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Artigo de Saúde Pública®

Nº 65 / Dezembro de 2007

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07 Úlceras de perna e úlceras de pressão exigem cuidados específicos

Por feridas podemos entender múltiplas situações, que vão desde as pequenas escoriações a cortes e/ou
pequenas queimaduras, ou a situações graves. Mas as feridas que preocupam maior número de
profissionais são designadas por úlceras de perna e úlceras de pressão e necessitam de abordagem
adequada.

As feridas resultantes de um pequeno acidente, de uma escoriação, corte ou queimadura


são pequenos incidentes que se tratam por si só e a que não é dada grande importância.
Mas existe um outro tipo de feridas que têm uma grande incidência na população e que
passam quase despercebidas para quem é alheio ao problema.

«São as feridas dos indivíduos acamados com diferentes deficits e/ou associadas a
patologias crónicas. Estas feridas, nomeadamente as úlceras de pressão, apresentam-se,
frequentemente, em pessoas em situação de dependência e que se encontram em
hospitais, lares e/ou no domicílio. As doenças de origem vascular acometem grande
percentagem da população mas, no que se refere à população mais jovem e em idade
activa, há uma preocupação grande com as úlceras de perna (um outro tipo de ferida),
que são um mal preocupante no nosso país», esclarece a Enf.ª Rita Videira, da Unidade
de Cuidados Intermédios do Hospital de São João e membro da Direcção da Associação
Portuguesa de Tratamento de Feridas (APTFeridas).

Em Portugal, as úlceras de perna são, de facto, um problema grave, comprometendo a


qualidade de vida global e consequente produtividade a nível laboral, com as
compreensíveis repercussões sociais e económicas.

Além disso, por norma, as pessoas com úlceras de perna não identificam a dimensão do
problema que envolve esta situação e dirigem-se aos centros de saúde para a sua
resolução.

Enf.ª Rita Vieira

«Andam anos e anos a ser tratadas e a cura prolonga-se no tempo por múltiplos factores,
mas também porque nos centros de saúde não está ainda generalizada a formação
específica, para uma abordagem eficaz a estas feridas, ou seja, para fazer um
diagnóstico adequado e um tratamento preciso», esclarece Rita Videira.

Úlceras de perna e úlceras de pressão

De acordo com o Dr. José Neves, cirurgião geral e vascular e coordenador da Consulta
Multidisciplinar de Úlcera de Perna do Hospital dos Capuchos, «as úlceras de perna são
feridas que se localizam abaixo do joelho e, normalmente, não cicatrizam num espaço
de duas ou três semanas. A principal causa da úlcera de perna é a doença venosa.

Actualmente, representa cerca de 70 a 80% dos casos. Nas úlceras de perna, o sangue
não circula da maneira que devia, originando-se um aumento da pressão do sangue
dentro das veias, o que provoca a fuga de certas substâncias para os tecidos
circundantes. Perante esta situação, o processo de irrigação não é feito da melhor forma
e alguns tecidos morrem».

No entanto, importa acrescentar que, para além da doença venosa, existem muitas outras
causas que podem levar ao aparecimento das úlceras de perna. «Muitos doentes sofrem
desta patologia porque têm problemas que estão relacionados com a circulação arterial,
diabetes, traumatismos, tumores, entre outros», informa José Neves.

Dr. José Neves

Actualmente, não existem dados concretos sobre o número de pessoas que sofrem de
úlcera de perna. No entanto, perante os dados de outros países, «podemos partir do
princípio que a prevalência da úlcera de perna na população adulta portuguesa é de 1%,
mas, se falarmos de pessoas com 70 anos ou mais, a incidência ronda os 10%. Trata-se
de uma situação extremamente pesada em termos económicos e sociais. Estima-se que
nos países europeus o gasto com o tratamento das úlceras de perna é de cerca de 2% do
orçamento para o Serviço Nacional de Saúde (SNS)».

Para além das úlceras de perna também existem as úlceras de pressão. Segundo José
Neves, «as úlceras de pressão ocorrem porque existe um aumento da pressão de forma
prolongada sobre uma determinada região que, normalmente, são as proeminências
ósseas. Habitualmente, nas úlceras de pressão existe irrigação deficiente dos tecidos, o
que faz com que muitos acamados acabem por desenvolver feridas que, para além de
outros factores, podem também surgir devido ao facto de estarem sempre na mesma
posição. Normalmente, esta situação ocorre com mais frequência em pessoas de idade
avançada e desnutridas».

No caso das úlceras de pressão, «os doentes devem ter cuidados muito específicos. Hoje
em dia, nos hospitais, esta situação já é levada em consideração. Tentamos despertar
consciências para a mobilização frequente dos doentes e para a monitorização do estado
nutricional, que deve ser adequado a cada doente, conforme as suas necessidades».

Para além da mobilização, os profissionais também devem ter o cuidado de lhes


massajar a pele para que a circulação possa ser activada e, não menos importante,
programar uma adequada estabilização das patologias associadas.

Formar na área das feridas - APTFeridas

A Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas (APTFeridas) nasceu, em grande


parte, com o objectivo de formar os profissionais de saúde na área do diagnóstico e
tratamento de feridas.

«Há dez anos, em Portugal, não havia conhecimentos e linhas de orientação adequadas
para o tratamento de feridas. Ainda existem lacunas importantes, mas através do
trabalho da APTFeridas temos procurado dar resposta à carência destes conhecimentos
específicos. Actualmente, temos grande número de pedidos de formação,
principalmente, por parte das áreas da saúde onde predominam profissionais de
enfermagem, mas onde também aparecem profissionais médicos e farmacêuticos
carentes deste tipo de informação/formação, nomeadamente a nível das ARS. Também
as escolas de enfermagem nos «exigem» presença assídua anual», refere a Enf.ª Rita
Videira, membro da Direcção da APTFeridas.

Porém, existe ainda o grande problema da aplicação nos serviços dos conhecimentos
adquiridos nestas formações.
«Muitas vezes não há condições ou não se criam as condições nas instituições para a
implementação na prática deste ensino/aprendizagem. Não podemos dizer que não
existe formação porque já existe, mas a implementação no terreno continua a falhar e a
ser problemática. Digo muitas vezes que a informação é poder, mas não vale nada se
não for transmitida aos outros para ser aplicada e promover a melhoria dos cuidados à
população. É importante que a aprendizagem seja aplicada nos locais de trabalho.»

O Congresso anual da APTFeridas decorreu de 7 a 9 de Novembro de 2007, no Fórum


da Maia, e contou com a presença de pessoas que transmitiram as suas experiências e
que efectuaram mudanças nos próprios serviços.

A ideia do Congresso foi e é, anualmente, trazer também novidades na área, contando


inclusive com profissionais internacionalmente creditados.

Contactos da Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas


Rua Álvares Cabral, n.º 137, sala 21
4050-041 PORTO
Tel.: 222 026 725
Fax: 222 007 890
Website: www.aptferidas.com
E-mail: aptferidas@aptferidas.com e aptferidas@gmail.com

Texto: Teresa Pires/Paula Pereira