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São Paulo 2017

Copyright © 2017 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa Felipe Scagion


Diagramação Editora Baraúna
Revisão Adriane Gozzo

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
________________________________________________________________
R695s

Rosa, Marques da
O segredo / Marques da Rosa. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2017.

ISBN 978-85-437-0818-8

1. Ficção brasileira. I. Título.

17-44068 CDD: 869.3


CDU: 821.134.3(81)-3
________________________________________________________________
14/08/2017 15/08/2017

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA


EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA
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CEP 01043-000 – Centro – São Paulo - SP
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“Não há segredos que o tempo não revele.”

Jean Racine
Sumário
Capítulo 1.....................................................................................................................9
Capítulo 2...............................................................................................................23
Capítulo 3.................................................................................................................41
Capítulo 4...............................................................................................................63
Capítulo 5..............................................................................................................107
Capítulo 6...............................................................................................................131
Capítulo 7.............................................................................................................173
Capítulo 8............................................................................................................203
Epílogo.....................................................................................................................235
Capítulo 1
O crepúsculo do final do dia havia cessado. As
poucas nuvens marcavam sua presença no céu, em
sua procissão solene, encobrindo de quando em vez a
enorme esfera branca. Nessa noite, a lua encontrava-
se resplandecente em virtude do fenômeno conhecido
por superlua, quando a lua cheia se situa num inter-
valo de distância entre os noventa e cem por cento da
distância mínima em relação à Terra.
No apartamento da família Medeiros, os pontei-
ros do antigo relógio de parede marcavam vinte e duas
horas e quinze minutos. Nilda Medeiros, uma linda
mulher de pouco mais de quarenta anos, feições sua-
ves, cabelos longos, louros e lisos, olhos azuis, corpo
torneado, já se havia recolhido ao aposento depois de
mais um dia cansativo e estressante de trabalho como
funcionária, exercendo a função de caixa em uma das
agências da cidade do interior do estado.

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A filha, Luzia, uma linda menina de quinze anos,
herdara as feições da mãe, desde o cabelo e a respec-
tiva cor, os olhos azuis, entre os demais atributos, os
quais não deixavam margens a dúvidas. Tratava-se da
única filha, e qualquer exame de maternidade seria
um despautério. As duas eram as únicas moradoras do
apartamento de classe média alta localizado em uma
área nobre da pequena cidade do interior do estado.
Fazia dois anos que o marido de Nilda falecera,
vítima de latrocínio, quando em uma determinada
noite se deslocava até uma farmácia com o intuito de
adquirir o medicamento para o controle do diabetes
que havia muito tomara conta de si em virtude dos
vários exageros ao longo dos anos.
Nilda e Marcos, o marido, sempre formaram um
casal unido e perfeito. Ambos se amavam de uma tal
maneira que para ela foi e ainda é difícil suportar a dor
da ausência, pese embora resignada acabasse por acei-
tar a nova realidade. A vida continuava, e como tal,
aos poucos, foi esquecendo a fatalidade que se abatera
sobre a família. Porém, de quando em vez, vislumbres
rápidos traziam à tona as lembranças do marido. E
como a nostalgia das várias lembranças acabavam por
ser um impulso, isso a fortalecia mais ainda. E assim
Nilda prosseguia.
Já o mesmo não se podia dizer de Luzia, a filha,
que havia muito suportara a perda do pai, por quem
nem sequer mostrara qualquer tipo de afeição e amor
a partir de determinada altura. Nem sequer seus la-
ços afetivos de sangue convergiam para um vínculo

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maior em relação a ele. Só Luzia sabia o real motivo
de seu comportamento, mas também nunca o com-
partilhara, fosse com quem fosse, tampouco com a
mãe, que de igual modo nunca a questionara sobre
seu estranho comportamento, muito menos sequer
descortinava o motivo de a filha haver esquecido
tão rápido o pai e sua ausência forçada, para nunca
abordar seu nome, esquivando-se sempre que a mãe
o recordava, munida de nostalgia e emoção. Nilda
respeitava o comportamento da filha em relação ao
falecido, mas também nunca tivera coragem para a
questionar, conjecturando para si mesma que, caso
tocasse no assunto, Luzia sofresse ao se lembrar do
pai. Engano seu! O motivo do comportamento de
Luzia em esquecer o pai era outro, e muito mais tris-
te do que se possa imaginar. Só Luzia sabia quanto
lhe doía o coração ao saber que fora vítima do pró-
prio pai, carregando esse estigma, sendo refém das
lembranças amargas e tenebrosas.
Nilda recebera um beijo afetuoso da filha no ros-
to. Ao deixar o aposento da mãe, Luzia, assumindo um
tom de voz suave, disse-lhe:
– Uma boa noite, mãinha. Eu gosto muito da se-
nhora. A bênção!
– Deus te abençoe, minha filha – disse-lhe a mãe
enquanto a fitava passar pela porta.
Ao cruzar a porta, Luzia escutou a mãe falar.
– Eu também gosto muito de ti, minha filha.
Dorme bem.
Luzia ofereceu um sorriso e disse:

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– Vou, sim, dormir bem, mãinha. Mas antes ain-
da vou estudar um pouco. Vou fazer o resto dos deve-
res de casa.
– A esta hora, minha filha? Ainda não acabaste? –
admirou-se Nilda.
– Ah, falta pouco, mãinha. Logo, logo, termino.
– Está bem, minha filha. Vai lá, então, e deixa
esta tua mãezinha dormir que ela está muito cansada.
Olha, não te esqueças de apagares as luzes depois. Es-
tás me ouvindo?
– Não esqueço, não. Dorme bem e sonha comigo.
Luzia retornou até junto de Nilda para lhe deposi-
tar um beijo afetuoso no rosto, sendo correspondida com
outro, e deixou o aposento da mãe, adentrando em segui-
da ao seu, para logo se sentar na frente do computador.

**********

Agora no aposento, na frente do computador,


Luzia aguardava ansiosa que sua página do Facebook
surgisse precisa na tela.
A jovem mentira para a mãe, que havia muito des-
confiava de que a filha dedicava tempo em demasia dian-
te da tela do computador, mas também não se impor-
tava, confiava nela, porém, temerosa, suspeitava de que
algo estivesse sucedendo em virtude da enorme ansieda-
de de Luzia sempre que se aproximava a hora de ficar na
frente do equipamento. Àquela hora, indubitavelmente,
Nilda sabia da grande expectativa da filha em sair do seu
aposento para mergulhar na tela do computador.

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O comportamento de Luzia não era esdrúxulo,
tampouco deixava escapar algo que pudesse deixar a
mãe com uma pulga atrás da orelha; no entanto, Nil-
da não entendia por que constantemente a filha se uti-
lizava de pequenas mentiras, em especial do argumen-
to de ter trabalhos escolares para fazer, como forma
de legitimar seu comportamento. A mãe nada tinha
a reclamar da filha, pois nos estudos ela sempre cor-
respondera às expectativas, com resultados acima do
satisfatório, e amiúde os boletins escolares demonstra-
vam quanto ela se aplicava, sendo uma exímia aluna.
Com base nisso, para que reclamar ou comprar
uma briga com a filha por causa do uso excessivo do
computador, se ela não dava um pingo de trabalho tan-
to na escola quanto em casa? A si mesma perguntava a
mãe de coração partido, todavia sem saber o que fazer.
Se porventura viesse a tomar uma atitude extremada no
sentido de suster ou moderar o uso do computador, tal-
vez a filha reagisse com descontentamento. Justo ela,
uma criança na fase da adolescência, cujo comporta-
mento é sobejamente conhecido, já para não questio-
nar a opinião e a influência externa dos amigos de sua
idade, quiçá instigando-a a ser rebelde. Era o que Nilda
menos pretendia que viesse a suceder.
O temor de Nilda justificava-se, e não era para
menos, pois já havia perdido o marido, então podia
muito bem, era uma possibilidade em si mesma incu-
tida, passar a ter um relacionamento obscuro e contur-
bado com a filha, justo numa fase considerada crucial
no crescimento e desenvolvimento da jovem. O que

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menos pretendia na atual circunstância era gerir uma
exequível crise. Nilda sabia de tudo isso, também fora
filha, e como tal evidenciara problemas similares, pese
embora as épocas fossem diferentes.
Com esses e outros pensamentos, Nilda tentou
fechar os olhos e dormir, todavia algo a impelia para
que se mantivesse acordada. Ora se virava para um
lado, ora se virava para o outro. Chegou a se sentar à
cabeceira da cama, para permanecer assim por uns e
longos minutos, olhando para um ponto qualquer do
teto do aposento. Em que dimensão se isolava, só ela
e Deus sabiam. Sem fazer barulho, desceu da cama,
calçou umas pantufas, de calcinha e sutiã, pelos eri-
çados nos braços e nas pernas, saiu do aposento com
aquele aspecto de frango, foi até à cozinha e abriu a
geladeira para sorver um pouco de água.
Ao retornar ao aposento, preocupada e simulta-
neamente curiosa, movida pelo exacerbado zelo, es-
tancou junto ao aposento da filha, onde pressionou
o ouvido contra a porta somente com a finalidade de
confirmar o que já havia especulado momentos an-
tes em seus sombrios pensamentos. Luzia pressionava
com alguma agilidade as teclas do computador.
“Toda noite é isso! Com quem Luzia está se co-
municando?” – preocupada, perguntou a si mesma.
De semblante triste, Nilda permaneceu ali por
mais algum tempo, com o intuito de verificar se a fi-
lha eventualmente viesse a fazer uso do celular, mas
logo veio-lhe a lembrança de que o aparelho houvera
ficado trancado no interior da viatura estacionada na

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grande garagem comum do prédio. Teve ímpetos de
a surpreender, mas logo ficou receosa da reação. Te-
merosa, preocupada e ligeiramente triste, acabou por
desistir de sua tenaz ideia. Uma vez mais, frustrada,
retornou ao aposento e, malgrado suas preocupações,
acabou por conseguir fechar os olhos e ter um pou-
co de paz, proporcionada por um sono pesado e pro-
fundo. A partir daquele momento, ficou totalmente
alheia a tudo.

************

Enquanto isso, no seu aposento, diante do com-


putador, Luzia obtivera sucesso ao acessar a sua pági-
na da rede social Facebook.
Rapidamente, verificou a caixa de mensagens,
onde várias aguardavam por sua validação com a cor-
respondente leitura. Foi o que fez em pouco tempo,
dando preferência às rotineiras de suas amiguinhas da
escola, de suas duas primas e, por fim, a que mais al-
mejava, a de um suposto amigo compartilhado como
Maxuel, cujo perfil anunciava ser um jovem de dezes-
seis anos de idade.
As fotos exibidas de Maxuel no perfil do Facebook
eram constantemente acessadas por Luzia, deixando-a
deslumbrante com o que seus olhos azuis visualiza-
vam: um jovem rapaz de rosto lindo, cabelos e olhos
castanhos, pele morena, entre outros atributos. Era re-
corrente Maxuel ser acompanhado por outros jovens,
moços e moças da mesma faixa etária.

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Por acreditar que Maxuel não oferecia perigo em
virtude das fotos compartilhadas, das conversas até en-
tão mantidas, não fazia muito tempo Luzia havia co-
nhecido Maxuel após este lhe enviar um convite. Ela
se sentia muito à vontade, pois se tratava de mais um
amigo virtual, entre outros da sua idade, coisa mais
que natural. Todavia, Luzia jamais especulava se tratar
de um perfil falso, de uma pessoa muito mais velha,
a qual fazia uso de um perfil desleal somente com a
finalidade de praticar crimes assediando moças de ida-
de tenra, inocentes, como era o caso dela.
Amiúde, Maxuel fazia uso desse tipo de compor-
tamento, atingindo em cheio moças inocentes, frágeis
e desprovidas de meios de defesa, tal como muitas
outras, daí que Luzia se tornara também um alvo fá-
cil para o pedófilo, mais uma vítima de um homem
inescrupuloso, maníaco, um doente de pouco mais de
cinquenta anos de idade, contudo de aparência afável,
rosto eternamente bondoso, mas que por trás de sua
mascara escondia uma obsessão doentia por moças,
em especial por meninas da faixa etária dos doze aos
quinze anos.
Sem perder tempo, Luzia passou a ler a mensa-
gem de Maxuel, que havia deixado digitado:
– Oi, Lu, tudo bem? Cadê tu? Estou te esperando
mais tarde pra continuarmos nossas conversas. Sabes,
Lu, adoro conversar contigo. Cheiro.
Luzia ficou pensativa. O que pensava, só ela e
Deus sabiam. Teve ímpetos de responder à mensa-
gem, mas logo foi compelida a não fazer, pois subita-

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mente uma nova mensagem surgiu precisa na tela do
computador. Era uma amiguinha da escola. As duas
deram início a uma animada conversa virtual por vá-
rios minutos. Em meio à conversa, Luzia foi surpreen-
dida por Maxuel, que passou a estar na condição on-li-
ne. Seus olhos brilharam e seu coração disparou. Sua
excitação seguiu o rumo dos precedentes.
Sem perder tempo, Luzia dispensou a amiguinha
e, antes que fosse convidada por Maxuel, ela mesma
se antecipou. Sem se dar conta, Luzia, com seu com-
portamento, demonstrava quanto se encontrava dema-
siadamente envolvida com seu amigo virtual.
– Oi, Max! – ela digitou com agilidade, para logo
ficar na expectativa.
Maxuel demorou a responder. Fazia parte de sua
estratégia essa curta demora, como forma de cativar o
interesse das vítimas, como era o caso de Luzia. Daí
que ela insistiu.
– Oi, Max. Tás aí? Sou eu, a Lu.
Alguns segundos depois, Maxuel deu sinal de vida.
– Oi, Lu. Tudo bem contigo? – digitou.
– Sim, tudo bem. E contigo, Max? – de olhos bri-
lhantes, Luzia perguntou-lhe.
– Muito bem, mas com saudades tuas.
– Eu também, Max.
– É mesmo, Lu?
– É, KKKKKKKKKKK…
– É brincadeira tua ou estás falando sério?
– É sério, Max.
– Humm!... Posso acreditar em ti?

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– Sim, podes acreditar em mim. Eu gosto muito de ti.
Criou-se uma expectativa, já que Maxuel subita-
mente não se manifestou. Luzia ficou sem saber o que
fazer perante o silêncio do amigo e, quando já ia digitar
algo, verificou na tela do computador que o amigo digi-
tava qualquer coisa. Rapidamente, suspendeu o que ia
escrever para aguardar por ele. Tomando-a de surpresa,
ele insistiu num pedido ao qual ela vinha postergando,
demonstrando sua insegurança. Ele sabia-o.
– Então por que não marcamos um encontro? Faz
dias que te peço para nos encontrarmos. Eu só posso
acreditar em ti se tu aceitares te encontrares comigo.
Quero te conhecer pessoalmente, Lu – escreveu ele.
Do mesmo modo que Maxuel demorou a se
manifestar, cautelosa, Luzia seguiu o procedimento.
Quando o fez, reforçou a cautela ao digitar.
– Já te disse que não é fácil, Max. Ainda não falei
com mãinha. Sabes, se eu falar com mãinha, ela não
vai autorizar. Ainda não pensei na maneira de fazer-
mos isso e como falar com ela. Desculpa, Max.
–Humm!... – simulou acreditar. – A mãinha.
– O que tem a mãinha? – contorceu o rosto.
– Nada, não. É só um comentário. Mãinha tam-
bém não me deixa sair com ninguém. Prefere que eu
fique aqui em casa na net.
– Ah… se a tua não quer que te encontres com
alguém, por que queres te encontrar comigo? Não é
perigoso, Max?
– KKKKKKKKK… Perigoso coisa nenhuma. Po-
demos fazer tudo escondido.

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– Escondido? Escondido de quem?
– KKKKKKKKK… das nossas mães. Marcamos
um encontro sem que elas saibam.
Luzia não respondeu de imediato. Diante disso,
Maxuel ficou na expectativa, pois havia lançado um
artifício. Será que sua vítima e amiga virtual havia caí-
do na armadilha? Pensou rápido, ávido para que Luzia
aceitasse. Como ela demorou a se manifestar, ele in-
sistiu, só que dessa vez suavizou.
– Mas que mal tem um simples encontro? Todos os
dias moços e moças da nossa idade marcam encontros
pela net. Se quiseres, pode ser na tua escola – sugeriu.
Cautelosa, Luzia, após considerar, respondeu:
– Não sei, Max… Tenho medo – digitou.
– Medo? Medo de quê?
– Não sei, Max. Tenho medo de mãinha. Ela é
complicada. Depois, se descobrir, vai ser pior pra mim.
– Tens medo da tua mãe ou de mim? – Maxuel
mesclou a brincadeira à insinuação.
Uma vez mais, Luzia demorou a responder. Ele
percebeu, daí que, cauteloso, decidiu não insistir.
Diante disso, esperou que ela se manifestasse. Ao fim
de algum tempo, Luzia digitou:
– Olha, Max, eu quero muito me encontrar con-
tigo, mas tenho de arranjar uma maneira de fazer sem
que mãinha dê conta. Prometo que vou conseguir. Po-
des esperar mais um pouquinho?
Sem alternativa, uma vez que tinha conhecimen-
to de que não podia insistir como forma de não deixar
pistas de suas reais intenções que de alguma maneira

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alertassem Luzia, Maxuel acabou por aquiescer com
a sugestão. Ele sabia que suas investidas jamais pode-
riam ser desmedidas; todo cuidado era pouco, mor-
mente em se tratando de uma indefesa jovem, a qual
conhecia muito bem, sem que ela pudesse conjectu-
rar. Maxuel sabia mensurar os caminhos a trilhar na
sua manifesta intenção.
– Está bem, Lu. Eu vou, sim, esperar. Mas não
demores muito a dar a resposta. Olha que tem muitas
meninas atrás de mim – arrematou, chantageando-a.
Luzia não deu muita importância. Sem malícia,
devido à sua inocência, levou na brincadeira, daí que,
brincando, lhe disse ao digitar.
– E de mim também. Muitos moços também an-
dam atrás de mim.
Maxuel não se manifestou, somente lhe enviou
um sticker, exibindo um rosto tristonho. Luzia não se
importou quando verificou na tela do computador a
hora. Preocupada com o tardar, manifestou-se.
– Desculpa, Max, está ficando tarde. Vou ter que sair.
As aulas começam cedo. Depois conversamos – digitou.
– Já? – simulou ronha.
– Eh, não posso ficar muito mais tempo acordada e
na frente do computador. A qualquer momento mãinha
pode entrar e não gostar. Sabes, menti pra ela dizendo
que ia fazer o resto dos trabalhos da escola. Desculpa.
– Está bom, Lu.
– Tchau, Max. Adoro tu. Cheiro – acrescentou
um sticker de um rosto de um boneco amarelo com
semblante alegre.

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– Tchau, Lu. Cheiro – acrescentou do mesmo
modo um sticker de um rosto de um boneco, cujos olhos
se encontravam cobertos por dois corações vermelhos.
Como reação natural e voluntária, Luzia deixou
escapar um sorriso plácido.
Em seguida, Luzia saiu da página do Facebook, des-
ligou o computador, para logo depois arrumar os cadernos
e livros na mochila. A seguir, deslocou-se até o banheiro,
onde escovou os dentes. Em pouco tempo encontrava-se
deitada na cama, debaixo dos lençóis de linho.
Enquanto fazia um esforço para dormir, rapida-
mente as lembranças das fotos de Maxuel exibidas
em seu perfil vieram-lhe à mente. Na verdade, Luzia
encontrava-se deveras deslumbrante com elas. Estaria
apaixonada? Nem ela mesma sabia. De igual modo,
sabia que tudo não passava de quimera, de paixão pla-
tônica e passageira, coisa de adolescente ao se depa-
rar com um jovem rapaz, lindo, que qualquer moça
de sua idade gostaria de ter como namorado. Até que
Maxuel estava certo quando, momentos antes, lhe dis-
sera que, como ela, havia muitas outras adolescentes
interessadas nele.
Perante essa forte possibilidade, Luzia passou a
vislumbrar uma ideia de como fazer para se encon-
trar com Maxuel sem que a mãe pudesse descortinar
suas intenções, porém sem especular que a mãe, havia
muito, já se encontrava ressabiada com o uso excessi-
vo do computador, em especial durante a noite. Após
vários minutos mergulhada em seus pensamentos e va-
ticínios, Luzia finalmente conseguiu fechar os olhos.

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Capítulo 2
Mais um dia amanheceu, fazendo inacreditavel-
mente mais calor que nos dias precedentes. O canta-
rolar dos pardais, dos bem-te-vis e de outros pássaros
chegava a abafar os primeiros ruídos, que teimavam
surgir na cidade do interior do estado. O sol, não obs-
tante as nuvens dispersas aqui e acolá, resplandecia
em raios oblíquos e dourados, atingindo o chão, ilu-
minando-o, quando não era impedido pelas copas das
árvores, acabando por dissipar a exígua névoa matinal.
Nilda já se encontrava sentada na cozinha desje-
juando, quando a filha acabou por fazer uma aparição
pública. Ao se deparar com a mãe, Luzia saudou-a,
beijando-a com deferência no rosto.
– Olá, mãinha. Bom dia – disse com vivacidade.
– Bom dia, minha filha – retribuiu com satisfa-
ção. – Pensava que hoje não acordasses – brincou.
A filha ofereceu-lhe um sorriso.

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– Eu nunca me esqueço dos meus compromissos,
mãinha. E logo hoje que tenho uma prova na escola.
Uma prova muito importante – disse-lhe, enfatizando.
– Ah, sim, é verdade…E tu estudaste para a prova?
– Mas é claro que estudei, mãinha! Estou prepa-
radíssima – de novo ofereceu um sorriso.
– Ficaste até muito tarde estudando, filha?
Antes de responder, Luzia já se havia sentado e
dado uma mordida no pão. A seguir, de boca cheia,
respondeu:
– Fiquei até uma hora da manhã – disse.
Um rápido pensamento absorveu Nilda, con-
cluindo que a filha não mentira, daí deixou para lá ao
lhe dizer:
– Está bem, filha. Anda, come rápido. Está fican-
do tarde, e eu ainda tenho de passar na oficina antes
de te deixar na escola. Anda.
As duas rapidamente degustaram o café da ma-
nhã, para logo abandonarem o condomínio.
A mesa da cozinha ficou por arrumar. Mais tarde,
quando Luzia retornasse a casa antes mesmo de a mãe
deixar o trabalho, já sabia o que lhe aguardava. Ca-
beria a ela deixar em ordem a casa, desde banheiros,
aposentos, sala, cozinha e demais dependências. Até o
jantar das duas seria preparado por Luzia.

**********

A viatura de Nilda acabara de abandonar a ofici-


na onde fizera a troca programada do óleo e dos filtros.

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Durante o curto trajeto até a escola, mãe e filha
pouco ou nada falaram, e, quando o fizeram, quem
provocou o diálogo foi Luzia, que havia reparado no
estado absorto em que a mãe mergulhara.
– Mãinha? – chamou-a.
– Humm!... filha. O que foi?
– Tu hoje estás muito pensativa? Estás com al-
gum problema?
– Vários problemas, filha. Vários problemas – res-
pondeu sem muito entusiasmo.
A filha comprimiu o rosto.
– Vários problemas? – disse-lhe a seguir, quando
propôs: – Posso ajudar?
Nilda segurou um sorriso.
– Agradeço, filha, mas não carece. Eu mesma te-
nho como resolver – disse em seguida.
– Como queiras, mãinha – disse Luzia também
sem muito entusiasmo, todavia ligeiramente ressabiada.
Instalou-se um curto silêncio. Ao fim desse com-
passo de espera, a filha insistiu, uma vez que não se
mostrava totalmente convencida.
– O que te preocupa, mãinha? – quis saber.
– Não é propriamente preocupação, filha.
– Não? Então o que é?
– É nostalgia.
– Nostalgia? Nostalgia de que, mãinha?
– É saudade do teu pai, filha. Ai, como sinto sau-
dades dele.
– Saudades do papai? – indagou-a com desdém,
sem que a mãe percebesse.

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– É, sim, saudades do teu pai. Sinto muito a falta
dele. De vez em quando me lembro dele e de como
ele me faz falta – confirmou com profunda emoção
e com a voz ligeiramente embargada, porém em seu
rosto era evidente um tênue sentimento de remorso. A
filha não percebeu.
Como o assunto incomodava Luzia, ela logo tra-
tou de desviar a conversa. A mãe não percebeu a súbi-
ta mudança.
– Tu sabes que pra semana é o meu aniversário?
– perguntou-lhe.
– É mesmo, filha? – admirou-se depois que foi
compelida a se recordar. – Com tanta coisa pra fazer,
nem me lembrei mais. Sabias? – deixou implícito seu
disfarçado pedido de desculpas.
– Sabia, sim, mãinha. A senhora tem de trabalhar
menos. Está me ouvindo?
A mãe achou graça na sugestão da filha, daí lhe
ofereceu um sorriso contido.
– Estou, sim, filha, e também já chegamos – disse.
– É mesmo.
As duas despediram-se com um beijo afetuoso.
Luzia atravessou a rua para logo adentrar nas de-
pendências da escola, tudo sob o olhar atento e ca-
rinhoso da mãe, que, sem perder tempo, engatou a
primeira marcha, rumando até a agência bancária.
Nilda sabia muito bem o dia que a esperava. Estresse e
agitação, muita agitação.

**********

26
Assim que Luzia cruzou o portão da escola, depa-
rou-se com sua colega e melhor amiga, Sideane, uma
linda morena de cabelos pretos e compridos, olhos
castanhos, rosto angelical, corpo esbelto. Sem perder
tempo, Sideane logo cumprimentou a amiga.
– Olá, Lu. Tudo bem contigo? – suas palavras fo-
ram amáveis.
– Sim, tudo bem, Si.
– Então, preparada para a prova?
– Mais que preparada. Sabes, estudei muito a ma-
téria que a professora sugeriu.
– Qual, Lu? – curiosa, a amiga quis saber.
– Sobre o Natal. Sabes, estamos próximo do Na-
tal, a festa mais bonita do ano.
– Mais bonita do ano ou a melhor porque recebe-
mos presentes? – matreira, Sideane brincou.
– As duas, amiga.
De mãos dadas, as duas deixaram escapar uma
gostosa e divertida gargalhada. Enquanto caminha-
vam para a sala de aula, muito embora ainda faltas-
sem alguns minutos, Sideane logo tratou de narrar as
novidades. E como estava ávida para o fazer. Coisa de
adolescente. Sem preâmbulos, disse:
– Amiga, ontem, quando nos falávamos no Face,
acabei por conhecer um moço. Ele é bonito. É um gato.
– E foi, Si? – Luzia demonstrou surpresa. – Então
foi por isso que me deixaste a ver navios, hein? Nem
sequer respondeste à minha pergunta.
– Que pergunta, Lu? – do mesmo modo, Sideane
demonstrou surpresa.

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– Ah, não me lembro mais, amiga! – Luzia deu
de ombros, num gesto de indiferença.
– Também não tem importância – Sideane riu de
leve. – O que importa é que conheci um moço muito
lindo – apertou as mãos da amiga com intensidade, de-
monstrando excitação e simultaneamente uma satisfa-
ção indizível. – Ele é um gato, de olhos azuis, cabelos
louros. Um galeguinho. Humm!... – fez um gesto de
enleante volúpia. – Como ele é lindo, lindo, lindo…
– Olha, amiga, na net todos são lindos – erudita,
Luzia observou. – É só procurar com atenção que num
instante aparece uma ruma de bonitões. Às vezes, até
fotos de outros moços esses troços usam. Querem ser o
que não são só para nos conseguirem enganar. Abre os
olhos, Si. Abre os olhos, estás me ouvindo? Olha que
eu não duro para sempre.
Sideane esmoreceu, demonstrando que não ha-
via gostado do comentário de Luzia, mas ainda assim
não se deixou abater. Confiante e decidida, rebateu:
– Mas aquele não é desses, Lu. As fotos dele ti-
nham data de dez dias atrás – disse.
– Dez dias ou dez anos? – Luzia alfinetou com ironia.
Sideane simulou ficar emburrada, então cruzou
os braços demonstrando seu descontentamento. Pe-
rante a atitude da amiga, Luzia suavizou ao admitir
que havia extrapolado. Disse-lhe:
– Desculpa, Si – depositou delicadamente as
mãos nos ombros da amiga. – Sabes, meu com-
portamento só prova quanto me preocupo contigo.
Me desculpas?

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– Mas é claro que te desculpo, Lu – disse enquan-
to acenava a cabeça. – Sabes, não consigo ter raiva de
ti – dito isso, ofereceu um sorriso leve.
As duas falaram um pouco mais. Sideane deu a
conhecer o teor de sua conversa com o novo amigo
virtual. Seus olhos brilhavam cada vez que pronun-
ciava o nome de Weidson. Enquanto isso, Luzia escu-
tava, acabando por relatar também o que conversara
com Maxuel na noite de véspera.
As duas amigas encontravam-se radiantes com a
amizade de seus amigos virtuais. Só que qualquer uma
delas não especulava que tanto Maxuel quanto Weid-
son nada mais eram que a mesma pessoa. E foi com
esse espírito e imbuídas da enorme alegria que ambas
acabaram por caminhar pelo extenso corredor até al-
cançarem a sala de aula, onde daí a pouco fariam mais
uma prova, testando seus conhecimentos.

**********

As relações de cumplicidade das duas amigas aca-


baram por fazer com que fossem consideradas as me-
lhores alunas da turma. Luzia acertara em cheio. O
assunto escolhido para a prova fazia referência à época
natalina. Entre as várias questões suscitadas pela pro-
fessora, esta quis saber o porquê de o Natal ser come-
morado no dia vinte e cinco de dezembro de cada
ano, ao que Luzia respondeu, sem a menor dúvida,
que os antigos comemoravam o solstício de inverno,
a noite mais longa do ano, que normalmente aconte-

29
ce no hemisfério norte, por volta do dia vinte e dois
de dezembro. Munida de conhecimento, Luzia ainda
escreveu que na Roma antiga eram celebrados dois
grandes festivais, a saturnália, de dezessete a vinte e
três de dezembro, e o sol invictus, no dia vinte e cinco
de dezembro, numa homenagem ao sol que vence o
inverno. Luzia escreveu ainda que o dia vinte e cinco
de dezembro seria também a data do deus persa Mi-
tra, o sol da virtude. Obviamente que Sideane, com a
ajuda e a cumplicidade da amiga, acabou por explanar
a matéria de forma diferente; porém, no seu cômputo
geral convergindo, contrariando os demais colegas de
turma, os quais foram unânimes ao escreverem que o
Natal se comemorava no dia vinte e cinco de dezem-
bro por ser o dia do nascimento de Jesus Cristo.
Por falar em Jesus Cristo, a professora quis saber
na história do Natal onde ele configurava, e Luzia,
como amiúde uma estudiosa primorosa, não claudi-
cou em relatar seus conhecimentos ao escrever de
forma categórica que a Igreja Católica, ao aproveitar
a tradição das festas supracitadas, achou por bem afir-
mar que o menino Jesus houvera igualmente nascido
na mesma data, ainda assim Luzia ousou ao escrever
para enorme surpresa da professora que haviam algu-
mas evidências clarividentes do nascimento de Jesus
Cristo não se ter dado sequer no mês de dezembro.
A professora ficou estupefata com a resposta de
Luzia, que ainda escreveu sobre a mesma questão que
a Bíblia Sagrada sempre citou e ainda cita pastores fa-
zendo vigília à noite com ovelhas no dia do nascimen-

30
to de Jesus Cristo, porém nessa época do ano essas vi-
gílias não eram comuns por causa do frio, e tudo ainda
seria polêmico, e que essa dúvida ainda existia até os
tempos atuais, não obstante os estudos inconclusivos
e até várias discussões dos estudiosos da própria Bíblia.
Outras questões foram suscitadas pela professo-
ra, às quais Luzia não titubeou nas respostas. E assim
Luzia havia conseguido suplantar os demais colegas,
ficando em primeiro lugar na prova, sendo acompa-
nhada por Sideane, obviamente em segundo lugar,
que em muito devia seu sucesso à cumplicidade e à
ajuda preciosa da amiga.
Ao tomar conhecimento do sucesso da filha, Nilda
uma vez mais sentiu orgulho, para logo esquecer o que
a preocupava: o uso excessivo do computador por parte
da filha. Seu esquecimento foi apenas temporário.

**********

Nilda acabara de chegar na agência bancária em


cima do horário.
Do lado de fora da agência já se encontrava um
apinhado de clientes esperando pelo horário de abertu-
ra. Enquanto isso, em seu interior, Nilda logo se sentou
no lugar que lhe era adstrito, como de costume: o caixa
de número três. Enquanto executava suas tarefas roti-
neiras, a colega do lado estranhou seu comportamento.
Diante disso, preocupada, dirigiu-lhe a palavra.
– Ei, amiga, tudo bem contigo? – quis saber.
Nilda admirou-se.

31
– Mas é claro que estou bem. Por que me pergun-
tas? – disse-lhe depois.
– Sei lá. Estou aqui faz tempo olhando para tu
fazeres as coisas. No teu jeito.
– Que jeito, amiga?
– Tu não costumas ser assim. Sempre que che-
gas falas comigo e hoje nem água vai, nem água vem.
Nem que seja para dizer bom dia.
– E eu não te disse bom dia, Clarice? – admirou-se.
– Mas é claro que não. Eu até estranhei, mas não
quis dizer nada. Pensei que com o tempo falasses, mas
tu continuas muda. Resolvi te questionar. Por acaso
estás com algum problema?
– Não, não estou – foi taxativa. – Hoje já és a se-
gunda pessoa que me faz a mesma pergunta.
– Afinal não sou só eu que reparo em ti. Por isso
estou preocupada contigo. Olha que não é à toa, amiga.
Dissimulando, Nilda riu alvar. A seguir, esclareceu.
– Não careces de ficares preocupada. Somente acor-
dei com um forte sentimento de nostalgia. só isso – disse.
– Nostalgia? – Clarice comprimiu o rosto. – Nos-
talgia do falecido, hein?
– Hã, hã!... – acenou positivamente a cabeça. –
Como sinto a falta dele, Clarice.
– Nilda, Nilda – Clarice fez um ar forçadamente
fraternal. – Olha que eu te conheço há muito tem-
po. Inventa outra desculpa. Podes até sentires saudade
dele, mas essa cara esconde algo mais. Os teus olhos
não enganam.
– E dá para perceber?

32
– Nós somos colegas e acima de tudo amigas. Eu
te conheço muito mais do que possas imaginar. Anda,
amiga, desabafa – estimulou-a.
– Está bem – Nilda admitiu após alguns segundos
de silêncio. – Estou preocupada com a minha filha. –
seu timbre de voz denunciava apreensão.
– A tua filha? Ela aprontou, foi?
– Ainda não, Clarice, ao que eu saiba.
– Como assim? Confesso que não estou enten-
dendo, amiga.
– Podemos falar no almoço? Agora está na hora
da agência abrir as portas e como de costume tem um
montão de pessoas lá fora.
– Sim, podemos, amiga. Nesse caso vou almo-
çar contigo, já que indiretamente me convidaste.
Vai ser até bom, porque também estou precisando
conversar para desabafar. O meu casamento vai de
mal a pior.
– Olha que eu não sou boa conselheira, amiga.
Clarice ofereceu um sorriso.
– Mas és uma boa amiga, e isso já é o bastante
para mim – disse a seguir.
Como reação, Nilda ofereceu um sorriso de grati-
dão. Enquanto o fazia, escutou seu celular tocar. Verifi-
cou na tela quem era para logo colocar o aparelho junto
ao ouvido, com o intuito de atender. Falou baixinho.
– Pronto – disse.
– Olá, meu amor. Tudo bem contigo? – pergun-
tou a pessoa do outro lado da linha.
– Depois de escutar a tua voz doce, tudo melhorou

33
– Nilda respondeu de olhos brilhantes e voz excitada.
Do outro lado da linha, escutou-se um sorriso
mesclando a brincadeira à cumplicidade.
– Só eu mesmo para alegrar o teu dia – disse a
seguir a pessoa.
– Não tenhas dúvidas, meu amor. Não tenhas dú-
vidas…O que queres a esta hora?
– Além de te desejar um bom dia, queria te con-
vidar para almoçares comigo.
– Ah, meu amor! Hoje não vai dar certo. Já tenho
um compromisso com o pessoal da agência. Pode ficar
para mais tarde?
– Mas é claro que pode, meu amor. Eu com-
preendo.
– Ainda bem. Vou ter que desligar. Mais tarde te
ligo para combinarmos. Cheiro, meu amor.
A ligação foi cortada.
Ao retornar para o seu posto, Clarice brincou.
– És tu com saudades do falecido e o atual com
saudades tuas – dito isso, riu matreira.
Nilda ficou em silêncio, oferecendo somente um
sorriso de cumplicidade, como corroborando com as
palavras de Clarice. Até que a ligação acabou por se
tornar um bálsamo para o início de mais um dia es-
tressante. Em pouco tempo, Nilda já se encontrava
compenetrada em suas tarefas, até que a dada altura
escutou o telefone de sua escrivaninha tocar. Pelo nú-
mero no visor, ficou sabendo que quem lhe ligava era
o gerente da agência. Pressurosa, atendeu.
– Pois não, senhor Pedro – disse.

34
– Muito bom dia pra senhora também – bem-hu-
morado, o gerente brincou.
Ela ficou sem jeito.
– Ah, sim, desculpe. Bom dia pro senhor também
– disse a seguir.
– Como é que está a senhora?
– Estou bem, senhor Pedro – ressabiada, respon-
deu, estranhando a forma como o gerente a tratou.
Ele nunca se prestara a uma gentileza extrema como
aquela. Olhou de soslaio para a colega, que não repa-
rou, já que se encontrava absorvida atendendo o pri-
meiro cliente.
– Mas vai ficar melhor com a notícia que eu te-
nho para lhe dar – disse o gerente.
– Que notícia? – confusa e simultaneamente res-
sabiada, Nilda pensou rápido, para logo de rosto ligei-
ramente cético indagar o gerente da agência: – Uma
notícia? Mas que notícia, senhor Pedro? Pelo tom de
sua voz, só pode ser boa.
– Boa não, é ótima, dona Nilda!
– Ótima? – ressabiada, perguntou.
– Sim, dona Nilda, a notícia que lhe tenho para
dar a vai deixar alegre e pulando de alegria. Pode vir
rápido até a minha sala, por favor.
– Mas… e o meu lugar?
– Não se preocupe, já está chegando alguém aí
para a substituir. Venha rápido, por favor.
– É pra já, senhor Pedro.
A ligação foi cortada.
Ainda ressabiada, Nilda virou-se para a colega

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para lhe dar a notícia, mas Clarice encontrava-se de-
masiadamente ocupada. Ela esperou que o substitu-
to chegasse, foi quando saiu. Instantes depois, batia à
porta do gabinete do gerente da agência.

**********

Depois de autorizada, Nilda adentrou a sala do


gerente da agência, que, sem perder tempo, virou-se
para lhe dizer num tom de voz eloquente:
– Dona Nilda, antes mesmo que a senhora se sen-
te, permita-me que lhe dê um abraço de parabéns. A
senhora concede-me esse privilégio?
Ressabiada e simultaneamente confusa, surpresa
com o pedido, Nilda permitiu.
– Pode, sim, senhor Pedro – disse, autorizando.
O gerente levantou-se e estendeu os braços. Os
dois se abraçaram, quando Nilda foi puxada até um
sofá próximo, onde se sentaram um do lado do outro.
A seguir, o gerente olhou-a profundamente. Seu rosto
exibia uma alegria indizível e satisfação.
– Por que me olha assim, senhor Pedro? – ainda
ressabiada, quis saber.
– A senhora é uma batalhadora, sabia?
Ela contorceu o rosto.
– Faço sempre o meu melhor – cautelosa, arris-
cou dizer.
Analítico, ele sorriu.
– A senhora não sabe, mas eu ainda não tenho
sessenta anos, mas para lá caminho. Atingi o limite

36
para me aposentar. Como prestei serviço na marinha
e com o tempo que tenho na instituição decidi entrar
com o pedido da minha aposentadoria. É um direito
meu, do qual não prescindo – disse a seguir.
– Já, senhor Pedro? – admirou-se.
– Já, sim, dona Nilda.
– E? – ficou na expectativa.
De novo, ele sorriu analítico.
– Daí que ontem recebi a notícia de que me foi
concedida a aposentadoria. Ou seja, tenho poucos
dias de trabalho – disse, confirmando.
– Pelo que estou vendo, é mesmo.
– Indubitavelmente, dona Nilda. Vou ficar no co-
mando desta agência até o final do mês. A seguir, vou
gozar meu merecido descanso junto da minha família.
– Nesse caso, está de parabéns – ainda cautelosa,
felicitou-o.
O gerente ofereceu mais um sorriso.
– Muito obrigado, dona Nilda. Muito obrigado –
disse depois.
– Afinal, senhor Pedro, o senhor não me chamou
até aqui para me dizer somente que se vai aposentar,
não é verdade? – fez uma curtíssima pausa. – Aliás, o
senhor até já me deu os parabéns. Se ainda não sabe
o meu aniversário não é hoje e nem está tão próximo
assim – sutil, lançou o ônus.
Matreiro, o gerente riu.
– É justamente por isso que eu gosto muito da
senhora e da sua perspicácia. Não foi à toa quando
informei a diretoria do banco minha intenção de me

37
aposentar e a indiquei para ocupar meu lugar no co-
mando desta agência – disse-lhe a seguir.
Surpresa com a revelação, Nilda quase ficou sem
palavras.
– Eu… eu… o senhor…
– Isso mesmo, dona Nilda – confirmou com um
leve aceno de cabeça. – O que você acabou de escutar.
Faz alguns dias que tomei conhecimento de que a minha
indicação havia sido aceita pela diretoria regional e pela
estadual também. Eu mesmo indiquei a senhora para
me substituir no cargo. A senhora é uma excelente fun-
cionária e uma ótima pessoa. Dispensado seria fazer sua
apresentação, a diretoria conhece bem o seu empenho e
a sua dedicação como funcionária da instituição. É um
reconhecimento merecido, e muito bem merecido, não
tenho dúvidas quanto a isso, assim, como de antemão, sei
que jamais me arrependerei de a ter indicado.
Impressionada com os rasgados elogios do gerente,
sem saber como reagir, Nilda esboçou uma tímida reação.
– Mas…, mas, senhor Pedro… eu não… – disse.
Não conseguiu terminar. Polido, o gerente perce-
beu quando a interrompeu. Circunspecto, disse-lhe:
– Ande, lá aceite! Não deixe escapar uma oportu-
nidade como esta. Sabe que é também uma forma de
progredir na instituição. Vai ser um excelente desafio
e quem sabe galgar degraus maiores, uma diretoria na-
cional. Quem sabe?
Ela nada disse, somente deixou escapar um leve
sorriso alvar. Ele prosseguiu fazendo valer seu ponto
de vista e simultaneamente incentivando-a.

38
– Se vier a aceitar, o que eu espero, sua visão será
outra. É um outro mundo. É lógico que suas responsa-
bilidades vão aumentar, mas seu salário também. Será
um desafio estimulante. A senhora sabe o que significa
tudo isso, não sabe?
Fez-se um curto silêncio. O gerente respeitou,
pois sabia que Nilda precisaria daquele momento para
refletir sobre suas palavras, bem como sabia que ela
falaria em pouco tempo. Encontrava-se certo. Nilda
realmente pretendia falar. E, quando o fez, munida de
emoção e ligeiramente comovida, acabou por dizer:
– O senhor não imagina quanto me orgulha esse
convite.
– Convite não. Indicação – deu saliência ao corrigir.
– É verdade – forçou um sorriso. – É verdade,
senhor Pedro.
Os dois falaram um pouco mais. Nilda a seguir
deixou a sala do gerente visivelmente satisfeita. Pela
primeira vez nos últimos anos uma notícia boa. Ali-
viada, suspirou profundamente, passou as mãos pelo
rosto, para logo agradecer aos seus santos e anjos. Ela
jamais havia especulado que um dia fosse contempla-
da com tamanho reconhecimento, mas já que fora por
que não aproveitar a oportunidade que lhe fora dada
de mão beijada? Rápido pensou.
Nunca fora uma realização pessoal almejar e vir a
desempenhar um cargo de tamanha magnitude, mas,
já que fora indicada e aceita, doravante empenhar-se
-ia com unhas e dentes, decidiu ali mesmo. Porém,
havia algumas questões ainda a serem resolvidas, não

39
só em termos profissionais, mas também familiares. O
comportamento da filha e, em especial, uma situação
que havia muitos anos encontrava-se cravada em sua
garganta. Faltava pouco para descobrir a verdade so-
bre a morte de sua irmã da qual tinha a certeza ser
o religioso seu responsável, e esperar pelos próximos
passos a serem dados quanto à sobrinha Rebeca, no
sentido de desmascarar o pai biológico, o religioso.
Disso, Nilda não abdicava. Jamais.
Rapidamente, Nilda retornou ao posto de traba-
lho para dar conhecimento das novidades a Clarice,
que obviamente vibrou com a notícia; todavia, em seu
íntimo, sentiu um pouco de inveja da amiga.

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Capítulo 3
Na hora marcada, Nilda e Clarice encontravam-
se juntas degustando a refeição em um restaurante
próximo da agência bancária. Malgrado a surpresa da
sua indicação para assumir a administração da agência
bancária, Nilda continuava exibindo um semblante
de quem se mostrava preocupada o bastante, a pon-
to de não ser despercebida por Clarice, uma mulher
de pouco mais de cinquenta anos, cabelos pintados
de castanho, olhos pretos, feições suaves, divorciada e
mãe de duas filhas menores.
Denotando o rosto de preocupação da colega de
trabalho, Clarice, como quem não queria, mas que-
rendo, puxou conversa. Disse:
– Tu com uma notícia dessas não mudas sequer o
teu semblante. O que te preocupa?
Nilda dissimulou um sorriso, para em seguida rebater:
– Mas é claro que fiquei muito contente com a

41
notícia. Não sou hipócrita. O senhor Pedro demons-
trou ser uma pessoa sensata ao ter me indicado, mas
também acho que podia ter indicado outra pessoa, sei
lá… um dos nossos colegas mais antigos da agência.
Tu mesma, por que não? – disse.
– Humm!... Quem? Eu? Nunca passei disso e não
é agora que vou progredir na carreira – disse sem mui-
to entusiasmo.
– Já reparaste nas consequências da escolha do
senhor Pedro nos nossos colegas?
– Que consequências, Nilda? – contorceu o rosto.
– Desculpa, amiga, mas não estou entendendo aonde
estás querendo chegar.
– Talvez até não consigas atingir o alcance, mas
sabes muito bem que onde convivem várias pessoas,
no mesmo ambiente de trabalho que é o nosso, infe-
lizmente sempre há uns invejosos e maldosos fazendo
logo os seus comentários inoportunos e providos de
iniquidades quando o senhor Pedro der conhecimento
da novidade. Estás vendo, não é?
– Mas que comentários, Nilda? – dito isso, tossiu,
pois se havia engasgado ligeiramente.
Nilda, antes de responder, rápido se levantou
para socorrer a amiga, dando-lhe umas palmadas nas
costas. Ao vê-la recomposta, disse-lhe:
– Sabes muito bem que alguns colegas e até cole-
guinhas, sabendo do meu estado civil, são bem capazes
de dizerem por aí que eu tenho um caso com o senhor
Pedro e que ele me ofereceu o cargo só para transar co-
migo. Desses nojentos e invejosos, tudo se espera.

42
Para surpresa de Nilda, Clarice desatou a rir feito
uma louca. Várias pessoas próximas se assustaram com
a gargalhada dela, daí que olhares convergiram para a
mesa das duas. Encabulada, Clarice logo dissimulou,
mas já era tarde. Espantada com a reação da colega,
Nilda indagou-a.
– E tu estás rindo de quê? – quis saber.
– Até pareces uma criancinha com esses comen-
tários. Fica sabendo que ninguém na agência vai pen-
sar nisso, muito menos vai fazer comentários dessa na-
tureza. – dito isso, ainda sorriu um pouco mais.
– Humm!... pensas tu. Olha que nunca deves su-
bestimar as pessoas, Clarice. Nunca, estás me ouvindo?
– Como queiras, Nilda – disse sem muita von-
tade, para logo desviar a conversa. – Afinal, hoje de
manhã me disseste que querias falar comigo e que o
assunto era a tua filha – fez uma propositada e curtís-
sima pausa, para acrescentar em seguida: – O que está
te preocupando, Nilda?
Antes de responder, Nilda refletiu longamente.
Clarice respeitou. Persuasiva, Nilda respondeu:
– O que me preocupa é justamente a minha
filha – disse.
– Já me disseste isso hoje. Mesmo assim, o que tem
a tua filha para te deixar com esse ar de preocupada?
– Não sei… Sabes, desconfio de que ela esteja
mantendo contatos com alguém pela internet.
– Sim, e daí? – deu de ombros. – Eu mesma
não vejo nada de anormal nisso, sobretudo para uma
moça jovem da idade dela que simplesmente procura

43
expandir seu grupinho de amizades. É coisa de adoles-
cente mesmo.
– Coisa de adolescente? – disse com leve ironia.
– Eu acho, na minha percepção, que estás exage-
rando à toa, amiga- dito isso, levou o garfo à boca.
Nilda ficou pensativa. Seu olhar dava mostras de
que se aproximava da melancolia. A seguir, no mesmo
tom de voz, acabou por observar:
– Sei disso, Clarice. Hoje em dia os jovens têm
outras oportunidades de que nós, na idade deles, não
dispusemos. Na verdade, Clarice, acho, sim, muito nor-
mal eles se comunicarem pela internet, pelos celulares,
e agora essa coisa nova do zap... Mas o que me deixa in-
trigada e preocupada é que a minha filha todos dias fica
na frente do computador até altas horas da madrugada.
Só não posso garantir o horário exato porque o cansaço
me absorve tanto e acabo por adormecer.
Um olhar profundo de Clarice sinalizou qual se-
ria o conteúdo de suas próximas palavras.
– Volto a afirmar, amiga – prosseguiu. – Tu não
achas que estás exagerando? Olha que esse tipo de
comportamento é dela mesmo e de qualquer moça ou
moço da idade dela.
– Não sei, amiga. Não sei.
– Deixa de falar asneira, Nilda.
– Por que asneira, Clarice?
– É muito simples. As minhas filhas também ado-
ram ficar encaixadas – sorriu de leve – na frente do
computador, mas eu imponho limites. É claro que foi
difícil, mas graças a Deus cheguei a um acordo com

44
elas e hoje posso te garantir que controlo o horário e
elas não reclamam.
– E elas?
– O que tem elas?
– Quais foram as reações?
– Olha, como qualquer moça adolescente ofere-
ceram resistência, mas acabaram por entender a mi-
nha posição e papel de mãe protetora. Nada mais que
isso. Sempre ouvi dizer que tudo na vida tem priorida-
des. É só procederes de acordo com as prioridades que
tens para a tua filha e até para ti mesma.
– Ainda assim sabes que não é fácil, Clarice – cé-
tica, observou.
– Como assim não é fácil – comprimiu o rosto. – Afi-
nal, quem manda em casa és tu, que és a mãe dela, ou ela?
– Mas é claro que sou eu, Clarice – foi peremptória.
– Então, por que colocas resistência em ti mes-
ma? Por acaso a tua filha, além dessa tua suposta
preocupação – colocou sob acentuada ênfase as duas
últimas palavras –, dá mais algum tipo de problemas?
– Pelo contrário – meneou a cabeça. – A Luzia é
uma excelente filha – enfatizou.
– Então. Eu acho que estás exagerando.
Uma profunda reflexão acabou por absorver Nilda.
– Será? – a si mesma perguntou após vários se-
gundos em silêncio.
– Mas é claro que estás, amiga. Será que... Na
verdade, não estará faltando uma conversa franca e
aberta com a tua filha? – sugeriu.
– Quem sabe, Clarice. Quem sabe.

45
– Pois é, pelo menos admites. Confronta-a sobre
o uso excessivo do computador e sobre o que tanto
ela… – parou um pouco para procurar as palavras ade-
quadas à situação como forma de não constranger a
amiga – … pesquisa na internet.
– Mas como faço isso, amiga? Sabes, tenho receio
de a confrontar e até de a questionar e depois ela vir
a mudar seu comportamento. A Luzia não me dá um
pingo de trabalho em casa e na escola. Ela é uma ex-
celente aluna, conheço até alguns dos seus amigos, em
especial duas filhas de casais de boa índole, por acaso
clientes lá da agência, comerciantes bem-sucedidos da
cidade. As filhas do senhor Antônio e da dona Andreia.
– Conheço-os muito bem também. Gente boa.
– Pois é. Como vês, ela só anda bem acompanha-
da. Por esse lado ando tranquila, daí que receio que ela
possa não gostar de ser chamada a atenção.
– Ora, porra, Nilda! – admirou-se. – Até pareces
que não conheces a tua filha. Pelas tuas palavras, dás a
entender que ela não passa de uma estranha.
Nilda já ia falar, mas logo foi impedida por Clari-
ce, que prosseguiu:
– Puxa, Nilda, quem manda na tua casa é a tua
filha, hein? – disse.
– Já te disse que não – foi rude.
– Recebe as minhas palavras como uma crítica ou
não. Tu não queres o melhor para ela?
– É claro que eu quero, Clarice. Mas é que…
Foi interrompida de novo. Peremptória, Clarice
disse-lhe:

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– Se queres o melhor para ela, na minha perspe-
tiva, acho que estás somente protelando uma conversa
que há muito já deveria ter acontecido. Anda, sê fran-
ca e aberta com ela. Faz-lhe ver e encarar a realidade.
No meu ponto de vista, se souberes te expressar com
jeitinho, verás como a tua filha acabará por entender
e até te agradecerá por teres tomado a iniciativa. Nada
justifica esse teu receio. Vai por mim, amiga – dito
isso, depositou-lhe a mão em cima de sua mão, num
gesto de aparente estímulo e solidariedade.
Nilda nada disse, somente ofereceu um leve sor-
riso plácido. Como demorou a se manifestar, Clarice
prosseguiu, insistindo. Persuasiva, disse-lhe:
– Olha, amiga, estou vendo que está sendo difí-
cil convencer-te. Parece que o que te preocupa não é
propriamente o fato de tu vires a falar com a tua filha,
mas sim o medo de vires a descobrir com quem ela se
comunica pela internet. Estou certa?
Um olhar profundo foi a resposta. Clarice nem
precisou insistir na pergunta para escutar a resposta.
Bastava olhar para Nilda, seus olhos e seu rosto não dei-
xavam margens a dúvidas. No fundo, era justamente
esse o motivo de sua preocupação. Diante disso, ameni-
zou no tom de voz, que se aproximou do solidário.
– Por que demonstras claramente que a tua filha
deve estar falando com alguém, digamos… perigoso,
no teu ponto de vista?
– O meu sexto sentido me diz que sim. O meu co-
ração de mãe me diz que deve ser até alguém próximo
e de nossa inteira confiança.

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Surpresa com a dimensão das palavras da amiga,
Clarice engrolou a seguir.
– Alguém próximo? – quis saber.
– Hã, hã!... – confirmou com um aceno de cabeça.
– Nilda, Nilda. – sua voz saiu forçadamente fra-
ternal. – Sabes que, quanto a isso, terás de ter provas.
– O pior é que não tenho.
– Será um pedófilo? – cautelosa, Clarice arriscou
perguntar.
– Hã, hã!... – de novo, Nilda confirmou com um
aceno de cabeça.
Clarice ficou horrorizada. Desta vez, foi ela que
ficou em silêncio. Nilda, ao vê-la assim, prosseguiu.
– É justamente isso que eu mais temo. Eu sou
um ser humano falível como qualquer outro, todavia
meu coração de mãe me diz que a Luzia está se comu-
nicando com alguém próximo que nem sequer posso
descobrir quem seja, por enquanto. Um traste, um
maníaco, um sem futuro – disse.
Para Clarice as palavras de Nilda denunciavam
perigo, como também existiam nelas um pouco de
consistência. Ainda assim, uma dúvida pairava no ar
na mente confusa de Clarice: como a amiga tinha
tanta certeza em relação às suas suspeitas? Confusa, a
si mesma questionou.
– Por acaso a tua filha demonstra algum indí-
cio na mudança de seu comportamento? – pergun-
tou a seguir.
– Não, Clarice.
– Nesse caso, não sei o que dizer – observou mais para si.

48
– É justamente a ausência desses indícios que me fa-
zem ficar preocupada e assustada. Ela não me fala nada…
– E tu também não lhe perguntas, não é? – ironi-
zando, Clarice interrompeu.
Nilda engoliu em seco.
– E como ela não me fala nada... – disse a seguir.
– E nem esperes que ela o faça, amiga.
– O pior é que eu sei disso. A única coisa que sei
é que ela se tranca sozinha no quarto à noite para falar
no mínimo com um sem futuro.
– Como sabes disso?
– Olha, Clarice, é típico dos pedófilos esse com-
portamento, atraindo as vítimas num horário em que os
pais não controlam os movimentos dos filhos, em espe-
cial durante a noite. Posso confirmar pela noite passada.
– Como podes ter tanta certeza disso? Insisto.
– Uma amiga minha já passou por uma situação
idêntica.
Clarice endureceu a expressão. Cética, observou:
– Afinal, não são só o teu sexto sentido e teu co-
ração de mãe que te leva a pensar assim. – ergueu o
dedo indicador direito em riste, fazendo um sinal de
interrogação. – De que a tua filha esteja se comuni-
cando com um pedófilo, corrijo, um suposto pedófilo.
Afinal, uma amiga tua já passou por uma situação si-
milar, hein? – disse.
– No fundo, as duas, Clarice – Nilda admitiu.
– Bem, é uma situação esdrúxula. – fez uma cur-
ta pausa. – E o que pretendes fazer, já que tens medo
de abordar abertamente esse assunto com ela?

49
– Sinceramente, não sei. As minhas preocupa-
ções encontram-se noutra frente.
– Nem vou perguntar que frente é essa, para não
ser surpreendida com outras revelações – ironizou.
– É melhor não, Clarice – disse Nilda, que, en-
tretanto, também se encontrava absorvida com outras
preocupações, nomeadamente as relacionadas com a
morte da irmã e com o futuro da sobrinha, Rebeca.
Fez-se um silêncio gélido, porém curto. Clarice
já ia falar quando escutou Nilda adiantar-se.
– Sabes, Clarice, não entendo muito bem de
computador. Lá em casa, raramente mexo nele. Do
pouco que sei, é redigir um texto no Word e olhe lá.
Aliás, o computador está no quarto da minha filha e
só ela é quem mexe. Aqui no banco faço só o básico.
Perspicaz, Clarice leu os pensamentos da amiga.
Incisiva, disse-lhe:
– Estás querendo me dizer que pretendes espio-
nar o Facebook da tua filha antes mesmo de falares
com ela, é isso?
– Era o que eu menos queria fazer, mas é o que
devo fazer – voz abafada, confirmou com um leve si-
nal de cabeça.
Clarice refletiu por um longo tempo. O que a ab-
sorvia, só ela e Deus sabiam. Olhos coruscantes, Nilda
fitava a amiga com extrema curiosidade. Seu semblante
mais se assemelhava a um réu esperando por sua senten-
ça. Ao fim de algum tempo, Clarice quebrou o silêncio.
– É difícil entrares no Facebook da tua filha, mas
é possível. Como? Não sei, mas há-de aparecer uma

50
solução. Queres ajuda? – disse, propondo.
– Mas é claro que quero, Clarice, mas com uma
condição.
Clarice levou o dedo indicador até a boca, dando
a entender que havia compreendido a mensagem. Nil-
da forçou um sorriso.

**********

As duas rapidamente traçaram um plano, e, quan-


do já abandonavam o restaurante, o celular de Nilda
tocou. Rápido ela atendeu.
– Alô – disse.
– É a senhora Nilda Rodrigues? – alguém do ou-
tro lado da linha perguntou. Era a voz grossa de um
homem.
– Sim, sou eu – ressabiada, confirmou.
– O meu nome é Fagundes e sou oficial de justiça
– informou.
– Oficial de justiça? – num impulso, perguntou,
mais para si. O homem escutou.
– Justamente, senhora Nilda. Eu sou oficial de
justiça e estou de posse de uma intimação para lhe
entregar – foi seco.
– Uma intimação? Mas o que será? – assustada e
simultaneamente preocupada com a informação que
lhe pareceu sinistra, rápido, ela pensou.
Como ficou em silêncio, o oficial de justiça prosseguiu:
– Senhora Nilda, encontro-me aqui na agência
bancária em que a senhora trabalha. Gostaria de saber

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se vai demorar muito a retornar do almoço? Um cole-
ga seu me fez o favor de informar que a senhora havia
saído para o almoço – disse.
– Já estou retornando, senhor…
– Fagundes – frio, completou.
Nilda forçou um sorriso. A seguir, quis saber:
– Mas o senhor Fagundes pode me adiantar do
que se trata, por gentileza? – disse.
– A senhora vai me desculpar, mas prefiro lhe fa-
lar pessoalmente. Vou aguardar pela sua chegada. Es-
pero que entenda a minha posição.
Mesclando a frustração à ansiedade, Nilda engo-
liu em seco, trincando os dentes de raiva.
– Aguarde-me, por favor. Já estou a caminho –
confirmou em seguida.
– Como queira, senhora Nilda.
A ligação foi cortada.
“Mas que homem mais antipático”, rápido pen-
sou, enquanto estugava o passo na companhia da cole-
ga, a quem acabou por narrar o teor da conversa man-
tida com o oficial de justiça.
Se a curiosidade matasse, àquela hora Nilda já es-
taria morta, mas como não matava nem para lá cami-
nhava limitou-se a esperar até se encontrar com aquele
homem de voz grossa e para lá de antipático, segundo
seus tenazes pensamentos. A partir daquele momento,
suas pernas passaram a caminhar velozmente, nem ela
mesma sabia como adquirira tanta velocidade.
Com alguma dificuldade e bastante reclamação,
Clarice acompanhou a amiga.

52
**********

Esbaforida, Nilda finalmente chegou à agência.


Rapidamente foi ao encontro do oficial de jus-
tiça, que, ao concluir se tratar da pessoa com quem
realmente pretendia falar, logo se ergueu.
– Boa tarde, senhora Nilda Rodrigues – frio, a
cumprimentou enquanto exibia as credenciais.
– Boa tarde, senhor Fagundes. Então o senhor tem
uma intimação para mim. Do que se trata, por gentile-
za? Já me pode dizer, não é verdade? – ansiosa, conse-
guiu dissimular a enorme apreensão que já a dominava.
O oficial de justiça engoliu em seco a indireta.
– Estou com um mandado de intimação proferi-
do por um juiz da vara de execuções da capital – disse.
– Pois não. E do que se trata?
Antes de responder, o oficial de justiça exibiu a
intimação, a qual era composta por vários documen-
tos, o respectivo mandado e o motivo da gênese do
mesmo. Sem delongas, Nilda pegou no mandado, e,
antes que lhe pusesse os olhos, ele deu inicio à expla-
nação de seu conteúdo. Lacônico, disse:
– Um cidadão de nome Francisco Viegas está re-
clamando na justiça o pagamento de várias promissó-
rias assinadas pelo senhor Marcos Rodrigues no valor
de cento e oitenta e nove mil reais, mais juros.
Ao escutar as palavras do homem ali na sua fren-
te, Nilda rapidamente sentiu o chão lhe fugir dos pés.
Seu rosto endureceu, passando a exibir choque e in-
credulidade. O oficial de justiça percebeu a súbita

53
mudança de Nilda, ele que havia muito se encontrava
preparado para ser lógico e objetivo, desenvolvendo
capacidades e habilidades para lidar com o território
da emoção, daí que, indiferente à reação de Nilda, dis-
se-lhe no seu habitual tom de voz frio:
– Aqui neste mandado consta que o senhor Mar-
cos Rodrigues é seu marido e que…
Furiosa, possuída por uma força até então ignora-
da, Nilda assustou o pobre coitado ao lhe dizer com a
voz estridente:
– Esse senhor foi, sim, meu marido! Esse canalha
até morto me dá problemas!
– Desculpe, mas eu nada tenho a ver com isso.
Apenas estou aqui cumprindo o meu trabalho e dever.
Cabe à senhora resolver a questão, já que aqui consta
que foi casada no regime de comunhão de bens com
o senhor Marcos Rodrigues. Portanto, a senhora é cor-
responsável por essa dívida – cortou qualquer possibi-
lidade de estender a conversa, mas ainda assim Nilda
não se deu por vencida.
– Mas eu nada assinei, muito menos estas promis-
sórias assumindo dívidas daquele canalha, tampouco
conheço quem seja a pessoa que as estão reclamando
– nervosa, disse com desdém.
Ainda indiferente à situação, o oficial de justiça
foi mais frio ao observar:
– Não cabe a mim fazer juízo de valor de quem
quer que seja, muito menos avaliar a situação em dis-
puta. O meu trabalho aqui limita-se a entregar e dar
conhecimento da decisão do juiz que proferiu o que

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está escrito no mandado. Afora isso, não é da minha
competência, senão corro o risco de estar extrapolan-
do minhas funções – disse.
– Desculpe, senhor. É que eu estou muito nervo-
sa e fui apanhada de surpresa.
– No mandado de execução constam as notas
promissórias assinadas pelo seu marido e pela senhora.
Pode verificar…
– Mas eu nada assinei, senhor – brusca, ela in-
terrompeu.
– Já lhe disse que não cabe a mim fazer juízo de
valor seja de quem for, muito menos avaliar a situação.
Ponto-final. A senhora tem dez dias corridos para se
defender. É justamente por isso que lhe estou dando
conhecimento dessa intimação, lhe dando o direito de
defesa consagrado na lei. Deverá constituir um advo-
gado ou, caso não possa pagar a um advogado, um será
designado pela defensoria.
Diante das palavras sérias e olhar penetrante do
oficial de justiça, Nilda sabia que não lhe valeria de
nada protestar. Encontrava-se perante um fato consu-
mado. Diante disso, e ocultando mal o seu nervosis-
mo, tentou contemporizar ao observar com a voz que
o medo abafava:
– Qual o risco que eu corro caso não apresente a
minha defesa? – quis saber.
Enfático, o oficial de justiça respondeu:
– Se não o fizer dentro do prazo que lhe é dado
pelo juiz, assume o risco de confirmar o que consta no
pedido feito pelo credor, e mais: poderá vir a perder

55
seu apartamento, já que ele foi dado como garantia
para o pagamento das promissórias.
– Como é que é? – incrédula, perguntou altean-
do a voz.
O oficial de justiça fez cara feia. A seguir, disse:
– O que a senhora acabou de escutar. Foi dado
como garantia ao não cumprimento da dívida um
apartamento, que presumo ser sua morada. Consta
também aí no mandado a autorização dada pela se-
nhora quanto à penhora do imóvel.
– Eu não posso crer numa coisa dessas. Até o aparta-
mento? Como, se ele é a minha residência e único bem
que tenho? Eu nem sequer assinei essa autorização.
– Mais um motivo para que a senhora constitua
um advogado e faça o quanto antes a sua defesa, pois,
caso contrário, o juiz poderá vir a validar o pedido fei-
to pelo credor, e isso acarretará necessariamente a per-
da do seu apartamento. A senhora vai querer perder,
como acabou de afirmar agora mesmo, o seu único
bem? Justo o seu apartamento? Vai querer que isso lhe
aconteça se tem a possibilidade de se defender?
Ao escutar as palavras do oficial de justiça, Nilda
sentiu uma vez mais o chão lhe fugir dos pés. Teve de
ser amparada pelo homem ali na sua frente. A seguir,
já recuperada, veio-lhe naturalmente uma vontade in-
contida de chorar, mas segurou-se.
Não querendo prolongar mais aquele calvário,
mais um, já não lhe bastava ter perdido a irmã, rápido
pensou, sem sequer se lembrar mais do marido, ainda
ter que ser responsabilizada por um pagamento que

56
nem sequer lhe dizia respeito, logo assinou a intima-
ção e se despediu friamente do oficial de justiça. A
seguir, num ato involuntário, correu com os papéis na
mão até ao banheiro.

**********

No interior do banheiro, Nilda olhou para o espe-


lho, vendo refletido seu rosto. Parecia ter envelhecido
dez anos logo após haver recebido, com profunda re-
volta e tristeza, a notícia pelas mãos do mandatário da
justiça. Mais um golpe.
Chegou a borrifar água no rosto como forma de
amenizar a pressão a que fora submetida. Ali, naquele
lugar, estava sendo difícil assimilar e, em certa medi-
da, estava também sendo difícil esquecer as palavras
do oficial de justiça, que insistentemente faziam eco
em seus ouvidos.
Sem se dar conta, Nilda era torturada pelos seus
próprios pensamentos. Seus olhos azuis acabaram por
deixar escapar várias lágrimas. Seu rosto em pouco
tempo ficou molhado, até os cantos da boca. Como
ficara ainda mais difícil a sua situação. Primeiro, a
morte misteriosa da irmã, vinte e quatro anos atrás,
depois a morte do marido, se bem que ali mesmo ela
acabasse por dissipar de vez todas as indeléveis lem-
branças daquele, e como ele, sim, acabara por pagar
com seus desmandos; aliás, a forma como o marido
perecera fora, sim, um justo golpe, assim ela conside-
rou naquele seu estado lastimável, e agora como co-

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rolário de tudo a presença do representante da justiça
com mais um golpe.
Depois de se entregar a uma profunda reflexão,
Nilda chegou à conclusão de que cada palavra escu-
tada da boca do mandatário da justiça havia-a atingido
em cheio, como se fosse um punhal. Chegou a morder
os lábios de tanta raiva, esperando que aquele pesadelo
se dissipasse o mais rápido possível. Ela sabia que neces-
sitaria de muita força para aguentar tanto sofrimento.
“Por que o Marcos fez isso comigo? Por quê?
Por quê? Será que eu merecia isso? Por quê?... E ago-
ra, o que eu faço? Depois de receber uma notícia tão
boa do senhor Pedro, ser confrontada com uma trai-
ção destas? Por quê? Por quê? Já não me bastam as
preocupações com a Luzia, ainda ter que encontrar
uma forma de vingar o canalha que provocou a morte
da minha irmã ? E agora mais esta. Por que isso tudo
comigo?...”- em desespero, de um extremo ao outro
em seus questionamentos, quando sem aviso prévio
um vislumbre, uma lembrança do atual namorado
lhe ocorreu. Um bem-sucedido empresário da capi-
tal, tal qual como ela, viúvo e quase da mesma idade.
- “…Mas é claro! Como não me lembrei antes! Eu
vou falar com o Rui. Quem sabe ele me ajuda e me
dá uma orientação. Tenho de me controlar. É isso,
eu vou falar com o Rui”.
Imbuída desse espírito, de novo borrifou água no
rosto e passou um pó como forma de dissimular a ima-
gem pesada que deixara após chorar copiosamente. A
seguir, abandonou o banheiro.

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Enquanto caminhava para o posto de trabalho,
Nilda ficou com uma tênue sensação de alívio, a pon-
to de ali mesmo ligar para Rui, porém o namorado
não atendeu. Ela não se importou, pois sabia que ele
lhe retornaria assim que lhe fosse permitido, como
amiúde fazia.
Seria a sua tábua de salvação? Conhecendo-o
como o conhecia, Nilda acreditava piamente que sim.
O resto da tarde transcorreu com uma moderada
tranquilidade, pese embora aqui e acolá em vislum-
bres rápidos os acontecimentos após o almoço inva-
dissem sua mente. Rapidamente, Nilda os descartava
para se compenetrar no que fazia.

**********

Durante a tarde, o namorado de Nilda acabou


por responder ao seu chamado. Os dois combinaram
por bem se encontrarem no apartamento de Nilda,
vez que ela demonstrou claramente não se encontrar
em condições emocionais para enfrentar uma viagem
de pouco mais de cem quilômetros, para depois retor-
nar à sua cidade altas horas da noite. Foi melhor as-
sim, e agora, na noite prazerosamente fria, tanto Rui,
um homem de compleição robusta, olhos castanhos
e cabelos grisalhos, rosto enrugado, quanto Nilda en-
contravam-se no apartamento dela, deitados na cama
da suíte do casal.
Quando Rui chegou ao apartamento, logo cum-
primentou Luzia com um beijo afetuoso em sua testa

59
e ofereceu-lhe uma caixa de chocolates, sendo ime-
diatamente correspondido com um abraço afetuoso e
jovial sorriso.
Luzia agradeceu e logo deixou à vontade os dois,
quando se deslocou para o aposento, onde se posicio-
nou na frente do computador. Agora, respaldada com
a presença da mãe, Luzia, como recorrentemente
fazia, não perdeu tempo, ligou o computador, aguar-
dando ansiosa que a página do Facebook surgisse pre-
cisa na tela. Para sua imensa tristeza, Maxuel não lhe
deixara pela primeira vez uma mensagem, tampouco
nessa mesma noite sequer dera sinal de vida. Ela estra-
nhou, justo Maxuel, que nos últimos tempos insistia
em suas investidas.
“Será que o Max ficou zangado comigo por não
me encontrar logo com ele? Eu gosto dele, mas tam-
bém tenho de fazer as coisas para não chamar a atenção
da mãinha…”, consigo mesma falou, para logo desviar
sua atenção. Sideane acabava de dar sinal de vida.
As duas falaram o resto da noite.

**********

Depois de enamorarem por alguns minutos e


uma vez que Nilda não se esmerara como de costu-
me, Rui, que conhecia muito bem a mulher ali do seu
lado, sabia que ela se encontrava com algum proble-
ma e que nesse sentido pretendia desabafar, daí que,
fazendo uso de um tom suave e bondoso na voz, in-
centivou-a a falar. Disse-lhe:

60
– Pelo tom da voz no teu telefonema, pude reparar
que te encontras com algum problema grave. É verdade?
– Uma desgraça nunca vem só – Nilda respondeu
num impulso.
O namorado comprimiu o rosto, porém con-
servou-se em silêncio, numa atitude expectante e de
respeito. Nilda olhou para ele com ar de interrogação
e levantou os ombros num gesto de conformismo. A
seguir, disse-lhe:
– Um problema não! Um problemão, meu amor!
Desta vez, quem a olhou profundamente foi ele,
reparando quanto ela lhe pedia socorro só pelo sim-
ples olhar. A seguir, começou a fazer carinhos força-
dos enquanto lhe falava. Sua voz saiu forçadamente
fraternal.
– Não fiques assim. Anda, conta-me o que está se
passando. Prometo te ajudar.
Ela forçou um sorriso para se entregar a uma pro-
funda reflexão. Ao fim de vários segundos, acabou por
narrar os acontecimentos do dia. Todos, sem exceção,
os bons e os menos bons. Enquanto o fazia, sem se
dar conta, sua voz foi ficando entrecortada e embar-
gada. O namorado apurou os ouvidos, escutando com
atenção, sem a interromper. Só se manifestava quando
instigado por ela.
Ao final, Nilda experimentou uma sensação de
alívio ao ter garantias da ajuda de Rui, que ofereceu,
inclusive, seu advogado pessoal. Ela aceitou a oferta
sem claudicar.

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Para surpresa de Nilda, o falecido marido não
passava de um perdulário, de um viciado compulsivo
jogador de baralho, onde acabou por perder grandes
quantias de dinheiro, comprometendo sua situação e
a da filha também, a quem Nilda decidira omitir por
enquanto a verdade.

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Capítulo 4
Mais um dia começou. Havia um orvalho sobre
os carros, as nuvens pareciam nessa manhã artificial-
mente nítidas em sua solene procissão pelo céu. O sol
já expelia seus raios oblíquos, os quais atingiam o chão
formando várias figuras.
Sentado em seu escritório, Rui telefonou para o
advogado. Francisco Dantas, o advogado, mostrou-se
satisfeito por ouvi-lo.
– Faz muito tempo que não nos falamos. Quem é
vivo sempre aparece, nem que seja ao telefone – brin-
cou. – Está tudo bem, doutor Rui?
O empresário forçou um sorriso. A seguir, brin-
cou também.
– Não estou tão bem quanto o senhor, mas estou
bem – disse.
– Quanta gentileza da sua parte, meu caro amigo
– disse o advogado enquanto sorria.

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– Sabe, doutor Francisco Dantas, estou precisan-
do de mais um favor.
– Sou todo ouvidos, meu caro amigo. Sabe que
para o senhor não costumo nem consigo dizer não.
Ande, desembuche.
Desta vez o empresário segurou um sorriso. A se-
guir, prosseguiu:
– Sabe, doutor, eu tenho uma amiga…
A ligação foi cortada.

**********

Sentado, o causídico, um homem alto e corpu-


lento, cabelo branco e liso, na faixa dos setenta anos,
acabou por mergulhar numa profunda reflexão.
Aquela história de Nilda lhe pareceu familiar, daí
que soltou um sorriso discreto. Além de lhe parecer
familiar, a priori, pelas palavras do empresário, o caso
também lhe pareceu ser de fácil resolução: um marido
que assinara promissórias falsificando a assinatura da es-
posa, que dera como garantia o único bem e moradia
do casal, sem o conhecimento e consentimento dela.
Com a tarimba, os conhecimentos e a influência
que detinha junto ao judiciário, a vitória estava garan-
tida. Ele tinha certeza absoluta quanto a isso, porém
o que chamou a atenção do causídico foi o fato de
seu cliente haver afirmado se tratar de uma amiga,
quando, na realidade, se tratava de sua namorada. O
causídico conhecia muito bem Nilda e seu falecido
pai, já que era filho da mesma cidade. Para si mesmo

64
guardou essa informação. A seguir, deu de ombros.
A aura de mistério envolta na questão acabou por
cativar o interesse do advogado; todavia, o mais im-
portante se relacionava às avultadas quantias de que
era beneficiado com os honorários de seu cliente, e
isso encerrava qualquer discussão a respeito. Era um
exímio profissional, e seu trabalho, por mais fácil ou
difícil que fosse, tinha de ser respeitado e recompensa-
do. Sem perder tempo, o advogado ligou para Nilda, a
qual ficou com a nítida sensação, um déjà-vu, de que
conhecia aquela voz. Os dois marcaram para o final
dessa tarde um encontro no escritório do causídico.
Aliviada, Nilda seguiu para a agência bancária
com outro semblante.

**********

Sentado defronte à sua escrivaninha, Rui, além


de afundar na poltrona, acabou por se isolar num pro-
fundo mutismo. O que o absorvia, só ele e Deus sa-
biam. Todavia, o mais recente problema da namorada
e suas preocupações em relação a Luzia faziam parte
de seus pensamentos.
O empresário chegou a construir a imagem men-
tal da cena em que na noite de véspera presenciara in
loco Luzia com a caixa de chocolates, do seu sorriso
angelical, do rosto de gratidão ao receber o presente,
bem como se sentiu solidário com o sofrimento da na-
morada ao saber que fora enganada pelo marido.

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Subitamente, um calafrio horripilante cortou-lhe
as costas, para logo descartar, porém ele sabia muito
bem por que fora acometido daquela estranha sensa-
ção. Não sabia por que, mas ali mesmo pôde constatar
que não conseguia conviver com a ausência do amor
de Nilda, como também não entendia o motivo de
se relacionar com outras duas mulheres. Estaria demi-
tindo Nilda do seu coração ao enganá-la? Não sabia
explicar, mas algo de extraordinário existia naquela
mulher de olhos azuis que o impelia constantemente
até ela. Não era somente o sexo proporcionado, mas
havia algo inexplicável, que fazia com que Nilda não
representasse uma simples aventura, mais uma.
Sem aviso prévio, uma lembrança do assunto de
que havia muito Nilda o convencera a ajudar nas suas
investigações, a descoberta da verdade sobre a morte
da irmã e o segredo por detrás da sobrinha que propo-
sitadamente e a pedido de Nilda passou a trabalhar na
sua empresa como forma de alcançar os objetivos da-
quela sem que Rebeca pudesse descortinar que fosse
parente próxima da namorada de seu patrão.
Absorvido em seus pensamentos, foi compelido
a desviar a atenção. O interfone pessoal soou. Era a
secretária pessoal, Rebeca. Ele atendeu, rindo, por
causa da coincidência.
– Engraçado, dona Rebeca, estava pensando na
senhora agora mesmo e a senhora liga para mim. Pa-
rece que foi telepatia.
Ela segurou um sorriso. A seguir, disse:
– Quem sabe, doutor.

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– O que deseja?
– Já está nas minhas mãos a correspondência. De-
seja recebê-la agora ou mais tarde?
– Pode ser agora. Venha até a minha sala, por favor.
– É pra já, doutor.

**********

Instantes depois, Rebeca, uma linda moça de ca-


belos pretos, lisos e longos, de pouco mais de vinte e
quatro anos, pele branca, olhos verdes, bateu à porta,
obtendo a permissão para adentrar.
Ao vê-la finamente vestida, destacando suas belas
curvas nas roupas ajustadas de cor clara, o empresário
foi possuído por um desejo incontrolável e fugaz de a
tomar em seus braços, mas logo descartou sua mani-
festa e concupiscente vontade.
Rebeca depositou a correspondência na escriva-
ninha e esperou que o empresário lhe falasse ou lhe
pedisse algo como recorrentemente fazia. A secretária
encontrava-se certa. O empresário rapidamente pas-
sou os olhos pela correspondência, nada de extraordi-
nário. A seguir, virou-se para ela. Daria início ao que
tanto ele quanto Nilda haviam combinado na noite de
véspera: usá-la uma vez mais como forma de chegar
até ao sacerdote, aquele que se diz ser o pai adotivo
de Rebeca, quando na realidade não mais é que o seu
verdadeiro pai. O pai biológico.
Tomando-a de surpresa, o empresário lançou-lhe
uma indagação.

67
– Esclareça-me uma coisa, Rebeca – disse.
– Pois não, doutor.
– Sente-se, por favor.
Ressabiada, ela sentou-se. O empresário cruzou
um olhar profundo e enigmático com a secretária, fa-
zendo com que ela estremecesse.
– Não precisa ter medo, Rebeca, somente preciso
tirar uma dúvida.
– Esteja à vontade. Se eu souber responder.
– Com certeza… A senhora acredita em Deus?
Surpresa com a dimensão da pergunta, Rebeca
chegou a contorcer o rosto, ainda assim não claudicou
ao responder no seu habitual tom de voz.
– Mas é claro que eu acredito em Deus – foi incisiva.
O empresário mergulhou numa profunda refle-
xão. Ao fim de algum tempo, observou:
– Já que respondeu com tanta convicção, gostaria
de abordar mais um pouco esse assunto. Posso? – pediu.
– Com certeza, doutor.
– Pois bem – prosseguiu o empresário –, a se-
nhora acredita em Deus por sua livre e espontânea
vontade ou simplesmente porque foi educada nesse
sentido, no seio de uma família cristã, nomeadamente
por um pai que serve a Deus, e tudo o que sabe acerca
de Deus, essa figura emblemática e enigmática, lhe
foi… digamos… – procurou pelas palavras adequadas
– … ensinado como paradigma, do qual deveria seguir
criteriosamente sem sequer questionar?
Confusa, a secretária não respondeu de imediato.
Perante a demora, ao que lhe pareceu ser hesitação, o

68
empresário tentou contemporizar ao indagá-la:
– A senhora sabe qual o significado da palavra pa-
radigma, não sabe? – quis saber.
– Mas é claro que sei, doutor! – respondeu na hora.
– Então o que tem a me dizer, Rebeca?
Circunspecta e simultaneamente clarividente,
Rebeca ousou dizer:
– Eu fui, sim, educada por uma família cristã, e
com muito orgulho. Não tenho vergonha de o afirmar,
seja a quem for, que meu pai é um padre. Pai de cria-
ção, mas, como todo mundo sabe, pai não é aquele
que faz, mas o que assume a criação e a educação dos
filhos dos outros, como é o meu caso, doutor.
O empresário esnobou no sorriso forçando-o. A
seguir, observou:
– Devo então presumir das suas palavras que a
sua família em muito influenciou a sua opinião em
relação a essa figura, para mim metafórica, de Deus.
Estou correto? – disse.
– Em relação à minha família, o senhor doutor
falou bem. Já quanto à metáfora aplicada, confesso
que discordo plenamente – intrépida, respondeu, pro-
vocando mais um sorriso desdenhoso no empresário,
que, encabulado, não se deu por vencido.
Diante disso, mudou o tom de voz, o qual se apro-
ximou da ironia.
– Como é que a Rebeca consegue e pode acre-
ditar em uma coisa que não vê a olhos vistos? Todo
mundo fala em Deus, mas ninguém o consegue ver,
não é verdade? A Rebeca acredita em Deus só porque

69
alguém lhe disse, como é o caso do seu pai, que ti-
nha de acreditar e pronto? E que isso era correto para
sua vida e existência, nem sequer questionando o lado
científico de como tudo surgiu, no caso o universo e
o nosso planeta? Não acha um paradoxo tudo isso em
relação aos desafios atuais da ciência? – disse.
– Simplesmente eu acredito em algo superior que
nos rege e a quem devemos obediência. O resto para
mim é demagogia.
O empresário deixou escapar mais um sorriso
desdenhoso. Rebeca não se incomodou.
– Pois fique sabendo que eu acredito piamente na
evolução da espécie humana – o empresário prosse-
guiu sem dar chance para que a secretária o pudesse
questionar. – Já que a senhora acredita nessa figura
que não conhece, diga-me uma coisa.
– Pois não, doutor?
– A Rebeca acha que Deus ama a todos os que
acreditam nele e os que não acreditam, como é o meu
caso, por exemplo?
– Indubitavelmente – confirmou com um leve
aceno de cabeça.
– E que ele só quer o nosso bem, não é verdade?
– Acabou de o confirmar.
Um leve sorriso irônico foi a reação do empresá-
rio. A seguir, continuou provocando:
– No tempo dos nossos ancestrais, um homem nas-
ceu duma virgem, como era o caso de Maria, e sem ne-
nhum pai biológico envolvido. Certa vez, esse homem,
estou falando de Jesus, clamou a um amigo chamado

70
Lázaro, que já se encontrava morto e fedendo, e justo
esse morto retornou à vida – fez uma curta pausa. –
Engraçado, até o homem sem pai biológico retornou à
vida depois de ficar três dias morto e enterrado…
Serena e polida, Rebeca interrompeu.
– Jesus não estava enterrado, mas seu corpo en-
contrava-se envolto em lençóis brancos, repletos de
essências aromáticas, depositado numa tumba – disse.
De novo o empresário riu desdenhoso. Irônico,
prosseguiu:
– E não é a mesma coisa, Rebeca?
– Não me parece, mas o senhor é quem sabe –
disse sem muito entusiasmo.
– A seguir, passados quarenta dias, esse homem
sem pai…
Cautelosa, Rebeca interrompeu.
– Esse homem tem um nome, doutor. Jesus –
enfatizou.
O empresário engoliu em seco.
– Tudo bem, Rebeca. Como queira. A partir de
agora, vou tratar esse homem sem pai como Jesus.
– Melhor assim.
– Como estava dizendo, antes de ser interrompi-
do – ironizou –, Jesus, quarenta dias depois, subiu ao
topo de uma montanha e desapareceu no céu.
– Perfeitamente, doutor.
– Engraçado, como são as coisas. Se a Rebeca
murmurar coisas dentro da sua cabeça, Jesus, o ho-
mem sem pai e seu pai também, que é ele mesmo, es-
cuta seus pensamentos, corrijo, lê os seus pensamen-

71
tos e até pode tomar providências em relação eles. Ele
é tão bom que é capaz também de ouvir simultanea-
mente todas as pessoas do mundo, ou seja, seus filhos.
Como ele consegue esse prodígio, não sei, mas tem
quem acredite nessa estupidez. Como tem também
quem acredite que só ele permite que as folhas das
árvores caiam das ramadas e não por causas naturais,
como é o caso do vento, a coisa mais lógica e natural.
Nós, seres humanos, não o vemos, mas as coitadas das
árvores que também não o veem escutam sua voz e
por incrível que pareça lhe obedecem a ponto de não
deixarem caírem suas folhas no chão. Isso é um ver-
dadeiro disparate. Olhe que isto são só uns exemplos,
entre muitos e muitos do que se escuta por aí.
– Justamente, doutor. Não é magnífico o poder
de Deus? – perguntou com vivacidade.
– Para você, Rebeca. Para você – observou com
desdém.
Ela não deu importância. Ele prosseguiu:
– Veja bem, se a senhora fizer alguma coisa ruim,
ou até mesmo boa, Jesus, o mesmo homem sem pai bio-
lógico, consegue ver tudo, mesmo que ninguém mais
veja. Aí a senhora pode ser punida ou recompensada,
inclusive depois da sua morte, não é verdade? – disse.
– Como o senhor está bem informado. Para quem
demonstra tanta incredulidade, até que se supera bem
– mesclou a ironia à brincadeira.
– É verdade, Rebeca. – Rui não deu importân-
cia, para prosseguir. – A mãe virgem do homem sem
pai, no caso Jesus, ao que se tem conhecimento, nun-

72
ca morreu e ainda por cima, como compensação, foi
transformada corporeamente para o céu.
– Justamente, doutor. Sabe, eu até estou admira-
da com seus conhecimentos.
– Deixe de ironias, Rebeca.
– Não é ironia, doutor. O que acaba de falar me
parece mais conhecimento de causa do que propria-
mente incredulidade, da qual o senhor dá mostras de
não querer se dissociar.
O empresário engoliu em seco, sem reagir. A se-
guir, observou, dando ênfase.
– Como se não bastasse, para mim, o mais ridí-
culo, pão e vinho, se abençoados tanto por um padre
– deu ênfase –, pastor, ou seja lá por quem for que se
intitule membro de alguma igreja, seja ela qual for e
que precisa, desculpe-me a expressão, sem ofensa da
palavra, que precisa de testículos, transformam-se no
corpo e sangue do homem sem pai, no caso para seu
gáudio, Jesus – disse.
A secretária ficou chocada com as palavras do
empresário, daí que não se manifestou. Ele reparou,
mas também não se importou. Em vez disso, prosse-
guiu ao dizer assumindo um tom irônico:
– Então se Deus nos ama a todos de igual para igual,
nunca se esqueça destas minhas palavras, de igual para igual,
por que permite, aqui vou dar dois exemplos, pois existem
muitos mais, por que permite então que uma criança de
menos de um ano de idade, inocente, que sequer reúne ca-
pacidades para fazer suas escolhas e até ser responsabilizada
pelos seus atos..., sabe como é, não é verdade?

73
Um simples acenar de cabeça foi a resposta de
Rebeca. O empresário prosseguiu. Disse:
– Pois é, então por que é que Deus, que em teoria
é o pai por ordem dalguma mágica de Jesus, permite
que uma criança inocente de menos de um ano de
idade seja brutalmente assassinada por uma mãe ou
pai ciumentos, como forma de se vingar um do outro e
vice-versa? Por que ele permite uma coisa dessas e não
poupa a vida da pobre e indefesa criança? Por que, se
sabe com antecedência que ela vai ser morta? Diga-
me…E por que Deus, que tem poderes infinitos e di-
vinos, e também sem explicação, por exemplo, já que
consegue ressuscitar um morto como Lázaro, através
dos poderes que deu ao seu filho, não impede, já que
ele sabe o que nós pensamos e vê coisas que mais nin-
guém vê, através desses poderes que um bêbado dirija
um automóvel e provoque um acidente matando um
casal inocente, por vezes até pessoas de bem e seus
fiéis seguidores e ainda por cima mantém vivo o des-
graçado do bêbado? Hein?... Olhe, e não me venha
com conversas de que o casal morto se encontrava
preparado para morrer por conta do seu passado e que
Jesus assim o permitiu. A Rebeca não acha tudo isso
um paradoxo? Que amor é esse que mantém vivo um
criminoso, sim, criminoso, porque quem mata uma
pessoa deliberadamente é considerado um criminoso,
e deixa morrer uma criança sabendo de antemão qual
a intenção dos pais, ou ele ou ela? E o bêbado? Por
que deixá-lo viver e deixar o casal que nada tinha a ver
com o comportamento irresponsável e descompensa-

74
do de um marginal como o bêbado morrer? Será que
Deus ama a todos de igual para igual mesmo? Tais
quais clamam seus fiéis seguidores? Será que os pode-
res de Deus são tão amplos que em face do aumento
demográfico não consiga mais controlar todo ser hu-
mano, seus filhos? Será? Deus tem tanta coisa para
fazer, até das folhas das árvores tem de tomar conta,
que infelizmente não dá conta do recado? Ou o diabo
está tomando as rédeas do poder de Deus e ele não é
mais aquele que fora em outros tempos por conta do
aumento demográfico? Veja bem, hoje somos em todo
o planeta cerca de sete bilhões e meio de pessoas, foras
os demais seres vivos…
Serena, Rebeca somente limitava-se a escutar
o empresário, sem nada comentar, todavia em seu
íntimo sentia-se triste ao escutar todas aquelas boba-
gens. Ainda assim, fitava-o com um ligeiro ar melan-
cólico. Aquele percebeu, mas também não se impor-
tou, ao contrário.
– ... Será que tudo isso não passa de uma falácia
dos nossos ancestrais ao longo dos séculos, décadas
e anos, e nós, ignorantes, eu mesmo não, já que não
acredito em nada dessas fantochadas, continuamos
engolindo essa balela? E a ciência? Onde fica nesta
história? E a evolução da espécie humana? E a teo-
ria da criação do Universo? E a teoria do relativismo?
E as demais teorias? A senhora nunca parou para se
questionar sobre tudo isso que lhe estou falando? Veja
bem, eu estou suscitando estas questões, mas é lógico
que existem muito mais, uma infinidade de questões

75
e de dúvidas que acredito ninguém ter resposta, e, se
porventura a tiverem, na minha concepção será evasi-
va e sem fundamento científico.
Desta vez Rebeca ficou confusa. O empresário
sabia, aliás era justamente esse seu objetivo, confundi
-la. Fazia parte dos planos dele e de Nilda. Na verda-
de, Rebeca nunca havia parado para pensar a respeito,
como também nunca ninguém a havia questionado
de uma forma tão direta. Mesmo assim, apesar das
dúvidas, ela sabia que tanto ciência quanto divino se
complementavam, e rápido chegou a essa conclusão,
após escutar as palavras do homem ali na sua frente,
daí que tentou ser coerente ao responder:
– Veja bem doutor, Deus nos ensina que devemos
nos amar uns aos outros como ele nos ama.
O empresário riu sarcástico. A seguir, disse:
– Quem é que lhe disse isso? Foi Deus ou os ho-
mens daqui debaixo, em especial seu pai, padre? – co-
locou sob acentuada ênfase a última palavra.
– Deus usa pessoas para se manifestar. Sempre
escutei isso.
– Não vou entrar em pormenores para não a dei-
xar mais confusa ainda. O que a senhora está me que-
rendo dizer é que foi alguém próximo da senhora, o
seu pai adotivo, o padre, que lhe disse isso que acabou
de afirmar, não é verdade?
– Ele e outras pessoas munidas de uma fé inaba-
lável, não importa quem.
– Como queira – disse sem muito entusiasmo,
para prosseguir. – Pois bem, o seu pai adotivo lhe disse

76
que Deus havia dito, e que por sua vez o transmitiu ao
seu filho Jesus, que a senhora deve amar os seus seme-
lhantes como ele a ama.
– O doutor acabou de dizer uma grande verdade
– disse com satisfação.
– Humm!... amar uns aos outros! Como? Se as
pessoas vivem matando umas às outras, por vezes até
gratuitamente? Hoje em dia, qualquer motivo serve de
pretexto para eliminar fisicamente uma pessoa. Mas
que amor é esse, Rebeca? A senhora nem sabe quem é
Deus e como ele é. E se foi ele quem criou o univer-
so, afinal, de onde ele surgiu? Quem são os pais dele?
E como ele consegue permanecer eternamente vivo
lá nas alturas, colocando em xeque a própria ciência?
Será que é justamente esse o enigma que cativa as pes-
soas ignorantes e as leve a acreditar em uma coisa que
não sabem o que é? Como pode ter tanta certeza de
que Deus existe?
A secretária já ia responder, quando foi impelida.
O empresário tomou-lhe a palavra.
– Ouça, não me venha, como muitos fazem quan-
do os questiono, com o papo do livre-arbítrio, com a
salvação das almas, que Deus tem um projeto para to-
dos nós nesta passagem pela vida terrena. Já estou farto
dessa lenga-lenga. E mais, já reparou quantas igrejas
existem hoje em dia? São tantas igrejas para um único
Deus. Deve ser um negócio tão bom e lucrativo que
elas proliferam como formigueiros assanhados. É cla-
ro, não pagam impostos e ainda por cima enganam e
ludibriam os ignorantes, os mais pobres e desprovidos

77
de acesso à informação, a grande maioria da popula-
ção deste país, tudo por causa duma pessoa que nunca
viram. Já não falo das guerras que existiram e aquelas
que ainda existem por causa da religião. E se assim
é, imagine-se se conhecessem Deus. A balbúrdia que
não seria? A Rebeca já imaginou? – disse-lhe.
A secretária consumiu as palavras do empresário,
porém ficou pesarosa, como também chegou à conclu-
são de que o homem sentado ali na sua frente preten-
dia indiretamente com aquela conversa abordar um as-
sunto que o incomodava havia bastante tempo. Queria
simplesmente desabafar, julgava ela, para engano seu.
Fazia algum tempo que a esposa do empresário
havia sido vítima de latrocínio, tal qual o marido de
Nilda, bem como na mesma altura os filhos de Rui
acabaram por se afastar do pai por completo, pois o
consideravam moralmente culpado pela morte da
mãe em virtude de o verdadeiro responsável ainda não
haver sido julgado pela justiça. A ele, os filhos o consi-
deravam responsável, para sua enorme tristeza, porém
sem saberem eles encontravam-se certos quanto aos
seus prognósticos e suas desconfianças, ainda assim o
empresário considerava os filhos ingratos, conquanto
sem os deixar de amar. O empresário sofria com o afas-
tamento voluntário dos filhos, e foi nesse contexto que
Rebeca interpretou sua aparente revolta, cuja vida se
modificara num piscar de olhos. Sentindo-se à vonta-
de e encarando com naturalidade o comportamento
do homem ali na sua frente, Rebeca disse-lhe como
forma de desviar o assunto:

78
– Essa sua incredulidade tem a ver com o fato do
que sucedeu com sua esposa, não é verdade?
Abismado com a dimensão da pergunta, já que
não esperava, o empresário encarou a secretária com
surpresa, chegando inclusive a comprimir o rosto.
Teve de improvisar diante da astúcia de Rebeca. A se-
guir, voz fina e entrecortada limitou-se a confirmar.
Respondendo, disse dissimulando:
– Nunca mais tive vontade para viver depois que
a minha Fátima se foi – apesar de o afirmar, em seus
olhos lia-se outra coisa, mas Rebeca não vislumbrou.
– Não sei como uma pessoa como ela, uma mulher
maravilhosa, dinâmica e dedicada a mim e aos meus
filhos, às causas sociais, pode ter sido vítima de um
ladrão, de um vagabundo que atirou à queima roupa
na sua cabeça, sem sequer lhe dar chance de defesa,
só porque não tinha um centavo no bolso. Não sei, e,
ainda por cima, o que mais me entristece são os meus
filhos me culparem pela desgraça que se abateu sobre
a nossa família.
Rebeca, para engano seu, reparou que o empresá-
rio sofria com as lembranças funestas do passado, daí
que ficou em silêncio como forma de respeito e de
solidariedade. Ao fim de algum tempo, o empresário
quebrou o falso silêncio gélido e doloroso que se insta-
lou de sua parte no ambiente. Dissimulando, e bem,
com a voz abafada, desabafou ao dizer:
– E por não acreditar em mais nada, não obstante
de o não demonstrar claramente, a verdade é que eu
não tenho estímulo para mais nada. Sabe, sinto um

79
vazio dentro de mim, e é por isso que ultimamente te-
nho feito coisas que qualquer pessoa de discernimento
equilibrado não faria.
– Que coisas, doutor? – subitamente se viu muito
interessada.
– É melhor nem saber, Rebeca. É melhor não.
Ela nada entendeu, ainda assim ficou com uma
pulga atrás da orelha, a ponto de pensar para si mes-
ma: “O que foi que o doutor aprontou? Só espero que
não seja nada que o possa comprometer”.
A seguir, mudou o timbre de voz, para observar:
– Sabe, doutor, eu acho que não deve pensar as-
sim. O que fez de errado, se é que ainda pode corri-
gir, é melhor corrigir para depois não ter que carregar
esse estigma para o resto da sua vida. O doutor é um
bem-sucedido empresário, o negócio lhe rende muito
dinheiro, tem a sua namorada, a dona Nilda, uma pes-
soa maravilhosa, tem os seus filhos, que ainda os pode
reconquistar. O senhor goza de boa saúde. Me diga,
o que quer mais desta vida? O senhor perdeu a dona
Fátima, mas tem a dona Nilda…
Inadvertidamente, o empresário interrompeu
para falar de Nilda com emoção, a ponto de deixar
escapar um leve sorriso fraternal. Tudo falso.
– A Nilda, a Nilda. De fato, a Nilda é uma pessoa
maravilhosa- disse.
– Está vendo. O senhor é uma pessoa boa e o que
existe dentro de você vale muito mais do que tudo o
que está fora. Tudo isto – olhou ao redor –, bens, di-
nheiro, qualquer coisa. E, quanto a Deus, quem sou

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eu para questionar sua crença, muito embora me ad-
mira que tenha mudado de opinião depois da morte
da dona Fátima. Aliás, esse é justamente um motivo
adicional para não desacreditar na sua fé. Veja bem,
por vezes, por detrás de uma perda significativa existe
um bem maior, contudo eu respeito. Cada um é li-
vre para acreditar em Deus, mesmo assim, insisto: eu
mesma já vi o senhor mais ativo e alegre. Não preciso
dizer ao que me refiro. Não é verdade?
Um tênue aceno de cabeça foi a sua resposta.
– O doutor vai me desculpar, mas, se me permi-
tir, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Posso?
– Esteja à vontade.
– Só espero que não fique incomodado e chatea-
do comigo.
– Faça. Já lhe havia dito – seco, insistiu.
– O senhor doutor por acaso sabe o que é uma
pessoa narcisista?
– Sei, sim senhora, Rebeca. E como sei! Basta
olhar para mim e analisar as minhas atitudes.
A secretária forçou um sorriso. Intrépida, comen-
tou a seguir:
– Pois o doutor, com os seus comentários, pode ser
talhado como sendo uma pessoa narcisista. Nada jus-
tifica que questione o divino, justo uma pessoa como
você, que sempre demonstrou claramente o contrário.
– Você quer o quê? Que eu fique feliz com tudo
o que fatalmente aconteceu comigo e com a minha
família? É isso que está me querendo dizer, hein?

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Rebeca permaneceu em silêncio. O empresário
decidiu prosseguir.
– Você quer o quê? Se Deus existe, por que per-
mitiu que a minha Fátima fosse brutalmente assassina-
da? Será que ele não a amava da mesma maneira que
amava ou que ainda ama a pessoa que lhe tirou a vida?
Eu não considero isso narcisismo, mas justiça e desi-
lusão na sua verdadeira acepção das palavras – disse.
A secretária mergulhou numa profunda reflexão.
– Talvez – admitiu depois. – Mas o senhor doutor
deve incutir em si que por vezes os males acontecem e
que por detrás deles existe um propósito. Nunca ouviu
dizer: “Há males que vêm por bem?”.
– Várias vezes, confesso. Mas também confesso que
nunca dei muita importância a tal futrica. Essa e outras.
– Pois deveria ter mais cuidado com algumas frases
que escuta, por vezes das pessoas mais velhas. Não é
por acaso que a grande maioria das verdades são oriun-
das dos conhecimentos sábios das pessoas mais velhas.
Um silêncio gélido, mas curto, instalou-se. Ao
fim desse compasso de espera, o empresário observou.
– Admito que tenha razão – disse.
– Posso lhe dar um exemplo, doutor?- pediu de-
pois de um lampejo que lhe ocorreu sem aviso prévio.
– Se não se demorar muito, pode, sim – confir-
mou sem muito entusiasmo.
– Imagine o doutor ser um pescador e encontra-
se na sua embarcação de pesca no meio do oceano
com mais outros colegas seus de trabalho…
– Humm!... eu pescador? – interrompeu para di-

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zer com desdém. – Justo eu que nem sequer sei nadar.
– Mas agora sabe – decidida, Rebeca passou por
cima da ironia.
– Prossiga, por favor.
– Então, doutor. O senhor está num barco afasta-
do da costa, pescando na companhia de mais quatro
pescadores. Aí, sem se darem conta, uma tempestade
se aproxima de forma abrupta e rápida. A embarcação
vira, e, quando o senhor se dá conta, acorda numa pe-
quena ilha, onde nada existe a não ser uma pequena
floresta. Os seus colegas de trabalho perecem na tem-
pestade… Pois é – fez uma curtíssima pausa refletiva.
– Aí o senhor se vê totalmente perdido e isolado do
mundo, sendo obrigado a adaptar-se às novas condi-
ções de sobrevivência, algo de novo e nada estimu-
lante, pelo contrário – forçou um sorriso. – Quando
menos espera, o senhor é contemplado com uma pe-
quena caixa de ferramentas nas areias da praia da tal
ilha. A caixa de ferramentas era aquela que pertencia
à embarcação afundada. Apesar do contratempo, a si-
tuação dava indícios de que podia vir a melhorar. Pelo
menos foi com essa sensação que ficou após recuperar
a caixa de ferramentas.
Um sorriso curto, mas desdenhoso, saiu do rosto
cético do empresário. A secretária não se importou,
daí que decidida prosseguiu. Disse:
– Diante desse fortuito acontecimento, o doutor
não perde tempo e com as ferramentas dá início à
construção de uma pequena cabana de madeira, que
consegue coletar da floresta junto à praia. E que ca-

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bana, de tão perfeita que o senhor até se surpreendeu
com sua feitura – forçou mais um sorriso, o qual foi
correspondido pelo empresário, porém sem muito es-
tímulo. – Pois é…Os dias foram se passando e o dou-
tor, como é lógico, precisava sobreviver naquela situa-
ção imprevista. Do mar passou a retirar os peixes de
que necessitava para se alimentar, da floresta as frutas
e até a água para ingerir recolhia das folhas suspensas
das árvores e algo mais para a sua situação de extrema
sobrevivência que só Deus e você sabiam…
– E bote sobrevivência nisso! – ironizou o empre-
sário ao interromper.
– Ainda assim, o suficiente para se manter vivo –
replicou na hora.
– Estou vendo que sim – ironizou.
– Pois é… – nova pausa, para logo prosseguir. –
Certo dia, o senhor fazia uma fogueira, onde assava
um enorme peixe para seu almoço, quando foi sur-
preendido com um cardume passando próximo à cos-
ta. Aí o senhor, movido pela necessidade de manter
o maior número de mantimentos, se lança ao mar e
com a lança começa a pescar o maior número de pei-
xes possível. Subitamente, e enquanto o fazia, se dá
conta, olhando para trás, de que sua cabana pegava
fogo por estar próxima da tal fogueira onde assava o
peixe. Com a ânsia de não perder o que havia cons-
truído com muito suor, aproxima-se para combater o
fogo, mas já é tarde. Ajudado pelo vento, o fogo rapi-
damente se propaga e consome toda a cabana, des-
truindo-a por completo, apesar do seu esforço. Então,

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somente ficaram em pé uns troncos, nada mais do que
isso, e todo seu esforço em segundos se tornou ingló-
rio… Desesperado, ao senhor somente lhe restou as-
sistir resignado àquela cena triste.
– E que cena! – exclamou sem muito entusiasmo.
Rebeca fez um leve gesto de enfado. A seguir,
prosseguiu:
– Inconformado com a situação, o senhor se deita
na areia e começa a falar, reclamando consigo mesmo
e com Deus, dizendo-lhe que, apesar da sua situação e
das constantes dificuldades, sempre lhe agradeceu por
tudo, desde o fato de se encontrar ainda com vida, de
pelo menos ter comida todos os dias, sempre agrade-
ceu por tudo e jamais admitia e aceitava que fosse uma
vez mais castigado com mais uma tragédia. O senhor
chorou tanto, tanto, tanto, bem como falou igual que,
sem se dar conta, acabou por adormecer. Adormeceu,
não é verdade? – disse.
– Quem está a afirmá-lo é você, Rebeca – obser-
vou, mesclando a ironia ao cinismo.
Uma vez mais, Rebeca não deu importância. Ao
contrário, os insistentes comentários do empresário só
faziam aumentar sua enorme vontade em prosseguir,
dando-lhe ânimo extra. Daí que prosseguiu ao dizer:
– Pois é… Quando menos o senhor esperava,
aconteceu algo extraordinário. O senhor imagina o
que seja? – olhos coruscantes, indagou-o.
– Confesso que não, e muito menos imagino o
que seja. Como sabe eu ainda não disponho do dom
de adivinhar as coisas – ironizou.

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– Eu também não – replicou a secretária com
uma enorme vontade de lhe pedir para deixar de falar
besteiras, porém ficou só na intenção, quando prosse-
guiu: – O senhor, quando menos esperava, foi acorda-
do por alguém batendo-lhe nas costas. Quando acor-
da, sobressaltado, se depara com um homem vestido
de branco, que o chamava para ir embora.
– Como, se eu me encontrava dormindo e estava ha-
via dias, meses, naquele lugar inóspito? Nem sequer podia
avistar uma embarcação. Como, dona Rebeca? Diga-me?
Um sorriso matreiro e eloquente foi a reação na-
tural da secretária. Assumindo um tom de voz similar,
arrematou:
– Era justamente isso, essa curiosidade que eu pre-
tendia demonstrar com minha explanação. Cativar seu
interesse e confirmar que por detrás dum mal existe sem-
pre uma causa-efeito, ou seja, um bem maior – disse.
Ressabiado, o empresário contorceu o rosto.
– Confesso que continuo sem nada entender. Ou-
viu? – admitiu depois.
O rosto de Rebeca iluminou-se mais ainda, para
logo prosseguir com mais eloquência:
– Simplesmente o tal homem de branco nada mais
era que um marinheiro de uma embarcação que passava
a várias léguas marítimas da pequena ilha onde o senhor
se encontrava perdido e ao avistar a fumaça concluiu se
tratar de um pedido de socorro de alguém ou mesmo
de outra embarcação em apuros. Perante a enorme nu-
vem de fumaça, a embarcação aproximou-se da ilha para
prestar auxílio ou socorro, como queira considerar.

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Cético, o empresário admirou-se, daí ter optado
por ficar em silêncio, como demonstrando refletir a
respeito sobre o final e o propósito de tudo o que aca-
bara de escutar. Concomitantemente, em seu íntimo,
Rebeca passou a sentir uma leve excitação, pois em
seu rosto era visível quanto aquela história havia deixa-
do confuso o homem ali na sua frente. Sem margens
para dúvidas, o ora exemplo apresentado por ela ha-
via-a deixado igualmente satisfeita. Diante do silêncio
persistente do empresário, Rebeca prosseguiu ao dizer:
– O doutor ficou aturdido, mas, quando avistou
outros homens na companhia do primeiro, aquele que
lhe havia batido nas costas, aí o senhor percebeu que
finalmente o que havia acabado de perder se tornou
sua salvação. Não é magnífico?
De novo o empresário expressava ceticismo, e seu
semblante ainda denunciava desconfiança. Perante
o insistente silêncio, a secretária prosseguiu. Sua voz
saiu eloquente:
– Não acha isso tudo magnífico? De fato Deus o
escutou durante todo o tempo. Por vezes, as pessoas
pedem a Deus e logo querem uma resposta imediata,
e ele pode até demorar, mas sempre deixa seu sinal na
altura certa. Isso é Deus a trabalhar, pois ele o escutou
e de alguma forma lhe causou um mal propositado
– deu saliência – para simplesmente provocar aquilo
que o senhor mais almejava, sair definitivamente da-
quele lugar inóspito, segundo suas palavras – disse.
Uma vez mais o empresário nada disse. Rebeca
não se importou, pois sabia muito bem do excessivo

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orgulho dele ao admitir que seu exemplo, além de ser
clarividente, fazia igualmente sentido, deixando-o si-
multaneamente confuso e indeciso. Ela prosseguiu:
– Moral da história: o doutor pode até achar tudo
isso que acabei de falar demagogia, mas se parar para
pensar com mais afinco verá que tudo faz sentido. Ou
seja, o mal que lhe aconteceu, ao pescador, agora não
é mais o senhor, e sim o pescador, ao perder sua caba-
na, acabou por se revelar o maior bem que lhe podia
ter acontecido, justo ele que se julgava perdido para
sempre naquele lugar, bem dito pelo senhor, e insisto
novamente, inóspito – colocou sob acentuada enfâse a
última palavra. – E, se me disser que tudo é obra do
acaso, pois na minha modesta e sincera opinião, rebato,
dir-lhe-ei que não. Algo de superior, seja Deus ou outra
entidade qualquer, foi sim responsável por tudo o que
sucedeu… Pense nisso e reflita. Por mais que lhe custe
a aceitar a morte da sua esposa, vai ver que com o passar
do tempo ela tinha de acontecer de uma maneira ou
de outra, e que outras situações boas ainda lhe podem
suceder na vida. É tudo, na minha ótica, uma questão
de tempo. Por favor, pense nisso e, mais, não me julgue
uma conselheira, ou que passo o meu precioso tempo
dando conselhos, pois o senhor sabe muito bem e por
certo já escutou mais do que uma vez que “Se conselho
fosse bom, não se dava, mas sim vendia”.
O empresário, a partir daquele momento, passou a
fitar a secretária com exacerbado interesse. Seu semblan-
te, ainda assim, continuava denunciando ceticismo.
– Diga-me uma coisa, Rebeca? – indagou-a a seguir.

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– Pois não?
– Essa história que acabou de narrar foi no senti-
do figurado ou conotativo?
– Como assim, senhor doutor?
– Digamos que foi fruto da sua imaginação ou na
verdade os fatos são reais?
– Essa história foi, sim, real, e para que não tenha
dúvidas ela se passou há alguns anos, em pleno ocea-
no Índico. Posso comprová-la com documentos da
própria pessoa sobrevivente no seu relato dramático.
De novo se fez um silêncio gélido. O que o em-
presário pensava, só ele e Deus sabiam. Ao fim desse
tempo, articulou:
– Sabe, Rebeca, inicialmente admito não haver
apreciado, mas com o desenrolar da sua narrativa o
exemplo despertou em mim interesse. O meu silêncio,
que lhe causou desconforto, pude ver no seu rosto, foi
propositado, justamente para eu poder refletir melhor.
Você foi sensata e coerente ao falar comigo. Sabe, a mi-
nha vida há muito se encontra afundada num oceano
de decepções, não sei por que, mas… o seu exemplo fez
com que eu pensasse doravante sobre várias situações
que aconteceram ultimamente na minha vida.
– Que situações, doutor?
– Preferia não aprofundar. São assuntos estrita-
mente pessoais, dos quais prefiro me reservar ao silên-
cio, seja com quem for, incluindo você. Espero que
me entenda.
– Perfeitamente. Em todo caso…
Polido, o empresário cortou.

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– Sabe de uma coisa? Foi muito bom conversar com
a senhora, e, confesso, no ínicio desta nossa conversa,
devo admitir que tive uma enorme vontade de apelidá-la
de hipócrita e ignorante. Peço desculpa pelo meu com-
portamento descompensado e grosseiro – disse.
– Sem problemas, doutor – disse com vivacidade.
– Porém, não consigo explicar, mas algo me fez
recuar nesta minha intenção. Ultimamente, ando
muito nervoso e apreensivo. São os meus filhos e ou-
tros problemas relacionados com a minha atividade. A
senhora, em parte, conseguiu suster esta minha ten-
são. Até parece que a senhora tem um efeito calmante.
Algo em você me tranquiliza.
Rebeca ofereceu um sorriso leve, mas genuíno.
Intrinsecamente, sentia-se satisfeita, e de fato não era
para menos, conquanto sem especular o real motivo
de o empresário a haver questionado, pois fazia parte
dos planos dele e de Nilda causar impressão como for-
ma de a fazer ir ao encontro do pai adotivo, o religioso.

**********

Apesar de Rebeca haver demonstrando ser uma pes-


soa equilibrada, sensata e coerente, mesmo assim se mos-
trava vulnerável para determinados assuntos, como era
o caso do questionamento acerca de Deus da parte do
empresário. Tanto ele como Nilda tinham conhecimen-
to antecipado da fragilidade da secretária, daí que deci-
diram provocá-la como forma de atingir o religioso. Em
certa medida, o empresário sabia, como também sabia

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dissimular, e bem. Sem malícia, Rebeca não percebeu.
Inadvertidamente, o empresário consultou o relógio de
pulso, deixando escapar um largo e significativo assobio.
– E como é tarde! Não dei conta do tempo pas-
sar. Tenho ainda tanta coisa para resolver. Podemos
prosseguir esta nossa conversa em outra altura?
– Quando quiser, doutor. Estarei sempre a seu
dispor. Sabe onde me encontrar – brincou com a si-
tuação, sem dissimular quanto se sentia feliz e bem
por haver sido útil, pelo menos assim julgava na sua
reiterada inocência.
– Muito obrigado, Rebeca – estendeu a mão, sen-
do retribuído pela secretária.
– De nada, doutor. Eu sei que o senhor está preci-
sando desabafar. Sempre que tiver vontade e coragem
para me contar o que o atormenta, não tenha vergo-
nha e receio, pode falar comigo como o fez agora mes-
mo. Estarei sempre preparada para o escutar.
– Sei disso – forçou um sorriso. – Não sei como
consegui escutar a senhora? Não sei. Por que será?
Ela riu desconcertada. A seguir, disse:
– Se precisar do meu silêncio em relação ao que
me vier a contar, sabe que pode contar comigo.
O empresário forçou um sorriso enquanto acena-
va a cabeça. Ela prosseguiu:
– Além de sua funcionária, sou acima de tudo sua
amiga – disse, confirmando.
– Sei disso, Rebeca. Sei disso – sua voz saiu for-
çadamente fraternal, porém em seus olhos lia-se outra
coisa. Ela não percebeu.

91
A conversa foi encerrada. A secretária saiu, e, en-
quanto caminhava até a porta, o empresário contem-
plava com ar matreiro e simultaneamente ríspido.
– Humm!... – deixou escapar uma risada desde-
nhosa. – Inocente e estúpida. “Se precisar desabafar,
pode contar comigo. Eu guardo silêncio daquilo que
me contar. Sou acima de tudo sua amiga”. Querias,
sua vaca, que eu te contasse a minha vida, ordinária.
Vais ter uma surpresa tão grande um dia destes, vais
ver, sua inocente e gostosa. És tão gostosa como a tua
tia. Duas vacas gostosas. Por falar na tua tia, vou é logo
ligar para ela – pensou e decidiu rápido o empresário,
logo após escutar a porta bater depois de ter sido fe-
chada por Rebeca ao abandonar sua sala.
Sem perder tempo, ele pegou o celular, discando
um número. Pressurosa, Nilda atendeu.
– Oi, meu amor.
– Acabei de falar com a tua sobrinha – informou
com ar superior.
– Já? – subitamente Nilda se viu muito interessa-
da, a ponto de sua voz sair excitada. – E então, como
ela reagiu?
– Sabes, inventei…

**********

Rui continuou sentado em sua poltrona, fixando


o olhar num ponto qualquer do teto de sua sala. Iso-
lou-se numa profunda reflexão. Vários pensamentos
passaram rápido por sua mente.

92
Por mais esforço que fizesse, Rui não entendia o
motivo de seus filhos o acusarem de ser o responsável
moral da morte da mãe, se na verdade não era bem
assim. Ele sabia-o, mas a si mesmo incutia uma outra
situação, da qual só ele mesmo acreditava. Seus filhos
encontravam-se cobertos de razão, e, se algum dia eles
pudessem especular quanto se encontravam certos em
relação aos seus prognósticos, as consequências pode-
riam ser mais desastrosas. Rapidamente Rui descartou
essa possibilidade, refugiando-se no conforto da atual
situação, como se fosse um bálsamo.
Subitamente, o empresário fechou os olhos para
construir mentalmente a imagem do primeiro encon-
tro com o delegado de polícia a quem fora designado
investigar a morte de sua esposa.
“Sentado defronte do agente da autoridade,
apreensivo, o empresário escutava com bastante aten-
ção as palavras do experiente delegado.
– Eu chamei o senhor até aqui – informava o de-
legado – para lhe dar conhecimento de que ainda não
chegamos ao assassino ou assassinos da sua esposa.
Tudo o que coletamos até o presente momento pelos
meus homens e por mim mesmo continua sendo insu-
ficiente, daí que ainda não tenho uma linha de inves-
tigação pela inexistência da dinâmica do crime em si.
– Mas como, Leonardo? – o empresário surpreen-
deu-se a ponto de elevar ligeiramente a voz. – Você
ainda não tem uma linha de investigação? Como é
possível? A minha esposa...
Polido, o delegado interrompeu. Disse:

93
– Veja bem, Rui, tudo leva a crer, e é nessa verten-
te que temos concentrado nossos esforços, porém não
há nada de palpável ainda, que a senhora dona Fáti-
ma foi vítima de latrocínio. O caso é esdrúxulo, devo
admitir, mas, como sabe, a ausência de testemunhas
tem dificultado o trabalho da força polícial. Como sabe
também, insisto, ninguém presenciou o crime e quem
eventualmente possa ter presenciado nada relata por
medo de represálias. Infelizmente, é o que posso desde
já adiantar. É meu dever como polícial e acima de tudo
como seu amigo pessoal lhe dar esta satisfação.
Dissimulando, e bem, a sensação de segurança
com que ficou, o empresário decidiu expressar incre-
dulidade quando perguntou:
– Mas como, Leonardo? O amigo está sendo am-
bíguo comigo. Aliás, não posso acreditar que ainda
não tenha encontrado e apresentado à justiça as pes-
soas que roubaram covardemente a vida da minha es-
posa, tampouco que tenha uma linha de investigação,
quando todo mundo sabe que quem matou a Fátima
só o fez por raiva, pelo fato dela não se encontrar na
posse de valor algum – disse.
Tal como o empresário, o delegado também dissi-
mulou, e bem, sua desconfiança ao escutar. Diante disso,
surpreendeu o empresário ao fazer a seguinte observação:
– Quem está afirmando isso é o Rui. Até agora, nada
que se relacione a essa sua certeza foi comprovado.
– Bem… pelo menos nada foi encontrado com a
Fátima no dia da sua morte e normalmente ela anda-
va sempre com valores para distribuir nas suas obras

94
de caridade. – Além de gaguejar ligeiramente, Rui
chegou a enrubescer de igual modo. O delegado per-
cebeu, e, como experiente que era, ficou com uma
pulga atrás da orelha. E que pulga.
– É verdade, sim. Isso está sendo levado em con-
sideração, Rui, mas ainda é incipiente para a investi-
gação – observou a seguir.
– No mínimo deve ter sido algum vagabundo, um
maconheiro, um desses miseráveis que roubam para
fumar maconha. Não estou vendo mais ninguém que
tivesse motivações para o fazer. A Fátima e eu não tí-
nhamos inimigos e muito menos tivemos qualquer rixa
com alguém. Sempre nos pautamos pela discrição.
– É justamente essa falta de elementos que tem
dificultado o trabalho dos meus homens. O senhor
acabou de confirmar o que eu já sabia.
– Nem sequer uma pista, Leonardo?
– Nenhuma, Rui. Infelizmente!
– Sinto-me angustiado e não descansarei enquanto
não souber quem foi o responsável por esbulhar a vida
da minha Fátima. Só eu sei quanto sofro com a perda
dela – deixou escapar o empresário como desabafo.
– O Rui vai me desculpar a minha franqueza,
mas não me parece que esteja sofrendo tanto assim.
O empresário surpreendeu-se.
– Como pode fazer uma afirmação dessas, Leonar-
do? Isso é um despautério da sua parte – disse a seguir.
– A sua mulher morreu há menos de seis meses e
você já está de namoro com aquela mulher do interior,
cujo marido também foi vítima de um crime similar.

95
– O que está querendo dizer com isso, Leonardo?
Por acaso está levantando a suspeita de que eu esteja
por detrás da morte da minha mulher e da morte do
marido da minha atual namorada? – o empresário ex-
pressou sua insatisfação.
– Jamais, Rui. Que desconfiança é essa? Apenas
fiz um comentário, nada mais que isso.
– Espero bem que sim, Leonardo. Eu sou homem
e, como tal, não sou diferente daqueles que gostam de
mulheres. Sou viúvo e tenho o direito de ser feliz do
lado da pessoa que eu amo.
– Justamente, Rui. Ser feliz do lado de quem se
ama – ironizou o delegado. Todavia, ressabiado, o em-
presário não percebeu.
– Então por que essa tua afirmação, Leonardo?
– Só achei estranho o fato de se apaixonar tão
rápido por essa mulher pouco tempo depois da sua
ter sido morta, quando demonstra claramente quanto
gostava da dona Fátima, mormente sofrendo com o
seu precoce desaparecimento.
– A vida não pode parar, Leonardo. É uma forma
de tentar esquecer a fatalidade que se abateu sobre a
minha família.
– É, tem razão. Desculpe. – o delegado quis colocar
um ponto-final na conversa, pois percebeu quanto o em-
presário ficara incomodado com suas observações, que, a
partir daquele momento, passaram a ser pertinentes para
a investigação, já que conseguira àquela altura reunir in-
formações adicionais sobre o caso amoroso do empresário
com Nilda, ainda ele se encontrava casado com Fátima.

96
Os dois homens se despediram, e, logo que o em-
presário deixou a sala, o delegado chamou o chefe de
investigação.
– Mandou chamar, doutor? – perguntou o polícial.
– Mandei, sim, Valério. Senta-te.
O delegado indagou o subordinado sobre o an-
damento das investigações da morte da mulher do
empresário, ao que o subordinado explanou porme-
nor a pormenor tudo o que tinha sido coletado até
aquela data. Depois de escutar, ordenou que man-
dassem investigar Nilda, com a ajuda dos colegas da
delegacia da cidade daquela, e que lhe fossem cedi-
das mais informações sobre a morte do marido da
atual namorada do empresário.
Depois que o chefe de investigação deixou a sala
do delegado, este permaneceu sentado, enquanto seu
olhar ora se fixava na janela da sala, ora em um ponto
aleatório do teto. Por vários minutos permaneceu em
silêncio, recostado na cadeira.
“Meu amigo, Rui, tem alguma coisa errada nesta
história. Tenho quase certeza de que estás mentindo
para mim… Primeiro, afirmas que a tua esposa foi
morta por nada ter de valores com ela e, em seguida,
poucos meses depois, já estás de namorada nova, sem
sequer respeitares a falecida, e o que mais me intriga é
que o marido da tua namorada foi morto com o mes-
mo modus operandi. E mais, tu já estavas tendo um
caso com a tua namorada ainda a tua esposa era viva.
Pois é, meu caro Rui, são muitas coincidências para o
meu gosto. Só espero não estar fazendo juízo de va-

97
lores errados… Eu vou descobrir, estás me ouvindo,
Rui? Eu vou descobrir…”, consigo mesmo falou o de-
legado, vislumbrando ações futuras na investigação”.

**********

Isolado em seus pensamentos, o empresário des-


viou a atenção. O telefone de sua escrivaninha tocou.
Era uma chamada interna.
– Diga, dona Rebeca – disse atendendo.
– Desculpe interrompê-lo.
– Sem problemas. Esteja à vontade – suavizou a voz.
– A dona Nilda está na linha. Posso passar?
– Por favor.
Escutou-se uma música de fundo de vários segun-
dos. Ao fim desse tempo, a voz doce e meiga de Nilda
passou a penetrar novamente em seus ouvidos.
– Olá, meu amor. Estás bem? – quis saber.
– Ainda agora havíamos falado, doutora Nilda, a
nova gerente do banco – brincou.
Ela apreciou as palavras do empresário para dizer
na sequência:
– Desculpa de te estar incomodando outra vez.
– Sem problemas, senhora gerente.
– Vejo que estás bem-disposto. Algum motivo especial?
– Só em escutar a tua voz fico logo com outra
disposição.
Ela riu com malícia. A seguir, disse, assumindo
similar tom de voz:
– Mas que romântico.

98
Entre galanteios e frases de amor, os dois acabaram
por combinar um encontro com o advogado do empre-
sário depois que ela o informou do contato do causídico.

**********

Conforme combinado, na hora marcada, o casal


encontrava-se sentado bem na frente do causídico.
O ilustre defensor passou rapidamente os olhos pela
intimação entregue por Nilda. Enquanto isso, em si-
lêncio, ela e o empresário passaram a trocar olhares
rápidos, discretos e simultaneamente inquisitivos. Em
simultâneo, suas mãos se fecharam uma sobre a outra
em um gesto igualmente discreto. O causídico perce-
beu, preferindo ignorar.
Ao fim de algum tempo, o causídico falou. Eru-
dito, disse:
– Pois bem, pelo que a senhora me relatou ao te-
lefone e também pelo que consta nesta intimação, a
priori não vejo motivo para se preocupar. O que…
Cautelosa, Nilda interrompeu.
– Não há motivo para me preocupar. Como as-
sim, doutor? – disse.
Antes de responder, o defensor segurou um sorriso.
– Deixe-me concluir, por favor – pediu a seguir.
– Desculpe, doutor – disse enquanto olhava para
o namorado, que lhe havia feito um sinal discreto com
a cabeça.
– Como estava dizendo – prosseguiu o causídico
–, a princípio não vejo motivos para se preocupar. Em

99
todo caso, o que não podemos é deixar sem resposta o
autor da cobrança da dívida de cento e oitenta e nove
mil reais mais juros, o senhor… Francisco Viegas.
– Sem dúvida, doutor – Nilda aquiesceu.
Ao escutar o nome de Francisco Viegas, Rui es-
tremeceu. Aquele nome não só lhe era familiar como
também era um velho conhecido seu. Ali mesmo, de-
cidiu nada comentar sobre a pessoa em causa, já que
na noite de véspera Nilda não havia feito referência ao
nome do autor da cobrança, nem ele se mostrara inte-
ressado em tomar conhecimento. Esperaria que a na-
morada relatasse os fatos após ter sido convidada pelo
advogado. Foi o que fez. Voz tensa, porém pausada,
Nilda deu início aos fatos de que tinha conhecimento,
mostrando-se surpresa e preocupada com tudo aquilo.
Na verdade, ela não podia se estender, vez que
fora surpreendida com a notificação acerca dos negó-
cios obscuros do falecido marido. Ainda assim, falou o
suficiente para que o causídico pudesse tirar suas ila-
ções. Os ouvidos de Rui encontravam-se mais apura-
dos do que nunca. Ao fim da explanação, o advogado
interpelou a nova constituinte.
– A senhora jura que desconhecia o vício do seu
falecido marido?
– Absolutamente, doutor – foi taxativa.
– Acredito na senhora – observou o advogado
para logo mergulhar numa profunda reflexão.
Ao fim desse tempo, voltou a interpelar Nilda,
que o fitava com exacerbado interesse.
– A senhora, como sabe… – fez uma pausa. – Vou

100
reformular a minha questão. Constam dos autos as no-
tas promissórias com a sua respectiva assinatura…
– Mas eu nada assinei, doutor – intrépida, inter-
rompeu.
– Tudo bem, dona Nilda. Já lhe disse que acredito
na senhora. Mas, por favor, me deixe concluir meu
raciocínio.
– Esteja à vontade. Desculpe-me – disse, enquan-
to segurava um sorriso.
– Sem problemas – deixou escapar um sorriso dis-
creto. – Como lhe estava dizendo, constam dos autos
as notas promissórias com a sua assinatura, assim como
no documento que a senhora e o seu falecido marido
autorizaram para a penhora do vosso apartamento. Eu
já sou conhecedor da sua resposta, ainda assim prefiro
fazer de conta que não escutei a negativa de há pouco.
– Como queira, doutor.
– As assinaturas constantes em todos os documen-
tos são suas?
– Eu nunca assinei qualquer documento doutor,
nem as promissórias e nem…
Polido, o causídico interrompeu.
– Para mim, basta um sim ou um não – foi frio, ao
que Nilda surpreendeu-se.
– Não, não são minhas essas assinaturas.
– Pois bem… A senhora conhece esse tal Francis-
co Viegas?
– Nunca o vi nem vivo, muito menos morto.
– Sim ou não, dona Nilda?
– Não, doutor – foi seca.

101
Enquanto o fazia, um rápido pensamento a ab-
sorveu: “Até parece que quem está na minha frente é
um juiz, e não o meu advogado”.
– Pois bem – o causídico entregou-se a uma pro-
funda reflexão. Ao fim desse tempo, prosseguiu: –
Dona Nilda, rapidamente tracei uma estratégia para
a sua defesa, da qual não tenho dúvidas quanto ao seu
sucesso – informou.
Um suspiro profundo foi a reação de Nilda. Tanto
o empresário como o advogado perceberam, porém
nenhum deles se manifestou.
– Se a senhora… – prosseguiu o causídico, expla-
nando como seria doravante a defesa de Nilda, que
o escutou atentamente, como se seus ouvidos fossem
radares de última geração.

**********

Enquanto o advogado dava a conhecer o teor de


sua estratégia para defender Nilda, o empresário alegou
necessidade de se ausentar para efetuar uma chamada.
Ele foi autorizado a sair. Já do lado de fora, sem perder
tempo, efetuou uma ligação. Pressuroso, do outro lado
da linha, um homem de voz grossa atendeu.
– Pois não, doutor – era a voz de Francisco Viegas.
– Já fiz merda.
– Como assim, doutor?
– Depois te conto. Preciso desfazer uma coisa
e tu vais ter que fazê-lo – seu timbre de voz denun-
ciava apreensão.

102
– O que, doutor?
– Vais ter que desistir da ação de cobrança em
desfavor daquele cara que foi morto na porta da farmá-
cia e da mulher dele. Um tal de Marcos e uma Nilda.
Estás lembrado de quem é?
– Sei, sim, doutor.
– Ótimo. Fazes isso o quanto antes.
– Mas por que, doutor?
– Não questiones, apenas obedece. Sou eu quem
te paga para me resolveres as coisas – foi rude.
O outro engoliu em seco.
– Mas como faço isso, doutor? – quis saber depois.
– É simples…
A ligação foi cortada.

**********

Minutos depois, Nilda aguardava ansiosa pela


chegada do empresário à viatura deste depois que re-
tornou à sala do advogado, com quem manteve uma
conversa no mínimo enigmática e deveras prolongada.
Ligeiramente aliviada por apreciar a estratégia do
causídico, ainda assim Nilda continuava apreensiva, pri-
meiro em relação ao caso da cobrança e penhora causa-
do pelos desmandos do marido, embora acreditasse nas
palavras do defensor, e segundo por ainda não ter tido
uma resposta em relação à conversa do empresário com
Rebeca. Ela sabia que a sobrinha, após haver conversa-
do com o namorado, rapidamente corria ao encontro do
pai adotivo para lhe contar as novidades. Todavia, nada

103
tinha acontecido, mas logo deixou essa sua preocupação
para trás, vez que fazia pouco tempo que o namorado
falara com Rebeca. Teria de ter paciência e esperar, ela
tinha noção disso, mas para Nilda o tempo urgia, já que
havia conseguido reunir nessa tarde informações adicio-
nais sobre a morte misteriosa da irmã, a mãe biológica de
Rebeca, deixando-a ainda mais angustiada e sequiosa de
vingança em relação ao religioso.
Enquanto se isolava em seus pensamentos e
aguardava pelo namorado que nunca mais terminava
a reunião com o causídico, acabou por atender uma
ligação da filha. Luzia encontrava-se na casa da amiga
Sideane, sendo-lhe permitida a sua permanência du-
rante essa noite. Após desligar o telefone, Luzia virou-
se para a amiga e disse-lhe:
– Ainda bem que mamãe só viaja pra cá de ma-
drugada. Assim, podemos navegar na net até mais tar-
de. Não é, Si?
– Hã, hã!... vai ser bom, Lu.
– Vamos é logo acabar com os deveres de casa,
para podermos entrar na net – Luzia sugeriu.
Enquanto concluíam suas tarefas escolares, uma
dúvida surgiu a Sideane.
– Olha aqui, Lu. Tem uma pergunta que eu não
sei responder na totalidade – disse.
– Qual, Si? Deixa ver.
– A professora pergunta aqui onde fica o rio Ama-
zonas?
– Olha, fica na Amazônia, Si – admirada, Luzia
respondeu na hora.

104
– Sei disso, Lu.
– Se sabes, por que me perguntas?
Sideane deu de ombros.
– Sei lá – disse depois: – Olha esta aqui. E onde
fica rio Mississípi?
– Nos Estados Unidos, na cidade ou no estado do
Mississípi, ou num, ou noutro.
– Eu também ia responder isso, Lu.
– Afinal, onde está a tua dúvida, Si?
– É na terceira pergunta.
– Qual?
– Está aqui – apontou. – Onde fica o rio Negro?
Tu sabes?
– E tu não sabes, Si? – admirada, quis saber.
– Não, não sei – confirmou com um ligeiro mo-
vimento de cabeça.
Luzia deixou escapar um leve sorriso matreiro. A
amiga percebeu.
– Do que estás rindo, Lu? Por acaso sabes a resposta?
– Hã, hã!... – sua voz saiu eloquente. – Mas é cla-
ro que sei, Si.
– E, afinal, onde fica o rio Negro?
– O rio Negro fica na África.
As duas escangalharam-se de rir. Riram tanto que
quase morreram de rir, em meio a palavras ditas uma
à outra, também elas munidas de veneno.
–Cuidado amiga, isso é considerado preconceito
– Sideane observou a seguir.
– Foi só uma brincadeira – com um largo sorriso,
Luzia anunciou.

105
As duas continuaram dialogando, para logo da-
rem início às suas aventuras pelo mundo da internet.
Para sua imensa tristeza, as duas ficaram decepciona-
das e tristes, pois tanto Maxuel quanto Weidson, seus
amigos virtuais do Facebook, sequer deram sinal de
vida, tampouco deixaram mensagens, como amiúde
faziam, em especial Maxuel em relação a Luzia.
Mais tristes ficaram quando verificaram também
que os dois haviam excluído seus próprios perfis da
página do Facebook. Ambas se questionaram sobre o
porquê de inesperadamente e inexplicavelmente os
dois terem resolvido deletar seus perfis justo no mes-
mo período. Frustradas, não conseguiram vislumbrar
um motivo sequer para seus atos, por mais ínfimo que
fosse. Seus rostos passaram a ser a imagem da desilu-
são, em especial Luzia, que havia mais tempo se co-
municava com Maxuel, sentindo um carinho especial
pelo jovem rapaz, assim julgava para engano seu. Sem
elas saberem, foi melhor assim, mais para Luzia, pois
o falso perfil de Maxuel escondia o rosto de Rui, o
namorado de sua mãe. O pedófilo tão perto dela sem
que ela pudesse imaginar e desconfiar.
As duas continuaram na frente do computador
procurando por novos amigos que de alguma forma
pudessem atenuar a falta de Maxuel e Weidson, daí
que não foi difícil, pois em pouco tempo já haviam
conhecido outros internautas.
Já era tarde quando as duas, vencidas pelo cansa-
ço, foram dormir.

106
Capítulo 5
O tempo foi passando.
Mais um dia amanhecera nublado. O sol fazia
um esforço na tentativa de forçar a passagem pelas nu-
vens, e não eram poucas, as que manchavam o céu.
Os acontecimentos foram sucedendo uns após os
outros, num piscar de olhos. Nilda assumira definiti-
vamente a gerência da agência bancária de sua cida-
de. Pese embora estivesse realizada profissionalmente,
e sua filha Luzia não lhe causasse problemas, sendo
uma exímia aluna, seu namoro caminhava a passos
largos para uma união formal com o empresário, ain-
da assim algo a angustiava, pois Rebeca, conforme
tanto ela como o namorado haviam previsto, mais ela,
sequer procurara o religioso para lhe contar as novida-
des. Mesclando a frustração à esperança, Nilda man-
tinha firme a intenção de vingar a morte da irmã, res-
ponsabilizando o religioso pelo fatídico acidente que

107
vitimara a mãe biológica da sobrinha. Não descansaria
enquanto não obtivesse êxito. Atualmente era esse o
seu cavalo de batalha. Malgrado essa situação malé-
fica que a atormentava diariamente, Nilda era uma
mulher realizada em todos os aspectos.
Também para sua surpresa, o advogado acabou
por informar pouco tempo depois que o proponente
da ação de cobrança havia desistido da mesma, invo-
cando razões diversas, as quais nunca convenceram a
descredita Nilda, reconhecendo que ela jamais podia
ser responsabilizada por uma dívida de que sequer ti-
nha conhecimento, dando seu aval. Nilda estranhou a
súbita mudança da parte do proponente da ação, mas
deixou para lá, já que tinha a garantia do advogado de
que o autor da mesma se comprometera a não insistir
nos intentos de cobrar o que quer que fosse. “Menos
um problema”, pensou consigo mesma Nilda, che-
gando a indagar o namorado se ele havia pago a dí-
vida ou feito algum acordo com o advogado sem seu
conhecimento, mas Rui negou impetuosamente, de-
monstrando tal como ela surpresa com o desfecho do
caso. Sem especular, Nilda nunca soubera que quem
estava por detrás de tudo aquilo era o próprio namora-
do. A justiça fora feita, havia dito Nilda a Rui, ao que
ele limitou-se a dar de ombros, aquiescendo. Agora,
Nilda respirava aliviada quanto a isso.
Enquanto isso, sua filha, agora, um ano, mais
velha acabara por completo esquecer o pai, de quem
fora abusada sexualmente. Apesar da imagem mental
dos abusos ainda se encontrar viva na sua mente, por

108
vergonha e opção própria, Luzia decidiu se reservar
no silêncio, comprometendo-se consigo mesma de
que levaria esse segredo para o túmulo.
Para Nilda, a filha não representava mais a mes-
ma preocupação de outrora, pois após uma demorada
e franca conversa, conforme sugestão da colega de tra-
balho, Luzia acabou por desistir de ficar horas a fio na
frente do computador, em especial durante a noite.
Ela usava o equipamento somente para fazer os traba-
lhos da escola e fazer várias consultas e pesquisas, mas
nada mais que isso.
A sensação com a qual ficara após haver sido en-
ganada e até abusada sexualmente pelo pai acabou
fazendo com que sentisse repúdio daqueles que se res-
paldavam naquele tipo de ferramenta com o intuito
de ludibriar as pessoas, e, sempre que alguém lhe fala-
va em Facebook e em amigos virtuais, Luzia desviava a
conversa. Até Sideane se afastou da amiga justamente
por conta do seu ceticismo. Ainda assim, e de vez em
quando, vislumbres rápidos de Maxuel invadiam a ca-
beça de Luzia. Ela não sabia explicar e não entendia
o motivo do surgimento dos súbitos vislumbres do jo-
vem rapaz, mas a verdade é que por vezes e sem aviso
prévio a imagem de Maxuel lhe passava pela cabeça,
para logo sumir, como que levada pelo vento.
Cada vez que Nilda e Rui encontravam-se juntos
ou no apartamento dela, ou em qualquer lugar público
na sua presença, Luzia logo era acometida por uma es-
tranha sensação, da qual, por mais esforço que fizesse,
não conseguia combater, tampouco encontrava uma

109
explicação plausível. Por vergonha, Luzia nada comen-
tava com a mãe, e então em seu lugar reunia forças sa-
be-se lá de onde para dissimular quanto se sentia bastan-
te mal quando da presença do namorado da mãe.
A mãe nem sequer desconfiava daquilo que podia
ser considerado uma exacerbada animosidade da parte
da filha quanto ao futuro marido, mesmo sendo sempre
bem tratada por Rui. Luzia, a partir de determinada al-
tura, passou a sentir algo que a impelia a um sentimento
esdrúxulo de repulsa, o qual não sabia explicar. Quan-
do ela se encontrava na presença do empresário, logo a
imagem mental do pai a acometia. Sem se dar conta, e
sem encontrar explicação, havia um forte liame do pai
de Luzia para com o futuro padrasto. E se ela ao menos
pudesse ter certeza quanto a isso, certamente a mãe se-
ria a primeira a saber. Até quando Luzia aguentaria todo
aquele sofrimento e fingimento de que tudo estava bem?

**********

Nessa mesma manhã, Rui acordou mais cedo do


que habitualmente fazia em relação aos demais dias.
Uma sensação estranha passou a dominá-lo.
Logo se ergueu e se sentou na cama, fixando o
olhar em um ponto qualquer do teto do aposento.
Absorto, por mais esforço que fizesse, não conseguia
vislumbrar o motivo da estranha sensação; no entanto,
seu sexto sentido lhe ditava que aquele dia prometia
ser diferente. Seria refém de algo que ele mesmo não
sabia explicar? Se sim, o quê? A si mesmo perguntava.

110
Vislumbres rápidos de acontecimentos de um
passado não muito longínquo passaram por sua cabe-
ça, todavia nada disso conseguia fazer suprimir a estra-
nha e confusa sensação daquele início de dia.
Cético, vários pensamentos acabaram por absor-
vê-lo. Algo o incomodava. Estaria necessitando desa-
bafar? Ou será que estava igualmente necessitando
suprimir os pensamentos que sem aviso prévio o tor-
turavam logo após tomar ciência e recordar uma vez
mais que três anos antes fora o responsável pela mor-
te do marido da sua futura esposa a pedido dela em
conluio com ele mesmo? Seria somente esse ou outro
contexto que marcava o lado negro de sua vida?
Subitamente, ficou com a impressão de que aque-
la estranha sensação tinha de fato a ver com a morte
do marido de Nilda, com a cumplicidade dela, mas
logo descartou, conquanto continuasse com aquela
sensação ainda que tênue.
Após deixar a cama, foi até o banheiro, olhou para o
espelho, vendo refletido o rosto, o qual lhe pareceu bas-
tante carregado em sua expressão, se sentindo mais velho.
Num gesto natural e voluntário, borrifou água
no rosto, limpando-o em seguida. Nada melhor que
uma lufada de ar fresco. Foi o melhor que podia ter
feito, pensou rápido. Subitamente, tomou uma deci-
são ali mesmo, daí que rapidamente se preparou após
tomar banho, desceu as escadas até se sentar na sala de
refeições para desjejuar.
Em poucos minutos, já se encontrava no interior
do automóvel. O destino foi a empresa.

111
**********

Agora o empresário encontrava-se sentado de-


fronte à escrivaninha em sua sala.
Enquanto analisava vários documentos, escutou
umas batidas na porta.
–Posso entrar, doutor? – era a voz doce e meiga
da secretária, que por uma pequena fresta da porta in-
clinou a cabeça.
– Entre, Rebeca. Já está com a cabeça dentro, só
lhe faltam as pernas – brincou.
Ela riu para logo dizer, demonstrando surpresa:
– O senhor tão cedo aqui na empresa?
– Para que tanta admiração, Rebeca? Fique sa-
bendo que de vez em quando é preciso mudar os cos-
tumes para não se tornarem tediosos.
Rebeca nada disse, engolindo em seco, concluindo
que seria melhor ter ficado calada, ainda assim, e como
conhecia o homem ali na sua frente, sabia perfeitamente
que aquela aparição fora do comum tinha um propósito.
O que seria? Ela sequer especulava, porém a única cer-
teza era de que a presença do empresário àquela hora do
dia tinha de ser interpretada como um acontecimento
anormal e suspeito, na verdadeira acepção das palavras.
– Está precisando de alguma coisa, doutor? – per-
guntou-lhe a seguir.
– Estou, sim – foi seco ao responder.
– Em que lhe posso ser útil?
– Entre, feche a porta, e sente-se na minha frente,
por favor. Quero lhe falar.

112
Ressabida, Rebeca sentou-se, procurando no ros-
to do empresário por indícios que alguma forma a le-
vassem a descortinar o que tanto ele queria lhe falar.
Não os encontrou.
Subitamente foi acometida a um horripilante
calafrio, pois uma lembrança, e sem aviso prévio, lhe
fez avivar a memória, conjecturava para si mesma, de
que a conversa nada estivesse relacionada com um
pedido feito por Nilda meses atrás, do qual deveria
guardar segredo. Ainda assim, ficou preocupada, já
que não tinha a certeza de se alguma vez tivesse abor-
dado inadvertidamente o assunto com o empresário.
Em dúvida, ficou temerosa, mesmo assim concluiu
que, se Nilda tivesse quebrado o que ela mesma
havia acordado entre as duas, havia sido leviana ao
fazê-lo. Torcia para que assim não fosse, conquanto
continuava ressabiada.
– Quando quiser falar, pode começar, doutor. Es-
tou pronta para escutá-lo – disse depois.
O silêncio do empresário, ainda que curto, de-
monstrou que preparava as palavras a serem profe-
ridas. Enquanto isso, ela fitava-o com curiosidade e
cautela, mais a segunda. Após alguns minutos, o em-
presário iniciou.
– Há uns meses atrás, nesta mesma sala, nós dois
tivemos uma conversa. Está lembrada dessa conversa?
– disse.
– O doutor vai me desculpar – cautelosa, respon-
deu. – Nesta mesma sala trato e falo tantos assuntos
com o senhor, todos os dias – enfatizou.

113
– É verdade, Rebeca. É verdade – disse enquanto
deixava escapar um sorriso dissimulado.
O empresário já ia prosseguir, quando escutou a
voz da secretária sobrepor-se à sua.
– O doutor terá de me lembrar o que falou co-
migo nessa altura, pois já nem me lembro do que fiz
ontem – brincou.
– Tem razão, Rebeca – considerou após um leve
sorriso analítico. – Pois é. A senhora está lembrada da
história do pescador que se havia perdido numa ilha
após um naufrágio e que foi salvo quando perdeu a
cabana que havia construído consumida pelo fogo?
– Ah, sim! – riu de leve. – Como poderia me es-
quecer duma história como essa, tão autêntica e boni-
ta, doutor?
– Pois é… – fez uma curtíssima pausa. – Sabe,
Rebeca, aquela história me fez, e muito, pensar no
valor da vida, no quanto é importante valorizar cada
minuto dela.
Ela comprimiu o rosto, a ponto de mesclar a des-
confiança à prudência. Diante disso, observou:
– Em que sentido o senhor chegou a essa con-
clusão para fazer essa afirmação? E por que só agora
chegou a essa conclusão? – quis saber.
– Confesso que a minha vida mudou, e muito,
para melhor, contudo tem algo que ainda me agoniza
ao longo do tempo. Parece que estou pior de que um
pobre sem recursos e sem nada. Sabe, tenho me senti-
do uma pessoa paupérrima na verdadeira acepção da
palavra depois que escutei aquela história…

114
– Paupérrima? Como assim, doutor? – polida, in-
terrompeu.
– Espere mais um pouco, por favor – pediu.
– Desculpe.
– Pois bem... – suspirou profundamente enquan-
to alisava os cabelos. – Nos últimos meses, tenho me
sentido uma pessoa solitária.
– Solitária? – comprimiu o rosto. – E o doutor
não se vai casar com a dona Nilda?
– Vou, sim. Mas isso não impede que eu continue
me sentindo uma pessoa solitária e angustiada. Algo
me incomoda diariamente.
– Confesso que não estou entendendo nada, doutor.
– Compreendo que não consiga esclarecer devi-
damente a senhora.
– Ainda bem que o admite.
– Na verdade, os meus filhos, por mais esforço
que faça e tenha feito até hoje para reconquistá-los,
a minha luta tem sido em vão, e mais: não sei se no
futuro ainda vou consegui-los reconquistar.
– Mas por que tanto ceticismo da sua parte, doutor?
– Os dois continuam afastados de mim, nem se-
quer querem escutar uma palavra minha que justifi-
que ou se relacione à morte da mãe deles e do meu
empenho na tentativa da descoberta da verdade. Em
casa é como se fôssemos uns estranhos. Falamos só o
essencial. Fora isso...
A seguir, o empresário ficou em silêncio, esperan-
do por uma reação da secretária. Diante disso, astuta,
ela interveio ao dizer:

115
– O doutor, com as suas palavras, está me queren-
do dizer que… digamos, quer expulsar algo que o inco-
moda. É isso o que se pode deduzir das suas palavras?
Ele ofereceu um sorriso como ratificando as pa-
lavras da secretária. De novo, na sala se instalou um
silêncio profundo e dolorido. Ela respeitou, esperando
por uma intervenção do homem ali na sua frente. Ao
fim de vários segundos, ele interveio.
– Estou precisando, e muito, desabafar. E por incrí-
vel que pareça hoje não tenho ninguém com quem pos-
sa fazê-lo para me libertar das minhas angústias – disse.
– Como assim? O senhor tem tantos amigos. O
seu mundo de negócios permite-lhe que seja uma pes-
soa bastante solicitada e rodeada por pessoas que lhe
possam dar conselhos e sugestões. Desculpe, mas eu
não aceito que diga que não tem amigos. A meu ver
isso é um perfeito disparate.
– Amigos, amigos… – deixou escapar num tom de
voz desdenhoso. – A palavra amigo é solta e abstrata,
sujeita a várias interpretações. Hoje em dia, ninguém
é amigo de ninguém, a não ser por interesse, salvo ra-
ríssimas exceções. Raríssimas exceções – deu saliência.
– Eu sou sua amiga, e mais: tenho dado provas des-
sa amizade ao longo do tempo em que trabalho com o
senhor nesta empresa, e não é pouco. Tem dúvidas?
– Sei disso, Rebeca. Sei disso – confirmou, falan-
do mais para si. Sua voz saiu fraternal.
Ressabiada e confusa, ela forçou um sorriso.
– Se quer desabafar, por que não desabafa com
a dona Nilda? – sugeriu depois. – Ela é a pessoa com

116
quem por obrigação deverá falar e expressar seus pro-
blemas e angústias. Dá para ver que o senhor está mes-
mo precisando falar com alguém próximo. Por que
não o faz com a sua futura esposa, que é a pessoa mais
próxima, já que com os seus filhos não é mais possível?
Um olhar profundo foi a reação do empresário.
Perante o olhar dele, Rebeca percebeu quanto o em-
presário se encontrava perturbado. E como se encon-
trava. Pura farsa.
– É justamente por o assunto se relacionar com
a Nilda que eu tenho necessidade de desabafar com
você – surpreendeu a seguir.
– Afinal, o doutor quer desabafar comigo – brin-
cou num tom irônico. – Se não quer desabafar com
a dona Nilda por motivos que não me interessam, os
quais respeito, por que demonstra claramente interes-
se em desabafar comigo?
– Justamente por você ser a minha melhor amiga
depois da Nilda, já que o assunto me impede de falar
com ela.
– Como assim? – ressabiada, quis saber.
– Já vai ficar a saber.
– Como queira.
– Sabe, não confio em mais ninguém.
– Nem nas pessoas com quem negocia?
– Nem nessas, Rebeca.
– Confesso que nunca vi o doutor tão… sei lá,
cético e desapontado – arriscou afirmar.
– Todos os que negociam comigo não passam de
uns imbecis. Todos eles estão fora do âmbito da minha

117
amizade. Além de imbecis, são gananciosos também.
– E o senhor?
– O que tem eu?
– Também está incluído nessa lista de gananciosos?
– Se eu lhe disser que também, a senhora acredi-
ta? – demorou vários segundos a responder.
– Quem sou eu para duvidar das suas palavras?
Quanto ao resto, sinceramente não sei o que dizer.
– Até eu, Rebeca. Até eu.
Instalou-se um silêncio opressivo. Os dois sabiam,
mas foi ela que prosseguiu:
– Quando quiser falar, ou desabafar, os meus ou-
vidos estão prontos para escutar.
O empresário respirou fundo. Enchendo-se de
coragem, disse:
– Eu jamais posso ter esta conversa com a Nilda.
– Mas por quê?
– Simplesmente porque fui eu que, no passado,
sem saber quem era, mandei eliminar fisicamente o
marido da Nilda, por conta de dívidas.
Com a surpreendente revelação, Rebeca tomou
um susto, a ponto de ficar muda. Atordoada e perple-
xa, fez um esforço para incutir que realmente havia es-
cutado bem aquela revelação sinistra. Ao fim de vários
segundos, voz entrecortada e tensa, disse:
– Será que eu ouvi bem, doutor?
– Foi justamente isso o que eu acabei de lhe re-
velar. A senhora ouviu bem, sim. Eu mandei matar o
marido da Nilda por conta de dívidas que ele tinha
comigo – sem preâmbulos, confirmou.

118
Assustada com tudo aquilo, Rebeca ficou olhan-
do o empresário sem saber o que dizer. Depois de pen-
sar durante alguns segundos, já recuperada do susto e
da revelação, coordenou as ideias ao dizer:
– E o doutor confia tanto em mim a ponto de me
fazer uma revelação como essa?
Ele forçou um sorriso. A seguir, disse:
– É lógico que confio, Rebeca. Já lhe havia dito antes.
Ela parecia confusa e assustada com tudo aquilo, e
não entendia o motivo do homem ali na sua frente lhe
haver revelado tal atrocidade, reforçando que confiava
piamente nela. “Por que será que o empresário confiava
nela?”, a si mesma perguntou. No entanto, considerava
tudo aquilo confuso e acima de tudo muito estranho.
Pelo semblante de Rebeca, o empresário reparou que
finalmente havia conseguido seus intentos.
Ainda confusa, a secretária observou com o medo
que a voz abafava.
– Já que confia tanto em mim, é lógico que não
quer que esta nossa conversa passe destas paredes – disse.
– Eu não sou doido, Rebeca. Se não confiasse na
senhora, jamais me abriria a ponto de lhe revelar que
fui responsável por um crime. Esse foi justamente o
motivo por que lhe resolvi revelar fatos do meu pas-
sado, passado horrendo e sinistro, do qual me enver-
gonho e me arrependo. As dúvidas que deixei no ar
na nossa última conversa. O mesmo passado que me
tortura diariamente depois que descobri que a pessoa
que mandei matar ter sido o marido da minha atual
namorada. Em hipótese alguma eu relataria estes fa-

119
tos a outra pessoa. Como lhe disse, além de me sentir
aliviado em saber que existe alguém como a senhora,
que entende o meu lado, também posso e confio pia-
mente na sua descrição e sigilo.
– A minha boca será um túmulo, doutor.
– Sei disso, Rebeca. A senhora tem dado provas
da sua fidelidade. Sei do que estou falando.
– Obrigado por demonstrar claramente que con-
fia na minha pessoa.
– Só me sentirei totalmente aliviado se lhe contar
como tudo aconteceu.
– Por favor, doutor. Se me puder poupar de porme-
nores, agradeço. O que me contou já é sinistro demais.
– Não vou contar obviamente pormenores do su-
cedido, mas de como conheci o marido da Nilda, até
resolver mandar executá-lo.
– Melhorou! – exclamou em meio a um suspiro,
no entanto deixou implícito quanto tinha interesse em
escutar. O empresário percebeu, daí que prosseguiu,
sem antes fechar os olhos. O timbre de sua voz saiu
pausada, porém denunciava medo. Tudo falso.
– Como sabe, eu tenho por hábito fazer emprés-
timos particulares também…
Em minutos, o empresário relatou os fatos desde
o dia em que conhecera o marido de Nilda até os vá-
rios empréstimos que lhe fizera. Fez questão de relem-
brar com impetuosidade que desconhecia o vínculo
matrimonial daquele com Nilda. Relatou ainda que o
marido de Nilda havia sido morto por um capanga por
ele contratado, executando a vítima em frente a uma

120
farmácia, sendo que o caso foi tratado pelas autorida-
des políciais como latrocínio, roubo seguido de morte,
e que o algoz nunca fora encontrado e apresentado às
autoridades, ficando a monte, como na maioria dos
latrocínios e assassinatos do país. Tudo mentira, exceto
o modus operandi.
O empresário encontrava-se tão envolvido com
aquela conversa, se sentindo bem ao relatar os fatos
a Rebeca, que quase foi tentado a falar sobre o seu
falso perfil do Facebook aliciando meninas menores.
Quando se deu conta do crasso erro que iria cometer,
logo susteve. Era ele quem aliciava no Facebook Lu-
zia se passando por Maxuel e Sideane se passando por
Weidson. Após terminar, o empresário ficou em silên-
cio. Por respeito e solidariedade, Rebeca também.
Pouco tempo depois, a secretária abandonava a
sala com a promessa a si mesma de que, assim que
cruzasse a porta, o que escutara do empresário faria
parte do passado. Seu silêncio seria absoluto.

**********

Logo após Rebeca deixar a sala do empresário,


ele não perdeu tempo. Pegou o celular, discando um
número. Pressurosa e simultaneamente ansiosa, Nilda
atendeu. Disse:
– Oi, meu amor. Então, já falaste com ela?
– Agora mesmo – confirmou.
Do outro lado da linha, escutou-se um suspiro abafado.
– E ela? Será que desta vez mordeu a isca? –

121
Curiosa, Nilda quis saber.
– Acredito que sim, meu amor.
– Contaste a história que combinamos?
– Todinha. Tim-tim por tim-tim.
– Será que desta vez ela vai correr até o paizinho
dela, aquele ordinário? – arrematou num tom irônico
de voz.
– Acredito que sim.
– Conta-me o que lhe disseste. Conta-me.
– Ela é mais esperta do que nós pensamos.
– Anda. Eu sei disso. Conta. Anda – resmungou.
Ele forçou um sorriso desdenhoso. A seguir, disse:
– Disse-lhe que…
A ligação foi cortada.

**********

Enquanto isso, Rebeca, após deixar a sala do em-


presário, logo se sentou em frente à sua escrivaninha.
Vários pensamentos invadiram sua cabeça.
Atônita com tudo aquilo por considerar gravíssi-
mas as palavras do empresário, ela passou a sentir um
medo angustiante. Como conhecia Rui, pelo menos
julgava que o conhecia até aquela data, ficou preocu-
pada com a eventual retaliação se por algum motivo
não viesse a cumprir a promessa veiculada em suas
palavras quanto à promessa de sigilo. Pois, nas pala-
vras do empresário, encontravam-se embutidas várias
ameaças. Ante essa possibilidade, chegou a estreme-
cer, pois no currículo daquele configurava uma mor-

122
te, e quem manda matar uma pessoa pode muito bem
mandar matar muitas mais, rápido pensou.
“O que fazer com aquela história que o doutor
me contou? Será que devo denunciá-lo?... Meu Deus!
Estou encurralada. Por que ele tinha de me contar a
porcaria daquela história? Por quê? Oh, meu Deus! E
agora?...”, confusa e com medo, a si mesma pergunta-
va, decidindo ali mesmo nada fazer e guardar segredo.
Em sua vã consciência, não podia fazer o contrário
do que lhe fora pedido e simultaneamente consentido
por ela mesma. Então, por que se torturar com aquela
história sinistra se nada tinha a ver com ela, se no fundo
não tinha sequer um vínculo qualquer, por mais ínfimo
que fosse, se a mesma somente serviu como um desa-
bafo da parte de alguém angustiado e torturado em seu
íntimo?, pensou depois, após ponderar.
Ainda assim, Rebeca não se sentia confortável
com aquela situação, daí que por sua cabeça confusa
passaram vertiginosamente várias lembranças de Nil-
da e de sua conversa algum tempo atrás. Ela que, na
época, ficara solidária e condoída com o empresário,
todavia após escutar a conversa de minutos atrás rapi-
damente dissipou esses seus sentimentos. Encontrava-
se envolvida, sem se dar conta, com duas situações es-
drúxulas referentes às duas pessoas consideradas suas
maiores amigas depois do pai.
A decepção foi geral em relação aos dois. Primeiro
Nilda, com a revelação de sua história algum tempo
atrás, e agora com a mais recente revelação do empre-
sário. Tanto Nilda quanto o empresário a apelidaram de

123
confidente, e na verdade sua confidência seria mantida;
porém, perante o conteúdo de ambas as histórias aná-
logas, preferia que assim não fosse. Além de confusa e
preocupada, a temerosa Rebeca havia sido encostada à
parede, encontrando-se num beco sem saída. Mesmo
não sendo claramente ameaçada, era assim que se sen-
tia a partir daquele momento, perante a complexidade
e a gravidade das histórias confidenciadas por ambos.
Rebeca também não entendia o motivo de haver
sido escolhida justamente por duas pessoas com histó-
rias negras, cujos caminhos acabaram por se cruzar, se
na verdade ela não passava de uma simples moça tra-
balhadora e nada tinha a ver com aquelas, se somen-
te as conhecera por força das circunstâncias? O que
significava tudo aquilo? E por que ambos resolveram
lhe revelar fatos negros de suas vidas? Só por ela ser
uma pessoa confiável? Ou só por seus lindos olhos?...
Eram estas e outras perguntas que a si mesma fazia
sem nada entender. Se confusa já estava, mais confusa
ficou. A situação para Rebeca parecia um poço sem
fundo na tentativa de descobrir o liame de tudo aquilo
e onde ela se inseria naquela miríade e esdrúxula his-
tória. Mergulhada em seus atrozes pensamentos, subi-
tamente uma lembrança a fez suspirar ligeiramente.
Aliviada, pegou o celular depositado em cima da
escrivaninha, discando um número. Do outro lado da
linha, polida, uma mulher de voz meiga atendeu.
– Paróquia do Cristo Rei. Fala a funcionária Lucí-
lia. Bom dia – disse atendendo.
– Bom dia, dona Lucília, sou eu, a Rebeca.

124
– Olá, menina. Como vai?
– Caminhando, dona Lucília. Caminhando.
– Estar bem é o que interessa. Quanto ao resto,
corre-se atrás, não é verdade? E, já que está caminhan-
do, deve faltar pouco para conseguir o que quer. São
só mais uns passos – dito isso, sorriu de leve.
– Só a senhora para me alegrar e me dar ânimo hoje.
– Estou vendo que quer falar com o padre.
– Não seria difícil adivinhar. Quando ligo para aí, é só
com ele que quero falar – dito isso, sorriu de leve também.
– É verdade. Eu vou passar a ligação, Rebeca.
Passar bem.
– Obrigada, dona Lucília. Passar bem também.
Escutou-se uma música de fundo e, antes mesmo
da funcionária passar a ligação, ousou dizer ao religioso:
– Olhe, padre, a mocinha ao telefone parece-me
muito perturbada.
– A senhora nem passou a ligação e o assunto e já
está fazendo fofoca. Oh mulher desnaturada- resmun-
gou.- Como tem tanta certeza que a mocinha está per-
turbada mulher?
– A voz da coitada estava tensa.
– Está bem, não é da sua conta. Meta-se no seu
trabalho e deixe de se preocupar com a voz dos outros
– foi rude.
– Está bem. Está bem. Não está aqui mais quem falou.
– Como se isso fosse uma verdade. Humm!... Só
Deus na sua vida e não sei se lhe valerá de alguma
coisa. Passe lá a chamada, por favor – cortou qualquer
possibilidade de retaliação.

125
“Se ele não valer de nada na minha vida, tam-
bém na sua deve ser a mesma coisa, padre sem futuro.
O senhor não é mais do que eu, seu fuxiquento”, con-
sigo mesma pensou a funcionária da igreja, para em
seguida passar a ligação.
Sem perder tempo, o religioso atendeu a ligação,
no entanto solicitou à funcionária que se retirasse. Foi
o que ela fez. Ainda assim, curiosa que era, ao fechar a
porta numa atitude de puro interesse, sem querer que-
rendo, tendo como testemunhas várias imagens de san-
tos e da divina providência, acabou por pressionar o ou-
vido na porta, na tentativa de escutar a conversa. Apesar
das dificuldades, apenas escutou umas poucas palavras.
A voz do religioso se fez escutar. Disse:
– Bom dia, filha de Deus. A esta hora da manhã?
– perguntou enquanto se sentava.
– Ah, meu pai, estou num beco sem saída – falou
rápido, a ponto de misturar as palavras.
O religioso brincou.
– Um bom dia para a minha filha também.
– Ah, é verdade – riu atoleimada. – Bom dia pro
senhor também.
– Então – prosseguiu o religioso –, pelo tom da tua
voz, vejo que estás com algum problema. Falo bem?
– Problema não. Um problemão, meu pai.
– Por favor, fala baixo e devagar. Alguém pode
escutá-la gritar – sereno, o religioso sugeriu.
– Desculpa, meu pai. Tu sabes que eu sou assim
quando fico apreensiva.
– Entendo, minha filha. O que te angustia?

126
– Estou desesperada, meu pai. Desesperada.
Paciente, o religioso fez uma curta e proposita-
da pausa, como forma de demover Rebeca, que, pelo
tom da voz, denunciava que o assunto a ser abordado
seria realmente bastante grave, o qual carecia de uma
atenção deveras especial. Ainda assim, tentou cole-
tar informações pertinentes para que pudesse agir de
acordo. Tinha quase a certeza absoluta de que Nil-
da estaria por detrás do estado de apreensão da filha.
Diante disso, interpelou-a.
– O assunto que me queres falar tem a ver com
aquela confissão do outro dia? – quis saber.
– Não. É pior. Muito pior, meu pai.
– Muito pior? – farejou perigo.
– Sim, meu pai. Muito pior. E eu estou precisan-
do, e muito, falar com o senhor. Por favor – suplicou.
– E tem de ser hoje?
– Sem falta. Só assim posso aliviar a minha barra.
Instalou-se um curto silêncio gélido. A seguir, o
religioso manifestou-se.
– Bem, minha filha… hoje, hoje estou…
– Por favor, meu pai, tem de ser hoje, e sem falta!
– desesperada, interrompeu.
O religioso não conseguia dizer não à filha, como
também sabia, após a insistência dela, que o assunto
definitivamente seria grave. Diante disso, disse-lhe:
– Está bem. Na verdade, estou muito ocupado
durante o dia de hoje e não costumo receber ninguém
depois das vinte horas, mas sendo tu abro uma exce-
ção. Passa por aqui depois das vinte horas.

127
Antes de agradecer, Rebeca suspirou aliviada. A
seguir, a ligação foi cortada.
Pelo sistema de vigilância instalado no seu com-
putador, o empresário assistiu ao telefonema de Rebe-
ca. Ela denotava apreensão, e ele sabia que a secretá-
ria havia falado com o pai. Em seu íntimo vibrou.

**********

Antes mesmo que o religioso pudesse a si mesmo


questionar e refletir sobre o motivo de haver sido soli-
citado pela filha, pressurosa a funcionária bateu à porta
da sacristia, fazendo-se anunciar. O religioso estranhou
a prontidão da funcionária, daí que a questionou:
– A senhora por acaso estava escutando a minha
conversa, dona Lucília?
– Mas que disparate é esse, padre? – insurgiu-se.
– O senhor até parece que não me conhece ao fim
de tantos anos trabalhando aqui! Eu sou lá mulher de
fazer uma coisa como essa de espionar os outros?
– Humm!... – desdenhoso, deixou escapar. –
Olhe, dona Lucília, se não é, eu não sei, mas que por
vezes deixa essa impressão no ar, olhe que deixa.
– Isso é um tremendo despautério, padre. Ouviu?

– Se é despautério ou não é, quem sabe é Deus. E


depois é com ele que a senhora vai ter de prestar con-
tas, já que eu não tenho o poder de a avaliar e castigar.
– Mas que conversa sem jeito, padre. Ande, vá

128
logo fazer as suas orações matinais – disse, para logo
ser acometida de um breve pensamento: “Ainda bem
que as minhas contas vão ser com Deus, porque, se for
com o senhor, é como diz o matuto, estou lascada! Ô
padre amarrado!”.
Conforme sugestão da funcionária, o religioso
saiu e foi fazer suas orações matinais. Enquanto isso,
no seu posto de trabalho, Rebeca respirava ligeiramen-
te aliviada, ávida para que o dia terminasse o quanto
antes. Sua ansiedade foi tanta que durante o dia cons-
tantemente olhava para o relógio de pulso, errando
por vezes nas atribuições dadas pelo empresário. Para
ela, o dia demoraria uma eternidade a passar.
Seu comportamento atípico foi prontamente ob-
servado pelo empresário, que sem perder tempo, e as-
sim que lhe foi possível, deu conhecimento a Nilda,
bem como do telefonema de Rebeca para o pai.
– Finalmente a minha sobrinha mordeu a isca! –
vibrante, Nilda falou ao empresário.

129
Capítulo 6
Conforme combinado, na hora marcada, pontual-
mente, Rebeca encontrava-se na presença do religioso,
um homem alto, de compleição robusta, cabelos grisa-
lhos e rosto enrugado, na faixa dos sessenta anos.
A ligação de Rebeca e do religioso ia muito além
do que se podia imaginar. Sem levantar suspeitas de
quem quer que fosse, Rebeca tinha o vigário como seu
amparo, cúmplice, e tudo o que pudesse fazer, além
de desabafar, era permitido na relação dos dois. Ela
confiava piamente no pai, e este tentava a todo o custo
protegê-la de qualquer investida da tia, já que tinha a
certeza de que Nilda havia descoberto seu segredo, a
morte da irmã e mãe de Rebeca.
Existia entre o religioso e Rebeca não só uma
ligação de confidencialidade, de cumplicidade afeti-
va e de amizade, mas muito mais que isso. Sem que
ninguém pudesse desconfiar, a não ser Nilda, que ti-

131
nha certeza absoluta quanto ao grau de parentesco da
sobrinha em relação ao religioso, muito embora este
o negasse desde o início, existia ali um vínculo de san-
gue. Embora Rebeca fosse filha adotiva do religioso,
assim lhe foi dado a conhecer a partir de determina-
da data, quando finalmente passou a compreender os
fatos, no fundo ela era filha biológica dele, depois de
um caso amoroso com uma fiel e funcionária de sua
igreja em uma outra cidade de outro estado, havia
anos, mais de vinte.
Rebeca nunca chegou a conhecer a mãe biológi-
ca, nem uma fotografia sequer existia. O religioso, que
havia planejado tudo ao mais ínfimo pormenor, fez
com que todos os vestígios relacionados à mãe bioló-
gica de Rebeca sumissem de uma forma enigmática.
Rebeca perdera a mãe com apenas dois meses de ida-
de, em um misterioso acidente de automóvel, quando
a viatura em que se encontrava capotou várias vezes
após o rompimento de um dos pneus. Sua mãe mor-
reu na hora, enquanto isso ela sobreviveu depois de
passar vários dias na UTI do hospital.
À época, a mãe biológica de Rebeca, uma linda
mulher, porém bastante reservada, de poucas palavras,
cuja origem familiar era praticamente desconhecida
após a separação dos pais, tendo sido afastada da irmã
Nilda depois que esta foi viver com a mãe após a sepa-
ração dos genitores. Era só o que se sabia.
Por se tratar de uma mulher muito bonita, deten-
tora de um corpo colossal, logo o religioso, para quem
a mãe de Rebeca trabalhava na paróquia, se encantou

132
pela sua extraordinária e incomum beleza, como ten-
tado pelo diabo, acabando por se envolver amorosa-
mente, violando o princípio do celibato a que se com-
prometera ao ser ordenado sacerdote. O resultado da
quebra do compromisso com Deus e com os homens,
fruto do amor proibido, encontrava-se bem ali, diante
de seus olhos: Rebeca, sua filha.
Na paróquia, algumas pessoas suspeitavam do
comportamento devasso e concupiscente do religioso
se envolvendo com a funcionária, no entanto nada foi
comprovado, embora ficasse no ar a desconfiança. O
clima de suspeição vigorava na paróquia, porém nin-
guém tinha o topete ou o atrevimento de abrir o bico
para denunciar o caso, e foi justamente essa aura de
suspeição e insatisfação de alguns fiéis que fez com
que o religioso colocasse em prática um plano, como
forma de dissipar de uma vez por todas qualquer dúvi-
da ou dúvidas, cortando o mal pela raiz.
Depois de muito matutar a respeito por longos
dias, finalmente um sórdido plano foi traçado. Teria
de se livrar em definitivo de mãe e filha, para que ve-
dados comentários não continuassem a ser escutados
pela pequena cidade, causando mais desgaste do que
aquele que já havia sido infringido à sua reputação
como pessoa idônea, respeitada e, acima de qualquer
suspeita, como sacerdote que jamais pretendia ver ma-
culada a imagem da santa Igreja por conta de um “ca-
sinho”, assim considerava.
Na verdade, era justamente essa reputação em
baixa que mais incomodava o religioso, e, se tudo

133
desse certo, conforme o planejado, sem titubear pe-
diria de imediato sua transferência para uma outra
paróquia, de outro estado, invocando para tal moti-
vos de ordem pessoal. A seguir, obtida a transferên-
cia, se entregaria a uma profunda reflexão, impondo
a si mesmo a punição de que ao menos pudesse fazer
colmatar e redimir de seus pecados. Caberia a Deus
aceitar ou não o seu perdão e avaliar seus sacrifícios,
daí que reiterava quantas vezes fossem necessárias até
que tivesse a certeza do perdão. O religioso tinha a
perfeita noção de tudo aquilo.
O plano acabou por ser executado por ele mes-
mo, e, na calada da noite, numa noite bastante fria de
inverno, em plena madrugada, conseguiu fazer com
que alguém violasse uma das rodas da viatura paro-
quial, provocando o rompimento do pneu.
No dia seguinte, pela manhã, Luiza, a mãe de
Rebeca, na companhia da filha, saíram juntas para
uma consulta de rotina em uma cidade vizinha, e foi
durante esse curto trajeto entre as duas cidades que
o inevitável aconteceu: o rompimento do pneu, pro-
vocando o acidente. Luiza morreu na hora depois de
cuspida da viatura que capotara várias vezes; enquanto
isso, Rebeca conseguira sobreviver graças à interven-
ção divina, segundo os socorristas que acorreram ao
local do acidente.
Seria um castigo divino para o religioso? Em seus
pensamentos, concluiu que sim, daí que aceitou sem
claudicar o que viria pela frente. Imbuído dessa sensa-
ção e invocando responsabilidade moral pelo acidente

134
haver acontecido justamente com a viatura paroquial,
e vez que era desconhecido qualquer familiar de Lui-
za na cidade e nas cidades vizinhas, o religioso acabou
por ficar com Rebeca, amparando-a como sua filha de
criação para a sociedade, porém para ele muito mais
que esse tapa-olhos, e para Deus também.
Será que se encontrava preparado para dar amor
e carinho à filha que ele mesmo tentou matar? Certa-
mente que não. Sendo assim, só Deus poderia corrigir
os acontecimentos, mas caberia a ele fazer sua parte
também. E neste momento era o que fazia dentro das
suas possibilidades e limitações, se restringindo à sua
qualidade de membro da igreja. Ainda assim, ele sabia
que jamais se podia expor.
Rebeca sabia e acabara por aceitar resignada e si-
multaneamente conformada a sua condição de filha
de alguém que jamais poderia ser seu pai biológico,
ainda assim a condição falaciosa de pai de criação já
lhe permitia que se sentisse feliz, mesmo desconhe-
cendo a obrigação imperiosa do verdadeiro genitor.
Atualmente, a única pessoa que tinha conheci-
mento da história da morte de Luiza era justamente
Nilda, a irmã, após sua incansável luta pela descober-
ta da verdade e a quem sempre fora negada as reais
circunstâncias em que a mesma havia sucedido de-
pois de finalmente localizar o paradeiro da irmã havia
anos. À época, Nilda foi até a paróquia onde a irmã
trabalhava e lá tomou conhecimento da sua morte,
deixando-a completamente transtornada, arrasada e
bastante triste, já que esperava reencontrar a irmã da

135
qual havia se separado ainda criança. Nessa mesma
ocasião, Nilda também tomou conhecimento de que
a irmã, além de sofrer um misterioso acidente de au-
tomóvel, deixara uma filha, a qual passou a ser criada
pelo religioso, que, entretanto, havia sido transferido
pouco tempo depois para outra cidade. Sem perder
tempo e movida pela enorme curiosidade de conhe-
cer a sobrinha e quem sabe trazê-la para o aconchego
de seu lar, criando-a como sua filha em homenagem à
memória da irmã, Nilda deslocou-se até a paróquia do
Cristo Rei, onde se deparou pela primeira vez e única
com Rebeca, ainda criança, mesmo que fosse por pou-
cos segundos, e logo não teve dúvidas: o rosto angeli-
cal de Rebeca continha traços da irmã, mas também
várias semelhanças com o religioso. Ela estranhou e
até questionou o próprio religioso sobre quem seria o
pai da sobrinha, mas este logo forjou a verdade dizen-
do que a funcionária de sua igreja havia se envolvido
com um homem casado, o qual desapareceu assim
que tomou conhecimento de que a havia engravidado.
Nilda estranhou não só a forma como fora tratada pelo
apreensivo religioso e mais ressabiada ficou quando
ele não permitiu que Rebeca fosse levada por Nilda,
ela que já ficara com uma pulga atrás da orelha quan-
do tomou conhecimento do misterioso acidente que
vitimara a irmã. A forma rude e grotesca como fora
tratada, a recusa de o religioso entregar a sobrinha, o
que seria a coisa mais natural, as semelhanças no rosto
de ambos e até o misterioso acidente associado à súbi-
ta mudança de Rebeca para uma obra de assistência

136
social mantida pela Igreja Católica, proibindo qual-
quer visita a Rebeca, tudo isso foi o rastilho para que
começasse a investigar a morte da irmã e a verdadeira
origem sobre a paternidade da sobrinha. Nilda não en-
tendia o motivo ou os motivos do religioso ao lhe negar
a aproximação à sobrinha, daí que tomou a iniciativa
na tentativa de criar um vínculo com Rebeca, todavia
nunca o conseguiu. Demorou vários anos, mas Nilda
acabou por ter sucesso nas suas investigações, e a Re-
beca, seu pai, o sacerdote, jamais lhe confidenciaria a
totalidade e a brutalidade dos nefastos acontecimen-
tos, em especial de que fora ele o autor moral da morte
de sua mãe. Seria um risco imperdoável, ele sabia-o.
O religioso levaria, assim julgava logo após come-
ter o crime, aquele segredo para o túmulo, assim que
fosse chamado por Deus, para engano seu, e que Deus
depois ficasse condoído com sua alma.
E agora, àquela hora da noite, o religioso encon-
trava-se diante da filha, a quem sempre negara os la-
ços afetivos de sangue, mas a quem prestara de igual
modo todo o apoio ao longos dos anos. Entre os dois
existia um vínculo muito forte.
Ao verificar que a funcionária já se havia reco-
lhido aos seus aposentos da casa paroquial, o religioso
estendeu os braços para a filha, que logo o abraçou
efusivamente.
– Ai, quanta saudade, minha filha! – disse-lhe en-
quanto a abraçava.
– E então eu, meu pai, nem se fala.
Os dois se desvencilharam.

137
– Fala mais baixo, minha filha. Aqui as paredes
parece que têm ouvidos – cauteloso, ele pediu.
– Estás me querendo dizer que a dona Lucília…
Ele leu os pensamentos da filha. Interrompeu
para lhe dizer enquanto acenava lentamente a cabeça.
– É isso mesmo que estás pensando. Aquela des-
norteada gosta de escutar as conversas pelos cantos da
casa. E não é a primeira vez que o faz.
– Quem diria, meu pai, hein?
– E eu julgando que o diabo não punha os pés
aqui dentro, e que este lugar estivesse imune à presen-
ça desse escroto.
– Até parece que o diabo adora o perigo.
– Esse é o seu modus operandi, minha filha –
brincou.
Os dois deram uma risada leve.
– O diabo tomando gosto de se infiltrar no lugar
do seu maior rival. Até aqui embaixo, na Terra, a luta
é acirrada. E eu julgando que esse tipo de luta aconte-
cesse só lá em cima – Rebeca comentou a seguir num
tom irônico.
– Também eu, minha filha. Também eu.
– Estou vendo que nós dois estamos enganados.
Muito enganados, meu pai.
De novo os dois deram uma risada contida. A se-
guir, decidido, o religioso tomou a dianteira.
– Vamos logo ao que interessa, minha filha – dito
isso, puxou-a suavemente até um sofá próximo, para
logo se sentarem de frente um para o outro.
– Sim, meu pai.

138
– Já te vou avisando filha, é perigoso ficarmos
até tarde. Ninguém te pode ver sair daqui depois das
vinte e duas horas. Sabes como é o povinho daqui.
Além de fofoqueiro, adora imaginar coisas onde elas
não existem.
– Tem razão, meu pai. O povo daqui tem uma
imaginação muito fértil.
– E bote fértil nisso. É pena que não se possa sub-
trair nada de proveito dessa imaginação fértil desse
povo sem futuro.
Ela forçou um sorriso. A seguir, disse:
– Tem razão, meu pai. Temos de ser ágeis.
– Então, minha filha – colocou-lhe delicadamen-
te as mão nos ombros –, o que te trouxe até aqui? Vejo
que o assunto é delicado. A tua voz ao telefone o de-
nunciava. É verdade?
– Bastante delicado. Delicado demais para ser tra-
tado ao telefone. O meu patrão me deixou preocupada.
– Preocupada? Preocupada com o quê?
Ela já ia falar, quando o religioso resolveu adian-
tar-se ao se aperceber do estado apreensivo em que a
filha se encontrava.
– Ele te deixou preocupada ou perturbada, mi-
nha filha? – disse.
– As duas coisas, meu pai – confirmou após um
curto silêncio doloroso.
Subtil, o religioso percebeu.
– E o que escutaste do teu patrão? – quis saber,
enquanto afagava o cabelo dela num gesto carinhoso.

139
Um momento de reflexão acabou por absorver
Rebeca, o qual foi respeitado pelo sacerdote. A seguir,
enchendo-se de coragem, respirou a plenos pulmões
para dizer num tom de voz que o medo abafava.
– Sabe, hoje de manhã fui surpreendida com a
chega dele bastante cedo na empresa.
– E?
– Ele me pediu que eu me sentasse, pois queria falar
comigo. Ou seja, deixou claro que pretendia desabafar.
– E?
– Chegou-me a dizer que só tinha a mim como
amiga e a dona Nilda, mas que por força daquilo que re-
solveu me contar tinha de falar somente comigo, e que
em hipótese alguma a dona Nilda jamais deveria tomar
conhecimento… Sabe, ele não implorou, mas deixou
implícito nas suas palavras que se eu abrisse a boca…
Antevendo o que a filha ia falar, o religioso inter-
rompeu.
– Que tu serias responsável pelos teus próprios
atos – disse.
– Justamente, meu pai – temerosa, confirmou.
Farejando perigo, o religioso ficou pensativo.
Como demorou a se manifestar, a filha não se segu-
rou. Diante disso, ousou dizer:
– Eu estou encurralada, não é, meu pai?
– Sabes, filha, tudo isso carece de uma refle-
xão muito profunda – circunspecto, falou mais
para si ao responder.
– Reflexão profunda – comprimiu o rosto. – Re-
flexão de quê?

140
Ele dissimulou um sorriso.
– Só posso fazer uma avaliação depois de te escu-
tar – observou a seguir.
Rebeca já ia narrar o que escutara do empresário
quando foi impedida pelo religioso, que, preocupado,
a questionou.
– Tu por acaso não abriste o bico sobre a história
que Nilda te contou?
– Mas é claro que não, meu pai – foi categórica.
– Ainda bem, minha filha.
– Em que estás pensando, meu pai? – ressabiada
com a interpelação, ela quis saber.
– Sabes, é muito estranho – falou mais para si.
– Estranho por que, meu pai?
– Sabes, filha, tu és uma pessoa muito boa, tão boa
que não consegues dizer não a nada. É do teu instinto.
É normal e básico as pessoas dizerem não. Por quê? No
teu caso é diferente. Quando dizemos não, sentimos
que somos alguém. A mãe sente que é alguém, daí que
pode dizer não. Quando ela diz não ao filho, o ego da
criança é ferido e o dela fica satisfeito. O não é algo
que satisfaz o ego, e é por isso que aprendemos a dizer
não. Por onde quer que tu vás, irás encontrar sempre
pessoas que adoram dizer não, justamente porque dessa
forma acabam por transmitir sua autoridade. Se você
disser sim vai se sentir inferior aos outros; porém, como
tu és uma pessoa maravilhosa, minha filha, sempre di-
zes sim. Com isto quero dizer que em abstrato o sim é
positivo e o não é negativo, tudo dependendo de como
se inserem num determinado contexto. Entendes?

141
– Sim, entendo, meu pai... Mas aonde estás
querendo chegar? Tu também não consegues dizer
não a ninguém.
O religioso ofereceu um sorriso cordial. A seguir, disse:
– Quero dizer com isto que tu tiveste a capacida-
de de dizer sim para escutar as histórias desses dois ci-
dadãos, independentemente de as pessoas nada terem
a ver contigo.
– Preferia que assim não fosse, meu pai – obser-
vou sem nada entender.
Ele voltou a oferecer um sorriso. A seguir, foi incisivo.
– Mas vamos ao que te trouxe até aqui, minha
filha. Conta tudo o que o teu patrão te falou? Quero
saber tudo, oK?
Sem perder tempo, Rebeca relatou tudo o que
havia escutado do empresário. Voz tensa e abafada de-
talhou cada palavra escutada da boca do namorado
da tia. O religioso escutou de ouvidos bem apurados
sem interromper. Ao arrematar, preocupada, Rebeca
deixou escapar:
-E agora meu pai?
O religioso mergulhou numa reflexão profunda.
Quando resolveu falar, foi incisivo ao dizer:
-E agora é o seguinte. Primeiro, a namorada do teu
patrão faz as revelações que faz e te pede segredo, agora
justamente é ele que te procura para fazer suas revela-
ções. Um é vítima do outro e vice-versa, e cada um te
pede segredo. É estranho, muito estranho, justo porque
confiar fatos gravíssimos a uma pessoa como tu, como
acabei de o afirmar? – arrematou, falando mais para si.

142
– É precisamente isso que eu não entendo e que
me está deixando preocupada, meu pai. Por que eles
me escolheram para contar suas histórias e não outra
pessoa? É estranho, meu pai, muito estranho.
O religioso refugiou-se num silêncio enigmático.
Ele sabia o motivo de tudo aquilo, porém o que tinha
a fazer era dissimular. Rapidamente suas suspeitas se
confirmaram. Nilda usava a sobrinha somente para
atingi-lo. O caso estava tomando contornos perigosos.
Enquanto coordenava as ideias, seu semblante denun-
ciava que fazia um esforço de memória ou algo simi-
lar. Esse fato despertou o interesse de Rebeca, já que
havia ficado sem resposta. Curiosa, interpelou-o:
– Em que estás pensando, meu pai?
Erudito, o religioso não respondeu na hora. Fê-lo
somente ao fim de vários segundos, quando disse:
– Afinal, aonde é que eles querem chegar com
tudo isso?
– Talvez desabafar, meu pai – cautelosa, arriscou
dizer.
– Talvez não seja só isso, filha – disse enquanto
esfregava o queixo.
– Como assim, meu pai?
– Engraçado! Por que o fizeram a ti e não a outra
a pessoa?
– É justamente isso que me causou estranhe-
za e confusão à minha cabeça. Eu me pergunto:
por que a mim? Só pelos meus lindos olhos? Não
creio, meu pai. Existe algo de muito estranho na
conversa dos dois.

143
O religioso não respondeu de imediato, acabando
por mergulhar numa profunda reflexão. A seguir, assu-
mindo um tom de voz persuasivo, disse:
– Tu por acaso não perguntaste a ti mesma por que
eles ousaram confiar piamente em ti fatos tão gravíssimos?
– Eu sei lá, meu pai… Os dois disseram que eu sou
a amiga mais próxima deles e que faço o elo de ligação.
– Humm!... – forçou um sorriso desdenhoso. –
Amiga mais próxima dos dois? É muita ousadia. E eles
não têm outros amigos a ponto de confiar uma conver-
sa requintada de crueldade? Nem que tu fosses de fato
uma amiga tão próxima de uma pessoa minimamente
equilibrada, essa pessoa jamais confiaria um fato tão
grave como aqueles que eles te relataram. Esse tipo
de coisas confiam-se aos pais, aos irmãos, e não a uma
simples funcionária, cujo patrão tem um caso amoro-
so com uma bancária. Nem a mim, que sou padre, os
criminosos confiam esse tipo de segredos ou pecados,
cada um interprete do jeito que bem entender, não sei
se por vergonha ou por desconfiança quanto ao meu
dever de sigilo. O certo é que de alguns anos para cá
não apareceu ninguém a dizer que matou outra pes-
soa, quando a realidade do país é outra, basta olhar-
mos para a televisão. Existe alguma coisa por detrás de
tudo isso, e olha lá se essas histórias são mesmo verossí-
meis? – deixou a pergunta no ar, causando ainda mais
confusão na já por si só confusa filha.
– É isso justamente o que me intriga, meu pai.
Por que eu? Se eles têm familiares a até outros amigos
mais próximos?

144
– A palavra amigo é suscetível de várias inter-
pretações. É uma palavra solta e qualquer um a pode
pronunciar da boca para fora só pelo simples fato de
que tem boca para falar, minha filha. É tudo muito
estranho. Muito estranho – deu saliência.
– E de fato é, meu pai.
– E depois falaste em elo de ligação. Mas que elo
de ligação é esse que faz com que eles te confiem fatos
gravíssimos? A história está muito mal contada. Muito
mal contada – arrematou, falando mais para si.
– Estou como o senhor, meu pai. Sem nada en-
tender e confusa.
O religioso isolou-se numa profunda reflexão. O
que conjecturava só ele e Deus tinham conhecimen-
to; todavia, sabia que o perigo se aproximava cada vez
mais. Nilda, ao fazer uso da sobrinha através do na-
morado, pretendia atingi-lo em cheio, preparando a
cartada final para o denunciar e desmascarar os acon-
tecimentos de vinte e cinco anos atrás. Diante disso,
teria de agir para que seu segredo não fosse revelado.
Durante duas décadas e meia, protegera seu segredo a
sete chaves, mas agora encontrava-se na iminência de
que o mesmo fosse colocado a descoberto. Seria o seu
fim, e quanto a isso teria de agir o quanto antes para
salvaguardar seus interesses e de sua filha também,
que ao vê-lo ausente por vários segundos o indagou:
– Algo te preocupa, meu pai?
Ele lançou-lhe um olhar profundo e enigmático,
causando um arrepio horripilante em Rebeca. Assus-
tada com o olhar do pai, o qual escondia mil e uma

145
preocupações, apreensiva e com o medo que a voz
abafava, acabou por questioná-lo:
– Pelo teu olhar, dás a entender que eu corro ris-
co, não é?
– Antes de te responder, preciso que me digas
duas coisas.
– Pergunta, meu pai.
– Primeira, o teu patrão sabe que foi a namorada
dele que mandou matar a sua esposa?
– Mas é claro que não, meu pai. Eu nunca contei
essa história a ele. A dona Nilda me pediu segredo e
eu o mantenho até hoje. Só tu sabes dessa história –
foi categórica.
– Tens a certeza de nunca abriste a boca para
mais ninguém a não ser para mim?
– Tu não confias em mim, meu pai? – desafiou-o
com a voz. – Considero isso uma ofensa, estás me ou-
vindo? Já é a segunda vez que me fazes essa pergunta.
Ele forçou um sorriso enquanto lhe amaciava de-
licadamente a mão. A seguir, disse:
– Não fiques assim, minha filha. Somente estou
me acautelando. Nada mais que isso. Eu sei que é cha-
to insistir na mesma pergunta, e tenho consciência de
que a havia feito antes.
– Então. Por que insistir? O senhor é o único que
sabe desta história. O senhor, eu e a dona Nilda – fez
questão de relembrar.
– Tudo bem, minha filha. Me desculpa.
– Está desculpado – ofereceu um sorriso leve.
De novo o religioso mergulhou numa profunda

146
reflexão. Rebeca respeitou seu silêncio, limitando-se a
olhar com interesse o pai, que, ao fim de vários segun-
dos, observou:
– É óbvio que o teu patrão sequer especula que a
filha da dona Nilda seja filha dele também por conta
das traições dela ao morto? – disse.
– Naturalmente que não, meu pai, e mais: sequer
pode ser cogitada essa possibilidade.
Novamente o religioso mergulhou numa profun-
da reflexão. Rebeca fitava-o com curiosidade e interes-
se, respeitando seu silêncio. Ao fim desse tempo, ele
interveio. Disse:
– Pois bem, minha filha, depois do que escutei,
tanto hoje como da conversa da dona Nilda meses
atrás, depois de fazer uma introspecção, lamento te
dizer que nada do que escutaste dessas pessoas foi de-
sabafo, pelo contrário. Sequer foram confidências.
– Não, meu pai? – comprimiu o rosto num gesto
de desconfiança.
– Não senhor, minha filha – sua voz saiu séria.
Ela sentiu um súbito arrepio cortar-lhe as costas.
Ele percebeu.
– O senhor agora me deixou com medo. Bastante
medo. O senhor por acaso está sabendo dalguma coi-
sa que eu não tenha conhecimento? Está escondendo
alguma coisa de mim, meu pai? Diga-me, por favor –
quase implorou.
– É claro que eu nada sei sobre esses dois senho-
res. Só sei que ele é o teu patrão e ela a namorada
dele. Nunca os vi sequer nem mais gordos, nem mais

147
magros. O que sei deles é através de ti, minha filha.
Apenas fiz um liame dos fatos que me relataste e acho
tudo muito estranho eles chegarem junto de ti e fala-
rem essas coisas horrendas que eles foram capazes de
fazer um ao outro. Nada mais do que isso, minha fi-
lha – tentou tranquilizar Rebeca, conquanto estivesse
mentindo, pois sabia da gênese de tudo aquilo.
Sua resposta foi tão convincente que a filha suspi-
rou levemente. Ainda assim, continuava interessada e
confusa, daí que sem perder tempo o interpelou:
– Então, se não é desabafo nem confidência, o
que será então? Nesse caso, por que eles confiaram em
mim se não passo de uma simples funcionária dele,
como o pai afirmou, e bem, há pouco? E ela, que não
é nada minha? Por que, meu pai? – disse.
– Eles simplesmente te usaram, minha filha –
cauteloso, respondeu.
– Eu fui usada por eles. Como assim, meu pai?
Eles me usaram? – de assustada que ficou, elevou
inadvertidamente a voz.
– Psiu!... Fala mais baixo, minha filha. Olha que
naquela eu não confio nem a pau – fazia referência à
funcionária da paróquia.
– Perdão, meu pai… Eles me usaram? Mas por
que me usariam, meu pai? – confusa e atordoada com
a revelação, quis saber.
– É verdade. Esses senhores te usaram. E mais: já
te havia dito, ninguém confia segredos dessa natureza a
qualquer pessoa, independentemente da ligação ou do
convívio, a não ser se confiar, e muito, nas pessoas mais

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próximas, que normalmente são familiares. Por detrás
dessa história existe qualquer objetivo da parte deles.
– Mas o que será, meu pai? O que é que eu tenho
para que eles me possam ter usado? Será que eu corro
risco? Já te havia perguntado e tu não respondeste.
– Por que me fazes essa pergunta novamente, mi-
nha filha?
– Tu há pouco me disseste que ao fim de escuta-
res a história me dirias alguma coisa a respeito. E não
dá para ver quanto eu estou preocupada, meu pai?
– Sim, dá para ver que ficaste preocupada – ad-
mitiu a seguir.
– Então, por que não me respondes?
Ele a fitou com um olhar profundo enquanto for-
çava um sorriso. A seguir, demonstrando serenidade,
acabou por satisfazer a enorme curiosidade de Rebeca.
– Sabes, minha filha… Inicialmente eu pensei
que tu corresses perigo, mas depois de fazer a minha
introspecção e analisar criteriosamente as conversas
dos dois obviamente só sei aquilo que tu me contaste,
acho melhor não entrares em pânico. Na verdade, eu
exagerei ao incutir em ti um alarmismo e quem sabe
uma sensação exagerada de pânico. De fato, eles te
usaram, e o motivo do porquê te usaram é uma incóg-
nita, só eles saberão explicar, mas tu jamais deverás
questioná-los do porquê eles te levaram a contar suas
histórias. Na minha perspectiva, eles têm algum obje-
tivo em mente ao fazê-lo. O quê? Não sei, mas acho
que deves aguardar serenamente pelos próximos capí-
tulos, se os houver, e…

149
– Com certeza que vai haver, meu pai, senão não
me contariam o que eles fizeram- ela interrompeu.
Ele forçou um sorriso. A seguir, corroborou.
– Admitamos que sim, nesse caso deves aguardar
serenamente e depois me procuras. Em todo caso, de-
ves estar alerta, e o meu conselho é que, para teu bem,
não deves ligar para a dona Nilda, a não ser se ela o
fizer… – disse.
– Eu nunca liguei para ela – polida, interrompeu.
– É ela que liga para mim e de quando em vez apare-
ce lá na empresa e me convida para tomar um café,
para deitar conversa fora. Diz sempre que aprecia o
meu trabalho e que o namorado dela, o doutor Rui,
faz constantemente rasgados elogios ao meu trabalho
e à minha personalidade.
– Ai, é? Ela diz isso, minha filha? – demonstrou
admiração.
– Sim, meu pai.
– E é só isso que ela fala contigo? Ou fala outras
coisas?
– Sim, basicamente é isso… Fala uma vez por ou-
tra da família dela, que tem uma irmã a quem não vê há
muitos anos, que perdeu o contato dela depois que deixou
a cidade e o emprego para ir para outra cidade trabalhar
com alguém ligado a uma igreja, pelo menos foi o me
disse. Ela acha que a irmã já morreu, mas que gostaria
muito de saber se ela se tinha casado e havia tido filhos,
mas mais nada que isso. Pelo menos é o que ela fala co-
migo sempre que saímos no meu horário de trabalho para
tomarmos café. Ela e o meu patrão, que nos acompanha.

150
Subitamente o religioso se viu muito interessado na
conversa. O perigo encontrava-se cada vez mais iminente.
– Só isso, minha filha? – disfarçou a seguir a voz.
– Sim, meu pai.
– E por que ela não vai atrás dessa irmã e tenta sa-
ber qualquer coisa dela? É legítimo e salutar que quei-
ra saber do paradeiro da irmã. Até eu no lugar dela o
desejaria e não mediria esforços nesse sentido.
– Ela diz que não tem tempo e que perdeu o con-
tato dela tem vinte e cinco anos, a minha idade. É
muito tempo, meu pai, não achas?
– Na verdade, até é – disse sem muito entusiasmo,
todavia com os ouvidos bem apurados. – E por que ela
não procura por alguém da família ou até os pais?
– Ah, os pais dela já morreram. Quanto à família,
desde cedo perdeu o contato, a única de quem mais
era chegada era a irmã, mas tal como a família perdeu
o contato. Sabes, pai, ela acredita que um dia possa en-
contrar a irmã. Pelo menos nunca perdeu a esperança.
– É, seria bom para ela. Assim matava as sauda-
des... E ela nunca te pediu ajuda para ajudares a en-
contrar essa tal irmã dela? – suas palavras saíram mu-
nidas de veneno, mas Rebeca não percebeu.
– Por que perguntas?
– Sei lá, minha filha, quem consegue segredar
algo muito grave a uma pessoa estranha a ela como
tu me admira não ter pedido ajuda para uma coisa tão
óbvia, que me parece deixá-la angustiada. Só Deus
sabe quanto ela sofre com a ausência da irmã.
– Na verdade ela nunca pediu ajuda.

151
– Não achas estranho, minha filha? Ela revela um
segredo da sua vida, um segredo que lhe dá como cer-
to a cadeia se chegar aos ouvidos da polícia, e no que
é mais elementar, a família, uma situação que tenho
certeza de que alguém sensível como tu não recusaria,
ela nem sequer toca. Como disse há pouco, tu que não
consegues dizer não a nada. E olha que a dona Nilda
parece te conhecer razoavelmente. Assim tu o disseste.
– Não nego – observou para logo ficar pensativa.
– Engraçado, de fato ela nunca me pediu ajuda.
– Se te conheço bem, certamente não recusarias.
– E não mesmo. Tu sabes quanto eu sou solidária
com as pessoas que sofrem.
– Herdaste isso de mim, da educação que te dei,
minha filha – comentou com zelo e orgulho.
Ela o surpreendeu com um abraço. Ao se desven-
cilharem, o religioso, munido pelo súbito interesse do
diálogo, a questionou:
– E o teu patrão, nunca falou da vida dele? – quis saber.
– Não, meu pai. Nem sei como ele foi capaz de
se abrir comigo.
– Nem eu. Mas tudo bem… Ainda assim, tira-me
uma dúvida, filha?
– Sou toda ouvidos – disse com vivacidade.
– E tu por acaso chegaste a falar sobre a tua vida?
De como foste criada? Quem são os teus pais, por
exemplo?
– Não, nunca falei nada da minha vida para a
dona Nilda.
– E ela nunca mostrou interesse em saber, minha filha.

152
– Também não, meu pai.
O religioso ficou pensativo. A seguir, disse:
– Engraçado. Ela fala da vida dela e de seus dese-
jos familiares, fala daquelas coisas horríveis que fez…
– Fez não, mandou fazer – cortou para corrigir.
Ele engoliu em seco. A seguir, rebateu ao dizer:
– É a mesma coisa, minha filha. É o mesmo cri-
me, só com outras atribuições. Tanto é criminoso o
que mata como o que manda.
– Está bem. O que ias dizendo?
– Ela fala do seu sofrimento familiar, fala das coi-
sas que mandou fazer e, já que se abriu ao falar da sua
vida, é estranho não mostrar interesse na tua vida e da
tua família.
– E isso é importante, meu pai?
– Importante não, mas, normalmente, quando
uma pessoa fala de coisas pessoais dela à outra, só o faz
se a conhecer muito bem, o que não é o caso. É isso
que eu questiono, minha filha.
– Fazer o que, meu pai? Vai ver que ela é mesmo
assim – deu de ombros.
Ressabiado e simultaneamente cético com o ma-
nifesto entusiasmo da filha em relação a Nilda e sua
conversa sobre a família, a vontade do religioso foi lhe
dizer que aquela não passava de uma descompensada
e perigosa mulher, que somente pretendia destruir sua
vida e sua carreira eclesiástica. Como não podia dei-
xar escapar claramente sua repugnância, ficou só na
vontade, trincando os dentes de raiva. A seguir, dissi-
mulando, disse:

153
– Espero que seja mesmo assim. Mas vamos colo-
car um ponto-final na conversa já…
– Sabes o que ela me disse mais, meu pai? – inter-
rompeu, após um súbito lampejo.
– O que, minha filha? – disse, demonstrando pou-
co entusiasmo, mas no fundo ávido para escutar, dissi-
mulando, e bem, seu manifesto interesse.
– Ela me achou muito parecida com a irmã dela.
O religioso sentiu um mal-estar súbito, a ponto
de tossir. Aquela revelação era sinistra demais para ser
assimilada, mais uma. Seu rosto enrubesceu ligeira-
mente. Preocupada, Rebeca logo se aproximou para
o auxiliar, mas rapidamente ele, além de recusar, ain-
da conseguiu disfarçar o enorme susto. Assustado e
apreensivo com a comparação, e de fato Rebeca era o
rosto da mãe, o religioso tratou de dizer que já se en-
contrava bem, apenas fora acometido a um mal-estar
repentino. Ela não desconfiou de nada.
– Ela te achou parecida com a irmã? Foi, minha
filha? – sua voz saiu sumida e entrecortada.
– Sim, meu pai. Em tudo. Eu cheguei até a ver
uma fotografia da irmã da dona Nilda. Realmente ela
é parecida comigo.
“Como é que ela conseguiu a foto da irmã?”,
pensou rápido o religioso.
Sem o saber, quando Nilda se deslocou pela pri-
meira vez até à paróquia onde a irmã trabalhava e to-
mou conhecimento de sua morte, a nova funcionária
da paróquia, solidária com seu sofrimento, acabou por
lhe fornecer sem conhecimento no novo vigário uma

154
foto de Luiza. A única que existia.
– Tem tantas pessoas parecidas neste mundo. Isso é
normal, mas, parecida em tudo, isso já é exagero da parte
da dona Nilda. De rosto até acredito que sejas, mas na per-
sonalidade duvido, minha filha. Cada qual é cada qual.
Talvez a dona Nilda, munida de um forte sentimento de
nostalgia, ao rever no teu rosto o rosto da irmã, sinta por
ti um carinho e um apreço, imaginando que quando está
na tua presença se sinta bem e relembre a própria irmã,
ou que até esteja na presença dela. É normal esse tipo de
comportamento nas pessoas que convivem diariamente
com sofrimento do sentimento de perda. É normal, mi-
nha filha- observou a seguir o religioso.
– Talvez, meu pai.
– Como também acho que tenha sido esse o fa-
tor determinante para que ela te tenha falado daquelas
coisas horríveis de sua autoria.
– Faz sentido, meu pai. Vendo bem as coisas, até
que faz sentido. Como eu nunca pensei nisso antes!
– Pois faz, daí que não te deves preocupar, mas estar
somente atenta. Nada mais que isso. Se tivesses começado a
história pelo fim, talvez não te tivesse causado tanto temor.
– Como não pensei nisso antes! O senhor é um
gênio. Tenho muito orgulho do senhor – dito isso, sur-
preendeu-o com um forte abraço.
Ele a recebeu, mas logo sua cabeça começou a
matutar um plano como forma de suster os ímpetos
de Nilda.
– Então não me devo preocupar mais, não é, meu
pai? – perguntou enquanto se desvencilhava.

155
– Indubitavelmente, minha filha. Não penses
mais nisso. Deus está no comando, hoje e sempre –
deu saliência.
– E quanto ao meu patrão, meu pai?
– O que tem ele?
– A única coisa que ele me contou foi aquilo, mas
nunca me falou da vida dele e de sua família. Será
que foi a dona Nilda que pediu a ele que me falasse, já
que me considera uma boa conselheira e uma pessoa
confiável?
– Nem mais, minha filha. É a ilação óbvia que se
pode retirar de tudo isso.
– Obrigada, meu pai. O senhor é um gênio. Eu
amo o senhor – dito isso, ofereceu-lhe as mãos.
– E eu também – confirmou ao fechar as mãos
nas mãos dela.
– O senhor é o meu baluarte. Sempre que falo
com o senhor, revigoro as minhas energias e forças. O
senhor é o meu bálsamo.
Já do lado de fora da casa paroquial, Rebeca, após
um lampejo repentino, informou o pai que Nilda e
Rui viajariam juntos para Recife nos próximos dias.
Os dois se despediram por volta das dez horas da noite.
A viatura de Rebeca saiu do estacionamento da
casa paroquial. Enquanto isso, o religioso entrou na
residência, logo após deixar de avistar na penumbra da
noite o vulto daquela ao cruzar a esquina.
Uma viatura de cor preta estacionada a uns me-
tros da casa paroquial passou a seguir a viatura de Re-
beca. Era Rui, que logo sem perder tempo informou

156
Nilda do encontro de pai e filha.

**********

A caminho de casa, enquanto dirigia sua viatura,


Rebeca mergulhou em uma outra dimensão.
Vários pensamentos vertiginosamente passaram
por sua cabeça. O que pensava, só ela e Deus sabiam,
no entanto não seria difícil adivinhar o teor das preo-
cupações que passaram a dominar seus pensamentos
após escutar as palavras do religioso, seu pai.
Por mais que acreditasse no pai e no contexto de
suas palavras, ainda assim havia algo estranho e con-
fuso com aquelas histórias de Nilda e Rui. Embora
tivesse demonstrado claramente ao religioso que havia
acreditado na razão por ele apresentada, ainda assim
acreditava que havia algo enigmático em tudo aqui-
lo. Mas o quê? A si mesma perguntava sem encontrar
nada que pudesse ao menos lhe indicar um caminho
convergente na sua mente confusa.
Rebeca não entendia o porquê de tanto Nilda
quanto Rui, e ainda continuava sem entender, a terem
procurado para lhe revelar histórias tão sinistras, jus-
to pessoas que se encontravam ligadas pelos laços de
amizade e do amor. Seria mera coincidência ou outra
situação? Por mais esforço que fizesse, não encontrava
uma resposta no mínimo satisfatória que lhe fizesse
dissipar suas constantes dúvidas. O que a intrigava era
o fato dos dois serem seus conhecidos e entre eles exis-
tir mais que uma relação de amizade. Se ao menos

157
os dois fossem estranhos um ao outro e apenas seus
amigos pessoais, até aí entendia, muito embora não
compreendesse a confiança depositada a ponto de lhe
revelarem histórias sinistras, mas justo entre eles havia
uma ligação forte, existindo inclusive um filho, Luzia,
sem que ela pudesse especular. Se realmente Rebeca
era parecida com a irmã de Nilda fazendo com que
a tia fosse intrépida ao revelar suas atrocidades por
considerar forte o sentimento de nostalgia, segundo
as palavras e ilação do pai, por que o empresário havia
feito o mesmo, se ela nada tinha a ver com ele? O
que significava tudo aquilo? Seria um conluio dos dois
com o objetivo de a prejudicar? Mas prejudicá-la com
base em que motivo ou motivos? Será que o empresá-
rio tem a intenção de a demitir e como não tem funda-
mentos para o fazer esteja utilizando de subterfúgios
para conseguir seus intentos? Será? Seria pura encena-
ção dos dois a ponto de inventarem histórias tão cruéis
só para a testarem com o objetivo de saberem até onde
poderiam confiar nela?... Como estava sendo difícil
para Rebeca encontrar uma resposta às perguntas que
a si mesma fazia. Até que o pai se encontrava coberto
de razão, doravante teria de ser cautelosa e aguardar
serenamente pelos próximos capítulos e jamais pro-
vocar qualquer situação, no entanto redobraria seus
cuidados quanto aos dois.
O que Rebeca mais queria era que tudo aquilo não
voltasse a acontecer, que tanto Nilda quanto Rui não a
procurassem mais para relatar outros fatos. Ela passou
a torcer, a partir daquela noite, que tal não mais viesse

158
a suceder, bem como faria um esforço na tentativa de
esquecer tudo aquilo, porém sabia que seria difícil, já
que as histórias relatadas por ambos haviam penetrado
em seu interior como se uma faca tivesse trespassado
sua pele, causando-lhe uma impressão exacerbada.
Havia algo enigmático naquelas histórias que fa-
ziam com que Rebeca, após deixar a casa paroquial,
não parasse de pensar nelas, e que tudo aquilo tinha
um objetivo. Foi justamente o mistério envolvendo
aquelas histórias e o contexto em que lhe foram relata-
das, associado às palavras do religioso, que cativaram o
seu exacerbado interesse.
Quanto mais mergulhava no cerne das indaga-
ções que a si mesma fazia, mais confusa ficava. A única
certeza que tinha era de que não havia sido à toa que
os dois haviam relatado aquelas histórias, e que havia
um objetivo em comum, e que ela, ao ser perscrutada,
tinha a ver com alguma coisa, mas o quê? Foi a per-
gunta que a si mesma fez sem sequer se lembrar mais
da conversa que mantivera com o pai, quando lhe deu
a conhecer que Nilda lhe havia dito mais do que uma
vez que ela era parecida com a irmã, no fundo sua
mãe biológica, justo aquela a quem o pai subtraiu de
forma covarde a vida.
Imersa em seus pensamentos, Rebeca por vezes
não se dava conta do que fazia. Em lapsos curtos de
tempo, dirigia por dirigir, sem de dar conta do peri-
go, não prestando atenção à pista. Independentemen-
te de sua forçada inércia, as condições acabaram por
lhe ser favoráveis àquela hora da noite. A calmaria da

159
cidade fazia com que poucas viaturas circulassem pe-
las ruas da cidade. Seu momento absorto somente foi
quebrado quando passou a escutar o aviso sonoro de
que combustível da viatura havia atingido a reserva.
Ali mesmo decidiu que faria uma parada no primeiro
posto de combustíveis com que se deparasse.
Não demorou muito, alguns metros à frente, um
posto de combustíveis ainda se encontrava em funcio-
namento àquela hora da noite. Sem preâmbulos, pa-
rou. Ao estancar a viatura, avistou um frentista se apro-
ximar, e assim que desceu o vidro para fazer o pedido
logo se assustou com o ruído de vozes altas misturadas
com gargalhadas e música. Era um grupo de jovens,
moços e moças, em pleno convívio, regalado a mui-
ta cerveja e entorpecentes. Sentiu repúdio ao avistar
aquela cena. Abasteceu e foi embora.
O resto da viagem foi tranquila. A viatura de
cor preta continuou em seu encalço, até ter a cer-
teza de que Rebeca entrou na garagem do prédio
onde residia. Nilda foi informada da sua chegada
em casa pelo namorado.

**********

Enquanto isso, no interior da casa paroquial, o re-


ligioso acabava de trancar a porta principal que dava
acesso à rua.
Subiu as escadas, caminhando pelo extenso cor-
redor decorado com adornos diversos, sendo de real-
çar várias imagens de santos e alguns quadros de mui-

160
to bom gosto e requinte. Todos eles faziam referência
a temas religiosos.
Os passos do religioso acabaram por se misturar
ao profundo silêncio do lugar. Ao passar junto do apo-
sento da funcionária paroquial, propositadamente es-
tancou o passo para pressionar o ouvido à porta. Ficou
com a sensação de que tudo se encontrava na mais
perfeita harmonia e tranquilidade; ainda assim, consi-
go mesmo falou:
“Ainda bem que a irmã do diabo dorme que
nem uma santa. Santa porra nenhuma, fofoqueira da
vida alheia. Além de fofoqueira, ronca feito uma por-
ca. Humm!... mulher miserável”.
Após suas desdenhosas palavras, saiu para se tran-
car em seu aposento.

**********

Sentado na cama, o religioso segurava uma Bíblia


nas mãos, lendo um pequeno trecho do livro de Salmos.
Seria o bálsamo a leitura do compêndio mais es-
petacular e vigoroso de que se tem conhecimento em
toda a extensão da história da humanidade? Com certe-
za que sim, dado o semblante expressado em seu rosto.
Antes mesmo de se deitar em definitivo, o religioso
foi até o banheiro, onde escovou os dentes. Olhou para
o espelho, vendo refletido o rosto, o qual lhe pareceu ter
envelhecido uns bons anos logo após ter tomado conheci-
mento da investida de Nilda, mais uma e a mais perigosa,
foi o que concluiu depois de haver conversado com a filha.

161
Suas rugas ficaram mais nítidas, como se tivessem
sido comprimidas por alguma força superior e invisí-
vel, até então ignorada. Estaria mesmo apreensivo
com tudo aquilo? Sem se dar conta, já se encontrava
mergulhado numa tortura angustiante, da qual não sa-
bia como sair dela.
Por mais que se refugiasse na leitura amparada
da Bíblia e até na proteção divina, havia bastante tem-
po que se encontrava refém do seu passado tortuoso
e cruel, carregando diariamente esse estigma. Ele
sabia e tinha perfeito discernimento quanto ao que
provocara, lhe causando agora mais preocupações
das quais sequer especulara que um dia lhe fossem o
preocupar mais ainda, deixando deveras apreensivo
com a possibilidade de vir a ser desmascarado. Aliás,
na época dos fatos incutiu em si a garantia de que
jamais alguém pudesse desvendar seu segredo, como
foi o caso de Nilda, atualmente sua inimiga declara-
da, pese embora dissimulada.
Tal qual a filha, o religioso também tinha suas
preocupações. Porém, passou a ter mais ainda logo
após a conversa que mantivera com Rebeca, só que
a extensão de suas preocupações em muito suplanta-
vam as da filha.
Deitado na sua cama, de barriga para cima, cabe-
ça depositada num belíssimo e confortável travesseiro
de penas de ganso, olhar perdido no teto, o religioso
passou a fazer, primeiro, um retrospecto de sua vida,
segundo um liame dos fatos, antigos e mais recentes,
estes de difícil digestão. Estaria a sua casa caindo?

162
Sim, se não agisse com o objetivo de impedir que seu
segredo viesse a lume em praça pública. Era o que
mais temia o apreensivo religioso ao se recordar dos
fatos consumados do passado, cuja história não tinha
o poder de modificar, mas sim de corrigir, os quais, ao
longos dos anos, foram construindo e consolidando o
lado negro de sua caminhada como pessoa e, acima de
tudo, como religioso e membro da igreja.
Sua filha jamais podia especular sua verdadeira
origem, e foi isso justamente que a partir de um deter-
minado momento passou a ser fonte constante de suas
preocupações. Era a vergonha de ser desmascarado que
constantemente o torturava e aniquilava, e no atual
contexto só existia uma pessoa, assim julgava, Nilda,
a única conhecedora de toda a verdade, havia algum
tempo, quando passou a chantageá-lo com a exigência
de pagamentos de avultadas quantias como forma de
comprar seu silêncio. Quantias essas que foram sendo
quitadas com a ajuda de um amigo do alto escalão da
igreja, o único que tinha conhecimento de toda a his-
tória, e das verbas da própria paróquia por ele dirigida.
O medo de ser denunciado às autoridades polí-
ciais e a vergonha de ser desmascarado perante a so-
ciedade fizeram com que o religioso temesse pelo seu
futuro. Quanto às autoridades eclesiásticas, a bem da
verdade, o religioso não se encontrava preocupado, já
que a autoridade máxima da igreja de quem ele de-
pendia hierarquicamente tinha conhecimento de toda
a história, dando-lhe amparo e proteção, aliás, práti-
ca recorrente e endêmica na própria igreja aos seus

163
membros prevaricadores, abafando casos vergonhosos
como o do religioso e outros de maior repercussão,
como os casos de pedofilia.
Qual o motivo, ou os motivos, de Nilda agir da-
quela maneira? O religioso se questionava. Seria vin-
gar a morte da irmã? Retirar o poder paternal da filha
logo após a descoberta de toda a verdade? Para que
retirar o poder paternal se Rebeca já era maior? Pre-
tendia afastá-lo da filha em definitivo? Pretendia com
isso afastá-lo das suas funções da igreja, sendo expulso
e excomungado pela própria igreja? Pretendia vê-lo no
banco dos réus sendo preso, pagando pelo crime, se já
haviam passado mais de vinte anos e o caso prescreve-
ra? Afinal, o que Nilda pretendia com seu comporta-
mento e investidas se já estava sendo compensada de
alguma maneira com as avultadas quantias fruto da sua
chantagem? Pretendia desmoralizá-lo perante a socie-
dade e a própria Rebeca? Pretendia tirar proveito da
situação vantajosa em que se encontrava, subtraindo
o mais que pudesse do religioso, que, para continuar
incólume na sua reputação, pagaria o que quer que
fosse para nunca ser descoberto? Até quando aquela si-
tuação se sustentaria? Foi ela que pediu ao namorado
para contratar a filha, pois sabia que ela se encontrava
desempregada, só pode, ou não?... Eram estas e outras
perguntas mais que a si mesmo o religioso fazia en-
quanto fazia um esforço para fechar os olhos.
Muito embora a ameaça fosse real, a mesma
nunca fora concretizada da parte de Nilda. Mesmo
pagando as quantias exigidas, o religioso não tinha

164
contudo as garantias absolutas do acordo para que fora
impelido; todavia, a mais recente conversa com a filha
passou a ser um alarme de alerta, como se a ameaça
estivesse próxima de ser concretizada. Diante disso, es-
tremeceu profusamente.
Nilda sabia agora que o religioso se encontrava
em dificuldades financeiras para satisfazer os compro-
missos, ou seja, obtivera êxito, em parte, usurpando-o,
daí que decidiu partir para a segunda fase de seu pla-
no, fazer uso de Rebeca como forma de delatá-lo e
desmascará-lo.
Porém, subtil, o religioso sabia das reais intenções
de Nilda, por isso, deitado na cama, sentiu um arrepio
horripilante trespassar seu corpo. A cada minuto que
passava, ele sabia que sua desvantagem era cada vez
mais exígua.
**********

Ainda mergulhado em seus tenazes pensamentos,


sem aviso prévio, o religioso teve um déjà-vu repentino.
Essa sensação acabou por deixá-lo ligeiramente excita-
do, daí que, num movimento rápido, ergueu-se da cama
para se sentar sem dela sair. Consigo mesmo começou
a falar, tentando fazer a correlação dos fatos. Dizia o re-
ligioso: “Pois é, não tenho mais dúvidas. Como aquela
nojenta tem conhecimento das minhas dificuldades fi-
nanceiras, resolveu usar a minha filha. É isso… é isso…
Só espero que a Rebeca não tenha a infeliz ideia de a
trazer até aqui, seria o meu fim. Aquela lá logo aprovei-
taria a oportunidade de ouro para me desmascarar…

165
Primeiro aquela história de que ela mandou matar a
esposa do atual namorado, quando todo mundo sabe
que ela foi vítima de latrocínio, até a polícia com cer-
teza deve ter chegado a essa conclusão. A cidade, nos
últimos anos, tem sido assolada por tantos crimes aná-
logos. Depois aquela história da filha dela ser também
filha do namorado… Humm!... nada me admira! Ela
não deixa de ser uma perversa, que ainda casada dana-
va chifres no marido e agora quer ser moralista à força
me atacando. Ela quer com isso que eu a denuncie à
polícia, depois a polícia investiga e não é nada daquilo
do que eu a acusei. Ela e o namorado dela, e depois,
quando eu for confrontado com a versão da própria po-
lícia, eu argumento que fora a Rebeca que me havia
dito o que ela e o porco do namorado lhe haviam dito.
É lógico que se cria um atrito entre mim e a minha
filha, e é justamente isso que ela quer negando o crime,
ela e ele, aproveitando a ocasião para me colocar frente
a frente na própria delegacia, o delegado, a Rebeca, ela
e o namorado, e aí, sim, ela me desmoraliza com as
minhas mentiras e me desmascara na frente de todos.
O plano daquela escrota é esse. Olha a vagabunda. E
depois eu não tenho como comprovar que era chanta-
geado, já que todo o dinheiro pago sempre foi em no-
tas… Sim, senhor, como ela é esperta, tão esperta que
me subestima. Eu também sou esperto, até mais esper-
to do que ela… Humm!... uma vagabunda daquelas se
fazendo de santinha, de santa não tem nada até debaixo
das calcinhas, botando chifres no marido e agora quer
dar uma de moralista à força me atacando… Humm!...

166
está certo que eu não sou exemplo para ninguém e a
minha vida se pautou por aquele crime, mas Deus já
me sentenciou, mais ninguém me pode condenar, jus-
to aquela porca que se faz de santa, mas de santa não
tem nada, até debaixo das calcinhas. Se for igual à irmã
dela, deve ser uma máquina de trepar. Ai como a Luiza
trepava feita uma leoa. Ai que saudades da Luiza…”,
fez uma pausa para logo prosseguir. “… Ninguém de
bom senso confia um fato muito grave a outra pessoa só
por acreditar na sua promessa de silêncio. Só um louco
faria uma coisa como essa, e, como ela não é louca e
nada que se assemelhe, daí que engendrou esse plano
para me atacar. Vagabunda, alma sebosa…”, fez mais
uma pausa, chegou a fechar os olhos, dando a entender
que refletia profundamente, e quando os abriu prosse-
guiu. “… A Rebeca jamais poderá saber que sou o pai
biológico dela. Jamais… Antes que aquela escrota faça
alguma coisa, tenho de agir, senão ela ainda pode pedir
um exame de DNA e se isso acontecer é o meu fim. Isso
jamais poderá acontecer. Jamais”, arrematou.
Ainda sentado na cama, o religioso, além de sen-
tir uma insignificância de si mesmo, sentia em simul-
tâneo repulsa e ódio de Nilda.
Ele sabia que tinha de agir nos próximos dias, daí
que subitamente lembrou-se de que Rebeca lhe havia
dito que Nilda e Rui viajariam nos próximos dias até a
capital de Pernambuco. Diante disso, uma ideia come-
çou a ser construída na sua mente sequiosa de vingan-
ça, embora tivesse consciência de que se encontrava em
uma ligeira desvantagem em relação à tia de sua filha.

167
A única certeza de que dispunha era de que não
podia ficar passivo, assistindo em silêncio às investi-
das de Nilda, as quais denunciavam ser a sua iminente
queda. O seu fim em todos os aspectos. Era justamen-
te o que mais temia, ser desmascarado, perdendo por
completo a reputação. Para o religioso, seria preferível
morrer a ter que enfrentar a dura e crua realidade dos
fatos por si mesmo criados.
Com os nervos à flor da pele, sentindo o chão lhe
faltar aos pés, o religioso fechou os olhos, fazendo um
esforço para dormir, porém estava sendo difícil. Só ao
fim de muito tempo é que finalmente conseguiu ter um
pouco de paz. Será que em seu íntimo conseguia ter paz?
Seu rosto adormecido não expressava qualquer reação.

**********

Deitada na cama, Rebeca fazia um esforço para


fechar os olhos, mas estava sendo difícil. Por mais que
tentasse reprimir as lembranças da conversa que man-
tivera com o pai, algo enigmático fazia com que ela,
por lapsos curtos de tempo, recordasse as palavras dele.
Enquanto mergulhava e fazia a ligação dos fatos que
escutara, subitamente se lembrou da imagem mental da
conversa que mantivera com Nilda meses atrás, sem que
antes a si mesma questionasse se Nilda e o empresário
confiavam realmente na sua pessoa, e se eles imaginavam
que ela fosse capaz de quebrar o acordo ao se encontrar
com o pai ou com quem quer que fosse. Ela tentava fazer
um elo de ligação dos fatos, daí que, ali mesmo, decidiu

168
que, quando o casal retornasse de viagem, os abordaria
individualmente, questionando-os acerca do motivo de
terem resolvido confiar nela. Em primeiro lugar falaria
com Nilda, de quem a história motivou maior interesse,
em especial ao se lembrar das palavras dela ao lhe dizer
que ela era parecida em tudo com a irmã, bem como lhe
questionar o motivo de não ter sido solicitada sua ajuda
na busca do paradeiro da irmã já que fora capaz de rela-
tar fatos de maior crueldade acreditando na sua confiabi-
lidade, e, se fosse o caso, aprofundando mais o assunto, e
só depois falaria com Rui. A seguir, agiria de acordo com
o resultado das conversas. Estava decidido.
Em seguida, Rebeca fechou os olhos para construir
a imagem mental do encontro com Nilda meses atrás.
– “Por que a senhora – chocada, Rebeca pergun-
tava após tomar conhecimento das atrocidades – me
está contando essas coisas horríveis, quando na verda-
de deve ter outras pessoas mais próximas a quem deve
e pode confiar? Por que escolheu a mim se não sou
nada sua, a não ser uma simples funcionária do ho-
mem com quem vai se casar? Aliás, foi o doutor Rui
que me a apresentou?
Um sorriso matreiro foi a reação de Nilda. Caute-
losa, respondeu:
– Sei disso, Rebeca… Sabe, ultimamente a mi-
nha vida parece ter desabado, e você, como mulher,
entenderá o meu lado – disse.
Sem nada entender, Rebeca comprimiu o rosto
num gesto de desconfiança. Medindo as palavras, ten-
tou ser coerente ao argumentar:

169
– Como desabado se tem um bom emprego,
tem uma filha, vai se casar com o doutor Rui, um
empresário bem-sucedido? O que quer mais desta
vida? Olhe, dona Nilda, não me parece que eu seja
a pessoa indicada para guardar seus segredos. Que
queira me falar da sua vida pessoal, até aí, tudo bem,
mas contar-me segredos importantes como aqueles
que me contou agora mesmo não me parece. A se-
nhora vai me desculpar, mas acho que deve ter al-
guém mais próximo, amigos… sei lá, alguém da fa-
mília, e justamente confiar em mim que nada tenho
a ver com a senhora... Justo eu que não passo de uma
simples empregada do doutor Rui, o seu namorado.
Confesso que estranho a sua atitude.
Nilda forçou um sorriso. Teve vontade de lhe di-
zer ali mesmo que sim, que tinha a ver, e muito, com
ela e sua família; aliás, fazia parte da sua família, o
sangue que corria nas veias de ambas era o mesmo,
era sua sobrinha, filha da irmã, Luiza, aquela a quem
o religioso afirmava com toda a propriedade, pompa
e circunstância ser seu pai adotivo, depois de haver
subtraído a vida de forma covarde, como a ela mes-
ma, todavia por intervenção divina, assim considerava,
acabou por ser poupada. Tanto Luiza, Nilda, quanto
a sobrinha eram vítimas do religioso, e na sua con-
cepção as duas deveriam se unir para desmascará-lo
e entregá-lo às autoridades eclesiásticas e à sociedade
civil, já que perante a justiça o danado não podia ser
mais responsabilizado. Nilda quase foi tentada a co-
locar para fora tudo aquilo, deitando a perder o que

170
havia planejado meticulosamente, porém não teve
coragem, não sabendo o motivo, ou se alguma força
até então ignorada o havia permitido. Ali na frente da
sobrinha, Nilda, sabe-se lá como, reunia forças para se
segurar, pese embora vontade não lhe faltasse para a
surpreender com um abraço. O que teria acontecido,
talvez a necessidade de esperar pelo momento certo e
reunir o maior número de provas que incriminassem o
religioso. Ainda assim, fazendo uso de um tom de voz
persuasivo, disse-lhe:
– Engano seu, Rebeca. Engano seu – falou mais
para si.
– Engano meu? Como assim, dona Nilda? – res-
sabiada, ela quis saber.
– Não sei por que, mas algo me diz que estamos
ligadas – insinuou.
– Só se for em outras vidas, dona Nilda, porque
nesta não creio. A senhora acredita em espiritismo?
– Não, não acredito.
– Mas eu sim, e acho que talvez exista uma liga-
ção entre nós no passado, daí que o nosso karma, as
nossas ações do passado em outras vidas fizeram com
que o destino nos fizesse reencontrar nesta vida. Mas,
quanto a esta vida, não creio que tenhamos alguma
ligação. Meus pais morreram num acidente de viação
quando eu ainda era novinha, tinha dois meses, então
fui enviada para uma instituição particular de solida-
riedade social. A seguir, fui adotada por um senhor
que me criou, me educou e me permitiu ser o que sou
hoje. Tenho o meu curso superior, vivo no meu pró-

171
prio apartamento, tenho o meu trabalho e o meu car-
ro próprio. Está certo que o meu apartamento e o meu
carro foram presente dele por eu haver concluído o
curso de administração de empresas na faculdade.
“Como ele mentiu para ela dizendo que os pais
morreram num acidente de viação, quando não foi
bem assim. Safado! E ela não tem curiosidade de co-
nhecer alguém da família? Ou será que ele também
lhe mentiu dizendo que ela não tem mais ninguém,
primos, avós, tias, seja lá quem for?... Safado, um dia a
casa cai, podes ter certeza.”, jurando se vingar, pensou
rápido para dizer a seguir:
– Ainda bem, Rebeca. Você é uma sortuda, sabia?
Rebeca ofereceu um sorriso, dando a entender que
havia apreciado as palavras da mulher ali na sua frente.
A conversa das duas terminou pouco tempo depois.”
A seguir, Rebeca conseguiu finalmente fechar os
olhos para descansar um pouco.

172
Capítulo 7
No dia seguinte, Rebeca acordou sobressaltada.
Parecia angustiada após as lembranças das conversas
mantidas com Nilda, com o empresário e com o pai.
As mesmas continuavam bem presentes na sua mente
confusa. Era justamente a mistura e a complexidade
de tudo que escutara que fez com que mergulhasse
nos últimos acontecimentos que lhe pareciam sinali-
zar uma mudança no rumo em sua vida. Foi com essa
sensação que ficou nessa manhã, logo após despertar.
Sentada na cama, ela parecia viver uma estranha
quimera. Ali mesmo tentou sondar a presença de al-
gum fantasma que misteriosamente lhe quisesse falar,
todavia não o encontrou. A seguir, saiu da cama e foi
até o banheiro, onde tomou seu banho matinal.
Ao sair do aposento, deparou-se com a emprega-
da, que duas vezes por semana se deslocava até ali para
fazer a limpeza do apartamento e passar suas roupas.

173
– Bom dia, dona Rebeca – a empregada saudou-a.
Rebeca admirou-se.
– Bom dia. Você aqui, Paula? – disse a seguir.
– Hoje é o meu dia, ou já se esqueceu?
– Ah, é mesmo. Tudo bem com você?
– Tudo. E a senhora?
– Vou indo, Paula. Vou indo.
– Estou vendo que sim – brincou. – Com tanta
pressa, está indo pra onde? Sequer passa na cozinha
para tomar o seu café da manhã.
Rebeca sorriu atoleimada.
– Preocupações, Paula. Preocupações – disse depois.
– Olhe que preocupações não enchem barriga.
– Sei disso, Paula! Sei disso!
– Sabe, eu trouxe aquela tapioca que a senhora
adora. Foi mamãe que fez.
– Ah, é mesmo? A famosa tapioca da sua mãe…
Traga para mim, por favor. Eu como no caminho.
– É pra já! – a empregada saiu lépida num pé e re-
tornou no outro. – Aqui está a sua tapioca – entregou-a.
– Obrigada – disse enquanto dava uma mordida.
– Humm!... como é boa, Paula. A sua mãe é uma exí-
mia cozinheira.
– É o que, dona Rebeca?
– Uma excelente cozinheira.
– A senhora disse uma grande verdade – confir-
mou com orgulho da mãe.
– Está bem, já vou indo. Até logo – disse depois
de um breve pensamento: “Um pouco de modéstia
ficava-lhe bem, Paula”.

174
Já próximo da porta, Rebeca escutou a emprega-
da tossir. Virou-se para trás.
– Ah, sim – de novo riu atoleimada, pois sabia
muito bem qual o significado da tosse da empregada.
– Ah, Paula, já ia esquecendo. O seu dinheiro. Tome,
por favor – retirou da bolsa.
A empregada recebeu o dinheiro e depois brin-
cou:
– Eu sei que preocupações não enchem barriga,
mas fazem com que as pessoas se esqueçam dos com-
promissos – disse.
– Deixe dessas coisas, Paula. Apenas foi um li-
geiro esquecimento. O dinheiro já estava separado na
minha bolsa.
– É brincadeira minha, dona Rebeca. Vá em paz.
– E bem que estou precisando de paz, Paula. E
de muita paz.
A porta do apartamento foi fechada.
Sem se dar conta, suas palavras foram mais since-
ras do que podia imaginar.

**********

Tal como a filha, nessa mesma manhã, o religio-


so também acordara sobressaltado. Passara a noite sem
pregar o olho. Vergara sob o peso insuportável da adver-
sidade e da ansiedade. Como eram duros os momentos
de provação que estavam reservados a ele, pensou rá-
pido. No entanto, sabia que não era bem assim, já que
havia sido ele o causador de toda aquela situação em

175
que atualmente se encontrava. Queria a toda força fazer
papel de vítima sem o ser. Pura hipocrisia.
Como saiu do aposento mais tarde do que habi-
tualmente fazia, esse fato acabou por chamar a atenção
da funcionária paroquial, que ao avistá-lo lhe disse:
– O padre hoje acordou mais tarde. Portanto,
vejo que colocou o sono em dia.
– Um bom dia para a senhora também – seco, cortou.
– Ah, sim, padre – riu atoleimada. – Desculpe.
Um bom dia pro senhor também. Dormiu bem?
– Mais ou menos, dona Lucília. Mais ou menos –
de novo, foi seco ao responder.
Ela não se importou com a aparente falta de hu-
mor do religioso.
– Mais pra mais ou mais pra menos? – brincou a seguir.
– E eu sei lá, dona Lucília. Só sei que acordei
várias vezes durante a noite.
– É normal, padre. Eu também acordo várias ve-
zes durante a noite. Sabia?
– E o que eu tenho a ver com isso, mulher? Afinal,
o que quer de mim? – cortou qualquer possibilidade
de iniciar uma conversa, ele que mais necessitava de
silêncio e concentração para as decisões importantes
que imperiosamente necessitava tomar se não quisesse
ver rechaçada sua imagem e reputação, sendo esses e
outros motivos que o levaram a acordar inúmeras vezes.
Na verdade, o religioso, tal qual na véspera, pro-
curava encontrar soluções para o grave e torturante
problema que a partir de determinado momento pa-
recia determinar seu futuro, que àquela altura, além

176
de desfavorável, em nada era risonho, pelo contrário.
Ele tinha a perfeita noção do perigo que enfrentaria
doravante, o seu aniquilamento geral. Se não agisse o
quanto antes, estaria irremediavelmente perdido.
– Vai tomar o café da manhã antes de fazer suas
orações? – a funcionária quis saber.
– Vou tomar agora. As minhas orações já foram
feitas no quarto.
– Como queira, padre.
– Pode levar o café até o escritório, por favor.
Tomo lá.
– É pra já, padre. Estou indo – disse ela, quando
um lampejo a fez parar. – Ah, sim, padre!
– O que foi, dona Lucília? Mais alguma coisa?
– É, sim.
– O quê?
– Bem cedo o bispo ligou.
– O bispo? – admirado, falou mais para si. Ela escutou.
– Ele mesmo, padre. Eu não quis acordá-lo e o
bispo também disse que depois falava com o senhor.
– Tudo bem. O que o bispo pretende de mim?
Por acaso ele lhe disse?
– Somente pediu que o padre lhe ligasse assim
que pudesse. Pro celular. Ele vai estar fora do paço
episcopal na parte da manhã.
– Está certo, dona Lucília. Obrigado. Vou fazê-lo
agora mesmo. Por favor, leve o café até o escritório, como
havia-lhe pedido – dito isso, saiu em direção ao escritório.
– É pra já, padre – ela disse enquanto abando-
nava o lugar.

177
**********

No interior do escritório, o sacerdote ligou o com-


putador e finalmente conseguiu ativar o sistema de vi-
gilângia que havia mandado instalar na casa paroquial
e na igreja havia dias sem conhecimento da funcioná-
ria. A seguir não perdeu tempo. Efetuou a ligação para
o celular de seu superior hierárquico.
– Bom dia, servo de Deus – jovial, o bispo aten-
deu ao ver na tela de seu aparelho quem o solicitava.
– Bom dia, meu digníssimo superior. Que Deus o
abençoe hoje e sempre.
– O mesmo para o meu preclaro servo de Deus.
Amém!
– Deseja falar comigo, digníssimo superior?
– Desejo, sim. Mas, por favor, corte essas forma-
lidades. Trate-me somente pelo meu nome que você
sabe muito bem qual é.
O bispo era um homem de compleição robusta,
alto, de quase dois metros de altura, cabelos brancos,
rosto escuro e com perfil de artista de cinema. Sua
idade aproximava-se dos setenta anos.
– Dom Alberto, quanta honra – o religioso brincou.
Uma leve risada de cumplicidade foi expelida
tanto pelo bispo como pelo sacerdote. A seguir, cor-
dial, o sacerdote indagou:
– Ligou para mim bem cedo. Algum motivo espe-
cial? – quis saber.
– Especialíssimo, padre Luís. Especialíssimo –
confirmou num tom eloquente.

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– Pois não, dom Alberto? Estou pronto para o escutar.
– O senhor se lembra…

**********

Do lado de fora, como sempre, apanágio da fun-


cionária, ela não perdeu tempo, pressionou o ouvido na
porta do escritório e esperou pela conclusão da ligação.
Sua intenção não era somente esperar que a ligação
fosse concluída, mas mormente com a finalidade de es-
cutar o teor daquela. Outro mau exemplo na casa anexa
à casa de Deus. Esperou alguns minutos para depois ba-
ter na porta, pedindo sua permissão para adentrar.
– Entre, dona Lucília – a voz alta do religioso foi
escutada pela funcionária. Sua entrada foi permitida.
Antes mesmo que ela pudesse falar, o religioso se
antecipou. Repreendeu-a ao dizer-lhe:
– Como sempre, a senhora escutando a conversa
dos outros por detrás das portas.
– Mas o que é isso, padre! – revidou, após tomar
um susto. – O senhor está levantando um falso teste-
munho, ouviu? Isso é pecado.
Ele esnobou no sorriso. A seguir, disse:
– Pecado é escutar a conversa dos outros! Pensa
que eu não sei, hein? Deixe de ser fofoqueira, sua des-
mantelada.
– Mas, padre…
– Está bem, dona Lucília – cortou. – Coloque aqui
o meu café na escrivaninha – falou com azedume.
Espumando de raiva, a funcionária depositou a

179
bandeja. A seguir, questionou:
– Mais alguma coisa, padre?
– Quero, sim, dona Lucília.
– Pois não?
– Já que a senhora escutou a minha conversa…
– Eu juro que não escutei sua conversa, padre –
interrompeu, tentando desmentir o religioso.
– Como a senhora ousa dizer que não estava escu-
tando a minha conversa se eu tenho as provas cabais.
– Provas? – parecia não acreditar. – Como assim
provas, padre, se não tem mais ninguém aqui dentro
a não ser nós dois e Deus? Ao que sei Deus não fala,
apenas se manifesta em silêncio.
– Ai se ele falasse, dona Lucília. Ai se ele falasse,
por certo a entregaria agora mesmo. Não é?- ironizou.
– Justo, padre. Mas como ele não me vai entre-
gar... É justo.
– Justo digo eu – alteou a voz. – A senhora pensa
que eu sou algum otário, hein? Eu tenho, sim, aqui as
provas de que escutava a minha conversa.
– Como, padre?
– Como, digo eu. Sem que a senhora soubesse,
mandei instalar câmeras de vigilância nos corredores
desta casa e até na igreja. Está tudo aqui filmado neste
computador. Diga-me, então, tem como refutar o que
eu afirmo?
Ao escutar as palavras do padre, a funcionária
sentiu o chão fugir dos pés. Fora descoberta. Seu rosto
expressou incredulidade e choque. Assustada, tentou
justificar seu pretérito ato. Voz entrecortada, disse:

180
– Me desculpe, padre. É que eu…
– Pronto, dona Lucília – cortou. – O erro já está
feito. Por favor, não ouse repetir. Escutou bem?
Envergonhada, assumiu o erro. Voz sumida, disse:
– Prometo, padre, que não vou repetir. Peço per-
dão uma vez mais.
Não obstante suas palavras, o religioso sabia que
não podia jamais confiar na funcionária, que logo co-
meçou a descortinar uma forma de suplantar aquele
imprevisto, sabendo antecipadamente que as câmeras
em parte a inibiriam de situações análogas doravante.
Do mesmo modo, o religioso sabia que dali para a fren-
te teria de se precaver e se políciar em relação aos des-
mandos de sua funcionária, enraizada em tais práticas.
Enquanto respondia ao religioso, Lucília teve um
pensamento rápido.
“E eu julgando que quem controlava todos os
meus passos era Deus e mais ninguém. O danado do
padre é mais esperto do que eu imaginava. Agora até
câmaras mandou instalar. Onde é que elas estão que
não as vejo?”
– Pois bem – prosseguiu o religioso, fazendo uso
de ironia –, já que a senhora escutou a minha conver-
sa, deve saber que vou viajar para Roma na compa-
nhia do Dom Alberto na próxima madrugada. Uma
viagem em cima da hora.
– O padre vai viajar para Roma? – dissimulou.
– Ora, dona Lucília, valha-me Deus! A senhora escu-
tou muito bem a minha conversa, para que tanto alarido?
– Me desculpe, padre.

181
– Olhe que eu começo a ficar farto dos seus pedi-
dos de desculpa. Sabia?
– Sabia, sim, padre – cabisbaixa, confirmou.
– É bom mesmo que mude seu comportamento. Ouviu?
Como a funcionária não ousou se manifestar,
o religioso acabou por interpretar seu silêncio como
uma confissão. Sem preâmbulos, prosseguiu:
– Pois bem, vou viajar, e essa minha viagem vai
ter a duração de uma semana. Enquanto isso, o meu
lugar vai ser momentaneamente ocupado pelo padre
Otacílio, que somente vem aqui para celebrar as euca-
ristias e executar algumas tarefas da paróquia, e even-
tualmente algum funeral que apareça. Ele almoça e
uma vez por outra janta. Depois retorna para a paró-
quia dele. Trate-o como se fosse eu que estivesse aqui.
Entendeu? – disse.
– Perfeitamente, padre – confirmou acenando a
cabeça, mas sua vontade foi lhe dizer que os padres
são todos farinha do mesmo saco e, se o inquilino pro-
visório for igual a ele, a vontade era de lhe colocar
veneno na comida. Ficou só na vontade.
– O padre Otacílio é um excelente homem e não
gosta de fofoquices. Entendeu?
– Perfeitamente, padre.
– Muito bem, dona Lucília. Prepare a minha baga-
gem com algumas roupas quentes, porque lá na Europa
é início de inverno. Não se esqueça dos meus itens de
higiene pessoal. Devo sair no final da tarde, início da noi-
te, quando o motorista do Dom Alberto me vier buscar.
– Vou fazer agora mesmo, padre.

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– Tem alguma pendência aqui na paróquia?
– Nada que eu não possa resolver, padre.
– Ótimo, dona Lucília. Prometo que lhe vou tra-
zer uma lembrança de Roma.
– Ai, como eu vou ficar eternamente grata por
seu nobre gesto.
– Não precisava nem se manifestar. Vejo em seus olhos.
O silêncio foi a sua resposta.
– Depois, não precisa preparar o almoço. Devo
almoçar fora.
– Onde, padre?
– Não é da sua conta, sua fofoqueira.
Ela emudeceu. Ele continuou:
– Mas já que quer saber, vou almoçar no episco-
pado. Está satisfeita em saber?
– Sim, padre.
O religioso segurou um sorriso. A seguir disse:
– Você é cá uma figura! Não sei como não consi-
go ter raiva da senhora.
Ela ofereceu um sorriso contido. A seguir, indagou:
– Mais alguma coisa, padre?
– Não, dona Lucília. Pode sair.
A funcionária saiu, e o religioso ficou olhando até
que a porta foi fechada.
Rapidamente, iniciou a degustar seu café da ma-
nhã. Ao final, consultou a tela do computador, a fun-
cionária encontrava-se absorvida nos seus afazeres na
cozinha. Tinha de agir em segurança.

**********

183
Sem perder tempo, o religioso pegou no celular e
discou um número que era de conhecimento restrito de
três pessoas: a filha, seu superior hierárquico e a pessoa
com quem pretendia falar naquele exato momento.
– Sou eu, não diga nada. Ainda se lembra de
mim? – disse o religioso logo após o outro atender.
– Correto.
– Preciso lhe falar o mais rápido possível.
– Quando?
– Hoje, sem falta.
– Onde?
– Na casa grande, após o almoço. Quinze horas,
em frente ao portão.
– Combinado.
A ligação foi cortada.
Obviamente que o religioso usou o menor nú-
mero de palavras possíveis. O outro que já o conhecia
muito bem percebeu, decidindo fazer o mesmo.

**********

Após desligar o celular, o religioso permaneceu


sentado, enquanto, sem se dar conta, vários pensa-
mentos e indeléveis lembranças se misturavam uns
aos outros num piscar de olhos. Subitamente, a trágica
lembrança de quando foi surpreendido com uma carta
anônima. Diante disso, fechou os olhos para construir
a imagem mental do dia em que a funcionária paro-
quial lhe dava a conhecer a correspondência entregue
pelo correio nessa manhã.

184
– “Padre, está aqui a correspondência – ela informou.
– Coloque-a na minha escrivaninha. Depois eu
passo os olhos por ela – pediu enquanto se deslocava
até o interior da igreja com a finalidade de atender al-
guns paroquianos que o aguardavam para falarem so-
bre assuntos relacionados às obras sociais da paróquia.
Ao retornar à casa paroquial, o religioso almoçou,
depois como rotina dormiu sua sesta. Ao fim de duas
horas, já se encontrava tranquilamente sentado no es-
critório, revigorado em suas energias.
Sem perder tempo, passou a remexer na corres-
pondência depositada em cima da escrivaninha. Tudo
normal, até que uma carta sem remetente despertou
sua atenção. Destacou-a para depois lhe dar a devida
atenção, tamanha a curiosidade, devido ao mistério
de seu anonimato. Rápido, tratou da demais corres-
pondências, até que finalmente deu atenção àquela
misteriosa carta.
Ao abri-la, deparou-se com uma folha de ofício
manuscrita, fazendo um esforço para reconhecer a
caligrafia, porém não descortinando quem quer que
fosse que tivesse a ousadia de lhe escrever uma carta
sem que se identificasse. Achou muito estranho. Dian-
te disso, deu início à sua leitura.
Aos poucos, seu semblante foi mudando. Seu ros-
to ficou duro e da cor da neve. Sentiu o chão fugir-lhe
dos pés, passando a suar profusamente. Seu segredo fi-
nalmente fora descoberto ao fim de muitos anos, após
uma investigação minuciosa, demorada e sigilosa de
Nilda, a irmã de Luiza, tia de Rebeca.

185
Após o choque inicial, aos poucos o religioso foi
recuperando o controle. Foram o medo e a vergonha
do seu passado negro e obscuro ser desmascarado e des-
coberto por mais pessoas que fizeram com que o sacer-
dote, sem claudicar, aceitasse sem reservas se encontrar
com Nilda, dois dias depois, para uma conversa em um
lugar discreto, longe de olhares alheios e indesejados. A
crispação e o repúdio de parte a parte acabaram por ser
a marca registrada que dominou o encontro dos dois.
Ambos quase chegaram a exasperar-se.
A confissão do religioso seria a sua aceitação das
condições a que fora sujeito a partir daquele momento,
o dia mais difícil de sua vida, havia ponderado consigo
mesmo, como forma de comprar o silêncio de Nilda.
Sem perder tempo, nesse mesmo dia, pediu um
encontro de urgência com um alto dignitário e in-
fluente membro do clero da igreja. O que foi tratado
nesse enigmático encontro só ele e o bispo sabiam,
porém Deus era a única testemunha ocular. O que se
sabe é que o religioso pretendia que toda aquela histó-
ria se exaurisse o quanto antes.
A partir daquele dia, sua vida passou a ser um ver-
dadeiro inferno, com certeza não mais hostil do que
aquele que recorrentemente se faz alusão nas hostes
das religiões, porém o inferno de sua vida podia ser
considerado na verdadeira acepção da palavra. Sabia
que a partir daquele momento seu presente e seu futu-
ro se encontravam ancorados ao passado”.
Absorvido em seus tenazes pensamentos, sua
atenção foi desviada ao escutar umas batidas na porta.

186
– Entre – pediu.
– Com licença, padre.
–O que foi, dona Lucília? – foi frio.
– O seu aposento está trancado. Como posso fa-
zer a sua mala?
– Ah, é verdade – disse-lhe enquanto erguia-
se para acompanhar a funcionária até o aposento, a
quem abriu a porta.

**********

Passavam poucos minutos das oito horas da ma-


nhã quando Rebeca cruzou a porta que dá acesso à
sua sala na empresa.
Ao se sentar, escutou vozes abafadas de pessoas,
que, com o passar dos segundos, foram ficando mais
nítidas. Era o empresário na companhia de mais uma
pessoa. Uma mulher que pelo tom de voz lhe pareceu
ser Nilda.
Teve a certeza quanto àquela após avistar os dois
juntos. Um frenesi tomou conta de si. Como na noite
de véspera havia decidido falar com os dois em parti-
cular, ali mesmo seria a hora e o lugar indicado, con-
cluiu num breve e rápido pensamento.
Encontrava-se tão excitada ao avistar Nilda que
nem sequer se admirou com a presença fora do horário
habitual do empresário ali na empresa. Em menos de
vinte e quatro horas era a segunda vez que tal sucedia.
Ao avistar os dois, Rebeca, além de se levantar,
acabou por cruzar um olhar enigmático e cúmplice

187
com Nilda, o qual foi correspondido por outro, po-
rém esdrúxulo.
– Bom dia, Rebeca – cumprimentou o empresário.
Ela os cumprimentou com jovialidade. Antes mes-
mo que Rebeca interpelasse, o empresário adiantou-se.
– Rebeca, eu a Nilda vamos estar fora nos próximos
dez dias. Sei que a tomamos de surpresa com esta viagem
de última hora, mas foi assim que decidimos – disse.
– O doutor já me havia dito que ia viajar. Só não
sabia que ia acompanhado – mentiu.
– Se lhe havia dito, não me lembro, mas isso não
faz mais sentido. É uma viagem que já estava progra-
mada há bastante tempo. Vou a Recife primeiro e de lá
sigo para São Paulo e Santos. A Nilda tem umas curtas
férias para tirar, eu aproveito e faço-lhe companhia.
– Tudo bem, doutor. Quando partem?
– Hoje mesmo. Daqui a pouco. Vim só aqui bus-
car uns documentos. Viajo para Recife e de lá pego o
avião para São Paulo.
– Agora?
– Sim, Rebeca. Qual é a admiração?
– Ah… nada, doutor – dissimulou.
Astuto, o empresário percebeu.
– Por acaso a Rebeca quer falar algum assunto
comigo? – interpelou-a.
Ela claudicou por uns segundos. A seguir, teme-
rosa, disse enquanto olhava de soslaio para Nilda, que
havia muito já entendera o motivo da hesitação.
– Bem, na verdade, até quero, mas pode ficar para
depois da sua viagem.

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– Muito bem. E qual seria o assunto que quer
conversar comigo? Pode adiantar?
– É sobre a nossa conversa de ontem de manhã.
O empresário não se manifestou de imediato.
Trocou um olhar discreto e enigmático com Nilda. A
seguir prosseguiu.
– Essa conversa pode esperar pelo meu retorno ou
é imprescindível que tenha de ser agora?- quis saber.
– Eu espero, doutor.
– Nesse caso, controle a sua ansiedade até ao meu
regresso – disse-lhe enquanto oferecia um sorriso ma-
treiro. Ela percebeu, mas nada disse.
– Muito bem – o empresário prosseguiu –, eu vou
até a minha sala buscar uns papéis. Volto já – virou-se
para Nilda. – Espera aqui um pouco, meu amor. Volto já.
– Vai lá. Eu aguardo.

**********

As duas ficaram olhando para o vulto do empre-


sário até ele sumir. Dissimulando cautela, Nilda ante-
cipou-se:
– Tu por acaso não contaste nada da nossa con-
versa a ele? – sua voz saiu baixa.
– Mas é claro que não, dona Nilda – categórica,
confirmou com o medo que a voz abafava.
– Ainda bem – suspirou aliviada. – Jamais o Rui pode-
rá ficar sabendo dessa história. Por amor de Deus, Rebeca,
confio em ti – simulou se encontrar temerosa, ocultando
bem o tom da voz que se aproximou da súplica.

189
Tal como o religioso, Nilda também tinha a volú-
pia de ser competente no cinismo. O empresário era
seu corolário. Inocente, Rebeca não percebeu nada,
mas suas desconfianças continuavam vivas, e bem vivas.
– Fique tranquila, dona Nilda – sossegou-a. – Só
ainda não consegui entender até hoje, por mais esfor-
ço que faça, por que a senhora resolveu segredar um
assunto como esse. Várias vezes me questiono, sabe.
Eu já lhe havia dito isso antes.
– Sabe, Rebeca, nem eu sei como fui capaz de me
abrir a uma pessoa como tu, e olha que eu sou uma pes-
soa muito fechada. Sinceramente, não sei como fui ca-
paz de fazê-lo. Depois que te conheci, sei lá… tu trans-
mites muita paz e confiança. Sentia-me angustiada.
– Mas a senhora sabe que o que me contou é
muito grave.
– Tenho consciência disso, Rebeca.
– Admira-me como a senhora pode confiar em
mim se praticamente me conhece daqui do escritório
do seu namorado. É isso que me causa estranheza. Em
situações normais, uma pessoa não confia em qual-
quer outra que vê pela frente, tanto faz ser na segunda
ou na terceira vez, como foi o meu caso. Desculpe a
minha sinceridade, dona Nilda, mas é que eu ainda
não me conformei com seu voto extremo de confian-
ça. Acho tudo isso muito estranho.
Nilda ofereceu um leve sorriso, o qual escondia
mil e uma indagações. A seguir, dissimulou ao dizer:
– A Rebeca está a querer dizer com isso que não
vai guardar o segredo que lhe contei? Ou vai?

190
– É claro que vou guardar. Eu não sou mulher de
duas faces. Mas confesso que continuo sem nada enten-
der do porquê resolveu relatar aquela história horrenda.
– Tudo bem, Rebeca. Agradeço a confiança, mas
para ficares descansada prometo que quando chegar
das minhas férias nós nos encontraremos e eu te fala-
rei os motivos que me levaram a te contar esse episó-
dio negro e nocivo da minha vida. É lógico que por
detrás de qualquer ato, seja ele qual for, existe uma
gênese. Comigo não é exceção.
– E por que não me contou antes os seus motivos?
O que a impediu?
Nilda, surpresa com a dimensão da pergunta, es-
tremeceu. Já ia dizer qualquer coisa, quando escutou
a voz de Rebeca antecipar-se:
– Afinal, eu tenho razão quando digo que acho
tudo muito estranho. Desde o dia em que me con-
tou seu segredo que tenho uma pulga atrás da ore-
lha, assim como não entendi o fato de não me ter
pedido ajuda na tentativa de localizar a sua irmã já
que mostrou claramente acreditar no meu absoluto
sigilo depositando sua total confiança em mim. E
mais: suas justificativas ainda não me convenceram,
acredita? – argumentou.
– Acredito, sim, Rebeca – respondeu, torcen-
do para que a sobrinha não insistisse nas duas úl-
timas questões.
– Assim já me sinto melhor. Aguardarei ansiosa
para saber os motivos que tem para me contar.
Nilda suspirou aliviada, em seu íntimo. A seguir, disse:

191
– É uma longa história, Rebeca. Ao final, vais ver
como eu me sinto, como tenho razão e coragem ao abor-
dar um assunto cruel como aquele que te dei a conhecer.
– Vou confiar na senhora. Olhe, se não me pro-
curar quando chegar de viagem, eu já tinha intenção
de a procurar. Esta nossa conversa só vem dar respaldo
àquilo que já havia planejado. Ainda bem que nos en-
contramos aqui na empresa do seu namorado.
Em seu íntimo, Nilda sentiu-se feliz, afinal a so-
brinha já se encontrava desconfiada, e ao propor um
encontro após suas férias só vinha a corroborar com
seus planos. A conversa de Rebeca com o empresário,
e posteriormente com o religioso havia sido o xeque
-mate. Em seu íntimo, Nilda vibrava, cantando vitória.
Ambas falavam como se estivessem murmurando,
e, enquanto o faziam, constantemente olhavam para a
porta pela qual o empresário haveria de cruzar a qual-
quer instante. Mera precaução.
– Fico aliviada, Rebeca – disse-lhe Nilda.
– Vai viajar de repente, dona Nilda? – quis saber.
– Já tinha programadas as minhas férias para esta
altura. Convidei o Rui para me acompanhar, pois es-
tamos tão pouco tempo juntos.
– É verdade. O doutor Rui anda sempre muito
ocupado com a empresa e os negócios –ponderou,
mas em seus olhos lia-se outra coisa.
Na verdade, Rebeca não engolira aquela história
das férias. Era só um pretexto para despistá-la acerca
dos fatos de que havia tomado conhecimento tan-
to por Nilda, meses atrás, como pelo empresário, na

192
véspera. Subitamente, veio-lhe à mente a lembrança
da conversa que mantivera com o pai na noite prece-
dente. Algo não batia certo naquela história, não só da
parte do religioso como dos dois ali na empresa. O que
seria? O que estariam tramando? Por mais esforço que
fizesse, não descortinava o que quer que fosse, porém
a única certeza que tinha era de que tudo aquilo se
encontrava envolto em um grande enigma, e justo os
dois estavam prontos para se ausentarem daí a pouco.
Mas a promessa de Nilda em se encontrar com ela
deixou-a ligeiramente tranquila.
“Só espero que papai não se ausente também”,
arrematou em seus pensamentos.
Sem saber, seu prognóstico encontrava-se certo.

**********

Nilda nada comentou em relação à última obser-


vação de Rebeca. Como esta demorou a se manifestar,
resolveu puxar conversa. Disse:
– Sabes, Rebeca, se me quiseres dizer, tudo bem,
mas, se não, jamais levarei a mal.
– O que, dona Nilda? – comprimiu o rosto.
– O que tu queres conversar com o meu noivo?
Surpresa com a dimensão da pergunta, astuta,
Rebeca inventou uma desculpa ao responder:
– É sobre o pagamento antecipado das minhas fé-
rias e décimo. Estou reformando o meu apartamento
e vou precisar desse dinheiro para comprar os mate-
riais em falta.

193
Nilda não engoliu. Ela sabia que a sobrinha men-
tia. Diante disso, lançou-lhe uma indireta:
– Tu deves ganhar muito bem para o teu subsídio
de férias e décimo serem suficientes para a reforma
do apartamento. Não sabia que o meu noivo era um
patrão benevolente – disse-lhe.
Astuta, Rebeca contornou a situação.
– E como é. O doutor Rui é um excelente patrão.
Graças a Deus, esse dinheiro é para complementar o
restante. Eu disponho de uma pequena poupança e
com mais esse dinheiro consigo pagar o orçamento
apresentado pela empresa. Assim aproveito e pago à
vista para obter o desconto – disse.
– É verdade, Rebeca – forçou um sorriso analíti-
co. – O dinheiro não é de quem o ganha, é de quem o
poupa. Já assim falava papai.
Rebeca ofereceu um sorriso de concordância.
Com suas palavras, Nilda pretendia ser compreensiva
e solidária, demonstrando quanto torcia pela sobrinha; to-
davia, na sua essência, não havia engolido. Passou a olhar
de soslaio para Rebeca, com uma enorme vontade de a
abraçar e lhe revelar que era sua tia, mas seu plano a im-
pedia naquele exato momento, pois havia muito que já se
encontrava traçado, então teria de aguardar mais um pou-
co. Será que conseguiria se controlar diante da sobrinha?
Por mais vontade que tivesse de a abraçar e beijar, teria,
sim, de controlar sua enorme vontade e ansiedade. Era
um esforço do qual valeria sempre a pena, pensou.
“Quem esperou tantos anos, pode esperar mais
uns dias”, arrematou em seus pensamentos.

194
Enquanto se isolava em seus pensamentos e fi-
tava com ternura a sobrinha, porém, de soslaio, Nil-
da procurava por indícios de que aquela não falava a
verdade. Não os encontrou, ainda assim tinha certeza
absoluta quanto às suas dúvidas.
De novo um silêncio se instalou. Um silêncio
ansioso e simultaneamente gélido. Ambas pretendiam
falar, todavia nenhuma ousava quebrar o receio e o
aparente medo uma da outra. Instalou-se ali no am-
biente um clima recíproco. A ansiedade e a vontade
de expressar algo que lhes ia na alma era evidente, mas
a cautela passou a ser o sentimento que passou a do-
miná-las. Uma esperava que a outra quebrasse aquele
momento de vontade própria, no entanto qualquer
uma delas estava tendo dificuldades e coragem para
tomar a iniciativa. Rebeca disfarçava que mexia em
uns papéis depositados na sua escrivaninha, enquan-
to isso Nilda caminhava pela sala até se posicionar na
frente da janela que dá acesso para o pátio da empresa.
Assim ficaram por vários segundos, até que Nil-
da, demonstrando ser superior aos sentimentos que a
dominavam, resolveu intervir, causando surpresa na
sobrinha. Voz suave e suasória, observou:
– Rebeca, vejo no teu rosto que tens vontade de
me dizeres alguma coisa – disse.
– A senhora vê no meu rosto vontade de lhe di-
zer alguma coisa? Mas o que, dona Nilda? – compri-
miu o rosto.
– A tua cara não engana – observou em meio a
um sorriso matreiro.

195
– A minha cara? O que tem a minha cara, dona
Nilda?
No fundo Rebeca sabia que a tia até se encon-
trava coberta de razão. Assim que avistou os dois
ali na sua sala, e vez que havia decidido falar com
cada um em particular, caso o fizesse ali, o outro,
movido pela curiosidade, aliás, Nilda acabara de o
fazer, com certeza não ficaria indiferente, questio-
nando-a a respeito. Foi melhor assim, como forma
de evitar desconfianças de parte a parte. Como Re-
beca mudou de semblante, a tia ficou com uma
pulga atrás da orelha.
– Anda, Rebeca, a tua cara não engana. O que está
se passando contigo? Anda, fala. Desabafa comigo. Eu
confiei em ti, podes confiar em mim – disse-lhe.
De novo, Rebeca ficou surpresa com a dimensão
das palavras da tia. Já ia dizer qualquer coisa quando o
empresário deu sinal de vida ao cruzar a porta por onde
passara momentos antes. Trazia nas mãos vários papéis.
Rapidamente, as duas disfarçaram. O empresário
percebeu, daí que brincou com a situação. Suas pala-
vras saíram venenosas.
– Com que então as duas sussurrando confidên-
cias. Por acaso estavam falando da minha pessoa?
Quem se adiantou foi Nilda.
– Nada disso, meu amor. O assunto era outro, coi-
sa de mulheres – dito isso, trocou um olhar enigmático
com a sobrinha. O empresário percebeu.
– Pois dizem que nós, homens, é que somos fala-
dores. Sem palavras, minhas senhoras. Sem palavras.

196
– É melhor mesmo ficares sem palavras, senão só
sai asneira dessa tua boca – Nilda brincou.
– Está bem – observou o empresário, depositando
um beijo afetuoso na testa de Nilda.
A seguir, o empresário distribuiu ordens a Rebe-
ca. Em pouco tempo ele e Nilda abandonaram a em-
presa na sua viatura com destino a Recife.
Sem que ele se desse conta, as duas trocaram um
último olhar, que, para Rebeca, lhe pareceu ser uma
despedida, daí que sentiu um calafrio percorrer seu
corpo, enquanto para Nilda não passava de nostalgia
e afeto. Ali mesmo, Nilda sentiu o forte elo de ligação
das duas, e, por mais que lhe custasse, teria ainda de
suportar aquela situação angustiante. Até quando? Ela
sabia que por poucos dias.

**********

Logo após o casal deixar a empresa, intuitivamente,


Rebeca, sem se dar conta, já se encontrava mergulhada
numa complexidade de questões que a si mesma fazia.
Após aquele momento em que tentava enxergar
uma luz no fim do túnel sobre os mais recentes aconte-
cimentos, os quais pareciam circular a uma velocidade
louca, Rebeca não perdeu tempo. Como sempre, logo
recorreu à pessoa que a amparava em qualquer situação
de sua vida, fosse ela boa ou menos boa, de duvidoso
alcance, como era o caso, em que se encontrava atual-
mente envolvida por fatores desconhecidos, o grande
enigma de tudo, Nilda, o empresário e até o próprio

197
pai, que ainda, e não obstante suas desconfianças, con-
tinuava sendo seu baluarte. Falar com o religioso em
qualquer situação não só representava sua segurança e
amparo, mas muito mais que isso. Para ela, o pai era um
bálsamo, na verdadeira acepção da palavra.
Diante disso, discou o número da paróquia. O te-
lefone tocou até que a ligação caiu por falta de aten-
dimento. Ela estranhou o fato de não haver ninguém
que atendesse o telefone, mas logo descartou, vez que
supôs que àquela hora da manhã o pai estivesse com a
funcionária em alguma atividade religiosa da própria
paróquia. Estava propensa que fosse a missa matinal.
Decidiu ligar mais tarde.
Concomitantemente, àquela hora da manhã, o
religioso de fato não se encontrava em qualquer ativi-
dade de práticas religiosas da própria paróquia, nem
algo que se lhe assemelhasse; pelo contrário, tanto ele
quanto a funcionária encontravam-se juntos no apo-
sento dele, preparando a bagagem para sua viagem a
Roma. Ainda assim, ambos escutaram o telefone tocar.
– Quem é com certeza vai insistir mais tarde –
comentou o religioso para a funcionária.
Como não obteve êxito, e vez que sua ansiedade
se encontrava à flor da pele, Rebeca não esperou mais
tempo, descumprindo o que a si mesma impôs. Dian-
te disso, resolveu ligar para o celular confidencial do
pai, que por opção também não atendeu.
Frustrada por não ter obtido êxito, Rebeca logo
deixou para lá, compenetrando-se nos seus afazeres
cotidianos da empresa. Durante a ausência do empre-

198
sário, sua responsabilidade aumentaria. Ela sabia dis-
so, era prática recorrente aquele se ausentar.
Com o passar dos minutos, acabou por esquecer
completamente o assunto. Encontrava-se tão absorvi-
da no que fazia quando foi surpreendida ao passar a es-
cutar seu celular vibrando. Era uma chamada externa.
Olhou para a tela. Excitada, logo atendeu. Era o pai,
retornando a ligação.
– Até que enfim, meu pai. Estava vendo que ti-
nha de ir à paróquia para lhe falar – sua voz saiu tensa.
Ele percebeu.
– O que foi, minha filha? – curioso, quis saber.
– Tenho novidades – sua voz saiu excitada.
– Novidades? – falou mais para si a ponto de ar-
regalar os olhos. – Então conta, minha filha. Conta
– estimulou-a.
– Os dois saíram daqui agora mesmo e vão viajar juntos.
– Que dois, minha filha?- disfarçou, já que na vés-
pera escutara a filha lhe repassar essa informação.
– Ora, quem é que devia de ser? O meu patrão e
a namorada dele – confirmou.
Subitamente se fez um silêncio mortal. A exci-
tação do religioso subiu de tal forma que quase não
podia a controlar. A notícia caíra tão bem que para
ele as coisas pareciam começar a encontrar os eixos,
pois o que já tinha de conhecimento acabou por ser
confirmado pela apreensiva Rebeca naquele mesmo
instante. Finalmente os fatores conspiravam a seu fa-
vor. Intimamente vibrou. Todavia, a filha estranhou o
súbito silêncio do pai. Diante disso, questionou-o:

199
– O que foi, meu pai? De repente ficaste mudo.
O que aconteceu? – quis saber.
– Nada não, filha. É que fui apanhado pela sur-
presa – dissimulou, porém uma ideia já se formava na
sua mente astuciosa.
– Surpresa? Mas por que o pai se diz surpreso?
– mesclando a perspicácia à desconfiança, quis saber.
– Não é propriamente uma surpresa, até por que tu
já me havias falado ontem dessa viagem deles. Só agora
é que me lembrei dessa nossa conversa junto do portão...
Repara, filha. Pessoalmente, não vejo motivo algum para
ficares preocupada com a viagem do teu patrão e da na-
morada dele. Aliás, já te havia falado quanto a isso on-
tem à noite. Esquece aqueles dois e os problemas deles.
A única coisa que te peço e reitero é nada de comentar
com alguém o que sabes acerca deles. Esses problemas
são deles, e não teus. Faz de conta que não sabes de nada.
Vai ser melhor assim, pois eles, ao viajarem, fazem com
que tu rapidamente te esqueças o que eles te confiden-
ciaram – circunspecto, tentou sossegá-la.
– O senhor acha?
– Sem dúvida, minha filha.
– Está bem. Se assim é – disse, dando a entender
que acatava as palavras do pai, mas em seus olhos lia-
se outra coisa. Cada vez mais se encontrava ressabia-
da, o pai escondia algo, concluiu rápido.
– É melhor mesmo, minha filha. Já tens tanta coi-
sa com que te preocupar.
– Lá isso é verdade, meu pai.
Disfarçando a curiosidade, o religioso quis saber.

200
– Quanto tempo vai durar a viagem deles?
– Penso que são quinze dias.
– Na minha perspectiva, acredito que é tempo su-
ficiente para esqueceres, filha.
– Concordo com o senhor.
– E eles vão viajar para onde?
Ela estranhou a pergunta, mas logo deixou para
lá. Satisfez a curiosidade do pai, já que não havia mal
algum, confiava piamente nele. Diante disso, respon-
deu ao dizer:
– Vão de carro até Recife e de lá vão de avião para
São Paulo e depois para Santos.
– Ah, sim, vão para Recife, São Paulo e Santos –
falou mais para si.
– Por que perguntas, meu pai? – subitamente,
sem saber o motivo, Rebeca ficou ressabiada, daí que
quis saber.
– Curiosidade, minha filha. Mera curiosidade
minha – ocultou, e bem, seu manifesto interesse.
– Não sabia que padre também era curioso – brin-
cou. – Achava que a curiosidade dos padres somente
se relacionava com as coisas da igreja.
Ele sorriu matreiro. A seguir, disse:

– Além de ser padre, sou também um ser huma-


no, e como tal não estou isento de ser pecador.
– E ser curioso é pecado, meu pai?
– Depende do resultado da causa-efeito da curio-
sidade e da forma com que ela é colocada em prática.
Apesar de parecer tão simples quanto parece, o assun-

201
to é mais complexo do que se possa imaginar, filha.
Carece de um aprofundamento maior.
– Está bem, meu pai. Depois me explicas – disse
sem muito entusiasmo.
Os dois falaram um pouco mais. O religioso deci-
diu por bem nada revelar sobre a sua viagem à Europa.
Sua atitude defensiva e cautelosa tinha um propósito,
só ele sabia, e Deus também.
Em pouco tempo, Rebeca retornava aos seus afa-
zeres, porém cada vez mais ressabiada. Enquanto isso,
o religioso vibrou com a informação.
“Mais um detalhe para eu dar ao meu amigo que
vai fazer o serviço. E como veio a calhar esta informa-
ção da minha queridinha filha. Agora vamos ver quem
é mais valente, sua vaca escrota”, sarcástico, falava
consigo mesmo o religioso, se referindo a Nilda.
A seguir com o celular ainda na mão, o religioso
digitou e enviou uma mensagem escrita para uma de-
terminada pessoa. O conteúdo da enigmática mensa-
gem era de seu exclusivo conhecimento e do receptor.

202
Capítulo 8
Meia hora depois, o telefone da empresa tocou em
meio a outros que recorrentemente aconteciam. Pres-
surosa e simultaneamente polida, Rebeca atendeu.
– Participações e Investimentos Ltda. Bom dia,
fala a Rebeca – disse.
– Bom dia, dona Rebeca – era a voz rouca de um
homem. – Por gentileza, o doutor Rui se encontra?
– De momento não, senhor.
– E quando é que vai estar, por favor?
– Só na próxima semana, senhor…
– Wellington – informou.
– Pois é, senhor Wellington, o doutor Rui só vai
estar na empresa não na próxima semana como lhe
havia dito agora mesmo, mas na outra.
Seguiu-se um silêncio de poucos segundos.
– Como faço então para falar com o doutor Rui,
dona Rebeca? – perguntou a seguir.

203
– Vai ser impossível, senhor Wellington. Ele se
encontra viajando a negócios fora do estado.
– Viajando?
– Sim, viajando. Alguma questão que eu possa re-
solver na ausência dele, senhor Wellington?
– Infelizmente não. O assunto que tenho a tratar
com o doutor Rui é estritamente particular. Ele me
conhece muito bem.
– Como queira – observou sem muita convicção. – A
esta hora, o doutor Rui encontra-se a caminho de Recife
e de lá ruma para São Paulo, amanhã, mais precisamente.
– Ah, sim – falou mais para si, dando a entender
que coordenava as ideias. Ao fim de vários segundos,
prosseguiu: – Por acaso a dona Rebeca pode me dizer
qual é o hotel em que o doutor Rui vai estar hospeda-
do em Recife?
– Por que não lhe liga para o celular, senhor Wel-
lington? – sugeriu.
– Acabei de o fazer. Está desligado.
– É verdade, quando o doutor Rui está dirigindo,
nunca tem o celular ligado.
– Como vê, não foi por falta de lhe haver ligado.
Sabe, quando eu lhe perguntei qual o hotel, a minha
intenção é ir ao encontro dele, já que o assunto sequer
pode ser tratado ao telefone.
– Compreendo, senhor Wellington.
– Então pode, caso não lhe cause problema al-
gum, me informar qual o hotel?
– O doutor Rui sempre se hospeda no mesmo hotel.

204
– Se me puder então facultar, antes mesmo de
ir ao encontro do doutor Rui, eu ligo para o hotel e
deixo recado, e a senhora poderá fazer o mesmo, caso
o doutor Rui lhe ligue.
– Com certeza. O doutor Rui vai se hospedar no
Palace Hotel.
– Sei muito bem qual é. Eu mesmo já lá fiquei
com minha família. Muito obrigado, dona Rebeca,
por sua gentileza.
– De nada, senhor. Mais alguma coisa?
– Somente diga ao doutor Rui, caso ele lhe ligue,
que eu entrei em contato. Só isso.
– E se ele me questionar qual o assunto, senhor
Wellington? O que devo dizer?
– Somente isso, dona Rebeca. O doutor Rui já é
conhecedor do assunto pelo qual o procuro.
– Como queira.
A ligação foi encerrada segundos depois.

**********

Não se sabe o motivo, mas Rebeca, ao desligar o


telefone, rapidamente foi acometida por uma estranha
sensação, a ponto de sentir um frio horripilante em toda
extensão de seu corpo. O que seria? Nem ela mesma sa-
bia; no entanto, a partir daquele momento, passou a pres-
sentir que aquele telefonema seria indicativo de que algo
muito ruim estaria para acontecer. Por mais esforço que
fizesse, estava sendo difícil evitar pensamentos que a par-
tir daquele exato momento tentava afastar sem sucesso.

205
Diante dessa possibilidade, passou a sentir igual-
mente um estranho sentimento de culpa por haver
prestado informações adicionais àquelas que termi-
nantemente se encontrava proibida, conforme orien-
tações do empresário. Como forma de corrigir seu
erro, entrou rapidamente em contato com o empre-
sário, mas logo veio-lhe a lembrança de que o celu-
lar dele se encontrava desligado. Ainda tentou deixar
uma mensagem de voz, mas não lhe foi permitida pela
operadora, já que a caixa de mensagens se encontrava
esgotada. O mesmo sucedeu com a mensagem escrita.
Frustrada por não haver conseguido contatar o em-
presário, Rebeca acabou por encontrar uma solução de
recurso, repetindo o procedimento, só que desta vez para
Nilda. Do mesmo modo, o celular da tia se encontrava
desligado, mas, ainda assim, conseguiu deixar uma men-
sagem de voz. Ficou finalmente aliviada por haver con-
seguido o que lhe pareceu ser um mero paliativo.
A seguir, retornou aos seus afazeres, para logo es-
quecer suas preocupações e o telefonema do suposto
amigo do empresário.

**********

Não demorou muito tempo, o telefone da empre-


sa voltou a tocar.
Considerando ser mais um dos muitos que rece-
be diariamente, polida, Rebeca atendeu, deparando-
se com a voz simpática de um homem. Era o delegado
de polícia, Leonardo, aquele que investigava a morte

206
da mulher do empresário e, por inerência, a do mari-
do de Nilda também.
– O doutor Rui se encontra? – quis saber logo após
fazer sua apresentação, deixando Rebeca apreensiva.
– Ele está viajando, doutor delegado – sua voz
saiu tensa, o delegado percebeu.
– Não precisa ficar apreensiva, dona Rebeca. Sou
amigo dele e somente pretendo lhe falar. Aliás, a se-
nhora já me devia conhecer, pois várias vezes atendeu
ligações minhas.
Do outro lado da linha, escutou-se um suspiro.
– É verdade, já não me lembrava. Desculpe.
Sabe, na verdade, a princípio, confesso que fiquei um
pouco apreensiva, doutor delegado.
– Não é motivo para tal – disse com jovialidade.
– O doutor delegado quer falar com o doutor Rui?
– Justamente.
– Mas, como lhe disse, ele está viajando na com-
panhia da namorada.
– Aí, sim – arregalou os olhos diante da preciosa
informação. – Os pombinhos estão viajando. Foram
para a lua de mel, foi? – mesclou a brincadeira à iro-
nia. Sem malícia, Rebeca ficou propensa para o lado
da brincadeira, daí que disse:
– Se foram, não sei. A única coisa que eu sei é que
os dois viajaram juntos. É lógico que aproveitam para
namorar, doutor delegado – dito isso, na sua reiterada
inocência, deixou escapar um sorriso leve.
O delegado acompanhou. A seguir, observou
com o intuito de coletar informações adicionais:

207
– Até eu no lugar do meu amigo aproveitaria. E os
pombinhos foram para onde, dona Rebeca? – quis saber.
– Viajaram para Recife e depois vão até São Paulo
e Santos.
– Muito bem. Na verdade, deve ser mesmo uma
lua de mel – observou.
– Quem sabe, doutor delegado.
Ambos deixaram escapar um sorriso matreiro, po-
rém contido.
– E quando voltam? A senhora sabe? – o delega-
do, a seguir, quis saber.
– Não na próxima semana, mas na outra. Quer
deixar algum recado, doutor delegado?
– Na verdade até queria, já que tentei entrar em
contato com ele, mas o celular está desligado.
– O doutor Rui desliga sempre o celular quando
está dirigindo.
– Ah, é? Mas que novidade! O meu amigo pa-
rece-me ser mais responsável do que eu imaginava.
Como ele está certo, o celular desligado enquanto di-
rige. Gostei. E para onde foi dirigindo o carro? Não
creio que vá até São Paulo dirigindo, ou vai?
– Nada disso, doutor delegado. O doutor Rui vai
dirigir, aliás, a esta hora já está dirigindo, para Recife
como já havia dito. Depois deixa o carro no aeroporto
amanhã, quando embarcar para São Paulo.
– É verdade. E já que vai de lua de mel, podia
muito bem ir de carro até São Paulo, para conhecer as
belas paisagens do nosso país.
– Também acho, doutor delegado – Rebeca corro-

208
borou, sem saber que o delegado apenas de forma perspi-
caz e sutil recolhia informações sem que ela percebesse.
Os dois falaram um pouco mais, somente o es-
sencial. Atencioso, o delegado agradeceu. A ligação foi
encerrada. Desta vez Rebeca achou normal as informa-
ções que prestara ao delegado de polícia. Diante disso,
retornou aos seus afazeres, para logo esquecer o telefo-
nema. Sequer tentou dar conhecimento ao empresário.

**********

Após concluir a ligação com Rebeca, o delegado


virou-se para o chefe de investigação.
– Valério, temos de agir o quanto antes. Liga para
o aeroporto de Recife e faz a checagem de todos os
voos para São Paulo. Todos, sem exceção, somente os
de amanhã – disse-lhe, ordenando.
– Pois não, doutor? Os que decolam e os que pousam?
– Só os que decolam. De todas as companhias. É
lá no aeroporto que vamos surpreender os nossos ami-
guinhos. Não têm como escapar. Quero confrontá-los
com as mais recentes provas que temos.
– É pra já, doutor.
– Enquanto isso, vou com o promotor ao fórum
falar com o juiz. Vamos lhe pedir o mandado de de-
tenção coercitiva e posterior mandado de prisão con-
soante o que disserem. Eles não escapam desta vez. A
seguir, oficia as companhias aéreas com urgência para
que informem os nomes de seus passageiros, em espe-
cial o deles, Rui e Nilda, os nossos procurados. Quero

209
saber o que eles têm para me dizer sobre as divergên-
cias de seus depoimentos com as provas conseguidas.
Finalmente consegui desmistificar os dois crimes com
as novas provas que juntei aos inquéritos. Quero con-
frontar os dois. Urge fazê-lo.
– Vou providenciar, doutor – confirmou o chefe
de investigação, enquanto lépido saía da sala para exe-
cutar as ordens.
O delegado permaneceu sentado, com o olhar
perdido num ponto qualquer da janela de sua sala.
O que pensava, só ele e Deus sabiam, mas não seria
difícil de adivinhar: a descoberta da verdade sobre as
mortes da esposa do empresário e do marido de Nilda.
Devido à dinâmica de ambos os crimes, às fortes coin-
cidências, à sua misteriosa ligação e à nova situação
criada após as duas mortes, tudo foi tido em conta pelo
experiente delegado, daí que não restariam mais dúvi-
das: tanto a esposa do empresário como o marido de
Nilda sequer haviam sido vítimas de latrocínio, mas,
sim, vítimas dos próprios cônjuges, que havia muito
mantinham um caso extraconjugal. O que faltava apu-
rar se relacionava aos executores, já que pelas escutas
telefônicas e outros elementos se conseguira chegar
somente aos autores morais, Rui e Nilda. Sua deten-
ção se achava necessária, premente e pertinente para
esclarecimento da verdade. Era justamente isso que
pretendia o delegado, sem saber que a filha de Nilda
compartilhava do mesmo sangue do empresário.
Imbuído dessa certeza, em pouco tempo o dele-
gado ligou para o promotor e logo deixou sua sala.

210
**********

Conforme combinado com o superior eclesiásti-


co, o sacerdote deu por terminado o almoço no paço
episcopal na companhia daquele.
A ansiedade dos dois homens, mais do sacerdote,
transformava-os em glutões em certas ocasiões e lhes
tirava o apetite em outras, o que não foi o caso em
relação a um deles nas duas situações. O sacerdote
de tão ansioso que se encontrava devorou tudo o que
lhe foi apresentado de quitutes primorosamente con-
feccionado pela cozinheira do paço episcopal. E, se
mais lhe fosse apresentado, mais devorava. Seu com-
portamento foi observado pelo bispo que decidiu nada
comentar, e também, pelos dois funcionários que ser-
viam os dois homens na grande mesa, chegando a tro-
car olhares inquisitivos. Esse fato não ficou em claro,
pois a dada altura um dos funcionários comentou ao
outro assim que que ambos se encontravam afastados
da grande mesa. Disse em tom de ironia e brincadeira
o funcionário num sussurro ao outro: O padre come
feito um porco e bebe feito um gambá.
O outro corroborou, e os dois caíram numa gar-
galhada contida.
Agora os dois membros do clero, vestidos com as
tradicionais vestimentas da igreja, de acordo com suas
respectivas posições, encontravam-se caminhando lado
a lado pelo extenso jardim meticulosamente tratado da
residência oficial do alto dignitário da igreja. A pedido

211
do bispo, que pretendia manter uma conversa reservada
longe dos ouvidos alheios, fosse de quem fosse, os dois
homens caminhavam lentamente por um dos vários
corredores do extenso jardim, até que dada altura, to-
mando de surpresa o sacerdote, o bispo falou:
– A viagem a Roma é só um pretexto para te se-
gurar aqui no paço – disse-lhe.
O sacerdote ficou deveras surpreso com a dimen-
são das palavras de seu superior.
– Como assim, eminência? – quis saber, depois.
Em simultâneo deixou escapar um arroto.
O bispo percebeu preferindo ignorar a falta de
educação do sacerdote. Em vez disso, disse-lhe:
– Já te disse mais de uma vez que entre nós não
existem formalidades, mormente quando estamos a sós,
como é o caso. Tu sabes muito bem a quem me refiro.
– Sem dúvida, Alberto – forçou um sorriso.
– Pois bem – prosseguiu o bispo. Sua voz saiu
pausada e persuasiva. – A viagem a Roma de que
te falei hoje pela manhã é só um pretexto para te
segurar aqui no paço até que uma solução seja en-
contrada para o problema que nos mantém ligados
até hoje.
– O que queres dizer com isso?
– Estavas pronto para viajar até a sede da nossa
querida e madre igreja, não é?
– Não nego que gostaria, e muito, de visitar Roma.
É o desejo de qualquer cristão, e, se tratando de um
padre como eu, um servidor da igreja, é legítimo que
essa minha pretensão faça parte dos meus planos.

212
– Concordo contigo, mas esse teu desejo terá de
ser adiado, por ora.
– Mas por que, Alberto?
– Já vais saber. Quem vai viajar no teu lugar sou
eu. Quanto a ti, vais ficar aqui no paço durante uma
semana, até eu retornar. Em todo caso, é como se tu
tivesses viajado. Mandei comprar a tua passagem. No
Vaticano, tenho como conseguir a prova de que te-
nhas te hospedado lá e também tenho como conse-
guir o carimbo do teu passaporte junto da alfândega,
tanto aqui no Brasil como na Itália. Não me perguntes
como, que isso já é saber demais. É melhor ficar por
aqui.
Misturando a desconfiança à enorme expectati-
va, o sacerdote quis saber o motivo da súbita alteração
de seu superior.
– Por que tudo isso, Alberto? – disse.
– Já te disse no início desta nossa conversa que
só sairás daqui até se resolver uma situação que nos
mantém ligados até hoje.
– Confesso que não estou entendendo, Alberto.
O bispo estancou o passo. O sacerdote acompa-
nhou-o. O olhar profundo do bispo denunciava que o
caso era grave. Ainda assim, o alto dignitário demons-
trava serenidade, contrastando com o ar de preocupa-
ção do sacerdote.
– Não te faças de esquecido. O que nos une até hoje
é Rebeca, a nossa filha – sem preâmbulos, disse a seguir.
– Ah, sim – o sacerdote enrubesceu ligeiramente.
Os dois reiniciaram a caminhar lentamente. Ao

213
fim de um curto silêncio opressivo, o bispo prosseguiu:
– A atual situação está tomando contornos que
parecem se tornar insustentáveis, mais para ti – disse.
– Como podes fazer uma afirmação dessas? Por
acaso estás a par de tudo, dos últimos desenvolvimen-
tos da tia da Rebeca?
– Mais ou menos, porém o suficiente para te aler-
tar e tomar as medidas necessárias para acabarmos de
vez com esta falácia.
O sacerdote ficou em silêncio. O bispo interpre-
tou-o como um aval às suas palavras.
– Eu, como tenho uma forte ligação ao caso,
jamais poderei ficar indiferente. Sequer vou permi-
tir que a nossa vida e reputação seja violada seja por
quem for. Estás me ouvindo?
– Sim – sua voz saiu abafada.
Confuso, o sacerdote estremeceu. Como o bispo
não se manifestou, ele prosseguiu. Sua voz saiu ligei-
ramente arrastada.
– Continuo sem nada entender, Alberto. Descul-
pa. Sabes, eu sempre escutei dizer que todos nós te-
mos o direito de conviver com a dúvida – disse.
– Sim, Luís. E daí?
– Quero que me digas aonde pretendes chegar
com esta conversa.
– É evidente que no caso em questão não existe
qualquer dúvida. Antes existisse, e tu sabes muito me-
lhor do que eu que a Rebeca é minha filha de fato. Tu
apenas emprestaste o teu nome, mas ela é minha filha
biológica. Tu sabes o que isso significa? Desnecessário

214
seria repetir o motivo desta nossa conversa e de por
que a estamos tendo neste lugar, longe de tudo e de
todos. O nosso passado, além de sujo, é cheio de inter-
rogações e poucas reticências.
– Sei disso, Alberto – confirmou num fio de voz.
– Pois bem – mudou o tom de voz. – Infelizmen-
te, fui dominado pelo pecado e não tenho como voltar
atrás, tampouco mudar o rumo da história, mas tenho
que e devo corrigir a história. É o que pretendo fazer a
partir de agora. Pretendo não, é imperioso fazer. Certo
dia, alguém me disse: o destino pode nos dar golpes,
porém o tempo se encarregará de o corrigir. A mais
pura verdade, mas neste caso eu acrescentaria que, se
nós não agirmos antes mesmo desse tempo o corrigir,
só nos restará um caminho, a nossa desgraça e ani-
quilamento geral. Também alguém escreveu que, se
Deus quisesse no homem uma criatura feliz e perfei-
ta, não lhe tinha dado consciência. Concordas ou não
concordas, Luís?
– Concordo, Alberto.
– Tu sabes que eu transei com a mãe de Rebeca
na tua paróquia. E que, cada vez que transei, ela se
encontrava sedada com aquela porcaria da droga que
tu lhe davas na bebida. Fruto disso Rebeca nasceu.
Não estava previsto, mas aconteceu. Tudo foi aco-
bertado por ti e, para que essa maldita história nunca
fosse descoberta, fizemos o que fizemos, mandamos
matar as duas… Infelizmente a Rebeca sobreviveu.
Tu te tornaste pai adotivo dela e simultaneamente o
pai biológico, quando na verdade não é bem assim,

215
daí que a estúpida da Nilda, o nosso empecilho atual-
mente, tem vindo a fazer aquilo que tu bem sabes.
Primeiro conversou com Rebeca meses atrás – parou
propositadamente para mergulhar numa profunda
reflexão, momento respeitado pelo sacerdote. Ao fim
desse tempo, o bispo prosseguiu: – E agora ela refor-
çou as ameaças.
– Ela também falou contigo? – preocupado, quis saber.
– Não diretamente. Mas quanto a isso já lá vamos.
– Como queiras.
– Como estava te dizendo, tu fizeste-me um gran-
de favor, não nego, mas em contrapartida eu tenho
acobertado e abafado várias situações tuas de pedofilia
que chegam aqui na arquidiocese, e mais: autorizei a
tua transferência para a paróquia do Cristo Rei como
medida de proteção depois da morte da mãe de Re-
beca. Em certa medida, estamos quites, e mais ainda,
para te lembrar, a chantagem tem sido paga por mim
a Nilda, muito embora por teu intermédio.
O súbito silêncio do sacerdote foi a prova cabal de
sua confissão quanto às suspeitas de pedofilia e demais
situações não comentadas pelo bispo. Ele tinha cons-
ciência disso, daí que ao fim de vários segundos, com
a voz que o medo abafava, indagou:
– Aonde estás querendo chegar, Alberto? – disse.
– É muito simples, Luís – estancou o passo para
logo fitar o sacerdote, que o acompanhou com exacer-
bado interesse. – Até aqui, eu tenho abafado tudo, não
só quanto a mim, mas mais em relação a ti. A situação,
como disse, a nossa situação, está ficando insustentável.

216
– Insustentável? Como assim, insustentável, se
temos pago a chantagem daquela louca?
– E até quando poderemos pagar? Todo poço
tem fundo, e o meu também. Não posso desviar mais
dinheiro da arquidiocese, fora aquele que retiro le-
galmente. A tesouraria há bastante tempo faz obser-
vações aos empréstimos que faço e ainda por cima de
valores avultados.
– Compreendo, Alberto.
– E pelo visto o que temos pago não é o bastante.
Só isso justifica que ela tenha dito o que disse a Rebeca.
– Sei disso, Alberto, mas…
Pragmático, o bispo cortou.
– Como sabes, eu não sou hipócrita. Apesar de
ser o pai biológico da Rebeca, nada sinto por ela, tam-
pouco lhe dei amor. Na verdade, compete a mim dar
esse amor como um verdadeiro pai, no entanto não
estou minimamente interessado em fazê-lo. O único
vínculo que me liga a Rebeca é o sangue, e nada mais.
O lado afetivo tem sido muito bem desempenhado
por ti, e mais: ainda bem que Rebeca julga que o pai
dela seja um velho namorado da mãe, que nunca deu
as caras – disse.
– Menos mal, Alberto. A Rebeca nem sequer per-
gunta por ele. Ela sempre diz que o pai dela sou eu.
– Concordo com ela, ainda assim discordo da tua
opinião de menos mal.
– Por que, Alberto?
– Menos mal se for comparada com a atual situa-
ção, Luís.

217
– Que situação, Alberto?
O rosto do bispo expressou incredulidade. A se-
guir, e antes de responder, reiniciou a caminhar lenta-
mente. O sacerdote acompanhou-o.
– Tu hoje pareces apresentar dificuldades em en-
tender as minhas palavras. Talvez tenha sido a abun-
dância de comida que ingeriste durante o almoço
– disse a seguir, lançando uma indireta ao comporta-
mento descompensado do sacerdote durante o almo-
ço, demonstrando igualmente seu descontentamento.
O sacerdote engoliu em seco. A seguir, justificou-se:
– Desculpa, Alberto, é muita confusão nesta mi-
nha cabeça.
O bispo não engoliu a desculpa do sacerdote. De-
cidiu prosseguir, passando por cima.
– É imperativo livrar a minha barra desta balbúr-
dia…E a tua também – disse.
– E não é o que temos feito até hoje?
– Indubitavelmente. Só que surgiu uma situação
nova nas últimas vinte e quatro horas.
– O que, Alberto?- o sacerdote assustou-se mais ainda.
– Já vais saber. A única coisa que eu sei é que, se
não agirmos o quanto antes, nosso segredo não passará
de uma falácia sem precedentes. Será um escândalo
que a todo custo temos de evitar, custe o que custar,
Luís. Jamais podemos macular a imagem da santa ma-
dre igreja e a nossa também. Jamais – enfatizou.
O sacerdote ficou mudo. O bispo interpretou seu
silêncio como um momento de reflexão em relação ao
que acabara de escutar. As próximas palavras seriam

218
ainda mais sinistras, ele sabia-o. Ao fim de alguns se-
gundos, o bispo prosseguiu. Disse:
– Sabes, Luís, ontem de manhã fui surpreendi-
do com uma carta anônima – parou um pouco para
procurar as palavras adequadas. – Essa carta falava jus-
tamente sobre Rebeca. É claro que quem enviou essa
carta foi a Nilda, disso não há dúvidas. Só ela tem inte-
resse no caso, querendo te prejudicar, e por inerência
a mim, já que somos cúmplices. Essa carta delatava e
reforçava a situação de Rebeca – dito isso, reservou-se
num silêncio que durou vários segundos.
Rapidamente o sacerdote pôde constatar que o
assunto da conversa entre Rebeca e o empresário era
do desconhecimento do bispo. Ali mesmo, decidiu
nada comentar. Diante disso, em seu íntimo, suspirou
aliviado, já que na surdina trabalhava como forma de
encontrar uma solução para afastar de vez o perigo
constante que representava Nilda, a quem logo foi
imputada a responsabilidade pela carta anônima. O
bispo encontrava-se coberto de razão ao afirmar que
Nilda havia escrito a referida carta, pensou rápido.
– Na verdade, só pode ser mesmo daquela louca a
carta – lacônico, observou o sacerdote a seguir.
– Indubitavelmente, Luís. É a mesma letra da
outra carta recebida seis meses atrás, e das demais.
As únicas pessoas que têm conhecimento das outras
e desta carta somo nós e ela, assim como a nossa his-
tória só é do conhecimento exclusivo dos três, por en-
quanto. É muita coincidência. Essa louca fala com a
Rebeca e justo uma carta anônima é recebida aqui no

219
paço. Depois surgem outras, e então a última, a qual
interpreto como sendo uma ameaça real, um ultima-
to. Só não entendo o motivo dessa carta de agora, a
menos que… – subitamente parou para mergulhar
numa profunda reflexão.
O súbito silêncio do bispo deixou deveras preo-
cupado o sacerdote, que o interpretou como um mo-
mento de bastante inquietação. E como se encontrava
certo quanto ao seu prognóstico.
Como o bispo demorou para prosseguir, o sacer-
dote arriscou:
– A menos que, o que, Alberto? – quis saber.
– A menos que não façamos nada, permanecen-
do impávidos e serenos, assistindo à nossa queda,
como a que aconteceu com Napoleão nas invasões
francesas.
– Jamais, Alberto. Jamais – foi concludente.
De novo os dois estancaram o passo após escuta-
rem o sino tocar. Era a indicação do início das orações
da tarde, prática recorrente e diária ali no paço, só que
desta vez sem a presença de bispo, que falou ao fazer
mais uma revelação.
– Como se não bastasse, não sei se foi bom ou
não, acredito que tenha sido bom – disse.
– O que, Alberto? – deveras curioso, o sacerdote
quis saber.
– Como sabes, o meu irmão é delegado de polícia.
– E o teu irmão não é médico?
– Somos três irmãos. Um é médico, aquele que
tu conheces, eu sou o que sou, e tenho mais outro que

220
não conheces. Ele é delegado de polícia. Seu nome é
Leonardo.
– Confesso que não sabia.
– Mas é claro, nunca te falei dele. Como é que
podias saber da sua existência?
– Sim, é claro… Mas… e o que é que o teu irmão
delegado tem a ver com tudo isto, Alberto?
– Muito, Luís. Tem muito. Não sei se foi sorte
ele ter falado comigo ontem, ou se foi obra do divino.
Acredito que tenha sido a primeira, já que a minha
vida desde aquele nefasto acontecimento em que fui
capaz de mandar matar duas pessoas e haver rompi-
do o celibato a que estava obrigado se ter pautado até
hoje pela mentira.
– O que queres dizer com isso, Alberto? – o ros-
to do sacerdote expressava uma latente e exacerbada
curiosidade.
O bispo, antes de responder, reiniciou o passo. O
sacerdote acompanhou.
– Ontem à noite fui jantar na casa do Leonardo.
Era aniversário dele, e, como sempre, não podia faltar…
O bispo em minutos relatou o teor da conversa que
mantivera com o irmão após aquele dar conhecimento
aos irmãos das suas atividades na força polícial. Falou
de vários casos em que se encontrava envolvido e de
suas investigações, sendo que uma delas envolvia Nilda
e o empresário. Ao escutar o nome de Nilda e do em-
presário, o bispo apurou os ouvidos, mais por ela. Dis-
cretamente, foi colhendo informações, até que chegou
à conclusão de que a qualquer momento Nilda e seu

221
namorado seriam presos por serem coautores morais
das mortes de seus respectivos cônjuges. Se isso viesse a
suceder, significava um desastre para a manutenção de
seus segredos em relação à paternidade de Rebeca, sua
tentativa de morte e morte de sua mãe. Era o seu fim.
Mesmo sendo acusado por uma pessoa que não tinha
moral para o fazer, Nilda, já que era acusada de haver
mandar matar o marido, ainda assim todo cuidado era
pouco, ambos encontravam-se no mesmo patamar, só
que Nilda, a qualquer momento, sendo presa, seria
difícil calá-la. Ele sabia disso, como também sabia do
enorme risco que corria se não agisse antes. Foi nesse
contexto que mandou chamar o sacerdote, associado à
carta anônima que recebera vinte quatro horas antes.
Em silêncio, o sacerdote escutou sem pronun-
ciar palavra alguma. As palavras de seu superior, além
de sinistras, pareciam-lhe custar a digerir. Seu rosto
empalideceu como em simultâneo sem aviso prévio
ocorreu a lembrança da conversa da noite de véspera
mantida com Rebeca sobre o que ela havia escutado
do empresário. Afinal, tanto Nilda como o namorado
não estavam mentindo, pensou rápido.
Ao arrematar, o bispo disse:
– Como vês, a situação é mais complexa do que
se possa imaginar. Se Nilda e aquele namorado dela
forem presos, podes ter certeza absoluta de que ela
abre a boca. Aí será o nosso fim, Luís.
Por mais difícil que fosse a situação, ainda assim o
sacerdote expressou um otimismo moderado após um
vislumbre, daí que observou:

222
– Mas quem vai acreditar numa pessoa que man-
da matar o próprio marido? Ela, ao ser presa, fica total-
mente desacreditada. Não tem nem moral para acusar
alguém. Todo mundo vai entender a acusação dela
como um ato de desespero, Alberto – disse.
– E tu não achas que eu já pensei em tudo isso? Até
que podes ter razão, mas o que me preocupa não é só a
Rebeca, que logo ficará com uma pulga atrás da orelha.
Ela pode pedir um exame de DNA e dará negativo. Mas
e a morte da mãe? Podem muito bem reabrir o caso, e
aí existirão fortes evidências da minha participação.
– Então, Alberto, o caso já prescreveu. Quanto ao
exame de DNA, vai dar negativo, assunto encerrado.
– Engano teu, Luís. Tu sabes que eu sou uma pes-
soa cética e meticulosa. Tudo bem quanto ao que aca-
baste de falar, mas o que me preocupa é o meu irmão.
Eu conheço bem o Leonardo e sei que ele, ao receber
uma acusação da Nilda, por mais que ela esteja desmora-
lizada, não vai ficar quieto, e aí ele vai descobrir a nossa
mentira. Ele é uma pessoa que gosta de fazer justiça, doa
a quem doer, e eu mesmo, sendo irmão dele, não escapo
das suas rédeas. Sei do que estou falando. A nossa menti-
ra, com ele esmiuçando, acabará por ser descoberta.
– Não será melhor dizer o segredo, o nosso segredo?
– Melhor ainda, Luís.
Seguiu-se um curto silêncio. Ao fim desse tempo,
o bispo deixou escapar, falando mais para si.
– Ninguém é dono do destino, mas podemos mo-
dificá-lo. É isso que devemos fazer a partir de agora,
modificar o destino – disse.

223
– Certo. E o que pretendes fazer, então, Alberto?
– Agir o mais rápido possível, antes que a Nilda
abra a boca. Aliás, a última carta dela aponta fatos
concretos, e seu eu não tivesse conhecimento deles
custaria a acreditar. Além disso, ameaçou contar à po-
lícia, se é que já não o fez. Estás vendo como temos de
nos ver livre dela o quanto antes?
– Faz sentido, Alberto.
– Ficaste assustado com tudo isto, não foi?
– Assustado, não. Com medo.
– Também eu, Luís. Também eu.
– Com uma ameaça dessas, quem não ficaria?
– É verdade. Estou tão envolvido quanto tu. Tal-
vez até demais.
– O que sugeres, então, Alberto?
O bispo não respondeu de imediato. Seu semblan-
te indicava que coordenava as ideias. Ao fim de vários
segundos, reiniciou a caminhar, sendo acompanhado
pelo sacerdote, que havia respeitado seu silêncio.
– Sempre escutei papai dizer que existe uma me-
dida para todas as coisas, um limite para a tolerância
e a paciência, e tanto eu como tu há muito atingimos
esse marco.
– Faz tempo que atingi, Alberto. Não sei como
tenho conseguido segurar esse peso até hoje.
– Pois é, jamais devemos persistir no heroísmo da
nossa existência. Por mais sólida que seja a nossa base reli-
giosa, cumprindo e defendendo os dogmas e paradigmas
da nossa madre igreja, com tudo isto, não podemos ficar
serenos. Urge resolvermos esta situação, e já – deu ênfase.

224
– Concordo. Alguma sugestão?
– Eu pensei numa possibilidade.
– Sim, e qual é?
– Eu viajar para Roma, e, durante esta semana
em que estou ausente do país, tu ficas aqui no paço
para precisamente estudares um plano e colocá-lo
em prática. Dou-te uma semana para resolveres
o assunto e te livrares de vez da Nilda. Isto é um
ultimato! Se não te livrares dela até o meu retor-
no, quem vai fazer o trabalho sou eu. Não importa
como vais fazê-lo. Se precisares de dinheiro, está na
gaveta da tua mesinha de cabeceira, no quarto onde
vais ficar, um envelope com cinquenta mil reais.
Penso que é o suficiente. Livra-te da Nilda. Estás
me ouvindo?
– Sim, Alberto.
– Os funcionários do paço já estão devidamente
informados acerca da tua estada aqui. Escusado será
dizer que te encontras incontactável, seja para quem
for, até com Rebeca, a não ser se tudo correr bem,
como espero.
– Entendo…E eu posso confiar nos funcionários
do paço, Alberto?
– Mas é claro que podes, Luís. Todos eles estão
aqui nas minhas mãos. Comem que nem uns patinhos
aqui – fez um gesto com uma das mãos na palma da
outra, dando a entender que detinha o controle abso-
luto de todos os funcionários do paço episcopal. – Para
todos os efeitos, todos eles foram orientados a confir-
mar a tua viagem, caso seja necessário.

225
– E qual é o passo a seguir? – quis saber, porém
ele próprio já havia traçado seu próprio plano com o
intuito de se livrar de Nilda.
Enquanto o sacerdote deslocava-se para o paço
episcopal, já havia decidido nada comentar sobre seu
plano. Agiria por sua conta e risco. As palavras de seu
superior somente vieram a dar respaldo, como ratifican-
do suas reais intenções. E como vieram a calhar, pensou
rápido. O sacerdote encontrava-se totalmente de acor-
do quanto ao decidido pelo bispo, que, ao viajar para
Roma, pretendia juntar o útil ao agradável, eliminar de
vez Nilda, colocando um ponto-final na angústia dos
últimos tempos, após ser descoberto parte de seu segre-
do, embora o fruto de seu pecado permanecesse bem
próximo, Rebeca, bem como participaria da cerimónia
religiosa e solene da sua nomeação como cardeal.
Sem delongas, o bispo respondeu ao sacerdote:
– Tu, nesta semana em que supostamente te en-
contras fora do país, terás de mandar matar Nilda –
incisivo, disse-lhe.
– Matar a Nilda? – o sacerdote simulou apreensão.
– Sim, matar ela. Fazê-la sumir das nossas vidas.
E, depois, não é nada demais. É um castigo justo para
uma pessoa que ousou mandar matar o próprio mari-
do para ficar com o amante. Ela é tão criminosa quan-
tos nós dois. E, no mundo do crime, vence quem for
mais esperto e vigilante, no fundo quem for melhor.
Com certeza nós somos os melhores. Pelo menos nos
sentimos mais capacitados. Não tenho dúvidas quanto
a isso. Tu tens?

226
– Claro que não, Alberto.
– Pois esta nossa conversa termina aqui, Luís.
Quando chegar de Roma, quero saber da tua própria
boca uma frase, somente uma frase. A vagabunda já
está no inferno. Fiz-me compreender?
– Sim, Alberto.
– Nunca te esqueças disto que te vou dizer.
– O que, Alberto?
– Não esperes das pessoas o que tu imaginas de-
las. Pessoas são pessoas. Entendeste?
– Perfeitamente, Alberto.
– Muito bem. Vou andando, Luís, pois tenho
outros compromissos antes de viajar. Depois nos fala-
mos – dito isso, estugou o passo, deixando para trás o
sacerdote, que somente o passou a fitar com interesse
até que seu vulto desapareceu em meio às enormes
árvores do jardim do paço episcopal.

**********

Enquanto fitava o bispo sair, o religioso rapida-


mente mergulhou numa profunda reflexão. Sobre o
que refletia, só ele e Deus sabiam, todavia não seria
difícil adivinhar. As mais recentes palavras de seu
superior ainda faziam eco em seus ouvidos, daí que,
diante disso, resolveu agir de imediato. E como ha-
viam sido pertinentes as palavras daquele, chegou
a rir da coincidência. Seu plano já se encontrava
traçado. O que tanto almejava era igualmente com-
partilhado por seu superior. Suas ideias convergiam,

227
porém as únicas novidades se relacionavam à carta
anônima e ao fato da polícia, a qualquer momento,
proceder à prisão de Nilda, bem como no plano que
havia traçado incluir uma segunda pessoa, Rui, o
namorado de Nilda.
Depois de escutar as considerações do bispo acer-
ca da eventual prisão de Nilda, o religioso chegou a
estremecer. Até que o superior tinha razão: por mais
desmoralizada e desacreditada aquela estivesse, o de-
legado jamais ficaria indiferente a uma acusação, e
então, se ele o conhecia bem, e mais, tratando-se do
irmão, sua ação teria de ser ágil e certeira.
Sem saber quando a prisão de Nilda poderia ocor-
rer, o religioso decidiu se antecipar, daí que, imbuído
dessa certeza quanto à detenção e incerteza quanto
ao tempo, foi ao encontro da pessoa com quem ha-
via marcado um encontro para as quinze horas. Falta-
vam dez minutos, observou para si mesmo, depois que
olhou para o relógio de pulso.
Em menos de dois minutos já se encontrava junto
ao portão principal do paço episcopal. Ansioso, espe-
rava pela chegada a qualquer momento da pessoa com
quem havia combinado seu compromisso.
Olhar perdido e dissimulado em um ponto qual-
quer, foi surpreendido com a aproximação de uma via-
tura de cor escura e vidros também escuros, circulan-
do lentamente. Aquela estancou bem na sua frente,
depois de seu ocupante o haver reconhecido.
O vidro do lado do motorista desceu um pouco, e
a voz grossa e rouca de um homem foi escutada.

228
– Falamos aqui dentro ou noutro lugar? – dirigiu-
se ao religioso.
– Aqui mesmo no carro. Pelo menos aqui esta-
mos em segurança – confirmou para logo caminhar
passando pela dianteira do automóvel, para adentrar
pela porta do lado do carona. Entrou e fechou a porta.
Só o fez depois de se certificar de que se encon-
trava em segurança.
Sem perder tempo, interpelou o homem:
– Então, a informação que te dei estava correta?
– Corretíssima, padre. Conforme me pediu, con-
firmei com a ligação que fiz para a empresa esta ma-
nhã. A secretária confirmou tudo.
– Ótimo – exibiu um sorriso com ar superior. – E
onde eles estão neste momento?
– Se ainda não chegaram em Recife, devem estar
a caminho.
– Entretanto, há novidades nesta história, daí que
temos de ser ágeis.
– Que novidades, padre? – curioso, o outro quis saber.
– A informação é fidedigna. Vem de fonte segura.
A polícia anda atrás do casal. Ambos são acusados da
morte de seus respectivos companheiros.
– Isso quer dizer que…
Circunspecto e lendo os pensamentos do ho-
mem, o religioso interrompeu:
– Que, se não nos anteciparmos à polícia, pode-
mos deitar tudo a perder. Urge fazermos o trabalho,
caso contrário de nada valerá nosso esforço. Temos de
nos livrar deles antes que a polícia chegue até eles.

229
Fiz-me entender? – disse.
– Perfeitamente, padre.
– Ótimo.
– Nesse caso, quais são as suas orientações, pa-
dre? – quis saber o homem de aparência horrenda,
rosto bastante enrugado, olhos fundos e frios, cabelo
puxado para trás numa espécie de rabo de cavalo, na-
riz achatado, além de outros adornos esdrúxulos de
fazer medo.
– O mesmo que fizemos vinte e cinco anos atrás.
Eliminar os dois sem deixar uma pista sequer que pos-
sa levantar suspeitas, até da própria polícia. Simular
um acidente. Já tens os dados do carro que te passei
na mensagem e aqui estão as fotos dos dois, dela e do
namorado- retirou do bolso da batina.
– Esse é o meu trabalho predileto, padre – foi sar-
cástico ao observar enquanto recebia as fotos de Nilda
e do empresário. – Matar pessoas sem dó nem pie-
dade. Já eliminei muitos, são apenas mais dois para
engrossar a minha lista, padre – arrematou, exibindo
também um curto sorriso, porém, sarcástico.
– Espero. Assim espero – foi frio ao observar.
– Pode confiar em mim, padre.
– Também falou o mesmo vinte e cinco anos atrás
e as coisas não correram como o desejado. Na altura
lhe disse que havia sido leviano. Espero não ter que
repetir desta vez – protestou.
– O meu trabalho foi feito. Se a criança não mor-
reu, a culpa não é minha.
– Está bem – cortou. – Isso não importa mais.

230
Ainda vamos a tempo de corrigir essa falha, e tem de
ser desta vez.
– Prometo que não falharei, padre.
– Confio em você, meu rapaz. Desta vez tem de
ser mais intrépido.
– Ok... O padre pode me esclarecer uma coisa.
– O quê?
– Até hoje nunca me disse quem foi a pessoa que
me indicou.
– Isso não é o que estamos discutindo agora – foi rude.
– Desculpe, padre – ergueu as mãos ao alto num
aparente gesto de rendição.
– Estás aqui para fazeres um trabalho pelo qual
serás bem recompensado. Assim que me informares o
resultado e eu tiver a confirmação, mando depositar
na tua conta o dinheiro.
– Quanto, padre?
– Desta vez vou ser mais generoso. Cinquenta mil
reais, mas, por amor de Deus, não me falhes. Ouviste?
– Perfeitamente, padre. Pode confiar em mim –
confirmou de olhos arregalados ao escutar o valor em
causa enquanto presenciava, mudo, o religioso aban-
donar a viatura, limitando-se a fitá-lo com interesse.
“Padre vagabundo. Não sei para que se esconder
debaixo de uma batina. Quando morreres vais para o
inferno... Tu e eu”, pensou a seguir o carrasco, avis-
tando o vulto do religioso sumir, deixando escapar um
leve sorriso irônico.

**********

231
Junto ao portão do paço episcopal, o religioso es-
tancou o passo. Olhou para trás quando avistou a via-
tura do carrasco finalmente sair. Rapidamente o vulto
dela sumiu ao cruzar a esquina da rua.
Sem se dar conta, o religioso já havia mergulha-
do em seus pensamentos: “Quero que aqueles dois
sumam de vez da minha vida. Que seus caminhos
não se cruzem nunca mais com os meus… Lixo.
Eles são lixo para mim, e lixo é como papai dizia,
tem de ser descartado no seu devido lugar, a lixeira.
Escumalha…”.
Enquanto se isolava em seus pensamentos, o reli-
gioso tomou um susto. Uma buzina foi escutada. Era
a viatura do paço episcopal. O motorista particular do
bispo pretendia-lhe falar.
– Como procurei tanto pelo padre. Alguém me
disse que o senhor andava por estas bandas – disse.
– Vim até aqui para respirar um pouco de ar –
dissimulou.
Aquele estranhou.
– Respirar ar aqui fora, padre? Não seria melhor
ter ficado no jardim do paço? Ali no jardim tem mui-
tas árvores para o padre desfrutar do ar puro. Não
acha? – indagou a seguir.
– Não é da sua conta, moleque! Faça seu serviço
e não repare naquilo que os outros fazem ou deixam
de fazer. Humm!... era o que mais me faltava, hein?
– Perdão, padre – triste com o mau humor do religio-
so, ligeiramente enrubescido, o motorista pediu desculpas.
– Está perdoado, moleque.

232
– Vamos para onde, padre? – ousou perguntar,
vendo que nada lhe havia sido pedido.
– Voltar até a minha paróquia. Depois voltamos
para cá. Preciso ir buscar uns papéis e a minha baga-
gem – confirmou sem muita vontade enquanto aden-
trava na viatura de luxo da diocese, sentando-se no
banco traseiro.
Enquanto era conduzido, de novo o religioso
mergulhou em seus pensamentos. O que pensava, só
ele e Deus sabiam, todavia torcia para que tudo corres-
se conforme planejado. E como torcia. Sua ansiedade
e seus nervos encontravam-se à flor da pele até que
a confirmação da morte de Nilda e Rui chegasse aos
seus ouvidos, tanto da parte do algoz como de seus
outros informantes.
Durante todo o trajeto até sua paróquia, o religio-
so não ousou abrir a boca. É lógico que o motorista
não se importou que ele houvesse ficado mudo, pois
seria melhor o silêncio do que escutar repreensões e
desaforos de pessoas mal-humoradas, pensou consigo
mesmo o pobre coitado.

233
Epílogo
Um dia depois, os acontecimentos sucedem uns
aos outros de forma vertiginosa.
Enquanto o bispo se preparava para a grande festa
de sua ordenação como cardeal em Roma, no paço
episcopal, o religioso, recolhido em seu esconderijo,
aguardava ansioso e simultaneamente apreensivo pela
notícia que mais almejava em toda sua vida. Ali no
confinado alojamento, o religioso sentia um vácuo em
torno de si, a ausência que naturalmente a pessoa nota
quando convence a si mesma de que as coisas estão
irremediavelmente fugindo do controle.
Caminhando de um lado para outro no aposento
que lhe fora destinado ali no paço episcopal, bastan-
te apreensivo, o religioso teve ímpetos de ligar para o
carrasco, tamanha a angústia e ansiedade, mas logo
desistiu da ideia, pois as palavras de seu superior ain-
da faziam eco em seus ouvidos: estava ali justamente

235
com a finalidade de simular uma viagem e jamais po-
deria entrar em contato com alguém, fosse com quem
fosse, a menos que fosse contatado via exterior.
Diante disso, teria de aguardar por uma ligação
daquele que àquela altura lhe parecia uma eternidade,
conjecturava consigo mesmo o religioso, mesclando
a angústia com a exacerbada apreensão e ansiedade.
Encontrava-se tão apreensivo esperando por notícias
que sem se dar conta já havia ruído nervosamente to-
das as unhas dos dedos de ambas as mãos, e, se mais
houvessem, por certo quem sofreria eram os pobres
coitados dos dedos. Por desfrutar de boa saúde e não
haver nascido com dedos extraordinários, continuou
roendo as unhas já por si inexistentes dos dedos atuais.
Até um terço acabou por ser usado pelo religioso, pas-
sando nervosamente de uma mão para a outra, como
que pedindo amparo e apoio ao divino, como se o divi-
no compactuasse com sua atitude inconcebível.
Sem se dar conta também, o religioso passou a
ser torturado pelos inúmeros julgamentos e suposi-
ções que a si mesmo fazia, daí que, de tão ansioso,
ora caminhava de um lado para outro, ora se sentava
na cama, ora em uma cadeira, ora se deslocava até a
única janela do aposento não se sabe bem o que fazer,
ora adentrava no banheiro para se olhar no espelho,
ora cruzava as mãos para fazer uma prece de olhos
fechados, ora falava consigo mesmo como se estives-
se resmungando, talvez se lamuriando, quiçá? Isso e
muito mais. Na verdade, devido ao seu estado de fla-
gelado, o religioso mais se assemelhava a um réu em

236
pleno tribunal, esperando por sua sentença, do que
propriamente um representante do clero ou uma pes-
soa provida de sua vã consciência.
Nessa noite, o religioso não fechara o olho. De
tudo lhe passou pela cabeça. Por vezes tinha a certeza
de que conseguiria se livrar em definitivo de Nilda e
de Rui, outras vezes acreditava mais em seu ceticismo,
já que existia uma ressalva em torno do seu plano. A
ressalva se relacionava com o fato do seu carrasco não
vir conseguir se antecipar à polícia. De fato, era o que
mais temia. Mas logo descartava essa tenaz ideia para
acreditar que sim, que seu plano seria, sim, vitorioso.
Mesmo deitado na cama, tal como agora se encontra-
va, o religioso suava profusamente a ponto de o suor
descer pelo corpo até atingir os cós das calças de pi-
jama. O mesmo se sucedeu com os lençóis da cama,
de manhã encontravam-se todos encharcados, e por
vergonha quando a empregada do paço bateu à porta
do aposento com a finalidade de proceder à limpeza e
arrumar a cama, logo a dispensou, não fosse ela julgar
erroneamente que ele urinara de noite na cama como
as criancinhas. “Foi melhor assim, não vá esta maluca
dizer por aí que mijei na cama”, pensou o religioso.
Seu estado era tal que não ficava quieto, bem
como não conseguia rezar e fazer o que quer que
fosse que o deixasse ausente momentaneamente da-
quela angústia, inclusive debruçar-se sobre a leitura
da Bíblia, seu amparo e principal instrumento que
norteia seu trabalho como representante de Deus
junto dos homens. Do mesmo modo, não comia.

237
Sua cabeça e seus pensamentos encontravam-se
bem longe daquele lugar.
A dada altura, o religioso encontrava-se junto da
janela do aposento, olhando para a rua, olhava por
olhar, quando escutou seu celular tocar. Excitado,
logo se virou para trás, passando a correr intuitivamen-
te com o objetivo de alcançar o aparelho que àquela
altura havia sido deixado no banheiro instantes antes,
após mais uma das várias idas até o local, não se sabe
bem fazer o quê.
Também não se sabe como, quando correu à pro-
cura do aparelho, uma cadeira do aposento se moveu
como que arremessada por vontade própria, fazendo
com que se desequilibrasse, evitando o contato com
aquela, e atingisse o chão em uma queda sem prece-
dentes. A queda foi tão violenta a ponto de deixar esca-
par um gemido natural de dor, bem como repudiasse
a si mesmo ao falar com sarcasmo.
– Esta filha da puta tinha logo de se meter no
meu caminho. Chega pra lá, alma sebosa! – dito isso,
empurrou com toda a força possível a cadeira, que
acabou por colidir com a parede. Uma das pernas da
coitada ficou quebrada.
Ainda assim, nada o demovia, bem como nada
era mais importante do que a notícia que mais alme-
java, como se tudo ali fosse insignificante, até Deus,
que havia muito tinha sido renegado a segundo plano,
servindo apenas de fachada e falácia para a cara limpa
que exibia diariamente.

238
Com alguma dificuldade, ergueu-se, foi até o ba-
nheiro, onde havia deixado o celular que insistia em
tocar. Ao chegar, verificou na tela se tratar de Rebe-
ca. Logo esmoreceu, pois julgava se tratar do carras-
co. Porém, algo lhe ditava que deveria, sim, atender
a ligação, pois quem sabe fosse a filha a mensageira
da notícia que mais almejava, concluiu rápido. Diante
disso, atendeu.
– Oi, minha filha – dissimulando a voz, disse.
– Oi, meu pai – sua voz saiu bastante embargada.
Perspicaz, ele percebeu. Intrinsecamente, vibrou.
A seguir, disfarçou.
– Mas que voz tristonha é essa? Passou-se alguma coisa?
– Passou, sim, meu pai.
– O que, minha filha? – definitivamente, pelo tom
de voz da filha, o religioso sabia que Nilda e o namora-
do ou estariam mortos, ou haviam sofrido um acidente,
ou então haviam sido presos pela polícia. Torceu pela
primeira possibilidade. – Queres me contar? – pediu.
– Tenho uma notícia muito triste para lhe dar.
– Uma notícia triste para me dares? Então por
que não me dás?
– Os dois estão mortos – dito isso, começou a chorar.
– Mas que dois? – dissimulou, sabendo de antemão
a quem a filha fazia referência. – Não chores, por favor.
– O meu patrão e a dona Nilda – confirmou com
o timbre de voz denunciando tristeza.
Em seu íntimo o religioso vibrou, a ponto de fa-
zer um gesto com o braço num sinal vitorioso. Excita-
do, deixou escapar.

239
– Até que enfim. Graças a Deus, eles já eram.
Como falou muito baixo, Rebeca não escutou. A
seguir, o religioso, ainda vibrante com a notícia, de
olhos coruscantes, mudou o tom de voz para a indagar.
– Tu tens certeza do que estás falando, minha fi-
lha? – quis saber.
– Tenho, sim, meu pai.
– Como tens tanta certeza?
– Acabaram de me ligar da polícia de Recife aqui
para a empresa.
– Sim. E o que a polícia de Recife te disse?
– Confirmou que o casal havia sofrido um aci-
dente de carro. Parece que o pneu do carro estourou
e bateram de frente com um caminhão de cana de
açúcar.
– E foi?
– Sim, meu pai.
– Anda lá, não chores. Fatalidades acontecem to-
dos os dias. Foi a eles, poderia ser também com outras
pessoas. Que Deus os receba em paz na sua casa e que
suas almas descansem. É o que se pode dizer e pedir
neste momento de profunda dor para as famílias. Rezar
por eles e suas famílias. Não é verdade, minha filha?
– É, sim, meu pai.
Cauteloso e dissimulado, o religioso tentou des-
viar a conversa.
– E os dois estavam viajando?
– Estavam, sim, meu pai. Não se lembra de que
eu lhe falei dessa viagem deles?
– Ah, sim, falaste – disfarçou. – Como sabes, é

240
tanta coisa que nem me lembrei mais.
– E agora, meu pai?
– Agora é continuar para a frente. Por morrer uma
andorinha a primavera não acaba. A vida continua,
minha filha – com suas palavras o religioso demons-
trava ser solidário.
– Tem razão, meu pai. Tem razão.
– Mas quem te ligou a dar a notícia, minha filha?
– Já lhe havia dito que tinha sido a polícia de Recife.
– Ah, pois foi – disfarçou, mas no fundo havia insis-
tido com o intuito de coletar mais informações. Sabia
que o conseguiria, já que conhecia muito bem a filha.
– Sabes, meu pai, segundo o polícial que ligou
aqui para a empresa, o doutor Rui, a dada altura, pas-
sou a ser perseguido por uma viatura polícial, que lhe
fez várias advertências para parar, e em vez disso ele
passou a acelerar ainda mais.
– E foi, minha filha? – simulou admiração.
– Sim. Pela conversa do polícial, dá para enten-
der que o doutor Rui passou a fugir da polícia. Parece
que eram dois carros da polícia que o seguiam.
– E o teu patrão tinha problemas com a polícia?-
quis saber, quando de repente lhe ocorreu a lembran-
ça de que o algoz havia sido eficaz ao se antecipar à
polícia, pois caso contrário seria o seu aniquilamento.
Suspirou aliviado.
– Aparentemente não… Ao que eu sabia, não-
respondeu a filha.
– Nem nada relacionado com aquela história que
me constaste dele?

241
– Não sei, meu pai. Agora é estranho ele ser per-
seguido por duas viaturas da polícia.
– Na minha modesta opinião, acho que talvez ele
não tenha obedecido à ordem para parar. E tu sabes
como é a polícia deste país, qualquer desconfiança e
descumprimento não desistem fácil. O teu patrão ace-
lerou, como se estivesse evitando a polícia, e bateu de
frente. Para a polícia foi até melhor, assim evitaram de
disparar tiros de advertência e quem sabe sem alterna-
tiva os tiros fatais.
– Será que o doutor Rui estava com problemas
com a polícia?
– Eu não posso garantir, mas seu comportamento
deixa antever que sim. Mas não vamos falar mais do
acidente. Falar de tristeza só atrai tristeza. O que nos
resta é rezar pelas suas almas, não é verdade?
– Sim, meu pai.
Seguiu-se um curto silêncio, porém doloroso. O
religioso o respeitou, sabendo que Rebeca, na verda-
de, encontrava-se abalada e triste com a notícia, já ele,
radiante. Ao fim desse tempo, preocupada, Rebeca
deixou escapar.
– Agora, o que faço, meu pai? Estou perdida, não
sei o que fazer.
– Fica calma, minha filha. Por favor, não entres
em pânico. Sê forte e confia em Deus, que sabe o que
faz. Procura nele refúgio e forças. Com certeza ele te
dará uma luz.
– Agora eu não sei o que fazer. Estou aqui na em-
presa, perdida, com o telefone tocando direto. A no-

242
tícia já se espalhou. Até os filhos do doutor Rui estão
vindo para cá.
– Coitados dos filhos do teu patrão. Que Deus
tenha dó deles neste momento tão difícil. Perdem a
mãe e agora o pai, ambos de forma tão brutal.
– Pois foi, meu pai. Coitados deles. Deles e da filha
da dona Nilda, sem pai e agora sem a mãe também.
– Deus quis assim. Não podemos questionar seus
motivos – observou o religioso, sem antes haver pen-
sado rápido. – “Que se dane a filha dela, que procure
seus direitos na justiça”.
– Eu me sinto perdida aqui, meu pai. O senhor
pode vir até aqui a empresa? Eu não sei o que fazer
numa situação como esta. Estou precisando tanto do
seu apoio, por favor, meu pai – suas palavras de sú-
plica não deixavam margens para dúvidas do quanto
necessitava do apoio do pai. Havia forte emoção nas
palavras Rebeca.
Pela primeira vez o religioso encontrava-se im-
pedido de socorrer a filha numa situação de extrema
dificuldade. Em seu íntimo, embora vibrasse com a
notícia, em simultâneo encontrava-se esmagado com
o sofrimento de Rebeca, a quem de nada podia valer.
Voz apiedada, disse-lhe:
– Oh, minha filha, como eu gostaria, e muito, de
te valer nesta hora tão difícil, mas é-me completamen-
te impossível.
– Impossível? Como assim impossível? – incrédu-
la, quis saber.

243
– Sim, minha filha. Ai, como gostaria de te abra-
çar neste momento, mas me encontro viajando.
– O senhor viajou? Viajou para onde sem me di-
zer nada?
– Fui apanhado de surpresa pelo meu bispo com
a viagem que havia muito já se encontrava programa-
da e eu de fato nunca mais me lembrei dela. Viajei
para Roma.
– Para Roma? – quase entrou em pânico com a
revelação.
– Sim, para Roma. Como te disse, o bispo havia-
me convidado para o acompanhar na cerimônia de
sua ordenação como cardeal. Devo-lhe alguns favores,
não tive como negar o pedido. Tenta compreender.
Conformada e demonstrando compreensão, Re-
beca observou mais para si como desabafando.
– Quando tudo corre mal, aí não tenho ninguém
para me socorrer – disse, lamuriando.
Apiedado e simultaneamente impedido de a so-
correr, porém com um desejo enorme de correr ao seu
encontro, o religioso limitou-se a suavizar a voz para
rebater o que lhe pareceu ser uma crítica indireta.
– Oh, minha filha, não fiques assim. Já te disse
que não tive como escapar desta viagem repentina. E
mais, tu sabes muito bem que, se eu estivesse aí, não
titubearia em ir ao teu encontro. Tu sabes que falo do
fundo do meu coração – disse.
Rebeca não respondeu de imediato. Seu silêncio
doloroso foi respeitado pelo religioso. Ao fim desse
tempo, ela deixou escapar.

244
– Desculpa, meu pai. Sei disso. Eu sei que tu, se
tivesses aqui, não hesitarias em me ajudar. Desculpa.
É que estou sem saber o que fazer.
– Queres que eu mande a dona Lucília até aí?
– Não carece. Eu vou ligar para uma amiga mi-
nha e, se for o caso, ligo também para o advogado do
doutor Rui.
– Gostei da tua sensatez. Faz isso, minha filha.
E se precisares de algo que eu possa fazer daqui, não
deixes de ligar. Está bem assim?
– Faço, sim, meu pai… Bem que o senhor podia
ter me avisado dessa sua viagem – reclamou sem se-
quer questionar e se lembrar do curto espaço de tempo
da viagem internacional. No estado em que se encon-
trava, sequer podia aprofundar a questão, estranhando
as poucas horas que deram origem à súbita viagem.
Astuto, o religioso percebeu, mas já era tarde para cor-
rigir, ainda assim algo lhe ocorreu quando observou:
– Acabei de te o dizer, minha filha, que só on-
tem à noite fui informado desta viagem. Depois de
tu saíres da casa paroquial. E como não podia negar
ao meu bispo, vim com ele. Foi tudo feito às pressas.
Ainda não chegamos em Roma. Estamos em Portugal,
aguardando o voo de conexão – mentiu.
– Vê se ao menos me trazes uma lembrança dos
nossos patrícios e de Roma também.
– Podes contar com isso, minha filha.
– Está bem, meu pai. Depois nos falamos. O tele-
fone já está tocando outra vez. Boa viagem e até mais.
Vá dando notícias.

245
– Dou, sim, minha filha. Até mais.
A ligação foi cortada.

**********

Vibrante com a notícia, sem perder tempo, o re-


ligioso fez um gesto vitorioso com a mão, exclamando
em alta voz “YES”.
“Finalmente livre daquela escrota. Que ela e
aquele troço do namorado dela sejam devorados no
fogo do inferno!”, falou depois consigo mesmo, e ob-
viamente que se referia a Nida e ao empresário.
A seguir, numa atitude de pura hipocrisia, ajoe-
lhou-se e fez uma prece, como agradecendo a Deus
por aquele acontecimento, como se Deus aprovasse
e ratificasse seu comportamento. Ele sabia que não,
mas ainda assim o fez como se tivesse necessidade de
justificar o injustificável. Já o diabo aquela altura batia
palminhas de contentamento.

**********

Enquanto Rebeca debatia-se para suplantar as di-


ficuldades do momento, o religioso, sem se importar
mais com as dificuldades da filha logo após concluir a
ligação, confinado no aposento do paço, vibrava com
a excelente notícia da morte de seus desafetos, Nilda
e o empresário.
Após fazer sua prece, logo se ergueu, passando
a caminhar rápido de um lado para outro, em passos

246
descontínuos. Sua excitação àquela hora indicava que
faltava pouco para fugir do controle. Era tanta exci-
tação dando a entender que se encontrava ávido em
compartilhar seu sucesso com o bispo, todavia sabia
que não podia arriscar em face das orientações impos-
tas pelo próprio superior.
Diante disso, só tinha dois caminhos: ou esperava
pela ligação do próprio bispo, ou então aguardaria pa-
cientemente pela sua chegada, caso não entrasse em
contato durante sua ausência. Intimamente, o reli-
gioso torcia pela primeira possibilidade, mas também
sabia que se tornaria arriscado caso o bispo o fizesse.
Logo lhe veio à memória a forte possibilidade de escu-
tas telefônicas. Diante disso estremeceu, para concluir
que seu superior de fato se tratava de um homem pru-
dente e acautelado, e que jamais trataria um assunto
deveras delicado como aquele via telefone.
Frustrado por não poder compartilhar sua imen-
sa alegria, logo teve um lampejo. A notícia da mor-
te do casal e de seus contornos podia ser objeto do
noticiário. Diante dessa expectativa, voluntariamente
olhou para o relógio de pulso, mas ainda era cedo para
o jornal da noite, já que o da tarde havia terminado
pouco tempo antes e nada havia sido noticiado. Pa-
cientemente, teria de aguardar. Se ao menos pudesse
consultar a internet, até que o fazia, mas ali no seu
aposento o sinal não chegava.
Em uma tentativa de controlar sua euforia, era im-
perioso fazê-lo, ele sabia-o, resolveu se sentar na cama,
já que na única cadeira do exíguo aposento não o podia

247
fazer em virtude de uma das pernas se encontrar que-
brada após um curtíssimo momento fúria do próprio,
jogando-a com toda a força possível de contra a parede.
Recostado na cabeceira da cama, o religioso fe-
chou os olhos. Em poucos segundos, conversava con-
sigo mesmo: “Até que enfim. Já não era sem tempo.
Depois de tanta chantagem, aquela criminosa queria
me entregar. Aquele lixo há muito que devia ter ido
para o quinto dos infernos. Ela e aquele troço sem fu-
turo do namorado dela, que quis meter o bico onde
não era chamado. Quem os mandou atravessar meu
caminho? Quem? Ninguém… Graças a Deus, o meu
segredo foi preservado, e Rebeca jamais ficará saben-
do quem é o seu verdadeiro pai. Jamais…”.
Por ali ficou sentado por mais algum tempo,
quando sentiu necessidade de novo em se deleitar na
oração com Deus. Certamente deve ter agradecido
por sua vitória, demonstrando em simultâneo arrepen-
dimento, mas quem se encontrava vibrante com sua
vitória, além dele e posteriormente do novo cardeal,
era o diabo, já que conseguira, havia bastante tempo,
desviar mais duas almas das muitas que diariamente
desvia dos preceitos de Deus.
O religioso tinha perfeita consciência de que seu
comportamento havia muito se encontrava fora dos
padrões e dos dogmas a que se comprometera perante
Deus e sua madre igreja, a quem se entregara em seus
votos perpétuos, ainda assim preferiu acomodar-se às
circunstâncias, ignorando sua própria história e com-
promisso com Deus, como se aquela situação lhe fosse

248
confortável. Não só o fez como religioso, mas acima
de tudo como ser humano, o que é imperdoável.

**********

Uma semana depois da morte de Nilda e Rui, o


delegado de polícia, Leonardo, deu por encerradas as
investigações sobre as mortes dos cônjuges de ambos.
Apesar de haver chegado à conclusão de que Nilda e
Rui haviam sido responsáveis morais das duas mortes,
e já que não podiam ser formalmente acusados em vir-
tude de suas mortes, o delegado achou por bem encer-
rar o caso, bem como decidiu nada comentar com os
filhos de ambos, evitando assim maior sofrimento do
que aquele que já havia sido infringido com a perda
do pai e da mãe respectivamente.
Ficou só por apurar quem havia sido o autor, ou
os autores materiais das duas mortes, ainda assim o
delegado achou por bem não seguir adiante. Assun-
to encerrado. Sem o saber, o algoz que foi contratado
pelo empresário em conluio com Nilda, e que havia
subtraído a vida de Luiza, sua irmã, a sua também, e a
do namorado, fora também igualmente o responsável
por esbulhar a vida, tanto de Marcos, o marido de Nil-
da, como de Fátima, a esposa de Rui. Um profissional
e tanto bem perto do experiente delegado, já que era
igualmente informante da própria força policial. Aliás,
fora justamente Leonardo quem indicara o carrasco
ao irmão havia vinte e cinco anos quando este e seu
subordinado decidiram eliminar fisicamente Luiza e

249
Rebeca. Concomitantemente, o algoz, além se ser in-
formante da força policial, em paralelo e alheio aos
conhecimentos da própria força policial para quem
prestava informalmente serviços, fazia igualmente
parte de um grupo de extermínio, daí que, constante-
mente era solicitado para eliminar desafetos da parte
de quem contratava seus serviços pagos a peso de ouro.
O delegado apenas lamentava o fato de não haver
conseguido sentar no banco dos réus Nilda e Rui, to-
davia eles acabaram por ter uma morte mais violenta
do que aquelas que foram capazes de proporcionar às
suas vítimas. Embora não concordasse com essa teo-
ria, mas a si mesmo incutiu que a justiça havia sido
feita, mesmo sendo um paliativo. Seu desejo era ver os
dois sendo julgados por júri popular, mas já que não
era mais possível…

**********

Dez dias depois da morte do empresário, a em-


presa finalmente foi reaberta, agora sob o comando
do filho mais velho de Rui, um jovem rapaz de pou-
co mais de vinte e cinco anos, aparência exótica de-
vido aos seus olhos verde-claros, cabelos castanhos
e compridos penteados para trás, numa espécie de
rabo de cavalo, além das suas tatuagens nos braços
e no pescoço.
O clima ainda era de muita tristeza e pesar. Mal-
grado o filho não se dar bem com o pai após a morte
da mãe, ainda assim Ricardo, o filho, sentia muitas

250
saudades dele. Seu rosto era a imagem da tristeza, e
por mais que disfarçasse não conseguia.
Rebeca, que se encontrava do lado do novo patrão,
percebia o estado lastimável em que o jovem rapaz se
encontrava, daí que, constantemente, o confortava e
amparava com palavras. Ricardo agradecia, bem como
apreciava e até elogiava o empenho da funcionária,
a quem apelidou de âncora da própria empresa. Ela
achou exagerado o comentário, mas sabia que de fato
a única pessoa que detinha os conhecimentos de como
as coisas funcionavam ali, além dos encarregados, era
somente ela. Diante disso, comprometeu-se a ajudar
Ricardo a seguir em frente com os negócios do pai. Ele
não só aceitou, como ficou eternamente grato.

**********

Após deixar a sala de Rui, no quinto dia após a


reabertura da empresa, Rebeca sentou-se defronte à
sua escrivaninha.Encontrava-se tão absorvida no que
fazia que não se deu conta da presença de uma pes-
soa ao chegar e se sentar num sofá próximo. Quando
finalmente deu de cara com aquela, tomou um susto,
a ponto de se remexer em sua cadeira.
Intuitivamente olhou para ela. Teve um déjà-vu
repentino. Aquele rosto lhe era familiar, e por mais
esforço que fizesse não conseguia vislumbrar quem
fosse. Diante disso, interpelou-a:
– Por onde você entrou, moça? – disse.
– Pela porta, mulher – respondeu enquanto se

251
erguia e se aproximava, deixando escapar em simul-
tâneo um leve sorriso. – Queria que fosse por onde?
Rebeca engoliu em seco. A seguir, disse:
– Mas é claro que tinha de ser pela porta, a menos que
a moça seja um fantasma, o que não me parece – brincou.
A moça voltou a sorrir.
– O que deseja, moça?
– Eu sou a Luzia. A filha de Nilda – confirmou.
O que Rebeca suspeitava acabava de ser confir-
mado por Luzia, cujas feições em seu rosto não deixa-
vam margens para dúvidas.
– “Cara de uma, focinho da outra” – rápido pen-
sou, para dizer a seguir: – Lamento muito o que acon-
teceu à sua mãe, Luzia.
– Obrigada – sua voz saiu ligeiramente embargada.
– Como tem passado depois da morte da sua mãe?
– Dentro do possível, Rebeca.
Surpresa, a secretária comprimiu o rosto.
– Como é que sabe o meu nome, Luzia? – curio-
sa, quis saber a seguir.
– Está aqui neste envelope – exibiu-o.
– E que envelope é esse, Luzia? – mesclando a
curiosidade à desconfiança, quis saber.
– É para você.
– Para mim? – comprimiu o rosto.
– E quem lhe pediu para me entregar esse envelope?
– Mãinha.
Rebeca ficou extremamente ressabiada.
– A sua mãe? Como se infelizmente a sua mãe
está morta? – perguntou a seguir.

252
– É muito simples, Rebeca. Há três semanas antes
de viajar, mãinha me entregou esta carta e pediu-me
encarecidamente que eu só lhe a entregasse se porven-
tura acontecesse alguma coisa a ela. De fato aconte-
ceu. Morreu… Sabe, eu estranhei o pedido, mas não
a questionei. Ela exigiu que eu cumprisse. É o que
estou fazendo, cumprindo seu desejo – confirmou,
munida de nostalgia e emoção.
Rebeca, em silêncio, respeitou o sofrimento de
Luzia. Ao fim de vários segundos, interveio:
– Pelo que estou percebendo das tuas palavras,
a tua mãe sabia que ia morrer. É isso, Luzia? – disse.
– Não sei, Rebeca. Já lhe disse, de fato estranhei
o pedido, mas também sabia que se a questionasse ela
logo reclamava comigo, por isso aceitei e nada disse.
Jurei a ela que cumpriria a rigor o pedido.
– Será que a dona Nilda estava com alguma
doença grave?
– Também não sei. Ela não era muito de falar dos
seus problemas.
Rebeca ficou pensativa. Ao fim de vários segun-
dos, disse:
– E por que a dona Nilda pediu para entregar a
mim e não a outra pessoa?
Luzia já ia responder, quando escutou a voz de
Rebeca se antecipar.
– E por que tem de ser a mim? Se eu apenas esti-
ve com ela umas quatro ou cinco vezes, na companhia
do doutor Rui, nada mais além disso?
– Também não lhe sei responder, Rebeca. Como

253
disse, apenas estou cumprindo um desejo de mãinha,
e se ela estivesse viva era a pessoa indicada para lhe
perguntar. Como não está mais entre nós, fica essa
dúvida no ar.
Rebeca ficou pensativa, fitando Luzia com exa-
cerbado interesse. O rosto de Luzia ainda exibia res-
quícios de um semblante lúgubre. Ao fim desse tem-
po, interpelou-a:
– E tu sabes o que está aí dentro? – disse.
– Uma carta, Rebeca.
Ela engoliu em seco. A seguir, perguntou:
– Com certeza é uma carta. E tu sabes o conteú-
do dessa carta?
– Não perguntei a mãinha e se o fizesse logo ela
me dava um raspanete. Foi melhor assim. Tome, é
para você – estendeu a mão.
Em um movimento similar com a mão, Rebeca
recebeu o envelope. Elevou-o para o mirar à luz arti-
ficial proveniente da janela da sala. A seguir, movida
pela curiosidade, abriu o envelope, rasgando uma das
extremidades, de onde retirou uma folha branca con-
tendo letra de computador. A seguir, disse:
– Eu vou ler, Luzia.
– Esteja à vontade. É para você.
– Queres que eu leia alto para tu escutares tam-
bém? Como é da tua mãe, não vejo motivos para es-
conder. Posso? – propôs.
Sem preâmbulos, Luzia recusou.
– Não me leve a mal, Rebeca, mas não quero escu-
tar e muito menos saber o que está aí escrito nessa car-

254
ta. Ela é sua. Faça de conta que sou uma funcionária
dos correios que se limita a entregar correspondência. E
mais: se mãinha não me contou o que escreveu, por que
escutar de você? Desculpe, mas é melhor assim – disse.
De novo, Rebeca engoliu em seco. Forçou um
sorriso.
– Entendo o seu lado, Luzia – observou a seguir.
– Pode ler à vontade para si, e, enquanto o faz, eu
vou me sentar ali no sofá.
– Está bem, Luzia – concordou, para logo passar
a consumir as palavras, uma por uma, da curta carta
que seus olhos castanhos iam devorando.
Deu início à leitura. Subitamente e à medida que
ia avançando na leitura das palavras que lhe pareciam
ser reveladoras de um grande e misterioso segredo, o
rosto de Rebeca foi ficando endurecido, a ponto de aos
poucos empalidecer.
Incrédula e simultaneamente assustada com a
revelação de toda a verdade sobre sua verdadeira his-
tória e identidade, da morte da mãe, do responsável
pelo acidente que a vitimara, bem como ao saber que
de fato o religioso é seu pai biológico, por instinto
Rebeca olhou profundamente para Luzia, que sem
saber acabou por ser acometida a um frio horripilan-
te que lhe cortou as costas. Assustada com tudo aqui-
lo, sentindo o chão lhe fugir dos pés, Rebeca entrou
em choque, tentou dizer qualquer coisa, mas não
conseguiu sequer começar o que pretendia falar, des-
maiando bem na frente da prima, que prestes correu
para socorrê-la.

255
Empenhada em amparar prontamente Rebeca,
Luzia sequer teve curiosidade para pegar a carta, que
com o vento suave proveniente da janela aberta da
sala foi arrastada para o lado oposto de onde as duas
se encontravam.
O pequeno tumulto e os gritos de desespero de
Luzia em se fazer ouvir acabaram por chamar a aten-
ção de Ricardo, que de igual modo, pressuroso, surgiu
na sala para se certificar do acontecido.
Não se sabe como, mas logo Ricardo sentiu uma
forte ligação por Luzia, só pelo simples cruzar de
olhos. Sem o saberem, os dois compartilhavam o san-
gue. Eles e Rebeca.

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Após se recuperar do choque da notícia, Rebeca


sentia-se esmagada por dentro ao saber que fora enga-
nada durante tantos anos pela pessoa que mais admi-
rava, seu pai. Sentada no sofá da sua sala, dispensou
Luzia e Ricardo, passando a procurar pela carta, até
que a encontrou no canto da sala. Foi até lá e a pegou.
A seguir, como movida pela natural curiosidade, ain-
da com a esperança de que tudo não passasse de um
terrível engano, leu novamente a carta. Não tinha
mais dúvidas, fazia sentido o que Nilda escrevera. Foi
aí que se deu conta de que, afinal, Nilda, com suas
conversas e observações, somente tentava despertá-la
para um assunto de família, a tragédia que vitimou
sua mãe e que quase a vitimara também. Suas con-

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versas jamais poderiam ser dissecadas com a relação
dos fatos e até quem sabe com a morte da própria
Nilda, para si mesmo considerou, sem saber que na
verdade seus prognósticos encontravam-se certos. Ali
mesmo conseguiu fazer uma correlação dos fatos e
suas desconfianças, nomeadamente quando certa
vez ao falar com o pai relatando que Nilda lhe havia
dito que ela se parecia em muito com a irmã quando
lhe exibiu uma foto de Luiza originando uma rea-
ção estranha dele chegando a tossir e a empalidecer
como demonstrasse se encontrar assustado para logo
dissimular, bem como conseguiu finalmente incutir
em si o motivo do mau pressentimento a que foi aco-
metida no dia em que avistou pela última vez Nilda
e o empresário ali naquela mesma sala onde se en-
contrava agora. Isso e muito mais. Foram constantes
os alertas de Nilda sem que ela pudesse desconfiar.
“Agora entendo e faz sentido tudo o que a dona Nil-
da vinha alertando sem que eu percebesse”, a si mes-
ma falou ao arrematar em seus pensamentos.
Ficou em silêncio por vários segundos como me-
ditando. Havia sido enganada durante todos esses anos.
Sem se segurar, veio-lhe naturalmente uma vontade
incontida de chorar, quando deixou escapar várias lá-
grimas rosto abaixo, até lhe atingirem os cantos da boca.
Alguns minutos depois, ligeiramente recomposta,
mas esmagada por dentro, decidiu tomar uma atitude.
Sem perder tempo, resolveu ligar para o religioso, que
se encontrava sentado em cima da cama após acordar
da sua sesta da tarde.

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Ao escutar o celular tocar e ao verificar de quem
se tratava, pressuroso o religioso atendeu.
– Oi, minha filha – disse.
– Ouça com muita atenção isto que lhe vou dizer,
meu pai. Como é que o senhor teve coragem de men-
tir durante todos estes anos? Como é que ousou me
enganar? Ande, me diga? – exaltada, Rebeca gritou ao
telefone a ponto de quase misturar as palavras, exigin-
do uma explicação.
Assustado com o tom estridente da filha, o religio-
so estremeceu. Antevendo o que vinha pela frente, por
ser inédito o tratamento que lhe pareceu ser hostil da
parte dela, rápido, o religioso tentou ganhar vantagem.
Cauteloso e com a voz que o medo abafava, disse:
– Do que estás falando, minha filha? O que está se
passando? Por que estás assim tão nervosa e revoltada?
– Eu não só estou nervosa e revoltada, como es-
tou indignada com tudo aquilo que o senhor foi capaz
de fazer e de me esconder todos estes anos. A verdade.
– A verdade? Mas que verdade, minha filha?
Ela riu com sarcasmo. Colérica, disse a seguir,
dando mostras de que se encontrava fora de si.
– O senhor é um assassino! O senhor matou a
minha mãe e escondeu de mim que é o meu verda…
A ligação foi abruptamente desligada.
– Alô? Alô?... O sacana desligou na minha cara –
indignada, Rebeca falou para si, decidindo ali mesmo
que não voltaria a ligar, mas sim iria ao encontro do
pai, enfrentando-o olhos nos olhos.

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Decidida, Rebeca pediu autorização a Ricardo e


foi até a paróquia do pai. Para sua surpresa, quando
chegou, havia um tumulto de pessoas junto à lateral
da residência paroquial. Estranhou.
Movida pela curiosidade e com os nervos à flor da
pele, ela, que pretendia esclarecer suas dúvidas e tirar
satisfações com o pai, logo se aproximou daquele ema-
ranhado de pessoas, quando, para sua surpresa, avistou
o corpo do religioso estirado no chão já sem vida.
Envergonhado por haver sido descoberto, o reli-
gioso que já que havia dito a si mesmo que preferia
morrer a ter que suportar e enfrentar a realidade caso
seu segredo fosse revelado, na mesma hora que desli-
gara o telefone na cara da filha, num ato impensado,
foi até o telhado da casa paroquial e se jogou ao chão
de cabeça para baixo. Ao cair, quebrou o pescoço, pro-
vocando-lhe a morte imediata, deixando atordoados,
perplexos e em choque os paroquianos, que logo se
amontoaram junto da casa paroquial. Entre si, mur-
muravam as mais diversas situações e razões que tives-
sem levado o religioso a tomar aquela atitude extrema
de colocar um ponto-final em sua vida. Todavia, nin-
guém conseguia especular.
Seu segredo, apesar de revelado, ainda escondia
um enigma, o agora cardeal, só que desta vez ninguém
o ousaria descobrir, até Rebeca, que ali mesmo decidiu
afastar-se um pouco do tumulto com a finalidade de ir
ao seu automóvel, onde pegou na carta reveladora de

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Nilda, saiu, e com o isqueiro do próprio automóvel aca-
bou por queimar a única prova que tinha sobre sua ver-
dadeira origem e identidade. Não precisava mais dela
para nada, era um assunto encerrado e morto, tal qual
seus verdadeiros pais. Assim julgava, para engano seu.
A seguir, Rebeca, não se sabe bem o motivo que a
levou a tomar essa atitude, resolveu deslocar-se até ao
paço episcopal com a finalidade de relatar os aconte-
cimentos de quem dependia hierarquicamente o pai.
Todavia, e assim que alcançou o paço episcopal foi
informada, de que, o agora Cardeal, seu verdadeiro
pai, havia sido transferido para outro estado. Diante
disso, Rebeca deveria falar com o responsável recém
chegado, um novo bispo, que só a poderia receber daí
a três dias. Ela acabou por desistir da ideia após ser
subitamente invadida por uma lembrança, pois havia
acabado de eliminar a única prova concreta até en-
tão na sua posse, justamente a carta de Nilda, sua tia.
Quem doravante acreditaria nela sem estar munida da
única prova que havia chegado às suas mãos? Quem?

Fim
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