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Ela talvez tenha morrido ao cair do décimo segundo andar, ele talvez nunca saiba,

pois ao vigiar o ato, caiu atônito e culpado, como tantas outras inumeráveis vezes.
Ele, cibernético, rústico, macho beta, espreita, ao olhar a varanda diariamente.
Ela, estética, estática, memorável, variável, etéria, não mais nota por nota
alguma.
Ele que era habilidoso em sua arte. Arte que era sim, uma das sete artes. Ele era
pintor. Pintava tanto que esquecia o mundo que flutuava ao seu redor. Era um santo
tonto, era sonso em sua obra. Se perdia em seus pensamentos mesquinhos, não sabia
do que realmente precisava em sua vida. Acordava cedo às segundas, como um primeiro
respiro para aguentar o resto da semana. Esta se apresentava inconsistente em seus
horários.
Houve o desaparecimento da pessoa que ele mais amava no mundo. A última vez que a
olhou dentro do globo dos olhos, se assustou ao ver refletida uma violência vivida.

Um sentimento contraditório nasce depois da leitura de Alvo noturno, o último


livro do escritor argentino Ricardo Piglia: reconheço que se trata de uma obra
arquitetada de forma metódica, que precisou de muito tempo para ser urdida, e, ao
mesmo tempo, lamento o fato de Piglia escrever e publicar tão pouco.

O último trabalho literário de Piglia havia sido Dinheiro queimado, de 1997.


Considerando que Alvo noturno foi publicado originalmente em 2010, temos um espaço
de mais de uma década entre um livro e outro. É possível dizer, no entanto, que
Alvo noturno precisou de cada um desses anos.
Sem eles, não exibiria a inventividade e a complexidade de seus vários níveis
narrativos, elementos que asseguram seu lugar de destaque no cenário literário
contemporâneo (Alvo noturno rendeu a Piglia o prestigioso prêmio Rómulo Gallegos).
Alvo noturno é um trabalho profissional, que utiliza o tempo e seus fluxos a seu
favor, consciente que a causa principal de certa angústia do presente é justamente
a pressa e a falta de contemplação diante do passado.

A história transcorre durante a década de 1970, período histórico para o qual


converge boa parte dos relatos de Piglia, há mais de trinta anos. Estamos em um
povoado no interior da província de Buenos Aires, onde ocorre um crime: Tony Durán,
porto-riquenho de Nova Jersey, é assassinado em seu quarto de hotel depois de
algumas semanas na cidade. Assim como costuma ocorrer nos contos detetivescos de
Jorge Luis Borges, a morte é anunciada desde as primeiras linhas, para que, deste
modo, o leitor possa se ocupar daquilo que realmente importa: as camadas
subterrâneas do texto, fertilizadas pelas pistas falsas espalhadas pelo narrador ao
longo da história.

Alvo noturno, portanto, pode ser considerado como um exemplo do gênero policial:
temos um crime (o assassinato de Tony Durán), um detetive excêntrico (o comissário
Croce), um ajudante improvisado para o detetive (o jornalista Emilio Renzi, o
alter-ego que Piglia sempre coloca em suas histórias) e uma solução tortuosa para o
crime (explicações, motivações e responsáveis são levantados em grande número ao
longo da narrativa).

Nesse sentido, é possível dizer que há um apelo popular no livro de Piglia,


refletido na escolha de uma história que tem potencial para atrair os mais variados
públicos (encontrando tanto os leitores ocasionais, atraídos pelos lançamentos,
quanto aqueles já familiarizados com a obra de Piglia). Isso ocorre porque Piglia
articula elementos sobejamente conhecidos e comentados: sexo, dinheiro, violência,
morte. Assim como acontece em Dinheiro queimado, Piglia faz a história girar, em
Alvo noturno, em torno da ganância, da ambição e dos perversos caminhos do capital
na modernidade (a epígrafe de Dinheiro queimado, aliás, retirada de Brecht,
serviria também para Alvo noturno: “Que é roubar um banco comparado com fundá-
lo?”).

Mas o livro de Piglia não é apenas um romance policial, como aqueles de Patricia
Cornwell ou Stieg Larsson. Ele procura um questionamento de outra ordem, pois, ao
reposicionar o gênero noir no pampa argentino (na década de 1970 e, depois, em
2010), está embaralhando os tempos, deslocando o estatuto da ficção e de suas
ferramentas no e para o presente.

Em Alvo noturno, Piglia está continuamente procurando os rastros do passado no


presente, ou seja, procurando os indícios de uma violência fundadora que sobrevive
ainda hoje. Em uma das notas de rodapé (um recurso que Piglia utiliza de forma
elegante e eficaz, e que frequentemente fazem referência a notas de Renzi feitas
depois do caso, deslocando, ainda mais uma vez, o fluxo temporal da narrativa), há
uma menção a “uma maneira muito de acordo com as tradições argentinas”de demarcar
as áreas ocupadas depois da “guerra contra o índio” no século XIX (também conhecida
como A Conquista do Deserto): cavalgava-se até o cavalo cansar, e a área coberta
seria de posse do cavaleiro. A nota termina informando que pouco mudou desde então
(o que poderia modificar a frase de Brecht: “Que é roubar (ou, talvez, questionar,
problematizar) um país comparado com fundá-lo?”).

As histórias e vozes no interior de Alvo noturno compartilham uma desconfiança com


relação ao passado, um vago receio quanto às informações desconfortáveis que ele
pode revelar. Nenhuma informação é dada até o fim, há sempre um laivo de enigma em
cada gesto. Depois de passar um tempo no povoado, cobrindo a história do
assassinato, Emilio Renzi chega à conclusão que sua experiência de leitura não dá
conta daquilo que viu e viveu ali. “A investigação não tem fim”, pensa ele, “seria
preciso inventar um novo gênero policial, a ficção paranoica”. Segundo Renzi, todos
se sentem perseguidos na cidade, e o crime (todos os crimes, tanto os do passado
quanto os do futuro) é distribuído para todas as consciências, sem possibilidade de
redenção ou resolução.

Ao abandonar o povoado e voltar a Buenos Aires, Renzi chega à conclusão de que “a


planície tinha camadas geológicas de acontecimentos extraordinários que voltavam à
superfície sempre que soprava o vento sul”. O assassinato de Tony Durán é a
situação que Piglia elegeu para melhor dissecar as sobrevivências traumáticas do
passado, que são, ao fim e ao cabo, a matéria de que é feita a ficção. Renzi,
testemunha e responsável pelo relato dos fatos, conclui sua reflexão com as
seguintes palavras: “A luz maligna dos ossos dos mortos insepultos vibra no ar como
uma névoa envenenada”.

Ao colocar a ênfase no plural (“ossos dos mortos”), Piglia, já no fim de seu


relato, mostra que seu alvo está um pouco mais além do caso localizado que dá a
movimentação inicial ao livro, ou seja, o assassinato de Durán. Trata-se da
reivindicação de um exercício de leitura paranoica do mundo, que redundaria em uma
performance de escuta atenta aos ruídos dessas vidas póstumas que teimam em
permanecer ativas no presente, relembrando aos mais atentos que a história (e a
História) nunca está sedimentada: ela vibra no ar como uma névoa, repleta de
camadas extraordinárias