & H olm an, 1996), p. 2 8 5 .
20 Ver Philips Long, The reign and rejection ofK in g Saul: a case fo r Literary and theological
coherence, SBLDS 18 (Adanta: Scholars 1 9 8 9 ), p. 2 02.
21 Ver Robert E. Longacre, “ Weqatal Forms in Biblical Hebrew Prose: A Discourse-modular
Approach”, em Biblical hebrew and discourse linguistics, R. Bergen (org.) (W inona Lake,
IN : Eisenbrauns, 1 9 9 4 ), p. 5 1 -5 2 . Com o aponta Longacre, a forma verbal principal
nesse tipo de discurso é o weqatal (o perfeito com a consecutiva vav).
22 Bryan M . Rocine, Leaming biblical hebrew: a new approach using discourse analysis (Macon.
GA: Smyth & Helwys, 2 0 0 0 ), p. 3 18.
23 Ver Peter W. Macky, The centrality ofm etaphor to biblical thought (Lewiston, NY: Edwin
M ellen, 1990), p. 15.
24 Lista adaptada de Macky, The centrality ofm etaphor to biblical thought, p. 1 6 -1 7 ; e G . B.
Caird, The language and imagery o f the Bible (Filadélfia: Westminster, 1980), p. 7-3 6 .
O m itim os a categoria “explanatória” de M acky porque é mais com um em enunciados
modernos do que nas falas registradas na Bíblia.
25 Macky, The centrality ofm etaphor to biblical thought, p. 16.
26 Ibid.
27 Ibid.
28 Ibid.
29 Ibid. M acky cita os imperativos com o exemplo de “linguagem performativa”. Certamente,
com os imperativos, o locutor tem intenção de que se cumpra uma ação; mas a ação
desejada, em vez de ser produzida pela ordem, permanece na contingência da vontade do
Notas 185
ouvinte de responder positivamente. Por essa razão, os imperativos se apoiam com frequência
numa enunciação persuasiva e dinâmica, que tem função motivadora ou afirmadora.
30 Ibid., p. 17.
31 Gênesis 8 .8 ; Êxodo 4 .1 8 ; N úm eros 11.23; Ester 3 .4 ; Salmos 14.2 = 5 3 .2 ; Cântico dos
Cânticos 6 .1 1 . Em Números 11.23, ocorre a colocação de só dk ... n ... rwn, significando
“quer veja quer não”. A colocação de í ò dsi ... n (observe a conjunção com prefixo □«)
aparece apenas nesse texto e em Gênesis 4 .7 , onde (ao contrário de 18.21) vem após
uma oração interrogativa. N o entanto, em ambos os textos, há um contraste evidente
que se pode expressar com a tradução “se assim não é”, na segunda oração.
32 Ver, por exemplo, Paul H elm , The providence ofG od (Downers Grove, IL: InterVarsity,
1 994), p. 52, que cita Calvino a respeito desse assunto.
33 A linguagem do verso 21 reflete isso e está associada em outro lugar a adjudicar. Vários
textos associam ver (nso) com julgar (Êx 5 .2 1 ; IS m 2 4 .1 5 ; 2 C r 19.6; Lm 3 .5 9 ), ao
passo que Êxodo 3 .9 fala do “clam or” do povo (nj?»s) que chega até (»1a Sx) o Senhor,
associado ao seu ato de ver (n»o) a opressão dos seus filhos.
34 Ver Terence E. Fretheim , The suffering ofG od: an Old Testament perspective (Filadélfia:
Fortress Press, 19 8 4 ), p. 4 9 -5 0 , assim com o Samuel E. Balentine, Prayer in the hebretv
bible: the drama o f divine-human dialogue (M ineápolis: Fortress, 1993), p. 145.
35 A oração substantiva após 'M T , “sei”, lê-se literalm ente “que tem ente a Deus (és) tu”.
A expressão s t , tem ente a Deus” é descritiva; com põe-se de um particípio

substantivo, em construto com o nome próprio qualificador, que funciona com o um


objeto e um genitivo descritivo. A expressão também aparece em Êxodo 18.21; Jó 1.1,
8; 2 .3 ; Salmos 6 6 .1 6 ; Eclesiastes 7-18; 8 .1 2 . Em cada exemplo, descreve o caráter e/ou
o estilo de vida de pessoas honestas que se abstêm do mal. O “tem or” em questão se
refere (m etonim icam ente) à reverência a Deus, que resulta em respeito, o qual é
demonstrado na obediência. Antes de confirm ar a promessa da sua aliança para Abraão,
Deus precisa saber se Abraão é esse tipo de pessoa. O caráter do teste é tal que irá trazer
essa qualidade, se presente na vida do patriarca, para o primeiro plano.
36 Por vezes, o verbo neo, “pôr à prova”, quando usado para a ação de Deus em provar seres
humanos, refere-se a um teste realizado em benefício da pessoa que está sendo provada
(p.ex., D t 8.1 6 ). No entanto, o verbo se refere, com mais frequência, a um teste realizado
para o interesse de quem aplica o teste. Em cada caso, uma oração subordinada, que
geralmente emprega um forma infinitiva Qalào verbo d t, “conhecer”, torna isso evidente:
Êxodo 16.4; Deuteronôm io 8 .2 ; 13.3; Juizes 2 .2 2 ; 3 .4 ; 2Crônicas 3 2 .3 1 . (Em Êxodo
16.4 e Juizes 2 .2 2 , a oração é introduzida pelo interrogativo he .) Em Gênesis 2 2 .1 , não
aparece uma oração desse tipo, mas a declaração do anjo no verso 12 torna evidente o
propósito da prova, que é a obtenção de conhecim ento necessário para confirmar a
verdade. Quando usado para denotar a ação de seres humanos aplicando um teste, o
verbo tem também essa nuance —“teste com vistas à obtenção de conhecim ento” (vd. Jz
6 .3 9 ; lR s 10.1 [cf. v. 6 ]; E c 2 .1 ; 7 .2 3 ; D n 1.12, 14).
37 Devido à presença de n?n, “vê”??? 1 Samuel 2 4 .2 0 pode ser uma exceção. Saul pode estar
dizendo: “Agora [em oposição a antes] eu sei”, mas é possível que a construção coloque
uma base lógica para o que vem a seguir: “Agora vê, eu sei com toda a certeza que serás
rei... Portanto, ju ra-m e...”. Em Deuteronôm io 2 6 .1 0 , a construção nan nnç, “agora vê”,
introduz o que logicamente dá seqüência à afirmação anterior, ao passo que em Jeremias
4 0 .4 parece ressaltar o enunciado que vem depois.
38 Sobre o modelo da aliança de concessão, ver Moshe W einfeld, “T h e Covenant o f Grant
in the O ldTestam entand in the Ancient Near East”, JA O S 90 (1 9 7 0 ): p. 1 8 4 -2 0 3 .
186 Interpretação dos livros históricos
35 PRU , IV, 51 (17.3-40:1 l ’b -15 ’) (tradução do autor). Para ver outra tradução, ver Klaus Baltzer,
The covenantformulary, trad. de David E . Green (Filadélfia: Fortress, 1 9 7 1 ), p. 188.
State letters ofAssyria (New Haven, C T : American O riental Society,
40 R obert H . Pfieffer,
1935), p. 150 (letter 2 0 3 ).
41 Macky, Centrality ofm etaphor to biblical thought, p. 16.
42 M eir Sternberg, The poetics o f biblical narrative (Bloom ington, IN : Indiana University,
19 8 7 ), p. 188.
43 Ibid.
44 Ibid., p. 2 1 4 .
45 Richard G . Sm ith, “Jeh u s Revolt in D euteronom ic Perspective” (Tese T h .M , Dallas
Theological Seminary, 19 9 6 ), p. 8 8 -9 2 .
46 Ver um sumário de propostas em V ictor P. H am ilton, Handbook on the historical books
(Grand Rapids: Baker, 2 0 0 1 ), p. 122-3.
47 Ver V ictor H . Mathews, “Hospitality and H ostility in judges 4 ”, Biblical Theology Bulletin
21 (1 9 9 1 ): p. 16; bem com o seu com entário, Judges andRuth , New Cam bridge Bible
Com m entary (Cambridge: Cam bridge University, 2 0 0 4 ), p. 6 8 -7 3 .
48 Ver Robert G . 'QoYmg, Judges, A B (Nova York: Doubleday, 1 9 7 5 ), p. 97.
49 D . N . Fewell e D . M . Gunn, “Controling Perspectives: W omen, M en, and Authority o f
Violence in Judges 4 and 5, “Journal ofthe American Academy ofReligion 56 (1990), p. 396.
50 A L X X difere do texto hebraico aqui, registrando “e ele [Davi] veio a ela”.
51 Yairah A m it, Reading biblical narratives: literary criticism and the hebrew bible, trad. de
Israel Lotan (M ineápolis: Fortress, 2 0 0 1 ), p. 95.
52 Para uma proveitosa discussão sobre a perspectiva do narrador na história, ver Jo h n
Kessler, “Sexuality and Politics: T h e M o tif o f the Displaced Husband in the Books o f
Samuel”, C B Q 6 2 (2 0 0 0 ), p. 4 1 3 .
53 Ver Robert B. Chisholm Jr., “A Rethorical Use o f Point o f View in O ld Testament
Narrative”, BSac 159 (2 0 0 2 ), p. 4 0 4 -1 4 .
54 Ver Berlin, Poetics and interpretation o f biblical narrative, p. 91 -5 .
55 A A RA traduz: “... e eis que uma mulher estava deitada aos seus pés.” [N. do R .].
56 Ver ibid., p. 91-2.
57 Ver W ebb, The book o f Judges: an integrated reading, p. 9 0 . O Targum, incapaz de detectar
a ironia literária e, obviamente, prejudicado pelas implicações aparentes do enunciado,
traduz aqui: “porque pecaram, não foram capazes de expulsar”. Ver Robert H . 0 ’Connell,
The rethoric o f the book o f Judges (Leiden: Brill, 1 9 9 6 ), p. 4 4 7 .
58 Ver, por exemplo, Ernest Sellin e Georg Fohrer, Introduction to the Old Testament, trad.
de David E. Green (Nashville: Abingdon, 19 6 8 ), p. 2 0 7 .
59 Para mais informações sobre a perspectiva pan-israelita do livro, ver John Goldingay, Old
Testament theology, vol. 1, Israelsgospel (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2003), p. 531-3.
60 Sobre a relação literária e tem ática do capítulo 3 8 com o que imediatam ente o precede e
com o que o sucede, ver Robert Alter, A arte da narrativa bíblica (São Paulo, SP:
Com panhia das Letras, 2 0 0 7 ).
61 Observar o hebraico insoj?1?, “lhe saíram ao encontro”, tanto em Juizes 14.5 quanto em
1 5.14.
62 Ver Chisholm , From exegesis to exposition, p. 165.
63 Provavelmente, Sim ei e outros benjam itas acreditavam que Davi era responsável pela
m orte de Saul e de Jônatas (afinal de contas, Davi trabalhava para os filisteus na época
em que Saul morreu), de Abner (foi Joabe, sobrinho e braço direito de Davi, que o
matou) e de Isbosete (afinal de contas, os seus assassinos trouxeram a cabeça das vítimas
Notas 187
para Davi). Possivelmente, Simei se referia também, ao menos parcialmente, ao incidente
registrado em 2Sam uel 2 1 .1 -9 , que narra com o Davi, num ato de justiça e com a
aprovação do Senhor, entregou sete descendentes de Saul nas mãos dos gibeonitas para
serem executados.
64 Ver R obert B . C hisholm Jr., “T h e Role ofW om en in the Rhetorical Strategy o f the B ook
o f Judges”, em Integrity ofbeart, skillfulness ofhands: biblical and leadership studies in
honor o f D onaldK Campbell, Charles H . Dyer e Roy B . Z uck (org.) (Grand Rapids:
Baker, 1 9 9 4 ), p. 4 6 -4 9 .
65 N a Bíblia hebraica, a frase “ele viu uma mulher” aparece tanto em Juizes 16.1 com o em
2Sam uel 11.2; mas, em nenhum outro lugar entre esses dois textos.
66 Ver um quadro que mostra correspondências verbais entre Gênesis 19 e Juizes 19 em
D aniel I. VAoóí, Judges, Ruth, N A C (Nashville: Broadman & H olm an, 1 9 9 9 ), p. 53 2 -4 .
67 Ver Robert Polzin, D avid and the deuteronomist (Bloom ington, IN : Indiana University,
1 9 9 3 ), p. 136-8.
68 Dejá vu, do francês, que significa “já visto”, é um tipo de estado psicológico que dá à
pessoa a sensação de já ter visto pessoas ou objetos em algum lugar, ou de já ter vivenciado
alguma experiência [N. do R .].
69 Alter discute esse fenôm eno literário e postula o conceito de cenas-padrão para explicar
ao menos alguns exemplos. Ver Alter, Art o f biblical narrative, p. 4 7 -6 2 .
Reading biblical narratives, p. 1 00-01.
70 A m it,
71 Ver Long, Reign and rejection ofK in g Saul, p. 163.
72 O tem a do declínio da liderança cam inha simultaneamente com o subtema da mudança
de papéis femininos. Ver Robert B. Chisholm Jr., “T h e Role ofW om en in the Rethorical
Strategy o f the B o ok o f Judges”, em “Integrity ofheart, skilfulness ofhands: biblical and
leadership studies in honor o f Donald K. Campbell, Charles H . D yer e Roy B. Z u ck (org.)
(Grand Rapids: Baker, 1 9 9 4 ), p. 3 4 -4 9 .
73 Ver A ntti Laato, “Theodicy in the Deuteronomistic History”, em Theodicy in the world o f
the bible, A ntti Laato e Johannes C . de M oor (org.) (Leiden: E, J . Brill, 2 0 0 3 ), p. 193-6.
74Terence Fretheim, Deuteronomic history (Nashville: Abingdon, 1983), p. 98.
75 Ver Wolfgang Bluedorn, “Yahveh versus Baal: A Theological Reading ofthe Gideon-Abimelech
Narrative”, JS O T S u p 3 2 9 (Sheffield Academic Press, 2 0 0 1 ).
76 Parece que Dagom era o deus chefe dos filisteus (cf. IS m 5 .1 -7 ; lC r 10 .1 0 ). Em bora
uma interpretação mais antiga o considerasse um deus da pesca, é mais provável que ele
fosse uma divindade da meteorologia e da fertilidade, sendo responsável pela colheita.
dgn, em ugarítico, refere-se a “cereal”, e Baal, o deus da chuva, é chamado de filho de
Dagom . Ver uma discussão sobre a evidência extrabíblica e do Antigo Testam ento
relacionada com essa divindade em John Day, Yahveh and the Gods and goddesses o f
Canaan (Sheffield: Sheffield Academic Press, 2 0 0 0 ), p. 8 5 -9 0 . D ay acha que “cereal” é
provavelmente um sentido secundário de dgn em ugarítico e que o termo é ligado
etim ologicam ente à raiz verbal “estar nublado, chuvoso” (p. 8 7 -8 ). Segundo Day, “as
fontes mais recentes não relacionam especialmente Dagom com o cereal, embora sugiram
que Dagom fosse um deus da chuva e certamente um deus da chuva é, implicitamente,
um deus da fertilidade, de onde o milho seria obtido” (p. 88 ). Itam ar Singer prefere
considerar Dagan/Dagom fundamentalmente com o a divindade da terra e da vegetação”.
Ele vê qualquer traço relacionado à chuva “sem dúvida, com o secundário”. Ver seu livro
“Towards the Image o f D agon the G od o f the Philistines”, Syria 6 9 (1 9 9 2 ): p. 4 3 7 .
Singer argumenta que a evidência das inscrições cananeias, de Amarna e da Bíblia indicam
que D agan/D agom não era uma divindade cananeia original. Ele diz: “O acúmulo de
188 Interpretação dos livros históricos
evidências de várias fontes leva à inevitável conclusão de que os filisteus e outros povos
do M ar que se estabeleceram na Palestina não conheceram D agom com o um dos deuses
da terra, e obviamente não poderiam ter adotado o culto a esse deus em sua nova terra”
(p. 4 3 9 , grifo do autor). Singer indaga: “Nesse caso, com o Dagom se tornou o principal
deus dos filisteus?”. Ele sugere que eles adotaram esse deus dos fenícios ou que eles
“conheceram e adotaram o culto a Dagan/Dagom ” na Síria antes de tomarem direção
sul para Canaã e então “trouxeram D agom com eles” (p. 4 3 9 -4 0 ).
77 Guest mostra a im portância desse tema em Juizes. Ela investiga sua dimensão social,
política e religiosa. Ver Pauline Deryn Guest, “Dangerous Liaisons in the B ook o f Judges”,
S J O T l l (1 9 9 7 ), p. 2 4 1 -6 9 .
78 B lock sustenta que “a cananização de Israel” é “o tema unificador” de Juizes. Ver Daniel
I. Block, “Echo Narrative Technique in Hebrew Literature: A Study in Judges 1 9 ”,
W T J 52 (1 990), pp. 3 3 7 -4 1 ; assim com o iázm, Judges, Ruth, N A C (Nashville: Broadman
& H om an, 1999), p. 57 -9 .
79 Na Bíblia hebraica, o livro de Rute não faz parte dos Antigos Profetas, a parte do cânone
que narra a história de Israel. Esse pequeno livro, estabelecido no período de Juizes, aparece
na terceira parte do cânone hebraico, chamada de os Escritos. E um dos cinco Meguilotes
(ou rolos) junto com Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações e Ester. Em algumas
edições da Bíblia hebraica, Rute vem após Provérbios. Essa colocação é apropriada, pois
Boaz chama Rute de “mulher virtuosa” Cttt n w ), a mesma expressão usada para descrever
a “mulher virtuosa” de Provérbios 31.10-31 (vd. v. 10). Rute mostrava as qualidades descritas
em Provérbios 31. Ela tinha compromisso nos relacionamentos (tanto com M alom , seu
falecido marido quanto com sua sogra, Noemi) e era laboriosa.
80 Devido à centralidade e à im portância teológica de 1 e 2Sam uel, este estudo dedica mais
espaço a eles do que aos outros livros históricos.
81 U m a útil análise sobre com o a exigência de Israel por um rei era um a rejeição do Senhor
se encontra em Gerald E. Gerbrandt, Kingship according to the deuteronomistic history
(Adanta: Scholars, 19 8 6 ), p. 148-9.
82 Lyle M . Eslinger conclui que a expressão refere-se “à constituição monárquica’, que
subordina a m onarquia à teocracia”. Ele acrescenta: “É instalada diante de Jeová com o
um sinal de sua contínua supremacia política”. Ver Lyle M . Eslinger, Kingship ofG od in
crisis: a close reading o f ISamuel 1—12 (Sheffield: JS O T S u p , 1985), p. 3 5 5 . Em bora
Eslinger pareça não equiparar essa constituição com Deuteronôm io 1 7 .1 4 -2 0 , Ralph
W. K lein acha que é provável que a frase se refira a essa passagem. Ver Raph W. Klein,
1 Samuel, W B C (W aco, T X : W ord, 1983), p. 100.
83 A A RA traduz: “Tampouco para si multiplicará m ulheres...” [N. do R .].
84 Alguns entendem essa expressão com o um nom e próprio que se refere a Satanás, mas isso
parece ser improvável. Em outros lugares no Antigo Testam ento, refere-se a Satanás
com o título “o adversário” (observe o artigo definido; cf. Jó 1.6 -9 , 12; 2 .1 -4 , 6-7 ; Z c
3.1 -2 ). Quando o substantivo içá), “adversário”, aparece sem o artigo com o em lCrônicas
2 1 .1 , sempre se refere a um inimigo humano ou nacional, com exceção de Números
2 2 .2 2 , 32, onde se refere ao anjo do Senhor (cf. IS m 2 9 .4 ; 2Sm 19.22; l R s 5 .1 8 ; 11.14,
2 3 , 2 5 ; SI 109.6).
85 Raymond B . Dillard eTrem per Longman III, An introduction to the Old Testament (Grand
Rapids: Zondervan, 1994), p. 174-5.
86 Pode-se ver esse mesmo equilíbrio entre a soberania divina e a responsabilidade humana em
textos proféticos que prefiguram a restauração dos exilados. Ver Isaías 55.6-13; Jeremias
2 9 .1 1 -1 4 em relação a Jeremias 3 1.31-37; eEzequiel 18.31 em relação a Ezequiel 36.24-27.
Notas 189
87 A expressão hebraica usada aqui (nsj) Tan) significa literalmente “cancelar/anular um
plano”. A expressão tam bém é usada para a intervenção de Deus, em 2Sam uel 15.34;
1 7 .1 4 e salmo 3 3 .1 0 .
88 Ver nossa análise sobre a autoridade e a perspectiva do narrador no capítulo 1. A proposta
que se segue sobre a perspectiva do autor de Ester aparece de form a quase idêntica em
Robert B. Chisholm Jr., “A Rethorical Use o f Point o fV iew in O ldTestam ent Narrative”,
BSac 159 (2 0 0 2 ), p. 4 1 3 -4 .
89 Dillard e Longm an, Introduction to the Old Testament, p. 196.
90 G ordon H . Johnston, “A Funny T h in g Happened on the Way to the Gallows! Irony,
Hum or, and O ther Literary Features o f the B o ok o f Esther”, in Giving the sense:
understanding and using Old Testament historical texts, David M . Howard Jr. e M ichael
A. Grisanti (org.) (Grand Rapids: Kregel, 2 0 0 3 ), p. 3 8 3 -8 .
91 Ibid., p. 3 8 8 .
92 Lembrar que o livro de Rute é inserido nos Escritos, a terceira parte do cânone hebraico.
93 Um sumário de enfoques sobre a história deuteronômica se encontra em Bariy L. Bandstra,
Reading the Old Testament,
2 ed. (Belm ont CA: Wadsworth, 19 9 9 ), p. 2 0 6 -0 7 . Ver
também David M . Howard Jr., An introduction to the Old Testament historical books
(Chicago: Moody, 1 9 9 3 ), p. 1 79-82.
94 Ver Edwin Thiele, The mysterious numbers o fth e hebrew kings, 3 a ed. (Grand Rapids:
Zondervan, 1 9 8 3 ), p. 6 7 -7 8 .
95 A defesa dessa data relativamente precoce para o êxodo pode ser vista em Eugene H .
M errill, Kingdom ofpriests: a history ofO ld Testament Israel (Grand Rapids: Baker, 1987),
p. 6 6 -7 5 .
96 O que se apresenta a seguir é um estudo conciso, com o intuito de dar ao estudante uma
visão geral de fatos significativos que influenciaram a história de Israel, com o se registra
nos livros históricos canônicos. O leitor deve consultar os textos clássicos sobre o assunto,
para ter uma abordagem mais detalhada da história de Israel: V. Philips Long, David W.
Baker e Gordon J. W enham (org.), Windows into Old Testament history: evidence, argument
and crisis o f “biblical Israel’"(Grand Rapids: Eerdmans, 2 0 0 2 ); Jo h n Bright, A history o f
Israel, 4 ed. (Louisville: W estm inster John Knox, 2 0 0 0 ); W alter C. Kaiser, A history o f
Israel (Nashville: Broadsman & H olm an, 19 9 8 ); Eugene H . M errill, Kingdom ofpriests:
a history ofO ld Testament Israel (Grand Rapids: Baker, 1 9 8 7 ); Jam es Maxwell M iller,
A History ofAncient Israel and Judah (Filadélfia: Westminster, 19 8 6 ); e Iain W . Provan,
V Philips Long e Tremper Longman III, A biblical history o f Israel (Louisville: Westminster
Jo h n Knox, 2 0 0 3 ). Para uma história concisa do Antigo O riente M édio, ver W illiam W.
H allo e W illiam Kelly Sim pson, The Ancient Near East: a history, 2 ed. (Ft. W orth, T X :
H arcourt Brace, 1998).
97 Por razões de conveniência, todas as datas citadas neste capítulo, salvo indicação em
contrário, são as usadas por M erryll, Kingdom o f priests.
98 Moshe Greenberg, TheHab/piru (New Haven; American Oriental Society, 1955), p. 74-5.
99 Para as datas desses governantes hititas, ver O . R. Gurney, The Hitites, 2 a ed. (Baltimore:
Penguin Books, 19 5 4 ), p. 2 1 6 .
100 A N E T , p. 2 5 3 -4 ; C O S , 2 :2 7 -2 8 .
101 A N ET, p. 2 6 2 -3 .
102 Ibid., p. 2 5 -9 ; C O S , 1:8 9 -9 3 .
103 W ayneT. Pitard, Ancient Damascus (W inona Lake, IN : Eisenbrauns, 19 8 7 ), p. 82.
104 Para um estudo das relações entre israelitas e arameus durante esse período, ver ibid.,
p. 8 7 -9 7 .
190 Interpretação dos livros históricos
105 A N ET, p, 2 6 3 -4 .
106 H á evidência arqueológica que confirm a esse fato. Ver Pitard, Ancient Damascus, p. 108-
0 9 . Sobre a questão da data da campanha, ver ibid., p. 1 09-14.
107 A N ET, p. 3 2 0 -2 1 ; C O S , 2 :1 3 7 -1 3 8 .
108 Pitard, Ancient Damascus, p. 1 1 4 -2 5 , afirma que o material a respeito das guerras dos
arameus em IR eis 2 0 -2 R e is 8, na verdade, origina-se do período da dinastia de Jeú e
não da época da dinastia de O nri.
109 A N ET, p. 188.
110 Georges Roux, Ancient Iraq (Baltim ore: Penguin Books, 1966), p. 2 6 3 -4 .
111 A N ET, p. 2 7 7 -8 1 ; C O S , 2 :2 6 1 -2 6 4 .
112 Ver Pitard, Ancient Damascus, p. 128-9.
113 A N E T , p. 3 51.
114 A N ET, p. 2 8 1 .
115 Ibid ., p. 5 0 1 -0 2 ; C O S , 2 :1 5 5 .
116 A N ET, p. 2 8 2 -4 , C O S , 2 :2 8 4 -2 9 2 .
117 A N ET, p. 2 8 4 ; C O S , 2 :2 8 8 .
118 A N E T, p. 2 8 4 -7 ; C O S , 2 :2 9 5 -2 9 8 .
119 A N ET, p. 2 8 7 -8 8 ; C O S , 2 :3 0 2 -3 0 3 .
120 A n tti Laato, “Assyrian Propaganda and the Falsification o f H istory in the Royal
Inscriptions o f Senna cherib”, V T 4 5 (1 9 9 5 ): p. 19 8 -2 2 6 .
121 Alguns argum entam que, na verdade, houve duas invasões de Judá por Senaqueribe,
separadas por um espaço de quinze anos. D e acordo com esse ponto de vista, 2Reis
1 8 .1 4 -1 6 narra a primeira e 2R e is 1 8 .1 7 -1 9 .3 5 a segunda. Para apresentações, discussões
e críticas dessa opinião, ver, entre outros, Jo h n Bright, A history o f Israel, 3 ed. (Filadélfia:
Westminster, 1981), p. 2 8 4 -8 8 ; J . B. Geyer, “2 Kings X V III 1 4 -1 6 and the Annals o f
Sennacherib”, V T 21 (1 9 7 1 ): p. 6 0 4 -0 6 ; S. H . H orn, “D id Sennacherib Campaign
O nce or Twice against Hezekiah?”, A U SS 4 (1 9 6 6 ): p. 1-28; K. A. K itchen, “Late-
Egyptian Chronology and the Hebrew M onarchy”, JA N E C U 5 (1 9 7 3 ), p. 2 2 5 -3 3 ;
Merrill, Kingdom ofPriests, p. 4 1 4 -1 5 n. 7 4; e W. H . Shea, “Sennacheribs Second Palestine
Campaign”, JB L 104 (1 9 8 5 ), p. 4 0 1 -1 8 .
122 A N ET, p. 2 9 1 .
123 Ibid, p. 3 0 4 -0 5 .
124 Ibid, p. 3 05.
125 Ibid, p. 3 0 6 -0 7 ; C O S , 2 :3 1 4 -3 1 5 .
126 P Kyle M cC arter Jr., Textualcriticism (Filadéfia: Fortress, 1 9 8 6 ), p. 7 1 -5 .
127 Ralph W. Klein, Textual criticism o f the Old Testament: the Septuagint afier Qumran
(Filadélfia: Fortress, 19 7 4 ), p. 11-26.
128 Esse tipo de erro de cópia é bastante atestado em outros lugares. V d. IB I D ., p. 2 7 -2 9 .
A omissão da frase Tjsn b s, “na parede”, no texto hebraico do verso 14b pode também
ter sido acidental. U m olhar do escriba deve ter saltado do dakth final na palavra anterior
(irra , “com o pino”) para o resh bem semelhante no final de Tj?n, “a parede”, resultando
na omissão da frase prepositiva.
129 M cC arter, Textual criticism, p. 18-20.
130 H A LO T, p. 1 328-9.
131 Ver George W. Ramsey, “Is N am e-Giving an A ct o f D om ination in Genesis 2 .2 3 and
Elsewhere?”, C B Q 5 0 (1 9 8 8 ): p. 2 4 -3 5 .
132 Basil A. Rebera, “Yahweh or Boaz? Ruth 2 .2 0 Reconsidered”, The Bible translator 36
(1 9 8 5 ), p. 3 1 7 -2 7 .
Notas 191
133 M arc Zvi Brettler, The book o f Judges (Londres: Routledge, 2 0 0 2 ), p. 4 4 -9 .
134Ver Gênesis 3 8 .1 6 ; 3 9 .1 4 , 17. Josué 2 .4 é ambíguo; aí, o verbo está n o plural e não no
singular; mas, por outro lado, Raabe era prostituta.
135 Em outro lugar, a locução composta da forma de sóa, “vir”, no masculino singular, e Sn,
“a”, seguidas de n fs , “mulher”, tem uma conotação sexual (cf. G n 3 8 .8 -9 ; Jz 15.1; lC r
7 .2 3 ; Pv 6 .2 9 ; Ez 2 3 .4 4 ); mas, em cinco ocasiões, rrais recebe um sufixo ou é modificada
por um genitivo e se refere claramente à esposa de um homem. No outro exemplo, (Ez
2 3 .4 4 ) é seguida do apositivo njit e se refere a uma prostituta. Quando rtósn, “a mulher” é
o objeto preposicionado, com o em Juizes 13.9, não há conotação sexual, embora, em ambos
os outros exemplos, o verbo é masculino plural e não singular (IS m 28.8; 2Sm 17.20).
136 H A LO T, p. 3 63.
137 Para o hebraico e o aramaico posteriores, pode-se consultar Marcus Jastrow, A dictionary
o fth e Targumim, the Talmud Babli and Yerushalmi, and the Midrashic literature, 2 vols.
(reimpressão, Brooklin: P. Shalorn, 1967). Esse verbo específico se encontra na página
511 com o sentido de “peneirar”, tanto no hebraico com o no aramaico.
138 H A LO T, p. 2 0 7 .
139 Para o exame de breves sumários escritos pelos defensores desses métodos, ver N orm an
C . H abel, Literary criticism o fth e Old Testament (Filadélfia: Fortress, 1971); Gene M .
Tucker, Forrn criticism o f the Old Testament (Filadélfia: Fortress, 1971); e W alter E. Rast,
Tradition history and the Old Testament (Filadélfia: Fortress, 1 9 7 2 ). Para estudar a defesa
da legitimidade da crítica diacrônica, ver Jeffrey H . Tigay (org.) Empirical models fo r
biblical criticism (Filadélfia: University o f Pennsylvania, 1985). Para o exame crítico dos
métodos diacrônicos, incluindo a abordagem de Tigay, ver Adele Berlin, Poetics and
interpretation o f biblical narrative (W inona Lake, IN : Eisenbrauns, 1 9 9 4 ), p. 1 11-34.
140 Ver, por exemplo, C . F. Burney, The book o f Judges (reimpressão, Nova York: KTAV,
1970), p. xli-xlii. Para uma discussão do assunto, ver Robert H . 0 ’Connell, The rethoric
o fth e book o f Judges (Leiden: Breill, 1 9 9 6 ), p. 4 6 7 .
141 Para a análise de quatro ensaios que apresentam pontos de vista conflitantes, ver
D om inique Barthélemy, et al., The story o f David and Goliath (Fribourg, Suisse: Éditions
U niversitaires; G õ ttin g en : V andenhoeck & R u prech t, 1 9 8 6 ). São colaboradores
Barthélemy, Johan Lust, D . W G ooding e Emanuel Tov.
142 Emanuel E. Tov, “T h e David and Goliath Saga: H ow a Biblical Editor Com bined Two
Versions”, Bible Review 11, n° 4 (W inter 1 9 8 6 ): p. 3 4 -4 1 .
143 Essa versão mais longa, com o form a canônica final do texto, deve ser a base para a
interpretação e a pregação.
144 Devo esse argumento ao meu aluno Joe Arthur. Ver seu trabalho “Giving David His
Due” (Tese de P h .D ., Dallas T heological Seminary, 2 0 0 5 ), p. 83 -5 .
145 N o texto hebraico (em oposição a N IV ), a frase “sem uma espada em suas mãos” vem no
final do verso, após “ele feriu o filisteu e o matou” [A A RA traz: “Assim, prevaleceu Davi
contra o filisteu, com um a funda e com um a pedra, e o feriu, e o matou; porém não
havia espada na mão de Davi” (N. do R .)].
146 P. Kyle M cC arter Jr., 1 Samuel, A B (Nova York: Doubleday, 1 9 8 0 ), p. 3 42.
147 Ibid., p. 3 4 3 .
148 M ordechai Cogan, 1 Kings, A B (Nova York: Doubleday, 2 0 0 1 ), p. 4 9 5 .
149 Raym ond B . Dillard, “H arm onization: A H elp and a H indrance”, em Inerrancy and
hermeneutic: a tradition, a challenge, a debate, Harvie M . C onn (org.) (Grand Rapids:
Baker, 19 8 8 ), p. 157.
150 Dillard, “H arm onization”, p. 159.
192 Interpretação dos livros históricos
151 Ibid.,p. 1 5 1 .VerEdwardJ.Young, ThyWordistruth (GrandRapids: Eerdmans, 1 9 5 7 ),p. 124.
152 Ver os trabalhos citados no capítulo 3, sob o título “Works on Narratival Art”, p. 157-8.
153 Robert Polzin, Samuel and the deuteronomist (São Francisco: Harper & Row, 1989), p. 17.
154 R obert Alter, The art ofbiblical narrative (Nova York: Basic Books, 1981), p. 135 [Textos
citados da edição em português, A arte da narrativa bíblica, de Alter, publicado pela
Com panhia das Letras, SP, 2 0 0 7 (N . d o T .)].
155 Ibid, p. 136.
156 Ibid, p. 1 47-54.
157 Esther Fuchs, Sexualpolitics in the biblical narrative: reading the hebrew bible as a woman,
JS O T S u p 3 1 0 (Sheffield: Sheffield Academic, 2 0 0 0 ), p. 186-7.
158 Ibid, p. 190
159 Ibid, p. 193.
160 Carolyn Pressler,Joshtia, Judges, andRuth, T h e Westminster Bible Com panion (Louisville:
W estm inster John Knox, 2 0 0 2 ), p. 2 0 4 .
161J . C linton M cC ann, Judges, Interpretation (Louisville: Jo h n K nox, 2 0 0 2 ), p. 83-5.
162Ver Sim on B. Parker, Stories in Scripture andinscriptions (Nova York: O xford University,
19 9 7 ), p. 4-5
163 Ver Robert B . Chisholm Jr., “T h e Role o fW o m e n in the Rhetorical Strategy o f the
Book o f Judges”, in Integrity ofheart, skillfulness ofhands: biblical and leadership studies
in honor o f DonaldK. Campbell, Charles H . D yer e Roy B . Z uck (org.) (Grand Rapids:
Baker, 19 9 4 ), p. 3 4 -4 9 .
164 H á várias questões exegéticas, todas relativamente secundárias, que poderiam ser aqui
discutidas; mas, em razão de limitações de espaço, restringimos nossos comentários a três
problemas lexicais que são particularmente importantes na interpretação dessa passagem.
165 As orações wayyiqtol que formam a linha central da história são escritas em fonte normal
e as orações independentes estão em negrito (vd. discussão anterior sobre a estrutura do
discurso no capítulo 1, sob o título “Características estruturais”). A fala isolada está em
itálico. Nossa proposta de classificação de cada oração wayyiqtol e das orações independentes
aparece na terceira coluna, após a tradução da oração. Estão incluídos comentários sobre a
estrutura do discurso após a tradução, que é uma adaptação da NIV.
166 David Penchansky, What rough beastí Images o f God in the Hebrew Bible (Louisville:
W estm inster John Knox, 1999), p. 81-9.
167 Ibid, p. 1.
168 Com o um estudo proveitoso desse tema, ver Joel S. Kaminsky, Corporate responsibility
in the hebrew bible, JS O T S u p 196 (Sheffield Academic, 1995).
169 Para um a discussão proveitosa sobre os problemas textuais de Rute 1, ver Ellis R.
Brotzman, Old Testament textual criticism-, apractical introduction (Grand Rapids: Baker,
1 9 9 4 ), p . 1 3 3 -4 2 .
170 Para uma discussão mais com pleta desse problema, ver Robert B. Chisholm Jr., From
exegesis to exposition: a practical guide to using biblical hebrew (Grand Rapids: Baker,
1 998), p . 3 6 -7 .
171 As orações wayyiqtol que com põem a linha central da história estão impressas em fonte
normal e as orações independentes estão em negrito. As falas estão em itálico e justificadas.
A classificação proposta para cada oração wayyiqtol e cada oração independente aparece
na terceira coluna, após a tradução da oração. Com entários sobre a estrutura discursiva
são feitos após a tradução, que é uma adaptação da N IV
172 Ver Frederic W. Bush, Ruth, Esther, W B C (Dalas: W ord Books, 19 9 6 ), p. 56.
173 Além do mais, se M alom pecou ao se casar com Ruth, é estranho que essa estrangeira,
supostamente fora das opções conjugais permitidas a ele, acabe como a heroína da história
e um modelo de fidelidade pactuai.
INTERPRETAÇAO DOS
_ L ívpos

H istóricos
Um prático e indispensável manual de exegese

0 reconhecimento da ampla diversidade de gêneros literários na


Escritura é uma das características positivas da erudição evangélica
nas últim as décadas. Os mesmos prin cípios ou métodos de
interpretação não são mais aplicados igualmente a todos os textos
sem levar em conta as diferenças de gênero. Todavia, essa abordagem
pode causar confusão, engano e até interpretações e aplicações
errôneas. Portanto, uma cuidadosa atenção às diferenças de gênero é
um fator decisivo para um correto entendimento da Palavra de Deus.
Nada existe semelhante à descoberta da Palavra de Deus em sua
língua original, mesmo quando reconhecemos que a língua é limitada
para medir as profundidades do conhecimento de Deus.
Pastores que estudaram hebraico há muitos anos, os seminaristas
e até entusiastas leigos deverão fazer bom uso deste livro.
David Howard Jr.

Robert B. Chisholm Jr. (ThD) é autor de vários livros e


Professor Adjunto de Estudos no Antigo Testamento no Dallas
Theological Sem inary.

Exegese / Interpretação
______ Estudos Biblicos

3
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