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MNEMOSINE REVISTA.

Programa de Pós-graduação em História/UFCG


Vol. 2 – nº 1 jan/jun 2011.
Campina Grande: PPGH, 2011.
Semestral.
ISSN: 2237-3217.
Universidade Federal de Campina Grande. Programa de Pós-graduação em História.

Programa de Pós-graduação em História


Endereço: Rua Aprígio Veloso, nº 882, Sala 107 – Bodocongó –
Campina Grande – Paraíba
BRASIL – CEP:58.429-140
Telefone: 2101-1495
E-mail: mnemosinerevista@gmail.com
Site: http://www.ufcg.edu.br/~historia/ppgh/

Equipe de Realização:
Edição de Texto: Alisson Pereira Silva
Arte: Lays Anorina Barbosa de Carvalho
MNEMOSINE REVISTA
Número 1 - Volume 2 – Jan/Jun 2011

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE


Reitor: Prof. Thompson Fernandes Mariz

DEPARTMENTO DE HISTÓRIA
Coordenadora Administrativa: Profª. Drª. Marinalva Vilar de Lima

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


Coordenadora: Profª. Drª. Juciene Ricarte Apolinário

COMITÊ EDITORIAL
Prof. Dr. João Marcos Leitão Santos - Editor
Profª. Michelly Pereira de Sousa Cordão

CONSELHO EDITORIAL
Alarcon Agra do Ó (UFCG)
Antônio Clarindo Barbosa de Souza (UFCG)
Elizabeth Christina de Andrade Lima (UFCG)
Gervácio Batista Aranha (UFCG)
Iranilson Buritide Oliveria (UFCG)
João Marcos Leitão Santos - Editor Chefe (UFCG)
Juciene Ricarte Apolinário (UFCG)
Keila Queirós (UFCG)
Luciano Mendonça de Lima (UFCG)
Maria Lucinete Fortunato (UFCG)
Marilda Aparecida de Menezes (UFCG)
Marinalva Vilar de Lima (UFCG)
Osmar Luiz da Silva Filho (UFCG)
Regina Coelli (UFCG)
Roberval da Silva Santiago (UFCG)
Rodrigo Ceballos (UFCG)
Rosilene Dias Montenegro (UFCG)
Severino Cabral Filho (UFCG)
Sumário

Apresentação: República, Repúblicas


Iranilson Buriti de Oliveira________________________________________ 05

DOSSIÊ BRASIL REPÚBLICA

O Mangue como República: um caso de polícia no Rio de Janeiro


Juçara LuziaLeite_______________________________________________ 08

Compondo Histórias (re) inventando espaços:


História, Memória e Identidade no Memorial Jackson do Pandeiro
Lucilvana Ferreira Barros / Roberg Januário dos Santos /
Iranilson Buriti de Oliveira________________________________________ 22

Lima Barreto e os subúrbios traçados em linhas afetivas


Joachin de Melo Azevedo Neto_____________________________________ 38

Higiene Escolar, Higiene da República:


Inspeção Médica, Ciência e Infância – São Paulo (1917)
Paloma Porto Silva______________________________________________ 53

Do Passado ao Monumento:
Proposta de Arqueologia Histórica do Cemitério dos Náufragos – SE
Janaina Cardoso de Mello / Rafael Santa Rosa Cerqueira________________ 75

“As Peripécias do Pavoroso Drama do Golgotha”:


A Procissão do Encontro em Aracaju
Magno Francisco de Jesus Santos__________________________________ 87

Militância Negra e Expressão Estética no Recife (1980 - 2003)


Vanessa Marinho_______________________________________________ 101

O Integralismo em Limoeiro: memórias de sonho e de frustração


João Rameres Regis_____________________________________________ 115

ARTIGOS DE FLUXO

O uso do ciberespaço na reconstrução do Qollasuyu


Celso Gestemeier do Nascimento___________________________________ 123

Requerimentos indígenas: Ceará (1812 a 1820)


João Paulo Peixoto Costa_________________________________________ 136
Vida urbana e Marginalia na escrita de Lima Barreto
José Benjamim Montenegro______________________________________ 148

RESENHAS

CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em Cena


Joabe Barbosa Aguiar___________________________________________ 160

ESTREVISTA

Marta Maria de Araújo ________________________________________ 164


Apresentação

República, Repúblicas escrito por Lucivalna Ferreira Barros,


Iranilson Buriti de Oliveira Roberg Januário dos Santos e
Iranilson Buriti, faz uma leitura de
Este dossiê objetiva colocar Jackson do Pandeiro a partir do seu
em discussão temas diversos sobre a memorial. Os autores partem de uma
República Brasileira. Para tanto, um perspectiva historiográfica ancorada
conjunto de autores brasileiros nos estudos da História Cultural, para
debruçaram-se sobre este contexto analisarem a configuração imagético-
histórico, lançando seus olhares, suas discursiva da identidade Jacksoniana
leituras, pondo em problematizações em Alagoa Grande/ PB. Assim,
seus objetos de pesquisa. Com esta buscam problematizar de que forma
tônica, a historiadora Juçara Luzia vem sendo gestado no município, em
Leite, da Universidade Federal do especial após a inauguração do
Espírito Santo, fez uma atenciosa Memorial Jackson do Pandeiro, em
leitura sobre a “república dos dezembro de 2008, a noção de
mangues”, estudando a situação do identidade/pertencimento nos
cotidiano das prostitutas que Alagoa-grandenses a partir de uma
trabalharam na República do Mangue memória musical.
de 1954 a 1974, bem como a Joaquim de Melo, doutorando
atuação policial no referido período e da UFSC, põe em discussão suas
local. No artigo, “Mangue como escritas sobre “Lima Barreto e os
República: Um Caso de Polícia no Rio Subúrbios Traçados em Linhas
de Janeiro”, a autora partiu das Afetivas”, artigo no qual analisa a
fichas policiais das prostitutas e figura de Lima Barreto, uma
tomou a questão das relações de intrigante personagem quixotesca da
poder como relações culturais, lendo literatura, na Primeira República,
essa área destinada exclusivamente considerado como “santo padroeiro”
à prática da prostituição que dos escritores rebeldes
funcionava sob a orientação médica contemporâneos. Em seguida,
periódica. Paloma Porto Silva, da UFMG, discute
O artigo seguinte - compondo a “Higiene escolar, higiene da
histórias (re) inventando espaços: República: inspeção médica, ciência e
história, memória e identidade no infância – São Paulo (1917)”,
memorial Jackson do Pandeiro - colocando em suspeição as
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tecnologias e conhecimentos médicos proeminentes transformações. A
sobre o corpo infantil a partir dos leitura desse catolicismo que se
escritos do Dr. Vieira de Mello. metamorfoseava diante dos olhos de
Janaina Cardoso de Mello e novos atores do clero local teve como
Rafael Santa Rosa Cerqueira fonte programações, anúncios, notas
escrevem o artigo intitulado “Do e crônicas publicadas nos principais
Passado ao Monumento: Proposta de jornais de Aracaju, no período em
Arqueologia Histórica do Cemitério foco. São textos que ilustram o
dos Naufragos – SE”, elaborando um cenário vivenciado pela população
minucioso estudo acerca da relação católica aracajuana em princípios do
entre passado, memória e século XX.
esquecimento através de um trabalho Vanessa Marinho dar a ler, em
de Arqueologia Histórica do Cemitério seu artigo “Militância Negra e
dos Náufragos em Aracaju, Sergipe. Expressão Estética no Recife (1980 -
Os autores fizeram uma análise da 2003), a relação entre a estética,
cultura material oriunda de um enquanto forma de expressão do
momento trágico – os belo, e a expressão das identidades
torpedeamentos aos navios em militantes negros no Recife, a fim
brasileiros por um submarino alemão de demonstrar que a forma de
na costa sergipana vitimando 551 utilização de imagens associadas a
pessoas em 1942. uma herança africana se configura
Intitulado “As Peripécias do como um instrumento de valorização
Pavoroso Drama do Golgotha”: A das características do indivíduo
procissão do encontro em Aracaju”, o afrodescendente - até hoje
artigo escrito por Magno Francisco de consideradas depreciativas por
Jesus Santos, tem o objetivo de alguns. Neste sentido, Vanessa
compreender a procissão do encontro Marinho destaca que a cor da pele,
na cidade de Aracaju nos primeiros as formas de usar o cabelo e o uso
decênios do século XX. Trata-se de de indumentárias e acessórios
uma leitura acerca das tradições associados a uma idéia de beleza
atinentes ao período da Semana negra se configuram como
Santa na capital dos sergipanos. O catalisadores deste processo de
autor analisa a referida procissão ressignificação da cultura negra.
inserida no contexto do catolicismo O historiador da Universidade
da cidade, conspurcado por Estadual do Ceará, João Rameres

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Regis, brinda o leitor com o texto “O memorialistas locais. Nesse sentido,
Integralismo em Limoeiro: memórias a noção de cultura histórica permite
de sonho e de frustração”, no qual compreender a interface entre o
discute o papel da memória para a vivido e o lembrado, bem como os
construção de representações do elementos que conferem certa
passado com base nas lembranças de representação do passado.
ex-militantes do núcleo da Ação
Integralista Brasileira, de Limoeiro do
Norte, Ceará, e nos escritos dos Campina Grande, Março de 2011.

7
MANGUE COMO REPÚBLICA: UM Rio de Janeiro - Police Control
1
Doutora em História
CASO DE POLÍCIA NO RIO DE Social – UFES –
JANEIRO PPGHis/PPGE.
Juçara Luzia Leite1
A República do Mangue
Resumo Estudos sobre a história das
cidades têm recebido especial
Estudamos a situação do cotidiano das atenção ultimamente, incremento
prostitutas que trabalharam na República perceptível por meio da produção dos
do Mangue de 1954 a 1974,e a atuação Programas de Pós-Graduação em
policial no referido período e local.
História e em eventos na área.
Partimos das fichas policiais das
Conjugada às reflexões do campo da
prostitutas e tomamos a questão das
relações de poder como relações História Cultural, a temática urbana
culturais. Tratou-se de projeto de criação renova-se junto aos estudos sobre
de uma área destinada exclusivamente à patrimônio cultural, festas,
prática da prostituição que funcionava religiosidade, violência, gênero,
sob a orientação médica periódica, apenas para citarmos algumas
ministrada pelo hospital da então fronteiras. No presente trabalho,
Fundação Gaffrée e Guinle, e com a nosso olhar investiga uma
supervisão e controle da polícia, no caso,
experiência do controle policial sobre
o 13º Distrito Policial. Inserimos nosso
a prostituição no Rio de Janeiro da
estudo na fronteira da História Cultural e
da História das Cidades.
segunda metade do século XX que
influenciou o recorte urbano de parte
Palavras chave: História da Mulher – da região central da cidade. A
História do Rio de Janeiro – Controle chamada República do Mangue
Policial existiu comprobatoriamente entre os
anos de 1954 a 1974 e tratou-se da
efetivação de projeto de criação de
Abstract uma área destinada exclusivamente à
prática da prostituição: a zona do
Starting from the police files of
Mangue. Essa área funcionava sob a
prostitutes and taking the issue of power
relations as cultural relations, we study orientação médica periódica que era
the situation of the daily lives of ministrada pelo hospital da então
prostitutes who worked in the República Fundação Gaffrée e Guinle, e com a
do Mangue from 1954 to 1974, and police supervisão e controle da polícia, no
activity in that time and place. This was caso, o 13º Distrito Policial.
the accomplishment of project to create A existência de uma área
an area dedicated exclusively to the especificamente destinada à
practice of prostitution which operated
prostituição não era uma ideia nova.
under periodic medical supervision was
Desde meados do século XIX, a
given by the GaffréeGuinle Foundation,
and control of the police in case the 13th exemplo do que acontecia na Europa,
District Police. We insert our study on the o saber médico e as instituições
border of Cultural History and History of policiais defendiam a construção de
Cities. áreas destinadas à existência de
bordéis higienizados, isto é, áreas
Keywords: Women's History - History of onde a prostituição pudesse ser

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exercida sob o controle médico- mais tarde, a criação da República do
policial. Tais propostas relacionavam Mangue.
a prostituição com a necessidade de A região do Mangue, no
higienização da cidade, além de contexto aqui estudado, passou a
normatizar as atividades da delinear-se com as obras da atual
prostituta em relação aos espaços Avenida Presidente Vargas. A ideia
públicos frequentados pelas era demolir as habitações
chamadas mulheres honestas. Em consideradas insalubres (inclusive
1845, por exemplo, o Dr. Lassance diversos bordéis) a fim de dar lugar a
Cunha, em sua tese, propunha que, uma moderna avenida que, cruzando
para a criação de bordéis, fosse todo o centro da cidade, ligasse o
convocada a colaboração policial com porto à zona norte da cidade. A
a finalidade de que esta se demolição de habitações
encarregasse do controle, da consideradas impróprias à
vigilância e das punições em caso de modernidade já havia ocorrido em
desordem (SOARES, 1986). Estavam outros momentos da história da
lançadas as bases para a defesa da cidade, como, por exemplo, no caso
efetivação de áreas destinadas aos da construção da Avenida Central
bordéis higienizados, mas, apenas (atual Avenida Rio Branco), durante a
em 1875, o chefe de polícia da cidade administração Pereira Passos.
o Rio de Janeiro, Ludgero Gonçalves Todavia, apesar dos esforços na
da Silva, passou a exigir informações tentativa de “civilizar” a cidade, a
das autoridades policiais a respeito região mais próxima do canal do
da prática da prostituição na cidade, Mangue, mesmo após o Estado Novo,
procurando estabelecer estatísticas. abrigava casas de baixo meretrício.
Médicos e policiais, por meio de Para lá se dirigiram as mulheres
argumentos de fundo moral, oriundas do contingente de
justificavam suas estratégias de imigrantes do período da 2ª Guerra
controle da prostituição na cidade e que iam conviver com migrantes de
concordavam, assim, que a diferentes regiões do país que, seja
prostituição era um “mal necessário”, por falta de qualificação para a
pois, apesar de contribuir para a obtenção de um emprego urbano,
desmoralização social, ajudava a seja por terem sido abandonadas
estabilizar a tranquilidade das pelo companheiro, ou mesmo por
famílias. identificarem no meretrício uma
Note-se que a instituição forma livre de exercício da
policial terminou por incorporar e sexualidade, viam na prostituição
defender o discurso da ordem vigente uma alternativa de sobrevivência.
no início do século XX. Nesse No final dos anos 40, o Mangue era
sentido, o caráter de conhecido como uma importante área
“exemplaridade” do qual se de prostituição da cidade, de modo
revestiam as atividades policiais que, mais tarde, com a criação da
inseria-se na concepção de civilização República do Mangue, ao corpo
em voga, legitimando atividades feminino prostituído acenava-se a
chamadas “modernizadoras” como no possibilidade das paredes dos bordéis
caso do fichamento das prostitutas e, que substituiriam as vitrines das
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calçadas. Bordéis policiados e se por um regime de
medicados. representatividade). O período de
É importante lembrar que o sua existência comprovada
Rio de Janeiro, mesmo após a corresponde ao início do fichamento
transferência da capital para o das prostitutas pelo 13° DP (mais
Planalto Central, em 1960, conservou tarde 6ª DP) – 1954 - até 1974,
diversas tradições e instituições. vésperas da fusão do Estado da
Dessa forma, a cidade continuava a Guanabara ao Estado do Rio de
ser vista como uma espécie de Janeiro, alterando a configuração da
síntese nacional e exemplo para as estrutura da administração policial do
demais regiões do país. antigo Distrito Federal.
Manifestações de “desordem” eram, Partindo das fichas policiais
portanto, encaradas como um alerta das prostitutas e tomando a questão
para o resto da nação, por isso, a das relações de poder
criação da República do Mangue (polícia/sociedade/prostituta/cliente),
obteve o revestimento de medida propomos estudar, neste artigo, a
exemplar. Entretanto, o fichamento situação do cotidiano das prostitutas 2
Mesmo que os
das prostitutas na polícia data de que trabalharam na República do dispositivos legais não
se encontrem voltados
época um pouco anterior: nos anos Mangue de 1954 a 1974,e as
contra a prostituta, a lei
30, a Delegacia de Costumes e relações com a ação policial no permitia à polícia
Diversões Públicas (DCD) passara a referido período e local. O registrar meretrizes
desde o decreto 4405
se encarregar desse fichamento, fichamento das prostitutas pelo 13º de 17 de abril de 1928
preocupando-se basicamente com as DP pode ser dividido em dois (regulamento policial),
em seus artigos 408 e
prostitutas que trabalhavam períodos básicos: de 410. Sobre esses
diretamente nas ruas da cidade2. A aproximadamente 1954 a 1970, aspectos jurídicos e a
ordem repressiva, ver
partir de 1954, a DCD passou a quando eram utilizadas as fichas de ANJOS JÚNIOR, Carlos
encaminhar as prostitutas fichadas “modelo azul”; e de 1970 a 1974, S. V. dos (1989).
ao 13º Distrito Policial, localizado à quando eram utilizadas as fichas de
Rua Julio do Carmo, nº 17, em plena “modelo amarelo”. Encontramos
“zona” do Mangue. O objetivo de tal também fichas de um modelo não
providência era o de efetivar a específico que denominamos “modelo
criação de uma área destinada à branco”, que eram utilizadas bem no
existência de bordéis higienizados, início da operação de cadastramento
controlada pela polícia (o 13º DP) e (LEITE, 2005). Para o diálogo com as
pelas autoridades médicas (a fontes, nosso recorte girou em torno
Fundação Gaffrée e Guinle). Era a de questões basilares sobre as
criação da República do Mangue. diferentes relações possíveis entre a
(LEITE, 2005) polícia e as prostitutas.
O termo República do Mangue Dividimos nossa abordagem
teve sua origem na própria em três dimensões. Primeiramente,
instituição policial, tendo como expusemos sobre a convivência entre
objetivo caracterizar a área pela atitudes possíveis, na segunda
especificidade do gerenciamento metade do século XX, do Estado em
direto dos bordéis por meio da figura relação à prostituição, e sobre o
de gerentes eleitas pelas prostitutas papel da ação policial diante dessas
(isto é, a “República” caracterizava- possibilidades. Seguimos abordando
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a criação da República do Mangue possuírem um temperamento
nesse contexto, e concluímos extrovertido, seja por condições
analisando, em seu cotidiano, as socioeconômicas adversas. Assim, foi
relações entre polícia e prostitutas estudada, no cotidiano da República
considerando as diferentes do Mangue, uma demonstração de
intencionalidades da ação policial, o resistência a uma ordem estabelecida
controle médico, e as relações entre através de uma disciplina organizada
as prostitutas. Para tanto, a pela instituição policial com
instituição policial foi considerada em supervisão médica.
sua dimensão societal tendo como
referência os estudos de Jean Polícia e Prostituição: uma
Jacques Gleizal. (GLEIZAL, 1985; relação possível
GLEIZAL e BOISMENU, 1988). Na dinâmica da redefinição
Essas dimensões nos dos papéis e valores femininos que
ajudaram a refletir sobre casos como ocorreu no século XX, também houve
o de Angelina, vulgo Jurema, natural um movimento entorno da figura da
de Ponta Grossa (RJ), nascida aos prostituta. Na França do início do
02/08/1927, bailarina, branca, cujo século, por exemplo, uma lei havia
primeiro registro na República do incorporado os reclames
Mangue é de 08/11/1954. Em sua abolicionistas e proibido os
ficha consta que “Criada por seu avô. cadastramentos policiais, bem como
Aos 15 anos foi deflorada por um as visitas médicas. Durante a
namorado cujo nome não mais se ocupação alemã, no entanto,
lembra [...]”. Ou como o de Marina, permitiu-se o retorno da grande
nascida aos 22/09/1927, doméstica, exploração das “maisons closes”. Em
casada, de instrução primária, 1945, com a lei Marthe-Richard,
branca, cujo primeiro registro na desmantelou-se juridicamente toda a
República do Mangue data de engrenagem que sustentava a
13/09/1966, que: “Separou-se de existência dessas “casas de
seu marido acerca de 14 anos, indo tolerância” (ADLER, 1990). A
residir com outro homem [...]”. Ou Assembléia Nacional Constituinte
ainda o histórico de Jovelina, natural Italiana, em 1946, por sua vez,votou
de Macaé (RJ), nascida em um projeto de lei que permitia a
15/02/1923, doméstica, casada, interdição das casas de tolerância; no
analfabeta, branca, cujo primeiro entanto, daí em diante, vivendo na
registro na República do Mangue data clandestinidade, as prostitutas
de 08/11/1954, onde consta que: passaram a sofrer forte perseguição
“[...] Deixando o meretrício e policial e, mesmo assim, foi
alegando maus tratos, passou a inevitável o ressurgimento das casas
trabalhar em casas de família, em especializadas. Não obstante a lei,
café em pé. Trabalhou como bailarina em diversos países a instituição
no Novo México[...]”. policial passou a administrar a
Mulheres que fugiam de necessidade de estabelecer outros
categorias supostamente universais e limites de tolerância para a
naturais, mas que assumiram um prostituição (PEREIRA, 1976). Um
não enquadramento, seja por rápido olhar sobre essa trajetória nos
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leva a verificar a convivência de três qualquer forma de discriminação em
diferentes atitudes possíveis, na relação às prostitutas. Em face dessa
segunda metade do século XX, em situação, o comportamento da polícia
relação à prostituição (PEREIRA, em relação à prostituição tornou-se
1976): paradoxal, e passou a ampliar
1. O Proibicionismo: atitude atitudes já experimentadas que
radical porque considerava a tentavam conciliar os anseios da
prostituição por si só um moral vigente, aquilo determinado
delito. pela lei, e as convenções
2. O Regulamentarismo: atitude internacionais.
que defendia a intervenção do A posição da polícia era, dessa
Estado na prostituição a fim forma, peculiar. No presente estudo,
de normatizá-la. Baseia-se compreendemos, baseando-nos em
em argumentos como a Gleizal (1985), que a relação entre a
possibilidade da defesa polícia e a sociedade está contida
sanitária com o objetivo de dentro de certos limites: os da
reduzir as doenças venéreas; função, da instituição, e da
a inevitabilidade da administração policial, por um lado,e
prostituição enquanto “mal os das regras da legalidade, por
necessário”; a salvaguarda outro. Função, instituição e
das famílias; etc. administração policial estão, todavia,
3. O Abolicionismo: atitude que submetidas à ação policial, praticada
não admitia qualquer forma com base na necessidade imediata
de intervenção do Estado. dos fatos para os quais a sociedade
Considerava a prostituição demanda o controle policial. Nesse
imoral, mas não ilícita. contexto, as regras são
Baseava-se em argumentos constantemente ultrapassadas pela
como a não eficácia da defesa prática, pois “[...] A polícia deve agir
sanitária que fiscalizava na legalidade, ela não pode fazê-lo,
apenas a prostituta e não seus no entanto, ela deve fazer como se o
clientes; a impossibilidade de pudesse. É falso afirmar que a polícia
se converter o Estado em seja uma instituição de
proxeneta; ser a prostituição direito,também não é correto
um flagelo social como outros sustentar o contrário.A polícia está
que são ignorados; o respeito ao mesmo tempo dentro e fora do
pela pessoa humana, etc. direito.”(GLEIZAL, 1985: 15).
Concluímos, portanto, que a ação
Em 1950, a Organização das policial se transforma à medida que
Nações Unidas (ONU), durante a uma nova relação com a sociedade
convenção de Lake Success, se impõe. E é à ação policial que nos
declarou-se contrária às medidas que referimos quando refletimos sobre a
discriminavam prostitutas. Como relação entre polícia e prostituta no
decorrência da posição da ONU, o cotidiano da República do Mangue.
Brasil, em 1958, terminou por Mas, afinal, por que o Mangue?
aprovar um decreto legislativo Desde a virada do século, esta vinha
determinando a ilegalidade de sendo uma área de grande
12
concentração de casas de
prostituição. Todavia “Dirigia, nessa época, a Seção de
Meretrício da Delegacia de Costumes
o então comissário Carlos Navarro de
“[...] nos idos 1950 as coisas eram
Andrade. Decidiu ele, com
diferentes. O Mangue dessorado,
aquiescência de seus superiores,
depois que o general Alcides
realizar uma audaciosa guinada na
Etchgoyen expulsou as mulheres
condução do assunto. Constatara que
das ruas quentes da cidade nova,
nos velhos pardieiros das ruas Julio
começava a cobrar novo alento. As
do Carmo, Benedito Hipólito, e
prostituídas de 1930, quando a
adjacências, aboletavam-se mais de
velha zona alcançava o máximo
duas mil mulheres que trabalhavam
esplendor, com uma quantidade
sob a batuta de um grupo de
enorme de francesas, polonesas,
estrangeiros. Os lucros das
estonianas, russas, romenas,
empresárias eram realmente
uruguaias e também muitas
fabulosos, não obstante o alto preço
brasileiras, haviam envelhecido no
do suborno inevitável”. (PEREIRA,
serviço ativo. Houve as que
1976: 137).
voltaram às suas terras, algumas
mudaram de profissão, outras
amigaram-se ou mesmo casaram, O primeiro passo dado pela
não poucas sucumbiram ao peso da polícia foi proibir a permanência das
tragédia, e, finalmente, umas tantas
antigas administradoras nos bordéis.
ficaram fiéis aos prostíbulos e se
converteram, em empresárias...”. A menor tentativa de reação era
(PEREIRA, 1976: 99). respondida com a prisão e utilizou-se
o policiamento ostensivo para
O aspecto urbano da área impedir a volta das cafetinas. Em
também havia mudado, visto que a segundo lugar, os antigos
Avenida Presidente Vargas cruzava, estabelecimentos foram entregues às
então, todo o centro da cidade. prostitutas para que elas próprias os
Como as tarifas cobradas eram gerenciassem. A polícia local (o 13º
baixas, os clientes eram muitos, o DP) reuniu-as para que tomassem
que caracterizava o baixo meretrício. ciência da nova situação e de seus
A polícia não atuava energicamente, direitos e deveres. Era uma atitude
pois, se, por um lado, o Brasil se paternalista.
posicionava favorável ao
“abolicionismo” após as resoluções “Estava proclamada a república do
Mangue, como pitorescamente se
da ONU (o que não significava
chamou a operação. Em cada
concordar com a manutenção dos lupanar, sob a vigilância policial,
bordéis), por outro, havia o suborno realizou-se uma eleição. As
e a alegação da falta de diretrizes de mulheres escolhiam livremente uma
gerente, por maioria de votos. Por
ação. Alguns policiais, no entanto,
um período de tempo variável,
tinham interesse em tentar novas administravam elas a casa, sendo,
medidas, experimentar algo além do após, substituídas, por outra, na
que se vinha fazendo na Europa, direção do negócio. O cargo possuía
caráter rotativo cabendo a todas,
onde toda uma rua com vitrines onde
teoricamente, o direito de exercê-
as mulheres eram exibidas vestidas lo”. (PEREIRA, 1976: 138).
(Herbertstrasse) fora isolada. No
caso do Mangue, pensava-se em algo Enquanto isso, nem todos se
mais arrojado: conformavam com a atuação da

13
polícia. As antigas exploradoras dos “legalidade” do Mangue, consta em
bordéis chegaram mesmo a tentar sua ficha:
uma ação judicial contra o 13º DP,
mas fracassaram. Em alguns casos, “[...] Aos 18 anos veio para esta
Capital, passando a trabalhar em
conseguiram subornar as novas
casa de família o que fez durante
gerentes para que estas treis(sic) anos, passando em
trabalhassem apenas como seguida a exercer o meretrício
intermediárias. Por baixo dos braços “trotoir” pelas ruas da cidade. Presa
pela Delegacia de Costumes por
protetores da polícia, algumas
treis(sic) vezes, onde declara ter
brechas apareciam. De qualquer sido fichada. em 26 de janeiro de
modo, mesmo que a polícia não 1955, após ouvida pelo Dr.
interferisse na economia dos bordéis, Delegado, foi pelo mesmo
concedido o registro da fichada para
sabemos, através das fichas das
frequentar a zona do Mangue”
prostitutas, que a participação das
autoridades na República do Mangue
Por sua vez, Arlete, vulgo
não foi apenas inicial.
Odete, natural de Campos - RJ,
Polícia e prostitutas
branca, doméstica, casada, sem
relacionavam-se desde o
residência determinada, e cujo
recrutamento para o trabalho na
primeiro registro na República do
República. O trabalho era simples: às
Mangue data de 12/07/1958, teve
prostitutas já fichadas na Delegacia
iniciativa própria: “[...] como
de Costumes e Diversões Públicas
ganhava pouco, não dando mesmo
(DCD) era comunicada a existência
para as despesas, resolveu a vir a
de uma nova área na cidade onde
este DP pedir para ser fichada como
poderiam exercer o seu trabalho
meretriz”
“livremente” mediante controle
Já Francisca, natural de São
médico e policial. Para aquelas que
Fidelis - RJ, branca, doméstica,
recém chegavam à cidade, pesava a
solteira, nascida aos 09/03/1937,cujo
orientação de porteiros de hotéis ou
primeiro registro na República do
de alguma amiga mais experiente.
Mangue data de 23/01/62, era
Havia ainda situações de mulheres já
prostituta no centro da cidade e:
residentes na cidade, mas que,
“[...] Para evitar detenções, resolveu
geralmente por desemprego
fazer ficha para o Mangue”. Dentre
repentino ou abandono do
os mais diversos exemplos sobre as
companheiro, resolviam procurar
orientações e motivações para o
outra forma de se sustentarem sem
“cadastramento espontâneo”,
que necessitassem enfrentar um
destacamos ainda Lia, natural de
mercado para o qual não estavam
Minas Gerais, morena, doméstica,
qualificadas, já que a maioria era
solteira, analfabeta, nascida aos
analfabeta. Citamos o caso de,
10/05/34, cujo primeiro registro na
Ana, natural de Juiz de Fora - MG,
República do Mangue data de
parda doméstica, solteira, cujo
24/03/1955, “[...]. Em 24 de março
primeiro registro na República do
de 1955, após anuência do Dr.
Mangue data de 26/01/1955. Já
Delegado foi registrada para retornar
sendo prostituta há algum tempo e
ao Mangue”.
fichada na DCD, optou pela
14
Casos mais graves eram os como “ladras”, “bagunceiras”,
daquelas que se tornavam amantes “bêbadas”, ou “doentes”, possuíam o
de policiais e por eles eram levadas à registro de suas “falhas” em suas
zona. Assim, Nilcea, natural do Rio fichas, o que tornava o acesso ao
de Janeiro, branca, doméstica, trabalho nos estabelecimentos
solteira, de instrução primária, dificultado, e até mesmo proibido.
nascida aos 27/05/1937, cujo Assim, por exemplo, Carmelia,
primeiro registro na República do natural de Serra Negra - SP, branca,
Mangue data de 16/05/1955, solteira, doméstica, com instrução
“rudimentar”, nascida aos
“Foi deflorada com a idade de 14 10/02/1926, cujo primeiro registro
anos, pelo seu namorado quando
na República do Mangue data de
ainda se encontrava em companhia
de seus pais. O evento se verificou 30/10/1954, teve anotado em sua
quando a mesma resolveu fugir de ficha: “[...] Está na zona há 3
casa com esse rapaz que é Polícia anos[...]. 22/06/61 - Suspensa por 5
Especial e ficou residindo com o
dias, por falta de disciplina”. Sendo
mesmo um ano. Quando quis voltar
à companhia de seus pais foi que aos “26/06/61. Voltou a
recusada pelos mesmos. Na ocasião trabalhar no mesmo endereço”. Com
em que vivia com esse rapaz, o Iracyas autoridades responsáveis
mesmo levou-a para trabalhar na
foram inclementes. Parda, solteira,
zona [...]”.
doméstica, nascida aos 14/01/1933,
sem a informação da data de sua
Entretanto, era na negociação
entrada na República do Mangue,
de rotinas que se podia perceber o
teve registrada no alto de sua ficha a
alcance da ação policial, inclusive
palavra “expulsa”. No verso, no
interditando a prostituta atestada
espaço reservado para
doente pela Fundação Gaffrée e
“observações”, consta apenas o
Guinle. Tanto gerentes quanto
endereço do bordel: Pinto de
policiais eram de opinião que os
Azevedo, nº 35, e, novamente, a
bordéis deveriam constituir-se em
palavra “expulsa” manuscrita. Não
ambientes “sadios”. Assim,
consta a data da expulsão em seu
compreende-se a necessidade da
histórico.
atuação policial e do controle médico
A repressão e a disciplina se
sobre a República do Mangue, visto
estendiam para fora dos bordéis,
que o “recrutamento” para os bordéis
visto que era terminantemente
relacionava-se à manutenção da
proibido exercer a prostituição fora
saúde nos ambientes. Assim, em
dos limites estabelecidos para o
relação à questão sanitarista,
funcionamento da República do
verificamos que o “neutralismo” não
Mangue. Por isso, Adélia, cujo
difere em muito das propostas
primeiro registro na República do
regulamentaristas. Além disso, a
Mangue data de 19/09/1956, mesmo
prosperidade de um bordel dependia
sendo a primeira vez que trabalhava
da fama de seus atributos, entre eles
no Mangue e não tendo ficha na
a limpeza, a organização e a
DCD, foi punida: “24-1-62. Foi
segurança. Por isso, as prostitutas
autuada no Art. 59 da L.C.P. por ter
aceitavam a disciplinarização policial
sido encontrada perambulando fora
e aquelas que ficavam conhecidas
15
do Mangue, fazendo baderna com firmeza nos casos de doenças
companheiras. [...]28-2-62. Voltou a detectadas durante os exames
trab. Pinto de Azevedo, 21. - B. 6- periódicos efetuados na Fundação
11-64”. Nesse caso, há a data do dia Gaffrée e Guinle. É o caso, por
em que Adélia deixou a República do exemplo, de Celma, cujo primeiro
Mangue marcada com um “B” de registro na República do Mangue data
“baixa”. Tal cuidado foi verificado em de 02/06/1961. Nas observações
um número muito pequeno de fichas. contidas em sua ficha, há os
Também Eva, natural do Rio seguintes dizeres: “Nesta data foi
de Janeiro, branca, solteira, suspensa da zona por motivo de
balconista, com instrução doença e conforme comunicação do
“rudimentar”, nascida aos serviço médico da Fundação Gaffrée
29/08/1942, cujo primeiro registro e Guinle”.
na República do Mangue data de Alternides, natural do Espírito
29/06/1964, foi punida por romper Santo, branca, casada, doméstica,
as normas:“Exerce o meretrício há nascida aos 10/10/1932, cujo
quatro anos, já tendo sido detida primeiro registro na República do
várias vezes por esse motivo pela 3ª Mangue data de 01/08/1957,
DP, pois exercia o meretrício volante também teve problemas médicos,
na Cinelândia.[...].17-7-1964- [...] conforme se verifica através das
foi detida por estar no interior de um anotações em sua ficha:
bar na zona do meretrício.” No caso “11/05/1961. Nesta data foi
de Augusta, natural do Estado de suspensa da zona, por motivo de
Minas, morena, solteira, doméstica, doença, conforme comunicação feita
com instrução primária, nascida aos do serviço médico da fundação
25/08/1934, cujo primeiro registro Gaffrée e Guinle”. Ou ainda o caso de
na República do Mangue data de Neuza, natural de Minas Gerais,
23/11/1954, o controle policial preta, solteira, doméstica,
exigiu-lhe a identificação obrigatória analfabeta, nascida aos 05/02/1029,
(crachá), registrando em seu cujo primeiro registro na República
histórico: “29.4.1955. Encontrada do Mangue data de 27/10/1954, e
pela turma da fiscalização à rua Pinto que foi aos “11/07/56. afastada do
de Azevedo, 29, sem a devida mangue durante 2 anos. internada no
comunicação”. A “turma da Manicômio débil mental, proibida de
fiscalização” tampouco ignorou o trabalhar”.
caso de Anita, natural de Ilhéus - BA, Em estudos anteriores (LEITE,
parda, casada, doméstica, 2005), refletimos sobre como
analfabeta, nascida aos 31/08/1931, negociando uma ordem disciplinar no
cujo primeiro registro da República interior da República do Mangue, a
do Mangue data de 12/11/1954, e prostituta poderia retribuir à
que foi aos “25.4.1955. Encontrada amenização de uma punição através
no bordel da rua Pinto de Azevedo, de informações sobre o paradeiro de
21, sem o devido registro”. pessoas procuradas pela polícia.
O controle policial não se Considerando tais contextos de
restringia apenas às questões de negociações, observa-se que, na
desobediência. Agiam com igual atividade de prostituta, a mulher
16
interage com o policial, com outras bordel. Apesar de toda a experiência
prostitutas, e com os clientes. funcionar sob as vistas da polícia,
Prostituta e policial negociam os algumas gerentes terminaram por
meios que legitimam o seu convívio, explorar as prostitutas, segundo
implicando a admissão recíproca de registra Armando Pereira (1976).
compromissos tácitos. Prostituta Assim, na ficha de Ana, vulgo
e prostituta negociam um espaço “Paquita”, parda, solteira, doméstica,
físico, um espaço moral e um espaço nascida aos 20/01/1945, cujo
afetivo. Prostituta e cliente negociam primeiro registro na República do
uma realidade comum a ambos Mangue data de 11/07/1967, consta
através de comunicações ritualizadas que “Em 26 de junho, de 1967 foi
que pressupõem um determinado eleita pela maioria para ser
compromisso. O cotidiano na „ZELADORA‟ do bordel mencionado”.
República do Mangue era um palco Diversas formas de afirmação
de negociações. eram utilizadas como
estabelecimento de uma hierarquia
da força, sendo as mais comuns
ligadas à violência existente entre as
Cotidiano de Negociações prostitutas. É interessante
Dentro das paredes dos percebermos que tais atitudes
bordéis da República do Mangue, as violentas, por vezes, eram
prostitutas desenvolviam seus decorrentes da simples convivência
próprios códigos e relações, unidas cotidiana em um mesmo espaço
pela segregação. O limite era duplo, profundamente delimitado, no qual
visto que além das paredes dos se operavam desde a partilha de
bordéis existiam as fronteiras objetos pessoais até a disputa pelos
estabelecidas para a existência da clientes. Dessa forma, não raros
República do Mangue. Apesar de eram os casos de agressão entre as
partilharem uma situação em prostitutas de um mesmo bordel, o
comum, as prostitutas necessitavam que era usado para justificar mais
criar uma hierarquia a fim de uma vez a ação disciplinadora da
estabelecer laços sólidos de mútuo polícia. Assim, no histórico da ficha
respeito entre si. Tal hierarquia de Cléa, natural do Estado do Rio,
fundia-se com a disciplinarização preta, solteira, doméstica,
imposta pela polícia. As gerentes analfabeta, nascida aos 28/03/1935,
eram encarregadas de administrar o cujo primeiro registro na República
bordel para o qual eram eleitas por do Mangue data de setembro de
maioria dos votos. O cargo possuía 1959, consta que “[...] Já foi presa
caráter rotativo, de forma que, pela Costumes. [...]16.10.60
teoricamente, todas poderiam Suspensa por três dias por estar
exercê-lo. Na prática, o cargo ficava envolvida em caso de agressão no
limitado àquelas alfabetizadas que interior da rua Afonso Cavalcante 68.
dominassem as operações Suspensa por três dias”.
matemáticas básicas. As zeladoras Também Dalva, natural da
também eram eleitas, mas sua Guanabara, parda, solteira,
função era a de “arrumadeira” do costureira, de instrução
17
“rudimentar”, nascida aos ao Dr. Delegado, ter sido vítima das
enchentes em Caxias tendo perdido
02/11/1943, cujo primeiro registro
[...]”.
na República do Mangue data de
01/10/1964, teve registrada em sua
Destaca-se ainda a vigilância
ficha uma atitude de violência contra
policial no que diz respeito à violência
outra prostituta: “24.7.65. Acusada
da prostituta consigo mesma. Isto
de agressão a lâmina Gillette na
pode ser verificado nos casos de
pessoa de outra mundana. Inquérito
punição envolvendo o artigo 129 do
356/65”. Da mesma forma, Edinea,
Código Penal (aborto terapêutico), e
natural de Petrópolis - RJ, parda,
os registros de suicídio.
solteira, doméstica, com instrução
Por sua vez, no caso da prostituta em
primária, nascida aos 10/10/1935,
relação ao cliente, encontramos
cujo primeiro registro na República
constantes referências a roubos. Na
do Mangue data de 13/11/1959, foi
ficha de Cléa, por exemplo,
aos “13.2.60. Susp. (sic) 3 dias por
encontramos a seguinte observação
discutir e provocar desordem na casa
manuscrita: “Tira dinheiro dos
(13.14. e 15)”.
fregueses e esconde até na vagina.
Foi possível, também, verificar
Inf. da subgerente”. Na ficha de
alguns casos de furto no interior dos
Odete, vulgo “Sonia”, natural de
bordéis, como o de Nair, natural do
Miracema - RJ, parda, solteira,
Rio de Janeiro, preta, casada,
doméstica, analfabeta, nascida aos
doméstica, analfabeta, nascida aos
13/05/1931, cujo primeiro registro
01/04/1933,cujo primeiro registro na
na República do Mangue data de
República do Mangue data de
12/11/1954, consta que aos “6-10-
08/11/1954, que foi aos “14/7/1954.
958. Rua Afonso Cavalcante 61.
processada por furto”.
Suspeita de furto, quando estava
Se a polícia agia punindo
com freguês”.
aquelas que eram violentas com
Observamos, assim, que, apesar da
outras prostitutas dentro dos bordéis,
intencionalidade e da funcionalidade
por outro lado, também sabia ser
da ação policial que envolvia a
condescendente e quase paternalista
criação e manutenção da República
nos casos de tragédia. Anita, apesar
do Mangue, a prostituição não
de ter sido duramente punida com a
chegou a ser de fato normatizada,
expulsão, pôde voltar à República do
nem extinta, nem assistida. As
Mangue. Segundo consta no
resistências eram frequentes e
histórico de sua ficha:
diversas.

“10.7.58. Suspença(sic) 30 dias por


desacato, desordem, embriagues,
por determinação do Dr. Delegado. Rotina de resistências e outras
[...] Por determinação do Dr. considerações
Delegado, fica espulsa(sic) do baixo
Mesmo “negociando” com a
meretrício „ANITA [...]‟ por continuar
a fazer desordens desacatando os polícia, a prostituta via nas formas de
policiais em serviço.[...] Rio - 10-7- resistência às normas de disciplina
58.30.1.959. retornou ao meretrício maneiras de romper com o contexto
por determinação do Dr. Delegado,
de negociações. Para além dos
em vista da mesma ter apresentado
roubos, brigas com colegas e uso de
18
bebidas, a prostituta assumia Outro caso interessante é o de
atitudes que evidenciavam as Maria, vulgo “Aidée”, de Buenos Aires
contradições em tal processo de – Argentina, branca, solteira,
interação. As normas eram ditadas doméstica, nascida aos 27/09/1907,
pela polícia, portanto, quem rompia o cujo primeiro registro na República
processo de negociações eram as do Mangue data de 25/10/1954, que
prostitutas. Muitas mulheres aos “2.2.62. Foi advertida porque
desejavam fugir do controle policial, entregou a carteirinha nas mãos de
sentiam vergonha com o registro das uma mulher (Ilca[...])”.
fichas, com a proximidade dos limites A frequência com que as
da lei, com sua própria condição de prostitutas mudavam de bordel, bem
prostituta, etc. Caso comum era o de como a sua característica em usar
mulheres que se recusavam a usar um pseudônimo, também são
suas carteirinhas de identificação. expressões da tendência de não criar
Ora, se todo o processo de raízes, de construir novas
fichamento da prostituta na polícia já identidades, de resistir aos limites
despertava um sentimento de impostos. Algumas sequer se
humilhação, o que dizer do porte da incomodavam em ir ao 13º DP para
carteirinha de identificação que comunicar a mudança de local de
evidenciava sua profissão? trabalho, agiam por conta própria
Foi o caso de Leontina, natural ignorando a autoridade policial. Foi o
de Rio Bonito - RJ, parda, solteira, caso de Olga, natural do Distrito
doméstica, analfabeta, nascida aos Federal, morena, solteira, costureira,
15/01/1921, cujo primeiro registro de instrução primária, nascida aos
na República do Mangue data de 16/08/1930, cujo primeiro registro
12/11/1954, que foi aos “24.4.1955. na República do Mangue data de
Encontrada no bordel da rua Pinto de 26/10/1954, que foi aos “27.1.1955.
Azevedo, 21, sem o devido registro”. Localizada á rua Pereira Franco, 27.
Caso semelhante foi o de Julieta, Advertida por não ter feito a
natural do Distrito Federal, branca, transferência”.
viúva, doméstica, nascida aos Muitas não se adaptavam à
02/02/1915, e cujo primeiro registro estrutura do trabalho regulado e
na República do Mangue data de desistiam, não mais aparecendo para
27/11/1954, que foi “Encontrada sem o serviço. Assim, Maria, natural de
registro no PA - 29 - Em 27.2.60. Juiz de Fora - MG, preta, solteira,
Carnaval, quando foi determinado o doméstica, de instrução rudimentar,
fechamento das casas”. nascida aos 14/08/1932, cujo
Outra forma de expressar a primeiro registro na República do
não concordância com o Mangue data de 17/05/1957,
cadastramento era a relutância em terminou por desistir do trabalho na
apresentar fotografias à polícia. área, e consta em sua ficha que aos
Germaine, por exemplo, francesa, “6.12.959. foi dada baixa por não
possui registrado em sua ficha que aparecer para trabalhar”.
aos “10.12.1954. sahiu (sic) por não Também Marly, vulgo
querer dar 1 fotografia na casa, “Ciganinha”, natural de Porto Alegre -
dizendo que não voltaria mais”. RS, branca, casada, doméstica, de
19
instrução “rudimentar”, nascida aos buscavam fazer sobreviver também
06/04/1932, cujo primeiro registro sua dignidade, sua sexualidade e sua
na República do Mangue data de afetividade. Observamos, em outra
16/12/1954, pensou em abandonar o investigação sobre o tema (LEITE,
Mangue, mas desistiu da ideia, 2005), que a mulher da República do
conforme consta em sua Mangue buscava a prostituição
ficha:“29.12.1954. Baixada da casa basicamente alegando três principais
acima. Alegou que iria deixar a zona” razões: dinheiro (para seu próprio
e “3.1.1955. Voltou a freqüentar o sustento ou de seus filhos), prazer
17 do Pinto de Azevedo”. (intimamente ligado à afirmação de
Outro caso é o de Natalia, sua sexualidade), e vergonha de sua
branca, viúva, doméstica, nascida situação de “mulher não virgem” e,
aos 04/09/1916, cujo primeiro portanto, “impura”. Considerando
registro na República do Mangue data mais uma vez essa compreensão,
de 28/07/1964, que fez o registro no concluímos que a ideia de liberdade,
13º DP, mas não se apresentou em principalmente a liberdade sexual,
bordel algum: “Não solicitou reg. em estava presente no imaginário acerca
nenhuma casa”. Alguns casos, além da prostituição no período em
de contrariar as regras impostas pela questão, uma época de transição dos
polícia para a República do Mangue, valores culturais e de grande
também iam de encontro à lei. Na transformação no que diz respeito ao
ficha de Maria, cujo primeiro registro papel da mulher na sociedade. A
na República do Mangue data de cidade do Rio de Janeiro, reformada
18/10/1954, está escrito que aos e reformando-se, apesar de confinar
“__/4.60. Foi feito um flagrante de a República do Mangue atrás de
maconha, na r. Pereira Franco, 72, tapumes, por meio de crachás, fichas
onde residia, nada sendo apurado policiais e prontuários médicos, dava
contra a fichada”. Também Dalva, um novo sentido àquelas ruas da
demonstrou estar bem próxima dos chamada Cidade Nova, região da
interesses policiais, pois “Colaborou cidade maravilhosa onde conviveram
na captura do amigo de seu amante, escolas de samba, prostíbulos e um
que é ladrão procurado pela Polícia, hospital de alienados.
tendo seu amante fugido”.
Ao concordar com o trabalho
no Mangue, diferentes mulheres

Referências:
ADLER, Laure. La vie quotidiennedans les maisons closes (1890 - 1930).
Paris: Hachette, 1990.
ANJOS JÚNIOR, Carlos Silveira Versiani dos. A serpente domada (um estudo
sobre a prostituta de baixo meretrício). 1989. Dissertação (Mestrado em
Antropologia) - UNB, Brasília, 1989.

20
GLEIZAL, Jean-Jacques. Le désordrepolicier. Paris: PressesUniversitaires,
1985.
GLEIZAL, Jean-Jacques e BOISMENU, Gérard (Org.). Les mecanismes de
régulationsociale: la justice, l‟administration, la police.
Montreal:Boréal/PressesUniversitaires de Lyon, 1988.
LEITE, Juçara Luzia. A República do Mangue: controle policial e prostituição no
Rio de Janeiro (1954 a 1974). Rio de Janeiro: Yendis Ed. 2005
PEREIRA, Armando. Prostituição: uma visão global. Rio de Janeiro: Pallas,
1976.
SOARES, Luiz Carlos. Rameiras, ilhoas, polacas... a prostituição no Rio de
Janeiro do século XIX. Rio de Janeiro: Ática, 1992.

21
COMPONDO HISTÓRIAS (RE) History, Memory and Identity. This study 1
Mestranda e Bolsista
begins from a recently historiographical REUNI/PPGH/UFCG.
INVENTANDO ESPAÇOS:
HISTÓRIA, MEMÓRIA E perspective anchored in the studies of 2
Mestrando e Bolsista
Cultural History, in this article we seek to REUNI/PPGH/UFCG.
IDENTIDADE NO MEMORIAL
analyze the configuration of the image-
JACKSON DO PANDEIRO 3
Professor Doutor/
discursive identity Jacksonian Alagoa
Lucilvana Ferreira Barros1 Grande / PB. We seek to understand how
PPGH/UFCG
Roberg Januário dos Santos2 it has been conceived in the city,
Iranilson Buriti de Oliveira3 especially after the inauguration of the
Memorial Jackson do Pandeiro in
Resumo December 2008, the notion of identity /
belonging in Alagoa Grande from a
O presente trabalho se constitui em uma musical memory; That conditions of
proposta de reflexão acerca da relação possibility boosted the municipal
entre História, Memória e Identidade. administration to draw a memorial in the
Partindo de uma perspectiva city heart, inscribing a nostalgic‟ space
historiográfica recente ancorada nos face (ALBUQUERQUE JR, 1999: 51), place
estudos de História Cultural, buscamos of memory (Nora: 1993) and belonging
neste artigo analisar a configuração (Felix: 1998). From what circumstances
imagético-discursiva da identidade motivations and desires in the city was
Jacksoniana em Alagoa Grande/ PB. the need for implementing the Memorial
Buscamos compreender de que forma helping to enroll in the memory of its
vem sendo gestado no município, em residents a musical past?
especial após a inauguração do Memorial
Jackson do Pandeiro, em dezembro de Keywords: Alagoa Grande, Identity,
2008, a noção de identidade/ Jackson do Pandeiro.
pertencimento nos Alagoa-grandenses a
partir de uma memória musical; Que
condições de possibilidade impulsionaram
a administração municipal desenhar no Introdução
coração da cidade um memorial,
inscrevendo-lhe a face de um espaço da
“O ato de lembrar é,
saudade (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999.
pg.51), lugar de memória (NORA, 1993),
sobretudo, o trabalho de
e de pertencimento (FÉLIX, 1998). A localizar lembranças no
partir de que circunstâncias, motivações tempo e no espaço”
e desejos ocorreu a necessidade no (SPERCE, 2002)
município de implantação do Memorial
Jackson do Pandeiro ajudando a inscrever De acordo com Clerton
na memória de seus moradores um Martins (2004: 40), “o que dá
passado musical?
sentido a um lugar, é o conjunto de
significados, os símbolos que um
Palavras-Chave: Alagoa Grande,
Identidade, Jackson do Pandeiro
determinado povo atribui a este
espaço”. E os significados, os
símbolos, são construídos a partir das
Abstract múltiplas experiências que os
indivíduos mantêm ou mantiveram
This article constitutes has proposal to com o mesmo.
reflect about the relationship between

22
Nesse sentido, os espaços são 1998). A partir de que circunstâncias,
por excelência tecidos a partir dos motivações e desejos ocorreu a
tempos acumulados, que imprimem necessidade no município de
nos lugares suas marcas e implantação do Memorial Jackson do
significados, estes ao serem revistos Pandeiro ajudando a inscrever na
ou reelaborados ganham nova memória de seus moradores um
apresentação, mas ainda guardam passado musical?
em seu bojo resquícios dos fios
tecidos por distintas temporalidades. História, Memória e identidade no
No rastro dessas observações, é Memorial Jackson do Pandeiro/
profícuo afirmar que o desenho de Alagoa Grande- PB
um lugar registra muito mais que sua Ao entrarmos na cidade de
construção material. A arquitetura diz Alagoa Grande/PB a primeira imagem
mais que sua aparência, revela: arte, que contemplamos é um imenso
beleza, significados, medos, sonhos, pandeiro suspenso no ar, um pórtico
símbolos, memória e afetividade e em forma de instrumento musical
sensibilidades. circundado por uma placa
Os lugares também podem ser proporcional ao monumento, com os
construídos como guardiões de dizeres: "Alagoa Grande - Terra de
memórias, detentores de histórias, Jackson do Pandeiro". A imagem
de (res) sentimentos, e servirem instaura uma memória musical para
como produtores de identidades, a cidade: é a terra da música, dos
imagens, discursos e práticas em cocos e sambas, de um Rei. A
torno de um sujeito ou objeto, imagem fabrica o visitante, fazendo-o
atribuindo-lhes por vezes o ler/ouvir os sons de uma
estereótipo da eternidade. No ritmo espacialidade (de) marcada pela
dessas considerações, buscamos música. Mas este jogo de imagens
neste artigo analisar a configuração não existiu desde sempre. Os
imagético-discursiva da identidade arquivos que vão desde as imagens e
Jacksoniana em Alagoa Grande/ PB. discursos veiculados pela mídia a
Buscamos compreender de que construção de um memorial no
forma vem sendo gestada no centro da cidade, faz parte de um
município, em especial após a projeto mais amplo: territorializar na
inauguração do Memorial Jackson do memória dos citadinos o sentimento
Pandeiro, em dezembro de 2008, a de pertença ao lugar, (de) marcar em
noção de identidade/ pertencimento suas subjetividades os signos de
nos Alagoa-grandenses a partir de reconhecimento, identificação com
uma memória musical; Que uma espacialidade arquitetadamente
condições de possibilidade imersa em uma cultura musical, bem
impulsionaram a administração como legitimar perante os visitantes
municipal desenhar no coração da do município e seus habitantes o
cidade um memorial, inscrevendo-lhe valor, respeito, e admiração que a
a face de um espaço da saudade cidade possui pela produção musical
(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 1999. de um de seus filhos mais ilustre:
pg.51), lugar de memória (NORA, Jackson do Pandeiro. É mais uma
1993), e de pertencimento (FÉLIX, forma de (re) afirmação da
23
identidade do lugar, que já vinha que os sujeitos e objetos se
sendo trabalhada através das desvincularam de suas localidades
celebrações das datas, festividades e particulares para se reconfigurarem
rituais cívicos. num em espaço e tempo globais.
Foi no interior desta rede de De acordo com a antropóloga
preocupações que se assistiu em Marta Anico (2005: 72):
dezembro de 2008 a inauguração do
Memorial Jackson do Pandeiro, Observamos no mundo
contemporâneo um crescente
localizado na cidade de Alagoa
distanciamento e alheamento dos 4
Este se localiza
Grande/ PB4. Organizado e financiado indivíduos em relação ao seu atualmente na Rua
pela Prefeitura municipal, em passado histórico, às suas raízes, Apolônio Zenaide, 687,
Alagoa Grande, PB.
parceria com o Ministério do Turismo, origens, e especificidades culturais
locais, produzindo sujeitos
e com o apoio do jornalista e escritor 5
descentrados em busca de Fernando Moura,
Fernando Moura5 o local foi idealizado mecanismos e instrumentos de jornalista, escritor e
como arquivo de memória, devendo identificação e vinculações locais em biógrafo de Jackson do
Pandeiro foi o autor em
eternizar em seu interior os contexto mundial. Esses elementos
parceria com Antônio
reforçam a sensação de ausência
fragmentos (discos, objetos, Vicente da obra
dos referentes identitários, “Jackson do
documentos, fotografias, vestuários, estabilidade e continuidade, em face Pandeiro: o rei do
instrumentos musicais, entre outros de uma ameaça de ruptura e de ritmo”. São Paulo: Ed.
elementos) de um “passado glorioso” desaparecimento de recursos 34, 2001.
culturais, reais ou imaginários,
tecido pela trajetória do cantor e
produzindo um sentimento
compositor Jackson do Pandeiro. nostálgico em relação ao passado,
Marco da ilusão de eternidade, abrindo o caminho ao
o memorial foi idealizado a partir de desenvolvimento de uma indústria
6
da nostalgia em que o passado é Dados institucionais do
uma missão, “Disseminar o legado do Memorial Jackson do
(re) inscrito, idealizado,
rei do ritmo, para as gerações romantizado, e não raras vezes, Pandeiro. Memorial
futuras6”, buscando através da Jackson do Pandeiro,
inventado, mediante processos que
Alagoa Grande, PB.
tessitura de uma memória musical incluem, a exemplo de Alagoa 2010.
Grande, a patrimonialização da
legitimar uma identidade e um
cultura.
passado para o lugar (im)
mortalizando frestas de um passado,
Outros fios também vieram
cujo tempo não retornaria mais.
fazer parte desta trama de projeção
A aceleração do mundo
de uma identidade local. Em 17 de
contemporâneo, atrelado a
junho de 2004, assistimos a mídia
instantaneidade das pertenças
noticiar o rompimento de uma
culturais, impulsiona os sujeitos a
barragem na cidade Alagoa Grande,
habitarem o não-lugar, e vivenciarem
há 100 km de João Pessoa, o
forasteiramente uma ou outra forma
incidente mexeu com todo Estado.
de cultura, reafirmando a tese de que
Primeiro pelo impacto do acontecido,
a mesma não pode ser compreendida
no qual morreram cinco pessoas e
como um elemento natural, autêntica
milhares ficaram desabrigadas. “Eles
e essencializada, de populações
perderam casas, roupas, objetos
espacialmente circunscritas, visto
pessoais, documentos, prédios,
que a contemporaneidade se
escolas, bibliotecas, áreas de lazer
configura como um mundo de cultura
etc. Tudo que foi construído em uma
em movimento, de hibridizações, em
vida inteira foi levado pelas águas”
24
(BRAGA, 2005: 5). Um sentimento de Infraestrutura, de Ação Social, da
vazio e perca pairou sobre a cidade Agricultura e da Saúde. Estiveram
após o acidente. As imagens das presentes o Corpo de Bombeiros e a
casas destruídas, dos animais polícia Militar, a população também
mortos, dos destroços nas ruas. Além participou ativamente na realização
das percas materiais, a população em da limpeza da cidade e remoção das
geral, sofreu um abalo psicológico, famílias para os abrigos.
em decorrência da perda de Assistiu-se após a tragédia
parentes, amigos e de objetos uma verdadeira guerra de narrativas
importantes para a segurança e nos jornais “Correio da Paraíba” e
manutenção, tais como: veículos, “Jornal da Paraíba”, “a caça por
móveis e utensílios domésticos, encontrar as causas do acidente, os
roupas, alimentos, medicamentos, culpados, colocar o dedo em riste em
recordações como fotos e fitas VHS, nome da ajuda, da cidadania, em
entre outros objetos (SILVA, 2006: nome de milhares de pessoas, que
24. em poucos segundos perderam tudo
Foram atingidas cerca de 900 (BRAGA, 2005: 6). O Jornal Correio
casas, onde 168 ficaram da Paraíba ligado ao grupo político do
completamente destruídas, 345 ex- governador do Estado na época e
parcialmente destruídas e, o restante Senador da República, José Targino
foi apenas danificado (SILVA, 2006: Maranhão lançava culpa no grupo do
25). No que se refere ao patrimônio governador da Paraíba da época,
público, foi necessário (re) desenhar Cássio da Cunha Lima, este por sua
a infra-estrutura do município, pois vez alcançava a defesa por parte do
foram destruídas galerias pluviais, Jornal da Paraíba ligada ao partido do
esgotos, pavimentação, praças, governador de então. Estas posturas
postos de saúde, muros de nunca foram colocadas abertamente
contenção, pontes, a prefeitura, nos jornais, mas para muita gente
bibliotecas, e algumas escolas estavam evidentes por causa dos
municipais, prejuízos incalculáveis acordos de bastidores, de algumas
para o lugar. Esta talvez tenha sido a posturas adotadas e principalmente
maior tragédia do município de por aquilo que era materializado nos
Alagoa Grande / PB, foi um jornais ao longo dos anos (BRAGA,
verdadeiro choque humano, 2005: 6). Mas tudo que a população
econômico e social gerado pelo necessitava neste momento era
rompimento da barragem de Camará. reconstruir suas vidas, suas histórias,
A administração municipal na suas memórias levadas pelas águas.
época do acidente pode contar com a A prefeitura municipal inicia
ajuda dos governos estadual e um trabalho de (re) elaboração da
federal, organizando abrigos para a cidade, consertando praças, ruas,
população, levando alimentos, construindo novas casas, novos
colchões, assistência social, prédios públicos. Aos poucos ia
medicamentos e cadastrando as surgindo um novo cenário urbano,
famílias desabrigadas. O Governo atrelado a um sentimento de perda,
Estadual prestou grande assistência de vazio, restava agora juntar os
através das Secretarias de fragmentos, pedaços de pessoas e de
25
coisas, das múltiplas vivências e violenta, de uma violência tão
grande que só poderiam suportar
guardá-las em novos espaços,
por momentos, pois se vivessem
lugares de recordação/ lugares de verdadeiramente suas lembranças
memória. Nas palavras de Pierrre deixariam de compreender sua
Nora (1993: 14): saudade e os lugares de memória
perderiam seus significados.

Menos a memória é vivida do


interior, mas ela tem a necessidade A impossibilidade de vivê-las
de suportes exteriores e de em sua presença impulsiona o
referências tangíveis de uma
arquivamento de seus escombros,
existência que só vive através delas.
Daí a obsessão pelo arquivo que boa parte dos signos do passado de
marca o contemporâneo e que afeta Alagoa Grande e das vivências de
ao mesmo tempo a preservação seus moradores havia sido levadas
integral de todo o presente e a
pelas águas, seus referenciais
preservação integral de todo o
passado. O sentimento de um identitários (familiares, casas,
desaparecimento rápido e definitivo roupas, objetos pessoais,
combina-se a preocupação com o documentos, prédios, escolas,
exato significado do presente e com
bibliotecas, praças, etc) os signos
a incerteza de futuro para dar ao
mais modesto dos vestígios, ao mais memorialísticos de uma vida inteira
humilde testemunho a dignidade não restavam senão por meio de
virtual do memorável. fragmentos materiais e de
lembranças. Segundo Peter
Arquivar memórias, guardá- Stallybrass (2000: 58) “as coisas não
las para que as águas da história não são indiferentes para seus usuários,
as disperse, mas a leitura desses elas possuem nomes, personalidades,
indícios, não poderia servir mais que passados”, guardam resquícios de
imagens instantâneas da eternidade. vivências, de histórias, de
Apesar do desejo de (re) inscritura conquistas, de decepções, desejos,
do que se foi, os signos do passado travessias, etc. O apagamento de
não lhes permitiria mais que abertura seus patrimônios simbolizava o
de uma brecha no tempo, como apagamento de suas histórias, as
afirma (ALBUQUERQUE JÚNIOR, vidas daquelas pessoas podiam ser
2007: 201): contadas através de seus objetos.
“Às vezes é preciso perder a
Provocando a evocação, fazendo
memória, ainda que parcialmente,
chegar à consciência sensações ou
imagens já vividas que aparecem para se dar conta que é ela que
como rasgões num tecido negro. constitui a nossa vida” (CANDAU,
Passando através destes rasgões, 2001: 15).
figuras indecisas, imagens fugidas,
Após a enchente a cidade
aparições irrepetíveis que traziam
até o indivíduo o passado em estado apressa-se em (re) criar os espaços
puro, ou seja, não uma simples destruídos pelas águas, buscando
semelhança entre o passado e relembrar suas histórias, memórias
presente, uma repetição de
gloriosas, personagens importantes,
sensações passadas e presentes que
faz com que o que foi invocado acontecimentos marcantes, era a
surja de uma forma nova. O tentativa de (re) inscrever na
passado ressoa no presente, surge memória de seus moradores o
no presente com força viva e
26
sentimento de que a cidade, mesmo músicos de todas as vertentes”.
em meio a escombros, ainda possuía (MOURA, 2001: 45)
um passado, referenciais identitários. Vivenciava-se os signos de
A elaboração do Memorial Jackson do uma outra contemporaneidade. O
Pandeiro situou-se também a partir medo e (des) encantamento do
deste propósito, de reafirmar a mundo em plena Segunda Guerra
identificação e vinculação local, mundial parecendo acelerar o ritmo
engendrando a configuração de um das mudanças nos lugares onde a
referente simbólico de filiação modernização, como face mais
coletiva através da valorização de apreensível da Modernidade,
uma produção artística do lugar, a instalava-se como uma determinação
cultura musical. É nesse sentido que irrefreável e irrecusável. Era a
vem sendo gestada no município a configuração de projetos
imagem de Jackson do Pandeiro modernistas, existentes em várias
como representante da cultura cidades e capitais brasileiras (São
Alagoa-Grandense, atribuindo-lhe um Paulo, Rio de Janeiro Florianópolis,
espaço de valorização, e Santos, Recife) “Campina grande
patrimonialização de seus objetos, encontraria formas singulares de
produção musical, etc. Não obstante, apreendê-las”. (SOUSA: 2003).
este foi o filho de Alagoa Grande que As reformas não se davam
menos viveu em sua terra natal, apenas no plano arquitetônico, com a
alcançando seu sucesso inclusive fora construção de praças, ruas, avenidas,
das fronteiras paraibanas. bares, comércios, hotéis, assistia-se
Saindo de Alagoa Grande aos o desenvolvimento dos meios de
11 anos de idade com sua família comunicação, dos meios de
fugidos da situação de miséria em transporte, da imprensa, a
que viviam no lugar, Jackson do emergência da Indústria Fonográfica,
Pandeiro, inicia sua carreira de o rádio, o cinema, a aglomeração e
músico no município de Campina fluxo de automóveis, pessoas e
Grande, na segunda metade dos mercadorias. Assistia-se
anos 1930. Na nova cidade ele teria especialmente a configuração de
encontrado terreno propício para novos comportamentos, novos
germinar as sementes musicais sistemas de valores, novas formas de
plantadas ainda em sua cidade, e sobrevivência, atreladas e em
semear outras, advindas dos mais constantes disputas a antigas
diversos terrenos. A zona urbana práticas. A cidade desenhava-se
campinense neste período era um como afirma Maria Stella Bresciani, a
misto de cartografia rural e partir de “novas formas de conceber
modernidade em ascensão, uma e perceber o mundo, apontando para
espécie de “ponto de convergência de o surgimento de um novo olhar ou de
retirantes, comerciantes, tropeiros, novas sensibilidades” (BRESCIANI:
aventureiros, meretrizes, traficantes, 1987).
jogadores e tangerinos de boiadas. Jackson acompanhou todas
Uma fauna que atraía, na sequência, essas mudanças, (des)
cantadores, repentistas, poetas e territorializando-se em meio às
diversas novidades estando mais
27
próximo de uma das delas: o rádio. serviços de alto-falantes espalhados
As primeiras emissoras de rádio pelo centro e pelos bairros”.
chegaram a Campina Grande em (MOURA, 2001: 66)
finais dos anos 1940. Ganhando As difusoras eram o centro da
ampla aceitação por parte de seus movimentação artística local.
ouvintes, passando a fazer parte “do Informavam, divertiam, integravam.
imaginário, do cotidiano, da vida de Antes da consolidação do rádio, eram
seus receptores. As práticas famosas em todo o país. Tinham um
cotidianas, os costumes, os festejos formato semelhante às futuras
populares, as datas cívicas, a emissoras radiofônicas, restritas,
religiosidade, as formas de lazer, as porém, a um determinado raio de
notícias, a política” e especialmente a ação. Mantinham “postais sonoros”,
música. (SOUZA, 2003: 9) Esta em com as audições dos sucessos vindos
suas múltiplas formas, ritmos, da capital, em discos de 78 rpm,
tendências e nacionalidades, inseriam propagandas da época,
ajudando a configurar novas formas anunciavam eventos locais e
de percepção da realidade e do promoviam concursos de calouros.
mundo, junto aos mais diversos Serviam especialmente como antenas
ouvintes. Mesmo antes da presença que captavam os novos valores que
das emissoras, seja Cariri, emergiam no cenário musical da
Borborema ou Caturité, já se podia região, e se tornavam conhecidos
acompanhar as notícias do Brasil e através de seus microfones. “O
do mundo. A rádio Clube de próprio Jackson do Pandeiro, a
Pernambuco, criada em 1919, era pernambucana Marinês, Antônio
uma clube de ouvintes de rádios em Barros, o campinense Genival
uma das salas do Diário de Lacerda, são alguns exemplos de
Pernambuco. Esta foi uma das músicos que iniciaram suas carreiras
primeiras emissoras de Rádio do através do sistema de auto-falantes
Brasil, seus sócios participavam de instaladas nos bairros campinenses”.
uma espécie de escuta coletiva, (MOURA, 2001: 67).
reunindo-se todas as noites ao redor Vivenciava-se o que
de uma mesa cheia de objetos Historiografia contemporânea
eletrônicos captando tudo que denominou de Era de Ouro do rádio
acontecia. (SOUZA, 2003: 25). no Brasil, e a “Música Popular
A Rádio Borborema, segunda Brasileira” a partir dos nomes de
emissora de Campina Grande, foi Noel Rosa, Araci de Almeida,
inaugurada em 1949, pelo jornalista Carmem Miranda, Dalva de Oliveira,
e empresário Assis Chateaubriand, Francisco Alves, Orlando Silva,
quando Jackson já não morava mais Lamartine Barbo, Ary Barroso, Wilson
na cidade. Chegou a conhecer seus Batista, e mais tardiamente Dorival
estúdios, auditórios, fez shows e Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Luiz
gravou músicas anos depois, quando Gonzaga, Nelson Gonçalves, Cauby
já era famoso. “Suas primeiras Peixoto, entre tantos outros
audições para um público mais aqueciam as noites brasileiras. Ao
amplo, e fora das zonas de lado e em íntimo diálogo com os
meretrício, aconteceram através dos ritmos estrangeiros, um dos maiores
28
exemplos é a cantora Carmem âmbito nacional e internacional, (des)
Miranda acusada de americanizar-se. territorializando-se em meio aos
(TROTA, 2000: 16). vários sons, a exemplo do blues, o
No interior dos ritmos latino- jazz, o chorinho, o maxixe, a rumba,
americanos, destacavam-se os tango, o samba, entre inúmeros
boleros, rumbas, mambos, Fox - outros, disponibilizados pela
trotes, blues, jazzes, cantores (as) a orquestra exclusiva da casa,
exemplo de Frank Sinatra, Johnny comandada pelo pianista Hermann.
Ray, Dorys Day, entre outros (as). A Zé Jack, como ainda era conhecido,
presença da música Européia era “integrou a orquestra do Eldorado no
marcada pela escuta dos ritmos seu apogeu. Ao lado de músicos
italianos e franceses, nas vozes de famosos da época, como o violinista
Teddy Reno, Renato Carrozone e Abílio, o saxofonista Raul Dinoá, os
Domenico Modugno. (SOUZA, 2006: pianistas Zé Bochechinha e Joca
23). Era, portanto um momento de Leão, o pianista Jaime Seixas e o
efervescência cultural, e muitas baterista Zé Almeida”. (MOURA,
dessas vozes já podiam ser ouvidas 2001: 73). Seria, no entanto, a partir
através do sistema de alto-falantes dos transmissores da Rádio Tabajara
presentes na cidade, no entanto só da Paraíba localizada em João
ganhariam maior alcance no início Pessoa/ PB, que o pandeirista
dos anos 1950, quando as rádios encontraria chances para o sucesso,
Cariri, com o prefixo PRF-5 e permanecendo quatro anos na
Borborema, ZYO-7 foram instaladas estação quando em 1948 é convidado
de forma efetiva levando Campina para participar como pandeirista da
Grande a entrar finalmente na Era Jazz Paraguary, orquestra
de Ouro do Rádio. pernambucana pertencente a Rádio
Dentre a ampla produção Jornal do Comércio, inaugurada no
musical do período algumas delas mesmo ano.
encantariam o futuro pandeirista, Na Rádio Jornal do Comércio,
subjetivando-o em sua carreira de localizada em Recife, o músico lançou
músico. O cantor Francisco de Morais a canção que se tornaria a porta para
Alves (Chico Alves), o sambista Mário o seu vôo artístico. Cantando o coco
Reis, Ary Barroso, Lamartine Barbo, Sebastiana de composição do
Vicente Celestino, Noel Rosa, pernambucano Rosil Cavalcanti na
Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Revista “A Pisada é Essa” em pleno o
Ranchinho, Sílvio Caldas, Moreira da carnaval recifense, transforma a
Silva, Carmem Miranda dentre canção na marcha de 1953. No
outros. No entanto, alguns ritmos já mesmo ano lança seu primeiro disco
vinham lapidando o percussionista 78 rpm, pela Copacabana, gravando
desde 1939 quando este integra a no lado A “Forró em Limoeiro” e no
orquestra do Cassino Eldorado em lado B “Sebastiana”. Nos anos
Campina Grande. Inaugurado em seguintes o músico realiza
julho de 1937, o Eldorado marcou a apresentações em São Paulo, Rio de
vida de Jackson do Pandeiro até Janeiro e Minas Gerais. Mudando-se
1944. Foi lá, que o músico teve de vez para o Rio em 1955. Neste
acesso contínuo a sonoridades de ano suas canções passam a ser
29
conhecidas em novos espaços, a produções musicais ao longo da vida,
Rádio Nacional, sendo contratado tudo isso ajudou a inscrevê-lo
pela empresa, e a TV Tupi, estreando enquanto sujeito do não lugar. Um
um programa intitulado “No Forró do corpo, uma subjetividade em
Jackson”, comandado por Jackson e constante diáspora (vale lembrar as
Almira Castilho, uma de suas diferentes cidades em viveu, os
esposas. diferentes nomes por qual foi
Ainda na década de 1950 a identificado, as diferentes formas de
gravadora Copacabana lança o se vestir que utilizou ao longo da
histórico “Jackson do Pandeiro: Sua vida). Boa parte dos objetos
majestade o Rei do Ritmo”, ajudando presentes no memorial inclusive são
a configurar a imagem do músico fragmentos de vivências do músico
como celebridade do ritmo. Jackson fora de Alagoa Grande, premiações,
participa de vários filmes até 1962, e fotografias, medalhas, LPs, são
lança o disco “O Fino da Roça”, pela signos de um indivíduo que conheceu
gravadora Philips. A década de 70 se e viveu em muitos lugares, que
tornou um marco na sua carreira, conviveu e subjetivou/ foi
concedendo várias entrevistas, subjetivado por muitas pessoas,
fazendo parte dos programas de muitos enunciados e práticas. É
rádio e TV, além de vários shows, e nesse sentido que o músico não deve
participa, ao lado de Alceu Valença, ser tomado como elemento
do Projeto Pixinguinha, percorrendo legitimador da identidade cultural do
Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, lugar, pois ao assumir tal prática
Porto Alegre, Belo Horizonte e apaga-se sua singularidade, suas
Brasília. Pela gravadora Polygram diferenças, sua estranheza, sua face
lança o LP “Isso é que é Forró” em de sujeito itinerante. Sua identidade
1981 conquistando elogios do inscreve-se no pertencimento a
musicólogo e jornalista Zuza Homem nenhum lugar, mas no devir, no
de Mello e do crítico musical José deslocamento, na
Ramos Tinhorão. Após a sua morte desterritorialização, a sua condição é
em Brasília no ano de 1982, o músico a de ser estrangeiro em sua própria
teve a sua imagem veiculada em terra.
vários espaços midiáticos, recebendo O máximo que podemos
elogios e homenagens, bem como construir são as cartografias de suas
tendo muitas de suas canções rotas, dos tráfegos identitários que
gravadas por vários músicos este músico compôs ao longo de sua
brasileiros. carreira, investigando a historicidade
Como podemos observar que tornou possível a emergência
Jackson foi um sujeito nômade, em deste músico enquanto representante
todos os aspectos, e tomá-lo como cultural da cidade, tomando sua
referência identitária para o lugar é imagem a partir de seu caráter
esquecer-se dos diferentes rostos e construído, inventivo, plural, a
diversos espaços que este músico maneira como esta foi gestada
ocupou ao longo de sua carreira. As histórica e culturalmente conforme
constantes viagens, os diversos foi sendo tomado pelos diferentes
shows, o contato com as diferentes discursos, e perceber o sujeito
30
Jackson como ponto de cruzamento um sentimento nostálgico em relação
de diferentes redes enunciativas que ao passado, que é em função das
falam de experiências as mais circunstâncias e necessidades do
diferenciadas. O texto Jackson do presente, (re) construído, (re)
Pandeiro não é, portanto, uma interpretado, (re) criado, (re)
unidade e totalidade em torno de si inventado e processado através da
mesmo, um apriori que existiu desde mitologia, das ideologias, dos
sempre, mas se constitui a partir de nacionalismos, dos localismos, etc.
diferentes redes, objetos conforme Esse fenômeno do interesse pela
foi sendo consumido, recortado, memória e a patrimonialização surge
construído por experiências também com maior ênfase na década de 1980
distintas. O discurso da mídia, da e início dos anos 1990 do século XX
imprensa, da administração conhecidos como a era do
municipal, entre vários outros que patrimônio, em resposta as
ajudaram a inscrevê-lo não apenas transformações emergentes em
como um dos representantes da âmbito sócio- econômico e cultural, e
música nordestina, “O Rei do caracterizou-se especialmente pela
7
Jackson do Pandeiro é
Ritmo7”, mas também como emergência dos lugares de memória.
o Rei do Ritmo. A União,
representante cultural de um lugar, (NORA: 1993). João Pessoa/ PB. p. 19.
Alagoa Grande. No tempo presente assistimos 30 de agosto de 2009

a ampliação desse movimento, e a


Memória, Identidade e Turismo supervalorização dos lugares de
no Memorial memória, em que múltiplas ações no
Fazer o passado existir no sentido de “preservação” e ativação
presente, territorializar vivências, patrimonial geram o alargamento do
experiências, sensibilidades de próprio conceito “reinvenção do
um outro tempo, inscrevendo uma patrimônio, paixão patrimonial,
temporalidade já escoada em uma indústria do patrimônio ou histeria
espacialidade memorialística, onde patrimonial” (ANICO, 2005: 75),
frestas de vidas, podem ser associada ao desenvolvimento de
acessadas, (re) criadas, lidas, uma estratégia de proteção centrada
eternizadas em lugares de memórias. na conservação das identidades e de
Museus, memoriais, monumentos, referentes culturais de estabilidade,
arquivos, entre outros espaços de mediante a produção de um discurso
celebração da memória, surgem patrimonial que se destina não só a
como formas de patrimonialização de responder os desafios colocados pelo
referentes culturais, com o propósito presente, mas a ser igualmente
de evitar o esquecimento e contrapor utilizado no futuro. Esse foi inclusive
uma noção de tempo estável, um dos objetivos idealizados para o
contínuo, eterno a instantaneidade Memorial em Alagoa Grande, fazer
do contexto atual. com que as memórias de Jackson do
A ameaça de ruptura, de Pandeiro, sua produção musical seus
desaparecimento dos referentes objetos tornem-se elementos
culturais impulsiona a crescente legitimadores de um passado do
valorização das identidades locais, as lugar, inscrevendo na memória dos
quais têm sido acompanhadas, por cidadãos um sentimento de
31
coletividade, de união e de coerência lembrado, eternizado, respeitado,
identitária. admirado e espaço de turismo,
Outra característica do atraindo visitantes, turistas e
movimento de patrimonialização curiosos legitimando a profícua
contemporânea é a comercialização relação contemporânea existente
das memórias, em que museus e entre cultura e lazer. Esse “uso
outros espaços não se limitam cultural da cultura”, ou consumismo
apenas em conservar os vestígios do cultural, como afirma Marta Anico
passado, mas também os (2005: 81), inscreve-se “enquanto
apresentam ao público, simulando força econômica e cultural motriz nas
seus contextos históricos numa sociedades contemporâneas. No que
evocação nostálgica de um passado se refere aos parques, museus,
saneado, redimido de quaisquer memoriais, entre outros lugares, “a
vestígios de conflito, friccionado e soberania do consumidor e as
oferecido ao público como verdadeiro tendências do gosto popular
e autêntico. É o “uso cultural da contribuem para a transformação do
cultura” (MENESES, 2006: 17) em papel social dos mesmos” (URRI,
que se busca geralmente 1999: 230) que em um contexto de
monumentalizar eventos e mudança marcado por questões
musealizar existências humanas sociais relacionadas com a
oferecendo-as a população como democratização e democracia
atrativos do lugar, o que por vezes cultural, procura ser cada vez mais
tem transformado o status desses acessível a todos os tipos de
espaços, de lugares de memória em visitantes, procurando proporcionar
lugares de turismo: “parques são meios necessários para a aquisição
transformados em reservas de usos de um certo capital cultural,
restritos, mercados viram centros verificando-se uma mudança de um
culturais, igrejas são ethos desses lugares centrado nos
monumentalizadas como expressão objetos para um centrado nos
artística, praças deixam de ser visitantes.
espaços de convivência. Tudo isso é Essa preocupação excessiva
seguido de uma comercialização com o visitante demarca mais uma
desses espaços como produtos para vez o caráter de mutabilidade dos
turistas . (MENESES, 2006: 26). espaços de memória. Não apenas
Os lugares de memória devido às múltiplas leituras que o
assumem neste sentido o caráter de observador poderá realizar dos
construção permanente, podendo elementos contidos nesses espaços,
serem tomados no tempo presente a mas o próprio estatuto de fabricação
partir dos mais variados interesses. que esses signos do passado
No caso de Alagoa Grande o possuem. Sendo, portanto
Memorial inscreve-se a partir de um reelaborados a cada leitura realizada
duplo jogo de poder: um guardião dos mesmos. O que preservamos
das memórias, demarcando nas nesse sentido, é a sua possibilidade
subjetividades dos moradores do de existir e, portanto, de diferir e de
lugar e de seus visitantes os signos divergir. “Preservar não é congelar
de um passado que deve ser (re) numa pose uma certa
32
temporalidade”, quando se tenta ordem pensada/ elaborada para este
preservar congelando o tempo, a espaço. Esse leitor ordinário da
exemplo do que se tentou fazer com cultura Alagoa grandense observa as
as memórias de Jackson do Pandeiro memórias de Jackson do Pandeiro,
no memorial, o que se tem é a sua seus textos musicais, os signos de
progressiva corrosão, porque a seu “passado glorioso”, como
mudança no tempo continua a fazer elementos pertencentes a uma outra
o seu trabalho de transformação, de temporalidade com a qual este
reelaboração, de inscritura de muitas vezes pode não identificar-se,
diferenças de sentido. Nas palavras (re) conhecer-se, sua face, suas
de ALBUQUERQUE JUNIOR (2006: sensibilidades musicais, sua
04): subjetividade elabora-se no presente,
a partir dos signos culturais de seu
Aquele elemento de patrimônio que tempo, não encontrando muitas
não foi reinvestido de significado
vezes elos de identificação com os
para a sociedade a que pertence,
que não foi (re) apropriado e (re) elementos presentes no lugar. Como
significado pelas novas gerações afirma (FELIX, 1998: 42):
tornam-se ruínas físicas ou, pior,
ruínas de sentido. Se queremos A memória liga-se a lembrança das
preservar alguma manifestação vivências, e esta só existe quando
cultural, no sentido de que se laços afetivos criam o pertencimento
mantenha fazendo sentido ao grupo, e ainda os mantém no
coletivamente, temos que preservar presente. Portanto, não é o físico ou
sua capacidade de diferir, de não o territorial que permite a existência
ser idêntica a si mesma, não a sua do grupo, e sim, a dimensão do
identidade. Porque, afinal de que pertencimento social, criado por
identidade estamos falando, as laços afetivos que mantém a vida e
identidades também são fabricações o vivido no campo das lembranças
sociais e históricas, as identidades comuns, geradora de uma memória
não são originais, não vêm da social.
origem, porque também teríamos
que nomear e datar esta origem e
descobri-la como invenção sócio- Para que ocorra o sentimento
cultural. de identificação com o lugar seria
necessária a vivência de forma
Observamos, dessa forma, efetiva com as práticas culturais de
que o visitante ao entrar no Memorial determinada época, seu
em Alagoa Grande para além de se reconhecimento, sua ligação com
inscrever enquanto consumidor estes elementos culturais. O desejo
esfinge (CERTEAU, 1994: 94), de rememoração de tais práticas
elabora-se a partir de leituras plurais inscreve-se a partir das experiências
empreendidas no lugar. Os espaços realizadas com as mesmas. É a
de memórias são, portanto, espaços memória, como afirma Joel Candau,
de fabricação de sentidos, onde o que “alimenta o sentimento de
leitor/ visitante enquanto um identidade” (CANDAU, 2011: 16). De
consumidor ordinário (CERTEAU, acordo com Willi Bulli essa aliança
1994) (re) inscreve em sua entre as lembranças e o sentimento
subjetividade o texto cultural de identidade explica-se ainda pelo
impresso no lugar, subvertendo a nível afetivo da memória individual,

33
“esta liga-se a forma de sensibilidade da produção musical de Jackson, os
social a que está preso o indivíduo, movimentos de evocação dessas
surgindo das emoções que lembranças serão sempre
depositamos em cada recordação, é diferenciados, e produzirão sempre
como o gosto que provém da imagens múltiplas sobre o cantor e
sensação evocada ou lembrada. Para suas músicas (CANDAU, 2011: 35-
Walter Benjamim, é deste nível das 36).
memórias que depende a
preservação da “identidade” ou Considerações Finais
personalidade de um grupo”.( WILLI Após buscarmos compreender
BULLI, 1984: 14 apud o movimento de tessitura da
ALBUQUERQUE JUNIOR 2007: 203). identidade musical Jacksoniana em
A escolha, portanto, de um marco, Alagoa Grande/PB, tomando como
um elemento do passado como referência a construção do Memorial
referência cultural e identitária para o Jackson do Pandeiro no lugar,
lugar situa-se enquanto desejo de observamos a trama memorialística e
elaboração de uma “Memória identitária que a cidade vem tecendo
coletiva” para a cidade, e denota a ao longo dos anos, buscando a partir
invisibilidade para o caráter ambíguo dos signos memorialísticos do músico
e plural que um mesmo elemento Jackson do Pandeiro projetar a
patrimonial pode conter. imagem da cidade, “A terra do ritmo,
Observamos neste sentido a do Rei do Ritmo”, é a fabricação de
impossibilidade de uma memória uma cultura musical para o lugar,
compartilhada (CANDAU, 2011: 34), projeção de uma escuta do passado
e mesmo que alguns dos sujeitos no tempo presente, tentativa de
guardem em si fragmentos de tais legitimar a cidade enquanto
vivências, que nutrindo suas espacialidade do som, do ritmo, da
lembranças da mesma fonte/ o música. Observo, entretanto, que tal
acontecido, a singularidade de cada movimento, característico do tempo
cérebro humano faz com que cada presente, em especial em
mente não siga necessariamente o espacialidades regionais e locais, não
mesmo caminho. Os atos de levam em consideração os
memória decididos coletivamente movimentos de identificações
podem delimitar uma área de culturais contemporâneos, estes
circulação de lembranças, sem que marcadamente inscritos na
por isso seja determinada a via que instantaneidade/ efemeridade, as
cada um vai seguir. Alguns trajetos identidades, são cada vez mais
são objetos de adesão majoritária, plurais, desvinculando-se cada vez
mas memórias dissidentes preferirão mais de seus contextos locais e
caminhos transversais ou seguirão regionais, não havendo a
outros mal traçados. Inscrevendo o possibilidade de inventar uma
compartilhamento memorial de forma memória coletiva para o lugar, pois
fraca ou quase insistente. Dessa os sujeitos contemporâneos, como
forma, mesmo que exista na cidade afirma Mathews Gordon (2002, p.
alguns grupos que compartilhem 16), desenham-se a partir de uma
memórias, opiniões, visões em torno cultura mundial, buscando seus
34
elementos de identificação no prisão à lógica da identidade, é,
“supermercado cultural global”, como afirma ALBUQUERQUE JÚNIOR
podendo vivenciar suas identidades, (2006: 3-4):
identificações culturais, como afirma
Stuart Hall (2001, p. 105), de forma Na verdade um conjunto múltiplo e
multidirecional de fluxos de sentido,
instantânea, passageiras, plurais.
de matérias e formas de expressão
Compreendemos, portanto a que circulam permanentemente,
impossibilidade de constituição de que nunca respeitaram fronteiras,
uma memória compartilhada para o que sempre carregam em si a
potência do diferente, do criativo,
lugar (CANDAU, 2011: 34), pelo
do inventivo, da irrupção, do
menos no que se refere à acasalamento. Na verdade nunca
identificação coletiva de uma cultura temos cultura, temos trajetórias
musical, pois as identidades na culturais, fluxos culturais, relações
culturais, redes culturais, conexões
contemporaneidade se constituem
culturais, conflitos, lutas culturais.
por meio das diferenças, das As classes ou grupos sociais
singularidades, do constante fazer- hegemônicos, “a exemplo da
se, utilizando mais uma vez as administração municipal de Alagoa
Grande, atrelada ao Ministério de
palavras de Stuart Hall (2000: 108).
Turismo”(grifos nossos), é que,
muitas vezes, querem fazer de suas
As identidades não são nunca manifestações culturais, a cultura.
unificadas, elas são cada vez mais
fragmentadas e fraturadas, elas não
são nunca singulares, mas Vale mencionar ainda, o
multiplamente construídas ao longo próprio sujeito escolhido para
de discursos, práticas e posições representar a cultura do lugar, o
que podem se entrelaçarem ou
sujeito Jackson do Pandeiro. Corpo e
serem antagônicas. As identidades
estão sujeitas a uma historicização identidades nômades, o indivíduo
radical, estando constantemente em Jackson do Pandeiro, cujo nome
processo de mudança e artístico já o denuncia enquanto
transformação.
identidade itinerante, muito pouco
viveu em Alagoa Grande, tecendo
Nesse sentido, torna-se
suas subjetividades muito mais a
preferível observar a as práticas de
partir dos diversos signos culturais
identificação cultural Alagoa-
presentes nos variados espaços por
grandense não enquanto elementos
onde passou, a exemplo de Campina
inscritos na natureza, dentro de uma
Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro,
cultura imóvel e uniformemente
etc. Sua produção cultural se deu em
estanque, mas enquanto práticas de
grande parte fora da Paraíba, fora de
identificação constantes, passíveis de
Alagoa Grande, foi composta/
novas rotas, novas inscrituras, novas
construída em lugares outros,
subjetivações ao logo de múltiplos
momentos diversos, múltiplos
trajetos, sem mapas pré-
espaços e lugares, não podendo ser
estabelecidos, definidos por políticas
aprisionada/ asfixiada em um único
públicas, ou discursos instituidores
lugar, pois se desenhou em lugares
de posições culturais. O que
variados. Para que se possa
chamamos de cultura, que por seu
compreender a produção musical
uso no singular já demonstra sua
deste artista, seria necessário visitar/
35
viajar nos/ pelos diversos espaços musicais, os fragmentos de
por onde este músico passou/ viveu subjetividade nômade.
tecendo os fios de suas sensibilidades

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37
LIMA BARRETO E OS SUBÚRBIOS um conjunto de obras pelo viés de 1
Doutorando em
TRAÇADOS EM LINHAS AFETIVAS uma sensibilidade histórica ácida, História Cultural pela
Universidade Federal de
que está diluída ao longo da sua Santa Catarina – UFSC
Joachin de Melo Azevedo Neto1 vasta produção intelectual que e Bolsista pela CAPES.
Maria de Fátima Fontes Piazza engloba desde romances, sátiras,
artigos, cartas, contos até,
Resumo finalmente, crônicas jornalísticas. 2
Como coloca Carlos
Sua relação com os subúrbios e com Fantinati (1978: 29), na
Lima Barreto, enquanto uma intrigante os protagonistas anônimos da obra O profeta e o
figura quixotesca da literatura, na escrivão, é seguindo
história não era apenas uma forma essa diretriz ética que
Primeira República, é considerado como
de obter inspiração para escritos Lima Barreto irá
santo padroeiro dos escritores rebeldes
sensacionalistas – como o foi para priorizar, em sua arte
contemporâneos. Este ensaio pretende militante, a
problematizar as imagens literárias que o João do Rio – mas era pautada por representação das
um grande senso de pertencimento e “camadas sociais
escritor elaborou no intuito de capturar a
desprivilegiadas, em
luminosidade, as sombras e os contornos de dívida moral para com aquela sua miséria física, moral
da vida nos subúrbios cariocas durante o gente e seu lócus2. e social, promovendo a
advento das reformas urbanas inclusão delas na
Ao prefaciar o volume II, de literatura (...)”.
engendradas pelo prefeito Pereira Passos. Toda a crônica (2004), de Lima
Barreto, Beatriz Resende constata
Palavras-chave: Cotidiano, Primeira
que ao longo da produção jornalística
República, Lima Barreto.
do literato está impressa uma
verdadeira história dos vencidos;
Abstract uma história construída pela:

Lima Barreto as quixotic an intriguing (...) voz de alguém à margem, de


figure in literature, the First Republic, is um membro da marginália, fora do
eixo do poder, do centro
considered the patron saint of
hegemônico das decisões políticas,
contemporary writers rebels. This essay
bagatelas que formam esta história, 3
Em um artigo de
aims to question the literary images that testemunhos do cotidiano no Rio de 1919, intitulado Uma
the writer has developed in order to Janeiro, dos primeiros anos da fita acadêmica, Lima
capture the light, shadows and contours república e ainda dados e Barreto, ao responder
of life in the suburbs of Rio during the referências a uma vida literária que as críticas de João
não constam das “histórias da Ribeiro sobre o romance
advent of urban reforms engendered by
Numa e a ninfa, destaca
mayor Pereira Passos. literatura brasileira”. (RESENDE, In:
o quanto acha vazia a
BARRETO, vol. 2, 2004: 11) escrita de uma
Keywords: Everyday Life, First Republic, literatura respaldada
apenas na livre
Lima Barreto Além das crônicas, romances
abstração e sem
como Triste fim de Policarpo maiores implicações
Quaresma publicado, inicialmente, sociais, afirmando
justamente que, quando
em folhetins no Jornal do Comércio, escreve, sempre
Lima Barreto, enquanto uma em 1911, Clara dos Anjos e Vida e procura deixar aflorar,
em seu estilo, suas
intrigante figura quixotesca da morte de M. J. Gonzaga de Sá pode percepções da vida e da
literatura nacional é meio que ser tomado como exemplos de realidade que o circunda
enquanto ator social.
celebrado como santo padroeiro dos quanto o senso de vida e da (Cf. BARBOSA, 1959, p.
escritores bêbados e marginais realidade circundante3 que Lima 243-7)
contemporâneos. O autor construiu tanto se gabava de possuir estiveram

38
em sintonia, também, com um Segundo Alfredo Bosi, o
desejo de trazer para a literatura romance Policarpo Quaresma
imagens das zonas periféricas do Rio apresenta um:
de Janeiro, pelas quais o escritor
transitava diariamente. (...) um forte empenho ideológico,
(...) mostra o quanto Lima Barreto
Triste fim de Policarpo
podia e sabia transcender as
Quaresma narra à vida de um próprias frustrações e se
homem solitário, abastado e de vida encaminhar para uma crítica
regrada, que era ingênuo, sonhador, objetiva das estruturas que definiam
a sociedade brasileira de seu tempo.
respeitador das hierarquias sociais,
(BOSI, 2006: 323)
patriota convicto e nacionalista
fanático. Quaresma dedica a vida a
Guillaume Saes, em uma
um projeto cultural embasado no
dissertação nada ousada, defendida
amor a pátria: busca preservar a
na Usp, intitulada A república e a
memória nacional, implantar o
espada: a primeira década
idioma tupi como língua oficial e
republicana e o florianismo, sustenta
cultiva as tradições brasileiras.
que o autoritarismo e os episódios
Depois se dedica a um projeto
violentos que envolvem a
agrário, através do qual sonha em
manutenção de Floriano Peixoto, e
ver realizado uma reforma agrária.
seus seguidores, a frente da Primeira
Por último, sonha com uma reforma
República foram necessários para
administrativa, em prol de uma
que o Brasil pudesse se tornar essa
melhor organização política, que o
enorme nação democrática que é
leva a lutar por Floriano Peixoto nos
hoje. Se a ironia parece inevitável,
episódios da Revolta da Armada.
torna-se necessária quando Saes fala
O fim de Policarpo Quaresma é
que o romance Triste fim de
triste porque, considerado como um
Policarpo Quaresma se resume a uma
visionário perigoso, pelo próprio
“crítica aberta e até mesmo
Floriano, é encarcerado e executado
desrespeitosa de (...) Lima Barreto”
pelo regime político que lutou para
(SAES, 2005: 10) a Floriano Peixoto,
defender, ao protestar contra a
sujeito que denominou como
violência com a qual eram tratados
responsável pelo “progresso da
os soldados da marinha capturados
ordem” (SAES, 2005: 15).
pelo exército florianista. Nesse
Não irei me ater aos jargões
sentido, tal qual Dom Quixote,
conservadores que Guillaume Saes
Policarpo encarna a parte mais pura
lança mão com freqüência ao longo
dos ideais humanos, através de
de toda dissertação, nem tampouco
sonhos impossíveis de serem
as implicações obscuras que essa
realizados, tendo de enfrentar,
historiografia comprometida com a
próximo ao seu fuzilamento, a
apologia do militarismo possui.
constatação de sua impotência diante
Interessa aqui perceber a enorme
das forças maiores da corrupção, do
falta de conhecimento do autor e a
egoísmo, da ambição pelo poder e da
superficialidade de sua citação sobre
injustiça.
a gestação desse polêmico romance
de Lima Barreto. Quando jovem, o
escritor acompanhou de perto os
39
desfechos da Revolta da Armada e a de zinco ou mesmo palha, em torno 4
Parte das impressões
da qual formiga uma população negativas de Lima
invasão da Ilha do Governador pelas
(...). Não há nos nossos subúrbios Barreto sobre o
tropas dos antiflorianistas Custódio e coisa alguma que nos lembre os militarismo, já
Saldanha. Com a tomada da ilha famosos das grandes cidades figuravam, quase como
esboços do romance,
pelas tropas florianistas, começaram européias, com suas vilas de ar
em seu Diário Intímo,
repousado e satisfeito, as suas
as execuções sumárias de sejam em anotações
estradas e ruas macadamizadas e relativas ao convívio
prisioneiros, as prisões e práticas de cuidadas, nem mesmo se encontram com seus chefes e
saque junto à população, que em aqueles jardins, cuidadinhos, colegas na Secretaria de
nada condiziam com as máximas aparadinhos, penteados, porque os Guerra. Como o próprio
nossos, se os há, são em geral Lima registra, chegou a
positivistas que eram pregadas pelos deixar seu Diário
pobres, feios e desleixados.
seguidores de Floriano Peixoto4. (BARRETO, 1991: 89-90)
Intímo: “(...)
prudentemente
O romance Triste fim de escondido trinta dias.
Policarpo Quaresma, mais que uma Há na passagem muito de Não fui ameaçado, mas
temo sobremodo os
crítica “desrespeitosa” a ditadura e a romantismo na idealização feita por governos do Brasil.
própria pessoa do Floriano, é um Lima Barreto. Os subúrbios europeus, Trinta dias depois, o
importante testemunho das sítio é a mesma coisa.
na transição do século XIX para o XX, Toda a violência do
conseqüências e contradições em que sobretudo os das maiores metrópoles governo se demonstra
estava imersa uma democracia na ilha das Cobras.
da época, que seriam Londres e Inocentes vagabundos
alicerçada no uso da força militar. Na Paris, também possuíam condições são aí recolhidos,
segunda parte da obra, o escritor insalubres e seus habitantes eram, surrados e mandados
para o Acre. Um
constrói uma imagem bastante freqüentemente, representados pelos progresso! Até aqui se
detalhada das peculiaridades que literatos como bárbaros que viviam fazia isso sem ser
preciso estado de sítio;
enxergava na arquitetura espontânea em uma selva caracterizada como o Brasil já estava
dos subúrbios cariocas: hostil ou como território propício para habituado a essa
história. Durante
a manifestação de várias torpezas e quatrocentos anos não
Os subúrbios do Rio de Janeiro são
maldades desumanas. Conforme se fez outra cousa pelo
a mais curiosa coisa em matéria de Brasil”. (BARRETO,
edificação de cidade. A topografia coloca Stella Bresciani (1994, p. 26), 1956: 49).
do local, caprichosamente ao analisar o espetáculo da pobreza
montuosa, influiu decerto para tal em Londres e Paris, no século XIX, o
aspecto, mais influíram, porém, os
maior bairro operário londrino, o East
azares das construções. (...) As
casas surgiram como se fossem End, foi descrito por Arthur Morrison
semeadas ao vento e, conforme as como um local diabólico. Na França,
casas, as ruas se fizeram. Há Buret afirmava que a miséria
algumas delas que começam a
vivenciada nos bairros pobres era um
largar como boulevards e acabam
estreitas que nem vielas; dão fator desencadeante da barbárie. Os
voltas, circuitos inúteis e parecem habitantes desses lugares eram
fugir ao alinhamento reto com um tratados pelas políticas oficiais como
ódio tenaz e sagrado. (...) Vai-se
dejetos; como resíduos sociais.
por uma rua a ver um correr de
chalets, de porta e janela, parede Porém, é importante perceber
de frontal, humildes e acanhados, que nas representações de Lima
de repente se nos depara uma casa Barreto em torno dos bairros
burguesa, dessas de compoteiras na
periféricos e suburbanos cariocas não
cimada rendilhada, a se erguer
sobre um porão alto com mezaninos prevalece essa tradição literária que
gradeados. Passada essa surpresa, encara a pobreza e os pobres como
olha-se acolá e dá-se com uma coisas abomináveis. O cronista
choupana de pau-a-pique, coberta
carioca invertia essa perspectiva,
40
atribuindo ares grotescos ou cariocas dessa época eram – antes
ridicularizando a formalidade das de tudo – um espaço esquecido pelas
construções planejadas para autoridades. Longe de oferecer o
europeizar o Rio, ao passo que perigo dos morros localizados
atribuía aos espaços urbanos próximos ao centro da cidade e
destinados ao morar e conviver das ocupado pelas camadas sociais mais
pessoas mais simples uma miseráveis do Rio, os subúrbios
cartografia acolhedora. Longe dos possuíam uma conotação quase que
protocolos e da atmosfera gélida que rural por estarem afastados da zona
as elites impunham em seus elegante e afrancesados da urbe.
ambientes de socialização, Lima Lima Barreto transformou
Barreto destaca nos subúrbios o fato frequentemente, os subúrbios em
de que, apesar das adversidades, a fonte de inspiração para seus
vida fervilhava. escritos.
As elaborações narrativas de Enquanto a maior parte das
Lima Barreto sobre os desfechos da crônicas do escritor sobre o centro do
implantação da república são sempre Rio de Janeiro enfocava o caráter
marcadas por esse tom crítico. autoritário que as reformas urbanas
Conforme observou Beatriz Resende, possuíam e criticava a futilidade das
na obra Lima Barreto e o Rio de elites que desfilavam nesse cenário a
Janeiro em fragmentos (1993), o lá “Buenos Aires de tostão”, suas
escritor carioca refletiu, ao longo dos impressões sobre as fisionomias dos
diversos temas que envolvem suas subúrbios possuíam uma riqueza de
crônicas, sobre as consequências detalhes impressionante. Se Lima foi
negativas que os abusos de poder um cronista apaixonado pela sua
cometidos pelas novas elites cidade, inclusive pela área nobre,
dirigentes acarretavam para a com suas praias e jardins projetados,
realidade das classes populares. preservou nas suas descrições sobre
Assim, é interessante perceber que as áreas destinadas ao morar dos
as descrições, quase fotográficas, populares cariocas uma espécie de
que Lima traçou da periferia do Rio afetividade que demonstrava o que
também fazem parte de sua de mais humano poderia se
contestação gigantesca da encontrar nesses lugares.
modernidade brasileira, pois o Em um trecho do romance
subúrbio “(...) é antes o espaço da autobiográfico O cemitério dos vivos,
constatação” (RESENDE, 1993: 101) espécie de livro de memórias que
da dimensão segregadora desse narram o percurso do escritor até os
processo. episódios que remetem as suas
Ainda segundo Beatriz Resende passagens pelo hospício, Lima
(1993: 106), ao longo das crônicas Barreto tece uma profunda alusão a
de Lima prevalece uma “atitude certo aspecto campesino que os
sentimental” por parte do literato, subúrbios possuíam:
sempre marcada por uma grande
simpatia “pelo subúrbio com suas Uma tarde, tomei o trem dos
subúrbios (...). Viajei
tradições do século passado”. Como
despreocupado (...). O meu
bem ressalta a autora, os subúrbios pensamento ia vagabundo para
41
todos os lados, sem se deterem em em um artigo publicado no Jornal do
coisa alguma. A observação mais
Commercio – em 1904 – era:
demorada que fiz, foi a da grotesca
e imprópria edificação dos
subúrbios, com as suas casas (...) impossível estabelecer limites
pretensiosas e palermas, ao jeito entre as paróquias urbanas e as
das dos bairros chics, a falta de chamadas suburbanas (...). Estes
jardins e árvores, realçadas pelos subúrbios não tem existência
morros pelados, pedroucentos, que, própria, independente do Centro da
de um lado, correm quase cidade, pelo contrário a sua vida é
paralelamente ao leito da estrada e comum, as suas relações íntimas e
quase nele vem tocar. Não parecia freqüentes; é a mesma população
aquilo subúrbios de uma grande e que moureja, no centro comercial
rica cidade; mas uma série de da cidade (...). (PORTUGAL, 1904)
vilarejos pedantes, a querer imitar
as grandes cidades do país. De fato, a implantação dos
Totalmente lhes fazia falta de
trilhos de ferro; a construção das
gracilidade e de frescor de meia
roça. estações ferroviárias e a chegada do
(...) Por toda parte, jaqueiras, trem, enquanto um dos grandes
mangueiras, sebes de maricás, além signos da modernidade, da tecnologia
das essências silvestres de que falei,
e do progresso no Rio de Janeiro
enfim, muita árvore e muita sombra
doce e amiga. Se os arredores da fazem parte de um rol de ações
estação tinham um ar pretensioso, oficiais que buscavam integrar, pelo
de pretender-se um pequeno Rio de menos minimamente, esses espaços
Janeiro, aquela rua longínqua,
populares a parte chic da cidade.
simplesmente esboçada,
ensombrada de grande árvores, Embora, como coloca Celi Freitas
atapetada de capim e arbustos, (2002, p. 72), em um recenseamento
tinha a parecença de uma estrada, datado de 1890, o Rio de Janeiro
ou antes, de um trilho de roça.
estava dividido entre “Freguesias
(BARRETO, 2004: 141-2)
Urbanas” e “Freguesias Rurais”.
Segundo a autora, somente em um
A imagem que temos ao realizar
recenseamento de 1920 é que a
a leitura desse fragmento do
cidade passa a ser dividida em
Cemitério dos vivos é a de que
“Freguesias Urbanas” e “Freguesias
realmente o Rio de Janeiro estava
Suburbanas”.
dividido em duas partes: de um lado,
O escritor carioca também se
pode-se pensar em uma área
torna partidário das viagens
enobrecida, submetida a constantes
proporcionadas pela locomotiva a
intervenções municipais em sua
vapor, que já eram celebradas e
paisagem, porém cercada por morros
decantadas em verso e prosa por
habitados pelos que as autoridades
vários literatos do século XIX. O uso
denominavam “classes perigosas”.
que fazia das viagens proporcionadas
Em outra extremidade, estavam os
pelos trens era uma exigência de seu
subúrbios com seus cenários
próprio emprego, que o obrigava a se
bucólicos e marcados por
deslocar cotidianamente do subúrbio
reminiscências coloniais. Porém, essa
de Todos os Santos para a Secretaria
dicotomia elaborada por Lima Barreto
de Guerra no centro. Em um
entre Centro e subúrbios, para
momento que parece ser bem
Aureliano Portugal não possuía esse
posterior em relação às impressões
caráter extremo. Segundo Aureliano,
42
que deixou no trecho citado d‟O pela chegada da eletricidade,
cemitério dos vivos, na crônica A necessária para o funcionamento dos
estação, publicada primeiramente em cinemas. Porém, o lugar de
1921, Lima Barreto ressalta a intelectual militante que escolheu
importância das estações das para falar não o permitiria se limitar
estradas de ferro para os subúrbios a um tenro deslumbramento diante
cariocas chegando a taxá-las, desses símbolos da modernidade que
inclusive, de eixos da vida nos se insinuava naqueles lugares. Logo
subúrbios. adiante, na mesma crônica, o autor
O escritor fala sobre as quatro inicia uma série de críticas aos
principais estações que se situavam comportamentos dos suburbanos,
nas periferias urbanas do Rio, dando que reafirmavam as “distinções entre
destaque para a estação do Méier e a o subúrbio e a belle époque tropical”
intensa atividade comercial que se (FREITAS, 2002: 75), ao procurarem
desenvolvia em torno desse local, já reproduzir nos lócus suburbanos
entusiasmado, a sua maneira, com a códigos de posturas adotados pelas
ideia de que “a modernidade não elites. A continuação da crônica será
estava de todo ausente daquele analisada no próximo capítulo, por
espaço” (FREITAS, 2002: 75): estar bastante ligada com a visão
que o escritor tinha dos diversos
(...) é em torno da “estação” que se tipos sociais que habitavam os
aglomera as principais casas de
subúrbios.
comércio do respectivo subúrbio.
(...) Outro elemento simbólico da
Em certas, como as do Méier e de modernidade que serve como ponto
Cascadura, devido a serem elas de partida para uma reflexão maior,
ponto inicial de linhas secundárias
por parte do escritor, sobre as
de bondes, há uma vida e um
movimento positivamente urbano. transformações infligidas pela
É o Méier o orgulho dos subúrbios e Municipalidade – aliada com os
dos suburbanos. Tem confeitarias interesses de empresas
decentes, botequins freqüentados;
multinacionais – na paisagem
tem padarias que fabricam pães,
estimados e procurados, tem dois suburbana é o bonde elétrico. Na
cinemas, um dos quais funciona em crônica De Cascadura ao Garnier,
casa edificada adrede; tem um publicada na Careta – em julho de
circo-teatro, tosco, mas tem; tem
1922 – Lima Barreto busca decifrar
casas de jogo patenteados e
garantidas pela virtude, nunca posta de que forma os mecanismos e as
em dúvida, do Estado, e tem máquinas estavam modificando os
boêmios, um tanto de segunda aspectos coloniais da urbe carioca,
mão; e outras perfeições urbanas,
traçando um diálogo entre suas
quer honestas, quer desonestas.
(BARRETO, vol. 2, 2004: 439) impressões a partir do momento em
que sobe no bonde, para se deslocar
Como adverti antes da citação, do subúrbio de Cascadura ao Centro,
Lima Barreto esboçou um elogio às e as memórias que possuía de um
transformações econômicas causadas passado recente, mas agonizante,
nos subúrbios pelo advento da que estava perdendo,
implantação dos trilhos, da simbolicamente, a disputa com os
construção das estações de trem e emblemas do progresso em torno dos
43
quais a Belle Époque tropical se implantação da energia elétrica na
arvorava: cidade do Rio de Janeiro no contexto
da Belle Èpoque é um dos meios de,
Embarco em Cascadura. É de no presente, termos uma noção de
manhã. O bonde se enche de moças
como a modernidade se instaura por
de todas as cores com os vestuários
de todas as cores. Vou ocupar o meio de disparidades e interesses
banco da frente, junto ao sociais. Como sugere Amara Rocha
motorneiro. (...) (1996: 52), é uma forma de perceber
(...) Ele percorre uma parte da
como, desde o começo, “a extrema
cidade que até agora era
completamente desconhecida. Em riqueza e miséria” convivem bem
grande trecho, perlustra a velha próximas, “numa pseudo-harmonia
Estrada Real de Santa Cruz que até moderna”. A autora lança também
bem pouco vivia esquecida.
seu recorte em torno da dimensão
Entretanto, essa trilha lamacenta
que, preguiçosamente, a Prefeitura simbólica da modernidade, que pode
Municipal vai melhorando, viu ser apreendida em torno de estudos
carruagens de reis, de príncipes e sobre o imaginário gestado na época
imperadores. Veio a estrada de ferro
analisada. Nesse sentido, “o inicio da
e matou-a, como diz o povo. Assim
aconteceu com Inhomirim, Estrela e eletrificação da cidade, ocorrido neste
outros “portos” do fundo da baía. A contexto, foi emblemático, revelando
Light, porém, com seu bonde de um imaginário rico em
“Cascadura” descobriu-se de novo e
representações simbólicas”.
hoje, por ela toda, há um sopro de
renascimento, uma palpitação de No caso do Rio de Janeiro, a
vida urbana (...). (BARRETO, vol. 2, eletricidade é uma das meninas dos
2004: 540) olhos dos projetos de reformas
urbanas. No tocante ao processo de
No começo do século XX, vários eletrificação, Percival Farquhar expôs
mecanismos modernos são dotados seus projetos ao presidente
de uma carga simbólica considerável. Rodrigues Alves e ao prefeito Pereira
A tecnologia se adapta a lógica Passos, que, prontamente,
industrial para ser “massificada”, pois apadrinharam a iniciativa, apoiando o
seu potencial econômico é imenso. grupo comercial que o capitalista
Como coloca Amara Silva Rocha, em norte-americano representava. A
“A sedução da luz: eletrificação e Light e a Guinle eram as duas
imaginário no Rio de Janeiro da Belle empresas que disputavam o mercado
Époque” (1996), invenções como o: da eletricidade no Rio da Belle
Èpoque. Nessa atmosfera de
(...) automóvel, eletricidade, avião,
competição que envolvia grandes
cinematógrafo, telégrafo, etc.
integram um cenário de interesses políticos e econômicos, a
modificações em que o capitalismo imprensa irá tomar partido,
se expande tornando-se um sistema descaradamente, pelo grupo que
de dimensões mundiais, tendo como
mais investisse ou financiasse os
função primordial a busca da
eficácia e do aperfeiçoamento grandes jornais da época. As
progressivo. (ROCHA, 1996: 55) campanhas publicitárias da Light
firmaram a parceria com o
Para a citada autora, empresário Assis Chateaubriand e
compreender como ocorreu a buscavam manipular a opinião
44
pública favoravelmente aos populares sentiram os impactos da
interesses dos empresários. Ainda eletricidade negativamente,
explorando essa relação entre principalmente nos bondes elétricos
imprensa e eletrificação, Amara que, apesar de confortáveis, eram
Rocha destaca a recepção desse palco de inúmeros acidentes
processo nas crônicas que eram cotidianos. A Light era
veiculadas nos jornais. Os cronistas responsabilizada pelos acidentes e
dos grandes jornais decantavam o por maus serviços associados ao
advento da eletrificação como um atraso dos transportes ou a alta
grande marco civilizador na trajetória velocidade com que trafegavam,
da então capital brasileira. Construiu- propiciando um risco maior aos
se, assim, nas crônicas jornalísticas, acidentes que, muitas vezes,
da imprensa oficial, uma cidade que terminavam em mutilações de braços
gozava de todas as vantagens da e pernas dos usuários, quando não
modernidade, do progresso e da em mortes.
civilidade. No seu livro de memórias, É interessante perceber como
intitulado O Rio de Janeiro de meu Lima Barreto, que dedicou quase
5
tempo – publicado inicialmente em toda sua breve vida a colaborar com Dentre os jornais de
pequena circulação que
trechos no Correio da Manhã, entre o que hoje entenderíamos por Lima Barreto colaborou
1936 a 1937, o historiador Luiz imprensa alternativa5, evoca a todo estão os periódicos
anarquistas Não
Edmundo demonstra a empolgação instante uma outra cidade: a dos mataras e A voz do
que o advento do bonde elétrico excluídos desse processo que trabalhador. Porém,
conforme sugere Anoar
causou, enquanto membro da elite sucumbiam na pobreza ou na Aiex, em As idéias
letrada da Belle Époque: mediania. Fazendo uso das suas sócio-literárias em Lima
memórias e de alusões a um passado Barreto: “Atraído pela
promessa do
O bonde elétrico que é novo na que estava sendo tido apenas como anarquismo, Lima
terra, tem-se como estupenda Barreto não participou
motivo de esquecimento, o escritor
conquista, um melhoramento capaz dele como membro de
de colocar o Rio ao lado de Londres, carioca remete sempre aos aspectos sindicato nem como
de Paris ou de Nova Iorque e de rurais que ainda eram possíveis de militante político. Seu
Berlim. Os jornais publicam: Porque proselitismo restringiu-
serem notados nos subúrbios, seja se aos seus artigos,
os nossos excelentes bondes... Ou:
carregando nas tintas ou não, como crônicas e ensaios”.
Os nossos elétricos, que, sem o (AIEX, 1990: 14)
menor favor, são os melhores do se estivesse atirando pedras no
mundo... (EDMUNDO, 2003: 29) intuito de estilhaçar a frágil redoma
de vidro moderna em que as elites
Ainda acompanhando o cariocas queriam se entrincheirar –
pensamento de Amara Rocha e como é possível perceber na
traçando um paralelo entre o continuação da crônica De Cascadura
depoimento de Luiz Edmundo e a ao Garnier:
crônica de Lima Barreto, pode-se
notar que o escrito de Lima traduz Mas... O bonde de Cascadura corre;
“titio Arrelia” [o motorneiro do
uma sensação de que o contato das
bonde], manejando o controle, vai
classes populares com a eletricidade deitando pilhérias, para a direita e
não foi tão cercado de para a esquerda; ele já não se
espetacularizações. Apesar de contenta com o tímpano; assovia
como os cocheiros dos tempos dos
nutrirem grande respeito por esse
bondes de burro; (...) e penso no
novo dispositivo moderno, os passado.
45
No passado! Mas... O passado é um Da íntima relação entre Lima
veneno. Fujo dele, de pensar nele e
Barreto e o Rio de Janeiro, em toda a
o bonde entra com toda força na
embocadura do Mangue. A usina de sua extensão, brotam suas crônicas.
gás fica ali e olho aquelas chaminés, Escritos dotados de uma alta
aqueles guindastes, aquele sensibilidade e uma forte carga
amontoado de carvão de pedra.
imagética, que representam a cidade
Mais adiante, meus olhos rompam
com medas de manganês... E o desde as áreas mais opulentas até
bonde corre, mas “titio Arrelia” não suas partes mais afastadas e
diz mais pilhérias, nem assovia. rústicas. Em A pátria que quisera ter
Limita-se muito civilizadamente a
era um mito (2002), Denílson
tanger o tímpano regulamentar. (...)
Estamos no Largo de São Francisco. Botelho tece algumas reflexões
Desço. Penetro na Rua do Ouvidor. interessantes em torno dessa relação
Onde ficou a Estrada Real, com seus de Lima com os subúrbios:
bácoros, as suas cabras, os seus
galos e os seus campizais? Não sei
O carioca Afonso bem que podia
ou esqueci-me. (BARRETO, vol. 2,
gabar-se de conhecer como poucos
2004: 540-1).
a cidade em que vivia. Por vezes
saia do subúrbio de Todos os
Lima Barreto consegue Santos, onde morava, tomava o
amalgamar rastros de um passado trem até a Estação D. Pedro II, no
centro, e dali embarcava num bonde
colonial a um presente já repleto de
rumo a zona sul, cruzando, assim, o
referências modernas. No entanto, o Rio de Janeiro de um extremo a
comportamento do operador do outro. Entretanto, a intimidade com
bonde, que é descrito pelo cronista, a geografia e as ruas da cidade foi
paulatinamente conquistada nas
se torna uma espécie de termômetro
várias ocasiões em que cumpria
que indica os lugares nos quais as este e outros percursos, não sobre
reminiscências da colônia ainda os trilhos dos trens ou bondes, mas
resistiam longe dos olhares sim a pé. Sem pressa, muitas vezes
vagando pela noite adentro, suas
policiadores e das intervenções dos
caminhadas eram interrompidas
poderes oficiais, e as fronteiras para uma ou algumas doses de
urbanas nas quais imperava o parati, tomadas nos bares ou numa
discurso civilizador das elites, que vendinha suburbana qualquer. O
subúrbio, aliás, ele conhecia como a
terminava por afetar, não apenas a
palma da mão. Desde 1902, quando
postura do motorneiro – que já não a família se transferiu da Ilha do
poderia mais “deitar pilhérias” aos Governador para a Rua Vinte e
pedestres na rua, conforme se Quatro de Maio, no Engenho Novo,
Afonso foi ganhando mais e mais
aproximava do centro da cidade –
intimidade com aquelas bandas da
mas também a do próprio Lima que cidade. Já no ano seguinte tinha um
envolvo pela atmosfera afrancesada novo endereço: Todos os Santos.
da Rua do Ouvidor, ironicamente, Primeiro a Rua Boa Vista, e de 1913
em diante, a Rua Major
alega que assim que entrou no
Mascarenhas (...). (BOTELHO, 2002:
território nobre do Rio esqueceu-se 47-8)
dos traços bucólicos que tinham
contemplado a pouco pela estrada, Francisco de Assis Barbosa
durante a trajetória que fez no também já havia detectado, em A
bonde. vida de Lima Barreto (1952), esse
gosto por longas caminhadas na urbe
46
enquanto um traço peculiar do mulheres chics, ao passo que o 6
Segundo Francisco de
comportamento do escritor carioca. O Méier, Todos os Santos e o Assis Barbosa (1959:
biógrafo mais consagrado de Lima Cascadura são os lócus por onde 216), “Lima Barreto
desnorteava quase
cita, inclusive, episódios curiosos desfilam e moram tipos como o sempre os
ligados a essa mania do cronista, boêmio Ricardo Coração dos Outros companheiros de farra.
Não raro, desaparecia
como uma vez em que saiu para um ou o ingênuo Policarpo, do romance do grupo e ia beber
desses passeios com o então jovem Triste fim de Policarpo Quaresma e sozinho. (...) É que
sentia necessidade de
escritor Luís da Câmara Cascudo. mais ainda toda uma sorte de andar, bebericando,
Segundo Barbosa, após horas e pequenos comerciantes; funcionários aqui, ali, acolá, mais
adiante, vencendo
horas andando a pé sob o sol a pino públicos de baixa patente;
enormes distâncias a
em uma verdadeira travessia pela malandros; bêbados e trabalhadores. pé, até não mais
cidade, Câmara Cascudo desistiu da Os subúrbios, através das crônicas de poder”. Sobre o
episódio que remete a
excursão por sentir-se fatigado, com Lima Barreto, são figurados como chegada de Lima
sede, aborrecido e muito suado, espaços repletos de formas de Barreto com o terno em
frangalhos na casa de
enquanto Lima prosseguiu. O autor sociabilidades singulares que estão Noronha Santos, em
também relata outra ocorrência sendo ameaçadas pelas 1910, assim descreve:
“Vendo-o naquele
curiosa, na qual, sob os efeitos da transformações vertiginosas estado, Santos deu-lhe
parati, Lima Barreto chega à casa do proporcionadas pelo advento da um terno verde, novo,
leal amigo Noronha Santos, tarde da modernidade. que trouxera da sua
última viagem a Paris.
noite, com o terno todo rasgado. O Na dissertação O dândi e o Lima Barreto vesti-o.
escritor havia percorrido, boêmio: João do Rio e Lima Barreto Mirou-se por todos os
lados. E despediu-se
praticamente, todo um quarteirão no mundo literário da Primeira com o seguinte
pulando as cercas dos quintais das República, Fábio José da Silva reforça comentário: - Fica
muito melhor em mim
casas até chegar à residência do a pecha de boêmio para denominar a do que em você”. O fato
amigo que, diante do estado situação intelectual do escritor Lima ligado a caminhada de
Câmara Cascudo ao
inusitado das roupas de Lima Barreto. É importante frisar que esse
lado de Lima Barreto,da
Barreto, lhe deu um caro terno adjetivo esteve sempre presente nos Avenida Rio Branco a
comprado em Paris6. discursos dos membros da Academia Gávea, foi narrado por
Cascudo em um artigo
É através das suas próprias Brasileira de Letras e dos publicado no Diário de
experiências cotidianas que Lima afrancesados frequentadores do Notícias, em 1938 (Cf.
BARBOSA, 1959: 306-
Barreto, como coloca Maria Cristina salão da Livraria Garnier quando se 7).
Machado (2002: 154), “faz do tema referiam a Lima Barreto no intuito de
do subúrbio uma constante em sua desqualificar sua escrita por meio da 7
Em uma publicação
literatura”. A representação que tece estigmatização pessoal do autor. recente, intitulada Uma
das paisagens suburbanas é marcada Por mais que alguns partidários da outra face da Belle
Époque carioca: o
por uma retórica que, exageros a oficialidade literária reconhecessem cotidiano nos subúrbios
parte, sempre fere a tecla da os méritos da produção intelectual de nas crônicas de Lima
Barreto, defendida pelo
denúncia social. Nesse caso, o autor Lima Barreto, as alusões ao seu Programa de Pós-
delimita as territorialidades cariocas estilo desleixado de se vestir e as Graduação em História
através de fronteiras discursivas que menções ao consumo exagerado de da Universidade Federal
de Campina Grande, em
servem para diferenciar a zona nobre álcool, que protagonizava, serviam 2010, pude trabalhar
das áreas populares. Por exemplo, para legitimar o silêncio da instituição com a Acta da vigésima
quinta sessão – de 7 de
Botafogo e Copacabana são em relação a suas obras e suas julho de 1921 – da ABL,
representados por Lima como lugares candidaturas para entrar na ABL7. quando Lima Barreto se
candidata para ocupar a
habitados pelos novos ricos; pela A questão é que chamar de vaga que surgiu na
burguesia urbana; doutores e das boêmio um escritor que, apesar de instituição devido a

47
falecer aos 40 anos de idade, só de no universo da pesquisa acadêmica,
morte precoce de João
crônicas publicou mais de mil acaba prejudicando bastante a do Rio. No citado
páginas; escreveu centenas de coesão da sua dissertação. Por mais documento, os literatos
da ABL citam o
contos e sete romances é reproduzir que critique o que seria falta de dispositivo criado por
a fala dominante, preconceituosa e discernimento em autores como Mário de Alencar para
excludente, que negava o valor Francisco de Assis Barbosa, Maria coibir o que chamam de
Candidaturas
literário da obra barretiana Cristina Machado e Nicolau Sevcenko, indesejáveis. Também
associando-a a imagem pessoal do Fábio Silva não consegue enfatizar no jornal O imparcial,
em 1919, o acadêmico
literato em questão. Lima Barreto, qual seria, então, o melhor caminho João Ribeiro, em uma
pelos números de sua produção e a para se problematizar historicamente crônica, menciona que,
embora mereça Lima
diversidade de temas que abordou, a escrita barretiana e acaba Barreto não pode entrar
em sua escrita, indo desde a vida nos confluindo, frequentemente, em na ABL porque esta não
é um lugar adequado
subúrbios até os impactos da direção a afirmações já realizadas
para boêmios. (Cf.
Primeira Guerra no Brasil, está mais por esses pesquisadores que tanto AZEVEDO NETO,
para uma antítese do que contesta. Joachin de Melo. Uma
outra face da Belle
concebemos como boêmio. Quando É preciso frisar também que em Èpoque carioca: o
passou a ingerir aguardente de forma O dândi e o boêmio não existe uma cotidiano nos subúrbios
nas crônicas de Lima
descomedida, o fez no intuito de abordagem historiográfica de estudos Barreto. Dissertação
buscar anular-se e não como uma que foram feitos sobre a chamada (Mestrado em História).
Campina Grande: UFCG,
opção pândega. Belle Èpoque. A ideia é que um 2010: 51-2)
No terceiro capítulo de seu trabalho, feito por um historiador,
trabalho, “Impressões sociais e contextualize seu objeto de estudo
literárias”, Fábio Silva continua a em um dado recorte temporal. Seria
explanar sobre as diferenças que muito mais profícuo, em termos
marcaram a escrita de Lima Barreto metodológicos, se Fábio Silva
e João do Rio enquanto cronistas do cortejasse um diálogo entre os
Rio de Janeiro da Belle Èpoque. escritos jornalísticos e
Embora afirme que no Diário Íntimo memorialísticos de Lima Barreto e
e nas crônicas de Lima Barreto João do Rio com documentos sobre a
impera uma “metafísica da urbanização da então Capital Federal
melancolia” (SILVA, 2008: 110), na e com os principais estudos que
qual a angústia pessoal do escritor e foram publicados sobre o Rio de
a sua rejeição nos meios letrados Janeiro do começo do século XX.
oficiais da época se misturam aos Embora deva prezar por uma
temas e ao estilo do escritor, acaba, abordagem interdisciplinar, é
de forma bem confusa, sugerindo importante destacar que o historiador
que “o sentido estético da obra de que usa a literatura como fonte não é
Lima Barreto vem sendo analisado há um crítico literário.
anos, muitas vezes misturado com a Em A hélade e o subúrbio:
vida do escritor sem muito confrontos literários na Belle Époque
discernimento (...)” (SILVA, 2008: carioca (2006), de Maurício Silva,
111). temos uma discussão muito mais
Essas afirmações, que visam profícua e sofisticada que aborda
desmerecer toda uma gama de como a produção literária realizada
estudos importantes sobre o escritor por Lima Barreto em torno do
Lima Barreto, feitas por um iniciante cotidiano nos subúrbios, longe de ser
48
despropositada, é para a crítica uma literatos que lhe foram
das grandes características de uma contemporâneos, mas que estavam
escrita que antecipou vários temas e imersos nas diretrizes de uma
preocupações estéticas defendidas modalidade de literatura que deveria
pelos modernistas paulistas em ser “o sorriso da sociedade”. A
1922. Segundo o autor: perspectiva de M. Silva ecoa nesse
estudo porque, sem dúvida, pode ser
Na medida em que Lima Barreto direcionada também para auxiliar a
eleva o subúrbio à categoria de
compreensão da literatura jornalística
cenário distinto (...), acaba 8
Para efeito de
promovendo um verdadeiro de Lima Barreto que aborda a
ilustração dessas
deslocamento estético na literatura temática da vida e paisagem premissas, Maurício
brasileira produzida até então, em suburbana. Silva, em A hélade e o
que todo um universo esquecido subúrbio (2006), cita o
Régis de Morais, em Lima seguinte trecho do
pela arte é colocado em primeiro
Barreto: o elogio da subversão romance Numa e a
plano. Além disso, com Lima Barreto
Ninfa, de Lima Barreto:
assiste-se ao que um crítico definiu (1983), inspirado pelo mito de Sísifo, “Lucrécio morava na
como o “triunfo do meio ambiente também traça algumas interessantes Cidade Nova, naquela
como personagem”, destacando a triste parte da cidade,
reflexões sobre a relação entre Lima de longas ruas quase
importância da ambientação
suburbana para sua produção Barreto e os subúrbios. O autor retas, com uma
evoca a história de Sísifo, condenado edificação muito igual
ficcional. (SILVA, 2006: 70)
de velhas casas de
pela eternidade, por Zeus, por rótula, portas e janela,
Maurício Silva envereda para o ludibriar várias vezes a morte, a antigo charco, aterrado
com detritos e
campo da analise discursiva e traça carregar um pesado rochedo de sedimentos dos morros
um paralelo entre a linguagem mármore nas costas até o alto de que a comprimem,
bairro quase no coração
presente nos romances de Lima uma montanha, sendo que sempre da cidade (...). A Cidade
Barreto e a que está presente na que estava próximo de cumprir a Nova não teve tempo
de acabar de levantar-
obra de Coelho Neto. Sendo assim, é árdua tarefa, através de uma força
se do charco que era
bastante típica da narrativa inexpugnável, o rochedo soltava-se (...)” (BARRETO apud
barretiana a construção de de suas mãos e rolava montanha SILVA, 2006: 71). Em
seguida traz à tona a
ambientações e personagens dotadas abaixo obrigando Sísifo a recomeçar descrição de Coelho
de grande profundidade psicológica, seu trabalho. A expressão “trabalho Neto da paisagem
urbana em que se
enquanto que nos escritos de Coelho de Sísifo” passou a significar trabalho ambienta o romance
Neto, encarado como um autor inútil. Qual a possível analogia entre Turbilhão: “(...) o
parque era uma extensa
pertencente aos círculos literários o mito de Sísifo e a vida suburbana massa de verdura onde
oficiais, as descrições dos cenários de Lima Barreto? Bom, antes de o luar punha reflexos de
urbanos, nos quais insere suas tudo, é preciso levar em conta as prata. As casas abertas
recebiam a brisa e
tramas, possuem uma dimensão agruras biográficas que fazem parte exhalavam [sic] bafios
bastante otimista que termina por da trajetória do escritor. Essas quentes de forno (...).
Os rapazes refugiavam-
conferir a seus romances uma agruras correspondem a fatos que se no mirante e, sob a
densidade narrativa rala e vão desde o enlouquecimento doçura do céu azul,
8 onde a luz esmaecia,
superficial . gradativo do seu pai; até a negação fumavam,
Maurício Silva foca a sua analise do valor literário de suas obras pelos conversavam, dilatando
os olhos por aquelles
em torno de romances como Clara medalhões das letras, bem como aos
[sic] telhados
dos Anjos e Numa e a Ninfa, para motivos que o levaram ao alcoolismo vermelhos (...)”
conseguir detectar o diferencial e as internações forçadas no (COELHO NETO apud
SILVA, 2006: 71).
estilístico que possibilita ao leitor hospício.
atual distinguir Lima Barreto dos Para Régis de Morais:
49
inserida sua produção cronística, foi o
Lima Barreto é de uma curiosa fator determinante que fez com que
estirpe que passa a vida sentido-se
essa produção sobrevivesse às
ralar em sucessivas derrotas e, no
fim, triunfa. Ele não foi o herói que inúmeras tentativas de silenciamento
resultou de um chilique nervoso impostas por uma crítica literária
interpretado como ato de coragem. obcecada pelo preciosismo linguístico
Nada de cenas muito teatrais. Lima
e partidária dos ditames de uma
é o puro exemplo do herói do
cotidiano. Eis porque não há razão ordem política intolerante e
para chorarmos o coitadinho do segregadora.
romancista infeliz. Cumpre-nos As paisagens suburbanas que
tentar mostrar tudo que há de
são representadas nas crônicas de
épico, que há de verdadeiramente
grandioso no drama aparentemente Lima Barreto são o palco para a
lento de uma vida parda de manifestação de diversos fenômenos
subúrbio. (MORAIS, 1983: 31) sociais, desde os mais nobres, como
a questão da solidariedade, que
A determinação com a qual o irmanava os pobres e os excluídos do
literato resolveu atacar os tentáculos processo de modernização do Rio,
invisíveis dos poderes oficiais remete até os mais escusos, como o racismo
mesmo a um tipo de heroísmo e a discriminação de classe social.
errante, daqueles que parece saltar Ambiente urbano no qual, para
diretamente das páginas de uma o escritor, a vida aflorava por todos
obra de Cervantes. Porém, como os lados, o subúrbio é descrito por
bem ressalta Régis de Morais, a Lima Barreto como um local dotado
ironia e a grandiloquência com a qual de personalidade própria e de uma
Lima Barreto tratou todas as complexidade enigmática. Essa
opressões que sofreu nos impede de peculiaridade do subúrbio enquanto
enxergá-lo como um coitado. O mito tema literário urge da sua localização
de Sísifo nos ajuda nesse exercício, fronteiriça entre o centro da cidade,
pois a firmeza humana com a qual civilizado; cenário por onde desfilam
ele carrega a pedra montanha acima as elites e o universo rural, com suas
para depois vê-la rolar novamente tradições ligadas ao passado do
para baixo e depois recomeçar sua Brasil colonial, nas quais imperavam
tarefa o torna mais forte que o as relações interpessoais que, para
rochedo. A atualidade da vasta obra Lima Barreto, a modernidade estava
de Lima Barreto, na qual está suprimindo.

Referências:
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Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
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Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
_____. O cemitério dos vivos: memórias. São Paulo: Editora Planeta do Brasil;
Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004.

50
_____. Os bruzundangas. Porto Alegre: LP&M, 1998.
_____. Triste fim de Policarpo Quaresma. Prefácio de Beth Brait. São Paulo:
FTD, 1991.
_____. Diário Intímo: memórias. Prefácio de Gilberto Freyre. São Paulo: Editora
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SILVA, Maurício. A hélade e o subúrbio: confrontos literários na Belle Époque
carioca. São Paulo: Editora da USP, 2006.

51
SAES, Guillaume. A República e a espada: a primeira década republicana e o
florianismo. Dissertação (Mestrado em História Social). Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2005.

52
1
representations of the infantile body and Mestre em História
HIGIENE ESCOLAR, HIGIENE DA
pela Universidade
REPÚBLICA: the precepts of conducts and behaviors, Federal da Paraíba
INSPEÇÃO MÉDICA, CIÊNCIA E on behalf of health, that were thought by (UFPB), Doutoranda em
the moralizing principles elaborated by História pela
INFÂNCIA – SÃO PAULO (1917) Universidade Federal de
knowledges/powers. We compose, in this
Paloma Porto Silva1 Minas Gerais (UFMG).
manner, a possible version of the ideas Agência Financiadora:
that patterned and classified the children CAPES.
Resumo as objects that should be inspected. To
do so, we choose as source a book
O presente artigo pretende apreender o written by the Dr. Balthazar Vieira de
modelo de educação higiênica da infância Mello, titled: Hygiene Escolar e
emergida nos discursos científicos da Pedagógica para uso de médicos,
modernidade, em particular no discurso educadores e estabelecimento de ensino
médico-higienista no início do século XX, (1917). It deals about, so, of having
configurando uma nova prática escolar e knowledge how the doctor develops a
trabalhos pedagógicos. Buscamos civic-pedagogic strategy, linking formal
escriturar sobre as representações do education to social prophylaxis.
corpo infantil e os ditames de condutas e
comportamentos, em nome da saúde, Keywords: body, scholar medical
pensadas pelos princípios moralizantes inspection, education.
engendrados pelos saberes/poderes.
Escrituramos, assim, uma possível versão
das ideias que normatizaram e
classificaram as crianças como objetos a
serem inspecionados. Para tanto, O final do século XIX e início
elencamos como fonte o livro de autoria do XX assistiram bem a “vertigem”
do Dr. Balthazar Vieira de Mello, abissal de um jogo de vida e de
intitulado: Hygiene Escolar e Pedagógica morte entre a possibilidade de
para uso de médicos, educadores e autodesenvolvimento e a ameaça de
estabelecimento de ensino (1917). Trata- destruição dos valores humanos. As
se, então, de perceber como o médico transformações dos conhecimentos
desenvolve uma estratégia cívico-
científicos em tecnologia,
pedagógica articulando educação formal à
influenciados pela industrialização da
profilaxia social.
produção, constrói novos ambientes
Palavras-chave: corpo, inspeção médica humanos e destrói os antigos,
escolar, educação. acelera o próprio ritmo da vida.
Transformações sócio-culturais foram
legadas (e ainda são) da crescente
Abstract modernização da dita Belle Époque,
mas que gerou incertezas e angustias
The present article intends to understand nas pessoas. Valores são
the pattern of hygienic education of
desmanchados no ar, o mundo
childhood emerged on the scientific
capitalista impõe modelos de verdade
discourses of modernity, in specific on
the medical-hygienist discourse of the absoluta, verdade que causa dúvida,
beginning of the twentieth century, estar por vir o império do efêmero.
configuring a new scholar practice and Paradigmas tradicionais confrontam-
new pedagogic kind of work. We seek to se com modelos modernos de se
elaborate writings about the ditar o ritmo da sociedade, a
53
contemporaneidade caracteriza-se ano de1917. Como recorte elegemos 2
Neste contexto,
pelas disputas entre o “novo” e o o ano de 1917 por ter sido o ano da entendo o conceito de
discurso a partir da
“velho”. publicação do segundo e último livro acepção de Helena H.
Mudanças de sociabilidades e do Vieira de Mello intitulado Hygiene Brandão, como o
sensibilidades no interior do tecido Escolar e Pedagógica para uso de espaço em que saber e
poder se articulam se
social inferiram as várias categorias médicos, educadores e entrecruzam, pois quem
sociais do ser mãe, do ser pai, do ser estabelecimentos de ensino. fala, fala de algum
lugar, a partir de um
filho, do ser trabalhador e etc. As A narrativa que tomo como direito reconhecido
relações sociais ganham novos fonte nesta pesquisa compõe um institucionalmente. Esse
discurso, que passa por
direcionamentos, pois a velocidade “manual de receitas” discursivas e verdadeiro, que veicula
dos acontecimentos acelera a não-discursivas expresso no livro saber (o saber
institucional) é gerador
adaptação aos novos costumes. A publicado pelo o médico-pedagogo
de poder. “Um discurso
infância por muito tempo ficou Dr. Vieira de Mello, fazendo uma é um conjunto de
silenciada pela sua significante análise dos discursos pelo livro enunciados que tem
seus princípios de
“inutilidade política”. O seu valor disseminados, esquadrinhando a regularidade em uma
social foi construído ao mesmo em infância e as práticas educacionais mesma formação
discursiva”. Esta, por
que se vivia em uma época de em torno dela, percebendo como um sua vez, é entendida
grande efervescência das “certezas sistema de códigos, condutas e como a regularidade de
uma dispersão de
solapadas” e da desconfiguração no hábitos higiênicos contribuíram para elementos que não
núcleo familiar. Neste ínterim, a “quebrar” o silêncio a cerca da estão ligados por
infância é construída. Com efeito, ao infância configurando uma nova (re) nenhum princípio de
unidade. Cf. BRANDÃO,
falarmos em infância não significação para as crianças, Helena H. Nagamine.
remeteremos a uma abstração, mas inserindo-as em um novo contexto. Introdução a análise do
discurso. 6º ed.,
a uma construção discursiva que Os discursos do Dr. Vieira de Mello Campinas, SP: Editora
institui determinadas posições, não postulavam métodos e formas da UNICAMP, 1997, p:
28, 29, 30 e 31. A
só das crianças, mas também da adequadas de como a criança deveria categoria discurso pode
população adulta e das instituições de comportar e se higienizar. ser também entendida
segundo a concepção de
escolares, instituindo determinados A metodologia utilizada neste
Foucault, o qual
modos de ser, ver e dizer a infância. trabalho é a análise dos discursos2. defende como o
A partir deste pensamento, Discursos esses inventa(ria)dos e que conjunto das coisas
ditas, as relações, as
objetivamos, ao longo deste desempenharam papel regularidades e as
trabalho, perceber como o discurso importantíssimo no recorte temporal transformações que aí
se podem observar o
médico do início do século XX, referido, pois os discursos científicos domínio em que certas
constrói espaços de “adestramento” e emergidos no período Iluminista figuras, no caso, a
infância, em que certos
“disciplinarização” para o corpo ecoaram séculos adiante, encruzamentos indicam
infantil. Escolher São Paulo como configurando-se em dispositivos de o lugar singular de um
espaço desta pesquisa, é tentar poder como um imperativo nas sujeito e podem receber
o nome de um autor.
encontrar subsídios para sociedades modernas, que vigia, “Não importa quem
compreender como um modelo de pune e corrigi os que não se inserem fala, mas o que ele diz,
ele não o diz de um
“instituição de seqüestro” foi (re) às normas. lugar qualquer”. Cf.
elaborado pelos médico-higienistas Pode-se perceber que nesse ARAÚJO, Inês Lacerda.
Foucault e a crítica do
nas primeiras décadas da República lugar próprio de poder e saber, que sujeito. Curitiba: Ed.
brasileira. Assim, tentaremos as práticas para com as crianças UFRN, 2001, pp: 96-97.
responder como a escola foi eleita eram ali construídas em aproximação
como um espaço de higienização pelo a figuras de disciplina e saúde,
discurso médico, principalmente no apresentada sob a forma de um ato
54
cujo objetivo era satisfazer as O Brasil, com o advento da 3
José Murilo de
necessidades do Estado. Está posto República, que demonstrou ser um Carvalho nos mostra
como os ideais
nas páginas dos livros do Dr. Vieira catalisador dos ideais de europeus foram
de Mello um legado discursivo que modernidade, progresso e civilização, utilizados no Brasil de
maneira estratégica por
institui a criança a aprender a estava conhecendo novas práticas de
determinado setor da
motivar a saúde, a norma e a sanitarização e higienização, tendo sociedade. Segundo o
motivar a Pátria de maneira positiva. em vista o crescimento das cidades e autor, o grupo social
representado pelos
O médico-pedagogo nos lega a remodelação dos espaços urbanos, militares se sentiu
discursivamente interesses singulares sendo influenciado pelas correntes atraído pela visão
positivista da sociedade
sobre a infância e que articula uma científicas bastante em evidência na e da república,
“trama” de visibilidade e de época como, por exemplo, configurando-se em
uma controvérsia, já
dizibilidade, a qual se pode “positivismo francês, evolucionismo que para os positivistas,
vislumbrar a partir de análises do inglês e antropologia italiana, além um governo militar não
era bem visto.
livro Hygiene Escolar e Pedagógica de outras correntes, como o
Entretanto ocorre uma
para uso de médicos, educadores e monismo alemão de Haeckel” (AGRA, adaptação das idéias
estabelecimentos de ensino (1917). 2006: 44). Mesmo antes de o período positivistas, os militares
apropriam-se do viés
A imagem da criança é construída imperial terminar, tais correntes cientificista. (Cf.
pelo médico-pedagogo a partir de um chegaram ao Brasil através dos CARVALHO, 1987: 27-
8)
enquadramento corporal e estético intelectuais brasileiros que iam para
singular, o qual exige tanto um bom o estrangeiro, para estudos ou para
desempenho social quanto lazer3 - bem como a elaboração de
educacional. uma imagem saudável da nação.
A partir dos discursos do Dr. Ora, no Brasil, não foi senão a 4
Cf. SEVCENKO,
Vieira de Mello, posso inferir que a partir da segunda metade do século Nicolau “O prelúdio
Republicano, astúcias
forma de vigilância foi, talvez, um XIX, e nas cidades, que se deu o da ordem e ilusões do
dos dispositivos de formação movimento histórico de construção e progresso” In.:
SEVCENKO, Nicolau.
discursiva presentes nas relações de experimentação de uma certa (org.) História da vida
sócio-culturais que mais conduziu a modernidade. E, entre as agências privada no Brasil 3.
criança a ser “policiada” e a se mais importantes neste quadro, sem República: da Belle
Époque à Era do Rádio.
“autopoliciar” em suas condutas. dúvidas a escola foi uma das mais São Paulo: Companhia
As primeiras décadas do destacadas4. das Letras, 1998. Cf.
SEVCENKO, Nicolau “O
século XX, indubitavelmente Não por outro motivo, por prelúdio Republicano,
assistiram grandes aventuras sociais, exemplo, os republicanos teceram astúcias da ordem e
ilusões do progresso”
políticas e culturais: o país vivia sob tantos projetos para a escola In.: SEVCENKO,
grande influência das oligarquias brasileira, como também se deu com Nicolau. (org.) História
da vida privada no
rurais e o desafio que se instaurava quase todos os letrados do fim do
Brasil 3. República: da
era o de passar de uma economia império e do começo da república. Belle Époque à Era do
basicamente agrária para uma Naqueles anos em que o Brasil Rádio. São Paulo:
Companhia das Letras,
urbana. O contexto abrigava estava sendo reinventado era crucial 1998.
diferentes realidades sociais: de um para os letrados, que se viam como
lado, havia um grande número de os legítimos sujeitos da história,
trabalhadores analfabetos, refundar o país, o povo, a nação.
convivendo com uma classe média Segundo Nicolau Sevcenko, o
urbana crescente; de outro, uma projeto de reinvenção do país tem na
elite aristocrática de origem rural. idealização de suas elites o
esquecimento do passado colonial e
55
imperial como condição para ressurgimento da nossa 5
Referimo-nos às
nacionalidade6.
construção de uma nação que se Mensagens
Presidenciais de estado,
pretendia a todo custo ser moderna.
Nesse contexto, fazia-se que eram emitidas
Era necessário eliminar o atraso e anualmente durante o
primordial atribuir ao sujeito as Império e as primeiras
edificar o futuro da nação. Daí,
condições necessárias para que sua décadas da República.
então, atuação fervorosa contra tudo As mensagens eram
capacidade individual se
que continuasse arraigado ao proferidas pelos
sobressaísse, independentemente da Presidentes de Estados
passado do país, bem como a adoção à Assembléia Legislativa
sua condição social e econômica.
de modelos de civilidade europeus e sintetizando as
Dentre os intelectuais que atuaram atividades
norte-americanos. Importavam – se desenvolvidas pelo seu
neste período, destacamos o discurso
daqueles países não só os produtos governo durante
do Dr. Balthazar Vieira de Mello7, um determinado ano. O
de suas indústrias, como seus
desses médicos-higienistas que
modelos de comportamento, seus
procurou trazer a lume uma infância 6
Mensagem Presidencial
projetos de embelezamento das
que por muito tempo permaneceu de Altino Arantes, 1917,
cidades, sua moda, seus modos de p: 10.
silenciada.
conduta, etc.
Ao reconhecer e divulgar as
A partir dessa concepção de
contribuições da higiene, no sentido 7
Em razão do
novo, modelar as crianças em
de aperfeiçoar e fazer a sociedade significado que se
soldados da saúde era um atribui ao texto escrito,
“progredir”, os médicos-pedagogos considerando o contexto
investimento em longo prazo para os
vão construindo argumentações que de sua produção,
governantes, preocupados com a consideramos a visão de
legitimam os discursos sobre a linguagem proposta
limpeza moral e corporal de todo o
padronização através de testes de pelo filósofo Paul
país. Os intelectuais, que assumem Ricoeur, que diz que o
quociente intelectual. Trata-se de
posição hegemônica desde o início do discurso não pode
uma visão empirista de ciência, na deixar de se referir a
século XX, são aqueles portadores de alguma coisa. Esse
qual é preciso medir e precisar ações.
conhecimentos especializados: os hermeneuta vê a
“A criança, ser da natureza, não instância do diálogo
cientistas, médicos, psicólogos,
portadora da razão adulta, marcada com objetividade: “só o
jornalistas e educadores que discurso tem, não
pelos atributos da sensibilidade, apenas o mundo, mas o
conhecem a “realidade” brasileira
emoção e imaginação submete-se à outro, um interlocutor a
deveriam, para isso, atuar no sentido quem se dirige”. (s/d,
direção do adulto que moldá-la”.
de uma intervenção racional na p: 186). Dessa forma, a
(CORRÊA, 2001, p: 124). efetividade do discurso
construção de um projeto nacional, poderá atribuir um
cuja condição lhe competira. Na De maneira semelhante ao caráter profícuo à
dimensão histórica da
Mensagem Presidencial de Estado que vinha acontecendo na Europa do relação entre texto e
apresentada ao Congresso século XVIII, o surgimento de ideais mundo.
Legislativo, em 14 de Julho de 1917, republicanos nacionais, no Brasil,
pelo Dr. Altino Arantes, presidente do constrói consigo um lugar para uma
Estado de São Paulo5, o intento do espécie de “movimento” médico-
ensino cívico é bem enfatizando: higienista que teve como principal
meta a normatização do corpo
O ensino cívico deve ser familiar. Nesse sentido, apreende-se
intensificado em todas ellas
o quanto foi peculiar a chegada de
[escolas] e, para esse fim, a
Secretaria do Interior já se tem com meios de comunicação e informação
as diversas associações patrióticas às cidades brasileiras de fins do
existentes no Estado, que tão século XIX e início do XX, meios de
eficazmente vão concorrendo para o
comunicação esses que noticiavam
56
mazelas gerais de caráter público, Medicalização do corpo e da
como falta de higienização e mente: o “typo” ideal da infância
esgotamento sanitário, falta de
políticas de coleta de lixo, entre Examinar cuidadosamente os
alunnos das varias classes de
outros; esses meios de comunicação
ensino, colligindo todos os dados
também abriram espaço à cultura e que tiver obtido em vista do exame
ao lazer em suas formas mais geral e orgânico de cada um, de
dinâmicas, trazendo notícias sobre as modo a construir as respectivas
fichas; e, em razão dellas,
tendências da época (geralmente
classifical-os entre os alunnos
vindas da Europa), sem, no entanto, normaes ou anormaes,
deixar de veicular suas idéias às especificando neste caso em que
questões de saúde, alimentação, consistem as deficiências
observadas e qual o remem especial
moradia, vestimenta e modernidade.
que reclamam. (MELLO, 1917:172).
O “chique” e o “moderno” estavam,
geralmente, associados às idéias
Rastreando como o Dr. Vieira
propostas pelos discursos médico-
de Mello constrói a imagem da
higienistas.
infância encontramos o cruzamento
De acordo com Silva, um
do poder médico-pedagogo com
sujeito inserido na proposta de
efeitos de discurso bastante incisivos.
construção de uma pátria “auto-
Isto é, prescrições de exames
suficiente”, “poderosa” e, portanto,
médicos nos educandos que
“sadia” não poderia se permitir o
constroem e dão sentido a uma
direito livre de se entregar aos
unidade. Tais prescrições se
prazeres do excesso. A auto-
constituem em conceitos que estão
disciplinarização deveria estar em
em torno de uma personagem: a
primeiro lugar para tal sujeito; ele
figura da criança (a)normal. Este
deveria evitar, de qualquer forma,
conceito se configura como uma
um encontro de sua personalidade
ferramenta da formulação de um
como o ócio. Além disso, e cada vez
“tipo” de criança, em especial a da
mais, deveria buscar o aumento de
criança paulista. O texto acima8 que
produtividade pessoal e profissional, 8
O trecho citado faz
nos serve de epígrafe, encontrado na parte da legislação,
contribuindo dessa forma com o
obra Hygiene Escolar e Pedagógica cabendo registrar que,
progresso da nação. dentre as atribuições
para uso de médicos, educadores e
Na primazia desse contexto que competiam aos
estabelecimentos de ensino, a médicos inspetores em
histórico, o Brasil se via mergulhado relação aos
segunda do Dr. Vieira de Mello, não é
em altas taxas de analfabetismo e a estabelecimentos de
o único, mas apenas mais um dos ensino sob a sua
escola seria o instrumento ideal para
vários que tratam da formulação de responsabilidade, figura
o combate a tal situação. Por isso, em primeiro plano, na
fichas para examinar e classificar os lei n. 1.541, artigo 6º.
divulgar uma “doutrina higienista”
educandos:
significava, antes de tudo, a
concretização de um triunfo do Este exame visa indistinctamente os
progresso nacional e o ensino era sua alunnos sãos e normaes, ou
maior arma; o ensino primário supposto tal e os doentes e
anormaes, outr‟ora considerados
poderia atingir diretamente suas
como indolentes ou pouco
metas de disciplinarizar as crianças. applicados, quando às mais vezes,
são myopes ou surdos escolares,

57
que não podem acompanhar as revacinação, a aparência geral, o
explicações do professor, ou
funcionamento dos órgãos até as
instáveis, cuja mobilidade de
espírito não se subordina às ocorrências mórbidas verificadas
exigências da pedagogia. (MELLO, desde o nascimento da criança, sem
1917: 57) deixar de lado, também, as
mensurações antropométricas de
É perceptível como a figurada estatura e peso, capacidade
criança é construída em torno de um respiratória e força muscular. Tais
conjunto de padrões que a mensurações deveriam compor a
classificam em normais ou anormais. rotina dos profissionais da Inspeção
Trata-se aqui de uma antologia de Médica Escolar. Para tanto, o Dr.
escrituras que investe em (re)formar Vieira de Mello apresenta detalhados
os pressupostos que consistem na procedimentos para os exames dos
idéia do “typo paulista” de criança, educandos: 9
reforçando seus desdobramentos Aos médicos
inspetores lhes foram
discursivos, o qual constitui os Para se medir a estatura e tomar o atribuídas novas
vários sentidos de um tipo infantil peso de um escolar, deve este estar funções, mesmo
descalço e despojado das peças de àqueles que não
universal necessária à categoria. pertenciam aos quadros
vestuário mais pesados, bastando
Ao obedecer à lei que para isso uma toêsa e uma balança,
de funcionários da IME,
mas que engrossavam a
remodelou a Inspeção Medica reunidas ou separadas, com a lista dos que
Escolar, o Dr. Vieira de Mello condição, porém que sejam compartilhavam do
aferidas. (...) Qualquer que seja o mesmo intento do
prescreve o exame dos educandos,
apprelho adoptado, o essencial é inspetor sanitário no
compilando todos os dados obtidos que essas medidas sejam exactas, trabalho de inspeção
pelo exame físico, formulando um devendo o alumno cuja estatura se em escolas públicas e
particulares, ensino
modelo de ficha sanitária individual, tem de tomar, collocar-se em
primário, normal,
posição de perfilar, (1ª. posição
de fichas de exames anuais, além de secundário e
escolar), com os calcanhares unidos profissional com a
esquemas para a classificação dos e as pontas dos pés afastadas, os coordenação do médico
escolares, esquema para o exame braços pendidos ao longo do corpo e chefe, o livro serviria
como um manual, uma
clínico dos anormais e quadro do o olhar horisontal, de modo que a
haste transversal da toêsa repouse cartilha de consulta dos
desenvolvimento físico dos mais variados tópicos. O
no vertex. (MELLO, 1917: 63-64).
educandos da cidade de São Paulo. roteiro da obra foi
baseado na literatura
Tais anormais compõem todo um internacional e nos
Tais registros se punham de
conjunto de dispositivos preparados regulamentos
modo concomitante às observações estrangeiros para uma
pelo Dr. Vieira de Mello para eficaz organização do
pedagógicas que levavam em
sistematizar e guiar o trabalho dos trabalho desse corpo
consideração a capacidade de profissional. A escola,
médicos e inspetores junto às
memória e concentração, inteligência segundo Dr. Vieira de
escolas9. Mello no prefácio, era
e comportamento das crianças. concebida como um
Os dados produzidos pela
O livro publicado pelo Dr. “centro de irradiação de
análise minuciosa de todas as fichas homens aptos a
Vieira de Mello é rico em detalhes ao
se configuravam como um dispositivo defendê-la [a Pátria] e
expor os procedimentos de exame, de mães compenetradas
de produção de conhecimento sobre dos seus deveres
elencando vários aspectos que o
a infância. A autoridade dos médicos sociaes” (MELLO, 1917:
professor e o médico devem 8), e deveria ser
e dos professores deveria produzir
observar. Partindo da máxima inspecionada por seus
registros dos exames físicos que agentes com orgulho e
“mentalidade sadia em organismo amor patriótico no
indicassem, sobre os mais variados
sadio”, o Dr. Vieira de Mello formula peito.
aspectos, desde a vacinação e
a ficha individual em consonância
58
com as observações pedagógicas responsáveis os levem à consulta do
especialista da sua escolha (MELLO,
feitas, tanto pelo professor, quanto
1917: 69).
pelo educando, fomentando em uma
ficha anthropopedagogica. É o As preocupações higiênicas do
esquadrinhamento da criança por Dr. Vieira De Mello se estendem aos
excelência. Ganha destaque nos órgãos de outro sentido, os da
estudos e descrições do médico- audição. As secreções sebáceas
pedagogo a grande ênfase nos produzidas pelos órgãos da audição
aspectos pulmonares, ou melhor, na podem obstruir este sentido. A
perimetria torácica. O método de anatomia dos órgãos são os
avaliação da capacidade respiratória primeiros alvos da inspeção, “antes
é descrito técnica e objetivamente do exame propriamente da audição,
para não causar dúvida alguma no o médico escolar procurará verificar a
leitor. As medidas, números e conformação das orelhas, (...) a ver
comparações atestavam o si há anomalias” (MELLO, 1917: 71).
positivismo triunfante, em que a Contudo, também é nosso
visibilidade e a dizibilidade objetivo mostrar, a partir de alguns
mensurável dos corpos infantis eram termos no discurso do Dr. Vieira de
indubitáveis. Mello, como algumas crianças são
O exame dos sentidos do classificadas ou mesmo rejeitadas no
corpo humano também foi estudado ambiente escolar. Trata-se de lances
e descrito na obra do Dr. Vieira de de estereótipos que envolvem, por
Mello. Sobre o sentido da visão era exemplo, algumas crianças com
importante detectar as infecções que problemas auditivos: “não sendo
os olhos poderiam estar acometidos admitidos surdos nas escolas, o
e, também, perceber os efeitos da medico só terá de investigar a si a
iluminação e seus efeitos diretos no audição é normal ou insufficiente,
sentido da visão. Os alunos eram constituindo esta a surdez escolar,
classificados como normais se a muita vez ignorada dos paes dos
leitura em relação ao quadro pudesse alumnos e dos professores” (MELLO,
ser feita na distância de cinco metros 1917: 72).
e de insuficientes se não É através da exclusão, como
conseguissem ler. Entretanto, é mostra Foucault, que o indivíduo
importante destacar o ofício do entra na morte em virtude das
médico-inspetor, pois este não “práticas de exclusão, práticas de
estava preocupado em curar os rejeição, práticas de marginalização”.
alunos que possuíssem algum tipo de Efeitos e mecanismos de poder que
problema visual, mas sim em exercem sobre “os loucos, sobre os
diagnosticar apenas: doentes, sobre os criminosos, sobre 10
Cf. FOUCAULT,
os desviantes”10. Michel. Os Anormais.
Ao contrario do especialista, que faz
Assim, como nos sentidos de OP. Cit., p: 54.
exames completos, o medico-
inspector escolar só procura visão e audição, o órgão destinado ao
conhecer os resultados sufficientes. sentido do olfato é examinado
A sua tarefa é assignalar os alumnos primeiramente no aspecto estético:
cujo estado de saúde reclame
“depois de verificar o aspecto
cuidados hygienicos ou médicos,
para que os paes, tutores ou exterior do nariz, isto é, a sua
59
conformação e posição relativa ao configurações e em seguida se
eixo da face, o medico examinará o verificando a habitação de germes
estado das fossas nasaes” (Mello, causadores do herpes, muito
1917: 75). Mas o exame também freqüentes devido ao uso comum de
possui o objetivo de evitar doenças canecas e lápis (muito levados à
que acabem comprometendo as vias boca) entre as crianças. A língua e as
respiratórias: gengivas também não passam
despercebidas pelos inspetores.
As epistaxis não traumáticas devem Entretanto, no constituinte da face do
merecer especial attenção do 11
Dentre as
ser humano, a dentição e os
medico, porquanto ellas podem ser complicações septicas
indicio de varizes da pituitária, maxilares também ganham grande “destacam-se a
freqüentes nos adenoidianos, cuja destaque. inflamação e
suppuração dos
circulação de retorno é entravada, Para os inspetores, a primeira gânglios submaxilares,
de ulcerações syphiliticas ou
dentição não ganha muita ao abcessos dentarios,
tuberculosas, de molestias chronicas as osteítes, seguidas
do fígado e dos rins, ou o prenuncio importância. Apenas a partir dos algumas vezes de
de certas infcções agudas, como cinco ou seis anos é que a segunda necrose parcial dos
sejam a febre typhoide e as febres dentição começa a surgir e, a partir maxilares e, mais que
eruptivas. (MELLO, 1917: 75-76) tudo, a infecção
disso, se possibilita uma avaliação tuberculosa”.
dos maxilares. Preocupações com as
No que diz respeito à garganta
erupções dos dentes são descritas
e à voz, o Dr. Vieira de Mello elabora
minuciosamente, mas as cáries 12
Artigo 3º, número III
um esquadrinhamento bem mais da lei nº. 1541 de 30 de
dentárias, as complicações sépticas11
detalhado, partindo da percepção de dezembro de 1916: “A
e dystrophias dentarias fomentam inspecção dentaria dos
que “as lesões ahi assentadas podem alunnos, quer por meio
preocupações e cuidados maiores,
dificultar a palavra, como ainda o dos médicos-inspetores,
levando-se ao pé da letra a legislação quer por meio das
desenvolvimento intellectual e
no tocante ao objetivo da inspeção clinicas dentarias
physico do escolar” (MELLO, 1917: escolares a que poderá
médica12: o medico-chefe confiar,
77). As deformações no esqueleto da
gratuitamente, a
caixa torácica e aspectos que passam tarefa”. (MELLO, 1917:
As caries dentarias, dizem Méry e
uma fisionomia expressando 170).
Genévrier, devem preoccupar o
estupidez causada, principalmente, medico esclar; a sua extrema
pelas amidalites e adenóides. freqüência, os seus incovenientes e
perigos, por demais consideráveis,
No que se refere à garganta,
reclamam todos os cuidados
percebe-se um deslocamento da necessários para entravar o seu
função da inspetoria médica. Devido desenvolvimento, pois além de
à gravidade e ao elevado número de construírem focos permanentes de
infecção pelo accumulo nas
escolares afetados pelas amidalites e
cavidades dentarias de resíduos
adenóides, a inspetoria instalou uma alimentares, que são os melhores
sala de assistência operatória dentro meios de cultura de todos os
da própria instituição escolar, para micróbios existentes na cavidade
buccal, as dores provocadas pela
tentar facilitar o acesso a um
carie exercem perniciosa influencia
tratamento adequado. sobre a mastigação, acarretando
A boca, juntamente com a dyspepsias, cujas origem todos os
garganta, também era médicos são acordes em atribuir á
má dentição (MELLO, 1917: 88).
constantemente examinada,
começando pelos lábios em suas

60
O inspetor médico escolar A narrativa apresentada pelo
deveria estudar as enfermidades do Dr. Vieira de Mello, além de
sistema cárdio-vascular e do sistema demonstrar tais objetivos,
respiratório, neste último, levando desempenha investigações que não
em consideração o alto índice de se restringiam aos aspectos visíveis
casos de tuberculose no início do tentando responder às interrogações
século XX, principalmente a mais peculiares das características
tuberculose infantil, “cujo estudo humanas. Sendo assim, as crianças
reclama o conhecimento de algumas eram classificadas como (a)normais,
particularidades anatômicas e tendo por referencial os dados de
physiologicas peculiares a essa phase desenvolvimento físico, intelectual e
da vida” (MELLO, 1917: 93). moral comuns à suas respectivas
A partir do que foi idades. A classificação pedagógica
esquadrinhado sobre o corpo infantil, dos alunos era calcada no critério de
o Dr. Vieira de Mello tem a inteligência, dividindo as crianças em
preocupação de induzir os “supernormais ou precoces, normais,
profissionais da educação e os subnormais e tardias”, sendo que o
próprios educandos, trazendo um último grupo compreendia: a)
jogo de circunstâncias que coloca a astênicos, indiferentes, apáticos; b)
infância como principal alvo do os instáveis, inquietos, impulsivos,
conhecimento científico (médico e indisciplinados; c) os ciclotímicos 13
Cf. Michel Foucault.
pedagogo). Trata-se, ao que se (que apresentavam características “Ávida dos homens
infames”. Op. Cit., p:
percebe, do “olhar do poder e o das duas categorias anteriores). 101.
estrépito de sua cólera”13 que, Mantém-se, na abordagem
possivelmente, suprime qualquer dessas questões, a preocupação em 14
Demeny apud
pensamento ou sentimento de formular um esquema, uma espécie SOARES, Carmem
Lúcia. Imagens da
“paparicação” que se tenha para com de catálogo das deformidades educação do corpo:
a criança. A partir da maneira como específicas dos anormais. O capítulo estudo a partir da
ginástica francesa no
investe na descrição, intitulado Classificação dos anormaes século XIX. 3º ed.
esquadrinhamento e classificação é é marcado pelas orientações em Campinas, SP: Autores
associados, 2005.
possível perceber como o discurso do relação à classificação dos educandos
Dr. Vieira de Mello demonstra frieza e mentalmente anormais, traçando
tecnicidade com relação ao corpo uma descrição e identificação do
infantil. “anormal” intelectual, moral e
O esquadrinhamento (de pedagógico, assim descritos:
órgãos) e a educação dos sentidos “estygmas de degenerescência, ou
(visão, olfato, e etc.), têm por efeito anomalias physicas de caracter
colocar as crianças em contato com permanente” (MELLO, 1917:105). O
os objetos exteriores, além de lhes esquema proposto para classificar os
dar noções a cerca da natureza, da alunos anormais divergia das fichas
realidade social e material, o que sanitárias individuais, pois não
atribui ao julgamento dos educandos deixava margens para o registro das
as qualidades essenciais de características das crianças. Visando
ponderações, polindo o mundo orientar a identificação das
fantasioso das crianças através de deformidades e o trabalho de
uma razão sadia14. classificação, o esquema se constitui
61
numa espécie de fichário das em sua análise é a criança “violenta”,
deformidades que poderia ser “instável”, “impulsiva”. Desse modo
encontrado quando o exame fosse temos duas noções muito próximas
feito em uma criança tida como de “diagnose”: a noção de “impulso”
“anormal”. que percorre dentro de conceitos
Em linhas gerais, podemos médicos e pedagógicos; e a noção de
dizer que o exame de um indivíduo, “violência” que permite justificar a
na modernidade, substituiu a categoria da correção e da punição.
exclusão recíproca entre o discurso Todavia, não estamos
médico e o discurso pedagógico por querendo enfatizar o lugar de 15
Cf. FOUCAULT,
um jogo que poderíamos chamar de “normal” dessas crianças, buscamos Michel. Os Anormais.
jogo de “dupla qualificação”15 médica problematizar a intervenção dos 2001.

e pedagógica. Tal prática, a junção saberes pedagógicos entrecruzando


de saberes, a técnica da “dupla com o discurso médico, mostrando
qualificação”, organiza o que estereótipos inferidos à figura
podemos chamar de controle da infantil. Buscamos, assim, mostrar
classificação do (a)normal. Controle como tais estereótipos partem mais
esse que vai engendrar todo o campo de circunstâncias histórico-culturais
da dupla determinação, além de construídas através dos
autorizar o aparecimento, no discurso saberes/poderes e menos de
de pedagogos e médicos-higienistas, condutas propriamente perniciosas
de toda uma série de termos ou de aludidas pelo discurso do Dr. Vieira
elementos estigmatizantes. de Mello.
Ao percorrer os exames, o As nomenclaturas que
esquadrinhamento e a classificação acabamos de observar sobre as
feitos pelo Dr. Vieira de Mello, o que crianças podem nos remeter a uma
mais chama a atenção são os termos espécie de dossiê de “desaprovação”.
utilizados como “insufficientes”, A criança é desaprovada diante do
“retardadas”, “fraca”, “preguiçosa”, discurso que celebra a normalidade,
“iniciativa rudimentar”, “laboriosas”, a obediência e o comedimento.
“crueldade”, “débeis”, Contudo, a junção do discurso
“degenerados”, “perniciosos”; o que médico e do discurso pedagógico
nos é relatado são elementos realizado pelo Dr. Vieira de Mello
16
diagnosticados como uma espécie de fomenta arquétipos de linguagem Idem, ibidem.

“redução anunciadora”16, de quadros para a criança, uma linguagem do


da infância (a)normal paulista. Uma medo, elaborada por ele, por ser um
espécie de redução para crianças à inspetor, que está protegido,
normalidade. legitimado pela instituição médica. A
Estudando os “anormaes linguagem materializada no exame
intellectuaes”, o médico-pedagogo funciona como aquilo que vai
tipifica as crianças como “violentas”, transmitir um novo saber normativo
ou seja, nem exatamente doentes da instituição médica à instituição
nem propriamente “asnos”, a qual escolar, os efeitos de poder.
junção de saberes está voltada. No É a partir da junção dos
exame clinico dos anormaes, o que o saberes médicos e pedagógicos,
médico-inspetor tem a diagnosticar prescrevendo inspeções e exames
62
médicos dentro dos estabelecimentos são consideradas pelo Dr. Vieira de
educacionais e nos próprios alunos, Mello como de grande importância
construindo conceitos como o de para a prevenção de molestias da
crianças (a)normais, que o Dr. Vieira coluna. Em sua narrativa, o autor
de Mello dedica quinze páginas de aponta como o móvel escolar deveria
sua obra sobre uma preocupação ser e como, também, não deveria
latente: aos desvios da columna ser:
vertebral.
Os problemas de coluna que Tem-se a considerar a distancia, ou
a relação horizontal entre o banco e
interessam ao médico-inspetor são
a carteira, devendo ser collocados
as molestias, que por mais que em distancia nulla, isto é, de modo
também possuam um caráter que o bordo anterior do banco ou
hereditário, sejam adquiridas no cadeira fique no mesmo plano
vertical que o bordo da mesa ou
meio escolar, tanto por vícios de
carteira. (...) A distancia positiva
atitudes e comportamentos, quanto [imagem 01], ou aquella que o
pela deficiência “logística“ oferecida banco fica afastado da carteira, tem
pela escola. A mobília escolar poderia o grave inconveniente de obrigar o
alumno a curvar o dorso,
ser um grande contribuidor para o
predispondo-o a desvios da culumna
desencadeamento de várias vertical. Essa distancia é
molestias, principalmente os relativos conveniente para a leitura, porém
à coluna, como enfatiza o médico- inconveniente para os exercícios de
escripta. (...) Finalmente a distancia
pedagogo:
negativa [imagem 02], em que o
bordo anterior do banco fica por
Os moveis que guarnecem as salas baixo da carteira, seria a melhor
17
de aula devem ser individuaes e para a escripta, porém impede os Todas as imagens
adaptáveis á estatura dos alumnos. apresentadas neste
movimentos do alumno,
Os moveis duplos ou múltiplos, para texto podem ser
principalmente quando este tem de encontradas no do livro
dois ou mais alumnos, e de alturas conservar-se de pé, sair ou entrar Hygiene Escolar e
fixas, devem ser abolidos das para o seu logar. (...) Para que este Pedagógica para uso de
escolas, por serem causa efficiente se sente correctamente, quando médicos, educadores e
de molestias da visão, do aparelho escreve, deve manter o busto estabelecimentos de
digestivo, respiratório e circulatório, aprumado e afastado do encosto do ensino do Dr. Viera de
além das deformidades do Mello. O médico-
banco, a cabeça erguida, os
esqueleto, taes como escolioses e pedagogo utiliza tais
hombros na mesma altura, os imagens para explicar
cyphoses (MELLO, 1917: 30) braços approximados do corpo, os como a mobília escolar
cotovelos quase hrizontaes, os influi na saúde e no
As diferenças de altura e punhos e as mãos repousando sobre desenvolvimento
a mesa, as pernas verticaes e os intelectual dos
distância entre a mesa e o banco do educandos.
pés apoiados no solo [imagem 03].
aluno, a posição do livro ou do papel, (MELLO, 1917: 31, 32, 33)17.

63
Imagem 01 – Banco Imagem 02 – Banco
e distancia positiva. Imagem 03 – Attitude
e distancia negativa.
correcta na escripta.

Problemas de curvatura como diretas do posicionamento dos 18


Segundo Dr. Vieira de
a antero-posteriores, cyphose, educandos o que pronuncia tais Mello, nas estatísticas a
maior freqüência de
lordose e cypholordose se encontram deformidades [imagem 04]. As casos de escoliose são
na lista de molestias de coluna escolioses esquerdas (sinistro nas meninas. Isto “se
explica pelo facto de se
encontradas nos educandos. convexa) se apresentam nas escolas dedicarem as meninas
Entretanto, a escoliose é, sem bem mais do que as escolioses ao estudo do piano e a
trabalhos de agulha,
dúvida, o problema de coluna mais direitas (dextro-convexa):
senão pela vida
comum entre a população e entre os sedentária a que são
escolares, “estatisticas mostram que E como esta variedade de escoliose condemnadas.” (MELLO,
corresponde exatamente á attitude 1917: 114).
o numero de escolioses excede a
familiar ás creanças quando
quarta parte da população”18 escrevem [imagem 05] ellas
(MELLO, 1917: 114). É a mais constituem uma prova irrefutável da
freqüente e a mais preocupante, pois influencia da escola na produção
d‟aquellas incurvações. As causas
em determinado grau de avanço da
determinantes das escolioses são
molestia, a escoliose pode apresentar múltiplas, mas todas se acham
quadros irreversíveis, “d‟ahi a ligadas a vícios e defeitos de
necessidade de ser a molestia installações escolares. A
insufficiencia de luz, obrigando o
reconhecida em seu inicio.” (ibidem,
alumno a approximar os olhos do
p: 110). As vértebras, os ligamentos, papel e a curvar o dorso, crea não
os músculos, a caixa torácica, órgãos só a myopia como as incurvações
da cavidade abdominal, os pulmões e vertebraes. (MELLO, 1917: 114-
115).
o coração sofrem conseqüências

Imagem 04 – Alterações Imagem 05 – Escoliose sinistro


anatomicas nas escolioses –convexa.

64
É perceptível nas imagens A posição do livro e/ou do
abaixo demonstradas a preocupação papel, as inclinações da letra
do Dr. Viera de Mello em mostrar as contribuem, também, para a
possíveis deformidades causadas produção de escolioses, tanto na
pela postura incorreta e não mede posição lateral direita do papel,
esforços em relevar tais provocando uma curvatura na coluna
deformidades de maneira objetiva. O em forma de C [imagem 06], quanto
médico-pedagogo parece não se na esquerda, provocando uma
importar tanto com um possível curvatura em forma de D [imagem
impacto que as imagens causariam 07]. “Dahi a necessidade de se
aos seus leitores: o teor pragmático manter o alumno em attitude erecta
das imagens revela sua intenção em e conservar o papel direito em
por em evidência as deformidades da posição mediana” [imagem 08]
coluna em prol da manutenção clara (MELLO, 1917: 122).
de seu projeto higienistas.

Imagem 06 – Posição Imagem 08 – Posição


lateral direita do papel. Imagem 07 – Posição mediana do papel
lateral esquerda do papel

19
Nos estudos da saúde infantil individualizante de outrora. O Cf. FOUCAULT,
Michel. A Microfísica do
do Dr. Vieira de Mello percebemos exercício da medicina vai ser Poder, 1979, pp: 79 a
que ocorrem algumas modificações fundamental nesse processo de 111.
de sociabilidades e sensibilidades a subjetivação que ocorre na
20
partir da influência de elementos da Modernidade, com um incentivo Cf. AGRA, 2006: 54.
chamada Medicina Social, voltada especial à identificação do indivíduo
21
SILVA apud
para o corpo em três facetas: a com sua dimensão corporal21.
OLIVEIRA, Iranílson
medicina do Estado, a medicina As prescrições sobre a infância Buriti. Façamos a
urbana e a medicina da força de e a escola comungam principalmente família à nossa
imagem: a construção
trabalho19, fazendo uma leitura da de duas das três facetas da Medicina de conceitos de família
sociedade como sendo um “macro- Social. O discurso médico do Dr. no Recife dos anos 20.
Tese (Doutorado em
corpo”20, medicando de forma Vieira de Mello é institucionalizado história do Brasil).
coletiva diferentemente da forma pelo Estado, dando legitimidade para Recife, UFPE, 2002.

65
a sua ação dentro do ambiente século XIX. Outrossim, o modo como
escolar; e por sua vez, analisa os tais conceitos são entendidos podem
“locais perigosos” dentro do meio ser configurados em um estudo da
urbano para se construir uma escola, elaboração de tipos regionais para a
se preocupando com a vizinhança do invenção de um modelo infantil.
22
Cf. AGRA, 2006: 55.
edifício escolar e desinfectar Vejamos como Dr. Viera de Mello
22
“espaços, coisas e corpos” . enfatiza, de modo não tão explícito,
A postura, nesse sentido, e tais conceitos a partir do exemplo
ainda dentro de conceitos da paulista.
Medicina Social, é tida como uma No último capítulo, intitulado
espécie de “corpo doente” a ser Médias do desenvolvimento physico
monitorado, corrigido e dos escolares da cidade de São
(re)socializado. Da mesma forma que Paulo, há uma visibilidade das
as cidades passaram por reformas preocupações em relação à
urbanísticas com claras intenções de constituição do denominado “tipo
controlar (ou “curar”) as endemias paulista”, ou seja, os quadros
causadas pelo “caos” da (des)ordem antropométricos registrados e
das antigas metrópoles urbanas analisados formulam médias de
como o acúmulo de lixo, a falta de desenvolvimento dos educandos
esgotamento sanitário, a falta de entre seis e quinze anos de idade na
políticas de higiene, na escola esse cidade de São Paulo. Suas divisões
sentido é (re)significado de modo frisam as diferenciações por sexo,
que todos os hábitos dos educandos calculadas com base em dados como
deveriam passar por um esse tipo de estatura, peso e perímetro torácico
controle. Se a sociedade ocidental da (capacidade respiratória), cuja
época caminhava pelas trilhas de um relação expressava o “coeficiente de
higienismo modernizante, as escolas robustez física”, coletados pelo Dr.
deveriam traçar um percurso Vieira de Mello, no período de 1912 a
paralelo, de modo a justificar os 1916, o que constrói uma identidade
modelos de postura a serem seguidos para a criança paulista.
pelos educandos. A obediência era Ao questionarmos acerca do
fruto de uma sociedade de hábitos “crescimento físico ou
“discretos” e “normativos” e a escola antropométrico”, percebemos que as
passa a ser entendida como o melhor intervenções e estudos propostos
lugar para que se fossem pelo Dr. Vieira de Mello tinham como
perpetuadas as intenções desse tipo objetivo produzir um tipo físico
de controle e discrição: calar e sentar considerado “normal”, em uma
eram os verbos imperativos da relação de alteridade na qual se
conduta “correta” nas escolas constituíam também os quadros de
modernas. “anormalidades”. Afirma ele que:
Os tipos de conduta
elaborados pelo Dr. Vieira de Mello Para se apreciar os desvios da
média de desenvolvimento physico
também estão relacionados com um
de uma creança, compara-se a sua
tipo de infância construído a partir estatura, o seu peso e a sua
dos conceitos de darwinismo social e capacidade respiratória com os de
eugenia em vigência em fins do outra creança da mesma edade,

66
afim de verificar si ella é egual, principal alvo o controle da 23
superior ou inferior, isto é, se as Cf. ROCHA, H. H. P.
população. Inspecionando a escola
médias são eguaes aos da sua
edade, superiores ou inferiores. Os artifícios utilizados para e velando pela saúde
das crianças. Educar em
(MELLO, 1917: 165)23. organizar boletins, rechear fichas revista, Curitiba, n. 25,
sanitárias, historiar resultados e p: 107, 2005.
A antropometria, ao mesmo inventar parâmetros de normalidade,
tempo em que constrói uma cristalizam a imagem de fundamental
identidade infantil paulista, arquiteta importância da IME na construção de
o que é diferente, “anormal”, pois um conhecimento científico acerca da
esse método de exame se configura infância, fazendo parte, de forma
como um dispositivo para a imperativa, na elaboração de
fomentação do público escolar, dispositivos de normalização para
distinguindo-o daqueles que constituir um tipo de higiene e
necessitam de um regime especial eugenia normal. O desvio de
por suas deformidades não preocupação do edifício escolar e do
conformarem às exigências da mobiliário para o corpo e para a
escolarização. A partir desse inteligência da criança ascende
esquadrinhamento do corpo da aspectos para a compreensão da
infantil vão sendo produzidos representação social da escola, tida
parâmetros de normalidade, com como um espaço de socialização e
base no que poderia avaliar quanto disciplinamento da infância. A
“vale physicamente” cada criança, a apreciação dos dois livros produzidos
partir de uma análise comparativa de pelo Dr. Vieira de Mello proporciona
idades. Médias e desvios vão sendo subsídios para uma reflexão sobre a
engendrados para uma construção do cultura escolar. Oferece, ainda,
“tipo paulista” e, ao mesmo tempo, elementos constituídos no encontro 24
Idem, ibidem.
construindo arquétipos do de uma pluralidade de saberes que
“subnormal” e do “supernormal”24. impetram na força da ciência a
Os dois livros produzidos pelo configuração de um novo paradigma
Dr. Vieira de Mello, em diferentes de disposição da escola, conformando 25
Idem, ibidem, p:108.
momentos da sua cruzada, em favor esta instituição de ensino a padrões
da vigilância higiênica escolar e da de “eficiência” e “racionalidade”25.
criança, instituem um conjunto de Contudo, é importante
normas que deveriam orientar as observarmos que dentro da atuação
práticas escolares e produzem vários da inspeção Médica Escolar em suas
dispositivos de poder e de saber práticas de catalogar, classificar
voltados para uma disciplinarização crianças, que levavam em
dos corpos, docilização da sociedade, consideração aspectos como:
inseridos no contexto das estratégias naturalidade, descendência, tipo
agenciadas pelos médicos-higienistas físico entre outros, estão inseridos
ao inventarem futuros cidadãos, pensamentos sobre o
desdobrando-os em corpos desenvolvimento da raça, pois os
civilizados. Estratégias essas que não dados obtidos através de um
podem ser percebidas sem se ter em mapeamento racial, na
conta o amplo projeto de reforma caracterização dos educandos de um
social e moral que tinha como determinado lugar eram
67
26
MARQUES, Vera
analogamente referidos aos dados de raça, numa tentativa de regeneração Regina Beltrão, ROCHA,
educandos de outra determinada racial: H. H. P. A Produção do
aluno Higienizado. In:
localidade, como afirmam Heloísa Anais do VI Congresso
Helena e Vera Regina: Si pretendesse fazer trabalho de Luso-Brasileiro de
robustez physica do “typo paulista”, História da Educação –
terme-ia limitado ás estatisticas de Percursos e desafios da
A temática da raça configura-se, Pesquisa e do Ensino de
escolas onde predominam creanças
nesse sentido, em aspecto central História da educação.
pertencentes a famílias abastadas,
das múltiplas operações que fizeram Uberlândia: EDUFU,
cujas médias isoladamentefornecem
do escolar peça chave nas 2006, p: 4553.
provas de grande robustez, mas que
estratégias desenhadas pela IME em
não exprimem a verdade do ponto 27
São Paulo. A interrogação sobre a “A eugenia é, em
de vista em que colloquei, que é
constituição do povo brasileiro e a outros termos, a higiene
crear o “typo” decorrente da da raça, ou como diz
possibilidade de regeneração racial,
caldeação de raças que se nota em Forel, a seleção
num momento em que a aposta
tão larga escala nesta Capital e da nacional; é a
imigratista mostrava a sua
sua distribuição por egual em quase puericultura antes do
incapacidade de dar conta dos nascimento (Pinard); é
todas as nossas escolas, onde as
sonhos de branqueamento e uma aplicação total das
matriculas accusam um verdadeiro
revigoramento da raça, como ciências biológicas
internacionalismo de progenitores (Houssay). Constitue a
também dos desafios de formação
dos escolares que as freqüentam e a verdadeira religião do
de trabalhadores úteis, produtivos e
maior communhão das profissões futuro, a ciência da
disciplinados colocados pela
que elles exercem29. felicidade, porque se
crescente industrialização, parecem esforça pela elevação
responder por todo este afã de moral e física do
medir, pesar, examinar, registrar, A partir do trecho supracitado, homem, afim de dota-lo
comparar e produzir índices de fica claro o intento de se constituir de qualidades ótimas,
normalidade, com base nos quais de fornecer-lhe
um “typo” paulista eugenicamente elemenyos de paz na
poderiam ser identificadas as
anormalidades.26 normal. Ao que parece, segundo a família, na sociedade,
na humanidade”. Cf.
narrativa do Dr. Vieira de Mello, Galton apud KEHL, R.
A preocupação com a saúde existe toda uma instrumentalização Lições de Eugenia. 2 ed.
Rio de Janeiro: Canton
das crianças não se limitava apenas de visibilidade e dizibilidade dos
& Reile, 1935, p: 16).
aos especialistas da medicina e da dispositivos de conformação de Essas idéias e as
corpos e mentes de crianças “aos promessas nelas
educação, vale lembrar as idéias contidas vão se
fundamentadas no arcabouço teórico ideais que representarão a norma da fortalecendo e
construído por Charles Darwin, raça”30. transformando-se em
movimentos de caráter
teorias eugênicas 27
que, também, A história acerca das crianças científico e social cuja
desempenhavam papel importante na normais, anormais e a constituição abrangência alcançou
inúmeros países, os
construção de uma “typo paulista” de de um “typo” ideal, instauram um quais, no geral,
criança28. A intenção de produzir uma “outro sistema” dentro do qual estão evidenciavam enorme
inseridas. A partir de diversos usos, aceitação. No Brasil, os
modelo de sujeito, de um tipo de discursos em nada
raça que atenta às exigências do (re)apropriações, a partir de suas diferiam. “O Brasil será
condutas, de seus gestos. o Brasil da nossa
mercado de trabalho parecem aspiração, será o
nortear os questionamentos do Dr. Construindo territórios de fuga, os grande Brasil de
Vieira de Mello no momento de quais agenciam linhas de escape, amanhã, quando nele
se implantar a
examinar o aluno nas escolas de São provocando rasuras, conectando suas consciência sanitária e
Paulo. Perceber as características emoções. Tais crianças poder-se-iam cívica, quando todos os
brasileiros souberem
individuais de cada aluno está para instaurar brechas nesse sistema de
zelar a saúde física e
além de simples dados sem disciplina, de controle, de psíquica, quando todos
classificação, de comedimento e os brasileiros enfim, se
importância, configura-se dentro de tornarem aptos para o
um contexto de conformação da instauração do normal. Talvez trabalho e para a
buscassem nas frestas do cidadania” (Kehl, 1929,
p: 3)
68
poder/saber, novas maneiras de nossas indagações: os conceitos de 28
Lembremos que as
instrumentalizar suas singularidades, infância higienizada e de (a)normais, relações de poder são
múltiplas e atravessam
produzindo não uma única história da são construídos discursivamente, a produção do
infância, mas sim histórias das estratégias desenvolvidas pelos conhecimento, não
crianças no tocante à sua saberes/poderes a partir de um lugar havendo poder sem a
constituição de um
pluralidade. de produção e que foram legitimados campo de saber
Histórias que se traduzem dando utilidade ao intento. (FOUCAULT, 1996). Os
saberes são
enquanto inspiração para que as O conceito de infância compreendidos como
luzes do poder possam alcançá-las, higienizada se (re)afirmou no dispositivos políticos
articulados com as
costurando fios, engendrando redes discurso do Dr. Vieira de Mello, pois o estruturas sociais. Os
em outras narrativas, as trazendo os ideais modernos e republicanos efeitos de verdade não
podem ser concebidos
para outros lugares e tempos da precisavam de uma juventude
dissociados do poder e
escrita. Porquanto, sem nunca serem disciplinada e higienizada para seguir dos mecanismos de
apreendidas de tal modo que não seus preceitos de servir à Pátria. O poder, visto que, como
alerta Foucault (2003,
possam reavê-las, essas histórias discurso médico-higienista estava PP: 223-240), esses
singulares de fuga e de burla, “cada construindo novas sensibilidades e mecanismos tanto
tornam possíveis as
individualidade é lugar de onde atua sociabilidades para a família, produções de verdade,
uma pluralidade incoerente de suas sobretudo para o dever ser da quanto essas têm
efeitos de poder,
determinações relacionais” infância. Enquadrar, classificar, entrelaçando-se, assim,
(CERTEAU, 1994: 38), consistirão disciplinar e normatizar as crianças, verdade/poder,
apenas no início de muitas narrativas foi, portanto, uma estratégia saber/poder. O discurso
científico vem produzir
que serão declamadas. produzida pelos intelectuais que subjetividades
compunham o Estado, que se desqualificadas,
colocando os sujeitos
Considerações finais respaldavam no cientificismo em uma posição de
Ao lermos os discursos sobre pragmático emergente na época, tutela em relação ao
conhecimento dos
a infância, classificando crianças em para a construção de uma identidade especialistas, em
“normais”, “anormais”, nacional através da educação. especial do campo da
Psicologia. As práticas
“assimétricas”, “degeneradas”, Na malha discursiva do Dr.
médico/higienistas, ao
“fracas”, gostaríamos de tecer Vieira de Mello é perceptível a busca constituírem uma
algumas considerações. pelas explicações da ciência para infância tida como ideal,
desejável, normal.
Esquadrinhamos o contexto justificar seus pensamentos de Produzem assim uma
discursivo do Dr. Vieira de Mello e disciplina e adestramento da criança. verdade sobre
determinados modos de
percebemos que o início do século Ao buscar esta justificativa, institui a ser, ver e dizer a
XIX foi o cenário para uma avalanche desqualificação de qualquer forma de infância.
de falas e escrituras que emergem na educação corporal e mental que não
pretensão de “exumar” às crianças. possuísse base no saber científico. 29
Mello apud MARQUES,
Vera Regina Beltrão,
Na busca de cartografar as Sua narrativa se aproxima do
ROCHA, H. H. P. A
questões ligadas aos pensamento positivista emergente na Produção do aluno
saberes/poderes, que normatizam as época, pois crer na fase científica Higienizado. In: Anais
do VI Congresso Luso-
diversas categorias sociais a partir da como aquela que goza de Brasileiro de História da
análise livro do médico-pedagogo Dr. superioridade sobre as demais, como Educação – Percursos e
desafios da Pesquisa e
Vieira de Mello, podemos mapear uma evolução natural das ações do do Ensino de História da
alguns intentos para com as crianças homem sobre a natureza. Para educação. Uberlândia:
EDUFU, 2006, p: 4554.
que ainda não se adequaram aos qualquer afirmação, mostrava
mecanismos de controle. A análise do “provas”, demonstrações e exames. 30
Basile apud idem,
corpus discursivo direcionou as Descartava opiniões quando estas ibidem.

69
não se curvavam perante à consenso de que a escola moderna é
demonstração rigorosa dos fatos. espaço dotado de visibilidade e
Destacava a importância para a dizibilidade, voltado para a
existência de regras e preocupa-se, homogeneização dos corpos para a
sobretudo, com a demonstração. produção de crianças perfeitas. E por
Mergulhado nas crenças positivistas, crianças perfeitas entenda-se: de cor
não encontramos pensamentos branca, heterossexuais e sadios
metafísicos em sua obra, moral e fisicamente.
encontramos sim uma tentativa de A educação foi
produzir um discurso sólido, um estrategicamente acoplada á
monumento/documento forte, pois medicina, à psicologia, à psiquiatria e
seguindo os ideais da medicina e à justiça, configurando a cura para a
biologia, só há um método aceito que ignorância, algo necessário para o
é o da experimentação. Todos os “bem - estar“ da nação. As normas
pensamentos dos “sacerdotes de desse “bem - estar“ tiveram na
pseudociências” que não se medicina um dos principais saberes
enquadravam nos cânones balizadores das práticas sociais
positivistas não eram levados em necessárias ao projeto de
consideração. modernidade. Esperava-se que desde
Dentre algumas conclusões a criança as pessoas fossem educadas
que podemos chegar, uma é que para o cumprimento das normas de
recorrer ao passado significa olhar higiene, para o cultivo da intimidade
para o inusitado, ter a noção de que e da auto - culpabilização, enfim para
as vivências não são naturalizadas, o a conservação da moralidade 31
Cf. ROCHA, Heloísa
que significa dizer também, que são “íntegra”. Como bem atesta Rocha31, Helena Pimenta.
Educação Escolar e
passiveis de mudança, de reinvenção as práticas educativas deveriam ser Higienização da
de novos olhares e que, portanto, arquitetadas, de forma que as Infância. In.: Cad.
CEDES [online], abr
não cessam outras possibilidades de atitudes e os comportamentos 2003, vol 23, n° 59.
ver, sentir e atuar, no âmbito fossem conformados à cognição,
educacional. deixando sua marca no processo de
O bem falar, o bem sentar, o produção de sentimentos.
bem comportar-se, o bem sentir, a Educar, então, não foi, no
boa higiene, a boa moral, a boa discurso do Dr. Vieira de Mello,
criança, a boa educação são condutas sinônimo apenas de instrução.
e formas de estar dotadas de Educar também era cuidar do íntimo
narrativas históricas que acompanha do outro, era atentar para os sempre
a olhos atentos, cada contorno de desvios que o corpo da criança e do
nosso corpo à procura do desvio, da jovem pode oferecer. Era imprimir,
lacuna, do detalhe, do perigo. Corpos nesse corpo, disciplina, boas
de crianças desfilam pelos corredores maneiras de se comportar, de sentir,
da escola, sob o olhar atento e de cuidar de si. Este trabalho
escondido das diversas práticas, objetiva aqui mapear como o
sejam elas discursivas ou cotidianas. discurso do médico-pedagogo investe
Ora, não só a História da em estereotipias no que se refere às
Educação, como também parte dos práticas para com as crianças,
atuais educadores compartilham o buscando mostrar como elas são
70
classificadas e disciplinarizadas e, ao como os “registros de ocorrências”,
mesmo tempo, seqüestradas do documentos médico-psiquiátrico dos
convívio integral em sociedade, em alunos. Tecendo uma análise a partir
virtude da necessidade de adestrá- da documentação psiquiátrica
las. podemos inferir problematizações a
São questões que não se respeito da loucura possibilitando ver
fecham aqui, pelo contrário, lançam e dizer como o saber psiquiátrico
provocações, merecem um olhar atribui lugar à infância. Este caminho
mais apurado, isto é, ser revistas e, pode ser investigado e
outra vez, reeditas através de um problematizado a partir de das
edifício mais alicerçado e discussões por pensamento do
amadurecido que o presente estudioso Michel Foucault como
trabalho. Refiro-me especialmente, a História da Loucura, Microfísica do
um exame mais preciso além do que poder e Nascimento da Clínica, entre
já foi escrito aqui para que tais outros, objetivando entender como o
questões possam ser ampliadas a conceito de loucura se aplica á figura
partir de outras problematizações, da criança e se esse conceito teve
intercruzando outras fontes, além sempre o mesmo significado que
dos livros do Dr. Vieira de Mello, temos hoje.

Referências:
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74
DO PASSADO AO MONUMENTO: Cemetery of Shipwrecked in Aracaju, 1
Doutora em História
PROPOSTA DE ARQUEOLOGIA Sergipe. The analysis of material culture Social pela UFRJ;
Professora Adjunta do
HISTÓRICA DO CEMITÉRIO DOS from a tragic moment – the attacks on
Núcleo de Museologia
Brazilian ships by a German submarine in da UFS e do PROARQ –
NAUFRAGOS – SE
Sergipe one coast in 1942 killing 551 Mestrado em
people – based on observation advocated Arqueologia da UFS;
Janaina Cardoso de Mello1 by Edward Soja of three types of spaces
Líder do Grupo de
Estudos e Pesquisas em
Rafael Santa Rosa Cerqueira2 that promote the exchange among men Memória e Patrimônio
and environment: the physical nature, of Sergipano
Resumo (GEMPS/CNPq);
cognition and the social representations.
Pesquisadora FAPITEC-
SE/CNPq; email:
O artigo apresenta uma proposta para se Keywords: cemetery; Archaeology; janainamello@uol.com.
compreender a relação entre passado, Sergipe. br
memória e esquecimento através de um
2
trabalho de Arqueologia Histórica do Graduado em História
pela UNITI; Professor
Cemitério dos Náufragos em Aracaju,
de História
Sergipe. A análise da cultura material Contemporânea
oriunda de um momento trágico – os ORES/UVA; Servidor do
Introdução Tribunal de Justiça do
torpedeamentos aos navios brasileiros
Nas primeiras horas da manhã Estado de Sergipe,
por um submarino alemão na costa lotado no Memorial do
sergipana vitimando 551 pessoas em de 16 de agosto de 1942, a Poder Judiciário.
1942 – baseia-se na observação população sergipana fora Membro do Grupo de
Estudos e Pesquisa em
preconizada por Edward Soja dos três surpreendida com os primeiros Memória e Patrimônio
tipos de espaços que promovem o corpos das vitimas e destroços que Sergipano
intercâmbio entre homens e meio chegavam ao litoral da capital, (GEMPS/CNPq); email:
rafaelsr18@hotmail.com
ambiente: o físico da natureza, o da muitos se perguntavam o que havia
cognição e das representações e o social.
acontecido? Todos se surpreendem 3
Navegava a 20 milhas
com a noticia de que os navios da da costa sergipana,
Palavras-chave: cemitério; arqueologia; quando as 19:00 horas
Sergipe.
Marinha Mercante Brasileira: do dia 15 de agosto de
Baependi3, Araraquara4 e Aníbal 1942 fora atacado.
Benévolo5 foram covardemente
Abstract atacados por um submarino alemão. 4
As 21:h 15 do dia 15
de agosto de 1942 foi
surpreendido por dois
The article presents a proposal to
torpedos que o levaram
understand the relationship between the para o fundo do mar em
past, memory and oblivion through a pouco minutos.
work on historical archaeology of the
5
Na madrugada do dia
16 de agosto, por volta
Fig. 1. – Modelo de um navio das 4h05, todos os
naufragado passageiros e
tripulantes repousavam
em suas acomodações
quando foram atacados
pelo submarino alemão.

Fonte:http://conhecendocesad.blogspot.com/2011/06/cemiterio-dos-naufragos-manifestacao-e.html
(10/08/2011) 75
O submarino alemão U-507, aproximadamente 551 pessoas, entre
comandado pelo Capitão-de-Corveta homens, mulheres, crianças e
Harro Schacht em 12 horas marcaria tripulantes dos navios que
tragicamente a história do Brasil, em navegavam tranquilamente pelas
especial a história de Sergipe, ao águas que banham as praias
vitimar de forma abrupta sergipanas.

Fig. 2. – Vítimas do Bombardeio

Fonte:http://conhecendocesad.blogspot.com/2011/06/cemiterio-dos-naufragos-
manifestacao-e.html (10/08/2011)

Segundo Roberto Sander: “Em inerte diante da ameaça marítima,


Aracaju, o clima era de consternação. populares buscaram, no litoral,
Podia-se sentir no ar o peso do sobreviventes, entre os corpos
drama dos náufragos. As ruas se poderia haver conhecidos ou
enchiam de pessoas buscando parentes. A locomoção para as praias
explicações para o terrível aonde chegavam corpos, destroços e
acontecimento.” (SANDER, sobreviventes eram por 8 km de
2007:198) estradas de chão de difícil acesso.
Com tamanho susto, o povo
aracajuano, prostrado, se tornou

76
Fig. 3. – Vítimas do Bombardeio

Fonte:
http://conhecendocesad.blogspo
t.com/2011/06/cemiterio-dos-
naufragos-manifestacao-e.html
(10/08/2011)

O Jornal Folha da Manhã de corpos e pela grande quantidade de


19 de agosto de 1942 traz em uma sepultaras que precisariam ser
de suas matérias a seguinte abertas em outros cemitérios como
informação: Cruz Vermelha e Santa Izabel.
Devido a proximidade com as
Cadáveres – Pairam sobre as praias praias, aonde grande partes dos
de Sergipe vários cadáveres das
cadáveres chegavam ocorreu a
vitimas inditosas dos navios
torpedeados. Até agora foram necessidade de dar um enterro aos
recolhidos 14 cadáveres, sendo 13 corpos que não conseguiam ser
de adultos e 1 de uma criança. identificados, assim criou-se um
Estes cadáveres depois de passarem
cemitério, que seria posteriormente
pelo serviço de identificação foram
sepultados. chamado de Cemitério dos
Náufragos, que no ano de 1973,
De certo alguns corpos, através do decreto 2.571 de 20 de
devidos ao bom estado, conseguiram maio seria considerado como
ser identificados e enterrados em patrimônio histórico de Sergipe. É
cemitérios como os da Cruz importante lembrar que tal decreto
Vermelha, outros que chegavam foi assinado durante as construções
deteriorados pelo mar, ou mutilados da Rodovia dos Náufragos, que
pelas explosões tiveram seus restos ligaria a capital as praias deste
destinados ao então supostamente litoral, ocorrendo o deslocamento
criado Cemitério dos Náufragos, por deste para seu atual posicionamento.
não haver como reconhecer tais

77
Fig. 1 – Cemitério dos Náufragos

Fonte: http://conhecendocesad.blogspot.com/2011/06/cemiterio-
dos-naufragos-manifestacao-e.html (10/08/2011)

6
Muitos moradores acreditam assim que vamos chamá- Entrevista cedida ao
lo7. Jornal da Cidade de 21
que este cemitério existia muito de novembro de 2010.
antes dos torpedeamentos ocorridos
Portanto, qual será a
em 1942. Para Dona Izaulina: “Já
verdadeira data deste cemitério? 7
Entrevista de José
tinha há mais de 100 anos. Meus pais Dias Firmo dos Santos,
Temos em foco três períodos para
sempre moraram aqui e contavam presidente da
serem definidos, 83, 100 ou 200 Associação Desportiva
que seus avós foram enterrados no
anos de fundação. Com a construção Cultural e Ambiental do
Campinhos”6, já o presidente da Robalo (ADCAR) ao
da rodovia o cemitério foi Jornal da Cidade de 18
ADCAR afirma que:
descaracterizado? Será ele o primeiro de dezembro de 2010.

Tudo bem que ele serviu Cemitério da capital sergipana?


para enterrar os corpos Todos os problemas que poderão ser
dos náufragos dos navios solucionados com um estudo
bombardeados na 2ª
arqueológico adequado ao local,
guerra mundial,
reconhecemos isso, mas respeitando as lápides, as normas da
o Cemitério dos EMSURB e a memória dos
Manguinhos existe há moradores.
mais de 200 anos e será

Fig. 2. Vista aérea da Rodovia dos Náufragos –


Aracaju/SE

Fonte: Google Earth, disponível em 10/08/2011. 78


Em 2006 o Ministério Público determinação judicial, que ainda
continua valendo.9
Estadual (MPE) obrigou a Prefeitura
Municipal de Aracaju a tomar
Assim, temos o Cemitério dos
providências em relação aos 20
Náufragos como protagonista de
cemitérios irregulares existentes na
mais um embate entre moradores e
capital para que suas ossadas fossem
prefeitura, os primeiros buscam
transferidas para cemitérios
solução para sepultar os seus
legalizados. No entanto, Ademir da
mortos, enquanto o segundo cumpre 8
Entrevista concedida
Silva, ambientalista e presidente da ao Jornal da Cidade de
a ordem judicial de interditar os
Associação de Moradores do Robalo, 03 de novembro de
cemitérios tidos como ilegais, porém, 2006.
mostrou-se a favor de uma
como considerar ilegal um cemitério
adequação física e ambiental do
que através de decreto estadual é
cemitério para que o mesmo continue
Tombado como Patrimônio Histórico?
a ser utilizado pela população, que 9
Jornal da Cidade, 18
deseja sepultar seus mortos neste de dezembro de 2010.
Por uma Arqueologia Histórica
cemitério como deixou claro a dona
dos Cemitérios urbanos: Sergipe
de casa Lúcia Maria da Silva: “Já
em foco.
pensou um cortejo fúnebre saindo
Durante muito tempo,
daqui em destino ao cemitério São
cemitérios foram tidos como fontes
João Batista?”8.
de pesquisa para Arqueologia Pré-
Atualmente o Cemitério dos
histórica, no entanto a Arqueologia
Náufragos (Manguinhos ou
Histórica, responsável pelo estudo
Campinhos) é causador do embate
contemporâneo pouco vêm
de moradores do Mosqueiro e Robalo
desenvolvendo pesquisas referentes
contra a Prefeitura de Aracaju, algo
ao estudo de cemitérios urbanos
mostrado pelo Jornal da Cidade:
existentes no século XX, por isso a
Moradores do Povoado Robalo, na dificuldade de indicar algumas obras
zona de expansão de Aracaju, vão que abordem a temática em questão.
reabrir por conta própria o Não obstante, consideramos
Cemitério dos Manguinhos, mais
que diferenciar as duas áreas da
conhecido como Cemitério dos
Náufragos, nesta manhã, 18. O ato Arqueologia torna-se necessário, pois
em protesto contra o descaso do facilitará a delimitação do tema e na
poder público quanto à construção concepção de se estudar um passado
de um novo cemitério na região,
recente como propôs Orser: “O que
será realizado principalmente no
sentido de atender a necessidade da diferencia a arqueologia histórica é
população, que não tem onde seu foco de atenção no passado
enterrar familiares mortos. Foi o que recente ou moderno, um passado
informou o presidente da Associação
que incorporou muitos processos,
Desportiva Cultural e Ambiental do
Robalo (ADCAR), José Dias Firmo perspectivas e objetos materiais que
dos Santos. Segundo ele, no último ainda estão sendo usados em nossos
dia 8 foi realizado o primeiro enterro dias”.(ORSER, 1992: 28)
no cemitério, depois de quase
Já o arqueólogo Funari
quatro anos interditado por uma
pontua: “Tornar-se arqueólogo

79
implica em considerar que a que as fontes textuais e
patrimonialização dos objetos faz arqueológicas se contradigam”.
parte integrante do ofício (RAMBELLI, 2008: 58). Logo, as
arqueológico”. (FUNARI, 2000: 08). fontes primárias escritas encontradas
Entendemos com isso que não se no levantamento de informações do
pode desvincular a importância que o sítio arqueológico compõem o
arqueólogo detém na descoberta de processo de cruzamento destas com
artefatos, que após todo trabalho de os artefatos encontrados no espaço
campo será considerado um físico.
patrimônio material, como também Por se tratar de um sítio
na preservação do sítio arqueológico. recente, será sempre necessário o
O autor do livro Introdução a diálogo com a comunidade, ou seja,
Arqueologia Histórica propõe alguns a utilização de entrevistas com o
pontos como: “patrimônio material objetivo arqueológico, assim
de comunidades concretas” (ORSER, entendemos que:
1992: 09), “desenvolvimento urbano”
(ORSER,1992: 26), “contexto de um A informação oral tornar-se muito
útil, em geral, nos casos em que o
artefato.” (ORSER, 1992: 32), “estilo
arqueólogo esta estudando um sitio
das lápides” (ORSER,1992: 76), que que foi ocupado em tempos ainda
serão utilizados no trabalho por se presentes na memória de
encaixarem perfeitamente no eixo testemunhas, ou nos casos em que
o arqueólogo deseja conhecer a
temático.
história do sítio após seu uso pelo
Entende-se que a Arqueologia povo que originalmente o construiu
Histórica necessita de outras fontes e usou. (ORSER, 1992: 45)
para compreensão do sítio em
estudo, assim partiremos do Levando-se em conta a
pressuposto: escassez de produções acadêmicas
voltadas para o estudo dos
Documentos históricos constituem cemitérios enquanto objeto de estudo
uma importante fonte de informação
da Arqueologia, conseqüentemente,
que os arqueólogos podem usar
para conhecer o passado, em como patrimônio material, são
termos de assentamentos e seus ressaltados os trabalhos de Solimar
habitantes, mas estes documentos G. Messias Bonjardim, Maria
também permitem aos arqueólogos,
Augusta Mudin Vargas (2010) e de
como aos historiadores, propor
interpretações interessantes e Adel Samira Osman, Olívia Cristinha
potencialmente significativas. Ferreira Ribeiro (2007), que tratam o
(ORSER, 1992: 42) universo dos cemitérios no âmbito da
arqueologia e da patrimonialização
Outrora, Rambelli propõe o destes.
cuidado a ser tomado pelo As primeiras autoras, em O
arqueólogo ao trabalhar fontes Visível e o Invisível: A paisagem
escritas: “A documentação textual arqueológica da morte em São
não deve ser aceita como a verdade Cristovão e Laranjeiras – SE, trazem
dos fatos, deve ser criticada e para o debate acadêmico que a
questionada, devido à carga paisagem da morte está presente em
ideológica que representa. É comum todas as cidades, como signos de um
80
dado período. Salienta que ao se transmitem mensagens sobre como
trabalhar com cemitérios, lidamos são as estruturas da sociedade, que e
com o visível e o invisível 10. ações e relações sociais tem sido
Em Arte, História, Turismo e praticadas” (ACUTO, 1999).
Lazer nos Cemitérios de São Paulo, Nesse sentido, a paisagem
as autoras elencam que: “Vencendo alterada seja pela culminância dos
temores, tabus e preconceitos, bombardeios e pela necessidade de 10
“A paisagem
podemos descobrir que além muros cemitérios ou pela construção da arqueológica da morte
dos chamados campos-santos há um rodovia dos Náufragos corrobora a das cidades estudadas
existe somente
mundo de descobertas a serem idéia de que “as sociedades humanas enquanto templos e
feitas”. (OSMAN; RIBEIRO, 2007: 02) não são simples objetos das leis da túmulos. Por mais que
muita coisa tenha sido
mostrando a importância de se natureza, são sujeitos que a destruída, muito ainda
estudar os cemitérios, rompendo com transformam e a incorporam nas existe e uma pesquisa
na história sobre o
os paradigmas existentes para com a suas relações”. (LEWONTIN Apud
porquê da paisagem
temática. No entanto foca o texto na HARVEY, 1996: 185). logo revelou o visível.
importância patrimonial que os Aqui, detém-se a noção de Todavia, o invisível não
é tão facilmente
cemitérios detém, ou seja, devem ser que os pressupostos teóricos desvelado, o que está
vistos como atrações turísticas nas indicados acima, auxiliam escondido não é
percebido nem pelos
cidades, propondo que os mesmo significativamente no direcionamento observadores, nem
deveriam ser tratados como museus da pesquisa em questão, ao passo pelos moradores.”
(BONJARDIM; VARGAS,
a céu aberto por possuírem em seu que outros autores farão parte do 2010: 212)
interior história, arte e curiosidades. referido trabalho, ao mesmo tempo
As autoras indicam que: “Ao em que, alguns serão revistos, outros
contrário da tradição européia e de descartados e alguns aprofundados.
outros países do mundo que
consideram a exploração turística de Do tabu ao método: a
seus cemitérios, no Brasil pouca Arqueologia Histórica aplicada
atenção tem se dado ao tema, aos cemitérios.
embora a riqueza e a história de Partindo do pressuposto que
nossos cemitérios façam jus a um nenhuma pesquisa acadêmica poder-
interesse maior”. (OSMAN, 2007: se-á se desenvolver sem a
07). interdisciplinaridade, ou mesmo, sem
Baseando-se ainda na uma ligação entre as diferentes
concepção de Soja (1993) dos três fontes tanto os recursos da história
tipos de espaço: o espaço físico da oral, como da memória são
natureza, o espaço da cognição e das instrumentos fundamentais para se
representações e o espaço social, trabalhar no decorrer do projeto um
relacionando-se assim com as projeto de Arqueologia Histórica.
dinâmicas de transformação, Inserindo-se nessa seara estão
apropriação e usos do meio ambiente fontes primarias como decretos
ao longo do tempo refletindo nas governamentais, fotografias, plantas,
mudanças da paisagem. Espaços projetos de urbanização e
onde as sociedades se estabelecem, documentos referentes aos
constroem e incindem sobre a cultura torpedeamentos existentes no
material, ou seja: “através de sua Arquivo Público do Estado de
materialidade comunicam sentidos e Sergipe. Na tutela do Arquivo do
81
Judiciário encontram-se os processos também compõem o universo de
envolvendo ações referentes ao potenciais entrevistados.
cemitério. Outra fonte primária Entende-se que a
pertinente são os jornais dos anos de comunidade ao redor do cemitério
1942 e 1973 acondicionados no detém certas memórias sobre fatos e
Instituto Histórico e Geográfico pessoas ligadas ao objeto de estudo.
Sergipano (IHGSE). Para Maurice Halbwachs: “nossas
Dentre as fontes secundarias lembranças permanecem coletivas e
relacionam-se artigos existentes na nos são lembradas por outros, ainda
Revista do IHGSE, monografias que se trate de eventos em que
referentes à participação de Sergipe somente nós estivemos envolvidos e
na Segunda Guerra Mundial, objetos que somente nós vimos.”
presentes nas bibliotecas da (HALBWACHS, 2006:30) Outrora,
Universidade Federal de Sergipe e na não poder-se-á ignorar a memória
Universidade Tiradentes, coletiva que perpassa de gerações
documentários (Sergipe na Segunda para gerações informações e
Guerra Mundial, produzido pelo tradições.
Memorial do Poder Judiciário de No que se refere ao uso das
Sergipe, além do U- 507, vencedor técnicas empregadas pela
de dois prêmios no Curta-Se). arqueologia no trabalho de campo,
Outrossim, entendemos que a que poderá culminar com artefatos a
Arqueologia Histórica estuda um serem estudados para compreensão
passado recente, ou seja, um do passado, além da conscientização
passado moderno, o qual segundo patrimonial, são levados em
Orser: “incorporou muitos processos, consideração:
perspectivas e objetos materiais que Fotografias aéreas:
ainda estão sendo usados em nossos permitindo identificar os contornos
dias.” (ORSER, 1992: 28) geográficos e a localização do terreno
No decorrer da pesquisa (cemitério).
arqueológica a História Oral, através Levantamento
da realização de entrevistas semi- Planialtimétrico: visa obter as
abertas, propicia o intercâmbio entre coordenadas da superfície do terreno
as formas de apropriação do espaço (cemitério), proporcionando todas as
e a construção da rede de relações dimensões, área, elevações e
simbólicas que permeiam as distanciamento dos pontos de
rememorações dos torpedeamentos referência (vegetação, lápides entre
de 1942 em Sergipe, uma vez que a outros a serem definidos)
existência de populares que Sondagens: poderão ser
presenciaram os enterramentos dos abertas trincheiras entre 1 á 3
corpo e no total estão na faixa etária metros de profundidade, com
de 80 remontam informações sobre o espaçamento adequado ao ambiente,
surgimento do cemitério e sua onde serão realizadas buscas de
utilização pela comunidade. Outros artefatos.
habitantes que tiveram entes Tratamentos dos artefatos:
familiares sepultados neste cemitério, todo material extraído na escavação
deverá ser protocolado e examinado,
82
os demais, serão postos novamente Considerações Finais
na escavação com o auxilio de Através do decreto estadual
fotografias. número 2.571, de 20 de maio de
Trabalho em laboratório: 1973 o Cemitério dos Náufragos,
todos os artefatos encontrados em localizado na Rodovia dos Náufragos
campo serão minuciosamente em Aracaju – Sergipe foi tombado
estudados e consultados por uma como monumento histórico, no
equipe multidisciplinar na análise e entanto, atualmente tal patrimônio
catalogação destes. Após este encontra-se abandonado pelo
trabalho serão elaborados relatórios governo estadual como aponta
contendo fotografias, diagramação e reportagem do Jornal da Cidade:
especificações/classificação de cada
peça. Ele contou que recentemente, ao
passar pelo Cemitério dos
Durante as intervenções no
Náufragos, ficou desolado com
espaço físico serão respeitados os a quantidade de lixo e mato que
túmulos, lápides e toda pesquisa havia no local. Na semana passada,
caminhará em acordo com as normas o cenário era menos desolador.
Moradores da região que tem
estipuladas pela EMSURB, órgão
familiares sepultados naquele
responsável pelos cemitérios da cemitério queimaram o matagal e
capital. retiraram parte do lixo para
Outrora, os métodos reverenciar os mortos no Dia de
Finados. (Jornal da Cidade,
utilizados na pesquisa caminham
21/11/2010)
para conservação, divulgação e
reafirmação deste patrimônio
O desenvolvimento da
histórico sergipano, assim, segundo
conscientização e valorização deste
Funari e Pelegrini:
Patrimônio Histórico Estadual, que
atualmente encontra-se dilapidado
Somente a investigação minuciosa
sobre as origens históricas do pela ação do tempo e vítima do
patrimônio e suas características esquecimento das autoridades e da
estéticas, bem como a observação população, aliado à pesquisa
atenta da densidade populacional e
arqueológica proposta servirá como
das tipologias urbanas da região 11
Em Entrevista ao
estudada, podem oferecer pistas um instrumento para atividades Jornal da Cidade em 18
precisas sobre os métodos direcionadas para uma educação de dezembro de 2010, o
adequados à sua recuperação. Presidente da
patrimonial. Associação Desportiva
(FUNARI, 2009: 34)
O estudo arqueológico do Cultural e Ambiental do
Cemitério dos Náufragos busca Robalo afirmou que:
Desta forma, todos os “Tudo bem que ele
através da cultura material coletar serviu para enterrar os
pressupostos metodológicos corpos dos náufragos
informações que possam corroborar
elencados acima buscarão de forma dos navios
ou refutar a data de criação deste, bombardeados na 2ª
minuciosa resgatar informações
tendo em vista que alguns populares guerra mundial,
pertinentes sobre o Cemitério dos reconhecemos isso, mas
afirmam que o mesmo já existia há o Cemitério dos
Náufragos, que poderão
mais de dois séculos11, ou seja, seria Manguinhos existe há
posteriormente serem utilizadas em mais de 200 anos e será
anterior ao período dos
um trabalho de educação patrimonial assim que vamos
torpedeamentos de 1942 no litoral chamá-lo”.
com a comunidade.
sergipano.

83
Durante o ano de 1942, o desabitadas, passaram por um
Brasil, em especial Sergipe tornaram- crescimento populacional gigantesco,
se alvos em seu litoral do ataque de algo nitidamente claro em torno
submarinos alemães e italianos, os deste cemitério, já que o mesmo está
quais provocaram a morte de inserido em uma das zonas de
centenas de inocentes que viajavam expansão da capital sergipana. À
em navios da marinha mercante medida que a cidade cresceu e
brasileira. Desta forma, todos os avenidas foram construídas ocorreu
corpos que chegavam ao litoral foram uma considerável mudança
enterrados em cemitérios da capital e geográfica deste cemitério no ano de
interior e em Aracaju foi criado o 1973, com isso a pesquisa torna-se
Cemitério dos Náufragos, com o cada vez mais importante no intuito
objetivo de sepultar as vítimas da de salvaguardar e estudar este
ação nazi-fascista na costa patrimônio, como também, analisar a
sergipana. importância social dele para
Aracaju vem sofrendo uma comunidade em seu entorno e os
expansão urbana, onde cada vez embates desta com a prefeitura
mais áreas que até então eram Municipal de Aracaju.

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85
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da Manhã, 21 de agosto de 1942. p. 1.
A Vibração Cívica de Sergipe. Folha da Manhã, 24 de agosto de 1942. p. 1.
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Benevolo, Itagiba e Arara. Folha da Manhã, 19 de agosto de 1942. p. 1, 3.
Vandalismo “Eixista” Covarde Agressão da canalha nazista – torpedeado mais três
navios brasileiros. Folha da Manhã, 18 de agosto de 1942. p. 1.

86
“AS PERIPÉCIAS DO PAVOROSO practices. From this perspective, we 1
Doutorando em
DRAMA DO GOLGOTHA”: examined the said procession into the História – UFF.

A PROCISSÃO DO ENCONTRO EM context of Catholicism in the city, defiled


by prominent changes. Reading the
ARACAJU
Catholicism that metamorphosed before
Magno Francisco de Jesus Santos1
the eyes of new actors of the local clergy
had the power schedules,
Resumo announcements, notes and chronicles
published in major newspapers in
Esse artigo tem o intuito de compreender Aracaju, in the period in focus. They are
a procissão do encontro na cidade de texts illustrate the scenario experienced
Aracaju nos primeiros decênios do século by Catholic population of Aracaju in the
XX. Trata-se de uma leitura acerca das early twentieth century.
tradições atinentes ao período da
Semana Santa na capital dos sergipanos. Keywords: procession, religion, Aracaju.
Com a mudança da capital de Sergipe de
São Cristóvão para Aracaju em 1855 teve
início às tentativas de projetar Aracaju
como ícone da modernidade, incluindo
nas práticas devocionais. Partindo dessa
“As celebrações da nova capital
perspectiva, foi analisada a referida
sergipana”
procissão inserida no contexto do
catolicismo da cidade, conspurcado por
Véspera do Domingo de
proeminentes transformações. A leitura
Ramos. Nas ruas da nova capital
desse catolicismo que se
metamorfoseava diante dos olhos de sergipana os moradores mais antigos
novos atores do clero local teve como vestiam-se de luto. Na feira, as
fonte programações, anúncios, notas e bancas de peixe encontravam-se
crônicas publicadas nos principais jornais repletas de consumidores, tentando
de Aracaju, no período em foco. São suprir as necessidades da longa
textos que ilustram o cenário vivenciado semana que estava prestes a iniciar.
pela população católica aracajuana em Visitantes chegavam dos municípios
princípios do século XX.
do interior do estado, enquanto
outros se deslocavam para cidades
Palavras-chave: procissão,
religiosidade, Aracaju. como Laranjeiras, Maruim e,
principalmente, São Cristóvão, no
intuito de acompanhar as celebrações
Abstract do martírio de Cristo. Eram os
agitados dias que dariam início as
This article aims to understand the solenidades da Semana Santa em
procession of the meeting in the city of Aracaju.
Aracaju in the first decades of the
A população católica de
twentieth century. It is a reading about
Sergipe nos primeiros anos do século
the traditions relating to the period of
Holy Week in the capital of Sergipe. With
XX ainda era movida pela cultura
the change of the capital of Sergipe to barroca, pelo catolicismo penitencial
São Cristóvão to Aracaju in 1855 began maculado pelas expressões públicas
the attemps to design Aracaju as icon of de dor e sofrimento. As cidades, vilas
modernity, including the devotional e povoações no início do século eram
87
marcadas pelos espetáculos de eleva a effeito em honra de S. 2
A cidade de Aracaju foi
procissões que aglomeravam grande Benedicto” (A CRUZADA, 03-01- planejada para ser
elevada a capital da
parte dos moradores. No entender de 1926, p. 4, col. 5). Além das província de Sergipe em
Léa Perez, “dia de procissão e de contagiantes festas em louvor ao meados do século XIX.
Até então a capital
festa era um dia de entusiasmo na santo negro, na referida capela
sergipana era São
cidade. Multidões de pessoas também se destacava as atividades Cristóvão, localizada às
invadiam as ruas e as praças nas religiosas do período quaresmal. margens do rio
Paramopama. Em 1855,
proximidades da igreja. A cidade Nas celebrações da Semana no transcorrer do
inteira era agitação e movimento” Santa na capital sergipana esse governo do presidente
Joaquim Inácio Barbosa,
(PEREZ, 1994: 2). Em Aracaju, a colorido não era tão vívido. A alegria foi inaugurada a cidade
realidade não era destoante. não aparentava ser tão contagiante. de Aracaju, projetada
pelo engenheiro
Entre o final do século XIX e Predominavam as cores sóbrias, o Sebastião José Pirro,
início do XX, a capital sergipana preto e o roxo. Predominavam o localizada no estuário
estava abarcada na efetivação de silêncio e os cânticos piedosos. Era do rio Sergipe. Apesar
de ser projetada em
uma vasta gama de festas de santos, tempo de reflexão, contemplação, de meados do século XIX,
com procissões, novenas e missas. exercer a piedade cristã. Mesmo a cidade no início do
século subseqüente
Eram inúmeras solenidades em que assim, os moradores da nova e ainda ainda apresentava
diferentes épocas do ano inóspita capital2 tentavam recriar as sérios problemas
estruturais, como
movimentavam a cidade. Do primeiro tradições de seus municípios de salienta Maria Nely
ao último dia do ano havia origem. Tentavam reconstituir os Santos (2002).
comemorações de cunho religioso. cenários pomposos do catolicismo 3
A documentação que
Entre os principais séquitos barroco das cidades de Laranjeiras e trata sobre o processo
destacavam a de Bom Jesus dos São Cristóvão. de mudança da capital e
principalmente, os
Navegantes (1º de janeiro), São Certamente uma dessas textos de memorialistas
Benedito (6 de janeiro), Santo tradições recriadas, reinventadas, era sergipanos da segunda
metade do século XX
Antônio (13 de junho), Nossa a procissão do Encontro. As
evidenciam que a maior
Senhora do Rosário (data móvel), celebrações quaresmais em torno da parte dos moradores
Santa Cecília (data móvel), Nossa devoção ao Senhor dos Passos e que foram viver em
Aracaju após a
Senhora da Conceição (8 de Nossa Senhora das Dores estava mudança da capital era
dezembro) e Senhor dos Passos presente em diferentes cidades do proveniente de São
Cristóvão,
(Domingo de Ramos). Isso significa interior, como Laranjeiras, Maruim, principalmente
dizer que o calendário católico dos Rosário do Catete, Itaporanga funcionários públicos.
aracajuanos também era d‟Ajuda, Estância, Itabaiana, Lagarto
diversificado, com festividades de e Santo Amaro das Brotas. Todavia,
distintos cunhos. era em São Cristóvão que havia o
Um dos principais palcos das grande espetáculo com a romaria que
festas religiosas da capital era a todos os anos ocorriam no segundo
igreja São Salvador, sita no centro da final de semana da Quaresma. Em
cidade. Desde o alvorecer do ano a Aracaju, os antigos moradores da
pequena capela vivia a pulular com velha capital, tentaram reconstruir a
suas festividades. Os jornais de tradição da cidade deixada para
Aracaju noticiavam as festas: “Festa trás3.
de S. Benedicto. No próximo dia 6 Aparentemente, isso
deste haverá na Igreja de S. demonstra que o processo de
Salvador a costumeira festa de que mudança da capital não ocorreu
um grupo de moços todos os annos, somente no campo político. Com a
88
saída de funcionários públicos da legitimar a imagem de progressiva,
4
cidade do Paramopama para as moderna e exemplar da vanguarda No ano de 1911 tomou
posse o primeiro Dom
terras do Aracaju, ocorreu um fluxo estadual. Não só isso! Os impressos José Thomaz, primeiro
de anosas tradições. Antigas também anunciavam os produtos a bispo da recém criada
Diocese Nossa Senhora
devoções foram trazidas pelos serem vendidos no comércio, da Conceição de
moradores, entre elas, a devoção ao ditavam modas, registravam os Aracaju. A partir desse
momento Sergipe
Cristo com a cruz as costas. diferentes modos de ser. A realidade conseguiu sua
Esse artigo tem o intuito de desejada pela sociedade aracajuana autonomia eclesiástica
compreender a procissão do encontro está preservada nos registros das frente à Bahia, o que
resultou no
na cidade de Aracaju nos primeiros folhas amareladas dos jornais acompanhamento das
decênios do século XX. Trata-se de sergipanos provenientes da primeira solenidades religiosas
pelo clero com maior
uma leitura acerca das tradições metade do século XX. São eficácia. Em 1913 o
atinentes ao período da Semana testemunhos de seu tempo. Seminário Diocesano
Sagrado Coração de
Santa na capital dos sergipanos. Jesus, responsável pela
Partindo dessa perspectiva, foi “A Divina Victima do Golghota” formação do clero local
(BARRETO, 2004).
analisada a referida procissão 17 de março de 1855. Essa
inserida no contexto do catolicismo data é um marco da história política
da cidade, conspurcado por de Sergipe, pois remete a mudança
proeminentes transformações. da capital de São Cristóvão para a
A leitura desse catolicismo que planejada cidade do Aracaju.
se metamorfoseava diante dos olhos Todavia, esse marco não deve ser
de novos atores4 do clero local teve visto apenas no plano político.
como fonte programações, anúncios, Juntamente com a comitiva do
notas e crônicas publicadas nos presidente da província, Joaquim
principais jornais de Aracaju, no Inácio Barbosa, muitos cristovenses
período em foco. São textos que foram obrigados a deixar a velha
ilustram o cenário vivenciado pela capital e iniciar uma nova vida nas
população católica aracajuana em “praias do Aracaju”.
princípios do século XX. A nova Essa mudança fez com que
centúria iniciara com a renovação da muitas expressões do aparato
religiosidade, inclusão de devoções e cultural de São Cristóvão fossem
festas no já concorrido calendário. A recriadas na nova cidade. Aracaju
rotina da população estava atrelada nascia sob a égide da modernidade,
aos espetáculos públicos de novenas, no projeto de sufragar a idéia da
missas e procissões. Era o cenário cidade colonial. Todavia, as antigas
permeado pelo Apostolado da Oração tradições da cidade de São Cristóvão
e Legião de Maria, com a devoção ao foram difundidas em Aracaju. Por
Sagrado Coração de Jesus (AZZI, esse ângulo, percebe-se que as
2001). questões atinentes a mudança da
A imprensa sergipana capital extrapolam o campo político.
registrou momentos importantes do Pode-se dizer que enveredam pelo
catolicismo de Sergipe no aludido que vem sendo denominado de
período. As celebrações eram cultura política. O projeto de
anunciadas como elementos modernização implantado na
inovadores, da vanguarda de uma província de Sergipe em meados do
cidade que suspirava constituir e século XIX revelava São Cristóvão
89
como sinônimo do atraso que A devoção ao Senhor dos
emperrava o progresso, uma Passos estava presente na sociedade
representação do passado que sergipana do oitocentos e certamente
deveria ser superado, numa clara era a que mais mobilizava a piedade
conotação da cultura política vigente cristã na província. Praticamente
no momento, com uma leitura todas as igrejas paroquiais da
comum e normativa do passado província possuíam imagens que
(BERSTEIN, 1998: 350). eram utilizadas nas procissões da
Nesse sentido, se faz mister Semana Santa. Todavia, o que torna
buscar “o político mais que político” o caso de Aracaju diferente é a
(RÉMOND, 1996: 36). É importante qualidade artística da imagem do
observar que a transferência da Senhor dos Passos que foi depositada
capital ocorreu na semana mais na capela. Na ótica de Libetato
movimentada da cidade de São Bittencourt, “a imagem do Senhor
Cristóvão, em decorrência da dos Passos, bela representação do
tradicional festa do Senhor dos Nazareno, sob o peso da cruz,
Passos. Na quarta-feira após a narinas dilatadas pelo cansaço,
procissão do Encontro, ainda havia membros delicados, numa tensão
alguns romeiros deixando a cidade, extraordinária de esforço, uma
quando foi assinada lei que transferiu legítima obra de arte enfim, digna de
capital. Naquele dia não apenas os figurar nos mais ricos templos da
romeiros que se despediam da cristandade” (BITTENCOURT, 1912:
cidade, mas também alguns 194).
moradores que eram funcionários Uma imagem que
públicos e foram obrigados a seguir impressionava pelo realismo e pela
para Aracaju. perspectiva de sofrimento
Nos primeiros anos da engrandecia o pequeno templo da
capital as solenidades religiosas eram nova capital de Sergipe. As imagens
celebradas na ermida São Salvador. da capela São Salvador mantiveram
Concomitante com a edificação dos os mesmos elementos que estavam
prédios públicos foi realizada a presentes nas congêneres da Bahia.
ornamentação do templo católico, Segundo Maria Helena Occhi Flexor:
com a construção dos altares e a
compra de imagens sacras. Não foi Várias procissões da Bahia
impressionavam pela exteriorização
por acaso que uma das primeiras
religiosa, através de
imagens depositadas na igreja foi a ornamentações, gestos e
do Senhor dos Passos, em tamanho iconografia, numa réplica local dos
natural, articulada, com olhos de modelos espanhóis. Para maior
realismo, as imagens traziam de
vidro e peruca. Uma imagem
olhos de vidro, lágrimas de cristal
semelhante a de São Cristóvão, que ou resina, dentes e unhas de osso
todos os anos reunia milhares de ou marfim, cabelos humanos,
romeiros nas procissões do segundo braços e pernas móveis e cores
extremamente naturais (FLEXOR,
final de semana da Quaresma. Seria
2005: 170).
uma mera coincidência?
Provavelmente não.
Além disso, a imagem
evidenciava uma preocupação dos
90
parcos moradores da localidade: criar documentação do Arquivo da Cúria
espaços na cidade para as suas de Aracaju não apresentava nenhum
devoções. A população aracajuana registro sobre a origem da imagem.
não criou um novo leque devocional, A resposta estava em um dicionário
mas reconstituiu o aparato que era de cunho biobibliográfico, produzido
possível encontrar no interior da no início do século XX. Liberato
província. Desse modo, as velhas Bittencourt em 1912 informou que na
tradições foram recriadas em cidade de São Cristóvão havia um
Aracaju. artista de grande valor, apesar de
No caso da imagem do nunca ter estudado em escolas de
Senhor dos Passos, o referencial Belas Artes, nem ter conhecido
sergipano estava em São Cristóvão, artistas renomados.
velha capital e que realizava a maior O artista que esculpiu a
romaria de Sergipe. Pode-se até imagem do Senhor dos Passos foi
mesmo dizer que a imagem da Manoel Serapião Pereira Leite,
capela de São Salvador teve como conhecido em sua terra natal por
inspiração a congênere da velha “Neco Pintor e tinha um jeito especial
capital. Essa argumentação é apenas para a escultura” (BITTENCOURT,
uma plausibilidade, que se torna 1912: 194). Neco fazia parte de uma
mais pertinente ao observar que a família de artistas, pois o seu irmão,
origem da maior parte da população José da Anunciação Pereira Leite,
da nova cidade. Todavia, mesmo popularmente conhecido como José
sabendo que a população provinha Bochecha era uma dos maiores
de São Cristóvão e que a devoção ao músicos de Sergipe. Segundo o
Senhor dos Passos se propagava por biógrafo Bittencourt, “sem a precisa
toda a província (SANTOS, 2011), se educação técnica, porque em Sergipe
torna difícil confirmar essa hipótese não existia escola apropriada, Neco
sem uma discussão sobre a autoria dedicou-se a trabalhos em madeira,
da obra em questão, tendo em vista no que chegou a ser perfeito”
que a imagem poderia ter sido (BITTENCOURT, 1912: 194).
esculpida em outra província do Certamente a perfeição a
Brasil ou até mesmo na Europa. que Liberato Bittencourt se referia
As questões atinentes à era com relação a imagem do Senhor
autoria no Brasil são complexas. Em dos Passos da capela São Salvador,
muitos casos, as imagens eram considerada a obra-prima do
frutos de trabalhos coletivos, em que escultor. A expressão do Cristo
atuavam diferentes especialistas esmagado pelo peso da cruz e com
como escultores, douradores, olhar agonizante é marcadamente
armadores e encarnadores. Nessas reveladora dos aspectos devocionais
situações, as obras geralmente são do catolicismo barroco. Todavia, a
atribuídas às chamadas escolas imagem traz aspectos que denotam
artísticas, em que atuavam elementos da escultura neoclássica,
diferentes pessoas. afastando-se da imagem que a
Em relação à imagem do inspirou. Um sinal dessa assertiva é
Senhor dos Passos, a resposta que a imagem da capela São
parecia difícil de ser decifrada. A
91
Salvador não possui muitas chagas inspiração as imagens de sua terra
na face. natal.
O artista foi responsável pela O que isso significa? Seria
criação de inúmeras imagens que apenas uma reprodução das
ornaram as igrejas de Aracaju e tradições de São Cristóvão na nova
Laranjeiras. Além do Senhor dos cidade? Seria a tentativa de recriar
Passos, Manoel Pereira Leite esculpiu uma cidade de São Cristóvão mais
as imagens de São Paulo (existente próxima ao mar? Certamente não. A
na matriz Sagrado Coração de Jesus mera implantação em Aracaju de
de Laranjeiras) e Nossa Senhora da celebrações tradicionais não significa
Soledade (matriz Nossa Senhora da o retorno ao passado, mas sim o uso
Conceição de Aracaju), sendo que desse passado no intuito de projetar
esta faz parte do conjunto que um novo futuro. As imagens sacras
representa a procissão do Encontro tinham traços semelhantes às
com os passos do caminho do existentes na velha cidade, todavia, a
Calvário. forma de culto se daria de forma
Sobre a imagem da Soledade distinta. Aracaju seria uma capital
Liberato Bittencourt afirma: “uma voltada para a modernidade, ao
outra obra sua de valor é a Virgem menos nos discursos.
Mãe, a Soledade, como lhe chamam O fato das imagens terem
os católicos em Aracaju, formosa sido criações de um artista
mulher de raça hebraica, perfeita nas cristovense também foi apagado da
suas formas e na expressão cativante memória coletiva. Afinal, as imagens
de sua dor profunda” (BITTENCOURT, eram dignas de estarem nos grandes
1912: 124). Como se pode perceber, templos europeus e não denotavam
perfeição era uma atribuição ser fruto do trabalho de um artista
recorrente às obras de Neco. local, “obra de Neco, de um artista
Do mesmo modo, os que nunca estudou geometria, que
protagonistas da procissão do nenhuma idéia havia de anatomia,
Encontro na cidade de Aracaju eram completamente ignorante de sua
suas criações. Por ironia do destino, grande capacidade artística”
a cidade que foi criada para substituir (BITTENCOURT, 1912: 195). Desse
São Cristóvão como capital e modo, enalteciam-se as criaturas,
implantar a modernidade, buscou ignorando-se o criador.
constituir sua identidade a partir da
recriação de procissões que “A entrada triunphal do
marcavam a velha cidade. Nesse Salvador”
processo de consolidação da cidade Na capital, as solenidades
de Aracaju com a difusão de velhas quaresmais não possuíam a pompa
devoções teve destaque um barroca encontrada nas cidades
cristovense, pois foi o artista Manoel históricas do interior sergipano. Eram
Serapião Pereira Leite o responsável comemorações módicas, simples, que
por criar as imagens que seriam alvo tentavam recriar as antigas tradições
da devoção na nova capital, católicas de Sergipe. Nos dois dias de
provavelmente tendo como celebrações, as solenidades eram
divididas em três atos distintos, mas
92
que se complementavam na criação criava sentido. Constituía um
da atmosfera piedosa da Semana empecilho ao drama do calvário.
Santa. Eram dois dias de procissões A existência dessa procissão
pelas ruas do centro da cidade. noturna tinha como seu maior trunfo
No sábado, ocorria a o fato de relembrar a procissão de
procissão de trasladação da imagem penitência realizada na vizinha cidade
do Senhor dos Passos, entre a capela de São Cristóvão, ex-capital
de São Salvador e matriz Nossa sergipana. O comparativo entre as
Senhora da Conceição. No domingo, procissões das duas cidades era uma
logo cedo era realizada a Procissão das tônicas dos anúncios na
de Ramos, concentrando-se também imprensa sergipana da época. Isso
na matriz. À tarde sobrevinha o não significa dizer que o contingente
ponto alto das exaltações religiosas, de devotos era semelhante em
com a procissão do Encontro, com as ambos os cortejos, mas sim que
imagens do Senhor dos Passos e havia uma preocupação em constituir
Nossa Senhora da Soledade. Como na nova capital as tradições
5
Rio que margeia a
se pode perceber, a cidade nesses religiosas do Vale do Paramopama5.
cidade de São
dias passava a ter um leque de A transferência do poder político de Cristóvão.
celebrações concorrido, uma cidade para outra também
rememorando os últimos dias da vida deveria ser acompanhada pela
de Cristo pelas ruas da capital. transposição das manifestações
Tudo iniciava no sábado de culturais. Observe como o Correio de
Passos, na véspera do Domingo de Aracaju divulgou a procissão noturna
Ramos. Era o dia do primeiro ato do em 1908:
espetáculo em torno da imagem do
Senhor dos Passos, com a procissão Semana Santa. No próximo
sabbado, 11 do corrente, às 7 horas
de trasladação. É importante
da noite, mais ou menos, terá logar
ressaltar que nem sempre essa a trasladação da imagem do Senhor
procissão era realizada. Tratava-se dos Passos da capellinha de S.
de um evento que perdurou apenas Salvador para a matriz desta
Capital. Data de tempos
nos primeiros anos do século XX. Na
immemoriais a realização dessa
documentação analisada não foi edificante solennidade, que na
encontrada nenhuma referência que vizinha cidade de S. Crhistovam e
denotasse os possíveis motivos que uma verdadeira procissão de
penitência (CORREIO DE ARACAJU,
levaram ao fenecimento da tradição
9-04-1908, p. 1, col. 3).
de realizar os cortejos de trasladação
na noite de sábado. Provavelmente
Como se pode perceber, a
pode haver alguma relação com os
procissão era engrandecida com os
problemas que esse cortejo
comparativos com sua congênere da
preliminar provocava, pois no
Velha Capital. Aracaju também
Domingo de Ramos se criava
estava seguindo os passos do
inúmeras dificuldades em realizar a
catolicismo, criando mecanismos
procissão do Encontro com a saída
expressivos de religiosidade. Isso
concomitante das duas imagens do
poderia ser visto na época como um
mesmo templo. Era algo que não
símbolo que o processo de mudança

93
da capital havia sido proeminente,
bem-sucedido. Todavia, o Correio de As cenas da Paixão pelas
Aracaju não deixa de enfatizar os ruas de Aracaju tinham muito a
motes diferenciadores. Em São revelar. Era algo que ia além do
Cristóvão, a procissão noturna de catolicismo herdado do mundo
trasladação da imagem do Senhor ibérico. Os conflitos e vicissitudes do
dos Passos, também conhecida como interior da Igreja Católica em Sergipe
Depósito, era abalizada pelo feitio eram desnudados. As procissões
penitencial. consistiam em importante estratégia
Essa informação pode para atrair fiéis, de exibir a
provocar algumas reflexões. Ao exuberância da religião católica, de
comparar os dois eventos fica promover a comoção pública.
perceptível a inexistência de práticas Mesmo se tratando de uma
penitenciais. Mesmo havendo uma manifestação de fé típica do
reconstituição do calendário festivo catolicismo barroco, os modos de
católico em Aracaju, segundo os promover e expressar eram
padrões da antiga capital, percebe-se diferenciados. A tônica penitencial, os
que as festividades na nova cidade pagamentos de promessas e os
era possuidor de um caráter sacrifícios não faziam parte do
renovado. Seria um efeito visual do cenário. Esse incidia no grande
processo de romanização, do diferencial em relação às procissões
ultramontanismo em Sergipe? realizadas nos municípios do interior.
Provavelmente sim. Estudos sobre o Em Aracaju foram recriadas
universo religioso sergipano vêm encanecidas tradições com novas
denotando que os métodos roupagens. Os dramas que
renovadores do clero eram caracterizavam os espetáculos de
desempenhados desde meados do cidades como São Cristóvão não se
século XIX. Consistiam em ações faziam tão presentes em Aracaju.
cumpridas no intuito de banir as Isso não significa dizer que não
práticas pagãs do catolicismo existiam pagadores de promessas na
popular. Na perspectiva de Péricles novel capital. Certamente eles
Andrade Júnior: também se faziam presente. Eles
cumpriam a desobriga. A ausência
A “ação civilizadora” implementada que se pode referi é em relação á
por esses agentes centralizou-se na
práticas consideradas pelo clero
modificação da vida eclesiástica e do
laicato, cujas medidas práticas como exacerbadas, supersticiosas,
foram a tentativa de eliminação dos desnecessárias, como corpos rolando
elementos “profanos” do culto pelo chão, joelhos ensaguentados
religioso, não reconhecendo os
pelas ruas. Observe a descrição que
hábitos pertinentes ao campo
católico popular. As lutas pela o Correio de Aracaju realizou sobre a
hegemonia centralizaram-se na procissão do Depósito de 1907.
destituição do poder dos leigos; na
condenação dos ideais liberais e do A Grande Semana. No sabbado
desrespeito aos dias santos; na precursor dessa data memoranda
vigilância sobre as condutas do clero apinhou-se o povo em roda da
e não-romanidade dos fiéis” poética ermida de S. Salvador para
(ANDRADE JÚNIOR, 2010: 99). acompanhar a imagem do Senhor

94
dos Passos, que tinha de ser emoções produzidas pela narração da
depositada na Matriz. E assim
Paixão de N. S. Jesus Christo”
realizou-se essa imponente
cerimônia com desusada (CORREIO DE ARACAJU, 28-03-1907:
concurrência e na melhor ordem 1).
possível (CORREIO DE ARACAJU, Correção e ordem eram
28-03-1907: 1).
palavras de acuidade no discurso
eclesiástico no início do século XX. A
A imprensa sergipana
perspicácia da evangelização estava
destacava a grande participação
centrada no controle das ações dos
popular e pelo que demonstra o
religiosos, das procissões, das
texto, era bem maior do que em
práticas penitenciais. As celebrações
anos precedentes. No entanto, o que
deveriam estar de acordo, em
mais chama a atenção da descrição é
consonância com as determinações
o fato de haver um destaque para a
do Vaticano. Tudo deveria está sob a
ordem que supostamente se fez
batuta do clero. Percebe-se essa
presente no cortejo religioso. Tudo
concepção ao observar os artigos que
teria ocorrido na “maior ordem
descreviam os eventos religiosos,
possível”. A religiosidade constituída
como Correio de Aracaju que em
em Aracaju aparentemente estava
1908 afirmou que “à hora aprazada,
sob os auspícios dos preceitos de
começou o officio de Ramos, tendo
Roma.
sido executadas as cerimônias do
O segundo ato da abertura
Ritual Romano aos sons plangentes
da Semana Santa na capital
de bem afinada orchestra” (CORREIO
sergipana era a procissão de Ramos,
DE ARACAJU, 16-04-1908, p. 1, col.
realizada na manhã de domingo. Era
2). Sermões e músicas a serviço da
uma celebração simples, com “a
Igreja, em conformidade com as
solemnidade da bênção e distribuição
novas deliberações.
das palmas e ramos, symbolo da
Por fim, havia o terceiro e
entrada triunphante de Jesus na
último ato das celebrações de
Grande Capital da Palestina”
abertura da Semana Santa em
(CORREIO DE ARACAJU, 28-03-1907:
Aracaju. Era a imponente procissão
1). Nessa celebração, o destaque
do Encontro, realizada sempre aos
dado foi para os sacerdotes, que
Domingos de Ramos, no período
teriam conseguindo mais uma vez
vespertino. Certamente, era a
manter a ordem. Eles eram os 6
Em Aracaju no início
ocasião em que se conglomeravam do século XX existiam
protagonistas dos eventos religiosos
mais devotos pelas ruas da capital as irmandades de São
e não mais os leigos pertencentes às José dos Artistas, na
em toda a Semana Santa. Momentos catedral; Nossa Senhora
irmandades6, que sucumbiam a
antes da saída dos cortejos, devotos, da Pureza e São
categoria de meros expectadores. Os Benedito, na igreja de
celebrantes e arrumadores se
clérigos dirigiam as ações, São Salvador.
preparavam e arrumavam as
promoviam a emoção com suas
imagens.
palavras eloqüentes. Assim, na festa
Nos camarins, os atores
dos Ramos, “os levitas do Senhor
eram preparados para o grande
desempenharam as suas funcções
momento. As imagens eram vestidas
com verdadeira correcção, deixando
com roupas novas e luxuosas. As
impressas nas almas dos fiéis as
igrejas tinham suas imagens cobertas
95
com panos roxos. Os devotos se Golgotha” (CORREIO DE ARACAJU,
cobriam de preto. O luto tomava 09-04-1909, p. 1, col. 3) encontrava-
conta da população. O comércio da se pronta para atuar, desfilar
cidade aproveitava a oportunidade solenemente pelas ruas da cidade. A
para aumentar as vendas, população aguardava ansiosa
anunciando suas mercadorias de defronte ao templo da Imaculada
acordo com a ocasião. As lojas Conceição a saída do préstito. O sino
expunham seus tecidos lôbregos: batia. Os sacerdotes abriam o cortejo
“Para a Semana Santa, boas após a cruz. Seguiam as irmandades
cachimiras pretas a 3700 o metro só da matriz e da capela São Salvador.
na LOJA ALMEIDA – Rua da Aurora” Por fim, despontavam as sagradas
(CORREIO DE ARACAJU, 15-04-1909, imagens, que seguindo percursos
p. 3, col. 2). O tempo era lutuoso. A diferentes seguiam para o encontro
população católica se vestia de doloroso e inevitável. Na grande
acordo, com vestimentas funéreas. praça, transformada em auditório, os
Não só os devotos, mas também os aplausos ecoavam. Era o início da
templos. O clero recomendava que procissão do Encontro.
assim como os corpos dos fiéis, o No decorrer da semana que
corpo da Igreja também fosse antecedia a procissão a imprensa
vestido de consternação. Assim, a aracajuana divulgava a programação
imprensa católica apregoava: das celebrações que iriam ocorrer
“Semana da Paixão. Desde hontem nos principais templos da cidade. Era
que a Igreja mandou cobrir de roxo uma estratégia de convocar a
crepe a cruz, as imagens e quadros; população, de engrandecer os
os seus ministros – padres católicos eventos solenes. Observe o Quadro I
só usam ornamentos lúgubres” (A com a programação da Semana
CRUZADA, 29-03-1925, p. 3, col. 1). Santa de Aracaju no ano de 1926.
Ao entardecer ocorria o ápice
das celebrações. A “Divina Victima do

QUADRO I
PROGRAMAÇÃO DA SEMANA SANTA DE ARACAJU (1926)
DIA HORA CELEBRAÇÃO LOCAL
Domingo de Ramos 9:00 Assistência espiritual Catedral
Domingo de Ramos 16:00 Procissão do Encontro Catedral
Quinta feira Santa 9:00 Sagração dos Santos Óleos – Missa Pontificial Catedral
Quinta feira Santa 16:00 Lava-pés – Sermão Catedral
Sexta feira Santa 8:00 Missa a Pressantificados – Assistência Pontificial Catedral
Sexta feira Santa 16:30 Sermão – Procissão do Senhor Morto Catedral
Sabbado da Aleluia 8:00 Missa com Assistência Pontificial Catedral
Domingo da Ressurreição 5:00 Missa da ressurreição Catedral
FONTE: (A CRUZADA, 29-03-1926, p. 3, col. 2)

Segundo consta na iniciavam com as Procissões de


programação, as celebrações Ramos e do Encontro, aludindo dois

96
momentos relevantes e opostos dos
últimos passos da vida do Nazareno: À tarde realizou-se com
extraordinário acompanhamento a
a entrada triunfal em Jerusalém e a
procissão do Senhor dos Passos,
caminhada para o calvário com a que percorreu as principais ruas da
cruz sobre os ombros. Ambas as cidade, fazendo estações nos pontos
celebrações tinham como foco convencionados, parando junto a
Estação Telegraphica, onde teve
irradiador a Igreja Matriz, que a
logar a cerimônia do Encontro
partir de 1910 foi elevada a Catedral (CORREIO DE ARACAJU, 16-04-
Diocesana. 1909, p. 1, col. 3).
A procissão do Encontro
percorria os principais logradouros de O encontro consistia no ápice
Aracaju, principalmente no trecho da procissão. Duas imagens
entre a catedral e a igreja São lacrimosas se encontravam. As dores
Salvador, parando por sete vezes da Paixão se faziam presente, diante
para o canto dos Passos da Paixão: da grande platéia. Era também a
hora oportuna para o clero promover
Uma hora antes do crepúsculo da a evangelização, reforçar os
tarde, desfilava a magestosa
princípios da cristandade, do
procissão do Senhor dos Passos,
pelas ruas da cidade, fazendo catolicismo romano. No púlpito
estações nos pontos improvisado na esquina, o vigário
convenccionados até a encruzilhada convidado proferia seu sermão:
da rua de Itabaianinha, onde
realizou-se este anno a scena
Ao illustrado monsenhor Manoel
commovente do encontro de Jesus
Raymundo de Mello, coube a
com a Virgem Dolorosa (CORREIO
melindrosa incumbência de subir ao
DE ARACAJU, 28-03-1907: 1)
púlpito para narrar ao povo as
peripécias do pavoroso drama do
Por alguns instantes a nova Golgotha. Sabem todos a
capital dos sergipanos era difficuldade do desempenho de um
assumpto já desenvolvido por um
metamorfoseada em cidade santa. As
sem numero de oradores, desde a
ruas do centro transformavam-se na fundação do Christianismo até
Via Dolorosa. A Mãe procurava o nossos dias. Pois bem: mau grado,
Filho, para a despedida. A população essa grande difficuldade, o illustrado
orador sacro, com a suavidade de
assistia ao espetáculo em que
pronuncia de que dispõe, com os
atuavam atores em tamanho natural, gestos adequados aos conceitos
com perucas, olhos de vidro e emittidos, pôde colher abundantes
marejados, bocas entreabertas, fructos de sua bem acabada peça
oratória. Foi ao por do sol que
vestimentas roxas. As imagens de
desaparaceram no espaço as
roca constituíam em elemento últimas notas de seu eloqüente
essencial na constituição do drama sermão e as irmandades poseram-
do calvário. A nota a respeito da se em movimento para continuar a
visita dos Passos do Salvador,
procissão aponta um indício que
terminado na Matriz seu edificante
provavelmente o encontro não itinerário (CORREIO DE ARACAJU,
possuía um ponto fixo. A cada ano o 28-03-1907: 1).
cortejo possuía um trajeto diferente.
No entanto, a participação popular A imprensa demonstrava as
parecia ser elevada: dificuldades que circundavam a

97
enunciação das palavras sacras, procissões dos Passos, saída uma da
Cathedral e a outra da egreja S.
sobre o tema do encontro. Isso
Salvador. O encontro deu-se na
evidencia o quanto essa tradição era esquina do edifício do telegrapho
repetida nos municípios sergipanos, Nacional, e diante das imagens da
pois se tornava difícil articular algo Virgem Dolorosa e de Christo a
caminho do calvário, pronunciou
novo a respeito. Não é por acaso que
uma bella allocução o celebrado
os organizadores das procissões se pregador sacro dr. Antônio Ferreira.
preocupavam em convidar para A impressão causada pela sua
articulação da homilia, pregadores de palavra fácil e cadenciada foi
optima. O padre Antonio Ferreira,
reconhecida proeza na oratória sacra.
tinha contra si a difficuldade que
Ser escolhido para pregar o sermão offerece a pregação ao ar livre; mas
do encontro era sinônimo de status, a despeito de tudo, agradou a alma
de reconhecimento da retórica, da sergipana que o escutava pela
primeira vez. Afastando-se da rotina
eloqüência discursiva. Assim, curas
costumeira que seguem quase todos
renomados proferiam brandos os oradores no sermão do Encontro,
marcantes: teve um cunho de originalidade, e
atravez dos seus bellos conceitos
Ahi subiu à tribuna sagrada o via-se a solidez da doutrina bem
illustre Padre Philadelpho, vigário da concebida e bem documentada
visinha cidade de Laranjeiras, que (CORREIO DE ARACAJU, 15-04-
demonstrou cabalmente o império 1919: 1).
despótico exercido pela dor em
todas as circunstâncias da vida Obter êxito no sermão do
humana. Bem disse o grande
encontro era uma oportunidade de
Lacordaire: “A desgraça é a
soberana deste mundo, e não há sagrar-se como grande orador. A
coração que tarde ou cedo sinta o eloqüência discursiva deveria ser
peso de seu sceptro” (CORREIO DE regulada com palavras que
ARACAJU, 16-04-1908).
auxiliassem na formação de cristãos
mais próximos do seio da igreja, dos
Poder exaltar um momento
preceitos de Roma. Inovar era um
respeitável como o encontro era algo
dos possíveis caminhos para
significativo na trajetória de um
despertar o sentimento de piedade,
vigário. Do mesmo modo, para a
do mesmo modo que provocava a
solenidade poder contar com as
fuga da inalterabilidade. Após a
alocuções de párocos afamados
homilia, o séquito seguia rumo a
também era sinônimo de prestígio,
Catedral, em seus momentos finais.
de grandiosidade, denotativo que a
cidade estava promovendo uma festa
De volta ao acalanto templo do
solene. As dificuldades e maestria
Salvador
dos oradores estavam sempre
Terminado o sermão, “as
presentes nas notícias a respeito da
procissões seguiam depois caminho
procissão. Em 1919, já com a
da catedral, onde deixaram as
ausência da procissão noturna, os
sagradas imagens” (CORREIO DE
jornais aracajuanos divulgaram com
ARACAJU, 15-04-1919: 1). Por mais
entusiasmo a procissão do Encontro:
um ano as imagens de Nossa
senhora das Dores e do Senhor dos
Foi uma população immensa que
ante-hontem tomou parte nas duas Passos passariam distantes, em seus
98
respectivos templos. Mas as pelo tempo, participando da
procissões permaneciam recorrentes “procissão do Bom Jesus dos
nas memórias dos moradores da Navegantes saudando a entrada do
cidade, expressando a devoção de Ano Novo; das festas de Santos Reis
formas diferentes, fosse ao passar com a procissão de São Benedito,
rapidamente pela capela de São grupos de Taieira e Chegança; do
Salvador e osculando os pés do frenesi do carnaval, das solenidades
Cristo, fosse por meio de crônicas. da Semana Santa” (SANTOS, 2002:
Assim, cantar a cidade de Aracaju 151).
também incumbia de relembrar o Ainda hoje as devotas
santo protetor, demonstrando que a imagens permanecem em seus
cidade é “Cheirosa a Atlântico. templos, recebendo visitas de seus
Atalaia sob o céu azul, linda praia de fiéis, sem a mesma pompa de
Aracaju. Primeira sessão do Cine outrora, mas impregnadas de
Pálace. Missa na Catedral. Procissão significados, desejos, sonhos de um
de Senhor dos Passos e de N. S. da povo que as carregou em seus
Conceição. Rua João Pessoa, vitrines. ombros ao longo do século XX.
Festa de Natal no Parque” (SILVA, Cercadas de velas e amarradas com
2002: 259). Do mesmo, a fitas devocionais, as imagens
historiadora Maria Nely dos Santos refletem um capítulo importante da
alega que ao examinar os jornais de história da cidade de Aracaju.
Aracaju do início do século XX viajou

Referências:
ANDRADE JÚNIOR, Péricles Morais. Sob o olhar diligente do pastor: a Igreja
Católica em Sergipe. São Cristóvão: Editora UFS, 2010.
AZZI, Riolando. A Sé Primacial de Salvador: a Igreja Católica na Bahia. 1551-
2001. Vol. 2. Petrópolis- RJ: Vozes, 2001.
BARRETO, Raylane Andreza Dias Navarro. Os Padres de D. José: o Seminário
Sagrado Coração de Jesus (1913-1933). São Cristóvão. 2004, 151 f. Dissertação
(Mestrado em Educação). NPGED, POSGRAP, UFS.
BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: ROUX, J. P.; SIRINELLI, J. F. Para uma
história cultural. Lisboa: Estampa, 1998.
BITTENCOURT, Liberato. Homens do Brasil, Sergipe. Aracaju: Imprensa Oficial,
1912.
FLEXOR, Maria Helena Occhi. Imagens de roca e de vestir na Bahia. Revista Ohun.
UFBA, Ano 2, nº 2, p. 165-185.
RÉMOND, René. Uma história presente. In: RÉMOND, R. Por uma história política.
2ª Ed. Trad. Dora Rocha. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

99
SANTOS, Magno Francisco de Jesus. As Ovelhas da Pastora: as múltiplas facetas
de uma peregrinação de Sergipe. In: Revista Brasileira de História das Religiões.
ANPUH, 2010.
____. Os cravos da morte na cidade Jardim: a procissão dos Passos na cidade de
Estância (1850-1920). Mneme – Revista de Humanidades. Natal. Vol 29, nº 11,
2011, p. 464-491.
SANTOS, Maria Nely dos. Aracaju na contramão da Belle Époque. In: Revista de
Aracaju. Aracaju: Funcaju, 2002. p. 143-153.
SILVA, Tânia Maria da Conceição Menezes. Porta-retrato. In: Revista de Aracaju.
Aracaju: Funcaju, 2002. p. 259.

Fontes
CORREIO DE ARACAJU. A Grande Semana. Aracaju, nº 42, 28-03-1907.
___. Semana Santa. Aracaju, nº 147, 09-04-1908.
___. Semana Santa. Aracaju, nº149, 16-04-1908.
___. Loja Almeida. Aracaju, nº 249, 15-04-1909.
___. Semana Santa. Aracaju, nº 247, 04-04-1909.
___. Festa de Ramos. Aracaju, nº 2576, 15-04-1919.
A CRUZADA. Semana da Paixão. Aracaju, nº 57, 29-03-1925.
____. Festa de S. Benedicto. Aracaju, nº 31, 03-01-1926.
____. Semana Santa. Aracaju, nº 42, 29-03-1926.

100
MILITÂNCIA NEGRA E regard, I note that the color of skin, ways 1
Mestranda do
EXPRESSÃO ESTÉTICA NO RECIFE to use the hair and the use of Programa de Pós-
costumesand accessories associated with Graduação em História
(1980 - 2003) da Universidade Federal
the idea of a black beauty stand as
Vanessa Marinho1 de Pernambuco. E-mail:
catalysts of this process of redefinition of vanessa.marinho.10@g
black culture. To this end, I present some mail.com
Resumo
collective initiatives within the aesthetic
valuation of black Americans inspired
Neste trabalho, objetivo propor um
movements and the importance of the
debate sobre a relação entre a estética,
idea of African art in this process.
enquanto forma de expressão do belo, e
a expressão da identidade em militantes
Keywords: Black Beauty, Aesthetics,
negros no Recife, atuantes entre os anos
Black Identity
de 1980 e 2003, a fim de demonstrar que
a forma de utilização de imagens
associadas a uma herança africana se
configura como um instrumento de
valorização das características do John Berger, num dos ensaios
indivíduo afrodescendente - até hoje do livro Modos de ver, explica numa
consideradas depreciativas por alguns. frase concisa e objetiva a relação do
Neste sentido, destaco que a cor da pele, ser humano com o olhar. Ele diz:
as formas de usar o cabelo e o uso de “Ver precede as palavras. A criança
indumentárias e acessórios associados a olha e reconhece, antes mesmo de
uma idéia de beleza negra se configuram
poder falar.” (BERGER, 1999: 9).
como catalisadores deste processo de
Para este autor, o ato de ver
ressignificação da cultura negra. Para
tanto, apresento algumas iniciativas estabelece o nosso lugar no mundo
coletivas no âmbito da valorização da circundante, assim como a maneira
estética negra, inspiradas nos como vemos as coisas é afetada pelo
movimentos norte americanos e a que sabemos ou pelo que
importância da idéia de arte africana acreditamos. Ele difere o ver – uma
neste processo. mera reação a estímulos – do olhar,
sendo este um ato de escolha. Nós
Palavras-chave: Beleza negra, Estética,
estamos sempre, segundo Berger,
Identidade Negra.
olhando para a relação entre as
coisas e nós mesmos.
Abstract Aquilo que olhamos – a
imagem – é também um meio de
In this paper, we propose a debate on comunicação – e estabelece essa
the relationship between aesthetics, while nossa relação com o entorno – como
the beautiful form of expression, and nos deixa ver a fotografia, a
expression of identity in black militants in publicidade, o cinema, a televisão e a
Recife,active between 1980 and 2003 in moda. Utilizando esta última como
order to show you how to use images
exemplo, apreende-se que a roupa
associated with an African heritage is
usada pelas pessoas pode dizer uma
configured as an instrument of
exploitation of the individual série de coisas ao mesmo tempo. Em
characteristics of African descent - still A Linguagem das Roupas, Alisson
considered derogatory by some. In this Lurie diz que a roupa funciona como

101
um sistema de signos; ela comunica elaborada com o intuito de transmitir
o sexo, a idade, a classe social e uma informações específicas sobre aquele
série de outras informações antes que os usam, além de dar mais valor
mesmo de qualquer contato: “quando a determinados tipos de roupa em
nos conhecermos”, diz Lurie, “ já detrimento de outras. Para ela o
teremos falado um com o outro” conjunto deve ser harmonicamente
(LURIE, 1991: 19).No estudo de montado; a ausência de harmonia
Lurie sobre a moda como meio de demonstra desordem e confusão, o
comunicação conclui-se que a moda que parece desagradar a autora. É
é uma linguagem de símbolos, um claro que em muitos casos a escolha
sistema não-verbal de comunicação. da roupa não passa por todo esse
Sendo assim, uma vez que a maneira filtro; o que nos interessa analisar
de vestir é um idioma, segundo esta aqui, em contraste com esta
autora ela deve ter um vocabulário e neutralidade, são as escolhas que o
uma gramática próprios: indivíduo faz para expressar sua
negritude através de sua auto-
Em cada língua das roupas há vários imagem.
dialetos e sotaques diferentes,
Ainda de acordo com Lurie, é
alguns quase ininteligíveis a
membros da cultura mais aceita. possível afirmar que a roupa pode 2
Adinkras são
Além disso, assim como no discurso dizer de onde a pessoa é, informando conjuntos ideográficos
falado, cada indivíduo tem seu sobre sua origem nacional, étnica ou que podem ser
próprio estoque de palavras e encontrados em tecidos,
regional, ou a que grupo quer ser esculpidos em pesos
emprega variações pessoais de tom
e de significado. (LURIE, 1991: 20) associada. Ela fala que a roupa deouro ou talhados em
madeira, que
representa a expressão de um
incorporam, preservam
Lurie destaca ainda que além pensamento mágico, que representa e transmitem aspectos
uma tentativa de atrair o poder – da história, filosofia,
das roupas, o vocabulário da moda valores e normas
inclui estilos de cabelo, acessórios, político, econômico e social – contido socioculturais das etnias
no lugar de origem das roupas que Akan, de Gana.
jóias, maquiagem e decoração do
corpo. Sobre esta última forma de escolhem vestir. Em relação às
linguagem, podemos utilizar como roupas de tecidos ou estampas
exemplo as tatuagens, num contexto africanas, aquele que a usa, segundo 3
Nesta afirmação da
mais atual, que se configura em Lurie, ao invés de querer ser autora podemos
observar seu caráter um
outra forma de externar uma associado a potências políticas e
tanto preconceituoso,
identificação com a raça negra ou econômicas, pretende demonstrar a uma vez que ela atribui
beleza a partir da simplicidade e a às roupas africanas uma
como pertencente a ela. Figuras pretensa simplicidade,
como adinkras2, máscaras e força através da resistência destes esquecendo, por
esculturas africanas frequentemente países, exibindo-as como forma de exemplo, as complexas
amarrações dos tecidos
são encontrados nos corpos destas orgulho. (LURIE, 1991: 106)3. e de turbantes, além
pessoas. No contexto dos Estados dos belos trançados que
são fruto de longos
Lurie é muito pragmática e Unidos, por volta das décadas de trabalhos e de uma
chega a ser um pouco preconceituosa 1960 e 1970, era quase certo que vasta riqueza de
muitos imigrantes – negros e índios – detalhes.
em suas considerações. O que ela
deixa entrever é que a pessoa abandonassem o vestuário que os
escolhe sua roupa e seus adornos – identificava por conta da
ou a não utilização deles – com o discriminação sofrida por eles. A
uma prática meticulosamente partir da década de 1990, a
102
expressão da origem nacional e da pela independência; na América
identidade étnica por meio da roupa Latina, os movimentos guerrilheiros.
se transforma numa questão de No Brasil eram anos de repressão por
orgulho pessoal e, em muitos causa da ditadura civil-militar,
contextos, uma forma gráfica de repressão que chegou aos negros e
declaração política (LURIE, 1991: seus aliados, e a existência do
106-107). Sobre este tipo de roupa, racismo era rechaçada pelo governo
que Alisson Lurie chama de roupa para demonstrar que o Brasil vivia-se
étnica, ela diz que a sua adoção por uma harmonia racial. A repressão
pessoas não pertencentes aos grupos também foi responsável por
nos quais se originou sugere, além transformar os grupos políticos em
de bem-estar social, interesses entidades culturais e de lazer, no
contra-culturais, e chega a listar intuito de viabilizar sua manutenção.
alguns possíveis interesses nos quais Um dos pioneiros destes
pessoas que adotam os trajes étnicos agrupamentos foi o Centro de Cultura
despertam. e Arte Negra, criado em 1969 na
Apesar de ser generalizante cidade de São Paulo, que
em muitos momentos, as definições desencadeou a formação de outros
de Lurie servem para nos alertar grupos voltados para a temática afro-
sobre a possibilidade de se utilizar a brasileira. Também neste período
imagem pessoal como meio de muitos jovens da periferia dos
comunicação e como ferramenta de grandes centros passaram a exibir
expressão de um lugar na sociedade, novas formas de comportamento, de
assim como expressa também, no falar, de vestir e de protestar.
caso da população negra, uma (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO,
tentativa de mudança de paradigma 2006: 282) Alguns autores ressaltam
no que se refere à sua estética, no que a música negra norte-americana
sentido de sensibilizar a sociedade influenciou de sobremaneira o
como um todo no sentido de se movimento de estetização negra,
eliminarem práticas discriminatórias. especialmente o soul e o funky
Alguns movimentos sociais negros no (GOMES, 2008; HANCHARD, 2001;
Brasil tiveram como pano de fundo ALBUQUERQUE e FRAGA FILHO;
de sua afirmação o apelo estético. É 2006), que representaram uma
sobre esta relação que falarei a expressão do “cansaço com os
seguir. modelos existentes de prática
Os anos que precedem a cultural, que tinham sido
criação do movimento negro transformados em mercadoria e,
organizado como conhecemos num sentido existencial, arrancados
atualmente foram palco de grandes de suas raízes” (HANCHARD, 2001:.
transformações culturais, políticas e 133). Foram os bailes cariocas
comportamentais. Na Europa e nos realizados sob o som destes estilos
Estados Unidos, viu-se a emergência musicais que deram origem a um
dos movimentos estudantis e movimento de afirmação da
feministas bem como a luta dos negritude chamado Black Rio. Nesta
negros norte-americanos pelos época, a juventude passou a
direitos civis; na África, as guerras expressar seu protesto num visual
103
que incluía, além das vestimentas acerca dos dreadlocks chama a
próprias, o cabelo no estilo Black atenção para duas realidades
Power, referência ao movimento distintas no que diz respeito a
norte-americano de afirmação e identidade negra: a primeira que
reverência à beleza negra. Esta destaca o papel do cabelo nesta
referência serviu de fundamento para relação, e a segunda que atrela a
muitas contestações em torno de sua afirmação desta identidade a um
autenticidade. Hanchard (2001) contato direto com a África.
apresenta duas perspectivas opostas Para o povo negro, auto-
sobre este movimento: citando Peter imagem sempre se configurou como
Fry, ele diz que o movimento Black um elemento de diferenciação, de
Rio é de fundamental importância inferiorização e de exclusão. Desde
para o processo da identidade no os últimos anos do sistema
Brasil, enquanto que Pierre-Michel escravista, as características do
Fontaine minimiza a importância corpo negro serviam como um
deste movimento por ele ter sua reforço à classificação social, o que
gênese nos Estados Unidos e não no nos permite fazer uma ressalva a
Brasil. importância da imagem na
Além desta influência norte- identificação desta população. De
americana, a militância negra é uma forma especial, o cabelo
influenciada pelas invenções musicais também é uma marca desse
em outras partes do mundo, como o reconhecimento, atuando tanto no
Caribe e a África. Isto se evidenciou sentido de depreciação como no de
com o reggae jamaicano e, por positivação da autoimagem do negro.
consequência, na adoção dos Para percebermos esta importância,
dreadlocks como estilo de cabelo. vale mencionar que, no período da
Apesar de uma certa relutância por escravidão, uma das formas de
parte de alguns ativistas negros em violência contra os africanos era a
atrelar o estético ao político, aos raspagem do cabelo, uma vez que
poucos a união estre estas duas para muitas etnias africanas este
categorias passa a ser vista como servia também como uma marca
possibilidade emuladora, identitária (GOMES, 2008). Já
incentivadora da formação de uma existem alguns estudos sobre a
consciência racial que permitisse relação do cabelo do negro com o
olhar a cultura negra de forma seu pertencimento identitário
positiva, resultando em uma (GOMES, 2006; SANTOS, 1999;
mudança de comportamento diante COUTINHO, s/d), mas eles apontam
da questão racial (GOMES, 2008: para o fato de que assumir as
198). Segundo Gomes (2008) a características naturais do cabelo
adoção dos dreadlocks remete ainda representa uma forma de
a doutrina Rastafari, e esta, por sua contestação ao padrão hegemônico
vez, sugere uma ligação simbólica de beleza e uma ferramenta de
com a África por meio da expressão e valorização da
interpretação bíblica que identifica a identidade negra, servindo até para
Etiópia como Zion, ou a Terra estimular outros indivíduos a assumir
Prometida. Este esclarecimento
104
essa postura como forma também de com suas práticas cotidianas, tais
resistência. como a agricultura e a expressão de
Outra forma de positivação e uma religiosidade própria. O que se
valorização do povo negro por parte configura como um problema neste
dos movimentos sociais é uma contexto é o que a escritora
espécie de redescoberta da África, a Chimamanda Adichie denomina como
partir de uma perspectiva que não “o perigo de uma única história”, ou
mais a da escravidão e do seja, uma visão restrita acerca de
sofrimento. Esta é uma perspectiva uma determinada realidade. Ela diz
denominada pelo sociólogo que “a única história cria o
moçambicano Elísio Macamo de estereótipos. O problema dos
atitude soberana (MACAMO, 2010); estereótipos não é que eles sejam
segundo este pensador, para um mentira, mas sim que eles são
estudo diferenciado sobre a África incompletos” (ADICHIE, 2010)
deve-se esquecer o que houve de A partir desta ótica – a da
mal e observar outras perspectivas, expressão da corpor eidade negra e
sobretudo a da produção de um da referência às imagens africanas –
conhecimento sobre a África bem que o movimento negro no Recife vai
como a partir dela. Neste sentido, se ser esteticamente norteado.
tornará possível inserir a realidade Neste momento do texto
africana fora da idéia de objetivo reforçar a ideia que tentei
excentricidade. A referência ao apresentar, de que a imagem atua
continente africano para os como um instrumento da expressão
movimentos negros contemporâneos do orgulho de ser negro, funcionando
é quase que vital; segundo Gomes tanto para a ressignificação de
(2008), ao apelarem para a África valores negativos atribuídos ao negro
como a essência da negritude e da e as imagens relativas a ele quanto
unificação racial, estes movimentos para a sensibilização da sociedade
construíram um discurso da como um todo no sentido de
naturalidade da estética negra e de naturalizar as diferenças e
todos os atributos físicos que desnaturalizar as desigualdades.
julgavam aproximar o negro da É na contramão deste padrão
diáspora de seus ancestrais estético europeu e europeizante que
africanos. O apelo à ancestralidade a estética negra vai desabrochar no
africana representou, portanto uma contexto das relações sociais no
estratégia política contra o poder Brasil. A afirmação de uma
cultural e subjetivo branco identidade negra através das
hegemônico (p. 199) Entretanto, a imagens – e sobretudo da auto-
perspectiva em relação ao continente imagem – ganha cada vez mais
africano adotada por parte dos espaço entre os afrodescendentes.
grupos políticos e culturais está Esta mudança é também reflexo de
atrelada ainda a uma noção uma revolução no campo das artes –
específica de África, que pode ser especificamente da pintura – com o
denominada como África tradicional. Movimento Modernista. É na
Esta noção de África tradicional está tentativa de ruptura com o padrão
diretamente atrelada ao meio rural, clássico que artistas europeus vão
105
buscar na arte negro-africana europeus indica que estes artistas
inspirações para sua criação: artistas faziam com o negro um tipo de
como Picasso, Gaugin, Vlamink, projeção em que o outro espelha um
Cézanne e Matisse figuram entre os lado seu valorizado e reprimido: a
artistas europeus que demonstraram espontaneidade das emoções e das
esta influência. Segundo Gombrich formas desprovidas de rigidez
(1999), a admiração pela arte negra (GUIMARÃES, 2002). Por outro lado,
atingiu seu auge antes da I Guerra Munanga (2006) propõe a
Mundial, e foi responsável por reunir necessidade de se refletir sobre o
jovens artistas de variadas modelo estético e artístico africano
tendências na sua busca pela em paralelo com o modelo ocidental.
“essência” do objeto artístico. Ele Ele questiona em que medida os
justifica a atração destes artistas pela objetos produzidos pelos africanos,
arte negro-africana dizendo: uma vez que pertencem a um
contexto cultural não ocidental,
É fácil ver, ao olharmos para uma podem ser objeto de um discurso que
das obras primas da escultura
segue as regras de uma disciplina
africana, porque tal imagem atraiu
tão fortemente uma geração que ocidental.
procurava saída do impasse da arte É importante lembrar que este
ocidental. Nem a “fidelidade à tipo de arte africana que estamos
natureza”, nem a “beleza ideal”, que
tratando é comumente definido como
eram os temas gêmeos da arte
europeia, pareciam ter perturbado a arte tradicional, ou seja, um tipo de
mente daqueles artífices, mas suas arte que foi produzido pelas
obras possuíam precisamente o que sociedades definidas como
a arte europeia parecia ter perdido
tradicionais do continente africano.
nessa longa busca – expressividade
intensa, clareza de estrutura e uma Apesar de o conceito de tradição ser
simplicidade linear na técnica. bastante fluido e impreciso,
(GOMBRICH, 1999: 563). encontramos na definição do
sociólogo moçambicano Elísio
Entretanto, vale salientar que Macamo uma explicação bastante
esta arte africana era muito menos clara – mesmo que parcial – no que
primitiva do que pensavam os diz respeito à tradição no continente
europeus. Enquanto que a produção africano. Ele alerta que, no campo da
artística européia nesse período tem sociologia, existe uma vertente que
um caráter mais decorativo ou identifica a realidade social africana
informativo, muitas vezes com o meio rural e esta, por sua vez,
configurando mais uma expressão do é associada à idéia de tradição.
indivíduo diante de um dado contexto Mesmo sem mencionar este dado,
social – e que muitas vezes demanda Serrano (2008) esclarece de modo
interpretação de seu significado por mais preciso – ainda que um tanto
parte do autor da obra – a produção generalizado – esta relação, da
artística africana se insere num tradição com a arte na África:
contexto social mais complexo,
relacionado principalmente com o A arte africana é um dos diálogos
coletivo. A apropriação a arte por intermédio dos quais os povos e
as culturas do continente procuram
africana por parte dos artistas
afiançar a harmonia considerada
106
fundamental para a reprodução da do bloco misturaram diversos
comunidade. Desse modo, para o
aspectos que envolvem a história do
africano, as máscaras e esculturas
correspondem a suportes para culto continente africano. O grupo foi
da ancestralidade. criado em 1974, mas só em 1978 foi
Fundamentalmente o intuito é a criada a padronagem com as cores
conversão de elementos específicos
definitivas que representam o bloco.
da natureza (...) em suporte
temporário das forças ancestrais Ela diz que estas cores possuem m
invocadas nos cultos. As esculturas significado simbólico expresso da
dos ancestrais são consideradas seguinte forma: branco = paz,
protetoras dos espaços domésticos,
vermelho = sangue do negro
aldeias ou mesmo territórios mais
vastos. (...) Nas sociedades derramado na luta pela liberdade,
agrícolas, as máscaras zoomórficas amarelo = riqueza e beleza, negro =
invocam as forças ou espíritos da cor da pele. A imagem a seguir
natureza, tanto para a proteção dos
(Imagem 1) representa a marca do
campos cultivados quanto para a
evocação da sua fertilidade. bloco, inspirada em uma máscara
(SERRANO; WALDMAN, 2008: 149) africana, elaborada pelo artista
plástico Jota Cunha. Nesta imagem,
Nesta definição podemos além da máscara, outros detalhes
encontrar elementos chave para fazem referência à inspiração
compreender a noção do tradicional africana do grupo: no topo da cabeça
em África: as noções de comunidade, aparecem búzios (que pode
ancestralidade, religiosidade e representar uma aproximação com o
ruralidade figuram na nossa mente, candomblé ou uma referência a
assim como mencionou Macamo algumas sociedades africanas que
brevemente ao descrever a relação usavam o búzio como moeda); a
com o tradicional nas sociedades própria máscara, marcante nas
africanas. sociedades tradicionais, onde tinham
Uma vez que os movimentos a função de aproximação com
negros nesse apropriam de uma divindades a fim de garantir o bom
4
Azeviche é um tipo de
visão histórico-mítica (MAIA, 2007: uso da terra; e o termo azeviche, que
carvão, de origem
3) – e porque não dizer tradicional? - da mesma forma que no Brasil os orgânica produzido por
do continente africano, suas negros assumiram ser chamados de plantas ou animais,
também conhecido
manifestações estéticas não pretos na tentativa de ressignificar o como Âmbar Negro.
poderiam seguir num caminho termo, dotando-o de uma conotação
diferente. No seu artigo sobre a positiva, o Ilê adota o “Perfil
estética do Bloco Afro Ilê Aiyê, Rita Azeviche4” com esta mesma
Maia (2007) diz que, para a criação intenção.
de seus emblemas, os idealizadores

107
Imagem 1

No âmbito do movimento negro no Recife, podemos observar em alguns 5


Os cartazes utilizados
cartazes5 uma apropriação semelhante (Imagens 2, 3, 4): para análise foram
retirados do site do
Projeto Negritude,
projeto que tem como
objetivo focar a história
e a memória do
movimento negro em
Pernambuco. Mais
informações em
www.ufpe.br/negritude

Imagem 2 Imagem 3

108
Imagem 4

Nestas imagens podemos representações valores e crenças


perceber uma tentativa de onde as pessoas exprimem a maneira
aproximação com o continente como vivem as suas relações com
africano a partir da perspectiva que suas condições de existência, através
mencionei anteriormente: sob a ótica do estilo da imagem.
do tradicional. A Imagem 2 talvez Outra tentativa de
seja mais emblemática neste sentido: aproximação com o continente
o cartaz do grupo Bacnaré – Balé de africano através da estética é o modo
Cultura Negra do Recife – traz os de arrumação dos cabelos. De acordo
principais ícones da expressividade com Nilma Gomes (2008) o cabelo do
estética africana tradicional: a negro é dotado de um significado
geometria, as cores do social no contexto das relações
panafricanismo (verde, amarelo, raciais no Brasil. Juntamente com
vermelho e preto), o corpo negro e o seu corpo, ele é tomado como
caráter agrícola destas sociedades, expressão da identidade negra,
expresso indiretamente na figura de atuando na maneira como o negro vê
uma pessoa com um cesto na e é visto pelo outro. O uso do cabelo
cabeça, com um cajado e com uma sem intervenções – à exceção de
vestimenta rudimentar. Os outros tranças e dreadlocks – é incentivado
dois cartazes também sugerem uma pelos ativistas como um caminho
aproximação com o tradicional; a para a positivação da imagem do
geometria aparece mais uma vez e negro, uma vez que esta
na imagem 4 isso se reforça com a revalorização extrapola o indivíduo e
figura de um leão, ou o Leão atinge o grupo, contribuindo pra uma
Conquistador, relacionado à melhoria nas relações raciais. Neste
HailéSalassie, o RasTafari, líder de sentido, Gomes destaca ainda que o
6
uma religião que acredita que a cabelo e o corpo são pensados pela Informação disponível
em
Etiópia é a terra prometida6. cultura, ou seja, podem ser http://religiaorasta.tum
A análise destes cartazes está considerados expressões e suportes blr.com/

baseada na noção de ideologia simbólicos da identidade negra no


imagética (SILVA, 2001) que diz Brasil.
respeito a um conjunto coerente de

109
Como já foi dito estão consolidadas no senso comum.
anteriormente, para a população A importância do cabelo no processo
negra no Brasil a auto-imagem de afirmação étnica diz respeito ao
sempre se configurou como uma fato de que o cabelo sempre foi
marca da exclusão social. Desde os objeto de depreciação no conjunto do
últimos anos da vigência do sistema corpo negro. Cassi Ladi Coutinho
escravista, as características do enumera, a partir do trabalho de
corpo negro já eram uma ressalva a Antônio Vianna, apelidos pejorativos
importância da imagem na para classificar o cabelo dos negros:
identificação desta população. cabeça seca, cabeça fria, cabeleira
Citando Freyre, Coutinho nos traz um xoxô, cabelo de romper fronha,
exemplo destas marcas: “Já a cabelo de perder missa, cabelo
mulatinha puxando a sarará, de amoroso ao casco, cabeleira de sebo,
nome Joana, de 14 anos prováveis, cabeleira teimosa, pão de leite...
fugida de um engenho do Cabo, seria (VIANNA apud COUTINHO, s/d,:6)
com suas pernas e mãos muito finas, Além do contexto de discriminação,
uma verdadeira „flor do pecado‟, cor esse olhar que se imprimiu sobre o
alvarenta, cabelos carapinho e russo, cabelo do negro serviu para reforçar
corpo regular [...]” (COUTINHO, s/d). o desejo de muitas pessoas de
De uma forma especial, o camuflar seu pertencimento étnico;
cabelo também é uma marca desse se isso não podia ser feito com a
reconhecimento, atuando nos dois pele, pelo menos o cabelo era
sentidos, seja no aspecto negativo passível de mudanças. Daí a
quanto no aspecto positivo, de necessidade de muitas mulheres
valorização da autoimagem. Ainda no recorrerem à processos químicos de
período da escravidão, uma das alisamento, para se afastarem de
formas de violência contra os qualquer semelhança com estas
africanos era a raspagem do cabelo, características depreciativas. Disto
uma vez que, para muitas etnias apreende-se que o cabelo pode ser
africanas, este era também uma usado tanto para expressar quanto
marca identitária (GOMES, 2008). para camuflar o pertencimento
Gostaria de chamar a atenção para étnico-racial.
algumas expressões relacionadas ao O que importa dizer aqui no
verbete cabelo encontrada no contexto brasileiro o cabelo e a cor
dicionário Houaiss (2008): cabelo da pele servem como critérios de
ruim, cabelo pixaim, cabelo de bosta diferenciação e classificação social, e
de rolinha, cabelo de carapinha, que assumir uma imagem que vai na
cabelo de cocô de rola, cabelo de contramão de um padrão estético
Bombril, cabelo de cupim, cabelo de homogeneizante e alheio às
pimenta-do-reino, cabelo de semente diferenças representa uma forma de
de mamão. protesto contra esta imposição que
Estas expressões todas têm incentiva e naturaliza a discriminação
como explicação no dicionário e o preconceito racial.
“semelhante ao cabelo dos negros”, o No âmbito do movimento
que nos mostra como as imagens negro no Recife esta preocupação
negativas acerca do corpo negro já com a forma de expressar uma
110
consciência racial através da 1990, do Salão Afro Baloguns. Este
valorização da textura natural do evento foi noticiado pelo jornal
cabelo também esteve presente. Esta Djumbay7, de abril de 1992
postura foi favorecida com a (Imagem 5):
abertura, no início da década de

Imagem 5

Salões como o Baloguns indissociável do plano político, do


representam lugares onde se pode econômico, de percepção da
expressar a dimensão política de uma diversidade e de afirmação étnica.
estética negra. O fato de explicitarem Neusa Santos Sousa (SOUSA, 1987)
uma preocupação com a valorização nos lembra que ser negro é antes de
desta estética, ao afirmarem a tudo, tornar-se negro, ou seja é um
existência de uma beleza negra processo que se constrói
“acabam por se contrapor à ideologia culturalmente, de acordo com as
da cor e do corpo ainda hegemônica experiências vivenciadas pelo
em nossa sociedade. Eles se lançam indivíduo no seio de relações sociais
na experiência, algumas vezes de que favoreçam ou não sua assunção.
maneira bem-sucedida e outras não, Destaco, neste sentido, que uma das
de formular outra ideologia, gestada formas deste tornar-se negro está
no interior da comunidade negra” entrelaçada com um tipo específico
(GOMES, 2008: 145) de imagens – aquelas que se
Podemos concluir, portanto, aproximam das práticas e costumes
que a expressão estética negra é do continente africano – que

111
caminham para a formação de uma como estratégia de valorização do
subjetividade onde a estética negra povo negro na sociedade brasileira.
ganha uma conotação positiva e atua

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ler/kikulacho-kimo-maungoni-mwako-kanga-da-tradicao-a-contemporaneidade
Acesso em 08/06/2011

114
1
O INTEGRALISMO EM LIMOEIRO: Esse texto foi
publicado anteriormente
MEMÓRIAS DE SONHO E DE Introdução pelo Grupo de Pesquisa:
FRUSTRAÇÃO1 A criação do Núcleo Municipal Memória, Oralidade e
Cultura Escrita, do
João Rameres Regis2 da Ação Integralista Brasileira – Mestrado Acadêmico em
A.I.B., em Limoeiro3, ocorreu em História, da
Eis ai o povo que chamava 1934, dois anos após o início das Universidade Estadual
a gente de galinha-verde, do Ceará – UECE. JUCÀ,
atividades integralistas na capital do Gisafran Nazareno Mota
quando viram três milícias
estado. A bibliografia e a (org.). Memórias
formadas ficaram, assim, entrecruzadas:
de queixo caído. documentação sobre o Integralismo experiências de
(Cristóvão Maia Pitombeira). no Ceará não são precisas quanto ao pesquisa. Fortaleza,
EdUECE, 2009, p. 81-
deslocamento das atividades do 90.
“sigma” em direção aos municípios
Resumo interioranos. Dois trabalhos sobre o
2
Mestre em História
Social pela UFC; doutor
assunto4 nos dão as pistas desse em História Social pela
Neste artigo nos propomos a discutir o
deslocamento para os recantos mais UFRJ. FAFIDAM/UECE
papel da memória para a construção de
representações do passado com base nas longínquos do estado cearense.
lembranças de ex-militantes do núcleo da Montenegro nos fala das primeiras 3
O município de
Ação Integralista Brasileira, de Limoeiro visitas feitas por uma comissão de Limoeiro do Norte,
do Norte, Ceará, e nos escritos dos integralistas ao município de Soure e estado do Ceará,
somente passou a
memorialistas locais. Nesse sentido, a posteriormente ao de Pacatuba, logo adotar esse topônimo
noção de cultura histórica nos permite após a sua fundação, ainda no ano de após a publicação da Lei
compreender a interface entre o vivido e Nº 1.114, de 30 de
1932 (MONTENEGRO, 1986: 20). dezembro 1943.
o lembrado, bem como os elementos que
Parente menciona a intervenção “da
conferem certa representação do
dinâmica turma de padres ordenados
passado. 4
MOTENEGRO, João
em 1931, no Seminário da Prainha” Alfredo Souza. O
Palavras-Chave: História, Memória, como elemento primordial nesse Integralismo no Ceará:
processo (PARENTE, 1999: 180-181). variações ideológicas.
Passado Fortaleza: IOCE, 1986.
Os jornais da época noticiavam as PARENTE, Josênio
visitas da “caravana integralista” a Camelo. Anauê – Os
Camisas Verdes no
Abstract diversos municípios no intuito de Poder. Fortaleza: EUFC,
difundir sua doutrina e de neles 1999.
In this article we propose to discuss the fazerem criar núcleos5.
role of memory for the construction of
As razões que explicam a 5
representations of the past based on Jornal A Ordem,
expansão para o interior do estado Sobral-Ce, 07/10/1933,
recollections of former militants of the
são importantes, no entanto, noticiou a passagem da
core of the Integralist Brazilian Action of caravana integralista
Limoeiro do Norte, Ceará, and the interessa-nos principalmente por aquele município;
writings of local memoirists. In this compreender como o Integralismo, Jornal A Ordem,
Aracati-Ce, 30/11/1934
sense, the notion of historical culture enraizando-se nesses municípios, trouxe notícias de
allows us to understand the interface provocou alterações e ao mesmo comício integralista
between the experienced and naquela cidade em
tempo adequou-se à dinâmica política
novembro de 1934.
remembered as well as the elements that local em curso, em especial, no Biblioteca Pública
give some representation of the past. Menezes Pimentel, setor
município de Limoeiro. Assim,
de microfilmagem.
interessa-nos compreender como a
Keywords: History, Memory, Past
experiência integralista marcou o
imaginário político da população
115
limoeirense e, por conseguinte, influiu outro, essa memória aparece como
para a organização da memória um desvio em suas vitoriosas
política do município. Interessa-nos, trajetórias no cenário político
portanto, as memórias integralistas. estadual, principalmente pela
Como foram produzidas e associação inevitável do Integralismo
reproduzidas? Quais os influxos nessa com os movimentos nazifascistas.
trajetória? Como essas experiências Portanto, lembrar e esquecer se
foram narradas por ex-militantes e separam por uma linha imprecisa, pois
memorialistas do município? Enfim, o que deve ser lembrado ou esquecido
interessa-nos as relações entre é definido para dar coerência à
memória e história. organização da trajetória política
dessas personagens, é a chamada
Memória, história, trajetória “ilusão biográfica” (B0URDIEU, 1998:
política 184-185).
A análise da experiência Percebemos a utilização desse
integralista em Limoeiro, estado do recurso quando Franklin Gondim
Ceará, com base nos depoimentos de Chaves, ex-Chefe Municipal da A.I.B.,
ex-militantes e de memorialistas em Limoeiro, numa entrevista para o
revela-nos uma estreita relação entre NUDOC/UFC – 1984, admitiu ter
memória e história (oficial) que por tomado parte do movimento da AIB
sua vez está em sintonia com os em sua juventude. Pintando com cores
projetos políticos hegemônicos para suaves esse momento de sua
aquela municipalidade. Da mesma trajetória política atribuiu certa
forma, há um lugar reservado na inconseqüência de um iniciante recém-
memória política do município aos ingresso no mundo das acirradas
seus personagens ilustres, um disputas políticas interioranas, ao
panteão tributado às elites políticas passo que esse momento também
locais, em especial, às famílias e aos figura como aquele que sela uma
grupos detentores do poder político. A aliança – longa e duradoura – com sua
trajetória política dessas personagens comunidade, colocando-se como
coincide e se confunde com a própria porta-voz de suas demandas e de
história política do município. suas reivindicações, fortalecendo os
A atuação de personagens da laços identitários com a comuna
elite política local no movimento da limoeirense. No entanto, a sua
AIB revela-nos uma certa participação na A.I.B. figura apenas 6
Após a extinção da
AIB em 1937 o
ambiguidade na organização e na como um ponto de partida em sua
Integralismo foi alvo da
difusão da memória sobre um passado trajetória, pois na seqüência perseguição da polícia
integralista. De um lado ela figura observamos a necessidade da política do Estado Novo
e a propaganda tratou a
como elemento importante para personagem de se desvincular desse associá-lo ao nazi-
caracterizar a trajetória dessas passado. Devemos considerar que no fascismo europeu. Na
historiografia houve um
personagens ao indicar uma postura ato da entrevista, em 1984, já havia longo silencio no
de vanguarda, de idealismo, de uma imagem e uma representação tocante ao movimento
da AIB; os primeiro
combatividade política, de defesa de negativada da experiência integralista trabalhos acadêmicos só
um projeto capaz de solver os na história política do Brasil6. foram produzidos em
problemas imediatos de toda Observamos na organização fins da década de 1970.

comunidade local e da nação; do das trajetórias políticas “elementos


116
contraditórios que constituem a mando que sua família há décadas já
identidade de um indivíduo e das exercia naquela municipalidade. Da
diferentes representações que dele se mesma forma, revela-nos a
possa ter conforme os pontos de vista possibilidade de ascensão política num
e as épocas” (LEVI, 1998: 171). Esses período adverso para o seu grupo,
elementos são articulados para momentaneamente debilitado no pós-
conferir certa coerência narrativa Revolução de 1930 (REGIS, 2008:
contra uma experiência real marcada 264-265).
por tensões e incoerências. Segundo Franklin Chaves, antes de
Bourdieu, o relato da vida “tende a fundar o núcleo da AIB em Limoeiro já
aproximar-se do modelo oficial da havia criado uma seção dos Círculos
apresentação oficial de si” Operários Católicos nesse município e
(BOURDIEU, 1998: 188). Assim, são integrava a União dos Moços Católicos,
fixadas as balizas entre as quais evidenciando seu ingresso no
devem está as informações integralismo como um desdobramento
necessárias e “autorizadas” ao ato de dessas opções políticas relacionadas 7
Giovanni Levi em seu
lembrar, fazendo coincidir a identidade aos grupos de ideologias consideradas texto “Usos da
Biografia” apresenta-
individual com a memória política de conservadoras. O auge da militância nos várias perspectivas
sua coletividade7. integralista coincide com sua eleição do gênero biográfico. A
nossa perspectiva é a
para vereador – 1936 – pela Liga que ele definiu como
[...] o gênero biográfico representa Eleitoral Católica; com sua escolha “Biografia e Contexto”.
certa armadilha ao apresentar as
para presidir aquela Casa e com o seu
trajetórias de vida como seqüências
lógicas e bem encadeadas, ocultando ingresso na Câmara dos Quatrocentos,
aspectos da vida do indivíduo que via uma das “Cortes do Sigma”.
de regra não se coadunam com a sua O envolvimento, de Franklin
apresentação pública, pois as
Chaves com a AIB foi bem mais
descontinuidades são desdenhadas.
Não devemos esquecer que, como em intenso do que fizera parecer em sua
qualquer outra forma de narrativa, a entrevista, representou uma postura
biografia é o resultado do exercício da político-estratégica pessoal e coletiva,
memória tanto do biografado como
pois a Chefia Integralista no município
do biógrafo e visa não só traçar uma
linha prospectiva que se coadune com significou a rearticulação das forças
a identidade que o indivíduo busca políticas aliadas e a expansão da
fixar em relação ao grupo ao qual influência e do poder do grupo sobre
pertence, produzindo assim uma
seus munícipes. Significou articulação
auto-representação de si e do grupo;
mas também exercer uma função de um novo pacto do seu grupo com a
pedagógica, a de ensinar pelo sociedade local, ora representado não
exemplo (REGIS, 2008: 229-230). mais pelas antigas lideranças, mas por
um jovem idealista sintonizado com as
A trajetória política de Franklin transformações que se operavam na
Chaves que inclui seu ingresso nas organização política nacional no pós-
hostes do movimento integralista deve 1930.
ser visto mais do que um simples O estudo das trajetórias
incidente ou um arroubo de políticas, quer de uma pessoa
juventude, revela-nos – se não as anônima ou de uma “grande”
estratégias políticas do seu grupo – os personagem, nos mostra uma tensão
imperativos de sobrevivência do permanente entre o individual e o
117
coletivo. As memórias integralistas em uma história verdadeira, a “História da
Limoeiro, dos ex-militantes e ou do Nação”.
ex-Chefe Municipal, são materiais Nesse sentido, é que
importantes a reflexão sobre as buscamos confrontar os depoimentos
fronteiras entre o individual e o de ex-militantes do movimento
coletivo, a relação entre o “contexto” integralista em Limoeiro com a
e o próprio evento. entrevista de Franklin Gondim Chaves,
No caso em tela, a trajetória concedida ao NUDOC/UFC, cotejando
política de Franklin Chaves se a fala dos militantes com a do Chefe
confunde com a memória oficial do Integralista do núcleo local, para
município. Do mesmo modo, as podermos compreender tanto o fato,
representações de Franklin Chaves como aquilo que sobreviveu do
sobre o passado integralista passado a partir da escolha política
interferem na forma de lembrar dos dos sujeitos sociais envolvidos.
ex-militantes integralistas e da As reflexões de Alistair
maioria dos memorialistas locais, visto Thomson foram particularmente
a proximidade entre eles, pois são importantes para lidar com as
integrantes de uma mesma memórias sobre movimento
comunidade, partilham dos mesmos integralista em Limoeiro,
códigos, têm e guardam com eles a principalmente nos aspectos relativos
memória, a “história” do município. à memória e à identidade construídas
a partir do jogo das reminiscências,
Memória, história, fontes orais que dão sentido ao passado e ao
O estudo da memória no presente, e da tensa relação entre a
contexto das vicissitudes históricas e memória das experiências desses
historiográficas passa invariavelmente indivíduos com a história oficial
pela ampliação da noção de fontes (THOMSON, 1981:54-55).
documentais. Assim, a diversificação No caso das memórias
das fontes pôde restabelecer para a integralistas em Limoeiro, percebemos
história os relatos orais de indivíduos as nuanças, os caminhos, as inflexões
tradicionalmente negligenciados pela advindas do contato das lembranças
historiografia. Compreendemos que os dos ex-militantes com as
registros históricos nas suas mais representações históricas da Ação
variadas formas são materiais da Integralista Brasileira. Há uma
memória e o que sobrevive “não é interpenetração entre ambas, pois
aquilo que existiu no passado, mas muito daquilo que os depoentes
uma escolha política dos estudiosos do relatam coincide com a bibliografia
passado” (LE GOFF, 2003: 525). sobre o assunto, possivelmente lida
As fontes orais, em síntese, pelos depoentes nesse ínterim, do
proporcionaram um despertar para as acontecer do fato, no passado, ao ato
temáticas ainda não trabalhadas pela de narrar, no presente.
história geral e com problemáticas A memória integralista
voltadas para as experiências de incorporou em seu percurso
indivíduos e de comunidades de informações oriundas do discurso
pessoas que viram seus projetos, seus historiográfico na proporção dos
sonhos, serem sufocados em nome de interesses do presente, do nível de
118
engajamento no passado, ou por não Compomos nossas reminiscências
para dar sentido à nossa vida
ser confortável assumir essas
passada e presente. Composição é
vinculações políticas. São variantes um termo adequadamente ambíguo
que não podemos dar conta na sua para descrever o processo de
totalidade. construção de reminiscência. De
certa forma, nós as compomos ou
É recorrente no debate
construímos utilizando as linguagens
proposto por Thomson, a idéia de e os significados conhecidos de
fronteiras muito fluídas entre nossa cultura (THOMSON, 1981:55).
memória e história principalmente no
que concerne a história oficial, Thomson, afirma que as
celebrativa, em que os relatos dos experiências novas ampliam com
depoentes muitas vezes se freqüência as imagens antigas e
confundem com a própria leitura geram novas formas de compreensão
historiográfica para o fato, ocorrendo do passado. Portanto, o trabalho da
aí pontos de inflexões simultâneos. memória envolve essa relação
Nesse sentido, observamos na passado-presente e, constantemente,
organização da memória integralista as imagens sobre o passado estão
em Limoeiro uma forte tendência de sendo reconstruídas, reelaboradas,
acomodação às representações reinterpretadas, resignificadas no
políticas e historiográficas de cunho presente, com os elementos que a
oficial, pois as interpretações sobre o cultura oferece.
movimento integralista local foram, No trabalho com as
em nosso entendimento, orientadas memórias integralistas, em Limoeiro,
pelos intérpretes ligados à esfera do observarmos como fatores
poder local, por sua vez ligados à relacionados ao presente,
extinta Chefia Municipal. preferências políticas, condição
Mesmo partindo dessa social, influenciam nos relatos dos
constatação, admitimos não haver depoentes. São atitudes perceptíveis
como precisar essas fronteiras e isto tanto em gestos de forte entusiasmo
não torna os depoimentos menos ou pelo que representou o projeto
mais verdadeiros, menos ou mais integralista, bem como pelos
confiáveis, pois esses significados são silêncios no tocante às suas relações
frutos de suas variadas formas de com o fascismo e pelo sentimento de
contato dos depoentes com o mundo frustração com a extinção da AIB. O
que os cerca. O trabalho com as momento presente permite ou não
fontes orais faz emergir esses e que determinada informação seja
tantos outros desafios para os revelada. Nesse sentido, percebemos
historiadores. O que nos importa é a existência de um percurso da
perceber a relação do presente com o memória integralista, em Limoeiro, o
passado, como as reminiscências qual foi sento organizado em
podem ser alteradas, ressignificadas. constante mediação com a dinâmica
Sobre essa matéria, Alistair política local.
Thomson, designou como um Um tema de difícil trato com
processo de composição: os depoentes refere-se à ligação do
Integralismo com o nazi-fascismo. Ao
serem indagados da relação do
119
Integralismo com o fascismo, via de Integralismo em uma população rural
regra, os depoentes reagiam com uma lógica de vida particular,
afirmando ser algo que poderia diferenciada daquela dos grandes
acontecer em outro lugar, mas não centros urbanos. O anticomunismo
em Limoeiro. Essa tensão entre foi responsável por levar parte da
presente e passado, entre o aqui e população local às hostes
em outro lugar, é passível de integralistas na mesma proporção
explicação se forem consideradas as que contribuiu para lhe dar
imagens negativas difundidas sobre o longevidade no tocante a um
Integralismo após a sua extinção, em sentimento de pertença, ainda
1937. Esse fator exerceu um papel verificável entre os depoentes.
preponderante no processo de Esse sentimento de
“composição” da memória pertença, ainda vivo entre os
integralista local em que prevalece a depoentes, nos leva a pensar na
intenção de omitir publicamente a manifestação de uma memória
relação do movimento da AIB com os erigida coletivamente e que
movimentos fascistas alhures. internamente, ao grupo, guarda certa
Nas imagens construídas coerência de significados, denotando,
pelos depoentes não havia lugar para assim, um processo de identidade de
algo que pudesse macular um projeto grupo, com seus códigos de conduta
que era viável e necessário para ou a formação de uma comunidade
redimir o Brasil dos males herdados de sentido. Sobre esse processo
de experiências históricas anteriores. Ecléa Bosi afirma: “A identificação
Esse foi o discurso integralista nasce de uma comunidade afetiva e
amplamente divulgado entre os seus ideológica, entre o indivíduo e o
militantes espalhados por todo o grupo local dominante, comunidade
Brasil, discurso que sobreviveu e se que a ação conjunta só poderia
cristalizou na memória de seus ex- reforçar”. (BOSI, 1994: 462).
militantes. São essas imagens O sentimento de pertença do
privilegiadas na memória dos indivíduo ao grupo não é unicamente
depoentes, conferindo assim físico é, sobretudo, um
positividades a experiência política pertencimento afetivo. Assim,
passada. percebemos que o silêncio em torno
A partir da idéia de do fascismo reflete as atitudes de um
“composição” da memória grupo, de uma comunidade de
percebemos também um forte sentido. Da mesma forma, as muitas
sentimento anticomunista presente coincidências nas diferentes
nas falas dos depoentes. Há muito, narrativas no tocante a um
esse elemento de um “imaginário sentimento anticomunista, aos
anticomunista” já se enraizara nas sonhos alimentados, à idéia de
idéias e práticas dos narradores, frustração com o fim das atividades
tanto no passado como ainda se da A.I.B., apontam para a ideia de
manifestava no presente. Algo que uma memória coletiva.
ainda os liga à doutrina integralista. Contudo, devemos salientar
Essa temática nos possibilitou que a memória integralista, em
aprofundar nos significados do Limoeiro, deve ser pensada como
120
tendo, certo percurso, e que no movimentação política em todo o
decorrer do mesmo vem sofrendo Brasil. Nesse sentido, são lembradas
inflexões constantes da historiografia com freqüência as escolas de
oficial e da experiência social, o que alfabetização implantadas pelo
lhe imprime processos constantes de movimento, fato que levaria o país a
ressignificação do passado. Alguns se redimir dessa chaga que tanto
fatos alteraram sobremaneira esse envergonhava a nação. Havia uma
processo de “composição” da utopia integralista assentada num
memória. No nosso entender a projeto de transformações sociais,
extinção da AIB, em 1937, é um políticas, econômicas e culturais.
tema muito importante para pensar Na contramão dessas
sobre as inflexões da memória nesse lembranças vem a idéia de que
processo. Getúlio Vargas foi o responsável por
A extinção da AIB é abortar esse projeto, portanto, o
interpretada como a frustração de responsável por frustrar o sonho dos
um sonho, pois na organização das integralistas de edificar uma nação
memórias integralistas há um lugar unida e coesa, somente possível
privilegiado para o projeto de através da cooperação entre as
redenção oferecido pelo movimento diversas classes.
do sigma para a sociedade brasileira. Enfim, um sonho se foi, mas
São recorrentes nas falas dos permaneceu vivo o sentimento de ter
depoentes referências às grandes participado desse projeto.
transformações que seriam levadas a Experiência que deve ser lembrada
cabo se os integralistas tivessem considerando certos limites impostos
chegado ao poder. As imagens pela memória política dominante na
construídas são muito próximas municipalidade em que vivem os
daquelas oferecidas pelo próprio depoentes.
discurso integralista no auge de sua

Referências:
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. 3 ed., São Paulo:
Companhia da Letras, 1994.
BOURDIEU, Pierre. Ilusão biográfica In. FERREIRA, Marieta de Morais e AMADO,
Janaína. Usos e Abusos da História Oral. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.
JUCÀ, Gisafran Nazareno Mota (Org.). Memórias entrecruzadas: experiências
de pesquisa. Fortaleza, EdUECE, 2009.
LE GOFF. Jaques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão (et. Al.), 5a.
ed, Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.
LEVI, Giovanni. In. FERREIRA, Marieta de Morais e AMADO, Janaína. Usos e
Abusos da História Oral. 5ª. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.

121
MONTENEGRO, João Alfredo de Sousa. O Integralismo no Ceará. Variações
Ideológicas. Fortaleza: IOCE, 1986.
PARENTE, Josênio C. Anauê: Os camisas verdes no poder. Fortaleza: Editora
UFC, 1999.
REGIS, João Rameres. Integralismo e Coronelismo: Interfaces da Dinâmica
Política no Interior do Ceará (1932-1937). Rio de Janeiro: Tese de Doutorado
em História Social – UFRJ, 2008.
THOMSON, Alistair. Recompondo a Memória: questões sobre a relação entre a
história oral e as memórias. In. Projeto História - 15: Ética e História Oral. São
Paulo: Editora da PUC, 1981.

122
O USO DO CIBERESPAÇO NA étnicos indígenas. Nesse processo, o
RECONSTRUÇÃO DO QOLLASUYU1 ano de 1992 foi marcante: muitas
Celso Gestermeier do Nascimento2 solenidades preparadas por 1
Este trabalho é parte
autoridades americanas para de uma pesquisa de
comemorar os 500 anos da doutoramento e foi
apresentado no VIII
Resumo descoberta da América foram Congreso
boicotados e/ou violentamente Latinoamericano de
Os aymara bolivianos estão usando o Sociologia Rural,
criticados. Muitos governantes latino- realizado em Porto de
ciberespaço como novo local de lutas na
americanos ficaram espantados com Galinhas, no ano de
defesa de seu projeto político que visa a 2010.
o ressurgimento de manifestações
recuperação do antigo Qollasuyu, o
território que ocuparam no continente
indígenas e com suas organizações
sul-americano de antes da conquista bem estruturadas demonstrando, 2
Professor da Unidade
espanhola. Tal projeto ganhou alento inclusive, intenções de atuar mais Acadêmica de História
com a eleição do presidente Evo Morales, enfaticamente no jogo político da UFCG
de origem aymara e com estreita relação partidário nacional. Ou seja, pessoas
com os movimentos sociais bolivianos: que eram muitas vezes descritas
dessa forma, os aymara usam a internet como passivas saem de seus
para tentar criar sua “nova” nação no
povoados para tomar as praças de
mundo ocidental, exigindo respeito por
nações latino-americanas.
modos alternativos de vida.
Trata-se de uma nova fase
Palavras-Chaves: aymara, ciberespaço, de organização dos movimentos
índios. indígenas que se gestava já nos anos
80 com a formação da Coordinadora
Indígena de La Cuenca Amazônica
Abstract (COICA) e, posteriormente com a
Confederación de Nacionalidades
Aymara bolivian is using ciberespaçe as Indígenas del Ecuador (CONAIE) que
new place of fights in the defense of its
foram fundamentais no processo de
project politician who aims at the
manifestações populares no processo
recovery of the old Qollasuyu, the
territory that had occupied in the South que levou a renúncia do presidente
American continent of before the Spanish equatoriano Jamil Mahuad em 2000,
conquest. Such project was fortified with por exemplo.
the election of president Evo Morales, Outra data importante foi o
that it had narrow relations with the ano de 1994, com o aparecimento do
bolivian social movements: of this form, Exército Zapatista de Libertação
aymara use the Internet to try to create Nacional (EZLN) deflagrando uma
its “new” nation in the world occidental,
revolta em Chiapas, México, para
demanding respect for alternative ways
protestar contra a entrada do país no
of life.
NAFTA, a adoção do neoliberalismo e
Keywords: aymara, cyberspace, indians as condições de vida desumanas
impostas ao mayas da região; os
neo-zapatistas ganharam manchetes
Chama-nos a atenção na na imprensa mundial e ficaram
América Latina do século XXI o famosos por seu apelo de
fortalecimento de movimentos solidariedade a todos os povos do
123
mundo, pela prática de elaborar nacionalidade em pé de igualdade
alianças com outros movimentos com outras, ocidentais e, mais do 3
No nosso caso,
campesinos – e indígenas3 – e pelo que isso: apresentam e valorizam entendemos que a
uso da palavra transmitida através seus próprios sábios e seus identidade indígena e a
camponesa são
da internet como arma: trata-se de intelectuais. Embora não tendo mobilizadoras, ou seja,
uma “netwar”, uma guerra através freqüentado as escolas dos brancos, seu uso depende do
da internet. a sabedoria ancestral é retomada na contexto político em
que são operadas.
Aqui é importante ressaltar, figura das autoridades tradicionais – Assim, no momento
de acordo com Rojas (1998), uma “mallkus”, no caso andino - não presente e nos países
onde a presença
nova fase de afirmação dos povos identificados por títulos acadêmicos, indígena é marcante
indígenas latino-americanos, na qual valorizados num modelo de educação essas categorias se
sobrepõem, razão pela
são colocados em xeque os próprios estrangeira, mas por uma longa qual aparecerão em
limites democráticos em países de época de aprendizado com as nosso trabalho, muitas
vezes alternando-se,
histórica tradição autoritária. O tradições, com a memória, o que lhe
pois os próprios autores
modelo de democracia adotado na possibilita aconselhar, ensinar, curar assim as utilizam.
maioria desses países é criticado etc, contrapondo-se à imagem do
como etnocêntrico, na medida em sábio ocidental, que acumula títulos.
que busca tornar os cidadãos iguais, O processo recente de
sob o modelo ocidental, retomada, valorização e construção
homogeneizando-os. da identidade indígena é comum a
Dessa forma, tais quase todos os países americanos.
movimentos levantam a bandeira do No entanto, os conflitos ocorridos em
direito à diferença, de ser diferente outubro de 2003 na Bolívia se
do modelo ocidental que o destacaram e chamaram nossa
neoliberalilsmo propõe e, mesmo atenção por três motivos principais:
assim, não serem vistos como em primeiro lugar pela violência da
cidadãos de segunda categoria por repressão policial, que levou à morte
fugir desse modelo. E mais: também quase uma centena de pessoas,
exigem o respeito a uma dupla demonstrando que apesar de
cidadania, que conjuga a do Estado- estarmos no século XXI, a questão
Nação e a de nações originárias, social continua sendo tratada como
corporificando-se na luta pela caso de polícia; em segundo lugar
educação bi-lingüe, reivindicação por seu radicalismo: os
comum a quase todas as manifestantes não arrefeceram os
organizações indígenas. Nessa ânimos apesar da repressão e,
campanha contra o que Rojas (1998) através de mutirões bem organizados
4
Ou seja, a
chama de “fundamentalismo bloquearam as entradas para a
4
homogeneização dos
democrático” , é que também cidade de La Paz, organizaram cidadãos sob idioma e
defendem o direito coletivo, que se passeatas e pressionaram de tal cultura ocidentais.

diferencia dos “direitos do homem e forma que o presidente Gonzalo


do cidadão”, típico da democracia Sánchez de Lozada foi obrigado a
liberal, defendendo a coletividade em renunciar e, finalmente, pela imensa
contraposição ao individualismo do participação indígena na defesa do
capitalismo neoliberal. gás boliviano e dos recursos naturais,
Tais movimentos começam a compreendidos como um patrimônio
exigir o reconhecimento de sua
124
coletivo e não como mercadoria a ser conhecimento erudito, expresso por
comercializada. autores, livros, tese e revistas
Por si só, os eventos de especializadas, devido à pressa com
2003 na Bolívia já mereciam ser que normalmente a informação é
estudados, mas eles não param por normalmente procurada por
aí, são parte de um processo que internautas. Isso será, sem sombra
acabou levando à presidência o líder de dúvidas, um grave problema no
cocalero aymara Evo Morales, em nosso novo século, ou seja, a
2006, cuja eleição deve ser necessidade de uma triagem sobre a
entendida dentro de um contexto imensa quantidade de material
mais amplo de manifestações disponível e seu uso um tanto
populares que, embora específicos de indiscriminado. Ao mesmo tempo, a
um momento da história boliviana, própria internet ainda tem sido pouco
podem repercutir em outros países alvo de reflexões até mesmo por
onde organizações indígenas ou aqueles que frequentemente a
populares se mobilizam contra o utilizam.
neoliberalismo. Não podemos Em nosso caso, o elemento
esquecer que em 2000 foram as central de reflexões é o projeto de
manifestações populares que Revolução Índia, pois acreditamos
barraram o processo de privatização que da mesma forma como
do fornecimento de água em pesquisadores podem valer-se de
Cochabamba, e que a presença de documentos escritos, história oral,
deputados indígenas no Parlamento panfletos, jornais, entrevistas,
Boliviano não é mais nenhuma questionários, observação
novidade e que nas eleições participante etc, os sites
presidenciais de 2002 e 2005 disponibilizados no ciberespaço
observamos dois candidatos aymara: começam a ser vistos como passíveis
Evo Morales, do Movimiento Al de reflexão.
Socialismo (MAS) e Felipe Quispe, do Acreditamos que o fenômeno
Movimiento Indígena Pachacuti (MIP) da net não deve ser apenas analisado 5
Usaremos aymara no
que, além de se assumirem como pelo aspecto tecnológico. Ou melhor, singular, conforme
aymara5, falam em nome de seu a internet não apenas possibilita o antropólogos sugerem.
povo, são reconhecidos enquanto acesso a informações cada vez mais
lideranças políticas e usam sua rapidamente, não se trata apenas de
simbologia. um intrumento da tecnologia, mas
ajuda a desenvolver e alterar as
Os aymara no ciberespaço: o próprias redes sociais. No dizer de
saudoso Qollasuyu Monasterios (2003), é como se ao
A internet conquistou um mesmo tempo em que a sociedade
lugar importante em qualquer tipo de cria a tecnologia, ela também fosse
pesquisa, é comum recorrermos a ela recriada por ela.
imediatamente após sentirmos O presente trabalho tem se
necessidade de aprofundar algum preocupado com a imagem que o
conhecimento, embora haja uma movimento aymara pretende
tendência a que a “autoridade” da transmitir pela internet quando faz
internet venha a substituir o uso de uma tecnologia moderna que
125
parece quebrar com as tradicionais grupos menos representados en
línea. El primero proyecto empezó
concepções de espaço e tempo.
en El Alto en septiembre 2007
Lembramos de Pierre Lévy, quando donde 23 participantes abrieron sus
diz que a internet reúne o passado, o blogs y pudieron aprender sobre el
presente e futuro, promovendo uso de otras herramientas que les
permitieron poder contar sus
abstração do tempo que é, a nosso
experiencias, historia y compartir
ver, algo que os aymara fazem, sobre sus comunidades (…) Voces
integrando essas três dimensões do Bolivianas es parte de una red de
tempo num projeto futuro de proyectos en el mundo que pretende
llegar a estos grupos que están
Revolução Índia, como pretendemos
menos representados en el Internet,
discutir adiante. Como diz um y especialmente en los blogs. (in
militante aymara: http://www.aymara.vocesbolivianas
.org. Acesso 23 out 2008)
Hoy puedo convertir lo que es
inhumanamente es considerado Dentro dessa perspectiva da
abstracto como es la computación
importância cada vez maior dos sites
en un oficio comprensivo que puede
ser aprendido y usado con nas vidas das pessoas e também na
identidad, por eso es el momento vida acadêmica, acreditamos que
para poder hablar de tecnología, também a análise dos sites deva
pero de esa tecnología que no hace
começar a ser um trabalho constante
ver que todo es posible con AYNI, y
que solo hace falta no perder el para pesquisadores de humanidades.
miedo al estar al frente de un PC A opção pelos aymara bolivianos
(computador personal). Pues llega deveu-se a importância dos protestos
hoy el momento en que hay que
públicos de 2000 e 2003 quando nos
empezar a construir herramientas y
empezar a formar los nuevos demos conta que a Bolívia estava
educadores y creadores de cultura num patamar mais elevado em
andina para no solo nuestra gente termos de um processo de 6
aymara, sino para esparcir Talvez a academia é
crescimento de organizações que ainda não tenha
sentimiento y conocimiento propio
al mundo, como alternativa de vida indígenas e na possibilidade real de prestado a devida
atenção a esse
en constante búsqueda de armonía. eleger um aymara à presidência do
instrumento de
(CARVAJAL, Luis Bernardo. In país. A novidade de Evo Morales não pesquisa.
http://www.luiscarvajal.cl/ )
é apenas a de um indígena chegar ao
poder político7, é mais do que isso: 7
As organizações indígenas Embora tal fato só
Evo se assume enquanto aymara, tenha ocorrido
cada vez mais têm percebido as anteriormente com
fala abertamente em mudar o país e
imensas oportunidades que o uso da Benito Juárez, no
usa a simbologia nativa (roupas, México.
internet abrem para ampliar sua
cerimônias, alimentos etc).
mensagem ao mundo todo6.
A mensagem aymara através
Encontramos até mesmo um site
dos sites analisados divide-se em
boliviano especializado em ajudar
muitas abordagens, já que é imensa
pessoas a lidar com a internet:
a gama de temáticas discutidas,
tendo como objeto oferecer ao
Voces bolivianas es una
organización sin fines de lucro que internauta uma visão do seu mundo
pretende enseñar el uso de pareceu-nos mais coerente quando
herramientas de Internet de web começamos a organizá-la em função
2.0 (blogs, fotos digitales, video y
do tempo. A partir de um elemento
audio) a Bolivianos y Bolivianas de
126
comum, de uma forma coerente e torva existencia. Hay, pues, que
matarla y destruirla para que nunca
totalizante de encarar e criticar o
más asome la mentira hecha raza!
mundo atual, os aymara reorganizam (Disponível em
e recuperam o passado pré-colonial, http://www.faustoreinaga.org/home
trazendo coerência para suas ações e /?cat=14. Acesso em 24 dez 2008)
preocupações presentes e, dessa
forma, preparam a militância em prol Esse documento foi escrito
de uma Revolução Índia – como eles por Fausto Reinaga, ideólogo do
próprios chamam – que deverá movimento katarista, e o termo
nortear o futuro de suas “Revolução Índia” seria afirmado por
comunidades. ocasião do livro que publicou após
Falemos um pouco sobre a esse congresso, que ainda hoje
origem dessa revolução: seu projeto influencia muito o movimento
aparece em 1969, com a fundação do aymará, dando-lhe um sentido de
Partido Índio de Bolívia: totalidade.
O presente da militância
He Aquí el primer documento de aymara está sempre sendo colocado
guerra que la América India en boca em contato com o passado,
rebelde de Bolivia lanza al mundo.
formando-se um forte elo com o
El largo y ominoso silencio que
impuso la dominación extranjera mundo de antes da chegada dos
muere en las vibrantes palabras de espanhóis. Nesse sentido, em torno
este Manifiesto. Es cierto que la raza de um projeto ideológico que une
de Manco Cápac, la del
aymara, quéchua e guarani – além
Tawantinsuyu estuvo callada por el
peso del oprobio y la indignidad. de outras minoritárias – os sites não
(Disponível em chamam atenção para a expansão
http://www.faustoreinaga.org/home inca e o confronto violento que ela
/?cat=14. Acesso em 24 dez 2008)
abateu sobre os aymara, ou seja, as
rivalidades entre quéchua – etnia do
O documento é claro por sua
império inca – e aymara é omitida,
postura agressiva:
em nome de um inimigo comum, o
europeu que fundou a sociedade
A nombre de la raza india de
América entera es que el Partido criolla que ainda sobrevive. Existem
Indio de Bolivia decreta mesmo sites que se auto-definem
abiertamente la guerra total contra como quechuaymara, esquecendo o
8
la raza blanca, porque ella no es Embora, é claro, aqui
passado de confrontos. não seja o espaço para
solo el insultante color de piel
blanca, sino un agraviante y Tal questão pode ser tal discussão.
cobarde estilo de vida donde el robo observada em todo continente
es virtud que se premia y el crimen americano8, pois as organizações
negocio que se condecora. La raza
indígenas, embora até apontem para 9
Um erro histórico de
blanca no es simplemente una raza
como las demás, sino que es una a valorização de suas nações e Colombo.
distinta, no humana, creadora de la critiquem o uso da categoria de
guerra y de la propiedad privada. “índio” ou “indígena”9, muitas vezes
Inventora de la jerarquización
recorrem a elas estrategicamente,
social, de las crisis, del ataque a
sangre y fuego, raza fetichista, quando têm um objetivo a perseguir.
hipócrita, hecha mentira desde su Ou seja, não é nenhum segredo que
nacimiento, caminando entre determinadas identidades possam ser
mentiras y falsedades durante su
127
manipuladas exaustivamente com é uma educação voltada para os
interesses diversos. interesses de uma sociedade branca.
Questões como essa aparecem
A Base da Revolução Índia: a constantemente: a preocupação com
educação uma educação voltada para a língua
nativa, com história e cosmologias
Aqui podemos discutir um também nativas é recorrente entre
pouco o projeto aymara centrado na os aymara, os sites muito se
educação, que visa formar novos orgulham de apresentar a
militantes. Tal projeto de futura experiência da Escola Ayllu Warisata
sociedade passa necessariamente no início do século passado e a
pelo que Felipe Quispe chama de “re- proposta atual da Universidad
indianização”, ou seja, combater os Intígena Tupaj Katari. Discutamos
vícios adotados por indígenas da um pouco isso, conforme pode ser
sociedade branca e re-introduzir a visto no ciberespaço.
cultura original. Para isso, é claro que
o processo educacional torna-se Warisata: Escola-Ayllu
fundamental, vejamos a Home Page Em 1931, Elizardo Pérez,
de um dos sites: funcionário do Ministério da Educação
da Bolívia, chega à região de
Objetivos Generales: Warisata, no altiplano andino, com
Rescatar las Ciencias y la Sabiduría
uma proposta de construir uma
de la Cultura Qulla mediante la
creación de un Centro de Formación escola indígena. Após um difícil
Integral para impartir la lógica, começo, a escola indígena Warisata
lingüística y sabiduría científica passou a ser modelo para dezenas de
cósmica, filosófica y mística Qulla.
outras, implantadas pelo país e
Otro de los objetivo es, la
"Reconstitucion de la Realidad Elizardo Pérez tornou-se Diretor do
Qulla", a través de la facultades Conselho Nacional de Educação
YATI (Saber Científico), LURA Indigenal.
(Saber Filosofico), QAMA (Saber
Para sua implantação, a
Cósmico), AJAYU (Saber Místico).
Tambien está en su busqueda de escola contou com recursos federais
logros a nivel Socio-economico vindos de decretos presidenciais,
saludable y sostenible de sus coletas públicas organizadas pelo
sistemas de produccion de la
Ministério da Educação, da sociedade
comunidades originarias. (Disponível
em civil, além dos próprios comunários
http://geocities.com/consejoqulla/ca que forneceram materiais e trabalho
stellano/castellano.htm. Acesso em coletivo (ayni). A escola deveria
30 jun 2008)
funcionar como um ayllu, educando
índios em seu local de origem, longe 10
Lembrando, por
Os aymara não estão
dos latifundiários e visando suprir as exemplo, os trabalhos
interessados na revolução do peruano Jose Carlos
suas próprias necessidades. Desde o
socialista10, mas tecem críticas Mariátegui.
início, a escola contou com a estreita
semelhantes ao sistema educacional.
colaboração das autoridades locais,
Ou seja, se não concordam com a
como o amauta – sábio aymara –
solução para o problema, estão em
Avelino Siñani, formando-se o
acordo quanto ao diagnóstico, de que
Parlamento Amauta para dirigi-la
128
correspondendo uma ligação entre o Director, maestros de cursos o de
núcleo escolar e as autoridades talleres” (VERA, p. 20).
campesinas, “elegidas entre A Educação Formal Indígena
representantes de los mineros, era composta por cinco seções:
fabriles, padres de família, el

Tabela 01: Divisão de séries Escola Warisata

SEÇÃO IDADE DO ALUNO EM ANOS


Jardin Infantil 4–7
Prevocacional 7 – 10
Vocacional 10 – 13
Profesional 13 – 15
Normal 15 – 17

Disponível em:
http://www.willka.net/Universidad%
20Tupac%20Katari.htm . Acesso 13
jun 2007

129
Com exceção das duas producción comunal, la solidaridad
recíproca, la revalorización de la
últimas seções, com a duração de
identidad comunal y la Comunidad
dois anos, as demais todas eram como sustrato. (VERA, p.67)
cumpridas em três anos. Desde os
quatro anos de idade o aluno tomava Parte-se do pressuposto que
contato com o conhecimento de flora, a educação necessita estar voltada
fauna, tipos de cultivo, criação de para o interesse da comunidade em
animais, estudos de idiomas nativos que vive o aluno, e que ela deva ser
e do espanhol, além de tarefas de radicalmente diferente à dos brancos,
oficinas, como carpintaria, mecânica, para ajudar a promover a libertação
tecelagem, sapataria, pintura etc, índia:
além de outras atividades específicas
de cada região como refino de El maestro rural en su cuero indio
açúcar, produção de cacau etc. tiene una mente blanca, que enseña
la cultura del conquistador asesino
Apesar da variedade de atividades
del Inka Atawallpa. El sacro deber
Warisata se tornou modelo de del maestro rural debe ser arrancar
produtividade e, talvez um de su cabeza a esa "mala hierba'' de
importante elemento formador das peregrinas culturas espurias, y
volver al indio, que es una
idéias revolucionárias de 1952.
maravillosa cultura comunitaria
Pautava-se pela não dissociação socialista milenaria.
entre trabalho intelectual e trabalho La escuela rural en vez de practicar
manual, cuja base era a relação la "Pedagogía del Oprimido" de
Paulo Freire, hace uso de la
entre quatro pólos: o primeiro era a
pedagogía del opresor. En vez de
aula, o momento em que se realizava ser la pedagogía una "práctica de la
o ensino teórico, depois viria a libertad", al indio se le suministra
Oficina, quando se ensinavam tarefas una "educación" para la práctica de
la esclavitud. La escuela rural le
práticas aos alunos, tais como as de
inculca al indio los "mitos de los
ferreiro, carpinteiro etc, além de blancos"; y en vez de hacer del
produções artísticas – estátuas, indio el sujeto de su historia, le hace
quadros, portas, janelas, roupas etc el objeto de la historia de los
expósitos europeos. (Disponível em
–. O terceiro e quarto pólos seriam
http://www.willka.net/Universidad%
tarefas integradas: cuidados com as 20Tupac%20Katari.htm. Acesso 14
terras de cultivo – “sembrió” – jun 2007)
estudo e prática de técnicas de
agricultura deixadas pelos A escola funcionava na forma
antepassados, o experimento com de internato para alunos de locais
novas culturas – trigo siberiano, por distantes – e inclusive estrangeiros –
exemplo – e o sistema de trabalho e elencava também tarefas de
coletivo – “ayni” – eram colocados externatos, além dos Seminários
em prática: Integrais de Cultura, com exibição de
programas de rádio, filmes, danças
Los aspectos innovadores son en nativas, leituras coletivas etc.
realidad los principios
Também previa-se para os domingos
fundamentales que fueron la razón
de ser de la Escuela Ayllu de – já que as aulas iam de segunda-
Warisata, estos son: La liberación, feira a sábado, atividades de lazer e
la organización comunal, la sociabilidade com as comunidades
130
vizinhas: “Se instituye los “Domingos
del Campesino”, com el objetivo de Los aspectos innovadores son en
realidad los principios
atraer a la población agrária hacia la
fundamentales que fueron la razón
Escuela para invitarlo a la superación de ser de la Escuela Ayllu de
de su cultura. Los Domingos Warisata, estos son: La liberación,
conprenden todo el dia con programa la organización comunal, la
producción comunal, la solidaridad
diverso” (VERA, p.23)
recíproca, la revalorización de la
Dessa forma pode-se identidad comunal y la Comunidad
verificar que a idéia era de uma como sustrato. (VERA, p.67)
educação integral, buscando-se obter
formação formal e prática ao mesmo A educação aymara está
tempo, voltada ao cotidiano e voltada para a comunidade porque
necessidades das comunidades, tudo gira em torno dela, eles fazem
exercitando nos alunos uma prática questão de ressaltar essa visão
comunitária em torno de serviços integral do mundo, que não é
coletivos, por isso funcionando como incoerente: não há apenas o
um ayllu. Ela era vista não como econômico como mais importante,
parte de uma reforma educacional, como lhes parece ocorrer na
mas como uma verdadeira sociedade ocidental:
“Revolução Cultural Intígena”:

Disponível em:
http://www.willka.net/Universidad%20Tupac%20Katari.htm.
Acesso 13 jun 2007

A Escola-Ayllu Warisata foi importância foi notória no I


fechada em 1940 devido a pressões Congresso Indigenista
de fazendeiros e ao abandono pelo Interamericano, realizado no México
governo, mas ao mesmo tempo sua em 1940, conforme o testemunho de
131
Adolfo Velasco, professor mexicano independentes em que as elites
que a visitou em 1939: “criollas” muito fizeram para colocar
o indígena no “museu da história”,
A fines del corriente año se verán como diz o subcomandante Marcos,
los primeros frutos efectivos de la
líder do neozapatistas, eles ganham
escuela a que se contrae la presente
monografía. Diecisiete jóvenes um novo local para suas batalhas: o
indígenas adquirirán el grado de ciberespaço.
maestros indigenales [...] Hasta la Num contexto em que os
fecha, la escuela ya ha producido un
projetos de globalização econômica
buen número de alumnos
especializados en carpintería, apoiados na “esperança neoliberal”
herrería rural, tejeduría y de homogeneizar o planeta sob suas
alfombraría, los cuales ya diretrizes, o feitiço volta-se contra o
capacitados para el desempeño de
feiticeiro e um instrumento
estas artes se han derramado en
sus propias comunidades y algunos tecnológico criado com fins militares
han ido a escuelas centrales de nos Estados Unidos, tornou-se
núcleos indígenas. (VELASCO, p.70) perfeito para romper fronteiras
locais, regionais e internacionais,
A escola não visava apenas a mostrando que muitos problemas
formação de alunos, mas também a que sufocam grupos minoritários e
produção de futuros professores marginalizados podem ser
indígenas que continuariam o combatidos com base numa união
processo, abrindo outras escolas- contra o neoliberalismo e a
ayllus e isso foi se tornando perigoso globalização econômica, mostrando
11
Parodiando os temas
do Fórum Social Mundial
numa sociedade racista como a que “outro mundo é possível” ou e o tema da campanha
boliviana. Portanto, verificamos que a mesmo que “nós podemos”11. presidencial de Barack
atuação educacional que hoje é uma Obama.
O ciberespaço muito
bandeira de luta de grupos indígenas contribui para esse “renascer da
não é, de fato, novidade na história esperança”, levando os aymara a
aymara. O exemplo da Escola-Ayllu usá-lo como ponta de lança da
Warisata é retomado agora no reconstrução de seu Qollasuyu.
projeto de Revolução Índia na Assim, para encerrar, gostaríamos de
construção das Universidades apresentar ao leitor uma tabela
Intígenas, já aprovads pelo governo encontrada em um site aymara e
Evo Morales. construída no “Segundo Encuentro
Continental de Pueblos y
Uma nova realidade ou Nacionalidades Indigenas del Abya
apenas virtualidade? Yala”, realizado na Guatemala, em
Há séculos os grupos 2007, onde se pode ver um
indígenas têm tido seus projetos de cronograma de atividades para a
sociedade descaracterizados e realização de sua Revolução Índia:
desprezados, apontados ainda hoje
como “utópicos”. Após séculos de
colonização e de Estados Nacionais

132
ANEXO TABLA CRONOLOGÍA EXPLORADO A LOS AÑOS- 2032 ? 2042 -2992.
AÑO 1992 AL 2002- Inicios del Pachakuti - Reflexión sobre la situación cultural,
social y política, después de los 500 años de colonialismo. Reemergencia de Los
Pueblos Naciones y Culturas Originarias, y Movimientos Sociales afectados por el
sistema.
AÑO 2003 AL 2007- Reencuentro de los pueblos y culturas originarias, hacia una
nueva dimensión histórica. Creando espacios de articulación colectiva, para
reconducir el presente.
AÑO 2008 AL 2012- Tiempo propicio, para la construcción de una propuesta de
transición histórica, y la re-creación de una sociedad intercultural, como alternativa
Incluyente
AÑO 2013 AL 2017-Inicio; Ejecución de proyectos integrados, de transformación
estructural. En los ámbitos cultural, político y social. Insubordinación contra el
sistema capitalista. Aplicación de alternativas políticas, a la realidad Andina y
Continental.
AÑO 2018 AL 2022- Periodo de transición política, a modelos de regimenes
pluralistas. Colapso del sistema colonial republicano. Debilitamiento irreversible del
sistema politico norteamericano, y sus organismos de alcance continental.
AÑO 2023 AL 2027- Nacimiento y emergencia progresiva de Estados Andinos.
Paralelo al surgimiento y rearticulación de sociedades interculturales en el resto del
continente.
AÑO 2028 AL 2032- Transicion a un nuevo orden político y territorial. Eliminación
sistemática de prácticas politicas residuales de la colonia.
AÑO 2033 AL 2042- Creación política de los nuevos estados del continente TAWA
INTI SUYU. Surgimiento de otros procesos similares a escala mundial.
AÑO 2043 AL 2092- Decadencia, desintegración y colapso del proyecto. Migración y
crisis de las formas Mono-culturales, sujetas al modelo económico de mercado, para
entonces obsoleto. Celebración de los cien años de progreso comunal.
AÑO 2093 AL 2142- Fin de la era cristiana, y proceso de re configuración cultural,
en distintos hemisferios del planeta. Eclosión masiva de sociedades post
humanistas.
AÑO 2143 AL 2192- Proceso de conversión tecnológica. Reversión progresiva de los
niveles de contaminación ambiental, Celebración de los 200 años de transitar el
tiempo favorable del Pacha Kuti
AÑO 2193 AL 2492- Auge de tecnologías sanas y equilibrio ambiental, justicia
social, armonía espiritual
AÑO 2493 . Evitar el surgimiento de nuevas tecnologías, que provocarían un riesgo
de extinción de muchas formas de vida y formas de poder que nos conduzcan al
desequilibrio social.
Disponível em: http://www.qollasuyu.indymedia.org/es/2006/10/2965.shtml.
Acesso em 15 Jul 2010

Tal planejamento nos dá adaptam ao uso de modernas


uma idéia bastante precisa de como tecnologias. A lógica dessa
um grupo indígena – ou melhor, a resistência permite com que eles
aymara - que nunca aceitou a adaptem a tecnologia à sua visão de
invasão européia em seu território mundo e não se tornem escravos de
ainda possui suficiente clareza para uma sociedade consumista, algo
elaborar táticas de resistência que se muito fácil de ocorrer no mundo
133
ocidental dominado pelas máquina não tem como superar o
mercadorias. humano.
Assim, nos sites aymara a A partir de um projeto válido
tecnologia é usada como aquilo que até o século XXV, podemos
ela realmente é: um instrumento a novamente lembrar as palavras do
mais para ser usado com finalidades neozapatista Marcos, ao comentar
de melhorar a vida da comunidade. O que o governo mexicano esperava
computador, dessa forma, jamais que eles de se cansassem e
oferecerá um risco de tornar-se desistissem de suas reivindicações,
autônomo, - algo que ocorre muito afirmando que, só por serem índios
intensamente em nossos filmes de eram por natureza pacientes e não
ficção científica - pois entre eles o desistiriam nunca. Hoje, Marcos,
que importa é o ser humano, assim como os aymara, está no
aglutinado pela lógica comunitária da ciberespaço, de um “não-lugar”,
reciprocidade. O social vem antes do desconhecido e distante – Chiapas –
individual – consumista – e a ganhou o mundo real a partir de um
mundo virtual que o inspira.

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CASTELLS, Manuel. A era da Informação: economia, sociedade e cultura.
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LÉVY, Pierre. A Emergência do Cyberspace e as Mutações Culturais
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134
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Publicado em 4 jun 2007. Disponível em
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http://www.willka.net/libros_archivos/Modelo%20de%20AYLLU.pdf . Acesso 14
mar 2009.

135
REQUERIMENTOS INDÍGENAS: channels, this same system to do
CEARÁ (1812 A 1820) their colonial objectives. 1
Mestrando em História
João Paulo Peixoto Costa1 do Brasil / UFPI.
Keywords: Indians, Bolsista do programa
Juliana Lopes Elias2 requirements, Ceará. REUNI de assistência ao
ensino
Resumo
2
...que os senhores brancos, e outras qualidade Email:
qdedo@hotmail.com
Tentaremos mostrar neste que os índios de pessoas que residem nas terras dos Indios
no Ceará colonial não foram cada hum procure as suas Patrias...
simplesmente “arrastados pela história”, (Índios da Vila Viçosa Real, 1814)
mas também tiveram e foram artífices
de sua própria. Acompanhando esse ...os Indios por serem Indios não deixão de ser
pensamento, nosso objetivo aqui é Vassallos de S. Magestade...
perceber, através de requerimentos (Manuel Ignácio de Sampaio, 1819)
registrados na documentação do
governo de Manuel Ignácio de Sampaio,
de que maneira os indígenas,
conscientes de suas posições sociais, Era frequente na historiografia
usavam, de maneiras diversas, regras tradicional uma abordagem
do mundo branco para poder sobreviver
e construir espaços de liberdade. Para superficial acerca da participação
além de identificar apenas registros de indígena nos variados momentos da
choques e negações indígenas diante da história do Ceará. Quando muito, os
colonização, nossa análise se debruça
índios eram tratados enquanto um
em casos onde os índios se apropriaram,
por meio das vias legais, desse mesmo dos setores mais atrasados da
sistema colonizador para realizarem seus população, arrastados pelo processo
objetivos. civilizador e apenas relevantes
Palavras chave: Índios, requerimentos, enquanto partícipes dos eventos
Ceará. protagonizados essencialmente pelos
brancos. A população indígena era
estudada “sempre na perspectiva de
Abstract ser percebida como primitiva e
inferior, quando comparada à
We will try to show that the sociedade européia, avançada e
Indians in the colonial Ceará were not
civilizada” (ALBUQUERQUE, 2002:
simply "swept away by history", but
also had and were architects of their 20). Seriam fatalmente – como
own. Following this thought, our goal diriam os românticos – engolidos pela
here is to realize, through the sociedade, e enfim, misturados na
registers in the
documentation requirements of the
massa geral do povo (como ficou
government of Manuel Ignacio de registrado no relatório do presidente
Sampaio, how the Indians, aware of daquela província, em 1863). Uma
their social positions, used in different
“orquestração de discursos dava
ways, rules of the white world in order to
survive and creating spaces of ênfase à idéia da não mais existência
freedom. In addition to identifying only de índios no Ceará”, onde o
records of shock “romance literário, a produção
and denial of indigenous before
historiográfica e os pronunciamentos
colonization, our
analysis focuses on cases where the de autoridades governamentais
Indians have appropriated through legal

136
decretavam a morte” desses povos maneiras diversas, “regras [...] do
nativos (Idem: 19). mundo branco para poder sobreviver
Porém, uma recente e construir espaços de liberdade”
historiografia vem combatendo este (CARVALHO JUNIOR, 2005: 323).
tipo de visão, impulsionados pelo Outra corrente de
contexto atual, onde diversas pensamento, que também
comunidades espalhadas pelo pretendemos ir de encontro, é aquela
território cearense declaram suas que imagina as atitudes dos nativos,
identidades indígenas, negando a frente à colonização, apenas no
concepção de extinção dos índios no sentido de reações abertas, como
Ceará. Rechaçam também a tese que fugas ou guerras. Para além deste
prega uma suposta inércia e simplismo, observamos que os
passividade dos nativos diante dos índios, por questões de necessidade,
variados momentos da história. De aprenderam a se inserir naquele
acordo com John Monteiro, é missão universo que os dominou, e
atual dos historiadores “recuperar o souberam ocupar determinados
papel histórico dos atores nativos na lugares, apropriaram-se de diversos
formação das sociedades e culturas elementos, caminhos e táticas para
do continente” americano, conseguirem alcançar seus
revertendo uma bibliografia marcada, interesses. Se alguns traçaram como
se não pela omissão, “por uma visão caminho a resistência armada, outros
simpática aos índios mas que os fizeram nascer novas formações
enquadra como vítimas de poderosos sociais, ou ainda passaram a ser
processos externos à sua realidade” intermediadores imprescindíveis ao
(MONTEIRO, 2004: 227). sistema colonial, ou mesmo se
Inseridos nesta nova valeram das vias legais em busca de
historiografia, tentaremos mostrar seus direitos (BOCCARA, 2005: 06).
que os índios no Ceará colonial não Para além de identificar apenas
foram simplesmente “arrastados pela registros de choques e negações
história”, mas também tiveram e indígenas diante da colonização,
foram artífices de sua própria. Para nossa análise se debruça em casos
Boccara, longe de serem meros onde os índios se apropriaram, por
espectadores da história, o meio das vias legais, desse mesmo
dinamismo e a abertura cultural dos sistema colonizador para realizarem
índios lhes permitiam tirar proveito seus objetivos.
do próprio sistema colonial, Os nativos não foram
possibilitando manejar a seu favor os constantemente “obstinados e
elementos do dominador (BOCCARA, redutíveis opositores do projeto
2005: 06). Acompanhando esse colonial”, já que “ao utilizarem
pensamento, nosso objetivo aqui é mecanismos próprios da cultura”
perceber, através de requerimentos européia estavam “defendendo
registrados na documentação do perspectivas de ação e reação ou
governo de Manuel Ignácio de (re)criação de seu próprio mundo”
Sampaio, de que maneira os (ALBUQUERQUE, 2002: 51). De
indígenas, conscientes de suas pedidos individuais até
posições sociais, usavam, de requerimentos comunitários relativos
137
a tributos e legislações, os indígenas vida condizente com o que exigia a
não se encontravam alheios àquela lei: trabalhando em sua terra de
realidade, mas antes, conscientes forma disciplinar e produtiva. Estes
dos poucos espaços que dispunham, indígenas, aparentemente
e da habilidade que precisavam ter “afastados” de antigos costumes
para manipulá-los de acordo com tradicionais e condenáveis pelos
seus objetivos. padrões de civilidade, apoiavam-se
justamente nas intenções do poder
Requerimentos indígenas real e, a partir delas, produziam
A procura de pistas nos requerimentos (como os que
arquivos do governo Sampaio que discutimos no item anterior), na
nos remetessem a esse tipo de maioria das vezes ao próprio
realidade foi farta, e nos fez perceber governador Sampaio, com conteúdos
o quanto os índios não se colocaram diversos. Tampouco tinham a mesma
apenas enquanto vítimas origem, e dependendo da situação,
desafortunadas diante de uma ou do lugar social do(s)
política que, como nunca fora feita requerente(s), poderiam ser de
antes, buscava discipliná-los e cunho comunitário ou partir de um
impulsioná-los a uma vida produtiva interesse individual.
e “civilizada”. Mesmo cercados em Logo no primeiro ano de
meio a essas práticas normativas, foi Sampaio no Ceará, encontramos dois
possível aos indígenas conseguirem pedidos desse último tipo: o
encontrar meios onde pudessem primeiro, de maio de 1812, está
construir espaços próprios, mesmo registrado em ofício do secretário do
que para isso tivessem que partilhar, governo que, por ordem do
de certa forma, dos planos do governador, escreveu ao juiz
governo. Se já não era mais possível, ordinário da vila de Mecejana, sobre
desde a instituição do Diretório o “Requerimto incluzo de João Correia
Pombalino, levar uma vida mais Indio dos da direcção dessa Villa”.
autônoma e com menos rigor, muitas Manda-o ainda que compareça à sala
vezes o melhor caminho era inserir- do governo, “em execução do
se naquela sociedade, e a partir daí, Despacho nelle proferido”, para que
manipular quando necessário os dê explicações pelo não cumprimento
benefícios que lhes eram oferecidos. da “Carta precatoria do
Ao se tornarem súditos, além das Dezembargador Juiz de Fora desta
obrigações, os nativos passavam a Villa da Fortaleza”3, revelando o nível 3
Maio 23. Registo de
ter também uma série de direitos, de envolvimento que poderia ter um hum Officio dirigido ao
“dentre os quais os de pedir e obter índio em questões jurídicas ou de Juiz Ordinario da Villa
de Mecejana. In: Livro
mercês e justiça do seu Rei” natureza semelhante. 95, p. 35.
(ALMEIDA, 2003: 92), ou mesmo o O segundo requerimento,
de produzir um simples requerimento expedido no mês seguinte, foi
acerca de uma necessidade cotidiana. produzido pelo índio Egidio Dias de
É possível caracterizar melhor Moraes da vila de Arronches, e
esta realidade quando analisamos as registrado em ofício do mesmo
ações de índios que, diante do olhar secretário dirigido à câmara desta
do governo, mantinham um estilo de
138
vila, onde reclama dos danos Mesmo em posições
causados em sua propriedade: desfavoráveis, os índios souberam
muitas vezes movimentar-se nessa
O Illmo Sr Govor manda remeter a sociedade de forma surpreendente, a
esse Senado o Requerimto incluzo de
ponto de terem conseguido realizar
Egidio Dias de Moraes Indio da
Direcção dessa Villa [Arronches] que certas ações que desconcertariam os
se queixa do dano que lhe Causão mais conservadores. Exemplo disso
na sua lavoura os Bois de Mel está em ofício do governador
[Manuel] Caetano de Azevedo e de
encaminhado ao comandante das
outros cujo nome ignoro e he
servido na Conformidade do seu ordenanças de Aquiraz, de dezembro
Despacho de 27 de Maio proferido de 1812, acerca das reclamações do
no mesmo Requerimento q‟ esse índio Vicente Ferreira Ramos sobre
Senado de as Providencias na forma
4
um gado do visinho Jose Vitorino
da Ley . 4
3 de Junho. Registo de
Dantas Correia, que estaria causando
hum Offo dirigido a
estragos nos “Rossados do do Indio e Camara da Va de
Notemos que aquilo que o
a outros moradores”. Em resposta, Arronches. In: Idem, p.
índio requerente queria defender era 40.
Sampaio ordenou que o proprietário
algo importantíssimo para o
do animal fosse intimado a “vender
governador: a sua lavoura, que não
ou mattar a res damninha”5. O que 5
Desembro 4. Registo
só era prova de seu trabalho como de hum Officio dirigido
impressiona nesta atitude do governo
também algo de extremo valor aos ao do Comde das Ordas
foi o fato de ter se dado numa região de Aquiraz pa fazer q‟
planos do poder real de
onde a pecuária tinha enorme valor sugeito mate huma
desenvolvimento econômico e Vaca q‟ destroe os
econômico e histórico, e a perda de rossados visinhos. In:
civilização da população. A plantação
um animal de criação era Livro 16, p. 56.
de Egídio, provável fonte de seu
considerada, consequentemente, um
sustento, passava a ser garantia de
dano altíssimo. Mesmo assim, o índio
que fosse pelo menos despertado no
Vicente levou vantagem nesse evento
governo algum interesse em atender
por ter posto em questão o bom
o seu pedido. Percebemos que ser
funcionamento de sua produção
um índio nessa sociedade não
agrícola e dos demais moradores da
significava que ele estivesse fadado a
região.
ocupar um lugar completamente
Outro registro que comprova a
marginal, desprezível e sem
força que poderiam ter as ações
representatividade. Por mais que
movidas por indígenas aconteceu em
pertencesse a uma “casta” que, em
março de 1813, quando o governador
âmbitos sociais e políticos, era
ordenou ao sargento mor de Vila
inferior aos brancos, a ponto de
Viçosa Real que prendesse Gregorio
“demandar” cuidados especiais das
Ferreira de Castro, “contra quem em
autoridades, Egídio soube somar os
28 de Janeiro deste anno me
seus interesses com os do governo –
requereo o Indio Joze da Costa
que era o de manter-se em uma
Passos”, e que fosse remetido à
terra produtiva de forma adequada –
“Cadeia da Va do Sobral á minha
e, assim, ocupar uma condição social
Ordem”6. Mesmo não revelando o
6
Março 1. Registo de
que lhe possibilitava lutar por seus hum Officio dirigido ao
motivo da prisão, o documento nos Sargmor das Ordas de Va
interesses.
permite perceber, mais uma vez, que Viçosa Real Ordenando
huma prisão. In: Idem,
estes requerimentos não eram
p. 160.
139
somente recursos alegóricos daquele em Quanto Ocupa algum lugar de
7
Vereador, O que VMce da minha Março 10. Officio ao
aparelho jurídico do mundo colonial, Juis Ordino de
parte lhes fará constar afim de que
mas possibilidades reais que os Mecejana. In: Livro 95.
8
assim o fiquem entendendo...
nativos tinham de realizarem seus 8
Outubro 26. Rego de
objetivos, como foi o caso da prisão hum Officio ao Diror
Por esses dois exemplos,
do desafeto do índio Joze. d‟Arronches sobre
percebemos que os requerimentos varios objectos. In:
Além desses pedidos que,
dos índios iam muito além do que Livro 19, p. 108.
como dissemos, eram originados de
uma busca em agradar ao
pessoas que aparentemente
governador ou uma tentativa de
mantinham um estilo de vida similar
provar que estavam agindo da forma
ao que era desejado pelo
desejada pelo poder político, partindo
governador, alguns requerimentos
inclusive de pessoas que estavam
indígenas desagradavam os planos
presas. E nesse caso de 1814,
de Sampaio, tendo inclusive certo
Sampaio registrou mais uma vez o
tom de “atrevimento”. No dia 8 de
que já dissemos anteriormente: os
março de 1817, os índios Antônio da
indígenas não estavam em pé de
Costa e Antônio Francisco Ferreira,
igualdade com os brancos, como é
da vila de Mecejana, mandaram um
deixado bem claro no documento.
requerimento ao governador da
Mesmo assim, essa situação não era
capitania, que os respondeu
inibidora da ação e articulação dos
negativamente no dia seguinte,
nativos em prol de seus objetivos,
“ficando os suplentes presos á Ordem
estando eles ou não de acordo com o
do Juiz Ordo de Mecejana”7. Apesar
governo. Observamos também a
do documento, que está registrado
considerável variedade de intenções
no livro de ofícios do secretário do
associadas a essas petições,
governo, não deixar claro o conteúdo
sugerindo a múltipla situação social
do requerimento e nem o motivo da
dos índios. Mais do que um grupo
prisão, supomos que, pela resposta
coeso e uniforme, a população
de Sampaio, os índios suplentes
indígena no Ceará era heterogênea,
estariam reclamando sua liberdade.
composta de individualidades e
Em outra ocasião, no mês de
setores diferentes, com histórias,
outubro de 1814, o governador do
conjunturas e possibilidades
Ceará também negou o pedido dos
particulares. A própria existência de
oficiais de ordenanças índios de
requerimentos tão diversos – indo do
Arronches, que pretendiam ser
pedido de soltura até a isenção de
“isentos de todo Serviço das suas
funções da elite indígena local – é
Companhias em quanto occupão
uma prova nesse sentido. Porém,
algum lugar na Camara dessa Villa”.
mesmo com toda essa diversidade,
Em resposta, Sampaio disse que
pudemos observar que essa condição
não barrou a organização de certos
...Semilhante pertenção não tem
fundamento algum nem entre os grupos – como foi o caso dos oficiais
Indios, nem mesmo entre os índios de Arronches – que, a partir
brancos, por quanto nenhum das demandas de determinados
Capitão de Ordenanças branco deixa
momentos, se uniram e agiram, de
de Commandar a sua Companhia
nem de executar todas as Ordens acordo com o que lhes era possível,
relativas ao Serviço das Ordenanças
140
para conseguirem aquilo que bens. Indo de encontro à ameaça
queriam. externa, os índios de Mecejana se
uniram e buscaram apoio na política
Pedidos comunitários e o “prêmio e na legislação que lhes garantissem
da revolução de 17” proteção, fortalecendo-se enquanto
um grupo que, por não estar em
Além dos requerimentos situação de igualdade com os
individuais, também nos deparamos demais, possuía direitos especiais e
na documentação com algumas possibilidade de lutar por eles. Ou
representações de natureza seja, mesmo sendo dominados pelo
comunitária por parte dos indígenas, rei de Portugal, era justamente na
onde agiam juntos pelo bem do inserção dessa sociedade e nos seus
interesse comum. Em abril de 1812, elementos jurídicos que conseguiram
Sampaio expediu ofício ao diretor de o apoio em suas ações contra
Mecejana sobre uma solicitação feita aqueles que os agrediam.
pelos índios desta vila para que Como podemos perceber, os
protegessem as suas lavouras contra índios não estavam alheios a esta
o avanço de algumas rezes: sociedade que os cercava, e nela
conseguiram sobreviver pelo domínio
Os Indios da sua Direcção me em várias questões específicas lhes
representarão que elles virão
atingiam diretamente, tanto em
constantemente os seus roçados, e
plantações destituídas pelos Gados termos jurídicos, políticos e
de Alguns Vizinhos que abusando da legislativos. Conhecendo as leis a que
licença que lhes Concedia para estavam submetidos, era possível
fazerem algumas plantações
inclusive tentar alterá-la, com
passarão a criar gado com
manifesto prejuizo dos Indios dessa objetivos diversos e de acordo com a
Direcção. Vmce me Informara sobre situação. No Ceará desse período não
9
o contheudo nesta Representação . aconteceu diferente: já que aí ainda 9
14 de Abril. Registo de
era aplicado o Diretório Pombalino hum Officio dirigido ao
Assim como aconteceu com o (mesmo depois de sua extinção), Director dos Indios da
Villa de Mecejana. In:
índio Egídio, de quem falamos pudemos coletar registros de Livro 15, p. 04V.
anteriormente, em Mecejana o tentativas por parte de lideranças
problema apareceu de maneira indígenas que, agindo em grupo,
semelhante: as lavouras dos buscaram anular este conjunto de
indígenas foram danificadas pela leis.
negligência dos não-índios. E como já Durante o mandato de
dissemos antes, situações desse tipo Sampaio, a questão legislativa sobre
não eram ignoradas pelo governador, os índios esteve algumas vezes em
pois era de extrema importância que evidência por tentativas destes
todos os setores da população mesmos em abolir esta lei que, desde
mantivessem suas próprias terras de o século anterior, fazia diminuir sua
forma ordenada e produtiva. Mas representatividade e seu direto a
aqui há o diferencial de que, indo terra, aumentava o poder leigo sobre
além de algum interesse particular, a eles e, consequentemente,
comunidade desta vila se organizou recrudescia a violência a que
para conseguir proteger os seus estavam submetidos. As ações dos
141
índios neste governo tiveram início guerras e serviços dos brancos”
em 1814, quando os nativos de Vila (XAVIER, 2010: 108), vemos pela
Viçosa Real elaboraram um enorme dimensão dessa ação a enorme
requerimento dirigido à Dona Maria I capacidade dos índios de transitar
pedindo a abolição da legislação entre os elementos do império a
pombalina, “justamente para quem quem estavam submetidos.
outrora havia declarado extinto o Percebemos também que essa
Diretório” em 1798 (XAVIER, 2010: vontade de que os brancos saíssem
81). Trabalhado por Maico Xavier, o da vila se assemelha ao que
autor desenvolveu uma análise encontramos na maioria dos
detalhada e profunda sobre este requerimentos aqui analisados, no
requerimento, reservando-o um sentido de que boa parte das
capítulo inteiro de sua dissertação. reclamações dos nativos tinha como
Neste documento, os indígenas motivo os danos causados pelos
“narraram sobre a dinâmica entre vizinhos brancos que habitavam em
eles e diretores evocando suas terras.
acontecimentos que se deram desde Todavia, a resposta do
a elevação da Aldeia da Ibiapaba” à governo imperial foi negativa. Em
categoria de vila, “citando o nome de ofício de outubro deste ano dirigido a
cada um e descrevendo, segundo Sampaio, o ministro do reino 10
Requerimento anexo
eles, os males que aqueles haviam Marques de Aguiar colocou que o ao ofício de
praticado” (Idem: 84). “Principe Regente Meu Senhor” 20/10/1814. In: Livro
93, sem página.
Apresentando detalhes de mandou informar que “sobre as
seus cotidianos, bem como dos pertenções dos supplicantes [...] o 11
Ofício de 20/10/1814.
sofrimentos e injúrias que padeciam Mesmo Senhor as não Resolve”11. In: Livro 93, sem
diante de cada diretor, os nativos se Mas mesmo expressando o “não página.
colocaram diante das autoridades na comprometimento do Estado com os
busca de alterar o plano legislativo interesses indígenas naquele ensejo”
sob o qual viviam. Pediam, ao final (XAVIER, 2010: 109), tal tentativa
das trágicas descrições, que “Vossa dos índios de Viçosa Real mostrou
Magestade Fidellicima mande que estes “não ficaram inertes ante a
recolher o Directorio por hum nova situação que se configurava”,
Decreto para que os senhores sendo fruto da “compreensão
brancos, e outras qualidade de indígena em relação às mudanças
pessoas que residem nas terras dos ocorridas ao longo dos anos e sobre a
Indios cada hum procure as suas realidade na qual se inseriam
Patrias”10. Vemos que, além da naquele momento” (Idem, 108).
extinção da lei, a vontade dos nativos Apesar do pedido dos índios
foi além, propondo inclusive o fim do de Viçosa não ter sido atendido por
poder dos diretores, a saída dos Dom João IV, as questões acerca das
“extra-naturais” e, enfim, o tentativas de mudanças na legislação
estabelecimento definitivo de sua continuaram a aparecer na
própria autonomia em suas terras. documentação de datas posteriores.
Ao ratificar uma “ancestralidade, No mês de maio de 1815, Sampaio
citando nomes de Principais e enviou ofício ao diretor e ao sargento
destacando a participação nas mor da vila Viçosa Real pedindo suas
142
opiniões em relação ao pedido feito não ter sido resolvida, já que
pelas autoridades índias da capitania. Sampaio ainda haveria de dar o seu
De acordo com o governador, um parecer sobre ela. Além disso, os
requerimento produzido pelos índios não deixaram de lado o desejo
“principaes Indios das Villas de de alterar as leis que os comandava,
Arronches, Soure, Mecejana, e Villa mostrando que não eram passivos
Viçosa” foi levado por eles “no anno neste universo em que viviam.
de 1790 aos pes do Throno dos Mesmo inseridos num ambiente que
nossos Augustos Soberanos pedindo não era mais aquele em que tinham
que se alterem alguns dos artigos do alguma liberdade de manifestar seus
Directorio por que se governão”12. costumes e cotidianos próprios, isso 12
Maio 12. Offo ao
Apesar do pedido ter sido feito 25 não os impediram de agir. Foi Sargmor e Diror de [?]
anos antes deste ofício, o justamente neste “novo” mundo e Villa Visa pa dar a sua
Informação sobre 1
reaparecimento do assunto se somou com a apropriação de seus elementos requerimento q‟ os
a ação movida pelos nativos da – inclusive das leis e dos recursos Indios levarão ao
Throno do Principe
Ibiapaba no ano enterior, sugerindo jurídicos – que tentaram realizar os pedindo abolição
que ele não havia sido esquecido seus objetivos. d‟alguns artigos do
Directorio. In: Livro 20,
pelos indígenas requerentes, mesmo Este não foi o único evento
p. 19.
depois da negativa da corte. Tal onde os nativos procuraram alterar a
situação levou inclusive o governador legislação que lhes regia na busca de
a concultar o pensamento dessas concretizar seus interesses. Num
autoridades em Viçosa: justamente momento de importante contribuição
àqueles que faziam parte do grupo a serviço da coroa, os índios foram
social denunciado pelos requerentes. premiados em 1819 pelo rei Dom
Já em agosto de 1816 o tema João VI por conta de sua participação
voltou a aparecer na documentação na Revolução Pernambucana de
oficial, desta vez em um ofício 1817. Como dissemos anteriormente,
dirigido ao governador do Maranhão, a inserção destes nativos na guerra,
onde foram tratados assuntos demonstrando lealdade ao monarca,
diversos. Em certa parte do lhes possibilitou “conseguir diversas
documento, Sampaio pediu ao líder vantagens individuais”, além de
do governo maranhense uma cópia “melhorias para suas comunidades,
do Regimento das Missões contido no como aconteceu no caso da isenção
“Directorio dos Indios de 1757 de dos impostos” (COSTA, 2010: 12).
que prezentemente muito necessito” No mês de fevereiro de 1819, o
para que, com isso, pudesse dar seu soberano do império português
parecer à Mesa de Desembargo do expediu um decreto “isentando os
Paço “sobre hum requerimento dos indios do Ceará, Pernambuco e
Indios desta Capitania em que pedem Parahyba de pagarem o subsidio
que se revogue ou annulle o dito militar, e porcentagens aos
directorio”13, em referência ao Directores das aldeias”. De acordo 13
Agosto 31. Registo de
documento de 1814 por nós com o texto do Instituto do Ceará hum officio dirigido ao
Exmo Governador do
analisado acima. Este trecho sobre a administração de Manuel
Maranhão [...] sobre a
novamente nos sugere o que já Ignácio de Sampaio, os nativos que copia do Regimto das
dissemos: passados quase dois anos, lutaram nos conflitos foram Antigas Missoens dos
Indios. In: Livro 23, p.
esta polêmica questão continuou a premiados... 111V.
143
Porém, as ações dos índios em
...por sua fidelidade á Coroa com busca de mais vantagens para si e
isental-os do pagamento do
suas comunidades não pararam por
Subsidio militar... O dito Dec.
estatuiu mais que as patentes dos aí. Agindo em conjunto, os nativos
mesmos Indios sejam isentas do não só mostraram fidelidade ao rei,
direito de sello [...] e que elles não como também buscaram conseguir
sejam mais obrigados a pagar
benefícios além daqueles que já
quotas partes aos ditos directores
aos quaes dora em diante se tinham adquirido. Pelo que
estabelecerá o que for devido
14
. observamos na documentação, os
14
indígenas da vila de Monte mor Novo Administração Manuel
Ignácio de Sampaio (1º
Por obediência a essa ordem (atual Baturité) tentaram, através de visconde de Lançada),
régia, Sampaio expediu em setembro requerimento dirigido ao governador Revista do Instituto do
Ceará, ano 30,
deste ano uma circular a todos os da capitania do Ceará, em dezembro Fortaleza, 1916, p. 240.
diretores de vilas de índios no Ceará, de 1819 – três meses depois da
onde os ordenou que... circular encaminhada aos diretores
de índios – conseguir o abatimento
...de ora em diante não deve Vmce de outro imposto, desta vez daquele
mais receber dos Indios dessa relativo à manutenção dos prédios
Direcção os 6 por cento que ategora
públicos. Por conta deste pedido,
lhe tocavão do producto das
culturas dos mesmo Indios mas Sampaio enviou ofício ao capitão mor
tambem que no fim de cada quartel desta vila tratando de diversos
mandará receber na Thesouraria assuntos, e entre eles, disse-lhe que
Geral do Real Erario desta Capitania
ficasse...
o ordenado que a Junta da Real
Fazenda lhe arbitrou na forma das
15 ...na inteligencia de que os Indios
Ordens de S. Magestade .
por serem Indios não deixão de ser 15
Setembro 16. Circular
Vassallos de S. Magestade, e como dirigido aos Directores
Constatamos que a taes sugeitos a todos os tributos da de Indios desta
Capitania para não
participação dos índios não se deu de mesma forma que os outros
perceberem mais os 6%
Vassallos excepto áquelles tributos
maneira inocente. Além de terem que ategora cobravam
de q‟ S. Magestade os tem das culturas dos dos
sido obrigados a lutar nos conflitos, expressamente aliviado, em cujo Indios. In: Livro 22, p.
os nativos recrutados agiram caso naõ está á Decima dos Predios 86.
também de forma pensada, e o seu Urbanos. Mas sobre tal objecto
podem os mesmo Indios requer á
suposto entusiasmos, registrado na
Junta da Real Fazenda desta
documentação, pode ser interpretado Capitania a quem exclusivamente
como sinal de discernimento frente à toca a decisão de similhantes
16
situação que estavam envolvidos, requerimentos .
16
Desembro 16. Officio
bem como da busca intencional de
dirigido ao Capmor de
benefícios (COSTA, 2010). Dessa Ao negar o pedido dos Monte Mor o Novo em
forma, todos esses “prêmios” ligados nativos, Sampaio ordenou ao capitão resposta á Officios do
dito Capitão Mor. In:
aos impostos que recebiam não se mor que fosse deixado bem claro aos Livro 22, p. 126V. Grifo
trataram de pura “bondade” dos índios que, apesar de terem uma nosso.
governantes, mas principalmente de condição social específica naquele
conquistas de indígenas que universo – como vimos em outros
conheciam bem a realidade em que momentos do texto – não seria por
viviam. isso que deixariam de ter as mesmas
obrigações dos outros súditos do
144
império português, inclusive que lhes eram cobrados – como
tributárias. Na verdade, era também as formas de agir para
justamente essa a intenção da conseguirem isenções. A produção de
política indigenista de Portugal em um requerimento que pedia a
todo Brasil: a transformação ampliação dos benefícios adquiridos
daqueles antigos “bárbaros” silvícolas foi mais um exemplo das constantes
em “vassalos” fiéis, cristãos e táticas de índios que, ao contrário do
civilizados. A própria cobrança de que sugeriu o silêncio da
impostos e o seu recrutamento em historiografia tradicional, buscaram
conflitos que ameaçavam a freqüentemente manipular os
autoridade do poder real podem ser elementos desse universo onde eram
compreendidos enquanto estratégias obrigados a viver.
de controle, disciplinamento e A documentação colonial,
inserção dos indígenas na sociedade referente a requerimentos de índios,
colonial. Até a premiação dada a nos possibilitou, através de uma
esses índios foi uma ação análise acerca da realidade daquele
governamental que agiu com o período, rediscutir certas “verdades”
objetivo de incentivar o amor desses construídas ao longo do tempo sobre
povos à coroa lusitana. essas populações. Ou seja, o silêncio
que havia sobre o passado dessas
Conclusão pessoas não se explica a partir da
Como foi possível constatar, carência de vestígios ou de uma
os nativos não se comportaram de suposta “inércia histórica” que os
maneira inerte frente às práticas revestiria, mas sim de escolhas e
governamentais, como se tais interesses bem precisos. Se ainda
acontecimentos os arrastassem de hoje alguns setores da academia
forma irresistível e sem deixar-lhes encaram os indígenas enquanto uma
espaços para movimentação, massa amorfa e inerte, acometida
resistências ou negociações. Mesmo passivamente pela dominação
sem poder negar o recrutamento, o colonial, trabalhos recentes trazem à
evento de 1817 serviu como tona as criativas e inovadores
oportunidade para os indígenas de capacidades de resistência nativa ao
obter ganhos, dos quais possuíam longo da história (BOCCARA, 2005:
suficiente conhecimento. Inclusive, a 07). O que a historiografia atual
consciência que tinham da realidade revela é que o interesse faz parte da
em que viviam foi tal que lhes condição humana, e como tal, ainda
permitiu requerer o abatimento de que os nativos não fossem
mais impostos, contrariando por isso reconhecidos dessa forma, eles
o governador da capitania e fazendo- possuíam desejos, que dialogaram, e
os lembrar de suas condições, mas muitas vezes digladiaram com os
mesmo assim, não descartando a governantes para assim construírem
possibilidade que tinham de recorrer a história do Ceará.
à Junta da Real Fazenda. Percebemos Isso não quer dizer que as
que não só os índios conheciam os populações nativas dominavam a
aspectos legais e tributários daquele situação, ou que a colonização não
mundo – como os tipos de impostos teria sido tão agressiva para eles.
145
Muito pelo contrário, percebemos enquanto uma ação diante de uma
que, com o passar do tempo, a vida conjuntura de onde não era possível
desses povos tendia a ficar cada vez fugir. A partir daí, percebemos que
mais difícil, e sua liberdade, ainda assimilar algo passa a significar
mais cerceada. Não é possível que apropriar-se de determinado
haja dúvida: no mundo colonial, os elemento com um fim específico. As
índios eram os dominados, e todo o “políticas indigenistas desenvolvidas
projeto colonizador dirigido para eles por membros do Império português”,
tinha como propósito a destruição de seja em termos mais amplos, como
suas práticas culturais e sua foi o caso do Diretório, ou em âmbito
conseqüente inserção no mundo mais local, como o que acontecia na
civilizado. Nesse sistema, o fato de capitania cearense, “adquiriram uma
“ser um súdito cristão [como eram os dimensão fundamental, pois era em
índios das vilas pombalinas] não relação às mesmas que os índios
implicava absolutamente numa autodefiniam-se, individual e
condição de igualdade” (ALMEIDA, coletivamente, e projetavam as suas
2003: 92). ações” (GARCIA, 2009: 304 e 305).
Porém, uma vez dentro desse Se os índios do Ceará colonial
universo, as populações indígenas pediram, lutaram e agiram – nos
nunca se colocaram de forma passiva campos políticos, jurídicos e
diante dos acontecimentos, e ao legislativos – em prol de seus
contrário, lutaram com os recursos interesses, como os requerentes que
que lhes eram disponíveis em prol de apresentamos, isso significou que a
seus objetivos. Até mesmo a sua história, longe de materializar a
“assimilação” do modo de vida lenda do “papel em branco”, foi feita
ocidental, longe de ser resultado de também, e efetivamente, por eles.
uma suposta fraqueza diante de uma
cultura mais forte, se configurava

Fontes: Arquivo Público do Estado do Ceará / fundo “Governo da


Capitania”
Série “Registro de ofícios aos capitães mores, comandantes de distrito e diretores
de índios”. Livros: 15 (1812), 16 (1812 – 1813), 19 (1814 – 1815), 20 (1815 –
1816) e 22 (1819 – 1820).
Série “Registro de ofícios às autoridades fora da capitania”. Livro: 23 (1812 –
1817).
Correspondência do secretário do governo: Livro 95 (1812-1822).

Referências:
Administração Manuel Ignácio de Sampaio (1º visconde de Lançada), Revista do
Instituto do Ceará, ano 30, Fortaleza, 1916.
146
ALBUQUERQUE, Manuel Coelho. Seara indígena: deslocamentos e dimensões
identitárias. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Ceará, 2002.
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os índios aldeados no Rio de Janeiro
colonial: novos súditos cristãos do império português. Tese de doutorado,
UNICAMP, 2003.
BOCCARA, Guillaume. Antropologia diacrónica. In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos.
2005. Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org>.
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de. Índios cristãos: a conversão dos gentios na
Amazônia portuguesa (1653 – 1769). Tese de doutorado, UNICAMP, 2005.
COSTA, João Paulo Peixoto. O “entusiasmo” dos índios: discutindo a participação
dos indígenas do Ceará na Revolução Pernambucana de 1817. In: Embornal,
revista eletrônica da Anpuh-CE, Ano I, 2010.
GARCIA, Elisa Frühauf. As diversas formas de ser índio: políticas
indigenistas e políticas indígenas no extremo sul da América portuguesa.
Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009.
MONTEIRO, John Manuel. O desafio da história indígena no Brasil. In: SILVA,
Aracy Lopes da. GRUPIONI, Luís Donizete Benzi. A temática indígena na escola:
novos subsídios para professores de 1º e 2º graus. São Paulo: Global, 2004.
XAVIER, Maico Oliveira. “Cabôcullos são os brancos”: dinâmicas das relações
sócio-culturais dos índios do Termo da Vila Viçosa Real – século XIX. Dissertação
de Mestrado, Universidade Federal do Ceará, 2010.

147
VIDA URBANA E MARGINALIA NA da cidade do Rio de janeiro, levadas
ESCRITA DE LIMA BARRETO a efeito nas duas primeiras décadas
José Benjamim Montenegro1 do século xx, na então capital da
republica, a intenção é mostrar o
quanto o referido escritor, mormente 1
Professor do
Resumo no gênero literário conhecido por Departamento de
História da UFCG. E-
crônica exercitou um combate
Este artigo aborda as reformas urbanas mail:
ocorridas, no Rio de janeiro (Belle cerrado e aguerrido contra aqueles jbenjamimmontenegro
Èpoque), sobretudo no período (1902 – que protagonizaram essas reformas, @hotmail.com
1906), sob o olhar e a escrita de Afonso confinando as populações pobres nos
Henriques de Lima Barreto (1881 –
espaços e áreas mais insalubres e
1922), autor que demonstrou na sua
obra e principalmente nas suas crônicas longínquas da cidade.
objeto desse estudo uma postura crítica Enfim pretendemos mostrar
em relação as ditas reformas, não se seguindo as pegadas desse “Flaner
deslumbrando com o “canto das sereias”
das “picaretas regeneradoras”, tal qual
Tropical”, que as ditas reformas
ocorreu com muitos intelectuais do foram de natureza excludente não
mundo das letras, contemporâneos seus. contemplando os subúrbios e seus
É sobre essa visão dissonante a respeito
arredores, e que em vez de se
dos “intentos civilizadores” dessa hoje
tão propalada reforma que trata o perfilar ao lado dos intelectuais
presente texto. embevecidos com a grande
intervenção urbanística que a cidade
Palavras-chave: Lima Barreto,
viveu, Lima Barreto, fiel a sua
reformas urbanas, modernidade
concepção de literatura militante,
postou-se entre as fileiras dos que
Abstract foram atingidos pelas imponentes
reformas dessa “modernidade
This article tells about urban reforms at
Rio de Janeiro (Belle epoque), about all periférica” Olhando a cidade talvez
period (1902 – 1906) into the point of como um pingente de “trem de
view of Afonso Henrique de Lima Barreto subúrbio”.
(1881 – 1922) author who demonstrated
in his work and afterwards on the
chronics of him a critical posture Há poucos dias, as picaretas,
between “canto das sereias” or entoando um hino jubiloso,
“picaretas regeneradoras” as some iniciaram os trabalhos da construção
authors discussed of at contemporary da Avenida Central, pondo abaixo as
time it‟s onto that view the text will be primeiras casas condenadas. [...] No
discuss as well. abrir das paredes, no ruir das
pedras, no esfarelar do barro, havia
Keywords: Lima Barreto, urban um longo gemido. Era o gemido
reforms, modernity. soturno e lamentoso do Passado, do
Atraso e do Opróbrio. A cidade
colonial, imunda, retrógrada,
emperrada nas suas velhas
Introdução
tradições, estava soluçando no
Nesta breve introdução soluçar naqueles apodrecidos
tencionamos apresentar o escritor materiais que desabavam. Mas o
Afonso Henriques de Lima Barreto hino claro das picaretas abafava
esse protesto impotente. Com que
(1881-1922), como crítico
alegria contavam elas – as picaretas
contundente das reformas urbanas regeneradoras! E como as almas
148
dos que ali compreendiam bem o de onde andavam banidos por um
que elas diziam, no seu clamor decreto da indiferença e da
incessante e rítmico, celebrando a ignomínia coligadas. O Rio de
vitória da higiene, do bom gosto e janeiro, principalmente, vai passar e
da arte. (Olavo Bilac, 1904) já está passando por uma
transformação radical. A velha
cidade, feia e suja, tem os seus dias
Quando Bilac escreveu esse
contados. (SEVCENKO, 2003, p. 42)
poético e emblemático artigo, ele já
era um escritor consagrado no campo
É neste contexto de radiante
intelectual, logo o texto foi alçado a
contentamento por parte de
condição de bandeira de todos
autoridades, intelectuais e
aqueles que aderiram as reformas
engenheiros administradores, que
urbanas perpetradas por,
uma voz se levanta, desafinando o
administradores, médicos, higienistas
coro dos contentes, essa voz é a de
e demais arautos do processo
Afonso Henriques de Lima Barreto
civilizatório do Rio de Janeiro. Como
(Bz, 1956, p.106.) que nos diz: “De
se não bastasse o currículo do autor
uma hora para outra, a antiga cidade
do texto- manifesto, a revista na qual
(do Rio de janeiro) desapareceu e
a matéria foi divulgada, tinha um
outra surgiu como se fosse obtida por
prestígio inestimável, uma vez, que a
uma mutação de teatro. Havia
Kosmos enfocava temas diversos tais
mesmo na cousa muito de
como: ciência, história, arte,
cenografia.”
literatura e arquitetura, tendo ampla
É sobre essa voz dissonante,
penetração nos meios intelectuais do
ou melhor, sobre essa escrita a
país.
contrapelo de Lima Barreto que
No mesmo rumo e diapasão
trataremos nesse artigo, mostrando
vinha corroborar com o entusiasmo
que nem todos se deixaram embalar
do poeta Bilac, a famosa frase
pelo canto sedutor da “sereia da
atribuída ao colunista Figueiredo
modernização”.
Pimentel, pronunciada no auge das
reformas promovidas na Eu amo a rua. Esse sentimento de
administração de Francisco pereira natureza toda íntima não vos seria
Passos (1902-1906), e seu staff revelado por mim senão julgasse,e
razoes não tivessem para julgar ,
administrativo. Esses discursos
que este amor assim absoluto e
diziam bem do clima de euforia que assim exagerado é partilhado por
contagiava as elites brasileiras todos vós. Nós somos irmãos, nós
(cariocas) naquele momento da nos sentimos parecidos e iguais; nas
cidades, nas aldeias, nos povoados,
República.
não porque soframos, com a dor e
Na mesma crônica supracitada os desprazeres, a lei e a polícia,
o poeta parnasiano futuro patrono do mas porque nos une ,nivela e
serviço militar obrigatório, arremata agremia o amor da rua. (RIO, 2004,
p.3)
a esfuziante crença no “progresso”.

O Brasil entrou – e já era tempo- Lima Barreto certamente


em fase de restauração do trabalho. subscreveria o que João do Rio
A higiene, a beleza, a arte, o escreveu, pois passava muitas horas
“conforto” já encontraram quem
caminhando pelas ruas do seu
lhes abrisse as portas desta terra,

149
querido Rio de Janeiro, nas ruas do Lima Barreto age como avant
centro, becos, vielas ,botecos e la lettre em relação a conservação do
freges, confeitarias, mas também patrimônio histórico se colocando na
vivia o cotidiano dos subúrbios, de contra mão do discurso oficial sob a
onde aliás era um morador. Os égide da sanha demolidora das
franceses diriam que o mesmo era autoridades republicanas, Lima como
um típico flâner, embora ele arguto observador se coloca
preferisse ser chamado de andarilho. criticamente da sua trincheira, qual
Talvez por isso seus críticos e seja de escritor que compreende a
biógrafo tenham alcunhado-o de escrita como compromisso social.
forma muita apropriada de Em outro trecho nos diz:
“romancista dos subúrbios” epíteto
que ele não só aceitou como inclusive O bonito envelhece, e bem
depressa; e eu creio que, daqui a
adotou para si.
cem anos, os esthetas urbanos
Veremos em seguida como reclamarão a demolição do Theatro
Lima Barreto se posicionou enquanto municipal, com o mesmo afan com
intelectual em relação as reformas que os meus contemporâneos
reclamam do convento. É que elles
pelas quais a cidade do Rio de janeiro
estavam convencidos da sua
passou no período que se fealdade, da necessidade do seu
convencionou chamar de belle desaparecimento, para que o Rio se
èpoque tropical, para isso lançaremos aproximasse de Buenos Aires. A
capital da Argentina não deixa
mão de algumas crônicas e artigos de
dormir. Há conventos de fachada
sua autoria. lisa nas suas Avenidas? Não, então
Começaremos por uma esse casarão deve ir abaixo. (LIMA
crônica que está no volume do livro BARRETO, BG 1956, p.142)
Bagatelas, cujo titulo é O Convento,
publicado em julho de 1911. Nessa O Passos quis; o Frontin
crônica, Lima se levanta contra a também...
demolição do Convento da Ajuda em Lima Barreto com a
cujo lugar se construiria um hotel sensibilidade que lhe é peculiar em
moderno. Passemos a palavra ao toda sua trajetória de escritor
próprio autor. mosqueteiro, ataca a mania
europeizante de nossas elites no
Noticiam os jornais, com pompa de tocante a imitação e chama a
photogravuras e alarde de sabenças atenção para o nosso complexo de
históricas que o convento da ajuda,
inferioridade em relação aos
aquella ali da avenida, fora vendido
a alguns inglezes e americanos pela “hermanos argentinos” o mais
bella quantia de mil oitocentos e “europeu” dos povos latinos postura
cincoenta contos. Houve grande que vai se revelar em vários
contentamento nos arraiaes dos
momentos de sua historia contra o
esthetas urbanos por tal fato, vae-
se o monstrengo, diziam elles; e ali, Brasil sobretudo no tocante a
naquelle canto cheio de bonitos composição étnica do seu povo. Lima
prédios, vão erguer um grande não perdoa essa subserviência dos
edifício moderno, para hotel com
dirigentes Republicanos no Brasil,
dez andares. (LIMA BARRETO, BG,
1956, p.142) aliás, diga-se de passagem,
emblematizada na bela expressão da

150
escritora argentina Beatriz Sarlo, Outrossim, Lima Barreto
cunhando o termo “modernidades polemiza com seus ilustres
periféricas” para retratar as interlocutores, homens afinados com
mudanças ocorridas na capital o modelo de civilização nos moles
argentina. europeus, tendo a frente o prefeito e
Mas, prossigamos com a também engenheiro Francisco Pereira
crônica em tela: Passos, que estudou na Franca de
1857 a 1860 aproximadamente
Não é que eu tenha grande segundo seus biógrafos, onde
admiração pelo velho casarão; mas,
assistiu a reforma urbana de Paris
é que também não tenho grande
admiração nem pelo estylo, nem promovida pelo barão de
pela gente, nem pelos preceitos Haussmann. A sua permanência em
americanos dos Estados Unidos. Paris exerceu profunda influencia em
O convento não tinha belleza
Passos, que iria mais tarde atuar na
alguma, mas era honesto; o tal
hotel não terá também belleza área da engenharia ferroviária e
alguma e será desonesto, no seu urbanismo, tão forte foi a influencia
intuito de surrupiar a falta de beleza de sua passagem pela “cidade luz”,
com suas proporções
que uma vez investido da condição
mastodônticas.
(...) Repito: não gosto do passado. de prefeito nomeado pelo então
Não é pelo passado em si; é pelo presidente da Republica Rodrigues
veneno que elle deposita em forma Alves, no distrito federal ( Rio de
de preconceitos, de regras, de
Janeiro) tratou de aplicar o que
prejulgamentos nos nossos
sentimentos. (LIMA BARRETO, BG, aprendera nas lides francesas sobre
1956, p.143) urbanização. Ficando conhecido
popularmente pelo apelido de o
Embora o gênero crônica “Haussmann Brasileiro”.
permita incursão pelas sendas da Lima viveu em meio a tantas
ficcionalidade no caso em discussão, ameaças á preservação do
Lima Barreto está usando-o no patrimônio histórico; ameaças muitas
âmbito da pura intervenção política, vezes concretizadas, mas não se
visto que os “fatos” nela abordados intimidou nem se omitiu, nem
nada tem de ficcional. admitiu, conforme percebemos na
Uma das figuras alfinetadas crônica ora analisada, que “beleza e
na crônica era nada mais nada fealdade” servissem de critérios para
menos que André Gustavo Paulo de justificar a demolição de prédios
Frontin, engenheiro que teve históricos de valor afetivo como foi o
destacada participação no governo caso do Convento da Ajuda, e
municipal de Pereira Passos, outra coerente com sua concepção de
personalidade criticada na literatura militante, denunciou o
mencionada crônica, Frontin foi caráter anti-popular e excludente
personagem de proa na política do desse furor destrutivo por parte das
“bota abaixo” que transformou a elites políticas.
paisagem carioca, capitaneando a As reformas urbanas na parte
construção da Avenida Central, o que central da cidade do Rio de janeiro
lhe renderá posteriormente o título no inicio do século xx com sua
de patrono da engenharia nacional. pretensão civilizadora trazia no seu
151
bojo a negação de manifestações Mas vamos à crônica: “Não se
culturais, hábitos e costumes abre um jornal, uma revista, um
populares tidas como “bárbaras e magazine, atualmente que não
atrasadas, envergonhando uma topemos logo com propostas de
nação que se pretendia rumo à deslumbrantes e custosos
civilização conforme pensavam suas melhoramentos e obras.”
elites. É recomendável a leitura na Esse intróito indica que o Rio
integra da crônica proposta. de janeiro continuava um canteiro de
Entretanto para os fins de ensaio obras, e Lima, leitor assíduo de
entendemos que os fragmentos jornais, acompanhava com especial
analisados são suficientes para os interesse esses reformas quer fossem
propósitos por nós almejados. estruturais ou pontuais, pois, embora
Trilharemos doravante por o auge das reformas tenha
uma seleta de textos de Lima Barreto acontecido entre 1903 e 1906, seus
sobre tudo publicadas na revista efeitos ainda reverberavam nas
careta seguindo sempre esse tom de décadas seguintes.
intervenção do autor no tocante a
“cirurgia urbanística” a qual foi São reformas suntuárias na cidade;
coisas fantásticas e babilônicas,
submetido o Rio de janeiro do seu
jardins de Semíramis, palácios de
tempo. Mil e Uma Noites e outras cousas
A Revista Careta circulou de semelhantes que eles propõem
1908 a 1960, portanto, teve vida sejam, no mais breve espaço de
tempo possível. Houve um até que
longa, tinha como característica
aventou a idéia do ministério da
principal o traço humorístico, de Agricultura e a prefeitura Municipal
excelente padrão gráfico, teve em construírem um prado de corridas
Lima Barreto um de seus principais no Leblon, visto, diz a tal publicação
textualmente, gastar-se tanto
colaboradores, foi fundada por Jorge
dinheiro em coisas inúteis. (LIMA
Schmidt e os famosos chargistas Raul BARRETO, 1956, p.124)
e J. Carlos, com os quais L. Barreto
trabalhou na condição de articulista À medida que o narrador da
do referido periódico. crônica vai nos colocando a par dos
A crônica megalomania acontecimentos, vai também
publicada inicialmente na Revista assumindo uma postura critica em
Careta em 28 de agosto de 1920, faz relação as políticas publicas
parte de uma seleta de Lima Barreto municipais.
que visa diretamente assestar contra
os poderes republicanos instituídos e E claro que o autor da idéia acha
sua política de reforma urbana, como coisa de suma utilidade um prado
de corridas e as razoes que
se trata de uma crônica minimalista,
apresenta, são de tal ordem que se
pretendemos apresentá-la ao leitor o artigo fosse assinado, o seu autor
de forma integral, intercalando merecia ser lapidado pelos
comentários que julgarmos miseráveis e pobres que não tem
um hospital para se tratar, pelos
pertinentes. A mesma também
mendigos e estropiados que não
consta do volume Coisas do Reino de possuem asilo onde se abrigar.
Jambon. (LIMA BARRETO, 1956 p.124)

152
Usando a técnica de embutir entre o jornalismo e a literatura
uma crônica dentro da outra, o autor bastante em voga no período que
da megalomania, dialoga estamos abordando, a crônica como
criticamente com os autores disse um consagrado autor, deseja
anônimos dos artigos de jornais, flagrar a vida a rés do chão. “Não há
visto que nesses a uma posição casas, entretanto queremos arrasar o
adesista as políticas publicas ao morro do castelo, tirando habitação
passo que o narrador faz um trabalho de alguns milhares de pessoas. Como
de desconstrução. lógica administrativa, não há cousa
Mas, prossigamos: mais perfeita! (LIMA BARRETO, 1956,
p.124)
A função primordial dos poderes E arremata a crônica de forma
públicos, sobretudo o municipal,
lapidar dirigindo suas baterias para
para o incubador de semelhante
idéia, é fornecer passatempos a as autoridades responsáveis.
quem os já tem de sobra. Para ele,
um prado é coisa de utilidade social, O mundo passa por tão profunda
porque lá podem ser exibidas crise, e de tão variados aspectos,
vistosas toilettes. Nesse caminho, a que só um cego não vê o que há
prefeitura deve desapropriar as nesses projetos de loucura,
“montras” da Rua do Ouvidor e da desafiando a miséria geral.
avenida, para ampliá-las,embelezá- Remodelar o Rio!Mas como?
las, de forma a poder aumentar o Arrasando os morros... Mas não
numero de bonecas de cera vestidas será mais o Rio de janeiro; será
a capricho. (LIMA BARRETO, 1956, toda outra qualquer cidade que não
p.124) ele. É o caso de apelar para os
ditados. Vão dous: cada louco com a
sua mania; sua alma, sua palma.
O narrador parece querer nos
(LIMA BARRETO, CRJ, 1956, p.124)
chamar a atenção para a conduta
megalomaníaca das autoridades
Entraremos mais um pouco na
municipais muito mais preocupadas
seleta de Lima Barreto, desta feita
em parecer chics, cosmopolitas,
analisando uma crônica de 15 de
enfim em sintonia com o espelho
janeiro de 1921 na mesma revista
parisiense que passa a ser o espelho
careta, intitulada: o Prefeito e o
seu. “Tudo delira e todos nós
Povo. Crônica essa posteriormente
estamos atacados de megalomania.
coligida no volume de seu livro
De quando em quando, dá-nos essa
Marginália.
moléstia e nós nos esquecemos de
Carlos Cesar de Oliveira
obras vistas, de utilidade geral e
Sampaio, engenheiro foi Prefeito do
social para pensar só nesses
Rio de Janeiro de 1920 a 1922, tendo
arremedos parisienses, nessas
como principais feitos em seu
fachadas e ilusões cenográficas.”
currículo; a construção da avenida
(LIMA BARRETO, 1956 p.124).
maracanã, a reconstrução da avenida
Imaginamos alguém lendo
atlântica destruída pela ressaca em
esta crônica enquanto viaja no bonde
1921 e o arrasamento do morro do
de segunda classe ou mesmo num
castelo.
“trem de subúrbio” como era
costume de muitos por ocasião de Em seu livro: Memória Histórica:
sua escrita, gênero que tangencia Obras da Prefeitura do Rio de

153
Janeiro, Carlos Sampaio (1924), isto que se faz ou se fez na India,
além de condenar o Castelo, visto na China, em Java, etc; e em geral,
como o morro mais nocivo à saúde nos países conquistados e habitados
do Rio de Janeiro, elaborou os por gente mais ou menos amarela
pareceres técnico e financeiro que ou negra. Senão vejamos. (LIMA
justificavam a importância daquela BARRETO, 1956, p.117)
obra. Algumas questões foram
consideradas por ele como os
Lima Barreto não aceitava
“Problemas do Castelo”, a saber: o
desmonte; o destino a ser dado às essa cidade dividida em duas, o que
terras e ao novo local; o sistema de de fato ocorrerá, posto que a
transporte a ser utilizado para o população mais pobre será
desmonte e a proteção do aterro
escorraçada das imediações do
contra as águas do mar. Veja que
em nenhum momento do seu livro, centro e passará a ocupar as
o prefeito se preocupou em resolver encostas dos morros e favelas mais
a questão demográfica do morro. distantes do entorno da área central
Afinal, para onde iria aquela
da cidade. Lima Barreto levou tão a
população que residia no Castelo?
Segundo Sampaio, no seu livro, sério esse problema que chegou a
foram demolidos quatrocentos e escrever um livro inteiro somente
sessenta prédios, cuja sobre o arrasamento do Morro do
desapropriação ocorreu sem
Castelo.
nenhuma reclamação. (BARROS,
2002, p.12) Enveredemos um pouco mais
pela crônica.
Veremos que embora o
Todo dia, pela manhã, quando vou
Prefeito em suas memórias passe a
dar o meu passeio filosófico e
idéia de que não houve protestos, higiênico, pelos arredores da minha
quando do arrasamento do Morro, a casa suburbana, tropeço nos
crônica de Lima Barreto diz caldeirões da rua principal da
localidade de minha residência, rua
exatamente o contrário, nem poderia
essa que foi calcada há bem
ser diferente , pois o morro situado cinqüenta anos, a pedregulhos
na parte central da cidade servia de respeitáveis. Lembro-me dos
moradia para centenas de populares silhares dos caminhos romanos e do
asfalto com que a Prefeitura
que viviam e trabalhavam nas
Municipal está cobrindo os areais de
proximidades. Copacabana.
Mas vamos à crônica: (...) Porque será que ela não
reserva um pouquito dos seus
O senhor doutor Carlos Sampaio é cuidados pares cada a essa útil rua
um excelente prefeito, melhor do das minhas vizinhanças, que até é
que ele só o senhor de Frontin. Eu caminho de defuntos para o
sou habitante da cidade do Rio de cemitério de Inhaúma? Justos céus!
janeiro, e, até, nela nasci; mas, Tem acontecido com estes cada
apesar disso não sinto quase a ação cousa macabra! Nem vale a pena
administrativa de sua Excelência. contar. (LIMA BARRETO, 1956,
Para mim, Sua Excelência é um p.117)
grande prefeito, não há dúvida
alguma; mas de uma cidade da O articulista chama a atenção
Zambézia ou da Cochinchina. Vê-se
de como os poderes públicos
bem que a principal preocupação do
atual governo do Rio de Janeiro é municipais fazem uma reforma
dividi-lo em duas cidades: uma será duplamente excludente, quando
a européia e a outra , a indígena. É expulsa os segmentos mais pobres,
154
operários, comerciantes ambulantes, mas a polícia é que vai ter mais
trabalho. Não havendo dinheiro em
pequenos funcionários públicos etc,
todas as algibeiras, os furtos, os
desalojados e lançados para as roubos, as fraudes de toda a
favelas e subúrbios do Rio de Janeiro, natureza hão de se multiplicar; e, só
ao mesmo tempo que denuncia o assim, uma grande parte dos
cariocas terá “gimbo” para custear
descaso desses poderes quando se
os smartimos sampaínos. (LIMA
trata de beneficiar os subúrbios de BARRETO, MG, 1956, p.119)
infraestrutura. Lima assume
explicitamente a condição de porta Lima Barreto era uma voz
voz das “queixas do povo, travando isolada em meio aos entusiastas da
um combate aberto contra os modernização ancorados sobretudo
poderes instituídos. A crônica em no discurso médico – higienista
apreciação soa quase como uma somado a autoridade e a forca do
“carta aberta”. discurso dos engenheiros, muitos
deles não só entusiastas, como
Pode-se, entretanto, admitir, a fim
verdadeiros artífices do projeto de
de justificar o amor do prefeito aos
hotéis de luxo, que quer construir a “saneamento” em curso. Era portanto
custa dos nossos magros cobres; uma verdadeira luta de Davi contra
pode-se admitir que, com isso, sua Golias.
Excelência pretenda influir
Em que pese as dificuldades
indiretamente no saneamento do
morro da favela. Municipalidades de Lima Barreto, não esmoreceu e de
todo o mundo constroem casas sua trincheira de escritor-cidadão
populares; a nossa, construindo fustigou ainda mais os “discursos
hotéis chics, espera que, a vista do
competentes” das autoridades
exemplo da Favela e do Salgueiro
modifiquem o estilo das suas republicanas.
barracas. Pode ser... O senhor
Sampaio também tem se A “modernização destruidora” do
preocupado muito com o plano geral Estado visava eliminar não só a
da cidade. Quem quiser, pode ir cidade colonial marcada por ruas
comodamente da avenida a Angra estreitas e sinuosas, como também
dos reis, passando por botafogo e objetivava romper com os valores
Copacabana; mas, ninguém será culturais relacionados ao período
capaz de ir a cavalo do jacaré a imperial, valorizando a inserção
Irajá. (LIMA BARRETO, 1956, p.118) cultural e econômica européias,
principalmente pela absorção da
visão do mundo francês. Construir
Nesse trecho, quanta ironia do
assim um novo centro mais
autor, mostrando o tratamento moderno, significaria a construção
diferenciado, que os poderes públicos simbólica de um novo país,
dão as favelas, bairros periféricos e a instaurado pela ordem Republicana.
Entretanto, as ações da República
parte central e sul da cidade “menina
orientadas pelo ideário progressista
dos olhos” da municipalidade. E fecha não atenderam ao bem estar geral
a crônica golpeando a mania de da sociedade. Assim, as classes
grandeza do prefeito: populares foram as mais afetadas
com as renovações urbanas do início
do século XX. Com o arrasamento
Todos os seus esforços tendem para
do Castelo e do bairro da
a educação do povo nas coisas de
Misericórdia, localizado no sopé do
luxo e gozo. A cidade e os seus
morro, desapareceram da área
habitantes, ele quer catitas. É bom;
central da cidade mais duas áreas
155
residenciais pobres que haviam iam surgir --- bairros ricos,
resistido à reforma Passos. Somente remediados e pobres, brancos,
no Castelo, residiam mulatos e pretos; as barcas com
aproximadamente cinco mil pessoas que eles iam dotar o serviço de
e, especialmente para elas, o ligação da “Invicta” com o largo do
desmonte do morro produziu um Paço, haviam de ser de tanto luxo
impacto extraordinário, forçando a que os pobres e modestos haviam
mudança de residência. (BARROS, de ter medo de embarcarem nelas;
2002, pag. 14) enfim, aquilo havia de ficar um
encanto de espantar. (LIMA
BARRETO, VU, 1956, p.247 )
Postando-se ao lado dessas
“classes populares”, Lima continuou
Entre outras coisas a crônica
suas investidas. Nesse sentido,
revela que a partir do modelo do rio
traremos à baila, a crônica Mas...
de janeiro, varias cidades brasileiras,
Esses Americanos..., publicada na
fazem intervenções no seu tecido
revista Careta, três meses após a
espacial, tendo como parâmetro, a
anterior. Nesta crônica, Lima mostra
então capital federal da republica,
como os propósitos regeneradores
nessa febre urbanística surgirão os
extrapolam o perímetro da cidade
Haussmanns locais, todos
dório de Janeiro chegando até o
contagiados pelo “vírus urbanus” que
município de Niterói.
soprava das bandas do Rio de
A crônica começa assim:
janeiro, sempre sob a égide de
Lembram-se os senhores de uns questões, estéticas, sanitárias como
americanos que, muito leitmotiv. No disciplinamento do
generosamente, se ofereceram para modo de vida da população, na
transformar Niterói, a pacata Praia
organização do espaço urbano e na
Grande, numa cousa maravilhosa?
Lembram-se? Eram obras normatização das edificações, contra
portentosas de avenidas, jardins, essas imposições regia Lima Barreto,
palácios, saneamento, etc, etc. pois entendia que a cidade era
Os niteroienses, inclusive o nosso
multifacetada, não pertencia aos
Manuel Benicio, entusiasmaram-se
tanto com tais projetos caprichos de uma elite, mas a todos
mirabolantes, que fizeram tal os seus moradores.
pressão na respectiva edilidade, a
ponto de de obrigarem a passar a A vista das plantas, dos desenhos,
mecânica autorização municipal, dos projetos e dos relatórios, todos
com uma pressa de medida de diziam: não há como os
salvação pública. americanos; eles é que sabem fazer
O Rio de Janeiro estremeceu. Carlos as cousas. Nós somos uns pungas!
Sampaio, o genial edil do Eu também, que sou leitor assíduo
“arrasamento” e da “Gruta da do O Estado de meu amigo Mario
Imprensa”, ia ficar enfoncé. Passos, Alves, fiquei arrebatado de
então este! entusiasmo, a vista de tanta cousa
A cousa era deveras portentosa: fantástica que o Niterói, onde
arrasavam-se morros (vide Sampaio estudei os meus primeiros
da máquina de lama) e surgiam em preparatórios, ia ter.
seus lugares vários Bois de Passam-se os dias, vem os meses e
Boulogne; aterrava-se Niterói, – oh! decepção – abro a Noite de
desde gragoatáaté a armação, e um dia deste e descubro que o que
erguiam-se modernos armazéns os americanos querem ou vão por
para receber cargas do Porto do em Niterói ,é uma colossal batota.
Rosa e de Majé; bairros sem conta (LIMA BARRETO, VU, 1956, p.247)
156
Quem pode prever os caprichos de
um rei? Quando o monarca belga
Lima Barreto não aceitava
veio ao Brasil, em 1920, o Rio de
sob nenhuma hipótese a Janeiro se enfeitou. As ruas por
inexorabilidade dos discursos ditos onde passaria a comitiva foram
científicos fosse de qualquer embelezadas. Os prédios que
visitaria ganharam manutenção. Os
coloração, francesa, inglesa ou
pontos turísticos foram preparados
americana, é por demais conhecido o para maravilhar o ilustre convidado.
antiamericanismo de Lima Barreto, O povo, quando pôde participar,
mas no caso especifico não levantá-lo aderiu à festa. Mas, para surpresa
de todos, o rei se encantou por um
como argumento, a questão é de
programa para o qual a maior parte
natureza mais profunda , trata-se de da cidade ainda não havia
combater projetos excludentes em despertado: os banhos de mar em
nome de uma capa de civilidade. Copacabana.
A vinda de Alberto I (1875-1934) e
Concluindo a crônica o autor
sua esposa, a rainha Elizabeth
diz: “Desgostou-me e penso cá com (1876-1965), tinha um significado
os meus botões: para isso nos não especial para o Brasil. Seria uma
precisávamos de americanos; aqui oportunidade sem igual para
divulgar o país na Europa: um
mesmo, desde a Rua da Conceição
perfeito representante da civilização
até o Catete, passando pela lapa, poderia testemunhar o progresso
temos gente com esse talento nacional e justificar a inclusão do
criador. Mas... esse americanos... Brasil entre as grandes nações do
mundo.
(LIMA BARRETO, VU, 1956, p.247).
Na Europa, Alberto era conhecido
O tom desse ensaio é como o Rei-Herói, ou Rei-Soldado,
francamente monocórdico, mas fama conquistada durante a
confidenciamos ao nosso leitor, é Primeira Guerra Mundial. Quando a
Bélgica foi invadida pela Alemanha,
deliberado, é recorrente no noticiário
em 1914, o monarca se colocou à
jornalístico matérias sobre a visita do frente das tropas e, mesmo diante
rei Alberto e sua comitiva ao Brasil, e de um inimigo mais forte, participou
também dos preparativos de cem de da ofensiva que levou à vitória dos
aliados. Terminada a guerra, a
independência do Brasil.
Conferência de Versalhes permitiu
Era, portanto, fundamental as uma aproximação entre Epitácio
reformas iniciadas ainda nos idos de Pessoa (1865-1942), chefe da
1903 estivesse em vias de conclusão delegação brasileira e recém-eleito
presidente da República, e o líder
para causar impressão aos visitantes
belga. No evento, o rei Alberto foi
estrangeiros e em particular ao casal convidado a conhecer o Brasil.
real em visita oficial ao Brasil dentre Não passou despercebida a alguns
a pauta de recepção estava lógico a contemporâneos a contradição de
uma jovem República precisar
imagem de um país em franco
recorrer a uma monarquia para
processo de civilização, certamente atestar seu êxito. Lima Barreto
um dos itens a considerar seria sua (1881-1922) alfinetou a “nossa
fachada urbanística. república da igualdade, liberdade e
paternidade”, denunciando a
Mas como em tudo o mais não
vocação aristocrática dos
houve consenso, em relação a esse republicanos que se prontificavam a
desejo de nossas elites em causar mimar o rei. Por sua vez, Humberto
boa impressão. Senão, vejamos: de Campos (1886-1934) lembrava
que, na imaginação popular, antes
do rei havia o herói: o que se queria
157
festejar no visitante não era “o seu nos ensina o renomado historiador
cetro, o seu trono, a sua coroa, mas
Michel de Certeau, quando
um homem bravo, leal, generoso,
inteligente”. escrevemos principalmente para nos
Aceito o convite, o Brasil tratou de submeter ao crivo de nossos pares, é
se preparar para a visita. O verdade, mas, igualmente é verdade
Itamaraty organizou a festa de
o que nos ensinou a escritora Virginia
modo que os convidados estivessem
cercados do conforto que exigia sua Woolf, quando nos diz: “Aquele que
condição real. O prefeito da capital, lê pelo prazer de ler, livre se possível
engenheiro Carlos Sampaio (1861- de tudo, pois a liberdade é a
1930), correu para cuidar da
primeira, a mais importante condição
aparência da cidade, retocando os
lugares por onde passaria o cortejo, para o exercício da leitura”
como a Praça Mauá, a Avenida Rio É, sobretudo, a esses leitores
Branco, as ruas da Zona Sul e as que dedico esse ensaio, sem me
estradas do Alto da Tijuca. Faria-se
eximir é obvio as criticas dos
de tudo para retirar da paisagem
admirada pelos convidados o Rio de especializados. Finalizo dizendo que
Janeiro das favelas, dos mendigos, Lima ao longo de sua obra
das prostitutas e das crianças confessional e ficcional esteve
descalças. (DONADIO, 2008)
sempre apostos na rejeição a esse
modelo excludente de sociedade.
Lima Barreto morreu em 2 de
Encerramos devolvendo a fala
novembro de 1922. Mas durante toda
a um dos muitos personagens da sua
sua vida de escritor não deu tréguas
imensa galeria literária, trata-se de
aos demolidores de plantão com
Lucrécio Barba de Bode. Assim nos
perdão do trocadilho, encastelados
conta o narrador.
no poder.
Lima não aceitou e rebelou-se Lucrécio morava na Cidade Nova,
durante sua curta mais fecunda e naquela triste parte da cidade, de
angustiada existência, contra esse longas ruas quase retas, com uma
edificação muito igual de velhas
“faria-se de tudo para retirar da
casas de rotula, porta e
paisagem admirada pelos convidados janela,antigo charco, aterrado com
o Rio de janeiro das favelas, dos detritos e sedimentos dos morros
mendigos, das prostitutas e das que a comprimem,bairro quase no
coração da cidade [...] A Cidade
crianças descalças”. Afinal o Rio de
Nova não teve tempo de acabar de
Janeiro era também das crianças levantar-se do charco que era; não
descalças e suburbanas e das lhe deram tempo para que as águas
“mulheres públicas em pegnoir, que trouxessem das alturas a
quantidade necessária de
pendiam como descoradas
sedimento; mas ficou sendo o
orquídeas”, nos velhos casarões do depósito dos detritos da cidade
centro que a reforma urbana engoliu nascente”. (LIMA BARRETO, NN,
vorazmente e que as picaretas 1956, p.60-61)
regeneradoras não alcançaram.
Chego ao fim desse ensaio Assim o Rio Civilizava-se!
com a nítida sensação de quem
parafraseando um provérbio Considerações Finais
português arromba uma porta Lima questiona nesses textos
aberta, mas não faz mal, pois como estudados, o que as autoridades
republicanas apresentam como “
158
melhoramentos “ palavra anódina de é também território de sociabilidades
cunho técnico e homogeneizadora, e coexistência de costumes
revelando-nos uma cidade dividida e arraigados que as reformas da forma
segregada, não aceitando que apenas que foram implementadas solaparam
a medicina e a engenharia possam dos segmentos mais pobres da
dizer a cidade. Polemizou contra a população.
uniformidade desse discurso, visto Por fim é preciso dizer que
que a cidade não é única nem não mudou-se simplesmente o
mesmo dual, mas deve ser percebida design espacial da cidade, mas
em sua diversidade. Lima em suas sobretudo hábitos de convivência a
crônicas aqui abordadas mostra que muito estabelecidos. Lima Barreto
o espaço não pode ser reduzido não usou de rodeios e evasivas na
apenas a localização física, mas que denúncia dessas questões.

Referências:
BARROS, Paulo Cezar. Revista Geo-paisagem. Vol. 1, n. 2, jul-dez, 2002.
DONADIO, Paulo. Tem rei no mar. In: Revista de História. 07/07/2008, Consulta
realizada em 30/01/2012 às 16h, ao site
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/tem-rei-no-mar.
LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Os Bruzundangas. São Paulo: Brasiliense,
1956.
________. Coisas do Reino de Jambon. São Paulo: Brasiliense, 1956.
________. Feiras e Mafuás. São Paulo: Brasiliense, 1956.
________. Marginália. São Paulo: Brasiliense, 1956.
________. Vidas urbanas. São Paulo: Brasiliense, 1956.
________. Numa e a Ninfa. São Paulo: Brasiliense, 1956.
NEEDELL, Jefrey D. Belle Epoque Tropical: sociedade e cultura de elite no
Rio de Janeiro na virada do século. São Paulo: Cia. Das Letras, 1994.
OLAVO BILAC, in: revista KOSMOS, ano 1, nº 3, mar. 1904.
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo, Martin Claret, 2004.
SARLO, Beatriz. Modernidade periférica: Buenos Aires, 1920-1930. São
Paulo: Editora Cosac Naify, 1998.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação
cultural na Primeira República. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
SILVA, Lúcia. História do urbanismo no Rio de Janeiro: administração
municipal, engenharia e arquitetura dos anos 1920 a ditadura Vargas. Rio
de Janeiro: E-papers, 2000.

159
Resenha

CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em Cena: Propaganda política no


Varguismo e no Peronismo. 2° Ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009. 341p. 1
Mestrando em História
pela Universidade Federal
Joabe Barbosa Aguiar1 de Campina Grande
(UFCG)

Referenciamos esta obra da problemática podemos assinalar


historiadora Maria Helena R. Capelato alguns traços significantes destes
por sua relevância acadêmica ao governos, atenuando para a
produzir um estudo comparado entre importância atribuída ao
as duas maiores representações do convencimento, a mobilização das
populismo na América latina: o massas em torno de um projeto de
Varguismo (1937 – 1940) e o governo e de nação; num segundo
Peronismo na Argentina (1945 – momento nos direcionamos a
1955). Este livro assinala a compreender os diversos
culminância de uma série de mecanismos propagandísticos
pesquisas e estudos sobre os regimes utilizados por estes regimes: fotos,
políticos autoritários na América cinejornais, filmes, documentários,
Latina, que resultaram a priori na sua cartazes, pinturas, esculturas, obras
defesa de livre-docência na arquitetônicas, moedas... A
Universidade de São Paulo, no ano de referência básica deste governo é a
1997, sendo publicado um ano sedução, elemento emocional de
depois com o título Multidões em grande eficácia na atração das
Cena: propaganda política no massas, mas que agora serviram
Varguismo e no peronismo, sendo como pistas, indícios, fontes com as
reeditado em 2009. Um trabalho quais a historiadora irá investigar e
instigante, disposto em sete capítulos ressignificar as representações
que nos permite debruçar diante do políticas no Varguismo e no
tema das representações políticas. Peronismo.
Dentro da análise histórica No primeiro capítulo
sobre o Varguismo e o Peronismo a (Imagens e espetáculo do poder)
autora nos leva a revisitarmos uma Capelato dirige seu olhar sobre a
teia de significados e conceitos que acepção das imagens estatais como
compõe o universo representativo veículo de construção de uma “nova”
destes fenômenos. A montagem identidade nacional. A autora delineia
deste estudo assinala num primeiro sua pesquisa tanto na análise dos
momento quais os objetivos que símbolos como broches, bandeiras,
nortearam a construção da pintura como também nos remete a
propaganda nestes respectivos pensar a importância dos signos no
regimes e, quais os mecanismos imaginário político, como por
postos em prática pra atingir os exemplo, o forte apelo
respectivos fins? Partindo desta anticomunista, que serviram como

160
principal justificativa para a produzido em termos culturais, o
deflagração e manutenção do Estado Estado faz – se persente na cultura.
Novo no Brasil. Segundo a ótica dos regimes a arte
Num segundo momento deveria ultrapassar a mera
inserimos nosso olhar sobre o veiculação da beleza, e cumprir sua
espetáculo do poder, nele a autora “missão” de testemunho social,
demonstra que as festas cívicas, ritos representando em suas diversas
e cerimoniais do poder, tinham como facetas a unidade nacional e a
objetivo criar a imagem de uma harmonia social. Um dos atores de
sociedade unida, harmônica, alegre e grande relevância no cenário político
feliz, ocultando as práticas será os intelectuais, que ao longo
repressivas para manter o controle desta ação foram seduzidos e
social. deixando serem seduzidos. Esta
No segundo capítulo negociação imbricou a elite
(Propaganda política e controle intelectual destes países ao plano
dos meios de comunicação) a político Varguista e Peronista.
historiadora trabalha com a No entanto, nesta
perspectiva de monopólio dos meios investigação, deparamos com uma
de comunicação como objetivo para questão nova que foi colocada com
alcançar a legitimidade do poder e, as leituras que a nova história
ganhar a adesão de uma nação ao política fez de Certeau e Chartier,
ideal Varguista e Peronista. que introduzem novos ângulos de
Salientando que os “móveis das abordagem no que se refere ao
paixões” variam conforme o fenômeno da manipulação: os
momento histórico (honra, riqueza, autores esclarecem que a
igualdade, liberdade, pátria, nação incorporação da propaganda não
etc) e, no caso das experiências exclui a possibilidade de desvios,
autoritárias, alguns móveis são tomando este aporte em sua análise
recorrentes, segundo a autora (por a autora vem trazer a luz da história
exemplo, o amor ao chefe, à as resistências universitárias ao
pátria/nação). A imprensa e o rádio Varguismo e ao Peronismo, elevando
foram os principais veículos de a multidão ao papel de atores neste
disseminação da propaganda destes cenário político.
dois regimes. No quarto capítulo desta obra
A cultura e sua releitura pelo (Política de massas: uma nova
Varguismo e pelo Peronismo compõe cultura política) nos debruçamos
o eixo norteador do terceiro capítulo sobre a natureza da política de
(Cultura e política no Varguismo massas nos dois países, tomando o
e no Peronismo). Neste ensaio, Estado como intervencionista, tendo
oferece-se ao leitor uma a frente um líder carismático que
ressignificação da produção cultural dirigiu às massas e, introduziu uma
(cinema, teatro, música, artes política social que visava o
plásticas e arquitetura) sendo esta consentimento e a adesão popular
vinculada num projeto, ou seja, além ao(s) novo(s) regime(s). Apontamos
dos aspectos relativos à censura e ao para a emergência de um discurso
controle dos meios do que era moderno proveniente do Estado,
161
onde os artífices do “novo” colheram orientadas pelos objetivos
certos elementos para compor a nova estabelecidos pelos novos regimes.
ordem, remodelando-os aos Na Argentina destaca-se a
interesses do governo, como por participação simbólica da imagem da
exemplo, os conceitos de revolução, mulher nos livros didáticos do
de democracia, de justiça, enfim, primeiro grau, sendo Eva Peron,
aspectos que moldassem no mulher do então presidente o
imaginário social a construção de exemplo maior de mulher, de
uma nova era. primeira- dama, tida como a mãe dos
“A menina dos olhos” do pobres; já no caso brasileiro a
Varguismo e do Peronismo era a intervenção nos livros didáticos se
classe trabalhadora, neste sentido, os deu no currículo de historia do Brasil,
dois regimes empreenderam toda onde o novo regime era
uma natureza teórica e ideológica na diagnosticado como uma salvação
construção de imagens, introduzindo para a então doente pátria brasileira,
na cultura política brasileira e como também, a figura de Vargas
argentina um padrão diferente de era constantemente exaltada como
cidadania, que tendia a moldar a “pai dos pobres”.
figura do trabalhador ao bom No último capítulo
cidadão. Algo exemplificado pela (Identidade nacional e produção
censura e “recomposição” da música de sentimentos) deste trabalho
“Bonde são Januário” de Ataulfo destacam-se o confronto entre o “eu
Alves; na Argentina durante o individual” e o “eu coletivo”. Com a
governo de Peron, constantemente o introdução da política de massa, a
operariado era comparado as propaganda política buscava a vitória
abelhas, unidas no processo de (re) do nós sobre o eu. As mensagens
construção nacional. Esta é a possuíam forte apelo emotivo, a fim
temática central analisada pela a de aquecer as sensibilidades e
autora no quinto capítulo (A exacerbar as paixões. Diante desse
cidadania no Varguismo e no imaginário político destaca-se o
Peronismo). protagonismo do mito do salvador e
No sexto capítulo (Educação do redentor, imagem constantemente
e identidade nacional coletiva) atrelada ao líder carismático, que
centramos nossa atenção para a tinha como tarefa proteger as
utilização da educação na massas, e guiar a nação ao
fomentação da “nova” identidade progresso.
nacional. A imposição de novas Ao concluir este instigante
formas de identidade constitui um trabalho Maria Helena R. Capelato
dos elementos-chave na construção insere um objeto em questão numa
dos imaginários políticos. A educação linha de história das representações
era vista como um veículo políticas, assumindo como
privilegiado ao que se refere à perspectiva metodológica o estudo
introdução de novos valores. comparado entre o Varguismo e o
A composição dos novos Peronismo. A autora analisa o poder
currículos escolares, assim como dos como um jogo dramático que persiste
livros didáticos passaram a serem ao longo dos tempos e decorrente
162
em todas as sociedades, mas a construção de um imaginário político
produção de imagens, a manipulação baseado no mito da unidade, na
de símbolos e sua organização em imagem do líder atrelado as massas,
um quadro cerimonial efetuam-se se na fomentação da propaganda
modos variados. Neste cenário, o política como espectro das
Varguismo e o Peronismo atuaram na representações oriundas do poder.

163
Entrevista

Marta Maria de Araújo é Docente e pesquisadora da


Universidade Federal do Rio Grande do Norte, professora da
disciplina Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação
Brasileira | Curso de Pedagogia e de Educação Brasileira |
Programa de Pós-Graduação em Educação. Editora
Responsável pela Revista Educação em Questão | Centro de
Educação e Programa de Pós-Graduação em Educação.

MNEMOSINE − Drª Marta Araújo, educadores escolanovistas – Afrânio


pode informar ao leitor o que a Peixoto, Antônio Carneiro Leão,
influenciou na escolha pelas Antônio Caetano de Campos, Antônio
temáticas vinculadas à História da de Sampaio Dória, Heitor Lyra da
Educação na Primeira República? Silva, Mario de Brito, Mário Pinto
Serva, Manoel Bonfim, Teixeira
Drª. MARTA - Meu interesse pela Brandão, Vicente Licínio Cardoso –
História da Educação no Brasil e, tornaram-se os líderes infatigáveis e
especialmente, no Rio Grande do precursores do Movimento Renovador
Norte, na Primeira República, está Educacional, como assim qualificou.
academicamente relacionado com a Um dos quadros políticos e
minha tese de doutorado intitulado - intelectuais da Associação Brasileira
José Augusto Bezerra de Medeiros. de Educação (ABE, criada em 1924),
Político e educador militante. O nela militou enquanto viveu. Os
norte-rio-grandense, José Augusto compromissos com a missão dessa
(1884-1971), formado pela Associação de Educadores levaram-
Faculdade de Direito do Recife (1901- no a assumir a presidência nos anos
1905), foi professor de História Geral de 1942-1943-1944; 1949-1950;
e Geografia do Atheneu Norte-Rio- 1959-1960-1961.
Grandense (1906-1908), Diretor- No meu trabalho de doutorado
Geral da Instrução Pública do Rio intricando pela/na história da
Grande do Norte (1909), signatário militância política de José Augusto e
da fundação da Escola Doméstica de pela/na história da educação escolar
Natal (1914), membro e presidente pública no Brasil e no Rio Grande do
da Comissão de Instrução Pública da Norte, a análise teórico-empírica
Câmara Federal (1915-1923), vice- permitiu um melhor entendimento
presidente da Conferência das lógicas históricas e pedagógicas
Interestadual de Ensino Primário da escolarização obrigatória da
(1921) e governador do Rio Grande criança e do jovem, normatizada
do Norte (1923-1927). conforme os preceitos de ordem e
Entusiasta da Pedagogia da Escola tempo escolar, escolas graduadas,
Nova de matriz deweyana, desde os ensino metódico, classes seriadas,
tempos de acadêmico no Recife, José aproveitamento máximo dos estudos
Augusto ao lado de outros para a vida adulta. Na ótica do
164
educador escolanovista, a educação Escola Nova no Brasil (1920-1946,
escolar renovada da criança e do organizado por Maria Elizabeth
jovem seria, inexoravelmente, um Blanck Miguel, Diana Gonçalves Vidal
investimento social e econômico no e José Carlos Souza Araujo).
principal dos capitais − o capital Há, ainda, aqueles que alternam
humano. textos com épocas pouco antes,
Assim, o meu trabalho de doutorado durante e depois da Primeira
intricando pela/na história da República brasileira. Como amostra,
militância política de José Augusto e destaco as obras, Revisitando a
pela/na história da educação escolar história do Rio Grande do Norte
pública no Brasil e no Rio Grande do (organizada por Almir de Carvalho
Norte desdobrar-se-ia em inúmeros Bueno) e História das culturas
objetos de estudos históricos de escolares no Brasil (organizada por
difíceis fechamentos. Portanto, novos Diana Gonçalves Vidal e Clonara
ângulos educacionais, educativos e Maria Schwartz), os quais publicaram
intelectuais no contexto da Primeira os artigos da minha autoria − A
República e dos anos de 1930 a educação escolar da criança à época
1950, reluzem, quase do governo Pedro Velho (Rio Grande
inesperadamente. do Norte, 1892-1896) e Materiais
pedagógicos à escolarização do
MNEMOSINE – Como você, educando (Rio Grande do Norte,
pesquisadora renomada tanto no 1907-1920).
Brasil quanto no exterior, analisa a
produção historiográfica sobre MNEMOSINE – Por que você afirma,
História da Educação referente à em uma de suas publicações, que “A
Primeira República brasileira? educação escolar da criança que se
fez indispensável” no Nordeste no
Drª. MARTA – Há pouco, reunindo início do século XX?
alguns livros organizados por
professores pesquisadores que Drª. MARTA – Nas campanhas de
integram a Sociedade Brasileira de alfabetização que José Augusto
História da Educação (criada em Bezerra de Medeiros compartilhou no
1999), pude constatar a vigorosa Brasil e no Rio Grande do Norte, ele
produção histórica da educação, cunhou o seguinte slogan - Combater
situada na chamada Primeira o analfabetismo é dever e honra de
República brasileira, estendendo-se, todo brasileiro. A disseminação da
muitas vezes, para alguns anos a educação escolar para todas as
mais. É inconcebível não destacar crianças, contraponto, do estado de
alguns livros com essa disposição analfabetismo vigente,
editorial dos textos e autores. corresponderia potencializar a
Reporto-me, em especial, as obras − equalização das oportunidades
Grupos escolares: cultura escolar sociais e, por outro lado, efetivar
primária e escolarização da infância verdadeiramente o regime
no Brasil (1893-1971, organizada por democrático e republicano.
Diana Gonçalves Vidal) e Reformas No período da Primeira República,
educacionais: as manifestações da Estados do Nordeste do Brasil -
165
especialmente Rio Grande do Norte, ensino e pesquisa inerente à idéia de
Sergipe, Piauí e Bahia (Estados Universidade, exercito, na minha
investigados pelo Projeto de Pesquisa docência de professora de
“Por uma teoria e uma história da “Fundamentos Histórico-Filosóficos
escola primária no Brasil: da Educação Brasileira”, esse
investigações comparadas sobre a princípio em concordância com o que
escola graduada (1870-1950)”, é reconhecido como problema de
aprovado pelo Conselho Nacional de estudo para os historiadores de
Desenvolvimento Científico e educação: ensinar a disciplina
Tecnológico (CNPq/Edital Universal “História da Educação Brasileira” ou
nº 15/2007) - reformaram com certa mesmo a disciplina “Fundamentos
insistência (uns mais e outros Histórico-Filosóficos da Educação
menos), a educação escolar Brasileira” aliada à iniciação na
aspirando ao aperfeiçoamento pesquisa histórica.
intelectual, moral, social, político e Os futuros professores e professoras
econômico de meninos e meninas - que possuem algum domínio teórico,
futuros homens e mulheres dos dias metodológico e empírico de pesquisa
vindouros - orientada pela Pedagogia em educação elevam-se para
Nova e o seu Método Intuitivo. exercitarem com eficiência
pedagógica e intelectual a profissão
MNEMOSINE – Qual a singularidade docente. O aprendizado introdutório
da educação da criança no Nordeste da iniciação à pesquisa em educação
nas primeiras décadas da República? é uma atitude criadora de novas
posturas acadêmicas e profissionais
Drª. MARTA – Educar a criança
do pedagogo e demais especialistas.
mediante uma escolarização primária
Para promover a integração do
orientada pela Pedagogia Nova e o
ensino com a iniciação na
seu método intuitivo era conferir
investigação histórica da educação
exequibilidade a um projeto de
brasileira e seus fins humanos e
formação humana, muito caro às
sociais, metodicamente, oriento e
gerações adultas que lhe
conduzo meus alunos do curso de
propuseram. No Rio Grande do Norte,
Pedagogia aos arquivos de
por exemplo, as reformas da
instituições de ensino e acervos
educação escolar primária como
públicos, para pesquisarem fontes
“razão de Estado” era pertinente com
documentais que lhes permitam
a ideia de evolução cultural, cívica,
escrever um breve texto sobre a
moral e social da criança-aluna de
educação escolar no Rio Grande do
todas as classes sociais.
Norte, no período correspondente às
MNEMOSINE – Para os jovens primeiras décadas do século XX.
pesquisadores da História da Quiçá que todos os nossos alunos dos
Educação, que orientações de cursos de graduação fossem iniciados
pesquisa, arquivo e fontes você nos domínios teórico, metodológico e
deixa? empírico de pesquisa em educação
de coração profundamente aberto à
Drª. MARTA – Consciente do iniciação científica.
princípio da indissociabilidade entre
166

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