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O MARTÍRIO DOS INOCENTES

– A dor, uma realidade da nossa vida. Santificação da dor.

– A cruz de cada dia.

– Os que sofrem com sentido de corredenção serão consolados por Nosso Senhor. Devemos
compadecer-nos das dificuldades e dores dos nossos irmãos e ajudá-los a superá-las.

I. HERODES, AO VER que os Magos o tinham enganado, irritou-se em


extremo e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e seus
arredores, de dois anos para baixo, consoante o tempo que cuidadosamente
tinha averiguado dos Magos1.

Não há uma explicação fácil para o sofrimento, e muito menos para o de um


inocente. O relato de São Mateus que lemos na Missa de hoje mostra-nos o
sofrimento, à primeira vista inútil e injusto, de uns meninos que dão a sua vida
por uma Pessoa e por uma Verdade que ainda não conhecem.

O sofrimento é causa frequente de escândalo e levanta-se diante de muitos


como um imenso muro que os impede de ver a Deus e de compreender o seu
amor infinito pelos homens. Por que Deus todo-poderoso não evita tanta dor
aparentemente inútil?

A dor é um mistério e, no entanto, o cristão descobre nas trevas do


sofrimento, próprio ou alheio, a mão amorosa e providente de seu Pai-Deus –
que sabe mais e vê mais longe –, e entende de alguma forma as palavras de
São Paulo aos primeiros cristãos de Roma: Todas as coisas contribuem para o
bem dos que amam a Deus2, mesmo aquelas que nos são dolorosamente
inexplicáveis ou incompreensíveis.

Não devemos esquecer-nos também de que nem sempre a nossa maior


felicidade e o nosso bem mais autêntico estão naquilo que sonhamos e
desejamos. É-nos difícil contemplar os acontecimentos na sua verdadeira
perspectiva: só captamos uma parte muito pequena da realidade; só vemos a
realidade daqui de baixo, a imediata. Tendemos a encarar a existência terrena
como se fosse a definitiva, e com certa frequência consideramos o tempo desta
vida como o período em que deveriam realizar-se e ser saciadas as ânsias de
perfeita felicidade que se encerram em nosso coração. “Hoje, passados vinte
séculos, continuamos a comover-nos ao pensar naquelas crianças degoladas e
nos seus pais. Para as crianças, o transe foi rápido; no outro mundo, não há
dúvida de que souberam imediatamente por quem tinham morrido, como o
tinham salvo e a glória que os acolhia. Para os pais, a dor foi com certeza mais
longa, mas, quando morreram, compreenderam também como Deus, que
estava em dívida com eles, paga as dívidas com juros. Tanto estes como
aquelas sofreram para salvar Deus da morte...”3

A dor apresenta-se de muitas formas, e em nenhuma delas é


espontaneamente querida por ninguém. No entanto, Jesus proclama bem-
aventurados4 os que choram, ou seja, os que nesta vida carregam um pouco
mais de cruz: doença, invalidez, dor física, pobreza, difamação, injustiça...
Porque a fé muda a dor de sinal; levando-nos para junto de Cristo, transforma-
a numa “carícia de Deus”, em algo de grande valor e fecundidade.

Estes foram resgatados dentre os homens como primícias oferecidas a


Deus e ao Cordeiro. Estes são os que seguem o Cordeiro aonde quer que Ele
vá5.

II. A CRUZ – a dor e o sofrimento – foi o instrumento que o Senhor utilizou


para nos redimir. Poderia servir-se de outros meios, mas quis redimir-nos
precisamente através da Cruz. Desde então, a dor tem um novo sentido, que
só se compreende quando se está junto d’Ele.

O Senhor não modificou as leis da criação: quis ser um homem como nós.
Podia ter suprimido o sofrimento, e, no entanto, não o evitou a si próprio.
Alimentou milagrosamente multidões inteiras, e, no entanto, quis passar fome.
Compartilhou as nossas fadigas e as nossas penas. A alma de Jesus
experimentou todas as amarguras: a indiferença, a ingratidão, a traição, a
calúnia, a dor moral que o afligiu em grau supremo ao assumir os pecados da
humanidade, a morte infamante na Cruz. Seus adversários estavam admirados
porque a sua conduta era incompreensível: Salvou outros – diziam em tom
irônico – e não pode salvar-se a si próprio6.

O Senhor quer que evitemos a dor e que lutemos contra a doença por todos
os meios ao nosso alcance; mas quer, ao mesmo tempo, que demos um
sentido redentor e de purificação pessoal aos nossos sofrimentos, mesmo
àqueles que nos parecem injustos ou desproporcionados. Esta doutrina
cumulava de alegria o Apóstolo São Paulo, que assim o manifestava da prisão
aos primeiros cristãos da Ásia Menor: Agora alegro-me com os meus
padecimentos por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de
Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja7.

A dor não santifica aqueles que sofrem nesta vida por causa do seu orgulho
ferido, da inveja, do amor próprio, etc. Quanto sofrimento fabricado por nós
mesmos! Essa cruz não é a de Jesus, e surge precisamente por se estar longe
dEle. Essa cruz é nossa, e é pesada e estéril. Examinemos hoje na nossa
oração se levamos com garbo a verdadeira Cruz do Senhor.

Esta Cruz verdadeira consistirá frequentemente em pequenas


contrariedades que aparecem no trabalho, na convivência: pode ser um
imprevisto com que não contávamos, o carácter de uma pessoa com quem
necessariamente temos de conviver, planos que devemos mudar em cima da
hora, instrumentos de trabalho que se estragam quando nos eram mais
necessários, dificuldades causadas pelo frio ou pelo calor, incompreensões,
uma pequena indisposição física que nos tira um pouco da nossa capacidade
de trabalho...

A dor – pequena ou grande –, quando aceita e oferecida ao Senhor, produz


paz e serenidade; quando repelida, deixa a alma desafinada e a braços com
uma íntima rebeldia que se manifesta imediatamente em forma de tristeza ou
de mau humor. Temos que tomar uma atitude decidida perante a pequena cruz
de cada dia. A dor pode ser um meio que Deus nos envia para purificar tantas
coisas da nossa vida passada, ou para experimentar as nossas virtudes e unir-
nos aos padecimentos de Cristo Redentor, que, sendo inocente, sofreu o
castigo que os nossos pecados mereciam.

Ó Deus, hoje os Santos Inocentes proclamaram a vossa glória, não com


palavras, mas com a sua própria morte; concedei-nos por sua intercessão que
possamos testemunhar com a nossa vida o que professamos com os nossos
lábios8.

III. OS MENINOS INOCENTES foram mortos por causa de Cristo. Eles


seguem assim o Cordeiro sem mancha e cantam: Glória a Vós, Senhor9.

Os que padecem com Cristo terão como prémio a consolação de Deus nesta
vida e, depois, a grande alegria da vida eterna. Muito bem, servo bom e fiel...,
vem participar da alegria do teu Senhor10, dir-nos-á Jesus no fim da nossa vida,
se tivermos sabido viver as alegrias e as penas unidos a Ele.

Aos bem-aventurados, o próprio Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos,


e a morte deixará de existir, e não haverá luto, nem pranto, nem fadigas,
porque tudo isso terá passado11. A esperança do Céu é uma fonte inesgotável
de paciência e de energia para os momentos de sofrimento intenso.
Comparado com a recompensa que Deus nos preparou, o peso das nossas
aflições deve parecer-nos leve12.

Além disso, aqueles que oferecem a Deus a sua dor são corredentores com
Cristo, pois Deus Pai sempre derrama sobre eles uma grande consolação, que
os enche de uma paz contagiosa no meio das suas penas. Porque, assim
como nos chegam em abundância os padecimentos de Cristo, assim também
por Cristo é abundante a nossa consolação13. Ao dirigir-nos essas palavras,
São Paulo sente-se consolado pela misericórdia divina, e isso permite-lhe
consolar e animar os outros, transmitindo-lhes a certeza de que Deus Pai está
sempre muito perto dos seus filhos, especialmente quando sofrem.

Pode às vezes acontecer que, perante uma situação dolorosa que atinge
determinada pessoa, não saibamos como actuar. Um bom meio para termos
luz abundante será recolher-nos por uns instantes em oração e perguntar-nos o
que o Senhor faria nas nossas circunstâncias. Umas vezes, bastará fazer um
pouco de companhia a essa pessoa, outras conversar com ela em tom positivo,
animá-la a oferecer a sua dor por intenções concretas, ajudá-la a rezar alguma
oração, escutá-la, etc.
Quando nestes dias tantas pessoas se esquecem do sentido cristão destas
festas, nós procuraremos usar da luz e do sal das pequenas mortificações, na
certeza de que assim daremos uma alegria ao Senhor e contribuiremos para
aproximar da paz do Presépio muitas outras almas.

A contemplação frequente de Maria junto à Cruz de seu Filho ensinar-nos-á


a oferecer a Deus as nossas dores e sofrimentos, e a ter sentimentos de
grande compaixão pelos que sofrem. Peçamos-lhe hoje que nos ensine a
santificar a dor, unindo-a à do seu Filho Jesus.

(1) Mt 2, 16; (2) Rom 8, 28; (3) Frank J. Sheed, Conocer a Jesucristo, Epalsa, Madrid, 1981,
pág. 73; (4) Mt 5, 5; (5) Apoc 14, 4; Antífona da comunhão da Missa do dia 28 de Dezembro;
(6) Mt 27, 42; (7) Col 1, 24; (8) Colecta da Missa do dia 28 de Dezembro; (9) Antífona de
entrada da Missa do dia 28 de Dezembro; (10) cfr. Mt 25, 3; (11) Apoc 21, 3-4; (12) cfr. 2 Cor 4,
17; (13) 2 Cor 1, 5.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)