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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS


HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS
E VERNÁCULAS

Relatório Parcial de Iniciação Científica


realizado com fomento do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq)

O DISCURSO FILOSÓFICO EM A MONTANHA MÁGICA:


Levantamento crítico dos diálogos protagonizados pelos
personagens Leo Naphta e Lodovico Settembrini

ORIENTANDO: Igor Luna Tavares de Medeiros


ORIENTADOR: Prof. Dr. Marcus Vinicius Mazzari

SÃO PAULO
2020
1. RESUMO

Com este projeto de pesquisa científica, busquei fazer um levantamento


dos elementos narrativos e estruturais inseridos nos discursos dos
personagens Lodovico Settembrini e Leo Naphta e contextualizar esses
elementos, tanto de maneira histórica quanto inseridos no escopo de
construção dos personagens, me propondo, no presente trabalho, a articular
um repositório de dados que possam elucidar e contrastar a complexa análise
que Thomas Mann cria em A Montanha Mágica através da

A partir disso, tratei de esmiuçar os elementos que configuram os


discursos

2. INTRODUÇÃO

Começar explicando a obra literária como registro histórico e produto de


seu tempo

Falar de crises e conflitos políticos que caracterizam a Idade Moderna

Thomas Mann é um autor fundamental para a literatura do séc XX


porque o autor é capaz de produzir um levantamento muito apurado de
aspectos que permeiam as questões políticas e filosóficas do século XX.
Segundo Lukacs, filósofo e historiador literário russo. Thomas Mann era de fato
um escritor burguês, mas que poderia melhor do que muitos outros autores que
trabalhavam abertamente pela causa do socialismo, uma vez que o autor, um
sábio observador da subjetividade que permeava o estilo de vida burguês e
conseguia abordá-lo de maneira profundamente concreta, compreendia todas
as contradições que o estilo de vida da referida classe social trazia consigo e,
por conseguinte, toda a crítica Marxista acerca do estado burguês.

A visão literária de Thomas Mann seguia uma tradição que Lukács


resumiu como realismo crítico. Ao colocar a decadência da sociedade
burguesa e, consequentemente, da classe dominante no centro da análise, o
autor salienta o mito da decadência, o processo de destruição que subsidia a
reconstrução através da revolução.

No que tange a – Thomas Mann é tributário do romantismo alemão,


como propõe Claudia Dornbusch ( = ), o autor faz uso de uma ironia através de
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seu rebuscamento narrativo, a prolixa ação descritiva do autor constitui um jogo

A Montanha Mágica de Thomas Mann reflete o período anterior a


Primeira Guerra Mundial, no entanto o processo criativo do livro é fundamental
para a compreensão de sua linha narrativa. O livro começou a ser escrito antes
da primeira guerra, durante a guerra o autor lança Confissões de um apolítico
(obra na qual o autor teoriza a cultura europeia, elemento que constitui os
embates discursivos dos personagens Settembrini e Naphta), no entanto, A
Montanha Mágica ao ser lançado surge como uma tentativa de configurar um
novo sistema político através da crítica antibelicista.

A história de Hans Castorp transcorre num período de sete anos, no


entanto o tempo do hospital é tratado de maneira relativa pela ordem narrativa,
a ação de um dia pode transcorrer por duzentas páginas e, logo após, ser ()
por uma elipse temporal que resume a ação de meses em poucos parágrafos.

Thomas Mann aborda a alienação da classe burguesa pré primeira


guerra,

3. OBJETIVOS
4. METODOLOGIA

Levantamento bibliográfico

5. ANÁLISE

Passagem 1: Em relação ao mundo natural (pág. 432)

NAPHTA ataca Settembrini se referindo ao humanista italiano como


Voltairiano (filósofo iluminista francês, VER MAIS) e Racionalista (doutrina
que classifica o raciocínio como uma operação racional e lógica destaque
DESCARTES), crítica ao ato de Settembrini de admirar a natureza pois esta
“não nos perturba com brumas místicas, mas conserva uma secura clássica”.

O Romantismo é, antes de tudo, um movimento de oposição violenta ao


Classicismo e à época da Ilustração, ou seja, àquele período do século XVIII
que é tido, em geral, como o da preponderância de um forte racionalismo.

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Embora o mesmo contexto temporal apresente outros aspectos não menos
marcantes, está mais ou menos estabelecido o consenso de que se trata de
um século cuja característica maior é a da “Iluminação”, do “Iluminismo”, como
dizem alguns, ou ainda das “Luzes”, por causa do vulto que nele tornam as
idéias racionalistas. ANATOL ROSENFELD

SETTEMBRINI responde fazendo referência a Catarina de Siena, figura


importante para o catolicismo medieval, contrapondo que Naphta busca pautar
sua percepção do mundo natural no seu viés teológico.

NPH sugere que a natureza carece de espírito, ST responde que a


natureza é o espírito em si.

NPH para ST: “O senhor não se aborrece com o seu monismo?”

monismo - sistema filosófico que propõe um principio único que sujeita


todos os seres, se opõe ao pluralismo e a dualidade inerente.

ST opõe-se a idéia de NPH de opor Deus x Natureza como duas


estâncias distintas.

>> MONISMO (ST) x PLURALISMO (NPH)

ST sugere que a natureza é uma unidade que compõe um todo único


(monismo), dessa forma o espírito é inerente a ela. NPH acredita no “dualismo,
antítese”, a alteridade como princípio motor, passional, dialético e espirituoso
do mundo, os elementos do mundo estão sempre em oposição e, dessa
maneira, o espírito não está incorporado na natureza, mas existe justaposto a
ela em outra instância, na visão de Naphta, a religião.

ARISTÓTELES > “It has been well said of Aristotle, ‘Solet Aristoteles
quaerere pugnam’ (in. pg. 433); ‘Aristotle has a habit of seeking a fight.’ He is
seeking a fight not because he loves fight and enmity but because he loves
peace and friendship; but true peace and friendship can only be found in the
truth.” Leo Strauss1

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ST rebate que a ideia de unidade estava presente nas bases do
pensamento aristotélico, que “transfere a realidade das ideias gerais para
dentro dos indivíduos”, panteísmo:

Deus e universo são uma única coisa, Deus não é um espírito separado.

NPH discorda da ideia de ST sobre Aristóteles. Recorre a aristotélica de


São Tomás de Aquino e São Boaventura, “Se o senhor concede caráter
substancial aos indivíduos, se procura distanciar do geral a essência das
coisas e dar a ela um lugar no fenômeno individual (...) então dissolve toda
união entre o mundo e a ideia suprema, e com isso o mundo fica fora do divino,
e Deus é transcendente.” (pag. 433) > Segundo Naphta, Idade Média Clássica.

ST, com ideias profundamente fundamentados no Iluminismo


racionalista caçoa da colocação de Naphta sobre uma Idade Média Clássica
que sugere um período de erudição e elevação do período. NPH rebate
dizendo que o “clássico” seria o ponto culminante de uma ideia que configura
um determinado período, e acusa ST de “uma antipatia contra o movimento
livre das categorias, contra o absoluto. Também não quer o espírito absoluto.”
(pg. 433) NPH sugere que ST tira o espírito de seu lugar de plenitude e o
supõe como “sinônimo de progresso democrático”.

ST sugere que o espírito, por mais absoluto que seja, nunca deve tornar-
se advogado da reação (WH?), NPH diz que, PORÉM (INFLEXÃO que sugere
um desvio do lugar do espírito, elemento retórico a qual ST se atém) espírito é
advogado da liberdade > ST: “A liberdade é a lei do amor humano, e não o
niilismo e a maldade.” NPH: “Que evidentemente lhe causam medo.”

Passagem 1.2: Ação x inação (pg. 434)

Hans Castorp já está diagnosticado e Joachim se mostra mais e mais


ansioso para voltar a “planície”. ST sugere que NPH faria mal juízo de Hans
Castorp por não desejar de maneira tão “ardente” voltar ao trabalho (referência
ao caráter reacionário de NPH?)

NPH recorre a São Bernardo de Claraval (abade francês responsável


pela reforma da ordem religiosa monástica católica Ordem de Cister ordem de
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monges) HIERARQUIA DA PERFEIÇÃO > moinho (vida terrena) > campo
(alma do homem leigo) > leito de repouso (lugar de coabitação do amante com
a amada, ato de ISOLAMENTO CONTEMPLATIVO do mundo para efeito de
coabitação com Deus), aqui a ideia de

ST se exaspera e contrasta a sua formação Europeia Ocidental em


detrimento da Hierarquia Claravaliana que tem bases Orientais no que diz
respeito ao Isolamento Contemplativo. Lao Tsé filósofo chinês fundador do
taoísmo religioso e filosófico:

doutrina que se baseia no Tao Te Ching que traz uma série de preceitos
para alcançar uma vida harmônica. Yin yang.

Para ST, a filosofia Oriental busca alcançar a harmonia almejada através


da inação e do ócio. NPH recorre a mística ocidental e ao quietismo doutrina a
qual François Fenélon teológo cristão francês era adepto que propõe que,

A perfeição está no amor de deus e na anulação da vontade do individuo


que vive por Deus

“toda ação representa um erro, já que a veleidade de ser ativo ofende a


Deus” (pg. 435) Proposições de Molinos. A ideia de Deus como único agente e
da anulação da ação e no repouso para atingir a salvação espiritual, tema que
está profundamente difundido na proposta reflexão trazida por Mann em A
Montanha Mágica ao isolar Hans Castorp no sanatório.

Hans Castorp intervém e concorda com a idéia de NPH. ST se sente


contrariado, pois, ainda que seja difundida em certa medida no ocidente
(principalmente na doutrina eclesiástica), ST determina que: “cabem ao homem
ocidental a razão, a análise, a ação e o progresso, não a cama onde se
espreguiça o monge”. NPH argumenta que as bases do pensamento ocidental
são obra dos monges, e, em oposição ao pensamento de ST, os monges não
se entregaram ao ócio, mas trabalharam para fornecer “trigo, frutas e vinho” a
Alemanha, a França e a Itália (aqui se confirma a proposta levantado por ST no
início do embate da valoração por parte de NPH do trabalho braçal, teria ST
levado a discussão por um caminho a confirmar determinada hipótese e

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contradizer NPH na sua tentativa de estabelecer os ideais taoístas e
quietistas?) > ST se mostra satisfeito,

NPH rebate que o trabalho dos monges não visava progresso ou


relações comerciais. Segundo NPH, a relação dos monges com o trabalho era
algo “puramente ascético, disciplina expiatória, um meio para conseguir a
salvação”, ou seja, uma edificação espiritual, não econômica. Em seguida,
NPH cita que a disciplina que o trabalho exigia era uma proteção contra o
“pecado da carne”, e por isso não tinha fundamento social, mas compunha um
ato de “imaculado egoísmo religioso”.

ST argumenta que, na visão de NPH, o exercício do trabalho se impõe


sobre a vontade do homem quando posto no âmbito de expiação religiosa.
Naphta, mais uma vez fazendo uso do pluralismo e do dualismo para opor os
conceitos Utilidade x Humanidade. ST se opõe a divisão de princípios e NPH
recorre a ideia de HOMO DEI

The biology of Homo sapiens is continuous with other


hominids and the rest of life. Yet in Homo sapiens we find
emergent capabilities that constitute a unique being. It is this being
to whom God introduces God's self, making possible the bearing
of the imago Dei, the image of God. Much more than just a special
capacity, the imago Dei is also a relationship with God and a way
of life that follows. That relationship with God and resulting ethic is
the highest purpose of human capacity and uniqueness, when by
God's continuing provision Homo sapiens can be welcomed
as Homo Dei, people of God. (James C Peterson University of
Toronto)

Segundo NPH, são impuros os bancos e ofícios cambistas criadas pelos


italianos e a sociologia econômica dos ingleses. Para o judeu-jesuíta, o
pensamento do homo economicus pautado em ideais racionalistas é uma
impureza e atrapalha o gênio da humanidade, ST no entanto argumenta que
muitos cientistas econômicos foram responsáveis por diversos acréscimos
positivos ao conhecimento humano.

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Hans Castorp intervém fazendo uma analogia entre o serviço militar
(que é representado aqui por Joachim Ziemssen) e o sacerdócio, segundo
Hans ambos são “ascéticos” e não incorrem no ganho econômico.

Passagem 3: Militarismo

Para ST, o serviço militar é desprovido de espiritualidade, é vazio,


mecânico. ST recorre a imagem dos soldados da Contrarreforma Espanhola
(reforma da igreja católica realizada em 1545 que muitos acreditam ter sido
uma resposta a Reforma Protestante de Martinho Lutero), soldados do Exército
da Grande Revolução (Revolução Francesa), “napoleônicos, garibaldinos e
prussianos. ST é antibelicista e vê a ação dos soldados como algo infundado,
os soldados não têm consciência do porque fazem o que fazem.

NPH isola a razão de ser do soldado e a coloca como uma experiência


factual, “(a ação do soldado) “não é sustentável do ponto de vista espiritual”,
NPH usa essa parte do discurso de ST para apontar uma contradição entre a
concepção de vida burguesa e a existência militar.

ST argumenta que o “ponto de vista burguês” opera sobre a ordem da


razão e da moralidade e pretende defender a juventude. É interessante notar
que ST sempre reafirma a amigabilidade que subsiste nas discussões
com NPH, uma ação conciliador que busca reafirmar que, apesar de
vários pontos discordantes, ambos têm algumas opiniões consonantes,
ato de denota a humanidade de ST e sua concepção burguesa.

ST tem uma visão positiva do futuro, como sugere a passagem: “as


coisas tomavam um rumo favorável para a civilização. A atmosfera geral da
Europa estava cheia de pensamentos pacíficos e planos para desarmamento.
A ideia democrática achava-se em marcha.” (pg. 439) Em seguida ST cita a
revolução da Turquia que almeja um “Estado nacional e constitucional”.

NPH desdenha da “Liberalização do Islã”, se referindo a uma possível


ascenção do Islã progressista como um “fanatismo esclarecido”, dirigindo-se
Joachim “Se Abdul Hamid cair, terminará a influência alemã na Turquia, e a
Inglaterra vai arvorar-se em protetora...” NPH incorre em comentários políticos

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específicos da época, e ele vê a Revolução da Turquia como uma ação que
dificultaria as ações da Grã-Bretanha na colônia. NPH demonstra pouco apreço
a proposta política dos partidos de esquerda, como a Implementação das
Repúblicas Balcânicas. Ambos se rendem a alguns comentários acerca da
situação política dos países baixos, ST cita as Convenções de Haia, que se
deram em 1899 e 1907 e estão na mesma linha das Convenções de Genebra,
figurando entre os primeiros tratados internacionais sobre leis e crimes de
guerra. Aqui fica claro o posicionamento reacionário de NPH que ST descreve
como uma “zombaria do desejo de aperfeiçoamento social que sente a
humanidade”. ST configura como “ostracismo moral” o descaso com ideias
progressistas. NPH faz pouco caso e diz que o papel da política é dar espaço
para que as pessoas “se comprometam moralmente”. ST questiona NPH se
esse estaria adotando a causa do pangermanismo

.  movimento político nacionalista do século XIX que defendia a união


dos povos germânicos da Europa Central.

NPH não responde.

ST reitera a importância de seus ideais democráticos em detrimento do


posicionamento reacionário de NPH ao sugerir que “No generoso empenho que
faz a democracia para impor-se internacionalmente o senhor quer ver um metro
ardil político” (pg. 440), NPH se opõe a declara de ST sugerindo que não existe
idealismo ou religiosidade na movimentação política que ST julga essencial.
Aqui fica bastante clara a polarização política que levaria a falha da instituição
da República de Weimar, NPH se mostra consciente de que existe um desastre
a caminho, apesar de todas as previsões positivas de ST, e, além de prever a
catástrofe, NPH vê todo o conflito que se desenrolaria anos mais tarde na
forma da Primeira Guerra Mundial como um mal necessário.

Segundo NPH a visão progressista é um instinto de autoconservação de


uma estrutura de governo que já arruinada. Para elucidar o fato ele recorre a
algumas ações que deveriam ser tomadas pela Inglaterra no intuito de
combater a revolução, no entanto continua incentivando a movimentação
colonizadora da Rússia em direção à Europa.

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ST crítica o Monarquia de Habsburgo no território Austríaco que existia
como um legado do Império Romano-Germânico

NPH aponta a tendência russófila do discurso de ST e sugere que ST


tenha uma inclinação ao cesaripapismo, sistema que concede o exercício de
poder que eram reservados as entidades religiosas a um chefe de estado,
unificação das responsabilidades e pontificiais.

ST aponta o atraso da corte de Viena no que diz respeito aos interesses


progressistas. NPH retoma suas previsões pessimistas e ST argumenta que a
razão humana será capaz de conter a fatalidade que se aproxima se esta tiver
suficiente força de vontade. NPH contrapõe a ideia de ST ao dizer que a
europa capitalista está se encaminhando para o destino que ela mesma
alimenta, “A europa capitalista quer o seu (destino).” (.pg 440) ST rebate,
“quem não abomina a guerra com suficiente intensidade acredita na sua vida”,
reafirmando seu posicionamento antibélico e sugerindo a força da iluminação
acima da estupidez da guerra. NPH tece uma crítica ao estado e diz que
“Enquanto sua abominação não se volta já de saída ao próprio Estado, ela se
mantém abrupta, do ponto de vista lógico.” (pg. 440) ST aponta que NPH é
contrário a ideia de Estado nacional que possui de uma política legitimada e
constitui um governo soberano, unificando a entidade política e geopolítica e a
unidade étnica e cultural em um território delimitado. ST acredita nessa
configuração e atribui a ela a capacidade de uma nação ser “livre e igual,
protetora das pequenas e fracas contra a opressão, fazendo justiça e criando
fronteiras nacionais”. NPH argumenta que as ações de um Estado-nação,
como a Aniquilação da Áustria, são impraticáveis sem uma guerra. ST declara
não ser contrário a guerra nacional, e Hans Castorp intervém.

Hans Castorp: “Settembrini mais de uma vez nos falou com grande
entusiasmo do princípio do movimento, da rebelião e do aperfeiçoamento do
mundo, que, por natureza, não é um principio muito pacífico, segundo me
parece. E ele afirmou que esse princípio teria ainda de vencer grandes
obstáculos antes de triunfar em toda parte e antes de se realizar a república
universal, geral e feliz. (...) Acrescentou que era precisa aniquilar a Áustria,
para abrir caminho à felicidade. Não se pode, portanto, dizer que o sr.
Settembrini reprove a guerra em si.” (pg. 441)
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NPH aponta a contraditória posição antibelicista de ST se utilizando da
declaração de Hans. ST recorre a Voltaire, que sugere a ação bélica como um
caminho para a conciliação.

Hans Castorp intervém, recorrendo a concepção cíclica da história que


se opõe a uma concepção linear de começo, meio e fim pregada tanto pelo
catolicismo quanto pela doutrina marxista.

ST recrimina a interjeição de Castorp e diz que ele deve se ater ao


aprimoramento do homem, argumentando que esse aprimoramento sofreu um
impedimento no século XVIII em função de “erros sociais”, e aqui ele se refere
a segregação das classes sociais. NPH recorre ao idílio de Rousseau, e na
figura do filósofo se encerra um importante conflito no que diz respeito a idade
da razão que surge após o advento dos ideais iluministas que pautam as idéias
de ST, é interessante perceber como o predomínio dos ideais racionalistas que
configura a idade moderna, onde a razão se coloca como o fundamento da
verdade, não impedem que uma série de guerras eclodam não só pela Europa
mas também pelo resto do mundo. Para Rousseau, o homem se corrompe no
âmbito da submissão civil e o indivíduo precisa retornar a natureza para
reestabelecer o contato com seu senso natural de sociabilidade, que foi
deturpado com o advento da história, ou, em outras palavras, com o advento
da sociedade. Para NPH, ainda que a concepção de Rosseau seja
hipoteticamente histórica e pautada no ataque a propriedade privada, os seus
argumentos racionalistas advêm da doutrina eclesiástica, estabelecendo um
paralelo entre o ideal do homem natural de Rousseau com a aproximação do
homem a figura de Deus e o seu posterior afastamento através do pecado.
Para NPH, a segregação dos povos é um instinto natural dado aos homens por
Deus, e a pretensão de ST de que a humanidade construa uma república
universal é incongruente com o ideal de retorno do homem ao seu estado
natural junto a Deus.

NPH cita a guerra (e aqui fica sugerido que NPH colocaria junto a
segregação como um instinto natural do homem), e ST interrompe-o e diz que
a própria guerra já surgiu na história da humanidade como instrumento
progressista, logo em seguida refere-se as Cruzadas, movimentos militares de
inspiração cristã que buscavam civilizar a Europa Ocidental sob o comando da
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instituição cristã. ST argumenta que as Cruzadas foram favoráveis para o
intercâmbio econômico e político-comercial pois foram responsáveis por uma
unificação de diferentes povos sob um mesmo ideal, um princípio
internacionalista e não de segregação.

NPH se admira com o posicionamento de ST mas retifica que as


cruzadas, antes de criarem uma união entre países, ensinaram uma distinção
social uma vez que a criação de um protótipo de Estado nação institui uma
organização de classes que diferenciava o povo do clero. ST concorda em
partes, mas argumenta que a ideia de um Estado social é oposta a uma
organização hierárquica que diferencia os povos, e NPH reitera que a
organização hierárquica de um povo não seria nada mais nada menos do que a
união dos homens “sob o signo do espírito”, explicitando sua concepção de
uma organização social como um estado natural do homem. ST propõe que o
“espírito do homem”, ou seja, sua predisposição natural, é a culpada de todos
os problemas sociais que acometem o mundo, ao dizer que “Já conhecemos
esse espírito. E não precisamos dele, obrigado”. NPH sugere que seria natural
que ST, muito afeito ao ideal de nacionalismo, oriundo da Revolução Francesa,
uma aproximação e reconhecimento entre as nações, se oponha ao
“cosmopolitismo” da igreja, que não opera sob fronteiras nacionais e divisão
geográfica, mas como uma instituição universal. No entanto, NPH retorna a
contradição ideológica de ST, que é a favor a uma ideia de estado, mas
mantém um posicionamento profundamente antibelicista, sugerindo que só
seria possível conciliar os dois ideais sendo um “paladino da concepção
positiva de direito”, ou seja, uma movimentação social que seria capaz de
instituir um Estado nação sem ferir a integridade humana do corpo social sobre
o qual seria imposta a ação, e ST argumenta que é possível alcançar essa
concepção positiva do direito e uma maneira eficaz de exercê-la através do
racionalismo, que, para Naphta, é uma doutrina que pode ser alcançada por
qualquer membro da sociedade uma vez inalienado. NPH argumenta que o
direito dos povos que ST defende é, novamente, uma trivialização
rousseauniana da Lei Divina (ius divinum), que propõe que

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qualquer corpo de lei que é percebido como derivado de uma
fonte transcendente, como a vontade de Deus ou deuses - em contraste
com a lei feita pelo homem ou a lei secular

NPH argumenta que o ideal de direito não está ligado ao racional ou o


natural, mas com a “revelação” que se dá no contato com Deus através de
práticas religiosas. ST diz que a nomenclatura não importa, uma vez que os
fins são os mesmos, a concepção de que existe um código de direito que está
acima dos direitos dos estados nacionais, e o mesmo que se configura para
NPH como o ius divinum é para ele o direito nacional e dos povos, e que ele
pode ser exercido da mesma maneira através de arbitragens. NPH sugere que
as arbitragens a qual ST se refere são falhas por serem realizadas por um
tribunal composto por burgueses, e que a moralidade burguesa é contraditória,
e que os problemas sociais que a classe burguesa enfrenta seriam remediadas
por uma guerra, a qual eles se opõem, pois, segundo ele, “a guerra seria o
remédio contra tudo e para tudo. Para o fortalecimento e mesmo contra a
diminuição da natalidade.” Aqui se reverbera uma ideia de militarização como
instrumento de funcionamento da sociedade burguesa e domínio social que é
sugerida por Foucault. Segundo o filósofo, o âmbito militar, a polícia e a prisão
configuram a tríade de instituições que se encarregariam dos indivíduos
indesejados pela sociedade.

A discussão acaba. (pág. 444)

Análise da Pietá de madeira que existe no aposento de Naphta.

ST é avesso a escultura, crítica sua falta de acuidade no que diz respeito


a anatomia dos corpos representados. ST critica como a idade média, por sua
rigidez perante a natureza, havia privado a fruição da herança greco-romana
que cultivava a arte, a forma, a beleza, a razão, alegria, o classicismo, segundo
ST objetos de estudo naturais que foram dados ao homem e responsáveis pela
melhora do homem.

Hans Castorp intervém e cita Plotino e Voltaire, que eram avessos ao


corpo e a beleza, colocando o real valor na honestidade. ST zomba de Castorp,
argumentando que a honestidade só existe na “sublevação do espírito contra a
natureza que vise a dignidade e a beleza do ser humano”. ST cita os crimes

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horrendos que eram praticados na Idade Média e traz a figura de Conrado de
Marburgo, sacerdote e nobre medieval da Alemanha, que, segundo ST,
operava em nome da tirania do sobrenatural. ST se refere a espada e ao fogo,
o segundo indicando o ritual conhecido como Ordália que consistia de um
julgamento por fogo onde o inocente, ao ser atirado nas chamas, não arderia,
ao passo que o culpado seria consumido pelo fogo. NPH intervém,
argumentando que os métodos usados pela Convenção (?) existiam com o
intuito de purificação, eliminando os maus cidadãos, algo que reverbera na
ideia anterior de NPH de que a guerra teria cunho positivo por eliminar parte da
população. NPH acrescenta que tanto a fogueira quanto a excomunhão,
quando um indivíduo é expulso de um núcleo social, eram feitas para livrar as
almas da punição eterna da vida após a morte, algo que a justiça penal e
capital não é capaz pois opera sob a ótica de justiça do homem. NPH
prossegue com um comentário anticientificista ao tratar com desprezo sobre a
descoberta de Nicolau Copérnico de que a terra orbita o sol e não o contrário,
segundo NPH transformando o centro do embate entre Deus e o Diabo em um
“planetazinho”. NPH julga essa teoria como provisória, argumentando que
sinais apontam para uma reabilitação da escolástica, que conciliava astronomia
e astrologia, e NPH classifica esse movimento como uma coerção filosófica à
ciência por parte do dogma eclesiástico que colocava o homem no centro do
universo. ST se opõe recorrendo ao valor do conhecimento epistemológico, a
qual NPH argumenta não existir, pois não existiria “conhecimento puro”, e
exemplifica o caráter eclesiástico da ciência nas palavras de Santo Agostinho:
“creio para compreender”. Para NPH, a fé é o órgão principal do conhecimento
e o intelecto seria um complemento dela, ou seja, a razão trabalharia em
função da crença, e não o contrário. NPH recorre a ideia de que é contrário ao
conceito de humanidade o reconhecimento de uma verdade natural que nega
os próprios fundamentos dessa humanidade, e encerra dizendo que o tribunal
da igreja católica denominado Santo Oficio julgava absurda a sua observação
cósmica.

NPH recorre a história que comprava que os argumentos de Galileu


eram mais próximos da realidade do que o julgamento do Santo Ofício. ST se
indispõe e questiona NPH se ele acredita em uma verdade de cunho científico

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que seja capaz, de maneira absoluta, de elevar o espírito humano,
questionamento ao qual NPH responde alegando que isso não seria possível
pois a verdade estaria subjugada a autoridade do homem, responsável por
dizer se essa verdade é realmente “verdadeira” ou não. NPH volta a posicionar
o ser humano no centro do universo, e a verdade estaria relacionada ao seu
meio de salvação, ou seja, para NPH, algo que se coloca no caminho da
salvação espiritual do homem não pode ser considerado verdadeiro. Em
seguida, NPH cita a filosofia da escola de Platão, que pregava uma ideia de
dualidade entre corpo e humano onde a existência abstrata do ser humano se
oporia ao mundo sensível, da matéria, uma concepção fundamental do
pensamento filosófico que percorreu toda a história da do Ocidente. Segundo
NPH, esse pensamento “esse pensamento não se preocupava com a natureza
e sim com o conhecimento de Deus.” (pág. 459). Logo em seguida, NPH
sugere que a humanidade esteja prestes a reencontrar o caminho que levaria a
esse ponto de vista, e aqui pode ser suposto que NPH já antecipasse os
conflitos armados que varreriam boa parte da Europa. Para NPH, finalmente, a
funcionalidade da ciência é oferecer meios para que o ser humano percorra o
caminho da salvação, e o que conhecimento é infundado quanto não se propõe
a tal esforço.

ST argumenta que o discurso de NPH, quando transportado para o


plano político, inviabiliza a busca por uma justiça humana individualizada que
seria supostamente oferecida por uma instituição como o estado, garantindo a
cada indivíduo uma vida onde as necessidades básicas estivessem sendo
oferecidas. NPH retorna a dualidade que fora citada anteriormente em
oposição aos ideais monistas de ST, sugerindo que o conflito que permeia a
existência do homem não pode ser esvaziado a um mero quesito de interesse
social, o que parecem sugerir as descobertas científicas, uma vez que esse
esvaziamento místico retiraria Deus da equação principal e colocaria o
indivíduo como um ser que existe apenas para suprir as necessidades do
Estado. Para NPH, o social é secundário quanto posto em comparação ao
espiritual. ST discorda com veemência e argumenta a democracia não serviria
como uma rédea do homem, mas um mecanismo que prevê qualquer forma de
absolutismo do Estado em detrimento a liberdade individual. O renascentismo,

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reitera ST, não é uma forma de idolatria ao Estado, mas sim um avanço na
busca por “personalidade, direito dos homens e liberdade!”.

NPH critica o fanatismo de ST e alega que o Renascimento deu á luz a


ideais liberais e humanistas que foram incorporados pela sociedade burguesa,
uma vez que a ideologia, ainda que apoiada nos princípios racionalistas, falhou
ao introduzir na sociedade a elevação de uma suposta individuação e culto ao
eu, e que qualquer organização educadora se baseia em disciplina e sacrifício,
uma renúncia de si mesmo em nome da formação, em outras palavras, os
ideais que o Renascimento trouxeram funcionam em uma instância retórica,
mas não prática. NPH finaliza propõe a obediência como método formativo do
indivíduo em detrimento a liberdade. Para NPH, a libertação e desenvolvimento
trazem o terror.

ST questiona quem necessariamente desencadearia o terror que NPH


prospecta, e NPH sugere que o ideal do homem em união com Deus, que foi
corrompido no pecado original, e propõe que o contrato social determinado
pelo estado seria uma maneira de conter as ações moralmente incorretas
desencadeadas pelo pecado, ST concorda e diz que esse contrato social é o
fundamento do Século das Luzes e de Rousseau, no entanto NPH esclarece
que esse contrato social e exercício de poder, como algo que pertence ao
povo, pode ser reivindicado uma vez que o Estado secular não tem
procedência divina, mas humana, diferente de uma instituição como a Igreja.
Aqui, NPH propõe a visão do Estado como uma obra pecaminosa, pois coloca
no centro de seu funcionamento o dinheiro. “A antiguidade era capitalista,
devido ao seu culto do Estado. A idade média cristã percebeu com toda clareza
o imanente capitalismo do Estado secular. ‘O dinheiro será o imperador’ é uma
profecia do século XI”. NPH sugere que o Estado capitalista é responsável pela
demonização da vida, e que a manutenção dessa existência demoníaca seria
conduzida pela classe burguesa. NPH concorda que a ideia de um Estado
universal transcenderia o Estado secular, mas, diferente da igreja, que
conduziria o indivíduo para a salvação no reino de Deus, a pretensão burguesa
nega a funcionalidade do da violência em nome de uma ascetismo e domínio
ao se pautar nos ideais de iluministas ao mesmo tempo que a retroalimento
indiretamente. Aqui é muito interessante pontuar como NPH sugere que os

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ideais da Igreja contra a instituição da propriedade privada, considerada
“usurpação e roubo”, citando até a deturpação capitalista do tempo,
essencialmente divino, na forma de juros. NPH cita São Tomás de Aquino e a
sua intenção educacional e ética no que diz respeito ao comércio ao propor
que a compra e venda com o simples intuito de obter lucro era um horror do
ponto de vista moral. NPH baseia sua retórica na concepção de que a
existência do homem não está a serviço da vida, mas de Deus. Aqui,
novamente, é muito importante ressaltar como todos os ideais que NPH sugere
se encontram nos princípios do comunismo, “que reivindica que quem exerça
soberania e domínio não seja a corporação internacional de comerciantes e
especuladores, mas o trabalho internacional, o proletariado do mundo, que hoje
opõe à depravação burguesa-capitalista a humanidade e os critérios do Estado
divino”. Naphta sugere uma profunda correlação entre os ideais comunistas e a
busca pela relação filial com Deus ao abolir a sociedade de classes, supondo o
comunismo e o cristianismo como movimentos milenaristas que visam a
instituição do Reino de Deus.

ST se mostra espantado com o caminho pelo qual NPH guiou seu


pensamento, tentando correlacionar ideias muito opostas como o
individualismo cristão e o socialismo. NPH aponta que a individualidade
pautada nos ideais de ST, consequentemente ideais iluministas e racionalistas,
são uma mistura de “ética pagã com um pouco de cristianismo, um pouco de
“direito do indivíduo”, um pouco de pretensa liberdade”, argumentando que,
assim como a exposição feita anteriormente, a concepção de ST também
almejava harmonizar questões dissonantes, e que o individualismo ao qual ele
se refere parte de uma concepção espiritual, que existe além do homem e que,
por isso, encontra fundamento nos métodos de coerção do homem por não
partir dele em primeira instância.

Hans Castorp então intervém se utilizando de uma frase anterior de


NPH, ao analisar a Pietá. Para NPH, a beleza espiritual existe em detrimento
da beleza da carne. Sua doutrina vê o corpo como uma abstração, sendo a
beleza interior de cunho religioso como a única beleza real, pois é a beleza que
se origina do Divino, do que é superior ao homem, e, ao discorrer sobre a idade

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média, NPH denomina sua identidade como “anônima e coletiva”, adjetivos que
Hans Castorp vai se utilizar para cunhar a individualidade que NPH propõe.

ST o repreende, mas rapidamente se volta para NPH, sugerindo que, ao


negar o “progresso”, que aqui se entende como produção industrial, o
comunismo cristão que NPH sugere coloca o valor somente no solo, produtor
natural de alimentos, o que outorgaria a capacidade de sustento somente a
quem detém o solo, dessa forma transformando em servos as pessoas que não
são capazes de produzir por não terem o domínio de uma terra. NPH se opõe a
ideia de ST de que a moral cristã, como posta pelo italiano, cria servos, uma
vez que a própria construção econômica de uma cidade como polo econômico
dominado por comerciantes e grandes indústrias é o que cria a servilidade
humana. O debate se encerra.

6. RESULTADOS

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