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desígnio 9/10

set.2009 1 issn 1806-2741

revista de história da arquitetura e do urbanismo

História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo


Área de Concentração de Pós-Graduação

FAU-USP
1 issn 1806-2741
DIREÇÃO
Maria Irene Szmrecsanyi
desígnio 9/10
set.2009

COMISSÃO EDITORIAL
Luciano Migliaccio
Maria Lucia Caira Gitahy
Mário Henrique D´Agostino
Marta Dora Grostein
Maria Irene Szmrecsanyi

CONSELHO EDITORIAL
Ana Fani Alexandre Carlos (FFLCH-USP), Ana Maria
de Moraes Belluzzo (FAU-USP), Ana Clara Torres Ribeiro
(IPPUR-UFRJ), Antonio Carlos Zani (DAU-UEL),
Benedito Lima de Toledo (FAU-USP), Carlos Roberto
Monteiro de Andrade (EESC-USP), Cibele Saliba Risek
(EESC-USP), Ivone Salgado (FAU-PUCCamp), Olgária
Matos (FFLCH-USP), Francisco Foot Hardman (IEL
Unicamp), Luiz Carlos Soares (Dpto. História-UFF),
Agradecimento especial
José Guilherme Magnani (FFLCH-USP), José Sebastião a Filipe Eduardo Moreau
Witter (FFLCH-USP), Julio Roberto Katinsky (FAU- USP),
Nestor Goulart Reis Filho (FAU-USP), Ricardo
Maranhão (Pós-Graduação História-PUC/SP), Sérgio S.
Silva (IFCH-Unicamp), Tamás Szmrecsanyi (DPCT-Unicamp)
PROJETO GRÁFICO: Luciano Guimarães
DIAGRAMAÇÃO: Rai Lopes
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: Ivan Antunes
REVISÃO: Márcio Medrado
JORNALISTA RESPONSÁVEL
José Roberto Barreto Lins (MTb 21287) Serviço de Biblioteca e Informação da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Reitor Profª. Drª. Suely Vilela
Desígnio: revista de história da arquitetura e do urbanismo. /
Vice-Reitor Prof. Dr. Franco Maria Lajolo
Pró Reitor de Pós-Graduação Universidade de São Paulo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
Prof. Dr. Armando C. Ferraz Área de concentração de pós-graduação. História e fundamentos
Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da arquitetura e do urbanismo – n. 1 (2004)- . – São
Prof. Dr. Ricardo Toledo Silva Paulo : Annablume, 2009 – n. 9/10 setembro de 2009.
Vice-Diretora
Profª. Drª. Maria Angela Faggin Pereira Leite ISSN: 18062741
Publicação semestral
ANNABLUME EDITORA
Distribuição e assinaturas 1. Planejamento Territorial e Urbano (História). 2. História da
R. Martins, 300 – Butantã Arquitetura. 3. Arquitetura (Teoria). 4. Planejamento Territorial e
05511-000 – São Paulo – SP Urbano (Teoria). I. Universidade de São Paulo. Faculdade de
Tel. e Fax (011) 3812-6764 – Televendas 3031-1754 Arquitetura e Urbanismo. III. Título.
vendas@annablume.com.br
www.annablume.com.br 22. ed. CDD 711.4
1 issn 1806-2741
desígnio 9/10 set.2009

Editorial
7 Maria Irene Szmrecsanyi

DOSSIÊ: PALAVRA, IMAGEM. EXEGESES E RECEPÇÕES DE VITRÚVIO NO


PASSADO E NO PRESENTE
A Scientia de Vitrúvio em Portugal nos Séculos XV e XVI
11 Rafael Moreira
Vitrúvio e a Arquitectura Paleocristã. O Caso Paradigmático das Regionum Constitutiones
21 Justino Maciel
Res Philologae: Vitrúvio e as Definições da Arquitetura
27 Júlio Cesar Vitorino
O Preceito, o Exemplo. Gêneros de Templos e Origens Gregas da Doutrina Vitruviana
49 Lucas Frech Caldeira
Vitruvius Socraticus. Para uma Prosopografia em Figura e Fundo
55 Mário Henrique S. D’Agostino

ARTIGOS
Walter Benjamin: Pólis Grega, Metrópoles Modernas
79 Olgária C. F. Matos
Museus na Antiguidade Clássica?
91 Justino Maciel
Ler & Ver: Pressupostos da Representação Colonial
103 João Adolfo Hansen
São Paulo 450 anos
Alpoim e o Zimbório da Igreja Matriz do Pilar em Ouro Preto: Engenho e Simbolismo na
Arquitetura Religiosa do Século XVIII
113 Rodrigo Almeida Bastos
Johann Moritz Rugendas e a Lenda de Chico Rei
137 Alessandro Dell’Aira
A Carta de Rafael ao Papa Leão X Sobre as Ruínas de Roma. Arquitetura, Cultura e Política no
Renascimento
149 Luciano Migliaccio
Qual Giulio Romano? Retratos do Arquiteto e Pintor nas Vite de Giorgio Vasari
167 Letícia Martins de Andrade
Francisco de Holanda: O Arquiteto que Pensa a Cidade
181 Maria Luiza Zanatta
A Cidade na América Portuguesa: Uma Comunidade de Vivos e Mortos
189 Renato Cymbalista
O Arquiteto Antonio Landi no Contexto da Renovação Política e Cultural Pombalina
205 Yara Felicidade de Souza Reis

RESENHAS
Um Quasímodo Tropical?
Resenha do livro: Aleijadinho e o aeroplano, de Guiomar
de Grammont
213 Junia F. Furtado
Palladio e a Arquitetura Clássica
Resenha de Andrea Palladio – Os quatro livros de Arquitetura.
217 Ricardo Marques de Azevedo
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JOHANN MORITZ RUGENDAS


E A LENDA DE CHICO REI
Alessandro Dell’Aira

Resumo O Brasil ilustrado


Há uma relação certa entre a devoção dos africanos de
Ouro Preto à Santa Ifigênia e um desenho de Johann Moritz O artista bávaro Johann Moritz Rugendas,
Rugendas, desaparecido, representando uma festa conga ao no Brasil entre 1822 e 1825, rescindiu o contrato
pé do Palácio Velho. Os desenhos preliminares, feitos ao vivo com Georg Heinrinch von Langsdorff, chefe da
entre julho de 1824 e fevereiro de 1825, integraram a obra expedição com a qual tinha chegado ao Rio, e na
final, reproduzida na prancha 4.19 do Voyage Pittoresque
dans le Brésil (Paris, Engelmann, 1835). Com a identifica-
ção do lugar, propõe-se a revisão parcial da didascália (de S.te
Rosalie a S.te Iphigénie) e uma leitura alegórica da cena
representada como alusão ao personagem lendário de Chico
Rei no contexto da topografia da antiga Ouro Preto.

Abstract
Esiste una relazione certa fra la devozione degli africani
di Ouro Preto per Santa Ifigênia e un disegno di Johann
Moritz Rugendas, oggi perduto, con la scena di una festa
conga ambientata sotto il Palácio Velho. I disegni preliminari,
eseguiti dal vero tra il luglio 1824 e il febbraio 1825, furono
trasfusi nell’opera finale, rielaborata nella litografia 4.19 del
Voyage Pittoresque dans le Brési l (Parigi, Engelmann,
1835). Con l’identificazione del luogo, si propone
l’emendamento parziale della didascalia (da S.te Rosalie a
S.te Iphigénie) e una lettura allegorica della scena come
allusione alla figura leggendaria di Chico Rei.

Fig. 1 Autorretrato de Rugendas aos 15 anos. 1817. Desenho a


lápis sobre papel. Coleção particular.

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qual tomou parte como voluntário até primeiro que nos meses de julho e agosto de 1824 a 1. DIENER, Rugendas no Brasil:
90-103. Para a prancha 4.19 do
de novembro de 1824, quando saiu definiti- expedição de Langsdorff ficou em Ouro Preto, Voyage Pittoresque (DIENER L-27:
vamente do grupo. O editor alsaciano Godefroy antiga Vila Rica do Ouro Preto, depois de 1720 135), objeto do meu estudo,
refero-me ao exemplar da
(Gottfried) Engelmann coligiu uma centena dos capital da Capitania de Minas Gerais. Em julho de edição francesa de 1835, da
Biblioteca do Dr. José Mindlin de
seus desenhos brasileiros– noventa e oito de cem: 1823, Dom Pedro I lhe outorgou o título de cidade
São Paulo. A cromolitografia foi
os outros dois são de Jean-Baptiste Debret – no imperial, como bem consta na nota do mesmo inventata por Engelmann em
1836: anteriormente, as
volume bilíngüe de litografias Voyage Pittoresque Rugendas ao pé de um desenho com uma vista gravuras impressas em preto e
branco eram coloridas à mão,
dans le Brésil / Malerische Reise in Brasilien, da cidade (fig. 2). Depois de uma acesa discussão
uma por uma. Não se sabe se
comercializado em fascículos avulsos a partir de com Langsdorff, o jovem voltou atrás no Caminho Rugendas deixou versões
1 aquareladas dos próprios
1827 e publicado em Paris em 1835 . É opinião Real com outros dois integrantes da expedição: o desenhos publicados por
compartida que não há muito do Rugendas nos coetâneo e amigo Edouard Ménétriès, francês, Engelmann.

2. SLENES, As provações de um
comentários às pranchas, os quais seriam de antropólogo e zoólogo, e o prussiano Ludwig
Abraão africano: a nascente
autoria do publicista Viktor-Aimé Huber, seu Riedel, trinta e dois anos, botânico. Portanto, nação brasileira na Viagem
2 alegórica de Johann Moritz
amigo . As litografias executadas pessoalmente antes de chegar ao Rio dia 29 de março de 1825, Rugendas, p. 272.
3
por Rugendas foram ao total três . Marie Philippe depois de onze meses de ausência, teve ocasião 3. DIENER, Rugendas no Brasil:
4 96: trata-se das pranchas L-36:
Aimé de Golbery, curadora da versão francesa e de ficar de novo em Ouro Preto . Durante as 148 [RENCONTRE D’INDIENS AVEC
das didascálias, em língua francesa em ambas as duas estadias produziu muitos desenhos, entre DES VOYAGEURS EUROPÉENS], Div.
3.1; L-72 , gravada com A. Joly,
edições, não foi sempre assistida pelo autor. eles duas paisagens da cidade incluídas por p. 208 [SERRA DAS ORGUAS], Div.
1.15; L-77, p. 214 [RIO
PANAHYBA], Div. 1.16. Na opinião
de Diener, as últimas duas tábuas
teriam sido executadas só sobre
a pedra.

4. Como o barão de Langsdorff


registrou no seu diário,
Rugendas, Ménétriès e Riedel se
encontrabam em Ouro Preto no
dia 8 de fevereiro de 1625
(DIENER, pp. 20-21).

5. Em DIENER, Rugendas no
Brasil, pp. 224-225, as duas
paisagens ficam correlatas a
desenhos datados entre julho e
agosto de 1824. Na prancha 1.22
(Diener, Rugendas no Brasil, L-84,
p. 225) está documentada a
atividade de lagavem do ouro no
centro urbano. PAIVA, Bateias,
carumbés, tabuleiros: mineração
africana e mestiçagem no Novo
Mundo, pp. 9-10, remarca a
diligência de Rugendas em
documentar as técnicas da
mineraçáo, nesta e em outras
Fig. 2 J.M. Rugendas, Ouro Preto, cidade imperial. Agosto 1824. Desenho a lápis sobre papel, aquarelado. Academia Russa de Ciências ocasiões – por exemplo, na
em São Petersburgo. prancha 3.22 [LAVAGE DU
MINERAI D’OR / près de la
montagne Itacolumi]. Ao pé do
desenho A-64, correlato por
Rugendas viajou à Itália em 1828 e voltou a Engelmann na primeira divisão do Voyage Diener à tábua 1.22, le-se a
anotação autografa [Août 1824 /
Münich depois do seu grand-tour europeu. Visitou Pittoresque: a primeira com as igrejas de Nossa
Vila Rica, hoje Ouro Preto /
Paris pela última vez em maio de 1931, antes de Senhora do Rosário dos Pretos e São Francisco Rugendas fecit ]. Pelo contrârio,
na didascália das duas paisagens
se deslocar a Bordeaux, onde embarcou para de Paula (1.21), a segunda com uma vista de [VILA RICCA] aparece o antigo
América Latina. A sua ausência se prolongaria longe, chegando de sudoeste (1.22): aos pés de nome da cidade. Por isso,
5 achamos que não foram ditadas
por dezesseis anos. ambas lê-se o topônimo Vila Ricca. Em nosso por Rugendas, assim como
duvidamos que sejam de
Os desenhos de Rugendas guardados na parecer, Engelmann incluiu na quarta e última Rugendas os erros que aparecem
Academia Russa de Ciências em São Petersburgo, divisão do volume, dedicada aos Usos e Costumes nas didascálias de outras
pranchas do Voyage, incluída a
datados e com a indicação do lugar, testificam dos Negros, a prancha de pelo menos outro 4.19, objeto deste estudo.

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6. Não sei com certeza quem
cometeu o erro, em ausência de
notas autógrafas, ou de outras
indicações. O calígrafo executava
a didascália respeitando as
instruções recebidas, ao revés e
se ajudando com um espelho. O
suporte da didascália era uma
pedra pequena, da mesma
espessura da grande e alinhada
Fig. 3 Festa de Santa Ifigênia
com esta sobre a mesa de
em Ouro Preto. Litografia, cm.
impressão, antes de passar a 28 x 36. De Voyage Pittoresque
tinta e de imprimir. Sobre o lugar dans le Brésil. Paris, 1835,
de ambientação, ainda não 4.19. [FÊTE DE S.te ROSALIE,
foram avançadas hipóteses. PATRONE DES NÈGRES].
Encontrei uma relação só no Dess.(iné) d’ap:(rès) nat:(ure)
volume Pintores de Ouro Preto / par Rugendas. Thierry Frères,
VC Editorial, Projeto e Criação – succ. de Engelmann & Cie.
Belo Horizonte: VC Editorial, Villeneuve, fig. par V. Adam.
2004, onde a prancha 4.19, sem
menção do local representado e
com omissão da didascália
original, fica reproduzida (pp.
12-13) de um exemplar colorido
à mão, de propriedade da familia
de Rodrigo Mello Franco de
Andrade, primeiro diretor do desenho de Rugendas ambientado em Ouro Preto: correspondente àquela da igreja de Santa Ifigênia
IPHAN, Instituto do Património
Histórico e Artístico Nacional.
a 4.19, geralmente interpretada como uma festa de Ouro Preto, também chamada Nossa Senhora
Sendo este artigo em curso de do Rosário, apesar de entre esta leitura e a dos Pretos do Alto da Cruz, erigida entre 1733 e
impressão, recebi a informação
do amigo José Efigênio Pinto
didascália [FÊTE DE S.te ROSALIE, PATRONE DES 1785. O segundo elemento é a construção à
Coelho de Ouro Preto, que NÈGRES], quase sempre omitida, não haver relação esquerda, representada de esguelha, corresponde
colaborou à edição daquele 6
volume. unívoca (fig. 3). a parte das ruínas do assim chamado Palácio Velho
(fig. 4), que deu o nome a todo um bairro de
7. PORTO DE MENEZES, Os
Palácios dos Governadores em O Congado de Ouro Preto Ouro Preto. As ruínas são acessíveis de uma
Ouro Preto, pp. 40-43.
propriedade privada aos pés do Morro da
Minha tese de que o teatro da ação é Outro Queimada, antigo Morro do Paschoal. A
Preto baseia-se em um conjunto de elementos construção, danificada pelo incêndio ordenado no
identificativos, em correlação evidente, um dos dia 16 julho de 1720 pelo Conde de Assumar,
quais probatório. O primeiro elemento é que a depois da revolta cidadã do 28 de junho, foi
7
igreja do morro, em relação a outros detalhes abandonada em seguida . No jardim interno, uma
topográficos (a conformação do lugar, as entrada à Mina da Encardideira, hoje tapada,
construções no morro de esquerda, a ladeira que alberga uma pequena estatua de Nossa Senhora
desce da igreja até a cidade), ocupa uma posição da Aparecida. Os donos da propriedade indicaram,

Fig. 4. Ruínas do Palácio Velho de Ouro Preto, com a igreja de Nossa Senhora dos Pretos do Alto da Cruz. Foto: Alessandro Dell’Aira.

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ao centro de um gramado mais abaixo fora das penas de avestruz ornavam-lhes as cabeças. Tinham
8. Durante uma recognição
ruínas, o ponto certo onde, segundo eles, nos em volta do tronco casaquinhos de veludo vermelho efectuada no 29 de abril de
anos Setenta havia uma grande Araucaria bordado a ouro e traziam nos braços correntes de ouro 2007, comparamos a
compatibilidade da posição das
longifolia, correspondente à posição das duas e jóias [...] Vinham depois o imperador e a imperatriz. ruínas do Palácio Velho com a
construção representada na
Araucariae longifoliae da prancha 4.19, detrás de Ele, igualmente com uniforme português, ela também
prancha 4.19. O resultado foi
cujos ramos surgem algumas casas que ainda hoje com um longo vestido bordado. Ambos traziam coroa e confirmado pelas visões aéreas
8 obtidas com o programma Google
estão de pé no caminho de Mariana . O terceiro cetro e na outra mão o tal junco com castão de prata. Earth, http://earth.google.com
elemento identificativo é que a festa corresponde Vinha, afinal, a corte, em colorida mistura, vestida à
9. POHL, Viagem no interior do
nos pormenores a outra festa vista em Traíras, moda do país. Ao som da música, cantando e Brasil, pp. 203-205; SOUZA,
Marina de Mello e, Reis negros no
Goiás, por outro viajante do primeiro quarto do exclamando continuamente “Bambi, domina” [...] Brasil escravista. História da Festa
século XIX, o médico boêmio Johann Emanuel marchava para a igreja, com aspecto muito pitoresco, de Coroação de Rei Congo, pp.
286-290. Pohl relata que as
Pohl, que em 24 junho de 1819 assistiu a um o cortejo fantástico, dançando, à sua maneira, os celebrações por Santa Ifigênia
análogo Congado de negros forros e escravos em negros que iam à frente [...]. começaram dia 24 de junho de
9 1819 (quinta feira) e que foram
louvor a Santa Ifigênia , com a coroação de um preparadas nas duas semanas
anteriores. Depois do cortejo, os
rei e de uma rainha. O rei invisível
negros se dirigiram à igreja,
Além disso, considero que o mesmo Rugen- onde teve lugar uma
representação teatral com
das se representou à esquerda sobre o cavalo O grupo da prancha 4.19 está composto por
música. Trata-se de um auto de
preto, muito semelhante ao outro da prancha 3.1, mais ou menos trinta personagens reunidos conversão, do mesmo tipo do
Congado da Lapa (Curitiba), em
segundo Diener um provável auto-retrato numa arredor do rei e da rainha coroados. É a irmandade louvor a São Benedito.
cena ambientada nas Minas Gerais. O mantelete de Santa Ifigênia, apresentando ao viajante 10. Comentando a prancha L-36,
11
do cavaleiro em segundo plano, sobre o cavalo europeu uma festa ritual num espaço simbólico . gravada por Rugendas, Diener
assinala dois desenhos
baio meio escondido, deixaria-nos pensar em um Alguns homenageiam o rei, reverenciam-no e se preparatórios, correlacionando-
eclesiástico, mas poderia tratar-se do mesmo ajoelham perante a ele; outros quatro estão os à L-36 e afirma que o viajante
10 sobre o cavalo negro, com a
Edouard Ménétriès . tocando um pífaro, um tambor, uma gaita e um pasta dos desenhos, parece ser
instrumento idiófono ( reco-reco); um quinto um auto-retrato. Com efeito, no
segundo dos dois desenhos
Assim relata o doutor Pohl, na passagem personagem dança e parece marcar o tempo com preparatórios (P-18, p.149. p.
285), o primeiro cavaleiro à
que aqui resumo: uma folha de palmeira, atributo de Santa
12
esquerda é Ménétriès, com o fuzil
Ifigênia . À esquerda, em posição eminente ao a tiracolo e os pássaros para
serem empalhados ligados à
Outra festa, com que se alegram o ano inteiro, pé de uma das araucárias, um homem com o cintura, como no retrato P-74. A
celebram os negros livres em homenagem a uma santa braço levantado parece entoar uma daquelas L-36 é uma das três pranchas
gravadas pessoalmente por
negra africana de nome Ifigênia [...] Vários negros, invocações (ladainhas), seguida por uma resposta Rugendas (cfr. Nota 3).
13
vestidos de uniformes portugueses [...] receberam coral (reza) , mas poderia ter outro papel. Outros 11. Para o Congado como texto
uma bandeira com a imagem da sua Santa [...] Tudo descem correndo da igreja ladeira abaixo. Das mitopoiético e performance
ritual, cfr. MARTINS, A oralitura
aconteceu sob incessantes disparos de morteiros e três bandeiras, a primeira é um estandarte com da memória, pp. 77-80.
mosquetes [...] e, em seguida, marchou o cortejo haste de ponta ornada por uma fita dupla, com 12. O reco-reco (ou ganzá, casaca,
para a igreja paroquial [...] e de casa em casa um sol radiante. A do meio, com a haste de ponta catacá, caracaxá), instrumento
idiófono brasileiro de origem
desejavam votos de felizes festas. Sob continuo rufar ornada por uma coroa, é uma bandeira com africana, è constituído de um
de tambores, disparos de espingardas e o ressoar de algumas meias luas replicadas. A terceira, a pedaço de bambu ou madeira
com sulcos, friccionados com uma
vários instrumentos nativos do Congo, além de outros menor, tem a haste embelezada com um pequeno haste de madeira. Tudo sugere
que os músicos estão executando
sons, seguem os participantes para a casa do imperador travesseiro e uma esfera: tem bordados e franjas,
uma palmeirinha, música alegre
(nessa festa também se elege um), onde um negro e no centro algumas linhas curvas que lembram o por pífaro, sem canto, típica dos
congados nordestinons: cfr. MELO,
grita continuamente “Bambi” e o coro em uníssono manto carmelita da Santa Ifigênia, ou bem o
Festa de Nossa Senhora do
responde “Domina” [...] No domingo seguinte o manto de Nossa Senhora do Rosário, enquanto o Rosário (dos pretos) em Jardim do
Seridó, pp. 7-15.
imperador eleito, acompanhado da esposa e de dois Sol e a Lua, símbolos de Deus Pae e de Nossa
13. LUCAS, Os Sons do Rosário. O
tocadores de tambor, saiu de casa pedindo esmolas Senhora da Conceição, relembram os símbolos Congado Mineiro dos Arturos e
para a festa [...] Estavam vestidos à moda do país e maçônicos presentes nas igrejas barrocas de Ouro Jatobá, p. 17.

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Preto e Mariana; mas sobretudo, e de maneira não é casual. Por isso, não tem malas nem outros
significativa, têm correspondência na simbologia objetos pesados; pelo contrário, o cavaleiro da
introduzida por um autor do século XVIII, o frei prancha 3.1 do Voyage tem a pasta dos desenhos
carmelita José Pereira de Santa Anna, o qual nos ombros e dois caixotes atados à sela. Ele
14. O pormenor relembra um comparou Santo Elisbão com o Sol e Santa Ifigênia segura uma pequena bolsa na mão direita,
episódio típico dos autos de
conversão: o Rei disparando um com a Lua (fig. 5). A haste da terceira bandeira esperando dar a esmola, como de costume. O
golpe de revolver contra o
Embaixador da Angola (Lapa,
Congado de São Benedito), ou o
general desembainhando a
espada para defender o Rei de
um estrangeiro suspeito (Tráiras,
Congado de Santa Ifigênia); em
ambos casos, porém, trata-se de
um mal-entendido, pois o
estrangeiro vem para anunciar a
devoção do seu povo para os
santos padroeiros do lugar. Do
relato de Pohl: “Ao terminar a
dança, levantou-se o monarca
negro e ordenou em voz alta que
se começasse, con cantos e
danças, a festa de Santa
Ifigênia. Neste momento surgiu
um negro que representava o Fig. 5. Mariana,
papel de general, e gritou, com Igreja do Carmo.
muita ênfase e um olhar feroz, Detalhe da arquitrave
que observara a distância um do portal, com o Sol
estrangeiro suspeito, ao que o e a Lua. Foto:
imperador ordenou que Alessandro Dell’Aira.
marchassem contra o inimigo e o
enfrentassem, e para tanto
pedia a proteção de Santa
Ifigênia nesse combate. Então,
com o cetro, concedeu a sua
benção ao general ajoelhado à
sua frente. Foi aí que chegou o
anunciado forasteiro. Todos os
negros se precipitaram sobre ele
e ameaçaram matá-lo.
Entrementes, ele ajoelha-se
diante do trono e pede
audiência. Tranqüilo, declara ser
o embaixador de um reino
longínquo, e que aqui não viera
com más intenções ou para
excitar rebeliões e hostilidades;
mas que o senhor rei soubera
que neste país se celebrava a
festa de Santa Ifigênia e por isso é segurada por um homem de físico robusto com mesmo fez Pohl em Traíras. O grupo parece
o enviara para participar da
ar solene, vestido de terno claro, peruca e chapéu consciente da presença do artista, que por sua
solenidade...” (p. 205). Nell’auto
di Lapa (Curitiba) è il re a de três pontas. Provavelmente é o tesoureiro da vez manifesta o recíproco agrado e complacência.
sparare un colpo di pistola
contro l’ambasciatore della irmandade. O rei olha à direita uma mulher À direita, em posição oposta e simétrica, um idoso
regina Ginga: SILVA, Congada de
Sâo Benedito. Um auto de acenando para ele com uma mão, e com a outra com barba fluente, com um mantelete parecido
conversão na Lapa. Música, dança
se apoiando na cabeça do homem que a carrega com o do cavaleiro meio escondido e um chapéu
e religiosiodade, p. 78 (“… nesta
cena, aparece a indicação de que para que ela veja o que está acontecendo. A rainha de aba ampla, assiste à festa. Com certeza trata-
o Rei deve disparar uma arma
contra o Embaixador...”). Para o olha à esquerda, distraída por um homem de se de um eclesiástico, vigiando o andamento da
Sol e a Lua como símbolos
maçônicos, cfr. BOUCHER, La uniforme militar que dispara contra um chapéu festa, assim como o vigário da igreja de Santa
Symbolique maçonnique, pp.
içado por uma vara, em direção do homem com Ifigênia em Traíras. Além dos cavaleiros, é o único
208-212. Para o Sol e a Lua como
14
símbolos dos santos Elisbão e o braço levantado . De longe, entre a fumaça branco entre os presentes.
Ifigênia, cfr. SANTA ANNA, Os dois
atlantes de Ethiopia. Santo dos foguetes, vêem-se as hastes de quatro O personagem em primeiro plano, fulcro
Elesbão, Emperador XLVII da
Abessina, quotado por OLIVEIRA, bandeiras se aproximando. À esquerda, os lógico da composição, enfrenta o grupo acuado,
Devoção e identidades:
cavaleiros assistem à festa. O do cavalo preto em eixo com os cavaleiros. Veste só calças curtas
significados do culto de Santo
Elesbão e Santa Efigênia no Rio tem o paletó apoiado aos ombros, como para com um suspensório transversal, como o escravo
de Janeiro e nas Minas Gerais nos
Setecentos, p. 66. significar que não está em viagem e que o encontro da prancha 2.15 [CAPITAO DE MATTO]. A postura

141
15. Para os sujeitos de Jacques-
austera relembra o modelo neoclássico dos três palmeira simboliza o martírio, a igreja em chamas Louis David como modelo dos
15
Horatios de Jacques-Louis David. À esquerda evoca o incêndio do ermo onde a jovem havia se artistas viajantes no Brasil cfr.
ARAUJO, Encontros difíceis: O
há um menino representado de costas, olhando refugiado para escapar de um casamento forçado. artista-herói e os índios
corrompidos no relato de viagem
para o grupo com ar alegre e de maravilha. Ambos A estatua de Nossa Senhora dos Pretos do Alto Deux Annees au Bresil (1862), pp.
15-39.
ficam separados do grupo da irmandade, e da Cruz e a Santa Ifigênia de um ex voto de
16. Para as técnicas de
isolados por algumas pinhas caídas das araucárias. 1636, hoje no Museu de Arte Sacra de Mariana, mineração nas jazidas, nos veios
19
Pelo visto, tanto o grupo em festa como os têm ambos os atributos (fig. 8). Portanto, o e nas grupiaras, cfr. FERRAND, O
ouro em Minas Gerais, pp. 92-131.
cavaleiros ignoram-nos totalmente: só o cavalo O conjunto geológico do depósito
aurífero da Mina da Encardideira,
preto parece perceber a presença deles. O homem ou de Chico Rei, tem veios de
quartzo e arsenopirita, hoje
tem a haste duma bandeira apoiada no ombro cobertos por material
esquerdo. Tem na cabeça uma carapuça ou gorro precipitado. Em todas as galerias
existem escorrimentos de água
frígio salpicado com manchas escuras: como já pelas paredes e gotejamentos do
teto. Cfr. PEROBELLI BORBAI &
lembramos, no Palácio Velho havia uma entrada RIBEIRO FIGUEREIDO, A influência
das condições geoquímicas na
à Mina da Encardideira, assim chamada porque oxidação da arsenopirita e na
os escravos saíam das galerias encardidos de terra mobilidade do arsênio em
16 ambientes superficiais tropicais,
úmida e ferrosa, de côr avermelhada . À haste p. 491. A Mina da Encardideira
hoje tem uma entrada mais
são ligados dois paus curtos, que formam com baixa, novamente aberta em
anos recentes.
ela algo semelhante aos feixes dos magistrados
17 17. Pelo semblante e pela roupa,
romanos (fig. 6). A bandeira contém um perfil o homem tem aparência de
escravo mineiro com seus
instrumentos (cavadeira,
almocafre) atados à haste da
bandeira. Porém o “fascio” e o
gorro frígio são emblemas
neoclássicos, freqüentemente
Fig. 6. usados na Europa nos primeiros
“Chico Rei”. anos do século XIX). Os
Detalhe da revolucionários franceses os
prancha 4.19 adoptaram como símbolos de
Fig. 8 . Mariana, Museu de Arte Sacra. Ex voto com Santa liberdade e autoridade.
do Voyage
Ifigênia, de 1636. Detalhe. Foto: Alessandro Dell’Aira. Aparecem, por exemplo, na
Pittoresque.
bandiera da República Jacobina,
na monetação da República
emblema da bandeira em primeiro plano é o Ligure da época napoleónica
(1798-1805), nos escudos das
elemento determinante: correlato aos outros, mais antigas bandeiras nacionais
de algumas nações
permite identificar com certeza o teatro da ação latinoamericanas, como Colômbia
feminino tratado a claro-escuro, com uma folha e a qualidade do evento representado. e Venezuela (1811), Guatemala
18 (1839), Cuba (1850). Por isso, a
de palmeira na mão direita . Não há dúvidas que A cena, na qual nada acontece por acaso, possível alusão aparece parece
compatível com a intenção
se trate de Santa Ifigênia: seus atributos aparece como a representação alegórica duma alegórica geral e com o valor
iconográficos são uma folha de palmeira segurada específico do personagem.
lenda local: a lenda do africano Chico Rei, devoto
pela mão direita e uma igreja ardendo em chamas 18. Na prancha 4.19, versão
de Santa Ifigênia, que com seu filho menino preto e branco, o pormenor
na palma da mão esquerda (fig. 7). A folha de presencia idealmente à festa conga para a santa
aprecia-se distintamente. Pelo
contrário, pode resultar alterado
padroeira dos negros de Ouro Preto. Chico Rei nas reproduções de originais
coloridos à mão. No volume
teria sido um rei do Congo. Seqüestrado com sua Pintores de Ouro Preto, a folha de
palmeira tem aparência de uma
família e corte na primeira metade do século XVII, flor vermelha clara. Na edição da
Itatiaia, Rugendas no Brasil,
teria embarcado num navio negreiro, aportado baseada sobre um exemplar não
Fig. 7. no Brasil como escravo, chegando a Vila Rica com expecificado do Voyage
O emblema Pittoresque, a bandeira é
da bandeira o filho mais ou menos em 1740. Assumida a nova vermelha com um círculo branco
de “Chico Rei”. no centro, no interior do qual só
condição, batizado e destinado à lavra das minas se entrevê um desenho sem
sentido. A exigência de
de ouro, com suas economias teria comprado a reproduzir as imagens em larga
sua liberdade e depois a do filho. Teria comprado escala, com intervenções sobre
detalhes considerados
a Mina da Encardideira, considerada em via de secundários, alterava a relação

142
desígnio 9/10 set.2009
esgotamento, e depois de ter multiplicado a sua em Ouro Preto fora de programa para estudar,
produção teria comprado a liberdade de muitos retratar e interpretar com atenção a festa em
escravos do seu grupo. Ter-se-ia estabelecido curso, como manifestação da identidade cultura
no Palácio Velho, antiga residência dos dos negros do Brasil e da sua integração à cultura
governadores portugueses envolvida no incêndio dos brancos. A mesma metódica atenção
do Morro do Paschoal. Ter-se-ia enriquecido ao Rugendas reserva à indústria da mineração. Nesse
ponto de ter financiado, com seu grupo, a sentido, destaca-se de Debret, cujo pitoresco está
construção da igreja de Santa Ifigênia, onde anos baseado sobre a valorização do detalhe, com
depois teria sido coroado rei, com a aprovação finalidades “enciclopédicas” ou de esboço (um
do bispo de Mariana e o consenso do governador exemplo entre todos: a cena da Coleta para a
20
entre as intenções do autor do português . manutenção da igreja do Rosário). Pelo contrário,
desenho original e o produto
final, destinado ao consumo
o pitoresco de Rugendas tem sua origem na
social e ao comércio. Cfr. ZENDA, Alegorias para viagem atração romântica por um conjunto social e
O Brasil de Rugendas nas edições
populares ilustradas, p. 135.
politicamente dinâmico, alimentada pela aguda
Alterações de este tipo não são Ao pé de cada prancha do Voyage Pitto- curiosidade do viajante. Com Sérgio Milliet,
infreqüentes nas obras
litográficas da época, onde, por resque, à esquerda lê-se: Dess.(iné) d’ap:(rès) podemos afirmar que Debret foi “um curioso
conta dos editores, o desenho nat:(ure). Como se sabe, a escrita é formal, pois etnógrafo e um crítico agudo”, Rugendas “um
original subia varias 21
intervenções de preparação e os desenhos originais, hoje perdidos, foram quase magnífico poeta” .
acabamento nas fases de incisão
todo reinterpretados pelos incisores. Em nosso O grupo de Langsdorff sai do porto de
e coloração, sem nenhuma
coordenação eficaz. parecer, Rugendas teve de assistir à festa entre Bremen quando o reino do Brasil faz ainda parte
19. Trata-se de uma pequena novembro de 1824 e fevereiro de 1825, mês em do Tríplice Império Luso. Chegando no Rio, tem a
tábua de madeira de 34 x 21 cm,
com uma enferma deitada na que do diário de Langsdorff mostra que ele ainda notícia de que o Regente dom Pedro, chamado a
cama e Santa Ifigênia
aparecendo-lhe num círculo de
está em Ouro Preto. Por isso, considero que Portugal por seu pai, decidiu ficar “para o bem
flores e benzendo-a com a folha Rugendas elaborou o desenho final na Europa com de todos e a felicidade geral da Nação”. A
de palmeira. Ao pé da cena lê-se:
“Milagre que fes a glloriosa S. base em alguns desenhos preparatórios independência do Brasil seria proclamada em 7
Ifigênia a Judita Maria Las[..]
que estando enferma de executados ao vivo nos preparativos da festa, de setembro de 1822. Rugendas ficaria seduzido
espinhela caida e apegandose a
dita Santa logo axou com saude
durante a mesma festa ou mesmo durante uma pela capital e por seu desassossego. Poucos meses
no ano de 1636”. sua repetição organizada em troca de um óbolo. depois, libertar-se-á totalmente da expedição da
20. Para a lenda Chico Rei, cfr. Algo semelhante aconteceu em Traíras em 24 qual tinha sido o desenhista oficial. Nesta fase
SOUZA. Reis negros no Brasil
escravista. História da Festa de junho de 1819, quando Pohl, temeroso pela “wertheriana” não pode não sentir o fascínio das
Coroação de Rei Congo, pp. 312-
315. exuberância dos pretos, achou conveniente Minas Gerais, das suas fabulosas minas, das suas
21. MILLIET, desaparecer, foi achado na canônica, versou o igrejas sem conventos. Experimenta uma mistura
Fora de Forma. p. 35.
óbolo, assistiu a repetição da festa e finalmente de atração e repulsão para o barroco local, atípico
foi convidado em casa do rei para festejar com e extravagante aos olhos dos neoclássicos. A sua
música, doces e cachaça. formação acadêmica, por outro lado, autoriza-o
A coroação do rei do Congo (reinado) orga- a usar a representação alegórica como “filtro”
nizada pela irmandade de Santa Ifigênia de Ouro da complexidade latino-americana, sobretudo na
Preto era feita nos dias 21 de setembro (Santa reflexão sobre a escravatura. A essa conclusão
Ifigênia), 7 de outubro (Nossa Senhora do Rosário) chegou Robert Slenes, depois de ter analisado a
e 6 de janeiro (festa dos Reis: neste caso era um quarta divisão do Voyage, principalmente a
reisado). Supõe-se que os preparativos ocupassem prancha inicial, 4.1 [NÈGRES A FOND DE CALLE]:
semanas, como em Traíras, e que começassem por isso não é uma surpresa que os desenhos
com o levantamento do mastro de Santa Ifigênia reunidos na quarta divisão do Voyage Pittoresque
no sagrado da igreja, com a permissão do vigário. tenham sido concebidos como uma viagem à
Para Rugendas, interessado na cultura dos negros, procura de alegorias, se não como um sistema
era uma ocasião irrepetível. Poderia até ter ficado de alegorias, das quais Rugendas gostava muito

143
e sabia utilizá-las magistralmente. A última, Contrariamente ao esboço feito em Paris,
finíssima, quase uma brincadeira, improvisou-a e ao desenho A-64 de Diener, para a prancha
voltando da segunda viagem ao Brasil. Na corte 4.19 do Voyage Pittoresque não temos marginalia,
do Rio tinha recebido o encargo de retratar a nem indicações autógrafas de Rugendas. Além
família imperial. Dom Pedro II, pouco antes de o disso, faltam os desenhos preliminares, bem como
artista ir embora, condecorou-o com o Cruzeiro o original. De qualquer forma, como nos enigmas
do Sul e entregou-lhe uma carta de apresentação meio solucionados, com as respostas chegando
para a sua irmã Francisca Carolina, esposa do uma atrás da outra, o nevoeiro dissipa-se
príncipe de Orléans, terceiro filho do imperador lentamente. A forma alegórica é o mesmo teatro
23
Luiz Felipe. Francisca Carolina, princesa de da performance: Ouro Preto, a igreja do Morro 22. DIENER, Rugendas no Brasil,
(P-192, p. 302). A identificação
Joinville, jovem muito cortejada, era chamada “La da Cruz, a ladeira – uma Via Crucis ao revés – que da “Belle Dame” é minha. Diener
Belle Françoise”. Em 26 de maio de 1847, num desce até a cidade morro abaixo, o cortejo real reconhece a Princesse de
Joinville na jovem retratada por
álbum de visitas pertencido ao amigo mordomo que volta ao Palácio; o gênio do lugar, Chico Rei, Rugendas com uma paisagem
da casa imperial brasileira, Paulo Barbosa, renascido in Terra Brasilis à liberdade e à glória, carioca ao fundo (P-101), lembra
que a princesa o recebeu em
Rugendas desenhou um casal de aristocrátas que saindo do subsolo com o herdeiro ao seu lado, Paris e o homenageou com um
astuche de pasteles, reforça a
desce da carruagem para admirar de perto um como uma divindade ctónica. Por ser a viagem
hipótese que a faixa azul da
grupo de “tipos” americanos: uma mulher baiana, pitoresca de Rugendas, surpreendentemente uma cintura seja uma alusão ao
Cruzeiro do Sul, e situa o retrato
alguns indígenas araucanos e bolivianos, uma viagem alegórica, o teatro alegórico de Ouro Preto mais ou menos em 1847, sem
mulher tapada do Peru, Garibaldi, a sua esposa não tem de surpreender. Deste castelo “brotado” relacioná-lo com a alegoria.
JAMES, Rugendas no Brasil: Obras
Anita e um personagem que não consegui-mos do lápis de Rugendas, a caneta de Viktor-Aimé inéditas, p. 15.
identificar. Entre eles, Rugendas apostrofa o casal Huber provavelmente nunca soubera nada; ou, 23. SILVA, Congada de São
de viajantes: ao centro da atenção, com a cartola de ter tido Huber conhecimento de algum Benedito. Um auto de conversão
na Lapa. Música, dança e
na mão, surpreendentemente está ele, não a pormenor, no comentário ao caderno 4.16-20, religiosidade, pp. 57-88; per
America latina. O artista está cansado, nunca escolheu de sair dos apuros interpolando duas l’auto da conversão di Traíras,
cfr. DELL’AIRA, San Benedetto da
mais viajará, retirar-se-á para sempre. Uma nota páginas resumidas do Travels in Brasil, de Henry San Fratello ad Angra dos Reis,
marginal, autógrafa, revela parcialmente a Koster, sobre as festas para Nossa Senhora do p.40.
24
alegoria: “Belle Dame, faitez nous l’Obole du Rosário . 24. SLENES, As provações de um
Abraão africano:a nascente nação
Souvnir”. A carruagem, imóvel, espera que o casal A didascália, imprecisa, [FÊTE DE S.te brasileira na Viagem alegórica de
22
Johann Moritz Rugendas, pp.278-
volte e suba (fig. 9). ROSALIE, PATRONE DES NÈGRES], formulada em
81.
ausência de Rugendas, complicou ainda mais a
decodificação da mensagem. Diener incluiu-a em
sua ficha, apresentando a cena como Festa de N.
Sra. Do Rosário, padroeira dos Negros. Nas
reproduções divulgadoras, a didascália acaba
sempre por ser omitida, dando por certo que St.
Rosalie é um erro, ou a lectio facilior de una nota
autógrafa de difícil interpretação. Mas, qual é a
origem do erro? Achamos não ter sido casual que
entre as anotações brasileiras de Rugendas,
publicadas em Augsburg depois da sua morte,
faltasse a parte que no Voyage comentava a
prancha 4.19. Segundo o que parece, a cotação
do Koster sobre as festas do Rosário foi interpo-
lada por outros para exigências puramente
editoriais: de vinte cadernos avulsos comercia-
Fig. 9. J.M. Rugendas, Alegoria da América Latina. 1847. Desenho a lápis
sobre papel. Coleção particular. lizados de 1827 a 1835, o caderno 4.16-20

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desígnio 9/10 set.2009
25. BRIAND, Pol, Moritz corresponde à décima sexta emissão, em abril de Cruz e na Igreja do Rosário dos Pretos, Santo
Rugendas, Voyage Pittoresque
dans le Brésil. Moeurs et Usages 1835, pouco antes da publicação do volume Elisbão, rei de Axum na Abissínia, do século VI,
des Nègres, pp. 25-32 dans 25
l’édition originale (1835). http:// encadernado . e o beato Antônio de Noto ou de Kategeró, ainda
www.capoeira-palmares.fr/
Por essa razão, mais que na nota autogra- não canonizado, morto na Sicília em 1550, ele
histor/maler_fr.htm . Notes de
l’editeur internet. P. 26, note 2. fica Fête de N.S. du Rosaire, patrone des Nègres, também afro-siciliano e modelo de santidade para
[… si bien que les coups et
même les couteaux penso em Fête de S. Iphigénie, patrone des Nègres, Benedito. Antes de 1807, Elisbão e Ifigênia eram
ensanglantent le jeu]. ”Le
passage qui suit est mal-interpretada, como origem da didascália Fête os únicos da “família” aos quais podia-se dedicar
probablement une interpolation
de S. Rosalie, patrone des Nègres. No porto de uma igreja porque faziam parte do Martyrologium
du rédacteur, le publiciste Victor-
Aimé Huber, qui affirme dans ses Bremen, Rugendas estava aprendendo o francês Romanum desde 1586; antes de 1743, ano de
mémoires avoir travaillé avec
Rugendas à la rédaction des com a ajuda de Ménétriès; mais de uma vez usou beatificação de Benedito, eram os únicos aos
textes du Voyage Pittoresque
dans le Brésil, ou du traducteur o francês nas notas ao pé dos desenhos, por quais podia-se dedicar uma irmandade sem a
Golbery à la demande l’éditeur,
exemplo, ao pé paisagem de Ouro Preto, hoje em “proteção” de Nossa Senhora do Rosário. Assim,
Godefroy Engelmann, afin de
présenter, dans la même São Petersburgo (Août 1824). Santa Rosália, como resposta à demanda de um grupo de negros
livraison, une explication de la
planche 4.19 “Fête de Sainte padroeira de Palermo, era nota no âmbito de Ouro Preto, de erigir uma igreja a um dos
Rosalie, patronne des Nègres”,
qui montre un défilé de roi “mitteleuropeo” graças aos relatos dos viajantes santos deles, com recursos próprios, a eleita foi
26
Congo pour la fête du Rosaire.
do século XVIII na Sicília, incluído Goethe. Pelo Santa Ifigênia (fig. 10).
Une autre version, par ailleurs
identique, publiée en 1860 contrário, de Santa Ifigênia, mítica princesa da A fábrica foi inaugurada em 1733. A igreja,
reprend à “En général, les
divertissements des Nègres Núbia, contemporânea do apóstolo Mateus, na conhecida como Nossa Senhora dos Pretos do Alto
amènent des querelles”..., à p.
29. Après une longue citation de Europa dos primeiros anos do século XIX não se da Cruz, foi o laboratório de um experimento
Koster sur l’élection du Roi
sabia quase nada: o seu culto foi introduzido pelos iconográfico com notável porcentagem de
Congo, ce que nous pensons être
une interpolation comprend une missionários carmelitas no Peru e no Brasil nos originalidade e autonomia. Lembro de uma frase
dissertation sur les mandigueiros,
qui se trouve dans la version últimos anos do século XVI, ainda antes que os de Julita Scarano, citada por Monique Augras em
publiée en 1860 à la fin de la
section, après le développement franciscanos introduzissem o culto ao afro- relação à comunidade dos Arturos de Contagem
à propos de Palmares; elle ne
siciliano Benedito. Este último, nascido livre uma (Belo Horizonte): “Santa Efigênia […] sempre foi
correspond, parmi les planches
du Voyage Pittoresque dans le família de escravos e morto em Palermo em 1589 cultuada nas igrejas de homens de cor, chegando
Brésil, à aucune planche, tandis 27
que la planche 4.20 em um convento franciscano, venerado na Igreja a confundir-se com uma Nossa Senhora escura” .
“Enterrement d’un Nègre, à
Bahia” ne répond que par raccroc do Rosário do Rio em 1612, foi canonizado em Lembro também da invocação freqüente à Santa
à ce qui est dit de la religion
1807. Os outros dois santos da “família preta”, Ifigênia: “Bambi Domina”, ouvida por Pohl em
catholique, à plusieurs reprises
dans l’ensemble du texte. Le presente em Ouro Preto na igreja do Morro da Traíras em 1819 (fig. 11).

Fig. 10. Ouro Preto. A igreja de Nossa Senhora dos Pretos do Alto da Cruz. Em primeiro plano, Fig. 11. Nossa Senhora dos Pretos do Morro da Cruz.
os galhos de uma araucária secular. Foto: Alessandro Dell’Aira Estatua de Santa Ifigênia.

145
Por isso, Nossa Senhora dos Pretos do Morro “Reis de fumaça”, inspirou os trechos “populares” problème de l’éditeur était de
constituer des livraisons de 5
da Cruz é um símbolo de forte identidade. Do de Francesco Mignone e Camargo Guarnieri. planches avec un cahier de texte
Morro da Cruz, ela domina a zona da cidade onde Agripa de Vasconcelos, no seu romance Chico en rapport. Si l’on examine
quelles planches illustrent le
se concentrava a maioria dos escravos. O jovem Rei (1966), faz referência a um tal documento mieux chacune des parties du
Rugendas o percebeu. Voltando atrás pelo Caminho achado em Lisboa no Arquivo da Torre do Tombo, texte, on trouve successivement
4.16 “Danse Batuca”; 4.17 “Danse
Real, em direção ao Rio, quiçá ficou em Ouro sem citá-lo com exatidão. Em 1985, Walter Lima Lundu” (parmi les Nègres); 3.18
“Danse Lundu” (parmi les
Preto além das previsões. A cidade era o teatro Jr. dedicou a Chico Rei uma película famosa.
Européens); 4.18 “Jogar
ideal para uma alegoria pitoresca. Até sem o Rogério de Alvarenga, no romance de caráter Capoeira ou la danse de la
guerre” et 1.27 “San-Salvador”
fantasma do Chico Rei. social, Rei do Congo em Vila Rica (1999),
dont il est surtout question ici;
acompanha de perto Agripa de Vasconcelos, sem 4.19 “Fête de Sainte Rosalie,
patronne des Nègres” 4.15
O quebra-cabeça do Rugendas concessões excessivas à inventiva e ao folclore. “Punitions publiques”, qui ne
Chico Rei foi o protagonista de quadrinhos, correspond à aucun autre endroit
du texte, 2.11 “Capitao de
A épica é um espelho côncavo que deforma escolas de samba, programas de promoção Matto” (même remarque). Il y a
a História. Pensamos em Homero e na Guerra de turística, jornalismo sensacionalista, como no là trop de planches par rapport
au schéma de publication; il
Tróia. A tradição e a improvisação, pelo contrário, caso do repórter duma revista, que há fallut en insérer ailleurs. [Última
revisão: 24 de janeiro de 2004.
se adaptam à História como louvas. Pensamos aproximadamente dez anos anunciou ter
Data de consulta: 13 de julho de
nos contadores de histórias, aos repentistas. A localizado em Pontinha, não longe de Ouro Preto, 2007].” Agradeço Pol Briand,
editor internet do Voyage
historiografia, examinando fontes primárias e uma comunidade de descendentes do filho de
Pittoresque, pela generosa
30
secundárias, pretende fazer ordem entre épica, Chico Rei . assistência perante a minha
investição.
tradição oral e improvisação, com resultados Bem diferente é o quebra-cabeça de Rugen-
26. Sobre os frades legos
alternados. das, que remonta a épocas fora de suspeita. Se Benedito e Antônio, celebrados
Bem diferente é o papel da iconografia. nos comprometemos a resolvê-lo, não foi para nas mais antigas crónicas
franciscanas e venerados em
Ela opera com as imagens produzidas pelos demostrar o fundamento histórico do mito. Na Lisboa na Real Capela do
homens. Estuda temas, formas, sujeitos verdade, achamos que existam duas boas razões Montserrate às Amoreiras, cfr.
DELL’AIRA, La fortuna iberica di
representados, alegorias. Reconstrói os eventos para reduzi-lo às justas proporções. A primeira San Benedetto da Palermo, pp.
por imagens e pontos de vista dos autores das é que a presença entre os africanos do Brasil, 78-79. FIUME, Il santo moro, pp.
252-257. Para a tradição
imagens. de escravos aristocráticos era mais consistente carmelita dos santos Ifigênia e
Elisbão, veja Biblioteca
De Chico Rei nos separam dois séculos e do que hoje não se imagina: ilustrou-o o mesmo
Sanctorum, vol. IV, col. 1002,
meio. Um historiador local, Diogo de Vasconcelos, Debret, representando e comentando as exéquias ELESBAAN (CALEB); vol VII, coll.
31 649-50, IFIGENIA (EFIGENIA),
ocupando-se do tema em 1904, foi o primeiro a do filho de um rei africano ; deduziu-o Mariza lembrando que entre as formas
escrever sobre esta lenda “tão bizarra, quanto de Carvalho Soares, do testamento de um Elisbão / Elesbão, Ifigênia /
Efigênia, para omogeneidade
verdadeiramente poética”. Resumiu-a numa nota membro da Irmandade de Santo Elesbão e Santa usamos sempre Elisbão e
da História Antiga de Minas, para guardar a Efigênia de Rio de Janeiro, defunto sem herdeiros Ifigênia. Para os critérios de
admissão dos africanos à
tradição das contaminações com épica e em 1783, neto de um “bem conhecido Rei que irmandade dos santos Elisbão e
28
literatura . Foi acusado de ter inventado tudo. foi entre os gentios daquela Costa no Reino de Ifigênia de Rio, según os grupos
32 (‘nações’) de procedência, con
Em primeiro lugar, por não ter citado May ou Maquis” ; demonstra-o agora ampla- divisões entre grupo e grupo, cfr.
CARVALHO SOARES, O Império de
testemunhos ou fontes escritas. Em segundo mente Marina de Mello e Souza, no seu Reis
Santo Elesbão na cidade do Rio
lugar, por ter dado a impressão de ter saudade Negros no Brasil Escravista. A segunda razão é de Janeiro, no século XVIII, pp.
64-66. Segundo a autora, há uma
de quando os escravos eram humildes e sumiços. que a introdução no Brasil das coroações rituais relação entre a navegação e
Em terceiro lugar, por ter apresentado Chico Rei não se deve ao Chico Rei. O mais antigo Santo Elisbão
29
como homem do Rei e homem de Deus, documento que se refere à eleição e a coroação
precursor do cooperativismo e do cristianismo de um rei numa irmandade de pretos é do ano
social. 1565 e pertence à Irmandade de Nossa Senhora
Depois de Diogo de Vasconcelos, desenvol- do Rosário dos Homens Pretos, aberta a brancos
veu-se uma saga multiforme. Mário de Andrade, e a pretos, fundada em 1460 em Lisboa no
33
que sobre os Reis Negros do Brasil falava de convento de São Domingo.

146
desígnio 9/10 set.2009
DELL’AIRA, Alessandro. San Benedetto da San Fratello ad Angra dos Reis.
27. AUGRAS, Todos os Santos são Conclusão
Kalós, Anno 19, nº 1 (gennaio-marzo 2007). Pp. 34-41.
Bem-Vindos, pp.78-79. A Augras
DIENER, Pablo; COSTA, Maria de Fátima. A América de Rugendas. Obras e
transcreve uma invocação da
documentos. São Paulo : Estação Liberdade/Kosmos, 1999.
Comunidade dos Arturos: “Oi, me Minha leitura da prancha 4.19 do Voyage
DIENER, Pablo; COSTA, Maria de Fátima. Rugendas e o Brasil. São Paulo :
vale santa Efigênia / Me ajude
neste congá / Oi me vale santa Pittoresque de Rugendas está baseada em uma Capivara, 2002.
FERRAND, Paul. O ouro em Minas Gerais. Trad. De L’Or a Minas Gerais. Belo
Efigênia / No Rosaro eu me série numerosa e coerente de indícios, que me Horizonte: Centro Estudos Histórico e Culturais, Fundação João Pinheiro,
quero chegá”, interpretando
congá como congado o como permitiram reconhecer e identificar com certeza 1998.
FIUME, Giovanna. Il santo moro. I processi di canonizzazione di Benedetto
corrupção de ngonga = altar.
o local da festa representada. No entanto, na da Palermo. FrancoAngeli : Milano, 2002.
28. VASCONCELOS, História falta de outros elementos e em presença de uma HAMILTON-TYRREL, Sarah. Mário de Andrade, Mentor: Modernism and
Antiga de Minas Gerais, pp. 162- Musical Aesthetics in Brazil, 1920–1945
63, nota 19. didascália errônea, não tenho certeza absoluta Musical Quarterly 2005; 88. Pp. 7-34.
JAMES, David. Rugendas no Brasil: Obras inéditas. Revista do Património
29. A frase é de Agripa do sentido alegórico da cena. Sobre a histori-
Histórico e Artístico Nacional, n.º 13, Rio de Janeiro: MEC, 1956.
VASCONCELOS, Chico Rei. Belo cidade do Chico Rei, minha hipótese enobrece a LAHON, Didier. As irmandades de negros e forros. Os Negros em Portugal,
Horizonte: Editora Itatiaia
sécs. XV a XIX. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos
Limitada, 2002, p. 198. lenda, e transfere a sua origem para além da
Descobrimentos Portugueses, 1999. Pp. 129-149.
30. Sobre Mário de Andrade, época e das circunstâncias históricas em que os LUCAS, Glaura. Os Sons do Rosário. O Congado Mineiro dos Arturos e Jatobá.
Francesco Mignone e Camargo Belo Horizonte : Editora UFMG, 2002.
africanos de Vila Rica elaboraram as suas MARTINS, Leda Maria. “A oralitura da memória”. SOARES FONSECA, Maria
Guarnieri, cfr. HAMILTON-TYRREL,
Sarah. Mário de Andrade, Mentor: tradições de origem, e desenvolveram a devoção Nazareth (org), Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. Pp.
Modernism and Musical Aesthetics 61-86.
para uma “gloriosa” santa africana. Os escravos MELO, Veríssimo de. Festa de Nossa Senhora do Rosário (dos pretos) em
in Brazil, 1920–1945, pp. 7-34.
Sobre a película de Walter Lima, da minas de Vila Rica veneraram Chico Rei como Jardim do Seridó. Arquivos do Instituto de Antropologia da Universidade do
Chico Rei: BERNARDES HABER, Rio Grande do Norte. Natal, v.1, nº 1, março de 1964. Pp. 7-15.
Angeluccia. Chico Rei: quem é rei,
os gregos da época clássica veneravam os MILLIET, Sérgio. Fora de Forma. São Paulo: Anchieta, 1942.
OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Devoção e identidades: significados
sempre será; Chico por ser “oecistas”, heróis fundadores das colônias. Assim
brasileiro e negro, depende do do culto de Santo Elesbão e Santa Efigênia no Rio de Janeiro e nas Minas
olhar histórico. Alceu, v. 5, nº 10. escreve Marina de Mello e Souza: “Representando Gerais nos Setecentos. Topoi. Revista de História PPGHIS. Rio de Janeiro:
Jan./jun. 2005 , pp. 18-29.: v.7, 2006. Pp. 160-115.
um mito, um herói-fundador, o rei congo atribuia
ALVARENGA, Rogério. Rei do PAIVA, Eduardo França. Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e
Congo em Vila Rica. Contagem às comunidades que o elegiam uma identidade mestiçagem no Novo Mundo. In: PAIVA, Eduardo França & ANASTASIA, Carla
(BH) : Santa Clara, 2001; Chico Maria Junho. (orgs.) O trabalho mestiço; maneiras de pensar e formas de
que as ligava à África natal, ao mesmo tempo viver – séculos XVI a XIX. São Paulo/Belo Horizonte: Annablume/PPGH-
Rei – Quadrinhos. Roteiro: André
Diniz, desenhos: Allan Rabelo. que abria os espaços possíveis no seio da UFMG, 2002. Pp. 187-207.
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desígnio 9/10 set.2009

Colaboraram nesta edição R A F A E L M O R E I R A – Professor Associado do


Departamento de História da Arte da Faculdade
de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa

JUSTINO MACIEL – Professor Titular do Departamento


de História da Arte da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa.

LUCAS FRECH CALDEIRA – Arquiteto, pesquisador do


Laboratório de Modelos Tridimensionais da FAU-
USP.

M ÁRIO H ENRIQUE S IMÃO D’A GOSTINO – Arquiteto,


professor associado e orientador da Área de
Concentração de Pós-Graduação História e
Fundamentos da Arquitetura da FAU-USP

JÚLIO CESAR VITORINO - Doutor em Estudos Literários,


Professor adjunto da UFMG.

ALESSANDRO DELL’AIRA – Diretor do Departamento


de Educação do Consulado Geral da Itália em
São Paulo.

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RENATO CYMBALISTA – Arquiteto e doutor pela FAU- Y ARA F ELICIDADE DE S OUZA R EIS – Arquiteta, pós-
USP, professor da Escola da Cidade e da doutoranda pela FAU-USP.
Universidade São Judas Tadeu.
J O Ã O A D O L F O H A N S E N – Professor Titular do
LETÍCIA MARTINS DE ANDRADE – Doutora em História pela Departamento de Letras da FFLCH-USP.
Unicamp, professora adjunta da Universidade
Federal de São João del-Rei (UFSJ). LUCIANO MIGLIACCIO – Professor doutor da FAU-USP.

RICARDO MARQUES DE AZEVEDO – Professor livre docente MARIA LUIZA ZANATTA – Arquiteta, doutoranda pela
e orientador da Área de Concentração de Pós- FAU-USP.
Graduação História e Fundamentos da Arquitetura
e do Urbanismo da FAU-USP. O L G Á R I A C. F. M ATO S – Professora Titular do
Departamento de Filosofia da FFLCH-USP.
RODRIGO DE ALMEIDA BASTOS – Professor Doutor da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da JÚNIA FERREIRA FURTADO – Professora Associada do
Universidade Federal de Minas Gerais. Departamento de História UFMG

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