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PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA

Portal Educação

CURSO DE
QUÍMICA FORENSE

Aluno:
EaD - Educação a Distância Portal Educação

AN02FREV001/REV 4.0

1
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Triagem Organização LTDA ME
Bibliotecário responsável: Tiago Pereira Nocera CRB 1/2995
Portal Educação
P842q Química forense / Portal Educação.- Campo Grande: Portal Educação,
2015.
94p. : il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-436-0396-4

1. Química legal. I. Portal Educação. II. Título.


CDD 614.12
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO À QUÍMICA FORENSE ............................................................................................4


1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA QUÍMICA FORENSE .....................................................................4
1.2 A IMPORTÂNCIA DA QUÍMICA FORENSE ...................................................................................8
1.3 A BIOLOGIA MOLECULAR NA QUÍMICA FORENSE ....................................................................8
1.4 A AMOSTRAGEM E COLETA DE MATERIAL ..............................................................................14 2
1.4.1 Coleta de Fluidos Corporais ....................................................................................................15
1.4.2 Coleta de Tecidos Ósseos .......................................................................................................16
1.4.3 Coleta de Tecidos Moles ..........................................................................................................16
2 ENTENDENDO O DNA ....................................................................................................................17
2.1 INTRODUÇÃO ...............................................................................................................................17
2.2 O DNA NUCLEAR .........................................................................................................................19
2.3 O DNA MITOCONDRIAL ...............................................................................................................22
2.4 EXAMES UTILIZANDO O DNA .....................................................................................................26
.3 METODOLOGIA E TÉCNICAS VOLTADAS À QUÍMICA FORENSE ............................................28
3.1 TÉCNICAS ANALÍTICAS MAIS USUAIS .......................................................................................28
3.2 DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE RESÍDUOS .........................................................................33
3.2.1 O Exame Residuográfico de Disparo de Armas de Fogo ......................................................33
3.2.2 O Exame Químico Metalográfico e de Tintas .........................................................................37
3.2.3 Revelações de Impressões Digitais: do Clássico à Nanotecnologia ...................................43
3.2.4 Identificação de Sangue e Outros Fluidos Biológicos ..........................................................53
3.2.5 O Bafômetro e Outras Técnicas de Quantificação do Etanol................................................61
3.3 AS DROGAS DE ABUSO ..............................................................................................................63
3.3.1 Aspectos Históricos Relacionados às Drogas de Abuso ......................................................63
3.3.2 Preparação e Métodos de Detecção ........................................................................................69
4 A ABORDAGEM PERICIAL EM OPERAÇÕES POLICIAIS ............................................................74
4.1 EXAMES PERICIAIS .....................................................................................................................74
4.1.1 Exame Pericial em Alimentos ..................................................................................................75
4.1.2 Exame Pericial em Locais de Incêndios .................................................................................77
4.1.3 Exame Pericial em Medicamentos, Cosméticos e Saneantes ...............................................85
4.1.4 Exame Pericial em Combustíveis – Análise de Adulteração.................................................89
4.2 ANÁLISE DE PLANTAS ALUCINÓGENAS E DE MATERIAIS SUSPEITOS DE SEREM
ENTORPECENTES .............................................................................................................................91
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................94

3
1 INTRODUÇÃO À QUÍMICA FORENSE

1.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA QUÍMICA FORENSE

Um conhecimento imprescindível ao entendimento da Química Forense é a etimologia 4

da palavra “forense”. Forense vem do latim forensis, que significa público, ao fórum ou à
discussão pública. Dessa forma, ciência forense é a ciência utilizada em um sistema judiciário,
ou seja, para finalidades da lei.
As ciências forenses são responsáveis pelo apoio científico nas investigações de danos,
mortes e crimes inexplicados; ou seja, aplicam o conhecimento e a tecnologia da ciência no
cumprimento das leis sociais, utilizando-se de provas materiais recolhidas no momento da
perícia criminal.
A Ciência Forense é uma área interdisciplinar na qual estão envolvidas várias outras
ciências, dentre elas a Química Forense, responsável pela realização de análises voltadas à
identificação e constituição dos elementos como: análises de disparos de armas de fogo,
identificação de adulterações em veículos, revelação de impressões digitais, identificação de
sangue em locais de crime, constatação de substâncias entorpecentes e várias outras
apreciações que contribuem fortemente para solucionar os crimes.
Na Química Forense, todo e qualquer tipo de contato gera um vestígio, um rastro, uma
pista. O trabalho de um químico forense é encontrar essas pistas e determinar o seus
significados. A utilização da prática forense na investigação criminal é muito antiga e relatos da
literatura indicam a China como berço dessa prática. No século VII, durante a dinastia Tang, Ti
Yen Chieh utilizou a lógica e a prova forense, baseando-se em estudos da cena do crime,
exames das pistas e conversas com testemunhas.
No século XIII, foi publicado na China um livro com explicações de como realizar o
reconhecimento de sinais de afogamento, pela presença de água nos pulmões, e
estrangulamento, pela partição da cartilagem do pescoço, ou explicações de como feridas
podiam revelar o tipo e o tamanho da arma utilizada no crime. Os sete séculos seguintes foram
marcados pelo baixo nível de desenvolvimento. Uma exceção foi o trabalho do químico belga
Jean ServaisStas (1813 – 1891) (FIGURA 1).
FIGURA 1 - JEAN SERVAIS STAS (1813 - 1891)

FONTE: Disponível em: <http://www.probertencyclopaedia.com>. Acesso em: 26 set. 2012.

Stas, então professor de química na Universidade de Bruxelas e considerado líder no


país por seus experimentos sobre determinação de venenos vegetais no corpo humano, teve
seus conhecimentos solicitados na busca pelo entendimento de um crime ocorrido. Os órgãos da
vítima foram analisados e pôde ser concluído que havia ocorrido um envenenamento por um
produto natural, no caso a nicotina. Portanto, seus conhecimentos químicos serviram de prova
na solução do crime em questão. Hoje em dia, a detecção de alcaloides é realizada por testes
que utilizam a espectrofotometria.
Em meados do século XIX, iniciou-se o progresso da Química Forense. Em 1863, o
químico Christian Friedrich Schönbein (1799–1868) (FIGURA 2) descobriu o primeiro método
confiável para a identificação de sangue humano. Schönbein expôs que ao adicionar peróxido de
hidrogênio em manchas de sangue, o local era tomado por uma espécie de espuma. Essa
descoberta permitiu um avanço considerável na época, pois havia muita dúvida na identificação
de manchas já quando secas, pois vários tipos apresentavam o mesmo padrão das de sangue.
FIGURA 2 - CHRISTIAN FRIEDRICH SCHÖNBEIN (1799 - 1868)

FONTE: Disponível em: <http://www.probertencyclopaedia.com>. Acesso em: 26 set.


2012.

Por mais de séculos o arsênio é conhecido pela sua capacidade de envenenamento e


até o século XIX não era possível a sua identificação no corpo humano. Vários pesquisadores
procuraram a solução para o problema, porém o primeiro a obter sucesso nesta empreitada foi o
químico britânico James Marsh (1794–1846) (FIGURA 3).

FIGURA 3 - JAMES MARSH (1794 - 1846)

FONTE: Disponível em: <http://www.probertencyclopaedia.com>. Acesso em: 26 set. 2012.

Marsh levou cerca de quatro anos para desenvolver o método infalível na detecção do
arsênio no corpo humano. Para isso construiu um aparato que ficou conhecido por Aparato de
Marsh (FIGURA 4). Esse método ainda é usado na atualidade e leva o seu nome, o então
chamado Teste de Marsh.

FIGURA 4 - APARATO DO TESTE DE MARSH

FONTE: Disponível em: <http://www.probertencyclopaedia.com>. Acesso em: 26 set. 2012.

O teste consiste no seguinte: obtida a amostra a ser analisada, deve-se colocá-la em


contato com zinco metálico puro e ácido sulfúrico. Caso a amostra contenha arsênio, ele irá ser
reduzido pelo zinco, conforme a equação abaixo:
As2O3 + 6Zn + 6H+ k 2As3- + 6Zn2+ + 3H2O
Os íons As3– resultantes da reação química acima se combinam com os íons hidrogênio
do ácido sulfúrico, havendo a formação de um gás chamado arsina (AsH3):

A arsina é decomposta por ação do calor, acarretando na formação de um filme


prateado escuro de arsênio e gás hidrogênio, como pode ser observada pela equação abaixo:

A determinação quantitativa do veneno está relacionada com o tamanho do espelho


formado. Uma maior quantidade de veneno no corpo é descoberta por espelhos maiores de
arsênio.
Em 1835, Henry Goddard tentou utilizar as marcas de bala encontradas no corpo de um
homem para localizar o seu assassino. Goddard percebeu que a bala possuía uma inusitada
marcação e por meio dessa evidência foi possível encontrar o criminoso. Atualmente essa
prática é muito utilizada nas investigações criminais pelos padrões de estrias de cada arma.
O avanço tecnológico da ciência, em especial o aprimoramento das técnicas analíticas,
permitiu o desenvolvimento dos equipamentos, métodos e técnicas que são fundamentais à
Química Forense.
1.2 A IMPORTÂNCIA DA QUÍMICA FORENSE

O combate ao crime no Brasil e no mundo conta com o auxílio de várias áreas científicas
na análise das cenas que o compõem. Os vestígios encontrados devem ser analisados e
avaliados pelos peritos e, assim que possível, identificados para um melhor entendimento do fato
criminoso.
Quando, para o entendimento de um crime, for necessária a determinação da presença
8
ou ausência de alguma substância ou mesmo a determinação de sua natureza, torna-se
imprescindível a utilização de métodos químicos de análise. Daí a importância da Química
Forense como ferramenta na área criminalística.
Os métodos utilizados pelos químicos forenses são inúmeros e sempre variam de
acordo com a situação específica do crime. Métodos esses que vão desde simples análises à
utilização de equipamentos de alta tecnologia.
A Ciência Forense, em especial a Química Forense, é uma área bastante avançada nos
países desenvolvidos. No Brasil, é uma disciplina ainda em expansão. Diversas pesquisas
científicas estão sendo conduzidas no país e a criação de cursos universitários específicos na
área tende a dinamizar esse processo na busca pelo aperfeiçoamento.
As principais análises realizadas pela Química Forense são: análise de resíduos de
armas de fogo, análise de manchas de sangue, identificação de adulteração em veículos e vários
outros exames que serão descritos ao longo deste conteúdo.

1.3 A BIOLOGIA MOLECULAR NA QUÍMICA FORENSE

As técnicas de identificação e análise de DNA foram as responsáveis pelo avanço da


ciência e tecnologia em nível forense na década de 80. Essas técnicas demonstraram ser uma
importante ferramenta na investigação criminal. A Biologia Molecular é responsável pelo estudo
da estrutura e da função do material genético e também dos produtos gerados na expressão,
que são as proteínas.
O DNA pode ser utilizado na área forense e diversos aspectos, os principais são:

 Para demonstrar a culpa de criminosos;


 Na exoneração dos inocentes;
 Na identificação de corpos e restos humanos em desastres;
 Na determinação de paternidade;
 Na elucidação de trocas de bebês em berçários;
 Na detecção de substituições e erros de rotulação em laboratórios de patologia
clínica;
 Na distinção de crimes isolados e crimes em série.
9

O DNA apresenta várias características que permitem que ele seja utilizado na
investigação criminal. As mais importantes são:

 Apresenta alta estabilidade;


 Apresenta alto potencial discriminatório;
 Está presente em todas as células nucleadas do organismo humano, facilitando
a obtenção do mesmo.
 É uma molécula resistente a fatores ambientais.

O DNA pode ser obtido de diversos espécimes biológicos, dentre eles, amostras de
sangue, ossos, sêmen, cabelos, dentes, unhas, saliva, urina e etc., presentes em quaisquer tipos
de substrato na cena do crime. As técnicas de identificação baseadas no DNA são chamadas de
DNA fingerprint ou perfil de DNA. O perfil de DNA ou DNA fingerprint se baseia no fato de os
únicos indivíduos possuírem cópias idênticas do genoma, ou serem os gêmeos univitelinos.
Dessa forma, no genoma humano ocorrem vários polimorfismos que diferem os
membros da população. Portanto, cada indivíduo é único. Assim, a técnica utiliza esse padrão de
variação na identificação. Esses polimorfismos são também chamados de marcadores genéticos
e são responsáveis pela diferenciação dos indivíduos na população.
Dentre os marcadores genéticos mais utilizados, estão os seguintes:

a) VNTRs ou Minissatélites
VNTR significa “número variável de repetições em tandem”. Do inglês variablenumberof
tandem repeats são polimorfismos de DNA que consistem em uma série de comprimento de
repetições de fragmentos de DNA. Uma região VNTR apresenta cerca de 500 a 100pb (pb-
pares de bases) repetidas em sequências e apresentam grande importância nos processos de
identificação humana por exibirem um enorme número de alelos diferentes. A importância
justifica-se no fato de que seja provável que não existam dois indivíduos aparentados com o
mesmo genótipo.

b) STRs ou microssatélites
Do inglês short tandem repeats ou “repetições curtas em tandem” os STRs ou
microssatélites são polimorfismos de até 200pb que apresentam grande importância na
identificação humana por serem muito abundantes no genoma humano. 10

c) Marcadores bialélicos
São exemplos de marcadores bialélicos:
 Os SNPs (polimorfismos de substituição de nucleotídeos únicos - single
nucleotidepolymorphisms);
 Os polimorfismos de inserção ou deleção de um ou mais nucleotídeos
(polimorfismos de inserção – deleção; ins/del).

Ambos apresentam a grande vantagem de poderem ser estudados em produtos de


amplificação muito curtos (50 pb ou menos) e, assim, apresentam distintas vantagens sobre os
microssatélites no estudo de DNA extremamente degradado. Os ins/del são muito mais fáceis de
serem tipados porque seus alelos diferem somente no tamanho.
As principais técnicas moleculares utilizadas na identificação de DNA, ou seja, na
identificação dos polimorfismos acima descritos, são:

 Eletroforese

A eletroforese é uma técnica por meio da qual é feita a separação das moléculas do
material genético em função da sua massa (tamanho), forma e compactação. É uma técnica
rápida, sensível e precisa.
O procedimento da eletroforese (FIGURA 5) consiste na migração da molécula em
questão em suportes (géis) por ação de uma corrente elétrica, com diferentes velocidades,
dependendo do seu tamanho e forma. Quando submetidas a um campo elétrico, as moléculas
migram para o polo positivo, pois são carregadas negativamente, e como força oposta à
migração existe o atrito com o suporte (gel).
FIGURA 5 - ELETROFORESE

11

FONTE: SKOOG, 2004.

Moléculas maiores promovem maiores atritos com o gel e, portanto, apresentam uma
migração mais lenta. A visualização da migração é realizada por meio da revelação do gel na
presença de compostos intercalantes, como o brometo de etídio (FIGURA 6).

FIGURA 6 - PADRÕES DE BANDAS EM GEL REVELADO

FONTE: Disponível em: <http://www.ufla.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

 Southern blotting

O Southern blotting(FIGURA 7) é uma técnica que utiliza a capacidade de a


nitrocelulose ligar-se fortemente ao DNA fita simples, mas não à fita dupla.
Os passos do Southern blottingsão os seguintes:
1º Passo: Clivagem do DNA genômico com enzimas de restrição;
2º Passo: Realização da eletroforese com o DNA genômico total;
3º Passo: Conversão do DNA na sua forma simples pela ação do NaOH;
4º Passo: Transferência das moléculas do gel para a folha de nitrocelulose por
capilaridade;
5º Passo: Secagem a 80ºC.
6º Passo: Contato da membrana de nitrocelulose com uma sonda (sequência de DNA
conhecida) marcada radioativamente; 12
7º Passo: Hibridização da sonda à sequência alvo;
8º Passo: Remoção da sonda por lavagem;
9º Passo: Autorradiografia pela exposição a um filme de raio-X.

FIGURA 7- SOUTHERN BLOTTING

FONTE: SKOOG, 2004.

Reação em cadeia da polimerase (PCR)


A reação em cadeia da DNA-polimerase (do inglês Polimerase Chain Reaction) é um
método (FIGURA 8) in vitro rápido e versátil para a amplificação de sequências-alvo de DNA
definidas, presentes em uma preparação de DNA. A técnica de PCR promove a amplificação
seletiva de uma determinada sequência de DNA. Para que isso ocorra é necessário o contato
entre o DNA extraído previamente, os primers específicos para a sequência alvo, a DNA
polimerase termoestável e os quatro desoxirribonucleosídeos trifosfatos (dATP, dCTP, dGTP e
dTTP). Esses componentes são colocados em um termociclador e após um tempo definido
ocorre a produção de várias sequências de DNA idênticas à sequência alvo.

FIGURA 8 - TÉCNICA DE PCR

13

FONTE: SKOOG, 2004.

A técnica de PCR é uma técnica extremamente simples e de fácil realização. Permite


resultados em pouco tempo, o que garante a sua preferência pelos pesquisadores, quando
comparado ao tempo gasto com a técnica Southern.

Vantagens da técnica de PCR:


 Velocidade e facilidade de utilização;
 Sensibilidade;
 Robustez;
 Possibilidade de análise de amostras degradadas.
1.4 A AMOSTRAGEM E COLETA DE MATERIAL

A identificação humana por meio da análise do material genético envolve vários


processos para que os resultados obtidos sejam fidedignos. O material em questão deve ser
coletado, manipulado e armazenado de forma a não perder as suas características intrínsecas
responsáveis pela identificação.
A coleta é uma etapa extremamente importante em uma investigação criminal, portanto,
14
deve ser feita por profissionais habilitados e sempre que possível em até 24 horas após a
ocorrência do delito em questão. As condições adequadas de coleta de vestígios e indícios
criminais dependem também do material utilizado na coleta pelos profissionais.
Esse ponto é de extrema importância para garantir a qualidade da amostra, ou seja, é
responsável por impedir que ocorra qualquer tipo de contaminação. Diante disso, é necessário
que os profissionais da área possuam um kit próprio de coleta, em que os principais materiais
são:

 Maleta – destinada para transporte e armazenamento do material de coleta;


 Swab e/ou Cotonete (algodão ou dracon) – utilizado na coleta de material líquido
ou em manchas secas. Pode ser utilizado cotonete comercial;
 Água destilada estéril – utilizada para umedecer o swab (ou cotonete);
 Pinças – coleta de cabelo ou material sólido;
 Luvas descartáveis (de procedimento);
 Máscara cirúrgica;
 Touca cirúrgica;
 Envelopes – transporte e armazenamento das amostras;
 Seringas descartáveis – coleta de líquidos;
 Coletor universal – acondicionamento e transporte de amostras;
 Tubos plásticos – acondicionamento de transporte de amostras;
 Espátula descartável – para coleta de amostras sólidas;
 Estilete (com lâminas descartáveis) – efetuar cortes em tecidos, couro, etc.;
 Bisturi (com lâminas descartáveis) – efetuar pequenos cortes e raspagem de
amostras secas;
 Tesoura – efetuar cortes em geral;
 Palito de cutícula – para coleta de amostras sob as unhas;
 Algodão hidrófilo;
 Fita adesiva – coleta de amostras;
 Papel (tipo ofício/A4) – coleta e acondicionamento de amostras;
 Isopor (pedaços) – fixar swab ou cotonetes para secar e transportar;
 Sacos plásticos – transporte e armazenamento de amostras;
 Sacos de papel - transporte e armazenamento de amostras;
 Caixa para transporte de swab; 15

 Caixa de isopor pequena – transporte das amostras.

O método de coleta depende do estado e das condições da amostra. A amostra deve ser
representativa para que os resultados obtidos sejam confiáveis. Cada tipo de material biológico
exige um método de coleta específico, daí a importância em se ter profissionais capacitados e
material adequado sempre em mãos.
Os tipos de coleta, portanto, estão relacionados aos tipos de materiais biológicos. Abaixo
serão descritos os métodos de coleta de acordo com cada tipo de material biológico a ser
analisado.

1.4.1 Coleta de Fluidos Corporais

Exemplos: Sangue, esperma, saliva, etc.

Os fluidos corporais em estado líquido, quando em pequenas quantidades, devem ser


coletados por meio de swab estéril. Já em grandes quantidades devem ser utilizadas seringas
descartáveis estéreis. Todo material de coleta deve ser armazenado em condições adequadas
para garantir a qualidade da amostra. Em situações em que os fluidos corporais estiverem
secos, o procedimento de coleta vai depender do tamanho e do tipo de objeto em questão.
Quando os objetos forem pequenos e de fácil deslocamento, são enviados inteiros para a
análise; exemplos de fluidos encontrados em roupas e objetos pessoais.
Já quando estiverem em grandes superfícies de metal, paredes e móveis, devem ser
retirados com o auxílio de espátulas e bisturis estéreis e acondicionados em sacos plásticos
estéreis. Muitas vezes, é necessária a utilização de swab umedecido com água estéril para
facilitar a remoção do fluido. Todo procedimento é documentado, descrito e fotografado para fins
da investigação.

1.4.2 Coleta de Tecidos Ósseos

16
Exemplos: ossos e dentes.

Os tecidos duros funcionam como fonte de DNA. Todo material ósseo coletado deve ser
armazenado em locais estéreis e submetido a baixas temperaturas, preferencialmente a -20ºC,
para evitar o crescimento microbiano. Se o congelamento não for possível, o material coletado
deve ser armazenado em local o mais fresco e seco possível para evitar a degradação do DNA.

1.4.3 Coleta de Tecidos Moles

Exemplos: Músculo, gordura, pele, unhas, fios de cabelo, etc.

As amostras devem ser coletadas utilizando-se de pinças estéreis, em condições


controladas, para evitar possível contaminação, e devem ser armazenadas em condições que
limitem a degradação do DNA. Quando possível, as amostras devem ser submetidas ao
congelamento (-20ºC a -80ºC). Quando essa forma de armazenamento não for possível, as
amostras devem ser armazenadas em locais estéreis em solução de etanol 95% ou soluções
tamponantes comerciais.
A coleta de materiais biológicos deve sempre levar em conta as questões de
biossegurança, visando à proteção do profissional envolvido na pesquisa e a garantia de
resultados fidedignos.
2 ENTENDENDO O DNA

2.1 INTRODUÇÃO

Em 25 de abril de 1953 foi anunciada uma das maiores descobertas e que mudaria os
rumos da ciência. O norte-americano James Watson e o inglês Francis Crick desvendaram a
17
estrutura do DNA (ácido desoxirribonucleico) (FIGURA 9).

FIGURA 9 - WATSON E CRICK DEMONSTRANDO A ESTRUTURA DO DNA (DUPLA


HÉLICE)

FONTE: Disponível em: <http://www.tragodefilosofia.blogspot.com>.


Acesso em: 26 set. 2012.

O motivo de essa descoberta ser tão importante está relacionado aos requisitos abaixo:
1) A estrutura em dupla hélice sugere como o material genético pode determinar a
estrutura das proteínas;
2) Se a sequência de bases do DNA especifica a sequência de aminoácidos, então
é possível uma mutação pela substituição de um tipo de base por outro em uma ou mais
posições;
3) O pareamento específico sugere um mecanismo de cópia para o material
genético.
Com a descoberta da estrutura do DNA e consequentemente o avanço das técnicas
relacionadas à análise e sequenciamento, inúmeras espécies puderam ter seus genomas
sequenciados, inclusive o homem. De acordo com os estudos de sequenciamento, as
informações genéticas humanas podem ser encontradas em dois tipos de genoma, o genoma
nuclear e o genoma mitocondrial. Portanto, a espécie humana apresenta o DNA nuclear e o DNA
mitocondrial em suas células.
O genoma nuclear está armazenado no núcleo celular e o genoma mitocondrial
encontra-se nas mitocôndrias, organelas citoplasmáticas responsáveis pela produção de energia
(FIGURA 10).
18
FIGURA 10 - CÉLULA ESQUEMÁTICA HUMANA

FONTE: Disponível em: <http://www.webciencia.com>.


Acesso em: 26 set. 2012.

O DNA nuclear e o DNA mitocondrial apresentam várias diferenças, como pode ser
observado na Tabela 1.
TABELA 1 - COMPARAÇÃO ENTRE O DNA NUCLEAR E O DNA MITOCONDRIAL

19

FONTE: Adaptado de BUTLER, 2005.

Neste capítulo serão diferenciados de forma aprofundada os dois tipos de DNA


presentes no genoma humano, demonstrando o papel específico de cada um nas investigações
criminais, ou seja, na prática forense.

2.2 O DNA NUCLEAR

O DNA nuclear está armazenado no núcleo das células, compondo os 22 pares de


cromossomos autossômicos e um par de cromossomos sexuais – X e Y. Portanto, toda célula
somática humana apresenta um total de 46 cromossomos em sua constituição. Os pares de
cromossomos apresentam variação no tamanho. Dessa forma, cada cromossomo contém uma
quantidade variável de genes.
O genoma humano apresenta cerca de três bilhões de pares de bases e apenas 1 a 2%
desse total é codificado, correspondendo a aproximadamente 30.000 genes. A molécula de DNA
(FIGURA 11) é constituída de duas cadeias de polinucleotídeos compostos por quatro tipos de
nucleotídeos (Adenina, Guanina, Citosina e Timina).
FIGURA 11 - ESTRUTURA DA MOLÉCULA DE DNA

20

FONTE: Disponível em: <http://www.webciencia.com>. Acesso em: 26 set. 2012.

Cada uma destas cadeias é conhecida como uma fita de DNA. As duas fitas de DNA
são unidas por pontes de hidrogênio, dando origem à estrutura de dupla-hélice tão conhecida.
O DNA nuclear pode ser classificado em três tipos:

 DNA cópia única ou DNA não repetitivo


Representa apenas 50% do genoma, correspondente a uma cópia por genoma. É o
responsável pela codificação dos genes, que são sequências ordenadas de nucleotídeos
localizadas em posições particulares em um cromossomo específico que codificam produtos
funcionais específicos (Proteínas e RNAs).
Os genes humanos são classificados em:

Genes de classe I

São os genes responsáveis pela codificação de rRNAs (RNAsribossomais).

Genes de classe II

São os genes responsáveis pela codificação de mRNAs (RNA mensageiro) e,


consequentemente, proteínas.
Genes de classe III

Os genes de classe III são os responsáveis por codificarem o tRNA (RNA


transportador).

 DNA moderadamente repetitivo

Representa 40% do genoma humano; correspondente a um intervalo de 100 a 100.000 21


cópias por genoma.

 DNA altamente repetitivo

Representa em torno de 10% do genoma; correspondente a mais de 100.000 cópias


por genoma. O DNA repetitivo não é codificado e pode ser representado por sequências curtas
ou similares. Essas sequências são encontradas de duas formas:

a) Sequências em tandem (agrupadas)

Exemplos: DNA satélite; microssatélite e minissatélite.


O DNA satélite é uma porção do DNA que se diferencia do restante do genoma pela
composição de bases, apresentando alto conteúdo GC. Existem vários satélites no genoma
humano em diferentes cromossomos, sendo o principal denominado de alfa ou alfoide.
O DNA satélite pode ser classificado em: minissatélite (VNTRs), sequências de 5 a 50
pb; e em microssatélites (STRs), sequências de 1 a 4 pb. E é por meio dessa variação que se
torna possível a identificação humana, já que cada indivíduo apresenta um padrão diferente em
seu genoma dessas repetições.

b) Sequências dispersas

Exemplo: SINEs e LINEs

De acordo com estudos, acreditam que esses tipos de sequências são originados de
genes que perderam sua funcionalidade ou de RNAs que mantiveram sua capacidade de
duplicação e de movimentação pelo genoma. Exemplos de sequências dispersas são os SINEs
(Short Interspersed Nuclear Elementes), que representam sequências curtas e os LINEs
(LongInterspersed Nuclear Elements), que representam sequências maiores.
O número de cópias dessas sequências no genoma varia, no caso dos SINEs,
correspondem a 7% do genoma. O DNA repetitivo é largamente utilizado na investigação
forense. Os STRs tornaram-se os marcadores genéticos mais usados devido às seguintes
características:

 Abundância no genoma humano; 22


 Elevado poder discriminativo;
 Robustez e especificidade em multiplex;
 Baixa taxa de mutação;
 Tamanho previsível dos fragmentos de amplificação, na ordem dos 90-500 pb;
 Estudo fácil mediante técnicas de PCR.

Há no mercado diversos kits (multiplex) capazes de genotiparem essas regiões. No


cromossomo Y, apenas a mutação é a causa da diversificação dos haplotipos de STRs. A
principal característica do cromossomo Y é ser exclusiva de indivíduos do sexo masculino, sendo
que a maioria dos crimes mais graves e violentos é cometida por homens. Em casos de mistura
de fluidos corporais de ambos os sexos, como é o caso das agressões sexuais, a tipagem do
cromossomo Y pode fornecer informação específica da componente masculina.
Há também o interesse na investigação de SNPs (polimorfismos de nucleótidos únicos)
autossômicos por apresentarem, também, uma baixa taxa de mutação, serem adequados para a
introdução de novas tecnologias e automatização e poderem ser analisados a partir de
fragmentos muito pequenos, ideal para amostras que apresentem o DNA muito degradado. A
grande limitação do uso destes polimorfismos é o fato de ser necessário um maior número de
SNPs, comparativamente aos STRs, para que se consiga um poder discriminativo semelhante.

2.3 O DNA MITOCONDRIAL

A mitocôndria é uma organela presente no citoplasma das células eucarióticas,


responsável pela produção de energia. A produção de energia ocorre na forma de ATP por meio
de um processo chamado de fosforilação oxidativa. As mitocôndrias apresentam DNA próprio,
sendo caracterizado por apresentar pequena dimensão e ser uma molécula circular de fita dupla
(FIGURA 12). A distribuição assimétrica de guaninas e citosinas faz com que haja uma cadeia
leve (light chain), constituída maioritariamente por citosinas e uma cadeia pesada (heavy chain),
extremamente rica em guaninas.

FIGURA 12 - MOLÉCULA DE DNA MITOCONDRIAL

23

FONTE: Disponível em: <http://www.webciencia.com>.


Acesso em: 26 set. 2012.

O DNA mitocondrial é constituído por:

a) Região codificante

A região codificante é constituída por 37 genes. Treze desses genes estão envolvidos na
fosforilação oxidativa, 22 são responsáveis por codificarem tRNAs e dois são responsáveis pela
codificação de rRNAs.

b) Região controle ou D-loop

A região controle é também chamada de D-loop ou região hipervariável. Essa


dominação de D-loop está relacionada à fase inicial de replicação, quando a nova fita recém-
sintetizada se solta da fita molde formando uma “bolha” ou “loop”. Essa região é considerada
hipervariável, pois acumula mutações pontuais cerca de dez vezes mais comuns que o DNA
nuclear. Exemplos são as regiões hipervariáveis já descritas em estudos, como: HV1, HV 2 e
HV3. A região controle é a responsável por comandara síntese de RNA e DNA.
O DNA mitocondrial (mtDNA) possui características genéticas únicas que o tornam
instrumento de grande importância no contexto das investigações forenses. Dentre as
características mais importantes estão:
24
 Hereditariedade materna

O genoma mitocondrial é um genoma haploide, devido ao fato de ter sido provado


cientificamente que o seu DNA apresenta herança exclusivamente materna. Isso ocorre devido a
um mecanismo durante a fecundação de seletividade de mitocôndrias. Dessa forma, a mãe
transmite para o filho o seu genoma mitocondrial, o que faz com que a descendência da linha
materna tenha sempre o mesmo genoma.
Diante dessa característica de hereditariedade uniparental é possível a realização de
reconstruções de linhas evolutivas por meio do tempo, sem que haja interferência dos efeitos da
hereditariedade biparental e da inerente recombinação existente no DNA nuclear.

 Ausência de recombinação

Outra característica específica do mtDNA é a ausência de recombinação. Não há


evidências da contribuição paterna para o genoma mitocondrial. Diante disso, o mtDNA é
essencialmente constituído por cópias clonais do genoma mitocondrial materno, comportando-se
como um único locus.

 Elevado número de cópias

O mtDNA está presente nas células em um elevado número de cópias, podendo variar
de acordo com o tipo de célula e tecido.

 Heteroplasmia
É dado o nome de heteroplasmia a existência de diferentes tipos de mtDNA em um
indivíduo. É um fenômeno resultante de mutações que ocorrem durante a proliferação das
células germinativas ou durante a replicação de células somáticas.
A heteroplasmia pode ser observada de três modos:

a) Um indivíduo pode ter mais de que um tipo de mtDNA no mesmo tecido;


b) Um indivíduo pode ser heteroplasmático em um tecido e homoplasmático em;
c) Um indivíduo pode ter um tipo de mtDNA em um tecido e outro tipo em outro. 25

Há dois tipos de heteroplasmia: a de sequência e a de comprimento (FIGURA 13).

FIGURA 13 - HETEROPLASMIA. A: HETEROPLASMIA DE SEQUÊNCIA; B:


HETEROPLASMIA DE COMPRIMENTO

FONTE: Disponível em: <http://projects.nfstc.org>.


Acesso em: 26 set. 2012.

A heteroplasmia de sequência é quando as sequências apresentam diferentes


nucleotídeos em uma posição determinada. Já a heteroplasmia de comprimento é quando as
sequências apresentam diferentes tamanhos devido a inserções e/ou deleções. As
heteroplasmias de sequência são as mais desejáveis na investigação forense, pois aumentam a
probabilidade de determinação de um perfil de DNA.

 Taxa de mutação

De acordo com relatos na literatura, o mtDNA apresenta taxa de mutação muito maior
quando comparada à taxa do DNA nuclear. Esse fato é devido à ausência de proteínas
protetoras, como por exemplo, as histonas presentes no DNA nuclear; à baixa atividade de 26
reparação da mtDNA polimerase e à grande exposição do mtDNA aos radicais livres gerados na
fosforilação oxidativa.
Diante dessas características peculiares, o mtDNA tem sido amplamente utilizado nas
investigações forenses quando a quantidade de DNA nuclear é muito ínfima, em casos em que
ele esteja muito degradado ou em situações forenses nas quais existem apenas amostras de
parentes da linhagem materna para comparação. Portanto, o DNA nuclear é sempre preferível
nas análises investigativas.
As técnicas de análise de mtDNA baseia-se nos polimorfismos encontrados nas
sequências hipervariáveis da região controle. Atualmente tem sido realizada a análise de todo
genoma mitocondrial por meio da utilização de marcadores SNPs, o que tem aumentado o poder
da determinação de perfis de mtDNAs.

2.4 EXAMES UTILIZANDO O DNA

A molécula de DNA é capaz de sofrer alterações denominadas mutações, que acarreta a


variação nas sequências dos nucleotídeos. Essa variação é chamada de polimorfismo genético.
É, portanto, possível identificar uma pessoa com base no seu padrão polimórfico.
Como foi dito no capítulo anterior, O DNA pode ser utilizado na área forense para:
 Demonstrar a culpa de criminosos;
 Exonerar inocentes;
 Identificar corpos e restos humanos em desastres;
 Determinar a paternidade;
 Elucidar trocas de bebês em berçários;
 Detectar substituições e erros de rotulação em laboratórios de patologia clínica;
 Distinguir crimes isolados de crimes em série.

Os exames que utilizam o DNA como fonte de informação realizam análises das regiões
polimórficas, criando os perfis de DNA, chamados DNA fingerprint. O perfil de DNA ou DNA
fingerprintse baseia no fato de os únicos indivíduos possuírem cópias idênticas do genoma
serem os gêmeos univitelinos. Dessa forma, no genoma humano ocorrem vários polimorfismos
que diferem os membros da população. Portanto, cada indivíduo é único.
Assim, a técnica utiliza esse padrão de variação na identificação. Esses polimorfismos 27
são também chamados de marcadores genéticos e são responsáveis pela diferenciação dos
indivíduos na população. Os diversos tipos de técnicas utilizadas em exames de DNA já foram
descritas no capítulo anterior.
.3 METODOLOGIA E TÉCNICAS VOLTADAS À QUÍMICA FORENSE

3.1 TÉCNICAS ANALÍTICAS MAIS USUAIS

A Química Forense conta com o auxílio da Química Analítica nas investigações


criminais. Muitas técnicas analíticas estão sendo utilizadas na documentoscopia, balística
28
forense e drogas de abuso. As mais utilizadas de acordo com cada área são:

a) Documentoscopia

A documentoscopia é a parte da criminalística que estuda a autenticidade dos


documentos. Os principais estudos da documentoscopia são: alterações de documentos, exame
de instrumentos escreventes e, a parte de interesse para a Química Forense, o exame de tintas.
As técnicas mais utilizadas na documentoscopia são:

 Espectroscopia Raman

A Espectroscopia Raman é uma técnica de grande importância na comparação de tintas.


Essa técnica utiliza uma potente fonte de laser de radiação monocromática no visível ou no
infravermelho próximo. Ao ser incidido sobre o objeto em análise, é espalhada por ele, podendo
gerar luz de mesma energia (espalhamento elástico) ou de energia diferente da incidente
(espalhamento inelástico).
Como espalhamento inelástico é possível obter informações importantes sobre a
composição química do objeto em análise pela formação dos chamados espectros Roman. É
utilizada a microscopia Raman (FIGURA 14).
FIGURA 14 - MICROSCÓPIO RAMAN

29
FONTE: Disponível em: <http://www.nei.com.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

A espectrometria Raman utiliza a frequência de vibração dos átomos do objeto sob


análise para descobrir informações acerca de sua geometria molecular, de sua interação com o
ambiente, etc. Dessa forma, a espectrometria Raman permite a investigação da autenticidade de
documentos pela análise de tintas.

 Espectrometria de massas (MALDI-MS e EASI-MS)

A espectrometria de massa (EM) é uma técnica que converte molécula e átomos


neutros em íons e os separa por suas razões de massa/carga. As informações obtidas por um
espectrômetro de massas são representadas por meio de um espectro de massas, que é um
gráfico de abundâncias relativas dos íons em função da razão massa/carga, ou também na
forma de tabela.
Os espectrômetros de massas são constituídos de três partes:

1) Fonte de íons;
2) Analisador;
3) Sistema de detecção dos íons.

O princípio básico da espectrometria de massa pode ser visto na figura 15.


FIGURA 15 - ESTRUTURA BÁSICA DE UM ESPECTRÔMETRO DE MASSAS

30

FONTE: Disponível em: <http://www.mundoescola.com.br>. Acesso em: 25 set. 2012.

De acordo com a figura 15, pode-se ter uma ideia do princípio básico do funcionamento
de um espectrômetro de massas. Na fonte de íons, os constituintes da amostra são convertidos
em íons. Esses são acelerados em direção ao analisador, que realiza a separação dos íons de
acordo com a razão massa/carga. Os íons separados pelo analisador são então detectados pelo
detector, transformando a corrente de íons em sinais elétricos que são processados.
O que diferencia os diversos tipos de espectrometria de massas são os métodos de
ionização. A fonte de ionização representa o dispositivo responsável pela ionização dos analitos
da amostra antes de atingirem o analisador de massas. Diante disso, há vários tipos de
espectrometria de massas. As mais utilizadas são:

MALDI – MS (Matrix-assisted laser desorption/ionization mass spectrometry)


Para este tipo de espectrometria de massa é utilizada a ionização por dessorção a laser
assistida por matriz. Seu princípio baseia-se na ionização do analito adsorvido em uma
substância (matriz) por um feixe de laser.
Apesar de ser bastante utilizada, apresenta algumas desvantagens como:

 O documento a ser analisado é destruído pela técnica;


 A necessidade da utilização de solventes;
 A degradação da substância analisada pela potência do laser;
 A reprodutibilidade das condições de ionização e a otimização da técnica podem
ser complexas.
Para minimizar essas desvantagens, surgiu a necessidade de descobrir técnicas com
poderes destrutivos menores. Uma delas é a espectrometria de massas com ionização por
eletrospray (ESI-MS).

 ESI – MS
O processo electrospray é simples e requer uma fonte de alta tensão que esteja em
contato com a solução contendo os analitos. Essa solução é transmitida por meio do capilar, no 31
qual é aplicado um potencial positivo ou negativo forçando um processo de oxirredução e,
consequentemente, a formação de algumas espécies sem seus contraíons. Assim, a gota sendo
formada na ponta do capilar estará enriquecida por íons positivos ou negativos, dependendo do
potencial aplicado.
Conforme a densidade de carga aumenta na gota, presa à ponta do capilar, o campo
elétrico formado entre o capilar e o contraeletrodo aumenta, provocando uma deformação na
gota. A gota ganha forma de um cone, o qual é denominado de cone de Taylor. Quando a
densidade de carga supera a tensão superficial, a gota se desprende do capilar, subdividindo-se.
A frequência desse último processo depende da magnitude do campo elétrico, da tensão
superficial do solvente e da condutividade da solução.
Como resultado final, os íons tornam-se completamente dessolvatados, ou seja, há
apenas o rompimento gradual de interações não covalentes, principalmente a remoção de
moléculas de solventes.

b) Balística Forense

Na Balística Forense são utilizadas as seguintes técnicas analíticas:

 Espectrometria de fluorescência de raios-X (XRF)

A espectrometria de fluorescência de raios-X baseia-se na emissão de raios


fluorescentes pela amostra a ser analisada por meio da excitação eletrônica. A técnica utiliza um
espectrômetro de fluorescência de raios-X para gerar as informações, que é um aparato
constituído por uma fonte responsável pela excitação, o local de inserir a amostra, o sistema de
dispersão, o mecanismo de detecção e o processador dos dados.
 Espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS)

A espectrometria de massa com fonte de plasma indutivamente acoplado (ICP-MS) é


uma técnica analítica bastante sensível para análise multielementar e isotópica. É usada para
determinação de elementos em razão da massa/carga do íon. O princípio da técnica é: os íons
gerados no plasma são introduzidos no espectrômetro de massa, os quais são separados em
função da razão massa/carga, sob ação de campos elétricos e magnéticos que modificam as 32
suas trajetórias.

 Microscopia Eletrônica de Varredura por Raios-x (MEV-EDX)

A técnica de microscopia eletrônica de varredura (MEV) baseia-se na interação da


amostra a ser analisada com os feixes de elétrons, que é responsável por produzir a imagem
desejada. O microscópio eletrônico de varredura (MEV) funciona da seguinte maneira: há a
emissão de feixes de elétrons (eletrodo negativo) por um filamento capilar de tungstênio. Por
efeito termiônico, os elétrons são acelerados em direção ao ânodo, passando por lentes
condensadoras e por uma lente objetiva, responsável por focalizar sobre a amostra. A amostra é
varrida pelos dois estágios de bobinas eletromagnéticas existentes acima da lente objetiva.
O EDX (energydispersex-ray detector, EDX ou EDS) é um acessório que mede a energia
associada a cada elétron. Dessa forma, o uso em conjunto do MEV e do EDX permite uma
identificação mais precisa de que mineral está sendo analisado, já que cada elétron de
determinado átomo apresenta energia específica. As imagens geradas pelo MEV-EDX
apresentam excelente nitidez.
3.2 DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE RESÍDUOS

3.2.1 O Exame Residuográfico de Disparo de Armas de Fogo

Uma arma de fogo é considerada uma máquina térmica, sendo constituída pelo
aparelho arremessador ou arma propriamente dita, pela carga de projeção (pólvora) e pelo
33
projétil (FIGURA 16).

FIGURA 16 - CARTUCHO PADRÃO

FONTE: Disponível em: <http://www.armasonline.org>. Acesso em: 27 set. 2012.

Com a combustão da pólvora, que ocorre pela “chama iniciadora” proveniente da


espuleta, o projétil é lançado para fora do cano. A força com que é projetado depende da
qualidade da combustão. A combustão da pólvora gera um volume de gases, que gera uma
pressão que impele o projétil pelo cano da arma.
A expansão dos gases ocorre na região anterior do cano da arma, orientada para a
frente e na região posterior da arma, em decorrência da presença de orifícios na culatra (em
revólveres) ou do extrator (no caso de pistolas). É o fluxo de gases emitido pela região posterior
da arma que atinge a mão do atirador, sendo chamado de vestígios ou resíduos de arma de
fogo.
Os resíduos de tiro (GSR) (FIGURA 17), do inglês GunshotResidue, são produzidos em
todo crime em que tenha ocorrido um disparo de arma de fogo. Representam um conjunto
complexo de compostos orgânicos e inorgânicos, ou seja, elementos metálicos oriundos do cano
(Fe), do estojo (Cu, Zn, Ni), do projétil (Pb, Sb), do iniciador (Pb, Ba, Sb) e da pólvora
(orgânicos).
Porém, não pode ser detectado a olho nu e, portanto, necessita de técnicas de
laboratório para sua revelação. Esses resíduos de tiro, quando presente nas mãos, apresentam
um tempo de vida curto. Dessa forma, a coleta precisa ser feita o mais rápido possível para não
comprometer o andamento das investigações.

FIGURA 17 - NUVEM DE GSR

34

FONTE: Disponível em: <http://quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

A coleta dos resíduos dos disparos é realizada nas seguintes regiões da mão do
atirador: a palma, o dorso e a região palmar (Pinça-Palmar) e dorsal (Pinça-Dorsal) dos dedos
polegar e indicador (FIGURA 18).

FIGURA 18 - REGIÕES DA MÃO DE ATIRADORES SUBMETIDAS À COLETA

FONTE: Disponível em: <http://quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012.


O procedimento de coleta independe do tipo de análise dos resíduos. Utiliza-se
cotonetes ou swabs embebidos em solução diluída de EDTA (Ácido etilenodiaminotetracético) a
2% ou outra solução complexante por um período de dois minutos. Após esse período, esses
cotonetes são esfregados nas quatro regiões distintas da mão do possível atirador por um
minuto.
As extremidades dos cotonetes ou swabs são armazenadas em tubos devidamente
identificados e então levados aos laboratórios para que possam ser analisados. A realização dos
testes de detecção de resíduos de armas de fogo surgiu com a necessidade de determinar se 35
um indivíduo foi ou não o responsável pelos disparos em um crime sob investigação. Diversas
técnicas foram utilizadas, porém, as mais confiáveis e irrefutáveis são as descritas abaixo.
Essas técnicas permitem diferir partículas de elementos oriundas de disparos de armas
de fogo das partículas oriundas das diversas tarefas ocupacionais do dia a dia.

 Espectrometria de Absorção atômica sem chama


(FlamelessAtomicAbsorptionSpectrometry) – FAAS

A técnica da espectrometria de absorção atômica sem chama (FAAS) baseia-se no


aquecimento a elevadas temperaturas com o objetivo de romper as ligações das moléculas
presentes na amostra. Dessa forma, os átomos em seu estado elementar são analisados e
avaliados pela capacidade de absorção de radiação.
A presente técnica representa uma possibilidade de detecção de Bário, Antimônio e
Chumbo, sendo de simples execução, alta sensibilidade e, acima de tudo, baixo custo. Porém,
apresenta como desvantagem a impossibilidade de detecção dos elementos que estão na
mesma partícula.

 Microscopia Eletrônica de Varredura por Raios-x (MEV-EDX)

É uma técnica que produz imagens com alta ampliação (até 300.000x) e resolução. As
imagens fornecidas são virtuais, pois o que é exibido no monitor do aparelho é a transcodificação
de ondas energéticas emitidas. A técnica de microscopia eletrônica de varredura (MEV) baseia-
se na interação da amostra a ser analisada com os feixes de elétrons, que é responsável por
produzir a imagem desejada.
O microscópio eletrônico de varredura (MEV) funciona da seguinte maneira: há a
emissão de feixes de elétrons (eletrodo negativo) por um filamento capilar de tungstênio. Por
efeito termiônico, os elétrons são acelerados em direção ao ânodo, passando por lentes
condensadoras e por uma lente objetiva, responsável por focalizar sobre a amostra. A amostra é
varrida pelos dois estágios de bobinas eletromagnéticas existentes acima da lente objetiva.
O EDX (energy disperse x-ray detector, EDX ou EDS) é um acessório que mede a
energia associada a cada elétron. Dessa forma, o uso em conjunto do MEV e do EDX permite
uma identificação mais precisa de que mineral está sendo analisado, já que cada elétron de
determinado átomo apresenta energia específica. As imagens geradas pelo MEV-EDX
apresentam excelente nitidez. Dessa forma, a utilização de um microscópio eletrônico de 36
varredura equipado com capacidade de análise EDX fornece resultados que combinam detalhes
da morfologia e da composição elementar de partículas individuais de GSR.
Com o avanço da tecnologia, as indústrias de armamentos têm lançado munições cada
vez mais modernas. O lançamento de munições que não apresentam metais pesados na
composição da espuleta e o encamisamento total dos projéteis para evitar a evaporação de Pb
tem dificultado e muito os trabalhos de investigação forense. Com isso, novas técnicas são
necessárias na avaliação das partículas residuais.
As técnicas mais utilizadas nestes casos estão relacionadas à separação. Por exemplo,
tem-se utilizado as técnicas de eletroforese, cromatografia líquida, espectrometria atômica
(Fluorescências de raios-X, XRF), espectrometria de massas com plasma indutivamente
acoplado, ICP-MS, espectrometria de massas de íons secundários e espectrometria de absorção
atômica. Porém, pouco se sabe acerca dessas técnicas e quase não são encontrados relatos na
literatura.

c) Drogas de abuso

As drogas de abuso são substâncias psicotrópicas que atuam no sistema nervoso


central (SNC), modificando o humor, a consciência, os sentimentos, as sensações, o estado de
vigília, dentre outros. São responsáveis por causar dependência psíquica e física e podem ser
classificadas em três classes:

I) Depressores do SNC

Exemplos: opiáceos/opioides, etanol e barbitúricos.


II) Estimulantes do SNC

Exemplos: cocaína ou crack, anfetaminas, metanfetaminas (como MDMA) e


anorexígenos.

III) Perturbadores do SNC

Exemplos: drogas alucinógenas, como LSD, psilocibina, mescalina e canabinoides. 37


A técnica analítica mais usada para identificar a presença de drogas de abuso é a ESI –
MS, já descrita anteriormente.

3.2.2 O Exame Químico Metalográfico e de Tintas

Exame químico metalográfico

Todo veículo deixa a indústria com um número de identificação. Esse número é aplicado
ao metal pelo método da cunhagem a frio, que deixa uma impressão em baixo relevo na
superfície metálica. O que os adulteradores fazem é remover as impressões em baixo relevo por
ação mecânica, com o auxílio de abrasivos que desgastam a superfície do metal. Dessa forma,
torna-se necessária uma ferramenta que identifique essas fraudes.
O exame metalográfico é realizado por peritos e consiste em uma ferramenta de grande
importância quando um veículo é adulterado e não se consegue provar por outros meios. O
exame metalográfico visa identificar qualquer tipo de adulteração feita em veículos roubados. É
realizado por meio da ação de reagentes específicos na superfície que contém a possível
adulteração.
O tipo de reagente utilizado no método depende da natureza da espécie de metal ou liga
a ser tratada. Tudo vai depender de como se encontra a área suspeita a ser analisada. Por
exemplo, caso a área esteja pintada, torna-se necessária a remoção da tinta. Qualquer traço de
óleo ou graxa também deve ser eliminado. A superfície a ser analisada não deve conter
ferrugem. Caso esteja presente, deve ser removida por meio do polimento com papel lixa. Ou
seja, para a realização eficaz do exame, a área deve estar completamente limpa e lisa.
Sempre que possível, antes de dar início ao exame, deve-se submeter a superfície a ser
analisada ao aquecimento. Esse procedimento facilita o processo de revelação. Como já foi dito,
o tipo de reagente depende da natureza do metal ou da liga a ser analisada.
Segue abaixo uma lista das fórmulas dos melhores reagentes que, de acordo com os
profissionais da área, têm produzido bons resultados:

 Para ferro fundido e ligas de magnésio – Identificação de numeração


38
Solução reagente:

Ácido Clorídrico..........120 ml
Cloreto férrico..............30g
Cloreto cúprico.............80g
Álcool metílico...........1000ml

Nesse caso, a superfície a ser tratada deve estar completamente limpa e lisa. Deve-se
uniformizar a superfície em questão com o auxílio de lixas de 00 e 000 (de ourives) para que a
fórmula reativa possa atuar. Aplica-se a solução na superfície do metal onde se deseja revelar a
numeração adulterada. A aplicação é feita com o auxílio de um bastão de vidro em cuja
extremidade se encontra um chumaço de algodão, que é embebido na solução reativa. O sentido
da aplicação do reagente deve ser sempre da esquerda para a direita, no sentido horizontal.
Após a primeira aplicação, deve-se aguardar cerca de cinco minutos e repetir o processo
por quatro ou cinco vezes. Após as quatro ou cinco aplicações do reativo, deve-se deixar a
superfície em repouso por cerca de 10 minutos. Após este tempo, há o aparecimento de uma
camada fina de óxido de cobre, que deve ser removida, já que ela dificulta a visualização da
numeração.
Esse procedimento deve ser repetido várias vezes até a gravação original, que foi
destruída, começar a aparecer.

 Ferro fundido e aço fundido

Solução reagente:
10% de ácido sulfúrico
Bicromato de potássio.
Gravações em superfícies de ferro e aço fundidos são consideradas as mais difíceis de
serem reveladas. Torna-se necessária a constante aplicação do ácido, sendo preciso, em alguns
casos, deixar a área suspeita imersa na solução por mais de três horas.

 Ferro ou aço batidos, estampados ou forjados

Para revelações em ferro ou aço batidos, estampados ou forjados, são necessárias duas 39
soluções reagentes.

Solução reagente 1:

Ácido clorídrico (80 ml);


Água (60 ml);
Cloreto de cobre (12,9 g);
Álcool (30 ml).

Solução reagente 2:

Ácido nítrico a 15%.

Deve-se realizar os seguintes procedimentos:

a) passar a solução 1 durante 60 segundos;


b) secar com algodão;
c) aplicar a solução 2 durante 60 segundos.

O procedimento deve ser repetido até que apareçam os vestígios procurados.

 Alumínio

Nessa categoria, a solução reagente mais indicada é a Solução de Vilela. Porém, é uma
solução de alta periculosidade.
Solução de Vilela:

Glicerina (30 ml);


Ácido fluorídrico (20 ml);
Ácido nítrico (10 ml).

A solução deve ser aplicada de forma contínua até a numeração aparecer. Devido à alta
periculosidade da solução de Vilela, também pode ser utilizada a solução de Hume Rothery. 40

Solução de Hume Rothery:

Cloreto de Cobre (500g);


Ácido Clorídrico (5 ml);
Água (1000 ml);

É uma solução que garante bons resultados, porém deve ser passada alternadamente
com água destilada para evitar a formação de depósito de cobre.

 Cobre, latão, prata alemã e outras ligas de cobre


Solução Reagente:

Cloreto de Ferro (19 g);


Ácido clorídrico (6 ml);
Água (100 ml).

A forma de aplicação é semelhante às demais. É uma solução reagente de ação


extremamente lenta. Dessa forma, muitos profissionais da área recomendam cercar com
plasticina a área a pesquisar, formando, assim, uma cerca dura impermeável que possibilitará o
uso do reagente como um banho, ficando a referida área totalmente imersa.

 Ácido Inoxidável

Alguns pesquisadores recomendam a aplicação de ácido sulfúrico diluído. Outros


recomendam a aplicação de uma solução de ácido clorídrico e álcool.
 Chumbo (baterias de automóveis etc.)

Solução reagente:

Ácido acético glacial (três partes);


Peróxido de hidrogênio.

Após a aplicação, recomenda-se limpar o metal com ácido nítrico concentrado. 41

 Zinco

Solução reagente:

Hidróxido de sódio dissolvido em água, a 10%.

Por ser uma solução de ação lenta, recomenda-se imersão total da área
suspeita.

 Estanho

Solução reagente:

Solução de ácido clorídrico a 10%.

Recomenda-se aplicar a solução alternadamente com água. Repetir esse


procedimento até a visualização.

Exame químico de tintas

As tintas de canetas são fabricadas de acordo com suas propriedades físicas como
densidade, cor, viscosidade, tensão superficial e resistência à água. Para que isso seja possível
é necessário o controle da composição química das tintas.
A análise de tintas é de grande importância para a Ciência, em especial, à Química
Forense, devido ao alto número de falsificações e adulterações de documentos.
O exame de tintas é baseado em dois fatores:

 No tipo de componente utilizado para dissolver o corante;


 Na pigmentação do corante.

Há três tipos de componentes químicos utilizados para dissolver o corante: gel, água e
solvente. Portanto, a discriminação das tintas em uma investigação forense depende de sua cor
e de suas composições química e mineralógica. O exame químico de tintas visa determinar a 42
autenticidade de determinado documento questionado legalmente. O exame envolve a
identificação de substâncias empregadas na confecção da tinta usada no documento
questionado e a compatibilidade com a data do mesmo.
A técnica mais utilizada nessa avaliação é a espectroscopia de Raman, já descrita
anteriormente, devido a diversos fatores como:

 A espectroscopia de Raman é uma técnica que apresenta capacidade


considerável na identificação de compostos químicos;
 Nessa técnica não é necessário preparar a amostra;
 A avaliação pode ser feita diretamente nos locais onde estão acondicionadas as
amostras;
 É uma técnica não invasiva;
 Não destrói a amostra;
 Proporciona rapidez às análises.

Dessa maneira, a espectroscopia Raman, em análise de tintas, fornecerá uma resposta


baseada nas características inerentes de cada tinta, distinguindo-as quimicamente. As
informações são obtidas na forma de um espectro de Raman (FIGURA 19).
FIGURA 19 - ESPECTROS RAMAN

43

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

A figura mostra exemplos de espectros Raman para cada tipo de tonalidade. Os


espectros são facilmente distinguíveis devido à diferença em suas composições químicas.

3.2.3 Revelações de Impressões Digitais: do Clássico à Nanotecnologia

A identidade é o conjunto de caracteres que individualizam uma pessoa pela ocorrência


de propriedades, sinais ou marcas específicas. É, portanto, exclusiva e intransferível. Diante
disso, o método de identificação consiste na determinação da identidade.
Um dos métodos de identificação humana bastante utilizada é a Papiloscopia. A
Papiloscopia é a ciência responsável pela identificação por meio das papilas dérmicas. As
papilas dérmicas são reentrâncias que representam o local de contato entre a derme e a
epiderme (FIGURA 20). As papilas são irrigadas e apresentam receptores sensoriais.
FIGURA 20 - ESTRUTURA DA PELE

44
FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

A Papiloscopia é, portanto, baseada na perenidade, individualidade, viabilidade e


imutabilidade das papilas dérmicas:
 Perenidade:
As papilas dérmicas apresentam a capacidade de resistir à ação do tempo;
 Individualidade:
As papilas dérmicas são específicas de indivíduo para indivíduo;
 Viabilidade:
O estudo das papilas dérmicas é viável às práticas periciais, pelo seu baixo custo e fácil
operacionalização;
 Imutabilidade:
As papilas dérmicas não variam com o passar do tempo.

A Papiloscopia é dividida em várias áreas de acordo com o objeto de estudo em


questão. A área responsável pela identificação por meio das impressões digitais é a
Datiloscopia. O uso das impressões digitais na identificação humana remonta à pré-história.
Desde essa época é conhecido que o homem primitivo realizava marcações de seus objetos e
cavernas com as mãos. Em geral, essas marcações eram feitas em argila, reproduzindo
principalmente as extremidades digitais.
Após isso, várias descobertas tiveram importância no campo das impressões digitais e
vários sistemas de identificação por meio destas foram propostos. Porém, em 1891, Juan
Vucetich apresentou o novo sistema de identificação, que ficou conhecido como
Iconofalangometria. Porém, a dúvida acerca da confiabilidade do método de identificação
humana por meio de impressões digitais ainda pairava.
Depois de anos de estudos e investigações chegou-se à conclusão de que a
identificação por impressões digitais era mesmo confiável, ou seja, era possível a identificação
individual por meio destas. A partir daí, o sistema Vucetich passou a ser amplamente utilizado
em todas as circunstâncias, ou seja, deixou de ser apenas um processo destinado à
identificação de criminosos e passou a ser utilizado pela sociedade civil. Nesta época, o sistema
passou a ser chamado de Datiloscópico ou simplesmente Datiloscopia.
O processo datiloscópico divide-se em:
45
a) Monodatilar

É quando se refere à impressão digital de um só dedo.

b) Decadátilar

É quando se trata da impressão do conjunto dos 10 dedos.

Os desenhos papilares estão presentes desde a vida embrionária e só desaparecem


com a putrefação corporal, ocorrida após a morte. Os desenhos são expressos em datilogramas
que podem ser divididos de três formas:

a) Datilogramas naturais: são aqueles realizados diretamente pelo auxílio da lupa.


b) Datilogramas artificiais: são aqueles realizados de forma artificial, ou seja, com o
auxílio de meios gráficos de impressão. Um exemplo é a ficha datiloscópica (FIGURA 21).

FIGURA 21 - FICHA DATILOSCÓPICA

FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 25 set. 2012.


a) Datilogramas acidentais: são aqueles encontrados acidentalmente nos locais de
crime.

No Sistema Vucetich, há quatro tipos de desenhos fundamentais que servem de base


para toda a classificação datiloscópica. Esses desenhos são baseados na presença de duas
características: o delta e as linhas do sistema nuclear (FIGURA 22).

FIGURA 22 - REPRESENTAÇÃO DO DELTA E DAS LINHAS NUCLEARES 46


Linhas

nucleares

Delta
FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 25 set. 2012.

Diante disso, os quatro tipos de desenhos fundamentais e suas características são: arco,
presilha interna, presilha externa e verticilos. Esses tipos apresentam a seguinte denominação
de acordo com os dedos:

a) Arco (A – polegar; 1 – demais dedos) (FIGURA 23) ;

FIGURA 23 - REPRESENTAÇÃO DO ARCO

FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 25 set. 2012.


Características do Arco:

I) Ausência de delta;
II) As linhas atravessam o campo da impressão de um lado para o outro,
assumindo forma abaulada.

b) Presilha interna (I – polegar; 2 – demais dedos) (FIGURA 24);


47
FIGURA 24 - REPRESENTAÇÃO DA PRESILHA INTERNA

FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

Características da Presilha Interna:

I) Um delta à direta do observador;


II) As linhas nucleares ocorrem para a esquerda do observador.

c) Presilha externa (E – polegar; 3 – demais dedos) (FIGURA 25);

FIGURA 25 - REPRESENTAÇÃO DA PRESILHA EXTERNA

FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 26 set. 2012.


Características da Presilha Externa:

I) Um delta à esquerda do observador;


II) As linhas nucleares ocorrem para a direita do observador.

d) Verticilo (V – polegar; 4 – demais dedos) (FIGURA 26).

FIGURA 26 - REPRESENTAÇÃO DO VERTICILO 48

FONTE: Disponível em: <http://www.papiloscopia.com.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

Características do Verticilo:

I) Apresenta dois deltas: um à direita e outro à esquerda do observador;


II) As linhas nucleares ficam encerradas entre dois deltas.

Há mais de um milhão de fórmulas datiloscópicas baseadas nesses quatro tipos


fundamentais e ambas estão à disposição do Serviço de Identificação do Exército. Os
datiloscopistas são os profissionais responsáveis por realizar os trabalhos de pesquisa nos
arquivos datiloscópicos e comparar com as impressões digitais em avaliação.
As impressões digitais podem ser:

 Impressões latentes (IPL): são as impressões formadas por óleo ou secreções


de suor depositadas pelo dedo de uma pessoa quando esta toca determinada superfície ou
objeto. São invisíveis a olho nu e necessitam de técnicas que as faça visíveis.
 Impressões visíveis: são formadas quando o dedo do criminoso está
contaminado com algum tipo de fluido. Daí é deixada uma marca visível.
 Impressões plásticas ou moldadas: são formadas quando a impressão do dedo
é deixada em uma substância macia. Raras de serem encontradas nas cenas de crime.

Há diversas técnicas para coleta de impressões digitais na cena do crime. Saber


escolher a técnica se torna importante do ponto de vista que uma escolha errada acarreta na
destruição do vestígio, da evidência, comprometendo, assim, o andamento das investigações.
Nas técnicas de revelação de impressões digitais são utilizados reveladores. Os
reveladores reagem com os produtos liberados no suor (TABELA 2) e tornam visíveis as 49
impressões digitais.

TABELA 2 - RELAÇÃO ENTRE AS GLÂNDULAS E OS COMPOSTOS EXCRETADOS


NO SUOR HUMANO

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

Os reveladores podem ser classificados em químicos e físicos. Dentre os reveladores


químicos encontram-se os pós como: carbonato de chumbo ou cerusa, negro de marfim, negro
de fumo, pó de alumínio, pó de grafite, pó de ferro, pó magnético, rodamina-B, eosina, sulfato de
para-rosanilina, violeta cristal, crisoidina, fluoresceína, naftolato AS, verde malaquita, fosfina R,
azul demetileno, nitrato de uranilo, etc. Entre os meios físicos destacam-se a luz comum oblíqua
e a luz ultravioleta (com ou sem filtros adequados).

A técnica do pó
Na revelação de impressões digitais utilizando a técnica do pó são utilizados diversos
tipos de pó (TABELA 3). A escolha depende da superfície avaliada, das condições climáticas e
da experiência do perito. O pó pode ser aplicado com o auxílio de um pincel com cerdas macias,
spray de aerossol e aparato eletrostático (FIGURA 27).

FIGURA 27 - APLICAÇÃO DO PÓ NA REVELAÇÃO DAS IMPRESSÕES DIGITAIS

50

FONTE: Disponível em: <http://quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

TABELA 3 - TIPOS DE PÓS UTILIZADOS NAS REVELAÇÕES

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.


Vapor de Iodo

O iodo tem a capacidade de sublimar, ou seja, passar do estado sólido diretamente


para o estado gasoso. Para realizar essa mudança, necessita absorver calor. O vapor gerado
por essa mudança apresenta a coloração marrom amarelada. O princípio da técnica de
revelação utilizando o vapor de iodo está relacionado a essa mudança de estado. Coloca-se o
material a ser examinado em um saco plástico selado junto a cristais de iodo. Agita-se o saco,
movimento suficiente para gerar calor no microambiente. Ocorre, dessa forma, a sublimação e o 51
vapor reagem com a impressão digital latente por meio de uma absorção física.
É uma técnica extremamente simples e indicada para avaliação de pequenos objetos.
Apresenta a vantagem de não danificar o vestígio, portanto, pode ser realizada antes de outras
técnicas.

Nitrato de Prata

É uma técnica bastante utilizada e baseia-se na reação do nitrato de prata com os íons
cloreto presentes nas secreções do suor e consequentemente nas impressões digitais.

O princípio da técnica consiste em imergir a superfície a ser analisada em um


recipiente contendo solução 5% de nitrato de prata (AgNO3(aq)) por 30 segundos. O cloreto de
prata (AgCl(ppt)) originado é insolúvel em água, ou seja, é um precipitado. Após esse
procedimento, a superfície deve ser colocada em câmara escura para secagem. Depois, deve
ser deixada ao sol para que o íon prata seja reduzido à prata metálica, revelando a impressão
digital sob um fundo negro. Deve-se fotografar a impressão digital antes que toda a superfície
escureça.

Ninidrina

A ninidrina é uma substância que apresenta afinidade por compostos orgânicos como
proteínas e aminoácidos. O princípio é o seguinte: é feita uma solução de 0,5 g de ninidrina com
30 ml de etanol. Deve-se borrifar a solução na superfície a ser analisada, sempre mantendo uma
distância de segurança de aproximadamente 15 cm. Esse procedimento deve ser repetido o
número de vezes necessárias para a visualização da impressão.
A impressão, caracterizada pela cor púrpura, só aparecerá quando a superfície estiver
completamente seca. A reação ocorrida é exemplificada na figura 15 e um exemplo de
impressão digital revelada em papel pode ser visto na Figura 29.

FIGURA 28 - REAÇÃO QUÍMICA DA NINIDRINA COM AMINOÁCIDOS


52

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

FIGURA 29 - IMPRESSÕES DIGITAIS REVELADAS COM A TÉCNICA DE NINIDRINA


EM PAPEL

FONTE: Disponível em: <http://quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012.


3.2.4 Identificação de Sangue e Outros Fluidos Biológicos

O objetivo do perito é encontrar vestígios que auxiliem na elucidação dos crimes. Os


vestígios biológicos mais comuns em qualquer cena do crime são: sangue, cabelos, pelos,
sêmen, saliva, urina, fezes, ossos e peças dentárias.

a) Sangue 53

O sangue é uma mistura constituída pelo plasma (água e sais dissolvidos) e os


componentes sólidos (eritrócitos – glóbulos vermelhos, leucócitos – glóbulos brancos e
plaquetas) (FIGURA 30).

FIGURA 30 - CONSTITUINTES DO SANGUE

FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

O sangue apresenta as seguintes funções:

 Transporte de oxigênio e dióxido de carbono pelo corpo humano;


 Responsável por mediar a troca de substâncias entre os órgãos;
 Transporte de metabólitos;
 Distribuição de hormônios;
 Homeostase;
 Manutenção da temperatura corporal;
 Regulação do balanço ácido-base em conjunto com os pulmões, fígado e rins;
 Defesa contra agentes patogênicos;
 Realização da coagulação como mecanismo de autoproteção.

Quanto à presença de sangue na cena de um crime há três situações possíveis de


ocorrer:
54
I) O sangue/mancha de sangue encontra-se visível;
II) O sangue/mancha de sangue encontra-se invisível;
III) O sangue /mancha de sangue foi removida pelo criminoso, portanto, considerada
também invisível.
O tipo de mancha de sangue deixada como vestígio vai depender do tipo de ferimento
em questão (FIGURA 31).

FIGURA 31 - MANCHAS DE SANGUE. GOTEJADA (À ESQUERDA), TRANSFERIDA


(CENTRO) E PROJETADA (À DIREITA)

FONTE: Disponível em: <http://www.quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

Os eritrócitos ou glóbulos vermelhos do sangue apresentam em seu interior uma


molécula de hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio. A molécula de hemoglobina
possui em sua estrutura um radical denominado heme (FIGURA 32).
FIGURA 32 - ESTRUTURA MOLECULAR DA HEMOGLOBINA (À ESQUERDA) E A
ESTRUTURA DO RADICAL HEME (À DIREITA)

55

FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

A coleta dos vestígios sanguíneos é um processo de extrema importância e deve ser


realizado com bastante cautela pelos peritos. Antes deve ser feita uma avaliação geral do local
do crime, determinar a localização exata das manchas, se elas foram lavadas, se há
contaminação, o aspecto e o tamanho, etc.
A coleta depende do estado físico do sangue. Caso esteja em estado líquido, deve ser
coletado com o auxílio de tiras absorventes ou zaragatoas estéreis. As tiras deverão ser
armazenadas em envelopes de papel após estarem completamente secas. Já as zaragatoas
deverão ser armazenadas em suportes próprios.
Caso o sangue esteja em estado sólido, há duas possibilidades. A primeira é a
realização da raspagem e posterior armazenamento em envelopes de papel. A segunda é a
solubilização com soro fisiológico e coleta em tiras de papel, como descrito anteriormente.
A escolha do teste depende das características da amostra obtida na coleta. Os testes
podem ser de dois tipos: testes presuntivos, que são aqueles que identificam a presença de
sangue baseados em reações de oxidação, que podem ser reações de cor ou luminescência; e
os testes confirmatórios, que são aqueles que confirmam a presença de sangue por meio da
formação de cristais de derivados do grupo heme ou de reações imunológicas com a
hemoglobina.

Testes presuntivos
Reações de cor
São utilizados peróxido de hidrogênio e um reagente que funciona como indicador. O
grupo heme atua sobre o peróxido liberando oxigênio que oxida o indicador, originando um
composto corado.

I) Reação de cor – Reagente de Kastle-Meyer

Reagente de Kastle-Meyer:
0,1 g de fenolftaleína; 56
2,0 g de hidróxido de sódio (sob a forma de pellet);
2,0 g de pó de zinco metálico;
10 ml de água destilada.

A amostra de sangue coletada deve ser macerada com 1 ml de água destilada ou


hidróxido de amônio concentrado. Duas gotas do macerado são colocadas em um tubo de
ensaio junto com duas gotas do reagente e duas de peróxido de hidrogênio a 5 %. A reação
ocorrida pode ser vista na Figura 33.

FIGURA 33 - REAÇÕES DO REAGENTE DE KASTLE – MEYER

FONTE: Disponível: <http://www.allchemy.iq.usp.br>. Acesso em: 26 set. 2012.


Caso a amostra contenha sangue, haverá a decomposição do peróxido em água e
oxigênio. O oxigênio liberado promoverá a mudança de cor da fenolftaleína. É essa mudança de
cor que evidencia ao perito que a amostra contém sangue. É um teste de sensibilidade de
1/1.000.000.

II) Reação de cor – Reagente de Adler- Ascarelli ou Benzidina

Reagente de Adler – Ascarelli ou Benzidina 57


0,16 g de benzidina cristalizada;
4Ml de ácido acético glacial;
4mL de peróxido de hidrogênio de 3 a 5%.

A amostra coletada deve ser macerada em 1 ml de água destilada ou ácido acético


glacial. Colocam-se duas gotas do macerado em um tubo de ensaio juntamente com duas gotas
do reagente e duas de peróxido de hidrogênio. Caso a amostra contenha sangue, o oxigênio
liberado irá oxidar a benzidina fazendo com que haja o aparecimento da coloração azul.
(FIGURA 34).

FIGURA 34 - REAÇÃO DE BENZIDINA

FONTE: Disponível: <http://www.allchemy.iq.usp.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

A sensibilidade desse teste é de 1/ 2.000.000.

Reações de Luminescência

As moléculas do sangue podem ser excitadas quimicamente por meio de fluorocromos


produzindo luminescência por reação de oxidação com o grupo heme. Esses testes em que se
utilizam reações de luminescência servem para detectar vestígios em cenas de crimes em que
não há manchas visíveis a olho nu.

I) Reação de Luminescência - Reagente de Luminol

O composto luminol (5-amino-2,3-di-hidro-1,4-ftalazinadiona) pode ser obtido a partir


do ácido 3-nitroftálico (FIGURA 35).
58
FIGURA 35 - SÍNTESE DE LUMINOL

FONTE: Disponível: <http://www.allchemy.iq.usp.br>. Acesso em: 26 set. 2012.

O luminol produz uma reação quimioluminescente em solução básica quando em


contato com o sangue. A vantagem da utilização do luminol é que ele é capaz de reagir com
quantidades ínfimas de sangue, mesmo se já tenha passado longos períodos ou se tenha sido
realizada a remoção prévia pelo criminoso. A sensibilidade do teste pode chegar a 1/
1.000.000.000.
Hoje, há kits especiais no mercado facilitando a vida dos peritos na revelação de
manchas de sangue. Exemplos da reação de quimioluminescência podem ser vistos na Figura
36.

FIGURA 36 - DETECÇÃO DE MANCHAS OCULTAS DE SANGUE POR MEIO DO


LUMINOL
FONTE: Disponível em: <http://www.quimicaforensic.blogspot.com>. Acesso em: 27 set. 2012. 59

Reações confirmatórias

I) Cristais de Teichmann

Os cristais de Teichmann (FIGURA 37) são a forma química particular da heme, cujo
átomo de ferro está oxidado. São cristais rômbicos ou prismáticos, isolados ou agrupados de cor
castanho-escuros. Podem formar-se no sangue quando adicionado um reagente de Bertrand,
assim confirmam que a amostra é sangue. É visto em lâmina ao microscópio.

FIGURA 37 - CRISTAIS DE TEICHMANN

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

b) Sêmen

É um vestígio secretado pelo homem e pode ser encontrado na forma de manchas nas
roupas, chão, tapetes e outros; nas formas líquida e seca. Após secagem, dá um efeito
engomado aos tecidos.
Os procedimentos que devem ser realizados pela perícia forense são:

 Verificação se de fato a mancha trata-se de sêmen ou não;


 Identificação da origem (se é humano ou não);
 Determinação do grupo sanguíneo;
 Determinação do tipo de ejaculação (se interna ou externa);
 Determinações toxicológicas (se há ou não presença de drogas);
 Exames genéticos – Exames de DNA. 60

O estudo dos fluidos seminais na cena do crime está diretamente relacionado à


individualização da evidência biológica para confronto com possíveis suspeitos. O esquema de
avaliação forense quanto a vestígios de sêmen pode ser visualizado na Figura 38.

FIGURA 38 - ESQUEMATIZAÇÃO DO ESTUDO DO SÊMEN

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

A coleta de vestígios de sêmen deve ser feita com a máxima cautela, já que se deve
preservar ao máximo a presença de espermatozoides na amostra.

Testes presuntivos

I) Luz UV
Consiste na exposição da mancha à luz UV. É utilizado apenas para uma avaliação
preliminar, já que a reação à luz UV não é exclusiva do sêmen.
II) Fosfatase Ácida
A fosfatase ácida é uma enzima presente no sêmen. O princípio consiste na detecção
da atividade enzimática por meio de substratos. O mais específico é timolftaleínamonofosfato de
sódio.

III) Reação de Florence


A reação de Florence é baseada na formação de cristais de iodeto de colina, que se 61
encontram presentes no esperma sob a forma de fosforil-colina e lecitina.

Reagente de Florence:

2,54 gramas de Iodo metálico;


1,56 gramas de Iodeto de potássio;
30 ml de água destilada.

Os cristais são vistos na forma de lâminas romboides de coloração parda.

Testes confirmatórios

I) Teste a fresco
A análise é realizada em microscópio a fresco para a determinação de espermatozoides,
já que a determinação de um espermatozoide íntegro já é suficiente para confirmar a presença
de sêmen. Porém, não deve descartar o fato de que há muitos homens azoospérmicos e
submetidos à vasectomia.

3.2.5 O Bafômetro e Outras Técnicas de Quantificação do Etanol

O “álcool” e as “drogas de abuso” são as substâncias que, na atualidade, fazem parte


da maioria das requisições de exames toxicológicos. De acordo com a especificidade do caso
e o tipo de análise toxicológica pretendida procede-se à coleta das amostras mais adequadas.
Dessa forma, existem análises que requerem apenas um tipo de amostra, enquanto outros
diversos tipos. No caso da quantificação de etanol é necessária apenas a coleta de amostra de
sangue da pessoa sob suspeita. Porém, quando não é possível realizar a coleta sanguínea,
pode ser realizada a coleta de saliva, urina, líquido sinovial, medula óssea, etc.
O etanol pode ser quantificado de várias formas:
Bafômetro
O bafômetro é um instrumento utilizado no trânsito para comprovação da embriaguez
dos motoristas. A reação química ocorrida dentro do aparelho é a seguinte:
62
K2Cr2O7(aq.) + 4 H2SO4(aq.) + 3 C2H5OH(v) 3 C2H4O(g) + K2SO4(aq.) + Cr2(SO4)3(aq.) + 7 H2O(l)

Ao ser exalado pelo motorista, o álcool presente no ar reage com a solução de dicromato
de potássio, provocando uma reação de oxirredução. É formado nessa reação aldeído acético
(C2H4O), caso esteja presente o álcool etílico. Nessa reação, como confirmação da embriaguez
do motorista, há uma mudança de coloração: o dicromato (amarelo-alaranjado) dá origem ao
Sulfato de Crômio III (coloração verde).
Nem sempre é possível a aplicação desse procedimento simples, que é a técnica do
bafômetro. Dessa forma, tornam-se necessárias avaliações de amostras de fluidos biológicos
para detecção da presença de etanol. As principais técnicas são:

I) Utilização de marcadores biológicos

Marcadores biológicos são substâncias, produtos de biotransformação ou alterações


bioquímicas cuja determinação em fluidos biológicos permite avaliar a intensidade de exposição
à determinada substância. Dessa forma, a presença dos marcadores biológicos indicam a
presença da substância sob suspeita.
Os principais marcadores biológicos do etanol são:

 Gama-Glutamiltranspeptidade (GGT);
 Alanina aminotransferase (ALT);
 Transferrina deficiente em carboidrato (CDT);
 Etilglicuronídeo (EtG);
 Ésteres de ácidos graxos (FAEEs);
 Etilsulfato (EtS).
II) Técnicas analíticas

 Cromatografia em fase gasosa, utilizando a técnica de separação por


headspace (GC – HS)

A cromatografia é uma técnica analítica de grande importância nas análises de amostras


forenses. A cromatografia gasosa (GC) é um método de análise de misturas cujos constituintes
tenham pontos de ebulição de até 300ºC e que sejam termicamente estáveis. Na cromatografia 63
gasosa de separação por headspace (GC – HS) é utilizado o método de separação headspace,
que constitui na extração de compostos orgânicos voláteis e semivoláteis da amostra.

3.3 AS DROGAS DE ABUSO

3.3.1 Aspectos Históricos Relacionados às Drogas de Abuso

Ao longo da história do homem as drogas revelaram-se de múltiplas formas. Representa


uma presença constante associada à medicina, ciência, religião, magia, cultura, festa e deleite.
Antigamente, utilizavam de plantas alucinógenas. Um exemplo é a utilização da papoula do ópio,
considerada planta da felicidade, ou “que faz esquecer o sofrimento”. O ópio é um depressor do
sistema nervoso central que apresenta características sedativas e analgésicas. Hoje são
utilizadas várias substâncias derivadas do ópio, como a morfina, a heroína e a codeína.
O consumo de álcool também remonta à antiguidade. O vinho era considerado a bebida
dos deuses. A Cannabis foi utilizada pela Medicina Chinesa como anestésico em cirurgias e na
Medicina Indiana como hipnótico, analgésico e espasmolítico.
Os nativos da América do Sul tinham por hábito mascar as folhas de Erythroxylon coca
para suportar o trabalho em altitudes e a dieta inadequada. No século XIX, foi extraída das folhas
de Erythroxyloncocaa, sendo utilizada como antídoto dos depressores do sistema nervoso, no
tratamento do alcoolismo e da morfinomania e como anestésico local em cirurgias
oftalmológicas.
Em 1863, na Europa, foi lançado o vinho Mariani, feito das folhas da coca. Até 1903, o
refrigerante Coca-Cola apresentava em sua composição esse princípio ativo. Relatos na
literatura apontam também a utilização da cocaína em medicamentos para alívio de problemas
respiratórios.
Muitas substâncias como o café, a cafeína, a estriquinina, o arsênico, o tabaco e a
nicotina eram utilizadas como estimulantes. Os barbitúricos, derivados da ureia e do ácido
malônico, foram amplamente consumidos para induzir o sono. Outra substância muito utilizada
foram as anfetaminas, pelos seus efeitos estimulantes, antidepressivos e antiemagrecimento.
O movimento hippie marcou o uso de drogas como o haxixe, maconha e derivados e
marijuana. O LSD e cogumelos também foram utilizados. A partir do final dos anos 80, a cocaína 64
ressurge de forma epidêmica. Porém, na forma intranasal e endovenosa. A partir de 1990, houve
a expansão do consumo de crack (uma mistura de cocaína e bicarbonato de sódio, aquecida e
fumada na forma de pedra) pelo seu baixo custo e potencial de dependência.
Os agentes inalantes foram utilizados em todas as épocas por seus efeitos euforizantes.
Atualmente, os mais utilizados são: as colas (que contêm acetona, hexano e benzeno), os
solventes, removedores e diluentes de tintas (contendo acetona), os anestésicos voláteis (o éter,
protóxico de nitrogênio) e os gases (a gasolina e os gases do escapamento de automóveis).
No final dos anos 80, surge na Europa, a chamada “droga de amor”, o êxtase ou
ecstasy. Atualmente é a mais usada entre os jovens. Na Tabela 4 está um resumo do histórico
do uso de drogas de abuso no mundo.

TABELA 4 - TRAJETÓRIA DAS SUBSTÂNCIAS PSICOTRÓPICAS


5400 - Um jarro de cerâmica descoberto no norte do Irã, com
5000 a.C. resíduos de vinho resinado, é considerado a mais antiga evidência
da produção de bebida alcoólica.

4000 a.C. Os chineses são, provavelmente, um dos primeiros povos a


usar a maconha. Fibras de cânhamo descobertas no país datam
dessa época.

3500 a.C. Os sumérios, na Mesopotâmia, são considerados o primeiro


povo a usar ópio. O nome dado por eles à papoula pode ser
traduzido como “flor do prazer”.

A folha de coca é costumeiramente mastigada na América


3000 a.C. do Sul. A coca é tida como um presente dos deuses.

2100 a.C. Médicos sumérios receitam a cerveja para a cura de


diversos males, segundo inscrições em tabuletas de argila.

2000 a.C. Hindus, mesopotâmios e gregos usam o cânhamo como


planta medicinal. Na Índia, a maconha é considerada um presente
dos deuses, uma fonte de prazer e coragem. 65

100 a.C. Depois de séculos, o cânhamo cai em desuso na China e é


empregado apenas como matéria-prima para a produção de papel.

Século 11 Hassan Bin Sabah funda a Ordem dos Haximxim, uma


ordem de guerreiros que recebia, em sua iniciação, uma grande
quantidade de haxixe, a resina da Cannabis.

1492 O navegador Cristóvão Colombo descobre os índios usando


tabaco durante suas viagens ao Caribe.

Século 16 Américo Vespúcio faz na Europa os primeiros relatos sobre


o uso da coca. Com a conquista das Américas, os espanhóis
passam a taxar as plantações. Durante a expansão marítima para o
Oriente, os portugueses adotam a prática de fumar ópio.
1550 Jean Nicot, embaixador francês em Portugal, envia
sementes de tabaco para Paris.

Século 17 O gim é inventado na Holanda e sua popularização na


Inglaterra no século 18 cria um grave problema social de alcoolismo.

Século 18 O cânhamo volta a ser usado no Ocidente, como planta


medicinal. Alguns médicos passam a usá-lo no tratamento da asma,
tosse e doenças nervosas.
Século 19 Surgem os charutos e cigarros. Até então, o tabaco era
fumado principalmente em cachimbos e aspirado na forma de rapé.

1845 O pesquisador francês Moreau de Tours publica o primeiro


estudo sobre drogas alucinógenas, descrevendo seus efeitos sobre
a percepção humana.

1850- A coca passa a ser usada como uma forma de anestesia em 66


1855 operações de garganta. A cocaína é extraída da planta pela primeira
vez.

O botânico Richard Spruce identifica o cipó


1852 Banisteriopsiscaapicomo a matéria-prima de onde é extraída a
ayahuasca.

1874 Com a mistura de morfina e um ácido fraco semelhante ao


vinagre, a heroína é inventada na Inglaterra por C.R.A. Wright.

1874 A prática de fumar ópio é proibida em San Francisco (EUA).


A Sociedade para a Supressão do Comércio do Ópio é fundada na
Inglaterra, e só quatro anos depois as primeiras leis contra o uso de
ópio são adotadas.

1884 O uso anestésico da cocaína é popularizado na Europa.


Dois anos depois, John Pemberton lança nos EUA uma beberagem
contendo xarope de cocaína e cafeína: a Coca-Cola. A cocaína só
seria retirada da fórmula anos depois.

1896 A mescalina, princípio ativo do peyote, é isolada em


laboratório.

A empresa farmacêutica Bayer começa a produção


1898 comercial de heroína, usada contra a tosse.
1905 Cheirar cocaína torna-se popular. Os primeiros casos
médicos de danos nasais por uso de cocaína são relatados em
1910. Em 1942, o governo dos EUA estima em 5.000 as mortes
relacionadas ao uso abusivo da droga.

1912 A indústria farmacêutica alemã Merck registra o MDMA


(princípio ativo do ecstasy) como redutor de apetite. A substância, 67
porém, não chega a ser comercializada.

1914 A cocaína é banida dos EUA.

1930 Num movimento que começa nos Estados Unidos, a


proibição da maconha alcança praticamente todos os países do
Ocidente.

1943 O químico suíço Albert Hofmann ingere, por acidente, uma


dose de LSD-25, substância que havia descoberto em 1938. Com
isso, descobre os efeitos da mais potente droga alucinógena.

1950- Cientistas fazem as primeiras descobertas da relação do


1960 fumo como câncer do pulmão.

1953 O exército norte-americano realiza testes com ecstasy em


animais. O objetivo era investigar a utilidade do agente em uma
guerra química.

1956 Os EUA banem todo e qualquer uso de heroína.

1965 O LSD é proibido nos EUA. Seus maiores defensores, como


os americanos Timothy Leary e Ken Kesey, começam a ser
perseguidos.
1965 Alexander Shulgin sintetiza o MDMA em seu laboratório. Ao
mastigá-lo, sente "leveza de espírito" e apresenta a droga a
psicoterapeutas.

Anos 70 O uso da cocaína torna-se popular e passa a ser


glamourizado. Nos anos 80, o preço de 1 Kg de cocaína cai de US$
55 mil (1981) para US$ 25 mil (1984), o que contribui para sua
disseminação. 68

1977 Início da "Era de Ouro" do ecstasy. Terapeutas


experimentais fazem pesquisas em segredo para não chamar a
atenção do governo.

Década Surge o crack, a cocaína na forma de pedra. A droga,


de 80 acessível às camadas mais pobres da população tem um alto poder
de dependência.

1984 Holanda libera a venda e consumo da maconha em


estabelecimentos específicos - os coffee shops.

1984 O uso recreativo do MDMA ganha as ruas. Um ano depois,


a droga é proibida nos EUA e inserida na categoria dos
psicotrópicos mais perigosos.

2001 Os EUA dão apoio financeiro de mais de US$ 2 bilhões ao


combate ao tráfico e à produção de cocaína na Colômbia.

2003 O governo canadense anuncia que vai vender maconha


para doentes em estado terminal. É a primeira vez que um governo
admite o plantio e comercialização da droga.
FONTE: Revista Galileu Especial nº 3 – Agosto de 2003.
3.3.2 Preparação e Métodos de Detecção

As drogas de abuso podem ser classificadas em:

 Lícitas
Drogas de abuso lícitas são aquelas permitidas e liberadas legalmente.
Exemplos: cigarros e bebidas alcóolicas. 69

 Ilícitas
Drogas de abuso ilícitas são aquelas proibidas legalmente.
Exemplos: cocaína, heroína, maconha, LSD, etc.

As drogas causam dependência pelo seu mecanismo de ação no Sistema Nervoso


Central (SNC), gerando uma sensação de recompensa. Dessa forma, de acordo com relatos da
literatura, todo comportamento que é reforçado por uma sensação de recompensa, tende a ser
repetido.
Para compreendermos o mecanismo de ação dessas substâncias, é necessário termos
uma noção geral do funcionamento do SNC. Um estímulo é recebido por intermédio dos órgãos
do sentido. A mensagem é enviada ao SNC, onde é processada, interpretada, elaborada,
memorizada, associada, dentre outros. Porém, esse processo ocorre em milésimos de
segundos.
O SNC é constituído de bilhões de neurônios, células responsáveis pelo processamento
das informações. Juntos, os neurônios formam uma complexa rede de comunicação. Na Figura
39 está representada a estrutura simplificada de um neurônio.

FIGURA 39 - ESTRUTURA SIMPLIFICADA DE UM NEURÔNIO

FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com>. Acesso em: 27 set. 2012.


Os neurônios não estão intimamente ligados, há um espaço entre eles chamado de
fenda sináptica (FIGURA 40). Na fenda sináptica ocorre o processo de neurotransmissão ou
sinapse, que representa a troca de informações entre os neurônios.

FIGURA 40 - FENDA SINÁPTICA

70

FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

A informação é transmitida do neurônio pré-sináptico para o pós-sináptico pela liberação


de substâncias químicas denominadas de neurotransmissores. Diante do exposto, as drogas
psicotrópicas agem alterando essas comunicações entre os neurônios, produzindo diversos
efeitos de acordo com o tipo de neurotransmissor envolvido e a forma como a droga atua.
Como já foi citado anteriormente, as drogas psicotrópicas são classificadas em três
grandes grupos:

 Drogas depressoras
São drogas que diminuem a atividade do SNC.
Exemplos: álcool, inalantes, benzodiazepínicos.

 Drogas Estimulantes:
São drogas que estimulam a atividade do SNC.
Exemplos: cocaína e derivados como crack, merla, pasta, etc.
 Drogas pertubadoras
São drogas que produzem uma mudança qualitativa no funcionamento do SNC.
Exemplo: maconha, triexifenidil (Artane).

A análise química tem sido amplamente utilizada em diversos segmentos da sociedade,


em especial na Química Forense, para a verificação da utilização de drogas de abuso pelas
pessoas sob suspeita. Diversas técnicas são utilizadas para avaliar amostras de fluidos
biológicos e hoje há testes específicos para cada tipo de droga (maconha, cocaína, barbitúricos, 71
anfetaminas, etc.).
Os testes de detecção de drogas de abuso podem ser realizados com amostras
biológicas como fluidos corporais (sangue, urina) e queratinizadas (cabelos ou pelos). Na Tabela
5 estão descritas as principais drogas e as matrizes biológicas utilizadas na sua detecção.

TABELA 5 - PRINCIPAIS DROGAS DE ABUSO E MATRIZES BIOLÓGICAS


UTILIZADAS NA DETECÇÃO

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

As amostras devem ser coletas com cautela e armazenadas de forma a manter a


confiabilidade das mesmas, para garantir a conservação.

Exame de Urina
A urina somente é aceita como amostra para verificação do uso recente de drogas de
abuso. Porém, não permite distinguir o usuário ocasional do abusivo ou dependente. O período
de duração da detectabilidade das drogas na urina depende da intensidade e frequência do uso.
A duração da detectabilidade na urina das principais drogas pode ser vista na Tabela 6.

TABELA 6 - DURAÇÃO DA DETECTABILIDADE DAS DROGAS DE ABUSO NA URINA

72

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

Exame de sangue

A pesquisa direta da droga de abuso no sangue possibilita apenas verificar o uso


recente de substâncias (algumas horas). São várias as técnicas de quantificação de drogas de
abuso utilizadas na atualidade. Serão descritas abaixo as mais utilizadas.
 Cromatografia gasosa (GC)
A técnica de cromatografia gasosa já foi descrita anteriormente. É bastante atrativa
devido à possibilidade de detecção em escalas mínimas. É, portanto uma técnica que apresenta
alta sensibilidade, sendo possível separar misturas complexas com até 200 compostos.
Desvantagem: é necessário que a amostra seja volátil ou estável termicamente.

 Espectrometria de massas
Esta técnica também já foi descrita anteriormente. Permite uma análise quantitativa 73
extremamente precisa e confiável.

 Cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC)


A cromatografia líquida recebe esse nome porque a sua fase móvel é um solvente. É um
método utilizado para separação de espécies iônicas ou macromoléculas e compostos
termolábeis. É considerada de alta eficiência pelo fato de ser altamente seletiva.
Na Tabela 7 está uma comparação entre a GC e a HPLC.

TABELA 7 - DIFERENÇAS ENTRE A GC E A HPLC

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.


4 A ABORDAGEM PERICIAL EM OPERAÇÕES POLICIAIS

4.1 EXAMES PERICIAIS

Perícias são todos os exames levados a efeito por profissionais da medicina legal ou
diversos profissionais capacitados de outras áreas do conhecimento, destinadas a uso como
74
meio de prova judicial. Diante disso, podemos comprovar que a Criminalística conta com o
auxílio de todas as áreas do conhecimento por meio de seus profissionais (FIGURA 41).

FIGURA 41 - RELAÇÃO ENTRE AS ÁREAS DO CONHECIMENTO

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

O objetivo geral da perícia é a produção de um documento técnico, de acordo com a


área em questão, denominado de laudo pericial. A perícia pode ser classificada de diversas
formas. Na Figura 42 está descrita a classificação.
FIGURA 42 - CLASSIFICAÇÃO DAS PERÍCIAS

75

FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br>. Acesso em: 27 set. 2012.

4.1.1 Exame Pericial em Alimentos

O exame pericial em alimentos é solicitado sempre que há questionamentos


relacionados à qualidade, integridade, inocuidade e/ou presença de qualquer irregularidade que
os torne impróprios ao consumo. Os crimes relacionados a alimentos são: Crimes contra as
Relações de Consumo e Crimes contra a Saúde Pública. O laudo pericial é, portanto, o
instrumento utilizado na confirmação ou não de avarias e fraudes em alimentos.
Para a documentação do laudo pericial, as avaliações dos alimentos são feitas de
acordo com vários critérios, por peritos qualificados. São avaliadas as embalagens, a fim de
verificar o prazo de validade, a presença das informações nos rótulos que são obrigatórias e o
estado de conservação das mesmas. São realizadas análises sensoriais dos alimentos com o
objetivo de verificar o aspecto, a cor, o odor, a consistência e a textura. Os alimentos são 76
avaliados também quanto à presença de sujidades, corpos estranhos e presença de micro-
organismos. Para a realização dessa etapa, muitas vezes são utilizados microscópios.
Diante dessas análises, o alimento é classificado em:

 Alimento genuíno
Um alimento genuíno corresponde a um alimento saudável, livre de qualquer tipo de
substância não autorizada. São alimentos que cumprem as exigências e especificações
regulamentárias.

 Alimento adulterado
O alimento é considerado adulterado quando é impuro, impróprio ou nocivo à saúde.

 Alimento Alterado
O alimento alterado é aquele em que sua composição química ou suas características
organolépticas foram alteradas por processos físicos, químicos ou microbianos. Essas alterações
podem ocorrer no processo de fabricação, conservação ou transporte.
 Alimento Falsificado
Um alimento é considerado falsificado quando é elaborado com a finalidade de copiar a
aparência e características gerais de outro alimento legítimo e se denominam como este, porém
não são.
 Alimento contaminado
Um alimento é considerado como contaminado quando apresenta micro-organismos,
substâncias liberadas por esses e/ou substâncias químicas que acarretam danos à saúde.
4.1.2 Exame Pericial em Locais de Incêndios

De acordo com o Decreto nº 7.257, de 04 de agosto de 2010, que dispõe sobre o


Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC, desastres são resultados de eventos adversos,
naturais ou provocados pelo homem sobre um ecossistema vulnerável, causando danos
humanos, naturais ou ambientais e consequentes prejuízos econômicos e sociais.
O Manual de Planejamento em Defesa Civil volume IV define incêndio como o fogo que 77
escapa do controle do homem, assumindo características de um sinistro ou desastre, causando,
assim, grandes danos e prejuízos.
São exemplos de incêndios:

 Incêndios em instalações de combustíveis, óleos e lubrificantes;


 Incêndios em meios de transporte marítimo e fluvial;
 Incêndios em áreas portuárias;
 Incêndios em plantas e distritos industriais;
 Incêndios em edificações com grandes densidades de usuários;
 Incêndios em veículos automotivos.

As proporções dos incêndios são variáveis e, portanto, esses são classificados segundo
as mesmas em:

 Incêndio Incipiente ou Princípio de Incêndio


Incêndio Incipiente ou Princípio de Incêndio corresponde ao evento de proporções
mínimas que necessita apenas da utilização de um ou mais aparelhos extintores portáteis para
sua extinção.

 Pequeno Incêndio
Corresponde a um evento em que as proporções exigem emprego de pessoal e material
especializado. É extinto com facilidade. Não apresenta perigo iminente de propagação.

 Médio Incêndio
Corresponde ao evento em que a área atingida e sua intensidade exigem a utilização de
meios e materiais especializados, equivalentes a um socorro básico de incêndio. Apresenta
perigo iminente de propagação.

 Grande Incêndio
Evento em que ocorre propagação crescente. Necessita do emprego efetivo
de mais de um socorro básico para a sua extinção.
78
 Incêndio Extraordinário
Tipo de incêndio decorrente de abalos sísmicos, atividades vulcânicas, bombardeios e
similares. Para a extinção desse tipo de incêndio são necessitados vários socorros e o apoio da
Defesa Civil.
A investigação pericial de incêndios e dos fatores que influenciam ou contribuem para
seu início, propagação ou generalização é de grande importância para a segurança pública.
São objetivos de uma investigação pericial de incêndio e explosão:

 Registrar a ocorrência e os fatos coletados durante o incêndio;


 Verificar o trabalho operacional;
 Comprovar a causa do incêndio.

A investigação pericial divide-se em:

a) Investigação pericial objetiva

 A investigação pericial objetiva é a investigação realizada pelos peritos de


incêndio;
 É baseada em instrumentos técnicos e científicos.
 É realizada nos locais, mediato e imediato à ocorrência do sinistro de incêndio.
 O perito realiza a coleta de vestígios de interesse que venham a elucidar a
causa do incêndio.

b) Investigação pericial subjetiva


 Na investigação pericial subjetiva são obtidas declarações de testemunhas e
demais pessoas relacionadas ao ocorrido.
 É realizada por demais profissionais como: delegados, peritos diversos e
encarregados de inquérito.

Diante do exposto, pode ser observada a grande importância das investigações. É


apenas por meio delas que são obtidas as provas periciais, que fornecem a certeza das causas
do sinistro de incêndio. Dessa forma, os peritos criminais de incêndios realizarão os exames nos 79
locais mediatos e imediatos à ocorrência, almejando a descoberta de vestígios de valor
criminalístico e elaborarão um laudo pericial de incêndio e explosão, no qual constarão todas as
informações do caso em questão.

Exame pericial de incêndio e explosão em locais (edificações urbanas, etc.)

O objetivo da perícia em locais de incêndio é a investigação da causa. Essa é


influenciada pelo grau de queima dos materiais na zona de origem e próximos ao foco inicial.
Diante disso, antes de dar início ao exame pericial é recomendável limitar a entrada das pessoas
e ações de deslocamento excessivo de materiais no local. Há situações em que esses
procedimentos não são possíveis, o que torna os recursos fotográficos e de filmagens de
extrema importância para a investigação.
O perito líder da investigação é responsável por distribuir as funções aos membros da
equipe junto ao cenário e sinistro investigados (escavação, fotografia, desenhista, entrevistador,
investigador de prejuízos e investigador da zona de origem/foco inicial, dentre outros).
Ao chegar ao local, realiza-se a obtenção de informações com as pessoas relacionadas
ao sinistro, no intuito de abandonar prejulgamentos e para se ter uma visão do local na posição
de terceiros.
Depois disso, é dado o início da investigação, que é constituída de várias etapas, sendo:

1) Verificação do aspecto geral do local

Nesta etapa, os procedimentos que devem ser adotados pela equipe são:

 Delimitar as regiões do local sinistrado;


 Configurar o contorno do local;
 Determinar as áreas de acesso e de escape do local;
 Avaliar o local que sofreu o incêndio do alto;
 Fotografar e filmar toda a área envolvida;
 Determinar a dinâmica do incêndio, objetivando determinar a zona de origem;

2) Coleta de informações das pessoas relacionadas com a edificação

São necessários vários depoimentos de testemunhas para se estabelecer uma ou mais 80


linhas de investigação. Nessa etapa, todo tipo de informação é relevante. As informações
básicas coletadas pela equipe são:

 O nome, a data de nascimento, profissão e a constituição familiar da


testemunha;
 O mês e o ano da construção do prédio ou de reforma da estrutura.
 O estado das trancas e travas em portas e janelas.
 Inadequação de uso dos aparelhos elétricos ou equipamentos de combustão;
 As atitudes de pessoas suspeitas antes do incêndio.

3) Escavação

Além da fonte de fogo há também o acúmulo de vários objetos queimados que


normalmente não são facilmente identificáveis por meio da simples observação. A função da
escavação é determinar a sequência de propagação do fogo para os materiais à sua volta e
posterior ampliação das chamas e da fumaça.
A escavação consiste em encontrar e coletar o material que relaciona o surgimento do
fogo à propagação e determinar o seu posicionamento tanto no plano horizontal como no
vertical, isolando, assim, as possíveis causas do incêndio, impedindo também a sua propagação.
Essa fase é de grande importância nas investigações das causas do incêndio, já que
permite inferir quais objetos fazem ou não parte do ocorrido. Deve ser feito o esquadrinhamento
de toda a área, ou seja, dividi-la em quadrantes. Deve-se definir uma única rota de entrada e
saída no cenário do incidente e maximizar as ações de busca e limpeza dos quadrantes.
Da retirada dos materiais caídos:

Os primeiros materiais a serem retirados são os provenientes da cobertura ou do teto


das edificações.

Da escavação na zona de origem

A escavação deve ser feita manualmente nos sentidos “DE CIMA PARA BAIXO” e “DO 81
EXTERIOR PARA O INTERIOR” dentro dos quadrantes delimitados. Após a remoção da maior
parte dos escombros deve ser iniciada uma nova sequência de registros fotográficos com
referências intermediárias de planialtimetria. Não devem ser utilizados materiais perfurocortantes
nos trabalhos de escavação.
São equipamentos utilizados nas escavações: água (como solvente), secadores de ar,
baldes, vassouras, ímãs, mangueiras, pincéis, etc.

4) Identificação das fontes geradoras de fogo junto ao foco inicial

Nesta etapa, os procedimentos da equipe são:


 Determinar se há focos de eletricidade no local;
 Verificar a composição química dos materiais envolvidos no incêndio;
 Verificar as condições do tempo na região.

Após a coleta, todas as informações são confirmadas e os dados devem ser


confrontados com os projetos aprovados dos sistemas de prevenção e proteção contra incêndio
e pânico combinado com a distribuição do “plant layout” feito pelo responsável ou usuários da
edificação.

5) A identificação do sentido da queima pela profundidade de carbonização

A identificação do sentido da queima é realizada pela verificação da profundidade da


carbonização com o auxílio de um profundímetro.
Exame pericial de incêndio e explosão em veículos automotivos

Com relação a incêndios e explosões em veículos, há duas possibilidades: incêndios


intencionais diretos (incêndios criminosos diretos), os incêndios intencionais indiretos (são os
incêndios decorrentes de negligência, imperícia, imprudência – criminosos indiretos) e os
incêndios naturais (decorrentes de algum problema mecânico).
Um veículo pode ser mais ou menos suscetível a incêndios. São características que
influenciam e devem ser avaliadas antes de dar início à perícia propriamente dita: 82

 Tipo de veículo;
 A utilização;
 O tempo de uso;
 O estado de conservação;
 Os materiais de construção do veículo;
 Os materiais transportados pelo veículo.

O passo seguinte é determinar se o incêndio e explosão iniciaram-se a partir do veículo


(em seu interior ou exterior) ou se o veículo foi atingido por incêndio próximo ao mesmo. Para
isso, sempre que possível, a perícia deve ser realizada no local do acontecido.
O perito deve estar atento a todo tipo de vestígio, como pegadas e marcas de pneus,
que podem ser um indicativo da presença de terceiros. A direção e intensidade do vento também
são de extrema importância. Normalmente são preferidos por criminosos locais ermos para a
realização de incêndios intencionais.
Muitas vezes é necessária a remoção do veículo incendiado do local do sinistro para ser
submetido a exames mais adequados e apropriados, que habitualmente são realizados em
oficinas mecânicas especializadas. Nesta situação, o perito deve estar ciente das avarias que
podem ocorrer ao veículo.
O passo seguinte da investigação é a caracterização do veículo e a identificação do seu
código alfanumérico do chassi (VIN), que fornece informações importantes sobre o veículo.
Muitas vezes o VIN é removido do veículo incendiado, o que é um forte indício da
intencionalidade do incêndio (FIGURA 43).
FIGURA 43 - SUBTRAÇÃO DO CÓDIGO ALFANUMÉRICO DE CHASSI EM VEÍCULO
INCENDIADO

83

FONTE: Disponível em: <http://www.periciacriminal.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

Outro procedimento que deve ser realizado pelo perito é a constatação da posição
original das portas e tampas dos compartimentos do motor e de bagagem, a situação original de
abertura ou fechamento dos vidros das portas e ventarolas e também da tampa de fechamento
do tanque de combustível. Esses procedimentos são importantes já que os padrões de queima
das portas são conclusivos quanto à situação de abertas e fechadas.
Por exemplo: vidros fechados por ocasião de incêndio tendem a exibir intenso
esfumaçamento na sua superfície interna; a concentração de vidro fundido no setor inferior
interno das portas significa que os vidros encontravam-se abertos; a existência de vidros
quebrados sem esfumaçamento na superfície interna denuncia que a fratura dos vidros ocorreu
antes do incêndio, indicativo, portanto, de incêndio intencional.
A existência de um maior número de portas abertas comparadas ao possível número de
ocupantes do veículo pode significar a abertura deliberada das portas para a entrada de ar
visando alimentar o incêndio com ar atmosférico, ou ainda, para a retirada de objetos. O perito
deve estar atento também para vestígios de arrombamento no veículo. A ausência de
componentes e acessórios no veículo é um forte indicativo de incêndios intencionais.
No exame da carroceria devem-se localizar, por meio do exame visual externo, as
regiões de maior intensidade de ação do calor, o que dá boa indicação do foco do incêndio.
Dessa forma, uma ação direta da chama na carroceria resulta no consumo total da película de
tinta, resultando em uma chapa viva (espelho metálico) (FIGURA 44).
FIGURA 44 - CHAPAS METÁLICAS DAS PORTAS SUBMETIDAS A FOGO EXTERNO

84

FONTE: Disponível em: <http://www.periciacriminal.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

Já uma ação indireta é caracterizada pela presença de restos de pintura, com formação
de uma casca de fácil desprendimento (FIGURA 45).

FIGURA 45 - AÇÃO INDIRETA

FONTE: Disponível em: <http://www.periciacriminal.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

Um procedimento importante que deve ser realizado pelo perito é o exame da superfície
inferior do teto, que é um bom indicativo do foco quando o incêndio inicia-se no interior do
veículo. Outro exame que deve ser realizado é a detecção de substâncias acelerantes no
incêndio. A evidência desse tipo de substância pode ser observada pela ocorrência de diversas
colorações, devido às diversas camadas de tinta presentes no veículo (FIGURA 46).
FIGURA 46 - PADRÕES DE COLORAÇÃO INDICATIVOS DE UTILIZAÇÃO DE
SUBSTÂNCIAS ACELERANTES

85

FONTE: Disponível em: <http://www.periciacriminal.com>. Acesso em: 27 set. 2012.

O perito, ao final da perícia, deve realizar uma comparação final do veículo incendiado,
com outro idêntico, em perfeitas condições, com o objetivo de compreender a configuração
original do veículo incendiado.

4.1.3 Exame Pericial em Medicamentos, Cosméticos e Saneantes

Os exames periciais em medicamentos, cosméticos e saneantes visam detectar, pela


análise dos materiais, se houve adulteração, alteração, falsificação ou corrupção.

Medicamentos e cosméticos

A avaliação de medicamentos pelo perito ocorre em várias etapas e visa à detecção de


anormalidades que indiquem a possível fraude. As principais etapas são:

1) Avaliação das embalagens dos medicamentos sob suspeita

As embalagens são classificadas em dois tipos: primárias, que são as que se encontram
em contato direto com o medicamento e secundárias, que são as que contêm as embalagens
primárias.
As embalagens secundárias são as primeiras a serem analisadas pelos peritos e estas
devem conter informações básicas, como:
 Nome comercial do medicamento (ausente no caso de medicamentos
genéricos);
 Denominação genérica do princípio ativo;
 Nome, endereço e CNPJ do detentor de registro no Brasil;
 Nome do fabricante e local de fabricação do produto;
 Número do lote; 86

 Data de fabricação (no mínimo mês/ano);


 Data de validade (no mínimo mês/ano);
 Sigla “MS” seguida do número de registro no Ministério da Saúde, conforme
publicado em Diário Oficial da União (D.O.U), sendo necessários os 13 dígitos;
 Telefone do Serviço de Atendimento ao Consumidor – SAC;
 Cuidados de conservação, indicando a faixa de temperatura e condições de
armazenamento.

2) Análise das características de segurança

A segunda etapa realizada pelo perito é a avaliação das características de segurança


presentes na embalagem secundária. Essas características são: a tinta reativa e a inviolabilidade
(lacre ou selo de segurança) (FIGURA 47).

FIGURA 47 - CARACTERÍSTICAS DE SEGURANÇA DAS EMBALAGENS DE


MEDICAMENTO

FONTE: ANVISA, 2010.


A tinta reativa é uma ferramenta de extrema importância no combate à falsificação de
medicamentos. Essa tinta reage quando raspada com algum objeto de metal, possibilitando
visualizar a palavra “Qualidade” e a logomarca da empresa (FIGURA 48).

FIGURA 48 - TINTA REATIVA

87

FONTE: ANVISA, 2010.

Já o lacre de segurança deve ter como características o rompimento irrecuperável e


detectável, ser adesivo e personalizado (FIGURA 49).

FIGURA 49 - INVIOLABILIDADE

FONTE: ANVISA, 2010.

As empresas fabricantes de medicamentos, para seu funcionamento, devem obter prévia


autorização junto à ANVISA. Devem manter arquivo informatizado com o registro de todas as
suas transações comerciais. As mesmas etapas são válidas nos casos de cosméticos. Os
peritos devem estar atentos a todo vestígio que indique uma possível anormalidade e devem
tomar as medidas cabíveis com relação aos suspeitos de conduzirem a fraude.
Saneantes

São considerados saneantes todos os produtos utilizados na limpeza de ambientes. São


exemplos de produtos saneantes:

 Detergente líquido;
 Detergente em pó e sabão em pó;
 Cera; 88
 Água sanitária;
 Inseticida, repelente de insetos e raticidas;
 Desinfetante.

A ANVISA é o órgão responsável pela liberação da comercialização dos saneantes,


exigindo das empresas fabricantes produtos saneantes seguros, que proporcionem bons
resultados e com rigoroso controle de qualidade. Dessa forma, todo produto colocado à venda
deve ser previamente liberado pelo Ministério da Saúde.
Os produtos clandestinos ou piratas não possuem a liberação do Ministério da Saúde,
portanto, não apresentam avaliação de qualidade e não são seguros ao uso da sociedade.
Nestes casos os exames periciais são simples e baseados na observação da embalagem. São
características das embalagens de produtos saneantes:

 Apresentar o rótulo (FIGURA 50) de descrição do produto. As principais


informações que devem estar contida nos rótulos são:
 Nome do fabricante ou importador, com endereço completo, telefone;
 Nome do técnico responsável pelo produto;
 A frase “Produto notificado na ANVISA” ou número do registro no Ministério da
Saúde;
 A frase “Antes de usar leia as instruções do rótulo”.
 Avisos sobre os perigos e informações de primeiros-socorros;
 O número de telefone do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC);
 Caso esteja escrito no rótulo “PROIBIDA A VENDA DIRETA AO PÚBLICO” ou
“USO PROFISSIONAL” este produto somente poderá ser utilizado por profissional habilitado.
FIGURA 50 - ROTULAGEM DE SANEANTES

FONTE: ANVISA, 2010. 89

O rótulo não pode estar rasgado, descolado da embalagem, manchado ou ilegível.

4.1.4 Exame Pericial em Combustíveis – Análise de Adulteração

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) é o órgão responsável pela determinação das


especificações da composição química dos combustíveis. A adulteração de combustíveis é a
mistura de substâncias diferentes ou acima das especificações permitidas, originando um
produto de qualidade inferior. Ela pode ocasionar aos consumidores significativos prejuízos de
ordem econômica, em razão de problemas mecânicos nos motores dos veículos, prejuízos ao
erário em razão da sonegação fiscal vinculada à adulteração, além de estimular a concorrência
desleal e, muitas vezes, estar relacionada com grandes organizações criminosas.
Os principais combustíveis que sofrem adulterações são:

 Diesel;
 Gasolina;
 Etanol.
Gasolina

Considera-se gasolina adulterada aquela que não está dentro das especificações legais,
ou seja, que possui mais álcool ou mais solventes que a lei permite apesar da lei fixar em 2% o
limite máximo de solvente a ser misturado na gasolina e em 24% o do álcool. Muitos postos não
estão respeitando estes valores. Isso ocorre porque ao adulterar a gasolina aumentando a
mistura de solventes, que são produtos químicos mais baratos, melhora a rentabilidade do
negócio em até 10%.
São problemas causados pela adulteração da gasolina:

 O entupimento da bomba da gasolina (que fica no tanque e leva o combustível


até o motor).
 Corrosão do sistema de injeção eletrônica (um conjunto de peças que injetam a
quantidade exata de gasolina nos cilindros para o motor funcionar, evitando desperdícios). 90

Uma das principais adulterações praticadas na gasolina é a adição de álcool etílico


anidro combustível (AEAC) em porcentagens superiores às estabelecidas pela ANP. Outra é a
adição de solventes derivados do processamento do petróleo, como querosene, aguarrás,
hexano, benzenos, toluenos, xilenos, entre outros.

Álcool

No caso do álcool etílico, a adulteração mais comum é a adição de água. O etanol é


facilmente misturado à água sem que se possa perceber visualmente a irregularidade. Outra
forma de adulteração do etanol é a adição de metanol, uma prática que vem crescendo. O
metanol é extremamente tóxico, podendo, em altas concentrações, causar cegueira e até
mesmo a morte.

Análises de qualidade de combustíveis

Diante das questões crescentes de adulteração, têm-se observado um aumento em


pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de metodologias e instrumentações inovadoras para
prevenir, atestar, monitorar e garantir a qualidade dos combustíveis. A ANP é o órgão
responsável pela fiscalização dos postos por meio de seus fiscais e os exames de análise da
qualidade dos combustíveis são realizados por seus peritos.
O processo de análise da qualidade de um combustível segue uma série de normas
técnicas. A princípio, são feitos testes preliminares, que não exigem métodos e equipamentos
sofisticados. O primeiro exame a ser realizado é o exame das propriedades físicas (aparência
visual e densidade). A densidade de um combustível é medida em um densímetro e é uma
propriedade intimamente relacionada à qualidade.
Um exemplo: a gasolina padrão tem uma densidade de 0,75 g/ml e a gasolina
adulterada tem sempre uma densidade menor, devido à adição de compostos orgânicos menos
densos. O próximo passo realizado pelo profissional é a determinação da quantidade de água.
Por exemplo, pela legislação vigente, a gasolina deve ser isenta de água, porém, algumas vezes
é adicionado à gasolina álcool não anidro.
Dessa forma, a presença de água pode ser detectada. Essa análise é realizada pelo
método de Karl Fisher. A gasolina também pode receber a adição de etanol acima do permitido.
A quantidade de etanol pode ser medida com a adição de uma solução de NaCl e água. Esse 91
procedimento permite a separação bem definida das fases.
Após os testes preliminares, o combustível analisado vai para um cromatógrafo. Este
aparelho é capaz de separar os vários componentes da amostra. O resultado da cromatografia é
expresso em um cromatograma. Cada componente na mistura aparece como um pico e a altura
e a área deste pico é proporcional à concentração do componente na mistura.
Pela análise do cromatograma é possível, comparando com um cromatograma padrão,
dizer se o combustível em questão foi ou não adulterado. Com essa técnica é possível também
determinar qual ou quais foram as substâncias adicionadas. Porém, nem sempre as substâncias
adicionadas são conhecidas, isto é, não estão presentes em nenhum padrão de referência.
Nesse caso, utiliza-se do Espectrômetro de Massas acoplado à técnica de cromatografia gasosa.

4.2 ANÁLISE DE PLANTAS ALUCINÓGENAS E DE MATERIAIS SUSPEITOS DE SEREM


ENTORPECENTES

Análise de plantas alucinógenas

A evolução da pesquisa contemporânea com plantas alucinógenas deve ser entendida


como um reflexo de um século de estudos em modelos animais e humanos, ensaios
bioquímicos, bem como da nova perspectiva política acerca das drogas.
Drogas alucinógenas são aquelas que possuem propriedades de provocar uma série de
distorções do funcionamento normal do cérebro, que trazem como consequência uma variada
gama de alterações psíquicas, entre as quais alucinações e delírios, sem que haja uma
estimulação ou depressão da atividade cerebral.
As drogas alucinógenas podem ser classificadas da seguinte forma:
1) Alucinógenos propriamente ditos ou alucinógenos primários
São capazes de produzir efeitos psíquicos em doses que praticamente não alteram outra
função no organismo;

2) Alucinógenos secundários

São capazes de induzir efeitos alucinógenos em doses que afetam de maneira


importante diversas outras funções; 92

3) Plantas com propriedades alucinógenas

No Brasil, o Ministério da Saúde não reconhece nenhum uso clínico dos alucinógenos e
sua produção, porte e comércio são proibidos no território nacional. Portanto, a fiscalização é
intensa, mesmo relacionada à utilização de plantas medicinais com efeitos alucinógenos.
Todas as plantas encontradas em locais suspeitos são encaminhadas a laboratórios
especializados onde são realizadas análises para determinação dos princípios ativos. Caso seja
encontrado algum princípio ativo cuja ação forneça algum efeito que venha a causar
dependência a quem fizer uso, o plantio, produção e comercialização dessa planta tornam-se
proibidos em todo o território nacional.
As principais análises feitas em plantas suspeitas de terem efeitos alucinógenos são:

 Análises cromatográficas do extrato da planta suspeita;


 Utilização da espectrometria de massas.

Análises de materiais suspeitos de serem entorpecentes

Para a Toxicologia, o termo drogas/entorpecentes refere-se a qualquer substância que


contenha um ou mais fármacos capaz de modificar o sistema fisiológico ou um estado
patológico, mas cuja administração não visa alcançar benefícios ao organismo. Já para fins
jurídicos, drogas/entorpecentes são substâncias ou produtos capazes de causar qualquer tipo de
dependência.
O uso de drogas/entorpecentes é proibido e a fiscalização é intensa. A química forense
tem um papel de extrema importância para a justiça. Os químicos forenses realizam análises que
auxiliam a justiça nos processos investigativos.
Os passos para uma avaliação toxicológica eficiente são:

 Métodos de triagem, realizada sempre que as substâncias investigadas não são


conhecidas. Devem ser sensíveis, eficientes e abrangentes;
 Utilização de reagentes colorimétricos ou combinação destes – reagem com o
nitrogênio, que quase sempre estão presentes nos compostos entorpecentes;
Realização de técnicas modernas e aprofundadas (Espectrometria de Massas,
Espectroscopia no infravermelho, Difração de Raios-x e Ressonância Magnética Nuclear - RMN). 93
REFERÊNCIAS

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