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Antropologia e Sociologia das Organizações (textos para estudo 2019) 1ª parte

Antropologia

Conceitos:
“Ciência da humanidade e da cultura. Como tal, é uma ciência superior social e
comportamental, e mais, na sua relação com as artes e no empenho do antropólogo de sentir e
comunicar o modo de viver total dos povos específicos, é também uma disciplina
humanística”. Hoebel e Frost

Dimensões:
Biológica: antropologia física: estuda a natureza física do homem, procurando conhecer suas
origens e evolução, sua estrutura anatômica, seus processos fisiológicos e as diferentes
características raciais das populações humanas, antigas e modernas. Está ligada de certa forma
às ciências biológicas e naturais.
Sociocultural:
antropologia social: estudo dos processos culturais e da estrutura social, seu interesse está
centrado na sociedade e nas instituições. O Antropólogo social é aquele que, levando em conta
as diferenças existentes entre grupos humanos, preocupa-se em conhecer as relações sociais
que as regem. Cada aspecto da vida social – o familiar, o econômico, o político, o religioso, o
jurídico – só pode ser compreendido se estudado em relação aos demais, como parte de um
conjunto integrado.
Antropologia cultural: campo mais amplo da ciência antropológica. Abrange o estudo do
homem como ser cultural, isto é, fazedor de cultura. Investiga as culturas humanas no tempo e
no espaço, suas origens e desenvolvimento, suas semelhanças e diferenças. Tem foco de
interesse voltado para o conhecimento do comportamento cultural humano, adquirido por
aprendizado, analisando-o em todas as suas dimensões.
Como ciência social, seu objetivo básico consiste no “problema de relação entre os modos de
comportamento instintivo (hereditário) e adquirido (por aprendizagem), bem como o das bases
biológicas gerais que servem de estrutura às capacidades culturais do homem” (Heberer). Seu
campo de estudo abrange: arqueologia/ etnografia/ etnologia/ linguística/ folclore.

Filosófica: antropologia filosófica - responde: Quem é o homem?

Uma conceituação mais ampla define antropologia como a ciência que estuda o homem, suas
produções e o seu comportamento. O seu interesse está no homem como um todo – biológico e
cultural – procurando revelar os fatos da natureza e da cultura. Tenta compreender a existência
humana em todos os seus aspectos, no espaço e no tempo, partindo do princípio da estrutura
biopsíquica. Busca também a compreensão das manifestações culturais, do comportamento e
da vida social.

Objeto de estudo
Segundo Beals e Hoijer “seus problemas (da antropologia) se centram, por um lado, no homem
como membro do reino animal, e, por outro, no comportamento do homem como membro da
sociedade”. O objeto da antropologia engloba as formas físicas primitivas e atuais do homem e
suas manifestações culturais. Interessa-se preferencialmente, pelos grupos simples,
culturalmente diferenciados, e também pelo conhecimento de todas as sociedades humanas,
letradas ou ágrafas, extintas ou vivas, existentes nas várias regiões da terra. Atribui-se ao
antropólogo a tarefa de proceder a generalizações, formulando princípios explicativos da
formação e desenvolvimento das sociedades e culturas humanas.
(Apud: Marconi, Antropologia: uma introdução )
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CULTURA
A cultura, para os antropólogos em geral, constitui no “conceito básico e central de sua
ciência” (Leslie White). O termo cultura não se restringe ao campo da antropologia, varias
áreas do saber humano — agronomia, biologia, artes, literatura, sociologia, história etc., valem-
se dele, embora seja outra a conotação. Muitas vezes, encontramos a palavra cultura indicando
o desenvolvimento do individuo por meio da educação, da instrução. Nesse caso. uma pessoa
culta seria aquela que adquiriu domínio no campo intelectual ou artístico. Inculta seria a
pessoa que não obteve instrução.
Os antropólogos não empregam os termos culto ou inculto, de uso popular, e nem fazem
juízo de valor sobre esta ou aquela cultura, pois não consideram uma superior à outra. Elas são
diferentes em relação à tecnologia ou integração de seus elementos. Todas as sociedades -
rurais e urbanas - possuem cultura. Só os recém-nascidos e o homo-ferus não possuem cultura.

Segundo Edward B. Tylor, “cultura... é aquele todo complexo que inclui o


conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e
aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade “.

A cultura pode ser analisada, ao mesmo tempo, sob vários enfoques:

 Ideias: conhecimento e filosofia;


 Crenças: religião e superstição;
 Valores: ideologia e moral;
 Normas: costumes e leis;
 Atitudes: preconceito e respeito ao próximo;
 Padrões de conduta: monogamia, tabu;
 Abstração do comportamento:símbolos e compromissos;
 Instituições: família, sistemas econômicos;
 Técnicas: artes e habilidades;
 Artefatos: machado de pedra, telefone.

Relativismo cultural:

A posição cultural relativista tem como fundamento a ideia de que os indivíduos são
condicionados a um modo de vida específico e particular, por meio do processo de
endoculturação. Adquire, assim, seus próprios sistemas de valores e a sua própria integridade
cultural.
As culturas, de modo geral, diferem umas das outras em relação aos postulados básicos,
embora tenham características comuns.
Toda cultura é considerada como configuração saudável para os indivíduos que a praticam,
todos os povos formulam juízos em relação aos modos de vida diferentes dos seus. Por isso, o
relativismo cultural não concorda com a idéia de normas e valores absolutos e defende o
pressuposto de que as avaliações devem ser sempre relativas à própria cultura onde surgem.
Os padrões ou valores de certo ou errado, dos usos e costumes, das sociedades em geral, estão
relacionados com a cultura da qual fazem parte. Dessa maneira, um costume pode ser válido
em relação a um ambiente cultural e não a outro e, mesmo, ser repudiados.

Traços, complexos e padrões culturais:

Traços culturais: consistem nos menores elementos que permitem a descrição da cultura.
Referem-se, portanto, à menor unidade ou componente significativo da cultura, que pode ser
isolado no comportamento cultural. Embora os traços sejam constituídos de partes menores, os
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itens, estes não tem valor por si sós. Ex: uma caneta pode existir como um obteto definido, mas
só pode funcionar como unidade cultural em sua associação com a tinta, convertendo-se assim
em um traço cultural.
Complexos culturais: consistem no conjunto de traços ou num grupo de traços associados,
formando um todo funcional; ou ainda, um grupo de características culturais interligadas,
encontrado em uma área cultural. Ex. carnaval: carros alegóricos, música, dança, instrumentos,
desfile, organização, etc.
Padrões culturais: o padrão cultural é um comportamento generalizado, estandardizado e
regularizado; ele estabelece o que é aceitável ou não na conduta de uma dada cultura.
Nenhuma sociedade é totalmente homogênea. Existem padrões de comportamento distintos
para homens e mulheres, para adultos e jovens. Quando os elementos de uma sociedade
pensam e agem como membros de um grupo, expressam os padrões culturais do grupo.
O comportamento do indivíduo é influenciado pelos padrões da cultura em que vive. Embora
cada pessoa tenha caráter exclusivo, devido às proprias experiências, os padroes culturais, de
diferentes sociedades, produzem tipos distintos de personalidades, característico dos membros
dessas sociedades. O padrão se forma pela repetição contínua. Quando muitas pessoas, em
dada sociedade, agem da mesma forma ou modo, durante um largo período de tempo,
desenvolve-se um padrão cultural. Ex. Matrimônio: (padrão cultural) engloba o complexo do
casamento com vários traços (cerimônia, aliança, roupas, flores, convites, etc).

Folkways, Mores e Leis


A maneira de viver de um grupo social implica normas de comportamento, muitas delas
estabelecidas há tempos atrás.
As normas de comportamento social foram classificados por Sumner em duas categorias
diferentes: oa folkways (usos) e os mores (costumes). Esta divisão dos padrões de
comportamento se estende, portanto, desde os de menor importância até os obrigatórios e
universais. Entre os usos mais frouxos e os costumes mais rigorosos forma-se um contínuo
que, tendo-se em vista as variedades dentro de cada categoria, dificulta a delimitação das
fronteiras entre um e outro. Essa passagem, fluida e imprecisa, torna difícil classificar alguns
padrões situados nesse contínuo, por parecer pertencerem às duas categorias. Nesse caso temos
as regras sobre o recato no trajar; o consumo de bebidas alcoólicas etc.
Folkways (usos): padrões não obrigatórios de comportamento social exterior constituem os
modos coletivos de conduta, convencionais ou espontâneos, reconhecidos e aceitos pela
sociedade. Praticamente, regem a maior parte da nossa vida cotidiana, sem serem
deliberadamente impostos. Indicam o que é adequado ou socialmente correto. Não tem caráter
obrigatório, mas são bastantes difundidos.
Segundo Sumner, surgem de uma necessidade coletiva para a solução de problemas imediatos.
A pessoa que infringe um folkway pode ser taxada de excêntrica, distraída, mas a infração não
constitui uma ameaça ao grupo. As sanções são brandas, quase despercebidas, com o riso , o
ridículo.
Exemplos de folkways: convenções, formas de etiqueta, celebração da puberdade, estilos de
construções, rituais de observância religiosa, rotinas de trabalho e lazer; convenções da arte ou
da guerra, maneiras de cortejar, de vestir etc.

Mores (costumes): para Ely Chinoy “são normas moralmente sancionadas com vigor”.
Constituem comportamento imperativo, tido como desejável pelo grupo, apesar de restringir e
limitar a conduta. São essenciais e importantes ao bem estar da sociedade e aparecem como
normas reguladoras de toda a cultura. Apesar da obrigatoriedade e imposição, são considerados
justos pelo grupo que os compartilha.
Os Mores tem caráter ativo e seu controle pode ser consciente e inconsciente; são sancionados
pela tradição e sustentados pelas pressões da opinião de grupos: ridículo, mexerico, castigos,
não-aceitação. Como forma de controle natural, penetram nas relações sociais. Suas normas de
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conduta regulam o comportamento social, restringindo, moldando e reprimindo certas


tendências dos indivíduos. Têm maior conteúdo emocional do que os usos.
A não conformidade com os mores provoca desaprovação moral. A reação do grupo é violenta
e séria, como o adultério, roubo, assassínio e incesto, na sociedade industrial. Entretanto, há
amplas variações nas atitudes dos grupos em relação a essas regras, de acordo com as
diferentes culturas.
Quem obedece aos costumes recebe o respeito, a aprovação, a estima pública. Quem os viola,
além do sentimento de culpa, cai no ostracismo e sua reputação sofre desvios. É apedrejado,
ridicularizado, encarcerado, açoitado, exilado, degradado, excomungado, morto.

Leis: são “regras de comportamento formuladas deliberadamente e impostas por uma


autoridade especial” (Biesanz e Biesanz). São decretadas com a finalidade de suprir os
costumes que começam a desintegrar-se, a perder o seu controle sobre os indivíduos. Nas
sociedades pequenas e unificadas, as pressões e sanções informais são suficientes para manter
o comportamento grupal; nas sociedades complexas são necessários controles mais formais,
decretados e exercidos pelas instituições políticas, jurídicas ou pelo Estado.
A linha divisória entre leis e mores também não é fácil de ser traçada, tanto nas sociedades
simples quanto nas complexas. Assim como os costumes podem transformar-se em leis, estas
podem tornar-se mores.
As leis servem a diferentes propósitos:
 Impõem os mores aceitos pelo grupo cultural;
 Regulam novas situações, fora dos costumes;
 Substituem costumes antigos e ineficazes;
 Congregam os padrões reais com os ideais e os valores imperantes.

Exemplos de mores impostos por lei ou por ela reforçados: monogamia, bem-estar da esposa e
dos filhos, a punição do roubo, do estupro, do assassinato etc.

Nível de participação do indivíduo na cultura


As culturas são constituídas de normas comportamentais ou costumes. Essas normas
podem ser classificadas de acordo com o nível de participação - obrigatório ou facultativo -
do indivíduo na cultura (Ralph Linton). Podemos distinguir: os universais, as
especialidades, as alternativas, e além disso, as peculiaridades individuais.
Universais: embora o conteúdo da cultura varie de uma sociedade para outra, existem
padrões de conduta característicos de todos os membros de uma sociedade: são os
universais. São idéias, costumes, reações emotivas condicionadas, comuns a todos os
elementos de determinada sociedade. Exemplos: a língua portuguesa no Brasil, enterrar os
mortos, andar vestido, a monogamia no Brasil, a democracia nos EUA, a liberdade para
várias sociedades.
Especialidades: são certas normas, praticadas e seguidas apenas por alguns grupos; padrões
de conduta compartilhados apenas por certos indivíduos. São habilidades e conhecimentos
técnicos referentes a categorias como: médico, engenheiro, advogado. ama-de-leite,
curandeiro, administrador, economista, contador, jogador de futebol etc.
Alternativas: são os inúmeros traços, existentes em todas as culturas, partilhados por certo
número de indivíduos, mas que não são comuns a todos os membros da sociedade. nem aos
grupos de especialização, por não se assemelharem a qualquer categoria especial de
ocupação. As alternativas estão vinculadas à livre escolha. Ex.: ser ou não ser vegetariano,
mulher optar por saia ou calça comprida, homem usar cabelos compridos. Nas culturas
pequenas e primitivas o número de alternativas é reduzido, ao passo que nas grandes
sociedades urbanizadas e complexas, é enorme.

Peculiaridades individuais: ficam além dos limites da cultura e constituem características


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pessoais do individuo. Ex. habilidade manual de um artesão, de um instrumentista etc.


Os universais e as especialidades, por serem mais estáveis, formam o núcleo da cultura. As
alternativas são importantes na dinâmica da cultura, pois, caso se difundam ou sejam
seguidas, incorporam-se à cultura.Há sempre alguém, numa comunidade que descobre ou
inventa coisas.(Sociologia Geral/ Lakatos)

O que é sociologia?

O surgimento da sociologia no século XIX deu-se como decorrência da necessidade dos


homens de compreender os inúmeros problemas sociais que estavam aparecendo, em
proporções nunca vistas, em razão da industrialização iniciada no Sec.XVIII. Partindo de uma
realidade rural, em que as funções e relações sociais apresentavam pouca complexidade, as
sociedades europeias depararam, no Sec.XIX, com estruturas sociais mais complexas, que se
desenvolveram em torno da nova realidade industrial. Os problemas desta súbita mudança,
avolumaram-se, constituindo-se em assunto abordado nos meios intelectuais, os quais
passaram a formular várias hipóteses para explicar a situação.
No entanto, as disciplinas existentes apresentavam instrumental insuficiente para
explicar os novos fenômenos sociais. Surge daí a necessidade de uma nova ciência, para,
utilizando-se do instrumental das ciências naturais e exatas, tentar explicar a realidade.
Constitui-se assim a sociologia, em seu início, com o objetivo específico de estudar
sistematicamente o comportamento social dos grupos e as interações humanas, bem como os
fatos sociais que geram e sua inter-relação.
A Sociologia consolidou-se ao longo do tempo como um dos ramos das ciências
humanas, pois surgiram inúmeras ciências para estudar cada dimensão do social, aprofundando
o conhecimento específico de determinadas relações sociais. No entanto, a sociologia
permanece como a única que tem como tema central de estudo as interações sociais
propriamente ditas.
Outras disciplinas podem estudar aspectos sociais da vida do homem; entretanto,
nenhuma apresenta como tema particular e específico o fato social no seu todo. Para o
sociólogo, o fato social é estudado não porque é econômico, jurídico, político, turístico,
educacional ou religioso, mas porque todos ao mesmo tempo são “sociais”,
independentemente da especificidade de cada um, embora essa permita que possam ser
abordados por disciplinas específicas.
A vida dos seres humanos apresenta, assim, várias dimensões: econômica, jurídica,
política, moral, religiosa etc., que ocorrem e se desenvolvem durante a existência social do
homem, ou seja, quando os seres humanos estão interagindo uns com os outros. São essas
interações, independentemente do aspecto que possam assumir, que são o objeto central do
estudo da sociologia.
Logo, a sociologia estuda a dimensão social da conduta humana, as relações sociais que
a ela estão associadas. Para o sociólogo e para todos aqueles que pensam sociologicamente, o
comportamento humano é ordenado, padronizado e estruturado socialmente e assim passível de
um estudo sistemático. Ao compreendermos que podemos entender a sociologia como um
estilo de pensar, estaremos adquirindo uma visão sistêmica de enxergar a realidade social.
Veremos que todas as interações estão relacionadas, de uma forma ou de outra, entre
si, e que quando isolamos um conjunto delas em particular, o fazemos por dois motivos:
 Para estudar isoladamente um grupo de interações específicas que constituem uma
dimensão do social, como, por exemplo, os fatos econômicos, jurídicos, educacionais,
turísticos, religiosos e assim por diante.
 Para estabelecer os limites dos relacionamentos sociais que compõem a nossa
existência, constituindo-se uma rede social da qual fazemos parte.
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O entendimento dessa realidade para aqueles que apresentam o modo de pensar sociológico
permite compreender os fenômenos em sua totalidade, estabelecendo ligações de fatos
cotidianos com a evolução da sociedade como um todo.
Constitui um exemplo desse modo de pensar o estabelecimento de uma relação entre a
abertura de espaços de sociabilidade com a terceira revolução científico-tecnológica e o
aumento da violência. (O aumento da violência que faz com que as pessoas deixem de usar
espaços de convivência tradicionais –praças, parques- e optem por se relacionarem em
ambientes fechados como shopings, livrarias e em espaços virtuais – internet -)
Muitos sociólogos definiram a sociologia e, no entanto, analisando essas muitas
definições, Rumney e Maier (1966, p.20) encontraram bastante convergência entre elas no que
diz respeito ao seu campo de estudo e aos seus deveres como disciplina. As principais
definições analisadas por esse autores foram:
“Sociologia é o estudo das interações e inter relações humanas, suas condições e
circunstâncias” (M. Ginsberg)
“O assunto da sociologia é a interação dos espíritos humanos”. (L.T. Hobhouse)
“É a ciência do comportamento coletivo”. (R.E. Park e E.W. Burgess)
“É a ciência da sociedade ou dos fenômenos sociais”. (Ward)
“A sociologia geral e, em conjunto, a teoria da vida humana em grupo”. (Tönnies)
“É uma ciência social especial que se concentra no comportamento inter-humano, nos
processos de socialização, na associação e dissociação como tais”. (Von Wiese)
“Sociologia é a ciência geral e coordenadora por ser a ciência social fundamental. Longe de ser
apenas a soma das ciências sociais, ela é antes a sua base comum”. (Giddings)

“A sociologia pergunta o que acontece com os homens e quais as regras de seu


comportamento, não no que se refere ao desenvolvimento perceptível de suas existências
individuais como um todo, porém, na medida em que formam grupos e são influenciados,
devido às interações, por sua vida grupal”. (Simmel)

“A sociologia busca descobrir os princípios de coesão e ordem dentro da estrutura social, os


modos pelos quais esta se radica e cresce em um dado ambiente, o equilíbrio instável da
estrutura mutável e do ambiente transformável, as tendências principais da mudança
incessante, as forças que determinam sua direção em dado momento, as harmonias e conflitos,
os ajustamentos e desajustamentos no íntimo da estrutura conforme se revelam à luz dos
desejos humanos, e, assim, a aplicação prática dos meios aos fins nas atividades criadoras do
homem social”. (MacIver)
Como observaram Rumney e Maier, as diferenças entre as várias definições
encontradas são, essencialmente, variações de ênfase. O substrato comum a todas elas é a ideia
de que a sociologia se ocupa das relações humanas, do comportamento do homem com os seus
semelhantes.
Em resumo, podemos definir inicialmente sociologia como o estudo sistemático do
comportamento social, dos grupos e das interações humana. Preocupa-se,
particularmente, em explicar como as atitudes e os comportamentos das pessoas são
influenciados pela sociedade mais geral e pelos diferentes grupos humanos em particular,
e, numa perspectiva mais ampla, qual é a dinâmica social que mantém as sociedades
estáveis ou provoca a mudança social. A visão sociologia compreende observar além das
aparências das ações humanas e das organizações.
O estudo da sociologia também pode ser compreendido como o estudo científico da
sociedade e sua influência sobre o comportamento humano. Para este estudo, os sociólogos
utilizam métodos científicos para a abordagem dos diversos fenômenos sociais existentes nas
diferentes sociedades humanas. (Dias, Reinaldo; Introdução à Sociologia)
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A Necessidade de uma ciência social

A Revolução Industrial refere-se ao período em que um conjunto de invenções e inovações


relacionadas entre si permitiram alcançar uma enorme aceleração da produção de bens e
assegurar um crescimento que foi se tornando rapidamente independente da agricultura.
Esse fenômeno, também conhecido como Primeira Revolução Industrial, teve início na
Inglaterra no século XVIII, entre os anos 1760 a 1820, quando se consolidou e se estendeu
a outros países da Europa e os EUA. A economia inglesa passou então, de economia
agrária para industrial com produção em larga escala e a substituição do trabalho braçal
pelo trabalho da máquina. Para Marx e Engels a grande indústria criou um mercado
mundial que acelerou o desenvolvimento do comércio, da navegação e dos meios de
transporte por terra, as ferrovias principalmente.

Mudanças trazidas pela Revolução Industrial:


Substituição progressiva do trabalho humano por máquinas;
Divisão do trabalho e sua coordenação;
Mudanças culturais no trabalho (disciplina);
Produção de bens em grande quantidade;
Surgimento de novos papéis sociais (operários e capitalistas)

Com o início da Revolução Industrial a agricultura na Inglaterra sofreu grandes


transformações na busca por um aumento de produtividade. Esta reestruturação acabou
provocando o êxodo do trabalhador rural para a cidade.
Como consequência dessas mudanças no campo, as cidades cresceram enormemente
com o afluxo de massas de camponeses atraídos pelo trabalho que era oferecido nas
fábricas, formando o proletariado industrial. O rápido processo de urbanização provocou a
degradação do espaço urbano anterior, do meio ambiente e a destruição de valores
tradicionais.
Além disso, ocorria uma monstruosa exploração do homem pelo homem nas fábricas,
com jornadas de trabalho de até 16 horas, sem garantias trabalhistas, mulheres e crianças
empregadas por salários ultrajantes e todos vivendo em precárias condições habitacionais,
de higiene e alimentação.
Essa condição urbana provocava problemas sociais gravíssimos advindos da rápida
urbanização: doenças, ausência de moradia, prostituição, alcoolismo, suicídios, violência,
epidemias (tifo, cólera).

O surgimento da Sociologia.

O surgimento da sociologia ocorre em um contexto histórico específico, que


coincide com a desagregação da sociedade feudal e a consequente consolidação da
sociedade capitalista. Sua criação não é obra de um só homem; representa o resultado de
um processo histórico, intelectual e científico. A Revolução Francesa e a Revolução
Industrial possibilitam o surgimento da sociologia.
A sociologia surgiu em grande medida em decorrência dos abalos provocados pela
Revolução industrial.
Uma outra circunstância que contribuiu para o surgimento da sociologia foi a evolução
dos modo do pensamento e que, somada aos problemas advindos da rápida
industrialização,possibilitou seu aparecimento.
No Séc. XVII ocorreu um notável avanço no modo de pensar com o uso sistemático da
razão – o livre exame da realidade – característica marcante dos pensadores conhecidos
como “racionalistas”. Tal avanço se completa no Séc. XVIII com os “iluministas”, que não
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buscavam apenas transformas as velhas formas de conhecimento, mas utilizavam a razão


para criticar com veemência a sociedade. Os iluministas atacaram os fundamentos da
sociedade feudal, os privilégios dos nobres e as restrições que estes impunham aos
interesses econômicos e políticos da burguesia.
Combinando o uso da razão com a observação os iluministas analisaram vários aspectos
da sociedade. Tinham como objetivo demonstrar que as instituições da época eram
irracionais e injustas e que impediam a liberdade do homem. Se impediam a liberdade do
homem deviam ser eliminadas. Esse pensamento revolucionário dos iluministas levou-os a
ter um importante papel na Revolução francesa.

O Positivismo

Do ponto de vista intelectual surgiu uma reação conservadora às transformações


desencadeadas pela Revolução Francesa e Revolução Industrial.
A sociedade moderna, na visão conservadora, estava em franco declínio. Não viam
progresso em uma sociedade urbanizada, na indústria, na tecnologia, na ciência e no
igualitarismo. Lamentavam o enfraquecimento da família e da religião. Consideravam que
a sociedade moderna era dominada pelo caos social, desorganização e anarquia..
Preocupados com a ordem, a estabilidade e a coesão social, enfatizariam a importância
da autoridade, da hierarquia da tradição e dos valores morais para a conservação da vida
social. Ao estudarem as instituições – família, religião, o grupo social – preocupavam-se
com a contribuição que poderiam prestar para a manutenção da ordem social.
As ideias dos conservadores constituíram-se em uma referência para os pioneiros da
sociologia, particularmente os “positivistas”, interessados na preservação da nova ordem
econômica e política que estava sendo implantada.
Os positivistas foram bastante influenciados pelas ideias dos conservadores, pois
também consideravam que na sociedade francesa pós revolucionária reinava um clima de
desordem e anarquia, visto que todas as relações sociais tinham se tornado instáveis, e o
problema a ser enfrentado era o de restabelecer a ordem. (Introdução à Sociologia –
Reinaldo Dias)

Augusto Comte

Filósofo e matemático francês, Auguste Comte (1798-1857) foi o fundador do positivismo.


Fez seus primeiros estudos no Liceu de Montpellier, ingressando depois na Escola Politécnica
de Paris, de onde foi expulso em 1816 por ter se rebelado contra um professor.
A partir de 1846, toda a sua vida e obra passaram a ter um espírito religioso. Ao se dedicar
mais às questões espirituais, afastou-se do magistério.
O pensamento de Comte influenciou as teorias existentes, provocando grandes mudanças.
Teve grande influência que como filósofo social, quer como reformador social. Morreu em
Paris em 05/09/1857.
Suas principais obras foram: Curso de Filosofia Positiva, 6 tomos (1830-1842); Discurso
sobre o espírito positivo (1844); Sistema de política positiva, 4 tomos (1851-1854); Síntese
subjetiva (1856).

Augusto Comte lutava para que, em todos os ramos de estudos, se obedecesse à preocupação
da máxima objetividade. Em sua classificação das ciências, colocou a matemática na base e, no
ápice, os esforços de compreensão de tudo o que se referia ao homem, principalmente as
relações entre eles.
Nessa atirude, entretanto, assumia uma posição diferente da dos socialistas. Defendia o ponto
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de vista de somente serem válidas as análises das sociedades quando feitas com verdadeiro
espírito científico, com objetividade e com ausência de metas preconcebidas, próprios das
ciências em geral. Os estudos das relações humanas, assim, deveriam constituir uma nova
ciência, a que se deu o nome de sociologia. Esta não deveria limitar-se apenas à análise, mas
propor normas de comportamento, seguindo a orientação resumida na famosa fórmila
positivista: “saber para prever, a fim de prover”.
É verdade que nos seus escritos sobre a sociedade Comte esteve bem longe de seguir à risca
as suas recomendações de “positividade”. Mas teve enorme repercussão, e ainda tem a atitude
que preconizou quanto ao estudo dos fenômenos sociais, não influenciado pela emotividade,
mas levado a efeito com a isneção de ânimo, semelhante a adotada na química ou na física.
Aliás, inicialmente, em vez do termo “sociologia”, denominara esta ciência de “física social”.

Podemos discernir, nos estudos de Comte, três princípios básicos:


 prioridade do todo sobre as partes: significa que, para compreender e explicar um
fenômeno social particular, devemos analisá-lo no contexto global a que pertence.
Considerava que tanto a Sociologia Estática (estudo da ordem das sociedades em
determinado momento histórico) qunato a Sociologia Dinâmica (estudo da evolução das
sociedades no tempo) deveriam analisar a sociedade de uma determinada época,
correlacionando-a com sua história ou com a história da humanidade (a Sociologia de
Comte é, na realidade, sociologia comparada, tendo como quadro de referência a História
Universal);
 progresso dos conhecimentos é característico da sociedade humana: a sucessão de
gerações, com seus conhecimentos, permite um acumulo de experiências e de saber que
constitui um patrimônio espiritual objetivo e liga as gerações entre si; existe uma coerência
entre o estágio dos conhecimentos e a organização social;
 homem é o mesmo por toda a parte e em todos os tempos: em virtude de possuir
idêntica constituição biológica e sistema cerebral.

Partindo dos princípios acima, Comte concluiu ser natural que a sociedade, em toda a
parte, evolua da mesma maneira e no mesmo sentido, resultando daí que a humanidade em
geral caminha para um mesmo tipo de sociedade mais avançada. De tais idéias surgiu a
classificação das sociedades denominada “a Lei dos três estados”:
 Estado teológico: em que se explicam os diversos fenômenos através da causas
primeiras, em geral personificadas nos deuses.
 Estado metafísico ou filosófico: aqui o homem raciocina, analisa e abstrai, procurando
através de causas mais gerais explicações sobre a natureza das coisas e a causa dos
acontecimentos.
 Estado positivo ou científico: o homem tenta compreender as relações entre as coisas e
os acontecimentos através da observação científica e do raciocínio, formulando leis e,
portanto, não tendo mais necessidade de procurar conhecer a natureza íntima das coisas
e as causas absolutas (período filosófico). O estado positivo será em estado definitivo
para a humanidade onde o homem finalmente encontrará paz e prosperidade, ordem e
progresso.
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Os “Clássicos” do pensamento sociológico


Muitos foram os cientistas sociais que contribuíram para a construção teórica da
sociologia. No entanto, há três que podem ser considerados os mais importantes e são tidos
como clássicos – pela elaboração teórica ampla – e que com o passar do tempo não perdem
sua atualidade. São eles: Émile Dürkheim, Karl Marx e Max Weber.

Karl Marx (1818-1883) Fundador do materialismo histórico, Marx, na realidade um filósofo


social e economista alemão, contribuiu para o desenvolvimento da sociologia, salientando que
as relações sociais decorrem dos modos de produção (fator de transformação da sociedade),
numa tentativa de elaborar uma teoria sistemática da estrutura e das transformações sociais. O
postulado básico do marxismo é o determinismo econômico, segundo o qual o fator econômico
é determinante da estrutura do desenvolvimento da sociedade.
O homem, para satisfazer suas necessidades, atua sobre a natureza, criando relações
técnicas de produção. Todavia, essa atuação não é isolada: na produção e distribuição
necessárias ao consumo, o homem relaciona-se com outros seres humanos, dando origem às
relações de produção. O conjunto dessas relações leva ao modo de produção . Os homens
desenvolvem as relações técnicas de produção através do processo de trabalho (força humana e
ferramentas), dando origem a forças produtivas que, por sua vez, geram um determinado
sistema de produção (distribuição, circulação e consumo de mercadorias); o sistema de
produção provoca uma divisão de trabalho (proprietários e não proprietários das ferramentas de
trabalho ou dos meios de produção) e o choque entre as forças produtivas e os proprietários dos
meios de produção determina a mudança social.
Para Marx a sociedade divide-se em infra-estrutura e supra-estrutura. A infra-estrutura é
a estrutura econômica, formada das relações de produção e forças produtivas. A supra-estrutura
divide-se em dois níveis; o primeiro, a estrutura jurídico-política, é formado pelas normas e leis
que correspondem à sistematização das relações já existentes; o segundo, a estrutura ideológica
(filosofia, arte, religião etc.), justificativa do real, é formado por um conjunto de ideias de
determinada classe social que, através de sua ideologia, defende seus interesses. Sendo a infra-
estrutura determinante, toda a mudança social se origina das modificações das forças
produtivas e relações de produção. De acordo com essa teoria, Marx, juntamente com Engels,
chegou a uma classificação de sociedades segundo o tipo predominante de relações de
produção: a comunidade tribal, a sociedade asiática, a cidade antiga, a sociedade germânica, a
sociedade feudal, a sociedade capitalista burguesa (comercial, manufatureira e industrial;
financeira e colonialista) e a sociedade comunista sem classes ( que se instalaria através da
ditadura do proletariado. Sociologia Geral – Eva Lakatos

O Papel de Marx
Enquanto a preocupação principal do positivismo foi com a manutenção e a
preservação da nova sociedade capitalista, o marxismo procurará fazer uma crítica radical a
esse tipo de ordem social, colocando em evidência seus antagonismos e suas contradições.
A elaboração mais significativa do conhecimento sociológico crítico foi feita pelo
marxismo. Deve-se a Marx e Engels a formação e o desenvolvimento desse pensamento
sociológico crítico radical da sociedade capitalista.
Na concepção de Marx e Engels, o estudo da sociedade deveria partir de sua base
material, e a investigação de qualquer fenômeno social de estrutura econômica da sociedade,
que constituía a verdadeira base da história humana.
Desenvolveram a teoria de que os fatos econômicos são a base sobre o qual se
apoiavam os outros níveis da realidade, como a política, a cultura, a arte e a religião. E, ainda,
de que o conhecimento da realidade social deve se converter em um instrumento político,
capaz de orientar os grupos e as classes sociais para a transformação da sociedade.
Dentro dessa perspectiva, a função da sociologia não era a de solucionar os problemas
11

sociais, com o propósito de restabelecer a ordem social, como julgavam os positivistas – ela
deveria contribuir para a realização de mudanças radicais na sociedade.
Enquanto a sociologia positivista preocupou-se com os problemas da manutenção da
ordem existente, concentrando sua atenção, principalmente na estabilidade social, o
pensamento marxista privilegiou, para o desenvolvimento de sua teoria, as situações de conflito
existentes na sociedade industrial. Para os marxistas, a luta de classes, e não a harmonia social,
constitui a realidade mais evidente da sociedade capitalista.
A obra de Marx é fundamental para a compreensão do funcionamento da sociedade
capitalista, e tanto recorrem a ela seus simpatizantes como seus críticos; isto porque Marx
estudou o capitalismo em seus estágios iniciais, nos quais eram nítidas as posições ocupadas
pelos capitalistas e pelos operários e onde a exploração social do trabalho assalariado ocorria
de forma brutal.
Karl Marx nasceu na Alemanha, em 05 de maio de 1818, numa família de classe média,
sendo seu pai um advogado bem conceituado.
Um fato ocorrido quando dos seus 17 anos, no ginásio da cidade onde nasceu, Trèves,
demonstra o que seria a vida futura do jovem Marx. Seu professor mandou-o dissertar sobre o
tema: “Reflexões de um jovem a propósito da escolha de uma profissão”.
“Em sua dissertação, Karl desenvolveu duas ideias que deveriam acompanhá-lo por
toda a vida. A primeira era a ideia de que o homem feliz é aquele que faz os outros felizes; a
melhor profissão,portanto, deve ser a que proporciona ao homem a oportunidade de trabalhar
pela felicidade do maior número de pessoas, isto é, pela humanidade. A segunda era a ideia de
que existem sempre obstáculos e dificuldades que fazem com que a vida das pessoas se
desenvolva em parte sem que elas tenham condições para determiná-la”.
A obra de Marx, embora não diretamente relacionada com os estudos acadêmicos de
ciências sociais, teve enorme importância para a sociologia. Trouxe para esta a teoria da luta
dos contrários o “método dialético”, assim definido por Engels: “ a dialética considera as
coisas e os conceitos no seu encadeamento; suas relações mútuas, sua ação recíproca e as
decorrentes modificações mútuas, seu nascimento, seu desenvolvimento e sua decadência”.
Marx soube reconhecer na dialética o único método científico de pesquisa da verdade.
Sua dialética diferia das interpretações que a precederam, como ele mesmo afirmou. “No meu
método dialético o movimento do pensamento não é senão o reflexo do movimento real,
transportado e transposto para o cérebro do homem”. “Para Marx era o mundo real, o âmbito
da economia, das relações de produção, que determinavam o que pensava o homem, e não o
contrário. Foi muito criticado por outros autores por isso, pois consideravam sua teoria
determinista do ponto de vista econômico. E, na realidade, o determinismo econômico marcou
as diversas correntes do marxismo que proliferaram no século XX.
O método dialético proposto por Marx possui quatro características fundamentais: tudo
se relaciona (lei da atração recíproca e da conexão universal); tudo se transforma (lei da
transformação universal e do desenvolvimento incessante); mudança qualitativa; e luta dos
contrários.
Já no fim da vida, Marx mantinha-se atualizado e aborrecia-se com as deficiências dos
socialistas, que se diziam seus seguidores. Sabendo das tolices que eram ditas ou praticadas em
seu nome, pilheriou com Engels, afirmando: “o que é certo é que eu – Marx – não sou
marxista”.
Faleceu em 14 de março de 1883. (Introdução à Sociologia – Reinaldo Dias)

Emile Durkheim (1858—1917) É considerado por muitos estudiosos o fundador da sociologia


como ciência independente das demais Ciências sociais. Ao preconizar o estudo dos fatos
sociais como coisas, através de regras de rigor científico, determinou o seu objeto, próprio dos
estudos sociológicos, e sua metodologia.
12

Na obra “A Divisão do Trabalho Social” enuncia dois princípios básicos: consciência


coletiva e solidariedade mecânica e orgânica. Por consciência coletiva entende-se soma de
crenças e sentimentos comuns à média dos membros da comunidade formando um sistema
autônomo, isto é, uma realidade distinta que persiste no tempo e une as gerações. A
consciência coletiva envolve quase que completamente a mentalidade e a moralidade do
individuo: o homem - primitivo pensa, sente e age conforme determina ou prescreve o grupo a
que pertence. Durkheim acusa a existência, em cada indivíduo, de duas consciências, a coletiva
e a individual, a primeira, predominante, compartilhada com o grupo; a segunda, peculiar ao
individuo. Nas sociedades “primitivas”, a consciência coletiva subjuga a individual e as
sanções aplicadas ao indivíduo, que foge as normas de conduta do grupo, são extremamente
severas.
À medida que as sociedades se tomam mais complexas, a divisão de trabalho e as
consequentes diferenças entre os indivíduos conduzem a uma crescente independência das
consciências. As sanções repressivas, que existem nas “sociedades primitivas”, dão origem a
um sistema legislativo que acentua os valores da igualdade, liberdade, fraternidade e justiça. A
coerção social não desaparece, pois a característica da sociedade moderna - os contratos de
trabalho - contém elementos predeterminados independentes dos próprios acordos pessoais.
Ex. Cabe ao Estado determinar a duração do período de trabalho, o salário mínimo e as
condições em que se realiza o trabalho físico.
As “primitivas” coletividades humanas são caracterizadas pela solidariedade
mecânica, que se origina das semelhanças entre os membros individuais. Para a manutenção
dessa igualdade, necessária à sobrevivência do grupo, deve a coerção social, baseada na
consciência coletiva, ser severa e repressiva. Essas sociedades não podem tolerar as
disparidades, a originalidade, o particularismo, tanto nos indivíduos quanto nos grupos, pois
isso significaria um processo de desintegração. Todavia, o progresso da divisão de trabalho faz
com que a sociedade de solidariedade mecânica de transforme.
O princípio de divisão do trabalho está baseado nas diversidades das pessoas e dos
grupos e se opõe diretamente à solidariedade por semelhança. A divisão do trabalho gera um
novo tipo de solidariedade, baseado na complementação de partes diversificadas. O encontro
de interesses complementares cria um laço social novo, ou seja, um outro tipo de princípio de
solidariedade, com moral própria, e que dá origem a uma nova organização social. Dürkheim
denomina de solidariedade orgânica esta solidariedade, não mais baseada nas semelhanças
entre indivíduos e grupos, mas na sua independência. Sendo seu fundamento a diversidade, a
solidariedade orgânica implica maior autonomia com uma consciência individual mais livre.
Em 1895, Dürkheim publica As Regras do Método sociológico. É o seu tratado mais
importante, pois estabelece as regras que devem ser seguidas na análise dos fenômenos sociais.
Para este autor, a primeira regra, fundamental, relativa à observação dos fatos sociais,
consiste em considerá-los como “coisas”. Somente assim, desvinculada de concepções
filosóficas e não subordinadas às noções biológicas e psicológicas, a Sociologia pode
manipular, com finalidade de estudo e análise, os fenômenos sociais. “Coisas” opõem-se a
“idéias”, como as coisas exteriores se opõem às interiores.
Ao escolher seu método de pesquisa, o sociólogo deve selecionar um grupo de
fenômenos cujos caracteres exteriores comuns sejam previamente definidos, e analisar todos os
que correspondam a esta definição. Ainda mais, sabendo-se que uma mesma causa dá origem a
um mesmo efeito, a explicação de um fato social complexo requer o conhecimento de seu
ndesenvolvimento através de todos os tipos de sociedades.
Na análise dos fenômenos sociais como “coisas”, o pesquisador deve abandonar as pré-
noções e a pressuposição do significado ou caráter de uma prática ou instituição social. Deve
ser objetivo e estabelecer, através da investigação, o proprio significado do fenômeno
estudado, dentro da sociedade particular em pauta. Deve considerar somente os fenômenos que
se apresentam isolados de manifestações individuais.
13

Para explicar um fenômeno social, deve-se procurar a causa que o produz e a função
que desempenha. Procura-se a causa nos tatos anteriores, sociais e não individuais; e a função,
através da relação que o fato mantém com algum fim social.
Dürkheim, ao estabelecer as regras de distinção entre o normal e o patológico, propôs:
um fato social é normal, para um tipo social, determinado, quando considerado numa
determinada fase de seu desenvolvimento, desde que se apresente na média das sociedades da
mesma categoria, e na mesma fase de sua evolução. Esta regra estabelece uma norma de
relatividade e de objetividade na observação dos fatos sociais, como foi ilustrado em sua obra
sobre o suicídio. Demonstra também, que certos fenômenos sociais, tidos como patológicos, só
o são à medida que ultrapassam uma taxa dita “normal”, em determinado momento, em
sociedades de mesmo nível ou estágio de evolução.
Na obra suicídio (1897), Émile Dürkheim demonstra que o suicídio varia inversamente
ao grau de integração do grupo social ao qual o indivíduo faz parte, com algumas exceções por
ele apontadas.
A lei do suicídio de Dürkheim é considerada uma lei sociológica em virtude de as
variáveis constituirem fenômenos sociais: a taxa de suicídio, representando um traço
característico de um grupo, e o grau de coesão que, além de ser um traço do grupo, aparece
também como caracterítico desse grupo. Assim, se a sociologia estuda fatos sociais, uma
proposição que estabeleça relação de regularidade entre eles é uma lei sociológica.( Sociologia
Geral- Lakatos)

Para Dürkheim, o objeto de estudo da sociologia são os fatos sociais, que “apresentam
características muito especiais: consistem em maneiras de agir, pensar e sentir
exteriores ao indivíduo, e dotadas de um poder coercitivo em virtude do qual se lhe
impõem”.
Para ele, o fenômeno social constitui-se do fato social, que pode ser religioso,
político, literário, artístico, etc. e que é externo ao indivíduo e determinador de suas
ações. A sociedade, que é externa aos indivíduos, determina as interações sociais.

Filme 1-
www.youtube.com/watch?v=D6BY6LtK9xQ

Filme 2-

www.youtube.com/watch?v=LJENpHfaS_k

Max Weber (1864-1920). Segundo Max Weber a sociologia é o estudo das interações
significativas de indivíduos que formam unia teia de relações sociais, sendo seu objetivo a
compreensão da conduta social. Esta ênfase dada à compreensão subjetiva levou Weber a
definir ação social como a conduta humana pública ou não, a que o agente atribui significado
subjetivo.
Para Weber, a conduta social se apresenta em quatro formas ou categorias:
• A conduta tradicional, relativa às antigas tradições;
• A conduta emocional, reação habitual ou comportamento dos outros, expressando-se em
termos de lealdade ou antagonismo.
• A conduta valorizadora, agindo de acordo com que os outros indivíduos esperam de nós;
• A conduta racional-objetiva, que consiste em agir segundo um plano concebido em relação
à conduta que se espera dos demais.

A contribuição de Max Weber à metodologia foi a distinção preconizada entre o método


científico de abordar os dados sociológicos e o método do valor-julgamento: a validade dos
14

valores é um sistema de fé, não de conhecimentos e, em consequência, as Ciências sociais


devem libertar-se do0s valores. O principal objetivo da análise sociológica é a formulação de
regras sociológicas concretas que exigia conceitos precisos e claramente definidos- o tipo
ideal. Quando a realidade concreta é estudada desta forma, torna-se possível estabelecer
relações causais entre seus elementos. A obra A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo permite verificar esta relação.
Por espírito, o autor entendia um sistema de máximas de comportamento humano.
Estudando as sociedades capitalistas ocidentais e depois confrontando seus dados com estudos
realizados na China e na Índia, Weber chegou à conclusão de que o surgimento do capitalismo
não é automáticamnte assegurado só por condições econômicas específicas; deve haver pelo
menos uma segunda condição. Essa condição deve pertencer ao mundo interior do homem, isto
é, existe forçosamente um poder motivador específico qual seja, a aceitação psicológica de
idéias e valores favoráveis a essa transformação. (Sociologia Geral – Lakatos)

A “ação social”
A ”ação social” toma o significado de uma ação que, quanto ao sentido visado pelo
indivíduo, tem como referência o comportamento dos outros, orientando-se por estes
em seu curso,
A ação social é a conduta humana pública ou não a que o agente atribui um
significado subjetivo. É quando agimos tendo como referência o comportamento dos
outros, ou levando estes em consideração.

filme
 www.youtube.com/watch?v=ea-sXQ5rwZ4

No Brasil foram muitos os pensadores que contribuíram para o avanço da análise da


realidade social. Podemos destacar dois como referências fundamentais no campo da
sociologia: Gilberto Freyre e Florestan Fernandes.
Gilberto Freyre adotou uma perspectiva nos seus trabalhos em que o indivíduo, suas
particularidades, suas intimidades e seu modo de pensar predominam em relação aos fatos
mais marcantes da história; um tipo de abordagem que podemos chamar de “sociologia do
cotidiano” e que ele mesmo denominou como “sociologia existencial”.
Em todo trabalho de Florestan Fernandes a reflexão principal é a desigualdade social,
procurando identificar as contradições da sociedade de classes e o papel da sociologia
diante dessa realidade. (Introdução à Sociologia – Reinaldo Dias)
15

Conceitos básicos em Sociologia


Processos Sociais:

Isolamento Social: pode ser entendido como a falta de comunicação ou de contato entre
grupos e indivíduos.

Contato Social: é o aproximar-se ou o afastar-se que acontece no relacionamento social. O


contato é um aspecto primário, fundamental, do qual dependerão todos os outros processos ou
relações sociais. No contato social os meios físicos são apenas instrumentos: o abraço, o beijo,
o polegar para o alto, etc.; o importante no contato é a interpretação, o significado.

Interação Social: pode ser conceituada como a ação social, mutuamente orientada, de dois ou
mais indivíduos em contato. É a reciprocidade das ações sociais. Envolve significados e
expectativas em relação às ações de outras pessoas.

Interação é a ação recíproca de ideias, atos e sentimentos entre pessoas, grupos, entre
pessoas e grupos. Implica numa modificação de comportamento. R. Dias

Comunicação: é o processo pelo qual ideias e sentimentos se transmitem de indivíduo para


indivíduo, tornando possível a interação social. A comunicação é fundamental para o homem,
enquanto ser social, e para a cultura.
Pode dar-se através de:
 meios não vocais: expressões, traços fisionômicos etc., que determinam sentimentos de
alegria, tristeza, espanto, desagrado, raiva.
 sons inarticulados: baseados em emoções e inflexões de voz, determinados sons que
não são palavras.
 palavras e símbolos: as diferentes linguagens: oral, escrita, musical, pictórica.

“meios técnicos de comunicação”: imprensa; rádio; tv; internet; celular.

Socialização: é o processo social pelo qual o indivíduo biológico se transforma no indivíduo


social.

Socialização, segundo Guy Rocher, é “o processo pelo qual ao longo da vida a pessoa
humana aprende e interioriza os elementos sócio-culturais do seu meio, integrando-os na
estrutura de sua personalidade sob a influência de experiências de agentes sociais
significativos, e adaptando-se assim ao ambiente social em que se deve viver”.

Cooperação: é o tipo particular de processo social em que dois ou mais indivíduos ou


grupos atuam em conjunto para a consecução de um objetivo comum. É requisito especial
e indispensável para a manutenção e continuidade dos grupos e sociedades.

Competição: Em todas as sociedades existem diferenças de capacidades e de desejos entre os


seus componentes. Para a satisfação de suas necessidades, os indivíduos (e grupos menores) de
forma universal, competem entre si, com maior ou menor energia. A competição é pois, a
forma mais elementar e universal de interação, consistindo na luta incessante por coisas
concretas. É uma contenda contínua, inconsciente e impessoal.
16

Conflito: é uma contenda entre indivíduos e grupos, em que cada qual dos contendores
almeja uma solução que exclui a desejada pelo adversário. Diferente da competição, em
que a luta tem a característica de ser impessoal, no conflito a luta é pessoal.

Acomodação: é um processo social com o objetivo de diminuir o conflito entre indivíduos


e grupos, reduzindo o mesmo e encontrando um novo modus vivendi. É um ajustamento
formal e externo, sendo pequena ou nula a mudança interna, relativa a valores, atitudes e
significados.

Assimilação: é o processo social em virtude do qual indivíduos e grupos aceitam e


adquirem padrões comportamentais, tradição, sentimentos e atitudes de outra parte. É
um indício de integração sócio cultural e ocorre principalmente nas populações que reúnem
grupos diferentes. Os indivíduos assimilam-se entre si, partilham sua experiência e sua história,
e participam da vida cultural comum.

Status e Papel social

Status é o lugar ou posição que a pessoa ocupa na estrutura social, de acordo com o
julgamento coletivo ou consenso de opinião do grupo. Portanto o status é a posição em
função dos valores sociais correntes na sociedade.

Um papel social é um conjunto de direitos, obrigações e expectativas culturalmente


definidos que acompanham um status na sociedade.
A cada posição social (status) ocupada por uma pessoa corresponde um
determinado papel social. Papel é o comportamento socialmente esperado de uma pessoa
que detém um certo status. Cada pessoa pode ter inúmeros status aos quais
correspondem papéis apropriados.

Controle social

As sanções, positivas ou negativas, possuem dupla função: de um lado, assegurar a


conformidade das condutas, permitindo a coesão e o funcionamento das coletividades e, de
outro, desencorajar o não-conformismo perante as normas estabelecidas. Guy Rocher define
controle social como: “o conjunto de sanções positivas e negativas a que uma sociedade
recorre para assegurar a conformidade das condutas aos modelos estabelecidos”.

Estratificação social

Os indivíduos e grupos de uma sociedade diferenciam-se entre si em decorrência de vários


fatores, formando uma hierarquia de posições, estratos ou camadas mais ou menos duradouros.
Esse fato, observado em todas as sociedades, significa que nelas os indivíduos e grupos não
possuem a mesma posição e os mesmos privilégios, mas, sob esse aspecto, diferem entre si.
Portanto, inexistem sociedades igualitárias puras. A essa diferenciação de indivíduos e
grupos em camadas hierarquicamente sobrepostas é que denominamos de estratificação.
Um dos primeiros pensadores a tratar do problema da estratificação foi Karl Marx. Marx
considerava o fator econômico como determinante da estratificação.
Max Weber, refutando a posição de Karl Marx, fez uma distinção entre as três dimensões
da sociedade: a ordem econômica, representada pela classe, a ordem social, pelo status ou
“estado”, e a ordem política, pelo partido. Cada uma das três dimensões possui uma
17

estratificação própria: o interesse econômico é fator que cria uma classe, podendo-se até
considerar que as classes estão estratificadas segundo suas relações com a produção e a
aquisição de bens; a estratificação econômica é, portanto, representada pelos rendimentos, bens
e serviços que o indivíduo possui ou dispõe. Os grupos de status estratificam-se em função do
princípio do consumo de bens, representados pelos estilos de vida específicos; a estratificação
social é, portanto, evidenciada pelo prestígio e honra desfrutados. A dimensão política
manifesta-se através do poder; a estratificação política é, assim, observada através da
distribuição do poder entre grupos e partidos políticos, entre indivíduos no interior dos grupos
e partidos, assim como entre os indivíduos na esfera da ação política.

Mobilidade Social

“Por mobilidade social entende-se toda passagem de um indivíduo ou de um grupo de uma


posição social para outra, dentro de uma constelação de grupos e estratos sociais.”

Grupo social

Segundo Fichter grupo social é “uma coletividade identificável, estruturada, contínua, de


pessoas sociais que desempenham papéis recíprocos, segundo determinadas normas,
interesses e valores sociais, para a consecução de objetivos comuns”.

Mudança social

Segundo Rocher, mudança social é “toda transformação observável no tempo que afeta,
de maneira que não seja provisória ou efêmera, a estrutura ou o funcionamento da organização
social de dada coletividade e modifica o curso de sua história. É a mudança de estrutura
resultante da ação histórica de certos fatores ou de certos grupos no seio de dada coletividade”.

Divisão social e técnica do trabalho

A divisão social do trabalho é a responsável pela sobrevivência da humanidade


perante os demais animais. O homem não é tão bem equipado fisicamente como os demais
animais, e, nessas condições, suas chances de sobrevivência seriam mínimas. O que permitiu o
domínio humano sobre a natureza e os seus seres foi a divisão do trabalho. Essa possibilita que,
simultaneamente, a espécie humana desenvolva várias atividades antes exclusivas de
determinados animais; assim, o homem é ao mesmo tempo “tecelão, pescador, construtor e mil
outras coisas combinadas...” (Braverman).

Desse modo, cada homem desenvolve um trabalho que é social na medida em que
pertence a uma divisão estabelecida pelas sociedades humanas em que cada um realiza
um tipo de atividade. Somadas, essas atividades tornam a espécie humana mais capacitada a
sobreviver do que determinadas espécies incapazes de realizar trabalho por meio da divisão
social de ocupações e ofícios.
Do ponto de vista do controle operário, no âmbito da organização industrial, o
capitalismo criou a divisão do trabalho na produção (técnica). Nessa, cada atividade, ofício
ou tarefa foi parcelado de tal modo que tornou o trabalhador incapaz de acompanhar
qualquer processo produtivo completo. A divisão de trabalho na fábrica é diferente da
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social. Ocorre que o capital, ao realizar a divisão técnica do trabalho nas fábricas, parcelou a
ocupação ou o ofício que pertencem à divisão social do trabalho na sociedade. Por exemplo, o
ofício de tecelão pertence à divisão social de trabalho na sociedade na medida em que existem
pessoas que desenvolvem essa ocupação e possuem conhecimento necessário para a produção
do tecido. Na sociedade industrial, o ofício deixa de existir, sendo substituído pela indústria
têxtil, na qual o conhecimento da produção de tecido é exclusivo do capitalista, proprietário da
fábrica. Assim, os trabalhadores perdem esse conhecimento e realizam apenas uma parcela da
atividade necessária à produção do tecido. (Reinaldo Dias – Introdução à Sociologia)

Leitura: O Econômico Em Platão

- Assim, quando um indivíduo chama outro para ajudá-lo em algum empreendimento, e


mais um terceiro para outra precisão, desse modo, por serem múltiplas as necessidades de
cada um, vários indivíduos se reúnem no mesmo local, para reciprocamente se auxiliarem.
Damos o nome de cidade a semelhante ajuntamento, não é verdade?
- Perfeitamente.
- Mas alguém só entrega alguma coisa a quem quer que seja, no caso de ter o que dar ou de
receber também algo, de que se espera auferir alguma vantagem.
- Isso mesmo.
- Muito bem, lhe disse; façamos então, surgir em pensamento uma cidade desde o seu
começo. Em sua origem, ao que parece, estão nossas necessidades.
- Que mais poderia ser?
- Mas a primeira e maior necessidade é encontrar alimentos, base imprescindível da
existência e da vida.
- Sem dúvida nenhuma.
- A segunda é moradia; a terceira, vestes e coisas semelhantes.
- Isso mesmo.
- Vejamos agora, continuei, de que modo a cidade se arranjará para suprir tantas
necessidades. Alguém não terá de ser lavrador, um outro, pedreiro, e um terceiro, tecelão?
E não será bom acrescentarmos a esses um sapateiro ou mais algum artesão para outras
necessidades do corpo?
- Perfeitamente.
- Sendo assim, a cidade mais rudimentar deverá constar no mínimo de quatro ou cinco
pessoas.
- Parece que sim.
- E então? Deverá cada um por à disposição dos demais o resultado do seu trabalho, como
por exemplo, o lavrador que, sendo um somente, produzirá alimento para quatro, gastando
quatro vezes mais tempo no esforço de assegurar a alimentação dos outros, ou de
preferência, sem preocupar-se com estes, só cuidará de obter para si mesmo um quarto
desse alimento na quarta parte do tempo, empregando as outras três na construção de sua
casa, ou no preparo de vestes e de sapatos, sem se incomodar de trabalhar para os outros e
suprindo sozinho a todas as suas necessidades?
Nessa altura, Adimanto observou:
- talvez, Sócrates, a primeira hipótese seja mais cômoda do que a outra.
- Sim, por Zeus, voltei a falar; e não seria nada de admirar; para começar, enquanto falavas,
ocorreu-me que não somos iguais por natureza, mas nascemos com disposições diferentes,
cada um com mais jeito para determinado trabalho, não te parece?
- É também o que eu penso.
- E então? Como fará alguém trabalho mais perfeito: aplicando-se ao mesmo tempo a muitas
atividades ou dedicando-se apenas a uma?
- Apenas a uma, respondeu.
19

- Outro ponto, lhe disse, se me afigura evidente: todo trabalho que não é feito no tempo certo
acaba por perder-se.
- Sem dúvida.
- Porque, a meu ver, lhe falei, o que tem de ser feito não espera pela disposição do
trabalhador, sendo de necessidade que este se dedique seriamente ao seu ofício, em vez de
considerá-lo mero passatempo.
- É fato.
- Por conseguinte, tudo se fará em maior quantidade, mais facilmente e melhor quando cada
pessoa puder trabalhar de acordo com suas aptidões e no tempo certo, e deixar tudo o mais
de lado.
- Sem dúvida.
- Então Adimanto, precisaremos de muito mais de quatro cidadãos para as necessidades que
enumeramos. Pelo que vemos, o agricultor não irá preparar seu próprio arado, se tiver este
de sair bem feito, nem sua enxada e os demais utensílios para trabalhar a terra; o pedreiro
também, não fabricará seus instrumentos de trabalho, e são vários os de que ele necessita, o
mesmo acontecendo com o tecelão e o sapateiro.
- É muito certo.
- Sendo assim, passarão a fazer parte de nossa pequena cidade carpinteiros, ferreiros e
muitos outros profissionais que a deixarão consideravelmente aumentada.
- Exato.
- Porém ainda não ficará muito grande, se a esses agregarmos boieiros e pastores de ovelhas
e de outros animais, para que agricultores disponham de bois para o arado, e de bestas os
construtores para o transportarem com os lavradores, e tenham peles e lãs os tecelões e os
sapateiros.
- Deixaria de ser uma cidade pequena a que congregasse tanta gente.
- Porém, seria quase impossível fundar uma cidade num local que não fosse necessário
importar nada.
- Impossível realmente.
- Precisará, portanto, de novos cidadãos que lhe tragam de outras cidades o de que ela
necessita.
- É fato.
- Mais, se o emissário for de mãos vazias, sem levar nada do que precisam os que devem
suprir as necessidades de seus concidadãos, voltará também de mãos abanando, não te
parece?
- Penso que sim.
- Não deverão, portanto, produzir em casa apenas para o gasto, mas tudo em quantidade e
variedade suficientes para atender aos pedidos dos que lhe suprem as necessidades.
- É isso mesmo.
- Precisamos, por isso, aumentar o número dos trabalhadores agrícolas e dos artesãos de
nossa cidade.
- Precisamos, de fato.
- E também o dos incumbidos de importar ou de exportar as mercadorias, a saber: os
comerciantes, não é verdade?
- Sem dúvida.
- Sendo assim, vamos precisar também de comerciantes?
- Perfeitamente.
- E se o comércio se fizer por mar, precisaremos ainda de um número maior de
trabalhadores, justamente dos que têm prática na vida do mar.
- Muito maior, sem dúvida.
20

- E com respeito à própria cidade, de que modo será feita a permutação do que cada um
produzir com seu trabalho? Foi para isso, precisamente, que se congregaram e fundaram a
cidade.
- É evidente, respondeu, que será por meio de compra e venda.
- Daí, então, terá de surgir um mercado e a moeda representativa do valor das trocas.
- Perfeitamente.
De Diálogos, vol VI-VII, A República, Belém, UFPA, 1976. Tradução de C. A. Nunes
21

O Estudo Sociológico das Organizações

Causa do surgimento da Sociologia das Organizações: as profundas transformações na


sociedade causadas pela Revolução Industrial principalmente dentro das empresas industriais.
Podemos indicar o trabalho de Max Weber como o marco inicial da Sociologia das
Organizações. Embora Weber tenha estudado a burocracia sob a perspectiva histórica e focado
principalmente a mudança dos padrões de autoridade política e organizações governamentais, a
maioria das pesquisas que se seguiram – e baseadas em seus estudos – tinham como foco as
empresas e apresentavam pouco interesse nas comparações históricas que o motivaram. No
entanto, as ideias de Weber constituem uma contribuição fundamental com muitas implicações,
e não foram questionadas em sua essência por estudos posteriores.
Para vários autores, entre os quais Morgan, que considera que a teoria abrangente de
organização e administração recebeu uma importante contribuição deste sociólogo, que
observou paralelos entre a mecanização da indústria e a proliferação de formas burocráticas de
organização. Identificou que “as formas burocráticas rotinizam os processos de administração
exatamente como a máquina rotiniza a produção”.
A questão organizacional é uma das dimensões centrais da empresa, e é por isso que a
sociologia das organizações se ocupou desta instituição muito mais que os outros ramos da
sociologia. De fato os estudos organizacionais, de um modo geral, são feitos sobre e para as
empresas. No entanto, o objeto da sociologia das organizações não se esgota na empresa, mas
se estende a todas as organizações, incluídas aquelas cujos objetivos e funcionamento são
claramente disfuncionais para a sociedade (p/ex.: as organizações criminosas).
Etzioni considerava que a sociologia organizacional focalizava o estudo das organizações de
acordo com quatro pontos de vista:

1. As organizações são analisadas como unidades sociais, e o interesse se divide entre o estudo da
estrutura formal e o da não formal.
2. O estudo das organizações aborda a relação de uma estrutura organizacional, como unidade,
com outras estruturas de organizações, e com unidades sociais que não são organizações
(coletividades), tais como: família, comunidades, grupos étnicos, classes sociais, a sociedade.
3. As organizações são analisadas do ponto de vista de suas relações com a personalidade e a
cultura. Quanto à personalidade, relacionam-se com as necessidades da estrutura organizacional
e as necessidades das personalidades dos participantes. O estudo das relações da organização
como sistemas culturais, abrange por um lado, as orientações de valor, as fontes de legitimação
da autoridade e as relações dinâmicas entre os ideais e os objetivos da organização e as
necessidades da própria estrutura organizacional, e por outro lado envolve os meios pelos quais
o conhecimento é adquirido e institucionalizado dentro das organizações.
4. A relação entre as organizações e o meio ambiente incluiria o estudo do comportamento das
organizações relacionado com a capacidade biológica e fisiológica, inclusive as necessidades
dos participantes e o estudo das respectivas adaptações entre a organização e o ambiente
geográfico.

A sociologia das organizações tem como conteúdo central o estudo de cinco grandes
características que são encontradas em todas as organizações:
 Alguns objetivos específicos que orientam os outros aspectos estruturais e funcionais;
 Uma rede de posições ocupadas por indivíduos substituíveis;
 Uma dedicação responsável às tarefas de sua posição por parte dos indivíduos que a ocupam;
 Uma estrutura ou sistema estável e coordenado de relações entre as diferentes posições;
 Um ou mais centros de poder que controlam a atividade da organização e a dirigem para a
realização de seus objetivos.
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Hoje, a sociologia organizacional se preocupa em estudar as formas organizacionais como


sistemas sociais em contínua interação com seu ambiente externo, que gera efeitos em seus
processos internos (os indivíduos, suas interações, comportamentos, processos sociais básicos,
relações de poder, etc.) e a organização como um todo.

O indivíduo

Sociologia Aborda o fenômeno


Das organizacional tendo com A organização
organizações referencial básico:

A ação da organização na sociedade

Indivíduo: os problemas objeto de estudo são aqueles que dizem respeito às pessoas que
pertencem à organização, ao tipo e ao grau de participação, seu comportamento, motivação,
cultura adquirida, identificação com a organização etc.
Organização: é considerada como um todo complexo, e o seu estudo foca a estrutura
(hierárquica, física, de dominação, de relações de poder), os diversos subsistemas que contém
(técnico, de normas, entre outros), a ideologia, os fins, objetivos e metas. Incluem-se neste
referencial, também, os processos de cooperação, os conflitos, a comunicação, a influência do
ambiente externo na organização, entre outros.
Ação na sociedade: da relação com seu público externo, com as instituições públicas, privadas
e do terceiro setor, e da comunidade que vive em seu entorno imediato.

O estudo sociológico das organizações


A origem da palavra organização ( em grego – organon, que significa ferramenta ou
instrumento) fornece uma boa ideia do seu significado. Nesse sentido, as organizações podem
ser entendidas como instrumentos utilizados pelo homem para desenvolver determinadas
tarefas que não seriam possíveis de ser realizadas por um indivíduo em particular.
Conceitos:
Peter Drucker, “é um grupo humano, composto por especialistas que trabalham em conjunto
em uma tarefa comum”

Anthony Giddens: “Uma organização é um grande agrupamento de pessoas, estruturadas em


linhas impessoais e estabelecida a fim de atingir objetivos específicos”.

Amitai Etzioni: “são unidades planejadas, intencionalmente estruturadas com o propósito de


atingir objetivos específicos”. Para ele, as organizações apresentam três características:

 Divisões de trabalho, poder e responsabilidades de comunicação, que são planejadas


intencionalmente com o objetivo de intensificar a realização de objetivos específicos.
 A presença de uma ou mais centros de poder que controlam os esforços combinados da
organização, direcionando-os para que sejam atingidos os objetivos propostos; estes centros de
poder devem reexaminar continuamente as atividades da organização e, quando necessário,
reordenar sua estrutura, a fim de aumentar sua eficácia.
 Substituição de pessoal, quando não satisfaz aos padrões estabelecidos pela organização; nesse
caso, pessoas podem ser demitidas, sendo designadas outras para as tarefas. A organização
pode, também, promover uma realocação interna de seu pessoal, através de transferências e
promoções.
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São sistemas sociais


Pessoas associadas
Perduram no tempo
Organizações São universais
Tem identidade própria
Tem sistema de comunicação
Divisão do trabalho

 São sistemas sociais: as organizações reproduzem, de certo modo, as sociedades


humanas e os relacionamentos nela existentes, assim constituem-se em sistemas
sociais, onde cada indivíduo assume um papel social que deve desempenhar para a
manutenção do conjunto. Como sistemas sociais, as organizações possuem regras de
convivência humana perfeitamente estabelecidas e que ditam como devem ocorrer os
relacionamentos cotidianos para que os objetivos sejam alcançados.
 Compreendem grupos de pessoas associadas: as organizações reúnem grupos de
pessoas que buscam atingir objetivos comuns, através do estabelecimento de relações
formalizadas, e, caso haja necessidade, qualquer membro pode ser substituído, sem que
ocorra risco à sobrevivência da entidade.
 Perduram ao longo do tempo: as organizações podem perdurar muito mais tempo do
que os indivíduos que as criaram.
 São universais: podem existir em qualquer lugar em que seja necessária uma atividade
coletiva para se atingirem determinados objetivos. As vantagens obtidas na
coordenação e divisão do trabalho podem ser estendidas para qualquer lugar onde haja
necessidade da colaboração de várias pessoas para se atingir determinado objetivo
comum.
 Apresentam identidade própria: o conjunto de pessoas que conformam a organização
segue regras pré-determinadas, e atua como um todo roganizado e com características
próprias na sociedade em que se situa. Assim, as organizações, e as pessoas que as
representam ou nelas atuam, na sua relação com as outras organizações e indivíduos
apresentam determinadas tendências de ação que somadas constituem sua identidade
organizacional. Essa identidade organizacional faz com que as organizações constituam
juntamente com as pessoas as sociedades atuais, o que nos permite afirmar que as
sociedades são formadas por organizações e indivíduos, no sentido de que ambos
(organizações e indivíduos) apresentam características identitárias próprias. Este fato
tem reconhecimento legal, pois as organizações podem ser reconhecidas como pessoas
jurídicas, capazes de adquiris direitos e contrair obrigações. Assim temos pessoas
físicas (indivíduos) e as pessoas jurídicas (organizações).
 Apresentam um sistema de comunicação: este sistema é crucial para o perfeito
funcionamento da organização. Torna-se mais importante na medida do aumento do
tamanho da estrutura organizacional. Um sistema de comunicação se destina a regular
as relações entre os indivíduos, estabelecer e consolidar os diferentes níveis de
autoridade, e ainda é essencial no controle social da direção sobre o trabalho executado
nos diversos setores da organização. O fluxo contínuo de informações verticais, tanto
de coma para baixo como de baixo para cima, é o que vai determinar um maior ou
menor controle da organização por parte de seus dirigentes. Vale lembrar de que não se
24

pode ignorar a existência de um sistema informal de comunicação que coexiste com o


sistema formal.
 Multiplicam a capacidade individual através da divisão do trabalho: ao se
dividirem as tarefas entre vários indivíduos, o resultado final não será a soma dos
esforços individuais, mas sim algo muito maior. Este é o efeito multiplicador das
capacidades individuais associadas que apresentam as organizações. – Este é um ponto
crucial para as organizações, pois o parcelamento das atividades em processos
executados por diferentes pessoas faz com que aumente a eficiência e se produzam
melhores resultados do que a soma dos trabalhos individuais.

As organizações como agentes sociais


As organizações devem ser consideradas como agentes sociais coletivos que influenciam e
determinam a vida de outros agentes (coletivos e individuais). Tomando como exemplo uma
organização econômica (empresa), temos como principais âmbitos em que intervém:
 Criação do mercado de trabalho, entendido como conjunto de práticas que regulam a
contratação e o controle da atividade produtiva dos trabalhadores;
 Contribuição eficaz e decisiva para a estratificação social;
 Modificação do meio natural ou ecológico, do qual toma seus recursos e sobre o qual intervém
de muitos modos ao longo do processo produtivo;
 Através da produção de mercadorias, ou seja, bens e serviços que se oferecem ao mercado
mediante um preço:
-produz valores de uso, bens úteis, que respondem a necessidades individuais e coletivas, reais
ou fictícias, naturais ou criadas;
-produz valores de troca, cujos preços são construídos pelas empresas;
-cria identidade, não somente dentro das organizações, mas também no contexto da sociedade,
ao relacionar o consumo de certos produtos com a posição social, ou com o pertencimento a
determinados setores sociais. É a busca permanente de novas formas de gosto como afirmação
da própria identidade.

Podemos proceder do mesmo modo com outros tipos de organizações não econômicas,
demonstrando seu relevante papel social e a dependência da sociedade em relação a elas.
Principais tipos de organizações:
Características:
Administração Empresas Organizações sociais
pública (setor privado) (terceiro setor)
Modo primário de obrigatório voluntário Voluntário
filiação
Fundamento da cidadania propriedade inscrição
filiação primária
Fundamento da emprego emprego emprego
filiação secundária
Tipos de tarefas geral específica específica
Estrutura primária de estrutura política propriedade estrutura participativa
poder

Administração pública: sua finalidade principal é a prestação de serviços básicos aos


cidadãos ou a cobertura de setores estratégicos definidos a partir do bem comum. Nesse tipo de
organização, o objetivo principal não é o benefício econômico, mas a prestação de um serviço
social como exigência do bem público. Devidos às relações de poder existentes em seu seio,
apresenta uma estrutura hierarquizada, com um sistema de posições fixas e consolidadas, que
lhe impõe um certo grau de rigidez estrutural.
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Organizações sociais: este tipo busca objetivos de caráter solidário, de modo geral benéficos.
Tanto as suas estruturas como os meios com que contam são otimizados para melhorar o
alcance da organização. Diferentemente da administração pública, cujo orçamento prevê o
necessário para cobris as despesas anuais, ou da empresa, que fixa o objetivo econômico a ser
alcançado, nas organizações sociais faz-se uma previsão do que será necessário e se buscam os
meios humanos e materiais em função das necessidades colocadas, de tal modo que os
objetivos se definem operacionalmente de acordo com os meios disponíveis. Possui um caráter
voluntário, altruísta e com uma estrutura menos hierarquizada.
Empresas: o objetivo final e principal é o benefício econômico, a partir do qual se desenvolve
sua estrutura, que se adapta às situações novas de acordo com a necessidade de otimizar os
recursos disponíveis.
Daniel Katz e Robert Kahn (Psicologia Social das Organizações) reconhecem 04 tipos de
organizações:
 Organizações produtivas ou econômicas: ocupam-se da criação de capital, manufatura de
mercadorias e da prestação de serviços ao público. Podem ser subdivididas em: primárias –
lavoura e mineração -; secundárias – manufatura e processamento -; e, terciárias – serviços e
comunicações.
 Organizações de manutenção: se dedicam à socialização das pessoas para cumprir seus papéis
em outras organizações e na sociedade de modo geral. Podem ser divididas entre, as que tem a
função de manutenção – educação, doutrinação e treinamento –; e função de restauração –
hospitais, presídios.
 Organizações de adaptação: as que criam conhecimento, desenvolvem e testam teorias e, até
certo ponto, utilizam a informação para resolver problemas existentes – a pesquisa nas
universidades e centros de pesquisa.
 Organizações administrativas: se dedicam a concessão, coordenação e controle de recursos,
pessoas e subsistemas. A principal estrutura política é o Estado, que constitui a principal
estrutura de poder. Relacionados com vários subsistemas governamentais, existem outras
estruturas políticas como grupos de pressão, sindicatos e organizações que operam na defesa
dos interesses de outros grupos, como lavradores, professores, empresários e médicos.
(Reinaldo Dias – Sociologia das Organizações)

A Organização Industrial
A industrialização iniciada na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, transformou
sociedades baseadas na produção agrícola em outras de novo tipo, em que as organizações
econômicas – inicialmente a organização industrial – tiveram uma importância decisiva no
estabelecimento de novas formas de relacionamento entre os indivíduos.
As profundas mudanças na base econômica geram uma grande desordem social, em vários
aspectos da vida das pessoas, o que provoca uma necessidade de busca da ordem social por
parte de numerosos intelectuais da época. Os principais fatos novos que surgiram e
contribuíram para caracterizar uma desordem social (provocada pela modernidade, trazida pela
indústria) contrapondo-se à ordem tradicional anteriormente estável foram:

a) O crescente aumento da importância do trabalho na vida do homem.


b) Valorização inicial do operário, não como pessoa, mas como extensão de uma máquina.
c) Dificuldade de adaptação dos trabalhadores às novas condições impostas pela organização
industrial, ex. disciplina.
d) Crescente miséria social entre os operários, com o avanço das inovações tecnológicas.
e) Desarticulação da sociedade estamental, e o surgimento de uma nova sociedade de classes.
f) Aumento crescente da oposição entre as classes sociais.
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g) Desarticulação do sistema hierárquico tradicional, tanto ao nível de ofícios, como ao nível de


organização familiar.
h) Perda da identidade social (o trabalhador perde os seus laços comunitários tradicionais e não
consegue estabelecer outros no novo ambiente).

O processo histórico que denominamos “Revolução Industrial” pode ser dividido em duas
fases com características próprias:
A Primeira Revolução Industrial: causou profundas transformações em todos os aspectos da
vida social:
 A transformação da sociedade estamental em uma sociedade de classes.
 Ruptura das hierarquias tradicionais. Que no campo político leva à ascensão da burguesia como
classe dirigente, e no mundo do trabalho adquire uma importância especial, pois o maquinismo
iguala os mestres, oficiais e aprendizes em uma massa social indiferenciada.
 Criação de situações em que os trabalhadores não se adaptam ou se alienam. Em primeiro lugar,
porque as transferências massivas de população buscando trabalho e residência nos centros
urbanos, produzem uma situação inicial de falta de amparo familiar que caracterizava o tipo de
família extensa tradicional. Em segundo lugar, a venda de trabalho pessoal se transforma no
cordão umbilical de relação com a produção da sociedade.
 Surgem situações crescentes de miséria social entre os trabalhadores industriais, pois
predominam os baixos salários e habitações de péssima qualidade. Não há seguridade social no
trabalho das mulheres e crianças. E as jornadas de trabalho tem como limite a capacidade física
dos trabalhadores.
 O aumento da importância do trabalho na vida do homem, pela impossibilidade de satisfazer de
outro modo as necessidades de sobrevivência e pela existência de um tipo de mística do
trabalho. Este (o trabalho) é visto como a principal forma de contribuição do esforço pessoal
para a construção de uma nova ordem social. Pode-se afirmar, diante da visão negativa que
existia na Idade Média sobre o trabalho – um castigo - , em que todos que podiam (nobreza,
fidalgos, etc), evitavam inserir-se no processo produtivo, que a industrialização produziu um
aumento de motivação para participar desse processo.
 A oposição crescente das classes sociais. Pois quase todas as manifestações anteriores
conduzem a antagonismos entre os que possuem os meios de produção (capitalistas) e os
trabalhadores assalariados que vivem exclusivamente da força de trabalho. O aumento da
industrialização faz com que se generalizem as formas de vida diferentes, baseadas neste
antagonismo de interesses, e que se formem associações de organização da luta dos
trabalhadores.

A Segunda Revolução Industrial

Este período é marcado pela ampliação dos mercados e por um intenso desenvolvimento
técnico e organizacional. Quanto ao aspecto técnico ocorre a utilização de novos tipos de
combustível – líquidos e gasosos – e o aparecimento da energia elétrica. Quanto ao aspecto
organizacional, a Segunda Revolução Industrial se caracteriza pelo aumento da
concentração da indústria (importância crescente da grande empresa), aproveitamento
intensivo da mão de obra (adoção de métodos científicos de racionalização de trabalho),
racionalização e economia dos meios existentes.
No âmbito social, a Segunda Revolução Industrial caracterizou-se por institucionalizar e
consolidar a sociedade industrial, organizando-a e estabelecendo-a como dominante
(inclusive a estrutura de classes que a corresponde).
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A característica mais marcante dessa fase foi a necessidade de organizar e institucionalizar


os novos processos e a vida social dentro das organizações. Essa fase ocorreu no final do
século XIX até início do século XX, com um grande incremento econômico em
consequência da ampliação dos mercados e do desenvolvimento técnico e organizacional
no interior das empresas.
Quanto ao âmbito organizacional. A Segunda Revolução Industrial baseia-se na
organização científica do trabalho, principalmente na forma que foi expressa pelo
fordismo-taylorismo. Entre suas principais características destaca-se um aumento da
concentração espacial, com o maior aproveitamento dos locais de produção, evitando-se a
dispersão geográfica; e há um aumento crescente da importância das grandes empresas.
Em termos sociais, como consequência da Segunda Revolução Industrial, temos:

1. Institucionaliza-se a mobilidade social, principalmente através de um sistema de instrução,


formando uma nova estrutura diferenciada de camadas sociais.
2. Nas empresas surgem, também, novas linhas de estratificação entre os trabalhadores.
3. Gradativamente, manifestam-se novas formas de vida especificamente industriais.
4. Ocorre um reconhecimento progressivo de um direito social à proteção contra a pobreza até
a sua concretização no Estado do Bem Estar Social.
5. Institucionaliza-se a oposição de classes sociais, os trabalhadores convertem-se de
assalariados necessitados em portadores industriais de uma função. Surgem os sindicatos e
os partidos políticos classistas. Há uma nova distribuição do poder nas organizações
empresariais. (Reinaldo Dias: Sociologia das Organizações)

Para ver texto integral: Sociologia das Organizações, Reinaldo Dias – capítulos II e III