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PUC MINAS VIRTUAL

PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOLOGIA

DISCIPLINA - LATIM: ORIGEM DAS LINGUAS ROMÂNICAS

PROFESSOR: Bruno Fregni Bassetto


ALUNA: Ana Elias
Unidade 02

Orientação de estudo

A formação do léxico românico é basicamente latina; contudo, sua constituição se


firmou ao longo dos séculos, com o constante recurso ao adstrato permanente do
tesouro latino; daí a distinção entre vocábulos herdados, semi-eruditos e eruditos,
conforme o modo ou a época em que entraram no léxico românico. Além desse léxico
basicamente latino, há muitos empréstimos de várias origens e fontes, sobretudo
advindos dos substratos (itálicos, celtas, ibéricos etc) e dos superstratos (germânicos,
eslavos etc). A presente Unidade de fato é muito ampla, podendo ser desenvolvida
sob qualquer ângulo apresentado pelos diversos autores indicados na bibliografia
básica, complementar ou ainda outra disponível. (Maurer, 1959, p. 232-239; Elia,
1979, p. 112-116; Iorgu Iordan, II. Cap. XVI, p. 61-163. Nas referências bibliográficas
dessas obras há vasta bibliografia complementar).

Enunciado Atividade 02

Elabore uma dissertação de no máximo dez páginas, fornecendo uma visão geral da
formação do léxico românico, ressaltando não apenas o aspecto latino dos vocábulos
herdados, mas também os empréstimos de várias origens provenientes dos substratos
e dos superstratos, conforme as indicações bibliográficas. (Maurer, 1959, p. 232-239;
Elia, 1979, p. 112-116)

Outras obras consultadas:


CAMARA Jr, Joaquim Mattoso. Dicionário de Linguística e Gramática: referente
à língua portuguesa. 26.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
ELIA, Silvio. Preparação à Linguística Românica. Rio de Janeiro: Ao Livro
Técnico, 2004.
ILARI, Rodolfo. Linguística Românica. São Paulo: Editora Ática, 2004.
NEVEU, Frank. Dicionário de Ciência da Linguagem. Traduzido por Albertina
Cunha. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
VIDOS, Benedeck Elemér. Manual de Linguística Românica. Tradução de José
Pereira da Silva. Rio de Janeiro: Eduerj, 1996.
DUBOIS, Jean. Dicionário de Linguística. Traduzido por Frederico Pessoa de
Barros. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

A história da formação do léxico românico traz consigo um pouco da história de

Roma, caminhando lado a lado com os acontecimentos é parte do retrato daquele

tempo que contou com situações de influências linguísticas de substrato, superestrato

e adstrato, influências estas não só léxicas, mas também sintáticas. A convivência

com outras línguas durante as conquistas do Império Romano deixaram marcas na

língua dos romanos que contam a história dessa civilização e que consequentemente

passaram as neolatinas.

As situações de substrato, superstrato são influências linguísticas

caracterizadas pelo bilinguismo, já a situação de adstrato não há uma sobreposição

como acontece com os dois primeiros, segundo Silvio Elia são três situações “a) de

núcleos migratórios que praticam língua diferente daquela do país que os acolheu; b)

a de populações conquistadas por invasores de língua diversa da do povo vencido; c) a

de população de fronteira.” O contato entre duas línguas diferentes – mesmo diverso -

geram intercambio, isto é, a interferência na verdade é mutua, quando povos de

línguas distintas entram em contato e foi o que se passou com o latim durante apogeu

e declino do Império Romano, mesmo vencendo a língua do povo vencido passou


características à língua do vencedor, tal situação foi denominda por Grazialio I. Ascoli

por substrato. Porém, “Não nos esqueceremos que no fundo, substrato, superestrato

e adstrato não são senão expressões metafóricas para indicar as influências

linguísticas dos povos respectivamente vencidos, vencedores e conviventes” (VIDOS,

2001. p.178).

Para compreender a situação de substrato é importante o estudo dos povos pré-

romanos de sua cultura e língua como é o caso dos itálicos que “falavam línguas indo-

euporéias do mesmo ramo que o latim, que podem ser divididas em três grupos: o

osco, o sabélico e o umbro [...] essas línguas [cederam] ao latim vulgar um grande

número de palavras” (ILARI, 2004. p.141), um bom exemplo dessa situação é a

assimilação mb > mm e nd > nn (piombo > piommo, fronda > fronna).

É exemplo de substrato a passagem f- > h-, o f inicial do latim passa h em

gascão, em palavras: hablar (lat. fabulare), hacer (lat. facere) e hilo (lat. filu). Na

comparação com outras línguas tem-se o exemplo do vocábulo folha: lat. folia, esp,

hoja, mas it. foglia e fr. feuille “Todavia, essa evolução F > H foi muito lenta. [...]

Enquanto as classes populares ou provincianas (os castelhanos) usam h-, as classes

cultas, enfartadas de latim, timbravam na persistência do f-” (ELIA, 2004. p.93).

Outro exemplo é o substrato gálico U > Ü, mesmo que muito discutido chega-se

a conclusão que “[...] a presença de ü nos territórios românicos de substrato céltico

seja devida a uma tendência de origem gaulesa, a qual se manifesta no campo

neolatino, como no germânico de substrato gálico [...] as condições da passagem do u

> ü não terão sido em toda a parte as mesmas e tal passagem não terá ocorrido em

todo o território na mesma época” (ELIA, 2004. p.96).


Ainda uma interessante teoria de substrato é a influência dos etruscos em

Roma que explica a origem dos vocábulos Roma e Tibre “O nome da cidade eterna –

Roma – e do rio que a corta – Tibre – são provavelmente etruscos. Segundo Lívio, no

tempo dos reis, ensinava-se publicamente em Roma o etrusco, língua, entretanto,

que, de origem não indo-européia, nos é praticamente desconhecida” (ELIA, 2004.

p.100).

O substrato ibérico se confirma também no espanhol com em izquierdo (basco

ezquerra), no sufixo -rro (espanhol pizarro, guijarro, basco eguijarria) e outros.

No que se refere ao superstrato, situação na qual a língua dos vencedores

influencia a língua dos vencidos “Na época das invasões, o Cristianismo era a religião

preponderante em toda a România: muitos dos povos invasores adotaram essa

religião, o que foi freqüentemente um passo para a adoção das instituições dos povos

submetidos, inclusive a língua. Em alguns casos, os Estados romano-barbáricos foram

bilíngües: o latim vulgar e a fala dos novos senhores foram utilizados lado a lado”

(ILARI, 2004. p.143).

A situação de superstrato mais significativa foi da Germânia em especial sobre

o francês, são alguns exemplos os topônimos terminados em –court e –ville; na

contribuição dos visigodos tem-se do ramo germânico os vocábulos o ptg. elmo, ptg e

esp. ant. luva, o ptg. ganhar e o esp. ganar; dos francos são exemplos busch, em it.

bosco e ptg. bosco, mod. bosque, e ainda marquês, barão; verbos presentes na

língua francesa como bastjan do fr. bâtir, haïr < fr. hatjan, brun < fr. brûn, fr.

garder, ptg. esp. guardar, it. guardare, blank (albus) que deu origem ptg. branco,

esp.,fr. blanc, it. bianco “No que se refere mais particularmente ao superestrato

franco, é probabilíssimo que tenha contribuído para a posição de destaque que tem o
francês entre as línguas românicas e para a sua clara separação do provençal” (VIDOS,

2001. p.190).

É interessante registrar também a grande herança léxica arábica como nos

exemplo dos vocábulos algodão, cenoura, arroz, marfim, açúcar e álcool entre tanto

outros “Em vários desses casos, o árabe foi apenas intermediário (limão e laranja vêm

do persa; arroz tem origem grega [...]” (ELIA, 2004. p.107). Como em alguns dos

exemplos constata-se o empréstimo da sílaba –al que tem origem no artigo árabe.

As situações expostas acima deixam transparecer que durante um tempo o que

ocorreu foi a convivência mútua entre duas línguas para após um tempo uma

suplantar a outra, ou seja, a situação de adstrato é vivida durante um período até que

a língua do conquistador ou do conquistado é suplantada e tem-se o substrato ou o

superstrato.

Importante situação de ‘adstrato permanente’ (Tagliavini) é vivida pelo grego e

pelo latim literário do qual surgem vários neologismos “Um exemplo de neologismo

coerente é bibliófilo, construído respectivamente ‘livro’ e ‘interesse por’, ‘amor a’;

um exemplo de neologismo menos coerente é burocracia: a segunda parte da palavra

é de origem grega, e traz a ideia de poder; a primeira é francesa, e indicava na

origem o pano com que se cobriam as escrivaninhas, a sala e finalmente a própria

atividade das repartições; é mais ou menos com esse sentido que a palavras entra no

neologismo burocracia, que é, como se vê, uma composição tipicamente moderna e

linguisticamente híbrida” (ILARI, 2004. p.151). Aliás, vem do grego palavras como

parabolé (parábola) que demonstram a influência através também do cristianismo ao

latim vulgar, outros exemplos: ecclesia, presbyter, diaconus, parochia, baptizare,

chrisma entre outros.


Outros exemplos de palavras de origem grega são petra, spatha, chorda, bursa,

podium e muitos outros.

Chega-se ao final desse estudo a conclusão que há muitos empréstimos de

várias origens e fontes, vindas dos substratos (itálicos, celtas, ibéricos etc), dos

superstratos (germânicos, eslavos, árabe etc.) e do adstrato (grego) na formação do

léxico românico, sem esquecer-se da influência do próprio latim literário no latim

vulgar e que o “processo de diversificação regional do latim vulgar [...] transformou o

mapa linguístico da România num mosaico de pequenos dialetos” (ILARI, 2004. p.157).

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