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30/07/2017

Universidade de Caxias do Sul


Graduação em Nutrição
Disciplina de Interação Fármaco e Nutriente
Uma avaliação nutricional “bem feita” contempla uma anamnese completa

Anamnese completa  Medicações em uso

Medicações em uso  Interações


Profª. Bruna B. Nicoletto Gehrke
Nutricionista | UFRGS
Mestre em Ciências Médicas | UFRGS
Doutora em Endocrinologia | UFRGS Interações  Impactam no Estado Nutricional/Carência Nutricional
Pós Graduada em Nutrição Clínica Funcional | VP-UNICSUL e na Eficiência do Medicamento

Caxias do Sul, agosto de 2017.

Rang & Dale, 2016

INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA
FARMACOLOGIA: MANUTENÇÃO OU RESTAURAÇÃO DA SAÚDE
Pharmakon (grego) = droga / farmaco + logos = estudo FARMACOTERÁPICA NÃO-MEDICAMENTOSA
Agentes químicos Ações e atitudes

Estudo cientifico das DROGAS, sua origem, natureza, Produtos caseiros Dieta
Medicamentos Parar de fumar
composição química, ação esperada, efeitos desejáveis e Aconselhamento
indesejáveis, contraindicações e usos terapêuticos.
Produto com procedimentos aprovados
Funções específica e comprovadas
ANVISA: “Produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou
elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou
para fins de diagnóstico.”

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FÁRMACO/PRINCÍPIO ATIVO: Substância principal da formulação do


medicamento, responsável pelo efeito terapêutico (acido acetilsalicilico,
paracetamol, dexametasona, etc).

MEDICAMENTO: Produto farmacêutico acabado, contendo um ou mais fármacos


associados a outras substâncias, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou
para fins de diagnóstico.

REMÉDIO: Substância animal, vegetal, mineral ou sintética, procedimento


(ginastica, massagem, acupuntura, banhos), fé ou crença, usados com intenção
benéfica com fins curativo.

DROGA: Qualquer substância química que produz efeitos farmacêuticos – que


provoca alterações no sistema biológico – EXCETO ALIMENTOS

FORMA FARMACÊUTICA:

Apresentação do medicamento – comprimido, drágea, pílula, xarope, colírio...

Está associada a liberação do fármaco

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As interações alimento-fármaco podem:


 Alterar efeito dos fármacos (resposta desejada/toxicidade)
 Afetar estado nutricional

 As medicações são
administradas para produzir um
efeito farmacológico no corpo
ou, mais especificamente, no
órgão ou tecido-alvo.

 Para alcançar esse objetivo, o


fármaco deve se deslocar do
local de administração para a
corrente sanguínea e, então,
Krause, 2013 para o local de sua ação.

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 No devido tempo, o fármaco pode ser


 O que o organismo fará no fármaco?
alterado para metabólitos ativos ou
inativos e por fim, ser eliminado do
Farmacocinética
organismo.  O que o fármaco fará no organismo?
Farmacodinâmica
 Na interação entre o fármaco e o
alimento, um componente da
alimentação ou um nutriente pode
alterar esse processo em qualquer
ponto.

É o “caminho” que a droga faz no organismo: Da


administração até a excreção

 Administração, absorção, distribuição,


biotransformação e excreção/eliminação.

O que o organismo fará no fármaco?

A resposta ao
medicamento
depende de uma
série de
variáveis.
As interações podem ser ocasionadas ou complicadas por:
 Polimedicação
 Estado nutricional (ex.: hipoalbuminemia)
 Trato gastrintestinal (ex.: absorção)
 Genética
 Doença subjacente
 Dietas especiais
 Suplementos nutricionais, produtos fitoterápicos
 Alimentação por sonda
 Etilismo

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EXEMPLO:

Idosos:
 Polifarmácia
 Maior risco nutricional (desnutrição?)
 Redução da absorção à nível intestinal
 Redução da função hepática e excreção renal
 Maior tecido adiposo (acúmulo de toxinas/fármacos lipossolúveis)

Administração

FARMACOCINÉTICA:
 Administração
Absorção
 Distribuição
 Metabolismo / Biotransformação
 Excreção

Administração Administração
Efeito 1ª Passagem
 Sublingual: Absorção através de pequenos vasos
sanguíneos (rápida) – Ex.: nitroglicerina (angina)
 Retal: Uso em quadros de vômitos, tratamento local.

A passagem inicial pelo Evita 1ª passagem (fígado)


fígado pode proporcionar
 Intravenosa (IV): não pode ser hemolítica, cáustica, não
Biotransformações de maneira
mais ou menos intensa. coagular albumina, não produzir embolia ou tombose.
Afetando o efetividade do
fármaco Deve ser administrada lentamente e com monitorização
constante.
Drogas administradas por  Outras: Intramuscular (IM), tópica (mucosa, pele, olho),
VO passam primeiro pelo
fígado intraperitoneal, inalatória, ...

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Absorção
Ex.: Insulina Absorção é o processo do movimento do fármaco
do local de administração para a corrente sanguínea.

 Este processo depende da:


(1) via de administração
(2) química do fármaco e sua capacidade de atravessar as
membranas biológicas
(3) velocidade do esvaziamento gástrico (para fármacos de
administração oral) e movimentos gastrointestinais
(4) qualidade da formulação do produto

Absorção Absorção
Via de administração Via de administração
A administração afeta diretamente a biodisponibilidade.

 BIODISPONIBILIDADE: Fração de uma dose ingerida de uma substância


que tem acesso à circulação sistêmica na forma quimicamente inalterada.

 Calculada comparando os níveis plasmáticos da droga, após ser usada


uma determinada via de administração (VO, IM), com os níveis dessa
droga atingidos no plasma após IV, na qual a totalidade do agente entra
na circulação.

Absorção
Atravessar membranas

Interferências no processo de absorção são comuns, cabendo


salientar mudanças na atividade das enzimas transportadoras.

Características das membranas

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O coeficiente de partição Latência é o tempo entre


gordura-água representa a ADMINISTRAÇÃO e
lipossolubilidade da droga. EFEITO

Quanto maior for a fração não ionizada Quanto maior for o coeficiente de
maior é a facilidade de penetração partição, maior será a lipossolubilidade da
(potência e absorção) droga e maior será sua absorção
(potência/penetração)
A absorção dos fármacos na maior parte das
vezes ocorre por processos passivos

Fatores que interferem na absorção:


1. Lipossolubilidade (difusão simples)
2. Hidrossolubilidade (transportadores específicos ou poros hidrofílicos)
3. Peso molecular
4. Carga elétrica (polaridade, ionização)
5. Forma farmacêutica
6. Velocidade de dissolução da forma farmacêutica (compatibilidade com secreções TGI)
7. Concentração da droga no local de absorção
a) pH do meio
b) coeficiente de partição gordura/água (quanto maior o coeficiente, maior a
lipossolubilidade)
8. Fatores físicos:
a) fluxo sanguíneo local
b) área de superfície disponível para absorção (epitélio alveolar pulmonar, TGI)

Presença do alimento no estômago aumentaria o fluxo


sanguíneo, porém pode ser uma barreira física, reduzindo o Distribuição
contato do fármaco na parede da mucosa. A distribuição ocorre quando o fármaco deixa a
circulação sistêmica e se desloca para diversas regiões do organismo (passa
para o interstício e/ou células ou tecidos)

 As áreas de distribuição do organismo variam com diferentes fármacos,


Alguns estudos sugerem que o aumento do fluxo dependendo da capacidade de atravessar as membranas biológicas.
sanguíneo no TGI aumenta a absorção do
fármaco  esse dado ainda é controverso.
 Vários fármacos ligam-se às proteínas plasmáticas, como a albumina.
Apenas a fração não ligada é capaz de produzir um efeito em um órgão-alvo.

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DROGA

As drogas podem ser transportadas ligadas às proteínas e


Proteína Plasmática assim são distribuídas pelo organismo mais lentamente.
Albumina Embora esses transporte reduza a potência, também reduz
a toxicidade

Proteínas Ligação de drogas a proteínas plasmáticas

 Processo rapidamente reversível: É uma interação dinâmica, em que


complexos continuamente se formam e se desfazem.
 Fármaco não ligado difunde-se dos capilares para os tecidos e, assim, o
fármaco ligado dissocia-se da proteína até que seja alcançado um equilíbrio.

Fármacos podem competir entre si pelos sítios de ligação proteica

Processo competição um dos fármacos será deslocado


mais facilmente  interação fármaco-fármaco.

Distribuição Metabolismo
 Não se disseminam igualmente por todo o corpo.
 Algumas ficam em meio aquoso (sangue), outras se concentram em tecidos  Principal órgão envolvido: Fígado
específicos/alvos (tireoide, fígado, SNC e rins), outros se ligam firmemente
às proteínas do sangue, abandonando a corrente sanguínea de forma muito  Sistema enzimático envolvido: Citocromo P450 (fase I de detoxificação)
lenta.

 Objetivo: Transformar o fármaco de um composto lipossolúvel em um


 Fatores que interferem na distribuição: composto mais hidrossolúvel, que pode ser metabolizado mais
Fluxo sanguíneo tecidual
facilmente pelos rins e excretado na urina.
Permeabilidade capilar
Ligação a proteínas plasmáticas

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Biotransformação Biotransformação
Medicamento é estruturalmente alterado no
organismo, por processos enzimáticos ou por
conjugação Oxidação
Hidrólise Conjugação
Redução

Portanto, o metabolismo das


drogas ocorre sempre no sentido
de tornar os agentes exógenos
mais polares, favorecendo sua
eliminação.

Biotransformação : CYP-450 Biotransformação : CYP-450


FASE I
Um conjunto de enzimas e  Indução ou Inibição do CYP-450
cofatores, denominados citocromo Fe  Maioria as interações ocorre Fe
P450 (CYP-450) possui um papel devido a esse complexo.
importante na biotransformação
de medicamentos, especialmente
nas reações de fase I  Fenobarbital (Gardenal) é um potente
indutor (estimulador) do CYP-450. Ou seja,
aumenta a eliminação de vários medicamentos
HEMEPROTEÍNA (anticoncepcionais, corticoides) reduzindo os
efeitos terapêuticos desses.
Muitas enzimas do P450 metabolizam
nutrientes e tem como cofatores
vitaminas e minerais.
 Pode haver competição entre fármaco
e nutrientes pela mesma enzima.

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Fatores modificadores da
FASE II
Biotransformação

• Polimorfismos genéticos
• Sexo
• Idade
• Patologias
• Alimentação (TORANJA inibe
sistema enzimático 3A4 do
citocromo P450 – dura por 72h)

Excreção Excreção

 Principal via de excreção: Rins (filtração glomerular e secreção tubular)  Lítio acompanha a excreção ou reabsorção tubular de sódio (excesso de
ou falta de sódio na alimentação podem alterar a excreção do fármaco)
 Outras vias de excreção (menor grau): Fezes, bile, fluidos corporais
 pH urinário: alcalino ou ácido – diferença na excreção de alguns
A dose recomendada do fármaco presume que as funções medicamentos.

hepática e renal estejam normais.

Excreção Excreção - ½ vida


A meia-vida é um conceito cronológico e indica o tempo em que uma
grandeza reduz à metade de seu valor. Em farmacocinética, ela representa o
tempo gasto para que a concentração plasmática ou a quantidade original de
um fármaco no organismo se reduza à metade.

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Estudo das interações fundamentais ou moleculares entre


drogas e constituintes do corpo, as quais por uma série de
eventos, resultam numa resposta farmacológica.

Relaciona
Mecanismo de concentração com
ação
extensão do efeito Como os fármacos agem no
Efeitos organismo?
terapêuticos

Mecanismos de ação

Alguns fármacos agem basicamente


através de suas propriedades físicas:
Ações não mediadas por receptores
específicos (antiácidos)

Simples reações de neutralização

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Mecanismos de ação - Receptores


Receptores A maioria dos fármacos age através de interações
intermoleculares, interagindo com receptores específicos.
Alvos terapêuticos: Receptores são macromoléculas biológicas,
Os alvos proteicos para a ação dos fármacos
sobre as células dos mamíferos. geralmente de natureza proteica, que
reconhecem com alta especificidade
ligantes endógenos e fármacos com
estereoquímica compatível.

Receptores
Sítios de ligação das substâncias transmissoras
de sinais fisiológicos
Receptores Receptores
- Encontram-se na superfície da
membrana.
Receptores de
membrana - Possuem sítios efetores na superfície
interna da membrana: receptores
transmembrana.

- Localização intracelular
Receptores
intracelulares - Áreas alvo primárias para esteroides

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Receptores de Membrana
• Metabotrópicos (ou heptahelicoidais ou ligados à
proteína G): receptores para adrenalina, dopamina e
serotonina

• Ligados a canal iônico/ionotrópicos: receptores para


aminoácidos

• Unidades enzimáticas (Quinases): receptores para


fatores de crescimento e para a insulina

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Receptores de Núcleo

Farmaco-Receptor

• SITIO DE LIGAÇÃO: Local no receptor em que o fármaco se liga.

• ESPECIFICIDADE: Os receptores só reconhecem moléculas de


fármacos, que possam se ligar em seu sítio de ligação.

• SELETIVIDADE: Capacidade de um fármaco se ligar em uma sub-


população de receptores específica.

A curva dose-resposta é a representação


gráfica da expressão matemática da
relação entre a dose de um princípio
farmacologicamente ativo e o seu efeito.

Da análise dessa curva surgem indicadores farmacodinâmicos, tais como


É utilizada para se medir a afinidade da droga ao receptor. Dose Efetiva 50 (DE 50), Potência Relativa e Efeito Máximo.

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 É determinada a partir da dose efetiva (DE50) que causa a


metade do efeito máximo. Quanto menor a DE50 e mais a
esquerda, ela estiver no gráfico mais potente será a droga
Agonista/Antagonista
Efeito/Resposta

É toda a substância que se liga no receptor e provoca um efeito biológico

Dose É toda a substância que se liga no receptor e não provoca um efeito biológico

Agonista/Antagonista

OCUPAÇÃO
regulada pela
afinidade

Fármaco A AR AR* RESPOSTA


+ R
(agonista)

Fármaco B NENHUMA
+ R BR
(antagonista) RESPOSTA

REFERÊNCIAS PRINCIPAIS
MAHAN, L. Kathleen; ESCOTT-STUMP, Sylvia; RAYMOND, Janice L. (Ed.).
Krause: alimentos, nutrição & dietoterapia. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, c2013.
xxi, 1228 p. ISBN 9788535255126
ARIAS, T.D. Glosario de medicamentos: desarrollo, evaluación y uso. Washington,
OPS, 1999, 333p.
FUCHS, F.D. & WANMACHER, L. Farmacologia Clínica. Fundamentos da
Terapêutica Racional. 2 ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1998, 678 p.
HARDMAN, J. G. & LIMBIRD, L. E. (Ed.). Goodman & Gilman’s. The
Pharmacological Basis of Therapeutics, New York, McGraw-Hill, 1996, 1905 p.
OLSON, J. Farmacologia Clínica Fácil, Revinter,2002.
SCHELLACK, G. farmacologia, uma abordagem didática. Editora Fundamento, 2005.
GOMEZ,R;VENTURINICD.InteraçõesentrealimentoseMedicamentos.PortoAlegre,ed
itora:SulianiLetraeVida,2009.168p.
REIS,NT.NutriçãoClínica.Interações.1aed.,EditoraRubio,RiodeJaneiro,2004.Reimpres
são,2009.
PENILDON,S.Farmacologia.8ed.GuanabaraKoogan,2010.1352p.
COZZOLINO,SMF.Biodisponibilidadedenutrientes.3ºedição-
atualizadaeampliada.Barueri,SãoPaulo,editora:Manole,2009.1172p.
Aula embasada no material gentilmente cedido pelas Profªs Carin W. Gallon e
Jaqueline D. Horvath

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