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org Ano 1, n°2, 2009 2

[-] Sumário # 2
EDITORIAL 4

ENTREVISTA com ROGER BEHRENS 6

ARTIGOS
O VALOR COMO FICTIO JURIS 20
2ª parte: História e Metafísica da forma jurídica
Joelton Nascimento

TRABALHO E EMANCIPAÇÃO: 59
Uma análise do Trabalho Feminino no Capitalismo
Íris Nery do Carmo

ECONOMIA NA BASE DA PORCARIA 68


Como o sistema produtor de mercadorias chega ao absurdo lógico
da não-qualidade total
Paulo V. Marques Dias

Y€$! NÓS SOMOS VERDES! 75


Produção mais limpa ou sujeira sem fim?
Recuperação e revolta dos “excrementos da produção”
Daniel Cunha

AS VESTES NEGRAS DE HAMLET 84


A emergência do sujeito moderno como sujeito político
Raphael F. Alvarenga

O ABISMO DO NEGATIVO 106


Baudelaire e a forma fúnebre da beleza moderna
Cláudio R. Duarte

TRADUÇÕES
O PLANETA ENFERMO 151
Guy Debord

BARULHO ENORME, 160


VIAJANTES DA ESTRADA DE FERRO e
UMA COMUNIDADE DE CANALHAS
Franz Kafka
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LEITURAS E COMENTÁRIOS
A ESTETIZAÇÃO DA (DES)ORDEM BRASILEIRA, 162
SEGUNDO JOSÉ M. WISNIK
Rodrigo Campos Castro

ORIGENS DA CRÍTICA DO DIREITO 171


Joelton Nascimento

DO ASPECTO NÃO-IDÊNTICO DO VALOR DE USO 179


Moishe Postone e a questão do sujeito
Raphael F. Alvarenga
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O PLANETA ENFERMO
Guy Debord (1971)

Prefácio do tradutor

Guy Debord, expoente da Internacional Situacionista e autor d’A sociedade


do espetáculo, dispensa maiores apresentações para os interessados em teoria
revolucionária1. Neste texto de 1971 Debord talvez tenha sido um dos primeiros
teóricos marxistas a resgatar (e levar ao seu limite limite lógico) a crítica ecológica
já presente em Marx. Para este, a atividade vital humana é uma atividade de
metabolismo com a natureza; e a forma assumida por esse metabolismo na
modernidade, a “produção capitalista, (...) só desenvolve a técnica e a combinação
do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda riqueza: a
terra e o trabalhador"2.

O interesse deste texto (inédito até 2004) também reside no fato de que
Debord, além de apontar a poluição como a conclusão material do automovimento
do capital, como “fim forçado” do processo de fetichização capitalista, antecipa a
recuperação da ecologia pelo poder:

“Após o fracasso fundamental de todos os reformismos do passado - todos


os quais aspiravam a solução definitiva do problema das classes -, um
novo reformismo se desenha, que obedece às mesmas necessidades que os
precedentes: engraxar a maquinaria e abrir novas possibilidades de lucro
para as empresas de ponta. O setor mais moderno da indústria se lança
sobre os diversos paliativos da poluição como sobre um novo mercado,
tanto mais rentável pelo fato de que poderá usar e manejar grande parte
do capital monopolizado pelo Estado”.

Trata-se de uma crítica avant la lettre, baseada tão somente na crítica da


economia política e na dialética, de ideologias reformistas como a do
“desenvolvimento sustentado” (apresentada pela primeira vez no relatório
Brundtland de 1987) e mecanismos de mercado como o Protocolo de Kyoto,

1 A sociedade do espetáculo, obra seminal do autor, está disponível na internet em


http://www.geocities.com/jneves_2000/debord.htm (em português) ou em http://pagesperso-
orange.fr/dumauvaiscote/la_societe_du_spectacle/societespectacle.doc (no original francês);
uma boa introdução à sua obra pode ser encontrada em Anselm Jappe, Guy Debord, ed. Vozes.
2 Karl Marx, O capital, Livro I, cap. XIII, 10.
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gestado no final dos anos 90.

As “decisões terríveis” que nos aguardam enfrentam uma dificuldade a mais


do que no tempo de Debord: a revolução está fora de moda. O reformismo, se no
plano material está efetivamente condenado ao fracasso, no plano subjetivo parece
ter aplacado quase todo o impulso social anti-sistêmico: o “ecologista” se contenta
com o lamentável papel de assessor parlamentar ou animador de ONG – quando
não se torna empresário da poluição. Mas enquanto a enfermidade fundamental da
sociedade moderna não for curada, nuvens carregadas seguirão obstruindo o sol.
Aqui não cabem ilusões: elas estão mais pesadas do que nunca.
(D.C.)

O PLANETA ENFERMO

Guy Debord

A "poluição" está na moda hoje em dia, exatamente da mesma maneira que


a revolução: se apodera de toda a vida da sociedade, e é ilusoriamente representada
no espetáculo. Ela é a verborragia tediosa que preenche uma pletora de escritos e
discursos falsos e misfiticadores, mas agarra todos pelo pescoço através dos fatos.
Se expõe em todos os lados como ideologia e ganha terreno como processo real.
Esses dois movimentos antagônicos, o estágio supremo da produção mercantil e o
projeto de sua negação total, igualmente ricos em contradições em si mesmos,
crescem juntos. São os dois lados pelos quais se manifesta um mesmo momento
histórico longamente esperado e freqüentemente previsto sob formas parciais e
inadequadas: a impossibilidade de que o capitalismo continue funcionando.
A época que possui todos os meios técnicos para alterar totalmente as
condições de vida sobre a terra é também a época que, em virtude deste mesmo
desenvolvimento técnico e científico separado, dispõe de todos os meios de
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controle e previsão matematicamente indubitável para medir por antecipação


aonde leva - e até que data - o crescimento automático das forças produtivas
alienadas da sociedade de classes: ou seja, para medir a rápida deterioração das
próprias condições de sobrevivência, no sentido mais geral e mais trivial da
palavra.
Enquanto os imbecis passadistas seguem dissertando ainda sobre (e contra)
uma crítica estética de tudo isso, julgando-se lúcidos e modernos porque
aparentam esposar-se com seu século, declarando que Sarcelles ou as autopistas
possuem uma beleza peculiar, preferível à incomodidade dos "pitorescos" bairros
antigos, ou observando seriamente que o conjunto da população se alimenta
melhor do que antes, a despeito dos nostálgicos da boa cozinha, o problema da
deterioração da totalidade do meio natural e humano deixou já completamente de
apresentar-se no plano da suposta qualidade antiga, estética ou não, para
converter-se radicalmente no problema mesmo da possibilidade material da
existência do mundo que segue tal movimento. A impossibilidade já foi de fato
perfeitamente demonstrada por todo o conhecimento científico separado, que já
discute apenas a data de vencimento e os paliativos que, se aplicados com firmeza,
poderiam adiá-la um pouco. Uma ciência semelhante não pode senão acompanhar
em seu caminho para a destruição o mundo que a produziu e que a mantém; mas
ela se vê obrigada a percorrer esse caminho com os olhos abertos: com o que
mostra em grau caricaturesco a inutilidade do conhecimento sem emprego.
Se está medindo e extrapolando com excelente precisão o rápido aumento
da poluição química da atmosfera respirável, da água dos rios, dos lagos e dos
oceanos; o aumento irreversível da radiatividade acumulada pelo desenvolvimento
pacífico da energia nuclear; dos efeitos do ruído; da invasão do espaço por
produtos de materiais plásticos que demandam uma eternidade de aterro sanitário;
da natalidade demente; da falsificação insensata dos alimentos; da lepra
urbanística que vem ocupando cada vez mais o lugar do que foram a cidade e o
campo, assim como das enfermidades mentais - incluídos os temores neuróticos e
as alucinações, que não tardarão a multiplicar-se a propósito da própria poluição,
cuja imagem alarmante se exibe em todas as partes - e do suicídio, cujas taxas de
expansão coincidem já exatamente com a da edificação de semelhante ambiente
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(para não falar dos efeitos da guerra nuclear ou biológica, para a qual já estão aí os
meios, como espada de Dâmocles, ainda que siga sendo evidentemente evitável).
Em suma, se o alcance e ainda a realidade dos "terrores do ano mil" são
ainda matéria de controvérsia entre os historiadores, o terror do ano dois mil é tão
patente como bem fundado; a partir de agora, é uma certeza científica. E, contudo,
o que está passando não é no fundo nada novo: é somente o fim forçado do
processo antigo. Uma sociedade cada vez mais enferma, mas cada vez mais
poderosa, recriou em todas as partes o mundo concretamente como entorno e
decoração de sua enfermidade, como planeta enfermo. Uma sociedade que ainda
não tornou-se homogênea e que não se determina a si mesma, mas que está
determinada cada vez mais por uma parte de si mesma que se situa acima e à
margem dela, desenvolveu um movimento de dominação da natureza que não
dominou a si mesmo. O capitalismo trouxe, finalmente, por seu próprio
movimento, a prova de que já não é capaz de seguir desenvolvendo as forças
produtivas, e não em um sentido quantitativo, como muitos acreditavam
entender, mas qualitativo.
E, contudo, para o pensamento burguês, metodologicamente, só o
quantitativo é o sério, o mensurável, o efetivo; o qualitativo não é mais do que a
incerta decoração subjetiva ou artística do verdadeiramente real estimado em seu
verdadeiro peso. Para o pensamento dialético, pelo contrário, e, portanto, para a
história e para o proletariado, o qualitativo é a dimensão mais decisiva do
desenvolvimento real. Eis o que o capitalismo e nós acabamos por demonstrar.
Os senhores da sociedade se vêem agora obrigados a falar da poluição, tanto
para combatê-la (pois eles vivem, no fim das contas, no mesmo planeta que nós: eis
aqui o único sentido em que se pode admitir que o desenvolvimento do capitalismo
tenha realizado efetivamente uma certa fusão das classes) como para dissimulá-la:
pois a simples verdade das "nocividades" e dos riscos atuais é suficiente para
constituir um imenso fator de revolta, uma exigência materialista dos explorados,
tão vital quanto foi no século XIX a luta dos proletários pela possibilidade de
comer. Após o fracasso fundamental de todos os reformismos do passado - todos os
quais aspiravam a solução definitiva do problema das classes -, um novo
reformismo se desenha, que obedece às mesmas necessidades que os precedentes:
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engraxar a maquinaria e abrir novas possibilidades de lucro para as empresas de


ponta. O setor mais moderno da indústria se lança sobre os diversos paliativos da
poluição como sobre um novo mercado, tanto mais rentável pelo fato de que
poderá usar e manejar grande parte do capital monopolizado pelo Estado. Mas se
esse novo reformismo tem de antemão a garantia de seu fracasso, exatamente pelas
mesmas razões que os reformismos do passado, ele guarde em relação àqueles esta
diferença radical de que este já não tem tempo diante de si.
O desenvolvimento da produção se verificou inteiramente até aqui como
realização da economia política: desenvolvimento da miséria, que invadiu e
arruinou o próprio meio da vida. A sociedade na qual os produtores se matam
trabalhando e só podem contemplar o resultado, lhes oferece francamente para
ver, e respirar, o resultado geral do trabalho alienado como resultado de morte. Na
sociedade da economia superdesenvolvida, tudo possou a fazer parte dos bens
econômicos, mesmo a água das fontes e o ar das cidades; o que equivale a dizer que
tudo se converteu no mal econômico, a "negação total do homem" que chega agora
à sua perfeita conclusão material. O conflito entre as forças produtivas modernas e
as relações de produção, burguesas ou burocráticas, da sociedade capitalista,
entrou em sua última fase. A produção da não-vida seguiu com cada vez maior
rapidez seu processo linear e cumulativo; ao ultrapassar o último umbral de seu
progresso, ela produz agora diretamente a morte.
A função última, confessada e essencial da economia desenvolvida de hoje,
em todo o mundo em que impera o trabalho-mercadoria que assegura todo o poder
a seus patrões, é a produção de empregos. Bem longe estamos, pois, das idéias
"progressistas" do século passado sobre a possível redução do trabalho humano
graças à multiplicação científica e técnica da produtividade, que se supunha
asseguraria com cada vez maior facilidade a satisfação das necessidades
anteriormente reconhecidas por todos como reais, e sem alteração fundamental
da qualidade dos bens que se encontrariam disponíveis. Agora é para criar
empregos, até no campo esvaziado de camponeses, quer dizer, para utilizar o
trabalho humano enquanto trabalho alienado, enquanto salariato, que se faz todo
o resto; e portanto ameaçamos estupidamente as bases da vida da espécie,
atualmente mais frágeis ainda que pensamento de um Kennedy ou de um Brejnev.
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O velho oceano é em si mesmo indiferente à poluição; mas a história não o é.


Ela só pode ser salva através da abolição do trabalho-mercadoria. E nunca antes a
consciência histórica havia tido tanta necessidade de dominar com toda a urgência
o seu mundo, porque o inimigo que está à sua porta já não é a ilusão, mas sua
morte.
Quando o pobres senhores da sociedade cujo penoso resultado estamos
presenciando - resultado muito pior do que qualquer condenação que antes
pudessem fulminar os mais radicais utopistas - se vêem agora forçados a admitir
que nosso entorno se fez social e que a gestão de tudo se converteu em assunto
diretamente político, até a erva dos campos e a possibilidade de beber, de dormir
sem demasiados soníferos ou de lavar-se sem sofrer de múltiplas alergias, em um
momento como este se está vendo às claras que também a velha política tem que
confessar que está completamente acabada.
Está acabada na forma suprema de seu voluntarismo, o poder burocrático
totalitário dos regimes ditos socialistas, porque os burocratas no poder não se
mostraram capazes nem sequer de gerir o estágio anterior da economia capitalista.
Se poluem muito menos (os Estados Unidos produzem sozinhos 50% da poluição
mundial) é porque são muito mais pobres. Não podem senão reservar, como na
China, por exemplo, uma parte desproporcionada seus míseros orçamentos para
pagar-se com a parte de poluição de prestígio das potências pobres: alguns
aperfeiçoamentos ou redescobertas no terreno das técnicas de guerra
termonuclear, ou mais exatamente de seu espetáculo ameaçador. Tanta pobreza,
material e mental, sustentada por tanto terrorismo, condena as burocracias no
poder. E o que condena o poder burguês mais modernizado é o resultado
insuportável de tanta riqueza efetivamente envenenada. A gestão dita democrática
do capitalismo, seja no país que for, não oferece mais do que suas eleições-
renúncias, que, como se viu sempre, nunca modificaram nada no conjunto - e
muito pouca coisa nos detalhes - a uma sociedade de classes que se imaginava que
iria durar indefinidamente. Elas não a modificam nem um pouco mais no
momento em que a própria gestão entra em pânico e finge querer, para enfrentar
certos problemas secundários mas urgentes, quaisquer vagas diretrizes do
eleitorado alienado e cretinizado (como ocorre nos Estados Unidos, na Inglaterra
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ou na França). Todos os observadores especializados destacaram sempre - ainda


que sem se preocupar-se em explicá-lo - o fato de que o eleitor não muda quase
nunca de "opinião": e isto é justamente porque ele é eleitor, isto é, aquele que
assume, por um breve instante, o papel abstrato que está destinado precisamente a
impedi-lo de que seja por si mesmo e que mude (o mecanismo foi desmontado mil
vezes, tanto pela análise política desmistificada como pelas explicações da
psicanálise revolucionária). O eleitor tampouco muda quando o mundo muda cada
vez mais precipitadamente ao seu redor; e, enquanto eleitor, não mudará nem às
vésperas do fim do mundo. Todo sistema representativo é essencialmente
conservador, ainda que as condições de existência da sociedade capitalista não
tenham podido conservar-se jamais: elas se modificam sem interrupção e cada vez
mais depressa, ainda que a decisão - que vem a ser sempre, no fim das contas, a
decisão de permitir o processo mesmo da produção mercantil - seja deixada
inteiramente em mãos de especialistas publicitários, que se apresentem à corrida
sozinhos ou em competição com aqueles que querem fazer o mesmo e declaram o
seu propósito abertamente. Ainda assim, o homem que acaba de votar "livremente"
nos gaullistas ou no PCF, assim como o que acaba de votar, à força e obrigado, em
Gomulka, é capaz de dar mostra do que verdadeiramente é participando, na
semana seguinte, de uma greve selvagem ou de uma insurreição.
A assim chamada "luta contra a poluição", em sua vertente estatal e
regulamentadora, vai criar antes de tudo novas especializações, serviços
ministeriais, postos de trabalho e ascensões burocráticas. Sua eficácia será
exatamente aquela que a tais meios corresponde. Ela não pode converter-se em
vontade real a não ser transformando o sistema produtivo atual em suas próprias
raízes. Ela não pode levar-se a cabo com firmeza a não ser no instante em que todas
as suas decisões, tomadas democraticamente e com pleno conhecimento de causa,
pelos produtores, sejam em todos os momentos controladas e executadas pelos
próprios produtores (os navios petroleiros, por exemplo, seguirão infalivelmente
vertendo petróleo nos mares enquanto não forem comandados por verdadeiros
sovietes de marinheiros). Para decidir e executar tudo isso, é necessário que os
produtores se tornem adultos: é necessário que todos tomem o poder.
O otimismo científico do século XIX desmoronou em três pontos essenciais.
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Em primeiro lugar, a pretensão de garantir a revolução como resolução feliz


dos conflitos existentes (a ilusão hegeliano-esquerdista e marxista; a menos
refletida pela intelectualidade burguesa, mas a mais rica e, depois de tudo, a menos
ilusória); segundo, a visão coerente do universo, e mesmo da matéria,
simplesmente; e terceiro, o sentimento eufórico e linear do desenvolvimento das
forças produtivas. Se dominarmos o primeiro ponto, teremos resolvido o terceiro;
mais adiante, saberemos fazer do segundo nosso assunto e nosso jogo. Não se deve
curar os sintomas, mas a própria enfermidade. Hoje em dia o medo está em todos
os lados, e não vamos sair dele senão confiando em nossas próprias forças, em
nossa capacidade de destruir toda alienação existente e toda imagem do poder que
nos tenha escapado, submetendo tudo, exceto nós mesmos, ao único poder dos
conselhos de trabalhadores que possuam e reconstruam a cada instante a
totalidade do mundo; quer dizer, na racionalidade verdadeira, numa nova
legitimidade.
Em matéria de meio ambiente "natural" e construído, de natalidade, de
biologia, de produção, de "loucura", etc., não será necessário eleger entre a festa e a
desgraça, mas, conscientemente e a cada passo, entre mil possibilidades felizes ou
desastrosas, relativamente corrigíveis, e, por outro lado, o nada. As escolhas
terríveis do futuro próximo só deixam esta alternativa: democracia total ou
burocracia total. Aqueles que duvidam da democracia total devem fazer o esforço
de prová-la por si mesmos, dando-lhe a ocasião de provar-se em processo; do
contrário, só lhes resta comprar a tumba a prestações, pois "o que é a autoridade, a
vimos em ação [à l’oeuvre], e suas obras [oeuvres] a condenam" (Joseph
Déjacque).
"Revolução ou morte": esse slogan já não é a expressão lírica da consciência
revoltada, mas a última palavra do pensamento científico de nosso século. E isso
vale tanto para os perigos que corre a espécie como para a impossibilidade de
adesão para os indivíduos. Nesta sociedade, na qual o suicídio progride como é
sabido, os especialistas tiveram de reconhecer, com certo pesar, que ele havia
descendido a quase nada em maio de 1968. Aquela primavera conseguiu também,
sem precisamente a ele ascender em assalto, um céu limpo, porque alguns
automóveis foram queimados e a todos os outros faltava combustível para poluir.
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Quando chove, quando há falsas nuvens sobre Paris, não esqueçam jamais que a
culpa é do governo. A produção industrial alienada faz a chuva. A revolução faz o
bom tempo.

[Traduzido por Daniel Cunha


Original: Guy Debord. La planète malade - 1971
Disponível em http://cf.geocities.com/contrefeu/debord.html ]