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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE ASTRONOMIA.GEOFÍSICA E CIÊNCIAS ATMOSFERICAS

DEPARTAMENTO DE ASTRONOMIA

GRUPO DE DINÂMICA DE SISTEMAS PLANETÁRIOS

english

DINÂMICA DOS SISTEMAS PLANETÁRIOS.


DINÂMICA DO SISTEMA SOLAR.
ASTRONOMIA DINÂMICA E MATEMÁTICA

1975 -- 2003

O grupo de Dinâmica do Sistema Solar do IAG-USP incluiu na sua pauta de


estudos, desde o fim da década passada, a Dinâmica dos Sistemas
Planetários. Isso ocorreu a partir da conclusão de que era necessária uma
maior dedicação aos difíceis problemas da dinâmica dos planetas exteriores
do Sistema Solar, e foi reforçado quando novos resultados observacionais
revelaram a existência de um grande número de planetas ao redor de outras
estrelas.

Esse grupo foi instalado no IAG-USP em 1975 como um grupo de


Astronomia Dinâmica e Matemática, cujo domínio de atividades
compreendia, de um lado, os problemas astronômicos ligados ao
movimento dos satélites planetários e de outro problemas matemáticos
originados por esses e outros problemas astronômicos. Na primeira década
de atividades foram obtidos importantes resultados em diversos tópicos:

• (1) A análise de séries de observações com espaçamento temporal


irregular;
• (2) a construção de teorias Hamiltonianas de média para problemas
envolvendo ressonâncias;
• (3) A extensiva análise das observações dos satélites de Júpiter;
(4) O estudo do movimento dos satélites de Urano.

Na década seguinte, as pesquisas tiveram seu fóco dirigido para a Dinâmica


do Sistema Solar com ênfase em sistemas apresentando caos ou captura.
Nesse último período tiveram destaque os tópicos:

• (1) Cosmogonia das falhas existentes no cinturão de asteróides;


• (2) Captura em ressonância pela ação de forças dissipativas.

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DETERMINAÇÃO DE PERÍODOS EM SÉRIES TEMPORAIS COM


ESPAÇAMENTO IRREGULAR.

Neste assunto foram obtidos os resultados de maior impacto, no período


inicial. O tratamento de séries temporais mal espaçadas, sejam elas
originárias de observações astrométricas ou fotométricas, é um problema
maior da Astronomia. Os astrônomos não observam os objetos que
estudam quando querem; planetas, satélites, asteróides, estrelas, etc., não
são visíveis todo o ano, mas apenas em determinadas ocasiões. Além disso,
as condições climáticas podem frustrar parte das observações programadas.
Por essas razões, o estudo das séries de observações de um astro não pode
ser feito usando as transformadas de Fourier usuais, concebidas para o
tratamento de séries de observações feitas a intervalos absolutamente iguais
e em quantidade infinita. As transformadas de Fourier são usadas apesar de
não serem válidas para o tratamento desses problemas. É entretanto muito
fácil de se verificar que para pontos amostrados de maneira irregular, a base
formada pelas funções trigonométricas não é ortogonal e não é completa.
Para resolver este problema, foi definida a Transformada de Fourier
Discreta com Compensação de Datas (DCDFT), a partir da construção de
uma base ortogonalizada. Alguns formulários com base ortogonal foram
propostos por vários autores, mas sem completar a base com um elemtno
constante. A inclusão de uma fumnção constante na base é necessária
quando se procuram detectar baixas freqüências e quando se procura, por
um processo de filtragens sucessivas, determinar as principais frequências
contidas em um sinal. A DCDFT tem sido usada para a análise de
observações em diversos domínios da ciência e tem se revelado melhor do
que os demais métodos em várias situações:

• (1) Determinação de período e amplitude de oscilações de baixa


frequência.
• (2) Análise de séries de observações com baixa relação sinal / ruído;
• (3) Determinação sucessiva de freqüências via filtragem harmônica.

A DCDFT também tem sido usada na análise de dados oriundos de


simulações por integração numérica, quando se pretende obter
determinações precisas de oscilações de baixas frequências (nesse caso,
apesar dos dados terem espaçamento uniforme, a série tem um número
finito de termos e o uso da Transformada de Fourier clássica leva a erros no
estudo de oscilações cujo período é de mesma ordem que o intervalo de
tempo total coberto pela série.

A DCDFT foi recentemente reformulada por G.Foster (AAVSO-Harvard,


USA) que, levando em conta, o desempenho muito superior dos
computadores de hoje, substituiu os desenvolvimentos analíticos prévios
que efetuavam a compensação das datas, por métodos numéricos mais
gerais. O método chamado CLEANest é matematicamente equivalente à
DCDFT quando se trata da determinação de uma frequência, e extende a
DCDFT para os casos em que se pretende determinar várias frequências
simultaneamente. Outras extensões frequentes da DCDFT são os wavelets a
base completada, também desenvolvidos por G.Foster, e as técnicas de
análise de tempo-frequência desenvolvidas por T.Gallardo (Univ.
Montevideo). (programas)

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TEORIAS HAMILTONIANAS DE MÉDIA E RESSONÂNCIAS.

Os trabalhos em Teorias Hamiltonianas de Média foram influenciados


decisivamente pela visita do Prof. Gen-Ichiro Hori, (Universidade de Tokyo)
à USP, em 1976. O grupo já vinha trabalhando na utilização das séries de Lie
para a mediação de sistemas dinâmicos com ressonâncias, mas seguindo
uma orientação clássica, similar à utilisada nos métodos baseados nas
funções geratrizes de Jacobi. Vários resultados de importância foram
conseguidas nesse período. O primeiro foi de natureza puramente teórica.
O artigo original de Hori apela para a introdução de um pseudo-tempo de
maneira pouco satisfatória e que com exagero foi considerada por alguns
como um erro da teoria. S.Ferraz-Mello (IAG-USP) provou a legitimidade do
raciocínio original de Hori, usando a Teoria das Características de Cauchy.
Provou também que o Sistema Auxiliar introduzido por Hori é meramente
uma parte do sistema das equações das características de Cauchy da
equação a derivadas parciais da teoria e que o temível pseudo-tempo nada
mais é do que a variável independente que a teoria de Cauchy introduz.
Outra contribuição, devida a W.Sessin, foi a descoberta da transformção
que hoje se conhece na literatura como “transformação redutora”, que
permite obter um Sistema Auxiliar de Hori integrável que contém os termos
de primeira ordem na excentricidade, no problema do movimento
ressonante de dois planetas (que se atraem mutuamente) ou de um
asteróide perturbado por um planeta. Outra contribuição desse período
foram as análises de T.Yokoyama (UNESP) sobre problemas envolvendo
duas ressonâncias. Mais recentemente o estudo da Teoria de Hori foi
retomado tendo sido possível extendê-la a sistemas ressonantes com vários
graus de liberdade.

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CAOS E COSMOGONIA DAS FALHAS DA DISTRIBUIÇÃO DOS


ASTERÓIDES.

O grupo de Dinâmica do Sistema Solar do IAG-USP por muito concentrou-


se no estudo da Dinâmica dos Asteróides. Os principais resultados referem-
se à explicação da ausência de asteróides situados de maneira permanente
em órbitas cujas velocidades angulares são múltiplos da velocidade angular
de Júpiter e a contrastante existência de uma família de asteróides com
velocidade angular igual a 2/3 da de Júpiter. A primeira teoria satisfatória
para a existência da falha na ressonância 3/1 foi devida a J.Wisdom (MIT)
que mostrou que asteróides em movimento nessa ressonância com Júpiter
podem sofrer difusão caótica capaz de elevar sua excentricidade orbital a
0,3 e fazer com que suas órbitas interceptem a órbita de Marte e se tornem
passíveis de passar perto desse planeta: uma passagem próxima a Marte
permite trocas importantes de energia mudando o período orbital do
asteróide e tirando-o da ressonância com Júpiter. A dificuldade dos
modelos analíticos ou semi-analíticos existentes reside na impossibilidade
de tratar problemas com excentricidades altas. No caso de problemas
ressonantes as primeiras teorias válidas para altas excentricdades foram
elaboradas por S.Ferraz-Mello e J.C.Klafke e mostraram a existência de
outros modos de movimento (ao redor do ponto de corrotação estável) e de
difusão caótica capaz de elevar a excentriciade orbital do asteróide a valores
maiores que 0,9. Com essa excentricidade, a órbita pode cruzar as órbitas
da Terra e de Venus, planetas 10 vezes maiores do que Marte e portanto
capazes de extrair os asteróides da ressonância com muito maior
eficiência. Asteróides que se encontravam originalmente em órbita na
ressonância 3/1, difundindo caoticamente para órbitas cruzantes à Terra e
Marte, podem ter sido responsáveis por grandes colisões com esses planetas
no primeiro bilhão de anos de existência do Sistema Solar (ao fim do
primeiro bilhão de anos a ressonância já estava totalmente depletada. As
crateras da Lua são as cicatrizes das colisões desse período. Na ressonância
2/1 a realidade mostrou-se muito distinta e as tentativas de estender os
modelos de difusão caótica de Wisdom à ressonância 2/1 com Júpiter não
tiveram sucesso. Os estudos dessa ressonância no IAG-USP tiveram início
com a simulação numérica das equações do movimento e filtragem digital
on-line dos resultados. Os resultados de T.A.Michtchenko mostraram
grandes regiões de movimento regular quando os modelos consideram
Júpiter em uma órbita fixa. Posteriormente, S.Ferraz-Mello, D.Nesvorný,
F.Roig e T.A.Michtchenko deram continuidade a essas investigações usando
modelos mais completos, que incluiam as perturbácões da órbita de Júpiter
devidas a Saturno. Várias técnicas foram usadas concomitantemente:
Mapas de variação das freqüências próprias, mapas simpléticos de
Hadjidemetriou, integradores simpléticos, etc. Os resultados claramente
mostraram que a difusão caótica das órbitas na ressonância 2/1existe mas é
muito lenta e que um asteróide pode sobreviver, em alguns pequenos
domínios dentro da ressonância, por 1 bilhão de anos, ou mesmo mais. Essa
difusão é estimulada pelo fato de que Júpiter e Saturno se movem próximos
a uma ressonância mútua 5/2. Na ressonância 3/2, os resultados obtidos
mostram que a dinâmica desses asteróides (Hildas) é similar à dos
asteróides da ressonância 2/1, diferindo apenas por terem tempos de
difusão muito superiores à idade do Sistema Solar, o que permite que uma
grande população de Hildas ainda exista.
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CAPTURA EM RESSONÂNCIA PELA AÇÃO DE FORÇAS DISSIPATIVAS

Problemas em que partículas que estão efetuando um movimento espiral de


queda sobre uma estrela, pela ação de forças dissipativas e tem essa queda
interrompida pela captura em uma órbita em ressonância com um planeta
em órbita ao redor da estrela foram estudados por C.Beaugé e S.Ferraz-
Mello. Isso explicaria porque a nuvem de poeira que existe ao redor da
estrela Beta Pictoris, que já deveria ter caido sobre a estrela devido à
continua dissipação de energia pelo efeito Poynting-Robinson, continua a
existir. De mesmo modo, nos períodos de formação do Sistema Solar,
quando ainda existia grande quantidade de gás ao redor do Sol, o arrasto
dos planetésimos pelo gás derruba as órbitas em direção ao Sol. Mas a
existência de um planeta em formação interrompe esse processo. Nesse
caso, não apenas o arrasto força os planetésimos a se moverem em uma
órbita em ressonância com o embrião planetário em formação mas também
os obriga a um movimento coerente em que os planetésimos se movem
próximos, uns dos outros, favorecendo sua aglutinação em um novo
planeta em órbita externa ao embrião já existente. Simulações realizadas
mostraram como um planeta poderia ter provocado a formação de outro
em uma órbita em ressonância 5/2 com a do planeta maior.

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DINÂMICA DOS SISTEMAS PLANETÁRIOS


Os sistemas planetários considerados nesta linha de pesquisa são tanto o
sistema formado pelos grandes planetas do nosso Sistema Solar: Júpiter,
Saturno, Urano e Netuno, como os vários sistemas planetários descobertos
ao redor de estrelas da seqüência principal e de pulsares. As pesquisas sobre
os grandes planetas do Sistema Solar foram lideradas por T.A.Michtchenko.
O objetivo central dessas pesquisas foi a compreensão da dinâmica de
sistemas formados por pelo menos dois planetas com movimentos
próximos a ressonâncias mútuas. As dinâmicas das ressonâncias 5/2 e 2/1
foram detalhadamente estudadas. Além desses problemas foi feito um
mapeamento das zonas de caoticidade na vizinhança dos grandes planetas
do nosso sistema solar e, também,nas vizinhanças dos planetas descobertos
ao redor do pulsar PSR 1257+13. S.Ferraz-Mello, T.A.Michtchenko e
C.Beaugé (Obs. Córdoba, Argentina) tem aplicado os conhecimentos da
Mecânica Celeste no estudo dos sistemas planetários descobertos ao redor
de estrelas da seqüência principal. Os principais resultados referem-se aos
pares de planetas que apresentam alinhamento dos semi-eixos maiores de
suas órbitas. Isso ocorre em dois casos: as chamadas ressonâncias seculares
em que os periélios dos dois planetas oscilam ao redor de direções
privilegiadas (podendo estar alinhados ou anti-alinhados), e nas
ressonâncias devidas a comensurabilidade de períodos dos planetas. Neste
último caso, além de sistemas oscilando ao redor de soluções estacionáias
com periélios alinhados (Dv=0) ou anti-alinhados (Dv=180 graus), foram
descobertas soluções estacionárias em que o ângulo Dv tem valores fixos
quaisquer. Também foi verificado que a presença de forças dissipativas
nesses sistemas pode ser responsável pela captura dos sistemas em
movimentos com períodos comensuráveis e a evolução de seus
movimentos para soluções que apresentam as corrotações apsidais acima
descritas. Para esses resultados contribuiram de maneira decisiva novas
metodologias:

• Análise Freqüencial com a transformada rápida de Fourier dos


resultados de simulações numéricas permitindo mapear zonas de
movimento caótico e a sua intensidade (T.A.Michtchenko);
• Modelização da Energia Potencial de interação gravitacional de dois
planetas válida para planetas em órbitas de alta excentricidade
(C.Beaugé, T.A.Michtchenko

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Novembro 2003