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Aulas 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14

Os exercícios de revisão apresentam como objetivo básico a prática dos conteúdos já


trabalhados ao longo deste percurso. Eles foram elaborados de forma que o estudante se
oriente globalmente pelos diversos conteúdos do material didático, realizando pesquisa e
(inter) conexões importantes para a confecção das respostas.

1) Utilizando-se do excerto abaixo, discorra sobre a diferença entre fonema/letra e


fonema/fone/alofone.

(Fonte:Youtube)

RESPOSTA:
Fonema é um sinal acústico capturado pelo nosso sistema auditivo, enquanto a letra é um
recurso artificial ou cultural utilizado para sinalizar os sons na escrita. Deve-se considerar que não
há equivalência entre som e letra, pois pode ser que uma palavra apresente maior quantidade de
fonemas do que de letras como, por exemplo, “hora” (quatro letras: h/o/r/a > três fonemas o/r/a). Já
a relação entre fone e fonema diz respeito as características de realização e distinção, pois o
primeiro é a realização dos sons de uma língua e o segundo quando assume uma capacidade
distintiva no sistema, torna-se uma unidade abstrata da língua. Por fim, os alofones podem ser
definidos como a variação dos sons ou as possíveis realizações de um som específico em um
ambiente sonoro e articulatório comum.
Considerando-se o excerto, a palavra “NOZ” apresenta um equívoco da relação grafia/letra e
som, pois oficialmente, se grafa o pronome da primeira pessoa do plural com s e acento agudo
“nós”. Há uma diferença também quanto a quantidade de letras e sons: 3 letras e 4 fonemas,
considerando-se a presença do ditongo (vogal e semivogal). No que tange aos alofones, o estudante
deverá reconhecer a variação de pronúncia fonética do fonema fina s (mineiro vs. carioca, por
exemplo). Ainda sobre alofone, a hipótese do falante possivelmente foi a de que a grafia de “nós”
sonoramente fosse grafado como a de “capaz”, em que a letra z também serve como sinal ao
fonema s em português.
2) Tendo em vista os modelos teóricos sobre aquisição da língua oral, considere as afirmativas e
marque com a opção correta correspondente:

(A) Behaviorismo (B) Gerativismo (C) Sociointeracionismo

(B) A aquisição de língua oral deve-se antes a uma capacidade biológica inata em que a
criança é capaz de construir sentenças inéditas e reproduzir sentenças conhecidas por processos de
recursividade, de princípios e fixação de parâmetros linguísticos.
(A) A língua oral é aprendida na interação, por força de processos e padrões de sugestão e
repetição de expressões linguísticas para fins comunicativos locais. O reforço comunicativo no jogo
da interação possibilita a aquisição da gramática em sua primazia oral.
(C) A língua oral é adquirida pela criança por meio da interação verbal e do uso social da
língua. Tais fatores possibilitam o cruzamento entre linguagem e pensamento para a organização
sociocognitiva das experiências de mundo, incluindo a potencialidade das ações linguísticas pela
oralidade, como nomear e apontar por exemplo.

3) Do ponto de vista do senso crítico, dizer que o “português é uma língua difícil” é verdadeiro ou
falso? Justifique a sua resposta, considerando o excerto abaixo.

(Fonte: Facebook)

RESPOSTA: Gabarito aberto.


A dificuldade de se aprender uma língua estrangeira é natural diante da organização de um
sistema linguístico diferente da língua materna do aprendiz. Pode ser que pela proximidade genética
das línguas, seja mais fácil para um brasileiro falante de português aprender italiano do que alemão,
por exemplo. De todo modo, a aprendizagem de uma língua estrangeira demanda tempo e
dedicação. No que se refere ao estudo da língua materna pela aprendizagem formal em contexto
escolar, a ideia de que “português é difícil” não procede. O estudante se vê como um estrangeiro em
seu próprio idioma, o que diz respeito a uma dificuldade estrutural da escola e da sociedade em
apresentar democraticamente uma formação que contemple a gramática da oralidade e a gramática
da escrita, suas intersecções, a formação de hábitos de leitura, o acesso a textos que circulam
socialmente em sua heterogeneidade discursiva, favorecendo tanto o lugar da cultura popular,
quanto da cultura erudita como tópicos de experiência com a linguagem. Um ensino pautado em
regras, focado na escrita erudita lusitana ou de escritores brasileiros que escreveram um português
já distante mesmo do nosso português escrito contemporâneo não permite que o aluno se sinta
inserido como alguém capaz de refletir sobre ‘sua língua’.

4) Por que não podemos confundir a gramática da oralidade com a gramática da língua escrita? Em
sua argumentação, utilize-se de fenômenos relacionados a pronúncia fonética/ ortografia e a
(morfos)sintaxe para explicar que, afinal de contas, a oralidade e a escrita são modalidades de
expressão linguística com características próprias, muito embora sujeitas a interferências mútuas.

RESPOSTA: Gabarito possível.


A escrita não é um reflexo objetivo da oralidade. Os processos de fala constroem usos
linguísticos diferenciados daqueles encontrados em uma escrita planejada. Evidências disso podem
ser encontradas na pronúncia fonética e na morfossintaxe. A pronúncia na fala tende a reduzir
palavras, por exemplo, como na forma de tratamento “você” que em registros orais informais pode
ser pronunciada como “ocê” ou “cê”. A pronúncia tende a realizar fonemas não sinalizados na grafia
das palavras, como o ditongo [ey] em “estar bem”. Já na morfossintaxe, usamos com frequência o
pronome nominativo em posição de objeto direto “João viu ela chegar”, na escrita, tendemos ainda
a recuperar pela aprendizagem formal escolar uma gramática que já não temos internalizada “João
a viu chegar”.

5) Apresente três casos de interferência da oralidade na escrita e, em seguida, avalie o impacto dos
fenômenos exemplificados na aprendizagem da escrita, em processos de letramento escolar.

RESPOSTA:Gabarito aberto. O estudante poderá coletar exemplos no material didático para


desenvolver sua reflexão.

6) Sabemos que o uso da língua está sujeito a avaliação social positiva ou negativa. Exemplifique
usos sociais da língua que são avaliados negativamente e reflita sobre a relação entre língua x
estigma x classe social x escolarização.

RESPOSTA: Gabarito aberto.


O estudante deverá refletir sobre formas desprestigiadas socialmente como a ausência de
marca de plural “os menino” presente na fala popular. A valoração negativa da ausência de marca de
plural, contudo, não compreende que a fala popular segue princípios específicos como este em que
o plural pode ser marcado no determinante, sem a redundância de ser no determinante e no núcleo
do sintagma nominal. Sabemos, pois, que o valor atribuído a língua tem relação com o capital
linguístico em que vivemos e não com parâmetros científicos sobre a língua, mas, sobretudo,
preconceito linguístico e preconceito de classe social.

7) Sabemos que um dos papéis centrais da escola está na construção de um repertório linguístico
que possibilite ao aluno o uso da língua de prestígio para a emancipação social. Nesse sentido,
exemplifique usos linguísticos de prestígio a serem aprendidos na escola, contextualizando-os.

GABARITO ABERTO

8) Atente-se ao excerto disponível abaixo e, em seguida, responda ao que se pede:

(Fonte: Facebook)

O excerto corresponde a um contexto real de uso da língua em mídia digital e se trata de


uma avaliação a respeito de um serviço prestado. Podemos afirmar que o avaliador tem domínio da
tecnologia da escrita com base nos dados do texto apresentado? Caso a sua resposta seja afirmativa,
justifique com elementos do texto o que caracteriza o domínio da cultura escrita. Caso a sua
resposta seja negativa, reescreva o texto na modalidade escrita culta, e, depois, justifique as
mudanças realizadas.

RESPOSTA: Apesar da dupla possibilidade de resposta, o estudante deverá entender que a


resposta correta é “não”. O avaliador não apresenta pleno domínio da escrita pelos seguintes
motivos: (i) ausência de pontuação (vírgulas), (ii) presença de marcadores discursivos prototípicos
da fala espontânea (“ok”), (iii) monotongação (“demoro” > “demorou”), (iv) pouca estruturação
linear do raciocínio presente em comentário digital, o que poderia presumir maior tempo para
planejamento das ideias (“por hamburguer que não era artesanal q não veio molho algum”) etc.

9) Descreva o fenômeno de variação no nível morfossintático disponível no excerto abaixo e


o explique considerando (i) os aspectos linguísticos, (ii) o que propõe a prescrição gramatical e o
que ‘propõe’ o falante, como usuário da língua (qual seria a interpretação do falante, em hipótese,
para usar variavelmente “mim” e “eu”); (iii) o perfil dos usuários desse padrão de estrutura, que não
é utilizada na norma culta e (iv) o grau de inserção do falante-escritor do texto na cultura escrita.

(Fonte:https://brasil.babycenter.com/thread/3355904/ser%C3%A1--q-da-j%C3%A1-pra-mim-fazer-o-teste)

RESPOSTA: Aspectos linguísticos: A variação ocorre entre pronome reto “eu” que ocupa a
posição de sujeito e o pronome átono “mim” que ocupa a posição de objeto indireto. No caso do
excerto em questão, o pronome átono figura em posição de sujeito de uma construção infinitiva
preposicionada “pra fazer mim fazer”.
O que propõe a prescrição gramatical e o que propõe a hipótese do falante: Gabarito aberto.
O estudante deverá recorrer a prescrição de um compêndio gramatical (Bechara, 2009) e
apresentar, em contrapartida, uma reflexão para o possível uso de “mim” no lugar de “eu” na fala
popular.
Perfil dos usuários: falantes de classe social pobre e com pouca ou nenhuma escolarização.
Grau de inserção na cultura escrita: pouca ou nenhuma.

10) Leia atentamente os excertos que seguem:


Excerto I
“A hipótese que defendemos supõe que: as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do
continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica entre dois
polos opostos” (MARCUSCHI, 2011: 37).

Excerto II
Discurso falado em Registro Formal.
“Mas eu quero fazer uma observação. É que nenhuma dessas reformas alterará os direitos
adquiridos pelos cidadãos brasileiros. Como menos fosse sê-lo-ia pela minha formação democrática
e pela minha formação jurídica. Quando me pedirem para fazer alguma coisa, eu farei como Dutra,
o que é que diz o livrinho? O livrinho é a Constituição Federal.” (Fonte:
https://dicionarioegramatica.com.br/tag/mesoclise-errada-do-temer/)

Excerto III
“O português recheado de mesóclises e expressões empoladas usado por Michel Temer é
cafona e está em desuso até em Portugal, diz o linguista Sérgio Rodrigues, em sua coluna nesta
quinta-feira.
"Tudo indica que a fenda gramatical entre o português brasileiro e o europeu está se
alargando. No entanto, não é menos curioso observar que certos traços defendidos por linguistas
como típicos da nossa variedade se fazem presentes do outro lado do Atlântico também.
Há indícios de que grande parte dos usos engessados que os gramáticos conservadores
prescrevem aqui, e que chamamos de 'lusitanismos', não são menos engessados em Portugal. A
mesóclise de Michel Temer é cafona ("possidônia", à moda lusa) em Lisboa também.”
(Fonte: https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/286469/Portugu%C3%AAs-falado-por-Temer-%C3%A9-cafona-diz-
linguista.htm)
Por que o uso da mesóclise parece inadequado ou não se justifica em um discurso oral
realizado em registro formal e com grau de monitoramento/planejamento próximos ao da escrita?
Faça uma reflexão sobre o uso da mesóclise no contexto do pronunciamento político, considerando
o continuum entre a oralidade e a escrita e a noção de “mudança linguística”.

RESPOSTA: O uso da mesóclise no pronunciamento político é inadequado porque resulta


demasiadamente formal, mesmo se tratando de um gênero do discurso oral em registro formal, com
grau de planejamento e monitoramento. Os falantes da norma culta já não reconhecem a mesóclise
em sua gramática interna mesmo na escrita formal, em decorrência de fatores de mudança
linguística na colocação dos pronomes do português brasileiro. Evidência disso é a preferência pela
próclise como gramática intuitiva e a ênclise como a colocação dos clíticos aprendida na escola para
uso das formas cultas de prestígio. Em suma, mesmo o “pronunciamento político” sendo um gênero
oral formal próximo ao grau de planejamento e monitoramento da escrita, a mesóclise resulta,
contemporaneamente, muito arcaica.

11) Os desvios da norma-culta não podem ser considerados “erros”, mas devem ser
observados na perspectiva da “adequação linguística”. O falante que tenha acesso à aprendizagem
da norma culta poderá utilizá-la, flexivelmente, em contextos que a requerem. Contudo,
diferentemente da prescrição gramatical, a teoria linguística identifica regularidades nos fenômenos
variáveis presentes na fala popular. A partir disso, identifique quatro desvios da norma-culta no
texto abaixo e justifique a sua resposta, considerando que os “erros” apresentam, na verdade,
regularidades próprias da norma popular.

RESPOSTA: Gabarito flexível.


Os quatros desvios podem ser assim sumarizados:
1- Plural “mês” - “meses”/ regularidade: ausência de plural [-es].
2- Troca de pronomes átonos “mim” por “me”. Regularidade: Me e mim são pronomes
pessoais oblíquos àtonos relativos à 1.ª pessoa. Semelhança tonal e de posição sintática na
colocação pronominal.
3- Perda do ditongo “bença” - “benção”/ regularidade: monotongação.
4- Troca da conjunção adversativa pelo advérbio de quantidade “mas” - “mais”. (consultar
material didático, aula 12).

O importante, aqui, é que o estudante consiga identificar e descrever a regularidade das variedades
da fala popular.

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