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Saúde e contornos do federalismo brasileiro.

Bases
constitucionais para a solução de conflitos relacionados
à pandemia (Covid-19, Coronavírus). Breves
considerações

SAÚDE E CONTORNOS DO FEDERALISMO BRASILEIRO. BASES


CONSTITUCIONAIS PARA A SOLUÇÃO DE CONFLITOS RELACIONADOS À
PANDEMIA (COVID-19, CORONAVÍRUS). BREVES CONSIDERAÇÕES
Revista dos Tribunais | vol. 1017/2020 | Jul / 2020
DTR\2020\6820

Janaina de Castro Marchi Medina


Doutoranda em direito pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo. Doutora e
mestre em Química pela Universidade Estadual de Maringá. Bacharel em Direito pela
Pontifícia Universidade Católica do Paraná e em Farmácia pela Universidade Estadual de
Maringá. Foi professora pesquisadora na Université Paul Sabatier – Toulouse III.
Advogada. janainacmm@gmail.com

José Miguel Garcia Medina


Doutor e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Bacharel
em Direito pela Universidade Estadual de Maringá. Fez estancia docente e investigadora
na Faculdad de Derecho da Universidad de Sevilla. Foi visiting scholar na Columbia Law
School (Nova Iorque). Advogado. medina@medina.adv.br

Área do Direito: Constitucional


Nota introdutória

No presente texto pretendemos expor, em breves considerações, nosso modo de pensar


quanto àquelas que devem as bases para a solução de dilemas que eventualmente
podem surgir entre os entes federativos, quanto à realização de “medidas para
enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente
do coronavírus responsável pelo surto de 2019”, de que trata a Lei 13.979/2020 (com as
alterações da Medida Provisória 926/2020).

1. Entes federados

A federação, como regra, se caracteriza pela existência, no mesmo território, das ordens
de autoridade federal e estadual (havendo que se lembrar, entre nós, do Distrito
Federal, cf. art. 32 da Constituição Federal). Excepcionalmente – como ocorre no Brasil
–, há mais uma ordem de autoridade: a municipal. De certo modo, pode-se dizer que
essa peculiaridade acentua o propósito constitucional de se descentralizar o poder (cf.
1
infra).

Assim, na ordem jurídica brasileira, há que se acrescer, à União e aos Estados-membros,


os Municípios e o Distrito Federal, aos quais a Constituição Federal também atribui
competência para legislar sobre determinadas matérias (cf. arts. 18, 24, 25, § 1º, 30, I,
e 32, § 1º, da CF/1988). Desse modo, há em nossa Constituição Federal três ordens de
autoridade, e não duas, como é comum num Estado Federal: ordem total (União),
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ordens regionais (Estados-membros e Distrito Federal) e ordens locais (Municípios).

3. Federalismo cooperativo

As ordens de autoridade previstas na Constituição (cf. item precedente) devem atuar


harmonicamente, de acordo com a competência que lhes é conferida pela Constituição
Federal.

A repartição da competência não segue critério único, variando de acordo com razões
histórico-culturais. Em algumas federações, a competência dos Estados-membros é
maior, como ocorre nos Estados Unidos da América do Norte. Em outras, como ocorre no
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Brasil, a competência dos Estados-membros é menor, ainda que se possa afirmar que,
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quanto ao ponto, a Constituição de 1988 seja mais equilibrada que a anterior.

Comparando-se o modelo adotado pela Constituição Federal de 1988 com o das


constituições que a precederam, pode-se dizer que, hoje, não se adotou um modelo
4
concentrado na União, mas algo descentralizado. Não houve, contudo, uma
descentralização extremada. Pode-se dizer que a Constituição hoje em vigor incorporou
5
uma forma equilibrada de federalismo. Nesse sentido deve ser compreendido o
parágrafo único do art. 23 da Constituição, que dispõe que leis complementares devem
fixar normas que propiciem a cooperação entre os entes federativos, “tendo em vista o
6
equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional”.

4. Competência legislativa concorrente e equilíbrio federativo

A Constituição Federal, no art. 22, trata da competência legislativa privativa da União


Federal. No art. 24, a Constituição regula temas a respeito dos quais União, Estados e
Distrito Federal podem legislar concorrentemente. No caso em que há competência
legislativa concorrente, o modo como se relacionam e interagem os referidos entes é
7
disciplinado nos §§ 1º a 4º do art. 24 da Constituição.

Diante do dispõem os §§ 1.º e 4.º do art. 24, a competência dos Estados e do Distrito
Federal para legislar sobre normas gerais é suplementar à da União, sendo que, “no
âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer
normas gerais” (cf. art. 24, § 1.º). Isso significa que à União incumbe traçar regras
8
gerais que estabelecem um plano, mas “sem estabelecer pormenores”.
9
A competência concorrente pode ser cumulativa ou não cumulativa. A competência não
cumulativa (art. 24, § 2º da CF) dá-se no caso em que há lei federal com normas gerais,
hipótese em que lei estadual ou distrital poderá minudenciar as situações que carecem
de melhor regulação (porque a lei federal é geral), ajustando a lei geral (federal) a
peculiaridades locais (art. 24, § 1º da CF). No caso da competência cumulativa, ausente
lei federal que contenha normas gerais, a competência do ente local é plena “para
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atender a suas peculiaridades” (art. 24, § 3º da CF).

À luz do texto dos arts. 22 e 24 da Constituição, estabelece-se uma forma equilibrada de


federalismo (cf. item precedente). As disposições referidas, pode-se notar, estimulam a
descentralização, ao menos naquilo que pode dizer respeito a peculiaridades locais (cf.
art. 24, § 3º da CF, quanto à competência concorrente) ou a questões específicas de
matérias submetidas à competência exclusiva da União (cf. art. 22, parágrafo único da
CF).

Um modo ajustado à ideia de federalismo equilibrado e cooperativo que é informado pela


Constituição (cf. item precedente) conduz a que, a partir da interpretação dos arts. 22,
parágrafo único e 24, §§ 1º a 4º da Constituição, se poderia permitir uma dilatação da
competência legislativa local. Por exemplo, o art. 24, VIII da Constituição estabelece
competência concorrente entre União, Estados e Distrito Federal para legislar sobre
direito do consumidor. O STF decidiu que não fere a Constituição lei estadual que proíbe
concessionárias de serviços públicos de água e energia elétrica de interromperem a
prestação de serviços por falta de pagamento às sextas-feiras, finais de semana e
11
feriados (no caso, o art. 1.º da Lei 14.040/2003 do Estado do Paraná). Manifestações
como a referida parecem consentâneas com nosso modo de pensar. Como antes
mencionamos, a nosso ver seria mais condizente com o propósito da Constituição, que
buscou instituir entre nós um federalismo equilibrado (cf. itens precedentes).

Nesse sentido, algumas vozes vêm se manifestando, na jurisprudência do STF. Por


exemplo, ao julgar a ADI 5745/RJ, “a Corte afirmou não ser a Federação apenas um
mecanismo de distribuição de competências e rendas, mas também de desconcentração
do poder político e, como tal, um instrumento para estimular a democracia. Antes de
ter-se como inconstitucional determinada norma que, aparentemente, se insere na
competência normativa de outro ente, deve-se proceder a uma leitura sistemática e
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teleológica da Constituição Federal”. Nesse julgamento, os votos da maioria dos
ministros consideraram importantes as circunstâncias locais que justificariam a
existência da lei estadual, sobretudo a quantidade de roubos e furtos a residências no
Estado do Rio de Janeiro, e em especial na capital desse Estado.

5. Particularmente a competência quanto aos cuidados, a proteção e a defesa da saúde

O que se disso nos itens precedentes conduziu, pouco a pouco, àquele que nos parece o
melhor entendimento acerca de eventuais conflitos relacionados à competência material
(art. 23 da CF) e legislativa (art. 24 da CF) para tratar de questões atinentes à saúde.

De acordo com o art. 23, caput, II da Constituição, “é competência comum da União,


dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios [...] cuidar da saúde e assistência
pública, [...]”. O art. 24, caput, XII, por sua vez, dispõe que “compete à União, aos
Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre [...] proteção e defesa da
saúde”. Vê-se que, tanto no plano da competência material quanto no da competência
legislativa, a Constituição impõe a competência concorrente entre os entes federativos,
que é, como antes se disse, cooperativa.

Note-se que, nesses casos, a competência do ente central é mais geral, enquanto à dos
demais entes ligam-se a temas locais. Assim, o art. 30 da Constituição, que dispõe sobre
competência material e legislativa dos municípios, estabelece que a este compete
“legislar sobre assuntos de interesse local” (inc. I), “suplementar a legislação federal e a
estadual no que couber” (inc. II) e “prestar, com a cooperação técnica e financeira da
União e do Estado, serviços de atendimento à saúde da população” (inc. VII).

A Lei 13.979/2020 (com a redação da Medida Provisória 926/2020), dispõe, em seu art.
3.º, caput, que “para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância
internacional decorrente do coronavírus, as autoridades poderão adotar, no âmbito de
suas competências, dentre outras, as [...] medidas” indicadas em seus incisos
(destacamos).

Vê-se, pois, que, no ponto, a referida lei não afasta o que antes se disse, no que
respeita à competência dos entes federativos: a todos eles incumbe cuidar, proteger e
defender a saúde. Um ente invadirá a competência do outro, p.ex., se a União dispuser
sobre pormenor local, ou se um município estabelecer uma restrição geral de alcance
nacional. Não contraria a Constituição, no entanto, o decreto que dispõe sobre minúcias
locais quanto à proteção à saúde. A propósito, manifestou-se o Min. Marco Aurélio, em
decisão monocrática proferida na MC na ADI 6341/DF, sobre as alterações realizadas na
Lei 13.979/2020 pela Medida Provisória 926/2020, que “o artigo 3º, cabeça [da referida
Lei], remete às atribuições, das autoridades, quanto às medidas a serem
implementadas” e “as providências não afastam atos a serem praticados por Estado, o
Distrito Federal e Município considerada a competência concorrente na forma do artigo
23, inciso II, da Lei Maior.” Assim se concluiu a fundamentação da decisão que
concedeu, em parte, a liminar pleiteada: “[...] Surge acolhível o que pretendido, sob o
ângulo acautelador, no item a.2 da peça inicial, assentando-se, no campo, há de ser
reconhecido, simplesmente formal, que a disciplina decorrente da Medida Provisória nº
926/2020, no que imprimiu nova redação ao artigo 3º da Lei federal nº 9.868/1999, não
afasta a tomada de providências normativas e administrativas pelos Estados, Distrito
Federal e Municípios. 3. Defiro, em parte, a medida acauteladora, para tornar explícita,
13
no campo pedagógico e na dicção do Supremo, a competência concorrente.” Aqui há
de se observar, também, o que se disse nos itens precedentes, quanto ao modo como os
parágrafos do art. 24 da Constituição devem ser compreendidos no contexto do
federalismo cooperativo.

O § 1.º do art. 3.º da Lei 13.979/2020 dispõe que “as medidas previstas neste artigo
somente poderão ser determinadas com base em evidências científicas e em análises
sobre as informações estratégicas em saúde e deverão ser limitadas no tempo e no
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espaço ao mínimo indispensável à promoção e à preservação da saúde pública.” Por sua


vez, o § 8.º do art. 3.º da mesma Lei, inserido pela Medida Provisória 926/2020,
estabelece que “as medidas previstas neste artigo, quando adotadas, deverão
resguardar o exercício e o funcionamento de serviços públicos e atividades essenciais.”
Quanto ao ponto, também incide a disciplina constitucional antes referida, quanto à
competência concorrente entre os entes da federação.

O § 9.º do art. 3.º da Lei aqui mencionada (também inserido pela Medida Provisória
926/2020), ao dispor que “o Presidente da República disporá, mediante decreto, sobre
os serviços públicos e atividades essenciais a que se referem o § 8º”, não afasta o que
se disse, ao longo do presente estudo. Ao Presidente da República incumbe a expedição
de decretos para regulamentar a execução de leis federais (cf. art. 84, caput, IV da
Constituição, de que trataremos a seguir), e também aqui sua competência não poderá
afastar a de Governadores e Prefeitos que haverão de dispor sobre circunstâncias
particulares de estados e municípios, conforme o caso – e desde que não extrapolem e
atinjam interesses mais amplos e gerais (v.g., disposição municipal não pode impor
restrição que tenha alcance nacional).

O que aqui se disse vale para o problema relacionado à eventual coexistência de ato do
Presidente da República e ato de governo local (estadual/distrital ou municipal) e vale,
também, mutatis mutandis, para solucionar eventuais dilemas relacionados aos campos
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de incidência de decretos estaduais e municipais.

É certo, no entanto, que poderão surgir situações limítrofes, em que os lindes entre os
interesses geral e local podem não se manifestar claramente, sobretudo quando
divergirem entes federal e estadual/distrital, ou estadual e municipal, em que
determinado tema pode transitar de uma órbita para outra, a depender das
circunstâncias do caso.

Em tais situações, segundo pensamos, deve-se observar a regra prevista no § 1.º do


art. 3.º da Lei 13.979/2020, que estabeleceu critério que deverá nortear todas as ações
realizada com base na referida Lei: elas devem ser determinadas “ com base em
evidências científicas e em análises sobre as informações estratégicas em saúde ”.
Deverão, também, ser limitadas “ no tempo e no espaço ao mínimo indispensável à
promoção e à preservação da saúde pública”. Essa regra dá rendimento ao que dispõe a
Constituição em seu art. 6.º, caput, que trata o direito à saúde como direito fundamental
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social, e em seu art. 196, que considera a saúde “direito de todos e dever do Estado”.
Não sendo possível definir, à luz dos critérios antes mencionados, qual dos entes tem
competência para a realização da medida, deve-se verificar qual dos atos em conflito
(federal versus estadual, estadual versus municipal, p.ex.) realiza substancialmente, em
maior plenitude, o direito constitucional à saúde.

Esse ponto, segundo pensamos, deverá servir como parâmetro também para conferir a
higidez de decreto presidencial que, nos termos do § 9.º do art. 3.º da Lei 13.979/2020,
dispuser sobre os serviços públicos e atividades essenciais a que se refere o § 8.º do art.
3.º da mesma Lei.
16
O Presidente da República tem poder administrativo de expedir regulamentos para a
execução de leis (art. 84, IV, da Constituição), que deve observar limites constitucional e
17
legal. Quanto a este aspecto, não se admite que o Presidente da República extrapole
os limites da lei que deve ser regulamentada, sob pena de violação ao princípio da
legalidade – no caso, pois, não se viola a Constituição (senão indiretamente), mas a lei
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regulamentada. Mas, além disso, o próprio decreto regulamentador deverá observar a
19
Constituição Federal.

No caso dos §§ 8.º e 9.º do art. 3.º da Lei 13.979/2020, eventual decreto presidencial
que deixe de ser realizado com “base em evidências científicas e em análises sobre as
informações estratégicas em saúde” (§ 1.º do art. 3.º da Lei 13.979/2020), p.ex.,
violará o poder de regulamentar, pois atentará contra a lei a ser regulamentada, e, a um
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só tempo, violará também a Constituição Federal, por contrariar o direito fundamental à


saúde (ao qual corresponde, no caso, o dever de que é destinatário também o
Presidente da República), isso é, direito a prestações estatais que deem cumprimento
aos deveres de cuidado, proteção e defesa da saúde.

Sumário:

1 De acordo com o art. 1.º, caput, da Constituição, a “República Federativa do Brasil” é


“formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, [...]”. O
sistema de governo brasileiro é o presidencialismo, em que a mesma pessoa chefia o
governo e o estado (cf. art. 76 ss. da CF; art 2.º do ADCT). O poder governante é
considerado pela Constituição res publica, tendo, pois, que ser constituído pelo povo e
servir ao povo (cf. art. 1.º, parágrafo único, da Constituição). República é forma de
governo (opondo-se à monarquia); federalismo, forma de estado. Essa República é
federativa, isto é, um Estado composto por entidades autônomas. O federalismo surgiu
com a Constituição norte-americana de 1787, caracterizando-se pela união de
coletividades autônomas, os chamados estados federados, estados-membros, ou,
simplesmente, estados, podendo adotar noutros países nomes diversos, como
províncias, na Argentina, e cantões, na Suíça. Esses estados federados têm autonomia,
notadamente quanto ao exercício de capacidade normativa sobre matérias reservadas à
sua competência (cf. José Afonso da Silva, Curso de direito constitucional positivo, 35.
ed., Malheiros, 2012, p. 91). A República Federativa do Brasil é o Estado Federal,
reconhecido como tal em suas relações internacionais; União, por sua vez, é o ente que
se relaciona internamente (cf. art. 20 da CF). Sobre as características do federalismo
brasileiro, cf., amplamente, José Miguel Garcia Medina, Constituição Federal Comentada,
5.ed., Ed. Revista dos Tribunais, 2020, comentário aos arts. 22, 23 e 24 da Constituição.

2 Cf. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Curso de direito constitucional, Saraiva, 2002, p.
48.

3 Cf. José Afonso da Silva, Curso... cit., p. 93.

4 Após apresentar relato histórico, afirma José Roberto Anselmo: “A história política
nacional mostrou que em diversos momentos nosso federalismo apresentou traços de
enfraquecimento ou de completa inexistência material. O modelo de federalismo dualista
adotado em 1891, foi resultado de uma força centrífuga, ou seja, a transformação de um
Estado Unitário (onde competências do poder central passaram para os
Estados-membros) em Estado Federal. Neste sentido, o máximo de descentralização é
sempre um ideal a ser perseguido, contudo, nem sempre é alcançado. A exemplo do que
ocorreu durante a vigência das Constituições de 1937 e 1967, qualquer movimento
político centralizador encontra terreno fértil para se desenvolver, pois o processo de
descentralização é mais frágil do que aquele que ocorre nos Estados de formação federal
centrípeta (onde determinadas competências dos Estados-membros são cedidas à
União)” (A centralização do Estado brasileiro, Revista do IASP 22/115).

5 Segundo se afirma na doutrina, “na origem da ondulação secular, floresceu o


federalismo dual e centrífugo, caracterizando atividade mais intensa da União e dos
Estados, exercida nos domínio intransponíveis dos poderes enumerados da União e dos
poderes reservados dos Estados” (Raul Machado Horta, Tendências atuais da federação
brasileira, Revista de Direito Constitucional e Internacional 16/7). Esse quadro viria a
modificar-se com a Constituição de 1988, segundo o mesmo autor: “A repartição de
competências poderá acentuar a centralização, concentrando na União a maior soma dos
poderes e competências, como se fez na Constituição Federal de 1967, ou consagrar a
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descentralização, reduzindo os poderes centrais e ampliando os poderes estaduais, ou


ainda, afastando-se de soluções extremas, operar a dosagem das competências federais,
estaduais e municipais, de modo a instaurar o equilíbrio entre o ordenamento central da
Federação e os ordenamentos parciais, como me parece ser a tendência dominante na
Constituição Federal de 1988. No primeiro caso, a centralização de poderes gera o
federalismo centrípeto; no segundo, a descentralização conduz ao federalismo centrífugo
e, no terceiro, implanta-se o federalismo de equilíbrio, que identifica modelo
contemporâneo da forma federal de Estado” (Tendência atuais da federação brasileira,
Revista de Direito Constitucional e Internacional 16/7).

6 Semelhantemente, afirma-se que “a Constituição Federal de 1988 conferiu novos


fundamentos ao federalismo brasileiro, abolindo regras que comprometiam as
características federais da forma de Estado. Abandonou as soluções superadas do
federalismo centrífugo de 1891 de 1891 e do federalismo centrípeto de 1967. Introduziu
o federalismo de equilíbrio na concepção federal brasileira. [...]. Restaurando as
características fundamentais da concepção federal e aperfeiçoando os instrumentos de
sua manifestação, o constituinte de 1988 introduziu na formulação constitucional
brasileira o federalismo de equilíbrio, que representa o modelo mais avançado de
organização do Estado nas Constituições Federais contemporâneas. Por isso, a missão do
constituinte da reforma constitucional, no âmbito da forma federativa de Estado, deverá
consistir no aprimoramento do modelo, para consolidar na Constituição o federalismo
apto a enfrentar os desafios tecnológicos e as soluções globalizantes que assinalarão, em
movimentos coincidentes, o crepúsculo de nosso século e o alvorecer de um mundo
renovado no século XXI” (Raul Machado Horta, Tendências atuais da federação
brasileira, Revista de Direito Constitucional e Internacional 16/7). Sobre federalismo
cooperativo, cf., amplamente, José Miguel Garcia Medina, Constituição Federal
Comentada, 5.ed., Ed. Revista dos Tribunais, 2020, comentário aos arts. 22, 23 e 24 da
Constituição.

7 A respeito, cf., amplamente, José Miguel Garcia Medina, Constituição Federal


Comentada, 5.ed., Ed. Revista dos Tribunais, 2020, comentário aos arts. 22, 23 e 24 da
Constituição.

8 STF, ADI 2.030, rel. Min. Gilmar Mendes, Pleno, j. 09.08.2017, Informativo 872.

9 “O art. 24 da CF/1988 compreende competência estadual concorrente não cumulativa


ou suplementar (art. 24, § 2.º) e competência estadual concorrente cumulativa (art. 24,
§ 3.º). Na primeira hipótese, existente a lei federal de normas gerais (art. 24, § 1.º),
poderão os Estados e o Distrito Federal, no uso da competência suplementar, preencher
os vazios da lei federal de normas gerais, a fim de afeiçoá-la às peculiaridades locais
(art. 24, § 2.º); na segunda hipótese, poderão os Estados e o Distrito Federal,
inexistente a lei federal de normas gerais, exercer a competência legislativa plena ‘para
atender a suas peculiaridades’ (art. 24, § 3.º)” (STF, ADIn 3.098, rel. Min. Carlos
Velloso, Pleno, j. 24.11.2005).

10 Assim, “ante a omissão do legislador federal em estabelecer as normas gerais


pertinentes ao imposto sobre a doação de bens móveis, os Estados-membros podem
fazer uso de sua competência legislativa plena com fulcro no art. 24, § 3.º, da
Constituição e art. 34, § 3.º, do ADCT (STF, RE 607546-AgRg, rel. Min. Ricardo
Lewandowski, 2.ª T., j. 23.08.2011). Note-se que, em tais casos, “a superveniência de
lei federal dispondo normas gerais suspende a eficácia da lei estadual, no que lhe for
contrário” (STF, RE 595.586, rel. Min. Eros Grau, 2.ª T., j. 09.02.2010).

11 “Ficam, as empresas de concessão de serviços públicos de água e luz, proibidas de


cortar o fornecimento residencial de seus serviços, por falta de pagamento de suas
respectivas contas, às sextas-feiras, sábados, domingos, feriados e no último dia útil
anterior a feriado” (cf. STF, ADI 5961, rel. p/ ac. Min. Marco Aurélio, Pleno,
j. 19.12.2018; semelhantemente, cf. STF, ADI 5745/RJ, Pleno, rel. p/ ac. Min. Edson
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Fachin, j. 07.02.2019, Informativo STF 929).

12 STF, ADI 5745/RJ, Pleno, rel. p/ ac. Min. Edson Fachin, j. 07.02.2019, Informativo
STF 929. O STF, no julgamento da ADI 4060, assim decidiu: “O princípio federativo
brasileiro reclama, na sua ótica contemporânea, o abandono de qualquer leitura
excessivamente inflacionada das competências normativas da União (sejam privativas,
sejam concorrentes), bem como a descoberta de novas searas normativas que possam
ser trilhadas pelos Estados, Municípios e pelo Distrito Federal, tudo isso em
conformidade com o pluralismo político, um dos fundamentos da República Federativa do
Brasil (CRFB, art. 1º, V) [...]” (STF, ADI 4060, rel. Min. Luiz Fux, Pleno, j. 25.02.2015).
Cf., também, voto proferido pelo Min. Edson Fachin no julgamento da ADI 5356, Pleno,
rel. p/ ac. Min. Marco Aurélio, j. 03.08.2016.

13 STF, rel. Min. Marco Aurélio, ADI 6341 MC/DF, j. 24.03.2020.

14 Cf., quanto ao ponto, decisão monocrática proferida pelo Des. Orlando de Almeida
Perri, do TJMT (MS 1007834-59.2020.811.0000, j. 29.03.2020).

15 Na íntegra, assim estabelece o art. 196 do texto constitucional: “A saúde é direito de


todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à
redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às
ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Sobre a
inconstitucionalidade de lei que contrarie esse direito fundamental, cf. STF, ADI 3356/PE,
rel. p/ acórdão Min. Dias Tofolli, Pleno, DJe 31.01.2019.

16 E não legislativo, embora tenha função normativa subordinada, cf. José Afonso da
Silva, Curso... cit., p. 425.

17 Sobre o poder regulamentar e seus limites, cf. José Miguel Garcia Medina,
Constituição Federal Comentada, 5.ed., Ed. Revista dos Tribunais, 2020, comentário ao
art. 84 da Constituição.

18 Os atos regulamentares, cujo conteúdo ultrapasse o que na lei regulamentada se


contém, podem estar eivados de ilegalidade (STF, ADIn 4.176, rel. Min. Cármen Lúcia,
Plenário, j. 20.06.2012).

19 Cf., nesse sentido, decisão monocrática proferida pelo Min. Luis Roberto Barroso na
ADPF 622 MC / DF, j. 19.12.2019.

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