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Duas Questões

Por Gilles Deleuze

São apenas duas questões. Está claro que não se sabe o que se fazer com a droga
(mesmo com os drogados), porém não se sabe melhor como falar dela. Ora se invocam
prazeres difíceis de descrever e que já supõem a droga; ora se invocam, ao contrário, as
causalidades muito gerais extrínsecas (considerações sociológicas, problemas de
comunicação e de incomunicabilidade, situação dos jovens etc.). A primeira questão
seria: há uma causalidade específica da droga e pode-se pesquisar por este lado?

Causalidade específica não quer dizer "metafísica’’ e nem tampouco exclusivamente


científica (por exemplo, química). Não é uma infra-estrutura, onde o resto dependeria
como que de uma causa. Seria, antes, traçar um território ou o contorno de um conjunto-
droga, que estaria em relação, de um lado, com o interior, com as diversas espécies de
drogas e, de outro, com o exterior, com as causalidades mais gerais. Tomo um exemplo
em um domínio totalmente diverso: o da psicanálise. Tudo o que se possa dizer contra a
psicanálise não anula o seguinte fato: que ela procurou estabelecer a causalidade
específica de um domínio, não só o domínio das neuroses, mas de todos os tipos de
formações e produções psicossociais (sonhos, mitos...). Pode-se dizer, de modo
bastante sumário, que a psicanálise traçou esta causalidade específica assim:
mostrando a maneira como o desejo investe um sistema de traços mnésicos e de afetos.
A questão não é saber se esta causalidade específica era justa; em todo caso havia a
busca de uma tal causalidade e, nesse sentido, a psicanálise fez sair das considerações
gerais, ainda que para cair em outras mistificações. Os fracassos da psicanálise com
relação aos fenômenos da droga mostra muito bem que, no caso da droga, trata-se de
uma causalidade muito diversa. Contudo minha questão é: pode-se conceber uma
causalidade específica da droga, e em quais direções? Por exemplo, na droga haveria
alguma coisa de muito particular; é que o desejo investiria diretamente no sitema-
percepção. Isto seria, pois, totalmente diferente. Por percepção é preciso entender as
percepções internas, não menos que as externas, principalmente as noções de espaço-
tempo. As distinções entre espécies de drogas são secundárias, interiores a este
sistema. Parece-me que, em certo momento, as pesquisas caminhavam nesse sentido:
as de Michaux, na França, as da geração beat na América, a seu modo; também as de
Castañeda etc. Abordava-se, em primeiro lugar, como todas as drogas dizem respeito às
velocidades, às modificações de velocidade, aos limiares de percepção, às formas e aos
movimentos, às micropercepções, à percepção tornando-se molecular, aos tempos
sobre-humanos ou sub-humanos etc. Sim, de que modo o desejo entra diretamente na
percepção, investe diretamente a percepção (daí o fenômeno de dessexualização na
droga). Um tal ponto de vista permitiria encontrar a ligação com as causalidades
exteriores mais gerais, sem no entanto se perder: assim, o papel da percepção, a
solicitação da percepção nos sistemas sociais atuais, que faz Phil Glass dizer que, de
qualquer maneira, a droga mudou o problema da percepção, mesmo para os não
drogados. Mas também tal ponto de vista permitiria dar a maior importância às
pesquisas químicas, sem risco de cair, todavia, em uma concepção "cientista". Ora, se é
verdade que se esteve nessa direção, de um sistema-autônomo Desejo-Percepção, por
que hoje nos parece que ela foi, ao menos parcialmente abandonada? Notadamente na
França? Os discursos sobre a droga, dos drogados como dos não drogados, dos
médicos como dos usuários, recaíram em uma grande confusão. Ou então, seria uma
falsa impressão não haver lugar para se buscar uma causalidade específica? O que me
parece importante, na idéia de causalidade específica, é que ela é neutra, e vale muito
bem tanto para os usuários de drogas como para uma terapêutica.

A segunda questão seria a de dar conta do "desvio" da droga, em que momento este
desvio sobrevém. Sobrevém, necessariamente, e de tal maneira que o fracasso ou a
catástrofe fizesse necessariamente parte do plano-droga? É como um movimento
"curvo". O drogado fabrica suas linhas de fuga ativas. Mas essas linhas se enrolam, se
põem a girar nos buracos negros, cada drogado tem seu buraco, grupo ou indivíduo,
como um caracol. Afundado antes que desfundado. Guatari já nos disse. As
micropercepções são recobertas de antemão, conforme a droga considerada, por
alucinações, delírios, falsas percepções, fantasmas, baforadas paranóicas. Artaud,
Michaux, Burroughs, entre os conhecidos, odiavam essas "percepções errôneas", esses
"sentimentos maus", que lhes pareciam, ao mesmo tempo, uma traição e, todavia, uma
conseqüência inevitável. É onde também todos os controles são perdidos e onde se
instaura o sistema da dependência abjeta, dependência com relação ao produto, à
posse, às produções fantasmagóricas, dependência com relação ao fornecedor etc.
Seria preciso, abstratamente, distinguir duas coisas: todo o domínio das
experimentações vitais e o dos empreendimentos mortíferos. A experimentação vital
ocorre quando uma tentativa qualquer agarra você, se apodera de você, instaurando
cada vez mais conexões, abrindo-o às conexões: uma tal experimentação pode
comportar um tipo de autodestruição, ela pode por produtos de acompanhamento ou de
arrebatamento, o tabaco, o álcool, as drogas. Ela não é suicidaria, na medida em que o
fluxo destruidor não se rebate sobre si mesmo, mas serve para a conjugação de outros
fluxos, quaisquer que sejam os riscos. Mas o empreendimento suicidário, ao contrário,
ocorre quando tudo é rebatido unicamente sobre esse fluxo: "minha" dose, "minha vez",
"meu" copo. É o contrário das conexões; é a desconexão organizada, em vez de um
"motivo" que serviria aos verdadeiros temas, às atividades, um único e pleno
desenvolvimento como em uma intriga estereotipada, onde a droga é pela droga, e faz
um suicídio tolo. Não mais que uma linha única, ritmada pela seqüência "paro de beber-
volto a beber", "não sou mais drogado-posso tomar de novo". Bateson mostrou como o
"eu não bebo mais" faz parte estritamente do alcoólatra, porque é a prova efetiva de que
ele agora pode voltar a beber. O mesmo ocorre com o drogado, que não cessa de se
decidir a parar, porque é a prova efetiva de que ele é capaz de retornar. Nesse sentido, o
drogado é o desintoxicado perpétuo. Tudo se rebate sobre uma linha morna suicidária,
com duas seqüências alternativas: é o contrário das conexões, das linhas múltiplas
entremeadas. Narcisismo, autoritarismo dos drogados, chantagem e veneno: eles se
unem aos neuróticos, em seus empreendimentos de enfadar o mundo, de espalhar seu
contágio, e de impor seu caso (mesmo empreendimento que a psicanálise como
pequena droga). Ora, por que; como se faz a transformação de uma experiência, mesmo
autodestrutiva, porém viva, em empreendimento mortífero de dependência, generalizada,
unilinear? Seria inevitável? Se há algum ponto preciso de terapêutica, é aí que se deveria
intervir. Pode ser que os meus dois problemas se juntem. Talvez seja no nível de uma
causalidade específica da droga que não se possa compreender porque as drogas
acabam tão mal e desviam de sua própria causalidade. Que o desejo invista diretamente
na percepção é, ainda uma vez, algo muito surpreendente, muito belo, uma espécie de
terra ainda desconhecida. Mas as alucinações, as falsas percepções, as baforadas
paranóicas, a longa lista das dependências é muito conhecida, ainda que renovada pelos
drogados, que se tomam por experimentadores, cavaleiros do mundo moderno ou
doadores universais da má consciência. De um outro lado, o que se o passa? Os
drogados não se serviriam da ascensão de um novo sistema desejo-percepção em
próprio proveito e chantagem? Como se inserem os dois problemas? Tenho a impressão
de que, atualmente, nem mesmo se compreende onde deveria estar. Os que conhecem o
problema, drogados ou médicos, parecem ter abandonado as pesquisas, por eles
mesmos e pelos outros.

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