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SÍNTESE DO PROCESSO MENTAL DE EINSTEIN

Sintetizando toda a informação que descobrimos sobre as


estratégias mentais de Einstein nos capítulos anteriores, podemos
resumir os elementos básicos do seu processo mental nos seguintes
passos.

1. Iniciar uma experiência sensorial


O propósito de criar um modelo é organizar e interagir com o
mundo sensorial ao nosso redor. "Seu significado e sua justificativa
devemse exclusivamente à totalidade das impressões sensoriais com
as quais o associamos. " Para ser útil, todos os modelos devem estar
fundamentados em experiências sensoriais.

2. Identificar os elementos fundamentais no sistema a


ser modelado (i.e., a "primeira" e "segunda" posições)
Esses elementos fundamentais são derivados inicialmente da
descoberta de "certos conjuntos de impressões sensoriais que se
repetem" (i.e., padrões) das seqüências de "figuras de memória"
associadas que extraímos "do grande número de nossas experiências"
sensoriais. Esses padrões e conceitos são inicialmente tirados
diretamente de nossas experiências sensoriais, mas começaram a ir
além do que nós percebemos ou experienciamos à medida que nos
aproximamos das regras e diretrizes do sistema que estamos tentando
modelar. Em outras palavras, começamos a encontrar padrões mais
fundamentais entre os padrões de nível superficial, e assim padrões
dos padrões, dos padrões etc.

3. Usar "imagens" visuais construídas para representar


esses elementos básicos
Uma vez que os padrões mais fundamentais começam a divergir
bastante do que pode ser sentido de fato, temos de usar construções
imagjnánas para representar esses elementos. Enquanto o propósito
dessas construçoes imaginárias é generalizar e simplificar as
representações

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cotnplexas de nosso "labirinto" sensorial interior a fim de chegar a
"um mínimo de conceitos e relações primárias", devemos ter cuidado
para não nos afastamos demais, nem muito depressa das nossas
experiências sensoriais. Construções matemáticas e verbais, por
exemplo, podem ser, por um lado, muito vínculadas aos processos
específicos de medição e estatística, inibindo a criatividade, e, por
outro, muito distantes da experiência sensorial, tornando difícil que
sejam conectadas intuitivamente àquilo que a pessoa está tentando
modelar.

Visualização de Símbolos que Integram


Experiências Sensoriais e Sistemas Lógicos

No caso de Einstein, parece que primariamente a imaginação


funcionava por meio de imagens de elementos visuais simples
("visualização de símbolos") como formas geométricas e átomos; ou de
metáforas visuais como o besouro cego ou a viagem na ponta de um
feixe de luz. O propósito desse tipo de imaginação era expandir e
simplificar nossos conceitos do mundo a fim de elucidar as "interações
entre corpos elementares" em uma "totalidade de sistemas". Iniciando
com a experiência sensorial e encontrando os padrões mais constantes
nível a nível, é possível deixar um tipo de "rastro de derivações" pelo
qual se pode refazer o caminho até a experiência sensorial. Além disso,
passando sistematicamente pelos diferentes níveis, cada nível
incorporará a informação

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sobre o nível anterior, e haverá menos possibilidade de um elemento


importante do sistema ser acidentalmente omitido.
Para Einstein, esse processo resultou na descoberta de duas
posições ou sistemas perceptivos aparentemente diferentes que
interagiam, até certo ponto, de forma obscura ou paradoxal — por
exemplo, o movimento versus o observador estacionário; matéria
versus energia; partículas de luz versus ondas de luz; sistemas
tridimensionais versus sistemas quadridimensionais; experiência
versus lógica.

4. Começar o "jogo combinatório" com os elementos, alternando


entre as diferentes estruturas referenciais
Explore bastante como é cada estrutura referencial, colocando-se
nela, de forma a ver e sentir completamente como operar daquele
espaço perceptivo. Em seguida, uma vez que cada sistema (posição
perceptiva) tenha sido explorado completa e individualmente na sua
própria imaginação, alterne entre ambos os sistemas e tente
determinar intuitivamente (por meio de um sentimento) quais
aspectos da alternância entre os dois permanecem constantes.

5. Passar para uma "perspectiva visual" do mais abrangente,


de forma a englobar os outros sistemas ou posições perceptivas
(terceira posição)
Uma vez que o "jogo associativo está suficientemente
estabelecido e pode ser reproduzido à vontade", o movimento entre
as duas posições básicas conduzirá conseqüentemente a uma "terceira
posição" um sistema de referência maior, no qual a relação entre os
dois sistemas em questão esteja clara.

6. Fazer uma descrição explícita das "regras geradoras" que


foram vistas ou sentidas a partir da "terceira posição"
Nessa fase podemos coordenar e conectar a relação que é vista e
sentida pelo observador na "terceira posição" mediante conceitos e
proposições matemáticos elou verbais e de modo que, mais adiante,
possa ser simplificada e comunicada a outros. Esse processo,
naturalmente, requer que se esteja familiarizado com as estruturas
verbais ou matemáticas apropriadas (ou compor um sistema, tal
como Newton fez quando inventou o cálculo diferencial para
descrever as suas descobertas sobre a gravidade).

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Se Einstein não tivesse sido capaz de representar os frutos da
sua imaginação matematicamente, as suas descobertas poderiam
ter passado completamente despercebidas da comunidade
científica.
Justamente por isso, claro que houve muitos, muitos
indivíduos treinados no modelo matemático explícito que Einstein
usou e, por carecerem da primeira parte da estratégia, não
produziram descobertas do nível de Einstein e Newton.

7. Usar as regras geradoras para fazer novas predições que


possam ser testadas contra a evidência de experiência sensorial.
O propósito desse passo final é completar o ciclo de
realimentação com a experiência sensorial para estabelecer a utilidade
do modelo. Há muitos modelos que, indubitavelmente (em todos os
campos de trabalho), possuem uma perfeita estrutura teórica e usam
descrições lógicas e matemáticas precisas, mas que são impraticáveis
e incompatíveis com a experiência sensorial. Foi dito que há uma
estreita linha divisória entre a genialidade e a loucura. E esse ciclo de
realimentação que distingue uma pessoa com "grandes idéias" ou uma
"fantástica imaginação" de um gênio. O gênio pode achar o seu
caminho de volta para o mundo ou para a experiência sensorial; o
esquizofrênico e o "sonhador" perdemse no caminho.
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