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Módulo 1 – Fundamentos da investigação do crime de homicídio

Apresentação do Módulo

A investigação de um crime, como todo fazer, antes que seja traduzida


em métodos e técnicas, é uma construção conceitual de conhecimentos
que lhe darão sustentação.

Entretanto, sendo o homicídio uma ação social, antes de iniciar qualquer


fundamento conceitual, é importante sua contextualização histórica e
política para que possa ser compreendido e apurado como tal.

É muito provável que você já seja detentor de vasto conhecimento sobre


investigação criminal – ou até mesmo sobre o tema específico deste
curso. No entanto, este módulo inicial irá levá-lo a revisitar alguns
conceitos básicos, mas necessários ao aprendizado ora proposto.

Sendo assim, temas como princípios constitucionais e princípios


fundamentais da investigação, bem como as atitudes a serem adotadas
pelos profissionais de segurança pública ligada às atividades
investigativas serão revistos de modo a permitir sua compreensão no
contexto da apuração do crime de homicídio.

Aproveite e boas aulas!


Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Compreender os aspectos históricos e políticos do enfrentamento


da prática do homicídio.

Compreender conceitos e características próprias da investigação


de homicídio;

Construir uma investigação de homicídio baseada em princípios


fundamentais de respeito à lei e à dignidade da pessoa
humana;

Agir em conformidade com os padrões de postura estabelecidos


para as equipes de investigação durante a apuração de
crimes de homicídio.
Estrutura do Módulo

Aula 1 – Aspectos históricos e políticas nacionais de enfrentamento


da prática de homicídio

Aula 2 – Conceito e características da investigação do crime de


homicídio

Aula 3 – Princípios constitucionais com repercussão na investigação


de homicídio

Aula 4 – Princípios fundamentais da investigação criminal

Aula 5 – Postura do investigador do crime de homicídio


Aula 1 – Aspectos históricos e políticas nacionais de
enfrentamento da prática de homicídio

Você não poderia iniciar o estudo da investigação do crime de homicídio


sem uma rápida abordagem histórica e conceitual desse delito, concorda?

Importante!

Os elementos históricos são referenciais importantes para a compreensão


desse fenômeno social, principalmente no que diz respeito à leitura feita
pelas sociedades na sua gradual criminalização.

A palavra homicídio origina-se do termo latino homicidium, que é


composto de dois elementos: homo, que significa homem e provém de
húmus, terra, país; e caedere, que significa matar.

Nessa mesma linha de raciocínio, é possível conceituar o homicídio como o


ato pelo qual uma pessoa elimina a vida de outra; ou, também, a morte
de alguém causada por uma pessoa.

Historicamente, o primeiro homicídio relatado foi a morte de Abel,


provocada por seu irmão Caim, que agiu motivado por inveja, conforme
consta na Bíblia (Gênesis, capítulo 4).

No estudo da pré-história, há inúmeros relatos de corpos encontrados com


vestígios de violência, o que é um indicativo de que a morte dessas
pessoas tenha sido provocada pela ação humana.

Os manuscritos das civilizações antigas, especialmente dos povos


sumérios e babilônicos, demonstram a adoção do Código de Hamurabi,
conhecido pela Lei de Talião, cuja regra central era o que se chama de
“olho por olho, dente por dente”.

Dessa forma, os crimes de homicídio, em regra, eram punidos com a


morte do autor, forma de punição também adotada pelos egípcios e
assírios, os quais entregavam o autor do crime à família do morto, que,
conforme seu arbítrio, sua vontade, poderia lhe impor a morte ou
apossar-se de seus bens.

Há também o Código de Manu, relacionado ao povo hindu, o qual concedia


privilégios aos brâmanes, parcela privilegiada da população, sendo que, se
um membro desse grupo, que se denomina casta, matasse o membro de
outra casta, nunca seria condenado à pena capital, o que sempre se
verificava em caso contrário.

Por sua vez, a legislação hebraica determinava uma regra geral para o
crime de homicídio: “não matarás” (quinto mandamento da Bíblia); e uma
punição específica no caso dos homicídios involuntários – quando não há a
intenção de matar –, caso em que os autores eram mandados para as
cidades-asilos.

Na Grécia antiga, o crime de homicídio não era punido na cidade-estado


de Esparta, mas era punido na cidade-estado de Atenas.

Na Roma antiga, o homicídio era considerado um crime público e recebeu


inicialmente o nome de parricidium, que significava a morte de um
cidadão romano. Mais tarde, o termo passou a ser empregado para
designar a morte de um ascendente pelo descendente. Somente no final
da república romana adotou-se o termo homicídio.

Em Roma, a pena para o crime de homicídio dependia da condição social


do réu e das circunstâncias do fato. Compreendia o exílio, o confisco dos
bens ou a morte por decapitação ou por animais ferozes.

No direito germânico, o homicídio era considerado crime privado e o


homicida ficava sujeito à vingança da família do morto. Também havia a
possibilidade de composição, que consistia no cumprimento, pelo
homicida, de uma exigência da família da vítima.
Com o ressurgimento do direito romano e a influência do direito canônico,
o homicídio voltou a ser considerado crime público. Contudo, os castigos
corporais e a pena de morte continuaram a ser adotados como punição
para essa prática criminosa.

Aqui, uma nota importante!

No final do século XVI, na Holanda, surgiu o modelo prisional, com caráter


reeducacional. Eram casas correcionais destinadas inicialmente a abrigar
vadios, mendigos e prostitutas. Embora esses estabelecimentos se
destinassem ao cumprimento de pena com caráter educativo, as penas de
suplícios corporais continuaram a ser aplicadas.

Foi no período iluminista, no final do século XVIII, que se iniciou o


movimento que pregou a reforma das leis e da administração da justiça
penal, que deveria considerar a humanidade do condenado.

Césare Bonesana Beccaria, o Marquês de Beccaria, em seu livro Dos


Delitos e das Penas, escrito em 1764, contribuiu para a mudança da forma
de execução das penas em toda a Europa. Repudiou as penas cruéis,
estabelecendo a necessidade de respeitar a dignidade do condenado e
demais direitos indisponíveis, entre eles o direito à preservação da
integridade física e da vida.

1.1. A penalização da conduta “matar alguém” na legislação


brasileira

Chamando o tema para o Brasil, o Código Penal de 1830, ainda no período


imperial, trata do crime de homicídio e o considera qualificado, o que traz
o aumento da pena nos casos em que é praticado com veneno, mediante
fraude ou emboscada, com promessa de pagamento ou por mais de uma
pessoa. Nesses casos, a pena variava desde trabalho forçado, galés
perpétuas, até a morte.

Já no período republicano, o Código de 1890 contemplava o crime de


homicídio em seu artigo 294, agravando a pena em várias circunstâncias.
A pena de prisão variava de 12 a 30 anos nas formas qualificadas e de 06
a 24 anos nos casos de homicídio simples.

No Código Penal brasileiro em vigor, de 1940, o crime de homicídio está


inserido no capítulo dos crimes contra a vida, sendo o primeiro crime
tipificado, ou seja, cuja conduta é descrita

com a expressão “matar alguém” (texto do art. 121 do CP).

A proteção à vida tem também seu fundamento na Constituição Federal


de 1988 e está prevista no caput do artigo 5º. É considerado um direito
fundamental, isto é, é indispensável ao desenvolvimento da pessoa
humana.

Entretanto, é importante ressaltar que nenhum direito, mesmo que


fundamental, é absoluto, já que é necessário que todos os direitos
convivam harmoniosamente.

Por isso, o direito à vida também encontra limitação quando em confronto


com outros interesses coletivos ou individuais da sociedade. Nesses casos
a lei cria situações privilegiadas de descriminalização da conduta “matar”,
como é o caso das chamadas causas legais de exclusão da ilicitude.

A respeito da eliminação da vida humana, a própria Constituição Federal


prevê a possibilidade de haver pena de morte em tempo de guerra (artigo
5º, XLVII, a):
XLVII - não haverá penas:

a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84,


XIX; [...]

Observe, dessa forma, que o direito à vida, ainda que fundamental, não é
de tudo absoluto.

Por essa razão, o Código Penal brasileiro incrimina, no artigo 121, a


conduta de um ser humano provocar a morte de outro ser humano,
apresentando quatro figuras típicas: o homicídio simples, o homicídio
privilegiado, o homicídio qualificado e o homicídio culposo.

Para os nossos estudos, interessam-nos as três primeiras tipificações, que


tratam do homicídio doloso, que é aquele em que o autor tem a intenção
de eliminar a vida da vítima, tanto na forma consumada quanto tentada.

Para o homicídio simples, a lei penal brasileira determina como pena a


reclusão de 06 a 20 anos.

Entretanto, o mesmo Código Penal determina no § 1º do artigo 121:

“Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social
ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta
provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um
terço.”

Nesse caso, devem ser consideradas as seguintes possibilidades:

a. Relevante valor social – Trata-se de motivo que atende aos


interesses da coletividade. Exemplo: morte de um traidor da pátria.

b. Relevante valor moral – Trata-se de motivo que, embora seja


relevante para a sociedade, leva em consideração os interesses do
agente. Exemplo: pai que mata o estuprador da filha.
c. Sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta
provocação da vítima – É também chamado de homicídio emocional.
Nesse caso, o autor do crime de homicídio deve estar completamente
dominado pela situação, momentaneamente perturbado em seu
psiquismo, de tal forma que seja capaz de justificar a cólera, a indignação,
que, por sua vez, desencadearão uma reação imediata.

Por outro lado, o Código Penal também enumera no § 2º do artigo 121


motivos, meios, modos e fins que tornam o homicídio qualificado,
tratando-se, nesse caso, de crime hediondo, cuja pena de reclusão é de
12 a 30 anos.

Dessa forma, há o crime de homicídio praticado:

a. Mediante paga ou promessa de recompensa - Na paga, o


dinheiro é entregue antes do crime, mesmo que apenas uma parte dele;
na promessa de recompensa, o recebimento é posterior e não
necessariamente em pecúnia; pode ser, por exemplo, a promessa de um
emprego.

b. Por motivo torpe - É o motivo repugnante, desprezível. Exemplo:


matar os pais para ficar com a herança.

c. Por motivo fútil - É o motivo desproporcional, insignificante.


Exemplo: matar a vítima porque ela olhou de “cara feia” para o autor.

d. Com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou


outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum - Trata-se de qualificadoras objetivas, pois se referem ao meio
empregado para o cometimento do crime de homicídio.

e. À traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro


recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido -
São circunstâncias que retratam o modo como a vítima é abordada,
determinadas por situação de surpresa ou de falsidade.
f. Para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou
vantagem de outro crime - É também chamado de homicídio por
conexão. O outro crime pode ser anterior ou posterior e não
necessariamente praticado pelo mesmo autor do homicídio.

Saiba mais...

Leia o texto A História do Delito de Homicídio1.

Reflita! Qual a importância, para o investigador, de conhecer as


circunstâncias em que o autor praticou o homicídio?

Veja que conhecê-las é fundamental para definir a linha de investigação e


construir a estratégia que ele irá adotar para a coleta das provas.

Importante!

Sabendo o que ocorreu, o investigador saberá que tipo de prova deverá


perseguir com a investigação, sem perder tempo trilhando por caminhos
que não o levam a nada e colhendo informações inúteis.

1.2. Os índices de resolução do crime de homicídio no cenário


nacional

No dia 06/10/2011, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime


(UNODC) divulgou seu primeiro Estudo Global sobre Homicídios.

De acordo com esse estudo, o Brasil tem o terceiro maior índice de


homicídios na América do Sul, com 22,7 casos para cada 100 mil
habitantes.

O Brasil fica atrás apenas da Venezuela e da Colômbia, com 49 casos e


33,4 casos, respectivamente, para cada 100 mil habitantes.

1
http://www.ambito-
juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9832#
Embora, de acordo com o estudo citado, esse número seja melhor do que
há cinco anos e mesmo considerando o tamanho da população, o que
permite que o Brasil desça proporcionalmente para um grupo
intermediário, ainda assim o país se coloca muito longe da Europa, da
Ásia e dos Estados Unidos.

É também importante ressaltar que quatro países também da América do


Sul – Uruguai, Argentina, Peru e Chile – ficam abaixo da média mundial,
que é de 6,9 homicídios por 100 mil habitantes.

Mesmo não tendo alcançado, no contexto geral, a média desejável dos


países citados, no Brasil, o estudo da UNODC destacou positivamente a
cidade de São Paulo como exemplo para outras metrópoles do mundo.

De acordo com os dados fornecidos pelo Ministério da Justiça, a taxa de


homicídios na cidade de São Paulo caiu, em cinco anos, de 20,8 para 10,8
em cada cem mil habitantes.

O estudo da ONU também enfatiza que as tendências mostram-se muito


diferentes no que diz respeito a São Paulo, em relação a outras regiões do
Brasil, especialmente ao estado de Alagoas, cujo número de homicídios
ultrapassa 60 em cada 100 mil habitantes.

Em consonância com os dados do Instituto Sangari, que elaborou,


juntamente com o Ministério da Justiça, o mapa da violência 2011 no
Brasil levando em conta os crimes de homicídio e o número de habitantes,
observa-se que a maior incidência, no que concerne às grandes capitais, é
verificada em Maceió-AL, seguindo-se Recife-PE e Vitória-ES.

Saiba mais...

Acesse os links para mais informações sobre o tema:


Jornal Nacional – Brasil é o país com o maior número de homicídios,
aponta a ONU2.

Agência Brasil – Para reduzir homicídios, Cardozo defende ações


integradas e unidades especiais3

1.3. Política nacional de fomentação da investigação de homicídio

Em fevereiro de 2010, foi lançada a Estratégia Nacional de Justiça e


Segurança Pública (Enasp), com o objetivo de “promover a articulação dos
órgãos responsáveis pela segurança pública, reunir e coordenar as ações
de combate à violência e traçar políticas nacionais na área”.

Essa iniciativa é resultado da parceria entre os Conselhos Nacionais do


Ministério Público (CNMP) e de Justiça (CNJ) e o Ministério da Justiça (MJ),
sendo que cada qual desenvolve uma ação integrada no contexto da
ENASP.

No caso do CNMP, há o desenvolvimento de ações que visam agilizar e dar


maior efetividade à investigação da polícia, à denúncia do Ministério
Público e ao julgamento pelos Tribunais do Júri dos crimes de homicídio.

Nesse sentido, pode-se citar, como exemplo, a Meta 1 (Subgrupo 1:


Fase de Investigação)4 da ENASP que objetivou a conclusão de todos os

2
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/10/brasil-e-o-pais-com-o-maior- numero-
de-homicidios-aponta-onu.html
3
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-10-06/para-reduzir-homicidios-cardozo-
defende-acoes-integradas-e-unidades-especiais
4
Acessar o arquivo em anexo 2011Metas_ENASP.pdf.
inquéritos e procedimentos que investigam homicídios dolosos instaurados
até 31 de dezembro de 2007.

Dessa forma, observe que a priorização da investigação criminal é de


fundamental importância para que se atinja a proposta-meta, quer seja
para levar a julgamento autores de crimes de homicídio doloso, quer seja
para a promoção do arquivamento dos procedimentos, haja vista o
exaurimento dos procedimentos investigatórios.

Existem vários fatores responsáveis pelo alto índice de violência verificado


no país, dentre eles, os baixos índices de resolução de crimes de
homicídio.

Nesse sentido, é pertinente afirmar que os baixos índices de resolução de


crimes de homicídio, juntamente com outros possíveis fatores, são
responsáveis pelo alto índice de violência verificado no país.

Sendo assim, é possível concluir que a priorização da investigação criminal


do homicídio deve contribuir para a diminuição dessa prática criminosa,
com redução do tempo de resposta do Estado, levando a julgamento os
criminosos e permitindo, assim, que não impere na sociedade o
sentimento de impunidade.

Para o então Ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a impunidade é um


dos principais aspectos a serem combatidos, sendo que, para tanto,
deverão ser criadas unidades específicas para a investigação de
homicídios em cada Estado, e os processos judiciais deverão ser
agilizados.
Saiba mais...

Abra os seguintes links para mais informações:

Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública5

CNJ – ENASP6

Aula 2 – Conceito, características e pressupostos da investigação


criminal.

Segundo Ribeiro (2006), “a ciência da investigação é um campo


permanentemente aberto à busca do saber e à descoberta da verdade”.
Isso porque a investigação criminal não encontra limites nos enunciados
das leis penais. Na verdade, a própria legislação penal confere ao
investigador criminal a mais ampla discricionariedade, de forma que a
existência de limites está pautada no uso racional da inteligência e da lei.

É por essa razão que a investigação criminal não se constitui em simples e


aleatória coleta de provas, sem a necessária adoção dos métodos, das
técnicas e dos procedimentos especializados, que devem fundamentar o
trabalho da equipe de investigação.

Sendo assim, o investigador deve possuir formação técnico-científica no


assunto, a qual não significa somente conhecimento jurídico nem somente
boa vontade, mas conhecimento especializado com base nas ciências que
dão suporte à investigação criminal.

Esse conhecimento devidamente aplicado à investigação do homicídio


permite que o investigador realize sua tarefa de forma segura e eficaz,

http://portal.mj.gov.br/senasp/main.asp?ViewID=%7B45D2F2A3%2DF723%2D4229%2D94A2%2D311A3DF2A0
CB%7D&params=itemID=%7B5A3DAD20%2D4CB3%2D484C%2D9011%2DC00E225D2A92%7D;&UIPartUID=%7
BE0EA6E2F%2D2D28%2D4749%2D9852%2D31405415DD85%7D
6
http://www.cnj.jus.br/metas-enasp
evitando atitudes irrefletidas que possam comprometer a imagem e o
resultado do trabalho de investigação criminal.

Isso porque se, por um lado, algumas investigações apresentam apenas


um grau razoável de dificuldade, outras, cujos delitos são praticados por
quem vive do crime ou por quem detém recursos financeiros que facilitam
o uso de artifícios geradores da impunidade, exigem do investigador
firmeza e segurança quanto às providências adotadas.

Nesse sentido, não é raro que investigadores estejam às voltas com


denúncias anônimas que pretendem desviá-los da verdade, além de
outros tantos ardis e artifícios engendrados pelo autor do crime, sempre
com esse mesmo objetivo.

Assim sendo, o investigador com conhecimento técnico-científico


especializado conhece o conjunto de preceitos teóricos que alicerçam sua
atuação perante o caso concreto e permitem que ele suporte eventuais
pressões que poderão afetar a eficácia do resultado da investigação.

Há dois tipos de pressão mais comum. Uma é a que diz respeito à


exigência de que a polícia apresente o autor do homicídio o mais urgente
possível. Ceder a esse processo poderá ser o tropeço da investigação ao
atropelar etapas do processo com resultados ineficazes. Outro é a
tentativa de desqualificação da investigação pela ação da defesa por
intermédio de meios que poderão comprometer a eficácia da prova
colhida, por exemplo, de campanhas difamatórias na mídia forjando
situações que colocam em dúvida a legalidade de atos da investigação.

Esses preceitos teóricos permitem que o investigador caminhe no rumo


certo, de forma concreta e segura, adotando a técnica adequada para a
revelação, coleta e análise de cada evidência encontrada.

2.1. Conceito de investigação criminal


Muito embora uma conceituação formal de investigação criminal não seja
elemento fundamental no ensino e aprendizagem dessa disciplina,
conhecer uma proposta conceitual tem a importância de determinar
parâmetros que possam fazer com que o investigador encontre
referenciais teóricos que sirvam de suporte ao seu fazer prático,
fundando-o em métodos e técnicas eficazes.

Veja um conceito de investigação criminal:

“Investigação criminal é o conjunto de procedimentos interdisciplinares,


de natureza inquisitiva que busca, de forma sistematizada, a produção da
prova de um delito penal.” (Araujo, 2008)

No presente estudo, esse delito penal é o crime de homicídio. Todas as


referências teóricas que serão desenvolvidas neste curso terão como
objetivo a investigação do crime de homicídio.

2.2. Características principais da investigação criminal de


homicídio

A investigação de homicídio é uma espécie da investigação criminal que


requer conhecimentos e habilidades cuja aplicação está sujeita a princípios
específicos.

Vimos que o crime de homicídio é um delito complexo, pois envolve os


sentimentos mais profundos do ser humano, o que dificulta,
sobremaneira, o esclarecimento da motivação que determina o elo entre a
vítima e o autor.

Entretanto, na fase processual, esse crime é submetido ao juízo de


pessoas que compõem o júri, leigas quanto ao conhecimento técnico-
especializado da investigação criminal, o que permite que o julgamento
possa sofrer decisiva influência de conteúdo emocional, pois não é raro
que as partes apresentem um forte discurso apelativo, o que permite que
a decisão – culpado ou inocente – possa surgir de um simples detalhe
como o clamor público e a influência da mídia.

Por essas razões é que somente a investigação realizada com métodos e


técnicas científicas poderá trazer um resultado claro, consistente e
coerente, capaz de sustentar um processo judicial sólido.

Nesse contexto, verifica-se que a investigação de homicídio tem


características muito próprias, que se tornam fatores fundamentais de
alerta aos cuidados especiais que o investigador deverá ter. São elas:
exigência de extremo detalhamento, de uma observação
contextual dos vestígios e de uma postura racional, lógica e
analítica. Ou seja, a investigação de homicídio requer de seu executor
habilidades que o permitam fragmentar, o

mais possível, cada uma das informações colhidas, buscando cada


detalhe, cada aspecto, cada ponto de vista sem, contudo, perder a
capacidade de visão do todo dessas informações e, principalmente, sem
perder a capacidade de análise racional do cientista.

Aula 3 – Princípios constitucionais com repercussão na


investigação de homicídio

Não se pode perder de vista a função tutelar de direitos fundamentais que


o Estado brasileiro delegou à investigação criminal, ou seja, a investigação
criminal é a garantia que tem o cidadão de que, praticando um delito
penal, haja um procedimento apuratório legal que lhe garanta um
julgamento justo com aplicação da pena na dimensão adequada à sua
conduta.
Os atos da investigação criminal são atos da Administração Pública,
portanto atos administrativos. A compatibilidade desses atos com a
missão tutelar de direitos foi garantida pelo constituinte de 1988 ao
moldar princípios que regulam os procedimentos da Administração
Pública, reflexos aos procedimentos da investigação.

Portanto, a investigação de homicídio sofre o efeito dessa ação transversal


dos princípios constitucionais em todos os seus atos.

3.1. Marco regulatório

O marco regulatório dos princípios que regem a investigação criminal é o


art. 37 da Constituição Federal, que formula os fundamentos legais que
deverão servir de referência para todos os atos da Administração Pública.
Diz o texto:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes


da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência. (C.F.)

Importante!

São esses princípios que irão nortear os procedimentos a serem


desenvolvidos na apuração das provas do crime de homicídio.

Veja, a seguir, o que foi dito por Araujo (2008) no curso Investigação
Criminal I, agora

focado na sua transversalidade na investigação de homicídio.

3.1.1. Princípios
“[...]

Princípio da legalidade

Foi visto que no Estado Democrático de Direito todos deverão se submeter


à supremacia da lei.

O princípio da legalidade é a pedra de toque do Estado de Direito e


estabelece dois tipos de relação: uma com a Administração Pública, outra
com o cidadão.

Relação com Administração Pública

A atuação da Administração Pública só pode ser operada em conformidade


com a lei. É uma relação de submissão.

Relação com o cidadão

É permitido ao cidadão fazer tudo aquilo que a lei não proíbe. Não poderá
ser obrigado a fazer o que não lhe é determinado por lei.

É uma relação de autonomia que resulta no princípio da liberdade do


ser humano, configurado, também, na Constituição Federal como um dos
princípios fundamentais:

“Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em


virtude de lei.” (CF., art. 5º, inc. II)

Portanto, o princípio da legalidade é direito fundamental de cidadania que


servirá de base para todos os demais princípios.

Observe que a acepção dada pela norma constitucional ao vocábulo “lei”


não é restrita, mas abrangente, abarcando a lei propriamente dit a e todo
o contexto jurídico em que ela está contida.

Significa que as normas que regulam a investigação criminal, mesmo as


administrativas (portarias, ordens de serviços, protocolos de
procedimentos, etc.) estão nesse contexto e
deverão respeitar o princípio da legalidade.

Princípio da impessoalidade

A impessoalidade na investigação criminal significa que as atitudes do


investigador deverão refletir objetividade no atendimento do interesse
público, sem qualquer possibilidade de promoção pessoal do agente ou da
autoridade.

O interesse público contido na investigação criminal é o de explicar o fato


acontecido, para que os dados coletados possam formar a prova
necessária para aplicação da pena justa ao infrator. Não cabe utilizar a
investigação para promoção pessoal de quem quer que seja.

Significa também que o ato de investigar não deve ser usado para
prejudicar ou beneficiar pessoa determinada.

Princípio da moralidade

A moralidade da Administração Pública está relacionada com aquilo que a


sociedade, em determinado momento, considerou eticamente adequado,
moralmente aceito.

As práticas da investigação terão que estar de acordo com o ideário moral


vigente no grupo social, como honestidade, bondade, compaixão,
equidade e justiça.

As decisões tomadas para o processo da investigação deverão adequar-se


aos valores que a sociedade adota como norte para a relação de
convivência das pessoas e destas para com o ambiente.

Princípio da publicidade

A acepção fundamental do princípio é de transparência.

Reflexão

Sobre esse termo aplicado à investigação criminal, cuja natureza tem


como elemento principal o sigilo: É possível aplicá-lo?
A transparência na Administração Pública tem como objetivo o controle ,
que poderá ser feito pela própria Administração, pelo poder judiciário e
pelo cidadão.

O controle da gestão pública exercido pelo cidadão é garantia fundamental


de direitos assegurada em vários itens constitucionais do art. 5º, como o
de receber dos órgãos públicos informações de interesse particular,
coletivo ou geral (inciso XXXIII); o de obtenção de certidões em
repartições públicas (inciso XXXIV); e o de conhecimento de informações
relativas à pessoa interessada, constantes de bancos de registros ou
bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público
(inciso LXXII).

E na investigação, como se aplicaria esse princípio?

Como toda regra, o princípio não é absoluto.

A própria Constituição impõe limites, colocando como exceção ao direto à


informação as hipóteses de sigilo:

[...] ‘todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu
interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas
no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo
sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.’ (CF, art.
5º, inciso XXXIII)

A transparência é a regra. A exceção está expressa na lei.

Todos os atos da investigação são necessariamente sigilosos?

Em princípio não.

No caso da investigação criminal, devem ser considerados dois aspectos:


o contexto da apuração, de interesse da sociedade geral, pois diz
respeito às demandas imediatas de bem-estar da coletividade, e o
aspecto de ato operacional específico, cujo interesse é mediato.
Ou seja, a apuração de provas da prática de um delito, como ato geral de
gestão pública, deve ser do conhecimento da comunidade, para que ela
tenha segurança jurídica quanto à garantia de proteção de seu bem-estar.

Entretanto, mesmo sendo de seu interesse, os procedimentos


operacionais de apuração, em regra, são executados em sigilo,
exatamente para garantir a exequibilidade da investigação.

Já imaginou se a polícia anunciar antecipadamente as estratégias que irá


aplicar na investigação de delitos praticados por quadrilhas de tráfico de
drogas? É pouco provável que consiga alguma prova.

Princípio da eficiência

Também de observância prioritária e universal no exercício de toda


atividade administrativa do Estado.

O termo remete à acepção de boa administração vinculada à


produtividade, profissionalismo e adequação técnica do exercício funcional
às demandas do interesse público.

Segundo Pazzaglini (2000, p.32), ‘o administrador público tem o dever


jurídico de, ao cuidar de uma situação concreta, escolher e aplicar, entre
as soluções previstas e autorizadas pela lei, a medida eficiente para obter
o resultado desejado pela sociedade’.

Significa que a Administração Pública e seus profissionais, no exercício das


atividades funcionais, deverão aplicar os recursos avaliando a relação de
custo-benefício, buscar a otimização de recursos, aplicar os critérios
técnicos e legais necessários para maior eficácia possível em benefício da
boa qualidade de vida do cidadão. E, ainda, diz respeito ao investimento
na formação profissional.”

A aplicação prática do princípio na investigação criminal se concretiza com


todos os cuidados necessários para sua eficácia, desde o planejamento,
com a escolha adequada dos meios, até os cuidados com a proteção aos
direitos fundamentais das pessoas envolvidas no processo e com a
legalidade na coleta da prova. (Araujo, 2008)

Perceba o quanto é fundamental para o cidadão a observância desses


princípios pela atividade investigativa da polícia. Em especial no que se
refere à legalidade dos atos. É importante que o investigador tenha a
percepção de que os atos limitadores praticados pela polícia são exceções
com permissão legal para que, dentro dos limites da lei, sempre prevaleça
o interesse público e não o pessoal.

Refletindo sobre a questão

Suas práticas como investigador sempre são precedidas da preocupação


com os limites da legalidade dos seus atos? Discuta isso com seus colegas
no fórum ou por outras redes sociais do grupo.

Aula 4 – Princípios fundamentais da investigação criminal

A investigação criminal é a primeira fase da aplicação da justiça pelo


Estado aos infratores. É a fase inicial desse processo que possibilita a
apresentação do infrator ao Poder Judiciário com o mínimo de informações
necessárias ao desenvolvimento do processo penal na busca da
determinação da sua culpabilidade ou inocência.

Falar em princípios fundamentais possibilita pensar em regras que dizem


respeito ao trato com as pessoas enquanto tais, individual ou
institucionalmente consideradas.

A investigação criminal, ainda que vinculada ao processo penal, sob o


controle judicial e do Ministério Público é, inegavelmente, uma atividade
administrativa com certa dose de discricionariedade e considerável nível
de autonomia por parte dos investigadores. Daí a necessidade de que haja
em suas ações, além do conteúdo legal, um conteúdo regulatório de
natureza ética muito eficaz e respeito às normas dos direitos humanos,
visto o grau de repercussão tanto na individualidade das pessoas que são
objeto da ação investigatória quanto na qualidade de vida da sociedade,
principal beneficiário da investigação.

Neste sentido dispõe o Art. 2 º do Código de Conduta para os


Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (adotado pela
Assembleia Geral das Nações Unidas pela resolução nº 34/169, de
17 de dezembro de 1979) ao dispor que “No cumprimento do seu
dever, os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem
respeitar e proteger a dignidade humana, manter e apoiar os
direitos fundamentais de todas as pessoas”.

No curso Investigação Criminal I, Araujo (2008) diz: “quanto maior o grau


de lesividade do ato investigatório, maior deverá ser o cuidado do
investigador para com as garantias protetoras do investigado”.

O investigador deverá lembrar-se sempre de que investigar crimes é um


procedimento extremamente invasivo à intimidade das pessoas
envolvidas, seja a vítima, o suspeito ou a testemunha. Esse grau de
invasão é muito maior quando se trata de apuração de crime contra a
vida, em especial do homicídio, visto que um dos métodos de apuração
mais aplicado, como você estudará adiante, é a varredura das relações
pessoais da vítima, do suspeito e, muitas vezes, da própria testemunha,
na busca de vínculos com a conduta delituosa. É nesse processo que se
materializa a característica invasiva, a mais marcante da investigação
criminal.
No processo de busca das provas caem nas mãos do investigador as mais
íntimas informações sobre a vida pessoal dos atores envolvidos. Cabe a
ele o juízo do que deva ser considerado relevante ou não para a
investigação de provas.

Sem dúvida essa ação invasiva acaba por lesar direitos e garantias
fundamentais (como a intimidade e o ir e vir) na busca de informações
necessárias à construção da prova.

Foi com essa preocupação que o Alto Comissariado das Nações Unidas
editou o Manual de Formação em Direitos Humanos para as Forças
Policiais7, nele formatando o que chamou de “princípios fundamentais da
investigação policial” (criminal). São princípios norteadores dos
procedimentos da investigação criminal.

Diz o texto do manual, com enumeração dos princípios:

“Durante as investigações, audição de testemunhas, vítimas e suspeitos,


revistas pessoais, buscas de veículos e instalações, bem como
interceptação de correspondência e escuta telefônica:

a. Todo indivíduo tem direito à segurança pessoal;

b. Todo indivíduo tem direito a um julgamento justo;

c. Todo indivíduo tem direito à presunção de inocência até que a sua culpa
fique provada no decurso de um processo equitativo;

d. Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, família,


domicílio ou correspondência;

e. Ninguém sofrerá ataques à sua honra ou reputação;

7
http://www.gddc.pt/direitos-humanos/Manual1.pdf
f. Não será exercida qualquer pressão, física ou mental, sobre os
suspeitos, testemunhas ou vítimas, a fim de obter informação;

g. A tortura e outros tratamentos desumanos ou degradantes são


absolutamente proibidos;

h. As vítimas e testemunhas deverão ser tratadas com compaixão e


consideração;

i. A informação sensível deverá ser sempre tratada com cuidado e o seu


caráter confidencial respeitado em todas as ocasiões;

j. Ninguém será obrigado a confessar-se culpado nem a testemunhar


contra si próprio;

k. As atividades de investigação deverão ser conduzidas em conformidade


com a lei e apenas quando devidamente justificadas;

l. Não serão permitidas atividades de investigação arbitrárias ou


indevidamente intrusivas.” (Manual de Formação em Direitos Humanos
para as Forças Policiais, p. 79)

O próprio manual nos induz ao entendimento de que esses princípios,


considerando as normas internacionais que tratam dos direitos humanos
da pessoa objeto de investigação criminal, poderão ser resumidos nos
seguintes princípios:

• Presunção da inocência de todos os arguidos;

• Direito de todas as pessoas a um julgamento justo;

• Respeito pela dignidade, honra e privacidade de todas as pessoas.

Essas são normas fundamentais que precisam receber toda a atenção da


equipe de investigação de homicídio, pois, do contrário, haverá muita
dificuldade para a validação de qualquer prova apontada para um
suspeito, como selo de garantia da regularidade.
Aula 5 – Postura da equipe de investigação do crime de homicídio

Como visto em aula anterior, a história jamais registrou uma sociedade


sem homicidas, sendo certo que o indivíduo que mata seu semelhante é,
quase sempre, o mesmo com o qual este convive no dia a dia.

É por essa razão que a equipe de investigação criminal de homicídio não


deve adotar posturas pré-concebidas, preconceituosas em face de um
caso concreto.

Portanto, esse profissional deve entender que a investigação é um


processo científico e como tal tem seus pressupostos alicerçados em
princípios que permitem o exato e seguro conhecimento dos pontos de
partida e de chegada, bem como do caminho a serem trilhados entre
esses dois pontos. Não há espaço para leviandades.

Não é menos importante que a equipe de investigação criminal do


homicídio saiba conduzir a investigação sempre na busca da verdade, sob
o entendimento de que o êxito na investigação nem sempre significa a
elucidação da autoria. Isso porque não é raro que, mesmo adotando todos
os procedimentos possíveis e necessários, não se consiga a prova
induvidosa da autoria.

Certamente, nesse caso, pode-se dizer que a equipe de investigação


obteve êxito sim na investigação, ou seja, que soube escolher e aplicar os
métodos e técnicas adequadas à revelação e coleta das evidências do
crime, agindo sempre com isenção, de forma lógica e racional.

Contudo, por razões diversas, não conseguiu alcançar o objetivo principal


da investigação, que é a determinação da autoria, da materialidade e das
circunstâncias do homicídio investigado.

Pode também acontecer da equipe de investigação alcançar o autor do


crime, inclusive obtendo a
confissão dele, e não ser possível determinar a causa da morte da vítima,
tendo em vista, por exemplo, que o corpo só foi encontrado muito tempo
depois da notícia do desaparecimento dessa vítima e já estava em
adiantado estado de putrefação.

É possível ainda que nunca se encontre o corpo de uma vítima, mas se


consiga provas suficientes, por meio de testemunhos e comprovação de
circunstâncias – por exemplo, o DNA da vítima identificado a partir de
mancha de sangue encontrada no veículo do suspeito – de que houve a
morte e de quem é o seu autor.

O certo é que a equipe de investigação deve sempre adotar uma postura


racional, lógica e analítica em face do crime investigado. Para tanto, ele
deve conhecer profundamente o fato investigado, deve querer investigar
(ter boa vontade), trabalhar com empenho, perspicácia,
comprometimento profissional, organização, coragem, método e técnica e,
principalmente, ter um plano, administrar a investigação, o que pressupõe
saber a hora de iniciá-la e concluí-la, não descuidando do relato
pormenorizado de tudo o que tiver sido efetivamente apurado.

Para Ribeiro (2006), “O trabalho da polícia é como o do médico. Este não


é obrigado a todo custo a salvar o paciente, mas dispensar-lhe o melhor
atendimento médico possível. Isso também se aplica, com toda certeza,
ao trabalho prestado pela polícia investigativa”.

Finalmente, é de fundamental importância que a equipe de investigação


não tenha medo da prova, que só será legítima e verdadeira se for
harmônica com o conjunto probatório e com a legalidade. É a verdade da
investigação que deverá sempre prevalecer.

Importante!
É importante lembrar que cada crime de homicídio tem suas próprias
características, que normalmente são inerentes à relação entre autor e
vítima e, portanto, tem sua própria conformação, e não aquela que
pretenda o investigador, a mídia ou quem quer que seja.
Concluindo...

Neste módulo, você estudou:

A evolução histórica da penalização da conduta de matar alguém e as


políticas governamentais de enfrentamento dessa conduta criminosa;

Conceitos e características próprias da investigação de homicídio,


bem como;

Os princípios constitucionais que são aplicados no controle da


legalidade da investigação de homicídio e os princípios aplicados no
controle operacional desse processo investigatório no que diz respeito ao
respeito à dignidade da pessoa humana;

As atitudes que devem ser adotadas pela equipe de investigação de


homicídio.
Módulo 2 – Princípios operacionais básicos da investigação do
homicídio

Apresentação do Módulo

Até aqui tudo muito fácil, não?

No primeiro módulo, uma contextualização coloca o crime de homicídio


em um nível de compreensão da sua dimensão histórica e política. E
ainda, são postos princípios constitucionais de controle da legalidade dos
atos de investigação e princípios que apontam para a legitimidade no que
se refere ao respeito da dignidade das personagens objetos das ações
policiais. Para findar, é ressaltado o perfil ideal do operador da
investigação, elemento fundamental para o resultado final do
procedimento.

Neste módulo, dando continuidade ao aprendizado anterior, traz-se para


estudo e discussão os princípios operacionais básicos da investigação de
homicídio. São regras fundamentais do “como fazer” a apuração das
provas do crime de homicídio.

Perceba que parte dessas regras está relacionada à percepção da


conduta, dos motivos que levaram o infrator à prática do delito,
enquanto a outra parte diz respeito à postura da própria equipe de
investigação. Faça uma análise criteriosa do texto com o necessário
olhar de compreensão desses princípios, pois serão de grande valia na
prática da investigação.

Essas normas o nortearão na escolha dos métodos e técnicas a serem


adotadas na apuração do homicídio. Portanto, muita atenção para a
compreensão e aplicação desses princípios nas suas atividades
investigativas.
Lembre que o homicídio está em um contexto de motivações variadas , e
conhecê-las possibilitará a definição de uma linha de investigação possível
e eficaz.

Bom aprendizado!

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Aplicar princípios que nortearão a prática da investigação de


homicídio;

Reconhecer ações do infrator que buscam impedir o trabalho de


investigação do delito de homicídio;

Distinguir atitudes que ajudarão a equipe de investigação na


apuração do crime de homicídio.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Aspectos conceituais

Aula 1 – Aspectos conceituais

Para Ribeiro (2006), “princípios são preceitos básicos que formam o


alicerce do comportamento, a ser adotado diante dos casos concretos
[...]” e que “conferem ao profissional uma filosofia de trabalho”.
É essa filosofia de trabalho que evita, por exemplo, avaliações e juíz os
precipitados, atitudes preconceituosas, insegurança na realização do
trabalho e “achismos” em face das evidências e formulação de hipóteses.

É também essa perspectiva de trabalho que protege a equipe de


investigação contra pressões diversas e evita que ele se deixe levar pelas
aparências.

É muito comum, por exemplo, que, nos crimes de homicídio em que o


autor é o marido ou o companheiro da vítima, ele tente simular, perante
amigos e parentes do casal, uma reconciliação, o que pode comprometer
a convicção dessas pessoas quanto ao seu envolvimento.

Dessa forma, a equipe de investigação deve considerar na realização de


seu trabalho o empenho dos infratores com vistas a impedir à apuração
dos fatos, o cuidadoso planejamento das ações criminosas, a eliminação
de provas, a ameaça a testemunhas e a incorporação dos avanços
científicos e tecnológicos na prática delituosa.

1.1. Princípios

Estudem as seguir, os princípios operacionais muito próprios da


investigação de homicídio.

1.1.1. Todo ser humano deve ser considerado um homicida em


potencial

Primeiramente, deve-se considerar que o crime de homicídio é uma


decorrência natural do instinto da agressividade humana.

Por essa razão, a equipe de investigação não deve concluir se alguém é ou


não suspeito da prática de um crime de homicídio somente em razão da
aparência dessa pessoa ou de sua condição social, assim como também
não pode afastar a suspeição que concretamente recaia sobre um
indivíduo somente considerando seu grau de parentesco ou seus laços de
amizade com a vítima.

Existem vários casos em que é o próprio autor quem noticia à polícia o


desaparecimento da vítima, que depois é encontrada morta. Em outros
casos, o autor mostra-se sempre solícito e cooperativo com a polícia,
aparentando tranquilidade o tempo todo, e os amigos e familiares da
vítima demonstram acreditar firmemente em sua inocência.

O fato é que os elementos a serem considerados pelo investigador para


consolidar sua suspeita quanto à autoria necessitam ser concretos,
devendo basear-se sempre nas circunstâncias e vestígios do crime.

1.1.2. A racionalidade humana norteia a ação criminosa

Não é raro ouvir alguém dizer: “Falei sem pensar!”, “Agi sem pensar!”.
Contudo, isso não é verdade.

Nem que seja por uma fração mínima de segundos, o ser humano, que é
dotado de raciocínio, faz um exercício mental no qual, mesmo de forma
precária, analisa a situação antes de falar ou de agir. A esse exercício
mental de avaliação da situação, do problema, da hipótese, chama-se de
racionalidade humana.

Importante!

A racionalidade não implica necessariamente uma lógica natural. O autor


do crime pode, por exemplo, inverter a lógica comum, a fim de dissimular
os fatos.
Os principais fatores que conduzem o homem a agir com racionalidade
são: segurança, certeza, facilidade, comodidade, possibilidade e, no caso
do criminoso, também a garantia da impunidade.

Pensando nesses fatores é que o autor de crime escolhe o momento, as


circunstâncias, o local, os colaboradores, o instrumento e até mesmo a
versão do crime que apresentará eventualmente à polícia.

Por essa razão, assim que a equipe de investigação colher os primeiros


elementos informativos sobre o crime, deverá analisá-los com critério,
lógica e racionalidade.

1.1.3. O homicídio é delito de motivação necessária

Para Ribeiro (2006), “motivação é a razão ou os motivos pelos quais uma


pessoa resolve matar outra”.

Assim sendo, a equipe de investigação não pode se esquecer de que não


existe homicídio doloso sem motivação, muito embora, algumas vezes,
seja muito difícil defini-la, pois é um elemento subjetivo e variado.

A motivação de um crime de homicídio pode ser passional, ocasional, por


interesse patrimonial, por vingança, por pistolagem, para queima de
arquivo ou de origem psicopata.

Estude, a seguir, sobre cada uma dessas motivações.

a. Passional

O crime passional tem origem na paixão e surge do relacionamento


amoroso entre duas pessoas.

A traição, o desprezo, o ciúme exagerado, o rompimento inesperado são


acontecimentos que podem levar um dos parceiros a eliminar o outro.
Geralmente, o homicídio passional é cuidadosamente planejado e seu
autor não confessa, pois, de um lado, vê-se protegido pelos membros da
família, que não acreditam no seu envolvimento; e, de outro lado, teme a
indignação e a revolta desses mesmos familiares.

b. Ocasional

É o homicídio praticado em razão de um desentendimento, de uma


desavença momentânea, motivada por uma discussão casual, que pode
ser no trânsito, num bar, num estádio de futebol, numa reunião de
condomínio, etc.

Nesse caso, a motivação surge quase que concomitantemente à prática do


crime.

c. Interesse patrimonial

O autor quer eliminar a outra pessoa para ter seu patrimônio aumentado
ou mesmo para não vê-lo diminuído.

O autor cobiça o testamento da vítima, a herança; almeja receber um


prêmio de seguro de vida; obter a posse de propriedades, terras ou
edificações; quitar dívidas com terceiros ou mesmo com a vítima, etc.

d. Vingança

É o crime de homicídio movido por um sentimento pessoal no qual o autor


sente-se prejudicado, financeira ou moralmente, pela vítima.

Podem ser citados como exemplo os crimes cometidos por integrantes de


gangues, quando o grupo rival pretende matar para vingar a morte de um
de seus componentes, a qual foi praticada pelos rivais. Normalmente, é
um crime precedido por ameaças.

e. Pistolagem

Ocorre quando uma ou mais pessoas são contratadas para executar a


vítima mediante o pagamento pelo serviço contratado.
A investigação desses crimes é complexa, pois não há vínculo direto entre
o executante e a vítima; e a comprovação do vínculo contratual entre o
executante e o contratante é de difícil comprovação.

Na maioria das vezes, o contratante não tem antecedentes criminais,


razão pela qual se argumenta desarrazoadamente que ele não se
relacionaria com o executor, o qual, via de regra, é um criminoso
contumaz.

f. Queima de arquivo

É o crime de homicídio praticado para encobrir outro crime. A prática


criminosa visa manter o autor ou o mandante impune às sanções que
podem advir de suas atividades ilícitas ou mesmo imorais.

O autor, executor ou mandante silencia a vítima, para que ela não revele
fatos que possam colocar em risco sua impunidade.

Em alguns casos, a vítima desfrutava da confiança do autor e esta é


quebrada.

Em outros casos, não existe vínculo entre autor e vítima, mas esta última
presenciou ou, de alguma forma, tomou conhecimento de algum fato que
poderia comprometer a impunidade de seu algoz.

g. Origem psicopata

É o crime de homicídio praticado por um indivíduo ou por um grupo que


apresenta transtorno de comportamento e reage de forma violenta e
explosiva, com extrema brutalidade, em face de qualquer motivo.

Dentro desse aspecto, é importante ressaltar que a motivação para a


prática do crime de homicídio pode decorrer de vários fatores acumulados
durante anos de relacionamento entre autor e vítima.

A experiência tem demonstrado que aquilo que é motivo suficiente para


uma pessoa matar outra pode não ser para uma terceira pessoa. Motivo
de crime de homicídio não se discute. O certo é que, se há
homicídio doloso, necessariamente há uma motivação.

Por isso, a equipe de investigação, após apurar quem era a vítima e seu
universo pessoal de relacionamentos, deverá buscar quem tinha a
motivação para matá-la.

1.1.4. Domínio do fato

Outro princípio que você deve considerar é domínio do fato pela equipe de
investigação. Ele deve ter sempre em mente que o esclarecimento de um
crime de homicídio pode trazer grandes prejuízos patrimoniais para o
autor e também sua desmoralização perante seus comparsas, seus
amigos e familiares, especialmente, nesse último caso, quando se trata de
crime passional ou doméstico, quando, por exemplo, um filho mata os
pais para ficar com a herança.

Nessas situações, o criminoso de certo não deseja ver sua trama


desvendada e usará de todos os ardis e artifícios a fim de não ser
alcançado.

Por outro lado, nenhum profissional poderá realizar seu trabalho com
eficiência e eficácia sem conhecer o objeto de sua atividade, que, no caso,
é o fato criminoso.

A equipe de investigação não pode se esquecer dos interesses contrários


que terá de enfrentar na apuração das provas, pois estará procurando
desvendar aquilo que o criminoso está tentando de toda forma esconder
com o fito de furtar-se da punição do Estado.
Dessa forma, a equipe de investigação deve conhecer a fundo o objeto do
seu trabalho: os vestígios encontrados no local do crime, as lesões
apontadas no exame de corpo de delito – cadavérico –, as informações
sobre o instrumento utilizado para praticar o crime, os eventuais
testemunhos, o fragmento de impressão digital encontrado no local do
crime, etc. Elementos de convicção que o próprio autor pode desconhecer.

Sem esse conhecimento, a equipe de investigação dificilmente saberá


conduzir a investigação com critério e segurança; dificilmente saberá
reconhecer uma prova no contexto de todo o conjunto probatório,
entendendo que a importância de cada prova não depende de seu
tamanho.

O conhecimento profundo do fato investigado permite a realização de um


trabalho lógico e coerente; permite que a equipe de investigação saiba o
limite da investigação, ou seja, até aonde deverá ir à busca das provas.

Para Ribeiro (2006), “O rastro do crime é a bússola da equipe de


investigação”, que deverá “seguir rigorosamente os elementos do crime, e
não achar nada, pois esses devem falar por si mesmos, como fontes vivas
e insubstituíveis da verdade real.”.

1.1.5. Qualificação técnica

Durante vários anos, a atividade investigativa foi desenvolvida de forma


empírica, isto é, a equipe de investigação realizava uma diligência
repetindo um procedimento que aprendera com seus colegas mais antigos
e que dera bom resultado.

O certo é que não parava para raciocinar sobre a atividade executada.


Apenas a repetia. Não havia base teórica estabelecida que lhe norteasse a
atividade. Essa era a realidade das polícias do país e continua sendo, até
hoje, em muitas delas.

Não obstante, com a funesta especialização dos meios para prática dos
crimes, especialmente do crime de homicídio, a equipe de investigação
necessitou vencer o paradigma da mera repetição e, muitas vezes, da
truculência.

Viu-se diante da necessidade de conhecer a estrutura do crime que tinha


para apurar, entendendo como a prática criminosa foi realizada, a fim de
colher os elementos necessários à apuração do crime.

Dessa forma, esse profissional deparou-se com a necessidade de


qualificar-se, sentimento comum na atualidade. Por essa razão, observou
que, somente conhecendo o fato investigado melhor do que o próprio
autor do crime teria as condições necessárias para o esclarecimento.

Assim sendo, quando presente na cena criminosa, a equipe de


investigação com qualificação técnica tem um olhar perscrutador sobre os
vestígios, sabendo a informação que precisa extrair deles.

A qualificação técnica possibilita não só colher a prova de forma oportuna


e conveniente, mas também refiná-la, cuidando para que seja preservada
em toda a sua extensão.

Certamente, a atuação técnica da equipe de investigação possibilita uma


resposta eficiente e eficaz à demanda social quanto à apuração do crime
em lapso temporal que permita reflexos no sentimento de impunidade que
se estabelece quando o Estado demora a agir.
1.1.6. Imparcialidade

A equipe de investigação não deve temer a prova.

Isso significa que ele deve seguir o rastro deixado pela ação criminosa, o
que faz com que uma prova leve à prova subsequente.

Muitas vezes, a equipe de investigação acredita erroneamente que,


inquirindo familiares do suspeito, estará colhendo provas que o
inocentem. Isso não é verdade absoluta. A prova colhida, não import a de
que fonte venha, somente será substancial se harmônica com o restante
do conjunto probatório. Fazer juízo do efeito da prova quanto a inocentar
ou não um suspeito não é função da equipe de investigação. Em face do
princípio da imparcialidade, sua missão é colher a prova, seja qual for seu
efeito no processo judicial ao qual será submetido o suspeito.

De outro modo, não são raras as situações em que familiares do suspeito


contribuem com a investigação mesmo sem querer, quando, por exemplo,
relatam simplesmente que o mesmo viajou.

Com técnica, é possível que a equipe de investigação apure que o suspeito


esteve no local do crime e que só viajou para outra localidade após
cometê-lo.

É importante ter sempre em mente que, quando a polícia identifica um


suspeito, passa a ter duas possibilidades: colher prova que demonstre a
inocência ou a culpabilidade desse suspeito.

Isso significa que o trabalho da polícia deve ser imparcial e ter um único
objetivo: a verdade.

Sendo o suspeito de fato o autor do crime, isso virá naturalmente como


consequência do bom trabalho de investigação.

A verdade dispensa favores e a prática de outros crimes para que seja


estabelecida.
Concluindo...

Neste módulo você estudou e discutiu regras que são princípios básicos a
serem aplicados na execução das atividades de busca da prova do crime
de homicídio.

Percebeu que algumas dessas regras se vinculam da conduta do infrator e


outras, a fatores decorrentes da postura da equipe de investigação?
Discuta com seus colegas.

Você também estudou como esses conhecimentos ora discutidos poderão


ser valiosos no desenvolvimento do plano da investigação.

Compreender as regras que norteiam a conduta, que motivam a prática


delituosa, no mínimo, é criar uma possibilidade da formatação de uma
linha de investigação, certo?

No próximo módulo você estudará sobre a estrutura do crime de homicídio


e a importância da identificação de cada um dos elementos que formam
essa estrutura para a construção da prova.
Módulo 3 – Elementos essenciais do crime de homicídio

Apresentação do Módulo

Olá!

No módulo 2 você estudou as regras que são os princípios básicos da


operacionalidade da investigação de homicídio. São normas que,
aplicadas, permitirão à equipe de investigação dar rumo à sua
investigação do crime de homicídio, concorda?

Pois bem, neste módulo, você voltará sua atenção para o fato delituoso
em si e para o universo de informações, ações e reações que o rodeiam.

Lembra-se da afirmação, feita na apresentação do curso, de que a


investigação parte de uma história, de um contexto? E que ambos
precisam ser conhecidos e explorados?

É isso. O olhar da equipe de investigação terá que estar voltado


atentamente para um fato, uma história de alguém que matou ou tentou
matar uma pessoa, procurando compreendê-la inserida em um contexto.

Parte desse contexto diz respeito aos espaços temporais, territoriais e aos
mecanismos aplicados na prática do delito. É nesses espaços que está
formatada a estrutura do crime de homicídio com seus elementos de
tempo, espaço, ação e resultado.

É preciso decompor cada uma dessas partes para conhecer os elementos


essenciais e acessórios do homicídio, compreendendo como e porque
aconteceu em um determinado ambiente de espaço territorial e de t empo,
estabelecendo o necessário vínculo de autoria.

Essa é a proposta de aprendizado deste módulo.

Boa sorte!
Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Descrever a estrutura do crime de homicídio;

Identificar os elementos essenciais do crime de homicídio;

Compreender a estrutura do crime de homicídio como conhecimento


fundamental para a efetividade da investigação das provas da prática
de tal delito.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – A estrutura do crime de homicídio

Conclusão

Exercícios

Aula 1 – A estrutura do crime de homicídio

Todo crime de homicídio é praticado dentro de uma estrutura de tempo,


espaço, ação e resultado.

Isso significa que o crime é cometido em um determinado momento da


eternidade, em determinado lugar do planeta; exige um “fazer”, um
“atuar” por parte do autor que culmina em um resultado, a morte da
vítima.

Cabe à equipe de investigação deslindar essa estrutura, a fim de


esclarecer o crime em todas as suas circunstâncias, certo?

Entretanto, isso só é possível se a equipe de investigação não limitar sua


ação ao momento da execução.
Mesmo nos crimes de homicídio cuja motivação é ocasional, existe uma
cogitação e uma preparação mínimas para a prática do delito. É
impossível cometer um crime sem se dedicar a esse mecanismo.

Por isso, não se pode limitar a investigação ao momento executório, pois


há o risco de que ocorra a identificação do provável autor sem que seja
possível a coleta de provas suficientes para confirmação da autoria.

Por exemplo, se a equipe de investigação não tiver conseguido


determinar, mesmo que aproximadamente, o tempo do crime, o autor
poderá apresentar um álibi legítimo e safar-se da punição por uma fração
de tempo não superior a quinze minutos, por exemplo – intervalo em que
considerável distância poderá ser percorrida, considerando o concurso dos
modernos meios de transporte.

Assim sendo, a equipe de investigação que pretende realizar um trabalho


consistente deverá decompor adequadamente a estrutura do crime de
homicídio – tempo, espaço, ação e resultado – com o objetivo de exaurir
todas as possibilidades investigativas.

1.1. Elementos essenciais do crime de homicídio


O estudo científico pressupõe a segmentação do todo em partes que
devem ser detidamente analisadas, para que se possa melhor entender o
todo.

No que diz respeito ao crime de homicídio, essa segmentação determina o


entendimento de que cinco elementos essenciais sempre estão presentes
nessa prática: a vítima, o autor, o lugar, o tempo, o instrumento e a
motivação.

Portanto, não há que se falar em crime de homicídio sem a concorrência


necessária desses elementos.

A equipe de investigação, diante de um crime dessa natureza, sabe,


portanto, quais elementos deve invariavelmente buscar.

Veja cada um deles:

a. A vítima

É o primeiro elemento essencial do crime de homicídio.

Por isso, a equipe de investigação deverá conhecer a vítima


profundamente, apurando, por exemplo, com quem convivia, onde
morava e trabalhavam, quais eram os seus hábitos, quem eram seus
familiares, seus amigos, seus inimigos e desafetos, o que exatamente
fazia na hora e no local do crime, quem a acompanhava, de onde vinha e
para onde ia, se pretendia encontrar-se com alguém, etc. É preciso
determinar suas relações familiares, sociais e profissionais.

Investigar a vítima nem sempre é uma tarefa fácil. Muitos dados sobre ela
são obtidos pela polícia por intermédio de consulta a bancos de dados e
registros públicos.

Algumas dessas consultas, como a quebra de dados telefônicos, visando a


conhecer as pessoas com as quais a vítima mantinha contato, necessitam
de autorização judicial e, por vezes, a respectiva informação leva bastante
tempo para ser disponibilizada para a polícia.

Outras vezes, as pessoas mais próximas da vítima não revelam tudo o


que sabem em relação ela, pois imaginam estarem preservando sua
memória escondendo da equipe de investigação, por exemplo, um
relacionamento com uma pessoa comprometida, uma traição ou mesmo
que ela era usuária de drogas.

No entanto, investigar a vítima pode ser ainda mais difícil quando sequer
se sabe sua identidade. Em alguns casos, a vítima é encontrada morta e
seu cadáver está em adiantado estado de decomposição, impossibilitando
que a identidade seja estabelecida pela coleta e análise das impressões
digitais (pelo exame necropapiloscópico).

Em outros casos, o corpo da vítima está em perfeito estado de


conservação, mas a investigação não tem elementos que permitam a
localização de parentes conhecidos, porque a vítima não é identificada civil
nem criminalmente.

Há também casos em que somente uma ossada é encontrada, o que, em


situações nas quais existe uma suspeição quanto à identidade e parentes
conhecidos, é possível a determinação por meio de exame de DNA.

Apesar de todas as dificuldades citadas, a equipe de investigação deverá


realizar todos os procedimentos possíveis para colher dados, registros e
informações sobre a vítima, para esclarecer o crime ou exaurir a
investigação.

b. O autor

Não existe crime de homicídio sem autor.

Por essa razão, deve a equipe de investigação criminal promover as


diligências necessárias, visando à identificação da autoria do homicídio.
Normalmente, uma vez identificada e devidamente investigada a vítima,
alguns suspeitos são postos, o que impõe que sejam minuciosamente
investigados e inquiridos.

Tudo o que for dito pelo suspeito deverá ser submetido ao crivo de
rigorosa investigação.

O suspeito deverá ser questionado sobre todas as suas atividades antes,


durante e depois do horário do crime, considerando que o crime
compreende as fases da cogitação, da preparação, da execução e da
consumação.

É imperioso ressaltar que tanto a confissão do suspeito quanto a sua


negativa só tem valor se confirmadas por outros meios de prova.

Não se pode esquecer também que existe a autoria direta e a indireta ;


esta última quando se trata de crime por encomenda, em que o executor,
autor direto, é contratado pelo mandante, autor indireto, sendo certo que
é este último que tem relação com a vítima.

Nesse sentido, a equipe de investigação deverá buscar provas do acordo


entre o mandante e o executor, evidenciando encontros e contatos entre
ambos antes, durante e após o crime.

c. O lugar

De acordo com Ribeiro (2006), “o delito, por ser um acontecimento


concreto, ocorre sempre em um determinado espaço físico”.

No crime de homicídio, não é sempre que o corpo é encontrado no lugar


em que os atos executórios foram praticados. Assim, por exemplo, a
vítima pode ter sido morta dentro de um veículo automotor ou dentro de
uma residência e o corpo ter sido abandonado em qualquer outro luga r, o
que é comum em crimes planejados ou praticados por grupos de
extermínio.
Há casos em que o lugar do crime pode ser determinado por meio de
exames periciais, analisando-se os vestígios encontrados no corpo da
vítima, como fragmentos de vegetais, solo ou de insetos. Contudo, nem
sempre isso é possível.

Há outros casos em que se determina o lugar por meio de provas


testemunhais ou pela conjunção desses testemunhos com as provas
periciais.

Saber exatamente onde o crime foi praticado é de fundamental


importância, pois certamente é onde estão importantes elementos de
convicção, vestígios materiais e testemunhais, sobre a autoria do crime.

É a partir do local do crime que se irradiam os elementos de prova do


crime de homicídio. Quanto ao aspecto processual, o lugar do crime
determina a competência do juiz.

Não é por outra razão que existe determinação legal para que, tomando
conhecimento da notícia do crime, a autoridade policial e seus agentes
devem dirigir-se ao local e providenciar a sua preservação para que não
se altere o estado das coisas e também porque a partir desse local
desdobram-se as possibilidades investigativas.

Para Ribeiro (2006), “quem não sabe onde o crime aconteceu, muito
menos sabe exatamente onde procurar a prova”.

d. O tempo

Ainda gozando dos ensinamentos de Ribeiro (2006), para ele o crime


acontece em algum momento exato da eternidade.

A equipe de investigação deverá, portanto, determinar com a maior


precisão possível o tempo da ação criminosa.
Em muitos casos, não é possível demonstrar o exato momento do crime,
especialmente quando o corpo é ocultado ou abandonado em local ermo e
só é encontrado muito tempo depois.

Contudo, a equipe de investigação não pode se furtar de realizar todas as


diligências possíveis, com o objetivo de, pelo menos, aproximar-se o
máximo possível do lapso temporal em que o crime foi praticado.

A experiência tem demonstrado que, quando não há precisão quanto ao


tempo do crime, é possível que sejam encaixados álibis, que sustentam
que o autor estava em outro lugar na hora do crime, fazendo outra coisa e
acompanhado por outras pessoas.

Exemplo

No homicídio em que foi vítima um desembargador, morto a tiros quando


fazia caminhada nas proximidades do local em que residia, o executor dos
disparos, após o crime, dirigiu-se imediatamente para sua casa, distantes
vinte e oito quilômetros do local do fato, percurso realizado de carro em
quarenta minutos.

Chegando em sua casa, imediatamente realizou um telefonema para uma


ex-companheira, com quem tinha uma filha, a fim de criar um álibi, o que
poderia ser atestado pelo extrato telefônico.

Ocorre que foi possível determinar o exato tempo do crime, pois as


câmeras de segurança de edifícios vizinhos ao local do crime gravaram o
momento em que um grupo de jovens que conversava em frente de onde
se deu a execução correu após ouvir o primeiro disparo.

A prova testemunhal corroborou o tempo determinado, assim como a


prova técnica, pois foi realizada uma reprodução simulada dos fatos, na
qual ficou demonstrado que o autor teve tempo suficiente de se deslocar,
após o crime, até sua residência, e realizar o telefonema mencionado.
O autor foi preso, processado, julgado e condenado.

e. O instrumento

Considerando que o homicídio é a eliminação da vida humana de forma


não natural, mas violenta, o autor do crime necessita de um meio
qualquer para que o resultado morte ocorra. Por essa razão, todo crime
de homicídio exige a utilização de um instrumento.

Esse instrumento pode ser as mãos do autor (quando se tem a morte por
esganadura, por exemplo), pode ser uma arma branca (faca, punhal,
facão, etc.), uma arma de fogo (revólver, pistola, etc.), substâncias
tóxicas (venenos em geral), paus, pedras, segmentos de ferro, entre
outros.

Assim, é fundamental que a investigação determine o tipo de inst rumento


usado para matar a vítima, mesmo que não consiga encontrá-lo.

Em regra, o instrumento do crime tem estreita relação com os hábitos,


atividade profissional, condição socioeconômica, idade e sexo do autor.

Cabe a equipe de investigação definir qual foi o instrumento do crime;


depois deve buscar saber em poder de quem estava esse instrumento no
momento do crime, qual seu paradeiro após o crime e qual sua eficiência
e compatibilidade com as lesões que a vítima apresentava.

Especialmente no caso de o instrumento ser uma arma de fogo, deverá a


equipe de investigação apurar o mais rápido possível qual o calibre dessa
arma, mediante exame pela perícia criminal dos projéteis e estojos de
cartuchos por ventura encontrados no local do crime ou extraídos do
cadáver da vítima.

A equipe de investigação não deve, entretanto, sentir-se desestimulado se


não conseguir localizar o instrumento, pois o autor normalmente tudo faz
para se desfazer dele.
Considerando o uso de arma de fogo, é comum entre autores contumazes,
haver uma grande rotatividade de armas, o que dificulta ou mesmo
impossibilita sua localização e apreensão pela polícia.

No entanto, como já foi dito, o que condena um criminoso é o conjunto


probatório consistente e harmônico.

Na maioria das vezes, mesmo localizando-se a arma de fogo e havendo


projéteis para confronto, o exame pode resultar inconclusivo por questões
técnicas.

Assim sendo, o que a equipe de investigação não poderá deixar de


esclarecer é a natureza, a espécie e o tipo de instrumento utilizado para
praticar o crime de homicídio.

f. O motivo

Por último, há o motivo, a razão da prática do crime. Como você já


estudou, não há homicídio doloso sem motivo.

O motivo é o acontecimento que precede o crime e leva uma pessoa a


eliminar outra.

O motivo é aquele interesse ou desejo contrariado; é um bem cobiçado; é


um valor moral atingido; é uma relação ameaçada, rompida ou
indesejada; é um compromisso descumprido; é o interesse de se ocultar
alguma coisa.

Os motivos que levam uma pessoa a eliminar outra são variados e


imprevisíveis. Portanto, é tarefa impossível enumerar todos os tipos de
motivos.

Em geral, os motivos são de ordem social, patrimonial, criminosa,


amorosa, política e psicopata.

Os motivos de ordem social são aqueles que decorrem das condições


de vida, das relações da ambiência social do indivíduo.
Exemplos: Brigas em botecos entre pessoas embriagadas, por assuntos
triviais, pela disputa por um copo de bebida, por um simples empurrão;
desentendimentos entre vizinhos; intolerância das pessoas no convívio em
sociedade.

Os motivos de ordem patrimonial surgem da disputa ou do interesse


pelo patrimônio, o qual poderá ser tanto da vítima quanto do autor, ou até
de um terceiro.

Exemplos: A disputa por herança, a briga entre sócios e a divisão de


terras.

Os motivos de ordem criminosa são aqueles que têm origem dos


conflitos entre aqueles indivíduos que vivem do crime.

Exemplos: Pode ser uma queima de arquivo, a disputa pelo domínio de


uma área, o não pagamento de dívidas (comum no tráfico de drogas), o
desacerto na divisão do produto de um crime (roubo, extorsão mediante
sequestro), entre outros.

Os motivos de ordem amorosa advêm de fatores gerados do


relacionamento entre casais.

Exemplos: Casos que estão geralmente afetos ao ciúme, à traição, ao


orgulho ferido e à paixão.

Os motivos de ordem política surgem das disputas acirradas pelo poder


político ou mesmo do objetivo de se encobrirem atos de improbidade no
exercício do cargo.

Os motivos de ordem psicopata emergem de um estado mental


patológico.

Exemplo: O caso que ficou nacionalmente conhecido como “maníaco do


parque”, no qual um jovem humilde atraía moças jovens para locais
desertos, com a promessa de que seriam modelos, e as estuprava e
matava.

6.1. Outra classificação do motivo

O motivo do crime de homicídio pode também ser classificado em


imediato ou mediato, único ou múltiplo, determinante e não
determinante.

O motivo imediato é aquele que acontece em tempo próximo ao da


prática do crime.

Exemplo: O empurrão sofrido pelo autor leva-o ao imediato saque de


uma faca e agressão à vítima.

O motivo mediato é aquele cuja ocorrência se verifica muito antes do


cometimento do crime. Nesse caso, o autor tem tempo suficiente apenas
para as medidas indispensáveis à preparação e à execução do crime.

Exemplo: O não pagamento de uma dívida pela vítima, quando ela é


ameaçada de morte pelo autor, que monta uma emboscada para matá-la.

Quando o autor só tem uma razão para matar a vítima, o motivo é


único.

Quando estão envolvidos vários fatores motivacionais, se está diante de


uma motivação múltipla.

Exemplo: Uma mulher manda matar o marido, pois ele a maltratou com
agressões físicas e verbais durante anos, tem amantes e goza de
considerável patrimônio.

O motivo determinante é aquele que conduz o agente a decidir matar a


vítima. Ele pode ser imediato ou mediato, pois o autor pode decidir matar
a vítima em seguida ao fator determinante ou, por conveniência e
aguardando uma melhor oportunidade, esperar por determinado tempo.
O motivo não determinante é aquele que não conduz o autor a decidir-
se pela morte da vítima. É o caso das agressões sofridas, durante anos,
por uma esposa, a qual só decide matar o marido quando toma
conhecimento de que ele pretende separar-se dela para casar com a
amante.

Muitas vezes, a investigação não consegue demonstrar de forma


indubitável a motivação de um crime de homicídio, pois ela integra o
universo pessoal do autor.

Importante!

Motivação de crime não se discute, apenas se constata. E ainda, não é


porque alguém tenha, em tese, motivo para matar outrem que é o autor
do crime. Pense nisso.
Concluindo...

A conduta que leva à prática do crime de homicídio tem uma estrutura


operacional que precisa ser devidamente considerada pela equipe de
investigação.

A visualização dos elementos de espaço, tempo, ação e resultado na


conduta delituosa em estudo é fator preponderante na compreensão das
razões e do modo como ocorreu o delito, possibilitando a formulação de
estratégias eficazes na apuração das provas.

Neste módulo foram estudados e discutidos os elementos essenciais da


estrutura do crime de homicídio. No próximo módulo você fechará esse
estudo com a verificação dos elementos acessórios.
Módulo 4 – Elementos acessórios do crime de homicídio

Apresentação do Módulo

Seja bem-vindo ao módulo 4 do curso!

Neste módulo você complementará o estudo do módulo anterior tratando


dos elementos acessórios na conduta do crime de homicídio.

Vimos que a conduta que leva à prática do homicídio está contida em uma
estrutura de tempo, espaço, ação e resultado, e que esses elementos são
formados por outros elementos que se subdividem em essenciais e
acessórios.

Como visto, para a investigação, desmontar esses elementos estruturais é


a possibilidade de um olhar completo sobre a conduta do infrator,
apontando os caminhos a serem seguidos na busca da prova.

É com esse olhar que você deverá desenvolver o estudo deste módulo,
discutindo e conhecendo os chamados elementos acessórios da conduta
do crime de homicídio.

Boa sorte!

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Identificar os elementos acessórios do crime de homicídio;

Explicar os processos da destruição, da subtração ou da ocultação do


cadáver como circunstâncias norteadoras da apuração das provas da
prática do delito de homicídio.
Estrutura do Módulo

Aula 1 – Elementos acessórios do crime de homicídio

Aula 2 – A destruição, a subtração ou a ocultação do cadáver

Aula 1 – Elementos acessórios do crime de homicídio

Elementos acessórios ao crime de homicídio são aqueles que, por razões


diversas, agregam-se aos elementos essenciais, mas que, diferentemente
destes, não são encontrados em todos os crimes de homicídio.

Os elementos acessórios constituem o elo que permeia e sedimenta os


elementos essenciais.

Como elementos acessórios, podem-se apontar: os vestígios materiais,


as circunstâncias, as testemunhas.

Veja então cada um desses elementos:

a. Os vestígios materiais – São normalmente encontrados no local do


crime e no corpo da vítima e/ou do autor.

Sim, mas o que são esses chamados vestígios de um crime?

Para Erich Anuschat (1933), “[...] é tudo que possa ser percebido como
matéria, corpo, objeto, etc., que tenha ou possa ter ligação com o crime
ou criminoso e que sirva à elucidação do crime e determinação da
autoria”.

Na cena do crime são encontrados objetos, marcas ou sinais ali deixados


como resultado da ação delituosa, os quais são, portanto, detentores de
informações sobre o evento ali ocorrido. Esses vestígios poderão estar
tanto no corpo da vítima como no ambiente da ocorrência ou, ainda, no
corpo e nas vestes do próprio autor.
Todos esses elementos são considerados vestígios materiais por serem
palpáveis, verificáveis como matéria.

Exemplo: Mancha de sangue, respingo de saliva, lesão corporal,


impressão digital, pegadas, etc.

Ocorre que nem sempre se sabe o exato local do crime ou se encontra o


cadáver da vítima, o que não impedirá a apuração de provas.

b. As circunstâncias – Dizem respeito à situação, ao estado em que


ocorreu a prática do homicídio, podendo ser demonstradas pela leitura dos
vestígios matérias deixados na cena do crime.

Ocorre que, em determinadas situações, os vestígios são alterados por


ação dos fenômenos naturais (chuva que apaga escorrimentos de sangue,
marcas de pneumático, etc.), por ação do tempo (quando se encontra
apenas a ossada da vítima, impedindo que se determine se há evidências
de violência) ou por ação do criminoso (o qual queima a roupa que usava
quando praticou o crime ou dá fim à arma do crime, destruindo-a ou
jogando em um rio), impedindo assim a constatação das reais
circunstâncias que envolveram o crime.

São exemplos de informações sobre as circunstâncias o número de golpes


sofridos pela vítima, dedos arrancados, olhos perfurados, genitália
queimada.

Veja que as circunstâncias têm estreita relação com a motivação de delito


e, consequentemente, com o autor.

c. A prova testemunhal - É o último dos três elementos acessórios do


crime de homicídio.

Embora a prova testemunhal possa, muitas vezes, gerar dúvidas sobre a


verdade real, a harmonia do que for informado pela testemunha com as
demais provas coletadas durante a investigação trará a equipe de
investigação a certeza da veracidade do testemunho.

Exemplo: em um bairro pouco habitado, um pescador, após discutir com


sua esposa, retira a vida da última com um golpe de faca. Acreditando
que o crime não possuía testemunhas, o autor abandona a faca no local e
parte em direção a um rio próximo, onde permanece pescando por vários
dias. Ao retornar, acaba sendo preso preventivamente, pois a única
vizinha do imóvel, uma vez tendo presenciado o ocorrido, relata os fatos
à equipe de investigação, que os retransmite a autoridade policial. Esta
por sua vez, com base no referido testemunho e nas impressões digitais
encontradas na faca, representa pela sua prisão e o indicia pela prática do
crime de homicídio.

Entretanto, tal quais os vestígios materiais, muitas vezes há ausência


desse elemento (t es t e mu nh as ) na apuração d o ho mi cí dio .

Aula 2 – A destruição, a subtração ou a ocultação do cadáver

Embora a destruição, a subtração ou a ocultação do cadáver sejam um


tipo penal autônomo, para a investigação criminal devem ser consideradas
as circunstâncias do crime de homicídio.

A prática dessas condutas pelo criminoso normalmente objetivo assegurar


a impunidade do crime de homicídio, pois o autor acredita que, se o corpo
da vítima não for encontrado, não se poderá afirmar sequer que o crime
aconteceu.

É também uma prática comum usada pelos grupos de extermínio, como


aconteceu, em diversos casos, no Rio de Janeiro, onde as vítimas eram
queimadas em pneus, como no caso do jornalista Tim Lopes 1. Essa
circunstância verifica-se com certa frequência quando o crime de
homicídio é doméstico, ou seja, quando foi praticado dentro do próprio lar.
Nesses casos, o autor procura simular um desaparecimento da vítima ou
mesmo um sequestro.

Mesmo sendo tais circunstâncias resultantes de uma ação intencional do


criminoso – portanto de extrema relevância na investigação criminal, pois
permitem o estabelecimento de hipóteses viáveis para o desenvolvimento
da apuração – nem sempre elas estão presentes no crime de homicídio.

1
http://www.timlopes.com.br/casotimlopesmobilizatodoopais.htm
Concluindo...

Com este módulo você encerra seus estudos sobre o tema que diz
respeito aos espaços temporais, territoriais e aos mecanismos
operacionais da prática do homicídio. Esse é o contexto no qual se
encontra formatada a estrutura da conduta homicida com seus elementos
de tempo, espaço, ação e resultado.

Compreendeu?

Necessariamente a equipe de investigação deverá lançar seu olhar inicial


para cada um desses elementos, essenciais e acessórios, que compõem a
conduta do homicídio, identificando e analisando cada um deles na busca
da compreensão do onde, quando, como e por que o crime ocorreu,
pois essas são as portas que o levarão às provas necessárias para a
apuração.

No módulo seguinte você estudará sobre a prova na investigação do


crime de homicídio.

É muito provável que você já tenha estudado esse tema, principalmente


se foi aluno do curso Investigação Criminal da REDE EAD da SENASP.
Entretanto, essa abordagem traz uma análise específica para o caso de
homicídio e novos conceitos para a compreensão do tema, como os que
tratam da “volatilidade dos vestígios” e da “linha do tempo”.
Módulo 5 – A prova na investigação do crime de homicídio

Apresentação do Módulo

Os dois módulos anteriores trataram do tema que diz respeito aos espaços
temporais, territoriais e aos mecanismos operacionais da prática do
homicídio, certo? Ou seja, você estudou aquilo que é chamado de
estrutura da conduta homicida.

Estudou que nessa estrutura estão contidos os elementos de tempo,


espaço, ação e resultado e que nesses elementos estão inseridos outros
elementos de natureza essencial ou acessória para a operacionalidade da
investigação.

Neste módulo você estudará sobre prova, que é o personagem principal


não só da investigação criminal, mas de todo o processo penal.

Você fará uma análise sobre os cuidados que deverão ser dispensados aos
vestígios e evidências no processo de coleta, estabelecendo o diferencial
entre valorizar e valorar a prova, e, ainda, uma abordagem conceitual
sobre a volatilidade dos vestígios e sobre a linha do tempo e sua
importância para a apuração das provas.

Boa sorte!

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Definir o que seja prova no contexto da investigação do homicídio;

Explicar quais os cuidados necessários para a valorização e a


valoração da prova do crime de homicídio;
Aplicar métodos necessários à preservação da cadeia de evidências
de um homicídio.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Contexto da prova no crime de homicídio

Aula 2 – A valorização e a valoração da prova do crime de homicídio

Aula 3 – Cadeia de evidências

Aula 4 – Preservação da cadeia de evidências

Aula 5 – Volatilidade dos vestígios

Aula 6 – Linha do tempo

Aula 1 – Contexto da prova no crime de homicídio

Não resta dúvida de que o objetivo da investigação criminal é coletar


provas das circunstâncias em que ocorreu determinado delito e de sua
autoria, para que haja um processo de avaliação da culpabilidade ou
inocência do indivíduo apontado como autor.

Provar não é supor. Provar é demonstrar fatos. Entretanto, nem sempre é


simples demonstrar a ocorrência de um fato. Essa é a grande encruzi lhada
pela qual passa o investigador, em especial o do crime de homicídio.

Não é objetivo deste curso fomentar nenhuma discussão doutrinária sobre


a prova penal, mas contextualizar o conceito de prova nas práticas da
investigação de homicídio para que o investigador possa compreender o
que realmente poderá considerar como evidência de provas dessa prática
delituosa.
Entretanto, é importante que se tenha uma referência conceitual desse
elemento fundamental do processo penal, visto ser ele o objeto
perseguido em todo o caminho apuratório.

1.1. Conceitos

Segundo Noronha (1983), “provar é fornecer no processo o conhecimento


de qualquer fato, adquirindo para si e gerando em outro a convicção da
substância ou verdade do mesmo fato”.

Para outro processualista, Tourinho Filho (2003, p. 476), provar é, antes


de tudo, estabelecer a existência da verdade.

Para Malatesta ([s.d.], p. 19), a prova é o meio objetivo pelo qual o


espírito humano se apodera da verdade.

1.2. Comunhão dos meios de prova

Nessa toada, há alguns indicadores que precisam ser percebidos pelo


investigador, pois eles darão rumos que possibilitarão a busca da prova.
Um desses indicadores é o de que a construção da prova de um homicídio
não é um fim em si mesmo, mas, como toda a produção da prova penal,
está dentro de um contexto que se chama justiça criminal; portanto, a
primeira indicação é de que a prova não é da investigação em si, mas do
processo como um todo.

Como se tem um sistema processual penal acusatório, com a prevalência


dos princípios do contraditório e da ampla defesa, ainda que a
investigação tenha uma conotação inquisitiva, não deixa de ser submetida
ao controle do juiz e das partes (acusação e defesa).

Por que isso acontece?


Porque há no processo um princípio aplicado à coleta de provas que se
chama: princípio da comunhão dos meios de prova. Ou seja, a prova
que é levada ao processo pode ser utilizada por qualquer um dos seus
sujeitos: o juiz, a acusação ou a defesa.

Você saberia explicar o que isso significa na prática da investigação do


homicídio?

Simples. Que a busca da prova penal deve ser guiada também pela
imparcialidade do investigador, como você estudou em aula anterior. O
investigador não coleta a prova para A ou B, mas para o processo. Ela
servirá aos litigantes e ao interesse da Justiça.

1.3. Hierarquia das provas

Outro aspecto importante da prova é que não há uma hierarquia entre


as provas. O valor da prova é determinado pela sua harmonia com as
demais e pela regularidade do processo de coleta, portanto não há
método ou técnica de investigação mais importante que o outro. Eles
simplesmente se complementam.

Nesse contexto, cada peça da prova terá que ser devidamente encaixada
entre as demais, completando o todo. Isso significa que o depoimento de
uma testemunha que narra uma circunstância deverá se adequar à
informação registrada no vestígio material, porventura deixado como
prova do fato. Daí a importância da interação entre os investigadores.

1.4. Classificação das provas

Segundo Araujo (2008), doutrinariamente, a classificação de provas mais


compreensível didaticamente é a seguinte:
a. Provas objetivas ou materiais – São aquelas representadas por
vestígios produzidos ou decorrentes da conduta tida como infração
penal. São aquelas constatáveis materialmente por meio de exame
pericial.

Exemplos: As provas representadas pelos laudos dos exames de lesões


corporais, exames de armas, drogas, substâncias orgânicas, etc.

b. Provas subjetivas ou informativas – São aquelas representadas


por depoimentos de testemunhas, autor e vítimas.

Exemplos: Termos de declarações, de interrogatórios, de reconhecimento,


etc.

c. Provas complementares – São aquelas representadas por


elementos ou dados auxiliares que, em geral, reforçam, corroboram as
demais provas.

Exemplos: A identificação criminal, a folha de antecedentes, relatórios


sobre a vida pregressa do indiciado, a reprodução simulada do fato, etc.

d. Indiciárias ou circunstanciais – “Considera-se indício a


circunstância conhecida e provada, que, tendo relação com o fato,
autorize, por indução, concluir-se a existência de outra ou outras
circunstâncias”. (art. 239 do CPP )

Exemplos: A circunstância de que alguém foi visto saindo correndo de


uma sala, onde se encontra o corpo de uma vítima de homicídio,
segurando um revólver, logo depois de ouvidos os estampidos dos
disparos de uma arma de fogo.

1.5. Tipos de testemunhas do homicídio


Preste atenção em um aspecto importante na apuração de provas de
homicídio que diz respeito aos tipos de testemunhas com as quais o
investigador poderá se deparar.

Compreender essa diversificação vinculada às circunstâncias, tempo e


ambientação da testemunha fará com que seja mais fácil para o
investigador selecionar aquelas pessoas potencialmente portadoras de
informações sobre o caso. Ele saberá, principalmente, determinar com
maior precisão as questões que deverão ser postas para cada uma.

Ainda seguindo as orientações de Mingardi (2006), o investigador de


homicídios poderá deparar-se com os seguintes tipos de testemunhas:

a. Aquelas que encontraram o corpo – Elas terão informações sobre


as circunstâncias iniciais que envolveram a cena do crime,
provavelmente sobre características de suspeitos.

b. Aquelas que conheciam a vítima ou se apresentaram


voluntariamente para prestar alguma informação.

c. Aquelas que atenderam a ocorrência – Elas poderão saber o que


ocorreu depois do crime, como alterações na cena e possíveis
testemunhas e suspeitos.

Conhecer esse grupo de testemunhas é um aspecto prático da


investigação que facilitará o planejamento da abordagem de cada uma
delas, evitando a perda de tempo procurando colher informações com
fontes erradas.

Aula 2 – A valorização e a valoração da prova do crime de


homicídio

Na aula anterior você estudou a prova no seu nível conceitual para que
pudesse compreendê-la como a essência do processo penal. Sem a
demonstração de que existe uma infração penal e uma possível autoria,
não há como falar em justa causa para o processo.

Ocorre que, antes de se falar efetivamente na existência de uma prova,


uma série de procedimentos deverão ser desenvolvidos pelo investigador,
como a identificação de vestígios (sejam materiais ou testemunhais) e seu
isolamento, preservação e análise até que se possa classificá -la como
prova de determinado delito.

Você verá que a apuração de provas de um delito é um processo científico


que, como qualquer outro, requer métodos, técnicas e procedimentos ;
portanto, exige cuidados específicos com as fontes de informação.

O resultado da investigação está diretamente relacionado com a qualidade


desses cuidados. A captura das informações buscadas sobre determinado
fato está vinculada ao grau de preservação das fontes dessas
informações. Quanto maior for o cuidado com essas fontes, maior será a
possibilidade de que forneçam as informações buscadas pelo investigador.

O que seria, então, valorizar a prova?

Veja.

2.1. Valorização da prova

Você estudou que a coleta da prova de um delito é um processo científico


e que esse processo requer cuidados próprios. Para compreender o
conceito de valorização da prova, tenha como ponto de partida o conceito
de cuidar, certo?

Aqui há alguns dos significados dicionarizados do termo “cuidar”: ocupar-


se de; tratar de; zelar pelo bem-estar.

Ora, só se cuida daquilo que de alguma forma tem valor para nós, não é
verdade? E ter valor não é ter estimação, valia para alguém? É nessa linha
de raciocínio que o investigador do homicídio deve tratar as fontes de
informações identificadas e selecionadas para a produção da prova
criminal.

Percebeu que há uma relação semântica entre os termos cuidar e


valorizar? É nessa transição do verbo valorizar para o nome valorização
que está assentado o conceito de valorização da prova. Como se trata
de um resultado da ação, valorização da prova tem o sentido de cuidado,
atenção, zelo pelas fontes e pelas informações produzidas na
investigação.

Vale lembrar que esse cuidado não se restringe aos dados materiais, mas
também às fontes e informações subjetivas (testemunhas, vítimas e,
havendo, os informantes.). Isso significa que a prova testemunhal
também deverá ser submetida ao zelo da preservação.

Entendido? Veja a um exemplo?

Exemplo: Em uma cena de crime de homicídio, o investigador encontra


potenciais testemunhas e vários vestígios materiais, como respingos de
sangue, garrafas quebradas, pegadas, arma, etc. Identificadas e
selecionadas tais fontes, devidamente acondicionadas e protegidas, elas
passam a receber todos os cuidados de preservação para que possam ser
examinadas e delas colhidas as informações necessárias.

Perceba que, além da sua importância, a valorização da prova é um


procedimento que ocorre na investigação criminal, durante a fase
inquisitorial da coleta de prova, cuja finalidade é garantir que a fonte
selecionada seja preservada e dela capturadas as informações que serão
transformadas em prova.

Esse cuidado é responsabilidade tanto daquele que fará o exame da fonte


(perito/legista/papiloscopista/investigador cartorário) como daquele que é
responsável pelos primeiros atos de preservação dessas informações no
local de crime.

Valorar a prova é diferente de valorizar? O que ocorre na valoração da


prova? Veja!

2.2. Valoração da prova

A investigação criminal, como todo processo científico, além de métodos e


técnicas tem também uma linguagem própria, muitas vezes com termos
semelhantes, mas facilmente diferençáveis quanto ao significado.

No caso de valorizar e valorar, há uma diferença conceitual e prática de


suma importância, pois as duas ações, ainda que semelhantes e
complementares, ocorrem em momentos diversos do processo de coleta e
análise das provas e são praticadas por diferentes agentes.

A investigação criminal faz parte de um sistema de produção de provas


que envolve duas fases distintas: a de produção propriamente dita e a
de apreciação e avaliação. Se considerarmos a investigação como o
próprio sistema, essas duas fases poderão ocorrer nela mesma. Mas, se a
considerarmos como parte do grande sistema processual penal, nela só
ocorrerá a primeira fase, a da produção, enquanto a última fase caberá
exclusivamente ao órgão julgador. Portanto, é nesse processo
desenvolvido pelo juiz (ou pelo júri) que ocorre a valoração da prova.

No caso do termo valorar (a prova) há uma abordagem conceitual -jurídica


que deve ser considerada, visto que esse procedimento só ocorre na fase
processual.

Veja como se processa.

2.3. Sistema do livre convencimento motivado


O investigador não pode perder de vista o fato de que sua atividade faz
parte da ação de um Estado Democrático de Direito fundado em garantias
e direitos do cidadão. A coleta de provas da prática de um homicídio é
uma dessas garantias, conforme comenta Leal (2010): “O direito à prova
insere-se no campo das garantias que integram o devido processo legal
[...]”.

Com relação à avaliação da prova feita pelo juiz, veja o que dizem a
Constituição Federal e o Código de Processo Penal, respectivamente:

Art. 93. [...]

IX – todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e


fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei, se
o interesse público o exigir limitar a presença em determinados atos, às
próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes; (CF, 1988)

Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova
produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão
exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação,
ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. (CPP.
Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)

Percebeu?

Aqui a lei define o sistema probatório no processo penal brasileiro, que é o


sistema do livre convencimento motivado, ou seja, aquele processo
pelo qual o juiz (ou júri) construirá seu convencimento apreciando,
livremente, as provas apresentadas no processo e submetidas ao
contraditório, sem submetê-las a qualquer ordem hierárquica, sem
considerar mais uma ou outra, de forma crítica e com persuasão racional.
Entretanto, não se trata de uma avaliação arbitrária, mas necessária de
uma justificativa lógica e legal, o que possibilitará o controle dessa
decisão tanto pelas partes quanto pelo juiz superior.

Deu para perceber que esse processo meticuloso, criterioso e racional de


apreciação e avaliação da prova feita pelo juiz (ou pelo júri) é o que se
chama de valoração da prova?

O processo de valoração é concluído com a aplicação da pena ou a


absolvição do acusado, dependendo do convencimento daquela
autoridade.

Como você tem estudado, a investigação criminal é um processo científico


de pesquisa de um problema (o fato delituoso) em que uma hipótese final
é formulada e submetida a uma verificação, lembra?

A valoração da prova subjetiva pelo juiz ocorre em dois níveis: quanto à


sua validade legal (se produzida de acordo com as normas legais) e
quanto à matéria de fato em que se baseia (se o fato a que ela se refere
diz respeito, direta ou indiretamente, ao delito em apuração).

No que diz respeito à prova material, sua valoração também ocorre


naqueles dois níveis citados: da validação quanto à legalidade e pela
conclusão inferida, se as informações nela contidas dizem respeito ao fato
em questão no processo.

Portanto, é possível constatar que a lógica de valoração da prova pelo


juiz é a demonstração da verdade pela prova e licitude dos meios
de coleta.

2.4. Ações complementares

Bom, diante desse processo desenvolvido pelo juiz (júri) não resta dúvida
de que, mesmo ocorrendo em momentos diferentes e produzidos por
agentes diversos, tanto a valorização como a valoração da prova são
processos complementares.
É muito pouco provável que, na falta dos devidos cuidados do investigador
para com os elementos de prova colhidos na fase investigativa, o juiz
possa ter uma exata ideia da representatividade de cada uma das provas,
até porque pouco restaria após o filtro do contraditório.

Aula 3 – Cadeia de evidências

Pelo visto, a apuração de provas na fase da investigação criminal não é


apenas uma burocracia legal a ser cumprida pela polícia, mas um
processo de fundamental importância para a real reconstrução dos fatos
investigados que irá influenciar sobremaneira na convicção do juiz (júri) a
respeito da autoria e circunstâncias, não é verdade?

Veja que, diante da notícia da prática de um delito, a polícia desenvolve


uma sucessão de ações coletando as mais variadas informações, que
serão transformadas ou não em evidências e que irão permitir a
reconstrução detalhada do fato investigado.

Mas o que é evidência na investigação criminal?

3.1. Evidência

Não é difícil compreender que a informação sobre um delito e sua autoria


só se torna efetivamente uma prova no momento de sua valoração pelo
juiz (júri), certo?

Até lá, há todo um percurso do qual a valoração é a última fase. A


formatação da prova começa pela verificação de um dado isolado que se
chama vestígio, o qual, depois de analisado e contextualizado com outros
dados, é transformado na informação que passa a ser chamada de
evidência.

Deu para entender?


Veja de outra forma pelo exemplo seguinte.

Ao chegar a um local de possível homicídio, na sala de um apartamento,


por exemplo, os investigadores encontram pegadas, fragmentos de fios de
cabelo, respingos de sangue, fragmentos de impressões digitais e
palmares, móveis quebrados, uma lesão na cabeça da vítima e marcas de
arrombamento na porta da cozinha do apartamento. Inicialmente são
dados isolados que, examinados dentro do contexto da cena, se conectam
e contam toda uma dinâmica de ações e reações, permitindo que a
investigação reconstrua a sequência de fatos ali ocorridos, vinculando
pessoas àquele evento.

Percebeu que só o conjunto, a descrição contextual dos vestígios, é capaz


dar uma noção exata do ocorrido?

Pois é, só no momento em que ocorre essa análise contextual é que se


chamam os vestígios de evidência da prática e da autoria de um delito, a
qual só será confirmada como prova pelo juiz ou, no caso do homicídio,
pelo júri.

Evidência, por tanto é a informação contextualizada que vincula pessoas


a uma cena de crime e ao fato ali acontecido.

Ocorre que, para que essa reconstrução seja fiel e compreensível , é


preciso que as evidências, desde o primeiro momento – quando ainda são
simples vestígios – recebam alguns cuidados especiais do investigador no
que diz respeito à sua custódia e manuseio.

3.2. Custódia de vestígios


Como visto, em uma cena de crime – em especial na do homicídio –
sempre há possibilidade de ser encontrada uma variedade de vestígios
materiais que precisam ser bem cuidados.

Segundo doutrina difundida pela SENASP no curso EAD Busca e Apreensão


(p. ), para a correta custódia e manuseio dos vestígios há três cuidados
fundamentais:

a. O primeiro cuidado a ser observado na custódia dos vestígios é a sua


identificação e o registro do ponto exato de sua localização na cena do
crime.

b. O segundo é o acondicionamento correto dos vestígios em


embalagens que permitam o lacre, eliminando a possibilidade de sua
violação e garantindo sua correta guarda.

c. Há, então, o terceiro passo, que é a guarda em local seguro e


adequado.

Entretanto, observando a mesma linha doutrinária, pode-se descrever um


quarto cuidado, o qual será necessário no caso da ocorrência de qualquer
manuseio do vestígio, que é o devido registro de cada um dos
responsáveis por esse processo.

Todos esses cuidados possibilitam a preservação da cadeia de custódia


de cada vestígio material da prática de um delito.

3.3. Cadeia de custódia de vestígios

Mas o que é a cadeia de custódia?

Tome como ponto de partida o que dizem a respeito Lopes, Gabriel e


Bareta em citação feita por Souza ( ) no trabalho acadêmico “Cadeia de
Custódia de Evidências: Influência no Laudo Pericial e Processo Judicial”:

“A cadeia de custódia é caracterizada pela sucessão de eventos e


procedimentos realizados de forma segura e confiável, iniciados na cena
do crime, que promovem a idoneidade e integridade da evidência até sua
utilização pelo Poder Judiciário como elemento probatório”. (LOPES;
GABRIEL; BARETA, 2006)

Veja que a cadeia de custódia, a meu ver, envolve na verdade todo o


processo de movimentação necessária ou não, voluntária ou involuntária
dos vestígios materiais colhidos como informação da prática de um delito
e não apenas os movimentos feitos de forma segura e confiável, como
querem os autores citados, pois se assim fosse, ficaria difícil o controle da
legalidade dos procedimentos de construção da prova material.

3.4. Finalidades da cadeia de custódia dos vestígios

Não é difícil a percepção de que o extremo controle na guarda e manuseio


dos vestígios recolhidos nos locais de crime terá repercussão em todo o
processo de construção lógica e legal da prova penal.

Ainda considerando a lúcida e bem argumentada manifestação de Souza (


), veja o que diz esse autor a respeito da importância da manutenção
rigorosa da cadeia de guarda e manuseio dos vestígios:

Muitas vezes as amostras são únicas e sua perda é traduzida como


prejuízo, podendo inviabilizar ou reduzir o poder da análise (LOPES;
GABRIEL; BARETA, 2006).

Em contrapartida, a cadeia de custódia permite minimizar a possibilidade


de extravio e dano das amostras, desde a sua coleta até o final da fase
analítica. Viabiliza, também, o controle sobre os processos e identificação
nominal das pessoas que tiveram contato com a evidência, caracterizando
a responsabilidade de cada servidor público, integrante dos órgãos da
segurança pública, ou do laboratório que teve acesso à prova material.
Dessa maneira, a cadeia de custódia permite ao perito garantir a
probidade do processo ao qual a amostra foi submetida e rebater as
possíveis contestações (AUTOR DESCONHECIDO).
Outra finalidade da cadeia de custódia é a de facilitar o acesso das partes
à evidência caso desejem requerer nova perícia ou a reanálise das
evidências pelo assistente técnico, como expresso no artigo 159,§ 3º e 6º,
e artigo 170 do CPP:

Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados


por perito oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada
pela Lei nº 11.690, de 2008)

§ 3o Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao


ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos e
indicação de assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)

§ 6o Havendo requerimento das partes, o material probatório que serviu


de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão oficial, que
manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame
pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. (Incluído
pela Lei nº 11.690, de 2008)

Art. 170. Nas perícias de laboratório, os peritos guardarão material


suficiente para a eventualidade de nova perícia. Sempre que conveniente,
os laudos serão ilustrados com provas fotográficas, ou microfotográficas,
desenhos ou esquemas.

Deste modo, é necessário o controle e o monitoramento sobre todas as


fases do processo adotado durante a Cadeia de Custódia. Estes cuidados
devem começar pela notícia do crime até o desfecho, com a sentença do
juiz, passando pelos policiais de rua, socorristas, investigadores,
autoridade policial, agentes cartorários, enfim, todo corpo técnico e
científico que participa desse processo (MACHADO, 2009). Para isso, é
necessário postular um modelo e utilizar as mais variadas áreas do
conhecimento. Com isso, as preocupações relacionadas à qualidade e
preservação das evidências são levadas em consideração e também as
questões do âmbito jurídico. (Souza)
Pode-se destacar, então, que o autor citou, basicamente, quatro
finalidades da cadeia de custódia dos vestígios, com as quais concordo ;
entretanto, acrescento uma quinta finalidade que considero de grande
importância também:

a. Minimizar a possibilidade de extravio e dano das amostras;

b. Viabilizar também o controle sobre os processos e identificação nominal


das pessoas que tiveram contato com a evidência;

c. Permitir que o perito garanta a probidade do processo ao qual a


amostra foi submetida e rebater as possíveis contestações;

d. Facilitar o acesso das partes à evidência caso desejem requerer nova


perícia ou a reanálise das evidências pelo assistente técnico.

E, finalmente, acrescento a quinta finalidade:

e. Garantir a construção da cadeia de evidências.

É importante compreender que os cuidados com as provas também dizem


respeito aos testemunhos. Via de regra, a doutrina só considera as
evidências materiais; entretanto, na prática, não há como deixar de
colocar nesse rol as evidências testemunhais, pois, se assim fosse, tiraria
do foco do investigador a percepção de que os depoimentos também
precisam receber os mesmos cuidados de guarda e proteção das
informações contidas nos objetos materiais.

Importante!

O cuidado acima discutido não deve se restringir às evidências


encontradas no local imediato do crime, mas a todas aquelas que são
encontradas nos demais locais porventura existentes, sejam mediatos ou
complementares.

Aula 4 – Preservação da cadeia de evidências


Como em todo processo científico, na investigação de homicídio há um
raciocínio ordenado, o qual deverá ser preservado sem a quebra de
qualquer um dos seus elos. O cuidado com as provas se reflete na ordem
lógica dada a toda investigação. Ela precisa demonstrar um começo, meio
e fim, e concatenação de seus passos, segundo leciona Mingardi (2005).

A prova, seja qual for sua natureza, não pode parecer que tenha saído do
nada ou caído do céu. Sua origem lícita e lógica tem que ser demonstrada
pela investigação.

Um exemplo muito comum nos inquéritos policiais é o aparecimento de


uma determinada testemunha lá pelo meio da investigação sem que haja
qualquer informação (um relatório ou um depoimento) que possa conectá-
la ao processo de apuração.

Esse tipo de prova é sempre um bom alvo para as dúvidas da defesa


quanto à lisura de sua coleta.

4.1. Efeitos da preservação da cadeia de evidências

Como já foi dito no curso Investigação Criminal I, para Mingardi (2005),


qualquer que seja a prova – material, testemunhal ou uma confissão – os
responsáveis pela investigação têm de poder demonstrar que:

A prova foi colhida de forma lícita;

A prova surgiu da investigação, não apareceu do nada.

Veja, portanto, que tanto a licitude do processo de coleta quanto a


conectividade da prova com o fato terão que ser demonstrados
claramente pela investigação criminal para que a prova possa ser validada
no processo penal.

Ainda para o mesmo autor, a construção da cadeia de evidências deve


demonstrar:
Que houve o crime;

Como foi praticado;

Que o acusado tinha motivos para cometê-lo;

Que ele era detentor dos meios para cometê-lo;

Que ele teve oportunidade para cometê-lo.

Essa rede terá sustentação nas provas colhidas, cuja licitude será
comprovada pela cadeia de custódia.

4.2. Conceito

Mas o que é a cadeia de evidência sobre a qual se está falando? Veja o


conceito.

Cadeia de evidências é, portanto, a sequência ordenada e lógica da rede


de informações colhidas na investigação, de modo a demonstrar que são
frutos de ato investigativo lícito e têm validade como prova das
circunstâncias e autoria do delito.

Como você estudará, ainda que essa ordem das evidências não seja tão
lógica, mas esteja dentro da possibilidade das circunstâncias, ela terá que
ter demonstrada sua origem e meios regulares de coleta, além de sua
relação com o caso.

Aula 5 – Volatilidade dos vestígios

Perceba que, analogicamente, a análise de um sistema de computação na


busca de provas virtuais ou a análise de um sistema de provas penais,
materiais e subjetivas comuns envolvem um ciclo de coleta de dados e de
processamento e interpretação das informações coletadas, não é verdade?
Numa cena de crime, seja virtual ou não, o que o investigador quer é um
retrato exato de toda a cena e das informações ali deixadas. Quanto mais
precisas e completas essas informações, maior será sua validade como
prova. O grau dessa validade é relativo ao estado de pureza em que se
encontre o dado colhido, ou seja, à qualidade de preservação das
informações contidas no vestígio.

Cada dado deixado na cena do crime precisa ser prontamente protegido


para coleta e análise, a fim de que possa produzir as informações
necessárias com a melhor pureza possível. Os cuidados de proteção e a
pronta coleta minimizam a possibilidade de adulteração dos vestígios
tanto no que diz respeito à natureza dos elementos que os compõem
quanto à sua própria posição originária.

Sabe-se dessas possibilidades a partir da constatação de que uma cena de


crime, por mais preservada que seja, é sempre passível de ser devassada
por ações de causas naturais (elementos atmosféricos), acidentais (ações
de imprudência, imperícia ou negligência) e propositais (destruição ou
supressão intencional de vestígios).

Veja como há uma corrida contra o tempo que precisa ser considerada
levando em conta não apenas as causas citadas, mas, também, a
natureza de cada substância que compõe o vestígio.

5.1. Volatilidade

Quando se usa o termo “volatilidade dos vestígios”, há uma referência à


maior ou menor propensão de cada vestígio à corrupção ou alteração do
seu estado original, seja da substância seja do espaço físico que ocupa. A
volatilidade dos vestígios diz respeito ao ciclo de vida de cada um deles no
espaço de tempo compreendido entre sua produção e o ato de
preservação. Esse ciclo depende de fatores intrínsecos ao dado, como sua
própria substância, e de fatores externos que atuam no ambiente em que
se encontram, decorrentes de ações dos agentes descritos anteriormente.

Obviamente, há a possibilidade científica de uma tabela dando a ordem


hierárquica da volatilidade de cada um dos vestígios deixados no local de
crime, mas esse não é o propósito deste estudo, pelo menos no momento.

Tal qual ocorre com a cadeia de custódia dos vestígios, aqui há que ser
considerada também a volatilidade das informações testemunhais. É certo
que, por vários fatores, a pessoa que testemunhou um delito corre o risco
de, com o passar do tempo, ter alterada a informação conhecida pelo
esquecimento ou pela falsa memória, ou também pela desistência de falar
tudo ou parte do que viu, por fatores internos ou externos,
independentemente da possibilidade de ser processado por falso
testemunho.

Sendo assim, os cuidados com a coleta das informações testemunhais


deverão também considerar o grau de volatilidade oferecido, tendo em
vista as circunstâncias e as características de cada testemunha.

A compreensão desse fenômeno é fator de alerta para o investigador


quanto ao imediatismo da coleta de provas no local de crime, bem como
da necessidade de captura e análise dos vestígios o mais livre possível de
distorções, possibilitando a reconstrução de toda a dinâmica do evento o
mais verossimilhante possível.

Aula 6 – Linha do tempo

Ribeiro (2006) coloca como um dos elementos essenciais do crime de


homicídio o tempo.

Parece fora de contexto?

Pois não está. Como você estudou no módulo 3 deste curso, é importante
saber tanto o quando quanto o onde e o como aconteceu a conduta
delituosa. É simples presumir essa importância, visto que uma janela de
tempo na investigação que reconstrói uma ação delituosa poderá ser
facilmente invadida por elementos que colocarão em dúvida a indicação
da autoria.

Tal qual ocorre com qualquer outra informação importante, na apuração


de um delito deve ser prioridade a coleta e análise de dados sobre
data/hora da prática, construindo, com precisão, a linha do tempo do
delito.

O trabalho da investigação criminal busca remontar toda a história do


crime em um espaço de tempo o mais real possível. Muito embora
eventos individuais possam ter importância para a apuração, demonstrar
sua sequência no tempo oferecerá um contexto de extrema importância,
com uma significante leitura dos acontecimentos.

Linha do tempo é, portanto, a sequência de ações da conduta delituosa


no espaço data e hora.

6.2. Janela do tempo

A investigação deverá percorrer todo o espaço temporal do caminho do


crime, de preferência regredindo ao momento de cogitação da proposta
criminosa, procurando preencher cada espaço de tempo com a ação real
do infrator e definindo o tempo de cada um dos momentos do fato, pois
qualquer espaço deixado vazio nesse caminho tornar-se-á uma
possibilidade da criação de rotas de fuga para os suspeitos com seus
famosos álibis. A rota no tempo da ação delituosa terá que ser o mais
completa possível.

A janela do tempo é, assim, o espaço vazio deixado pela investigação na


rota de tempo da ação delituosa.
Nem sempre é tão simples determinar o tempo do crime de homicídio em
face das circunstâncias e, muitas vezes, do tempo decorrido entre a
prática delituosa e o início da investigação desse elemento.

6.3. Importância do tempo do crime

A apuração do tempo do crime tem importante repercussão no processo


apuratório. Em um primeiro momento, uma vinculação de data e hora ao
espaço geográfico poderá orientar o investigador na busca de pessoas que
possam ter presenciado a execução do fato (testemunhas), bem como de
quem possa ter estado no local como executor da conduta. Mediatamente
haverá repercussão processual no tempo de prescrição do crime.

Dada a importância desse elemento do crime, a investigação deverá ter


uma preocupação de averiguá-lo o mais rápido possível, em face do grau
de volatilidade da maioria das informações que o registram.

Os meios buscados para o registro da informação do tempo do crime de


homicídio são encontrados, inicialmente, nos testemunhos, na análise de
vestígios feita pela investigação pericial e em registros eletrônicos
(câmeras, celulares, etc.) hoje tão presentes no cotidiano social.

Há como exemplo mais efetivo do registro da linha do tempo de um crime


de homicídio o que fora feito no caso da juíza carioca Patrícia Acioli.

Saiba mais...

Acessando o site
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1673313-
15605,00.html) e veja o vídeo e o texto de relato do registro dos
tempos de cada ação que envolve a preparação e execução do crime:

Veja que a investigação conseguiu rastrear cada tempo das principais


ações de planejamento e execução da morte da juíza, coletando registros
feitos pelas câmeras de seguranças do fórum, de pontos comerciais e até
de um dos ônibus coletivos urbanos que passava por uma das vias do
trajeto para a casa da vítima.

Outra fonte de pesquisa de informação sobre a linha do tempo no referido


homicídio foram os registros das torres que emitiam sinais para os
celulares dos executores.

Atenção!

Veja o grau de atenção exigido do investigador para com cada uma das
possibilidades de informações contidas no contexto do fato.
Concluindo...

Interessante, não?

Dificilmente o investigador considera elementos como a volatilidade e a


linha do tempo, fatores importantes na efetividade da coleta de provas de
um homicídio.

Você estudou que falar desses efeitos não se trata apenas de um trabalho
intelectual, mas de uma afetação prática na qualidade e eficácia das
informações que sustentarão as provas da prática de um homicídio.
Considerá-los significa a possibilidade de colher ou não determinados tipos
de evidências na sua plenitude informativa.

O fundamental deste módulo é a metodologia dos cuidados que deverão


ser tomados nas coletas das informações que construirão a prova do
homicídio, principalmente no que diz respeito à definição da cadeia de
evidências como elemento de aferição da regularidade do processo de
coleta da prova.

No próximo módulo, você estudará os principais métodos a serem


aplicados na investigação de homicídio.

É interessante. Não deixe de ver.

Siga!
Módulo 6 – Metodologia aplicada à investigação do crime de homicídio

Apresentação do Módulo

Você chegou ao último módulo.

Para encerrar essa primeira parte do curso, você estudará a metodologia aplicada à
investigação do crime de homicídio.

Inicialmente você estudará a investigação criminal como um processo científico. Logo depois,
o método definido pela lei processual penal, visto ser a investigação criminal a primeira fase
da persecução ao infrator da lei penal. Você estudará também os métodos operacionais
comumente aplicados pela polícia na busca da prova do crime de homicídio ; abordará,
especificamente, os métodos do rastejamento, dos círculos concêntricos e da detonação. Por
último, fará uma análise do processo de escolha dos métodos e das técnicas q ue serão
aplicadas na busca da prova do crime de homicídio.

Bom estudo!

Objetivos do Módulo

Ao final do estudo deste módulo, você será capaz de:

Explicar a investigação de homicídio como um processo científico;

Aplicar os métodos de investigação de homicídio;

Contrastar os métodos e técnicas de investigação para escolher a mais adequada para


cada situação.

Estrutura do Módulo

Aula 1 – Processo científico da investigação de homicídio – aspectos

Aula 2 – Metodologia da coleta da prova no inquérito policial – metodologia do CPP aplicada


à investigação de homicídio

Aula 3 – Métodos aplicados à investigação de homicídio – método do rastejamento


Aula 4 – Outros métodos utilizados na investigação do crime de homicídios – Método dos
círculos concêntricos e Método da detonação

Aula 5 – Escolha do método e das técnicas que serão aplicadas na investigação de homicídio

Aula 1 – Processo científico da investigação de homicídio

Antes de qualquer análise sobre a metodologia da investigação de homicídio, é importante


analisar a seguinte questão: a investigação criminal é um processo científico?

Para chegar a uma resposta, estude, a seguir, alguns conceitos importantes como método
científico e investigação científica.

1.1. Método científico

Quando se fala de processo científico, normalmente se é levado ao conceito do método


científico. Denker, citado por Araújo (2008), diz que “método científico é um conjunto de
regras ou critérios que servem de referência no processo de busca da explicação ou da
elaboração de previsões em relação a questões ou problemas específicos”.

Sobre o mesmo conceito, vale a pena vermos a fala de Dourado e Sequeira ( ):

“O método científico corresponde a uma sequência linear de várias etapas que, segundo
Millar (1991), se inicia com a observação. As restantes etapas incluem habitualmente: a
formulação de hipóteses, o desenho de experiência, a recolha de dados, a análise de dados e a
elaboração de conclusões (Storey & Carter, 1992). A implementação dessas etapas conduz às
explicações, desde que estas tenham sido efectuadas de um modo cuidadosamente estruturado
e sequenciado (Millar, 1998)”. (Dourado & Sequeira, ...).

Analisando os conceitos, a ideia de método científico é a de uma sequência ordenada e linear


de atividades que levarão a uma conclusão. Essa visão dificilmente se adequará perfeitamente
ao processo de apuração de um delito, em que necessariamente as atividades de busca de
prova nem sempre seguirão uma ordem absolutamente linear.
Ainda fazendo referência a Denker, Araújo (2008) diz que para a autora, “o emprego do
método é que faz com que o conhecimento seja considerado científico. Para ela, são três os
elementos que formam a base da investigação científica e caracterizam o conhecimento como
ciência: a teoria, o método e a técnica, sendo esta o “como fazer”, o que é estabelecido pelo
método”.

1.2. Investigação científica

Entretanto, segundo Dourado & Serqueira ( ), as atuais perspectivas no domínio da filosofia


da ciência são no sentido de assumir uma diversidade de procedimentos me todológicos
acatados pela comunidade científica na prática do trabalho científico, não considerando
apenas o rigor dos procedimentos do método científico para construção do conhecimento
científico. Segundo eles, essas mudanças epistemológicas da ciência permitem compreender
que o “fazer ciência” é concretizado através de “investigações”, entendidas como uma
modalidade de resolução de problemas, conforme (Gott & Duggan, 1995), citado pelos
mesmos autores.

Para Giordan e Hodson, citados por Dourado & Serqueira ( ), na investigação não há uma
sequência de etapas bem definidas; há uma sequência de etapas possíveis em que as diferentes
atividades do investigador se misturam continuamente. Apesar disso, são essas etapas que o
levarão à produção do conhecimento científico.

Ainda no ponto de vista de Dourado & Serqueira ( ), “para caracterizar o percurso do


investigador, existem três elementos principais: questão, hipótese e experiência. Estes são
difíceis de separar, funcionando geralmente como um todo, ou frequentemente como um
sistema de interações múltiplas e de feedback.”

É esse conceito de investigação científica que irá nortear a abordagem que será dada ao
processo da investigação de homicídio para que você possa analisá- lo e compreendê- lo como
científico ou não.
1.3. Processo da investigação criminal

Segundo Araújo (2008), uma análise do padrão geral da investigação científica permite a
constatação, aqui citando Copi (1981, p. 391), de que “o detetive, cujo objeto não é idêntico
ao do cientista puro, mas cuja abordagem e técnica para a investigação dos problemas
ilustram, claramente, o método científico”.

Veja que investigar um delito não é muito diferente da investigação de outro fenômeno
qualquer de interesse da ciência.

Informam Dourado & Serqueira ( ) que a investigação, ainda que de forma não
necessariamente sequencial, segue as seguintes etapas: observação, identificação do
problema, formulação de hipóteses, realização de experiências para testar as hipóteses ,
decisões sobre os dados a recolher e modo como fazer, elaboração de conclusões e
apresentação de teorias.

Será que esse processo se aplicaria à investigação de homicídio?

Veja cada uma das etapas.

1.4. Etapas do processo da investigação científica

a. Observação

A pesquisa científica é uma observação da realidade. É o processo inicial da busca de


informações. Grande parte dos dados buscados pelo pesquisador é obtida pela observação
direita de uma situação.

Essa observação receberá influência de ideias prévias e da experiência de vida de quem a


executa. É possível então, que diante de uma mesma situação, pessoas diferentes tenham
conclusões diferentes.

E você, como aplicaria à investigação criminal o procedimento da observação?

Na investigação de homicídio não é diferente. Há um fato carregado de informações, sejam


materiais (vestígios) ou testemunhais. O primeiro procedimento é observá-lo, compará-lo com
os conhecimentos prévios adquiridos pelo investigador, seja do direito ou das ciências
forenses. Só depois disso é que ele será capaz de começar a identificar o problema que tem
diante de si e formular as primeiras hipóteses sobre as circunstâncias e autoria.

b. Identificação do proble ma

Antes é preciso saber o que é um problema, certo?

A esse respeito, veja o que diz Copi em citação de Araújo (2008):

“Podemos caracterizar um problema como um fato, ou um grupo de fatos, para o qual não
dispomos de qualquer explicação aceitável, que pareça incomum ou que não se adapte às
nossas expectativas ou preconceitos.” (COPI, 1981 p. 392)

Para Dourado & Serqueira ( ), o problema assume na investigação um papel fundamental,


considerando que o objetivo dela é exatamente a resolução de problemas. É o problema que
irá orientar todo o trabalho subsequente da investigação.

Pode-se dizer que na investigação criminal, o problema é o fato posto diante do investigador
que requer a interferência do Estado para definição das circunstâncias em que ele ocorreu e de
quem o praticou. É o caso sob investigação.

Definir o problema é dizer se é um fenômeno que interessa ao direito penal. É preciso então
dizer se houve a prática de um delito, pelo menos em tese, pois a confirmação dessa
possibilidade só se dará no processo judicial.

Exemplo:

Um cadáver do sexo masculino encontrado sentado no sofá da sala de sua casa. Não há
qualquer evidência de que tenha sido vítima de uma ação delituosa.

Com esses dados é possível formular um problema?

Provavelmente não. Será necessária uma leitura mais ampla de todo o contexto que envolve o
cadáver na busca de algum vestígio que indique o que possa ter acontecido ali.

Entretanto, muitas vezes, não é tão simples formular um problema diante de um fato. Segundo
Copi (1981), citado por Araújo (2008), a “mente ativa vê problemas onde a pessoa obtusa só
vê objetos familiares”.
Faça uma breve reflexão.

Imagine um simples taco de sinuca colocado normalmente sobre uma mesa de sinuca, junto às
bolas de sinuca, em um bar onde pessoas bebem e conversam normalmente.

O que esse taco significaria para você nesse cenário?

Provavelmente só um taco de sinuca aguardando ser usado por frequentadores do bar.

E se o mesmo taco, no mesmo lugar, estivesse com o cabo sujo de sangue?

Qual seria sua leitura para essa cena?

Provavelmente pensaria que aquele taco fora utilizado para agredir alguém, certo?

A partir dessa avaliação, se iniciaria a formulação de um problema de interesse jurídico, visto


que não é usual um taco de sinuca ser encontrado sujo de sangue sobre uma mesa de sinuca
em um bar.

Definir a natureza do problema posto é a única forma de saber se há ou não justa causa para o
desencadeamento de uma investigação criminal. Do contrário, poderá o investigador incorrer
em abuso de autoridade.

c. Formulação de hipóteses

Definido o problema, o investigador dará início a um processo de raciocínio que o leva a


conclusões a partir das premissas formuladas, certo?

A respeito, diz Dencker (2007): “A hipótese é a resposta provável do problema que será
testada na pesquisa.”

Araujo (2008) traz no seu Curso de investigação criminal o seguinte conceito:

Hipótese é uma suposição feita pelo investigador na tentativa de responder o problema (o fato
questionado). É a resposta provável de qual, como e quem praticou o crime, que precisa ser
testada pela investigação. (Araujo, 2008)

Falando da investigação científica, dizem Dourado e Sequeira ( ):


“No contexto de uma investigação considera-se que a formulação de hipóteses exige uma
compreensão clara dos fenômenos em estudo, envolvendo, por isso, teorias prévias, e
corresponde a uma actividade de elevada criatividade intelectual.”

Veja que aqui entra a questão do processo cumulativo de aquisição de conhecimento por parte
do investigador, chamado de marco teórico, que serve para orientá- lo na formatação do
problema e na formulação das hipóteses que irá estudar. Esse modelo teórico impede a visão
obtusa citada anteriormente.

Diante de um fato (um cadáver ou a notícia da morte de alguém), tal qual o cientista puro, o
que faz inicialmente o investigador?

Perguntas, não é verdade?

A resposta provável e imediata encontrada em face do contexto e das circunstâncias


conhecidas é o que se chama de hipótese a ser confirmada ou não pela investigação.

A hipótese formulada pelo investigador criminal não é uma simples especulação, mas uma
afirmação baseada em conhecimentos existentes e estimulada pela percepção e observação
dos fatos que lhe são apresentados em um contexto.

Veja um exemplo:

Ao chegar a um local de crime, numa rua deserta e escura, o investigador encontra o cadáver
de uma pessoa do sexo feminino, jovem, caído em decúbito ventral com uma lesão nas costas
provocada por projétil de arma de fogo disparado à curta distância. Em uma das mãos segura
a alça de uma bolsa. Uma das sandálias que calçava está fora do pé, a uns dois metros distante
do corpo. A pessoa que havia chamado a polícia disse ter ouvido o barulho de alguém
correndo gritando e do disparo de uma arma de fogo. O investigador, baseado no contexto dos
dados descritos, nas experiências anteriores e no referencial teórico que lhe é dado pelo direito
penal e pelas ciências forenses, afirma que naquele local provavelmente ocorreu um latrocínio
(roubo seguido da morte da vítima para assegurar a posse do bem subtraído) nas seguintes
circunstâncias: a vítima passava por aquele local quando teria sido abordada pelo autor, que
saiu da escuridão portando uma arma de fogo e pedindo a bolsa. Como a vítima tentou fugir
correndo, o autor efetuou um disparo contra suas costas. Já caída, lhe foi arrancada a bolsa
que segurava.
Essa não é apenas uma opinião do investigador, mas uma afirmação segura baseada em
conhecimentos adquiridos e na constatação de um contexto de informações que estão ao seu
alcance por meio de vestígios materiais e de um testemunho.

Formulada a hipótese, cabe agora à investigação verificar a validade dessa a firmação. A


hipótese poderá ser confirmada ou rejeitada no decorrer da pesquisa.

Exemplo:

Recorrendo ao caso citado anteriormente, poderá ser que no decorrer da investigação, as


evidências colhidas indiquem para a prática de um homicídio e não de um latroc ínio, visto a
comprovação de que a ação foi simulada pelo autor, o qual, na verdade, fora contratado pelo
ex-namorado da vítima para matá- la.

A tarefa do investigador, tal qual a do cientista, consiste em coletar informações sobre um


determinado fato, analisá- las e interpretá- las para produzir um conhecimento que irá permitir
a reconstrução, o mais próximo possível da realidade, daquele fato, confirmando ou rejeitando
as hipóteses levantadas que poderão ser preliminares (as iniciais que desencadeiam outras) e
definitivas (aquelas que realmente confirmam as verdadeiras circunstâncias e autoria).

d. Realização de experiências para testar as hipóteses

O teste das hipóteses na investigação científica é de fundamental importância para que haja a
aceitação ou rejeição destas. São experiências que irão permitir ao pesquisador confirmar ou
não aquilo que se afirmou sobre o problema.

Na investigação de homicídio, isso também é possível ao confrontarem-se todas as


informações colhidas com a realidade posta, de forma a confirmar ou não aquilo que foi
formulado pelo investigador quanto às circunstâncias e autoria do evento em investigação.

Tal qual ocorre com o que Copi ( ) chamou de cientista puro, ao investigador de homicídio
também nem sempre é possível fazer experiências para validação das hipóteses formuladas,
segundo ensinam Dourado e Sequeira ( ) citando Hudson (1998), “devido à inacessibilidade
aos acontecimentos (em termos de tempo e espaço), à sua inadmissibilidade do ponto de vista
ético, ao perigo que comportam e/ou aos custos que significam (Hudson, 1998)”.

Pode-se dizer que um exemplo clássico de experiência para testar as hipóteses levantadas na
investigação de um homicídio é a reprodução simulada (reconstituição). Entretanto, nem
sempre isso é possível no todo, tendo em vista esse procedimento ficar limitado às condutas
possíveis de serem simuladas sem riscos à moral e à segurança pública, conforme limitações
impostas pelo próprio CPP.

Nessa fase estão todos os procedimentos adotados para a coleta de informações que irão
construir a prova do delito em apuração.

e. Decisões sobre os dados a recolher e modo como o fazer

Tal qual ocorre na investigação científica, na investigação de homicídio, ao formular a


hipótese, o investigador está determinando o tipo de informação que precisará recolher para
comprovar, validar a suposição que fez sobre o fato investigado. Sendo sua hipótese sobre
homicídio passional, por exemplo, sua busca deverá ser no sentido de buscar dados que
demonstrem essa suposta motivação.

Ocorre que no curso da busca de informações poderão surgir elementos novos que obriguem o
investigador a reformular seu ponto de vista, pois a verificação dos dados encontrados poderá
não confirmar a hipótese inicial, apontando para outra motivação, portanto para outras
circunstâncias e até para outro suspeito.

Veja que essas decisões sobre o tipo de informação de que o investigador precisa para
confirmar sua teoria sobre as circunstâncias e autoria do homicídio estão vinculadas à
evolução das hipóteses formuladas como dizem Finley & Pocoví (2000) citados por Dourado
e Sequeira ( ):

“Assim, as decisões sobre a recolha de dados não são tomadas de um modo imparcial e
preestabelecido, mas dependem da teoria associada ao problema em estudo (Finley & Pocoví,
2000)”.

Ou seja, a natureza das informações que se busca em cada vestígio depende do olhar posto
pelo investigador no caso apresentado. Depende do ponto de vista estabelecido sobre o fato
ocorrido.

Resumindo, a construção da prova depende da visão do investigador sobre o fato ocorrido.

f. Elaboração de conclusões

A conclusão é a consequência lógica da análise de todas as informações colhidas na


investigação, confirmando ou não aquilo que foi posto na hipótese.
Da mesma forma que na investigação científica pura, a conclusão a que chega o investigador
do homicídio, confirmando ou não a hipótese formulada, não pode ser tomada como definitiva
até que haja sua validação pelo processo penal.

O que isso significa?

Significa que, em homicídio, o investigador nunca deverá tomar como concluída qualquer
investigação ou como verdade absoluta qualquer conclusão a que chegue.

Essas conclusões deverão ser vistas como aceitação ou rejeição provisória da hipótese, pois, a
qualquer momento em que ela for posta em dúvida (no processo ou não), o investigador
deverá estar preparado e disposto para busca de novas informações.

g. Apresentação da teoria

Na investigação científica, a teoria é a sistematização da conclusão a que chegou o


pesquisador; entretanto, uma das suas características é não ser considerada como a última
etapa de uma pesquisa, mas o início de um novo processo que irá confirmá- la ou não,
conforme ensinam Dourado e Sequeira ( ):

“Contudo, no âmbito das investigações não se aceita que a apresentação de uma nova ideia
corresponda à última etapa, uma vez que, frequentemente, ela constitui o início de uma longa
e, por vezes, árdua sequência de discussões, argumentações, réplicas, novas investigações, e
modificações da nova ideia”.

É diferente na investigação de homicídio? Parece que não.

A teoria apresentada pelo investigador é toda a história do crime que ele conseguiu montar
com a estruturação das evidências colhidas mostrando como, onde e quando ocorreu e, ainda,
quem o praticou.

Entretanto, essa não é a versão final da história do crime, pois ela será submetida ao crivo de
um processo penal com os limites da ampla defesa e do contraditório, podendo, ao final, ser
confirmada total ou parcial ou ser rejeitada totalmente, obrigando a polícia sair em busca de
novas informações.

Percebeu?

Seguindo essa linha de raciocínio, parece não haver dúvida de que a investigação de
homicídio é um processo científico, pois faz uso, como toda investigação científica, de
métodos, técnicas e teorias com procedimentos sistematizados. Ela parte da observação de um
problema, formula hipóteses e chega a uma conclusão.

Aula 2 – Metodologia da coleta da prova no inquérito policial – metodologia do Código


de Processo Penal (CPP) aplicada à investigação de homicídio

Nesse primeiro momento é importante que você relembre o conceito de metodologia aplicado
à investigação científica para que possa compreender sua aplicabilidade à investigação
criminal.

Para Dencker (2007), a construção do conhecimento sobre fatos que integram a sociedade
parte de uma ideia inicialmente simples, e, à medida que se avança, vai-se aprofundando o
nível desse conhecimento com a verificação de um número cada vez maior de dados
relacionados ao fato estudado. Essa relação precisa ser analisada e compreendida para que o
investigador possa aproximar cada vez mais o resultado da realidade considerada.

Essa é a abordagem desenvolvida pelo investigador para explicar determinado fato.


Compreendendo a investigação do homicídio como um processo científico, você perceberá
que a investigação de um fato delituoso também busca construir um conhecimento que irá se
aproximar ao máximo da realidade que é investigada. Tal qual a investigação científica
propriamente dita, a investigação do homicídio irá produzir conhecimento provável, com a
probabilidade de ser a resposta ao problema, mas que precisará ser submetido a testes e
verificações pelo processo penal.

Percebeu que a construção do conhecimento induz à existência de um procedimento


sistemático? A uma maneira de fazer?

Pois é. Essa maneira de fazer, essa maneira concreta de produzir o conhecimento é que é
chamada de metodologia.

Como toda ciência, o direito processual penal também constrói modelos esquemáticos da
realidade para orientar a investigação criminal. Esses modelos são encontrados no Código de
Processo Penal (CPP), estabelecendo a metodologia que deve ser aplicada na busca de provas
da prática de um delito de sua autoria.

O CPP adota a metodologia da pesquisa descritiva, com técnicas padronizadas de coleta


sistêmica de dados.
2.1. Metodologia ge ral

A metodologia que regula os procedimentos gerais da investigação criminal está bem definida
do artigo 6º ao 23 do CPP.

Veja o texto do Código de Processo Penal:

TÍTULO II

DO INQUÉRITO POLICIAL

[...]

Art. 6o Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial
deverá:

I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das
coisas, até a chegada dos peritos criminais; (Redação dada pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)
(Vide Lei nº 5.970, de 1973)

II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos
criminais; (Redação dada pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)

III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias;

IV - ouvir o ofendido;

V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do
Título VII, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que
lhe tenham ouvido a leitura;

VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações;

VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo de delito e a quaisquer outras
perícias;

VIII - ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer


juntar aos autos sua folha de antecedentes;

IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social,
sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele,
e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e
caráter.

Art. 7o Para verificar a possibilidade de haver a infração sido praticada de determinado modo,
a autoridade policial poderá proceder à reprodução simulada dos fatos, desde que esta não
contrarie a moralidade ou a ordem pública.

[...]

Art. 10. [...]

§ 1o A autoridade fará minucioso relatório do que tiver sido apurado e enviará autos ao juiz
competente.

§ 2o No relatório poderá a autoridade indicar testemunhas que não tiverem sido inquiridas,
mencionando o lugar onde possam ser encontradas.

[...]

Art. 11. Os instrumentos do crime, bem como os objetos que interessarem à prova,
acompanharão os autos do inquérito.

[...]

Art. 17. A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito.

Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta
de base para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de outras
provas tiver notícia.

[...]

Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou


exigido pelo interesse da sociedade.

[...]

Art. 22. No Distrito Federal e nas comarcas em que houver mais de uma circunscrição
policial, a autoridade com exercício em uma delas poderá, nos inquéritos a que esteja
procedendo, ordenar diligências em circunscrição de outra, independentemente de precatórias
ou requisições, e bem assim providenciará, até que compareça a autoridade competente, sobre
qualquer fato que ocorra em sua presença, noutra circunscrição.
Art. 23. Ao fazer a remessa dos autos do inquérito ao juiz competente, a autoridade policial
oficiará ao Instituto de Identificação e Estatística, ou repartição congênere, mencionando o
juízo a que tiverem sido distribuídos, e os dados relativos à infração penal e à pessoa do
indiciado.

2.2. Metodologia específica

O CPP também regulamenta os métodos a serem aplicados de forma específica na coleta de


provas, tanto nos procedimentos da investigação técnico-científica-cartorária como da
investigação técnico-científica-pericial.

A coleta e análise dos dados que irão possibilitar a verificação das hipóteses formuladas
estão regulamentas nos Capítulos do CPP http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-
lei/Del3689.htm que tratam:

a. Do exame de corpo de delito e das perícias em geral, nos artigos 158 a 184;

b. Do interrogatório do acusado, nos artigos 185 a 196;

c. Da confissão: artigos 197 a 200.

d. Do ofendido: no artigo 201.

e. Das testemunhas, nos artigos 202 a 225;

f. Do reconhecimento de pessoas e coisas, nos artigos 226 a 228;

g. Da acareação, nos artigos 229 e 230;

h. Dos indícios, no artigo 239;

i. Da busca e apreensão, nos artigos 240 a 250.

Consulte o CPP e veja que em cada um dos preceitos a lei descreve os procedimentos
metodológicos que serão aplicados na coleta da prova penal.

2.3. Aspectos das metodologias do CPP

Perceba que a metodologia apresentada pela lei processual penal induz a uma prática de
investigação onde são considerados os aspectos interdisciplinar e comple mentar desse
processo.

O que significa isso?


Primeiro, que a investigação é um procedimento sustentado por vários conhecimentos;
consequentemente, tem a participação necessária de profissionais das mais variadas áreas
(direito, medicina, engenharia, psicologia, sociologia, procedimentos policiais, etc.), as quais
formam as chamadas ciências forenses, que auxiliam a justiça na busca de provas criminais.

Em segundo lugar, que a investigação criminal é um processo de ações que se


complementam. Um ato precisa da complementação de outro. Todos formam uma cadeia de
ações buscando um só objetivo: construir a prova de um crime.

Aula 3 – Método aplicado à investigação de homicídio

Vimos que, sendo um processo científico, a investigação também tem uma metodologia, ou
seja, um modelo esquemático posto pelo direito processual penal para construção do
conhecimento que irá explicar como ocorreu e quem praticou o delito em estudo.

A produção de um conhecimento (provas) sobre determinado delito não é apenas um processo


meramente técnico, mas fruto, também, da capacidade de reflexão e interpretação do
investigador.

Para a produção da prova (conhecimento) de um crime de homicídio não é diferente. Como


em todo processo científico, são utilizados métodos, processos e técnicas diversas.

Buscando sustentação teórica para melhor compreensão e desenvolvimento da ação prática,


pode-se dizer, segundo Dancker (2007) que método “é o conjunto de processos ou fases
empregadas na investigação, na busca do conhecimento”. Pode ser um processo intelectual e
operacional (a própria ordenação da ação da pesquisa).

O método é a estratégia, um plano geral e abrangente, o processo que deverá ser aplicado na
pesquisa das provas de um delito onde há três elementos principais: questão, hipótese e
experiência, conforme visto em aula anterior.

Na investigação de homicídio, o método é a orientação geral para que o investigador chegue a


um fim determinado que é a apuração (explicação) da conduta delituosa de matar alguém.

Ocorre que o Código de Processo Penal limitou-se apenas a descrever as metodologias, salvo
raras exceções, deixando os métodos por conta de outros fundamentos teóricos em disciplinas
complementares, como a própria investigação criminal, a criminalística, a medicina legal, a
administração e outras mais.

3.1. Método do rastejame nto

Vimos que a característica da investigação é não ter uma sequência de etapas bem definidas,
mas uma multiplicidade de sequências possíveis, ou seja, ainda que ela desenvolva
procedimentos estabelecidos cientificamente, como construção de problemas, formulação de
hipóteses, análise de dados, etc., essas atividades se misturam com freq uência, atendendo as
condições do contexto em que se encontram.

Pela sua natureza, o crime de homicídio tem uma grande diversidade no modo de fazer
(modus operandi), dependendo de fatores como a motivação, o instrumento usado, a
quantidade de autores ou vítimas, o contexto cênico, ou seja, a ambientação do delito (com
um ou mais locais), etc.

Ribeiro (2006), em sua obra Investigação Criminal – homicídio adverte para essa diversidade
das características no modo de fazer o crime, dizendo que o crime “não é uma atividade
rigorosamente padronizada; pelo contrário, dificilmente no delito se repetem os
procedimentos e a mesma lógica”. Esse princípio se aplica muito bem ao homicídio.

Dentro dessa multiplicidade de formas na prática de um delito, em especial do homicídio, a


escolha do método deverá ser fundada no contexto daqueles fatores que influenciaram a
operacionalização do delito.

Nem sempre a notícia de um homicídio chega à polícia acompanhada de informações em uma


ordem cronologicamente lógica. Muitas vezes, ensina Ribeiro (2006), a primeira informação é
sobre o desaparecimento da vítima ou ainda sobre a arma do crime, mas pode ser também
apenas um vestígio fora do contexto.

Há vários métodos aplicados na investigação criminal, em especial no homicídio, com


pequenas variações e adequações às circunstâncias.

Para Ribeiro (2006), o método mais apropriado para apuração do crime de homicídio é o que
ele chama de rastejamento ou rastejo.

Veja o que diz Ribeiro a respeito do processo do rastejamento:


“Nesse método, o investigador parte de um determinado elemento conhecido, submetendo-o à
observação, à análise e a exame. Isso lhe permite chegar ao elemento seguinte e, ass im,
sucessivamente vai perseguindo fielmente o rastro, os vestígios, os dados e as informações
sobre o crime, à medida que vão naturalmente surgindo, até levá-lo ao total desvendamento
do fato”.

A descrição do método demonstra o desenvolvimento de um raciocínio indutivo, em que o


investigador, seguindo passo a passo cada rastro (vestígio ou informação) deixado pela prática
do delito, vai criando uma cadeia de relações entre essas informações particulares até chegar à
informação geral sobre as circunstâncias e autoria do homicídio.

3.2. Etapas do método

O método consiste, portanto, nas seguintes etapas:

Parte de um determinado elemento conhecido – Poderá ser um cadáver, um simples


vestígio (mancha de sangue, um pedaço de tecido rasgado, etc.) ou uma notícia de
desaparecimento, possibilitando, portanto, a formulação do problema.

Submete o elemento conhecido à observação e análise – O elemento inicial torna-se a


realidade a ser conhecida e observada para dela serem tirados os primeiros dados sobre o
problema posto. A análise desses dados possibilitará que o investigador comece a registrar as
primeiras noções do caso.

Formula hipóteses – A observação e análise dos dados iniciais permitirão que


investigador formule as hipóteses que serão objeto da verificação de validade.

Coleta e análise de dados para verificação das hipóteses – A partir das informações
colhidas do elemento conhecido, chega ao dado seguinte, colhendo, sucessivamente, cada um
dos dados que irão surgindo em cadeia com a análise de cada um. Para isso, toma as decisões
sobre os vestígios que precisam ser colhidos e a técnica que será adotada para a coleta.

Chega à apuração do fato – Colhidas as informações necessárias, e possíveis muitas


vezes, é chegada a hora de concluir a investigação, relatando sob re as evidências coletadas
indicativas das circunstâncias e autoria da prática de possível homicídio.

Entendido?
O método do rastejamento é uma sequência de etapas comuns à investigação científica dentro
do que você já estudou ser uma sequência possível. As circunstâncias em que é aplicado não
permitem que o investigador siga ordenadamente todas as etapas, visto s a ordem e o tipo de
informação que lhe são mostrados em primeiro plano.

Tal possibilidade decorre das informações que são evidenciadas para o investigador. Segundo
ensina Ribeiro (2006), muitas vezes a primeira e única informação posta para o investigador é
uma mancha de sangue na roupa de uma pessoa encontrada na via pública que é levada à
delegacia de polícia para averiguações. A partir daí são desenvolvidos os procedimentos
investigativos na busca de pontos de aderência a essa circunstância.

3.3. Caso-exemplo:

Durante uma blitz nas ruas de um bairro de Brasília, no período noturno, a polícia aborda e
conduz para a delegacia um homem, morador de rua, que apresentava manchas de sangue na
parte frontal da camisa sem que houvesse nele qualquer lesão que justificasse as manchas.
Trata-se de um morador de rua, com sintomas de embriague z, encontrado sentado e
apreensivo no meio- fio em um local escuro e ermo.

Feita uma busca nas proximidades do local onde fora encontrada aquela pessoa, a polícia
encontra uma barra de ferro suja de sangue jogada sobre a grama. Em outro local próximo,
são encontrados respingos de sangue no chão. Buscando informações nos sistemas da polícia
e dos hospitais, os investigadores ficam sabendo que naquela noite uma pessoa do sexo
masculino com lesões na cabeça fora encontrada debaixo de um viaduto próximo ao local
onde estava o morador de rua e levada ao hospital pelo SAMU, onde veio a falecer. Os
exames periciais confirmaram que as lesões eram compatíveis com a barra de ferro
encontrada, que o sangue que se encontrava na barra de ferro, na roupa do morador de rua e
respingado no chão, era da vítima, bem como que esta viera a falecer em consequência dos
ferimentos na cabeça.

A investigação demonstrou ainda que as impressões digitais encontradas na barra de ferro


eram da pessoa encontrada com a camisa suja de sangue.

Foram encontradas duas testemunhas, moradores de rua, que informaram da agressão do


suspeito à vítima com a barra de ferro.
Veja no caso, que a polícia parte de uma informação (o vestígio de sangue na camisa do
suspeito), observada e analisada, que possibilitou o sequenciamento de informações que
terminaram levando às circunstâncias e autoria do delito. Cada informação apurada foi
formando uma cadeia de informações que, ao final, demonstrou toda a dinâmica do evento
inicialmente apenas sugerido em um respingo de sangue na camisa de um morador de rua.

3.4. Passos do método do rastejamento

No processo do rastejamento há uma sequência de passos a serem seguidos pelo investigador


para que ele possa, realmente, rastejar, buscar, passo a passo, cada vestígio indicado na
sequência dos procedimentos de busca das informações.

Veja esses passos:

Observação – O elemento informativo posto diante do investigador deverá ser


cuidadosamente observado, analisado, para que dele sejam colhidos todos os dados existentes.

Identificação de problemas – Das observações e análises feitas, naturalmente virão as


primeiras perguntas sobre a natureza da situação que é posta diante do investigador. Está o
investigador diante de um fato que exige a intervenção da polícia?

Formulação de hipóteses – Identificado o problema posto (um possível homicídio


tentado ou consumado, provavelmente ocorrido dessa ou daquela forma, com tal instrumento,
etc.) virão as primeiras perguntas e possíveis respostas para as circunstâncias e autoria.

Realização de experiências para testar hipóteses – A partir desse ponto, o empenho


do investigador será no sentido de comprovar aquilo que está em nível hipotético apenas.
Ocorreu realmente um homicídio? De que forma, onde, quando e quem o praticou? As
experimentações virão com depoimentos, exames periciais e procedimentos de
reconhecimento, acareação, reconstituição, etc.

Decisão sobre os dados a colher e modo como fazer – Posto o possível fato ocorrido e
elaboradas as prováveis respostas para as circunstâncias e autoria, cabe agora definir quais
informações serão necessárias para comprovação dessas hipóteses, bem como onde e como
serão buscadas. É nesse momento que se decide sobre os métodos e técnicas a serem
aplicadas.
Elaboração de conclusões – Nessa fase já foram desenvolvidas todas as possíveis
buscas de informações; elas já foram devidamente catalogadas, analisadas e avaliadas quanto
a sua potencialidade probante para o caso, o que fica demonstrado nos relatos apresentados
pelo investigador, confirmando ou não as teorias que havia formulado.

Apresentação de teorias – De uma leitura contextual de toda a investigação, surge o


relato final com a história detalhada e possível que será submetida ao crivo de um processo
penal.

Trata-se, portanto, de uma sequência ordenada dentro da lógica possibilitada pelas


informações que vão surgindo a partir da análise de cada um dos dados colhidos.

Esse é o método mais comum na apuração do crime de homicídio.

Aula 4 – Outros métodos utilizados na investigação do crime de homicídio

Como todo cientista, o investigador criminal deverá dispor de mais de um método para aplicar
no momento certo. Cada situação exige a tomada de um caminho próprio. O investigador
deverá estar preparado para mudar o rumo e os meios de busca da prova dependendo do
cenário que lhe é apresentado em determinado momento. Por isso terá que conhecer e estar
apto a aplicar métodos e técnicas diferentes diante de cada situação.

O trabalho de investigação é um desafio permanente no qual o investigador deverá estar


sempre apto para enfrentar o inesperado, pois, como diriam os velhos mestres, cada caso é um
caso.

4.1. Método dos círculos concêntricos

Em seu trabalho “Investigação Policial de Homicídios: análise de métodos, técnicas e do


procedimento policial”, Ferraresi ( ) faz a seguinte anotação sobre o método dos círculos
concêntricos:

“Conforme Dorea (1995, p.208), os departamentos de polícia norte-americanos adotam um


procedimento técnico- metodológico padrão para as investigações de casos com morte
denominado método dos círculos concêntricos. Esse método consiste simplesmente em se
considerar a vítima como o centro de uma série de círculos e, iniciando-se as investigações a
partir daquele que dela se encontre mais próximo, ampliando-se ao infinito, abrangem-se
todos os círculos de relação da vítima. A prática desse método de investigação, somada ao
emprego de técnicas de coleta e análise de indícios, poderá constituir-se em um procedimento
capaz de apontar a autoria e as circunstâncias de um crime...” Ferraresi ( )

Veja a representação gráfica do método para compreender melhor o processo de investigação


desencadeado em obediência às suas regras.

Esse método terá melhor aplicação nos casos em que haja uma definição bem clara dos
ambientes de relacionamentos da vítima. Entretanto, nada impede que, não havendo tais
informações, elas devam ser buscadas inicialmente.

No andamento da investigação, serão formuladas as hipóteses e realizadas as pesquisas para


verificação da validade das afirmações, tendo como referência os círculos nos quais estão
inseridos os relacionamentos da vítima.

4.1.1. Etapas do método

Círculo 1 – os relacionamentos familiares. Este círculo poderá ser subdividido de


acordo com o grau de parentesco e ou proximidade de cada grupo de parentes. Uma análise
detalhada do contexto do grupo familiar é que vai ditar as regras para a coleta de informações.

Círculo 2 – os relacioname ntos de amizade. Também poderá ser subdividido de


acordo com o grau de proximidade e o nível do relacionamento de amizade. Deverão ser
consideradas as redes de relacionamento.

Círculo 3 – os relacionamentos profissionais. Poderá ser subdivido de acordo como o


grau de proximidade e o nível do relacionamento.

Círculo 4 – os relacionamentos sociais. Veja que esse círculo poderá ser subdividido
de acordo com os ambientes sociais (igreja, clube, associações, etc.)

Círculo 5 – Poderá ser aquele no qual existem relações que não se encaixam nos
demais, como relacionamento criminoso, etc.

Conforme destaca o autor citado, essa técnica, somada às técnicas de coleta e análise de
indícios, poderá se tornar um procedimento suficientemente eficaz na apuração da autoria e
circunstâncias de um homicídio.
Esse método é recomendado principalmente quando as hipóteses iniciais apontam para a
possibilidade de que a motivação esteja vinculada a algum círculo dos relacionamentos da
vítima.

4.2. Método da detonação

Há situações em que o investigador, mesmo identificando o problema (sabendo que houve a


prática de um provável homicídio), identificando um suspeito da autoria em potencial e
formulando as primeiras hipóteses, não consegue testar as hipóteses pela inacessibilidade aos
dados necessários à verificação de sua validade (informações de prova).

Essa dificuldade poderá ocorrer por questões de tempo e ou espaço. Ou seja, muitas vezes o
tempo decorrido entre o fato e a investigação é razoavelmente grande para que muitas
informações tenham se perdido ou ficado ocultas em espaços desconhecidos ou naturalmente
inacessíveis, requerendo uma ação de coleta mais específica.

O processo mais adequado para essa situação é muito similar ao que é aplicado pelo
garimpeiro na extração de minerais em barrancos e leitos de córregos ou rios ou em terra
firme, quando há indícios de que naquela área há minerais escondidos, mas não sabem quais,
onde e em que quantidade. Para fazer a extração, fazem pequenas cavidades, determinando a
profundidade e o diâmetro do buraco para colocação de explosivos que irão detonar a área de
exploração. Feita a detonação, são garimpados e beneficiados os minerais, separando-se as
impurezas. Identificados os minerais, eles são separados de acordo com o peso, o tamanho e a
cor.

Dessa observação e fazendo uma análise comparativa das suas práticas na investigação de
homicídio com o processo de detonação para coleta de minerais, o delegado de polícia
Francisco Araujo, cunhou a expressão método da detonação para denominar uma das formas
de se processar a busca de provas de um homicídio.

Veja, portanto, qual a similaridade desse método com a apuração de provas em determinados
casos de homicídio.
4.2.2. Conceito

Analogicamente ao processo de garimpagem de minerais com o uso de explosivos, o método


da detonação é o processo no qual o investigador, para romper a inacessibilidade às
informações que possibilitarão a verificação das hipóteses com apuração das circ unstâncias e
da autoria, faz uso de técnicas de investigação invasivas, como infiltração e busca e
apreensão, detonando a resistência do nicho onde se encontrem as informações necessárias.
Colhidas as informações, elas são analisadas e selecionadas para o contexto de evidências que
irão sustentar a apuração do delito.

Tal qual o explosivo, a ação das técnicas citadas, invasivas da intimidade de pessoas, detona a
resistência dessa intimidade para dela colher as informações necessárias.

4.2.3. Etapas do método

Identificação do proble ma – A observação inicial indica a existência de um delito.

Aplicação de técnicas invasivas para a coleta de dados – São desenvolvidas ações de


captura de informações que irão fomentar a formatação da prova.

Análise dos dados capturados – Verifica o potencial da informação colhida como


elemento de prova para a investigação em curso e o nível de confiabilidade como confirmação
da validade das hipóteses formuladas.

Formulação de novas hipóteses – Feita a análise dos dados colhidos, surgem novas
respostas que precisam ser verificadas.

A busca e apreensão tem sido uma ferramenta muito eficaz na aplicação do método, pois,
devido à sua diversidade de ação e ao fato de não ser encoberta, possibilita maior mobilidade
e facilidade para a coleta de dados. A infiltração e a campana são muito eficazes na coleta de
informações para o planejamento da busca.

O método da detonação tem sido de eficácia comprovada em crimes de homicídio com a


existência de suspeitos intocados pela falta de qualquer evidência. Os casos de motivações
passionais e econômicas são situações clássicas na aplicação do método da detonação.
4.3. Comple mentaridade dos métodos

Muito embora sejam métodos autônomos, podem ser aplicados individualmente,


simultaneamente ou de forma complementar um ao outro. Tudo depende das circunstâncias,
da necessidade e da capacidade de observação do investigador.

Aula 5 – Escolha do método e das técnicas que serão aplicadas na investigação de


homicídio

Vimos que para a investigação de homicídio há alguns métodos que deverão ser aplicados de
acordo com o contexto, que envolve tanto a prática do delito quanto as condições de
investigação.

O método é a forma ordenada que o investigador adota para a busca das provas ao longo da
investigação. Diz o que fazer. A técnica é o “como fazer”, certo?

Conforme já foi dito, poderá ser aplicado mais de um método e mais de uma técnica. Tudo
depende do que o investigador queira fazer e obter. A escolha da técnica depende ainda do
tipo de informação a ser coletada e do ambiente onde ela se encontre.

Vimos como se desenvolvem os métodos do rastejamento, dos círculos concêntricos e da


detonação.

Lembra que você estudou a investigação criminal como uma investigação científica com uma
“sequência possível” de procedimentos? Ainda que se faça a escolha de um método, nem
sempre será possível seguir uma sequência ordenada. Tudo irá depender da natureza das
informações que forem sendo colhidas e do cenário em que se encontre o caso.

5.1. Metodologia da escolha da técnica para a investigação de homicídio

Segundo Araujo (2008), adequando orientação de Denker (2007, p. 160) para a investigação
de homicídio, pode-se dizer que, para a escolha da técnica de investigação, deve ser adotada a
seguinte metodologia:

A técnica que será empregada dependerá das circunstâncias em que o crime foi
praticado, dos objetivos e da disponibilidade de recursos para a realização do processo.
As técnicas não se excluem; poderão ser empregadas em uma mesma investigação
metodologias e técnicas diversas, conforme a variável (as informações que serão analisadas) e
a fase da investigação.

É recomendável iniciar a investigação por um estudo exploratório, para tomar


conhecimento da situação, o que possibilitará ao investigador decidir quais serão os métodos
necessários às fases posteriores.

Considerando o aspecto científico da investigação de homicídio, o investigador não poderá


abrir mão de uma postura científica em todo o processo. A metodologia aplicada à seleção de
uma técnica para a busca de provas possibilita que se faça essa escolha dentro da melhor
adequação possível para cada situação.

5.2. Escolha das técnicas e procedime ntos aplicados à investigação de homicídio

Inicialmente convém ressaltar que a proposta deste curso não é discutir o aspecto operacional
das técnicas de investigação para a apuração de provas de homicídio, mas apresentar
possibilidades do uso de determinadas técnicas como consequência de uma avaliação racional
das necessidades apresentadas em cada momento da investigação. Nessa linha, também você
deverá se limitar à análise de técnicas aplicáveis à investigação técnico-científica-cartorária,
visto ser este o foco principal do conteúdo.

Para investigar homicídios, há uma série de formas para se chegar à informação que formatará
a prova. Ocorre que, para uso do meio correto, é preciso considerar todo o contexto que
envolve a investigação e as especificidades de cada uma das informações buscadas. Esse
contexto terá que ter uma atenção especial para que a técnica aplicada seja eficiente e eficaz.
Ele diz respeito, principalmente, ao ambiente onde está a informação e à sua natureza.

Exemplo:

A informação buscada diz respeito às relações de amizade entre o suspeito de ter mandado
executar o homicídio e o suspeito de tê- lo executado. O que a investigação busca, no
momento, é a confirmação dessa relação, que poderá ser feita por diversos meios, dependendo
da natureza da informação desejada.
Se a troca de informações entre os dois for realizada por meios de comunicação, poderão ser
usadas as quebras de sigilo telefônico e telemático. Caso haja convivência social entre os dois
e familiares, poderá ser aplicada a campana ou a infiltração. Ou, sendo o pagamento de verba
contratada, poderá ser feita a quebra do sigilo bancário e fiscal.

A escolha da técnica está vinculada à hipótese formulada diante do problema posto, do tipo de
informação que a investigação busca como prova. Tudo depende da capacidade de leitura que
o investigador terá para avaliar o meio mais eficaz para a necessidade existente.

Além disso, relembrando, é preciso compreender que o uso de uma técnica não elimina outra,
visto que a investigação, dependendo do contexto em que se apresenta, poderá valer-se de
mais de uma técnica e procedimentos ao mesmo tempo.

É importante a compreensão de que técnicas diversas poderão ser aplicadas na investigação


do mesmo fato, dependendo do momento, das circunstâncias, da complexidade da
investigação e da natureza da informação buscada. As técnicas poderão ser complementares.

Os procedimentos de investigação de homicídio buscam a coleta de informações necessárias à


produção da prova, fazendo uso de técnicas e meios especializados. Buscam prospectar dados
com o objetivo de obter conhecimentos que confirmem suposições levantadas pela
investigação.

5.3. Técnicas tradicionais para a apuração de provas do homicídio

No curso Investigação Criminal II, Araujo (2008) relata as técnicas tradicionais na


investigação de crimes cuja aplicabilidade deverá ser analisada para cada caso e momentos da
apuração de provas de homicídio.
1
Reveja cada uma dessas técnicas

Além dessas técnicas, há também procedimentos eletrônicos, como a interceptação


telefônica e a inte rceptação ambiental, de grande eficácia num momento em que as

1
Acessando o arquivo em anexo tecnicasbasicasdeinvestigacao.pdf
atividades criminosas, aproveitando as dádivas das novas tecnologias com o avanço
tecnológico e eletrônico, se tornam cada vez mais sofisticadas e complexas.

Considerando o caráter de apoio que poderá ser dado a qualquer uma das técnicas
operacionais da investigação, é bom ressaltar aquela que, na atividade de inteligência, é
chamada de provocação.

A própria nomenclatura induz ao conceito da técnica, ou seja, sua realização tem o objetivo de
fazer com que a pessoa investigada adote atitudes que poderão atender o interesse da
investigação sem que ela perceba isso.

O exemplo mais provável dessa ocorrência é no caso de uso do monitoramento telefônico de


um suspeito, quando se cria uma condição para que ele desenvolva as comunicações
esperadas para comprovação do que se busca.

No Código de Processo Penal poderão ser encontradas algumas técnicas operacionais da


busca de prova penal, muito úteis na investigação de homicídio, como a reprodução
simulada dos fatos ou reconstituição, como é mais conhecida (art. 7º do CPP), o
reconhecimento de pessoas e coisas (arts. 226 a 228 do CPP) e a busca e apreensão (arts.
240 a 250 do CPP).

A reprodução simulada é muito apropriada para um momento final da investigação, quando


já foram reunidas informações confirmadoras das evidências de autoria, mas é preciso fechar
janelas abertas no que diz respeito às circunstâncias, tempo e espaço físico em que ocorreu o
delito. É nesse momento que são tiradas as dúvidas que restaram na apuração das provas
quanto à verossimilhança.

A busca e apreensão é mais prospectiva. É muito aplicada nos momentos iniciais da


investigação para se abrirem caminhos às evidências ou em momentos em que a investigação
precisa confirmar evidências constatadas, mas com janelas abertas quanto a sua validade.

O reconhecimento de pessoas e coisas é também uma técnica de confirmação de evidências.

Conforme vem sendo induzido, a aplicação de qualquer técnica ou procedimento na


investigação de homicídio terá que respeitar os limites da legalidade e das garantias
fundamentais do cidadão, bem como do respeito à d ignidade da pessoa. A regularidade da
aplicação dos métodos e técnicas não pode se limitar aos procedimentos operacionais, mas,
acima de tudo, deve deslocar-se à verificação da sua legalidade.
Concluindo...

Olá, você terminou a primeira fase do curso Investigação de Homicídio com uma abordagem
de conhecimentos comuns à investigação criminal, mas com um viés da apuração de provas
da prática de homicídio.

Parabéns!

Neste último módulo, você estudou sobre temas que tratam da análise da investigação
criminal como um processo científico. Justificando essa cientificidade dos procedimentos
investigatórios de um delito penal, foram apresentados, analisados e discutidos métodos
próprios da busca de provas a serem desenvolvidos na apuração dos crimes de homicídio.
Entretanto, é bom informar que esses mesmos métodos poderão ser aplicados em outras
modalidades de investigação criminal que apresentem condições parecidas com as que foram
apresentadas como exemplo.

Em verdade, o que se procurou fazer nessa primeira fase do curso Investigação de Homicídio
foi sensibilizar o investigador, ora estudante, para a necessidade de perceber que a
investigação criminal é um processo científico e, como todo processo dessa natureza, está
sustentada em um referencial teórico e se vale de métodos e técnicas sustentadas em
princípios específicos e em regras éticas fundamentais.

O olhar com o viés da cientificidade da investigação evitará que o investigador seja apenas
um aventureiro sem conhecimentos básicos, sem planos e sem métodos na fundamental busca
de provas da prática de um delito; permitirá que ele seja realmente um investigador no sentido
puro do termo.

Aproveite esses conhecimentos nas suas práticas investigativas de delitos. Ainda que essa não
seja sua função principal, mesmo assim, aproveite para ser um melhor colaborador dos
profissionais encarregados de tal missão.

Dissemine, aplique, discuta; ajude a construir esse conhecimento!

Espero reencontrá- lo na segunda fase do curso, quando serão discutidos aspectos práticos da
investigação de homicídio.
Aproveite.

Até lá e boa sorte!


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CURSO INVESTIGAÇÃO DE HOMICÍDIO I

Conteudistas:

Mabel Alves de Faria Corrêa – Delegada de polícia da Polícia Civil do


Distrito Federal.

Francisco das Chagas S. Araújo – Delegado de Polícia aposentado da


Polícia Civil do Distrito Federal, professor da Universidade Católica de
Brasília Virtual (curso Tecnologia em Segurança e Ordem Pública),
professor da Academia de Polícia Civil da PCDF.

Apresentação do Curso

Olá você, seja bem-vindo ao curso Investigação de Homicídio I!

Como não poderia deixar de serem, os crimes dolosos contra a vida são os
que causam maior clamor público e destes, o de maior eco social é o
homicídio. É neste tom que a sociedade se opõe a toda e qualquer mazela
do Sistema de Justiça Criminal, cuja ponta de lança é a polícia, na
apuração desse delito.

Esse clamor público tem se fortalecido nos últimos anos, tornando-se


efetivo sistema de controle das ações do Estado pela efetividade da
apuração dos delitos penais, levando as polícias de investigação a uma
reconstrução dos seus métodos e técnicas de apuração, em especial, do
crime de homicídio.
Um fator importante nesse cerco à apuração dos homicídios tem sido a
participação do setor acadêmico, que resolveu voltar seu arsenal de busca
e produção do conhecimento científico para os temas da justiça criminal,
desenvolvendo pesquisas que desnudam a pouca efetividade social das
ações de apuração dos delitos, em especial os crimes violentos que
atentam contra a vida do ser humano.

Tradicionalmente, as polícias judiciárias do Brasil, diante da apuração dos


delitos penais, adotam duas atitudes limitadoras. colocadas em xeque
pelos estudos acadêmicos: um foco eminentemente jurídico das suas
atividades e desinteresse total pelo resultado final dessas ações
investigativas. O efeito é a eterna repetição de procedimentos, cuja
validade jamais é avaliada, pois executados nos parâmetros dos dogmas
legais.

A proposta do curso é criar condições para que a equipe de investigação


possa perceber o crime de homicídio não apenas pelo aspecto jurídico,
como um tipo penal, mas também como um conflito que se constitui em
uma ação social que envolve perfis diferentes das pessoas envolvidas,
diferentes contextos e relações sociais diferenciadas entre vítimas e
agressores. Essa visão multidisciplinar da investigação de homicídio
apontará caminhos mais seguros na coleta de provas demonstrativas da
chamada verdade real do delito.

O curso de Investigação de Homicídio está dividido em duas partes e é


uma proposta da aplicação prática dos fundamentos estudados nos curs os
de Investigação Criminal I e II. É uma proposta de transição do método
empírico para o método científico na apuração de provas do crime de
homicídio.

Perceba que o fato de você ter decidido participar deste curso é sinal de
que estamos passando por essa fase de transição, deixando no passado a
baixa efetividade das apurações pela falta de empenho e qualidade técnica
e científica dos resultados.
Para que seja operada essa mudança de atitude é preciso que você veja a
investigação de homicídio como um processo científico fundado em
métodos e técnicas próprias que precisam ser conhecidas e aplicadas com
desvelo pela equipe de investigação.

Lembre-se, nenhuma investigação parte do nada. Ela parte de uma


história, de um contexto que precisa ser conhecido e explorado
minuciosamente.

Boa sorte!

Objetivos do Curso

Este curso criará condições para que você possa, ampliando


conhecimentos, exercitando e desenvolvendo habilidades, fortalecer
atitudes para:

Analisar a dimensão histórica e social do crime de homicídio;

Rever os princípios fundamentais da operacionalidade da investigação


criminal;

Enumerar os elementos essenciais e assessórios da estrutura do


crime de homicídio;

Rever os conceitos sobre a prova e métodos de preservação das


informações que constituirão a prova penal;

Contrastar os processos de valorização e valoração da prova penal;

Identificar e aplicar métodos e técnicas de apuração da prova do


crime de homicídio.
Estrutura do Curso

Módulo 1 – Fundamentos da investigação do crime de homicídio

Módulo 2 – Princípios operacionais básicos da investigação do homicídio

Módulo 3 – Elementos essenciais do crime de homicídio

Módulo 4 – Elementos acessórios do crime de homicídio

Módulo 5 – A prova na investigação do crime de homicídio

Módulo 6 – Metodologia aplicada à investigação do crime de homicídio