Você está na página 1de 7

Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Número do 1.0000.20.009583-4/000 Númeração 0095834-


Relator: Des.(a) Cássio Salomé
Relator do Acordão: Des.(a) Cássio Salomé
Data do Julgamento: 13/04/2020
Data da Publicação: 13/04/2020

EMENTA: MANDADO DE SEGURANÇA - SUSPENSÃO DO EXERCÍCIO DE


FUNÇÃO PÚBLICA OU DE ATIVIDADE PROFISSIONAL QUANDO
HOUVER JUSTO RECEIO DE SUA UTILIZAÇÃO PARA A PRÁTICA DE
INFRAÇÕES PENAIS - ADVOCACIA - DIREITO LÍQUIDO E CERTO NÃO
VIOLADO - PROVÁVEL REITERAÇÃO DE APROPRIAÇAO INDÉBITA -
ORDEM PÚBLICA PREJUDICADA - DECISÃO DEVIDAMENTE
FUNDAMENTADA. - A suspensão do exercício de atividade profissional é
plenamente compatível com os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa
e não se traduz em direito absoluto, líquido e certo. - O fato de o investigado
exercer a profissão de advogado não o torna imune à medida cautelar
diversa da prisão preventiva, pois é possível a suspensão do exercício de
função pública ou de atividade profissional quando houver justo receio de sua
utilização para a prática de infrações penais, como na hipótese de,
supostamente, apropriação de valores referentes às ações judiciais nas quais
o impetrante atua como advogado, em reiteração.

MANDADO DE SEGURANÇA - CR Nº 1.0000.20.009583-4/000 - COMARCA


DE UBERABA - IMPETRANTE(S): A.C.C.C. - AUTORID COATORA: J.D.1.
C.U.

ACÓRDÃO

Vistos etc., acorda, em Turma, a 7ª CÂMARA CRIMINAL do Tribunal de


Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos,
em denegar a ordem.

DES. CÁSSIO SALOMÉ

1
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

RELATOR.

DES. CÁSSIO SALOMÉ (RELATOR)

VOTO

Trata-se de Mandado de Segurança, com pedido liminar, impetrado por


Antônio Carlos Cabral Coelho, no qual se alega que o d. Juiz de Direito da 1ª
Vara Criminal de Uberaba praticou ato ilegal ao impor a suspensão do
exercício profissional do impetrante - a advocacia - em decorrência de
processo criminal que se apura a provável prática de crime de apropriação
indébita referente à quantia de R$5.507,66 de uma Ação Revisional
Contratual, em que o impetrante atuou como procurador da vítima.

Advoga-se que a OAB/MG tem sua competência exclusiva para


investigar e punir os advogados inscritos em seus quadros. Por isso, a
medida cautelar prevista no artigo 319, inciso VI, do Código de Processo
Penal não se aplica na hipótese, que fere os preceitos constitucionais da livre
iniciativa e valor social do trabalho.

O pedido liminar foi indeferido, documento eletrônico ordem 8.

Informações prestadas pela autoridade apontada coatora, documento


eletrônico ordem 9.

Manifestação do impetrante, documento eletrônico ordem 10.

A Procuradoria-Geral de Justiça opinou pela denegação da

2
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

segurança, documento eletrônico ordem 12.

Manifestação do impetrante, documento eletrônico ordem 13.

A Procuradoria-Geral de Justiça reiterou seu posicionamento, documento


eletrônico ordem 14.

Em síntese, é o relatório. Decido.

Nos termos do artigo 5º, LXIX, da Constituição Federal, c/c o artigo 1º,
caput, da Lei 12.016/09, o mandado de segurança é instrumento processual
constitucional à disposição de pessoa física ou jurídica para a proteção de
direito individual ou coletivo, líquido e certo, não contemplado em habeas
corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder,
sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade.

Na hipótese, não se verifica qualquer ilegalidade ou abuso de poder pela


autoridade dita como coatora o ao impostor, em face do impetrante, a medida
cautelar prevista no artigo 319, VI do Código de Processo Penal. Em tese, há
indícios de que em decorrência do exercício profissional, o impetrante vem
se apropriando indevidamente de quantias relacionadas a processos
judiciais, ensejando a deflagração de ação penal para apuração do delito
previsto no artigo 168, §1º, III do Código Penal.

O fato de o investigado exercer a profissão de advogado não o torna


imune à medida cautelar diversa da prisão preventiva. Isso porque é possível
a "suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza
econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a
prática de infrações penais" (CPP, art. 319, VI).

Referida suspensão abrange toda e qualquer atividade laboral, sem


exceções, ainda que sujeita a circunspecção de entidade de

3
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

classe.

A respeito, o Superior Tribunal de Justiça manifestou que "não existe a


relação de dependência entre as esferas penal e administrativa, sequer
existe vedação no Estatuto da Advocacia que impeça a atuação cautelar na
esfera jurisdicional, quando verificados seus requisitos" (HC 253924 / PB,
Rel. Min. Og Fernandes, Sexta Turma, Julgamento 24/09/2013, DJe
04/10/2013).

De certo que a Constituição Federal assegura o livre exercício do


trabalho, desde que atendidas qualificações profissionais previstas para a
categoria (CF/88, art. 5º, XX).

No entanto, à vista dos fortes indícios de que o impetrante, em


suposição, valeu-se da advocacia para provável prática de crime de
apropriação indébita referente à quantia de R$5.507,66 de uma Ação
Revisional de Contrato, a medida cautelar diversa da prisão que suspende,
temporariamente, a atividade profissional do investigado se agasalha e não
significa afronta aos primados constitucionais da livre iniciativa e valores
sociais do trabalho. Nesse vértice:

"A suspensão do exercício de atividade de natureza econômica ou financeira


é plenamente compatível com os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa (CF, art. 1º, IV, c/c art. 170, caput). Afinal, esta liberdade de
iniciativa não é absoluta e pode ser restringida em favor de outros bens
jurídicos constitucionalmente tutelados. Por isso, o próprio Supremo (1ª
Turma, AI 636.883 AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 08/02/2011, Dje 40
28/02/2011) já teve a oportunidade de asseverar que a livre iniciativa não
pode ser invocada para afastar a regulamentação do mercado e as regras de
proteção ao consumidor. Logo, considerando que a decretação da medida
cautelar do art. 319, VI, está condicionada ao abuso da livre iniciativa no
exercício de atividade econômico-financeira, não há falar em
inconstitucionalidade da medida. (LIMA, Renato Brasileiro de. Código de
Processo Penal Comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, pp. 914-915).

4
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Destarte, a hipótese não versa em direito líquido e certo, eis que a


atividade profissional deve ser exercida em harmonia com outros bens
juridicamente tutelados. Aparentemente, vislumbra-se descaminho na
atuação laboral do "causídico", em suposição.

A propósito, a suspensão do exercício da advocacia como medida


preventiva está prevista no próprio Estatuto da Ordem dos Advogados, com
força de sanção para retirar a capacidade dos atos profissionais contrários à
dignidade da profissão, o que descaracteriza mencionada medida cautelar
diversa da prisão como inovadora ou ilegal.

O artigo 70, 3º da Lei 8.096/94 - Estatuto da Advocacia e da Ordem dos


Advogados do Brasil dispõe que o Tribunal de Ética e Disciplina do Conselho
Seccional da OAB onde o advogado acusado possuir a inscrição principal
pode suspendê-lo preventivamente em caso de repercussão prejudicial à
dignidade da advocacia. Donde se percebe que a suspensão, não é contrária
à lei, podendo, pois, o judiciário valer-se, ainda que por viés indireto, com
respaldo na subsidiariedade e analogia, deste mecanismo para prevenir a
prática de possíveis crimes decorrente da atuação profissional do advogado.

Pertinente indicar que a decisão impugnada está devidamente


fundamentada em dados concretos dos autos, atentando-se para as
particularidades do caso concreto, não havendo nenhum reparo a ser feito.

A autoridade dita coatora aponta que a medida cautelar é necessária


para a garantia da ordem pública. Isso como forma de se evitar possível
reiteração na prática delituosa imputada ao advogado, que tem em apuração
outros procedimentos contra o impetrante apurando crimes de apropriação
indébita, por condutas decorrentes do exercício da profissão.

A medida cautelar imposta se mostra ajustada, eis que alcança o fim


proposto, qual seja evitar a reiteração delitiva. Referida medida faz-se
necessária, pois protege o interesse público sem restringir a

5
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

liberdade de locomoção do denunciado, caracterizando-a como menos


gravosa à prisão preventiva.

Assim sendo, ausente o direito líquido e certo do impetrante, resta


inviabilizada a concessão da segurança. Nesse sentido manifesta-se o eg.
TJMG (www.tjmg.jus.br):

"EMENTA: MANDADO DE SEGURANÇA CRIMINAL - SUSPENSÃO


CAUTELAR DO REGISTRO PERANTE O CONSELHO REGIONAL DA OAB
- POSSIBILIDADE - SUPOSTA PRÁTICA DE CRIMES DE ASSOCIAÇÃO
CRIMINOSA, ESTELIONATO E LAVAGEM DE DINHEIRO NO EXERCÍCIO
DA FUNÇÃO - PERTINÊNCIA E NECESSIDADE DA MANUTENÇÃO DAS
MEDIDAS CAUTELARES - PRECEDENTES DO STJ - - EXCESSO DE
PRAZO - INOCORRÊNCIA - COMPLEXIDADE NOTÓRIA DA CAUSA -
AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO - DENEGADA A
SEGURANÇA. - Havendo pertinência e necessidade das medidas cautelares
de proibição do exercício da advocacia e de suspensão cautelar do registro
perante o Conselho Regional da OAB face à imputação de crimes de
associação criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro, não há que se
cogitar sua revogação, quando essas buscam a garantia da ordem pública,
evitando eventual reiteração delitiva. - Se o excesso de prazo para o
encerramento do processo é justificado, porque provocado pela notória
complexidade do feito, não há que se falar em revogação das medidas
cautelares, mormente quando se constata que o juízo a quo tem sido
diligente". (TJMG - Mandado de Segurança - Cr 1.0000.18.060205-4/000,
Relator(a): Des.(a) Jaubert Carneiro Jaques , 6ª CÂMARA CRIMINAL,
julgamento em 14/08/2018, publicação da súmula em 24/08/2018).

Pelo exposto, denego a segurança porque não vi qualquer ilegalidade ou


abuso de poder na decisão impugnada, que foi lançada em procedimento
próprio, pelo d. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal de Uberaba, e impôs a
suspensão do exercício profissional - a advocacia - ao impetrante como
medida cautelar diversa da prisão, nos termos do artigo 319, VI do Código de
Processo Penal.

6
Tribunal de Justiça de Minas Gerais

DES. AGOSTINHO GOMES DE AZEVEDO - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. SÁLVIO CHAVES - De acordo com o(a) Relator(a).

SÚMULA: "DENEGARAM A ORDEM."