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UNIVERSIDADE INTERNACIONAL DA PAZ – GOIÁS

FLORES NO CAMINHO DO DHARMA: MINHA TRAJETÓRIA COM O YOGA

(OU COMO REAPRENDI A RESPIRAR, SENTAR, DEITAR E FICAR EM PÉ)

Gustavo Silva Araújo

UNIPAZ GOIÁS
GOIÂNIA
2019

RESUMO
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Trabalho de conclusão do curso de formação em Hatha Yoga. Narra minha trajetória


pessoal com o Yoga. Descrevo aqui, de forma resumida, como conheci a prática,
como entrei no curso de formação, como comecei a dar aulas, e como foi que os
atos simples e corriqueiros de respirar, sentar, deitar e ficar em pé se tornaram
práticas para o despertar da consciência que me ensinam constantemente uma nova
forma de ser e estar no mundo.

PALAVRAS-CHAVE: Obra-prima, Hatha Yoga, relato autobiográfico.

SUMÁRIO
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I. Da lama nasce o lótus: o caminho até o Yoga..……………………...4


II. Um passinho de cada vez: a chegada à casa de Pierre...…………..7
III. Flores no caminho do Dharma: sentar, deitar, respirar, ficar em
pé………………………………...……………………………………………9
IV. Glossário de termos em sânscrito……………………………………15

I. Da lama nasce o lótus: o caminho até o Yoga

Acordei ao raiar do dia, peguei meu velho tapetinho e fui até a sala
praticar. Como de costume, afastei o sofá para abrir mais espaço, acendi uma vela,
coloquei uma música bem baixinho, entoei alguns mantras e comecei os asanas. Ao
final, fiz alguns pranayamas, a invertida sobre o topo da cabeça e, por fim, relaxei
em Savasana. Estava em meados de 2017.
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Relaxei um pouco demais e acabei adormecendo. A música me levou por


sonhos estranhos... em um deles, eu estava na casa do meu primeiro professor, e
minha antiga professora também estava presente. Ambos me ensinavam, diante de
um quadro negro, algumas coisas que segundo eles todo professor de Yoga deveria
saber. Chamaram minha atenção e me disciplinaram em detalhes que eu precisava
mudar para avançar. No final do sonho, eu os levava até a porta para me despedir.
Quando olhei pra trás, a fachada da casa indicava que aquele lugar, na verdade, era
a minha escola.
Acordei confuso. Desliguei a música e fiz uma breve meditação, na qual
um sentimento sublime me invadiu. Era um misto de reverência e euforia. Com
apenas três anos de prática, eu não tinha a menor perspectiva de algum dia dar
aulas de Yoga. Mas aquele sonho me disse que em breve eu teria que honrar tudo o
que me fora ensinado até ali, passando o conhecimento adiante.
E assim foi, realmente, mais cedo do que eu esperava.
Uma amiga havia acabado de inaugurar seu espaço terapêutico, fruto da
cura de um longo processo de depressão. Cura esta conseguida a partir do mesmo
tratamento que me livrara, três anos antes, da dependência química que desenvolvi
e nutri dos 13 aos 21 anos de idade.
Durante este período de minha vida, usei todo tipo de substâncias que
apareceram em meu caminho, em grandes quantidades. Trafiquei, quase fui preso
várias vezes e quase morri por overdose duas vezes. Brinquei com a vida, entrando
em veículos dirigidos por pessoas completamente embriagadas, dentre outros atos
que não convém relatar aqui. Eu estava completamente absorvido pelas teias de
Maya e causando muito sofrimento para mim mesmo, meus amigos e minha família.
Conheci o Yoga no meu primeiro retiro xamânico, onde passei muitos dias
me limpando, junto à natureza. Depois de uma intensa desintoxicação e um forte
processo de catarse, me senti vivo como nunca e livre de todo o anseio por drogas.
Mas eu precisava de alguma coisa que mantivesse minha energia vital em alta, pois
logo voltaria a Goiânia e os velhos amigos estariam me esperando.
Pela infinita Misericórdia Divina, lá naquele ranchinho com paredes de
barro no interior da Chapada dos Veadeiros, no chuvoso dia 1° de janeiro de 2014,
fiz minha primeira prática de Hatha Yoga. E conheci um homem que dava aulas
perto de minha casa em Goiânia, que viria a ser meu primeiro professor. Considero-
me uma pessoa muito afortunada por ter tido a oportunidade de um dia ter recebido
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ensinamentos tão antigos, tão preciosos, tão benéficos quanto os dos sagrados
yogues e yoginis. Graças à infinita Misericórdia Divina, meu professor sempre me
incentivou a praticar em casa, com respeito e disciplina. O seu exemplo de
dedicação com a prática, devoção com o estudo e reverência com a Divindade no
coração de todos os seres foram me mostrando o profundo significado da expressão
“Namastê”. A meditação, os pranayamas, a prática de asanas, os yamas e niyamas,
o relaxamento, a contemplação, os mantras e os estudos da filosofia yogue - estes
foram os remédios que mantiveram a sombra do vício sob controle, até que fosse
completamente dissipada.
Nos retiros seguintes, a luz poderosa dos pajés, xamãs e caboclos
terminou de purificar rapidamente o que eu havia sujado durante anos. Depois de
muitos vômitos, choros, suadeiras, tremedeiras e diarréias, pude enfim respirar em
paz e me sentir em casa dentro de meu próprio corpo, como há muito tempo não
sentia.
Nesta época eu cursava psicologia e decidi começar a levar o curso a
sério, a fim de colocar tudo o que aprendesse ali a serviço das pessoas. Mas a
abertura de consciência que os retiros xamânicos, as práticas de Yoga e os estudos
de filosofia oriental realizavam em meu ser, me fizeram ver o cientificismo
acadêmico como algo engessado, frio, cinzento e - quiçá - muito pobre. Eu iria sim
me dedicar à psicologia, ao cuidado, à saúde, mas não daquele jeito.
Em 2015, fiz meu primeiro curso de massoterapia. Fui iniciado em Reiki e
em 2016, recebi os níveis 2 e 3. Foi quando minha amiga abriu o seu espaço
terapêutico, após ter sido também abençoada pelos caboclos da floresta. Nunca
mais precisou dos antidepressivos que tomou durante muitos anos de sua vida.
Comecei a atender com o Reiki neste Espaço, um dia da semana,
gratuitamente. Depois comecei a fazer sessões de meditação guiada em grupo, uma
vez por semana, também gratuitas. Em 2017, fiz um curso de Zen-Shiatsu e
comecei a atender com este maravilhoso tratamento da Medicina Tradicional
Chinesa.
Divulguei meu trabalho com o Shiatsu no Facebook, e um amigo que não
via há muito tempo - desde a época que minha vida estava completamente diferente
- me enviou uma mensagem privada pedindo ajuda. Disse que estava numa
situação muito difícil, deprimido, ansioso, sem ver sentido na vida, pensando em
suicídio.
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Marcamos uma sessão de Shiatsu no apartamento de minha ex-


companheira. Ele chegou esbaforido, ofegante, falando sem parar. Desabafou uma
tonelada de preocupações, medos, carências, raivas e desesperanças. Durante a
massagem, não conseguiu relaxar um segundo sequer.
Quando fui lhe aplicar Reiki, a imagem de meu professor de Yoga surgiu
em minha tela mental. Terminada a sessão, eu disse ao meu amigo que se ele
quisesse poderíamos continuar fazendo sessões de Shiatsu, mas eu recomendava
que ele começasse a praticar Yoga e me ofereci para lhe dar aulas particulares. Ele
aceitou: “qualquer coisa tá valendo, eu só quero ficar bem”. Foi meu primeiro aluno.
Ou seria meu primeiro paciente? Até hoje não sei bem a diferença…
Na semana seguinte, como combinado, nos encontramos novamente no
apartamento. Fizemos uma sequência de pranayamas que eu havia aprendido nas
aulas de Kundalini Yoga. No meio da sequência, na pausa entre um exercício e
outro, ele começou a chorar e balbuciou, incrédulo: “Mano… o que que é isso? Não
é possível… Eu tô feliz demais!!”.
É com lágrimas nos olhos que escrevo estas palavras, recordando a
cena. Ele se levantou, veio até mim e me abraçou, agradecendo. Encerramos
agradecendo a Divindade por esta ciência sagrada, que há milênios vem libertando
a humanidade de seu sofrimento, nos mostrando o caminho de volta pra casa.
Continuamos tendo aulas por mais alguns meses, no Espaço de minha
amiga. Depois, ele seguiu seu caminho. Recentemente me escreveu, dizendo que
continua praticando: “Hoje todos os dias são os melhores que já vivi”. Até hoje não
encontrei nada neste mundo que possa ser mais gratificante do que isto. Ver um
irmão sorrir, ver uma alma humana desabrochar em toda a sua potência de vida e
começar a também auxiliar outros irmãos por aí. Desde então, este é o Dharma que
embala o meu sono à noite e me desperta antes da alvorada, todos os dias. Quando
penso na minha breve passagem sobre a Terra, nada consegue ter tanta
importância quanto a alegria de cumprir este Dharma.

II. Um passinho de cada vez: a chegada à casa de Pierre

Continuei dando aulas particulares em minha casa, nas casas das


pessoas, em parques, onde quer que fosse possível. Cobrava pouco, pois não tinha
experiência como professor. Mas era tanto amor envolvido nessa tarefa de ensinar
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que eu teria feito de graça, se não soubesse o quanto a maioria das pessoas precisa
pagar uma mensalidade para dar valor à prática - e mesmo assim, muitas vezes,
não dão.
Logo no início dessa caminhada, comecei - como uma formiguinha
faminta - a procurar tudo relacionado a Yoga e meditação em Goiânia. Fiz “aula
experimental gratuita” com muitas professoras e professores de várias escolas, e foi
numa dessas que conheci a professora Marta Molinari. Frequentei durante um ano a
Meditação da Luz na Unipaz, que me auxiliou enormemente a dar os primeiros
passos na difícil tarefa de aprender a tocar este instrumento tão delicado que é a
nossa mente. Toda segunda-feira, lá estava eu visualizando a luz, sendo recebido
por ela com um grande sorriso. Desde a primeira vez, ela me recebeu como se já
me conhecesse há muito tempo. Seus ensinamentos ficavam ecoando dentro de
mim durante toda a semana, até a segunda-feira seguinte. Lá fiquei sabendo de um
curso de pós-graduação em Yoga e pensei, “quem sabe, depois que eu me graduar
em psicologia?...”.
No ano de 2018, tive a grata surpresa de ver que o curso seria de
formação, e não mais de pós-graduação. Era meu último ano de faculdade, e a
possibilidade de iniciar estudos formais em Yoga, com professoras e professores de
várias partes do Brasil, me deixou entusiasmado. Mas a mensalidade estava além
de minhas possibilidades financeiras.
Por uma misteriosa graça Divina, que eu não sei como explicar, tive a
imensa sorte de ter nascido filho de duas pessoas que me amam muito.
Moro com minha mãe, meus pais são separados desde que eu tinha 16
anos. Tendo eles já me dado tudo que preciso pra viver bem e realizar meus
propósitos sobre a Terra, pedi, mesmo assim, que pagassem as mensalidades do
curso e das aulas regulares de Yoga. Eles aceitaram; no dia seguinte, fiz a
matrícula.
Comecei logo as aulas regulares, pois havia tempo que não praticava
com uma professora e precisava reciclar o ritmo, o ajuste das posturas, a fluidez,
enfim, tudo aquilo que se consegue quando outra pessoa está ali guiando para que
você possa apenas mergulhar e apreciar. Foi então que conheci a Laura.
Quando vou iniciar uma aula ou fazer uma prática sozinho, tenho o
costume de recordar rapidamente os poucos professores e professoras com quem já
pratiquei durante um tempo, agradecendo-as por tudo que me ensinaram. Cada uma
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me trouxe um pouco do que é o Yoga e esses vários pedaços se encaixam,


formando um grande mosaico.
Pude aprender nas aulas com a Laura uma coisa muito importante: os
yamas e niyamas são contagiantes. É como um vírus do bem: quem pratica o que
ensina, contagia sem precisar dizer uma palavra.
Logo no início do curso senti que minha vida estava entrando numa nova
fase, e nela o Yoga tinha uma porção muito maior. As práticas se tornaram
novamente parte integrante de minha rotina. Comecei a usar e experimentar as
novas ferramentas que estavam sendo colocadas aos montes à minha disposição.
Sem contar que estava ainda dando aulas, e já tinha percebido que a qualidade da
minha prática se refletia diretamente na qualidade delas.
Estava agora com duas turmas no espaço de minha amiga, e alguns
alunos particulares.
Em abril de 2018, terminei um relacionamento de três anos de duração. O
Yoga foi um grande esteio pra que eu conseguisse, apesar de tudo, me concentrar
nos estudos e terminar meu curso de Psicologia. Foi um ano de desafios: muito
estudo, estágio obrigatório, escrita do TCC, término do relacionamento, trabalho, e
muita P.E.I.A. (Processo Espiritual Intensivo de Aprendizagem).
Até hoje me impressiona perceber que a prática de Yoga transforma toda
crise e sofrimento em adubo para o florescimento interno, através do
desenvolvimento da habilidade de prestar atenção às lições que estão sendo
constantemente ensinadas pelas situações da vida.

III. Flores no caminho do Dharma: sentar, deitar, respirar, ficar em pé

Cada vez que estendo o tapetinho, é como se soubesse que estou


entrando num espaço que é ao mesmo tempo clínica de reabilitação, hospital,
escola e templo. Hospital, não porque eu esteja doente, mas porque nós o visitamos
também quando estamos perfeitamente saudáveis, para prevenir qualquer doença.
Reabilitação, porque mesmo sem usar drogas, eu ainda preciso lidar com meus
impulsos desenfreados por comida, estímulos visuais e auditivos, compras, sexo,
fala desenfreada, luxos desnecessários, enfim: os atos que resultam de uma
carência emocional que é a expressão do anseio humano por “algo mais” do que o
estado de consciência corriqueiro em que vivemos.
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Isto é compreensível. Afinal, todos os outros animais conseguem comer,


dormir, trabalhar, procriar, envelhecer e morrer. Somente a espécie humana recebeu
alguns presentinhos da natureza e consegue desenvolver certas habilidades únicas.
Quando a nossa coluna vertebral se alinhou verticalmente, como uma
ponte entre a terra e o céu, tornamo-nos mediadores entre o efêmero e o eterno. Ao
contrário dos outros animais que têm o focinho na mesma altura do genital, nós
temos a habilidade de escolher dizer “sim” ou “não” quando surge algum impulso, e
esse lapso entre o desejo e a satisfação abre um campo onde tudo o que é sublime
na vida humana pode vir à tona.
A tarefa do Yoga é também a de fazer com que essa ponte cumpra sua
função de levar as energias densas e terrenas à sublimação, e trazer as forças sutis
dos mundos superiores - e interiores - à manifestação concreta no mundo material.
Para isso, é bom que as 33 vértebras da coluna estejam bem empilhadinhas, pois
elas são as correspondentes físicas dos tubos etéricos por onde a energia vital flui,
realizando sua divina alquimia de transmutação interior: “assim na Terra como no
Céu”; “o que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o
que está embaixo”.
O tapetinho é também uma grande escola. Paulo Freire escreveu que
tudo o que é terapêutico é também pedagógico, e tudo o que é pedagógico é
também terapêutico. Praticando Yoga percebi que ele tem razão: só se aprende
quando se transforma, só se transforma quando se cura, e só se cura quando se
aprende as causas do sofrimento. É por isso que o principal obstáculo à libertação
(Kaivalya) é a ignorância (Avidya). Ignorância de nossa verdadeira natureza como
seres cujo invólucro externo não passa de um veículo transitório da Consciência
Eterna, um instrumento de aprendizado, uma ferramenta para experimentar a si
mesma através do espelho de seu relacionamento com o mundo.
A união (Yoga) já está feita desde o início, porém nos sentimos
separados, divididos, como se faltasse alguma coisa que não sabemos muito bem o
que é.
A primeira coisa que comecei a estudar quando entrei em contato com a
filosofia oriental foram os mantras. Logo no início, ouvi um mantra durante uma aula
do meu primeiro professor que mexeu profundamente comigo. Eu não sabia o que
significavam aquelas palavras, mas saí da aula sentindo-me conectado com tudo ao
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meu redor, livre, pleno e em paz. Chegando em casa, fui pesquisar e descobri que
este mantra é um verdadeiro remédio contra o sentimento de separação:

Om. Isto é plenitude. Aquilo é plenitude.


Da plenitude, a plenitude surge.
Tirando-se a plenitude da plenitude,
somente a plenitude resta.
Om. Paz, paz, paz.

Ora... O Todo continua sendo Total, mesmo tendo-se dividido em


miríades de formas para dar origem ao universo. Por trás da dança das dualidades,
da tensão entre os pares de opostos, da fricção entre os pólos, há aquilo que
persiste apesar e além de uma e de outra: o ponto neutro absoluto e imutável,
Atman, centelha divina presente e atuante no coração de todos os seres. O único
refúgio seguro de equilíbrio e bem-aventurança no caos do mundo material.
Intocado, quando tudo o mais parece desmoronar ao nosso redor. Acessado
somente quando se acalmam as águas turvas de uma mente inquieta na lagoa
cristalina da meditação profunda. Ponto focal de todas as escolas e tradições
espirituais do planeta, o eterno aqui-e-agora. Origem, duração e desfecho de tudo
que foi, é e será.
Se tudo surgiu a partir dessa plenitude, se essa plenitude vive em tudo
que existe, como se pode subtrair algo de qualquer coisa? Ou pior: como se pode
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adicionar algo mais àquilo que já é pleno desde o início? Não se pode perder nada,
nem ganhar nada, pois tudo veio da perfeição e essa perfeição se perpetua em cada
átomo do universo. A vivência dessa verdade dissipa todo anseio, toda inquietante
busca por algo externo que vá preencher o vazio. O vazio é a própria fonte de tudo,
não algo a ser tampado, mascarado, camuflado…
Mas é claro que, para que tudo isso seja vivenciado, e não apenas
compreendido racionalmente, não se pode confiar de forma cega. Há dez preceitos
éticos e oito passos de um caminho que gradualmente direciona nossa vida a abrir
um espaço para que essa plenitude seja sentida, tocada, reverenciada. Não é um
solavanco de evolução. É um lento caminhar, passo a passo, dia após dia, momento
a momento.
É por isto que esta escola, este hospital, é também um templo.
Algo mudou dentro de mim quando comecei a dar atenção extra aos
exercícios mais simples e básicos do Hatha Yoga - aqueles que passamos batido,
pois gostamos da complexidade, do desafio, e nossa mente adora se sentir a
“comandante” da situação.
No início da prática, não conseguimos realizar sequer um movimento
sincronizado com a respiração. Não conseguimos levar a respiração até o abdômen,
nem acionar os músculos específicos que precisamos para construir essa ou aquela
postura. Muitas vezes, não é por falta de força ou de flexibilidade - simplesmente
está além do nível de consciência corporal que adquirimos até aquele momento.
Conforme praticamos e nossa propriocepção aumenta, somos levados a
um lugar onde conseguimos realizar as ações necessárias sem grande
direcionamento da atenção. Ou seja, o que antes só se conseguia através de um
estado de presença, agora pode-se realizar distraidamente, no modo automático,
pensando em outras coisas.
Começamos então a adicionar outros “dispositivos de presença” para
chamar a atenção de volta ao momento: “Ative o períneo. Encaixe o quadril... Leve
contração no abdômen... Respiração ujjayi! Língua no céu da boca. Foque o olhar
num ponto fixo... Inspire imaginando-se puxando a energia da Terra e exale
espalhando e afundando suas raízes cada vez mais fundo. Sinta a ação dessa
postura sobre seu corpo emocional...”. Com esses dispositivos em ação, fazemos
com que a lupa da concentração direcione toda a energia num único ponto: o
momento presente. E assim vamos percebendo que todas as maravilhas da vida
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estão disponíveis para ser exploradas aqui, agora mesmo, ao alcance da nossa
capacidade de equilíbrio entre estabilidade e conforto.
Praticando Tadasana, Savasana, Sukhasana e a respiração completa -
coisas que, depois de um tempo, achamos que como “yogues experientes” não
precisamos mais praticar, pois “já passamos dessa fase” - aprendi uma valiosa lição.
Diz respeito a um sentimento de que tudo é novo o tempo todo, e que as principais
frustrações de minha vida foram devidas à falta de atenção em perceber a beleza
contida no inédito daquele instante.
Seja prazeroso ou doloroso, confortável ou incômodo, a unicidade de
cada momento torna a vida um lugar que nos instiga a acertar o passo da dança
entre força e flexibilidade, entre firmeza e leveza. Deitado, sentado, em pé,
respirando, caminhando, comendo, conversando, trabalhando, pedalando, sorrindo,
chorando… se experimentados com atenção plena, isto é asana.
Naquele último ano de curso de psicologia, fiz estágio no CAPS Vida,
onde dei aulas de Yoga para pessoas com transtorno mental grave. Recentemente
voltei a dar aulas para eles, mesmo não estando vinculado à instituição. O que eu
aprendo com essas aulas, seria o suficiente para escrever todo um trabalho como
este.
Muitos possuem grandes dificuldades cognitivas, não tanto devido à
doença, e sim à quantidade enorme de medicamentos que a mantém sob controle. E
por incrível que pareça, onde existe menos raciocínio, menos fluxo de análise da
realidade em rótulos e conceitos, há também menos resistência para experimentar
os estados que estão além das palavras. É como o ditado zen: "Há muitas
possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito”.
Com toda a carga de tensão a que estão submetidos, parece surreal ouvir
alguém dizer as palavras mágicas: “Está tudo bem. Não precisa fazer mais nada.
Você já chegou, já está em casa. Apenas respire, ouça o som da sua respiração,
ouça o seu coração”. Diga isso a uma pessoa como nós, “saudáveis”, alguém com
uma mente super afiada, cheia de juízos de valor, e ela não vai achar muito
agradável ficar ali parada observando a própria respiração: “Que coisa chata, sem
graça, cadê o movimento, o desafio, os estímulos excessivos? É uma pena, assim
não tenho nenhuma oportunidade de mostrar para o mundo minha esperteza,
inteligência e sagacidade! De que valem todos os livros que li até hoje, toda a
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informação acumulada, se agora tudo que eu preciso fazer é aproveitar o momento


presente e ser feliz?”.
Aos poucos rendida, a mente vai se colocando em seu devido lugar: o de
agir como uma ferramenta, muito bem treinada para realizar aquilo que a
consciência interior lhe determina, com carinho e dedicação. Tudo o mais, sua
vontade de se sobressair, de ser maior que os outros e de provar os frutos antes da
semeadura, são as ervas daninhas a serem podadas diariamente nas visitas ao
jardim interior.
Compaixão, veracidade, honestidade, caminhar com Brahma, desapego.
Pureza, contentamento, disciplina, autoestudo, entrega a Deus.
Tesoura e adubo nas mãos do jardineiro de si mesmo. Pincel e aquarela
colorindo os rostos pálidos de nossas mentes adoecidas pela ilusão.
Neste momento de profundas transformações planetárias, a Terra precisa
de mais pessoas que precisam de menos para estarem em paz. O Yoga é uma
ferramenta incomparável na tarefa de dissipar a neblina das luxúrias
desnecessárias, e deixar brilhar o Sol de nossa verdadeira natureza. A experiência
do êxtase, ainda que muito leve e passageira, ou mesmo profunda e intensa, é um
antídoto poderoso contra o consumismo desenfreado que assola quem o pratica - e
todos ao seu redor - num mar de inutilidades sem sentido.
O amor pela natureza, a saúde, a energia vital, a paz interior, a clareza e
o discernimento são coisas simples que o Yoga desperta em quem pratica, e que
hoje em dia se fazem indispensáveis para a sobrevivência da humanidade.
Finalizando o curso de formação, sinto-me renovado com a tarefa de
praticar e espalhar esta ciência onde quer que eu vá.
Presto reverência e homenagem às pessoas que laboram na casa de
Pierre, pelo seu trabalho pioneiro em romper com a frieza academicista, em
benefício de uma educação sistêmica, integrada, holística, transdisciplinar. Aos
meus ancestrais e aos meus pais, pela oportunidade e dedicação em abrir os
caminhos que estou trilhando. Sou profundamente grato a todas as professoras que
me auxiliam, às minhas alunas que confiam no meu trabalho, e a todas as colegas
de profissão que dedicam suas vidas a praticar o que se ensina, a praticar o que se
aprende, e a ensinar pelo exemplo.
Namastê.
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IV. Glossário de termos em sânscrito

Asana: Assento, postura.


Avidya: Ignorância.
Brahma: Representação da força criadora ativa no universo.
Dharma: Caminho para a verdade superior. Exercício de uma tarefa
espiritual no mundo material.
Hatha: Ha é a energia solar, ativa, e Tha é a energia lunar, receptiva,
ambas presentes no ser humano, que o Hatha Yoga busca equilibrar.
Kaivalya: Libertação.
Kundalini: Energia em forma de serpente de fogo enroscada na base da
coluna. Algumas práticas visam a elevação dessa energia através da coluna
vertebral, para o despertar da consciência.
Mantra: Literalmente, “alavanca da mente”. Sons de poder que, quando
repetidos, geram um determinado estado de consciência.
Maya: Nome usado para designar a ilusão do mundo material, transitório
e impermanente.
Namastê: Reverência, saudação de grande respeito.
Niyama: Preceitos éticos.
Pranayama: Controle da energia vital.
Savasana: Postura do cadáver.
Ujjaiy: Respiração vitoriosa.
Yama: Prescrições éticas.
Yoga: “União”, sistema filosófico.
Yogini: Praticante de yoga (feminino).
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Yogue: Praticante de yoga (masculino).

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