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INFESTAÇÕES MACIÇAS POR ACANTOCÉFALOS,

Neoechinorhynchus buttnerae GOLVAN, 1956,


(EOACANTHOCEPHALA: NEOECHINORHYNCHIDAE) EM
TAMBAQUIS JOVENS, Colossoma macropomum (CUVIER, 1818)
CULTIVADOS NA AMAZÔNIA CENTRAL

J o s é C e l s o d e Oliveira M A L T A , A n a L ú c i a Silva G O M E S ,
Sanny Maria Sampaio de A N D R A D E , Angela Maria Bezerra VARELLA

RESUMO — Os peixes de uma estação de cultivo de tambaquis pararam de se alimentar e


começaram a morrer. Um total de 72 peixes foi examinado. Todos os peixes estavam com uma
alta infestação intestinal por acantocéfalos. A espécie parasita foi identificada c o m o
Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, 1956. A prevalência foi de 100%, a intensidade por
hospedeiro variou de 30 a 406 e a intensidade média e densidade relativa (abundância) foram de
125, 26. Ocorreu oclusão total do trato intestinal nas altas infestações.
Palavras-chave: Acanthocephala; parasitas de peixes; tambaqui; mortalidade de peixes;
aquacultura.

Massive Infestation by Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, 1956 (Eoacanthocephala:


Neochinorhynchidae) in Young "Tambaquis" Colossoma macropomum (Cuvier, 1818) Cul­
tured in the Central Amazon.

ABSTRACT — The fishes Colossoma macropomum (Cuvier, 1818) from a farm fish stopped
to eat and begun to die. Seventy-two fishes caught were examined. All fishes had a high intesti­
nal infestation for Acanthocephala. The species was Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, 1956.
The prevalence was 100%, intensity range 30-406 and mean intensity and relative density (abun­
dance) were 125,26. In the high infestations occurred the total occlusion of the gut lumen.
Key-words: Acanthocephala; fish parasites; tambaqui; fish mortality; aquaculture.

INTRODUÇÃO Na década de 80, os desembarques em


Manaus variaram de 7.000 a 4.000L
A partir da década de 6 0 , o Os pescadores pescavam os tambaquis
tambaqui, Colossoma macropomum
jovens intensamente, mas os totais
(Cuvier, 1818) tornou-se o mais
c a p t u r a d o s nunca a l c a n ç a r a m os
importante peixe c o n s u m i d o nos
valores registrados para adultos nos
c e n t r o s u r b a n o s da A m a z ô n i a ,
anos 70. Na década de 90, não houve
principalmente em Manaus. Em 1976
uma queda brusca no tamanho das
foi a maior captura, 13.314t. e durante
populações, mas sim uma redução
aquela década, esta espécie sozinha foi
contínua do tamanho do pescado. O C.
responsável por mais de 40% de todo
macropomum continua a ser uma das
o pescado consumido em Manaus. A
espécies mais importantes explotadas
captura consistia de peixes adultos que
pesavam de 9 a 15kg. (Petrere, 1978). na Amazônia Central e os peixes

Laboratório de Parasitologia e Patologia de Peixes (LPP); Coordenação de Pesquisas em Biologia


Aquática (CPBA), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Caixa Postal 478,
Manaus, Amazonas, Brasil, CEP 69011-970. tel. 55 092 643 3143.
jovens constituem a maior parte das estação de cultivo no município de
capturas comerciais. Não houve quase Itacoatiara no Estado do Amazonas no
nenhuma tentativa séria de evitar a dia 13/02/1999. O tamanho dos peixes
pesca de indivíduos jovens, os peixes variava de 1 a 3cm e tinham cerca de
adultos são muito mais raros que há 30 dias de vida. Foram transportados
uma década atrás e atingem preços em sacos plásticos com água com
muito altos. O tambaqui tornou-se o oxigênio para a fazenda de um
peixe símbolo da Amazônia porque ele produtor localizada no km 30 da
incorpora uma série de problemas que estrada Manaus-Itacoatiara (AM-10).
precisam ser r e s o l v i d o s para se Na propriedade foram colocados em
manejar a pesca e ao mesmo tempo
uma barragem nova de 0,75hectare,
desenvolver a aquacultura (Araujo-
para o período de alevinagem, em uma
Lima & Goulding, 1998). 2
densidade de 3,33 alevinos/m .
O tambaqui é um dos peixes Após 60 dias ( p e r í o d o de
mais promissores para o cultivo na alevinagem) os peixes estavam com
região Neotropical, por apresentar cerca de 143g e foram redistribuídos
uma série de características em quatro barragens (04/1999). Cada
favoráveis, porém um dos problemas uma com cerca de 1 hectare de lâmina
a ser resolvido, para que seu cultivo de água, exceto a primeira que era de
seja viabilizado, é a questão das 0,75hectare (barragem (1)). A
doenças e parasitas (Benetton & 2
densidade foi de 2 p e i x e s / m , nas
Malta, 1999). N e s t e trabalho
barragens de 1 hectare (barragens 2, 3,
registramos uma infestação maciça 2
4) e l,5peixes/m na de 0,75hectare.
por acantocéfalos em um cultivo de
As barragens eram interligadas entre
tambaquis.
si, de modo que a água da barragem
O Phylum Acanthocephala é (1) era lançada na (2) e assim
formado por helmintos
sucessivamente.
exclusivamente parasitas do intestino
de v e r t e b r a d o s . N o v e espécies Os peixes foram alimentados
ocorrem nos peixes amazônicos, sendo com ração extrusada com 34% de
que duas parasitam o tambaqui: Echi- proteína bruta, duas vezes ao dia até
norhynchus jucundus (Travassos, 5% da biomassa do viveiro. Cada
1923) da família Echinorhynchidae e barragem era aerada por dois
Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, aeradores ligados diariamente das 3
1956 da N e o e c h i n o r h y n c h i d a e às7 horas e, eventualmente, em dias
(Fischer, 1998). nublados.
Os parâmetros físico-químicos
MATERIAL Ε MÉTODOS da água monitorados pelo produtor fo­
O cultivo ram: oxigênio dissolvido; temperatura;
saturação de o x i g ê n i o ; pH e
Um total de 25.000 alevinos de transparência foram medidos
tambaqui foram comprados em uma diariamente às 6 e 18hs. A dureza,
alcalinidade e amônia foram medidos examinado separadamente. O canal
semanalmente às 6, 12, 18hs. a l i m e n t a r foi d i v i d o em s e ç õ e s :
estômago e esôfago, região pilórica e
Amostras analisadas no
intestino. O intestino foi dividido em
Laboratório de Parasitologia e três partes: anterior, médio e posterior,
Patologia de Peixes. examinado externamente e dissecado
Em junho de 1999, os peixes sob microscópio estereoscópio. Os
(com cinco meses) da barragem acantocéfalos foram colocados em
(1)(0,75 hectare) pararam de comer e placas de Petri, com água destilada e
começaram a morrer. No dia 10/vi/ mantidos aí até morrerem para que a
1999 foram trazidas duas amostras ao probóscide e a bursa copulatória
L a b o r a t ó r i o de P a r a s i t o l o g i a e ficassem evertidas. Os parasitas foram
Patologia de Peixes: 26 exemplares da identificados, contados e foi verificado
barragem (1); 19 da barragem (2) (por e registrado a p o s i ç ã o , m o d o de
estar conectada a primeira). Os peixes fixação e os danos visíveis à parede da
foram necropsiados para determinar a mucosa intestinal.
causa das m o r t e s e avaliar as Quando algum peixe morria e
condições de saúde. No dia 24/vi/1999 não era possível fazer a necrópsia
uma terceira amostragem de 12 peixes imediatamente, estes eram colocados
e no dia 03/vi/1999 uma quarta de 15 em sacos plásticos etiquetados e
peixes, ambas da barragem (2). congelados. Quando fosse o momento
Todos os e x e m p l a r e s foram da n e c r ó p s i a , eram r e t i r a d o s do
c o l e t a d o s com rede de arrasto e congelador e deixados descongelar à
transportados vivos para o Laboratório temperatura ambiente. Os demais
de Parasitologia e Patologia de Peixes procedimentos eram semelhantes. Dez
do INPA, em sacos plásticos contendo exemplares dos hospedeiros e um lote
água e oxigênio. No laboratório foram de 1000 exemplares de acantocéfalos
transferidos para tanques de concreto, foram depositados na coleção do INPA
revestidos de azulejos, com água como material de referência. As
a e r a d a e m a n t i d o s vivos, até o medidas tomadas foram feitas com
momento da necrópsia. ocular micrométrica e expressas em
micrômetros. Os índices parasitários
Os peixes foram pesados (em
utilizados foram expressos conforme
gramas) e medidos (comprimento
Margolis et ai. (1982) e Bush et al.
padrão em centímetros), numerados e
(1997).
todos os dados anotados em uma ficha
individual. São dados os valores RESULTADOS
mínimos, máximos e a média entre
parênteses. Os peixes de uma estação de
Cada peixe foi sacrificado com cultivo de tambaquis pararam de se
punção cerebral. A cavidade visceral alimentar e começaram a morrer. Os
foi aberta, o trato digestivo totalmente p e i x e s foram trazidos para o
retirado e colocado em uma placa de L a b o r a t ó r i o de P a r a s i t o l o g i a e
Petri, cada órgão associado foi Patologia de Peixes. D e p o i s de
necropsiados verificou-se que todos Grupos de acantocéfalos de 11 a
estavam com uma alta infestação in­ 19 indivíduos fixavam-se, com suas
testinal por acantocéfalos. A espécie probóscides, em determinadas áreas da
de Acanthocephala foi identificada parede do intestino. Cada grupo
como Neoechinorhynchus buttnerae ocupava toda seção circular da mucosa
Golvan, 1956. Cada indivíduo foi intestinal disponível, seus corpos
coletado fixado na mucosa da parede ficavam estendidos em direção à
intestinal de seus hospedeiros. Quando porção posterior. O próximo grupo
a infestação era baixa, somente as fixava-se, de maneira semelhante, a
regiões dos cecos pilóricos eram uma distância correspondente ao
parasitadas. A medida que o número c o m p r i m e n t o total do corpo dos
de parasitas aumentava, a infestação se acantocéfalos do grupo anterior e
estendia para o intestino anterior, assim sucessivamente por todo o trato
médio e posterior. Em altas infestações intestinal. Avista externa do trato in­
o trato intestinal ficava totalmente testinal apresentava áreas de diâmetro
tomado pelos acantocéfalos. maior, que correspondiam as áreas de
Quando o peixe estava vivo e era fixação das probóscides e áreas mais
sacrificado para a necrópsia, os longas, de diâmetro menor, que
acantocéfalos eram encontrados vivos correspondiam às áreas onde ficavam
no trato intestinal e fortemente fixados "flutuando", no lume do intestino, os
na parede intestinal. Se o peixe ao corpos dos helmintos.
morrer tivesse sido congelado ou fixado A prevalência foi de 100% , a
para posterior necrópsia, os helmintos intensidade por hospedeiro variou de
encontravam-se soltos no intestino. 30 a 406, e a intensidade média e
Neoechinorhynchus buttnerae abundância foram de 125,26 (Tab.l).
encontrava-se fixado à parede intesti­ Devido ao elevado n ú m e r o de
nal através dos ganchos maiores da indivíduos, verificou-se que estes
probóscide, localizados na região mais parasitas causavam oclusão parcial e,
anterior. Estes prendiam-se nos casos de maiores infestações,
superficialmente aos tecidos da mu­ oclusão total do trato i n t e s t i n a l ,
cosa intestinal, não sendo observado prejudicando a capacidade de absorção
lesões profundas ou sangramentos. Em e competindo diretamente com o
alguns casos, cerca de 1% das áreas de alimento ingerido.
fixação, no local da inserção da
Nos peixes da barragem (1) (Tab.
probóscide na mucosa do trato intes­
1) o comprimento padrão variou de
tinal, após a retirada dos helmintos,
17,0-24,5(20,27)cm e o peso de 195,9-
um pequeno buraco circular com o
4 4 2 , 9 4 ( 2 9 9 , 5 9 ) g . O n ú m e r o de
diâmetro da probóscide era
acantocéfalos por peixe, variou de 31-
observado. Quando isto acontecia
406(125,64) indivíduos. Esta
havia destruição de porções da mu­
barragem estava interligada às demais,
cosa intestinal.
sendo uma fonte c o n s t a n t e de
contaminação da água e dos peixes das Nos peixes da barragem (2) (Tab.
barragens situadas à jusante (abaixo). 1) comprimento padrão variou de
C o m o não era possível fazer um 1 5 , 0 - 1 9 , 0 ( 1 6 , 8 9 ) c m e o peso de
tratamento via oral dos peixes, pois 131,48-247,28( 162,68)g. O número de
não estavam se alimentando e, como acantocéfalos por peixe variou de 65-
outro tipo de tratamento era inviável. 375( 74,21) indivíduos. Apesar de
Todos os peixes da barragem (1), cerca parasitados, estes peixes não pararam
de 3 7 5 0 , foram sacrificados e de comer. Na a m o s t r a de j u l h o
incinerados. (terceira) doze p e i x e s foram
Com a eliminação dos examinados. O comprimento padrão
hospedeiros, também foram variou de 16,0-20,5( 18,0)g. e o peso
eliminados os acantocéfalos adultos. de 165,06-300,04(226,88)g. O número
E s s e s p a r a s i t a v a m os peixes e de acantocéfalos por peixe variou de
produziam uma grande quantidade de 38-64(120,66). Na amostra de agosto
ovos que era ingerida pelos (quarta) quinze exemplares foram
h o s p e d e i r o s i n t e r m e d i á r i o s , que examinados. O comprimento padrão
compunham o zooplâncton, fechando variou de 16,0-20,5(2l,2)cm e o peso
assim, o ciclo de vida do parasita, de 137,43-636,05(371,56)g. O número
contaminando a água, o plâncton e os de acantocéfalos por peixe variou de
peixes das demais barragens. Para 30-177(81,33).
eliminar os ovos e as formas jovens Durante este trabalho o tamanho
que se desenvolviam nos dos exemplares N. buttnerae variou de
microcrustáceos de vida livre, foi feita 16,0 - 25,5( 19,2)mm. O número total
a completa secagem da barragem, para de peixes examinados (n) foi de 72.
submetê-las à dessecação e a ação dos Nestes peixes foram registrados
raios ultravioletas da radiação solar. também a presença de outros grupos
Também foi aplicado a cal virgem de p a r a s i t a s . O p r o t o z o á r i o ,
(CaO) para a desinfecção. Myxobolus sp., apareceu nos rins e na

Tabela 1. Peso, comprimento e índices parasitários de tambaquis j o v e n s (Colossoma


macropomum, (Cuvier, 1818)) parasitados por Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, 1956 em
cultivo semi-intensivo.
Densidade
MSs Comprimento Prevalência Intensidade
Barragem P e s o (g) Intensidade relativa
Coleta P a d r ã o (cm) % média
-abundância

06 01 26 17,0-24,5(20.27) 19 5.98-442,94(299.59) 100 31-406(125,64) 125.64 125.64

06 02 19 15,0-19,0(16.89) 131.48-247.28(162.08) •oo 65-375(174,21) 174.21 174.21

07 02 12 16.0-20,5(18.0) 165.06-300.04(226,88) 100 38-264(120.66) 120,66 120.66

08 02 15 16.0-25,5(21,2) 137.43-636,05(371,56) 100 30-177 ( 81,33) 81,33 81.33

Total 01 ,02. 72 15,0-25,5(21.2) 131,48-636,05(371,56) 100 30-406(81,33) 125,26 125,26


pele. Os Monogenoidea, Anacanthorus peixes do ambiente natural. Este é o
spathulatus Kritsky, Thatcher & primeiro registro desta espécie de
Kayton, 1979 e Linguadactyloides acantocéfalo parasitando C.
brinkmanni Thatcher & Kritsky, 1983, macropomum em um cultivo.
da família Dactylogyridae, foram Ostracoda, Copepoda e larvas de
encontrados nas brânquias e pele. O M e g a l o p t e r a são os h o s p e d e i r o s
copépodo da família Vaigamidae, intermediários de acantocéfalos da
Gamidactylus jaraquensis Thatcher & família Neoechinorhynchidae.
Boeger, 1984, parasitando as fossas Hospedeiros paratênicos (larva de
nasais. O B r a n c h i u r a , Argulus Megaloptera e Mollusca) e hospedeiro
chicomendesi Malta & Varella, 2000, secundário opcional (Hirudinea) foram
na superfície do corpo. O fungo registrados em alguns ciclos
Saprolegnia sp. na superfície do corpo. conhecidos de neoequinorinquídeos
(Schmidt & Hugghins 1973). Todos
DISCUSSÃO estes grupos de organismos foram
encontrados como itens alimentares no
Neoechinorhynchus buttnerae foi trato digestivo de Pimelodus
descrita por Golvan (1956) de treze maculatus Lacépède, 1803 do rio São
exemplares coletados no intestino de Francisco, parasitados por N. pimelodi
Colossoma macropomum capturados Brasil-Sato & Pavanelli, 1999 (Brasil-
próximos à Manaus (Thatcher, 1991; Sato & Pavanelli, 1999). Devido ao
Conroy & Conroy, 1998). O segundo hábito alimentar zooplanctófago dos
registro foi feito por Schmidt & tambaquis e como os hospedeiros
Hugghins (1973), que coletaram 20 intermediários de N. buttnerae fazem
indivíduos no intestino de parte do plâncton, o ciclo de vida desta
um Colossoma nigripinnis espécie de acantocéfala estava
{^macropomum) capturado próximo à c o m p l e t a n d o - s e nos cultivos e
Letícia, na Amazônia colombiana. O provocando estas infestações maciças.
terceiro por Fischer (1998) que Os intestinos de tambaqui
coletou 32 tambaquis parasitados no coletados no rios A m a z o n a s e
médio rio Solimòes, próximo aos Solimòes, foram p r e s e r v a d o s em
municípios de Tefé ( 3 ° 2 0 ' 5 7 " S e formol. Posteriormente quando foram
64°54'37" W) e Coari (4°6'22"S e necropsiados, os exemplares de N.
63°3'21"W) no Estado do Amazonas. buttnerae encontravam se soltos no
O quarto também foi feito por Fischer lume do trato intestinal (Fischer,
(1998) que coletou 5 t a m b a q u i s 1998). Em nosso trabalho, na maioria
parasitados, no baixo rio Amazonas, das vezes, o peixe estava vivo e era
próximo ao município de Santarém sacrificado para a necrópsia. Os
(2°24'S e 54°42'W) no Estado do acantocéfalos eram encontrados vivos
Pará. Neste trabalho é feito o quinto no trato intestinal, fortemente aderidos
registro de N. buttnerae parasitando o na parede do intestino. Quando o
tambaqui, todos os anteriores foram de hospedeiro examinado tinha sido
congelado ou fixado, os helmintos (1991). A fixação destes parasitas era
eram encontrados soltos no intestino, feita da mesma maneira encontrada
como no trabalho de Fischer (1998). por Fischer (1998), a única diferença,
A penetração da probóscide dos neste caso, foi que os acantocéfalos
acantocéfalos na parede intestinal do fixavam-se na parede do intestino dos
hospedeiro é o principal dano físico tambaquis em grupos de 11 a 19
ocasionado pela sua presença. Esta pode indivíduos, ocupando toda a seção cir­
ser superficial, profunda ou até mesmo cular da mucosa intestinal disponível,
ultrapassá-la, ocasionando lesões sérias. com os corpos estendidos em direção
A inserção da probóscide espinhosa, à porção posterior do intestino, cada
dentro da mucosa do trato intestinal dos grupo fixado a uma distância um
peixes, destroi pequenas porções desta pouco maior que o comprimento total
e do tecido conectivo. Em alguns casos do corpo. Este tipo de fixação,
não há uma patogenicidade marcada, a g r u p a d o s em seções do trato
mas em outros, há reações locais severas d i g e s t i v o , indica uma estratégia
ao redor do ponto de fixação, que forçada pela grande quantidade de
podem ocasionar a perfuração do i n d i v í d u o s . Também não foram
intestino resultando em uma peritonite encontrados sangramentos. Em alguns
(Kabata, 1985). casos, foi observado na parede do
Em tambaquis jovens, da região intestino, após a retirada dos
de Manaus, enccntrou-se indivíduos helmintos, um pequeno orifício circu­
adultos de N. buttnerae com até 3 cm lar com o diâmetro maior que o da
de comprimento. Esta infestação parecia probóscide.
causar oclusão parcial do trato digestivo, No rio Solimòes próximos as
interferindo, provavelmente, na cidades de Tefé/Coari foram examinados
capacidade de absorção. Não foi ainda 41 tambaquis, 32 estavam parasitados. A
notificado, no entanto, nenhuma reação prevalência foi de 78%, a abundância
inflamatória visível no epitélio (densidade relativa) 76,7, a intensidade
(Thatcher, 1991). Em necrópsias de média de 98,4 e a intensidade variou de 0
exemplares frescos de tambaquis a 1549 acantocéfalos por peixe. No rio
observou-se que a fixação de N. Amazonas próximo a cidade de Santarém
buttnerae no intestino delgado era feita foram examinados 9 tambaquis, 5 estavam
pelos ganchos maiores da probóscide, parasitados. A prevalência foi de 55,5%, a
localizados na região mais anterior. abundância(densidade relativa) foi de 9,2,
Estes prendiam-se superficialmente aos a intensidade média de 16,6 e a intensidade
tecidos da mucosa intestinal, não foi de 0 a 67 indivíduos por peixe. O
ocasionando lesões profundas ou comprimento padrão dos hospedeiros foi
sangramentos (Fischer, 1998). de 30-150cm (Fischer, 1998).
Neste trabalho o tamanho dos E m b o r a as c o n d i ç õ e s deste
exemplares N. buttnerae foi de 16,0- trabalho e o de Fischer (1998) fossem
25,5 (19,2mm), um pouco menores muito diferentes (ambiente natural,
que os encontrados por Thatcher lago de várzea χ ambiente de cultivo,
barragens; peixes jovens χ peixes acantocéfalos, j á que as lesões
adultos; reproduzidos naturalmente χ produzidas por estes parasitas ficam
desovas induzidas), foi feito uma restritas ao local de fixação (Pavanelli
comparação, pois o hospedeiro e o et ai, 1998). N ã o se tem
parasita são da mesma espécie. Os conhecimento de nenhum caso de
índices parasitológicos revelaram que acantocéfalos r e g i s t r a d o s como
nos cultivos a prevalência sempre foi problema patológico no cultivo de
maior: 100% contra 78% e 55,5%. A Colossoma na A m é r i c a Latina
intensidade variou de 31 a 406 (Conroy & Conroy, 1998). A
indivíduos (0-1549 e 0-67), o limite in­ importância dos acantocéfalos para a
ferior foi 31 vezes maior, enquanto que aquacultura nunca foi suficientemente
o superior foi cerca de 4 vezes menor alta para promover o desenvolvimento
que no ambiente natural. Isto porque de medidas e controles específicos.
Fischer (1998) encontrou uma Procedimentos gerais de profilaxias
correlação positiva entre o comprimento são considerados suficientes para
total do tambaqui e o número de prevenir sérias infecções. Controle do
acantocéfalos (quanto maior o peixe suprimento de água e de potenciais
maior o número de parasitas). Como nos hospedeiros intermediários, como
cultivos, os peixes eram jovens e o quarentenas geralmente dão bons
tamanho variou apenas de 5,0- resultados (Kabata, 1985).
25,5(21,2), não houve tempo suficiente Neste trabalho registramos um
para os hospedeiros atingissem maiores grave problema patológico, que
tamanhos e ficassem expostos a maiores culminou com a morte do hospedeiro,
infestações, para se chegar aos altos ocasionado por acantocéfalos, em um
números de intensidade encontrados em cultivo de C. macropomum. A epizootia
peixes adultos. A abundância (densidade iniciou com a compra de alevinos
média) no ambiente natural foi 9,2-76,7 parasitados. Com o desenvolver do
(42,95) e nos tanques de cultivo variou cultivo e da infestação houve um
de 81,33-174,21(125,46), sendo muito crescimento mais lento dos peixes,
mais altas no ambiente confinado. Nos quando comparado com os cultivos
cultivos a abundância(densidade média) anteriores a seguir pararam de comer e
foi igual a intensidade média pois o culminando com a morte. Ocorreu uma
número de peixes parasitados era igual infestação maciça, com todos os jovens
ao de examinados. tambaquis com o intestino repleto de N.
Entre os helmintos que parasitam buttenerae. O problema ocorreu porque
os peixes os acantocéfalos são, talvez, não houve uma avaliação prévia das
o grupo que possui menos importância condições de sanidade dos alevinos ao
no que se refere aos prejuízos serem adquiridos, não houve um
determinados em seus hospedeiros. No período de quarentena e tecnicamente as
Brasil praticamente não existem barragens estavam construídas
relatos de casos de mortalidade de inadequadamente, isto é, interligadas
peixes de cultivo associados aos entre si.
A fauna de parasitas do tambaqui encontramos outras espécies que já
conhecida é formada por representantes eram conhecidas como parasitas do
de vários grupos. As bactérias tambaqui em cultivos na região, no
Aeromonas hydrophila; Pseudomonas Sudeste do Brasil e em outros países
spp.; Flexibacter colunnaris; Mycobac­ da América do Sul. Os protozoários
terium spp. (Bermudez, 1980 apud Myxobolus sp. parasita dos rins e da
Conroy & Conroy, 1998). Fungos pele, os Monogenoidea Anacanthorus
Saprolegnia sp. Os protozoários; spatulatus e Linguadactyloides
Henneguya sp., Myxobolus sp. brinckmanni das brànquias e pele. O
(Thatcher, 1991; Eiras et ai, 1995; copépodo da família Vaigamidae
Conroy & Conroy, 1998), Gamidactylus jaraquensis das fossas
Ichthyophthirius multifilis, Trichodina n a s a i s , o Branchiura Argulus
sp., Apiosoma sp. (Eiras et ai, 1995; chicomendesi da superfície do corpo e
Conroy & Conroy, 1998), Cryptobia sp., o fungo Saprolegnia sp. da superfície
I. necator e Amoeba (Eiras etal, 1995).
do corpo.
Os helmintos Monogenoidea:
Com o aumento dos cultivos
Anacanthorus spatulatus Kritsky,
i n t e n s i v o s e semi intensivos de
Thatcher & Kayton, 1979,
tambaquis e outros peixes, na região
Linguadactyloides brinckmanni
Amazônica, muito cuidado tem que se
T h a t c h e r & Kritsky, 1983 e
ter com a prevenção das doenças. Há
Notozothecium sp. (Thatcher, 1991;
uma fauna de animais que utilizam o
Conroy & Conroy, 1998, Fischer,
1998). Trematoda Digenea: jovens da peixe como substrato e vivem em
família Paramphistomidae (Fischer, equilíbrio com o hospedeiro. Quando
1998). Nematoda: Spirocamallanus os peixes são mantidos em cativeiro,
inopinatus Travassos, 1929, são submetidos a grandes estresses
Spirocamallanus spp. (Ferraz, 1995), resultantes, da captura, transporte,
Spirocamallanus sp. e Procamallanus manuseio, alta densidade, qualidade da
sp. (Fischer, 1998). Cestoda, água com excesso de c o m p o s t o s
plerocercóides (Khon, et al, 1985). tóxicos, baixa quantidade de oxigênio,
Os c r u s t á c e o s : B r a n c h i u r a : pH e t e m p e r a t u r a s com g r a n d e s
Dolops carvalhoi C a s t r o , 1949, variações, falta, deficiência, excesso
Argulus multicolor Sthekhoven, 1937 ou alimentação inadequada,
e A. chicomendesi Malta & Varella, instalações deficientes, desinfecções,
2000 (Malta, 1983; 1984; Malta & reprodução artificial, mão-de-obra sem
Varella 1983; 2000). C o p e p o d a : preparo. Estes fatores alteram a
Gamidactylus jaraquensis Thatcher & homeostasia do peixe tornando-os
Boeger, 1984 (Fischer, 1998) e mais sensíveis e com menor
Perulernaea gamitanae Thatcher & resistência aos patógenos. O equilíbrio
Paredes, 1985 (Benetton & Malta, que existia entre o hospedeiro e sua
1999). Isopoda, Braga sp. (Varella, fauna simbionte é quebrado surgindo
comunicação pessoal). as e p i z o o t i a s , que são de difícil
Além de N. buttnerae controle e normalmente levam os
peixes à morte em pouco tempo. Eiras, J.C.; Ranzani-Paiva, M.J.T.; Ishikawa,
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Aceito para publicação cm 06/12/2000

Infestações maciças por acantocéfalos, Neoechinorhynchus