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ait LEC (emote me > CEs eT | DE OUTUB ACTAS DAS 3.* JORNADAS. DE CERAMICA MEDIEVAL E POS-MEDIEVAL METODOS E RESULTADOS PARA O SEU ESTUDO TONDELA (28 a 31 de Outubro de 1997) Coordenagao de Helder Abracos e Joao Manuel Diogo CAMARA MUNICIPAL DE TONDELA. 2003 1. ENQUADRAMENTO HISTORICO Na Europa a hist6ria do cachimbo permanece asso- ciada a difusio de um novo produto que desde os finais do século XVI comeca a constituir motivo de admiracio ¢ vincada curiosidade. O tabaco, produto recente ¢ exstico, ‘em pouco tempo transformou-se na base de um aliciante vicio, saldando-se o sen uso num comportamento socio- logicamente novo com repercussdes na mentalidade, na ‘altura e na economia de uma sociedade europeia mar- ‘cada pela expansio colonial Encarado inicialmente com um cardcter terapeutico, devido sobretudo ao impasse que se registava na medi= sina europeia, nos inicios do século XVII, 0 tabaco foi ‘saudado e recebido por uma sociedade predisposta a encon- “tar no desconhecido as solugdes ¢ remédios que ela mesma ‘iio conseguia produzir. Dai que de um momento para 0 outro a «erva Indigena» se tivessem atribuido os poderes terapéuticos capazes de tratarem as mais diversificadas Iazelas, desde as lceras até as fistulas Este uso medicinal acabou por se generalizar € 0 abaco passow a ser consumido indiferenciadamente por ‘homens, mutheres e criancas. Quando em 1664/66 uma “peste atingiu a Inglaterra, as criancas eram mesmo obri- ‘gadas a fumar um cachimbo de tabaco por dia, com 0 Ainico intuito de conservar a saticle (Jeger, 1965: 75). Mas vertente terapéutica atribuida ao tabaco, nao explica, 6 por si, a razao do sucesso com quee este produto foi acolhido pela sociedade seiscentista. Na verdade, 0 seu uso liscriminado, a partir do primeiro quartel do século ML, tem como justificativo de maior relevancia a ver- fe social da sua utilizagio. Esta ficou-se a dever funda- almente a moda. A partir dessa altura um novo con to de elegancia tinha sido introduzido, e este passava * Arqueslogo, Integrou a equipa da Interveagto Arqueolé- dda Casa do Infante até finais de 1998, Colaborago na realizagio dos desenhos da Dr. Isabel Ale- ra Lopes, Actas das 3* Jornadas de Cerdmica Medieval e Pés-Medieval (pags. 253-269) Cachimbos Ceramicos do século XVII da Casa do Infante (Porto) Ant6nio Luis Pereira* pelo uso obrigatério do tabaco consumido a partir de um novo artefacto: o cachimbo em ceramica, que se consti- tuiu como o elemento indispensaivel transmissAo de uma nova e sofisticada imagem que se pretendia de bom gosto com 0 toque do requinte social Se por essas raz0es, numa primeira fase, 0 tabaco foi Fecebido com entusiasmo pela sociedade europeia de centao, e em particular pelas classes mais altas da hierar- ‘quia institufda, que acabaram por o adoptar como um Femédio e como um pretexto para uma nova imagem; numa segunda fase, ¢ ap6s a generalizagao do acto de fumar as camadas sociais mais baixas, 0 uso do tabaco ‘omega a inspirar um conjunto de decretos proibicionistas na maior parte dos paises europeus. A primeira noticia de oposicao e critica ao acto de fumar, surge em Inglaterra por parte de James I que em 1604, num pequeno livro intitulado «Oposigso a0 Tabaco» Geger, 1965: 66) critica e ridiculariza 0 vicio de famar. No entanto, esta critica ¢ ridicularizacéo em nada se com- parou com as sangdes proibicionistas e repressoras de- cretadas noutros reinos europeus, Por exemplo, na Rissia a partir de 1634 proibiu-se em absoluto acto de fumar, de comprar ou de vender tabaco. Aos transgressores que nio acatassem tal determinagio estavam-lhes reservadas severas penas que incorriam no chicote, corte de nariz, ‘ou em caso de reincidencia, na deportacio e pena de morte. Na Turquia fendiam-se os beigos aos fumadores de tabaco (Moitinho, 1931); e na Suica, pela mesma época, © coneflio chegou a equiparar o vieio de fumar ao crime de adultério, sendo decretado para uma e outra trans- BFes5i0 as mesmas sangbes: pristo ou foreal J no caso francés parece ter-se verificado uma atitude de maior tole- rancia e aceitacto em relagdo ao consumo da «erva in gena» e, em 1629, Richelieu, em vex de proibir decreta um novo imposto, este de incidéncia exclusiva sobre todos os fumadores. Outras leis foram promulgadas a0 longo da primeira metade do século XVII em paises como a Holanda, Austria, Hungria ou mesmo Suécia e Dina- marca, com o fim de restringir a aquisicfo e consumo da nova planta, Apesar disso, todos os resultados se salda- ram numa completa inoperancia em relacdo ao impedi 254 mento que travasse a adesio da sociedade curopeia a0 fascinio desencadeado pelo fumo. Em Portugal nio temos quaisquer noticias de actos ou decretos proibicionistas em relacio ao tabaco, no entanto, 0 nosso pais vé-se também abrangido pela bula papal de Urbano VIII que em 1628 estipulava a ameaca de excomunhio a todos aqueles que praticassem 0 acto de fumar dentro do espago sagrado definido pelo inte ior das igrejas. ‘Também todas as medidas fiscais, impostas mais como ‘elemento impeditivo e dissuasor do que propriamente com © intuito de obtencéo de novos rendimentos, no foram suficientes para um efectivo control do consumo taba- Bisla, ea partir do século XVIII, 0 tabaco, pela adesdo macica que obtém na maior parte dos paises europeus, ¢ nos ter- rit6rios ultramarinos por alguns controlados, transforma- se num produto charneira, indispensavel ¢ essencial & estrutura colonial da economia europeia! (Lapa, 1970: 20), impondo-se e difundindo-se cada vez mais com maior naturalidade; deste modo, a maior parte das restrigoes vio sendo sucessivamente abolidas € no ultimo quartel do século XVII 0 vicio de fumar passou a ser aceite como ‘um acto «civilizacional» da Europa Moderna. E bastante discutivel a forma como 0 tabaco foi apre- sentado pela primeira vez aos europeus. Por isso mesmo, © 86 como elemento ilustrativo aqui referiremos algumas notas factuais alusivas a tal acontecimento. Segundo a maior parte dos autores, 0 tabaco foi apresentado pela Primeira vez,nas Bahamas em 1492 a Cristovao Colombo. A esse respeito escreveu 0 navegador: «Encontrei um. homem sozinho numa canoa que ia da ilha de Santa Maria para a de Fernandina, Tinha algumas folhas secas que deviam ser muito apreciadas entre a sua gente pols eles ja me tinkam trazido algumas como presente em S, Salvador» (leger, 1965: 72). Parece accitivel que as efolhas secas» a que se refere Colombo fossem folhas de tabaco, nesse perfodo muito apreciado pelos povos nati- vos da América Central. No entanto, a planta pode ter sido introduzida na Europa por Francisco Hernandez, um médico espanhol gue havia sido nomeado por Filipe Il de Espanha para uma viajem de exploragao a0 México. Outros autores (Moitinho: 1931) defendem como decisive para a difusio popularidade do tabaco entre os europeus, as accoes de Jean Nicot e de Francis Drake. O primeiro, embaixador de Franga em Portugal por volta de 1560, teré entrado, em contacto com este produto a partir de um comer- Giante flamengo, ¢ dele teré feito oferta ao grio prior de Lisboa e a rainha Catarina de Médicis. Por este motivo 0 tabaco ficou conhecido como a «erva do Grao Prior» em } José Roberto do Amaral Lapa refere o significado que o tabaco teve na economia colonial portuguesa. Segundo este autor foi «durante muito tempo segundo aztiga de importancia nna balanca de exportagio brasileira, perdendo durante determ!- nada época apenas para o agucar, sendo produto altamente lucra- tivo para a coroa e os arrendatarios, permitindo variagoes trian. gulares no comércio portugues do atldtica». O tabaco, nomen domente a partir do século XVI, € no caso particular de Port gal, parece ter ganho um grande interesse comercial, constituin- do-se como um produto muito frequentemente utilizado pelos ‘mercacdlores portugueses para a obtengio de escravos e espec ras, respectivamente em Africa ¢ no Oriente. Portugal e a «erva da rainha» em Franca, paises que numa primeira fase 0 adoptaram com a protecgio que merece uma rara descoberta. A Francis Drake, atribui-se a res. ponsabilidade da sua difusao em Inglaterra, cujo habito de fumar cachimbo se tornou comum a partir dos finaig, do séc, XVI na corte da rainha Isabel. Independentemente da controvérsia que possa sus: citar a auséncia de provas documentais referentes a estes factos, um dado incontestavel 6 0 que se relaciona como. mode como a serva do gro priors numa primera fase comeca a ser consumida. & dado adquirido que o cachimbo, e em particular 0 cachimbo em ceramica, cons: tituiu © primeiro processo de inalagdo do fumo do tabaco, centre os europeus. A origem do cachimbo inscreve-se num processo cro- nolégico que remonta a periodos bastante recuados da histéria da humanidade. Desde a Pré-Historia qué este instrumento parece estar associado a formas rituais de consumo de produtos. A inalacio do fumo de diversas, substincias ¢ bastante anterior & introducao do tabaco na Europa, € 0 cachimbo aparece mesmo diversamente: ropresentado em vérios monumentos e espélios arqueo- logicos atribuiveis a periodos da civilizacéo egipcia e da ‘cultura greco-romana. Se se desconhece em absoluto 0 set cardcter funcional, nao sera de excluir a sua vertente pré- tica na inalagéo do fumo de varias substancias e plantas: recomendadas ao longo da histéria para a cura ou dimi- nuigio do sofrimento provocado por varias doenas?, No entanto, seré na época Moderna que o cachimbo, adquire a sua maior importdncia no contexto da socie- dade ¢ da cultura europeia, acompanhando ao longo dos séculos XVI, XVII € XVIII, 08 avangos, os recuos € as: momentos de maior permissidade ou de maior repressio_ da historia da introdugao do tabaco na Europa, A gene- zalizagio do uso do cachimbo, a par da generalizacio do. vicio de fumar, acabou por dar origem a uma inddstria’ artesanal de significativa expressio em paises como a Franca, Inglaterra e Holanda que criaram mercados- internos deste novo artefacto e um conjunto de circuitos comerciais de exportacdo de que dependiam varios mer cados de comercializacio e consumo do tabaco. Entre esses mercados encontrava-se 0 mercado portugues, datando desse periodo 0 conjunto de fragmentos ceré- micos de cachimbos que constituiu o motivo base para a realizagao deste nosso trabalho. 2,0 CACHIMBO EM CERAMICA BRANCA. (CAULINO): UMA CONCEPGAO DA EUROPA MODERNA © cachimbo em cerimica branca ou caulino uma inovacdo europeia proveniente de Inglaterra e cuja inspiracio se ficou a dever & observacio colhida a partir do uso que deste instrumento faziam os povos autécto- nes da América Central aquando da chegada dos pais 2 O consumo e inalagao de fumo sto uma pratica anterior & introduces do tabaco entre os europeus. Na Inglaterra o fumo_ de diversas plantas parece ter sido frequentemente aconselhado para o tratamento de diversas dores, entre as quais as di Be pelt. colonizadores. A necessidade do seu fabrico permanece associada as exigéncias de uma nova atitude resultante da introdugio do habito de fumar tabaco, e 0 seu uso con- feriu-Ihe o estatuto de instrumento imprescindivel a pose individual do «saber estar» na sociedade do séc. XVII? eger, 1965: 75). Sabe-se que recentes escavacies arqueoligicas por- fuguesas, nomeadamente as efectuadas em espacos urba- ‘os, tém exumado, em alguns casos, importantes conjun- tos destes artefactos, que no entanto, parecem perma- necer secundarizados numa escala de prioridades da investigacdo © dos estudos cerémicos relacionados com @ arqueologia. Efectivamente 0 cachimbo em ceramica branca ou caulino, parece ter sido sucessivamente prete- Fido em funcao dos tradicionais estudos ceramicos, facto que em muito dificulta uma anélise comparativa das tipo- logias surgidas em diferentes contextos arqueoldgicos. No ‘nosso pais esta dificuldade repercute-se a nivel de uma auséncia quase completa de bibliografia referente ao as- unto, Dai a necessidade de termos recorrido a um vasto leque de publicacdes disponiveis no estrangeiro, nomea- -damente em Inglaterra, onde os estucos relacionados com ‘© cachimbo ceramico constituem uma verdadeira espe- alizacio no campo da arqueologia. Especializacao essa, que alias, e em muitos casos, tem contribuido para um melhoramento e afinacdo de datacées relativas de contex- tos arqueolégicos da Epoca Moderna. Pelo exposto, pensamos que este nosso estudo poders estar enfermado de uma ceria limitagao, jé que como base de andlise comparativa tivemos exclusivamente tipologias de formas, decoragdes ou marcas de cachimbos encontra- dos em contextos arqueolégicos urbanos de Inglaterra Face a um total desconhecimento da realidade portu- ‘guesa sobre esta materia, e devido as extraordinarias afi- Iidades tipologicas dos cachimbos exumados na Casa do Infante com as formas, decoragdes e marcas impressas em cachimbos encontrados em escavagoes arqueolégicas de Inglaterra e da Holanda, fomos levados a concluir que ‘93 nossos exemplares so de proveniéncia estrangeira, fazendo parte de um comércio de importagdo que os Poriam a circular no mercado portugués. Tanto mais que € sobejamente conhecida a importancia que a indiistria ‘manufactureira do cachimbo ceramico teve nestes paises 2.0 cachimbo e 0 seu perfeito manuseamento constituiam ‘o século XVII um dos requisitos para se ser aceite na sociedade da capital Inglesa, Estava mesmo incluido entre as formas de Cortesia, chegando a haver professores para ensinar devidamen- tea sua utilizacio. 255 onde este objecto era fabricado de uma forma maciga, © que acabou, durante os sécs. XVII ¢ XVI, por dar origem a uma especializagio manufactureira, em muitos casos vocacionada para a exportacio e com algum sig- nificado econémico, No entanto a nossa duivida persiste: sera Portugal apenas um importador destes objectos, ‘ou existiria também algum centro produtor? Questo a que evidentemente, néo conseguimos responder por razbes Sbvias, mas que seria de todo importante aprofundar. 3. OS CACHIMBOS CERAMICOS DA CASA DO INFANTE (PORTO) © espélio de cachimbos ceramicos que fazem parte deste estudo sio provenientes das escavacdes arqueologi «as da Casa do Infante! e resultam de contextos integravel «cronologicamente no séc. XVII. A deposicdo estratigrafica estes artefactos e a sua articulagao com o restante espé- lio ceramico a eles associados, permite-nos uma datagao relativa concomitante com um momento de grandes trans- formacoes verificadas no edificio da alfandega que pare- ‘cem culminar entre 1656 ¢ 1667 (Barreira et alii, 1995). © agrupamento e anélise comparativa das formas, marcas € decoracoes induzem-nos a colocagio de uma hipétese cronolégica que poderé oscilar entre os séculos XVIL e XVIIL, sendo de registar, em casos pontuais, uma identificacdo completa quer da cronologia, quer do centro produtor. Assim, optémos por uma organizagio tipoldgica que teve em consideracao as variantes relacio- nadas com 0 tamanho e forma do fornilho; o tamanho forma da boquilha; as decoragdes impressas, ¢ as marcas de fabricante. Considerando que, como refere Ayato’, existem variacées no estilo e tamanho dos fornilhos ¢ variagées do tamanho das boquilhas, poder-se-4 correla- cionar essas variagdes com um processo evolutivo das alteragdes formais sofridas pelo cachimbo cerimico na época moderna, sendo o tamanho e capacidade do fornilho, por + 4 Intervengio Arqueolégica da Casa do Infante & um Projecto arqueolégico em curso desde 1991 e esté integrado no plano de remodelacies das instalagdes do Arquivo Hist6rico Municipal. A eoordenacao do projecto ¢ assegurada por Manuel Luis Real, Director do Departamento de Arquivos, ea direcgio dos trabathos arqueolgicos por Paulo Dordio e Ricardo Tel Na altura da apresentacio do «poster» que deu origem a0 sente texto, nas 3* Jornadas de Cerimica Medieval e Pés-Medie- val, constituiam a equipa arqueologica Anténio Luis Pereira (escavacio e registo), Isabel Alexandra Lopes (espélio metalico), Manuel Araijo (fotografia e registo), Paula Cristina Barreira (espélio ceraimico), Pedro Baere de Faria (espélio cerimico e dese~ rho} e Susana Cosme (escavagio ¢ registo; espdlio de vidro). Eric G. Ayato no seu livro intitulado «Clay Tobacco Pipes», Metiza de uma forma muito clara o processo de alteracio tipologica sofrida pelo cachimbo a partir de finais do sée XVI. ‘Segundo este autor, por volta de 1580 verifica-se a primeira alte acio do fornitho dos cachimbos, que evoluem para tima forma de wbarril inclinadow com uma base de assentamento lisa e uma ‘boquitha cujo dimetro nao ultrapassaria os 15mm. Por volta de 1640 o fornilho aumenta o seu didmetro e a boquilha permanece estacionéria. Apés esta data o fornilho altera a sua forma, tor- rnando-se mais largo e com maior capacidade, Simultaneamente 2 evolucio do pé de assentamento obedece a uma alteracio, adelgagando a partir do séc. XVIII, a medida que o fornilho aumenta o seu tamanho em altura. 256 ‘exemplo, influenciado e determinado pelo custo, facilidade ‘ou permissidade com que o tabaco era adquiride ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. No nosso caso, a meto- dologia utilizada teve em consideracdo um conjunto de principios frequentemente utilizades como critérios de classificagao. Estes basearam-se nos seguintes press postos: ~ De uma forma geral verifica-se uma evoluggo cro- nolégica que acompanha um sucessive aumento do tamanho do fornitho, que evolwi de uma forma arredondada, forma de wbarribs, para uma forma mais elegante, mais direita e com uma maior capa- cidade a nivel do contetido. 2~ As boquilhas, por sua vez, evoluem de modo inverso: quanto maior estas forem, mais antigo poder ser © cachimbo. A base de assentamento também poder reflec tir alteragdes com significado cronol6gico, Esta evolugio processa-se no sentido de uma dimi- nuigfo gradual do seu tamanho, tornando-se & medida que se caminhava para 0 século XVII, mais fina e agucada, 4— Por ultimo, as decoragdes ¢ marcas de fabri- cante s3o os elementos que permitem um maior grau de fiabilidade cronoligica, funcionando igeralmente como indicadores fidedignos na iden- tificagao do centro produtor e da data de fabrico. Sera, portanto, com base nestes critérios gerais, que sofrerio certamente de alguns defeitos ile imprecisio, que Proporemos uma primeira tenlativa de classificagio para 08 cachimbos ceramicos da Casa do Infante, 4. O UNIVERSO DE FRAGMENTOS DOS CACHIMBOS CERAMICOS DA CASA DO INFANTE © universo total des fragmentos de cachimbos seis- centistas exumados na Casa do Infante ronda os 800 frag- mentos distribuidos por cerca de 115 Unidades Estrati- gréficas. Um trabalho exaustivo de gabinete permitiu a Feconstituicio de 67 formas, das quais 46 dizem respeito a fornilhos completos ou parcialmente reconstitufdos; 15 a fragmentos que incluem partes da forma original do for- nilho ¢ dos arranques da boquilha; ¢ s6 apenas 7 exemplos dizem respeito a uma reconstituicéo ou visualizagio da forma completa do objecto original. Na sequéncia deste trabalho foi organizado um quadro expositivo com as diferentes formas ordenadas numerieamente € cujo abjectivo pretende um enqua- dramento ou aproximagio eronoligica, tendo por base 08 elementos formais e decorativos caracterizadores de ‘um processo evolutivo a nivel da tipologia dos objectos apresentados. Numa sequéncia a parte serio expostos os fragmentos que contém decoracoes ou marcas, nomeada- "mente os fragmentos de boquilhas cecoradas o marcas, impresses de fabricante, que sio aqueles que permitem, ou poderao permitir, uma maior fiabilidade classificativa em termos cronoligicos. De realgar ainda o facto de 65% deste universo constitwrido por 800 fragmentos se con- centrarem mum contexto a que corresponde o depésito D3* da Casa do Infante, deposit esse relacionado com uma fase de remodelagio efectuada no edificio entre 1656 ¢ 1667. O reduzido mimero de cachimbos decorados ou com marca de fabricante que constituem o espélio da Casa do. Infante coloce-nos perante uma dificuldade de andlise quase intransponivel, devido sobretudo a grande varie- dade de estilos e fabricos regionais existentes no sécuilo XVII. Quando os cachimbos nao s40 mareados as pistas de localizagio, datacio e origem de fabric sio quase nulas’, Dai a importincia que podera advir de uma con- textualizagio estratigrafica capaz. de permitir a colocagéo de uma hipétese cronolégica. O depésito D3 da casa do. Infante assume nesta inatéria um papel de grande rele- vancia, embora com 0 significado cronolégico caracterfs- tico das datagies relativas, Se tivéssemos como consideragao exclusiva éssa contextualizacdo estratigrafica, facilmente seria de supor que a grande parte dos cachimbos aqui em andlise pode- riam ser contemporineos dessa data. Contudo, as dif culdades inerentes a uma classificagao deste tipo aconse- Tham-nos a um conjunto de cautelas que nao sera de mais sublinhar. A inexisténcia de paralelismos consistentes e fiaveis, proprios de tm processo de investigacao credenciado pela experiencia e sistematizagio de resultados, nao nos per- mite o tratamento que seria desejavel em termos clas sificativos dos objectos aqui em andlise. Dai que o pre- sente texto, que alids surgi como o resultado de um: «Poster» apresentado as «Terceiras Jomadas de Cerf nica Medieval ¢ Pés-Mediovals, mais nao pretenda ser, do que o «alibi» para o langamento de um debate sobre ‘uma tematica inexistente em Portugal, mas que em muito poderé contribuir para a interpretagao cronoldgica relax cionada com contextos arqueologicos urbanos da Epoca) Moderna Nao sendo Portugal, ao que parece, um pais. com fradigio nesta industria manufactureira, as dificuldados 36 poderio ser colmatadas através de um intercambio de nformacdes com especialistas de outros paises, e como ji foi referido, em particular com os arquedlogos espe- Galizados nesta matéria de paises como a Inglaterra ow: Holanda, onde o assunto tem sido amplamente discutida € publicado. Da nossa parte apenas pretendemos deixar: ‘uma contribuigdo inicial, © nfo excluizemos futuras com testagSes ou discusses que os presentes resultados possam vir a suscitar. 0 depsito DS da Casa do Infante relactona-se «com a ‘obra da allindega nova dative de entre 1655 e 1677», Este dept sito encontra-se adequadamente caracterizado num artigo puble cado nas wActas das segundas jomadas de Cerdmica Medieval € Pos-Mesievale, intitalago 200 anos de cernicu a Casa do fs sée XVI a meudes do Séc. XVI (Barvira et ali) ? Seguncio D.A. Higgins quando nao existe marcacKo 905 cachirabos que cansitiem © abjeto de um qualquer study sstes deverio ser agrupados tipologicamente ¢ distinguidos fangio de uma comparagio exaustiva capar de captar vétis detalhes a fim de se perceber se s4o ou nfo do mesmo moldes Face as dificuldades neste tipo de estudos, o autor adverte para 6 facto de a proliferagio de diferentes formas ou tipos nos pode rem revelar a complexiticagio desta windtstrian no sé pelo que uma alteracio signiicativa a nivel da forma ‘nto ter um grande signifieado em termos cronoldgicos 5, APROXIMAGAO CLASSIFICATIVA, As 71 pecas que constituem a amostragem deste estuclo foram distribuidas em fungio de 9 grupos que obedeceram a critérios formais nao estanques relacio- nados quer com o tamanho da base de assentamento dos cachimbos, quer com o tamanho e as impresses segistadas a nivel dos fornilhos. Numa segunda anélise tem-se em consideracdo os elementos decorativos detec- tacos em fragmentos de boquilhas e a totalidade das ‘marcas inventariadas. Grupo 1 - 0 elevado gran de fragmentacdo dos eachimbos apresontados neste grupo no permite nenhu- ‘mas consideragées interpretativas, quer da sua cronolo- gia, quer da sua proveniéncia. O tinico elemento formal aqui considerado é a base de assentamento. Esta podera reflectir alteragées com significado cronolégico, quando evolui no sentido de uma diminuiglo gradual do seu tamanho. Quanto menor este for, mais recente poderd ser a peca considerada. Nesse sentido, os fragmentos numerados de 1 a 7 poderdo ser mais antigos que os numerados de 8 a 12. Uma observacio particular paderé ser feita em relacio ao fragmento 12 que presenta um pé de assentamento tipicamente caracteristico dos inicios do século XVIII. Todas as restantes pecas do grupo 1 Fednem a nivel da base de assentamento uma tipologia que surge a partir dos anos 40 do sé. XVIL Grupo 2~ Estes fornilhos redinem um elemento deco- rativo comum baseado num conjunto de cinco pontos em relevo com uma organizacao em cruz, sittada na parte inferior do fornilho, imediatamente a seguir 4 base de assentamento, Este conjunto de pequenos pontos poder ser concebido como uma estlizagio da «Rosa Tudor», euja provivel origem & holandesa (Le Chaminante, 1997: 134), A nivel tipol6gico 0 conjunto das pecas representa- das de 13 a 18 s40 uniformizadas a partir deste elemento decorativo, apesar das ténues variagdes formais. possi- veis de destringar em cada uma das pecas que formam este agrupamento. Grupo 3 ~ A presenca de um «anel serrilhado»' na Parte superior dos fornilhos numerados de 19 a 22 servit €omo,critério para a formagao do grupo 3, apesar das Sbvias diferencas registadas a nivel da forma de cada um © A configuragio mais estreita ou pontiaguda do pé ou base de assentamento poders, quando associada a um fornilho de grandes dimensies e com linhas direitas ¢ clegantes, consti- tuir uma associagio de elementos formals com o significado cro- Aolégico aqui esbocado hipoteticamente. 0 autor define alguns cachimbos com a «Rosa Tudor» Jmpressa no forrilho como sendo de proveniéncia inglesae perten- centes 8 segunda metade do sée. XVIL. Contudo, sendo «Rosa Tudor de proveniéncia Holandesa e portanto mais antiga do que a ingles, io defxaremos de colocat a hipétese dos fornhos apre- Ssentados no grupo 2 poderem ser holandeses e de um periodo ligeiramente anterior 4 segunda metade do see. XVIL 1 Q «anel serrilhado» é um elemento decorative que envolve a parte superior dos fomilhos dos cachimbos cerdmi- 60S. Surge em 1610 e mantem-se como uma constante até final do secu, 257 deles. Trata-se de cachimbos com cronologias diferentes € possivelmente com diferentes proveniéncias, pelo que 0 elemento uniformizador deste grupo perde qualquer sig- nificado cronolégico. Uma aproximacio & data de fabrico © ao centro produtor s6 seria possivel a partir de uma comparagio exaustiva, trabalho que no nosso caso € im- possivel de realizar por raz6es ja neste texto expostas. Assim, resta-nos colocar a hipétese de uma maior antigui- dade do cachimbo representado pelo fragmento 19, em comparagio com 0 20, jé que se verifica uma ligeira alte- ragio formal a nivel dos seus fornilhos: a forma mais bojuda e arredondada e com menor dimensio da pega 19, diferencia-se do fornilho n° 20, claramente mais ele- com linhas mais direitas. Ambos poderao ter sido ados na segunda metade do século XVII". © fornitho representado no miimero 21 6 um dos poucos exemplos em que a sua tipologia e centro pro- dutor péde ser detectado por comparagao. Neste caso 03 resultados obtidos na identificagao revelaram-se mais elucidativos. Segundo Peter Davey"? (Davey, 1985: 171, fig. 1, n° 4), 08 cachimbos andlogos ao representado no grupo 3 n° 21, com formas arredondadas e pronuncia- damente bojudas, com fornilhos de pequenas dimensdes e um serrithado na sua parte superior, podem ser de origem londrina e fabricados entre 1620 e 1650. Ja no caso do n° 22, também em parte devido ao seu elevado grau de fragmentagio, foi completamente impossivel uma qualquer hipotese de Aambito cronol6gico. Grupo 4 ~ Os fornithos 23 ¢ 24 caracterizam-se pelo antagonismo das suas formas. No entanto é-lhes comum a sua grande capacidade a nivel do contetido. A cronolo- gia proposta, tendo em consideracao os exemplos ingle- ses, € a segunda metade do século XVI. Grupo 5 ~ Também este grupo apresenta formas bas- tante variadas, cuja caracterfstica comum diz respeito & reduzida dimensio dos fornilhos. Tendo em conside- racéo exclusivamente esta caracteristica, a cronologia Proposta é primeira metade ou meados do século XVII (Mann, 1977: 12). Grupo 6 ~ Aparentemente incongruente este grupo rio deixa de apresentar caracieristicas comuns unifor- mizadoras. Com excepcio do n° 29, que devido a sua peculiaridade formal nos alheamos de sugerir qualquer hipotese cronoligica, os restantes, numerados de 30 a 32, evelam-se com compleigdes proprias do final da cen xia seiscentista. O n” 30 com linhas curvas pouco acen- tuadas, quase direitas, revela uma elegancia estilfstica bastante comum nos fabricos originarios de Chester, Inglaterra, e poderé ter sido fabricado entre 1710 ¢ 1730 (Davey, 1985: 182, fig, 7, n® 52). On? 31 também apre- senta linhas de uma tipologia tardia, com uma base de assentamento reduzida condizente com formas bastante AA Dibliografia utilizada nesta classificacio no permitiu dletectar tipologias capazes de colocar uma hipétese cronolégica ‘mais balizadora, ¥ Peter Davey dirigia em 1985 uma das mais importantes publicagGes inglesas sobre cachimbos cerimicos aparecidos em contextos arqueoligicos ingleses. Ver bibliografia deste artigo, 258 habituais no final do século XVII. O mesmo acontece com 0 n? 32 que constitui o exemplo slustrativo de uma transigao estilfstica de pouca duragio verificada em Inglaterra no final do século XVII (Higgins 1985: 544, fig, 5, n° 48). Grupo 7 ~ A forma mais completa dos cachimbos que fizeram parte deste estudo é a peca 33. Devido as suas caracteristicas este cachimbo poder-se- inserir numa cronologia préxima de meadios do séc. XVIL O fornilho & de dimenséo média com uma curvatura da linha exterior ligeiramente acentuada, O pé de assentamento é caracte- ristico da cronologia apontada e a sua boquilha parece nfo apresentar um comprimonto oxagerado, Grupo 8 - Este grupo ¢ 0 mais uniforme desta nossa tentativa de associagao formal. Neste caso especifico pode- remos afirmar que os cachimbos 34 e 35 slo iguais, ¢ as suas caracteristicas, com fornilhos de média dimensao, bojudamente acentuados, com uma larga base de assen- tamento boquilhas médias, poder-Ihe-4o conferir uma cronologia que em associagio com tipos similares ingle- ses 08 radicam cronologicamente entre 1650 e 1670 (Jarvis 1983: 85, fig. 38, n° 10), Grupo 9 ~ As semelhancas encontradas entre as pecas numeradas de 36 a 39 dizem respeito ao seu aspecto evo- lutivo, Efectivamente, se comparado com o grupo 8, por exemplo, poderemos constatar que se verifica uma evo- lugdo no sentido de uma alteracio das caracteristicas dos fornilhos. Estes adquirem um aspecto mais elegante, as suas dimensdes auimentam e as linhas do seu perfil adqui: rem uma configuragio mais recta. Atendendo a estas variagdes formais, e tendo em consideracio os critérios gerais de classiticacao por nds utilizados, poder-se-a colo- tar a hipdtese de este grupo ser mais tardio do que o stupo 8. Apesar de nao terem sido encontracios paralelos adequados na bibliografia consultada, nao seri despro- positado aventar a hipdtese dos cachimbos apresentados neste grupo terem sido fabricados durante os finais do séc. XVII ow inicios do séc. XVIII. A sua proveniéncia é contudo clesconhecida, Decoragées~ A totalidade das decoragdes encontra- das no espélio que constitui a coleccio dos cachimbos cerdimicos exumados na intervencio arqueolégica da Casa do Infante surgem em fragmentos de boquilha. © seu elevado grau de fragmentagao nao possibilitou um traba- Iho muito elaborado a nivel interpretativo. Contudo, cons- tata-se a existéncia de dois tipos bem diferenciados de decoragdes: um de contomos mais vegetalistas, e outro com uma configuracao mais geometrizante. Ao primeiro caso pertencem os motivos numerados de 40 a 53, Fig. 1, que poderdo ter uma Proveniéncia Holandesa (Atkim et ali 1985: 350); a0 segundo, Fig. 2, os motivos numerados. de 54 a 62, que tal como o anterior, poderdo ter a mesma proveniéncia (Allan 1984: 288); (Markel, 1992: 174). Marcas - As marcas, geralmente impressas na base de assentamento dos cachimbos, podem revelar elemen- tos importantes sobre a origem do fabricante, do consu- idor ou da data de fabrico, Estas eram constitufdas por simbolos ou iniciais de nomes, e representavam marcas, comerciais relacionadas quer com © produtor, quer com © consumidor, constituindo assim uma referencia da qualidade do artigo nos circuitos comerciais (Cheminante, 1997: 127). No total foram inventariadas nove marcas e apenas ‘uma pode ser associada a um centro produtor. A identi- ficaglo precisa da origem de um eachimbo ¢ © seu ano, de fabrico € possivel de obter a partir destes elementos, No entanto, 56 um trabalho de pesquisa mais dilatado no tempo e que implicasse um conjunta de intercimbios com especialisias desta drea de investigacao de outros paises, poderia permitir resultados mais objectivos. Tal néo foi 9 caso na preparagio deste trabalho, pelo que, e como ji foi referito, udu wnisidesesius eaten reaulladus COMO COR clusivos, ficando em aberto uma futura continuidade. Um elemento comum que permanece associado as marcas aqui apresentadas diz respeito tipologia. dos cachimbos onde estas estdo impressas. Cachimbos esses que como testemunham os seu fornilhos mo slo de grande: dimensio, podendo ser enquadrados na primeira metade ou meados do século XVII £0 caso do n° 63 que apresenta um Fornilho de média imensio, com anel serrilhado junto a0 «bordo» e uma base de assentamento média (de transic&o?), onde aparece impressa a marca AL (Fig. 3). A sua proveniéncia e cro- nologia néo foram identificads. © n? 64, embora bastante fragmentado, poderd ser escrito como um forilho menos elegante, sendo de acen- tuar a elevada curvatura da linha exterior do seu desenho. Este aspecto «barrigudo» ¢ frequentemente considerado como uma caracteristica formal de radicagto cronol6gica ‘mais antiga (I? metade do séc. XVII). Na base de assen tamento aparece impressa a marca IS (Fig. 4) (Tatman, 1985: 366)", Tendio em consideragio que a marca IS pre- valece durante décadas com diferentes repesentacées, 0 que poderé equivaler a diferentes centros produtores & datas de fabrico, no foi possivel classificar 0 nosso exem> plo com o rigor desejado, © forntho n° 65 distingue-se pela proporcionalidade da sua forma. O seu tamanho & mediano, nio muito bojudo e com um anel serrithado bem vineado junto aa bordo. Na base de assentamento, embora fragmentada, pode observar-se a «Rosa Tudor» (Fig. 5) estilizada. A sua proveniéncia poders ser holandesa. O fragmento 66 (Fig. 6) nfo permite qualquer des- crigdo tipologica. A base de assentamento apresenta uma ‘area pouco habitual, em que uma mulher (uma vénus?) € representada. A Cronologia e centro produtor sio des- conhecidos. 0 fragmento de boquilha n° 67 (Fig. 7) exibe uma «flor de Lis» impressa em baixo relevo. A proveniencia poderd ser holandesa e 0 cachimbo de que fazia parte ter sido fabricado entre 1640 e 1660 (Le Cheminant 1981: 132). ‘A Tuva impressa na base de assentamento do frag mento n® 68 (Fig. 8) & uma marca atribuida a familia gautless de Ambsberry, Inglaterra, que possuia uma 8 Encontrou-se um paralelo para a marea IS num artigo de Colin Tatman initulado «Stamp and Mouldings in Clay Pipes Foud in London, No entanto, quer a moldira do pe de assentar mento quer a tipologia do fornilho onde esta estava impress amtagonizamse com as caraceristcas formas do nosso exerpl fabrica de cachimbos em laboracio durante a segunda ‘metade do séc. XVII. Esta marca, com algumas variagbes estilisticas, foi muito utilizada no Sul da Inglaterra (Higgins 1985: 437). © fornilho n° 69 possui extraordinérias semelhancas formais com o fornilho n° 28 do grupo 5. A tinica dife- renga reside no facto do presente exemplo exibir uma marca impressa onde é representada uma «mao com pena». Também neste caso nao foram detectados o centro produtor e a data exacta do seu fabrico. Ocxemplo 70 poder-se-4 descrever como tum fornilho ‘onde esté patente uma ligeira evolucio formal. Embora bastante fragmentaco, as suas linhas parecem exprimir ‘uma tendéncia de transformagio estil ‘nos mais elegantes. A marca S$ aparece impressa ao cimo de um pequeno rectangulo em salto relevo». A Provenién- ia e data de fabrico sio desconhecidas. Por tiltimo o fornitho 71 contém na sua base de assen- tamento uma marca com as iniciais BDTH (Fig. 10) representativas de um centro produtor ou consumidor, ‘Também neste caso néo foram encontrados paralelos capa zes de permitirem colocar uma hipétese interpretativa teferente a0 local e data do seu fabrico. 6. CONCLUSAO. A grande variedade e fragmentagio do material que constitu o universo dos cachimbos ceramicos da Casa do Infante colocou-nos perante um conjunto de dificuldades que seguramente nao foram ultrapassadas. Por outro lado encontramo-nos num terreno nunca dantes trilhado pela investigacéo arqueolégica em Portugal, 0 que inevitavel- mente contribuiu para acentuar essas mesmas dificul- dades. No essencial 0 que pretendiamos realizar era um inventério, que s6 assumiu um carécter mais classifica- tivo devido ao recurso que fizemos de um conjunto de artigos e publicagdes exclusivamente de origem inglesa E este poderd ter sido o nosso primeiro problema. Efec Vamente ao centrarmos a nossa ateng4o em tipologias recolhidas em bibliografia britinica, poder-nos-a ter esca- ado aspectos cruciais e indispensiveis a uma mais cor- recta anélise. Possivelmente os resultados teriam sido mais conclusivos se tivéssemos tido a orientagio de um espe- ialista no assunto, ou mesmo se tivéssemos tido a possi- bilidade de consultar 0 que sobre o tema se publica na “Holanda ou em Franca. Por isso mesmo convém subli- har que este nao é um trabalho conclufdo ¢ que a ele voltaremos sempre que tal se justifique. No entanto, parece-nos importante referir que 0s exemplos das pecas aqui apresentadas se poderio enqua- drar numa cronologia geral que, salvo um ou outro €as0, variaré entre os anos 40 ¢ as iiltimas décadas do ‘sé. XVII. © mesmo no poderemos afirmar em relagio as suas otigens. Se por um lacie concebemos como possi- Vel facto destes objectos fazerem parte de um comércio de importagao realizado a partir de Inglaterra, nio pode- Femos excluir as grandes semelhancas decorativas que alguns deles tém com exemplos caracteristicos de um fabrico holandés. Assim sendo acreditamos que sé um trabalho mais aprofundado, colaborado e sistematizado Permitiré extrair conclusdes menos embrionérias do que que neste texto so apresentadas, BIBLIOGRAFIA ALLAN, |. P. (1884) ~ Medieval and Post-Medieval Finds from Exeter, 1971-1980, Exeter, Exeter City Council and the Uni versity of Exeter, pp. 283-293, 354-365 (Exeter Archaeclo- gical Reports: Volume 2) ATKIN, 8; DAVEY, P. (1995) ~ Clay Pipes from a 17'-Century Well/Cesspit on St. Stephen's Street, Norwich. ti: The Archeology of the Clay Tobacco Pipe. IX, More Pipes from the Midlandas and Southern England, Oxéord, Peter Davey (BAR British Series, 146), pp. 309-325 AYTO, E.G. 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