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FICHAMENTO: MORAES, Antonio Carlos Rabert.

Ideologias Geográficas: espaço, cultura e


política no Brasil. 5a edição. São Paulo: Annablume, 2005, 156pp.

Introdução

A estrutura do texto apresentado baseou-se no programa do curso de “Orientação à Pesquisa


em Geografia Humana”, ministrada em 1987, no departamento de Geografia da USP, sob o tema
“Geografia e Crítica de Ideologia.” No entanto, as preocupações remetem as questões de 1982,
presente nas ideias apresentadas na Conferência Regional Latino-Americana da União Geográfica
Internacional, publicadas com o título “Historicidade, consciência e construção do espaço: notas
para um debate.” [Publicado em A Construção do Espaço]. (p.12)

Capítulo 1
A questão do sujeito na produção do espaço

“Todos sabemos que as formas espaciais são produtos históricos. O espaço produzido é um
resultado da ação humana sobre a superfície terrestre que expressa, a cada momento, as relações
sociais que lhe deram origem. Nesse sentido, a paisagem manifesta a historicidade do
desenvolvimento humano, associando objetos fixados ao solo e geneticamente datados. Tais objetos
exprimem a espacialidade de organizações sócio-políticas específicas e se articulam sempre numa
funcionalidade do presente. Aparentemente formas inertes, possuem, contudo, o poder de influir na
dinâmica da sociedade.” [Ver: Milton Santos. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Ed. Hucitec,
1978; ________. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1982.]
“Essa produção social do espaço material, esta valorização objetiva da superfície da Terra,
esta agregação de trabalho ao solo, passa inapelavelmente pelas representações que os homens
estabelecem acerca de seu espaço. Não há humanização do planeta sem apropriação intelectual dos
lugares, sem uma elaboração mental dos dados da paisagem, enfim, sem uma valorização subjetiva
do espaço. [ver: Antonio Carlos Robert de Moraes. “Historicidade, consciência e construção do
espaço: notas para um debate.” In Vários Autores. A construção do espaço, Ed. Nobel, São Paulo,
1986.] As formas espaciais são produtos de formas teleológicas, materializações de projetos
elaborados por sujeitos históricos e sociais. Por trás dos padrões espaciais, das formas criadas, dos
usos do solo, das repartições e distribuições, dos arranjos locacionais, estão concepções, valores,
interesses, mentalidades, visões de mundo. Enfim, todo o complexo universo da cultura, da política
e das ideologias.” (p.16)
“Teologia é um atributo da consciência, a capacidade de pré-idear, construir mentalmente a
ação que se quer implementar. Portanto, é um predicado específico do homem, um elemento mesmo
de definição do estatuto de ‘humano’” (p.16)
Mesmo a consciência sendo sediada, em termos estritos e absolutos, no ser individual, “(…) o
movimento da consciência se dá num âmbito das relações sociais. A substância integral do ato
consciente são valores, dados e emoções socialmente elaboradas. As leituras individuais do mundo
se fazem por parâmetros gestados pela sociedade. Os conceitos, os significados, a própria
linguagem, são produtos sociais. A capacidade do pensamento só se faz potência na
apropriação/transformação do ambiente, e este é um aprendizado societário. Assim, indivíduo e
sociedade não devem ser opostos na análise. Dar conta de suas relações é captar a dialética do
conhecimento.” (p.16 e 17)
“A percepção do mundo também tem a sua história, que se traduz em diferenciadas formas de
se abordar o real e exprimi-lo. Nesse sentido, pode-se dizer que a consciência individual é um
produto social, assim como a própria armação das subjetividades.” (p.18 e 19)
Autor faz um apanhado de como o debate inicial da Sociologia de Conhecimento influenciou
em sua reflexão. Esta disciplina se estabelece a partir da crítica de Émile Durkhein às formulações
de Emanuel Kant. Para este, na Crítica da razão pura, defende que a ideia de que as formas básicas
de conhecimento são natas e imutáveis, ou seja, o significado de algumas categorias seria comum e
constante. Ou seja, todos perceberiam o mundo pelo mesmo arsenal intelectual, no mesmo
parâmetro básico. O espaço seria uma dessas “categorias da intuição”. [ver: Wanderley Messias da
Consta. “O espaço como categoria de análise.” Revista do Departamento de Geografia. Nº2,
FFLCH Universidade de São Paulo, São Paulo, 1983.]. Visão presente na proposta metodológica de
Humboldt do “empirismo raciocinado”, a crença da perfeita identidade entre imagem e o fenômeno,
entre a percepção e a realidade. (p.18)
Durkheim, em As formas elementares da vida religiosa argumenta, com vasto material
etnográfico, que “ (…) o significado das categorias básicas da intuição e do entendimento difere
bastante entre as várias culturas. Ele demonstra que as concepções de espaço, gênero e outras, são
construídas no processo de socialização do indivíduo, variando entre os grupos sociais.” (p.18) O
autor acata as diferenças buscando como meta teórica o estabelecimento de constâncias em meio às
variações. Depois da sua obra, antropólogo seguiram em busca destas diferenças. Hoje, há um
amplo relativismo cultural no trato da temática das formas de conhecimento. (p. 19)
Disso, Moraes conclui que isso é importante para a discussão “(…) pois introduz no exame da
problemática do sujeito na produção do espaço uma ressalva antropológica. As formas de
consciência devem ser rastreadas no universo da cultura, e este se constitui denso de
particularidades.” (p.19)
– Moraes acrescenta a ressalva histórica, em que afirma que a consciência é um produto
histórico, que se estrutura dentro de limites e possibilidades. Noção de indivíduo é histórica. (p.19)
Ainda no estudo da consciência, o autor parte para elencar duas óticas antagonistas. A
primeira opõe a busca de constâncias ao inventário das diferenças. Morais defende a segunda
perspectiva. O outro antagonismo “recorta as análises que visam a tomar os discursos e os signos
em sua mecânica interna, e as que vão concebê-los como veículos, isto é, portadores de uma
determinação externa.” (p.20). Pierre Bourdieu denomina a segunda visão de “alegórica” e a
primeira de “tautegórica”, defendendo a necessidade de superar a dicotomia. “Um dos méritos das
formulações de Michel Foucault está em articular estes dois níveis aparentemente excludentes. Sua
‘arqueologia do saber’ busca captar na internalidade dos discursos, os interesses dos sujeitos e os
padrões normativos de seus procedimentos, a formação das mentalidades, o equacionamento e
difusão de certas visões. Enfim, autor obra e época como mutuamente explicativos. Eis outra
ressalva importante.” (p.20)
Conclusão do autor: “o que fica dessa extensa bibliografia? A afirmação da complexidade do
universo da consciência e do movimento dos sujeitos. A relatividade histórica e cultural do
conhecimento. A necessidade de não dissociar o produtor, o produzido e o contexto de sua
produção.” (p.21)
Moraes afirma que suas ressalvas são importantes porque com a entrada na Geografia da
leitura marxista acaba-se por banir a figura do sujeito do processo real que trata essa disciplina: a
valorização do espaço. Visão que coloca as questões da consciência como ‘esfera sobredeterminada
da superestrutura”, isto é, como um universo reativo, explicável externamente por “causas”
econômicas. (p.21)
Aqui há a crítica aos estudos marxistas que se abstraem do sujeito e fazem leitura sem os
agentes sociais trazendo um capitalismo desistoricizado, pura abstração econômica. Enfim, uma
leitura econômica que encontra guarida numa disciplina marcada pelas formas positivistas de
pensamento. “A ênfase na problemática do sujeito repõe as tentativas marxistas de renovação da
Geografia num patamar mais rico de reflexão.” (p.22)
A paisagem humana resulta da dialética entre matéria e ideia. Não se trata de igualar estes
planos tendo a ideia como energia (este materialismo rasteiro envolve um desvio anti-humanista e
uma capitulação naturalista), “mas de entender que o espaço criado (ao contrário do natural) é um
fruto do trabalho que articula teleologia e casualidade. Esta última implica a sujeição da vontade à
materialidade do mundo externo ao homem. Para realizar-se, o trabalho tem de avaliar os meios e os
materiais sob os quais incidirá sua ação. As condições naturais são, assim, pressupostos de toda a
produção, o conhecimento de sua dinâmica e qualidades um fundamento do trabalho. A construção
dos lugares expressa uma interação entre teoria e prática. (p.22)
“As formas espaciais produzidas pela sociedade manifestam projetos, interesses,
necessidades, utopias. São projeções dos homens (reais, seres históricos, sociais e culturais), na
contínua e cumulativa antropomorfização da superfície terrestre. Um processo ininterrupto onde o
próprio ambiente constituído estimula novas construções.” (p.22 e 23) A Paisagem é resultado e
também alimento de projetos de produção do espaço. A práxis humana implica a constante
edificação de formas não naturais na crosta do planeta, formas alimentadas por pré-ideações que
têm o espaço vivenciado como estímulo. (p.23)
A apropriação do espaço implica determinações estritamente econômicas. Pois, a organização
dos lugares obedecem a funções e necessidades de produção, que a disposição dos objetos
respondem imperativos, que os padrões especiais do capitalismo revelem a ânsia do lucro. Mas isto
não revela a íntegra do processo. Como explicar a diversidade arquitetônica com as mesmas
funções e materiais, a variedade de estilos nas construções de um mesmo período técnico, ou o
detalhe sem função aparente?
Para isso, deve-se adentrar nos meandros do imaginário humano. (…) Tem-se não só as
condicionantes das determinações econômicas (ligadas à tecnologia, aos materiais e as funções),
mas um rol de outros condicionantes (manifestos na tradição, simbologia, no estilo, etc.), e que
explicá-la redunda em articular essa rede de mediações do movimento histórico-concreto. (p.24)
Acatando a circularidade do processo de que o espaço é uma dimensão da historicidade, o
espaço propicia leituras. Os momentos de produção dos lugares “(…) retroalimentam o processo ao
veicularem projetos e interpretações, ao realizarem a valorização subjetiva do espaço. A
manifestação da consciência, que diretamente nos interessa.” (p.25)
“Neste ponto, delineia-se claramente o lugar enquanto representação. Não mais a paisagem
tomada – na tradição da Geografia Cultural – como registro histórico e antropológico, mas a própria
leitura da paisagem como elemento revelador de uma época e de uma cultura. O discurso sobre o
espaço em si mesmo apreendido enquanto produto histórico e cultural, pré-ideaçao básica na
produção do próprio objeto sob o qual se exercita. Resgata-se, então, a consciência do espaço como
tema de análise. Tema cuja compreensão traz luz ao debate maior da valorização do espaço. No
específico do presente livro é aqui que vamos nos deter, interrogando não a forma espacial criada
(material e objetiva) mas sua imagem no fluido universo da cultura, e da política. O discurso sobre
os lugares, revelador da consciência do espaço. Do qual, a Geografia é uma das modalidades.”
(p.25)
“Entende-se tais discursos como elementos ativos na transformação dos espaços. Vitais para
compreender nossa época de legitimações discursivas e de velos destruição das paisagens. De certo
modo, dois padrões atuais desses discursos exercitam-se no movimento de renovação da Geografia
[Geografia, pequena história crítica. São Paulo: Ed. Hucitec, 1982]. De um lado, a busca da
racionalidade forma, anulando os processos, tomando os elementos do espaço como dados,
quantificando a realidade e propondo modelos. Enfim, a leitura tecnoalienada da Geografia
Pragmática, tentando se legitimar num cientificismo frio. De outro lado, a Geografia Crítica, tendo
como paradigma a utopia e como legitimação a incidência nos embates sociais.” (p.26)
A preocupação com o sujeito no processo de produção do espaço, torna menos áridas e mais
eficazes as caminhadas dos que trilham esta segunda vertente. E a ajuda que a Geografia militante
não se torne, necessariamente, uma atividade militar. Talvez também contribua para uma
consciência do espaço mais generosa no socialismo que almeja.” (p.26)

Capítulo 2
A Geografia e a consciência do espaço

Após retrospecto que o autor realiza sobre a história da Geografia e multiplicidade de seu
campo de estudo desde a época clássica, mostrando que ela é uma formulação ocidental e, portanto,
não caberia para as sociedades fora deste local e até as pré-científicas. (p.27-30)
“Sintetizando o que foi visto, fica claro que a Geografia não recobre todo o campo do
conhecimento científico dedicado ao esmiuçamento da temática espacial. A variedade de conteúdos
desse rótulo, e o formalismo de querer circunscrevê-lo em nome da continuidade da tradição, ficam
evidentes já a esta altura da exposição. A Geografia, em toda a sua diversidade, hoje não abarca
sequer a maior parte deste campo de conhecimento.” (p.31) Pois, existem disciplinas que margeiam
este campo de conhecimento, que se sobrepõe aos seus supostos objetos, “Geografias implícitas de
outras culturas, passadas com conteúdos superados, obras de fundamento de propostas geográficas,
para não falar dos saberes informais “pré-científicos”. (p.31)

QUESTÃO PARA A TESE: origem das toponímias e como elas prevalecem. Lembrar
que elas tem origem indígena, como Rio Uruay, que seria o atual Rio da Prata, mas que tinha
também o nome de Rio de Solis; Rio Paraguay e Paraná que mantém sua estrutura indígena.
Perceber que ocorrem “batalhas” discursivas sobre quais as toponímias que prevalecerão
neste orbe em construção.

Para abarcar aquele campo, o autor propõe o conceito de pensamento geográfico. Segundo
ele, “por pensamento geográfico entende-se um conjunto de discursos a respeito do espaço que
substantivam as concepções que uma dada sociedade, num momento determinado, possui acerca de
seu meio (desde o local planetário) e das relações com ele estabelecidas. Trata-se de um acervo
histórico e socialmente produzido, uma fatia da substância da formação cultural de um povo. Nesse
entendimento, os temas geográficos distribuem-se pelos variados quadrantes do universo da cultura.
Eles emergem em diferentes contextos discursivos, na imprensa, na literatura, no pensamento
político, na ensaística, na pesquisa científica, etc. Em meio a estas múltiplas manifestações vão
sedimentando-se certas visões, difundindo-se certos valores. Enfim, vai sendo gestado um senso
comum a respeito do espaço. Uma mentalidade acerca de seus temas. Um horizonte espacial,
coletivo.” (p.32)
“Este processo não é isento de tensões, antagonismos, e muito menos autônomo em relação ao
movimento político da sociedade. Ao contrário, tais valores são componentes fundamentais desse
movimento, na medida em que o espaço (sua gestão, sua representação, os projetos e imagens a seu
respeito) representa um dos condutos mais eficazes do poder; o que se apreende facilmente na
leitura de Ratzel ou de Foucault. Assim, os discursos geográficos engatam-se com algumas
problemáticas centrais postas na prática social do mundo contemporâneo. Geralmente, estas
discussões não se revestem da denominação de Geografia, porém é através delas que a Geografia
material do planeta vai sendo desenhada. As transformações efetuadas na superfície da Terra
seguem muito mais esta ‘Geografia dos Estados Maiores’, da ‘mídia’ etc., do que da que flui nos
currículos, nos tratados e nas academias. Se bem que ambas se articulem, notadamente na formação
da opinião pública. (p.33)
“Posto dessa forma, nossa questão poderia ser equacionada no seguinte molde: como as
concepções do espaço atuam na construção material do espaço num dado país. O corte nacional,
não implicando qualquer desvio xenófobo, se impõe como uma mediação inevitável (seja por
parâmetros econômicos, históricos ou culturais). Aqui, esta nossa ‘Geografia’ trafega na relação
política-cultural (…).” (p.33)
Autor faz ressalva para que as formulações e debates que mais apontarem para a construção
do espaço, e de sua imagem coletiva, deverão ser priorizados. Cuidando para não perder a sutileza
dos fenômenos atinentes ao universo da cultura. A estes discursos mais “orgânicos” (no sentido
gramsciano) poderia denominar de ideologias geográficas. (p.35)

Capítulo 3
Uma nota sobre o conceito de ideologia

Autor busca definir, no campo das ideologias, uma que seria trabalhada no sentido político –
como “geográfico. “Este campo manifesta no plano das ideias a relação sociedade-espaço, e
constitui a via privilegiada de relação do saber geográfico com a prática política.” (p.44)
“As ideologias geográficas alimentam tanto as concepções que regem as políticas territoriais
dos Estados, quanto à autoconsciência que os diferentes grupos sociais constroem a respeito de seu
espaço e da relação com ele. São as substâncias das representações coletivas acerca dos lugares, que
impulsionam sua transformação ou acomodamento nele. Exprimem, enfim, localizações e
identidades, matérias-primas da ação política. Adentrar o movimento de produção e consumo destas
ideologias implica melhor precisar o universo das complexas relações entre cultura e política.”
(p.44)