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TEOLOGIA BÍBLICA

ANTIGO TESTAMENTO
GERARD VAN GRONINGEN
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula I 2

AULA I
SIGNIFICADO
O Antigo Testamento era bem conhecido por Jesus. No Evangelho de Lu-
cas, lemos que, enquanto ele andava com os dois discípulos na estrada de
Emaús, ele lhes disse, quase com uma demonstração de um pouco de im-
paciência, "São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco:
importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés,
nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para com-
preenderem as Escrituras (Lc 24.44-45 ARA)".
Esses versos de Lucas 24 são muito bons versos conectivos entre o Antigo
e o Novo Testamento. Jesus, que introduz o Novo Testamento, nos diz que
ele é um dos principais temas — na verdade, a figura central — do Antigo
Testamento, e eu confio que veremos isso no decorrer deste curso de Teo-
logia Bíblica.
Uma vez que este é um curso de Teologia Bíblica, em primeiro lugar de-
vemos definir o que queremos dizer com “Teologia Bíblica”. Há muitos
livros sobre o assunto. Na verdade, eu tenho cerca de vinte e cinco livros
na minha mesa que afirmam ser Teologia do Antigo e do Novo Testamen-
tos e é impressionante como definem de forma diferente o conceito de
“Teologia Bíblica”. Philip Watson escreveu um artigo no The Expository
Times, há algum tempo em que ele expôs três pontos de vista e ele foi mui-
to enfático ao rejeitar alguns desses conceitos. O primeiro conceito que
ele rejeitou foi a abordagem liberal, que diz que a Bíblia contém escritos
religiosos que apresentam ideias sobre Deus, o Criador, que era Santo e
justo e ordenou às pessoas que amassem umas às outras. Na visão liberal,
Teologia Bíblica tem apenas uma tarefa descritiva. Ele simplesmente des-
creve quais são as ideias sobre Deus na Bíblia. A Bíblia é um registro das
antigas crenças, não uma revelação. Alguns teólogos bíblicos abordam a
Bíblia assim, mas Philip Watson rejeita essa abordagem.
Watson, em seguida, fala sobre a abordagem fundamentalista da Teologia
Bíblica. Os fundamentalistas acreditam que a Bíblia é inspirada verbal-
mente. É um registro da revelação de Deus em palavra e atos, inerrante
em todas as partes. Nessa posição, ele diz, repousa sobre um dogmatismo
que deve ser total e completamente rejeitado. De acordo com Watson, Te-
ologia Bíblica é impossível se partimos dessa abordagem fundamentalista
das Escrituras. (Espero demonstrar que ele está muito errado sobre isso).
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A terceira abordagem que Watson fala sobre é a abordagem cristocêntrica.


Como a abordagem liberal, ela vê a Bíblia como um registro de crenças —
a crença dos israelitas de que tinham um relacionamento especial com
Deus e a crença da Igreja do Novo Testamento, que substituiu os israelitas
nessa relação. O Antigo Testamento registra promessas relativas a Jesus
Cristo por vir e o Novo Testamento mostra que Jesus é o cumprimento
dessas promessas.
Há algo muito atraente na apresentação de Watson da abordagem cris-
tocêntrica, mas embora ele a centralize em Cristo, ele se recusa a aceitar a
Bíblia como um registro infalível da revelação. O Antigo Testamento re-
gistra toda uma série de crenças sobre o Cristo e pasmem, muitas dessas
crenças do Antigo Testamento provaram ser corretas, como o próprio Je-
sus disse. Mas a abordagem de Philip Watson da Teologia Bíblica lê o Anti-
go e o Novo Testamentos como um registro de Cristo, como ele foi crido
por Israel e pela igreja. Sua definição de Teologia Bíblica, então, é o "dis-
curso sobre Deus." Teologia Bíblica é o que alguém pensa e diz sobre Deus.
É uma disciplina científica, é puramente descritiva, e cumpre um papel
normativo em nome da Teologia Dogmática. Então, se fôssemos seguir
Philip Watson, nós simplesmente descreveríamos o que as pessoas pensa-
vam e disseram a respeito de Cristo no Antigo e no Novo Testamentos.
Frank Anderson, um estudioso evangélico no mundo anglicano na Austrá-
lia, escreveu um artigo na Encyclopedia of Christianity (volume 2, página
63) em que descreve o que considera ser Teologia Bíblica. Sua descrição é
muito melhor que a de Watson e incentivo vocês, se tiverem acesso, a ler
o que ele tem a dizer.
William Dyrness, um professor missionário no Extremo Oriente, descreve
a Teologia Bíblica como um estudo de temas. Dyrness é um estudioso
evangélico, que aceita a veracidade das Escrituras, mas seu livro é quase
um estudo sistemático. Ele explica os principais temas da Bíblia, e se você
olhar para o índice, você verá que ele lida com a revelação, a auto revela-
ção de Deus, a natureza de Deus, a criação, a providência, o homem e a
mulher, o pecado, o pacto, a lei, a adoração, a piedade, a ética. Soa quase
como uma Teologia Sistemática, que, como você sabe, lida sobretudo com
a revelação, depois Deus, depois o homem, depois Cristo e depois a salva-
ção.
George Ladd, em um dos livros que estamos usando para este curso, ob-
serva que a Teologia Bíblica tem que lidar com a história. Você não pode
fazer um estudo em Teologia Bíblica corretamente a menos que você dê
atenção especial à história. Na página 25, ele diz que "Teologia Bíblica é a
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disciplina que estabelece a mensagem dos livros da Bíblia em seu contexto


histórico". Ele está correto. Devemos olhar o contexto histórico de cada
aspecto da revelação de Deus na Bíblia.
Para Ladd, Teologia Bíblica é principalmente uma disciplina descritiva.
Lembre-se de que Philip Watson disse isso também. Isso significa que
Ladd e Watson veem a Teologia Bíblica não como se preocupando com o
significado final dos ensinamentos da Bíblia ou sua relevância para hoje.
Essa é a tarefa da Teologia Sistemática. Aqui é onde eu me separo desse
meu bom amigo, George Ladd, porque acho que para ensinar este curso,
vou ter que dar algum significado para hoje assim como dizer o que a Bí-
blia significava para os dias em que foi escrita. Mas no geral, livro de Ladd
é um livro que vale a pena ter em suas prateleiras de Teologia do Novo
Testamento.
Finalmente, temos Gerhardus Vos, o homem que me apresentou a Teolo-
gia Bíblica. Quem me dera que ele tivesse aprendido sua teologia na língua
inglesa. Infelizmente, para nós, ele fez a maior parte de seu estudo em um
contexto alemão e holandês; e um dos adágios comuns aos alemães e ho-
landeses é: "Se eu posso dizer isso de modo complexo, porque devo dizê-
lo de forma simples?".
Esse livro contém três conjuntos de palestras que o Dr. Vos apresentou na
década de 1920 Princeton Theological Seminary. A primeira seção traba-
lha com a revelação mosaica, a segunda seção trabalha com a revelação
profética, e a terceira seção trabalha com Jesus e os Evangelhos. O livro
não é uma Teologia Bíblica completa, mas Vos estabeleceu um bom
exemplo de como devemos entender e abordar a Teologia Bíblica.
Nas páginas 5 a 9, ele apresenta o seu exemplo. Na página cinco, Vos es-
creve, "Teologia Bíblica é o ramo da Teologia Exegética, que lida com os
processos de auto-revelação de Deus." E, em seguida, ele usa um único
verbo, "depositada", na Bíblia. Alguns têm entendido o termo "deposita-
do" como se você fosse ao banco e depositasse dinheiro em sua conta. Não
vou discutir isso. Vos falava em 1920 e talvez o termo "depositado" tivesse
um pouco menos de conotação comercial do que agora. Ele certamente
acreditava que a Bíblia era o registro infalível da revelação de Deus para
nós, como ele a revelou em palavra e ação. Isso foi registrado, e isso é o
que as Escrituras são.
Este processo, de acordo com Vos, tem que ser entendido como tendo
quatro principais características. Não quero, de forma alguma, que você
as perca. A primeira das quatro características é o caráter histórico e pro-
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gressivo do processo de revelação. Isso significa que a revelação foi um


processo que se moveu através da história. As Escrituras não caíram pron-
tas do céu. Deus se revelou progressivamente nas Escrituras da época de
criação até 100 D.C.
A segunda característica principal deste processo de revelação é que ela é
incorporada à história. Você deve se lembrar de que Ladd disse que temos
que considerar cuidadosamente a dimensão histórica da revelação. Deus
nunca se fez conhecido por palavra ou ato fora da história. Deus sempre
dignou. Deus sempre condescendeu. Ele veio a Adão no jardim antes do
pecado. Ele andou com Adão. Ele veio a Adão depois do pecado. Deus veio
a Caim, o assassino. Deus veio a Noé. Ele veio a Abrão, Isaque, Jacó, Moisés,
os filhos de Israel, Josué. Deus veio a eles quando eles eram agentes da his-
tória. Deus nunca separou seu povo da linha da história. Deus não levou as
pessoas para fora da história. Ele veio na história. Ele deixou o seu povo
exatamente onde seu povo estava quando veio para lhe falar e lidar com
esse povo. E assim a sua revelação está sempre incorporada na história.
Agora, uma das coisas que tem me perturbado muito no decorrer de meus
estudos no contexto evangélico Reformado é que muitos escritores têm
ido para a Bíblia, pensando que se fizerem um estudo gramatical simples,
olhando para a gramática hebraica e grega, seria suficiente para a inter-
pretação; e que eles não precisam prestar atenção no contexto histórico
em que o texto foi originalmente dado. No entanto, é muito difícil tornar
sua mensagem significativa ao público moderno, a quem vocês estão pre-
gando, se você primeiro não entender o significado e a importância do
texto para as pessoas a quem o texto foi dada originalmente. Se você reti-
rar o texto de seu contexto histórico, como alguns pregadores costuma-
vam dizer, torna-se como uma vaca que fica solta nas pastagens infinitas
onde não existem cercas. Você pode ir a qualquer lugar, porque você não
tem limites. História serve como uma fronteira em grande medida. Para
interpretar a Bíblia bem, você deve saber a história do Antigo Testamento.
A terceira dessas quatro características, é a natureza orgânica da revela-
ção. O que é progressivamente revelado é como uma pequena semente
que contém toda a árvore de carvalho em sua essência. Se você planta
uma semente de carvalho, você obterá uma árvore de carvalho, embora
possa demorar um pouco. Quando dizemos que a revelação de Deus é or-
gânica dessa forma, queremos dizer que o que Deus revelou a Adão e Eva
antes da queda e depois da queda foi como sementes básicas da verdade. E
no tempo em que Moisés esteve na terra e fez o seu trabalho, pode-se di-
zer que a revelação inteira de Deus foi dada em forma germinal. Alguns
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aspectos já haviam sido completamente desenvolvidos. Mas o fato per-


manece, a verdade estava lá. Adão e Eva sabiam o suficiente para serem
salvos porque a revelação foi dada em forma de semente a eles. De um
certo ponto de vista, podemos dizer que Adão e Eva poderiam não ser res-
ponsabilizados como somos hoje, uma vez que temos a revelação concluí-
da em Jesus Cristo, como está registrado no Novo Testamento para nós,
mas a promessa estava em Gênesis 3.15 em forma de semente. Então a re-
velação de Deus era orgânica, incorporada na história e sempre progres-
siva.
Um dos problemas, portanto, que temos ao ler a Bíblia é onde começar.
Lembro-me de ter conhecido uma jovem na Austrália. Um jovem em nos-
sa igreja a apresentou a mim. Ele nasceu na Indonésia e ouviu sobre a nos-
sa igreja. Ele estava sozinho e queria comunhão, então ele veio à nossa
igreja e tornou-se ativo na obra da mocidade, mas ele estava ainda sozi-
nho. Então um dia que ele me disse, "Eu encontrei uma moça do meu gos-
to, mas ela nunca leu a Bíblia. O que devo fazer?" Eu disse, "Traga-a até
mim. Vou ver o que posso fazer sobre isso." E conheci a Cláudia. Ela estava
com 23 anos e a única vez que lera a Bíblia foi para um trabalho de inglês
na escola onde tinha sido dito para ler Lucas 2.1-25 e, em suas próprias
palavras, "Escrever o que aconteceu". Foi a única vez que ela pegou uma
Bíblia na mão. Não duvido que existam pessoas assim no Brasil também.
Mas ela estava ansiosa para aprender. Onde devo dizer lhe para começar a
ler? Devo dizer que comece na criação? Ela havia ouvido tudo sobre evo-
lução e não se importava de entrar nesse problema imediatamente. Digo-
lhe para começar no Evangelho de João? Ou no nascimento de Jesus? Per-
guntei ao amigo dela, Philip, "onde eu deveria dizer à Claudia para come-
çar a leitura?" Ele disse: "Não a inicie no fundo do poço; alguém tentou
iniciar-me lá e eu quase me afoguei". Eu disse, "O que é o fundo do poço?"
Ele disse que era o livro de Romanos, Isaías e Levítico. Montei uma peque-
na agenda de leitura para ela, iniciando com Gênesis capítulo um até a
vida de Abrão, no capítulo 26, e, mais tarde, os Evangelhos e os Salmos. Eu
a levei a ver os sete importantes "nascimentos" — o nascimento do uni-
verso, seu renascimento com Noé, o nascimento do povo de Deus com
Abraão, o nascimento do povo de Israel no Êxodo e o nascimento de Cristo
e, em seguida, eu a levei ao nascimento da aliança davídica e, em seguida,
fui para o nascimento da igreja. Existem diferentes maneiras de tentar
pegar o núcleo básico. Mas esse método enfoca a natureza orgânica da
revelação de Deus.
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Finalmente, a quarta das principais características dos Vos é adaptabili-


dade. Tudo o que Deus disse era adaptável, ou seja, aplicável à situação a
que ele se dirigiu. Quando ele falou com Adão e Eva, após o pecado no jar-
dim, isso era aplicável, adaptável a eles. Quando ele falou com Noé antes
do dilúvio e depois do dilúvio, foi adaptável a Noé, seus filhos, suas espo-
sas e filhos. Deus não fala bobagem. Quando você segue este estudo atra-
vés das Escrituras, você verá que em todos os tempos Deus sempre teve
uma mensagem significativa, uma mensagem útil, uma mensagem que
realmente era muito importante para as pessoas a quem se dirigia. E se
sabemos que a intenção das Escrituras quando foram originalmente dadas,
isso nos ajudará a entender a importância e o significado que têm para
nós hoje. A situação histórica mudou. A história está em curso.
Agora eu quero salientar que todas essas abordagens que vimos — Philip
Watson, Frank Anderson, William Dyrness, George Ladd, Gerhardus Vos —
cada uma delas tem elementos úteis, mas certamente prefiro a abordagem
dos Dr. Vos no estudo da Teologia Bíblica. Essa abordagem tem me ajuda-
do muito a manter minha mente na situação histórica, para manter o cur-
so, e o aspecto progressivo perante mim, para lembrar que a revelação é
orgânica e que, a fim de compreender Gênesis 3.15, eu tenho que ler Ma-
teus 1 Lucas 2, bem como a exposição do nascimento e da morte de Cristo
feita por Paulo.
ESTRUTURA
Agora passemos à estrutura da Teologia Bíblica e vamos passar muito rá-
pido por aqui. Como já mencionei, há a abordagem temática. Essa aborda-
gem considera temas individuais e então segue cada tema de Gênesis a
Apocalipse. Algumas pessoas gostam de fazer Teologia Bíblica tematica-
mente. O que a Bíblia diz sobre Deus, seguindo essa progressão? O que diz
sobre o homem? O que diz sobre o pecado? O que diz sobre todos os ou-
tros temas principais? Essa abordagem lhe dará uma boa compreensão
das várias doutrinas, mas de certa forma, é mais como teologia sistemáti-
ca do que o que chamamos de seguir o processo de revelação, onde Deus
está interagindo com o homem, dando promessas sobre o Messias, e sem-
pre a trabalhando a sua relação de aliança com seu povo. Ver todos esses
temas juntos é bastante complicado. Acho que nenhum botânico jamais
tentaria entender uma árvore seguindo um fio da árvore primeiro e de-
pois outra vertente e depois outra vertente. Não, o botânico olha para a
árvore como se desenvolve em sua totalidade. No entanto, a maneira te-
mática de Teologia Bíblica de estrutura de tópicos pode ter algumas van-
tagens. Como referi antes, Dyrness tem seguido essa abordagem e eviden-
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temente ele pensou que era a melhor abordagem no contexto da missão


onde ele estava ensinando, no Oriente Médio.
O método histórico-crítico liberal pode se tornar muito confuso. Você já
ouviu falar da teoria das fontes JEDP, etc.? Um exemplo clássico disso está
na Teologia do Antigo Testamento, em dois volumes, de Gerhard von Rad.
Primeiro, ele reorganiza toda a Bíblia de acordo com a maneira que ele
acredita que deveria ter sido escrita. Isso me lembra de um erudito judeu
muito notável, Cyrus Gordon, com quem tive o privilégio de estudar. Gor-
don disse, "Quem são esses estudiosos alemães, americanos e ingleses pa-
ra dizer aos meus antepassados, o povo judeu, como deveriam ter escrito?
Eu nunca ouvi falar de tanto orgulho". Já pensou nisso? Que direito têm os
críticos, americanos, ingleses e alemães de dizer como a Bíblia deveria ser
organizada e de dizer que a forma como a Bíblia está organizada agora é
basicamente enganosa? Cyrus Gordon, um judeu muito devoto, ficava ex-
tremamente chateado com os críticos liberais que reorganizam a Bíblia
completamente, de acordo com fontes e tradições, dizendo, por exemplo,
que todo o documento P (incluindo Gênesis 1 a 11 e o livro de Levítico) foi
escrito cerca de 400 A.C., após o tempo de Esdras. Isso, para Gordon, era o
limite máximo do orgulho e da insensatez.
Se você de alguma forma seguir alguns estudiosos mais liberais, você pode
se tornar muito confuso. Eles não seguem a abordagem histórica. Eles não
acreditam que a Bíblia foi escrita como a lemos hoje, mas que foi reescrita
e reeditada tantas vezes que é tremendamente difícil determinar a fonte
ou descrever o processo da crença. Cada estudioso que segue esse método
organiza o material bíblico de acordo com sua própria pressuposição.
Quero salientar que aprendi alguma coisa, e confio que você também pode,
na Teologia Bíblica de alguns desses estudiosos liberais. Se você ficar fora
do seu sistema e simplesmente ler o que dizem sobre uma certa passagem,
às vezes, estas pessoas têm coisas muito úteis a dizer. Por exemplo, Ei-
chrodt tem sido muito útil para mim na compreensão do que a Bíblia diz
sobre a natureza da pessoa humana — quanto à alma, ao espírito, à carne,
ao corpo, intestino, rins, etc.
Outra abordagem é a abordagem de citação do Novo Testamento. Alguns
estudiosos afirmaram que a única maneira de entender o Antigo Testa-
mento é vendo como o Novo Testamento lida com ele, então pegam as
principais citações que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento, e,
no contexto do Novo Testamento, tentam determinar como o Antigo Tes-
tamento foi escrito e como deve ser entendido. Mas ao estudar o Antigo
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Testamento através das lentes do Novo Testamento, eles realmente não


permitem às Escrituras do Antigo Testamento falar por si.
Gerhard Hasel pode dar mais informações em seu livro Teologia do Antigo
Testamento: Questões Fundamentais no Debate Atual. Ele descreve os di-
ferentes métodos. Eu recomendo este pequeno livro a você se você ainda
não o leu. Hasel é um estudioso da Igreja Adventista do Sétimo Dia, pro-
fessor na Universidade de St. Andrew, que é uma Universidade Adventista
do Sétima Dia em Michigan. Ele acredita no Senhor Jesus Cristo, mas ele
estabelece sua teologia da crença no contexto do Adventismo do Sétimo
Dia. Sua teologia Adventista do Sétimo Dia não vem deste livro. Uma coisa
que lamento um pouco é que Gerhard Hasel dê muito crédito a alguns dos
estudiosos histórico-crítico literários. Ele não acredita que a Bíblia tenha
um tema central principal.
Hasel fala sobre o descritivo, o confessionário, o transversal e as aborda-
gens diacrônicas para o estudo. Esses são todos termos bastante pesados e
eu não quero entrar em detalhes sobre eles. Você pode ler sobre eles em
seu livro. Brevemente vou mencionar algumas coisas na abordagem des-
critiva. Hasel pensa ser totalmente objetivo e simplesmente descreve o
que as pessoas acreditavam e pensavam. Entretanto, a objetividade nesse
sentido é impossível, porque abordamos as Escrituras com nossas lentes
coloridas e nossa mentalidade. Não dá para contornar isso. Nem sequer
tentar esse objetivo, a abordagem descritiva, porque é impossível.
A abordagem confessional basicamente diz que "a Bíblia me ajudará a
confessar" o que o povo confessou no passado. Hasel explica essa aborda-
gem confessional, dizendo que se a Bíblia é um livro de confissões, pode-
ria nos ajudar a fazer nossa confissão hoje. Há alguma verdade nisso, mas
a Bíblia é mais do que apenas uma confissão do passado. Aprendemos com
a Bíblia como as pessoas responderam à revelação de Deus — mas, fre-
quentemente, sua resposta foi a rebelião, não a confissão! E então a Bíblia
não pode ser abordada sob esse ponto de vista confessional porque muito
da Bíblia não é confessional. Gerhard Hasel também explica o corte trans-
versal e as diacrônicas maneiras de abordar a Bíblia, mas não vou falar
sobre isso neste momento.
Então há a abordagem dispensacionalista. Lidaremos com isso mais deta-
lhadamente mais tarde. O. Palmer Robertson, no livro Cristo dos Pactos,
faz a pergunta, "O que estrutura as Escrituras?" Nesse estudo, ele dá uma
boa ideia das abordagens dispensacionalistas das Escrituras. Eu digo abor-
dagens, porque não há uma abordagem única dispensacionalista. Há a ve-
lha escola, a nova escola e a escola intermediária entre os dispensaciona-
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listas. Eles são tão divididos quanto os teólogos da aliança ou qualquer


outro grupo de teólogos, que você possa imaginar. Mas o que basicamente
estrutura as Escrituras? Robertson opta pela abordagem Pactual, pelo que
eu sou grato.
Agora Vos, acredito que mais uma vez, deu-nos uma boa abordagem. Na
página 16, em seu livro, ele explica como Deus fez uma série de alianças. É
esse o jeito certo de dizer isso? Ou Deus vem, renova, confirma e expande
a sua relação de aliança com seu povo? Quando você avança através da
Bíblia, você encontrará Deus primeiro falando a Adão, o proto-evangelion
(Gênesis 3.15), então ele veio a Noé e disse-lhe: "meu pacto é com você e
vai continuar com você." Então ele veio a Abrão e depois a Moisés, Josué e
juízes. Então chegamos ao tempo de Davi e dos profetas pré-exílicos. Em 2
Samuel 7, Deus veio e falou com Davi e fez aliança com ele. Então encon-
tramos os profetas pós-exílicos — temos uma explosão de revelação e de-
pois por 400 anos não houve revelação. Mas com o nascimento de Cristo,
temos novamente uma explosão de revelação! A Nova Aliança é estabele-
cida no Ministério de Cristo. Em seguida vem o Pentecostes e a Igreja do
Novo Testamento se desenrola. Haverá, então, outra grande explosão de
revelação, quando o Senhor Jesus vier pela segunda vez. Assim, vemos
que tem havido um número de períodos da história, quando houve gran-
des expansões da revelação.
Passando para áreas problemáticas, o que é história? Especialmente, que
tipo de história temos na Bíblia? Algumas pessoas dizem que é apenas a
história de Israel como uma nação. Isso é verdade? A Bíblia só nos dá um
registro do que aconteceu ao povo étnico chamado Israel? Ou a Bíblia é
basicamente um registro das crenças das pessoas? Por exemplo, em que
Adão e Eva acreditavam quando Eva respondeu e disse: "Adquiri um varão
com o auxílio do SENHOR" e quando Adão chamou sua esposa, Eva, de
mãe dos seres humanos (Gn 3.20). É a Bíblia um registro de crenças ou a
Bíblia é basicamente apenas um registro de ideias religiosas distintas da-
queles que podem ter acreditado nelas? A Bíblia é uma história de Israel
como uma nação, uma história do povo crente ou uma história de crenças
religiosas? Ou é uma história da revelação? Isso está se aproximando. A
Bíblia dá-nos uma história do processo da revelação de Deus. Mas a Bíblia
também nos dá uma história de apropriação, uma história de como as
pessoas acreditavam ou não acreditavam.
Agora eu apelo a você: se for possível, pegue o esboço chamado “Sket-
ching God’s Revelation”. O que temos aqui é a história da apropriação. Na
parte superior, temos a revelação de Deus, que é verbal antes da queda e
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depois há a revelação verbal que está escrita na história. Deus continua a


realizar grandes atos quando ele fala ao seu povo. Existe uma ruptura en-
tre o Antigo e o Novo Testamento, mas todo o tempo em que Deus estava
agindo e falando, as pessoas estavam respondendo. Eles também estavam
se apropriando de sua revelação com fé e obediência, ou eles rejeitavam-
na. A Bíblia também inclui um registro de como as pessoas responderam e
se elas se apropriaram ou não. Essa apropriação nunca para porque a re-
velação de Deus ainda está aqui nas Escrituras. Na Bíblia há um registro
parcial de apropriação; há uma história da redenção, a história de como as
pessoas eram salvas ou perdidas. Há também a história do desenvolvi-
mento do registro escrito. Como a Bíblia foi escrita?
Assim, você pode olhar para a Bíblia a partir de seis ou sete pontos de
abordagens históricas. Temos que prestar atenção em como a Bíblia foi
escrita, no curso do tempo, como as pessoas responderam. No nosso lugar
agora, queremos enfatizar que a Bíblia nos dá a história de Deus se reve-
lando na história, no tempo, com seu povo. A Bíblia nos ensina que Deus
disse, como ele se revelou, porque ele fez isso e como isso se desenvolveu.
A relação do Antigo Testamento com o Novo Testamento continua a ser
uma outra pergunta desafiadora. Ladd, em sua introdução, mostrou que
você não pode separar o Antigo Testamento do Novo Testamento porque
Jesus estava completamente imerso no Antigo Testamento, como estava
João Batista. Ridderbos, em seu livro, The Coming of the Kingdom, enfati-
za fortemente que, para entender o Novo Testamento, você tem que en-
tender que as pessoas do Novo Testamento realmente conheciam o Anti-
go Testamento. Por causa disso, a relação entre os dois e a unidade dos
dois não pode de forma alguma ser negada. Nós falaremos mais sobre isso.
O último ponto no esboço é a questão do mitte. Há um tema central unifi-
cador na Bíblia? A palavra "mitte" é a palavra alemã para o meio, central,
e eu vou mostrar na próxima palestra que existem três temas básicos que
formam o núcleo da Bíblia — o Reino, o Pacto e o mediador. Esses três são
inseparáveis um do outro.
Finalmente, nós precisamos conversar sobre a praticidade da Teologia
Bíblica. Em seu livro, Vos diz que uma das coisas que realmente nos ajuda
é esta: Teologia Bíblica irá ajudá-lo a entender que você nunca pode sepa-
rar o que Deus disse do que Deus fez. VOU REPETIR: VOCÊ NUNCA PODE
SEPARAR O QUE DEUS DISSE DO QUE DEUS FEZ. Quando Deus disse algo,
ele o fez, mas ele raramente fez algo sem primeiro falar sobre isso. Vere-
mos mais sobre isso quando pudermos continuar.
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AULA II

Eu quero ler alguns versos das Escrituras ao começamos hoje.


No Salmo 93 Lemos: "Reina o SENHOR. Revestiu-se de majestade; de poder
se revestiu o SENHOR e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila (Sl 93.1
ARA)".
O Salmo 96 tem a mesma referência: "Reina o SENHOR (Sl 96.10 ARA)".
Vou me referir a algumas dessas passagens durante a aula, assim como 1
Timóteo 2.3-6: "Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o
qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhe-
cimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre
Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em res-
gate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos".
Nesta aula vamos lidar com alguns conceitos centrais das Escrituras, in-
cluindo os dois conceitos de "Rei" e "Mediador" que, definitivamente, são
dois conceitos centrais. Oremos.
Senhor, nosso Deus,
quando consideramos que tu te revelaste a nós,
para chegarmos ao coração da tua revelação, rogamos:
Abre nossos olhos.
Dá-nos compreensão ao coração e aceitação à nossa mente.
Agradecemos-te por esta oportunidade de estar juntos.
Deus, precisamos de ti.
Sustenta-nos, fortalece-nos e prepara-nos
para grandes oportunidades de serviço no futuro.
Em nome de Jesus.
Amém.
Referi-me brevemente a dois conceitos no final da última aula: Ao mitte e
ao sentido prático da Teologia Bíblica. Agora eu quero tomar esses concei-
tos e explicá-los. Lembre-se de que o termo mitte significa "um conceito
central, um conceito unificador, uma ideia que tece tudo junto".
Têm sido feitas muitas sugestões sobre qual é o conceito unificador cen-
tral que percorre as Escrituras. O Sr. Hasel dá mais explicações sobre isso
em seu livro (capítulo 4, páginas 77 a 103), mas vamos olhar agora diver-
sas tentativas de encontrar um conceito central.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 13

Sellin, um estudioso alemão, disse que o tema central das Escrituras é a


ideia de santidade. Quando você olha para o Pentateuco, você pode notar
como o conceito de santidade surge uma vez após outra. Então indo para
o final das Escrituras, no Novo Testamento, em 1Tessalonicenses 4.3 Le-
mos: "Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação". Isso é muito
importante. Não há dúvida de que a santidade, como uma virtude de Deus
e expectativa de Deus quanto a nós, seu povo redimido, na verdade é um
conceito importante. Deus quer um povo santo, porque ele é Santo. "Sede
Santos porque eu sou Santo". Esse, certamente, é um conceito importante,
mas seria o conceito unificador e integrante que unifica toda a Escritura?
Kohler sugere que o tema central seja a palavra "SENHOR", a palavra he-
braica Yahweh — o SENHOR, o Deus da aliança. Ele é o tema, não Elohim,
mas Deus o Todo-Poderoso, cujo nome é Yahweh.
Wildberger fala sobre o tema da eleição. Deus elege Abel e Sete e não
Caim; ele escolhe Sem e não seus irmãos, Abrão entre os muitos, em se-
guida, Judá e assim por diante. O princípio da eleição permeia toda a Es-
critura. Não vou discutir com o Sr. Wildberger. O tema da eleição certa-
mente existe. Mas seria o conceito unificador? Ao invés disso, eu o cha-
maria de um subtema importante.
Três outros estudiosos — Klein, um alemão; Bright, um presbiteriano
americano e Helberg, um estudioso da África do Sul — todos dizem que a
ideia de Reino é o conceito central. Bright tem um livro inteiro sobre isso:
“O Reino de Deus”. Helberg escreveu uma apostila de quatro volumes, ex-
plicando a ideia de Reino de um ponto de vista mais evangélico reformado
do que o de Bright.
Fohrer diz que os temas são governo e comunhão — o que une as Escritu-
ras é o governo de Deus e nós temos que estar em comunhão. Vriezen, um
estudioso da Holanda, inclinado para a neo-ortodoxia, afirma que o tema
central é Deus e o seu povo, Deus e a comunidade. Smend, outro estudioso
alemão, acredita ser Yahweh e Israel. Para ele, toda a Bíblia é sobre como
o Senhor da aliança fez uma aliança com Israel. Von Rad, em seu livro de
dois volumes e em seus comentários, diz não haver nenhum tema unifica-
dor. A Bíblia é toda uma série de confissões; dependendo do tempo e das
circunstâncias em que as pessoas viviam, enfatizaram coisas diferentes.
Não há nenhuma unidade na revelação de Deus.
Eichrodt diz que o tema é "Aliança". Ele acredita que a ideia de Aliança se
tornou predominante como o conceito unificador no pensamento de Isra-
el no Sinai quando o povo tinha fugido do Egito e disse "Deus deve real-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 14

mente gostar de nós. Olha o que ele fez por nós. Ele tem se relacionado
conosco de uma forma única e poderosa". Dali por diante, Israel pensava
de si mesmos como um povo da aliança, em especial relação com Deus.
Agora Hasel, a quem eu já me referi, diz: "Nenhum desses itens acima. Eles
são muito limitados quanto à sua referência. Eu quero enfatizar que Deus
é o conceito central nas Escrituras". Você vai descobrir que em seu resu-
mo na página 139. Ele diz, "se aceitamos que o conceito central é Deus.
Deus é o coração da Bíblia". O tema de Deus abrange a criação, abrange a
eleição, engloba a santidade. Engloba tudo.
Então você vê que há muitas sugestões diferentes e a discussão não para
por aí.
Eu quero propor a existência de um complexo de três temas, mas quero
dizer, desde o início, que entendo muito bem que o soberano Deus, que é o
Revelador e o Senhor de tudo, deva realmente ser mantido em primeiro
plano. Deus, o único soberano. Deus, o Santo. Deus, o que elege. A Bíblia é
o livro de Deus. A Bíblia, Antigo Testamento e Novo Testamento, é um li-
vro sobre o Deus Triúno. Não vou discutir isso com Hasel, mas quero sali-
entar que há três outros temas que permeiam as Escrituras do começo ao
fim, e estes são o Reino, a Aliança e o Mediador.
O Reino é a moldura que abrange tudo; a Aliança é o instrumento pelo
qual Deus governa o seu reino, salva o seu povo, e guia o seu povo; e o
Mediador é o agente de tudo isso.
No que se refere ao Reino de Deus, lembre-se de que eu li para você: "Rei-
na o SENHOR". Falaremos mais sobre isso. Eu também li para vocês que há
um Mediador que se coloca entre Deus e o homem. Há muito mais mensa-
gens que falam sobre esses temas.
Eu não penso ser muito útil tentar limitar a mensagem bíblica a uma úni-
ca palavra. Hasel diria: "Deus". Mas pode pensar em Deus nos três temas
principais: Seu Reino, Sua Aliança, Seu Mediador. Podemos também pen-
sar em seres humanos dentro desses três temas: fazemos parte do seu
Reino; somos o seu povo da Aliança; somos chamados a participar na obra
de mediação. Então esses três conceitos não excluem a comunidade como
um todo.
Eu quero, agora, me referir aos benefícios, ou a praticidade, de ver o tema
central das Escrituras. Deus — o soberano, Santo, que elege — que na cria-
ção estabeleceu seu reino e criou um meio administrativo para ele, indi-
cando o seu agente, o Mediador. Se você mantiver isso em mente quando
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 15

você passa nas Escrituras você vai entender cada vez mais facilmente o
que Deus estava dizendo e o que Deus estava fazendo. Eu mencionei na
aula anterior que palavra e ação nunca podem ser separadas. O que Deus
disse que faria, ele fez. Quando ele falou, aconteceu. O poder da sua pala-
vra é ilimitado. Às vezes, os resultados dessa palavra falada eram incom-
preensíveis para as pessoas que ouviam, mas depois, mais tarde, Deus ex-
plicava essa palavra e esse ato.
Quando você prega e ensina, é útil ter esses conceitos centrais em mente e
perguntar-se a si mesmo: "Como minha passagem particularmente se re-
laciona com esses três temas?". O mesmo se aplica quando você quer falar
de obter uma compreensão abrangente da unidade de toda a Bíblia. Von
Rad diz que não há nenhuma unidade, mas ele está errado. A Bíblia é uma
mensagem rica e unificada. Se você vir a Deus, o Soberano, com seu Reino,
sua Aliança e o Mediador, você verá que a Bíblia nos deu uma mensagem
unificada em todo o Antigo Testamento e Novo Testamento.
Olhando para esses temas unificadores centrais, podemos ver a relação
entre palavra e ação. Vemos também como podemos apreender a unidade
da Bíblia, mas esta tarefa também requer o uso de cada disciplina bíblica
que você possa imaginar. Eu sei que alguns alunos não gostam muito de
estudar hebraico e grego. Esses cursos introdutórios podem se tornar bas-
tante enfadonhos e monótonos. Nós, os professores, temos a difícil tarefa
de tornar interessante para os alunos o estudo da literatura e do aspecto
formal da Bíblia. Então há o trabalho tedioso de exegese de Provérbios e
exegese dos Profetas e de fazer uso do hebraico, grego e da história do
texto. Mas todas essas disciplinas são necessárias se quisermos compre-
ender a unidade da Bíblia e ver como as palavras e os atos de Deus estão
relacionados.
Fazer Teologia Bíblica corretamente, ver estes temas centrais e segui-los,
necessariamente levará você de volta à sua introdução. De volta ao he-
braico e grego. De volta para sua história. Isso é quando você começa a
perceber que a sua formação no seminário faz mesmo sentido. Eu acho
que a Teologia Bíblica, mais do que qualquer outro curso, fará isso por vo-
cê. E, finalmente, como já me referi, encontrar esse conceito de tema cen-
tral unificador nas Escrituras será um instrumento extremamente útil pa-
ra o seu ensino e pregação.
Quero contar a vocês sobre uma visita que fiz de volta para casa. Eu cresci
na Califórnia, e quando eu estava na 3ª série, meu pai se mudou com nossa
família para que pudesse nos colocar em uma escola cristã. Sempre que eu
volto àquela escola eles me pedem para ensinar a Bíblia na classe de Bí-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 16

blia. Dessa vez dei uma lição em Deuteronômio, e mostrei como Deutero-
nômio foi uma repetição do que Deus tinha feito com Adão, com Noé e
assim por diante. Havia um homem presente que tinha ensinado lá por 20
anos. Ele ouviu e tomou nota e da próxima vez que eu fui visitá-los ele
disse, "George, sempre lutei tentando preparar minhas aulas para os alu-
nos de Bíblia aqui no 7º, 8º e 9º anos. Aquelas duas horas que você passou
comigo, mostrando a unidade das Escrituras — o Reino, a Aliança e o Me-
diador — abriram minha mente. Agora estou animado para ensinar Bíblia,
quando antes era um problema". É por isso que estou dizendo para man-
ter a unidade das Escrituras claramente em mente sua cabeça. Veja seus
principais temas centrais. Veja como eles se desenvolvem. Vamos tentar
fazer isso neste curso.
REINO
Passemos agora a olhar para o Reino. O termo "Reino" se refere a um ou
mais desses quatro aspectos em um determinado texto: o rei, o reino, o
trono e o domínio. Muitas vezes o termo refere-se ao rei e isso é uma me-
tonímia. Ao invés de referir-se a todo o Reino, só o rei é apontado. Você
não pode ter um reino sem rei. Quando eu falo em "rei" você pensa em
reino, correto? No entanto, existem outros momentos em que a ênfase,
especialmente quando o verbo está lá, é no reino do rei. Sr. Ladd e Sr. Rid-
derbos (em seu livro The Coming of the Kingdom) enfatizam que Jesus
disse que o coração da ideia do reino é o reino de Deus desde o momento
da criação até a grande consumação na eternidade. Deus está ativo em seu
reino. O reino de Deus é o seu controle e direção de todos os eventos e os
aspectos da vida. Então, novamente, há momentos em que a referência é
ao trono, o centro da atividade. Às vezes, há uma referência a Jerusalém,
por exemplo. Jerusalém é apontada porque era o local do trono. O trono
era o coração do reino. A partir daí, o reino segue adiante a partir de
quem estava assentado no trono. Às vezes, Jerusalém é usada para se refe-
rir ao reino, o trono. Finalmente, é possível pensar em reino sem pensar
em domínio, aquilo sobre o que se exerce o reinado?
Lembro-me quando o rei Faruk foi destronado no Egito e fugiu para a Itá-
lia. Chamavam-lhe ainda de rei Faruk, mas ele não tinha nenhum trono.
Ele não exercia qualquer reinado e não havia nenhum domínio. O título
de "rei" foi só a lembrança do que ele tinha sido. Não. Para ser um rei, vo-
cê precisa ter um trono, você reinará e precisará ter algo sobre o que se
esteja reinando. A Bíblia fala muito sobre reino e sobre domínio.
Há muita discussão sobre o quão extenso é esse domínio. Quando Deus
começou a reinar sobre um domínio? Foi Israel seu primeiro domínio?
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 17

Não, eu já li os Salmos: O Senhor Reina. Ele reina sobre as nações. Ele reina
sobre a terra. Ele reina. Tudo é seu domínio. Desde o momento da criação
até agora, você e eu e cada um de nós somos parte do domínio de Deus.
Nem todas as pessoas respondem ao seu reinado, da mesma forma. Nós
entendemos o que é ter revoluções e ter grupos de pessoas que resistam à
autoridade. Mas o fato de que algumas pessoas não reconheçam o reinado
não significa que não façam parte desse domínio. O fato de que pessoas
não reconheçam a Deus, ou ao seu mediador, não significa que não este-
jam sob o reinado de Deus ou que não façam parte do seu domínio.
Agora eu gostaria de mencionar alguns termos bíblicos. Primeiramente, o
verbo malak (a grafia hebraica é mem-lamed-kaph). Para você que não co-
nhece Hebraico, m-a-l-a-k é o verbo hebraico que é traduzido por "rei-
nar", o termo hebraico melek é a palavra para "rei" e a palavra mamelakah
é o termo básico para "reino", embora não aparece muito frequentemen-
te.
Agora se você pegar a sua concordância (e gostaria de sugerir que você
pegue uma concordância hebraica primeiro) você encontrará páginas e
páginas de ocorrências desse verbo, do substantivo e de seus derivados. A
Bíblia simplesmente está cheia da ideia de rei e de reinado. Muitas vezes a
referência é a um pequeno reino ou ao Rei Davi ou ao rei Salomão, mas a
palavra também repetidamente se refere a Deus reinando.
Porque Deus Reina, Nabucodonosor pôde reinar e Ciro pôde reinar. Por-
que Deus Reina, Davi pôde reinar, e porque Deus Reina, o povo de Israel
foi para o exílio sob Nabucodonosor e voltou sob o rei Ciro.
Essa ideia de autoridade, exercida por meio de reino, seja em reinos hu-
manos, grandes ou pequenos, é uma ideia central na Bíblia. Nesse sentido
Klein, Bright e Helberg estão corretos ao dizer que a ideia de reino — o rei,
o reino, o trono, e o domínio — permeiam toda a Escritura. Se tivermos
uma boa noção de como Deus reina, então vamos começar a entender
também como a Bíblia pode falar das nações em seus reinos e porque seus
reis podem reinar. Tudo isso acontece sob o reino de Deus. O reino é um
conceito importante.
No Novo Testamento, temos muitas referências à basileia. Espero que to-
dos vocês conheçam bem essa palavra grega. A coisa que realmente me
intriga é quando pego teologias bíblicas do Novo Testamento, como a do
Sr. Ladd, e olho para sua primeira seção, e vejo que sua introdução é sobre
João Batista e a necessidade do reino. É assim que começa o Novo Testa-
mento: João veio pregando o Reino. As primeiras 120 ou 130 páginas do
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 18

livro do Sr. Ridderbos, o estudioso do Novo Testamento nos Países Baixos,


encontramos: o reino de Deus, o Deus do reino, o mistério do reino, o rei-
no da igreja, a ética do reino. Ridderbos enfatiza neste livro que o reino
chegou. O título é “A Vinda do Reino”, mas o segundo capítulo é "O reino
chegou", porque o mediador está presente. Foi assim que João Batista e
também Jesus começaram sua pregação.
Em Mateus 3.2, João pregou: "Arrependei-vos, porque está próximo o rei-
no dos céus". Então quando ele diz, "Eis o cordeiro de Deus", João estava
se referindo ao rei que veio para reinar e em seu reinado poderia servir
como o mediador redentor. Jesus iniciou sua pregação, de acordo com Ma-
teus 4.17: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus". O rei
está aqui. Seu reinado está, cada vez mais, sendo expresso no mundo. Ele
está reinando. "Fora com o Diabo!" E o que fizeram os demônios? Eles saí-
ram, porque Jesus é o rei.
Ele dizia a uma pessoa doente: "Levanta-te e anda". Como o enfermo faria
isso? Porque Jesus, o rei, a curou e deu poder a essa pessoa para se levan-
tar e andar. Jesus, o rei estava exercendo o seu reinado dentro do seu do-
mínio. Ele havia vindo do céu, mas seu trono está onde quer que esteja.
Aonde quer que ele venha, ele exerce o seu poder e seu reinado.
Abençoados sejam todos cujo coração é o trono do Senhor Jesus. Isso só
acontece quando nascemos de novo, quando somos convertidos.
Eu certamente vi como Deus usou meu próprio pai no processo de tornar
meu coração o seu trono. Vi também como Deus usou minha querida es-
posa para ajudar nossos filhos a conhecer o mediador e redentor e entre-
gar o coração para se tornar o trono de Jesus. Muitos de vocês são pais, e
tenho certeza de que muitos de vocês esperam ser pais. Podemos fazer
muito como mediadores da família para que o reino de Jesus se torne po-
deroso em nossa família e no coração de nossos filhos. Somente o Espírito
Santo pode mudar um coração, mas o Espírito Santo usa certamente pais,
professores e espero que mestres também.
O livro de atos termina com Paulo pregando o reino. Lucas resumiu a pre-
gação de Paulo desta forma, em Atos 28.28: "Tomai, pois, conhecimento de
que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão". A sal-
vação de Deus foi enviada aos gentios, não só aos judeus. Muitos judeus
não deram ouvidos, mas os gentios ouvirão.
Versos 30 e 31: "Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que
alugara, onde recebia todos que o procuravam, pregando o reino de Deus,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 19

e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas re-


ferentes ao Senhor Jesus Cristo". O mediador, o Redentor.
ALIANÇA
Quero lembrá-lo de que esta ideia do reino nunca pode ser separada do
conceito de aliança. O termo berith, a palavra hebraica para "aliança", é
usado 290 vezes na Bíblia. Fiquei espantado, alguns dias atrás quando um
jovem que está fazendo estudo especializado aqui comigo me disse que
antes de começar a estudar aqui no Covenant Seminary, nunca tinha ou-
vido falar do termo "aliança". Quando ele ouviu que esse termo ocorria
290 vezes na Bíblia, ele correu para casa e pegou a sua concordância, e lá
estava. Ele disse: "Como eu não vi isso em toda a minha vida? Eu tenho
mais de 30 anos e não sabia que Deus era um Deus de aliança". Embora o
termo "aliança" nunca seja definido na Bíblia. Você vai notar que no livro
de Vos, nas páginas 23-24 e 256-257, ele se esforça para definir o termo,
mas isso não é fácil.
As pessoas tentaram encontrar o significado do termo olhando sua etimo-
logia. Etimologia estuda a raiz do termo e de onde vem a palavra. Quero
chamar a atenção para três verbos. O verbo Bara significa “criar”. Na mai-
oria das vezes o verbo bara significa criar, mas também carrega um signi-
ficado de "cortar" e então alguns tentaram encontrar uma conexão com
Deus, criando uma relação por um corte de algum tipo de contrato. No
entanto, olhar para esse verbo não é muito útil na compreensão do signi-
ficado de "aliança". Esqueçam o bara — a menos que você esteja falando
sobre Deus criar o mundo. Não tem muito a ver com a aliança.
Outros sugerem que berith provém do verbo Hebraico barah, que é a pala-
vra comum para "comer". Você verá que, às vezes nas Escrituras, quando
pessoas fazem uma aliança, elas sentam-se juntas para comer. Uma alian-
ça ou um tratado poderia ser consumado na mesa. A mesa é um bom lugar
para sentar e conversar. Nós fazemos nossos acordos assim. Entendemos
um ao outro. Então, algumas pessoas pensam que a ideia da aliança vem
de comer juntos, mas o problema é que barah termina com a letra hebrai-
ca he e berith termina com taw. Sabemos que o taw indica uma forma plu-
ral, mas não traduzimos por "alianças". Assim barah tem um he e não um
taw e isso tem conduzido ao fato de que há um verbo que é usado muito
frequentemente. É o verbo, karath, “cortar uma aliança”. Em nossa leitura
geral a maioria de nós chega à conclusão, pelo menos porque essa foi a
impressão que recebemos, de que uma aliança foi sempre cortada. Quan-
do um pacto foi feito, foi feito um corte.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 20

Em Gênesis 15, você tem a cerimônia semítica onde animais foram corta-
dos ao meio. A propósito, os pássaros não eram cortados ao meio. Tiveram
suas gargantas cortadas e cada um era colocado de um lado, mas o novi-
lho era cortado ao meio e depois as duas partes contratantes passavam
entre os animais cortados, eles acham que uma aliança era basicamente
um tratado com base nos amimais cortados. No entanto, o problema com
essa ideia é que não tem forte apoio etimológico.
Vamos olhar o verbo kum — "levantar, estabelecer". Você sabia que esse
verbo é usado, sobretudo na Bíblia, para se referir a fazer aliança? Dum-
brell assinala que quando ele é usado na forma positiva hiphil, o termo
significa "continuar". A ideia é a de continuar com alguém ou manter al-
go. Não há dúvida que o verbo karath é frequentemente usado quando há
alguma atividade pactuante, como em Gênesis 15. Em Gênesis 17, no en-
tanto, encontramos dois outros verbos. Gênesis 17 é frequentemente con-
siderada a passagem clássica da aliança de Deus com Abraão. Lá você en-
contrar o verbo, nathan "dar." A ideia de um presente vem daí. "Dou-te
minha aliança, Abraão". Então o verbo seguinte é usado: "Minha aliança
haya (é, existe)." Uma vez que eu a dou, ela existe com você. Depois conti-
nua a dizer que haverá um sinal da aliança: você deve circuncidar. Ou seja,
quando a ideia de karath é usada, porque karath normalmente é usado
quando há um derramamento de sangue, ou quando um novo elemento é
acrescentado.
Mas em seguida outro verbo é usado — zakar, “lembrar”, como nos últi-
mos poucos versos de Êxodo 2, quando Deus se lembra do que ele estabe-
leceu e o que ele está mantendo.
Outro verbo usado é shamar, Deus cumpre. Aliás, incidentalmente é o ver-
bo usado para que as pessoas sejam obedientes, guardem, sustentem,
mantenham e obedeçam a aliança que Deus fez.
Mais um verbo que achamos muito interessante no caso de Davi, é sum.
Sum significa “estabelecer”. Encontramos o verbo sum nos primeiros ver-
sos de 2 Samuel 23, "Deus estabeleceu comigo uma aliança eterna". Esse
mesmo verbo é usado para falar sobre as bases estabelecidas para edifí-
cios, como kum. Se algo está firmemente estabelecido, os verbos kum e
sum são ambos usados.
Agora, quando você olha para todos esses verbos diferentes, você começa
a perceber – espero – que fazer uma aliança e manter uma aliança tinham
atividades muito ricas envolvidas. Deus, o rei, presta atenção às diversas
situações históricas e ao contexto em que Ele veio ao seu povo e fez uma
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 21

aliança com ele. Ele usa termos diferentes para enfatizar diferentes nuan-
ces. Novamente, quero enfatizar que você não deve desprezar o seu estu-
do de hebraico e grego para entender esses conceitos básicos.
O termo que eu acredito ser basicamente a raiz e o coração de toda a ideia
de aliança vem do mundo semítico geral. Ele está expresso mais clara-
mente na língua Assíria. Birtu é o termo que significa "um vínculo, um re-
lacionamento". Deus estabeleceu um relacionamento que está tão firme-
mente arraigado no próprio ser e palavra e no caráter de Deus que é um
relacionamento inquebrável. É um vínculo inquebrável, da maneira como
um casamento deve ser. Um casamento é uma aliança estabelecida por
Deus que deve refletir o relacionamento inquebrável de Deus conosco.
No mundo dos humanos, alianças são quebradas: alianças de negócios,
alianças sociais, alianças políticas. Do ponto de vista de Deus, no entanto,
a aliança nunca é quebrada depois que o vínculo é estabelecido. Isso pode
resultar em maldições sobre os desobedientes, mas, para aqueles que res-
pondem com fé, é vida eterna, porque Deus não quebra relacionamentos.
Ele nos mantém ligados a si próprio. Essa aliança pode ser traduzida de
diferentes maneiras: "compacta", "liga", etc.
Podemos pensar em diferentes aspectos da aliança também. Podemos fa-
lar sobre aliança como "unilateral". Todas as alianças de Deus são unilate-
rais. Deus é o único que realiza. No entanto, existem algumas alianças na
Bíblia que são "bilaterais", com duas partes iguais. No casamento, temos
uma aliança bilateral. Quando Hirão e Salomão fizeram uma aliança foi
bilateral.
Existem dois outros termos que são muito importantes. Lidaremos com
eles durante essas aulas do curso, são os termos "condicionais" e "contin-
genciais".
A aliança é condicional? "Se você fizer isso, então aquilo vai acontecer".
Ou é contingencial? "Quando você fizer isso, acontece aquilo".
Há uma grande diferença entre a condicionalidade e contingencialidade.
Se alguém insiste no aspecto jurídico condicional, então, dessa maneira,
pode se dizer que as pessoas podem fazer um acordo com Deus. Em Gêne-
sis 28.22 quando Jacó diz a Yahweh: de tudo quanto me concederes cer-
tamente eu te darei o dízimo. Ele está dizendo "se Deus fizer isso, então eu
farei aquilo" (fazer uma aliança com Deus) ou ele diz "quando Deus me
abençoar, eu lhe darei o dízimo"? Há uma grande diferença entre a condi-
cionalidade e contingencialidade. Deus nos pede para responder a ele com
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula II 22

obediência. Quando nós obedecemos, nós recebemos a bênção; quando


nós desobedecemos, recebemos a maldição.
Vamos falar sobre os elementos da aliança (festas, obrigações, promessas)
em alguma medida. Leiam o livro de Meredith Kline. Sugiro que você leia
Mendenhall e Kline sobre isso.
Vamos falar sobre os diferentes elementos da Aliança desde o início, en-
tão eu menciono esses autores para que você saiba como eles trabalham
com o assunto. Mas como em todos os casos, reformados estudiosos nem
sempre concordam quanto à melhor forma de definir o termo "Aliança" e
como entendê-lo.
Quero chamar a atenção para um artigo do Dr. O. Palmer Robertson, no
Westminster Theological Journal, Volume 40, #1, na edição do outono de
1977. Nesse artigo, Robertson compara a visão da Aliança de John Murray,
o grande teólogo de Westminster, com a de Meredith Kline, o grande teó-
logo do Antigo Testamento e oferece sua própria visão. Você verá que há
um número de diferenças, e, se ele tivesse prestado atenção ao que eu te-
nho dito e escrito, ele teria uma quarta visão para falar sobre ela. Eu acre-
dito que uma aliança é um vínculo de relacionamento que Deus estabele-
ceu. Você ainda vai ouvir mais sobre isso.
MEDIADOR
O cerne disso tudo está no terceiro conceito, o de mediador. Vamos come-
çar com isso na próxima aula porque Adão e Eva foram os primeiros me-
diadores da aliança dentro do reino. O mediador seguinte foi a semente da
mulher, depois reis e sacerdotes e profetas e depois o segundo Adão: me-
diador completo e perfeito da aliança: o Cristo.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 23

AULA III
CRIAÇÃO E ALIANÇA
Começamos a nossa aula de hoje lendo alguns versículos. O primeiro é do
Salmo 33: "Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exérci-
to deles (Sl 33.6 ARA)". Isaías 40.25-26 fala da criação: "A quem, pois, me com-
parareis para que eu lhe seja igual? – diz o Santo. Levantai ao alto os olhos e vede.
Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem
contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em
poder, nem uma só vem a faltar". Em seguida, vejamos Romanos 1.20: "Porque
os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua pró-
pria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo
percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, in-
desculpáveis". Essas e muitas outras passagens falam da criação, nosso te-
ma de hoje. Vamos orar:
Senhor, nosso Deus,
hoje consideramos a tua grande e importante obra.
A maravilha da tua atividade criadora é muito incompreendida;
é discutida em todos os momentos,
mas a tua criação ainda é uma maravilha para ser contemplada.
Senhor Deus, abra nossa mente
para compreender de forma mais profunda
como é importante te reconhecer como o criador
e como aquele que mantém tudo o que existe.
Abençoa-nos, oramos em nome de Jesus. Amém.

Quero começar referindo-me às páginas 19 a 44 da Teologia Bíblica, onde


Gerardus Vos escreve sobre o mapeamento da revelação. Ele fala de uma
revelação pré-redentiva. Antes da redenção ser anunciada, Deus estava se
revelando. Cada vez que ele falava e chamava alguma coisa à existência,
ele estava se revelando pela palavra, porque ele falava e agia e porque ca-
da ato seguia a palavra falada. As palavras faladas e os atos resultantes
foram, no tempo, registrados pelo próprio Moisés.
O ponto que quero enfatizar é que Vos estava correto ao fazer uma distin-
ção entre revelação pré-redentiva e revelação redentiva. Revelação pré-
redentiva ocorreu antes da queda. Era uma revelação indireta naquela
época porque não era só pela palavra, mas muito dessa revelação foi por
meio de atos. O Dr. Vos diz que essa revelação foi indireta, naquilo que
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 24

trouxe a humanidade a existência como parte da criação, como Deus é


revelado a nós pela natureza. Como Paulo diz em Romanos 1.20: Porque os
atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria
divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebi-
dos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpá-
veis. Ser parte da criação atesta ao coração de alguém que existe um Deus
criador, que é infinito e poderoso. Essa é uma revelação indireta por causa
da maneira como fomos criados parte do universo. No entanto, há tam-
bém uma revelação pré-redentiva direta: Deus falou diretamente a Adão e
Eva, quando ele lhes deu o mandato cultural e quando lhes falou sobre a
possibilidade da morte entrar no mundo.
Após a revelação pré-redentiva, vem a redentiva, que começa em Gênesis
3.9 quando Deus busca por Adão, perguntando-lhe: "Onde estás?" É aí que
começa a revelação redentiva com palavras. Começa com uma pergunta
de busca. Nova revelação é dada dessa vez. Ela nunca pode ser separada da
revelação pré-redentiva porque a revelação pré-redentiva nos mostra o
contexto em que da revelação redentiva. Sem a revelação pré-redentiva
não haveria nenhum quadro em que a redentiva pudesse existir e ter sig-
nificado. A revelação redentiva é uma revelação de restauração. Ela nos
diz que fomos restaurados para um propósito e, nesse sentido, a revelação
pré-redentiva nos dá a ordem original de Deus, o propósito e o plano para
a humanidade e o cosmos. Isso é dado em forma germinal, mas está lá.
A revelação redentiva, também, vem através de atos. Deus vem e fala com
a humanidade, mas ele também se revela naquilo que fez ao lidar com Sa-
tanás e com a semente de Satanás, ao lidar com Caim. A partir desse mo-
mento, vemos Deus falando e agindo, e no tempo próprio, isso foi regis-
trado também. Essa revelação redentiva fala desde o início de uma semen-
te da qual haveria de vir o mediador. Ele fala da graça de Deus. A palavra
"graça", chen em Hebraico, não seja usada, mas Deus vem à humanidade
quando a humanidade é indigna. Essa é uma revelação da graça, mesmo
que o termo não seja usado. É uma revelação da misericórdia. Misericór-
dia é o amor pelos miseráveis e aqui Deus mostra seu amor para com os
miseráveis. Essa é uma palavra de redenção, embora a justiça também seja
revelada aqui e uma sentença seja pronunciada. Isso resume o que quero
dizer sobre revelação pré-redentiva e revelação redentiva.
Agora vamos ao segundo ponto:
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 25

COMPREENDENDO A CRIAÇÃO.
A primeira coisa que quero enfatizar é que eu não gosto da palavra "pró-
logo" como algumas pessoas a usam para denominar Gênesis 1 e 2 e até
mesmo para Gênesis 1 a 11. Dão a entender que a revelação real começou
em Gênesis 12 com Abraão ou mesmo em Êxodo. Eichrodt e outros diriam:
tudo o mais é simplesmente prólogo, uma palavra antes.
Da mesma forma, eu não gosto de citar João 1.1-18 como um prólogo tam-
bém, porque o Redentor é identificado tão especifica e claramente como o
criador, o doador da luz, a revelação da graça e da verdade. Isso não é
apenas um prólogo. Isso é uma identificação da pessoa de quem muito se-
rá dito. Da mesma forma, Gênesis 1 e 2 são fundamentais para a compre-
ensão das Escrituras, porque nos dão o contexto do reino e o quadro den-
tro do qual tudo o que é revelado nas Escrituras ocorre.
Deixem-me dar alguns exemplos das Escrituras. Na passagem de Isaías 40,
que acabei de ler, Isaías está falando sobre o fato definitivo de que Deus
vai trazer Israel de volta do exílio. O grande Império Babilônico e o Impé-
rio Assírio parecem invencíveis. Mas, são simplesmente nações sob o po-
der do Criador: Deus. Entender a doutrina da criação dá um senso do
grande poder, da soberania e da capacidade de Deus para controlar tudo.
Se ele é capaz de criar e pesar a terra e conhecer cada partícula de poeira,
quanto mais restaurar seu povo do exílio?
Sim, Isaías apela para a doutrina da criação no capítulo 40 quando intro-
duz o grande plano de redenção que Deus está iniciando para trazer o po-
vo do exílio. Encontramos outro exemplo na vida do próprio Jesus. Em
Mateus 13.15 e Mateus 19.4-6, Jesus fala da criação no contexto de uma
discussão sobre casamento e pecaminosidade do divórcio. Ele diz clara-
mente: "no início não foi assim". Quando ele fala a alguns sobre as ques-
tões básicas da vida, Jesus se refere à criação.
Paulo faz o mesmo em sua pregação. Em Atos 17.24-26, Paulo está pregan-
do no Areópago e diz aos gregos que desde o início, Deus criou a humani-
dade de uma única pessoa. Poderia me referir também a João 1.1-3 onde
Cristo é apresentado como a Palavra que estava com o Pai e que fez todas
as coisas. Eu já li com vocês Romanos 1.20 e 25 e poderia mencionar tam-
bém Efésios 1.4 e Hebreus 4.3. Essas são apenas algumas das muitas passa-
gens em toda a Bíblia que nos remetem ao grande evento da criação: que
Deus, o criador, trouxe, nesse grande contexto, o seu reino cósmico em
que a humanidade vive.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 26

Ao falar sobre o fato da criação, eu quero gastar tempo em quatro grandes


temas: os atos de criação propriamente ditos, os agentes da criação, o ca-
ráter desses atos e a pessoa do criador. Primeiro, vamos tratar dos atos de
criação.
Penso ser útil mencionar um folheto intitulado: "Atos de Criação e Refe-
rências de Tempo". Esse folheto lista 11 atos distintos que são registrados
em Gênesis 1.1-2.4.
1º ATO
O primeiro grande ato é registrado em Gênesis 1.1: "No princípio, criou Deus
os céus e a terra". Ele criou tudo no princípio. Isso é quando tudo teve seu
início. Tudo era sem forma e vazio.
2º ATO
Depois disso, o segundo ato ocorreu no que é referido como o primeiro
dia. Deus falou e veio à existência, nos versos 2 e 3. Deus viu, yara — esse
verbo é repetido várias vezes nessa passagem. Deus continuou observan-
do para ver que sua palavra realmente trouxe à existência o que ele que-
ria. E então temos o verbo "separar", que é repetido várias vezes na pas-
sagem. Depois disso, temos o verbo, kara, "chamar" — Deus deu nome às
coisas. Ele sabia exatamente que nome dar a cada uma das várias coisas
que ele trouxe à existência quando separou e refinou sua criação. Assim,
temos visto que o segundo ato de Deus foi a separação da luz das trevas no
primeiro dia.
3º ATO
O terceiro ato é registrado nos versos 6-8. Esta passagem usa vários ver-
bos, mas o verbo usado antes é asah, "fazer". E então o verbo "separar"
ocorre novamente também. Deus separou o céu, o firmamento, (rakia), da
terra (eretz). Esse foi o segundo dia.
4º ATO
O quarto ato de Deus ocorre nos versos 9 e 10. Ajuntem-se as águas debai-
xo dos céus, kavah, num só lugar. Esse verbo, kavah, é um verbo único,
significando torcer algo ou dobrar algo. A ideia é que as águas devem ser
inseparavelmente ligadas.
Depois disso, mais uma vez temos o verbo "ver", mas, neste caso, ele ocor-
re na voz passiva. "Apareça a porção seca". O quarto ato no terceiro dia é
que as águas são reunidas e a terra aparece.
5º ATO
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 27

Observe, no entanto, que outro ato ocorreu no terceiro dia, de acordo com
a revelação aqui. Deus ordenou que a terra deveria produzir vegetação,
dese. O verbo, dasa, é "produzir" ou "trazer à existência". A vegetação veio
à existência da terra que havia aparecido. Isso significa que, quando Deus
criou a terra, o potencial de vegetação foi incorporado dentro dela. Deus a
chama à existência e ela vem no segundo ato do terceiro dia, que é essen-
cialmente o quinto ato de criação.
6º ATO
No quarto dia, versos 14 a 19, temos vários verbos. O que especialmente se
destaca para mim é nathan, "estabelecer" e "dar”. Deus estabelece os
grandes luzeiros no céu. Ele os nomeou. O texto se refere a Deus, tendo
feito os grandes luzeiros, mas a ênfase está em seus deveres, em seu lugar,
no que deviam fazer. Este é o sexto ato de criação de Deus, e o quarto dia.
7º E 8º ATOS
O sétimo ato de criação de Deus é registrado nos versos 20 e 21, onde ve-
mos outro verbo, sharatz, "Povoem-se as águas de enxames de seres viventes".
Observe que o texto não diz que Deus trouxe à existência uma nova reali-
dade de vida. Parece que ela já estava presente na água.
Um segundo ato no quinto dia foi trazer à existência as criaturas do ar. Há
um paralelismo — "Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as
aves sobre a terra". Depois disso Deus diz a mesma coisa sobre a vida na
água e a vida na atmosfera: "Deus os abençoou" barak. Este é o mesmo
verbo que ele usou quando criou o homem e a mulher e disse "Crescei e
multiplicai". Deus abençoou essas criaturas, dando-lhes o potencial, o po-
der, a liberdade e o prazer de reproduzir. Dessa forma, o peixe pode ter
prazer e os pássaros podem ter prazer na reprodução, sob a orientação e
direção de Deus: multiplicai e enchei as águas e enchei o céu, assim como
um homem e uma mulher que vivam juntos, sendo uma só carne, podem
ter prazer na reprodução e em encher o mundo com a sua descendência.
Esses são os atos sétimo e oitavo, no quinto dia.
9º E 10º ATOS
No sexto dia, vemos mais alguns verbos. Temos o verbo yatza, "produzir"
e temos a palavra asah, "fazer". Então, há referência às criaturas na terra,
às grandes criaturas, e pela segunda vez, o verbo, bara, "criar”, é usado
nessa passagem: o vemos no verso 1 e verso 25 onde fala sobre os animais.
O verbo bara também é usado quando se fala da criação da humanidade.
Este verbo bara, criar do nada, ocorre apenas três vezes: para a criação de
tudo no início, para a criação das feras do campo e para a criação da hu-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 28

manidade. Observe também que o nono ato de Deus inclui todas as criatu-
ras da terra e ocorreu no sexto dia, junto com o seu décimo ato, quando
fez os seres humanos, macho e fêmea, e disse-lhes para governar, para se
multiplicar e para dominar a terra. Tudo isso é parte do ato décimo no
sexto dia.
11º ATO
No capítulo 2, vemos os verbos, kalah, "completar" shavat, "descansar" e
kadesh, "santificar". Este é o décimo primeiro ato, no sétimo dia.
Assim, vemos que há, de fato, 11 atos de criação. Estes atos são apresenta-
dos como o primeiro ocorrendo antes que houvesse dia e, então, mais dez
atos de criação ocorrem dentro de um período em que o texto se refere
como sete dias. Isso tem levado algumas pessoas a falar de um quadro ou
um quadro literário de um Credo, mas eu não uso esse tipo de linguagem.
Eu prefiro olhar para o que diz o texto, e o texto diz que Deus fez uma
obra tão magnífica, que não há como descrevê-la com um verbo.
A criação do mundo não pode ser descrita como um simples ato. Pelo con-
trário, foi um processo de separação, dividindo, formando, atribuindo,
abençoando, especificando propósitos, etc. Deus trouxe o universo a exis-
tência e em seguida ele foi terminado, kalah, completado, concluído. Esse
é o grande fato teológico de Gênesis 1 e 2: que Deus trouxe o universo à
existência de uma forma estupenda, de uma forma que é quase impossível
descrever literalmente em um determinado período de tempo referido
como sete dias de criação. Deus trouxe tudo à existência.
Não vou discutir com os cientistas. Peço a eles que me escutem quando
quiserem que eu os escute também. Você tem que ouvir os cientistas, mas
você não precisa acreditar sempre neles. Você sempre tem que indicar os
fatos bíblicos de modo a que os cientistas ouçam e creiam em você, por-
que você está tentando estabelecer a Palavra de Deus diretamente. A pa-
lavra sobre criação não nos vem indiretamente, mas diretamente da pági-
na escrita, em Gênesis 1 e 2.
Quero enfatizar: esses atos de criação são fundamentais para a compreen-
são do que Deus fez, do que Deus faz e do que Deus vai continuar a fazer.
OS AGENTES DA CRIAÇÃO
Quem são os agentes da criação? Gênesis 1 indica que há um agente triplo.
A Bíblia fala de Deus. No Antigo Testamento não vemos ainda a palavra
"Pai", mas, mais tarde, lemos sobre Deus o Pai, criador do céu e da terra.
Lemos também no Salmo 33.6: "Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo so-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 29

pro de sua boca, o exército deles", e João 1 nos diz que essa palavra é, na ver-
dade, a segunda pessoa da Trindade.
A segunda pessoa esteve definitivamente envolvida no ato da criação. Ele
era o grande agente criador e formador. Quando o Pai falou, o Filho pro-
duziu.
O Espírito, o ruach, esteve presente na criação também. Há aqueles que
dizem que este ruach que lemos no relato de Gênesis foi apenas um vento,
mas isso está errado. Foi mais que um vento. Foi o Espírito, como uma ga-
linha chocando seus filhotes. No Salmo 104.30 Lemos: "Envias o teu Espírito,
eles são criados, e, assim, renovas a face da terra".
O espírito estava agindo desde o início, e ele continuou a agir durante to-
do o período de criação até o presente momento. Ele sempre vai estar
ocupado refinando, embelezando e atuando como o agente vivificante
dentro da criação. Gênesis 2 nos diz que Deus soprou no homem o fôlego
da vida. Esse foi um ato do Espírito Santo, dando vida única. O Espírito deu
caráter real ao ato de bara, trazendo à existência, do nada, algo novo, pelo
ato do Deus infinito. Assim, vemos que há três agentes na criação. O Pai, o
Filho e o Espírito Santo estão todos ativos na obra da criação.
O CARÁTER DOS ATOS DA CRIAÇÃO
Passemos agora dos agentes da criação para o caráter dos atos de criação.
Eu gostaria de gastar uma aula inteira nesse tema, e o ponto que eu gosta-
ria de destacar é: Se você quer ser uma pessoa criativa, aqui está um bom
padrão a seguir. Os atos criadores de Deus são um bom padrão para qual-
quer tipo de criatividade — se você quer ser um erudito criativo, produ-
zindo um teste, ou um estudante criativo escrevendo um trabalho, mari-
do, ou pai criativo: Em primeiro lugar, observe que estes atos têm uma
qualidade de autoridade ou de mandamento. O discurso de Deus era auto-
ritativo. Essa não é uma autoridade bruta, mas Deus falou e tudo o que ele
mandou veio existência porque ele é a única grande autoridade. Com ele
está toda a autoridade, e ele é quem ordena e comanda todas as coisas.
Em segundo lugar, tudo o que ele fez foi ordenado, no sentido de que tudo
veio na ordem correta. Deus não mandou que os peixes viessem à existên-
cia no primeiro dia. Pelo contrário, há um padrão, um desenvolvimento,
uma sucessão. As primeiras coisas vêm primeiro, as segundas coisas vêm
em seguida e então as terceiras e quartas coisas. Houve boa organização e
bom desenvolvimento.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 30

Não foi apenas dirigido da forma que já me referi, mas foi dirigido especi-
ficamente para o fim que Deus desejou. Por exemplo, no quarto dia, Deus
designou o sol, a lua e as estrelas para governar o dia, a noite, o tempo, as
estações e os anos. No sexto dia Deus disse que os animais e as pessoas
fossem frutíferos, multiplicassem e enchessem a terra. Deus deu direção
específica. Ele disse o que ele queria. Finalmente, Deus foi muito produti-
vo. Cada um desses atos foi produtivo. Observe que o registro nos diz que
cada vez que Deus disse alguma coisa, algo aconteceu: o que ele quis foi
produzido.
E então temos aquela palavra hebraica tov, "bom". A cada passo, Deus
olhava e via que o que ele tinha feito era bom. Isso significa "perfeito",
que não havia nada mais a ser feito? Não! "Bom" pode ter esse significado
em alguns contextos, mas tov, palavra hebraica, significa que algo satisfaz
o padrão que foi definido para aquilo. Cada dia Deus foi capaz de criar, di-
recionar, estabelecer um lugar, trazer à existência, exatamente o que ele
queria. Ele olhou e disse, "Isso é o que eu queria" e declarou ser bom.
Aprendi de Deus a esse respeito. Como pai de oito filhos, quando eu pedia
meus filhos para fazer alguma coisa, eu aprendi que conseguiria levá-los a
fazer muito mais facilmente na próxima vez se eu olhasse o que tinham
feito e dissesse: "bom", se estivesse bom. Às vezes, eu tinha que dizer
"muito bem" e às vezes, eu tinha que dizer, "vamos tentar de novo". Cla-
ro, Deus nunca teve que tentar novamente. Ele é um Pai perfeito. , Eu não
sou um pai perfeito, mas aprendi muito com o modo de Deus agir, o pai da
criação, sobre como reconhecer que as coisas ficaram boas. Deus sempre
fez exatamente o que ele quis, da forma que ele quis, obedientemente ar-
ranjado e bom. Além disso, em Gênesis 2 encontramos a palavra kalah,
"completou". Deus criou tudo o que ele queria e ele completou.
Tudo que Deus planejou para o cosmos estava presente pelo menos na po-
tencialidade ou em forma germinal. Todos os materiais — todos esses
elementos diferentes que temos nas nossas tabelas de química — estavam
lá. Todas as diferentes variedades de vida que podemos trazer através da
reprodução e hibridação já estavam presentes. Não estava necessariamen-
te tudo desenvolvido em toda a extensão, mas estava lá. Isso é o que signi-
fica dizer kalah — completou. Não há mais uma criação no sentido de uma
ordem verbal. Nesse sentido Deus não está mais criando; a criação está
completa.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 31

O CARÁTER DO CRIADOR
Vamos passar do caráter dos atos para o caráter do Criador. Não encon-
tramos a palavra "sábio" em Gênesis 1 e 2, mas do restante das Escrituras,
sabemos que o criador é sábio. O que entendemos pela palavra "sábio"?
Vamos nos referir a isso muitas vezes.
Dou outro exemplo de paternidade. Como pai, eu aprendi o que era sabe-
doria e o que era tolice. Quando os filhos estavam com problemas, se eu
pudesse descobrir quem era o responsável por tudo, o que tinha feito,
quando tinha feito, por que fez e onde fez então eu geralmente sabia co-
mo lidar com aquilo. Primeiramente eu tinha que responder essas cinco
perguntas: quem, o quê, onde, o por quê e quando. Isso é sabedoria, colo-
car tudo junto. Deus é sábio e a sabedoria de Deus é revelada através da
criação. Ele sabia exatamente como fazer tudo. Ele sabia "como", porque
ele sabia o "quem", o "quê", o "quando", o "onde" e o "por quê". Essa é a
sabedoria de Deus.
Na criação, vemos a sabedoria de Deus, mas também vemos sua santidade.
O Novo Testamento também nos fala sobre a santidade de Deus. O que en-
tendemos por santidade? A santidade de Deus significa que Deus é total-
mente separado da criação. Isso não significa que ele não se envolva com
a sua criação, mas que aquilo que ele criou é totalmente diferente do que
ele mesmo é. Ele não fez o universo como uma parte de si mesmo e nós
não somos apenas ecos do divino. Nós somos produtos do divino, mas não
algumas faíscas no sentido de que temos a divindade de Deus dentro de
nós. Deus permaneceu santo quando ele criou. Mesmo tendo estabelecido
uma relação estreita entre o que fez com o que ele é, ele manteve-se sepa-
rado e distinto de tudo o que criou. Ele manteve-se puro e santo. Isso não
quer dizer que o que ele criou era impuro, mas que ele de nenhuma forma
tornou-se finito ou limitado em seu poder. Em sua criação, ele permane-
ceu o grande soberano SENHOR.
Em adição à sabedoria e à santidade de Deus, a criação nos mostra o amor
de Deus. João 3.16 diz, "Porque Deus amou o cosmos", o mundo todo. Ago-
ra, algumas pessoas podem limitar isso aos pecadores, mas acho que João
está nos dizendo que Deus amou todo o cosmos, e ele tem amado isso des-
de o dia em que ele criou. Ele fez isso como um ato de amor. Na criação,
podemos ver o amor de Deus, no sentido de Deus dar de si mesmo. Deus se
dá à sua criação como alguém cujas mãos e braços são estendidos para
manter o universo dentro de seus cuidados. Deus é um Deus de comu-
nhão. Sua comunhão era com o Filho e com Espírito, mas assim que ele
criou homem e a mulher, ele passou a conversar com eles e lhes dizer o
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 32

que fazer. Todos os dias ele vem a eles na viração do dia e tem comunhão
com eles. Deus está envolvido com a sua criação, e ele está bem satisfeito.
Ele viu que era bom. Qualquer coisa que cumpre seus propósitos faz Deus
sorrir. Espero que Deus esteja sorrindo para nós agora. Espero que cum-
pramos seus propósitos para nós.
Penso que muitas vezes quando me sento à mesa, quando saio para cuidar
da minha horta, ou quando tento ser um avô para meus netos. Eu estou
fazendo Deus sorrir? Ele realmente se alegra quando os propósitos são
cumpridos. Como um Deus amoroso, soberano, santo, ele é um Deus sorri-
dente. Quando ele falou e quando ele fez, ele sorriu, dizendo: "Isso é exa-
tamente o que eu queria. Isso é bom." Ele também é um Deus de manuten-
ção. O que ele criou em um dia, ele manteve para que pudesse prosseguir
para o dia seguinte.
Quando você pensa sobre tudo isso, tenho certeza de que pode enriquecer
sua mente e seu entendimento sobre o que Deus é, considerando o que
Deus ele fez e que, como Deus criador, ele é também Deus pai. As Escritu-
ras, nos revelam isso de forma germinal em Gênesis 1 e 2, mas, então,
além disso, em toda a Bíblia Deus revela-nos como ele — o grande Trino
Deus Criador — é um Pai. Ele é o Pai da criação e o seu Pai e o meu Pai. Ele
é o Senhor, mas ele é amoroso, sábio e santo e nunca vai nos deixar ou nos
abandonar.
Desse ponto de vista, recebo pelo menos o grande conforto de saber que
Deus é meu Criador-Pai, como recebo do fato de que Jesus é meu Salva-
dor-Senhor. Essas duas coisas não podem ser separadas: é maravilhoso
saber que Jesus é meu Senhor e meu Salvador, mas como um salvo, eu te-
nho uma função na criação. E meu Pai está lá, guiando, dirigindo e contro-
lando tudo de acordo com o plano que tinha quando fez todas as coisas.
IMAGEM E SEMELHANÇA
Precisamos gastar algum tempo na discussão da criação de machos e fê-
meas. Em Gênesis 1.26, vemos o conselho divino — "façamos". Isso significa
que não era apenas o Pai, mas que o Filho e o Espírito estavam envolvidos
também.
Há alguns que dizem que este "façamos" refere-se a Deus falando com os
seus anjos. Isso, para mim, é bobagem, porque os anjos não são agentes da
criação. É por isso que eu indiquei os agentes da criação antes: o Pai, o Fi-
lho e o Espírito. O Pai, a Palavra e o Ruah.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 33

Esse é o significado desse plural "façamos" o homem, Adam e a humanida-


de. Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Em outros cursos,
você poderá trabalhar extensamente o conceito de "imagem" e "seme-
lhança". Aqui, gostaria apenas de salientar que a ideia de imagem ou se-
melhança, antes de tudo, indica uma similaridade. Podemos ter ideia de
como Deus é olhando para você, porque você é feito à sua semelhança,
apesar dele não ter olhos, boca, ouvidos ou mãos. Deus está presente em
todos os lugares. Há algo de muito pessoal sobre Deus. Nós temos o grande
privilégio de ser como Deus se nascermos de novo, e Cristo for verdadei-
ramente o Senhor do nosso coração, então, na verdade, podemos mais que
nunca refletir o fato de que somos como Deus. Não somos iguais a Deus,
mas ele nos fez à sua semelhança.
Ser feito à semelhança de Deus também indica que somos parte da sua
família, o que significa que compartilhamos de uma forma única e miste-
riosa de amor, de vida e da atividade de Deus. Meus filhos compartilham
da minha família, assim como eu compartilhei da família de meu pai e de
minha mãe. Encontro apoio bíblico para essa ideia em Gênesis 5.3, onde
diz que Sete era à imagem de seu pai, Adão. Quando pensamos em um fi-
lho acreditando e seguindo as obras do pai, há essa ideia de imagem, de
semelhança e de similaridade.
Além da ideia de família, há também o conceito de representação. Somos
pedidos para representar Deus. Foi por isso que ele nos criou à sua ima-
gem: para ser como ele, para nos espelharmos nele, para participar de sua
família real, para podermos representá-lo aqui na terra. Deus queria um
mediador entre ele e este cosmos inteiro que ele fez, então ele colocou
Adão e Eva aqui.
Nós, seres humanos, somos criados para ser os mediadores da criação, fei-
tos à imagem de Deus. Foi-nos dado um mandato para governar e ter do-
mínio. Quando o primeiro Adão caiu, um segundo Adão teve que vir para
cumprir este papel de mediador e fazer o trabalho que Deus queria que
Adão, Eva e seus filhos fizessem. Os seres humanos foram criados em uma
relação única com Deus, espelhando a sua semelhança. Deus nos criou pa-
ra representá-lo na terra, para fazer o seu trabalho, para ser seus vice re-
gentes, para trabalhar com Deus no controle e governo do mundo. Somos
trabalhadores com Deus no grande cosmos. Isso é o que significa ser feito
à imagem de Deus.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 34

MACHO E FÊMEA
Em Gênesis 1.26 e seguintes, aprendemos que fomos criados macho e fê-
mea. É importante notar que tanto homens quanto mulheres comparti-
lham o mandato a ser portador da imagem e servos de Deus, embora ma-
cho e fêmea tenham recebido funções distintas. A palavra "macho", zakar,
literalmente significa "aquele que aponta". Neqevah, a palavra hebraica
para "fêmea", indica "aquela que é traspassada". A linguagem refere-se
um tanto graficamente a diferentes funções inclusive na vida íntima. O
homem e a mulher têm papéis diferentes, mas são igualmente membros
reais da família de Deus e igualmente chamados a representar a Deus.
Tem havido muita discussão sobre o conceito de liderança, a ideia de que
o homem foi criado para ser o cabeça da mulher, e o que isso significa. Há
aqueles hoje que falam sobre macho e fêmea lado a lado porque será as-
sim no grande eschaton, mas o meu julgamento é que os nossos antepassa-
dos estavam corretos quando ensinaram que o homem tem um papel de
autoridade e liderança. Eu acredito que as Escrituras falam muito especi-
ficamente de funções exclusivas entre marido e mulher, com o marido e
pai, tendo um papel de liderança em que ele exerce uma autoridade amo-
rosa.
Para ilustrar esse tipo de autoridade amorosa, quero contar uma história
que contei a um jovem antes de seu casamento (Este é o mesmo casal que
falei antes, com a jovem que só tinha lido a Bíblia uma vez antes de co-
nhecê-la).
Quando os casei, contei-lhes a história de um pai que viu sua esposa pular
de um penhasco na costa sul da Austrália para resgatar um menino que
tinha tropeçado na borda, quando estavam pescando. A mãe tinha mergu-
lhado e o marido viu que ela poderia resgatar a criança, mas nunca seria
capaz de salvar a si mesma. O pai disse aos filhos: "Vocês precisam de sua
mãe mais do que precisam de mim" e mergulhou. Ele foi capaz de levantar
sua esposa no cume, mas ele morreu. Eu perguntei ao jovem marido, "Vo-
cê ama sua noiva o suficiente para fazer isso?" Após o culto, ele disse;
"Pastor, eu gostaria de saber por que me perguntou isso". O homem tem
uma responsabilidade tremenda. O homem tem um papel de liderança,
mas ele deve exercer a liderança de uma forma amorosa, sacrificial, não
como um feitor de escravos.
Tem havido muita discussão sobre os dois relatos da criação. Sugiro que
você vá aos comentários se você quiser ver isso ainda mais. Neste momen-
to, eu quero levantar a questão de saber se existe uma Aliança da Criação.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula III 35

Em resposta a essa questão, primeiro pergunte se Deus estabeleceu rela-


ções quando ele criou o mundo. Desde que a "Aliança" essencialmente re-
fere-se à ideia de um vínculo inseparável, uma relação de amor, pergun-
tamos: "Deus estabeleceu essa relação?”.
Ele o fez quando criou a humanidade à sua imagem, macho e fêmea. Como
já vimos, é a relação mais íntima entre os seres humanos. Deus estabele-
ceu relações sociais no mandato social — "Por isso, deixa o homem pai e mãe e
se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (Gn 2.24 ARA)". Contudo,
ele também estabelece uma relação entre a humanidade e o cosmos. Este
é o mandato cultural — "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujei-
tai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal
que rasteja pela terra (Gn 1.28 ARA)". A relação entre a humanidade e o mun-
do é que devemos governar sobre ele.
Algumas passagens bíblicas — como Oseias 6.7 e Jeremias 33.20-25 — fa-
lam de uma aliança que parece ter sido estabelecida antes de Deus lidar
com Noé e Abraão. Você pode encontrá-las em Covenant and Creation de
Dumbrell e em The Christ of the Covenants de Robertson. Havia uma aliança
da criação? A teologia reformada sempre quis falar de um pacto de obras
(o que parece sugerir um elemento de mérito), mas você verá que Dum-
brell e Robertson têm problemas com essa terminologia. Mesmo que a
confissão de Westminster diga claramente que Deus estabeleceu um pacto
de obras, sendo ambos Dumbrell e Robertson presbiterianos reformados,
eles falam de uma aliança da criação e discordam da ideia de um pacto de
obras. Curiosamente, Vos fala sobre um pacto de obras ou uma aliança da
criação. Continuaremos, na próxima vez, com a questão de se essas rela-
ções foram estabelecidas na criação.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 36

AULA IV
QUEDA, JULGAMENTO E ALIANÇA
No Salmo 97, encontramos uma série de coisas que são relevantes para a
nossa discussão de hoje. Vamos ler os versos 1-6:
Reina o SENHOR. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas.
Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça e juízo são a base do seu trono.
Adiante dele vai um fogo
que lhe consome os inimigos em redor.
Os seus relâmpagos alumiam o mundo;
a terra os vê e estremece.
Derretem-se como cera os montes, na presença do SENHOR,
na presença do Senhor de toda a terra.
Os céus anunciam a sua justiça,
e todos os povos veem a sua glória.

Essa passagem fala claramente sobre o senhorio soberano de Deus e a ma-


neira como controla todos os aspectos e elementos da natureza.
Muitas pessoas têm me perguntado e argumentado sobre a extensão do
dilúvio. Há quem diga (e você pode ler isso nas notas da Bíblia de Estudo
NVI) que a extensão do dilúvio foi limitada ao mundo conhecido de então.
Pedro, no entanto, não parece pensar assim. Vamos ler 2ª Pedro 3.3-7:
Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias,
virão escarnecedores com os seus escárnios,
andando segundo as próprias paixões e dizendo:
Onde está a promessa da sua vinda?
Porque, desde que os pais dormiram,
todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.
Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo,
houve céus bem como terra,
a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus,
pela qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água.
Ora, os céus que agora existem e a terra,
pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo,
estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios.
Como eu disse, Pedro não tem escrúpulos sobre nos lembrar da catástrofe
universal que veio pela palavra de Deus. Ele nos diz que, como Deus criou,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 37

assim ele trouxe um dilúvio, e assim ele trará o juízo final. Acho que esse
comentário do Novo Testamento é um fato muito importante para manter
em mente. Oremos:

Senhor, nosso Deus,


tu tens realizado incríveis feitos nos tempos passados.
Tu criaste este mundo.
Tu o estabeleceste em sua ordem.
Tu tens continuado a mantê-lo, apesar dos julgamentos que envias
por causa da desobediência.
Tu tens sido um Deus fiel, reto e justo, gracioso e misericordioso.
Ajuda-nos a apreciar isso quando consideramos como tu,
o Senhor de toda a criação,
continuas a ser o Senhor de tudo, aquele que orienta e direciona tudo
— inclusive nós —
como parte do mundo que criaste.
Abençoa-nos aqui reunidos em nome de Jesus. Amém.

Antes de começar nossa aula sobre a queda da humanidade, quero termi-


nar a discussão que começamos na última aula sobre a Aliança da Criação.
Você deve se lembrar de que há um debate acadêmico sobre a adequação
do termo "Aliança da Criação". Algumas referências bíblicas — principal-
mente Oseias 6.7, Jeremias 23 e Gênesis 6.18 — são usadas por estudiosos
como Dumbrell e Robertson para defender uma Aliança da Criação. Outros
estudiosos, como John Murray ou meu bom amigo, o falecido Anthony
Hoekema, não usam a expressão "Aliança da Criação". Hoekema e Murray,
em vez de falar de uma Aliança da Criação, falam de uma administração
adâmica. Essa discussão continua, pelo menos em parte, porque as pesso-
as não compreendem inteiramente o que se entende pelo termo "Alian-
ça". Poderíamos perguntar se o termo precisa estar presente em um texto
para que o conceito esteja lá.
Podemos tomar a aliança Davídica como exemplo. O termo "Aliança" não
aparece em 2º Samuel 7, mas mais tarde, em 2º Samuel 23, quando Davi
está refletindo sobre o que Deus tem dito e feito, ele diz que Deus fez uma
aliança com ele. Isaías também fala da Aliança que Deus fez com Davi em
Isaías 55.3, embora o termo não seja usado quando Natã, o Profeta de
Deus, fala de Davi diretamente em 2º Samuel 7. Por comparação, algumas
pessoas argumentam que temos uma Aliança em Gênesis 1 e 2, mesmo que
a palavra "Aliança" não esteja presente no texto.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 38

Se de fato podemos falar em uma Aliança da Criação, há vários aspectos


da aliança que vemos nos atos e no contexto da criação. Quero destacar
que independentemente de usar ou não a palavra "Aliança", temos de fa-
lar da atividade de Deus como sendo unilateral, sem condições. Deus, no
conselho da Divindade, disse: “Façamos o homem” quando criou o homem e
a mulher. Não há nada bilateral na atividade criadora de Deus. Ela é estri-
tamente unilateral e não é, em nenhum sentido, condicional. Deus não
colocou condições sobre alguém quando criou o universo. Isso levantou
uma questão sobre o fato de que Deus deu a Adão e a Eva uma certa estru-
tura condicional quando ele pronunciou a liberdade condicional. Lidare-
mos com isso mais tarde.
Quero salientar, como Robertson em alguma extensão de seu livro “The
Christ of the Covenants”, que, na Aliança da Criação, há três mandatos espe-
cíficos, que gosto de falar como três relacionamentos específicos. O pri-
meiro, que é muito reconhecido, é o mandato cultural. Depois que Deus
criou Adão e Eva à sua imagem para serem mediadores entre Si e a cria-
ção, veio a eles e ordenou-lhes que o representassem no cosmos. O man-
dato cultural significa que os seres humanos devem ter domínio sobre a
criação, guardando-a, desenvolvendo-a, embelezando-a e governando so-
bre ela.
Lemos em Gênesis 4 que os cananeus fizeram exatamente isso. Depois que
construíram a cidade, os descendentes de Caim trabalharam nas áreas de
metalurgia, música, indústria, agricultura, pecuária e assim por diante. O
mandato cultural se estende a todas as áreas da vida — política, trabalho,
comércio, artes, recreação, tecnologia, indústria. Não há nenhuma sepa-
ração de qualquer aspecto da vida de nosso relacionamento com Deus.
Nós representamos a Deus na totalidade da vida.
O segundo mandato que Deus deu foi o mandato social. Deus criou a hu-
manidade macho e fêmea e disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a
terra e sujeitai-a". E como deviam fazer isso? O homem devia deixar pai e
mãe e se unir à sua mulher, para que os dois fossem uma só carne. O pro-
jeto de Deus era que o homem e a mulher vivessem juntos como uma só
carne no coração da criação, e produzissem descendentes.
Eu tenho oito filhos e 26 netos até agora — penso estar fazendo minha
parte em obediência ao mandato social.
Jesus reconhece o mandato social em Mateus 19, quando diz que desde o
início da criação, Deus queria que homem e mulher fossem uma só carne e
estivessem vinculados para toda a vida, sem nunca se separar. O mandato
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 39

social se expressa particularmente na família — pai, mãe, filhos — e a fa-


mília maior, a família mais abrangente da comunidade. Devido a isso, al-
guém que reconhece que a Bíblia coloca ênfase na Aliança dedicará aten-
ção à vida familiar e à vida comunitária. Eis porque falamos muitas vezes
da igreja como uma comunidade da aliança, porque estamos todos relaci-
onados um ao outro não só no sentido espiritual, mas no vínculo comum
que partilhamos como pessoas criadas à imagem de Deus. Devemos todos
refletir o Criador, mas no coração de tudo, para realizar o mandato social
devemos obedecer a Deus e, se obedecemos esse mandato, a bênção de
Deus nos é assegurada. Pobre Davi, quando começou a exceder os limites
do que Deus tinha estabelecido, envolveu-se em poligamia e certamente
teve muitos problemas em sua família, não foi? Seus primeiros três ou
quatro filhos mataram uns aos outros.
Agora, quero também salientar que, se há algo errado nesta área da vida, é
muito difícil manter uma boa relação cósmica e obedecer e viver frutuo-
samente. Um dos meus tios, que foi presbítero da igreja por anos, quando
soube que eu ia estudar para o Ministério, me disse, "Gerard, prepare-se
para lidar com duas áreas principais que causam uma grande quantidade
de problemas: dinheiro e sexo. Poucas coisas causam tanta discórdia entre
membros de famílias — marido e esposa, pais e filhos — como dinheiro. O
conceito de uma só carne, também, causa muitos problemas. Prepare-se
para lidar com essas duas áreas". Recebi esse Conselho do meu tio, e o
passo a vocês, homens e mulheres que estão se preparando para entrar no
ministério, sejam como pastores ou professores ou outra área qualquer.
No momento, pediram-me para me envolver em uma situação trágica,
onde essas duas coisas, sexo e dinheiro, estão destruindo um casamento
de 40 anos. Começou com um problema com dinheiro e tornou-se um
problema com a união de uma só carne. Que tem um enorme efeito sobre
a terceira relação, a relação de comunhão. Não é possível estar em paz
com Deus, se você não está em paz com o seu companheiro ou se você é
um criminoso no mundo. Essas três relações tão complexas estão inter-
relacionadas umas com as outras.
Começamos a tocar o terceiro mandato ou relacionamento, o relaciona-
mento da pessoa com Deus. Ao contrário do mandato cultural e o manda-
to social, esse [mandato espiritual] não é declarado explicitamente. No
entanto, sabemos que a vida, na sua mais rica e máxima expressão, está
no relacionamento de marido e mulher, pais e filhos, família e o universo
e, no coração de tudo, está uma relação viva com o Deus Trino. Isso só é
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 40

possível quando o Espírito Santo entra em nossa vida e passamos a ser


criaturas renovadas, renascidas.
Vos assinalou que há quatro aspectos da Aliança no relacionamento que
Deus estabelece com a humanidade. Nas páginas 27 e seguintes, de Biblical
Theology, Vos refere-se particularmente ao que algumas pessoas chamam
de Pacto das Obras. Primeiro, Deus apareceu a Adão e Eva e falou da vida.
Poderíamos perguntar como esta convivência entre Deus e o homem de-
veria continuar. Em seguida, Deus faz referência a duas árvores. Deus or-
denou-lhes para não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Deus não deu a Adão e a Eva uma opção ou uma escolha, mas antes de-
terminou obediência incondicional. A árvore da vida, no entanto, estava
disponível para eles, isso significava a continuação da vida. Como Vos ex-
plica maravilhosamente, essa árvore é sacramental. Em terceiro lugar,
Vos assinalou a possibilidade de tentação e pecado. A tentação é parte do
mandato da comunhão; tentações para deixar um relacionamento correto
com Deus vem da área social e área cultural cósmica.
Finalmente, Vos fala também da possibilidade de morte e dissolução. Al-
guns estudiosos evangélicos estão sugerindo que havia morte antes da
queda. Não acredito que houve morte no sentido de derramamento de
sangue antes da queda, mas devemos ter o cuidado de tornar demasiado
absolutista ao dizer que não houve nenhuma morte antes da queda. Por
exemplo, quando Adão e Eva comiam vegetais, os vegetais não permane-
ciam vivos enquanto eram mastigados e digeridos. As árvores passam por
ciclos. As flores têm que morrer e desaparecer para que o fruto se desen-
volva. O fruto tem que amadurecer para ter a semente. Muitas vezes usa-
mos a linguagem de morte para descrever o final de uma temporada. Esse
processo existiu desde o início da criação, mas não acredito que a morte,
no sentido de derramamento de sangue, fosse parte da ordem original da
natureza.
Não havia apenas estipulações, mas havia promessas também. Promessas
são sempre parte de uma aliança. Havia a promessa de vida, e implícita
nesta promessa estava a promessa de todos os tipos de bênçãos. Não havia
nenhuma referência explícita a uma maldição em Gênesis 2, mas a passa-
gem fala da morte. Ela também se refere à possibilidade de uma maldição:
morte vem como resultado de comer. Poderíamos perguntar se havia tes-
temunhas da Aliança. Curiosamente, as passagens que se referem à Alian-
ça de Deuteronômio 30.18 e Miqueias 1.2, chamam o céu e a terra como
testemunhas da Aliança. Finalmente, a continuidade está implícita em
Gênesis 2, mas não explicitamente declarada. Para concluir nossa discus-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 41

são de saber se existe uma aliança da criação, diria que os elementos bási-
cos da Aliança estão presentes na forma germinal.

Passemos ao nosso tema de hoje, a história da queda. Encontramos isso


em Gênesis 3, 4 e 5. O contexto desta história é que Adão e Eva estão em
um lugar de nobreza. Meredith Kline chamou de paraíso o Palácio de Adão
e Eva. Deus fez Adão e Eva vice regentes do mundo dele e os colocou no
coração de sua criação cósmica. Nesse jardim palaciano tiveram acesso a
tudo o de que precisavam — abundância de ouro e outros minerais, água e
todos os outros recursos. Nesse contexto, Satanás entrou, tendo se encar-
nado em serpente para enganar Adão e Eva. Devido a isso, a serpente e
Satanás são muito difíceis de se distinguir. Deus não tinha um problema
com isso, mas Adão e Eva tinham.
Quem era Satanás? Livros foram escritos sobre isso em holandês, em ale-
mão, talvez em idiomas asiáticos também. O mundo ocidental frequente-
mente teve a ideia da presença de Satanás e seus demônios no mundo,
mas o mundo oriental levava essa ideia mais a sério. Tendo passado algum
tempo no Oriente, posso testemunhar o fato de que os demônios são ainda
ativos hoje como eram no tempo de Jesus, embora de forma diferente.
Eles sabem como escolher seus contextos e ainda sabem como trabalhar
seus diabólicos planos.
Eu creio que Satanás era um dos três grandes arcanjos: Gabriel era o
grande mensageiro, Miguel era o grande comandante dos exércitos de
Deus e Lúcifer, o portador da luz, era o grande administrador. Eu acredito
— e isso é especulação, mas eu realmente acredito nisso — que Satanás
teve inveja de Deus ter feito Adão e Eva seus vice regentes. Ele queria essa
posição à frente da criação como o mediador entre Deus e todo o cosmos.
Inveja e orgulho dilaceraram Satanás, embora eu ainda não posso especu-
lar sobre como isso foi possível no mundo angelical. Satanás veio a Adão e
Eva, os vices regentes, e procurou estabelecer uma relação com eles que
iria quebrar o relacionamento deles com Deus. Eu acredito que o pensa-
mento de Satanás foi algo como: Adão e Eva receberam o cargo de vice
regentes de Deus e Deus não muda, assim eu posso conseguir o controle
do universo, se tiver Adão e Eva sob o meu comando. Eles se tornarão
meus vices regentes, meus representantes e meus refletores. Hoje vemos
muitas pessoas refletindo o Diabo em todas as áreas da vida, até ao ponto
de nos confrontarmos com o culto satânico — uma grosseira distorção dos
três mandatos ou relacionamentos. Comunhão de pessoas com o Diabo,
obedecendo-o no cenário social e realizando seus diabólicos planos no
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 42

mundo. Satanás não queria só fazer uma pequena festa com Adão e Eva.
Ele queria o cosmos inteiro. Ele queria seu próprio império, e ele foi ca-
paz, através da desobediência de Adão e Eva de estabelecer um reino pa-
rasita dentro do cosmos que Deus criou. Se Deus não mantiver o universo,
Satanás não pode fazer nada. Satanás depende de Deus. Satanás precisa de
Deus, porque Deus é o único que pode defender soberanamente o Reino
cósmico.
A tática que Satanás usou foi uma conversa inteligente, em que tentou
lançar dúvidas, fazendo simplesmente algumas perguntas. Quando eu es-
tava na Universidade de Melbourne, conheci um homem que alegou ser
um Quaker, mas que já não podia aceitar os princípios evangélicos básicos
da fé Quaker. Ele tentou minar a minha fé apenas fazendo perguntas.
"Imagine alguém ser tão estúpido a ponto de crer que você pode ser salvo
pelo sangue? Não é tão sangrento? Pense sobre isso". Isso ocorreu em uma
sala de aula da Universidade pública — dúvidas, sugestões, diabólicos pla-
nos. O Diabo ainda está no trabalho.
Depois que Satanás fez suas perguntas, em seguida, deu-se o grande des-
vio. Alguns teólogos, estudiosos e comentaristas não gostam da palavra
"queda". Quando uma criança cai, isso não é necessariamente um pecado,
embora possa ser uma prova de fraqueza. Quando a criança se torna de-
sonesta, isso é maldade. A queda da humanidade não foi tanto uma queda,
mas um desvio. Adão e Eva foram desobedientes. Eles abandonaram Deus.
E depois de Satanás ter usado sua tática, Adão e Eva se desviaram tragi-
camente da vontade de Deus para eles. Deus os criou à sua imagem e deu-
lhes liberdade e responsabilidade. Não lhes deu uma escolha definitiva,
mas a possibilidade de desviar-se e tornar-se rebelde, ele deu. Eles Abdi-
caram-se da posição dada por Deus, como reais servos de Deus, por sua
desobediência. Abdicaram-se de seu trono cósmico, seu trono familiar e
seu acesso direto ao trono de Deus.
Deveríamos perguntar se Deus também pronunciou uma maldição absolu-
ta sobre Eva. Quando ele falou a Eva, Deus não disse "Eva, você está amal-
diçoada", usando um dos dois termos hebraicos para "maldição" — arar,
ou kelalah, ou um termo que não é tão carregado de escravidão quanto
arur. Pelo contrário, Deus fala da dor e do sofrimento que teria a mulher.
Ele deixa que ela saiba que haverá tristes consequências de suas ações,
incluindo a dor, que sofrerá na gravidez. Da mesma forma, Deus não disse,
"Adão, você está amaldiçoado", mas ele amaldiçoou a terra sobre a qual
Adão exerceria o seu papel de liderança na área cultural. Deus usa a pala-
vra arar ao falar da maldição sobre a terra. Adão ainda irá cumprir o man-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 43

dato cultural, mas agora ele deve fazê-lo com o suor do seu rosto e em ati-
vidade laboriosa. Essas maldições são muitas vezes referidas como mitiga-
das, porque não são absolutas. A terra ainda iria dar frutos para que o
homem e a mulher pudessem comer. A terra estava amaldiçoada, mas
continuaria a possibilidade de vida e, portanto, falamos disso como uma
maldição mitigada.
Quando Caim matou seu irmão Abel e Deus amaldiçoou Caim, essa foi uma
maldição absoluta ou mitigada? Não foi absoluta. Caim foi banido, mas
Deus o protegeu para que ele pudesse sair e construir uma cidade e tor-
nar-se o antepassado dos primeiros servos do grande mandato cultural.
Caim foi banido e não há nenhuma evidência em tudo isso que tenha se
tornado um homem iluminado, convertido, regenerado, que tenha segui-
do a linhagem de Sete e dos servos de Deus.
Deus pronunciou maldições, absolutas e mitigadas, mas ele também deu
garantias. Existem pelo menos quatro garantias. O primeiro é a garantia
da continuidade daquilo que Ele estabeleceu. Seu reino iria continuar ape-
sar da maldição. Os relacionamentos que Ele estabeleceu também conti-
nuariam. Deus não disse a Adão e Eva que dali em diante já não seriam
uma só carne. Aconteceu que foi permitido a Satanás estabelecer o seu
reino parasita. Como eu disse antes, esse reino parasita é totalmente de-
pendente do Reino cósmico. O Reino cósmico continua e, portanto, o im-
pério satânico pode continuar a funcionar. Deus fornece garantia de con-
tinuidade, porque ele não diz, "Eu estou acabado," mas continua.
A segunda garantia é a garantia de que o amor de Deus continuaria sendo
demonstrado na graça, misericórdia, retidão e justiça. A graça é revelada.
A graça é sempre o amor de Deus pelo indigno. Não havia nenhuma culpa
e nenhum mal quando Deus criou, mas a graça é o amor de Deus pelo in-
digno e culpado. Misericórdia é revelada. Deus teve compaixão e mostrou
seu amor por Adão e Eva. Adão e Eva estavam na miséria, escondendo-se
de Deus, sabendo que estavam nus. A Justiça foi revelada. Dumbrell apon-
ta em seus escritos sobre Noé que a justiça é um termo com um significa-
do duplo. A justiça tem uma dimensão jurídica e uma dimensão relacional;
às vezes é necessário entendê-la no sentido relacional e às vezes, no sen-
tido legal. A Justiça foi revelada. De acordo com alguns dos nossos pa-
drões, Deus seria totalmente justo se ele tivesse destruído tudo. No entan-
to, ele revelou sua justiça, pronunciando um julgamento segundo a sua
vontade.
Se a primeira garantia era a continuidade da Aliança da Criação e a se-
gunda era a garantia da continuidade do seu amor, demonstrado na graça,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 44

misericórdia, retidão e justiça, em seguida, a terceira garantia é a mani-


festação de Deus a Adão e Eva, assegurando a vitória através da semente
mediadora. O ofício mediatorial continua. Deus diz a Adão e Eva que em-
bora eles tenham se abdicado desse papel, ele irá restaurá-los, dando-lhes
filhos que vão continuar a semente. Este é o conceito de Gênesis 3.14-15.
"A semente da mulher", é um termo singular, mas tem uma conotação
plural, uma conotação coletiva incipiente na promessa do mediador, Cris-
to Jesus virá.
A quarta garantia é que dentro da Aliança da Criação ou a administração
cósmica, um segundo relacionamento foi configurado. Esse é o relaciona-
mento referido como o Pacto da Graça. Dentro do ambiente maior da cria-
ção, Deus estabeleceu um novo relacionamento — o relacionamento re-
dentor. É esse relacionamento que é desdobrado quando avançamos nas
Escrituras.
Depois do desvio de Adão e Eva e de Deus pronunciar as maldições e suas
garantias, temos de olhar para alguns dos eventos registrados que se se-
guiram. Há quatro eventos que quero mencionar aqui brevemente. Pri-
meiro, há as respostas de Adão e Eva. Depois que Adão ouviu o que Deus
disse, Adão chamou sua esposa Chawah, que significa vida. Ele a chamou
de "vida". Deus tinha falado da morte, mas Adão olhou para sua esposa e
disse "vida". Pense nisso, senhoras, vocês que são esposas, através da con-
cepção, gestação e nascimento, vocês se tornam as grandes portadoras da
vida. Adão chamou a mulher dele "vida". Ele aceitou a promessa de vitó-
ria. Ele aceitou o esboço básico do Pacto da graça. Em seguida, quando Eva
teve o seu primeiro filho, em Gênesis 4, ela disse, "Adquiri um varão com o
auxílio do SENHOR”.
Em segundo lugar, Adão e Eva foram banidos de seu jardim palaciano. Eles
não poderiam comer da árvore da vida, porque esse era o sacramento pa-
ra a vida continuar. Não é que Deus iria tirar a vida deles, mas eles já não
podiam alcançá-la sacramentalmente. Vos discute muito bem isso em sua
Biblical Theology.
Em terceiro lugar, assim que o núcleo familiar começou a desenvolver-se,
há um assassinato e banimento. Caim matou Abel. Você conhece a histó-
ria o suficiente. Nesse assassinato, o princípio da morte e da inveja que
caracteriza Satanás veio a sua plena expressão na segunda geração, em
Caim. Em seguida, Deus pronuncia uma maldição mitigada — "Apartai-
vos". O coração do conceito de morte é a separação. Caim morreu no sen-
tido de que ele foi separado. Ele reconheceu isso, e ele reconheceu que era
vulnerável à morte nas mãos de alguém que olhasse para ele.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 45

A quarta coisa que quero mencionar aqui é a demonstração do Deus da


graça comum. Esse é mais um grande evento. Deus demonstrou sua graça
— a alguém indigno do amor — pela totalidade do cosmos. Deus continuou
tudo, e em certo sentido, alguém pode mesmo falar de Deus mostrando
graça ao Diabo porque ele não destruiu Satanás naquele momento ou li-
mitou suas atividades completamente, embora ele pudesse ter feito isso.
Deus deu ao Diabo uma certa latitude. Essa é a graça comum, não graça
salvadora, mas um favor e uma bondade geral, em que Deus revelou a tu-
do, dentro de sua criação, que houve continuidade e haveria uma conti-
nuação da vida por um tempo, e nesse tempo, haveria sempre a possibili-
dade de viver diante do SENHOR e de chegar ao arrependimento.
O que aconteceu com os três mandatos depois da queda? Gênesis 4 nos diz
que o mandato social não foi mantido. Canaã casou-se (em tempos pré-
diluvianos, não havia problema dos homens se casarem com irmãs ou pa-
rentes próximas) mas o descendente de Caim, Lameque, teve duas espo-
sas, Ada e Zilá, e gabou-se disso. Nesse contexto, vemos um assassinato
também, porque ele se gabava, perante suas esposas, de haver matado um
homem. E quanto ao mandato cultural? Esse continuou sendo obedecido,
mas agora sem motivos e interesses egoístas, sem dúvida. As pessoas de-
senvolveram a música, que é um dos grandes presentes de Deus. As pesso-
as também desenvolveram a pecuária. O ponto é que Deus continuou a
mostrar sua graça comum, de forma que os cananeus foram capazes de
exercer o mandato cultural. Adão e Eva e os descendentes crentes tinham
enorme vantagem e lucro com isso, então a graça comum obviamente
funcionou a favor dos crentes. Noé não teria sido capaz de construir uma
arca, se não tivesse se desenvolvido o artesanato em madeira, arquitetura
ou habilidades de construção.
Voltando-se para o mandato espiritual, lemos que Enoque andou com
Deus. A última parte do capítulo 4 nos diz que depois do filho de Sete,
Enos, ter nascido, "daí se começou a invocar o nome do SENHOR. (Gn 4.26 ARA)"
A Comunhão espiritual continuou. O verbo que é usado é huchal likro, in-
dica uma interação diária. Onde quer que fosse Enoque, quando se levan-
tava, quando se deitava, quando se assentava à mesa (como diz em Deute-
ronômio 6), ele andava com Deus. Ele sabia que estava na presença de
Deus. Um padrão foi criado aqui. Mais tarde lemos que Noé andava com
Deus e que Deus exigiu a mesma coisa de Abrão em Gênesis 17.
Concluindo, Reino, Aliança e Mediador continuam. O Reino cósmico de
Deus continua, mas agora tem um parasita dentro dele. A relação entre
Deus e o homem continua. Na verdade, se falamos de uma Aliança da Cri-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula IV 46

ação, podemos dizer que ela está mais firmemente estabelecida por essa
segunda vertente da redenção, que não pode ser separada da primeira
vertente. O conceito de mediadores continua claramente na ideia da se-
mente. Enoque, em seu caminhar com Deus, representa a linhagem medi-
atorial.
Conforme avançamos para a Aliança de Noé, Gênesis 6-9, eu sou muito
grato pela discussão de que Robertson nos deu em The Christ of the Cove-
nants. Dumbrell também nos dá uma grande discussão no Covenant and
Creation. Gostaria de ter mais tempo para lidar com os seis pontos que Ro-
bertson estabelece, mas vou oferecer algumas observações aqui.
Nós vemos o mal em relação aos três mandatos, mas vemos também o ca-
ráter e a vida de Noé. Nós vemos o sofrimento de Deus e a dor do seu co-
ração. Quando ele pronuncia o julgamento, o dilúvio vem e destrói tudo,
mas depois do dilúvio, vemos uma reconfirmação. Aqui especialmente
Robertson é muito útil. Em seu capítulo sobre a Aliança de Noé, ele mostra
que a configuração cósmica da criação e da Aliança da Graça são insepará-
veis. Em seguida, vemos que a Aliança da Criação é repetida, ou alguns
diriam estabelecida pela primeira vez, em Gênesis 9.1-17. As inter-
relações são restabelecidas, e nesse contexto, temos também a pena de
morte. Robertson tem uma boa discussão desse tópico que incentivo você
a tratar com cuidado. Vemos também o Pacto da Graça no cenário da ver-
gonha de Noé. Ele fica bêbado e encontra-se nu, mas quando desperta,
Deus lhe dá o dom da profecia, para ser capaz de dizer que Sem será um
construtor de tendas, e os descendentes de Canaã habitarão nas tendas
através do serviço (e o livro de Josué nos dá um exemplo claro mais tarde
de como os descendentes de Canaã entraram na tenda de Sem) e final-
mente, Jafé tornará isso grande. Assim, na Aliança de Noé, vemos o esboço
da Aliança da graça de Deus no contexto da criação, onde a humanidade é
preservada através da pena de morte e Deus diz: "Sem, você será funda-
mental. Canaã, filho de Cam, você vai participar dessa tenda, mas Jafé, vo-
cê realmente vai tornar isso grande". Essa é uma profecia de que os genti-
os vão entrar e assumir, mas nunca diz que os gentios expulsarão os filhos
de Sem. Assim, vemos que Noé nos apresenta o grande programa de Deus.
Pegaremos esse programa na próxima aula, quando olhamos para Abraão.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 47

AULA V
PATRIARCAS I

Começamos nossa aula lendo alguns versos de Josué 24, a que farei refe-
rência depois. No verso 2, lemos:
Então, Josué disse a todo o povo: Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Antigamente,
vossos pais, Tera, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e servi-
ram a outros deuses. [Note que Abraão e Naor estavam adorando outros
deuses]. Eu, porém, tomei Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a
terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência (Js 24.2-3 ARA).
Eu quero ler para vocês agora do Evangelho de João. João 8.31 e seguintes:
Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na mi-
nha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais
fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres? (Jo 8.32-33 ARA.)
Então, depois da resposta de Jesus nos versos 34-38, eles disseram, "Nosso
pai é Abraão (Jo 8.39 ARA) "Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as
obras de Abraão. (Jo 8.39 ARA)". No verso 53, disseram-lhe: "És maior do que
Abraão, o nosso pai, que morreu? Também os profetas morreram. Quem, pois, te
fazes ser? (Jo 8.53 ARA)". Jesus concluiu sua resposta no verso 58, dizendo,
"Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8.58
ARA)".

Vamos orar:
Senhor, nosso Deus,
quando olhamos o quadro total das Escrituras,
vemos que dominante lugar teu servo, Abraão, teve.
Tu o chamaste. Tu o purificaste. Tu fizeste dele teu servo.
Agradecemos-te pelo que fizeste por ele e sua semente.
Especialmente, pelo Senhor Jesus,
agradecemos porque a semente de Abraão veio a nós hoje
e podemos ser chamados também de "semente de Abraão".
Deus, ajuda-nos a entender essa mensagem das Escrituras,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 48

enquanto avançamos semanalmente.


Mantenha-nos longe do pecado.
Dá-nos alegria no nosso trabalho para Jesus. Amém.

No início de nossa consideração de Abraão, primeiro vejamos rapidamen-


te as circunstâncias em que se situa a vida de Abraão. Em primeiro lugar,
devemos lembrar que Abraão viveu após a confirmação da Aliança da Cri-
ação ou o reino cósmico. Lembre-se de Gênesis 8 — tempo de semente e
colheita, verão e inverno nunca cessará. A ordem da criação continua com
todos os seus padrões embutidos e leis e estações. Deus estabeleceu-as
firmemente. Devemos, portanto, perceber que quando Deus veio a Abraão,
ele vem manter definitivamente a ordem cósmica. Abraão não devia ter
nenhuma incerteza quanto à existência ou não, por exemplo, se a terra
continuaria ou se haveria um dilúvio para acabar com a terra que Deus
prometeu a ele e à sua semente. A Aliança da Criação continuará, e assim
o Reino de Deus tem assegurado a sua continuidade. Deus continuará a
reinar. Deus continuará a cumprir a sua vontade dentro do contexto mai-
or da criação cósmica. O Reino de Deus certamente vai continuar porque
ele deu a semente do governo, que será um meio para o controle das pes-
soas sob o seu reinado.
Os governos de todas as Nações são, de certa forma, um reflexo de Deus, o
Rei, que é o grande que rege e governa. Pessoas, criadas para ser a ima-
gem de Deus, imitam a Deus, definindo seus pequenos reinos e governos.
Através do governo humano, Deus iniciou a preservação da raça humana.
Robertson em Christ of the Covenants discute a instituição da pena capital,
chamando-a de um grande avanço na revelação de Deus sobre como de-
vemos nos governar, e como proteger a proteger a raça humana. O ponto
é que a Aliança da Criação continuará e a continuidade do Reino de Deus
está garantida.
Em Gênesis 11, encontramos a história de Babel que causou a propagação
dos povos e a formação das diferentes nações. Em meio a isso, com a pro-
pagação dos povos, Deus escolheu uma linhagem específica. A genealogia
pode tornar-se um pouco difícil de seguir, mas deixe-nos traçar alguns
dos grandes ancestrais da raça humana. Desde Adão, temos as linhagens
de Caim, Abel e Sete. Os filhos de Caim foram destruídos no dilúvio e Abel
foi assassinado, mas Noé era descendente de Sete. Noé teve três filhos —
Cam, Sem e Jafé. Seus descendentes foram espalhados, mas é interessante
que os semitas podem ter permanecido exatamente no vale da Mesopo-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 49

tâmia, onde acredita-se ser o paraíso. Muitas pessoas também acham que
a arca pousou em um vale superior da Mesopotâmia. Como vimos da últi-
ma vez, os Jafetitas se multiplicaram. Na genealogia Canita, temos as qua-
tro nações principais: Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã. Os cananeus, de certa
forma, representavam a linhagem de Caim, embora não haja nenhuma
conexão biológica. São os cananeus que particularmente têm seu cálice
cheio de iniquidade. Deus vai limpá-los, mas não por um dilúvio. Em vez
disso, Deus vai usar este povo, que ele ordenou ser o agente da salvação,
para ser o agente da morte dos cananeus. Vamos ver isso no livro de juí-
zes.
Traçamos a linhagem mediadora de Sete a Noé, a Sem, a Tera, a Abraão, a
Isaque, a Jacó e seus doze filhos. Dos doze, Judá é selecionado como o por-
tador da linhagem mediadora. Nesta linhagem, vemos Deus trabalhando
seus propósitos cósmicos como ele pactuou com seu povo
Temos muito território a cobrir nessas próximas duas aulas, uma vez que
examinaremos Gênesis 11 a 50. Outro fator que você deve ter em mente
quando você olha para o contexto em que Deus veio a Abrão é que Abrão
vivia na parte sul do vale da Mesopotâmia, muito provavelmente na área
fértil delta onde estava Ur dos caldeus. Abrão estava vivendo em um am-
biente altamente culto. A arqueologia mostra que eles tinham casas onde
tinham até descarga de banheiros e banheiras no segundo andar. Como eu
li Josué em 24, o povo nessas terras adorava outros deuses. A idolatria era
difundida. Esse era o contexto de Abrão para se tornar um nômade, um
morador de tendas. Deus chamou-o de longe, do conforto e da idolatria
dos cananeus e caldeus.
Vamos agora a Gênesis 12. A primeira coisa que quero salientar é que, pa-
ra aqueles de vocês que estudam hebraico, aqui seu conhecimento vai
ajudá-lo a compreender alguns dos pontos mais finos. Por exemplo, o he-
braico, lek é o hiphil imperativo do verbo, halak "ir". A Abrão não foi dada
uma escolha. Ele recebeu uma ordem: "Vai, deixa". Antes de receber esta
ordem de sair, temos outra forma do verbo halak, mas com vogais diferen-
tes, laka. Tenho lido que alguns comentários interpretam este laka como
"Vá por você mesmo". No entanto, Umberto Cassuto, em seu comentário,
ressalta que outras passagens das Escrituras indicam que isso significa
"sozinho", não "por si mesmo". Seu comentário dá quatro ou cinco refe-
rências onde essa preposição com o pronome significa "sozinho".
Nesta passagem vemos a eleição. Abrão é escolhido e a particularidade da
eleição é enfatizada. A tradução de laka como "sozinho" é compatível com
as três palavras que se seguem. Me'artzecha significa "da tua terra," Então
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 50

nós temos "saia sozinho de tua terra." Portanto, Abrão não deve migrar
de sua terra com sua família. Quando a família da minha mãe deixou a Ho-
landa, a irmã gêmea do pai dela veio com ela. Meu avô tinha 11 filhos e
sua irmã gêmea tinha 13. Todos os quatro adultos e 24 crianças vieram
juntos. Mas Deus ordenou que Abrão deixasse a sua família, seus parentes.
Esta palavra, mimoladthecha, vem da palavra yalad — significa "aqueles que
nasceram na família estendida". Ainda mais especificamente, Deus orde-
na-lhe sair da casa de seu pai. Ele não devia levar seus irmãos, ou pai, ou
seus sobrinhos ou sobrinhas. Ele não devia levar ninguém.
Curiosamente, quando a história se desenvolve, aprendemos que Abrão
não foi sozinho. Seu pai Tera, seu irmão e seu sobrinho Ló também foram
com ele. Talvez isso tenha sido ideia de Abrão, ou talvez tenha sido por-
que esses outros insistiram em ir, mas Deus removeu-os todos do lado de
Abrão, um por um. As pessoas perguntavam de que lugar Abrão havia sido
chamado. Se lermos a última parte do capítulo 11, vemos que Tera foi pa-
ra Harã, que ficava no norte da Mesopotâmia. No entanto, quando nos
voltamos para Atos 7.2, no discurso de Estêvão, ele diz, "Varões irmãos e
pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Me-
sopotâmia, antes de habitar em Harã."
Agora Gênesis 11 e 12 não diz especificamente que Abraão recebeu o cha-
mado de Deus em Ur dos caldeus. Se você ler Gênesis 11 e 12, você pode
pensar que Deus o chamou, enquanto ele estava em Harã. Estêvão diz que
esse não foi o caso. Foi-lhe dito para deixar sua família, e ele deixou a fa-
mília de seu pai quando ele estava em Harã, mas não deixou Ló. Havia
uma estipulação de que estava definitivamente envolvida nessa chamada:
tinha que separar-se. O princípio é que alguém deve sair dos muitos para
se tornar o servo de muitos.
Às vezes é difícil sair. Quando eu era menino, eu disse que ia tornar-me
um missionário. Quando eu estava no exército, passei 19 meses no Japão
após a segunda guerra mundial. Eu vi a grande necessidade no Japão e re-
solvi voltar depois de ter estudado para o ministério. Entretanto, lembrei-
me da doce menina que eu queria como esposa. Levamos cerca de 9 anos e
meio desde o momento em que nos conhecemos até nos casarmos. Voltei
para os Estados Unidos. Estudei e ofereci-me para as missões no Japão,
mas outro homem foi escolhido. Isso foi a providência de Deus. Eu aceitei
uma chamada para uma igreja no oeste de Michigan. Estive lá menos de
dois anos, quando recebi uma chamada para ir para a Austrália. Por que ir
para uma terra de ovelhas, rochas e deserto quando há 80 milhões de pes-
soas no Japão e somente aproximadamente 15 milhões na Austrália? Mas
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 51

Deus fez a chamada antes de mim através da igreja, e eu fui constrangido


a aceitar. Era difícil decidir ir, mas como Jesus disse, chega um momento
em que você tem que deixar tudo e ir. Foi difícil deixar a igreja. Foi terri-
velmente difícil dizer adeus ao pai da minha esposa e a seus irmãos e ir-
mãs que viviam em Michigan, mas nós estávamos ansiosos por ver minha
família e todos os meus parentes na Califórnia. Mas a coisa mais difícil de
todas foi o dia em que tivemos que pegar nossas malas e ir para San Fran-
cisco. Nós entramos naquele navio, o Orsova, da British Pacific e Orient
Lines. Harriet e eu ficamos ali com os seis filhos que tínhamos na época.
Havia três ou quatro centenas de pessoas reunidas lá e um por um, todos
deixaram o deck e ficaram de pé no cais. Finalmente, sentimos o ronco
dos motores e os rebocadores começam a puxar-nos para fora. Podíamos
ouvir as pessoas no cais cantando o hino, "Ele conduz-me". É difícil largar
tudo e ir. Isso não é fácil de modo algum. Talvez Deus suavizado um pouco
para Abrão, deixando seu pai ir com ele até Harã e um sobrinho ir com ele
até Siquém.
Chegou a hora, no entanto, quando Abrão teve de ser obediente e ficar
sozinho. Essa foi uma estipulação da Aliança, mas havia também bênçãos
e promessas pactuais. Deus diz a Abrão em Gênesis 12 "vai para a terra
que te mostrarei." O fato de que Abrão receberá uma terra indica o reina-
do soberano de Deus. Ele é o senhor de todas as terras. Foi um conforto
para mim quando eu fui para a Austrália. Não pode haver muitas pessoas
lá e pode haver uma grande quantidade de deserto e ovelhas (Austrália
tem 15 milhões de pessoas e 170 milhões de ovelhas), mas Deus é o Senhor
de todos eles. Deus podia prometer essa terra e dar a terra porque ele é o
grande proprietário de terras. Ele é o rei. Ele está no comando.
E então, quando você vai ler a passagem — "e eu vou fazer" — o verbo é
asa. Ele diz, "Eu farei que você seja goy”. Não diz am, que é a palavra he-
braica para um grupo de pessoas. "Goy" é a palavra hebraica que designa
uma nação — uma reconhecida, organizada, politicamente funcional uni-
dade. O adjetivo que modifica goy é gadol, que significa "muito grande",
então Deus vai tornar Abrão uma grande nação. Ele continua a dizer, "e eu
também o abençoarei," que é a palavra barak em suas diversas formas. Eu
diria que essa bênção inclui Deus concedendo vida e energia a Abrão e su-
prindo-o de tudo o que precisa. A palavra barak certamente inclui também
uma promessa implícita de salvação de Deus. Deus diz, "Eu salvarei você,
Abrão, porque vou entrar na sua vida."
A palavra barak vem de uma palavra mais antiga que significava "ajoelhar-
se." Quando Deus nos abençoa, ele desce até nós com seu longo braço e a
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 52

mão aberta e ele nos dá tudo o de que precisamos. A palavra barak contém
a ideia de que Deus irá nos suprir com suas bênçãos — fisica, material, es-
piritual, moral, socialmente e em todos os outros sentidos imagináveis. A
segunda bênção da Aliança é Deus fazendo de Abrão uma grande nação.
Não somente Deus dará um lugar para Abraão viver e não só Abraão se
tornará um gigante espiritual, moral, social, prosperamente na terra, mas
Deus dá a Abrão uma terceira bênção da Aliança: "Eu farei seu nome
grande." A palavra "nome" é shem e a palavra "grande" é gadol. A mesma
palavra utilizada para fazer de Abrão uma grande nação é usada aqui para
referir-se ao nome de Abrão. Deus está dizendo que ele vai fazer Abrão
famoso. Seu nome será conhecido em todo o mundo. Esta promessa foi
cumprida — Observe como as pessoas nos dias de Jesus estavam falando
de Abraão, e até hoje na grande luta entre os árabes e os judeus na Pales-
tina, Abraão é repetidamente invocado como a fonte dos seus direitos.
Então Deus disse: "e tu serás uma bênção e tu serás um canal." Deus diz a
Abrão que ele o está trazendo para a terra para ser um canal de bênçãos.
Estas são as bênçãos e as promessas que Deus dá a Abrão em Gênesis 12.
Devemos notar a extensão da influência das promessas a Abrão. Sua in-
fluência abrangeria todas as nações. É a frase no versículo 3 "em ti serão
benditas todas as famílias de ha adamah”. Os grupos menores, os grupos
maiores, todas as famílias da terra vão receber bênçãos através dele. Ago-
ra não tenho tempo para discutir se esta forma de niphal do verbo barak
aqui no verso 3 é passiva ou reflexiva. Algumas pessoas traduzem-na por
"e essas nações se abençoarão em ti". Voz reflexiva, que a forma do verbo
niphal muitas vezes transmite. Mas pode também transmitir um sentido
passivo — "e elas serão abençoadas". Se você acredita que esse verbo
transmite o aspecto reflexivo, isso impõe a obrigação sobre as pessoas
quanto à forma que se relacionam com Abrão. O texto diz que se amaldi-
çoarem Abraão, serão amaldiçoadas. Isso indicaria que Deus coloca uma
certa quantidade de responsabilidade sobre as nações quanto a realizar e
manter um relacionamento adequado com Abrão. As nações devem a
Abraão um reconhecimento. Claro, isso exigia de Abrão que obedecesse às
condições estabelecidas em Gênesis 17. Ele tinha que andar com Deus. Ele
tinha que ser perfeito e completo. Deixe-me colocar desta forma: Acho
que Deus vai trazer juízo sobre muitas pessoas que zombam da igreja e
zombam do povo de Deus, mas eu acho que às vezes o povo da igreja tem
tanta culpa quanto os outros por causa do modo de viver e agir. O povo de
Deus não age sempre com um tipo de comportamento que mereça respei-
to e honra.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 53

Lemos no verso 4 do capítulo 12 que Abrão saiu de acordo com a palavra


que Deus lhe deu. Dumbrell enfatiza muito essa passagem, porque ele diz
que aqui temos o coração da Aliança de Deus com Abraão. Outros escrito-
res têm colocado uma ênfase maior em Gênesis 15 e 17. Alguns estudiosos
colocam uma ênfase nesta passagem (capítulo 12) e outros não. Acho que
a diferença básica é que muitas pessoas não conseguiram ver o mandato
missionário do Antigo Testamento tão claramente como deveriam. Gêne-
sis 12.1-3 contém o mandato missionário do Antigo Testamento. Deus
chamou Abrão para deixar seu povo e para servir as nações. No contexto
do Reino cósmico de Deus, Deus disse a Abrão para deixar de viver em um
canto da terra e viver no centro das nações.
Gênesis 14 nos diz como Abraão foi ao Egito, e como Deus o trouxe de vol-
ta e como Ló teve que ser separado. Então, em Gênesis 15, depois de todas
essas coisas, Deus veio a Abrão disse: "Não temas." Essa passagem em Gê-
nesis 15 é particularmente captada no Novo Testamento. A razão pela
qual eu li João 8 é porque cita Gênesis 15 e 17 onde a ideia da semente tor-
na-se tão proeminente. O Novo Testamento nos ajuda a focar este concei-
to de semente. Gálatas 3.29 nos diz que aqueles que pertencem a Cristo
são a semente de Abraão. Nos versos de João 8, que li para você, Jesus está
tentando conseguir que as pessoas acreditem nele, para que provem que
são realmente semente de Abraão.
Algo que realmente se destaca em Gênesis 15 é a continuidade da linha-
gem da semente. Abrão não tinha seu próprio filho. Ainda assim Deus ha-
via lhe prometido que se tornaria uma grande nação. Deus vem ter com
ele e diz, "Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo
grande." Abrão respondeu: "SENHOR Deus, que me haverás de dar, se continuo
sem filhos e o herdeiro da minha casa é o damasceno Eliezer?" Deus diz: "A isto
respondeu logo o SENHOR, dizendo: Não será esse o teu herdeiro; mas aquele que
será gerado de ti será o teu herdeiro. Então, conduziu-o até fora e disse: Olha para
os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteri-
dade”. Então vemos a continuidade da semente nesta passagem, e também
vemos três conceitos muito importantes nas Escrituras: fé, justiça e obe-
diência. Lemos que quando Deus disse: "Não será esse o teu herdeiro" Então
Abrão disse "Amém, que assim seja, SENHOR, eu tenho confiança em ti."
Isso lhe foi imputado para justiça. Já vimos antes a palavra "justo". É um
conceito tão rico que deveríamos tomar um momento para lidar com ela.
A palavra tzedek, "justo", aparece em vários contextos diferentes. Às vezes
ela aparece como um substantivo masculino, às vezes como um substanti-
vo feminino e às vezes como um verbo. Eu mencionei antes que Dumbrell
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 54

a entende como um termo da relação, e quando é usada a palavra tzedek,


uma relação viva é básica e fundamental. No entanto, a palavra não é usa-
da sempre da mesma forma. Às vezes a justiça vem no contexto de uma
declaração, onde Deus declara alguém justo. Outras vezes, a palavra apa-
rece em um cenário quando Deus imputa a justiça a alguém. Ainda outras
definições, a referência é a quem se torna justo. E se alguém se torna justo,
é justo. É neste sentido que o termo é usado quando a Bíblia fala de Noé
sendo justo. Ele exibe ou ele mostra – ele externa – sua justiça.
Não há dúvida que esta justiça é a fonte da relação. Tudo depende da ação
soberana de Deus, mas a declaração de Deus de que somos justos nunca é
separada do ato de fé. A fé não é meritória; fé é o contexto. Temos de fazer
uma distinção entre a contingência e a condicionalidade. Nossa fé não é
condicional. Quando acreditamos, Deus justifica, porque Deus nos dá a
capacidade de acreditar. Deus dá o Espírito, que nos faz crer. O ponto que
eu quero destacar agora é que a declaração, a Palavra de Deus, é primária,
fundamental e básica. Quando Deus declara, sua palavra é eficaz e imputa
justiça. No caso de Abrão, Deus lhe disse: "Abrão, declaro-te justo comigo.
O relacionamento correto é restaurado. Você se tornou justo e você está
agora dentro da minha vontade". E foi quando disse, "Amém, Senhor",
que Abrão recebeu a garantia de que foi declarado justo. Agora, claro, a
questão que se levanta é se ele irá exibir essa justiça.
Neste capítulo, há a cerimônia que lida com o corte dos animais. Deus
usou esta cerimônia semita para dar a Abrão a garantia de que o que ele
disse sobre a terra seria cumprido. Deus disse a Abraão, com efeito, "Você
sempre terá um lugar para servir. Eu sou o Senhor das Nações e o grande
Rei da criação. Eu tenho um lugar para você e você sempre terá um lugar".
A terra é secundária à promessa da semente. A importância da terra é que
a semente de Abrão terá sempre um lugar para trabalhar e para viver e
para influenciar as nações vizinhas. Assim, por promessa Pactual de Deus,
Abrão recebe a garantia não só sobre a sua família, mas também sobre o
lugar que será deles. A própria terra, no entanto, não deve ser vista como
a coisa mais importante. Você pode obter essa impressão hoje quando vo-
cê lê sobre todas as lutas por terra que está ocorrendo na Palestina. Ob-
serve que Abrão mesmo nunca teve mais do que um lugar para ser sepul-
tado. Deus não lhe deu imediatamente todo o Oriente Médio. Em vez disso,
Deus começou seu trabalho com a semente porque essa semente é primá-
ria e fundamental. A linhagem mediatorial é o que Deus queria trabalhar
com Abrão, então esta cerimônia dá a Abrão a garantia sobre a terra. A
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 55

garantia sobre a terra existe porque Deus tinham dito que Abrão se torna-
ria um povo muito numeroso.
Também quero salientar que a terra que Deus prometeu a Abraão era do
Rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates. Quando Davi foi rei e seu filho,
Salomão, o sucedeu, isso foi exatamente até aonde o reino davídico e sa-
lomônico se estendeu. Deus cumpriu a sua promessa no início da monar-
quia. Há pessoas hoje que dizem que Deus ainda tem que cumprir sua
promessa de dar essa grande área de terra ao seu povo, mas Deus já fez
isso. Leia o Salmo 72 e leia os registros do quanto o reino de Davi e de Sa-
lomão foi estendido. A promessa da terra em Gênesis 15 foi cumprida.
Então em Gênesis 16, o capítulo que trata das sementes, Abrão deu ouvido
à sua esposa, como Adão deu ouvido a Eva. Sara disse, "aqui está a minha
escrava, a egípcia. Eu estou ficando velha demais para ter um filho e nós
temos que ter um menino, porque muita coisa depende disso". Abrão es-
tava pronto para ouvir a sua esposa. Talvez Hagar fosse uma jovem bonita
também. Abrão a engravidou e Ismael nasceu, e hoje temos ainda a luta
árabe-judaica entre os descendentes de Ismael e Isaque. Não devemos
culpar a Sara somente. Abrão sabia bem, mas ele disse, "pelo menos agora
eu tenho um filho, Ismael."
O capítulo 17 ocorre quando Abraão está com 99 anos de idade, 13 anos
depois de Ismael nascer. Deus veio a Abrão e disse: "Eu sou o Deus Todo-
Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito". A primeira coisa que Deus faz
revelar o seu nome, o El-Shaddai. (Vos lida com os nomes de Deus, e eu su-
giro que você observe as distinções entre El-Elyon, Elohim, El-Shaddai e, na-
turalmente, o nome redentor de Deus, Yahweh). Deus veio a Abrão e disse:
"Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito." Deus vem
para retirá-lo de sua pecaminosidade e desobediência. Algumas pessoas
traduzem o "comigo” por “diante de minha face”, mas também pode sig-
nificar "na minha presença". Deus diz a Abrão para fazer exatamente o que
lemos que Enoque tinha feito e o que Noé tinha feito. Deus diz a Abrão
para "ser como Enoque e ser como Noé. Anda comigo. Eu levantarei você
e eu continuarei a ser com você".
Então Deus diz a Abrão para ser thamim — "inteiro, sem culpa." Deus não
quer que alguém seja capaz de culpar Abrão. Eles podiam fazer isso por
causa da maneira que Abrão tinha tratado com Agar. Deus diz, "você tem
um problema real em sua casa com Ismael. Agar e Sara não se dão bem. Se
você tivesse andado comigo, isso não teria acontecido". Então Deus vem
com sua estipulação e diz a Abrão que tem uma demanda ética. Em segui-
da, no verso 2 Deus dá suas promessas. O verbo é nathan, que basicamente
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula V 56

significa “dar”. Deus dá graciosamente sua aliança a Abrão no contexto de


sua desobediência com Agar. Deus então diz: "Estabelecerei a minha aliança
entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpé-
tua, para ser o teu Deus e da tua descendência". Ele promete mais uma vez que
Abraão se tornará bimeod meod — "muito, muito grande." Deus reitera a
promessa da semente a Abrão ao dizer que ele não vai usar Eliezer ou Is-
mael. Deus continua no controle soberano da vida de Abrão e a resposta
de Abrão foi prostrar-se perante o Senhor em adoração. Creio que esta
resposta toma o lugar de um juramento.
Às vezes quando um pacto era feito, havia algum tipo de juramento, mas
Abrão nem tenta fazer um juramento. Ele se prostra diante de Deus. A
partir daí Abrão tornou-se um homem de fé, um homem de obediência,
um homem de vida ética. A Aliança foi confirmada. Considerando que,
antes, tinha o sangue de um animal a ser derramado, agora é o sangue
humano que precisa ser derramado para confirmar a aliança pela circun-
cisão. A circuncisão indica limpeza e descendência (isso está em Josué 5),
e é por isso que nos círculos presbiterianos reformados, falamos do ba-
tismo, tomando o lugar da circuncisão, porque o batismo purifica e afasta
do pecado. Assim a circuncisão falava de afastar o pecado, porque é disso
que Abrão precisava. Deus disse que o passado de Abraão foi colocado de
lado e foram separadas as crianças e todos aqueles que estavam sob o con-
trole de Abraão foram circuncidados. Tanto Vos quanto Robertson tem
discussões sobre isso nos textos de leitura prévia para este módulo.
Esta passagem contém a ratificação e o selo juntos, assim como o tema da
eleição. Observe que Abraão novamente tenta colocar Ismael como her-
deiro da promessa, mas Deus diz, "não, eu vou lhe dar Isaque. Vou lhe dar
um menino e não será Ismael, mas também reclamo Ismael". Ismael tinha
que ser circuncidado, porque ele era filho de Abrão, Ismael não foi expul-
so ou rejeitado, mas também recebeu o sinal da Aliança.
Obediência a Deus, o soberano Rei, foi a exigência absoluta. Deus deu a
Abrão a graça de obedecer e graciosamente continuou a sua aliança com
Abrão. Na próxima aula vamos concluir nossa discussão sobre Abraão e
passar a discutir, Isaque e Jacó.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 57

AULA VI
PATRIARCAS, II

Eu quero ler Hebreus 11 sobre quatro patriarcas que discutiremos hoje.


Hebreus 11.17-22 diz:
Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque;
estava mesmo para sacrificar o seu unigênito
aquele que acolheu alegremente as promessas,
a quem se tinha dito:
Em Isaque será chamada a tua descendência;
porque considerou que Deus era poderoso
até para ressuscitá-lo dentre os mortos,
de onde também, figuradamente, o recobrou.
Pela fé, igualmente Isaque abençoou a Jacó e a Esaú,
acerca de coisas que ainda estavam para vir.
Pela fé, Jacó, quando estava para morrer,
abençoou cada um dos filhos de José e,
apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou.
Pela fé, José, próximo do seu fim,
fez menção do êxodo dos filhos de Israel,
bem como deu ordens quanto aos seus próprios ossos.
(Hb 11.17-22 ARA)
É interessante perceber que o escritor aos Hebreus tenha escolhido escre-
ver sobre certas coisas que um teólogo bíblico pode mencionar como os
primeiros indicadores da fé patriarcal. Quero lembrá-los de que existem
detalhes nas Escrituras que podemos passar ao longo de um curso, como
este em que estamos tentando enfatizar alguns pontos principais, mas
não quero dar a impressão de que Hebreus se refere a pequenos detalhes
na vida dessas pessoas. O livro de Hebreus explica que estes quatro patri-
arcas, como você pode ver, são homens de fé. Hebreus é o grande livro do
Novo Testamento de vida Pactual — a observância à aliança de Deus e de
como as pessoas reagiram e responderam a Deus. "Pela fé Abrão... pela fé
Isaque... pela fé Jacó... pela fé José..." — esses homens eram crentes nas pro-
messas. Eles eram agentes da bênção. Tenha sempre isso em mente quan-
do pensar nesses homens. Ao pregar e ensinar, não os use apenas como
exemplos, mas ensine e pregue sobre eles como instrumentos de Deus
usados para nos revelar vida que Deus exige de nós. Oremos:
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 58

Senhor, nosso Deus,


quando reiniciamos nosso estudo,
oramos para que nos abençoe, nos defenda, sustente e fortaleça.
Senhor, tu sabes o de que precisamos.
Somos gratos pelas misericórdias que tens nos mostrado nesta semana.
Somos gratos por toda a tua bondade e graça.
Deus, como tu és bom para conosco. Agradecemos.
Por favor, sê conosco agora. Em nome de Jesus, Amém.

Em nossa última aula, iniciamos nossa discussão dos patriarcas. Lidamos


com Abraão — seu contexto, sua chamada em Gênesis 12, Deus fazendo
uma aliança com ele em Gênesis 15 e Deus, sendo mais especifico, na ali-
ança de Gênesis 17. Agora, quero continuar com Abraão e também ir para
seu filho, neto e bisneto.
Abraão deve ser visto como um mediador do Aliança. Depois que Deus fez
Aliança com ele, Abrão passou a seu um mediador de Deus. Lemos na pri-
meira parte de Gênesis 18 sobre a promessa do nascimento de Isaque. Vo-
cê está familiarizado com a história de Sara, rindo e depois negando que
riu, após ouvir a promessa de que teria um filho, Isaque. Essa promessa foi
dada no capítulo 18 e em seguida o texto prossegue dizendo que o Anjo do
Senhor (que era um dos três homens que deram a promessa sobre Isaque)
falou sobre Sodoma e Gomorra e o Anjo do Senhor permaneceu com
Abraão, enquanto os dois anjos se dirigiram às cidades. Eu gostaria que
houvesse mais detalhes nos capítulos 18 e 19, mas temos detalhes sufici-
entes para saber que Abraão entendeu que a condenação cairia sobre as
cidades da planície, na extremidade inferior do Mar Morto. Abraão sabia
que Ló estava lá, mas Abraão não mencionou Ló. Abrão orou pelos justos:
"Deus, se essas cinco cidades tiverem 50 pessoas justas, não pouparás o lugar por
causa de 50 justos"? Abraão é um mediador. Ele orou corajosa, consistente e
persistentemente até chegar a um número muito baixo. Ele orou por Ló e
sua família. Curiosamente, ele não pediu por quatro pessoas — Ló, sua es-
posa e duas filhas — mas ele intercedeu por Ló e pelo menos por mais al-
guns. A cada vez Deus respondia à ação mediadora de Abraão e dizia, "Sim,
pouparei." A oração mediadora é muito eficaz, não porque ele está orando,
mas quando ele está orando. Essa é a diferença entre condicionalidade e
contingência. Quando oramos como pais da Aliança, irmãos e irmãs e fi-
lhos, Deus promete ouvir.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 59

É incrível como Deus respondeu a oração mediadora de Abraão. Notamos


também que Abraão teve de orar a favor de Abimeleque, quando em um
sentido real, o próprio Abraão era o culpado. Encontramos essa história
em Gênesis 20. Abraão se encontra frente a frente com a figura real de
Abimeleque, rei dos filisteus, e Abraão mente de novo com respeito à sua
mulher. Abimeleque recebe o flagelo de Deus por tomar a esposa de outro
homem, e em seguida Abraão é chamado para mediar a situação que ele
havia suscitado. Ele fez a mediação efetivamente, agora em um cenário
real. Ele suplica em favor do rei. Abraão devia ser uma bênção para os reis
e as nações. Embora ele não funcionasse muito efetivamente em sua situ-
ação de vida, ele mediou através da sua oração novamente. Em Gênesis 20,
vemo-lo como um sacerdote orando e suplicando no contexto real.
No capítulo 21, vemos Abraão no contexto de Ismael e Isaque. Isaque nas-
ce nos primeiros versos do capítulo 21 e em seguida, vemos a luta que se
desenvolveu entre Ismael e Isaque. É interessante que Abraão tem agora
que mediar, mas seu papel de mediador não lhe traz muito conforto. Ele
vai mandar um de seus filhos embora, mas ele o manda embora com a
bênção de Deus. Ele atua como mediador em nome de Ismael.
Eu me lembro de um pastor que chegou à nossa classe de Bíblia um dia
parecendo muito cansado. Não tinha dormido muito bem na noite anteri-
or. Alguém perguntou: "Pastor, não se sente bem?" Então ele disse ter
passado a noite acordado, conversando com um de seus filhos e orando
com ele e orando por ele. Outra pessoa perguntou, "você estaria melhor
se tivesse ido para a cama e dormido um pouco?" Esse pastor disse que
não. Não, quando há um filho que precisa de oração por causa de dificul-
dades e tensões em sua vida. O pai disse que se sentia um pouco culpado
por ter estado tão ocupado, como pastor, que não passou tempo suficiente
com o filho. Esse filho era um jovem que era apenas alguns anos mais ve-
lho do que nós. Sabíamos que ele era um imprestável. Por exemplo, ele
arrombou o armário de Igreja e roubou o vinho da comunhão. Nunca vou
esquecer do exemplo do pastor que desistiu da noite de sono para orar
por um filho que precisava de oração. Isso é mediação paterna pactual.
Não é fácil, em nenhum sentido, mas é necessário. Deus nos ensina atra-
vés de Abraão que a mediação pactual pode ser eficaz.
Também lemos que Abraão era fiel na vida Pactual. Há duas passagens em
particular que devemos mencionar brevemente. A primeira é Gênesis 22,
quando Deus diz a Abraão para sacrificar o seu filho, seu único filho, o fi-
lho da promessa. Lembre-se de como Hebreus 11 refere-se a isso. Através
desse filho, a promessa de uma semente numerosa viria tornar-se realida-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 60

de, mas Deus agora diz a Abraão: Toma Isaque, teu único filho, e então
vemos esta pequena frase novamente, lech lecha. Esta é a forma imperativa
de halach, e pode significar "vá sozinho". Não leve a sua esposa, não leve
Eliezer, seu principal servo, vá sozinho. Da mesma forma que ele teve que
sair de Ur dos caldeus e de Hebron, agora Abraão tinha que ir sozinho no-
vamente, mas dessa vez ele deve levar com ele seu filho Isaque e oferece-
lo em sacrifício.
O problema do sacrifício de criança é discutido em muitos comentários
críticos e teológicos. Sacrifício de criança era muito comum naqueles dias,
e Abraão, sem dúvida, sabia o que era sacrificar uma criança. Lemos que
Abraão não discutiu, mas tinha fé que Deus podia ressuscitar dos mortos o
filho que ele tinha dito a Abraão para condenar à morte. Afinal, Isaque
seria um filho ressuscitado de entre os mortos? Sara tinha rido, dizendo:
"Será verdade que darei ainda à luz, sendo velha? (Gn 18.13 ARA)?" Então Isaque
nasceu, metaforicamente falando, de um ventre morto. Ele era uma crian-
ça milagrosa. Se Deus podia trazer uma criança vinda de pais daquela ida-
de, Deus poderia também ressuscitá-la de um altar onde tinha sido der-
ramado seu sangue. Esse é o teste de fé.
Vocês sabem que eu sou um pai de oito filhos, seis filhos e duas filhas.
Nunca me esquecerei de quando éramos missionários na Austrália e o
nosso filho mais velho, que tinha 15 anos de idade na época, disse-me que
queria ir para uma escola cristã e uma faculdade cristã nos Estados Unidos.
Naquela época, meus seis filhos levantavam todas as manhãs às 5h30 e
iam para um ginásio local para se exercitarem juntos. O homem da Aca-
demia achava maravilhoso a chegada de alguém com seus seis filhos. Meu
filho mais novo de Chuck tinha apenas quatro anos de idade na época e
íamos todos, através de um programa, juntos, exercitar nossos músculos
em todas as máquinas diferentes e depois nadávamos por 30 minutos; as
taxas da academia eram muito baratas, desde que fôssemos uma família.
Um dia eu disse ao homem que o nosso filho mais velho estava saindo e
ele quase chorou. Ele disse, "Eu tenho me gabado dessa linda família, o pai
com os seis rapazes chegando", e eu disse, "cara, você vai me fazer chorar
se você falar mais sobre isso." No último domingo, quando poderíamos ir
à igreja e prestar culto juntos antes de levar meu filho para o aeroporto de
Sydney, para ele voar para São Francisco, para viver com meu irmão e
terminar o colégio cristão lá, não pudemos ficar na igreja. Foi muito dolo-
roso. É difícil desistir. É difícil separar. É difícil dizer adeus, mas para o
bem do Senhor, talvez tenhamos que fazer algumas dessas coisas, não só
como missionários, mas também em outras situações. O Senhor abençoou
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 61

essa decisão: esse filho é ministro muito eficaz agora em Iowa Noroeste.
Nós somos gratos por isso. Era difícil ser um pai Pactual como Abrão teve
que ser, mas a fé, de acordo com as Escrituras, prevaleceu.
Deus dá a fé. Deus nos dá a força e a coragem de viver pela fé, indepen-
dentemente de quão precioso, algo seja para nós. Prove-o. Ele não vai fa-
lhar.
Eu completarei 69 anos de idade em algumas semanas. Podia dar-lhe mi-
nha história de vida; é uma história do Deus que nunca falha. Como missi-
onário, viemos para o Brasil. Passamos algum tempo na Nigéria e na Nova
Zelândia. Viajamos por Singapura, Hong Kong e Japão. Em todos os luga-
res, Deus nos guardava e nos abençoava. Às vezes tem sido doloroso para
nós, como pais, saber que nossa filha mais velha e seis dos nossos netos
vivem na Austrália. Nossa filha mais velha ficou na Austrália, mas ela foi
capaz de continuar lá o trabalho que a minha esposa começou. Na Igreja
Cristã Reformada, temos um ministério de mulheres chamado de Calvine-
ttes. Minha esposa ajudou a implantar esse programa lá e hoje, minha fi-
lha é a líder internacional entre Austrália e Nova Zelândia. É uma bela
obra cristã que minha esposa iniciou. É incrível como Deus trabalha. Se
nós, como pais somos fiéis como Abraão, com coragem para reivindicar as
promessas de Deus (e isso exige muita coragem), Deus abençoa nossas fa-
mílias.
Deus não exigiu, no final, que Abraão matasse Isaque. Algumas pessoas
dizem que Isaque sobre o altar era um tipo de Cristo, mas Isaque realmen-
te não era o tipo de Cristo nesse exemplo. Pelo contrário, foi o cordeiro
que foi pego no arbusto espinhoso. O cordeiro foi sacrificado no lugar de
Isaque. Agora, em algum sentido, Isaque poderia ser chamado de um
exemplo de como Cristo, mais tarde, foi levado à Cruz — como Isaías diria,
como uma ovelha levada para o tosquiador. Isaque disse: "pai, onde está o
cordeiro?" Abraão disse: "Deus proverá". Quando Abraão colocou Isaque
sobre o altar, não há nenhuma indicação no texto de que Isaque tenha
protestado. Como veremos em instantes, Isaque foi um tipo passivo, mas
então Deus providenciou uma saída — o cordeiro que se tornou o sacrifí-
cio substitutivo. Isaque permaneceu vivo e Abraão alegrou-se porque
Deus providenciou um substituto, como Abraão teve fé para acreditar.
Isso é vida Pactual.
Vejam Gênesis 26. Muitas vezes lemos que a aliança com Abraão foi um
pacto de promessa, que a aliança com Moisés foi um pacto de obras e lei.
Alguns estudiosos fazem uma distinção entre um pacto de lei e um pacto
de promessa, mas a Aliança da graça contém ambas dimensões. Para ilus-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 62

trar isso, quero salientar que quando começa a história de Isaque, Deus
disse em 26.5: "porque Abraão obedeceu à minha palavra e guardou os meus
mandados, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis". Essas são as
quatro condições básicas que você encontra mais tarde no Pentateuco e
no Salmo 119, para referir-se à vontade de Deus, como formulada dentro
de uma configuração jurídica — documentos legais, estatutos, decretos,
juízos. Quatro termos básicos, portanto, que são usados mais tarde estão
aqui — requisitos, mandamentos, decretos e leis. Abraão obedeceu-os. Não
lemos nada no registro da vida de Abraão que Deus já houvesse lhe dado a
lei. Se Deus verbalizou a lei a Abraão, as Escrituras não registram isso,
Abraão conhecia os requisitos de Deus, seus mandamentos, seus estatutos
e ordenanças, e ele os guardava. Isso fazia parte da Aliança da graça. Graça
e lei nunca são antitéticos. Redenção e obediência estão em perfeita har-
monia. Graça e redenção andam juntos, assim como graça e obediência,
graça e justiça. Sem a lei, não há nenhuma justiça a ser conhecida. Abraão
tinha muitas falhas e fraquezas. Ele mentiu sobre sua esposa duas vezes —
no Egito e ao rei filisteu. Ele tomou Agar como sua concubina. Ele sentiu
medo depois de ter conquistado cinco reis do Norte em Gênesis 14. Ele
tinha fraquezas. Ele era humano. Mas quando tudo é dito e feito, aqui es-
tava um homem de aliança que viveu obedientemente. É por isso que
Abrão podia servir como o pai dos crentes, como o mediador que ficava na
linha entre Adão, Noé e o Senhor Jesus Cristo. Abraão é um tipo de Cristo,
um precursor de Cristo.
Para resumir a nossa discussão da Aliança Abraâmica: primeiro, falamos
sobre o contexto cósmico. No contexto do Reino cósmico, Abraão recebe a
promessa da terra e prospera materialmente. Muitas vezes, quando você
escuta determinados grupos de cristãos, você tem a impressão de que
quanto mais pobre você é mais abençoada é sua vida. Mas as escrituras
falam de Abraão como um homem rico. Deus o fez prosperar e deu tudo o
que ele precisava para poder viver fiel e frutiferamente e ser uma bênção,
não só pela sua vida Pactual, mas também pela sua doação Pactual. Não é
possível ser um doador Pactual se você primeiro não receber do Senhor. O
problema é que muitas pessoas recebem, mas depois não dão.
Vemos também Abraão no cenário cósmico, interagindo com as nações.
De acordo com Gênesis 12, era algo que tinha que fazer. Ele teve a oportu-
nidade de interagir com as nações quando intercedeu por Sodoma e Go-
morra e as outras cidades, quando intercedeu por Abimeleque, e também
quando foi para o Egito. Ele tratou com os cinco reis da terra. No cenário
cósmico, Abraão teve a oportunidade de interagir e ser uma influência.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 63

Quero salientar particularmente que Abraão foi muitas vezes chamado de


o pai do Pacto da Graça. Quando Deus fez Aliança com Abraão, ele alargou,
sobre vários aspectos, a Aliança. Esses novos elementos da Aliança inclui-
riam a terra, a estipulação de Gênesis 17.1, o juramento, o rito da circunci-
são e o cordeiro substituto. Há dois elementos que eu quero salientar par-
ticularmente aqui: o papel do mediador e a centralidade do conceito de
semente. O conceito mais central não é a terra, nem mesmo a fé abraâmi-
ca, mas a semente. Ao longo de Gênesis 12, 15, 17, 22 e 26, o conceito da
semente continua a emergir como um tema central.
Em nossa última aula, rastreamos o conceito da semente de Adão de Sete
a Noé e a Abraão. O conceito central aqui é a promessa a Adão e Eva no
jardim da semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente; o resto
é um papel de apoio. Por esse motivo, as pessoas que colocam uma ênfase
forte sobre o pacto frequentemente também são pessoas que colocam
uma ênfase forte na descendência e na família. Os assuntos de circuncisão
e o batismo se relacionam com isso também.

Meu próximo e último ponto sobre este tema é a dimensão universal da


Aliança. Apesar de Abraão ter sido escolhido individual e particularmente,
ele foi eleito, indicado e qualificado para servir em nome de todas as na-
ções — todo o universo. Ele era para ser um servo universal. Passemos a
Gênesis 26, onde começamos a seguir o pacto com Isaque. Referimos já ao
seu nascimento milagroso e ao fato de que ele foi poupado de ser sacrifi-
cado. Em Gênesis 26, Deus diz a Isaque para permanecer na terra. Havia
uma fome e Isaque estava pensando em ir para o Egito, mas Deus diz-lhe
para ficar na terra. Vou ler os versos 3 e 4:
Habita nela, e serei contigo e te abençoarei;
porque a ti e a tua descendência darei todas estas terras
e confirmarei o juramento que fiz a Abraão, teu pai.
Multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus
e lhe darei todas estas terras.
Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra (Gn 26.3-4 ARA).
Deus aqui repete os elementos mais importantes da Aliança com Abraão e
diz Isaque que a Aliança continua com ele. Algumas pessoas falam sobre
"alianças", no plural, mas aqui nós vemos que é a mesma aliança de gera-
ção em geração. A dimensão redentora da Aliança dentro do ambiente
cósmico continua de Adão e Eva a Noé, a Abraão e agora a Isaque. A Isaque,
não foram dadas quaisquer novas estipulações, porque quando Deus diz a
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 64

Isaque, "porque teu pai fez isso, minha Aliança é contigo", certamente
está implícito que se esperava de Isaque que vivesse como seu pai tinha
vivido. Em resposta a Deus, continuando a sua Aliança, Isaque tinha que
ser um homem obediente também.
Na vida de Isaque, vemos o princípio da eleição. Vemos esse princípio da
eleição quando Rebeca estava grávida e há uma contenda em seu ventre.
Ela pergunta ao Senhor, por que isso está acontecendo, e Deus diz a ela
que duas nações estão lutando no seu ventre; o mais novo será o escolhido
e o mais velho servirá ao mais jovem. Não foi por causa do mérito de Jacó,
naquilo que ele fez mais tarde. Isso é estritamente de acordo com a von-
tade soberana de Deus antes de eles nascerem. No Novo Testamento, en-
contramos uma reflexão sobre isso na carta de Paulo aos Romanos. Antes
que fossem capazes de fazer o bem ou o mal, Deus escolheu a Jacó. Ele
nasceu segurando o calcanhar de Esaú; é por isso que ele foi chamado
Ya'akov. O verbo do qual vem o nome significa "enganar", mas ele foi o
escolhido. Existe o princípio da eleição e Isaque tinha dificuldades em en-
tender isso. Mas Isaque, sendo um homem passivo, não interveio muito
fortemente. Mais uma vez, vemos uma mulher tendo um papel dominante,
quando Rebeca ajuda Jacó a tirar do irmão o direito de primogenitura.
Isaque foi passivo tomar uma mulher como esposa. Isaque é muito passivo
ao conceder o direito de primogenitura Pactual a ser repassado.
Gostei de ler o que Vos disse sobre o papel passivo de Isaque. Deus pode e
usa pessoas passivas, bem como pessoas ativas. Vi isso muitas vezes em
minha vida. Estou inclinado a ser uma pessoa ativa, mas Deus tem usado
algumas pessoas passivas de forma poderosa. Quando eu digo "passiva"
não significa "preguiçosa" — há uma diferença — mas passivo no sentido
de apenas sentar e ser usado quando é hora de ser usado. Isso também é
parte da vida Pactual.
Passamos de Isaque para Jacó. Novamente em Gênesis 28, vemos o princí-
pio da eleição, porque Deus vem a Jacó, depois Jacó enganou seu pai com a
ajuda de sua mãe. Ele teve que fugir para salvar sua vida, para se livrar de
Esaú. Jacó tem um sonho em Betel. Enquanto ele está dormindo com a ca-
beça sobre uma pedra, ele vê uma escada, descansando sobre a terra e
chegando ao céu. Anjos de Deus subiam e desciam sobre ela. (Jesus se re-
fere a esta passagem no evangelho de João). Genesis 28.13-15 diz:
Perto dele estava o SENHOR e lhe disse:
Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque.
A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência.
A tua descendência será como o pó da terra;
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 65

estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul.


Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra.
Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores,
e te farei voltar a esta terra, porque te não desampararei,
até cumprir eu aquilo que te hei referido (Gn 28.13-15 ARA.
Deus tinha dito isto em Gênesis 17 a Abraão. Ele disse em Gênesis 26 a Isa-
que, e agora ele diz a Jacó, o enganador, que estava fugindo por sua vida:
"você é meu, eu escolhi você. Não vou deixar você. Eu não vou abandoná-
lo. Eu irei aonde quer que vá, apesar de tudo o que você tem dito e feito.
Estarei com você aonde quer que você vá e o trarei de volta a esta terra.
Não deixarei você até eu ter feito o que prometi." Aqui você tem Deus
continuando a trabalhar a sua eleição, apesar da personagem de Jacó.
Eleição não vem por mérito.
Temos de gastar algum tempo agora olhando a resposta de Jacó a Deus.
Em Gênesis 28.20, lemos "Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comi-
go, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa
que me vista. Se entendermos a tradução de im como “se”, então Jacó está
fazendo um acordo com Deus — "Se Deus me trouxer de volta, se me fizer
prosperar, se ele me der a terra, então lhe darei um décimo." Contudo,
essa pequena conjunção "se" tem outras traduções possíveis. Há um nú-
mero de casos quando im é interpretado temporalmente ao invés de con-
dicionalmente. Então o texto seria: "quando Deus fizer isso, então eu serei
capaz de dar-lhe um décimo. Enquanto Deus não encher a minha mão,
não posso dar um décimo do que ele colocou nela." Se entendermos assim,
Jacó não está fazendo um acordo com Deus. Ele está dando uma resposta
adequada e obediente a Deus, e Deus o abençoa.
Lemos em Genesis 29.31 a 30.24 que Jacob é abençoado. Ele não tem que se
preocupar sobre não ser capaz de ter um filho. Logo, ele tem 12. Deus o
abençoa com filhos. Você encontrará esses filhos listados em Gênesis
35.23-26. Deus, com certeza, mantém a promessa da semente, o que, de
certa forma, torna-se o fator dominante na história de Jacó. Deus fornece
continuidade, dando-lhe 12 filhos, e a semente continua. Mas voltando a
Gênesis 30.25-43, lemos também como Deus abençoou Jacó ricamente de
outra forma, em um cenário que se pode dizer bastante duvidoso.
Eu me lembro de um professor na faculdade Calvin que disse com refe-
rência a este incidente, que o enganador foi enganado, mas de qualquer
forma foi abençoado. Jacó que colocou varas na frente dos animais, pen-
sando que poderia controlar como seriam quando nascessem. Genética-
mente, biológica e cientificamente isso não faz sentido. Jacó fez isso, mas
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 66

Deus o abençoou de qualquer maneira. O princípio da eleição significa que


Deus manteve sua promessa apesar da personagem de Jacó. Jacó estava
tentando enganar o seu sogro, Labão, mas Deus o abençoou apesar disso.
A lição não é que podemos sair enganando as pessoas e então Deus fará
tudo funcionar bem. De modo algum! Pelo contrário, a história de Jacó é a
história de um personagem difícil, muito ativo, às vezes muito duvidoso,
que se torna o pai da nação de Israel, do qual o Cristo viria. Deus o fez
prosperar, mas Jacó teve que passar por testes também. Um grande teste
foi quando Jacó lutou com o Anjo do Senhor em Peniel. Deus humilhou
Jacó, vindo a ele face a face como o Anjo do Senhor (estou convencido de
que esta é a segunda pessoa da Trindade), mas Jacó era um poderoso
guerreiro. Ele disse: "Eu não te deixarei ir, a não ser que me abençoes."
Deus testou Jacó e Jacó passou no teste. Ele respondeu apropriadamente:
"Deus, se não me abençoar, não posso fazer nada." A batalha de Jacó foi
ganha no vau do Rio Jaboque.
Anos atrás levei um grupo de estudantes do seminário teológico reforma-
do para o Jordão e ficamos naquele mesmo lugar. O Rio Jaboque é só um
pequeno fluxo de água e um barranco, mas há uma placa que diz "o lugar
onde Jacó lutou com o Senhor." Tiramos uma foto desse sinal. Jacó foi tes-
tado no vau do Rio Jaboque, mas ele também foi testado no dia seguinte,
quando teve que encontrar Esaú, o homem a quem ele tinha enganado e
roubado.
Passando para a vida de José, não temos qualquer nova revelação específi-
ca na sua vida, mas muito do que Deus havia prometido a Abraão, Isaque e
Jacó cumpriu-se na vida de José. Na vida de José, vemos a demonstração
da soberania de Deus, a providência de Deus e a fidelidade de Deus. Além
disso, quero salientar mais três coisas. A primeira é a ênfase no conceito
de realeza. José era que um tipo de Cristo e José tipificou a dimensão real
do Cristo por vir. José, o mediador do pacto, era um mediador real, mas
divulgar a realeza do que ele sonhou custou-lhe a ira de seus irmãos, seu
sofrimento, sendo vendido, preso, tentado e acusado falsamente. Vemos
na vida de José, um quadro do sofrimento a fim de se tornar provedor real
e mediador. Em segundo lugar, quero enfatizar que José, embora seja um
tipo de mediador, não é um antepassado do Cristo por vir. Vemos aqui
uma clara distinção entre um tipo e um ancestral. Abraão era ancestral e
tipo. Falaremos mais sobre tipologia nas próximas aulas. Descendentes de
José, Efraim e Manassés, nunca se tornaram ancestrais de Cristo, mas em
sua posição como um homem da aliança, como uma pessoa real, ele cer-
tamente tipificou Cristo. De certa maneira, José foi a encarnação de Cristo
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VI 67

na terra. Foi José, que manteve o povo vivo. Foi a segunda pessoa da Trin-
dade, a grande redentora, proporcionando, uma defesa, que agiu através
de José. Da mesma forma, vamos ver como o Anjo do Senhor agiu através
de Moisés, quando ele, em algum sentido, encarna-se em Moisés.
Finalmente, quero salientar que Gênesis 48 e 49 são capítulos muito im-
portantes por causa das bênçãos que Jacó pronuncia profeticamente. Os
filhos de José não se tornam os portadores da linha da semente, e nem os
de Rúben, ou Simeão, ou Levi. Judá é o único. Jacó pode ter sido surpreen-
dido quando teve que apontar para Judá e dizer que ele, o quarto filho, é
quem iria continuar a realeza que José demonstrou tão lindamente.
Temos muito a aprender com os patriarcas da aliança. No entanto, quan-
do você prega e ensina sobre essas passagens, não preguem Abraão, mas
sim o Deus de Abraão e como ele usa e abençoa e prospera seus agentes da
Aliança. Deus em sua soberania, providência e fidelidade sempre usou seu
povo para realizar seus propósitos, e o objetivo maior de todos foi o Cristo
que viria.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 68

AULA VII
MOISÉS & ÊXODO

Eu quero ler Hebreus 11.23-26:


Pela fé, Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais, durante três meses,
porque viram que a criança era formosa;
também não ficaram amedrontados pelo decreto do rei.
Pela fé, Moisés, quando já homem feito,
recusou ser chamado filho da filha de Faraó,
preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus
a usufruir prazeres transitórios do pecado;
porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas
do que os tesouros do Egito,
porque contemplava o galardão (Hb 11.23-26 ARA).

Esse é um comentário de Êxodo 1 a 18. Se fôssemos ler Êxodo 1 a 18, sem


ler essa passagem, não poderíamos interpretá-la dessa forma. Na verdade,
muitos, muitos eruditos críticos certamente não podem. "Ele não era uma
criança normal... eles não tinham medo do decreto... ele se recusou a ser
conhecido como o filho da filha de Faraó... ele escolheu ser maltratado...
ele estava olhando para a frente, para a sua recompensa... considerava o
opróbrio de Cristo de maior valor." É interessante que, no livro de He-
breus, Moisés parece ser um homem do Novo Testamento. É assim que o
Novo Testamento nos diz para olhar para Moisés como o vemos no con-
texto do Antigo Testamento. Hoje vamos olhar para alguns dos elementos
específicos de Moisés e a revelação em Êxodo 1 a 18. Oremos:

Deus, nosso pai, dá-nos os olhos da fé, mentes que entendam


e corações que sejam iluminadas e incentivadas,
quando lemos tuas Escrituras e o modo como tens chamado, usado, e dado visão
a um dos teus servos que fica no centro da tua revelação do Antigo Testamento.
Deus, abençoa-nos aqui juntos.
Sê com aqueles que não estão com a gente. Sustenta-os.
Agradecemos-te pela saúde que nos dás.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 69

Continua a usar-nos em teu serviço, não importa como estejamos envolvidos.


Em nome de Jesus, Amém.

ÊXODO E GÊNESIS
Quero começar com cinco maneiras que o livro de Êxodo está conectado
ao livro de Gênesis. Muitos eruditos críticos negam haver uma conexão
real entre Gênesis e Êxodo. Falando em geral, algumas das escolas críticas
dos séculos 18 e 19 alegam que Moisés viveu depois dos profetas e que Gê-
nesis veio depois de Moisés, em termos das datas em que esses livros fo-
ram escritos. Se essa fosse, de fato, a ordem em que o material foi escrito,
alguém teria de ler os profetas primeiro porque eles teriam sido os ho-
mens que lançaram as bases para o povo desenvolver ou mesmo inventar
toda a história da origem de Israel e o Êxodo. De acordo com essa teoria,
eles queriam contar uma história da origem do povo de Israel, então to-
maram algumas tradições orais e teceram juntos as belas histórias patri-
arcais. Em seguida, alguns dos sacerdotes adicionaram Gênesis 1-11 como
material introdutório. Esses eruditos críticos do Antigo Testamento se
afastaram completamente do ensino do Antigo Testamento. Um homem
como Walter Eichrodt, por exemplo, que é muitas vezes considerado um
neo-conservador, neo-liberal ou neo-ortodoxo, aplica essa teoria em seus
dois volumes de Teologia Bíblica. O trabalho do Eichrodt contém muitas
grandes sacadas e boa exegese e eu aprendi muito com ele, mas ele acre-
dita que a revelação começa em Êxodo e que Gênesis 1-50 foi adicionado
como um prólogo mais tarde. O livro de Eichrodt ilustra a negação crítica
de uma conexão viva entre Gênesis e Êxodo.
Por outro lado, quero explicar que, para compreender o Êxodo, você deve
entender Gênesis, porque o Gênesis não é apenas um prólogo. Como já
vimos, Gênesis nos dá o contexto da criação, o restabelecimento disso
através de Noé e o modo como Deus fez aliança com seu povo, como ilus-
trado por suas relações com os patriarcas. Eu quero destacar especialmen-
te cinco conexões materiais, teológicas entre Gênesis e Êxodo.
Primeiro, há a frase "o Deus dos pais" em Êxodo 3 quando Deus fala
com Moisés. Em Êxodo 3.6, Deus diz a Moisés: "Eu sou o Deus de teu pai, o
Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó". Então em Êxodo 3.13, Moi-
sés diz a Deus: "Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus
de vossos pais me enviou a vós outros". Ele temia que eles não acreditassem
nele, então no verso 15, lemos: "Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás
aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 70

Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros". Vemos a mesma referência ao


Deus dos pais em Êxodo 5.4 e 6.3. O mesmo Deus que falou aos pais está
dizendo a Moisés para falar aos filhos daqueles pais.
Em segundo lugar, há referência à semente. Eu leio em Êxodo 1.6-7 "Fa-
leceu José, e todos os seus irmãos, e toda aquela geração. Mas os filhos de Israel
foram fecundos, e aumentaram muito, e se multiplicaram, e grandemente se for-
taleceram, de maneira que a terra se encheu deles". Esse verso nos diz não só
que o mandato da criação — "Crescei e multiplicai-vos" — estava sendo
cumprido, mas também que Deus estava cumprindo a promessa feita a
Abraão sobre uma numerosa semente. Quando Abraão questionava se ele
teria um filho, Deus lhe disse que sua descendência seria tão numerosa
quanto a areia do mar e as estrelas no céu. Agora lemos que essa promessa
relativa à semente foi cumprida, enquanto o povo estava no Egito. Deus
tinham trazido Jacó com sua prole de 70 pessoas para o Egito e no Egito
Deus multiplicou o seu povo no seio da proteção de um dos países mais
poderosos da terra naqueles dias. No uso que Deus fez do Egito, vemos
como Deus é o Senhor da criação. O Senhor das nações levou o seu povo
para o Egito e lá o guiou, encaminhando-se para cumprir a promessa que
tinha feito quanto à numerosa semente. Eles eram tão extremamente fru-
tíferos que a terra do Egito ficou cheia deles. Havia israelitas por toda par-
te.
A terceira conexão entre Gênesis e Êxodo eu chamo de "palavras e
atos". Isso não é uma referência direta a um versículo específico, mas ao
ensino de que como Deus falou, Deus fez. Esse padrão continua através do
livro de Êxodo. Deus ouviu, Deus se lembrou, Deus viu, Deus soube, Deus
falou, e Deus fez. Cada evento que lemos em Êxodo 1-18 é precedido por
uma palavra. A palavra precede o evento. Não é como os críticos dizem,
que os atos de Deus vieram primeiro e depois o povo refletiu sobre isso e
produziu a palavra, como se ela tivesse vindo antes dos atos. Irrita-me que
esses críticos retratam os escritores bíblicos como enganadores. Na reali-
dade, Deus falou e, em seguida, Deus agiu. Ele sempre introduziu os seus
atos com a sua palavra. Ele não lida com as pessoas e depois as deixa pen-
sando sobre isso e tentando achar um significado por elas próprias. Essa é
a abordagem crítica ao interpretar as Escrituras. Temos uma teologia bí-
blica diferente, porque acreditamos que Deus falou primeiro e depois
agiu.
Deus falou a Moisés e Moisés obedeceu. Tenha isso em mente enquanto
caminhamos através das Escrituras. Quando Israel fazia algo que Deus não
lhe havia dito, Israel tinha problema. A palavra vem, mas a palavra que
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 71

precede o ato sempre requer obediência e expectativa. Novamente, de-


pende da ideia que as pessoas vêm de Deus. Você pode realmente confiar
em Deus como um Deus fiel? Ele é verdadeiramente um pai no sentido de
que, quando ele fala, você pode dizer "assim será"? Que garantia você tem
na oração? Muitas vezes vivemos como se Deus fosse como nós, ao invés
de confiar que ele estará conosco. Para aqueles de vocês que são pais, dei-
xe-me dizer, como pai de oito e avô de 26, ouçam minhas palavras cuida-
dosamente. Quando eu não me lembrava do que eu tinha prometido, mui-
tas vezes oito vozes me lembravam que eu havia dito alguma coisa e não
feito. Se você quer inspirar fidelidade, você deve fazer o que você diz.
Eu quero olhar para dois termos de Êxodo 2. "E Deus ouviu" — de sha-
ma, "ouvir", — "e Deus se lembrou" e depois no próximo verso, "e
Deus viu e Deus conheceu" — de yada, "conhecer". Agora o contexto des-
ses verbos é que o rei do Egito havia morrido e um novo rei havia assumi-
do. Os israelitas foram escravizados e aumentaram seus fardos e seus ge-
midos subiram de sua escravidão. O povo de Deus foi chamado para ser
uma bênção para as nações, e quando eles vieram para o Egito, a presença
de Deus estava com eles. Quando eles gemiam, Deus estava ouvindo e
quando Deus ouvia os gemidos, Deus se lembrava. Agora zakar, o verbo
"lembrar", pode significar que alguém tivesse se esquecido de algo e então
se lembrado. Não é esse o sentido que temos aqui. Deus não tinha esque-
cido da sua aliança, mas zakar também pode ser usado em uma situação
como esta, onde o Deus que tinham continuado a manter sua aliança ago-
ra queria cumprir mais plenamente as promessas que tinha feito. Suas
promessas estavam sendo cumpridas porque Israel estava se multiplican-
do e Deus os estava protegendo para depois transformá-los em uma gran-
de nação. Quando Deus ouviu seus gemidos, ele disse: "Agora o povo está
pronto para eu prosseguir." Deus não tinha esquecido seu povo. Deus tanto
os ouvia quanto os via. Ele conhecia o sofrimento desse povo. Ele conhecia
as dificuldades que estavam sofrendo. Deus viu e disse a si mesmo, "Eu sei
o que fazer com esse povo. Eu dei a minha palavra. Eles têm minhas promessas. Eu
cumprirei a promessa que fiz de ser um Deus para eles". Deus se lembrou e Deus
sabia o que havia dito. Ele disse: "Eu serei contigo". O princípio de Emma-
nuel — "Deus conosco" — continua a reaparecer nas Escrituras. Deus tam-
bém disse, "Eu te abençoarei", e a palavra barak, como vimos antes, não só
significa "prosperar", mas também "trazer-lhe a vida em sua plenitude e salvá-
lo". Deus tinha prometido também, "Eu farei de ti uma grande nação". Essas
foram as coisas de que Deus se lembrou, que Deus conhecia o que estava
na hora de cumprir. Deus estava demonstrando a sua fidelidade.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 72

Finalmente, eu quero mostrar a conexão da linhagem da semente e


apontar o quão central ela é — não a terra, ou algumas das outras coisas
que você pode pensar como sendo muito, muito importante. Deus disse,
"Olha, eu tenho que tirar essas pessoas circuncidadas". Muito provavelmente,
eles não estavam sendo circuncidados no Egito. Sabemos que não eram
circuncidados no deserto. Antes de ocupar a terra, em Josué 5, tinham de
ser circuncidados. Deus estava preocupado muito mais com a semente do
que com a terra. Ele estava preocupado com a semente e o povo que ele
mais tarde chamaria de ami, "Meu povo". A semente era dele. Ele está
preocupado com o povo, com sua nação que ele estava preparando para
ser sua serva.
Então, temos esses cinco fatores materiais específicos que insepara-
velmente relacionam Êxodo a Gênesis. Gênesis é mais do que um prólo-
go. Gênesis é o primeiro capítulo. Êxodo é o segundo. Agora, qual é o mé-
todo de Deus para lembrar de sua aliança, por saber que ele tinha feito
promessas, para ouvir e ver seu povo no cativeiro? Qual é o seu método?
Ele chama um homem. Mais uma vez vemos o princípio da eleição, o úni-
co a servir em nome de muitos. Ele chama um homem da tribo de Levi.
Jacó tinha dito que a realeza viria de Judá, mas Israel ainda não estava
pronto para um rei. Israel iria tornar-se uma nação sacerdotal, e os levitas
deviam ser escolhidos para esse serviço, então o homem que Deus esco-
lheu era da tribo de Levi.
Agora as circunstâncias da vida de Moisés eram bem conhecidas. O nasci-
mento de Moisés não era de todo incomum. Ele era um bebê saudável. Seu
pai e sua mãe estavam devidamente casados. Ele tinha um irmão, Arão, e
uma irmã, Miriam. O decreto chegou e Moisés devia ser morto. Essa parte
é incomum, mas o nascimento em si não é nada incomum. O rei do Egito
havia exigido que matassem todos os meninos, o que torna a preservação
de Moisés milagrosa. Ele foi milagrosamente preservado por pais atencio-
sos, e Deus providencialmente levou a princesa para se banhar no rio. As-
sim, Moisés foi introduzido no palácio. A vida de Moisés foi bastante in-
comum — a preservação milagrosa e, em seguida, essa preparação inco-
mum no palácio e no deserto. Moisés passou 40 anos no palácio, apren-
dendo sobre a cultura, a linguagem e procedimentos militares. Então ele
passou 40 anos no deserto. Deus usou a insensatez de Moisés, também.
Quando ele se levantou para matar um homem — Moisés queria ser um
libertador do seu modo — Deus usou isso para trazê-lo para um deserto,
porque é onde ele iria passar mais 40 anos guiando o povo. É incrível co-
mo a providência de Deus sempre vem e Moisés foi preparado. Pergunto-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 73

me se às vezes ele perdeu a paciência pensando, "Se eu vou me tornar al-


guém importante, o que estou fazendo aqui atrás de ovelhas no deserto?"
Eu me lembro de que eu queria ser um ministro quando eu tinha seis anos
de idade. Quando eu tinha 15 anos, meu pai sofreu um acidente. Um jo-
vem em nossa congregação estava trabalhando com um caminhão de ma-
deira e perdeu o controle do caminhão. Meu pai tentou correr, mas escor-
regou, então as sete toneladas de madeira caíram sobre o pé dele. Eles ti-
veram que cortar o sapato do meu pai. Ele não pôde andar por dois anos.
Ele se recuperou, porém, e quando estava com 94 anos, foi incrível — ele
andou como se nunca tivesse tido um pé quebrado. A moral da história, é
que Deus usou esse pé quebrado para me tirar da escola quando eu tinha
15 anos. Morávamos em uma fazenda e meu pai não podia pagar um tra-
balhador. Eu era grande e forte e ele me disse, "filho, se você quiser estu-
dar para o Ministério, nós teremos que vender as vacas e nos livrar da fa-
zenda e ver como Deus vai cuidar de nós. Mas se você adiar sua educação
por alguns anos, então acho que vamos conseguir. E você terá que se tor-
nar o principal agricultor". Eu sempre tive boas e grandes mãos, e isso foi
o que eu fiz.
Eu não voltei para a escola até os 27 anos, porque eu tive que ir para o
exército durante a Segunda Guerra Mundial. Nunca me esquecerei da mi-
nha impaciência sobre quando eu iria conseguir ser um ministro, enquan-
to estava ordenhando as vacas (antes do tempo das ordenhadeiras mecâ-
nicas), apanhando tomates, plantando melancias, debulhando grãos ou
apanhando feijão. Quando fui para o exército, eu descobri que Deus estava
realmente no controle. Essa experiência de ter que controlar 100 traba-
lhadores durante a colheita de tomate, amêndoas e melão foi uma maravi-
lhosa preparação. Costumo ser uma pessoa impaciente que quer chegar lá
e começar a fazer as coisas, mas Deus disse: "mais devagar, George, deva-
gar. Eu tenho coisas a fazer". Eu costumava me assentar naquele vale,
olhando para o sopé do Leste e as altas montanhas que pareciam me im-
pedir de ir para onde eu queria. Eu pensei: "nunca vou sair deste vale?" Eu
saí. Eu tomei o Pacífico Sul, para o Japão, passei alguns dias na Coreia e
depois que fui para o Canadá para o meu estágio pastoral. Eu vi que Deus
estava no comando. Eu quero dar esse testemunho. Alguns de vocês po-
dem ser um pouco mais velhos. Eu tinha 34 anos quando me tornei minis-
tro. Tinha quase 50 anos quando fiz o meu doutorado. Deus nos usa em
circunstâncias incomuns. Não se esqueça disso e não se torne impaciente
por ter que ficar aqui e lutar com os seus livros.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 74

Deus se revela através de vários meios. Uma forma que ele se revelou a
Moisés foi através de uma teofania. O próprio Deus apareceu na sarça ar-
dente. Vos lida com os vários meios da revelação de Deus, e eu quero lem-
brá-lo rapidamente do que procurar. Deus falou diretamente com Moisés.
Não só ele se revelou na teofania, mas falou diretamente com Moisés. Ele
também falou pela boca de Moisés e por meio da mão de Moisés: "Levanta
a mão, Moisés”. Deus se revelou como o Senhor soberano, nas pragas.
Deus revelou-se na coluna de fogo e na nuvem que provia sombra. Você lê
sobre isso em Números 10 — foi o Senhor quem foi adiante do povo, e ele
se tornou conhecido pela coluna e a nuvem. O Anjo do Senhor vem atra-
vés da teofania em outras maneiras também.
Uma maneira importante, que Deus se revela é ao dar o seu nome. Vemos
isso em Êxodo 3.4, onde Deus diz a Moisés o seu nome — "Eu sou o que sou",
ou "Eu sou quem eu serei." Esse nome provavelmente significa, "Eu sou o úni-
co fiel. Eu sou Yahweh. Eu sou o cumpridor da Aliança de Deus. O fiel, esse é o meu
nome". Se Elohim era mais ou menos uma referência essencial a Deus,
Yahweh é a sua revelação básica. Aquele que é Deus é Yahweh. Ele será
sempre o que ele disse ser e ele nunca vai ser nada além do que ele é. Ele
mantém a Aliança. Ele cumpre as promessas. Ele permanece soberano. O
texto de Êxodo 3.14 e 6.3 indicam que Abraão nunca chegou a conhecer
Deus – "Yahweh" – da mesma forma que Moisés conheceu. Sim, Abraão viu
a Deus como o fiel, mas ele também viu Deus trazendo uma numerosa se-
mente? Quando Abraão morreu, ele tinha apenas Isaque. Abraão viu Deus
trazer essa numerosa semente para uma terra? Não. Abraão viu o povo
sendo poderoso entre as nações? Não, mas Israel viu. Moisés viu. E dessa
maneira — de forma experiencial, realista e amorosa — o povo de Moisés
precisa conhecer o nome Yahweh e o seu significado na realidade e na vida
diária.
Então, temos também a referência à face de Deus, a presença de Deus.
Deus se faz conhecido através de sua presença. Lemos isso particularmen-
te em Êxodo 32-34, mas também no capítulo 19, quando os filhos de Israel
não queriam vir à presença de Deus, por causa de um grande temor.
MOISÉS
Agora quero passar para a discussão de Moisés como mediador. Moisés
deve ser visto como o mediador da Aliança do Antigo Testamento. Abraão
era um mediador, mas Moisés, mais plenamente, mais completamente do
que qualquer outro é o mediador do Antigo Testamento. Os profetas se
tornaram mediadores. Davi tornou-se mediador. Arão e os outros sacerdo-
tes foram mediadores em exercício das suas funções através de seus vá-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 75

rios ofícios, mas Moisés é o mediador por excelência que ficou de pé entre
Deus e seu povo, entre Deus e as nações, entre Deus e toda a criação. Moi-
sés ergue-se acima dos demais no Antigo Testamento, e porque isso é ver-
dade, eu posso entender por que as pessoas não querem aceitar o sobre-
naturalismo da Bíblia e colocam Moisés como uma figura mítica ou lendá-
ria. Moisés era agente de Deus no início da existência de Israel como na-
ção. Ele era um mediador para Israel. Ele ficou entre Deus e o ami — "meu
povo". Porque Deus tinha posto seu olho, seu coração, toda a sua mente
em Israel, os descendentes de Abraão, para ser seu instrumento entre as
Nações, ele tinha uma relação especial — um vínculo da Aliança — com
eles.
Assim, Moisés tornou-se o mediador da Aliança entre Deus e o povo. Se
Deus tinha algo a dizer, ele dizia por meio de Moisés; Lemos isso em Nú-
meros 11. A fim de servir como mediador divinamente designado para
Israel, ele tinha de comparecer perante Faraó também. A promessa tinha
sido feita a Abraão que sua descendência compareceria perante reis. Moi-
sés descobriu o que era estar diante de Faraó e dizer a Faraó, "Deus diz
deixa ami, meu povo, ir. Deixa-os ir para me adorar. Deixa-os ir." Ali esta-
va o rei, o soberano, e ali estava aquele fugitivo que virou pastor, agora
perante o rei. "Deixa meu povo ir”. Deus não falou diretamente com Fa-
raó; Ele não veio ao Faraó num sonho ou numa visão, mas pela boca de
Moisés que se tornou a boca de Deus. Arão se tornou a boca de Moisés ini-
cialmente, porque Moisés disse, "Não posso falar", mas isso foi só na fase
inicial da missão. A Moisés foi dado um ajudante quando disse que tinha
problemas para falar. "Não, eu posso cuidar disso," diz Deus. "Você tem
um irmão mais velho e o irmão mais velho servia como porta-voz ou tra-
dutor dos mais jovens, mas o ponto é que ficavam ali na frente de Faraó. O
coração do Faraó foi endurecido — o verbo é Kavad. Esse verbo pode ser
usado na voz passiva ou reflexiva, mas também de forma ativa. Curiosa-
mente, a Bíblia diz em algumas passagens que Deus endureceu o coração
de faraó quando Moisés foi a ele e então ele diz que Faraó endureceu seu
próprio coração. Ao mesmo tempo diz que Deus está fazendo isso e depois
diz que Faraó está fazendo. Isso mostra a interação entre um Deus sobe-
rano e um rei recalcitrante. Deus não o força a ser duro. Deus o colocou
em uma situação em que ele poderia responder, e ele respondeu endure-
cendo o coração. Mesmo assim, no entanto, foi o Senhor. Em Romanos 9,
lemos que Deus endureceu faraó para que a glória de Deus fosse manifes-
ta. Deus estava agindo. Mas ele nunca disse ao Faraó definitivamente,
"Não faça isso". Faraó foi confrontado com uma direta, honesta e bem-
intencionada ordem: “Deixa meu povo ir”.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 76

Em seguida, em conexão com a décima praga, Moisés tinha que servir co-
mo o mediador da Páscoa. O Anjo do Senhor veio, mas novamente foi Moi-
sés, que se colocou entre Deus e o povo. Foi Moisés quem teve que dar to-
das as instruções sobre a Páscoa, mas Moisés não poderia tornar-se o cor-
deiro mediador. A Bíblia diz que o sacrifício era uma pequena cabra ou
uma ovelha. Moisés não poderia, nesse sentido, tornar-se o sacrifício me-
diatorial, mas ele o mediou e dirigiu. Ele deu ordens bem definidas e disse
exatamente o que o povo devia fazer e ele se tornou o homem que insti-
tuiu a Páscoa. E isso ele fez humanamente falando, mas não por si próprio.
Ele ficou entre Deus e o povo.
Quando você pensa nas experiências do Êxodo, Moisés foi fundamental
para a salvação dos primogênitos. Moisés não era um primogênito de si
mesmo, mas isso não faz diferença. Sem a mediação de Moisés, a ideia do
primogênito pertencer a Deus não teria sido conhecida. Deus falou a Moi-
sés. Deus falou através de Moisés. Arão, seu irmão primogênito foi prete-
rido. Sabemos também que o primogênito está muito intimamente relaci-
onado com o Unigênito. Queria que passássemos mais tempo nisso, mas
temos que nos mover para o próximo ponto. Moisés foi o meio de Israel
ganhar grande riqueza, porque ele se levantou perante o faraó. Ele foi o
mediador de Israel nessas experiências, a recompensa dos israelitas rece-
bidas dos egípcios. Moisés foi engrandecido em tudo isso.
Quando você pensa nos eventos milagrosos — refiro-me agora particu-
larmente ao Mar Vermelho se abrindo, Deus suprindo as necessidades de
alimento, as codornizes, a água da rocha — novamente Moisés tornou-se
um operador de milagres. Isso ocorreu quando Moisés levantou a mão. Tal
como aconteceu com as pragas e agora com a abertura do Mar Vermelho.
Moisés levantou a mão e as águas se abriram. Quando Moisés deixou cair
sua mão, as águas vieram juntos. Deus, o Anjo do Senhor, estava traba-
lhando em, e através de Moisés, o mediador. Pela razão que Moisés é o
mediador, ele também é chamado de o Redentor do Antigo Testamento. Já
se deparou com essa pequena frase na Teologia Bíblica de Vos? Eu gosto
desta frase: Moisés tornou-se um Redentor.
Vos fala sobre o realismo dos eventos redentores. Tudo o que a Bíblia diz
que aconteceu realmente aconteceu. Estes são atos sobrenaturais, mas
eles realmente aconteceram. O princípio do sobrenaturalismo já era óbvio
na vida e na experiência dos Patriarcas, então agora é ainda mais evidente
na vida de Moisés. Não só eles são sobrenaturais, são também muito obje-
tivos. Esses são eventos que realmente aconteceram. Moisés, o mediador,
ficou ali e Deus agiu através dele fazendo essas coisas acontecerem. A re-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VII 77

denção veio para Israel porque Moisés estava lá, porque Moisés obedeceu,
porque Moisés realizou cada ato que Deus lhe disse para realizar. Levan-
tou a mão, falou, liderou, trouxe água doce, orou, essa redenção foi real.
Essa redenção não foi apenas uma redenção física. Foi um resgate social,
foi um resgate cultural, e foi uma redenção espiritual. O Egito era um lu-
gar de muita idolatria e iniquidade. O Faraó era o Deus e a opressão que
faraó exercia era uma opressão demoníaca, então essa redenção era uma
redenção de todos os aspectos, de qualquer esfera que você poderia pen-
sar. Moisés redimiu de uma forma objetiva, integral e completa. Ele fez
isso resgatando e exercendo o ofício triplo de profeta, sacerdote e rei. Ele
falou, ele era um profeta e em Deuteronômio 18, ele fala sobre "um profe-
ta semelhante a mim". Moisés era também um sacerdote, pois ele interce-
dia. Vemos isso em Êxodo 32, mas também Moisés era um sacerdote ao
representar o povo perante Deus e quando ele falava e trazia o povo pe-
rante Deus, então a função profética e a sacerdotal realmente se reuniam.
Em que sentido Moisés é rei? Ele era uma figura real, quando ele ficou pe-
rante Faraó. Ele não era um rei em um sentido técnico, mas ele era real
em sua conduta. Ele era real em seu discurso. Ele era real em suas ativida-
des. Mais tarde, no Monte Sinai, ele se tornou o porta-voz da lei. Ele tor-
nou-se o legislador. Ele se tornou o administrador-chefe, fazendo o que
um rei faz. Foi ele quem dirigiu a proteção do povo. Ele estava no centro
de sua obtenção de comida e bebida. O ofício do grande pastor, o pastor
real, está lá o livro de Êxodo. Moisés, o portador do ofício triplo, é o Re-
dentor do Antigo Testamento, mas ele não fez nada de si próprio. Ele era
mais um servo do grande Moisés por vir.
E eu termino novamente, dizendo que se você ensina e prega Êxodo 1 a
18, lembre-se de que é Cristo no coração de tudo, a segunda pessoa da
Trindade, que era o male'ak Yahweh, o Anjo do Senhor. É o Deus da palavra
que faz tudo acontecer. Cristo é central. Ele é pré-encarnado, mas ele qua-
se torna-se encarnado em Moisés.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 78

AULA VIII
MOISÉS, SINAI & ALIANÇA

Pedro se dirige aos crentes, judeus e gentios:

Vós, porém, sois raça eleita,


sacerdócio real,
nação santa,
povo de propriedade exclusiva de Deus,
a fim de proclamardes as virtudes
daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;
vós, sim, que, antes, não éreis povo,
mas, agora, sois povo de Deus,
que não tínheis alcançado misericórdia,
mas, agora, alcançastes misericórdia (1 Pd 2.9-10 ARA).

A ligação do povo no Sinai com os crentes do Novo Testamento é muito,


muito interessante. De certo ponto de vista, o material que vamos cobrir
hoje terá um impacto tremendo na sua posição escatológica. Não sei o
quanto você está ciente disso, mas em certo sentido, a escatologia de al-
guém é grandemente determinada pelo que acredita que Deus estava fa-
zendo com Israel em Êxodo 19, quando fez aliança com Israel. Quando a
teocracia foi formalmente estabelecida e quando Deus declarou que a re-
lação devia ser confirmada. Às vezes falamos da “escatologia incorporada
na criação”. William Dumbrell escreveu um livro em que trata de temas
da revelação. Ele encontra os mesmos temas em Gênesis e traça-os através
de toda a Bíblia. Dr. Anthony Hoekema, em seu livro, A Bíblia e o Futuro,
também aponta que a nossa compreensão da criação irá determinar nossa
escatologia, ligando o início ao fim. Deus realiza o que ele pretendia. Espe-
ro que possamos retornar à passagem em 1ª Pedro 2 no final do curso, mas
por agora passemos a Êxodo 19 e vejamos se conseguiremos formar a base
teológica de Êxodo 19 a Números 10. Oremos.

Senhor, nosso Deus, tu nos deste uma tremenda revelação.


Tu tens feito grandes coisas.
Tu tens dito grandes coisas e tens cumprido todas elas.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 79

Tu tens cumprido o que disseste e hoje somos os destinatários de muitas bênçãos.


Deus, tua graça é maravilhosa.
Teu amor é firme e imensurável.
Tu jamais falhas conosco.
Deus, tu nos defendes, e agradecemos por isso.
Continue a sustentar-nos.
Dá-nos o de que precisamos neste momento.
Oramos em nome de Jesus, Amém.

Comecemos em Êxodo 19. Não seria difícil nos manter em Êxodo 19 a aula
inteira, mas também temos que seguir em frente. Os três primeiros versí-
culos de Êxodo 19 dizem:
No terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito,
no primeiro dia desse mês, vieram ao deserto do Sinai.
Tendo partido de Refidim, vieram ao deserto do Sinai, no qual se acamparam;
ali, pois, se acampou Israel em frente do monte.
Subiu Moisés a Deus, e do monte o SENHOR o chamou e lhe disse:
Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos filhos de Israel (Ex 19.1-3 ARA).
Aí, Moisés é ordenado a ser porta-voz de Deus. Moisés tem que funcionar
como um profeta. Aí temos comunicação direta, Deus falando com Moisés.
Não sabemos como ocorreu essa interação, mas novamente temos aqui
um aspecto do sobrenaturalismo recorrente no Antigo Testamento, bem
como no Novo Testamento. Deus falou a Moisés, "Assim falarás à casa de
Jacó e anunciarás aos filhos de Israel" Observe que ele fala de Jacó e Israel.
Jacó é o nome pessoal. Israel é o nome oficial que Deus deu a Jacó quando
lutou com ele em Peniel. "Vai e dize a esse povo, esses descendentes do homem
que lutou com Deus. Deus não os deixou ir. Dize a eles".
Muitas vezes sinto um pequeno formigamento na coluna quando penso
em como Moisés, citando Deus, pode resumir em duas frases tudo o que
tinha acontecido.
Você já viu as águias? São pássaros incríveis. Eles carregam gravetos que
se parecem com galhos até o topo de uma árvore e constroem um ninho.
Quando os jovens filhotes estão prontos para voar, a águia mãe os empur-
ra para fora sobre a borda e em seguida a mãe salta, desce, pega-os e os
leva de volta para o ninho. As águias são conhecidas por fazer isso, mesmo
quando têm ninho nos penhascos. Elas empurram os filhotes para fora e
os deixa cair para que aprendam a voar. Então mergulham por baixo para
pegá-los e levá-los de volta para o ninho.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 80

Deus diz em Êxodo 19: "Vocês viram o que eu fiz ao Egito". Ele resume nessas
palavras todas as pragas e toda a destruição e a morte dos primogênitos.
Ele não diz "como uma mãe carrega seu bebê", mas "como uma águia carrega
seus filhotes". Evidentemente no deserto, eles podiam ver as águias e Deus
disse: "Sim, eu te empurrei para fora do ninho. Eu te empurrei do Egito. Tu viste o
que eu fiz ao Egito. Eu te tirei de lá e eu tenho te ensinado a andar e tenho te ensi-
nado a voar. Eu tive que mergulhar e te salvar algumas vezes quando o mar esta-
va a tua frente, e quando a água ficou muito salgada, quando pensaste que não
podias beber, quando estavas cansado da mesma refeição eu te dei carne e codor-
nas. Eu te sustentei e te carregou como uma mãe águia".
Em Ezequiel 16, Deus usa outra metáfora para falar de como cuidou de Is-
rael. Ele diz: não te foi cortado o umbigo, nem foste lavada com água para te lim-
par, nem esfregada com sal, nem envolta em faixas. Deus encontrou esse bebe-
zinho. Temos quadros diferentes na Bíblia de como Deus cuidou desse po-
vo — uma massa desorganizada de escravos libertados. Deus levou-os, mas
ele mais do que apenas levou-os. A próxima coisa que ele diz é, "e eu os
trouxe para mim." Esta passagem inteira é a história de Emmanuel, Deus
com seu povo. Deus não os abandona. Ele os trouxe a si. O que faz um noi-
vo quando ele vai para a cerimônia de casamento e ele leva sua noiva para
seu novo lar? O homem deixa seu pai e sua mãe. Ele leva a noiva e se une a
ela. Isso é o que Deus fez. Deus levou sua noiva para fora do Egito. Ele a
sustentou. Ele cortejou-a, de acordo com Ezequiel 16. Ele a abraçou e esta-
beleceu com ela um vínculo de amor. O vínculo da aliança estava lá, mas
as pessoas que tinham estado no Egito por todos esses anos não tinham
muita instrução. Eles não tinham consciência, mas ao mesmo tempo —
como vimos da última vez — lembrou-se Deus, e Deus sabia que eles eram
o seu povo.
Que garantias Deus dá a Israel quando os leva para si e para seu abraço?
Primeiro, "toda a terra é minha". Aí você tem o Reino cósmico, que alguns
chamam de Aliança da Criação, colocado diante deles novamente. "Eu sou
o Rei. Eu sou o Senhor de tudo — toda a terra, todas as nações, todos os aspectos.
Este grande monte Sinai é meu também. Tudo, toda a terra é minha." Em seguida,
ele diz, "se vocês me obedecerem plenamente e guardarem os meus mandamen-
tos". Novamente, temos a palavra im, "se". Isso é estrita condicionalidade?
Há muita discussão entre os estudiosos sobre isso. Eles falam sobre a Ali-
ança com Abraão, como a Aliança da promessa e a Aliança com Moisés
como Pacto de obras e lei, mas na verdade vemos a palavra im nesta pas-
sagem. Isso é para ser interpretado restritivamente, no sentido jurídico, o
que implica causalidade? Lembre-se do que já foi dito antes: "Eu quebrei o
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 81

Egito; empurrei-te como uma águia mãe empurra seus filhotes. Trouxe-te para
mim, e aqui estás". Então a questão torna-se: "E agora, o que vais fazer?" Deus
não trata seu povo como um bloco de madeira ou um monte de varas. Ele
se dirige a eles como pessoas responsáveis e diz, "se nós vamos nos casar e
ter um casamento feliz, há uma ‘condição’. Há certas coisas que com cer-
teza acontecerão. Eu espero algo de você, não para a criação da Aliança,
não para a criação da teocracia, não para a criação do seu futuro – que já
está estabelecido – mas você precisa manter essa relação, você precisa
manter-se casado comigo, você precisa ser uma noiva fiel”.
Ele fala de Israel como sua noiva. A palavra hebraica segulah é melhor tra-
duzido por “meu tesouro". Deus diz a Israel, "você vai ser meu tesouro; você
sempre será meu tesouro, a menina dos meus olhos. Amo você com todo o meu
coração. Você vai ter esse amor, mas a única maneira que você tem que o amor
está em você ficar nos meus braços, se você permanecer dentro do meu abraço. A
única maneira de você ter esse amor é mantendo a aliança comigo, mantendo o
relacionamento que tenho estabelecido”. Deus coloca uma responsabilidade
sobre o seu povo. Deus exige uma resposta. Deus declarou a situação: “você
é meu segulah. Você é minha. Trouxe-te para mim. Você sempre será meu tesouro
— obedecendo, seguindo, vivendo como uma noiva. Se você se recusar a viver co-
mo uma noiva, você não será uma noiva”. Deus não dá Israel uma opção: "Es-
colha agora o que você quer ser". Em vez disso, ele diz: “Trouxe você para
mim. A situação é esta: agora seja uma noiva. Seja uma noiva, e você será
meu tesouro abençoado em todos os sentidos”. Por favor, entenda que a
situação é, de certa forma, um fato realizado. Israel está com Deus. Deus
fez tudo ali no Sinai.
Deus vai dar-lhes a garantia de que serão um reino de sacerdotes. Pedro
usa essa frase também — Reino sacerdotal ou reino de sacerdotes. Você
pode encontrar comentaristas argumentando como é a melhor maneira
de dizer isso: eles não podem ser vistos como um reino sacerdotal com
ênfase em “sacerdotal”, ou é a ênfase no Reino de sacerdotes? Não acho
que isso faz parte de um modo diferente, mas uma coisa é certa: a ideia de
Reino lhes diz que tem a ver com o primado de Deus. Eles são o domínio
de Deus e se você quer enfatizar a grande soberania de Deus, você vai di-
zer “um reino de sacerdotes”, mas se você quer enfatizar o que Deus quer
que eles sejam na terra, então você dirá “um reino sacerdotal”.
O que Deus queria dizer quando ele falou: “vós me sereis reino de sacerdotes
(Ex 19.6 ARA)”? Ele estava dizendo não só que seria o líder deles, mas, que
eles deviam funcionar como um povo sacerdotal. Eles ficariam entre Deus
e toda a terra, pois toda a terra pertence a Deus. Israel representaria a ter-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 82

ra. No momento da criação, quando Deus disse a Adão e Eva para cultivar
a terra e ter domínio sobre ela, Adão não só tinha que representar o Deus
de toda a criação de uma forma real. Ele tinha que representar a criação
de Deus. Ele deveria trazer uma criação embelezada, cultivada, dominada
perante a presença de Deus para a glória de Deus. Agora Deus está dizendo
a Israel, “Eu estou dando a vocês o mandamento adâmico que dei na cria-
ção. Quero que vocês sejam um reino de sacerdotes. Quero que tragam
todas as nações e a terra perante mim, como meu reino”. Então Israel tor-
nou-se o Reino central, o agente de Deus, através de quem ele traria sua
bênção para as nações. Você se lembra de Gênesis 12? Isso se relaciona
diretamente com Gênesis 12 — “em ti serão benditas todas as famílias da terra”
(Gn 12.3 ARA). Mas o aspecto sacerdotal ressalta agora que todas as nações
devem comparecer à presença de Deus através de Israel. Israel deve orar
pelas nações. Israel deve trabalhar pelo mundo. Essa é a sua função. Deus
diz: “Eu não trouxe Abraão de Ur dos caldeus para se divertir e não é por isso que
eu trouxe vocês aqui para o meio de todas as nações. Eu fiz isso porque reivindico
esses povos. Eles são meus — são meus por criação e meus pela confirmarão da
Aliança da criação com Noé e com os filhos de Noé. Através dos filhos de Noé esses
povos são meus, e quero que os traga para mim”.
Essa frase do grande mandato missionário do Antigo Testamento é uma
repetição. Isso certamente nos diz o que devemos fazer, como nos diz Pe-
dro, hoje somos o Reino de sacerdotes — “Ir às nações, ganhar as nações”.
Sabemos que os profetas falaram sobre isso, Jesus falou sobre isso, mas
não se esqueça da frase “toda a terra é minha”. A terra não é limitada
apenas às nações. A terra incluía toda a situação ecológica e ambiental.
Nós, como o Reino de sacerdotes de Deus, devemos estar na vanguarda da
preservação da terra de Deus. Não digo que você deva se unir aos ambien-
talistas radicais, mas que devemos nos tornar mais ecologicamente preo-
cupados. Somos frequentemente acusados de a levar a sério o mandato
cultural e pensar, portanto, no que Deus diz, “Vá e explore o mundo”. Não,
não, não, não! Nós devemos embelezar este mundo, também. Os sacerdo-
tes devem ser os representantes da beleza. Os sacerdotes deviam ser os
representantes de limpeza e da purificação. Os sacerdotes deviam ser os
representantes da inteireza e da integridade. Tudo o que funcionava para
trazer paz à criação como um todo, mas também para as pessoas e o resto
da criação, essa era a tarefa dos sacerdotes. Os sacerdotes deviam fazer
com que o mandato cultural tríplice fosse cumprido corretamente: a rela-
ção com o cosmos, a relação com o próximo e a relação com Deus. Os sa-
cerdotes ficavam entre Deus e tudo isso. Hoje, você é sacerdote por nome-
ação de Deus. Pedro nos lembra disso.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 83

A garantia final que quero olhar é que Israel é uma nação santa. Deus lhes
disse: “sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a
terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Ex 19.5-6 ARA). -
goy kadosh. O termo goy indica uma unidade política, em contraste com
ami — “meu povo” — a palavra que indica a relação Pactual. Há uma dife-
rença entre um estado e um governo. Governo é a administração do Esta-
do, como é dirigido e governado. Deus disse a esse povo: “Vocês devem
ser como uma unidade política”. A ênfase não é tanto no território, mas
nas pessoas. Deus não estava dizendo que a coisa importante fosse Israel
como um estado. Israel sempre quis colocar muita ênfase sobre o estado
— seus bens, suas terras — e acho que alguns cristãos ainda se empolgam
com isso até certo ponto. A ênfase de Deus, no entanto, é “Eu quero que
vocês sejam um povo que se organiza, que sirva como um reino de sacer-
dotes”. A palavra “goy” coloca a ênfase na dimensão política, organizada,
governada. Deus quer que eles sejam um povo governado, um povo orga-
nizado, um povo unido, mas quando forem assim, também devem ser san-
tos, completamente santificados a Deus.
Como eu disse, seria fácil passar a aula inteira nesta passagem. Precisamos
seguir em frente, mas espero que tenham de forma clara na mente agora
o que Deus disse a essas pessoas. Ele estabeleceu o fundamento histórico e
teológico. Tudo estava ali — “Agora Israel, qual é sua resposta?” Nessa
passagem, Êxodo 19 a 24, três vezes o povo é convidado a responder, e to-
das as vezes o povo diz: “Tudo o que o SENHOR falou faremos” (Ex 19.8 ARA).
Quando me casei com minha esposa, pediram-lhe apenas para dizer:
“Sim”, uma vez e isso foi o suficiente. Não sei de muitas cerimônias de ca-
samento que exijam mais do que um “sim” de uma mulher (ou homem,
nesse sentido). Talvez deveriam ter três confirmações nesta época de di-
vórcio generalizado! Mas o povo disse, “Tudo o que o SENHOR falou faremos”
(Ex 19.8 ARA). Essa foi a resposta, e de certa forma, o nó do casamento foi
amarrado. Há duas frases que precisamos ver nas passagens quando o po-
vo responde. “Tudo o que o SENHOR falou faremos” (Ex 19.8 ARA). O povo res-
pondeu a uma só voz, Êxodo 24.3. Deus os uniu. Deus os ajuntou e não ha-
via uma só voz discordante. A partir daí a responsabilidade poderia ser
verdadeiramente do povo. Deus tinham feito a sua parte e tudo o que o
povo tinha que fazer era dizer “meu Deus, tu és grande. Deus, tu és maravilho-
so. Aqui estamos”.
Podemos avançar para Êxodo 24.5-7. Aqui, a aliança consolidou-se depois
que a lei foi dada. Vamos falar sobre a concessão da lei em um minuto.
Mas depois de dar a lei, Moisés teve que trazer o povo perante Deus no-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 84

vamente. Ele construiu um altar e isso é onde temos a cerimônia, onde o


animal é morto. Metade do sangue era levado em uma tigela e derramado
sobre o altar. A outra metade do sangue era retirada e as pessoas não
eram mergulhadas nela. Eles não eram imergidos no sangue, eram, sim,
aspergidos. O sangue foi aspergido sobre o povo e o povo foi, assim, selado
pelo sangue da Aliança. A Aliança foi confirmada pela cerimônia, pelo
sangue, pela morte de um animal substituto (Isso aponta para a frente pa-
ra quando Cristo mais tarde diz que ele é o Mediador da Aliança, porque
ele derramou seu sangue para a remissão dos pecados). Esse povo podia
ficar ali e saber que era um povo perdoado. Eles eram um povo limpo.
Deus havia feito um povo santo. Eles tinham sido selados pelo sangue da
Aliança, mas isso só aconteceu depois que o povo disse, pela terceira vez,
“Tudo o que o SENHOR falou faremos”. A Aliança foi consolidada por jura-
mento e cerimônia.
Nos capítulos 20 a 23, temos a lei. Qual era o propósito da lei? Deixe-me
colocá-lo de forma simples: Essas são as regras de purificação para um
bom casamento. Você entendeu? Alguns de vocês podem não ser casados,
mas aqueles que são: quando vocês se casaram, vocês assumiram com-
promissos. Claro, Deus não disse ao seu povo, “seja um povo santo e faze o
que quiser”. A primeira coisa que ele disse foi, “Exclusividade. Não há ou-
tros deuses. Eu sou seu único Deus”. Jeremias fala sobre Deus ser o marido
de Israel e Deus diz, “Não há outros maridos, nem outros amantes e eu
não quero que você saia por aí em busca de outro amante”. Esse é o se-
gundo mandamento. O terceiro mandamento é, “Eu lhe dei meu nome e de
agora em diante, você será chamado ami, meu povo”. Se você ofende o meu
nome, você me ofende, porque você não pode me separar do meu nome.
Eu lhe dei meu nome, o ‘Eu sou o que sou’. Não use o meu nome em vão.
Honrá-lo e usá-lo são os meios para atrair as nações.
O quarto mandamento é: Eu quero que tenham tempo para me amar. Por-
que se vocês realmente me amarem, eu sei que vamos ficar juntos, mas o
amor requer tempo. O amor leva tempo. Então dou-lhes seis dias por se-
mana para fazer o trabalho de vocês, mas eu quero o sétimo dia do seu
tempo para mim. Lembrem-se desse dia de descanso. Esse objetivo que
pus diante de vocês, como eu fiz na criação. Isso é o que eu exijo de vocês,
lembrem-se disso. Precisamos de tempo agora e no futuro. A forma que
esse mandamento é mantido é um bom indicador de como os três primei-
ros princípios estabelecidos por Deus para a sua noiva são honrados.
Os próximos seis mandamentos falam sobre as relações entre as pessoas.
O quinto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 85

teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá” é para manter a família in-
tacta. O sexto mandamento: “Não matarás” é para preservar a vida. E o sé-
timo Mandamento é para preservar o vínculo matrimonial. Estes três
mandamentos se relacionam com o mandato social e o oitavo e o décimo
mandamentos também são muito importantes. Eles lidam principalmente
com a forma como olhamos a dimensão cultural e material da vida. O no-
no mandamento é para tomar conta do nome do seu próximo em meio a
toda a situação cultural — é uma combinação do quinto, sexto, sétimo,
oitavo e décimo mandamentos. Então estes seis mandamentos têm que
ver com o modo que lidamos com as pessoas no relacionamento social e
cultural. Se nos lembramos de honrá-los, de seus direitos na sociedade e
suas relações, tudo ficará bem. A lei é basicamente dez diretrizes para um
bom casamento. Era para o povo pessoalmente. Era para o seu relaciona-
mento com Deus. Era para as relações de uns com os outros e com o mun-
do.
Uma diretriz maravilhosa! Deus nos ensina a amá-lo. A lei é um conjunto
de orientações para o amor. As pessoas que transformam o direito em le-
galismo esquecem o coração da lei. O próprio Jesus disse que o coração da
lei é “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de
todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a
ti mesmo” (Lc 10.27 ARA). O amor é o coração da lei. Quando Jesus disse: “Se
me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo. 14.15 ARA). Isso vem direto
de Êxodo 20.19-24. Israel recebeu isso em detalhes e essas leis cobrem to-
da a vida.
Passemos ao conceito de teocracia. Quando Deus casou-se com o seu povo
dessa maneira formal no Sinai, ele estabeleceu o que chamamos de teo-
cracia. Você não vai encontrar essa palavra na Bíblia. Ela vem das palavras
theos, "Deus" e kratos, "poder". Teocracia é o poder de Deus, a soberania de
Deus, o governo de Deus na terra. Deus está agora a formalizando o modo
como vai exercer seu reinado sobre seu domínio, sobre o seu povo e atra-
vés do seu povo. Teocracia coloca ênfase no Reino e no poder de Deus.
Como Deus vai reinar sobre seu povo? Ele indica isso: “Vós sereis meu se-
gulah, meu tesouro. Vós sereis o meu reino de sacerdotes e meu povo san-
to, bem-organizado, regulamentado e governado povo. É assim que vou
reinar em vós e através de vós. Eu vou reinar sozinho. Terei meus repre-
sentantes. Em primeiro lugar, Moisés irá representar-me e ele vai fazer
isso com um ofício. Ele é o único que vos dará a lei — a dimensão profética.
Ele vai administrar a lei — a dimensão real. Ele é aquele que trazia o sacri-
fício quando o sangue era aspergido sobre o povo — a dimensão sacerdo-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 86

tal. As funções de Moisés no tríplice ofício de profeta, sacerdote e rei.


Agora eu reino pelo meu triplo ofício, que está representado em Moisés.
Moisés, portanto, é meu grande mediador, mas quero que confiem em
Moisés, porque ele fala por mim. Ele governa por mim. Ele sacrifica em
meu nome. Ele ora a mim a vosso favor”.
A teocracia é o reinado de Deus sobre seu povo. Deus não diz a Moisés pa-
ra ser rei, porque Deus é o rei. (A propósito, Vos menciona que uma teo-
cracia não deve ser vista como equivalente a uma agência de missões).
Há quatro pontos que quero enfatizar: Reino na terra, símbolo, tipo e Ta-
bernáculo. Primeiro, a teocracia é o reino de Deus na terra. Ele disse: “Vós
sois o meu reino, meu povo organizado”. Em segundo lugar, o povo deve
servir como um símbolo. O que é um símbolo? Um símbolo é uma repre-
sentação de uma realidade maior, mais completa. Então, a teocracia,
quando Deus colocou seu reinado sobre o seu povo, simbolizava que Deus
era o Criador, o Rei sobre toda a criação. Israel simboliza para o mundo
que Deus é o grande rei. Se um símbolo é verdadeiramente um símbolo, é
também um tipo e um tipo nunca é um tipo, a menos que primeiro seja
um símbolo.
Quero considerar agora o Tabernáculo, a tenda. O Tabernáculo é o símbo-
lo de Emmanuel, Deus conosco. Ele indica que Deus, o espiritual, infinito,
invisível, presente em todos os lugares tem feito sua habitação conosco.
Ele habita verdadeiramente com o seu povo, assim quando ele disse: “Eu
estarei convosco. Habitarei no meio de vós. Olhe para o Tabernáculo. É o símbolo
da minha presença”. Mas o Tabernáculo também funciona como um tipo. A
que isso realmente se refere? Quem é o verdadeiro Emmanuel? Veja João
1: “a palavra se fez carne e habitou entre nós”. Quem é que veio e habitou en-
tre nós? Quem é o verdadeiro Emmanuel? Jesus Cristo. Quando o tipo é
totalmente realizado – quando Cristo veio – o símbolo já não precisa fun-
cionar, porque a realidade chegou. Isso é o que o livro de Hebreus enfatiza
tão forte, especifica e persistentemente: “Todos os sacrifícios e o sacerdó-
cio apontavam para Cristo. Quando a realidade já está presente, você não
precisa voltar para os tipos e as sombras e os símbolos. Eles estão acaba-
dos. Eles já cumpriram o seu papel. Você pode ler sobre eles para enten-
der melhor o antítipo”. O Tabernáculo foi a primeira coisa que Deus disse
a Moisés para estabelecer porque o Tabernáculo representa o coração da
teocracia. Deus estava reinando sobre eles. Deus estava lá com eles. Não
veja o Tabernáculo somente como um lugar de adoração, mas veja-o como
um lugar de onde Deus reina. O Tabernáculo é um lugar de onde Deus di-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 87

rige, controla, fala, mostra seu amor, e ministra ao povo para que todos
sejam de fato, reino de sacerdotes.
Eu realmente não concordo com pessoas que querem ver a teocracia res-
tabelecida na terra. Acho terrivelmente difícil de aceitar uma posição es-
catológica premilenista porque isso pede um restabelecimento do símbolo,
mas o símbolo fez o seu papel. Não há nenhum propósito para ele. Jesus
Cristo já veio de forma real. Como o próprio Jesus disse, o Reino está entre
nós. Chegou o Reino de Deus através de Cristo. Antes de Jesus Cristo se
tornar carne na terra, o povo tinha de saber que Deus estava reinando.
Como podia o povo saber que Deus realmente estava reinando, que Deus
era Emmanuel, que a teocracia era uma realidade? O Tabernáculo. Isso era
o palácio. Lembre-se de que o jardim do palácio no Éden tinha que ser de-
socupado. No entanto, Deus mantém o Palácio de uma forma ou de outra.
Por um tempo isso era quase impossível com os patriarcas, mas havia o
altar que Abrão construiu. Agora, o palácio era o Tabernáculo. Quando
chegarmos a Josué, veremos que o cerne do Tabernáculo era a arca da
presença de Deus.
Israel permaneceu fiel a Deus? Israel compreendia o que disse: “Tudo o que
o SENHOR disser isso faremos”? Quando Moisés estava na montanha rece-
bendo as instruções sobre o Tabernáculo e os sacerdotes, o povo criou e
adorou o bezerro de ouro, sob orientação e direção de Arão. Os dois pri-
meiros mandamentos são tragicamente desobedecidos e Deus diz: “Eu vou
acabar com esse povo.” Deus diz a Moisés para descer e quando Moisés vê o
que está acontecendo, ele quebra a tábua dos dez mandamentos, e ele diz
que a Aliança está quebrada. Eles não estão mantendo a vontade de Deus.
Deus diz a Moisés que irá destruir o povo e fazer uma grande nação de
Moisés. Então Moisés se torna o mediador por excelência. Ele ora fervoro-
samente por seu povo caído. Ele ora pela noiva errante de Deus, rogando a
Deus para preservar o seu nome dele. Então Deus aplica a maldição do Ali-
ança e um grande número de pessoas morrem naquele momento. Não só
Moisés funcionou como mediador, mas observe como Deus torna-se co-
nhecido em Êxodo 34.6-7 (você encontrará esta passagem repetida nos
Salmos e em Jonas).
Em Êxodo 34.6, o SENHOR, Yahweh, o ‘Eu sou o que sou’, o compassivo.
Compaixão significa “sofrer com”. O gracioso Deus, que tem amor pelos
culpados, que é tardio para se irar. O termo usado aqui é “de um nariz
comprido, uma respiração longa”. Deus dá um profundo suspiro. Ele é
abundante em amor e fidelidade. Ele mantém a sua chesed, sua bondade
amorosa. Ele perdoa os ímpios. Ele perdoa a rebelião. Ele perdoa o pecado,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula VIII 88

mas ele nunca deixará o culpado sem punição. A justiça e o direito de


Deus vêm, mas existem mais termos usados para descrever o caráter ma-
ravilhoso de Deus como compassivo amoroso, gracioso e paciente. Deus
mostra a sua justiça e direito em face da rebelião e do pecado. Deus é um
Deus misericordioso e Israel, a noiva, foi perdoada, mesmo que ela hou-
vesse cometido um ato trágico de adultério espiritual por se curvar pe-
rante aquele bezerro de ouro, chamando-o de o deus que os libertou do
Egito. Deus perdoou, mas também aplicou a maldição para que soubessem
das consequências. Para o povo como um todo, no entanto, a teocracia
permaneceu. Manteve-se o Reino de Deus na terra.
O Reino de Deus é um reino de compaixão. É um reino de graça, um reino
de paciência, um reino de amor, um reinado de fidelidade. É um reinado
que defende o amor através de todas as gerações. É um reinado de perdão,
mas também é um reino de justiça e retidão. Esse Deus é um Deus gracioso!
Se ele houvesse expressado a maldição da Aliança em um grau completo,
nunca teria havido Jesus Cristo — Emmanuel — mas Deus manteve seu
povo para que, através desse povo, o Cristo viesse e trouxesse todas as vir-
tudes à expressão ainda mais plena e completa.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 89

AULA 9
MOISÉS NO DESERTO
Quando você pensa nos livros de Levítico e Números, não sei se o primeiro
conceito que vem à sua mente é o de perdão e santidade, mas esses são
dois dos temas dominantes desses livros. Em Levítico 19.1-2 lemos: "Disse o
SENHOR a Moisés: Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: San-
tos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo. (Lev. 19:1-2 ARA)".
Se eu for para a 1ª Carta de Pedro — Pedro conhecia bem o Pentateuco — e
ler o capítulo 1, começando com o verso 13:
Por isso, cingindo o vosso entendimento,
sede sóbrios e esperai inteiramente na graça
que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.
14
Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões
que tínheis anteriormente na vossa ignorância;
15
pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou,
tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento,
16
porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.
17
Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas,
julga segundo as obras de cada um,
portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, (1 Pe 1.13-17 ARA).
Ele continua, no verso 19, dizendo-lhes que se lembrem de que foram re-
dimidos "pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o
sangue de Cristo, 20 conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém
manifestado no fim dos tempos, por amor de vós 21 que, por meio dele, tendes fé em
Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé
e esperança estejam em Deus (1 Pd. 1.19-21 ARA)"
Vamos orar.
Senhor, nosso Deus,
quando abrimos a tua palavra esta manhã
e procuramos compreender como ensinar as tuas verdades a partir dela,
oramos por tua orientação e direção.
Precisamos muito disso,
pois queremos ser intérpretes fiéis, professores e aplicadores da tua palavra.
Oh, Espírito Santo, abençoa-nos em nome de Jesus. Amém.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 90

Estamos falando hoje sobre Moisés no deserto. Vamos começar enquanto


o povo de Israel ainda estava no Monte Sinai: onde o livro de Levítico foi
revelado. O livro de Levítico repete um pouco do que encontramos em
Êxodo 20 a 23. Ele pressupõe que o leitor conheça as instruções que Moi-
sés recebeu e passou adiante, conforme Êxodo 25 a 40, quando subiu ao
Monte e recebeu instruções sobre o Tabernáculo e os sacerdotes. O livro
de Levítico certamente pressupõe essa revelação que Deus deu a Moisés, e
que Moisés passou adiante.
SANTIDADE
Eu quero discutir quatro temas principais. Primeiro, há o tema da santi-
dade por parte de Deus e, portanto, santidade por parte do povo. Em Leví-
tico 8, há uma repetição da ordenação dos sacerdotes. Os sacerdotes ti-
nham que representar a santidade de Deus, a pureza de Deus e o repúdio
de Deus ao pecado e qualquer tipo de contaminação. É por isso que temos
o episódio em Levítico 10, depois que Nadabe e Abiú foram infiéis como
sacerdotes. No verso 3, lemos que o Senhor disse a Moisés para dizer a
Arão: "E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha san-
tidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo
(Lv 10.3 ARA)".
Como era importante para os sacerdotes perceber isso! Nadabe e Abiú de-
veriam compreender de alguma forma. Temos a certeza de que é exata-
mente sobre a natureza do 'fogo estranho' que ofereceram, pois foi contra a
vontade de Deus, e Nadabe e Abiú imediatamente receberam a maldição
do Aliança: a morte. Deus é um Deus Santo. Ele é totalmente separado,
mas, no entanto, entra em Aliança com o seu povo. Quando entra em Ali-
ança com o seu povo, ele exige santidade — uma remoção, tanto quanto
possível, de todo pecado e impureza. Deus chama o povo para o arrepen-
dimento, confissão, perdão, remoção da culpa e, depois, para andar assim.
Deus quer pessoas justas. Ele quer que as pessoas com quem mantém rela-
cionamento reflitam a sua justiça e trilhem o caminho ortodoxo: uma es-
trada reta. Isso é o que Deus queria antes que o povo começasse a marcha
pelo deserto. Ele queria um povo puro e ortodoxo. Para ajudar a torna-los
no povo santo que ele desejava, prescreveu esses diversos sacrifícios.
SACRIFÍCIO
Em segundo lugar, há o tema do sacrifício. Havia muitos tipos diferentes
de sacrifícios. Os sacerdotes tinham uma tarefa árdua, mas cada um desses
sacrifícios referia-se a algo muito específico. Havia uma oferta sem der-
ramamento de sangue, mas depois havia as oferendas de sangue, onde os
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 91

animais eram abatidos para o sacrifício. Havia as ofertas queimadas, que


se destinavam a virar fumaça, o fogo consumia ofertas de animais ou ce-
reais, tudo era consumido. Essa fumaça subia ao Senhor. Muitas vezes ha-
via semelhança de tratamento a todas as ofertas, mas o movimento e o
ritual que acompanhava esses sacrifícios era muito importante porque
representaram alguns aspectos da reconciliação entre Deus e o homem.
Através desses sacrifícios diferentes, homens e mulheres indicaram seu
arrependimento, receberam o perdão e a garantia de ter seus pecados co-
bertos. Eu não vou passar por todos estes sacrifícios e não espero que se
lembrem de todas eles, mas menciono esses para enfatizar a sua enorme
variedade. Deus proveu isso para os pecadores, e os sacerdotes tinham
que conhecer cada sacrifício. Eles tinham poder para oficiar e para dizer
ao povo o sacrifício correto no momento adequado.
EXPIAÇÃO
O terceiro tema é a expiação. Quando você pensa em sacrifício, você deve
imediatamente lembrar-se de que Deus abomina o pecado, e ele sabia que
tinha um povo pecaminoso. Mesmo que ele o tivesse libertado do Egito,
mesmo que esse povo tivesse sido selado pelo sangue, o pecado permane-
cia entre o povo. Transgressão “errar o alvo” – qualquer palavra que você
queira usar – significa que havia pecado. Havia mais do que mera falha;
havia uma rebelião. Havia pecados de comissão, pecados de omissão e,
frequentemente, os pecados de omissão eram tanto rebelião quanto falha.
Quero deixar bem claro que quando lemos de Abel e Caim, trazendo sacri-
fícios, não temos certeza de que sacrifícios apresentaram. Sabemos que
eles sacrificaram e pode ser que estavam buscando expressar um dos con-
ceitos que mais tarde foi escrito na lei mosaica. É possível que a ideia de
substituição já estivesse na mente de Caim, porque sua oferta foi agradá-
vel. Não encontramos uma teologia do sacrifício até chegarmos a Levítico,
e temos de ter cuidado com Gênesis 4, onde lemos do sacrifício de Caim e
Abel, ou do sacrifício de Noé, em Gênesis 8. Sabemos que, quando saiu da
arca Noé ofereceu sacrifício que foi agradável. A ideia do sacrifício estava
presente desde os primeiros tempos, mas agora Deus o exigiu por decreto
e por lei. Por lei e com explicação cuidadosa e aplicação. Lembre-se de que
eram os israelitas redimidos que tinham que oferecer sacrifícios porque
continuavam sendo um povo pecaminoso. Eles continuavam precisando
de um substituto, pois o cordeiro que foi morto desde antes dos funda-
mentos da terra ainda não tinha sido oferecido. Todos estes cordeiros e
aves e vacas e ovelhas eram oferecidos como símbolos, apontando para a
frente, para o grande antítipo, o Cristo. É por isso que o livro de Hebreus
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 92

diz que não há nenhuma necessidade agora de qualquer derramamento


de sangue ou qualquer tipo de sacrifício, exceto o sacrifício no sentido de
expressar gratidão.
Finalmente, os sacrifícios tinham uma dimensão de comemoração, alegria
e adoração. Quero salientar, por exemplo, que o sacrifício é tão cuidado-
samente prescrito para todas as situações no livro de Levítico (e também
um pouco em Números e Deuteronômio) para dar às pessoas a garantia do
perdão. As pessoas podiam ser perdoadas. Em Levítico 4, depois da oferta
pela culpa ser listada, o texto conclui "e eles serão perdoados. (Lev. 4:20 ARA)"
O povo redimido, quando pecava no dia a dia, ainda podia ser um povo
limpo e santificado através do sacrifício substitutivo. Por esse sacrifício,
eles expressavam arrependimento pediam perdão, e recebiam a garantia
de que estavam com Deus. Eles eram purificados.
Um povo perdoado é um povo agradecido, e muitos sacrifícios podiam até
mesmo ter um duplo significado — buscava o perdão e ao mesmo tempo
dizia: "Somos gratos, Senhor, por tua obra expiatória. Agradecemos por
teu perdão. Agradecemos por tua purificação." A gratidão que precisava
ser expressa tinha uma dimensão comemorativa. As pessoas precisavam
honrar a Deus, lembrando o que Deus tinha feito. A propósito, a parte
principal do agradecimento a Deus é glorificá-lo e a melhor maneira de
glorificar a Deus é agradecê-lo. Esses sacrifícios destinavam-se a trazer
glória e honra a Deus, não só porque as pessoas estavam obedecendo a ele,
mas também porque estavam reconhecendo-o. Lembre-se de que deve-
mos trazer nossos sacrifícios — não mais como expiação, porque isso já foi
feito — mas dando graças, lembrando do que Deus tem feito por nós e nos
consagrar.
Muitos sacrifícios que os israelitas do Antigo Testamento ofereciam não
eram completamente queimados. Era só a kaliel olah, o "Holocausto", que
era completamente queimado. A maioria da gordura era para ser queima-
da, isso era também uma medida sanitária, pois as pessoas que viviam no
deserto quente não deviam comer gordura. Em vez disso, eles queimavam
a gordura que se tornava um aroma agradável ao Senhor, porque era, de
certa forma, o melhor do animal. A maioria dos sacrifícios que eram trazi-
dos, porém — todos os grãos e as refeições e animais — eram comidos pe-
los sacerdotes e suas famílias. Portanto, sacrifícios tinham que ser trazi-
dos para manter os sacerdotes vivos e para manter os levitas fortes e ope-
rantes. Assim, sacrifícios incluem definitivamente a ideia de "presente",
mas também a ideia de "apoio".
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 93

Um dos grandes sacrifícios era oferecido no Dia da Expiação, que lemos


em Levítico 16. Algumas pessoas têm dito que gostam da ideia de expiação,
mas eu não gosto muito do termo porque foi usado por tantas pessoas,
como se pudéssemos ficar em paz com Deus através de nossos esforços. Só
Jesus Cristo, através do seu sacrifício, pode trazer-nos a um relacionamen-
to correto com Deus. Mas a ideia da expiação, especialmente como reve-
lada em Levítico 16, deve ser mantida distinta de Páscoa. A festa da Páscoa
era uma festa comemorativa, comemorava a grande redenção. Deus trou-
xe o povo da escravidão do Egito para a liberdade, livrando-os da escravi-
dão física e espiritual. Deus fez isso na morte dos primogênitos e na morte
do Cordeiro Pascal, cujo sangue foi colocado nas portas das pessoas que
eram cobertas por ele. A Páscoa celebra particularmente a grande reden-
ção do Cordeiro Pascal. O Dia da Expiação era uma festa diferente. Esta
festa tinha dois bodes. O primeiro bode era abatido e o seu sangue repre-
sentava o sangue purificador. O outro bode era o bode expiatório, que ti-
nha que ser levado para longe. As mãos eram colocadas sobre ele, e ele era
levado para o deserto, porque tinha que levar os pecados do povo. A pro-
pósito, o Yom Kippur, o dia da cobertura, ainda é um grande dia de festa
para o povo judeu.
O livro de Levítico também registra as festas no capítulo 23, particular-
mente. Havia três coisas que as festas se destinavam a realizar. Eram tem-
pos de comemoração — para lembrar e dar expressão a um grande feito
que Deus havia realizado no passado. Essas festas deviam ser tempos de
alegria. Deus queria um povo feliz, um povo alegre. Devia haver oferta
festiva, ofertas especiais eram feitas durante a festa para dar expressão a
essa alegria profunda e sincera. Essas pessoas deviam alegrar-se porque
sabiam que tinham um Deus que se importava, um Deus que perdoava, um
Deus que liderava e um Deus que supria às necessidades.
Deus queria um povo alegre. Sabemos que os Salmos, também, contêm
muitas chamadas para a alegria, embora Oseias 9 diga que ao povo que
não devia se alegrar, porque não estava bem com Deus. Quem não está
bem com Deus não pode se alegrar. Em um sentido real, a Bíblia nos con-
vida a dar expressão à verdadeira alegria que só pode vir de um senso de
perdão e de estar totalmente bem com Deus. Finalmente, as festas sempre
tinham uma dimensão escatológica. Cada festa continha elementos de
comemoração, alegria, e a dimensão escatológica no fato de que sempre
apontava para a frente para a primeira e para a segunda vinda do Messias.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 94

Nos dez primeiros capítulos do livro de Números, existem três fatores teo-
lógicos muito importantes. A primeira é a organização e a ordem.
(Eu estava no Comitê para o trabalho de tradução da NVI no livro de Nú-
meros e quando o Bakers Evangelical Commentary de toda Bíblia estava sen-
do preparado e os vários livros foram designados para que os comentaris-
tas escrevessem sobre ele. Ninguém queria escrever um comentário sobre
os números, porque é um livro tão morto, abafado. Robert Elwell, o editor,
não acreditou quando me ofereci para escrever sobre Números, porque
acho Números um livro muito interessante.)
De qualquer forma, se você estudar o livro de Números, você irá encon-
trar primeiramente que Deus é um Deus de organização e um Deus de or-
dem. Se o livro de Levítico enfatiza a santidade e a pureza, os primeiros
capítulos de Números enfatizam a organização — "Sejam organizados, vo-
cês são agora uma unidade política, uma nação santa. Mostrem santidade
no quanto são organizados”.
Às vezes sinto-me mal por ter pensamentos ruins quando entro em uma
casa que é toda bagunçada com coisas espalhadas por todo o lado. Quando
entro em um escritório e vejo os livros e papéis empilhados em todos os
lugares, eu penso comigo mesmo: "Essa pessoa sabe onde está?" Algumas
pessoas sabem exatamente onde tudo está no meio do que parece ser uma
desordem total, mas Deus quer ordem. Deus quer organização, e ele deu a
cada tribo o seu lugar. Judá era o líder central e os três filhos de Arão cada
um tinha o seu lugar, e cada um dos grupos sacerdotais tinha as suas fun-
ções. Essa ordem significava que não havia nenhuma brincadeira. Você
ocupava o seu lugar. Você fazia os deveres que lhe eram atribuídos e os
fazia com alegria e prazer. Você fazia isso obedientemente. Se você fosse
uma criança ou um dos adultos, você fez sua parte em seu lugar de acordo
com a ordem e a organização de Deus. Se você serviu o exército, você deve
ter um bom conceito de ordem e administração de observância de agenda.
Acho que às vezes todo pregador deveria ter pelo menos um ano no servi-
ço militar ouvindo as ordens gritadas de um sargento! Talvez possamos
fazer isso sem chegar a tanto, mas Deus queria ordem, boa disposição, to-
dos em seu lugar, tudo feito de acordo com seu modo.
Outra coisa que encontramos em Números é uma ênfase na pureza. Antes
do povo começar a sair, o texto aborda vários tipos de impureza — doen-
ças da pele, hanseníase e adultério. Nós vemos o Voto de Nazireu, e como
os levitas tinham que ser separados e mantidos afastados. Em Números,
Deus iria repetir, com mais detalhe do que antes, o que ele esperava em
uma situação específica. Quando você encontrar repetições em números
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 95

do que já foi dito em Êxodo e Levítico, você tem que lembrar que Deus es-
tá repetindo o que ele tinha dito antes, aplicando-o à situação específica.
Números mostra a vontade de Deus aplicada a situações muito específicas,
enquanto o povo andava pelo deserto. Se você prestar atenção em Núme-
ros, você entende que Deus se revela no decorrer da história, no cadinho
da história. Quando coisas acontecem, Deus repetia suas instruções por
meio de Moisés. Ele explicava. Ele nunca iria contradizer o que foi dito
antes, mas ele podia expandir, ou aplicar o que ele disse antes de uma
forma única e específica.
Em Números 9, encontramos uma repetição dos quesitos da Páscoa, mas
agora é no contexto do que acontece quando alguém está fora do acam-
pamento por viagem ou por causa de uma morte na família ou alguma ou-
tra impureza. A questão é se eles podem celebrar a Páscoa, então as leis
para a Páscoa, o que você vai encontrar em Êxodo 12, são repetidas aqui
para explicar o que deve acontecer nessas situações. Todo mundo precisa
celebrar a Páscoa, então Deus faz provisões para comemorar um mês mais
tarde, quando essas pessoas puderem voltar e estiverem purificadas, lim-
pas, etc. Deus ajuda o seu povo a se adaptar às circunstâncias. Deus não é
rígido, Deus é flexível. Deus nunca se move de um ponto ao outro, mas eu
gosto de pensar de Deus, tendo os seus pés firmemente plantados em sua
vontade e então quando mudam circunstâncias humanas, ele tem um jei-
to de inclinar-se para a frente e para o lado, mas ele mantém os pés no
lugar. Acho isso bom para pregadores, professores, pais e mães, aprende-
rem a manter-se firmemente arraigados, inclinando-se com alguns dos
ventos que sopram, por vezes, da família, quando os jovens trazem “novi-
dades” de pessoas ou vizinhos ou de seus próprios corações pecaminosos.
A última parte do capítulo 9 e a primeira parte do capítulo 10 realmente
dão expressão ao conceito Pactual de Emmanuel, "Deus conosco". Nessa
seção, vemos a nuvem sobre o Tabernáculo, a coluna de fogo, à noite, e a
nuvem durante o dia. Isso é Deus representado perante o seu povo, Deus
protegendo, Deus sempre presente.
Os israelitas nunca perguntavam onde estava Deus. Ele estava lá com eles,
acima deles, ofuscando-os, iluminando-os, guiando e preservando-os. Nós
também lemos sobre o chifre nos dez primeiros versos do capítulo 10: "Fa-
ze duas trombetas de prata; de obra batida as farás; servir-te-ão para convocares
a congregação e para a partida dos arraiais (Nm 10.2 ARA)". Lemos no livro do
Apocalipse, que um dia a trombeta soará, e em 1 Coríntios 15.2, lemos que
os mortos serão ressuscitados. Há uma dimensão escatológica aqui tam-
bém. As trombetas eram para chamar o povo, dizendo-lhe que Deus esta-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 96

va falando e que era hora de festa, ou tempo para guardar o sábado, está
na hora de sacrificar ou é hora de seguir em frente. A trombeta tinha de
ser tocada de muitos modos diferentes, de acordo com a ocasião. Mas a
trombeta era, de certo modo, a voz de Emmanuel. Deus falava, Deus cha-
mava através da trombeta.
Quando estávamos viajando na década de 1970 com um grupo de estudan-
tes do Seminário Teológico Reformado, que passou seis semanas na Jor-
dânia e Palestina, tivemos algumas demonstrações de como essas pessoas
podiam soar o chifre de carneiro. Se alguém estivesse no topo de uma co-
lina e soprasse o chifre, ele poderia ser ouvido nos vales. É um som, pene-
trante. Dos sons mais bonitos, a meu ver. Estou esperando Arcanjo para
tocar a trombeta novamente, porque essa é a voz de Jesus.
Passemos à revelação no deserto enquanto o povo estava em marcha.
Aqui temos uma teologia do que eu chamaria da marcha no deserto. A
primeira coisa para o que eu vou chamar sua atenção é Números 10.33:
"Partiram, pois, do monte do SENHOR caminho de três dias; a arca da Aliança do
SENHOR ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar lugar de descan-
so" Esse é o verso. Que mensagem!
No que se refere a arca, temos que voltar ao Êxodo para obter as dimen-
sões e a descrição da arca e o seu simbolismo. A arca representava não só
a face de Deus, mas o coração de Deus, a presença de Deus. Seu nome e
rosto eram representados pela arca, que era mantida no Santo dos Santos,
mas quando chegava a hora de marchar, a coluna e a nuvem passavam
adiante do povo. A arca estava bem na frente, e quando a arca parava, as
pessoas paravam. E quando a arca era erguida e carregada, o povo saía
porque Deus os guiava. Deus não só estava presente, mas ele os conduzia.
Era a Arca da aliança que representava o Deus soberano, que tinha um re-
lacionamento inquebrável com seu povo. Isso não era por causa deles,
Deus era como ele verdadeiramente é, o Deus que tinha se revelado tão
completamente em Êxodo 34. A arca sempre os conduziu até o local de
descanso. Eles tinham que ter seu shavath, o "descanso", no deserto, tam-
bém. Às vezes, o descanso vinha depois de três dias, às vezes, depois de
algumas semanas e uma vez eles tiveram que parar e descansar por cerca
de 38 anos, mas a arca conduziu-os sempre para o lugar de descanso. Deus
conduz o seu povo para o descanso. Ele próprio descansou após a criação.
Ele conduziu o povo ao descanso em alguns lugares no deserto, mas eles
sempre estavam descansando em lugares onde as pessoas podiam descan-
sar e ganhar forças para seguir em frente, antes da próxima e a próxima
jornada, até que, finalmente, como Hebreus 4 nos diz, viemos para o des-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 97

canso eterno, que é simbolizado pela terra prometida. As pessoas tinham


de descansar no deserto para que tivessem força para chegar ao local de
descanso temporário, a terra de Canaã. Deus quer conduzir o seu povo ao
descanso eterno.
Quando avançamos para o capítulo 11, lemos do fogo por causa da mur-
muração. Deus não quer um povo que murmura. Ele os destruiu. É o pri-
meiro julgamento enviado, o fogo da morte, tão logo eles começaram a
reclamar, mas Deus mandou abençoar também. Ele supriu o povo com o
maná e as codornizes. No capítulo 11, aprendemos muito sobre como o
Espírito de Deus torna-se um Espírito supridor. Poderíamos gastar um
pouco de tempo com o Espírito Santo, mas eu só quero mencionar algu-
mas coisas aqui.
Em números 11 lemos como Eldade e Medade ficaram no acampamento.
Depois de alguns dos anciãos terem sido nomeados para ser assistentes de
Moisés, 68 deles vieram até Moisés e receberam do Espírito que estava
sobre Moisés. Eles receberam o Espírito, e isso ficou evidente pela forma
que profetizavam, mas Eldade e Medade ficaram no acampamento. Josué
ficou preocupado com isso, mas Moisés disse sem medo. Agora o que o
Espírito que veio sobre esses 70 fez? Equipou-os. Qualificou-os. Ele deu-
lhes a capacidade e a autoridade para fazer o trabalho que Moisés lhes
atribuiu. Havia muito trabalho para Moisés fazer sozinho, então esses
homens receberam o Espírito. O texto não diz que os 70 foram converti-
dos ou regenerados. Diz que o Espírito veio sobre eles e eles profetizaram
com Moisés e enquanto Moisés fazia o seu trabalho profético de julgar.
Isso foi um espírito que qualificou.
Nós também lemos sobre o Espírito Santo em outros lugares no Pentateu-
co. Por exemplo, nos seis primeiros versos de Êxodo 31, lemos sobre o Es-
pírito qualificar um homem a fazer artesanato e obra arquitetônica. O
homem que que construiu o Tabernáculo possuía o Espírito. O Espírito
equipa as pessoas a serem construtores. O Espírito equipou homens para
pregar a palavra de Deus. Equipou-os para pregar a Palavra de Deus, e isso
novamente em Números 24. O Espírito habilita os juízes como Otoniel,
Gideão e Sansão. Em outro lugar, lemos que, pelo Espírito, o povo foi ca-
paz de cantar. O espírito é um espírito que qualifica. Ele dá capacidade, e
ele dá autoridade. E essa é a ênfase principal quando o Antigo Testamento
fala sobre o Espírito. Toda a ordem profética existia e era capaz de funci-
onar porque o Espírito vinha sobre os profetas e dava-lhes a capacidade e
o direito de falar.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 98

Algumas pessoas têm a capacidade de fazer algo, mas não o direito de fa-
zê-lo. Uma mulher solteira pode ter a capacidade de ter um filho, mas ela
não tem o direito de tê-lo. E alguns casais têm o direito de ser pais, mas
podem não ter a capacidade. Temos de fazer uma distinção entre a auto-
ridade e capacidade. O fato de eu ter a capacidade de fazer algo não signi-
fica que eu tenho o direito de fazê-lo. Um mal-entendido deste princípio é
o que leva a muitos problemas com o movimento feminista. O ponto é que
os pais receberam a capacidade e o direito de ser sacerdotes, quando o
azeite foi colocado sobre eles. O azeite representava o Espírito que os qua-
lificava. Qualificou os profetas. Qualificou Josué. Qualificou Moisés. Quali-
ficou os anciãos. O Espírito é um Espírito que qualifica.
Ele também é um Espírito que embeleza. "Envias o teu Espírito, eles são cria-
dos, e, assim, renovas a face da terra. (Sl 104.30 ARA)": Salmo 104, referindo-se
a Gênesis 1.2. O Espírito é um espírito de embelezamento, mas há apenas
algumas referências no Antigo Testamento ao Espírito de ser um Espírito
regenerador. Ezequiel 37 é a grande passagem de como o espírito é rege-
nerador, Espírito vivificante. O Antigo Testamento não nega isso, mas
nunca devemos esquecer de que o Espírito que estava ativo na criação, na
restrição ao pecado, nos últimos dias antes de Noé e no deserto também,
sem dúvida, é, antes de tudo, enfatizado como o que nos qualifica com
Deus. Quando lemos, "Posso todas as coisas naquele que me fortalece", muitas
vezes pensamos que isto refere-se a Cristo, mas Cristo permite-nos por
seu Espírito.
Então, vemos o Espírito qualificando, e como o Espírito agia no deserto
em face de toda a oposição. Existem quatro exemplos de oposição. Primei-
ro, vemos Arão e Miriam, opondo-se a Moisés, o Profeta, dizendo: "Porven-
tura, tem falado o SENHOR somente por Moisés? Não tem falado também por nós?
(Nm 12.2 ARA)". Miriam, a mulher, é o líder e ela é ferida de lepra porque
Deus diz: "Ouvi, agora, as minhas palavras; se entre vós há profeta, eu, o SENHOR,
em visão a ele, me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. 7Não é assim com o
meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. 8 Boca a boca falo com ele, cla-
ramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR; como, pois, não te-
mestes falar contra o meu servo, contra Moisés?" (Nm 12.6-8 ARA). Moisés era o
mais novo dos três, mas foi ele nomeado por Deus. Deus o qualificou.
Em segundo lugar, há a história dos espiões. Lemos em números 13 e 14
como os dez trouxeram grande oposição contra a tomada de terra, mas
Josué e Calebe são heróis. Em seguida, no capítulo 15, vemos como lidar
com o pecado da oposição através do exemplo clássico de uma quebra do
sábado. Um homem que deliberadamente saiu no sábado para pegar varas
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 99

foi preso. Depois ele teve que ser executado. A maldição total da Aliança
tinha que ser aplicada a ele, porque ele tinha intencionalmente premedi-
tado pecar contra Deus.
Números 15 nos diz que há pecados premeditados e pecados acidentais.
Havia sacrifícios pelos pecados acidentais, até mesmo um assassinato aci-
dental. Mas Davi sabia, e ele fala isso no Salmo 51, que não havia nenhum
sacrifício por ele como assassino e adúltero, porque ele tinha feito isso
premeditadamente. Ele planejou seu adultério, ele planejou o assassinato,
e não havia nenhum sacrifício pelo pecado de rebelião.
Finalmente, há o pecado de Corá, Datã e Abirão, que se recusaram aceitar
a liderança de Moisés. O problema da liderança mantida é recorrente.
Arão e Miriam desafiaram Moisés no capítulo 12, e agora no capítulo 16,
foi a liderança de Arão que foi desafiada por Corá, Datã e Abirão. Espero
que você esteja familiarizado com essa história. No capítulo 17, há o bro-
tamento da vara de amêndoa de Arão que é reconfirmado em sua obra e
sua posição sacerdotal. Após o grande desafio de Corá, Datã e Abirão, nós
lemos sobre os sacerdotes e levitas e as ofertas nos capítulos 18 e 19. No-
vamente, não há repetição. Após os quatro grandes pecados listados, há
uma repetição nos capítulos 18 e 19 sobre os sacerdotes e os levitas — seu
lugar, seu papel e como tinham que ser mantidos. Novamente, Deus falou
e Deus revelou sua vontade nas circunstâncias quando ocorreram no cur-
so das viagens pelo deserto. Capítulo 20 nos diz da tragédia na vida de
Moisés. Moisés ficou tão cansado das reclamações desse povo, povo rebel-
de que bateu na rocha, quando deveria apenas ter falado a ela.
Sabemos que Moisés recebeu o castigo, e ele acusou o povo disso nos pri-
meiros quatro capítulos de Deuteronômio, dizendo, "o SENHOR indignou-se
muito contra mim, por vossa causa" (Dt 3.26 ARA). Isso soa quase petulante,
mas Moisés colocou o dedo bem onde estava a ferida. O povo o cansou. O
Diabo estava ocupado no deserto. E o povo que deveria ter sido agradeci-
do a Moisés tornou-se sua ruína. Ele tinha mediado por eles no Sinai e
uma vez após outra ele falou a favor deles, mas eles também se tornaram
sua ruína.
Números oferece-nos uma teologia do deserto. Deus é soberano. Leia os
primeiros 20 capítulos de Números. Ele está no comando do cosmos. Ele
pode fornecer água. Ele pode fornecer aves. Ele pode fornecer o maná. Ele
pode dar sombra de dia e luz durante a noite. Ele sabe onde estão os luga-
res de descanso. Ele mostra-se rei do cosmos, mas ao mesmo tempo ele
mostra-se ser um Deus Santo. Ele nunca comprometeria sua pureza e sua
santidade. Deus é um Deus que qualifica e supre. Deus é um Deus provedor.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 9 100

Dentre as provisões grandes que ele trouxe está o perdão. Ele iria perdoar
e perdoar e perdoar, mas ele também forneceria o Espírito para qualificar
as pessoas a fazer o seu dever. Ele é um Deus provedor, mas o Senhor é
também o Deus que traz a maldição. Ele executou a maldição do Aliança.
Existem muitas bênçãos que podem ser enumeradas, mas Deus manteve a
Aliança também quando ele executou a maldição. Finalmente, Deus real-
mente provou ser o Deus que revelou-se a Moisés. Ele é um Deus cheio de
compaixão. Ele sempre sofreu com seu povo. Ele é gentil e perdoador.
Deus é um Deus que perdoou porque sua bondade e sua fidelidade nunca,
nunca tem fim. A história de Israel no deserto é a história de um povo in-
grato, abençoado e mantido por um Deus maravilhoso e gracioso.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 101

AULA 10
MOISÉS NA TERRA
Há muitas passagens em Números e Deuteronômio que eu poderia citar,
mas escolhi algumas palavras de Deuteronômio 8 que Jesus citou quando
foi tentado. Nos versos 1-3, Moisés diz ao povo:
Cuidareis de cumprir todos os mandamentos que hoje vos ordeno,
para que vivais, e vos multipliqueis, e entreis,
e possuais a terra que o SENHOR prometeu sob juramento a vossos pais.
Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus,
te guiou no deserto estes quarenta anos,
para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração,
se guardarias ou não os seus mandamentos.
Ele te humilhou, e te deixou ter fome,
e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam,
para te dar a entender que não só de pão viverá o homem,
mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem (Dt 8.1-3 ARA).
Você deve se lembrar de quando Satanás veio a Jesus no deserto. Jesus,
então, falou ao Diabo, as palavras que tinham sido ditas por Moisés. Em
Mateus 4, lemos a partir do verso 1:
A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse:
Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.
Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem,
mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Mt 4.1-4 ARA).
Moisés enfatiza a importância de prestar atenção à palavra de Deus. Por-
tanto, Jesus repetiu. Você vai encontrar repetições disso porque essa pa-
lavra foi muito importante. Essa palavra era a vida. Como o maná para o
corpo físico, assim, a Palavra era importante. A palavra era instrumento
de Jesus contra o diabo no momento da tentação.
Vamos olhar para a última parte de Números e Deuteronômio, esta ma-
nhã, mas primeiro vamos orar.
Senhor, nosso Deus,
quando nos voltamos para tua palavra,
conceda-nos uma crescente compreensão
para que sejamos capazes de ensiná-la, de pregá-la e vivê-la.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 102

Agradecemos-te por esta palavra.


Agradecemos-te por teu Espírito,
que ilumina e guia o nosso pensamento e aprendizagem
e nos envia a mensagem na Palavra escrita.
Abençoa-nos em nome de Jesus, Amém.

Começamos nos referindo a Moisés na terra, mas os estágios iniciais da


possessão da terra são registrados em Números 20 e seguintes. A primeira
coisa que quero salientar é que o texto faz referência a alguns desses po-
vos que eram — se me permitem colocar desta forma — um pouco prote-
gidos porque estavam relacionadas pactualmente. Primeiro, houve Edom.
Quando nos voltamos para Deuteronômio 2, lemos que Deus disse a Moi-
sés que o povo não devia atacar Edom porque Edom era aparentado com
Israel. Os edomitas eram descendentes de Esaú, irmão de Jacó. Assim, a
promessa de uma terra é, também, aplicada a Edom.
O rei de Arade atacou o povo de Israel, como lemos em Números 21.1.
Arade era uma cidade Cananeia. Alguns pensam que os amalequitas po-
dem ter sido relacionados para a cidade de Arade. Se você for para o sul da
Judeia, hoje, ou sul da Palestina, você pode encontrar as ruínas da cidade
de Arade do outro lado da colina que aparentemente não foi reconstruída
desde que foi destruída pelos israelitas.
Uma coisa que nunca pude entender é porque, depois que destruíram
Arade, os israelitas não continuaram para o Norte. De certa forma, tinham
feito um grande avanço, porque Arade era um dos grandes redutos cerca
de 80 quilômetros para o interior a partir do Mar Mediterrâneo. Arade era
uma grande barreira de resistência contra alguém vindo do Sul. Israel a
destruiu, mas, ao invés de continuar nessa direção, virou para o Leste e
depois teve que lidar com Moabe. Em Deuteronômio 2.4-5, lemos que não
foram autorizados a tomar as terras de Esau: "Passareis pelos limites de vos-
sos irmãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir; e eles terão medo de vós; por-
tanto, guardai-vos bem. Não vos entremetais com eles, porque vos não darei da
sua terra nem ainda a pisada da planta de um pé; pois a Esaú dei por possessão a
montanha de Seir". Em Deuteronômio 2.9, lemos: "Então, o SENHOR me disse:
Não molestes Moabe e não contendas com eles em peleja, porque te não darei pos-
sessão da sua terra; pois dei Ar em possessão aos filhos de Ló.
Os israelitas dizimaram Arade, mas Deus ordenou-lhes não tocar em Edom.
Edom era um irmão de Jacó. Deus ordenou o povo não tocar em Moabe. Os
moabitas eram nascidos de uma relação incestuosa, mas a terra era deles,
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 103

porque Deus a deu a Ló. Você pode ler sobre isso em Gênesis 13, onde Ló
foi separado de Abraão e a decisão foi tomada. Moisés disse ter sido o Se-
nhor soberano, o rei da criação, o Deus da Aliança, que declarou que o pa-
rente de Abraão tinha direito à terra.
Isso me faz pensar cada vez mais que as pessoas que estavam de alguma
forma relacionadas com o povo da Aliança, viviam sob a bênção e a res-
ponsabilidade da Aliança. Em certo sentido, Noé é um segundo Adão, pos-
to que ele e seus três filhos tornaram-se os antepassados de toda a raça
humana. A linha mediatorial corre direto até Jacob através de Abraão e
Isaque. Esaú e Ismael não estão diretamente na linha mediatorial, mas es-
tão relacionados pactualmente. Aqueles que estão na linha da aliança di-
reta representam os que são verdadeiros crentes. Há um outro grupo de
pessoas, no entanto: aqueles que nasceram em famílias da Aliança, mas
não responderam ainda. Hoje muitas pessoas nascem em lares crentes,
mas elas mesmas não são crentes. Por exemplo, eu tenho um sobrinho
que rejeita tudo. Ele tem 25 primos. Cada um deles aceita a verdade como
ensinada nas Escrituras, como ensinados a viver por seus pais, mas este
um sobrinho é um rebelde. Ele vem do mesmo contexto. Ele nasceu neste
mesmo ambiente, mas você não pode dizer que ele é um homem nascido
de novo. Sua vida e suas palavras certamente testemunham o fato de que
ele não o é. Então é possível quebrar a Aliança e sair de um lar da Aliança.
Além de Esaú e Ismael, os moabitas e os amonitas eram também pessoas
privilegiadas por serem descendentes de Ló. Essas pessoas estavam relaci-
onadas com a Aliança, apesar de não se acharem diretamente dentro dela.
Muitas pessoas estão totalmente fora; elas são trazidas através do evange-
lismo, se Deus quiser. Mas temos um equivalente atual de todos aqueles
que nascem dentro deste tipo de relacionamento Pactual: Há muitos que
recebem o sinal do batismo, mas seus pais não são crentes.
Existem também muitas pessoas que são batizadas quando adultas, que
mais tarde se afastam. Eu batizei alguns adultos e dentro de três anos,
eram os piores apóstatas. O sinal do batismo, então, torna-se uma maior
maldição para essas pessoas. Pense sobre essas relações diferentes. Arade,
a cidade cananeia, foi destruída, enquanto os parentes distantes de Abra-
ão foram protegidos. É verdade que os amonitas e os moabitas não foram
autorizadas a entrar no Tabernáculo por três ou quatro gerações mais
tarde porque não deixaram Israel passar por seu território, mas, ao mes-
mo tempo, eles não foram punidos. Edom continuou com o seu ódio pelo
Senhor. Sabemos que Satã usou Edom porque Herodes era uma edomita.
Quem foi que tentou matar o menino Jesus? Foi Herodes, um edomita.
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 104

Amós refere-se a esse ódio em Amos 1, falando sobre como Edom consis-
tentemente perseguiu seu irmão com a espada e como ele o odiava, mas
Deus o protegeu. Edom pôde viver e foi reconhecido como uma nação até
o fim do Antigo Testamento. Isto demonstra a incrível graça comum de
Deus, mas, ao mesmo tempo, aqueles que têm recebido muitas bênçãos e
não creram receberão maior condenação.
Seom e Ogue também são representantes dos cananeus. Eles poderiam ter
continuado vivendo em paz se não tivessem tratado Israel desafiadora-
mente. Lembre-se de Gênesis 12.1-3, onde Deus diz que ele amaldiçoaria
quem amaldiçoasse Abrão e abençoaria os que o abençoassem. Moisés en-
viou mensageiros a Seom, rei dos amorreus, em Números 21, dizendo:
"Deixa-me passar pela tua terra; não nos desviaremos pelos campos nem pelas
vinhas; as águas dos poços não beberemos; iremos pela estrada real até que pas-
semos o teu país". Em vez disso, Seom e Ogue levantaram-se com ira desafi-
adora. Moisés destruiu-os com o seu exército e suas terras tornaram-se
parte da terra prometida. Se esses povos não tivessem tomado a atitude
errada a respeito de Israel, eles poderiam ter mantido sua existência naci-
onal, a posse de suas terras, mas a maldição veio sobre eles como Deus ha-
via dito em Gênesis 12.
Em seguida, chegamos a Balaque e Balaão. Bem poderíamos gastar um
pouco de tempo aqui. Balaque é um adversário do povo de Deus, mas ele é
moabita. Ele é um parente distante. Balaão é um mágico. Números 22.7 diz
que Balaque pagou uma taxa pela adivinhação. Balaão era chamado de
profeta, mas ele, no entanto, usou adivinhação como um meio para sua
profecia e ele cobrava uma taxa para isso. A coisa que é verdadeiramente
surpreendente aqui é como a soberania de Deus é um fator tão dominante.
Deus controla os mágicos. O Anjo do Senhor entra em cena e desafia Bala-
ão, o mágico; então ele diz "você pode ir, mas você será usado por nós, o
Deus Triúno. Só vai falar as palavras que colocarmos em sua boca." Balaão
poderia ter dito, "Bem, eu vou voltar, pois não posso ganhar minha taxa
de Balaque." No entanto, depois disso, ele está sob o comando divino, sob
compulsão divina, sob o mandato divino. Ele tem que ir. A soberania de
Deus leva o mágico lá e o usa. A coisa que me espanta, quando leio Núme-
ros 22-24, é como Balaão expressou fatores Pactuais — elementos da ali-
ança que Deus havia prometido a Abraão, Isaque e Jacob e o povo de Israel
através de Moisés.
Balaão toma esses conceitos e os repete como parte da bênção. Olhe para
as cinco profecias que ele faz. "Como posso amaldiçoar a quem Deus não amal-
diçoou?" (Nm 23.8 ARA). Deus não amaldiçoou Israel. Deus disse, como Bala-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 105

ão diz no verso 10: "Quem contou o pó de Jacó ou enumerou a quarta parte de


Israel?" (Nm 23.10 ARA). Balaão sabia que Israel devia tornar-se tão numero-
so quanto o pó da terra, a areia do mar e as estrelas do céu. Balaão sabia
disso e repetiu isso a Balaque. Pela providência divina, Balaão pronuncia
isso como uma bênção sobre Israel.
Deixe-nos ir à próxima bênção. Números 23.19 diz que Deus não mente.
No verso 20, Balaão diz: "Eis que para abençoar recebi ordem; ele abençoou, não
o posso revogar." Ele enfatiza que Deus abençoou Israel e Deus soberana-
mente continuará a abençoar seu povo, para conceder todas as suas ri-
quezas e toda a sua bondade ao seu povo. "Eu não posso mudar isso", diz ele.
A terceira bênção é que Israel será um povo lindo. Em Números 24.5-6 Ba-
laão proclama: "Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas mora-
das, ó Israel! Como vales que se estendem, como jardins à beira dos rios, como ár-
vores de sândalo que o SENHOR plantou, como cedros junto às águas". Encon-
tramos nessa profecia, a combinação de Israel ser multiplicado, ser frutí-
fero e encher a terra, e Balaão chama isso de lindo. É lindo ver como Deus
tem multiplicado o seu povo; Ele vincula essa bênção Pactual à criação.
Veja o que ele diz no verso 6 e seguintes: "Como vales que se estendem, como
jardins à beira dos rios, como árvores de sândalo que o SENHOR plantou, como
cedros junto às águas. Águas manarão de seus baldes, e as suas sementeiras terão
águas abundantes; o seu rei se levantará mais do que Agague, e o seu reino será
exaltado. Deus tirou do Egito a Israel, cujas forças são como as do boi selvagem"
(Nm 24.6-8 ARA). Balaão sabia das promessas da Aliança e dos atos de Deus,
e sabia que Deus não mente. Ele fez criou esse povo lindo, como disse que
faria. Ele tornou esse povo próspero. Ele mantém sua palavra. Balaão não
podia mudar isso.
Em Números 24.17, temos a quarta bênção: "Vê-lo-ei, mas não agora; con-
templá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um
cetro". Quem antes tinha falado de cetro? Jacó, em suas bênçãos, para Judá
tinha dito que um governante viria dele. Balaão, olhando para Israel, es-
palhado ao pé da montanha, diz: "Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei,
mas não de perto". Aí, Balaão recebeu uma visão do mediador, o verdadeiro
Israel, a verdadeira semente. Ele está aí, não pessoalmente, mas está re-
presentado aí. Temos aqui uma profecia original do cetro que está por vir.
Ele não está aí ainda, mas olhe atentamente — ele está vindo daí. Ele já
está representado aí. Uma profecia do Senhor Jesus Cristo vindo da boca
de um falso profeta. O soberano Deus através da sua Palavra e do seu Espí-
rito anula um mágico e adivinho, e o faz proclamar a verdade. É incrível
como Deus, o soberano Rei do cosmos, protege o seu povo. Ele guarda a
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 106

sua Aliança e ele faz os pagãos proclamá-la. É extraordinário e maravilho-


so.
Balaão tinha uma quinta mensagem e esta foi dirigida a Amaleque. Em
Números 24.20, lemos: "Amaleque é o primeiro das nações; porém o seu fim será
destruição. "Balaão vem com uma mensagem de destruição não para Moa-
be, não para Edom, não para Amom, mas para os amalequitas contra
quem ele lutaram primeiro; para os queneus, para Assur e Eber. Balaão diz
a Balaque que essas nações serão destruídas. Elas não sobreviverão. Israel,
o povo de Deus, são a menina dos seus olhos e assim conclui Balaão e vai
para casa.
O capítulo 25 de Números diz que Moabe seduziu Israel. Não há nada co-
mo usar jovens senhoras para tirar o equilíbrio de jovens fortes. Lemos
sobre isso em Números 31, e Pedro refere-se também ao conselho que Ba-
laão deu aos moabitas, "Olha, eu não posso amaldiçoá-los, mas vocês po-
dem conquista-los. Deem a eles suas filhas. Esses homens cairão pelas suas
filhas." Assim, Israel foi seduzido para quebrar não só o sétimo manda-
mento, mas também o que Deus tinha estabelecido em Deuteronômio 7,
onde tão especificamente afirmou: "Nem contrairás matrimônio com os filhos
dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para
teus filhos" (Dt. 7.3 ARA). Não havia nenhuma proibição de se casar além das
fronteiras nacionais, mas a pessoa que era de uma nação diferente tinha
que vir primeiro para a comunidade de Israel. Uma vez que ele ou ela fi-
zesse parte da comunidade da aliança, o casamento era permitido.
Veio o juízo sobre Midiã, porque Balaão era uma midianita. Por causa do
falso profeta que representava aquela nação, a nação inteira ficou sob jul-
gamento. O texto mostra uma comunidade idólatra e Midiã foi severa-
mente punida. Veremos, mais tarde, os midianitas nos dias de Gideão.
Precisamos continuar. Moisés sabia que estava envelhecendo, e Números
27 nos diz que um segundo censo foi levantado. Eles descobriram que
eram mais numerosos, após 40 anos no deserto, do que tinham sido antes
de irem para o deserto. Deus os tinha mantido. Provisão é feita para as
mulheres que não tinham irmãos para reclamar uma herança, e após tudo
isso, Moisés vem ao Senhor e diz: “Então, disse Moisés ao SENHOR: O SENHOR,
autor e conservador de toda vida, ponha um homem sobre esta congregação que
saia adiante deles, e que entre adiante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar,
para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor”
(Nm 27.15-17 ARA). Moisés sabia de sua própria experiência, a necessidade
de boa liderança, e ele sabia que seus dias estavam contados. Ele tinha di-
to que não entraria na terra prometida porque tinha ferido a rocha, então
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 107

ele disse, "Deus, cuida do teu povo. Dá-lhe um líder." Então Josué foi no-
meado.
Em Deuteronômio 31. A partir do verso 1, antes de Moisés morrer, ele
apresentou Josué ao povo e disse: "aqui está o seu líder designado por
Deus. Ele vai tomar o meu lugar." Isso foi depois de Números 27, onde
Deus disse a Moisés:
Toma Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe as mãos;
apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação; e dá-lhe, à
vista deles, as tuas ordens. Põe sobre ele da tua autoridade, para que lhe obedeça
toda a congregação dos filhos de Israel. Apresentar-se-á perante Eleazar, o sacer-
dote, o qual por ele consultará, segundo o juízo do Urim, perante o SENHOR; se-
gundo a sua palavra, sairão e, segundo a sua palavra, entrarão, ele, e todos os fi-
lhos de Israel com ele, e toda a congregação (Nm 27.18-21 ARA).
Moisés fez Segundo o SENHOR lhe ordenou.
Moisés impôs as mãos sobre Josué. Eles o comissionaram. Josué foi orde-
nado; Ele estava pronto para tomar o lugar de Moisés, como Deuteronô-
mio 31 nos diz.
Em Números, capítulos 28 a 30, há a questão se temos fontes diferentes e
se esse registro é uma compilação de documentos diferentes, porque há
muita repetição de festas e votos e assim por diante. Simplesmente digo a
você que, como as circunstâncias mudaram, e os filhos de Israel estavam
vivendo em diferentes situações, eles repetidamente recebiam a mesma
instrução. A razão para isso é, como eu disse no início, eles tinham que
viver a palavra de Deus e somente a palavra de Deus, e então isso era re-
petido. Você não encontrará qualquer grande discrepância, se é que você
encontrará alguma, entre os diferentes registros de Números, Êxodo e Le-
vítico.
Números 34 a 36 dizem-nos que todas as tribos tiveram uma ideia de qual
seria a sua herança. Elas se tornaram numerosas — mais de 2 milhões.
Deus manteve sua promessa da semente se tornar numerosa. Deus man-
teve sua promessa de que eles se tornariam uma unidade política. Deus
manteve sua promessa de que estaria com eles: Emmanuel. O coração da
Aliança — essa relação com todo o seu amor, vida e bênçãos — todos fo-
ram cumpridos. Agora vem outra promessa, a terra. Deus diz: "Vocês re-
ceberão o lugar onde poderão realmente viver como minha noiva, fazen-
do a minha vontade, sendo uma bênção para todas as nações."
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 108

Quando vamos para Deuteronômio, Israel recebeu parte de sua herança.


Duas e meia tribos ficariam no lado leste do rio Jordão, mas os homens
teriam de atravessar o rio. Antes, eles deveriam atravessar o rio, antes de
Moisés deixá-los e Josué assumir, temos o pacto confirmado. Acho ser
muito importante que cada um de vocês tenha em mente que Deutero-
nômio é um dos livros mais cruciais de todo o Antigo Testamento, especi-
almente quando você começar a ler críticos liberais. Por exemplo, Von
Rad acredita que os primeiros versos de Deuteronômio 26 são a primeira
parte do cânone da escrita. Ele acredita que, quando um homem vem e
traz seu sacrifício e diz: "Arameu prestes a perecer foi meu pai" (Dt 26.5 ARA), é
o início do registro da religião israelita. Assim, Deuteronômio é um livro
muito importante. No entanto, ao mesmo tempo estes eruditos críticos
vão dizer que o livro não foi colocado juntos até os dias de Josias, no Sécu-
lo VI. Eles acreditam que o material existia, mas ele não tinha sido coleta-
do.
Eruditos críticos também insistem que os livros de Josué até 2 Crônicas e
até mesmo o material pós-exílico (eles o chamariam de outro material pós-
exílico porque acreditam que 1º Crônicas e 2º Crônicas são pós pós-
exílicos), foram todos escritos ou reescritos ou editados por alguém que
estava sob a influência do escritor de Deuteronômio. Eles chamam isso de
"teologia Deuteronômica", e acreditam que foi escrito nos dias de Jeremi-
as. Muitas pessoas dizem que Jeremias pode ter até escrito ou ter exercido
forte influência sobre a escrita de Deuteronômio, porque há uma estreita
relação entre Jeremias e Deuteronômio. Eles diziam que em vez de encon-
trar um livro nos dias de Josias, eles escreveram um livro nos dias de Josi-
as. Então eles diziam que todo o material de Josué até 2º Crônicas foi rees-
crito por uma mente teológica, que veio com Deuteronômio. Isso é basi-
camente a reconstrução crítica daquela seção inteira da história de Josué
até 2º Crônicas.
Quero dizer que não há dúvida de que Josué até 2º Crônicas e até Esdras e
Neemias refletem Deuteronômio. Eles fazem assim porque Israel era cons-
tantemente lembrado do que Deus tinha repetido por meio de Moisés, e
eles foram responsabilizados pelo que Deus tinha feito no Sinai, nas mar-
gens do Jordão e nas planícies de Moabe. Os críticos veem uma relação,
mas eles não querem ver isso como revelação. No entanto, o livro de Deu-
teronômio é revelação que é repetida a Israel, um pacto que é confirmado,
uma Aliança que tinham que viver e levar à plena expressão. Quando Isra-
el vive a sua história, fica longe de ser o povo Pactual que Deus pretendia.
Lembre-se de que a Aliança com Abraão (reflete a de Adão e a de Noé) foi
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 109

repetida com Isaque e Jacó. Jacó fez referência às grandes coisas que viri-
am através de seus filhos em Gênesis 49. Deus lembrou-se de sua aliança,
quando os filhos de Israel estavam no Egito. Deus formalizou a Aliança no
Sinai em Êxodo 19 a 24. Quando as pessoas adoraram o bezerro de ouro, o
pacto foi confirmado. Vez após outra, esse povo foi relembrado e agora,
novamente, em Deuteronômio, Moisés coloca tudo junto depois que pro-
varam uma das principais promessas relativas à terra. Como eu disse an-
tes, eles experimentaram essas outras promessas da semente, das bênçãos
de Deus sobre eles, tornando-os famosos e de Deus ser o Deus que sempre
estaria com eles. Agora todas essas promessas foram concretizadas, Moi-
sés termina exortando-os a viver pactualmente.
Nas próximas aulas, lidaremos com quão bem os israelitas conseguiram
viver pactualmente nos livros de Josué, Juízes, 1º e 2º Samuel e 1º e 2º Reis.
Eles não foram muito bem-sucedidos, mas isso não foi culpa de Deus. Moi-
sés havia colocado tudo muito claramente para o povo. Então Deutero-
nômio é importante. Se Êxodo é o livro do evangelho da redenção, Deute-
ronômio é o livro da redenção e como as pessoas deviam vivê-la. Esse li-
vro tem uma tremenda mensagem para nós hoje. Quando Jesus foi tenta-
do, ele citou Deuteronômio. Você irá encontrar grande número de refe-
rências diretas ou indiretas de Deuteronômio no Novo Testamento. Não
há dúvidas de que esse livro foi dado sob a forma de um sermão. Esse livro
tem uma forma “sermônica”. Acima de tudo, não é um Tratado Teológico.
É um sermão, um sermão de três partes com uma bênção e uma música no
final. Moisés pregou. Ele pregou do coração. Ele colocou a verdade peran-
te o povo, e como ele fez isso, ele lembrou-lhes de que eram: um povo da
Aliança.
Deuteronômio foi escrito com uma estrutura Pactual. Essa estrutura não é
idêntica aos tratados dos hititas. É muito semelhante, mas você pode en-
contrar diferenças. Os hititas tinham uma forte situação Pactual entre su-
seranos e vassalos de 2000 a cerca de 1400 a.C. Os assírios tinham uma es-
trutura pactual também entre um suserano e um vassalo. Você encontra-
rá isso em documentos que datam de cerca de 1000 a 800 ou 700 a.C. Críti-
cos têm argumentado que Deuteronômio reflete as formas assírias. Se as-
sim for, eles dizem que Deuteronômio não poderia ter sido escrito antes
do tempo de Jeremias. Outros dizem que Deuteronômio reflete o pacto de
suserania hitita, que irá colocar o livro em cerca de 1400 a.C., em conso-
nância com o testemunho bíblico.
A pergunta que eu gostaria de levantar é: "Essas alianças formam o plano
de fundo para a estrutura da aliança bíblica, ou são essas alianças um re-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 110

flexo da aliança básica de Deus que esses povos adaptaram e colocaram


em vigor de sua própria maneira?"
Acho que toda a natureza da vida é pactual. Um elemento básico da vida
humana é que o relacionamento entre Deus e o homem, com suas bênçãos,
estipulações e responsabilidades. A ideia pactual é o coração da criação, é
o cerne da redenção. É a vida. Esses povos estavam vivendo naturalmente
sem a influência dos eruditos críticos, mas eles reconheceram a natureza
pactual da vida. A vida é pactual. Deus a fez assim, e os hititas e assírios
refletiram isso porque eles foram criados para ser a imagem de Deus. Eles
refletiram aquilo que era natural na vida. Tenho que ir à Bíblia para en-
contrar o coração da aliança. Não posso ir aos hititas ou aos assírios. Eu
preciso olhar para o que Deus disse a Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e o
livro de Deuteronômio, que é onde eu encontro os elementos básicos da
aliança. Vamos discutir isso agora.
Em primeiro lugar, há o "resumo histórico" — o caráter de Deus. Eu queria
chamar a atenção para duas frases. A primeira parece quase assassinato,
mas a Bíblia diz que Deus é um fogo consumidor, um fogo devorador, um
fogo ardente. Mas então ele continua a dizer que Deus é um Deus ciumen-
to. Se você voltar a Êxodo 34.14 de, quando os filhos de Israel adoraram o
bezerro de ouro, Deus veio e mostrou-se um Deus clemente e misericordi-
oso, tardio para se irar, abundante em bondade, perdoando a iniquidade e
mostrando amor até a terceira e quarta geração, mas nunca considerando
inocente os culpados. Alguns versos depois, Moisés tem de dizer ao povo:
"Deus é um Deus ciumento. O seu nome é ciúme" No Novo Testamento,
você lê que o nome de Deus é amor. No Antigo Testamento, o nome de
Deus é ciúme.
Ciúme não é o mesmo que inveja. Inveja é má, mas se eu sou um bom ma-
rido e algum de vocês ousa tocar minha esposa, eu deixo você saber quão
grande é meu punho. Seria uma demonstração do meu ciúme, defender o
objeto do meu amor e exercer o meu amor por ela para defendê-la. Ciúme
é o amor em defesa do ser amado. O ciúme é o amor em ação, levando,
mantendo e defendendo. Deus é ciumento. Essa é uma coisa que temos de
lembrar sobre o caráter de Deus. No deserto Deus provou o seu amor. Ele
clamou ao povo, defendeu o povo, mas ao mesmo tempo, ele teve que pu-
rificar a comunidade para santificá-los e então o fogo veio e destruiu
aqueles que se rebelaram. Eles tiveram que ser colocados no deserto por
38 anos quando se recusaram a aceitar as promessas de Deus quanto à ter-
ra. Depois Moisés, nos primeiros quatro capítulos de Deuteronômio, reve-
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 111

lou algumas das principais coisas que Deus tinham feito. Aliança sempre
tem esse resumo histórico em que o caráter do Senhor era estabelecido.
Depois vêm as estipulações, particularmente nos capítulos 5 a 16. Há al-
gumas passagens absolutamente lindas em Deuteronômio que falam sobre
o que Deus espera. Como ele espera que um homem de família lide com
seus filhos: Andar e falar com eles e ter a Palavra de Deus em seu coração
e compartilhá-la com seus filhos. Há muitas orientações para a vida ade-
quada, mas também há muitas promessas aí. Quando eu olho essas passa-
gens, fico espantado em como, apesar da ira de Deus, ele repetidamente
disse: "Eu amo vocês. Eu amo vocês porque eu escolhi vocês, e eu escolhi
vocês porque eu amo vocês e esse amor jamais acabará". Os capítulos 5 a
11 contêm esses mandamentos repetidos para amar e obedecer. "Amarás,
pois, o SENHOR, teu Deus, e todos os dias guardarás os seus preceitos, os seus esta-
tutos, os seus juízos e os seus mandamentos" (Dt 11.1 ARA). Ele continua a dizer
que isso não é porque sejam melhores do que qualquer das outras nações,
mas é porque Deus os amou e os escolheu. Essas são promessas de que o
amor de deus continuará e que Deus vai continuar a trabalhar por esse
amor para abençoar e sustentar o seu povo.
Antes de ir para o próximo ponto, devemos também ler os capítulos 17 e
18. Lá, Deus promete três ofícios pactuais definitivos que funcionarão
dentro da sua comunidade. Existe a promessa do sacerdote, na última par-
te do capítulo 17. Existe a promessa do rei no capítulo 18, e existe a pro-
messa do ofício profético. Moisés atuava como sacerdote, como rei e como
profeta; e esses ofícios deviam ser cooperantes. Eles deviam se tornar rea-
lidade no meio de Israel.
Em uma das próximas aulas, vamos lidar com o problema de Samuel sobre
o rei, mas a promessa está em Números 17. Tome nota das maldições e
bênçãos dos capítulos 27 e 28. Essas maldições são um pouco assustadoras,
mas é incrível como muitas delas foram realizadas durante o tempo do
exílio. Houve manifestações iniciais da maldição, mas o julgamento de
Deus continuou a vir sobre essas pessoas quando não respondiam fiel e
obedientemente à Aliança.
Vamos a Deuteronômio 29.1-2: "São estas as palavras da aliança que o SE-
NHOR ordenou a Moisés fizesse com os filhos de Israel na terra de Moabe, além da
aliança que fizera com eles em Horebe. Chamou Moisés a todo o Israel e disse-lhe:
Tendes visto tudo quanto o SENHOR fez na terra do Egito, perante vós, a Faraó, e a
todos os seus servos, e a toda a sua terra".
G. van Groningen – Teologia Bíblica: Aula 10 112

O verso 9: "Guardai, pois, as palavras desta aliança e cumpri-as, para que pros-
pereis em tudo quanto fizerdes."
Verso 10: "Vós estais, hoje, todos perante o SENHOR, vosso Deus".
Verso 12: "para que entres na aliança do SENHOR, teu Deus, e no juramento que,
hoje, o SENHOR, teu Deus, faz contigo.
Ele está confirmando o que já tinha feito. Ele está estabelecendo mais fir-
memente o que já estava estabelecido. Nós não ouvimos dos filhos de Is-
rael dando qualquer tipo de resposta. Eles aceitaram a Aliança de Deus.
Então vem a parte última e definitiva de qualquer ritual da Aliança: Moi-
sés escreveu em Deuteronômio 31.9: "Esta lei, escreveu-a Moisés e a deu aos
sacerdotes, filhos de Levi, que levavam a arca da Aliança do SENHOR, e a todos os
anciãos de Israel. Então Moisés ordenou-lhes que lessem a Lei.
De acordo com Meredith Kline, o que realmente estabelecia as alianças do
Antigo Testamento era quando eram escritas e seladas. Sabemos sobre os
tratados hititas e assírios, porque eles foram escritos. Uma vez que um
pacto era escrito e selado, ele não podia ser alterado. Ele poderia ser rees-
crito, mas sempre em consonância com o pacto original inicial. Um pacto
era inviolável, uma vez que fosse escrito. Moisés escreveu e leu, dizendo:
"esta é a Aliança de Deus. O soberano do céu e da terra, seu Emmanuel.
Ouvi a sua palavra. Obedecei-a". Jesus fez isso enquanto esteve na terra e
deu-nos grandes exemplos e ensinamentos: Quando Deus fala devemos
ouvir e praticar.