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GRAMSCI E A

AMÉRICA LATINA
O R G A N I Z A D O P O R
CARLOS NELSON COUTINHO
í MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

'‘ll
Os artigos reunidos no prcsciilc
volume foram originalmentc apresen­
tados no seminário internacional “ As
transformações políticas da América
Latina: a presença de Gramsci na
cultura latino-americana” , rccilizado
em Ferrara (Itália) em setembro de
1985, por iniciativa do Instituto
Gramsci daquela cidade.
Naquela ocasião, diversos políticos
e intelectuais italianos e latino-ameri­
cano reuniram-se com o objetivo de
esboçar uma visão de conjunto da in­
fluência e da fortuna que o pensa­
mento de Antonio Gramsci teve ( e
continua tendo) junto às diversas cul­
turas e campos ideológicos da Améri­
ca Latina. O resultado foi revelador: a
partir da análise de diferentes situa­
ções particulares, pôde-se concluir
que Gramsci, ao longo dos últimos
trinta anos, incorporou-se firmemente
às tradições polfticas e intelectuais da
esquerda e da democracia avançada
típicas do continente, obtendo forte
ressonância especialmente junto aos
setores engajados num esforço de re­
novação e atualização do movimento
socialista. O balanço lá realizado re­
velou também que tal incorporação
parece ser hoje um dado definitivo,
mesmo que seja possível apontar um
certo refluxo (de duração ainda im­
previsível) das posições mais pro­
priamente “ gramscianas” na América
Latina dos nossos dias.
Para a presente edição brasileira,
foram selecionados os textos que pri­
vilegiam os casos particulares do Bra­
sil, do México e da Argentina, países
que, pelo peso esp>ecffico que jogam
no continente e pela trajetória históri­
ca sob vários aspectos paradigmática,
podem facilitar o alcance de uma vi­
são abrangente da esquerda latino-

©
PAZ E TER R A
americana e da recepção por ela feita
do pensamento de Gramsci.
isxutumcntc por isso, os textos aqui
reunidos s3o de especial interesse para
o estudioso da política e dos fatos
culturais, bem como para todos os que
se ocupam da política coii .) experiên­
cia viva. Acompanham o itinerário e
as inflexões do pxínsamento de Gram-
sci na América Latina, buscando reter
sua real contribuição teõrica para a
explicação das diversas situações na­
cionais e resgatar a história mesma da
esquerda e da intelectualidade pro­
gressista no continente.

Antonio Gramsci neisceu na Sarde-


nha (Itália) em 1891. Desenvolveu
intensa atividade intelectual, jornalís­
tica e política. Fundador do Partido
Comunista Italiano em 1921 e membro
de sua direção central, integrou o
Comitê Executivo da Internacional
Comunista no início dos anos vinte.
Eleito deputado pelo Vêneto em 1924,
foi preso dois anos depois. Na década
em que passou nas prisões fascistas de
Mussolini, dedicou-se a uma vasta e
original elaboração teórica. Seus Ca­
dernos do Cárcere, divulgados ajjós a
Segunda Guerra, tomaram-se ponto de
referência no marxismo do século XX
e fator de renovação do f>ensamento
de Marx. Gramsci morreu em 1937.
De sua numerosa obra, foram publica­
dos no Brasil, pela Civilização Brasi­
leira, parte de sua correspondência e
de seus Cadernos (Maquiavel, a polí­
tica e o Estado nufderna; Os intelec­
tuais e a orifanização da cultura;
Concepçãij dialética lia história; Lite­
ratura e vuUi ntuúonal) c, mais rc-
centemente, pela Pa/, c Terra, Novas
Cartas de (íramsci c A questão meri-
diotud.
Apresentados originalmente no seminário internacional
“As transformações políticas da América latina; a pre
sença de Gramsci na cultura latino-americana” , realizado
em Ferrara (Itália) em setembro de 1985, os textos aqui
reunidos são de especial interesse para o estudioso da
política e dos fatos culturais, bem como para todos os
que se ocupam da política como experiência viva. Acom­
panham 0 itinerário e as inflexões do pensamento do in­
telectual italiano em nosso continente, buscando reter sua
real contribuição teórica para a explicação das diversas
situações nacionais e resgatar a história mesma da es­
querda e da intelectualidade progressista nesta parte do
globo.
I A H hA J A 3 l3 ?M A IO

' -
Copyright by
Istituto Gramsci de Ferrara, 1985
Capa
Isabel Carballo
Revisão
Bárbara Eleodora Benevides
Arnaldo Rocha de Arruda
Edvaldo Ângelo Batista

Dados de C atalogação n e P u b licação (C IP ) In te rn a c io n a l


(C â m a ra B ra sile ira do Livro, SP. B ra sil)

G iam aci e a A m érica L a tin a / N icola B adaloni . . . [e t a).] ;


G773 o rg an ização e tra d u ç ã o C arlos N elson C outinho, M arco A urélio
N o g u eira. — R io de J a n e iro : P a z e T e rra , 1988.
E n saio s a p resen tad o s o rig in a lm e n te no sem in ário in te rn a c io n al
“T ran sfo rm açõ es p o lític a s d a A m érica L a tin a " .
In c lu i B ib lio g rafia de G ram sci no B rasil,
1. A m érica L a tin a — P o lític a e governo 2. Com unism o ^—
A m érica L a tin a 3. D em ocracia — A m érica L a tin a 4. G ram sci,
A ntonio, 1891-1937 6. Socialism o — A m érica L a tin a I. B adaloni.
N icola. II. C outinho, C arlos Nélson, 1943- III. N ogueira, M arco
A urélio.
CDD-320.092
-320.631008
-320.632008
-320.98
88-1127 -321.8098
Índices p a ra cotálogo siste m á tic o :
1. A m érica L a tin a : Com unism o : C iência p o lític a 820.632008
2. A m érica L a tin a : D em ocracia : C iência p o lític a S21.8O08
3. A m érica L a tin a : P o lític a 320.98
4. A m érica L a tin a : Socialism o : C iência p o lític a 320.531098
6, P ensad o res p o litieo s : Itá lia : B io g ra fia e obra 320.092
6. P o litieo s ita lia n o s : B io g ra fia e o b ra 320.092

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Conselho Editorial
Antonio Cândido
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso
3.“ trimestre de 1988
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
SUM ÁRIO

Nota explicativa 9
Gramsci, para além de sua época e de seu país 11
NICO LA BADALONI
Geografia de Gramsci na América Latina 25
JOSÊ ARICÕ
O nacional-popular: Gramsci em chave latino-americana 47
fUAN CARLOS PORTANTIERO
Gramsci e as culturas populares na América Latina 61
NESTOR GARCIA CANCLINI
Antonio Gramsci e a esquerda mexicana 85
ARNALDO CÓRDOVA
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 103
CARLOS NELSON COUTINHO
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 129
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
Bibliografia de Gramsci no Brasil 155
¥

l
Reúnem-se no presente volume ensaios originalmente
apresentados no seminário internacional “Transformações
políticas da América Latina: a presença de Gramsci na
cultura latino-americana”, realizado na cidade italiana de
Ferrara, em setembro de 1985.
Diversos motivos impediram que o volume aparecesse ao
longo de 1987 e registrasse a participação da intelectualidade
latino-americana nos debates e estudos que se fizeram então
— na Itália e em outros países, embora com pequena inten­
sidade no Brasil — , por ocasião da passagem do 50.° ano da
morte de Antonio Gramsci. No entanto, descontada a dilui­
ção da referência comemorativa e bem considerados os três
anos que nos separam da realização do seminário, acredita­
mos que o material aqui reunido nada perdeu em termos de
atualidade e força sugestiva. Além do mais, continua a
cumprir plenamente sua principal função: fornecer um painel
da presença, do itinerário e das vicissitudes do pensamento de
Gramsci — e, assim, do marxismo — na América Latina, e
particularmente junto à sua multifacetada cultura política.
10 Nota explicativa

Como informa mais detalhadamente o filósofo Nicola Ba-


daloni no artigo que abre a presente coletânea, a reunião de
Ferrara contou com a participação de numerosos intelectuais
latino-americanos e italianos. Optamos por selecionar, dentre
as comunicações lá apresentadas, as que privilegiassem os
três “gigantes” do continente — México, Brasil e Argentina
— e facilitassem, mesmo que indiretamente, o alcance de uma
visão abrangente da esquerda latino-americana, com seus pro­
blemas, desventuras e perspectivas. Estamos convencidos de
que o conjunto aqui obtido, apesar de composto por trata­
mentos e abordagens bastante distintos entre si, apresenta
grande dose de organicidade.
Por fim, além de agradecer aos autores aqui incluídos a
autorização para que pudéssemos publicar seus textos, que­
remos deixar expresso nosso reconhecimento ao Instituto
Gramsci de Ferrara, na pessoa de seu diretor, Giuliano
Rubbi, pelo estímulo e pelo apoio oferecidos a essa iniciativa
editorial.

São Paulo, março de 1988.

Marco Aurélio Nogueira


Carlos Nelson Coutinho
Gramsci, para além de sua época
e de seu país

Nicola Badaloni

Das comunicações apresentadas no seminário internacio­


nal dedicado às “Transformações políticas da América La­
tina: a presença de Gramsci na cultura latino-americana”, a
revista Crítica marxista publicou * as de José Aricó e Carlos
Nelson Coutinho. A escolha foi imposta exclusivamente pelo
espaço, pois todas as comunicações foram de alto valor teóri­
co e político. Aliás, grande parte do sucesso do seminário e
da fecunda discussão que o caracterizou deveu-se ao modo
como Valentino Gerratana abriu os trabalhos. Partindo do
tema da “classicidade” de Gramsci, ele demonstrou como
ela não contrasta com a problematicidade e com o caráter
incompleto dos Quaderni. A “filosofia democrática” de
Gramsci, assim se expressou Gerratana, é uma contínua busca
de diálogo, certamente baseado em princípios, mas não numa
pretensão de ortodoxia. Torna-se inclusive dramática a busca

* Incorporando praticamente a íntegra da intervenção de Nicola


Badaloni na sessão de encerramento do seminário de Ferrara, o
presente artigo foi publicado (juntamente com os de Aricó e Coutinho,
V. infra) na revista italiana Crítica marxista. Roma, ano 23. 1985,
n.° 5. pp. 5-15.
12 Nícola Badaloni

gramsciana do interlocutor, daquele capaz de responder às


übjeções que Gramsci, no isolamento do cárcere, acabou por
dirigir a si próprio, à sua obra literária e política anterior,
para renová-la e torná-la capaz de uma aprofundada com­
preensão do presente.
Interlocutores deste tipo há muito tempo têm sido
encontrados na cultura contemporânea, o que aumenta o sig­
nificado tanto das adesões como das críticas provenientes
de intelectuais e dirigentes políticos da envergadura de José
Aricó, Nestor G. Canclini, A. Veles Pliego, Marcela Lagarde,
luan Carlos Portantiero, Arnaldo Córdova, José Nun (autor
de um interessante confronto crítico entre Gramsci e
Wittgenstein), Teodoro Petkoff e, na intervenção final, Carlos
Nelson Coutinho.
As características das duas comunicações publicadas pela
revista são profundamente diversas. A de Aricó, ao apresen­
tar a história do difícil encontro entre Gramsci e a esquerda
argentina, documenta o forte interesse inicial (mais político
que intelectual) promovido particularmente por Héctor P.
Agosti, um dirigente do Partido Comunista Argentino desa­
parecido em 1984. Aricó fala do “heróico furor” que se ma­
nifestou em alguns grupos, não obstante os obstáculos ante­
postos pela complexidade do pensamento do revolucionário
italiano, pela hostilidade da ortodoxia comunista, pelo neces­
sário trabalho de “tradução de Gramsci” à realidade política
latino-americana e pela diversidade de interpretações a que
ela dava lugar. Não obstante a fecunda vizinhança com figu­
ras de grandes intelectuais como José Carlos Mariátegui, a
utilidade dos pontos de apoio teóricos gramscianos para a
análise da diversificada realidade social da América Latina
aparece já nos anos 50 nos Cuadernos de Cultura, subsistin­
do até o momento em que a desagregação do peronismo indu­
ziu o Partido Comunista Argentino a um ortodoxo fecha­
mento.
ÜH grupos que permaneceram ligados a Gramsci, que
enimi abriram para uma reconsideração e uma reapropria-
i,áii ili oiiliiii. cuirentes do pensamento progressista, reuni-
.... . »i- em t(iiiu) (In revista fundada por Aricó, Pasado y Pre-
Gramsci, para além de sua época e de seu país 13

sente, na qual a inspiração gramsciana é uma das componen­


tes não secundárias. Não obstante seu maior ecletismo, a
revista permanece ligada a um programa de pesquisa no ter­
reno nacional e de perspectiva socialista.
A comunicação de Coutinho é diversa na impostação,
porque, ao traçar um detalhado quadro da história brasileira,
ele usa a categoria de “ revolução passiva” agregada à de
“Estado ampliado”. Segundo Coutinho, alguns fenômenos do
autoritarismo burguês podem ser explicados por esta catego­
ria gramsciana, na medida em que tenham operado no sen­
tido de uma modernização burguesa. Disso pode derivar, por
contraste, uma diferente avaliação do “populismo”, vinculada
à noção de “revolução passiva”. Ele está de fato a indicar a
presença de uma rica sociedade civil que, embora subordi­
nada e hegemonizada, não chegou a ficai plenamente can­
celada no Brasil. Politicamente, Coutinho pôs a questão
das relações entre o transformismo dos grupos dominantes e
a exclusão das massas populares, e portanto a questão da
estratégia que as esquerdas tiveram de seguir após o golpe
de Estado de 1964, agravado em 1968. Referindo-se explici­
tamente às célebres Lições sobre o fascismo, de Togliatti,
Coutinho negou que, mesmo na situação de extremo autori­
tarismo que caracterizou o Brasil a partir daqueles anos, se
possa falar de um regime reacionário de massas. O povo
fora marginalizado mas não organizado pelo regime; por­
tanto não se tratou de uma ditadura clássica de tipo fascista
conforme a definição de Togliatti. Observando o que aconte­
ceu após a crise do “milagre” brasileiro, Coutinho per­
gunta-se se o futuro de seu país pode ser interpretado, segun­
do a célebre divisão gramsciana, como caracterizado por uma
articulação de tipo oriental ou ocidental, captando, na supe­
ração da passividade das massas e da sociedade política
forte, a tarefa estratégica que responde à vigorosa necessidade
de auto-organização dos trabalhadores, de socialização da po­
lítica e de “reconhecimento” da especificidade de seu país.
Sua resposta, portanto, é a favor da democracia e contra toda
e qualquer forma de elitismo ou despotismo.
14 Nicola Badaloni

Após ter ouvido as duas comunicações, que procurei


resumir, e ter acompanhado o seminário em seu conjunto,
fiquei com a convicção reforçada de que Gramsci foi teórica
e politicamente um grande suscitador de energias morais e
intelectuais. Se ele ainda estivesse vivo, qualquer orientação
de pensamento ou movimento de luta no qual entrevisse
capacidade e força libertadora seria apreciado e avaliado po­
sitivamente. Isto deve ser dito inclusive com referência à
orientação que pode assumir o pensamento religioso, desde
que não subordinado aos elementos que o imobilizam e o
dogmatizam, a pretexto de defender o existente. De resto,
o mesmo princípio vale também para o marxismo, ao qual
Gramsci aderiu sem deixar de renovar vários de seus aspectos
conceituais e de reajustá-lo às exigências da primeira metade
do nosso século h
Acredito que se deve dizer que o pensamento de
Gramsci está, por um lado, historicamente datado, inserin­
do-se naquele arco de tempo que vai da Primeira Guerra
Mundial e da Revolução de Outubro ao surgimento ameaça­
dor, com o fascismo e o nazismo, do espectro da Segunda
Guerra Mundial, bem como ao delineamento das primeiras
tentativas positivas de unificação das forças que procuraram
se opor àquela catástrofe. Por outro lado, a datação histó­
rica não nos impede de reconhecer no pensamento de Gramsci
uma elaboração teórica que não se esgota neste arco de tempo,
ou ao menos não se reduz inteiramente a ele. Exatamente por
isso, os comunistas italianos puderam desenvolver os germes
lU- pensamento contidos nas pesquisas de Gramsci, enquanto
II cultura italiana dele recebeu um forte impulso para pro-
gieilir tanto no campo das relações entre ética e política
qmmlo no campo da fecunda mas difícil construção de uma
dnnocriicia de massa. Algumas considerações sobre o desen-
viilvimento do conceito de “democracia” no pensamento de
líinmiiil piircccm-me por isso úteis para ampliar o confronto

I ....... niivii iliu.iimentu(;fio a respeito da distância crítica de Gramsci


,,.i . ,iii II iiiiiid o x iii bolchevique e da sua originalidade como diri-
«Hiiii iii i lll li ii I 'lili'iHol(> dn práxis” pode ser encontrada em Leonardo
l^l■■ll I .• iitiiirgh- ilrl ptutere in Gramsci. Tra fascismo e socialismo
III tfM /'Mf M 14} < I4}h, Roma, t964, sobretudo pp. 169-261.
Gramsci, para além de sua época e de seu pais 15

com os temas desenvolvidos no próprio seminário de Ferrara.


A análise de Coutinho, por exemplo, poderia ter encontrado
pontos de apoio, no que se refere aos nexos entre revolução
passiva e autoritarismo, no pensamento do grande antecipador
de Gramsci, Antonio Labriola. Entre os escritos deste último,
lidos e citados pelo revolucionário sardo, está De um século
a outro, no qual se lê que “o Risorgimento italiano desenvol­
veu-se todo através do século XIX, mas se desenvolveu mais
no sentido da história passiva do que da história ativa’’
Labriola não teve dificuldade para reconhecer que o autorita­
rismo de Francesco Crispi (1818-1901) durante a última dé­
cada do século passado havia acelerado em alguns anos o
movimento operário e o desenvolvimento capitalista. A ava­
liação positiva do Sturm und Drang dos movimentos popula­
res na Sicília e a necessidade de dar objetivos concretos à
nascente formação do partido socialista fazem-se acompanhar,
em Labriola, da polêmica contra o transformismo, de cuja
aceitação é fácil chegar ao “fatal predomínio da multidão par­
lamentar”, isto é, a uma condição desprovida “de iniciativa e
incapaz de delinear tendências, pois iniciativas e tendências
exigem que se tome partido e sejam assim suscitados contra­
golpes da oposição” ’'*. Labriola opôs-se dura e sarcastica­
mente à cultura deteriorada que se havia infiltrado nas revis­
tas socialistas, mas que no entanto mantinha uma profunda
distância dos ideais de desenvolvimento humano e democrá­
tico congênitos ao próprio socialismo. A esse respeito, bas­
taria mencionar o que escrevia na Crítica social de 1897 um
ilustre historiador, Guglielmo Ferrero: “A verdadeira forma
social, criação original da raça latina, desta raça genial e
sensual, viva e ávida de prazeres, é o cesarismo. . . O império
romano foi a obra-prima colossal desse gênero, o gênero má­
ximo do governo rapace e mecenas, rapinador e distribuidor
de esmolas: hoje, os três grandes governos latinos — França,
Itália, Espanha — nada mais são do que três reproduções

2. A. Labriola, Scritti varii edili e inedili di filosofia e política (reu­


nidos e publicados por Benedetto Croce), Bari, 1906. p. 487.
3. Idem. p. 320.
16 Nicola Badaloni

em miniatura daquela construção ciclõpica” *. Aproximada­


mente com as mesmas palavras repetia-se Ferrero em A Euro­
pa jovem, obra em que o racismo antilatino dava lugar a
uma exaltação do estatalismo alemão, do capitalismo anglo-
saxão e até das potencialidades russas
Se Labriola antecipou a análise de Gramsci a respeito da
revolução passiva de tipo autoritário, acompanhada do trans-
formismo e da corrupção das camadas dirigentes e do estranha­
mento do povo e das classes trabalhadoras oprimidas mas
não absorvidas pelo bloco de poder, foi Gramsci (e neste
ponto Coutinho tem completa razão) quem travou publica­
mente a batalha ideal e política contra as confusas teoriza-
ções que estão na base da relação entre autoritarismo de
cúpula e correspondente populismo de base e que tiveram,
no Ocidente, sua maior manifestação teórica nas várias ver­
sões da assim chamada “psicologia da multidão”. Gramsci
mostrou a enorme dificuldade a ser encontrada por um pro­
grama de desenvolvimento democrático que se dispusesse a
derrotar simultaneamente as tendências autoritárias de cúpula
e a versão “ocidental” do populismo de base. A falência desta
batalha nos dois fronts significou a afirmação do fascismo e
deu lugar, nos Quaderni, à autocrítica em cujo centro está a
pesquisa sobre a formação de potencialidades democráticas
numa sociedade de massa como ponto decisivo para uma
transformação socialista.
Um recente livro de Luisa Mangoni, intitulado Una crisi
fine secolo ®, fornece-nos um quadro descritivo muito bem
informado a respeito daquela cultura, simultaneamente cien-
lificista e populista, em cujo centro está a figura do psicólogo
c sociólogo Cesare Lombroso, para o qual alargava-se enor-
mcmcntc a categoria do patológico, do delinqüente, do louco.
Nm|udcs anos, tal cultura estava reforçada pela influência

■I <1 I rircu), "Dell’amore al capitalismo industriale”, in Critica


Miiliilr, IHV7, p. 275.
■' <1 Iriicio. 1'huropa giovane. Studi e viaggi nei paesi dei Nord,
Mlliiiiii. I N V N . pp. 418-9.
i. I Miiiiiiiiiii Ihiii criai fine secolo. La cultura italiana fra Otto e
liiiliiii IV85. pp. 81-198.
Gramsci, para além de sua época e de seu pais 17

dos Taine, dos Le Plaf, dos Le Bon, dos Brunetière, teóricos


de um espiritualismo positivista no qual a psicologia da mul­
tidão, como uma espécie de populismo deteriorado, substituía
a visão socialista da organização pensada e consciente. Esta
cultura antidemocrática, mistificadora, de fundo racista
(pense-se em Gobineau e em Ludwig Gumplowicz), tornar-
se-ia com o tempo a cultura de Charles Maurras e Benito Mus-
solini. Foi contra ela que se ergueu a polêmica de Gramsci,
anti-racista, antimecanicista, que por este segundo aspecto
tolheu ao marxismo as verdades científicas para a ele con­
ferir o caráter de uma racionalidade de massa com uma prá-
xis correspondente, que desemboca na consciência de que
a necessidade pode tornar-se liberdade dentro do grande
número dos indivíduos associados, onde se compõem força e
consenso, finalidades racionais e elevação cultural e moral.
Gramsci é severo contra esta cultura, à qual ele dará o nome
de “lorianismo” (do então célebre Achille Loria), como
expressão depreciativa que incluía os Ferrero, os Sighele, os
Maurras, sem poupar Le Bon, a respeito do qual afirma uma
nota dos Cadernos do cárcere: “ O chefe do Governo [Mus-
solini] é um grande admirador de Le Bon” Em outra nota,
polemizando com Sclpio Sighele e seu escrito Contra o parla­
mentarismo, inserido num livro intitulado Moral privada e
moral pública, Gramsci retoma temas já desenvolvidos nas
obras de juventude e escreve: “O livro pode servir como ele­
mento para compreender as relações que existiram no decê­
nio 1890-1900 entre os intelectuais socialistas e os positivistas
da escola lombrosiana, obcecados pelo problema da criminali­
dade a ponto de com ela organizarem uma concepção do
mundo ou quase” Partindo da crítica da psicologia das mul­
tidões, Gramsci sustenta que, se o conformismo é uma ten­
dência do mundo contemporâneo, a diferença entre aquela
psicologia e aquilo que ele chama de “homem-coletivo” está
no fato de que na multidão “o individualismo não só não é
superado, mas é exasperado pela certeza da impunidade e da

7. A. Gramsci, Quademi dei cárcere, Torino, 1955, pp. 1145-6.


8. Ideni, p. 327.
la Nicola Badaloni

irresponsabilidade” ”, enquanto na figura do homem-cole-


tivo moderno a formação ocorre “essencialmente de baixo
para cima” e, não sem contradições, faz nascer “novas pos­
sibilidades de autodisciplina, isto é, de liberdades inclusive
individuais” Em outra passagem, dirá que os novos fenô­
menos de massa exigem que a linha do movimento progres­
sivo não seja única. Pensar numa única linha de movimento
“é erro grave. . . as linhas são múltiplas”
Gramsci, portanto, é fortemente polêmico contra as agre­
gações humanas que não encontram uma finalidade autôno­
ma, organizada, desejada e por isso livre, mas não esconde
que isso implica uma laboriosa transformação dos contextos
que dão lugar à intersecção das três grandes esferas da socie­
dade: a econômica, a civil e a política O fascismo, filiação
daquele nacionalismo que, com freqüência, afirma Gramsci,
representa no âmbito do povo-nação a força estrangeira, tende
a restringir, no âmbito do Estado, todas as forças da socie­
dade civil: nasce então o Estado totalitário^*.
No L ’ordine nuovc de l.“ de novembro de 1924, num
artigo não assinado mas atribuído a Gramsci, intitulado
Democracia e fascismo, escrito quando, após a crise Matteotti,
Gramsci ainda se iludia que o fascismo iria se degradar rapi­
damente, pode-se ler: “A democracia organizou o fascismo,
quando sentiu que não podia mais resistir, mesmo em condi­
ções de liberdade formal, à pressão da classe trabalhadora.
O fascismo, desagregando a classe operária, deu à ‘democra­
cia’ uma nova possibilidade de existência. Na intenção dos
burgueses, a divisão do trabalho deveria realizar-se de modo
perfeito, a alternância de fascismo e democracia deveria
excluir de uma vez para sempre qualquer possibilidade de

V. Idem, p. 862.
10. Idem, pp. 862-3.
I I . Idem, p. 1821.

IJ A iiiixcMlc ilislinçâo entre sociedade civil e economia está na base


dii-i tiiliuis ipie l’erry Anderson anuncia em Antinomias de Gramsci
lliiiil hiiis, SAo 1’iiiilü, 1987). A respeito, ver as atentas objeções de
ii I iiiiuliinl, l ‘iillUina uramsciana. Napoli, 1984, pp. 149-228.
II A l i i i i m v l . (Jmiderni dei cárcere, ril., p. 2287.
Gramsci, para além de sua época e de seu país 19

reconquista operária” '■*. Esta observação, seguida de algumas


anotações anti-socialistas que demonstram a persistente pre­
sença de elementos sectários no pensamento gramsciano da­
queles anos, é porém uma rica indicação da práxis da bur­
guesia e dos grupos políticos mais reacionários, que viam na­
quela alternância a possível realização de um poder conti­
nuado. ]á que tal teoria (em parcial contraste com a tese de
fundo de Coutinho) pode ser utilizada para explicar também
algumas situações históricas da América Latina, a conseqüên-
cia a ser daí extraída é que a “democracia social” na qual
devem se empenhar as forças progressivas e, em particular,
as massas trabalhadoras, precisa assumir características diver­
sas, para impossibilitar a reversibilidade. Gramsci torna-se
consciente disso diante da situação italiana. Numa passagem
dos Quaderni em que ele repensa o “ 1919”, que foi o ponto
máximo da pressão das forças populares, quase uma consulta
constituinte, escreve: “ Os giolittianos foram os vencedores
das eleições, no sentido de que imprimiram o caráter de
constituinte sem constituinte às próprias eleições e consegui­
ram desviar a atenção do futuro para o passado” Tal pas­
sagem é ilustrativa daquilo que, contra Croce, Gramsci chama
de “historicismo absoluto”; ele deve ter a capacidade de
observar o presente, o futuro e não apenas o passado. Daí a
polêmica de Gramsci contra a croceana política como paixão;
daí também a sua idéia de que o historicismo absoluto, como
filosofia da práxis, esteja em condições de “explicar e justi­
ficar historicamente inclusive ‘esta última’ e que seja o má­
ximo ‘historicismo’, a libertação total de qualquer ‘ideologis-
mo’ abstrato, a real conquista do mundo histórico, o início
de uma nova civilização”
Portanto a filosofia de Gramsci, o seu historicismo, a sua
antropologia, são antiideológicos e assim anti-sensivos, na me­
dida em que do sentido, da imediaticidade, faça-se não o

14. A. Gramsci, “Democracia e fascismo”, in LOrdine Nuovo. Ras-


segna di política e di cultura operaia, 1924, n.° 6, p. 40. Agora em
A. Gramsci, Per la verità, org. R. Martinelli, Roma, 1974, p. 295.
15. A. Gramsci, Quaderni dei cárcere, cii., p. 2006.
16. Idem, p. 1864.
20 Nicola Badaloni

necessário ponto de partida da aprendizagem, mas uma cer­


teza, ao menos para a maior parte dos homens, ou, em outras
palavras, na medida em que se teoriza para as massas o
sensitismo e para as elites o uso da razão e, com isto, a dire­
ção e 0 domínio político. Por isso é dura a polêmica de
Gramsci contra Gaetano Mosca, autor daqueles Elementos de
ciência política e daquela Teoria do governo parlamentar, que,
juntamente com o livro de Pasquale Turiello, Governo e go­
vernados, representam o sonho de um retorno aos governos
da “direita histórica”, da “camarilha”, não sem influência
das teorias alemãs estatalistas e autoritárias. O limite central
destas elaborações está em substituir a adesão orgânica das
massas populares ao Estado por uma ditadura de “intelec­
tuais e de. . . grupos urbanos” vinculados “à propriedade ter­
ritorial” ou seja, um bloco agrário-industrial do qual os
intelectuais representem o elo de ligação. Como se sabe, na
estratégia de Gramsci a colocação dos intelectuais deve ser
radicalmente diversa, como diverso é o bloco histórico ao
qual ele procura dar forma, coordenando intelectuais e traba­
lhadores produtivos da cidade e do campo e atribuindo a este
bloco não só tarefas subalternas ligadas à imediaticidade vo-
luntarista, mas também tarefas éticas e políticas, capazes por­
tanto de sustentar confrontos e de travar batalhas longas e
difíceis sem dispersão, e desenvolvendo, do magma inicial,
estratégias racionais. Não deve ser considerada como estranha
a este contexto a nota em que, concluindo um capítulo dos
Quaderni que se refere à psicanálise, Gramsci, incluindo na
sua crítica o jacobinismo exterior de autores como Crispi,
Sonnino e Mussolini, mas também, de um certo modo, o jaco­
binismo em sua forma clássica e moderna (o bolchevismo),
escreve: “Põe-se o problema de saber se é possível criar um
‘conformismo’, um homem-coletivo, sem desencadear uma
certa medida de fanatismo, sem criar ‘tabus’, em suma, criti­
camente, como consciência de necessidade livremente aceita,
porque ‘praticamente’ reconhecida como tal, através de um
cálculo de meios e fins a serem adequados” Para realizar

17. Idem, p. 1980.


18. Idem. p. 1834.
Gramsci, para além de sua época e de seu país 21

este fim, o bloco não deve ser mecânico, e sim aberto a


novas formações que superem a fase inicial mas necessária
do “espírito de cisão” sem por isso desagregar-se e perder
a própria autonomia.
Mencionei acima o tema da “constituinte”, que repre­
sentou nas relações de Gramsci com o partido o núcleo pro­
blemático que lhe permitiu dirigir-se à política das frentes
populares. Em outro lugar, Gramsci distingue regime parla­
mentar e regime constitucional. Com o segundo entende o
retorno ao Estatuto albertino, sonhado pelos nacionalistas
conservadores; com o primeiro, as “ inovações ‘de fato’ intro­
duzidas no regime constitucional para conduzi-lo a uma for­
ma parlamentar” 2®. O retorno ao regime constitucional, as
acusações ao regime parlamentar, foram, durante a Primeira
Guerra Mundial, os motivos fundamentais da direita naciona­
lista, que mais tarde conflui para 0 fascismo. Tais acusações
escondiam, diz Gramsci, “o pânico diante de uma interven­
ção, pequena que seja, das massas na vida do Estado”
Na célebre passagem sobre o “parlamentarismo negro”, dis­
tinguindo “o fato real do fato legal”, Gramsci define o siste­
ma parlamentar como “um sistema de forças de equilíbrio
instável que”, no parlamento, “encontram 0 terreno ‘legal’,
do seu equilíbrio ‘mais econômico’ ”, enquanto “ a abolição
deste terreno legal ‘ocorre’ para que ele se torne fonte de
organização e de ativação de forças sociais latentes e ador­
mecidas”. A sua abolição de tipo fascista “é sintoma (ou
previsão) de uma intensificação das lutas, e não vice-versa.
Quando uma luta pode ser travada legalmente, por certo não
é perigosa; torna-se perigosa precisamente quando 0 equilí­
brio legal é reconhecido como impossível” — “o que não
significa que, abolindo-se o barômetro, se possa também
abolir o mau tempo”

19. Idem, p. 2288.


20. ídem, p. 1976.
21. Idem, p. 1977.
22. Idem, p. 1744.
Nicola Badaloni

Se associamos a estratégia da “guerra de posição” a esta


teoria do regime parlamentar como possível lugar de ativa­
ção de forças latentes e, portanto, a esta conceitualização do
regime parlamentar como expressão de forças em equilíbrio,
obteremos um conceito de democracia diferente daquele de
1924, com a explicitação da validade quase histórica, ou, ao
menos, de longa duração, que Gramsci atribui à democracia.
Seja como for, estamos no pólo oposto da cultura
irracionalista, antiparlamentar, elitista e sindicalista-revolucio-
nária (subalterna ao livre-cambismo) que Gramsci combate.
A utilidade do barômetro pode ser percebida nas considera­
ções que ele faz a respeito da crise russa, da crise endêmica
do parlamentarismo francês e provavelmente nas conside­
rações sobre as “cristalizações resistentes” na América Lati­
na. Retomando o tema da dupla face do domínio burguês,
Gramsci (alterando seu juízo anterior) escreve: “Pode-se dizer
em geral que nestas regiões americanas ainda existe uma si­
tuação de Kulturkampf e de processo Dreyfus, isto é, uma
situação na qual o elemento laico e burguês ainda não alcan­
çou a fase da subordinação dos interesses e da influência
clerical e militarista” à política laica do Estado moderno.
Tal observação, datada de novembro de 1930, provavel­
mente não seria mais atual. Ela não pode, obviamente, dar
conta das novidades ocorridas em alguns grandes e pequenos
países da América Latina. A observação de Gramsci, porém,
modifica seu pensamento sobre as características da situação
italiana, expressas na teorização sobre a dupla via do poder
burguês. A tomada de posição em favor da democracia é,
nos Quaderni, mais argumentada e conceitualmente separada
ilu hegemonia burguesa. É significativo que Enrico Berlin-
iiMi-r. na Reflexão sobre a Itália após os fatos do Chile
iiprofundando o discurso sobre o nexo democracia-socialismo,
lenha extraído da trágica história de Salvador Allende, dos
MUinlisiHs, dos comunistas e dos democrata-cristãos chilenos.

h lr n i. p. 1641.
lih '1 1 1 , p. 1.S29.
■' I II» I liiiKiici. Riflessione suWltalia dopo i fatti dei Cite. Agora
III 1, 1 , i n i Ihiltdiiíi Scritti su "Rinascita”, Roma, 1985, p. 45.

I
Gramsci, para além de sua época e de seu país 23

conseqüências, ao menos em parte, diversas com respeito à


colocação das forças católicas e aos perigos que podem deri­
var de uma insuficiente atenção para com a relação entre
regime democrático e massas. A inspiração da análise de Ber-
linguer, desenvolvendo a pesquisa gramsciana, está dirigida
para reforçar os nexos de natureza política e ideal que podem
nascer entre socialismo e democracia quando o consenso per­
mitir uma real expansão desta última. Resta no entanto válida
a constatação de que isso apenas pode ocorrer quando a so­
ciedade de massa tenha sabido criar, em seu interior, uma
consciência, uma unidade de intenções (fundada porém na
variedade das aproximações) que corresponda à expansão
de novas formas de vida, à capacidade de orientar para um
fim unitário grupos sociais que perceberam a crise do utilita-
rismo individualista e para os quais o vínculo entre transfor­
mação econômica, reforma intelectual e moral e expansão da
sociedade civil permita dar um novo sentido à própria socie­
dade política.
A leitura das comunicações de Aricó e Coutinho, bem
como a das outras contribuições ao seminário de Ferrara,
facilitará sobremaneira a compreensão da atual situação na
América Latina. Tal leitura deverá, porém, ser acompanhada
de uma particular consideração das modificações que afetam
aquelas sociedades e que dizem respeito tanto aos países que
escolheram a “democracia social” quanto aos que, como a
Nicarágua, estão impedidos, por fatores externos, de fazer
tal escolha. Também não poderá estar ausente uma atenta
avaliação das novas posições recentemente assumidas pelo
governo de Cuba, como sublinhou Gian Cario Paietta em sua
documentada intervenção no seminário. Estas minhas anota­
ções desejam apenas recordar que a escolha da via democrá­
tica implica um grande trabalho de formação de novas sub-
jetividades, que não nascem do nada mas sim daquele contato
com a realidade que pode transformar a necessidade em liber­
dade, desde que não se perca o fio vermelho da consciência
que agrega homens e mulheres, não multidões e figuras anôni­
mas. Gramsci não deseja um falso igualitarismo, mas luta
para que a democracia não seja mais despedaçada pela cor­
rupção, pela exploração e pela opressão. Em seu diálogo con-
24 Nicola Bãdaloni

sigo próprio e com os outros, chegou à conclusão de que a


via democrática é a justa, mas que são enormes as dificulda­
des a serem superadas e que o desenvolvimento histórico, no
âmbito da forma democrática de vida, exige uma disponibili­
dade de energias morais e intelectuais, para que a “filosofia
da práxis” não se reduza a pragmatismo utilitarista, e a diver­
sidade dos pontos de vista e das concepções do mundo saiba
fazer emergir nas forças populares os pontos comuns, neces­
sários para produzir um salto na civilização humana. O semi­
nário de Ferrara recordou-nos tudo isso e nos lembrou o
quanto é fecundo e construtivo o “diálogo” com Gramsci.
Geografia de Gramsd
na América Latina

José Aricó

I
Não creio poder oferecer aqui uma síntese exaustiva —
provisória, mas dotada de elementos suficientes para definir
com precisão o fenômeno — do que poderiamos aproximati-
vamente definir como a “geografia” de Gramsci na América
Latina. Por diferentes motivos, mas todos plausíveis. Tenta­
rei arrolar alguns, não para exigir de vocês uma espécie de
cumplicidade que me permita contornar o problema, mas
porque a identificação desses motivos constitui em certa me­
dida um reconhecimento das dificuldades implícitas no objeto
de nossa análise. Com efeito, creio que seja precisamente esse
o objetivo do seminário que nos reúne neste momento; e,
nesse sentido, o tema de minha intervenção deveria ser, na
verdade, mais um ponto de chegada do que uma introdução.
Vamos considerá-la, portanto, como uma primeira abordagem
e uma investigação das profundas implicações políticas, além
de teóricas.
Estou convencido de que a dificuldade inicial se liga à
amplitude do próprio fenômeno. O conhecimento da obra de
26 José Aricó

Gramsci na América Latina ocorreu muito cedo, e sua tradu­


ção e difusão em espanhol assumiram tais dimensões que
dificilmente encontram paralelo em outras áreas lingüísticas.
Basta consultar o elenco bibliográfico elaborado por Elsa Fu-
bini por ocasião do simpósio de Cagliari (1967) para consta­
tar que foi precisamente na América Latina que os Cadernos
do cárcere foram traduzidos pela primeira vez não só em
espanhol, mas — alguns anos mais tarde — também em por­
tuguês. É provável que, mais tarde, a situação se tenha alte­
rado, mas, se não estou enganado, apenas duas editoras —
uma das quais é a Era, do México — promoveram a publica­
ção da edição crítica dos Cadernos. E não creio ser injusto
se privilegio o significado político-cultural do projeto mexi­
cano em comparação com o francês, já que o primeiro é parte
integrante do fenômeno que analiso, ao passo que o segundo
é provavelmente o resultado do acordo — infelizmente, não
muito freqüente — entre um estudioso como Robert Paris,
que se empenha em trabalhar contra a corrente, e um editor
acostumado às iniciativas corajosas, como é o caso de Gal-
limard. Permitam-me mencionar, de modo inteiramente inci-
dental, a desilusão com que Robert Paris comentava a escassa
repercussão dos primeiros volumes publicados no ambiente
cultural francês.
Se estivéssemos aqui em condições de apresentar um tra­
balho bibliográfico para a América Latina análogo ao reali­
zado por Elsa Fubini, seria pelo menos surpreendente a cons­
tatação do fato de que, na América Latina, pelo menos algum
texto de nosso autor foi publicado praticamente em todos os
lugares. E em três países — Argentina, México e Brasil —
suas edições são numerosas, repetidas e de grande difusão.
Gramsci é hoje parte da cultura latino-americana a tal ponto
que suas categorias de análise atravessam o discurso teórico
das ciências sociais, dos historiadores, dos críticos e dos inte­
lectuais em geral, e estão (via de regra de modo abusivo)
presentes na linguagem cotidiana das forças políticas de
esquerda ou democráticas. Quem poderia refletir sobre os
grandes ou pequenos problemas de nossos países sem se utili­
zar de termos como hegemonia, bloco histórico, intelectuais
■■rKÍmicDN. crise orgânica, revolução passiva, guerra de posi-

ij
Geografia de Gramsci na América Latina 27

ção e de movimento, sociedade civil e política, Estado amplia­


do, transformismo, etc.? Com isso, não pretendo avalizar a
idéia banal de que o pensamento de Gramsci foi assumido
plenamente e de modo crítico. Busco simplesmente esboçar
o alcance de um fenômeno cultural que vai muito além do
campo restrito dos setores acadêmicos e faz parte das lingua­
gens da política. Torna-se assim clara a razão pela qual é
difícil traçar um quadro satisfatório sem dispor de trabalhos
preliminares, que recolham e organizem as informações rela­
tivas ao nosso tema.
Uma segunda dificuldade nasce da origem política, mais
que acadêmica, dessa difusão. Não creio que minhas recorda­
ções me traiam se digo que, entre nós, a primeira tentativa
orgânica de inserção do pensamento de Gramsci na cultura
política da esquerda ocorreu no interior do Partido Comunista
Argentino. Ela fez parte de uma proposta, jamais explicita­
mente declarada, de atualização ideológica e cultural, que
teve em Héctor P. Agosti seu mais inteligente e consciente pro­
motor. Pensador e ensaísta de destaque, importante membro
do grupo dirigente do Partido Comunista, Agosti foi — nos
anos 50 — o centro de gravidade de um movimento intelec­
tual tendencialmente gramsciano. A história da formação e do
desenvolvimento desse movimento, de suas relações confliti-
vas com direções políticas que impediam a circulação de
idéias, de sua marginalização da esfera de decisões até mesmo
em seu próprio ambiente de trabalho, de seu choque e de sua
ruptura com o comunismo dos anos 60, de sua divisão e
posterior marginalização, tudo isso encerra a essência do pro­
cesso de introdução de Gramsci na Argentina. É provável
que algo análogo tenha ocorrido no Brasil no final dos anos
60, quando se iniciou a tradução de alguns volumes dos
Cadernos.
Gramsci interveio no debate e na crise dos comunistas
como uma figura mais evocada do que conhecida. Distante da
ortodoxia marxista-leninista, ele foi a bandeira da renovação
ideológica e política. E, como tal, foi parte integrante das
mais singulares combinações, desde Che Guevara até Mao
Tsé-Tung. Salvo para os chamados “gramscianos argentinos”
2H José Aricõ

e poucos outros intelectuais, Gramsci era, na América Latina


dos anos 60, preponderantemente isto: uma figura moral, um
homem de convicções tão profundas que as defendeu com
sacrifício da vida, um iconoclasta que despertava a suspeita
e mesmo a recusa do comunismo oficial. Foi necessário o
profundo abalo político e cultural dos anos 60 para que a re­
flexão sobre a derrota nos projetasse violentamente para a
órbita do seu pensamento. Foram psses os anos nos quais,
com “heróico furor”, os intelectuais latino-americanos se de­
dicaram ao estudo de sua obra, difundindo-a a partir das
Universidades e dos centros de ensino, e buscando apropriar-
se criticamente dela a fim de utilizar o seu pensamento na
análise de nossa realidade. Mas os anos 60 foram também
os anos em que Gramsci passou a fazer parte das elaborações
dos partidos políticos da esquerda. A publicação de seus escri­
tos e de um bom número de estudos dedicados à análise de
suas concepções teóricas adquiriu uma tal relevância que
obriga a reconhecer a evidência de seus efeitos na cultura
política, latino-americana.
E agora entro no mérito de uma terceira dificuldade,
que se refere não só ao pensamento de Gramsci, mas, de
modo mais geral, à eterna discussão que nós, latino-america­
nos, travamos sobre o efeito da dependência de outros países
no que se refere à produção das idéias. Com efeito, se pres­
supomos a existência de elementos autóctones, que nos dis­
tinguem da Europa, se consideramos que a própria idéia
transferida dos centros de produção da teoria para a nossa
periferia se transforma inevitavelmente em outra coisa, qual
é então “o nosso Gramsci”? Que decomposições e recompo­
sições efetuamos sobre o corpo teórico gramsciano a fim de
iluminar nossa realidade, de dar conta na teoria do que se
produz na prática?
Confesso que encontro tantas dificuldades quando busco
definir o que foi ou o que é o marxismo na América Latina
que não sou capaz de dar uma resposta a essas indagações.
Gostaria apenas de propor e sugerir aqui uma advertência
que talvez resulte óbvia para todos os que estão reunidos
neste seminário: uma advertência que os latino-americanos
Geografia de Gramsci na América Latina 29

por vezes esquecem e os europeus nem sempre recordam.


Quero dizer que, quando falamos da América Latina, refe-
rimo-nos a uma realidade pré-constituída que efetivamente
não o é, que representa antes um problema, uma construção
incompleta, ou — como disse Mariátegui, referindo-se à
nação peruana — um projeto a realizar. E que, como tal,
inclui e torna uniformes diversidades profundas e experiên­
cias diferentes, heterogeneidades estruturais e econômicas
imensas, pluralidades étnicas e poderes regionais que enfra­
quecem um Estado nacional incapaz de se afirmar como tal.
Enquanto projeto incompleto, ele está sempre na linha de
nosso horizonte e nos incita a indagar sobre o nosso destino,
sobre o que somos ou queremos ser.
Portanto, se quisermos definir uma geografia de Gramsci
na América Latina, teremos de partir dessas diversidades e
refazer a pluralidade de caminhos e perspectivas que deram
lugar à formação de núcleos de elaboração teórica e política
diversos, no interior dos quais as idéias de Gramsci foram
assumidas e se contaminaram com posições e perspectivas di­
ferentes, produzindo os mais singulares efeitos. Desse ponto
de vista, é impossível falar em “gramscismo” na América La­
tina, embora seja fácil encontrar suas idéias na linha política
de agrupamentos de esquerda, de movimentos católicos de
base, nas análises dos teóricos do Estado e da ciência políti­
ca, no debate atual sobre a democracia. Portanto, se nos
encontramos diante de um fenômeno de ordem não teórica,
mas também fundamentalmente política, a definição de nossa
“geografia” pressupõe uma inversão dos termos, que atribua
a qualidade de verdadeiro tema de investigação àqueles mo­
vimentos cujas demandas de algum modo encontram nas idéias
de Gramsci o que lhes permite elevar-se à teoria e confron­
tar-se com a realidade histórica. Em outras palavras: supõe
uma reconstrução capaz de mostrar os vínculos evidentes
entre os processos reais e o esforço de elaboração da teoria.
Mas deslocar a indagação sobre a difusão de Gramsci
para o plano de uma investigação mais aprofundada das de­
mandas de realidade que caracterizam os movimentos sociais
e culturais, no momento em que esses se voltam para a obra
Mt José Aricó

de nosso autor, implica uma tal ampliação dos limites de


nossa pesquisa que só um corte “nacional” pode torná-la pos­
sível. Nesse ponto, porém, incorre-se numa nova dificuldade
que, precisamente por ser de natureza pessoal, aparece como
a de mais difícil solução. E digo “pessoal”, e não “de grupo”,
para não envolver os amigos aqui presentes, e aqueles que
infelizmente não o estão, junto aos quais nos reunimos em
torno de um nome recolhido de Gramsci, Pasado y Presente,
no interior do qual cada um de nós, contudo, foi gramsciano
a seu modo.
A que me refiro quando falo de razões pessoais? Ao sim­
ples fato, talvez simplesmente anedótico para vocês, de que
desde jovem li e traduzi Gramsci, contribuí para publicar
uma revista e trabalhei numa editora que difundiu suas
obras, escrevi na qualidade de diretor da Biblioteca dei
pensamiento socialista estudos críticos sobre Gramsci, minis­
trei cursos e conferências, e me sinto tão vinculado à sua
figura que me resulta difícil — se não mesmo impossível —
estabelecer aquela espécie de distanciamento crítico, que
Gramsci considerava necessário em face de Marx, capaz de
me permitir, no final das contas, resistir “ao fascínio do siste­
ma ou do autor estudado”. O que para Gramsci era, em
certo sentido, um pecado de juventude talvez seja para mim,
a essa altura da vida, apenas um castigo dos anos. Mas me
permitam citar, como desculpa, as sábias palavras de um
amigo boliviano, também ele freqüentador de Gramsci e cuja
morte recente ainda nos entristece — refiro-me a René Za-
valeta Mercado — , que nos recordava que “a adolescência
chega tarde na América Latina”. Desculpas à parte, creio
que uma citação de Gramsci nos permite compreender o fato
paradoxal de que as mesmas razões que, no início, tornaram
mais difícil a leitura de seus textos tornaram-se hoje um
ulterior incitamento ao estudo dos mesmos. Nas “ Questões
de método” (incluídas no volume A concepção dialética da
história), diz Gramsci: “ Essa série de observações é tanto
mais válida quanto mais determinado pensador é impetuoso,
de caráter polêmico, carente de espírito de sistema; tanto
mais válida quando se trata de uma personalidade na qual
a atividade teórica e a atividade prática estão indissolúvel-
Geografia de Gramsci na América Latina n

mente intrincadas, de um intelecto em contínua criação e per­


pétuo movimento, que sente a autocrítica vigorosamente, do
modo mais impiedoso e conseqüente”. Ora, a quem essa obser­
vação se adapta, se não ao próprio Gramsci? Mas, ao ler essas
linhas, nós, latino-americanos, não pensamos, de fato, na
figura de Mariátegui? É o mesmo estilo que une a reflexão
ideológica e política a uma profunda intensidade afetiva,
aquele estilo próprio de um homem que, através de seus
escritos — independentemente da complexidade de suas re­
flexões —, leva-nos a saber que quem escreve não é um
literato, mas um político no sentido mais verdadeiro da pala­
vra. E, se se disse do estilo de Mariátegui que ele estava diri­
gido a um público predominantemente latino-americano, por
que não pensar que foi também o estilo próprio de Gramsci
que lhe permitiu uma tão ampla difusão? O que não deixa
de nos surpreender em ambos é o caráter incompleto, aberto
e problemático de seus escritos; aquela capacidade de conter
uma pluralidade de significados, que nos obriga a participar
de uma leitura que é, ao mesmo tempo, uma construção
nossa; aquele “seria preciso pensar” que revela o caráter
provisório do discurso diante da complexidade do real. Por
esse motivo, creio que seria necessária a dissolução de deter­
minadas certezas, a fim de que as virtudes de um modo de
abordar as coisas se impusessem como uma lição de método.

II
Numa primeira tentativa de definição do problema,
poderiamos traçar as coordenadas da difusão de Gramsci
na América Latina indicando duas datas-limite de um pe­
ríodo que vai da publicação das Cartas do cárcere, em Buenos
Aires (Ediciones Lautaro, 1950), até o seminário ocorrido em
Morelia, sobre “ Hegemonia e alternativas políticas na Amé­
rica Latina” (México, 1980). Alguns anos antes, em setembro
de 1978, a Universidade Nacional Autônoma do México orga­
nizara um seminário dedicado a “Gramsci e a política”, com
a participação de Christine Buci-Glucksmann, Maria-Antoniet-
ta Macciocchi, Giuseppe Vacca e Juan Carlos Portantiero.
Ambas as datas são emblemáticas, porque explicam o itinerá-
i2 José Aricó

rio do pensamento de Gramsci. Reivindicado como próprio


pelos comunistas argentinos, ele se torna, trinta anos depois,
o ponto de referência inevitável de estudiosos de ciências so­
ciais e de dirigentes políticos da esquerda, “com a finalidade
de experimentar um modo de trabalhar sobre a teoria que
contribua para superar a lacuna aberta entre análise da reali­
dade e propostas teóricas e políticas de transformação”.
Qual foi o Gramsci dos comunistas argentinos? Ao colo­
car essa questão, não posso deixar de reconhecer que cometo
— por assim dizer — um excesso de linguagem, pelo simples
motivo de que jamais existiu um tal Gramsci em sentido estri­
to. A exaltação de sua figura ocorreu como contrapartida do
silêncio sobre sua obra. Enquanto comunista, era considerado
um marxista-leninista como tantos outros, e o caráter peculiar
de sua análise, ou seja, o modo pelo qual Gramsci assimilou
e discutiu o pensamento de Marx e o de Lenin, jamais foi
motivo de reflexão no interior de uma organização enquadra­
da num rígido doutrinarismo. Tão logo se tentou realizar uma
revisão da ortodoxia, os protagonistas foram afastados do Par­
tido. Eu diria, portanto, que o esforço inicial para tornar
Gramsci conhecido se traduziu numa experiência alheia a
uma tradição ideológica fortemente consolidada, e que envol­
veu um restrito grupo de intelectuais comunistas. De qual­
quer modo, resta o fato de que uma experiência desse gênero
não teria sido possível sem o estímulo de uma personalidade
como a de Agosti. Foi ele quem propôs a edição dos Cader­
nos do cárcere, publicados pela Lautaro entre 1958 e 1962,
e quem encomendou a tradução e cuidou da edição dos mes­
mos. Ele foi, portanto, nosso mentor, e, nesse sentido, nós o
respeitávamos. Agosti nos fez descobrir Gramsci graças a um
memorável ensaio sobre Echeverría, no qual, pela primeira
vez, um escritor latino-americano utilizava as categorias ana­
líticas de Gramsci para analisar um momento de nossa histó­
ria nacional. Os limites daquela corrente democrática que, na
Argentina pós-revolucionária, tentou construir o Estado na­
cional — que Agosti, na linha de Gramsci, define como
"jacobinismo pela metade” — são analisados com base nas
chaves interpretativas de // Risorgimento, as quais, com efei-
Geografia de Gramsci na América Latina 33

to, marcam o significado geral da obra. Até que ponto essa


inserção de Gramsci pertencia exclusivamente a Agosti é
algo demonstrado pelo fato de que — entre os muitos livros
dedicados ao centenário da morte de Esteban Echeverría —
esse foi o único a utilizar tais fontes.
Com seu trabalho na direção de Cuadernos de Cultura
— a publicação cultural dos comunistas — e do semanário
Nuestra palabra, Agosti abriu um amplo caminho para a di­
fusão da cultura marxista italiana, através do qual passaram
não tanto a obra de Gramsci quanto os problemas e o^ temas
que ela levantava. Consultando o índice geral dos primeiros
38 números de Cuadernos de Cultura, notei com espanto que,
no período que vai de 1950 a 1958, foi publicada de Gramsci
somente uma breve resenha teatral dedicada a Pirandello.
E isso apesar do fato de já em 1950 ter sido publicado o
artigo de Emilio Sereni, intitulado “ Liberdade ou espontanei­
dade na cultura”, que recordo pelas amplas referências ao
nosso autor. Mas, em meio a tanto material impresso, desta­
cam-se dois longos ensaios que, naqueles anos, despertaram
nossas consciências. Fabrizio Onofri nos falava, em seu “Exa­
me de consciência de um comunista”, da difícil iniciação de
um intelectual que, nos anos do fascismo, tentasse se ligar ao
povo. Para Onofri, o encontro se realizara graças ao seu
ingresso no Partido Comunista. Nós, ao contrário, já estáva­
mos no Partido e não podíamos imaginar como iríamos mais
tarde desencadear aquela série de contradições que nos tor­
nariam seus antagonistas. Eram, aqueles, os duros anos do
primeiro governo peronista, que nós não podíamos deixar
de identificar com a atmosfera própria do fascismo de que
falava Onofri.
O outro ensaio foi “O antifascismo de Antonio Grams­
ci”, de Palmiro Togliatti, que não só nos permitia dispor de
uma reconstrução mais minuciosa do pensamento e da ação
de Gramsci antes de sua detenção, mas que nos apresentava
também problemas similares aos nossos. Se o fascismo não
era apenas, como Croce o definia, “uma doença intelectual
e moral ( . . . ) , de sentimentos, de imaginação e de vontade
genericamente humanas ( . . . ) , um movimento audacioso pri-
34 José Aricó

vado de qualquer fé, de qualquer sistema positivo de idéias”,


mas era um novo sistema de organização das forças políticas
e sociais em torno de um Estado de tipo novo, será que o
peronismo não seria algo análogo? Se Gramsci buscava nas
complexas estruturas do passado as premissas e condições do
presente fascista, não deveriamos fazer a mesma coisa para
compreender as razões da afirmação do peronismo? Se, da
análise da história da Itália, da crítica do Risorgimento e do
Estado que dele surgira, emergia com clareza a responsabili­
dade das classes dirigentes tradicionais, será que nós, comu­
nistas, podíamos continuar a ser prisioneiros de uma lógica
política que nos situava objetivamente ao lado daquelas
forças conservadoras que se opunham a uma transformação
radical daquela ordem econômico-social que havia constituí­
do, no fundo, a premissa e a condição para a vitória do
peronismo?
Creio que essas interrogações circulavam na sociedade
argentina quando o peronismo apresentava os primeiros
sinais de recuo e sua crise se delineava no horizonte. Então,
houve grupos de intelectuais que souberam formular tais
interrogações com lucidez e tentaram resolvê-las. Nesse sen­
tido, a cisão do Partido Radical que se coagulou naquele
setor conhecido como “frondizismo” pode ser interpretada
como a mais brilhante operação realizada por um setor das
classes dirigentes para encontrar uma saída politicamente
eficiente para a perversa antinomia peronismo versus anti-
peronismo. Hoje, trinta anos depois, à guisa de reflexão em
voz alta, poderia dizer que algo semelhante ocorria entre os
jovens intelectuais que cercavam Agosti, considerando-o
como uma figura de renovação do comunismo argentino.
Fomos capazes de ler Togliatti daquele modo precisamente,
porque havia sido a própria sociedade a suscitar tais pro­
blemáticas. O quadro da situação era de tal ordem que,
enquanto os intelectuais democráticos da revista Contorno
referiam-se a Sartre para fundamentar o seu reexame da
cultura argentina, deslocando-se depois para a esquerda, nós
nos alimentávamos de Gramsci e da cultura de esquerda italia­
na para pôr em discussão uma tradição comunista alinhada
Geografia de Gramsci na América Latina 35

de modo singular à cultura liberal. Se algum de vocês tiver


oportunidade de passar a vista na Historia dei Partido Co­
munista de la Argentina (1947), poderá notar com espanto
a mistura indiscriminada dos retratos de Marx, Engels, Lenin
e Stalin com os dos pais fundadores da nação argentina.
A necessidade de privilegiar a autonomia cultural e
política do Partido Comunista, nascida como uma exigência
ditada pela previsível dissolução do peronismo, pressupunha
como conseqüência lógica a negação da continuidade que o
liberalismo havia estabelecido entre o nascimento da nação
e a derrota da tirania de Rosas, através da chamada “tradição
de Mayo” ou “linha Mayo-Ceseros”. E não é de surpreender
que tenha sido Francesco De Sanctis, lido através de Gramsci
e de Togliatti, quem inspirou tanto Agosti quanto Portantiero
a fazerem uma clara distinção, no interior da tradição nacio­
nal argentina, entre uma escola liberal e uma escola demo­
crática, entendidas como “coisas diversas, não iguais e nem
mesmo análogas”. Para a formação de uma cultura socialista
argentina, era necessário reavaliar a segunda e não a primeira.
Em El mito liberal (1959) — que, juntamente com Nación y
cultura (1959), constitui o cume do seu processo de revisão
do pensamento liberal —, Agosti cita a definição de De Sanc­
tis, que exalta a posição democrática em oposição à liberal:
“Onde há desigualdade, a liberdade pode ser escrita nas leis,
na Constituição, mas não é uma coisa real, porque existem as
classes: não é livre o camponês que depende do proprietário,
não é livre o assalariado submetido ao patrão, não é livre
o servo da gleba submetido ao incessante trabalho no campo”.
Desse modo, com essas duas obras, Agosti se punha nos
antípodas da perspectiva clássica, e só podia encontrar eco
entre os que — como nós — o cercavam, ou entre alguns
intelectuais da chamada “esquerda nacional”. Entre esses
últimos, Hernández Arregui explicava o desdobramento de
um obra única em dois volumes publicados separadamente
como um rodeo. “A mudança foi tão repentina que teve de
publicar os dois trabalhos a pouca distância um do outro,
a fim de preparar um público pouco inclinado àquele tipo
de mudança que desconcerta a mentalidade mumificada em
36 José Aricó

esquemas liberais própria dos grupos da esquerda.” Essa


explicação era absurda, mas revela o efeito de surpresa que
tinha sido produzido. O próprio Hernández Arregui encon­
trava elementos valiosos nos livros de Agosti, como, por
exemplo, a afirmação de que “a crise da cultura argentina é
uma crise do liberalismo argentino em sentido estrito”, embora
manifestasse o seu mal-estar com o fato de que, utilizando
categorias e termos “nascidos no país e em meio à luta na­
cional”, Agosti apelasse para “um autor estrangeiro como
Antonio Gramsci”. Essa última afirmação evidencia a escassa
difusão do pensamento gramsciano durante aqueles anos.
A proposta de mudança da linha comunista cultural tra­
dicional logo encontrou obstáculos intransponíveis tanto fora
quanto dentro do Partido. Na medida em que essa proposta
não era capaz de tornar evidentes as suas conseqüências na
política concreta dos comunistas, a não ser que redefinisse
a matriz teórica em que se apoiava, estava condenada a per­
manecer como uma simples construção ideológica e a não
se tornar uma linha de trabalho político-cultural. Gostaria
de recordar um episódio que revela os fortes condicionamen­
tos que o debate teórico sofria entre os comunistas argentinos.
Em 1962, 0 artigo de Oscar dei Barco intitulado “Notas
sobre Antonio Gramsci y el problema de la objetividad”,
enviado a Cuadernos de cultura, desencadeou uma viva
discussão no interior da Comissão Cultural do Partido. Essa
Comissão, finalmente, autorizou a publicação do artigo, mas
encarregando dois dos seus membros de redigirem uma res­
posta que estabelecesse a “posição da Comissão” e, portanto,
do Partido sobre o assunto. O tema em questão era, obvia­
mente, o conceito gramsciano de objetividade e sua relação
com as Teses sobre Feuerbach, de Marx. Ao relermos hoje
aquela polêmica, damo-nos conta das abissais diferenças exis­
tentes entre o marxismo de Gramsci e as idéias predominan­
tes num organismo que trabalhava em ligação com a direção
do Partido Comunista.
O esforço de democratização de certas esferas de ativida­
de — e, em primeiro lugar, da cultura — foi a tal ponto o
resultado da iniciativa de um núcleo restrito do grupo diri­
Geografia de Gramsci na América Latina 37

gente que ele se dissolveu tão logo se encontrou diante dos


complexos mecanismos ideológicos e políticos que dividiram
o movimento comunista. A hipótese de um processo de desa­
gregação do peronismo, que teria permitido resolver o pro­
blema histórico da conquista das massas, revelou-se uma qui­
mera. E o mesmo se deu com a posterior esperança em uma
“virada à esquerda” do peronismo. Se se chegou a pensar no
nascimento de um “partido único” dos trabalhadores, era
óbvio que, no plano cultural, tinha-se de acertar contas com
uma tradição que a esquerda peronista condenava como libe­
ral. A queda dessas ilusões, que tinham ainda algum traço de
verossimilhança em 1956, mas que já não tinham nenhum em
1962, verificava-se no momento do colapso da uniformidade
ideológica do mundo comunista (conflito sino-soviético, auto­
nomia do Partido Comunista Italiano, etc.) e da difusão do
castrismo e da estratégia guerrilheira na América Latina.
Diante da alternativa de uma renovação ideológica e política
de resultados incertos (já que dele se viam apenas os riscos
de um processo de divisão incontrolável), a direção do Par­
tido Comunista adotou a estratégia da defesa radical das
posições mais ortodoxas. A suspeita de heresia que circundara
Gramsci a partir daquele momento iria estender-se depois a
outras figuras do comunismo italiano e, em particular, ao
próprio Togliatti. É significativo o fato de que o famoso
Memorial de lalta tenha sido divulgado simultaneamente, na
Argentina, por duas revistas da esquerda não comunista
(Pasado y presente e Quê hacer?).
Quando, em 1963, o grupo de intelectuais de Córdoba
que deu vida à experiência de Pasado y presente foi expulso
do Partido, juntamente com a maioria da célula universitária
(ao que se seguiu uma medida análoga contra o grupo cons­
tituído em Buenos Aires), a débil e controvertida presença
de Gramsci entre os comunistas desapareceu inteiramente.
A partir de então, ele não mais seria mencionado. E, embora
seja legítimo considerar que Agosti jamais renegou sua dívida
intelectual para com o pensador e revolucionário italiano, o
fato é que ele deixou de manifestar seu anterior interesse
entusiástico.
38 José Aricó

III
Quando, em abril de 1963, Pasado y presente iniciou
suas próprias publicações como revista trimestral, propôs-se a
ser um centro de debate ideológico e cultural e um ponto de
convergência para intelectuais comunistas e para todos os
que provinham de outros setores da esquerda argentina.
A publicação, cuja primeira série se encerrou em setembro
de 1965, buscava iniciar uma recuperação da capacidade
hegemônica da teoria marxista, submetendo-a ao crivo das
condições do presente. Nesse sentido, refutavamos o “mar-
xismo-leninismo”. Recordo que, no editorial do primeiro
número, afirmávamos com ênfase nossa convicção, a qual,
tantos anos depois, resume a verdadeira marca diferenciadora
de nossa experiência: “A autonomia e originalidade absoluta
do marxismo se expressam também na sua capacidade de
entender as exigências que derivam de diferentes concepções
do mundo. Não é escudando-se em posições pré-constituídas
que se pçocede na busca da verdade, mas sim a partir do
critério dialético de que as posições adversárias — se são
algo mais do que construções vazias — derivam da realida­
de, são parte desta e devem ser reconsideradas por uma
teoria que dê conta da totalidade das mesmas”, ou seja, por
uma teoria capaz de extrair delas “tudo o que [possam conter]
de verdade e de conhecimento”. E citávamos Antonio Banfi
para recordar que “o marxismo triunfa usando as armas do
adversário e se enriquecendo com os seus tesouros, não como
butim de guerra, mas como o prêmio de uma vitória
reconhecida”.
Essa convicção, que foi nossa hipótese de trabalho, era
extraída das raízes do marxismo e da influência de outros
filões da cultura européia aos quais tínhamos acesso, por
razões inteiramente ocasionais, devidas às histórias pessoais
dos vários membros do grupo.
Fomos assim capazes de analisar, a partir do marxismo,
correntes como o existencialismo sartriano, Husserl, Claude
Lévi-Strauss e o estruturalismo, Braudel e a nova história,
Freud e as correntes psicanalíticas modernas — e isso por­
que nos alimentávamos do marxismo italiano, e porque
Geografia de Gramíci na América Latina 39

Gramsci era para nós aquele sólido ponto de apoio a partir


do qual poderiamos ingressar, sem abjurar de nossas idéias
socialistas e da confiança na capacidade crítica do marxismo,
nas mais diversas construções teóricas. Não quero com isso
iniciar uma discussão sobre a legitimidade de tais cruza­
mentos filosóficos e culturais, mas simplesmente lhes dizer
que isso foi possível precisamente porque nosso ponto de
partida era o de um marxismo cujo pensamento permitia
tais aberturas. Nesse sentido, éramos “gramscianos” e,
enquanto tais, tínhamos reivindicado nossa identidade no
âmbito do debate argentino. E se, para a ortodoxia comunista,
nossa condição era a prova de nosso “revisionismo”, para um
outro setor da esquerda nós representávamos um filão de pes­
quisa que devia ser apoiado. Num artigo dedicado aos
“gramscianos argentinos”, publicado na revista Izquierda
nacional e assinado com um pseudônimo por trás do qual
talvez se escondesse Ernesto Laclau, dizia-se; “O nascimento
de uma corrente intelectual de inspiração gramsciana na
Argentina faz parte desse processo de esclarecimento hoje em
curso entre os intelectuais marxistas. E, levando-se em conta
que a personalidade de Gramsci está entre as mais significa­
tivas deste século, certamente não seríamos nós a desdenhar
o valor de sua produção intelectual e o alcance de sua influên­
cia. Aliás, consideramos necessário sublinhar o valor dos
seus ensinamentos no campo específico de nossa realidade
( . . . ) . O gramscismo se manifesta em nosso país mais em
termos de autoconsciência do fracasso da direção do Partido
Comunista, ou seja, como crítica interna dele, do que como
aplicação conseqüente do exemplo de Gramsci na Itália.
Todavia, o caráter assumido por esse desdobramento, ou
melhor, esse modo de evitar o problema central do processo
revolucionário na Argentina através da crítica das direções
políticas da esquerda tradicional, não produzirá as conse-
qüências que, no passado, já foram sofridas por alguns inte­
lectuais. As velhas acusações ( . . . ) que várias gerações tive­
ram de suportar não terão mais sentido agora. Para esses,
irremediavelmente, a nova geração iniciou um novo curso
que, no máximo, poderá acelerar sua inserção nas lutas
concretas atualmente em andamento”. O autor destas linhas
40 José Aricó

concordava com Pasado y presente em identificar como pro­


blema central a resolver o de uma “reinterpretação de todo
0 passado argentino a partir do marxismo”, e perguntava:
“Para onde vão os jovens gramscianos?”. A resposta a essa
pergunta era subordinada a uma condição: “ Isso dependerá
da influência que, como grupo de opinião, forem capazes de
exercer”.
Qual foi, portanto, a influência real do grupo de Pasado
y presente? Que resultados produziu uma experiência cultu­
ral que, vista de hoje, parece-me vastíssima, mas que foi
atravessada por grandes erros políticos, por impaciência e
equívocos, por notáveis limitações teóricas e pela evidente
incapacidade de sustentar algumas de suas mais férteis intui-
ções? Falta ainda um balanço crítico, e esse se torna ne­
cessário na medida em que fomos parte daquele processo
que levou a sociedade argentina a uma incrível espiral de
violência. Este seminário talvez possa ser para nós, sem que
seus organizadores o tenham conscientemente proposto, um
eficaz estímulo ao reexame crítico de uma experiência que
representou também um capítulo significativo das vicissitu-
des do gramscismo na América Latina.
Com essa finalidade, permitam-me fornecer algumas
indicações para lhes fazer conhecer elementos necessários
para a compreensão da “geografia” que nos propomos a deli­
near. Em primeiro lugar, cabe assinalar a relativa disponibili­
dade da cultura argentina a se abrir à influência da italiana.
Nos anos que se seguiram à queda do fascismo e com o
afrouxamento da censura peronista, pudemos conhecer e
partilhar o que de novo produzia uma cultura que se liber­
tara da opressão fascista. Gramsci chegou juntamente com o
neo-realismo cinematográfico e com a revista Cinema nuovo,
com Vittorini, Pratolini e Pavese, com o Cario Levi, de Cristo
si èfermato a Eboli, com os testemunhos dos irmãos Cervi, e
também com Croce e Mondolfo, com Visconti e a discussão
sobre o seu Senso, com Chiarini e o debate sobre o realismo,
com II Contemporâneo e com Rinascita. Quando, em 1961,
Juan Carlos Portantiero se propôs a analisar, de uma nova
perspectiva, a tradição de nossa literatura de esquerda e a
Geografia de Gramsci na América Latina 41

influência do peronismo sobre as elites intelectuais, fez pre­


ceder o seu estudo por uma ampla reflexão sobre o problema
do realismo, a qual se valia do debate italiano. Um dos ca­
pítulos do seu Realidad y realismo en la narrativa argentina
(1968) tem um título bem ilustrativo do quanto significou
para nós a cultura italiana e, em particular, Gramsci:
“A busca da realidade”. É nisto que se condensa para nós o
significado de Gramsci: no fato de que ele contribuiu deci­
sivamente para trazer a cultura marxista para a concreticida-
de, para o encontro com uma realidade da qual estávamos
alienados. Poder-se-ia dizer, sem errar, que é pelo menos
surpreendente que os comunistas argentinos tivessem neces­
sidade de um comunista italiano para compreender a reali­
dade deles. Mas de que outro modo poderiamos adotar uma
tradição que reconhecíamos como nossa se não nos apoiando
em alguém que, a partir do seu interior, havia elaborado uma
perspectiva diversa? A esquerda argentina — ou, melhor di­
zendo, o comunismo — nasceu e se desenvolveu sem a
herança e o suporte de uma tradição teórica nacional. Não
tivemos nesse campo personalidades equivalentes às de
outros países. Elas tampouco existiram na América Latina,
com a única exceção de Mariátegui; mas só descobrimos
Mariátegui através de Gramsci. Nessas condições, aquele era
0 caminho a percorrer — e nós o percorremos.
Dissemos: “A busca da realidade”. Mas o que era essa
realidade que buscávamos? Gostaríamos de recordar que a
revista era publicada em Córdoba, uma cidade do interior
do país. Uma característica sem significado para nossos
amigos italianos, mas que assume para nós uma particular
importância. Até que ponto esse dado nos tornava “três ou
quatro vezes mais provincianos”, como dizia Gramsci? Estou
convencido de que boa parte da importância assumida pela
revista deriva disso. Um grupo de intelectuais e militantes da
esquerda, comunistas e não comunistas, universitários e não
universitários, era protagonista de uma experiência insólita.
Refletia sobre os problemas teóricos e políticos da esquerda
a partir de um canto do país, ou seja, de um centro alheio
ao único lugar que fora até então a sede das reflexões na
Argentina. Na realidade, Córdoba era algo mais que uma
42 José Aricó

cidade de província. Desde o final dos anos 40 e, sobretudo,


no período do governo peronista, ela foi o centro do desen­
volvimento da indústria automobilística em torno de três
grandes fábricas, que ocupavam uma fatia consistente de um
proletariado urbano de formação recente e em contato com
jovens universitários e diplomados das escolas técnicas. Por
sua vez, a própria estrutura da cidade, a rede dos transportes
urbanos que convergia para o centro comercial e burocrático,
onde estavam reunidos os prédios do poder administrativo,
a assembléia regional, a catedral, os locais da Confederación
General dei Trabajo, a Universidade, os partidos, os órgãos
de difusão da imprensa, rádio e televisão, livrarias e locais
para conferências, tudo isso permitiu uma comunicação social
e política de excepcional força. Nos anos 50 e 60, Córdoba
foi o epicentro do conflito social no país, a cidade da revolta
conhecida como “cordobazo”, do sindicalismo de classe, da
convergência da esquerda peronista com os setores de matriz
socialista, das tímidas tentativas de pôr em prática formas de
controle operário, da democratização dos sindicatos de fábri­
ca, da mais importante fusão entre operários e universitários,
da radicalização dos jovens católicos. Além disso, foi — nos
anos 60 — o berço da organização dos Montoneros e a zona
de maior desenvolvimento do ERP e, mais tarde, o centro
da repressão desencadeada pela ditadura militar. Ê emble­
mático, portanto, que tenha sido precisamente essa cidade o
lugar onde iniciaram a sua militância política as três figuras
mais importantes do sindicalismo de classe: Atilio López,
Agustín Tosco e René Salamanca, todos vítimas da repressão.
Foi essa, assim, a cidade onde nasceu Pasado y presente,
e foi nesses setores sociais que a revista encontrou seus
leitores. Mas foi porque éramos gramscianos que, quando pu­
blicamos a revista, imaginávamos estar numa Turim lati­
no-americana, ou aderimos a Gramsci porque Córdoba efeti­
vamente era isso? Talvez fôssemos simplesmente predestina­
dos a sê-lo. Nos incandescentes anos 60 — como leninistas
. líamos Gramsci com paixão; aprendemos mesmo aquele
pouco de italiano que nos permitia ler seus escritos anterio-
ici. nos Cadernos e a copiosa literatura interpretativa que nos
I luvnvn (In Itália. Líamos também Togliatti, Luporini, Banfi,
Geografia de Gramsci na América Latina 43

delia Volpe, Colletti, e traduzíamos os seus escritos para


depois fazê-los circular e discuti-los entre nós. De qualquer
modo, o que estava surgindo em Córdoba era um movimento
social e político com características novas, e, naquele grupo
em gestação, as idéias de Gramsci circulavam muito. Por
essas razões, creio que muito além da discussão que hoje
se trava a propósito da validade do gramscismo, e indepen­
dentemente das questões inerentes ao valor atual de suas
categorias estratégicas, é indubitável que, para nós, tudo isso
teve um formidável efeito liberador. Ou seja: permitiu-nos
considerar problemas e questões que antes nos escapavam
porque não éramos capazes de captá-los ou de explicá-los.
Numa palavra, Gramsci nos permitiu penetrar nas grandes
questões da história nacional.
E o que parece óbvio, ou mesmo banal, representa para
nós, marxistas latino-americanos, um grande problema. Se o
marxismo era uma verdade universal, a realidade — o mundo
concreto — não podia ser mais do que um epifenômeno.
Para pensar a política, portanto, não era necessário dissecar
as complexidades históricas e genéticas de uma formação
social cujo destino já fora estabelecido. Entre historiografia
e política, existia um hiato tão evidente que o debate sobre
sua relação se transformava quase numa linha divisória entre
o nacionalismo burguês e a esquerda. Quando um peruano
genial — Mariátegui — decidiu escrever seu primeiro e talvez
único livro marxista, deu-lhe o título de Sete ensaios de
interpretação da realidade peruana. E foi essa idéia da exis­
tência de uma “realidade nacional” que atraiu para ele a
ironia e as críticas da Conferência dos Partidos Comunistas
em 1929, já que, na opinião de tais organismos, não existiam
realidades nacionais que diferenciassem cada processo e tor­
nassem específicas suas diferentes propostas de transformação.
Refiro-me, decerto, a um episódio bastante distante no tempo.
Mas, se recordarmos que nos anos 40 e 50 a formação teórica
e política de um comunista argentino baseava-se exclusiva­
mente na leitura da História do Partido Comunista (bolche-
vique) da URSS, não é difícil imaginar os obstáculos a supe­
rar a fim de “descobrir” a nação. Nós jamais tivemos algo
equivalente ao substrato histórico das propostas estratégicas
44 José Aricó

e políticas formuladas pelos comunistas italianos nas Teses


de Lyoti. Nenhuma dicussão sobre a validade ou não dessas
teses pode ofuscar a sensação de maravilha que nos provo­
cou a sua leitura. Havia nelas um modo de colocar-se diante
dos problemas, de construir a teoria política, que nós tínha­
mos de imitar. É certo que, de nossa parte, houve ingenui­
dade, limitações teóricas e inexperiência política, mas con­
vido-os a levar em conta o fato de que tínhamos de abando­
nar um caminho para seguir um novo curso sem nenhum
mestre que nos guiasse, sem tradições nas quais nos apoiar.
Por tais motivos, fomos ecléticos. Em sua primeira fase
de vida, Pasado y presente foi um órgão político-cultural da
esquerda de Córdoba que gozava de grande prestígio entre
alguns intelectuais e ligava-se ao campo ideológico do leni-
nismo castrista. O que nos diferenciava de outras correntes
semelhantes surgidas do Partido Socialista, ou de cisões no
Partido Comunista, ou de elementos de raiz católica, era a
nossa filiação “gramsciana”. Ao sublinhar a potencialidade
revolucionária dos movimentos terceiro-mundistas, castristas,
fanonianos, guevaristas, etc., buscavamos estabelecer uma
conexão com os processos de reconstrução do marxismo oci­
dental, cujo centro — a nosso ver — era a Itália. Éramos
uma estranha mistura de guevaristas togliattianos. Se alguma
vez essa combinação foi possível, nós fomos seus repre­
sentantes.
Desde as tentativas de trabalhar pela renovação no inte­
rior do Partido Comunista, ou, depois de nossa expulsão, da
descoberta das potencialidades revolucionárias contidas na
sociedade argentina e que pudessem oferecer um suporte para
a existência de uma esquerda situada objetivamente fora do
sistema, até a constatação do crescimento de um sindicalismo
de classe nas indústrias automobilísticas de Córdoba e dos
problemas que ele colocava a uma esquerda intelectual que
se esforçava por se soldar “organicamente” com os trabalha-
ílorcs, Pasado y presente foi expressão de um grupo que se
empenhava na busca de um interlocutor de classe. A des-
■•■•nvii que sc seguiu ao fracasso da guerrilha castrista, em
..... dos anos 60, e a queda do governo radical da Illia
Geografia de Gramsci na América Latina 45

tornaram evidente o extremo isolamento de um grupo situado


fora do terreno concreto da política.
A revista retomou suas publicações por um breve pe­
ríodo, entre abril e dezembro de 1973. Ligada mais de perto
ao projeto de constituição de uma tendência socialista e de
esquerda no interior do movimento peronista, ela foi esma­
gada pelo clamoroso fracasso das ilusões revolucionárias do
pós-68. Tratou-se, esse último, de um breve período, embora
relevante, na medida em que influiu — no bem e no mal —
sobre a visão que uma certa esquerda tinha da experiência
que vai do “cordobazo” ao fim do segundo governo pero­
nista. Para alguns, a revista foi um “órgão oficioso” dos
Montoneros, no sentido de que acolheu propostas daquele
movimento e acreditou ter entrevisto nele uma possibili­
dade concreta de recomposição do peronismo num plano mais
avançado. Na realidade, uma leitura atenta de seus artigos
e um reexame dos debates internos do grupo que a constituía
mostram que essa definição não é correta. A revista sempre
alimentou fortes reservas em face de um movimento que
militarizava a política, que tinha uma estrutura organizativa
autoritária e que demonstrava, nos fatos, um evidente des­
prezo por aquele movimento social e político que ela pri­
meiro contribuira para criar e depois para destruir. De qual­
quer modo, o que tornava possíveis essas complicadas combi­
nações ideológicas e políticas — na realidade, uma exaspe­
rada busca de um porto onde ancorar — nascia, por seu
turno, de duas circunstâncias que devem ser especificadas.
Por um lado, as próprias características do grupo, destituído
de ligações políticas definidas e, sobretudo, dedicado a um
trabalho de tipo ideológico cultural. Por outro, a matriz leni-
nista-gramsciana, que constituía a base de nossas reflexões.
Resumindo, e com plena consciência da dose de arbi­
trariedade implícita em toda síntese, diria que a revista —
e, portanto, o grupo — manteve-se sempre no terreno do
marxismo militante e da esquerda socialista. Gramsci nos
permitiu fixar duas orientações que, mais ou menos nitida­
mente, estão presentes nas duas séries da revista; a) a busca
do contexto “nacional” a partir do qual pensar o problema
46 José Aricó

da transformação e do socialismo; b) a plena adesão à pers­


pectiva socialista, entendida como um processo que se desen­
volve a partir da sociedade, das massas, de suas instituições
e organismos. Ambas essas idéias centrais continham um
potencial crítico que sempre nos permitiu manter uma certa
distância, talvez mais no plano teórico que no prático, em
face dos discursos castristas, guevaristas, peronistas, maoístas
ou social-democratas. Essa distância crítica foi defendida não
como uma limitação, mas como uma virtude. Recusávamos
firmemente os “ismos”, embora as flexões do discurso políti­
co nos levassem a nos aproximar de um ou de outro dos
grupos que os representavam. Essa recusa era fundada numa
hipótese de trabalho que mantivemos constantemente, mas
que em nosso trabalho teórico e prático não desembocou na
conquista de uma efetiva autonomia.
O tipo de marxismo de que buscávamos nos apropriar,
e para o qual o pensamento de Gramsci nos ofereceu os
mais altos estímulos e contribuições, não tentava encontrar
a razão de sua própria validade em si mesmo, mas na sua
capacidade de se confrontar com os fatos de uma realidade
em transformação. Essa capacidade, contudo, não era a expli­
citação de sua suposta condição de verdadeira teoria, mas
decorria da incorporação, em sua própria estrutura teórica,
das aquisições da ciência e da cultura moderna. Se concor­
darmos em que são duas as categorias essenciais da análise
teórica de Gramsci — ou seja, a criticidade e a historicidade
—, então posso dizer que foram elas que nós, sem êxito,
buscamos empregar em nossa leitura dos fatos do mundo e
na recuperação da história do marxismo. Creio, de resto, que
essas duas categorias estão na base de minha tentativa de
reconstrução das relações entre Marx e a América Latina.
Nesse sentido, o marxismo de que a revista Pasado y pre­
sente se apropriou e que defendeu foi aquele que estava em
condições de sustentar um diálogo produtivo com o mundo
e com a cultura do presente. Foi essa espécie de visão laica,
não ideológica, do marxismo que fez de nosso grupo uma
realidade marginal, incômoda, inclassificável da cultura de
esquerda na Argentina.
o nacional-popular: Gramsd
em chave latino-americana

Juan Carlos Portantiero

I
t. É sabido que na articulação do pensamento gramscia-
no a categoria do “nacional-popular” joga um papel central,
a ponto mesmo de poder ser considerada como uma encru­
zilhada para a qual confluem muitos de seus conceitos fun­
damentais, como, por exemplo, o de hegemonia.
Nas notas inseridas nos Quaderni, a categoria aparece
diretamente relacionada à percepção de Gramsci a respeito
da forma desarticulada assumida pelo desenvolvimento histó­
rico italiano, do qual uma das manifestações seria a “função
cosmopolita” cumprida pelos intelectuais a partir da ausência
de um processo de “reforma intelectual e moral” cajiaz de
superar o divórcio entre elites e povo-nação. A tradução polí­
tica desta chave interpretativa da história italiana remete a
um problema metodológico e teórico mais geral: o das condi­
ções para a transformação social em situações de capitalismo
atrasado, nas quais a unificação nacional foi tardia ou incom­
pleta e a constituição do Estado Liberal de Direito foi o pro­
duto de uma revolução feita a partir de cima. São precisa-
48 Juan Carlos Portantiero

mente essas ligações que explicam a ressonância que a cate­


goria do nacional-popular pôde ter no pensamento político
latino-americano.
Em Gramsci o termo, como qualificativo, aparece aludin­
do a duas dimensões: as formas culturais (especialmente a
literatura) e o que em suas anotações sobre Maquiavel ele
chama de “vontade coletiva”. A categoria do nacional-popu­
lar se deslinda de dois extremos aos quais rechaça: o “cosmo-
politismo” por um lado e o “particularismo” ou "nacionalis­
mo” por outro. E é bastante óbvio advertir que nas objeções
de Gramsci a cada um deles aparece nítida sua crítica tanto
a uma ausente revolução democrática no passado da Itália
quanto ao monopólio do “nacional” pretendido pelo fascismo.
O núcleo do conceito se insere num dos planos teorica­
mente mais polêmicos do marxismo: o das relações entre
intelectuais e massas ou, na especificação gramsciana, entre
intelectuais e povo-nação. Num conhecido fragmento, comen­
tando 0 fato de que em algumas línguas “nacional” e “po­
pular” aparecem como sinônimos, Gramsci observa: “Na
Itália o termo nacional tem um significado muito restrito
ideologicamente e em nenhum caso coincide com popular,
porque neste país os intelectuais estão distantes do povo,
quer dizer da nação, e em troca se encontram ligados a uma
tradição de casta que nunca foi quebrada por um forte mo­
vimento nacional ou popular a partir de baixo”. Tal dissocia­
ção é, portanto, a chave do caráter não nacional-popular da
cultura italiana e, num sentido mais preciso, da sua história
política. A tarefa que Gramsci propõe ao partido comunista
é a de constituir este inexistente nexo entre intelectuais e
massa, entre uma cultura laica, moderna e científica — que
ele não consegue imaginar fora de um horizonte teórico
socialista — e uma cultura popular, por definição a-sistemáti-
ca, desorganizada e contraditória, na medida em que nela se
aglomeram (de maneira “indigesta”, assinala num parágrafo)
fragmentos de diferentes concepções do mundo: “ O próprio
povo , recorda, "não é uma coletividade homogênea de
cultura”.
I.sta associação entre uma massa que para se organizar
I- ic distinguir necessita da intermediação dos intelectuais
Gramsci em chave latino-americana 49

qualifica a hegemonia como um processo de constituição dos


sujeitos sociais. O conceito de hegemonia coroa, em Gramsci,
seu discurso sobre o nacional-popular como categoria fun-
dante da possibilidade da mudança histórica.
Em suas “Notas sobre a política de Maquiavel” esta
relação aparece claramente. Com efeito, o valioso de O prín­
cipe seria que nele, como mito, como forma dramatica, sinte­
tiza-se 0 processo de formação de uma vontade coletiva, como
“fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pul­
verizado”. A capacidade construtiva desta forma mito está
em que ela é capaz de expressar o elemento intelectual de
modo a que possa se confundir com o elemento povo. Sabe-se
que a transposição moderna do mito de O Príncipe é, para
Gramsci, o partido político revolucionário, único sujeito
capaz de criar ex novo uma vontade coletiva como protago­
nista de um efetivo drama histórico.
Tal vontade coletiva expressa o nacional-popular, o pro­
cesso de constituição das classes como sujeitos da ação histó­
rica. Mas para que isto ocorra devem se dar algumas
condições sociais e culturais. Nem sempre as classes funda­
mentais alcançam a capacidade prática e ideal de transcen­
der 0 horizonte da atividade econômico-corporativa; isto é,
de se tornarem classes hegemônicas, agrupando em torno de
si uma vontade coletiva nacional-popular.
Gramsci utiliza como contra-exemplo o caso italiano.
Ali não se deu a criação de uma vontade coletiva nacional-
popular, e isso deve ser atribuído a diversos fatores: as carac­
terísticas da dissolução da burguesia comunal, o caráter dos
grupos que refletem a posição cosmopolita da Itália como
sede da catolicidade, etc. Tudo isso contribuiu para a inexis­
tência de uma força jacobina capaz de desagregar os elemen­
tos parasitários aninhados na aristocracia rural e de se
associar aos setores urbano-industriais e à grande massa de
camponeses. Suas clássicas análises sobre ll Risorgimento
ilustram bem esta hipótese a respeito das causas do fracasso
na construção de uma vontade nacional-popular.
A invocação do jacobinismo (avaliado nos textos do
cárcere de maneira muito distinta da que Gramsci havia feito
50 Juan Carlos Portantiero

no período ordinovista) condensa a função mobilizadora a


ser assumida pelo “moderno Príncipe”, que, para cumprir seus
objetivos de organizador principal da hegemonia de classe,
deve ser o porta-bandeira de uma “reforma intelectual e
moral” como terreno necessário para que se explicite a von­
tade coletiva nacional-popular. Ambas as funções — reforma
cultural e organização do nacional-popular — qualificam o
papel eminente reservado ao partido da classe operária na
perspectiva analítica dos Quaderni.
2. Mais além da utilização de uma linguagem plantada
numa tradição cultural diferente, parece claro que estas
hipóteses não se colocam num espaço teórico diferente do
configurado pelo leninismo. O tema do fracasso do nacional-
popular nos processos transformistas do desenvolvimento
burguês e a postulação da capacidade potencial do socialis­
mo para recompor esta unidade inserem Gramsci na conti­
nuidade da visão leninista, entendida esta como uma alterna­
tiva para pensar os nexos entre democracia e socialismo
através da definição do caráter popular da revolução do
proletariado.
Especificando um pouco mais o problema, diria que
neste nó da recomposição do nacional e do popular através
da criação de uma vontade coletiva capaz de expressar a
direção política do proletariado sobre o resto das classes
subalternas, pode ser encontrada a melhor formulação teórica
e histórica (para a época) das propostas estratégicas formula­
das, por influência direta de Lenin, no III e IV Congressos
da Internacional Comunista. Gramsci irá manter-se perma­
nentemente fiel a essas linhas e é evidente que seu ocaso
político no final da década de 20 e a trama crítica que se
manifesta nos Quaderni têm a ver com o abandono por parte
da Comintern, nos seus V e VI Congressos, das propostas
políticas traçadas nos últimos anos de vida de Lenin e expli­
citadas com clareza em O esquerdismo, doença infantil do
comunismo. A influência dos discursos que Lenin pronuncia
no III e no IV Congressos é transparente nas cartas de
Gnimsci a Togliatti, Terracini e outros dirigentes, e acabará
|uii LuiLDiiirar uma primeira expressão ideológica nesse autên-
Gramsci em chave latino-americana 51

tico prólogo aos Quaderni que são suas anotações a respeito


de Alguns temas da questão meridional, redigidas às vésperas
de sua prisão, em 1926. Talvez se encontre nesta monografia,
precisamente, o melhor acervo de sugestões concretas, aplica­
das à análise de uma situação particular, desenvolvida por
Gramsci na perspectiva da constituição de uma nova vontade
coletiva nacional-popular.

II
Na América Latina, na prática política e na teoria, a his­
tória das relações entre o nacional-popular e o socialismo
conheceu formas acidentadas. Deve-se dizer que, salvo nos
últimos anos, sua introdução no debate não se fez pelas mãos
de Gramsci mas de Lenin e, com fortuna diversa, constituiu
0 traço talvez principal da novidade leninista no continente,
com os primeiros desenvolvimentos do marxismo expressos
pelos partidos — especialmente o argentino — associados à
II Internacional.
São conhecidas as dificuldades que teve Marx para
entender as peculiaridades da América Latina, frente à maior
transparência que para sua análise tinham os casos da Ásia
ou da Europa. Tais dificuldades foram transmitidas ao socia­
lismo, já organizado como movimento político no princípio
deste século. Buscando encontrar alguma chave que pudesse
resumir esta especificidade própria do século XIX latino-
americano que Marx não soube aprender, José Aricó observou
que ela radicava na forma que tinham assumido as relações
entre Estado e Sociedade ou, dizendo de outra maneira, no
modo estranho (à hipótese européia, mas também à do des­
potismo oriental) através do qual se tinham articulado os
processos de construção do Estado e da nação. Diferente­
mente da forma em que — ao menos depois do século XVI
— a teoria política européia, de um ponto de vista excluden-
temente sociocêntrico, imaginara o desenvolvimento dos Esta­
dos nacionais, na América Latina aparecia, com notável
clareza, um processo com sinal trocado; transformações de
cima para baixo, caráter estatal (e portanto de alguma ma­
neira arbitrário para um ideal sociocêntrico) do processo de
52 Juan Carlos Portantiero

nation-building. Na América Latina foram “semi-Estados” os


que, ao irem se modelando a si mesmos, modelavam a socie­
dade. Todas as disputas do século XIX podem ser examina­
das como conflitos entre grupos que de um ponto de vista
sociológico se encontravam escassamente diferenciados e que
por isso mesmo aspiravam ao controle do aparato estatal
para colocar, a partir dele, um projeto de desenvolvimento
capaz de gerar uma estrutura social mais complexa. Foram
os exércitos que, sobre este espaço social em muitos casos
virtualmente vazio, erigiram os Estados territoriais e criaram
as condições para um mercado econômico a partir do qual
a América Latina pôde se ligar ao mercado mundial. Foi no
muro destes desvios com respeito ao modelo europeu (e tam­
bém à sua nítida contrapartida, o asiático) que se apoiou
Marx para realizar suas análises sobre a América Latina,
preferindo arrastá-la para o ossário hegeliano das “nações
sem história”.
A II e a III Internacionais irão se encontrar com seme­
lhantes dificuldades analíticas. Será nesse espaço social e
teoricamente ambíguo, entrecruzado além do mais por
grandes heterogeneidades intra-regionais, que se colocará a
problemática política da produção de ação hegemônica:
0 banco de provas, enfim, capaz de medir a capacidade dos
socialistas de construir uma “vontade coletiva nacional-popu-
lar”, a partir de um processo de recomposição de uma plurali­
dade e diversidade de demandas segundo papéis sociais, de
classe e de categoria, incluindo entre estas as étnicas e
regionais.
Neste caminho em direção a uma práxis política trans­
formadora, no qual segundo Gramsci devem se aninhar as
exigências de caráter nacional e que esteve sempre travado por
uma cultura política muito mais politicocêntrica do que so-
ciocêntrica, o socialismo latino-americano moveu-se entre os
extremos do corporativismo de classe e do finalismo socialista,
dissociados ou justapostos. A não ser ocasionalmente, em
momentos muito pontuais ou parciais da produção teórica e
da prática política, os socialismos clássicos ligados à tradição
das Internacionais não foram capazes de elaborar um projeto
Gramsci em chave latino-americana 53

hegemônico ou de avançar problemáticas que pudessem cola­


borar nesta direção. Quais foram estes momentos históricos?
Assinalaria três:
1. o de Juan B. Justo e da tradição do partido socialista
na Argentina, até começo da década de 40;
2. o de Recabarren e da tradição obreirista do comunis­
mo chileno;
3. o da obra teórica de Mariátegui.
Penso que o primeiro e o terceiro (a despeito das óbvias
diferenças existentes entre eles) são os teoricamente mais sig­
nificativos. Ambos foram, no entanto, vencidos ou relegados
por outra convocatória nacional-popular: a dos populismos,
encarnados em Yrigoyen primeiro e Perón depois para o
socialismo argentino; em Haya de la Torre para Mariátegui.
Justo assinala o nível mais profundo de articulação entre
a II Internacional e a América Latina. Não só pelos êxitos
na organização de um poderoso partido, que em muitos as­
pectos pode ser comparado, em decorrência da variedade da
sua implantação na sociedade urbana, a similares da Europa,
mas também pela tentativa de pensar teoricamente um pro­
grama socialista para uma realidade como a argentina e
eventualmente para outras que com ela compartilhavam o
caráter de colônias de povoação em zonas vazias, constituídas
no breve lapso de uma geração graças aos esforços de enormes
contingentes imigratórios. Neste sentido, a originalidade de
Justo vai muito mais além das triviais acusações que se cos­
tumam lançar sobre seu “europeísmo”.
Justo exacerbava o ideal progressista-evolucionista pró­
prio dos organizadores laicos da República Conservadora.
Neste espaço de modernização coloca suas reflexões e o eixo
de sua atividade, verdadeiramente reformista e não transfor­
mista — e portanto oposta ao projeto oligárquico —, con­
sistente na conquista da cidadania para os trabalhadores, in­
cluindo os estrangeiros. Seu objetivo era a organização das
massas e sua participação na construção de um mercado
político competitivo capaz de realizar a democracia política
como condição da democracia econômica.
54 Juan Carlos Portantiero

No caminho em direção a esta reforma do Estado apenas


parcialmente conquistada (pois a lei eleitoral de 1912 excluiu
os estrangeiros, o que de fato significava deixar de fora a
maioria dos trabalhadores), Justo e a brilhante elite que se
formou em torno dele se encontraram com o obstáculo oposto
por este processo de construção estatal da sociedade, que se
assinalou como singularidade latino-americana inclusive para
aqueles países mais adiantados, como era o caso, em termos
relativos, da Argentina. Isto é, com a inexistência de um
verdadeiro pensamento antiestatal nas grandes massas, con­
dição indispensável para uma proposta que se baseava na
possibilidade de reformas geradas por uma mobilização feita
de baixo para cima.
Justo buscaria contornar esta encruzilhada de atraso
político através de uma tarefa pedagógica preocupada em
desbaratar o mito popular do Estado como constituinte e em
substituí-lo pela razão de uma sociedade que se autocons-
titui. Frente à tradição do caudillismo. Justo propunha o ca­
minho da organização dos cidadãos. No fundo, sonhava com
uma reformulação da democracia ligada ao desenvolvimento
moderno do capitalismo, da qual surgiriam como suportes, no
interior de um sistema político competitivo, dois grandes par­
tidos organizados sobre representações de classe: o socialista
e um partido burguês moderno, originado da renovação do
velho conservadorismo oligárquico. Em seu critério, anar­
quistas e yrigoyenistas expressavam formas caducas e eram
definidos, no interior de cada um dos campos políticos que
recortavam os espaços de ação das classes, como inimigos
principais da modernização dos hábitos cívicos.
O socialismo de Justo buscou se constituir — e nisso
foi legitimamente um produto da II Internacional — como
uma contra-sociedade baseada numa subcultura operária na
qual a classe dos proletários não era vista apenas como pro­
dutora, mas também como consumidora, condição em que
radicava sua possibilidade de articulação com outros grupos
subalternos. O mundo presumivelmente contra-hegemônico do

I
jiislismo era um mundo de cooperativas, de bibliotecas, de
periódicos, de organizações escolares que deviam conter todas
M' possibilidades libertadoras de uma sociedade laica frente
Gramsci em chave latino-americana 55

ao Estado. Neste campo sua obra foi formidável e não se


poderia explicar o essencial da democratização de base que
ainda perdura na sociedade argentina (em que pesem as tra­
gédias que recobriram sua vida política) sem este impulso
societário. Mas esta maneira de entender a relação entre polí­
tica e massas não foi capaz — salvo no marco urbano e
apenas durante um período — de projetar uma vontade na-
cional-popular. O justismo não pôde superar o desencontro
entre um plano de lutas cotidianas por reformas e um outro,
aberto para o futuro, no qual o socialismo aparecia como uma
imagem teleológica. Travado como estava por uma concepção
iluminista do socialismo — certamente compartilhada pelos
marxistas que de uma ótica revolucionária criticavam seu re-
formismo —, jamais pôde construir uma linguagem capaz de
assimilar o mundo das heterogêneas classes subalternas argen­
tinas, imersas num convulsivo processo de estratificação so­
cial e cultural marcado pelo rápido crescimento da sociedade
e pela instabilidade dos valores culturais de massa provocada
pela difusão de padrões europeus num terreno recém e ape­
nas parcialmente desligado do século XIX hispano-crfo//o.
Através de sua personalização num caudilho, Yrigoyen, será
a União Cívica Radical a recuperar esta herança fragmentada
e difusa de modernização e arcaísmo e a produzir o primeiro
grande episódio de integração política das massas na Ar­
gentina.
Se a característica do socialismo argentino foi seu en-
clausuramento numa realidade urbana de rápida mobilidade
social, a esquerda chilena, marcada desde suas origens por
Recabarren, expressará com nitidez outra característica: a do
corporativismo de classe como componente essencial da pre­
sença autônoma do socialismo.
Tal obreirismo, cujas origens estruturais poderiam ser
explicadas pela particular conformação histórica da classe
operária chilena como “massa isolada”, trará como resultado,
no entanto, a constituição da mais poderosa relação entre
trabalhadores e cultura socialista conhecida pelo continente.
Esta percepção da autonomia com que se constitui politica­
mente a classe operária chilena irá se transformar numa bar­
reira contra a penetração do populismo e impulsionará a
Í6 Juan Carlos Portantiero

presença independente dos trabalhadores em cada uma das


variadas tentativas frentistas que, de 1938 à eleição de Allen-
de, procuraram criar novos equilíbrios políticos no Estado.
Mas em cada caso — e de maneira mais dramática entre
1970 e 1973 — a dificuldade se colocou no fato de que
os partidos da esquerda chilena jamais puderam se estruturar
como partidos “populares” : o “popular” derivava do soma­
tório frentista, entendido como um agregado (como uma
“aliança de classes”) no qual as classes eram consideradas
como sujeitos pré-constituídos, e os partidos políticos como
um reflexo delas. Numa sociedade como a chilena, prematu­
ramente marcada pela profundidade da penetração estatal na
sociedade, os partidos de esquerda sucumbiram finalmente
(inclusive o socialista, que parecia ter mais sensibilidade
para a questão) ante uma concepção societária da política,
para a qual o Estado nada mais era do que um campo passivo
em que se refletiam os interesses de grupos e categorias.
Frente às experiências dos socialismos na Argentina e no
Chile, marcadas por problemáticas predominantemente urba­
nas, 0 grande mérito teórico de José Carlos Mariátegui foi o
de ter tentado elaborar uma perspectiva socialista inclusiva
do mundo rural, entendido como um espaço cultural cujos
valores distinguiam-se daqueles próprios dos processos de
modernização.
Na obra de Mariátegui aparece pela primeira vez no so­
cialismo latino-americano um projeto amplo de constituição
de uma vontade coletiva nacional-popular. Por certo que a
discussão proposta por Mariátegui não pode ser dissociada
dos acordos e confrontos — definidos por ambas as partes
como uma operação intelectual a se realizar no interior do
marxismo — com o Haya de la Torre da década de 20, no
marco de uma preocupação comum em elaborar uma pers­
pectiva latino-americana do socialismo.
As proposições de Mariátegui ficaram no meio do ca­
minho por sua prematura morte e pelo bloqueio que a elas
fez a III Internacional. Como é sabido, até finais da década
de 20 Mariátegui viu-se duplamente pressionado pela neces­
sidade de distinguir seu pensamento do de Haya e pela
Grantsci em chave latino-americana 57

atitude de rechaço às suas posições adotada pelos partidos


comunistas, embarcados na linha da "bolchevização” orga-
nizativa e do confronto “classe contra classe”. Durante a dé­
cada de 30 0 “mariateguismo” foi excomungado pela III
Internacional. É que Mariátegui propunha temáticas e pro­
blemas para a produção do socialismo na América Latina que
escapavam dos rígidos esquemas iluministas e positivistas com
que a intelligentsia radicalizada do continente havia visto sua
relação com o poder e com a política.
São conhecidas as fontes em que se inspirou o socialismo
de Mariátegui e a decisiva influência que sobre ele exerceram
autores como Croce e Sorel para depurar de determinismo
a sua leitura do marxismo. Seu antideterminismo — quer
dizer, sua convicção acerca da opacidade das relações entre
economia e política — permitia-lhe introduzir com naturali­
dade problemáticas complexas como as de raça, nação e
cultura. Na reivindicação da vontade e do papel do mito
na história, Mariátegui cruzava as figuras de Lenin e de
Sorel numa mescla que pareceu herética à III Internacional.
Na versão de Mariátegui, a força da revolução não estava
na ciência mas na vontade. Como cultura da crise, o socia­
lismo devia superar o evolucionismo, o racionalismo, o “ res­
peito supersticioso pela idéia de progresso” que tinha com­
partilhado com 0 capitalismo.
Sem usar as mesmas palavras — ainda que poderia tê-lo
feito, graças ao fundo de Renan, Croce e Sorel que elas
possuem —, o marxismo de Mariátegui evoca a preocupação
gramsciana com a construção de uma vontade coletiva na-
cional-popular e com uma reforma intelectual e moral como
premissas do socialismo.

III
Em sociedades como as latino-americanas, mesmo as de
maior desenvolvimento relativo, elitistas e articuladas em
torno de uma percepção personalizada do Estado (a do cau-
dilhismo paternalista), a forma em que se concebe a relação
entre produção do poder no (e desde o) Estado e produção
do poder na (e desde a) sociedade passa a ser um problema
58 Juan Carlos Portantiero

decisivo da ação política. Toda a elaboração clássica do so­


cialismo latino-americano esteve societariamente centrada: seu
inimigo era um Estado “oligárquico”, fechado à participação,
de modo que a presença nele das massas apenas poderia
estar garantida por uma irrupção, “reformista” ou “revolucio­
nária”, molecular ou violenta, da sociedade.
Quando os problemas derivados da urbanização e da
industrialização posteriores à crise de 1929 fraturaram as
classes dominantes e provocaram a emergência de grandes
massas provocando desagregações e reequilíbrios no Estado,
esta concepção dos socialismos resultou num duro handicap
frente aos nascentes popullsmos. Os populismos latino-ameri­
canos apareceram como um princípio articulador explicita­
mente oposto ao dos socialismos, de modo que sua relação
com estes foi e é, ideológica e politicamente, de ruptura e
não de continuidade. Como forma de organização e como
novo ordenamento estatal (nos casos em que chegaram a se
constituir como tais), os populismos colocaram a elaboração
da política de massas num plano endógeno, recuperando assim
uma memória histórica coletiva capaz de fundir, como mito,
demandas de classe, demandas de nação e demandas de ci­
dadania, num único movimento que recolhia a herança pater­
nalista e caudilhista da concepção tradicional da política. O
êxito dos populismos (e por conseguinte o fracasso dos socia­

1
lismos) foi a capacidade que revelaram de elaborar “desde
cima” 0 nacional-popular, fundindo cultura de massas com
política moderna.
Em meados da década de 30 os partidos da III Inter­
nacional tentaram superar os obstáculos que tanto o corpo­
rativismo de classe como o finalismo socialista haviam colo­
cado para impedir seu crescimento e sua expansão hegemô­
nica. Abandonaram então o sectarismo catastrofista do con­
fronto “classe contra classe” e tentaram a saída das Frentes
Populares, em concordância com a estratégia traçada pelo
VII Congresso da Comintern. Mas o resultado foi a queda
numa concepção taticista e instrumentalista da política de
iiliiinças: os temas do nacional, do popular e do democrático
mit) incorporados, mas de uma maneira retórica e dúplice,
num moniciUo, além do mais. em que o discurso ideológico

I
60 Juan Carlos Portantiero

desde o continente) pela influência do “castrismo”, como


fusão ideológica de nacionalismo e socialismo que sintetizava
décadas de histórias paralelas, e daquilo que chamarei de
“guevarismo” como inspiração da ação política. Será um
ciclo de vinte anos, intenso, dramático, de grandes lutas e
de intenso debate teórico no qual o socialismo, apesar das
derrotas trágicas que sofre em algumas partes, parece alcan­
çar a maioridade.
É certo que não só os impulsos vindos da Revolução
Cubana marcarão a época: a crise cada vez mais aguda do
movimento comunista internacional terá importantes efeitos,
sobretudo a partir do cisma chinês e da virada maoísta em
direção à Revolução Cultural”, e em relação a alguns países
notadamente a Argentina, através da difusão do pensamento
gramsciano.
Em princípios da década de 70, por sua parte, e em
meio a uma segunda onda de ascenso "guerrilheiro”, no
Chile alcançará seu desfecho outra versão do ascenso do so­
cialismo: o triunfo eleitoral de Salvador Allende, como pro-
longação tardia da linha do VII Congresso da III Inter­
nacional que os partidos comunistas ortodoxos jamais aban­
donaram.
Por fim, e em meio a este acúmulo de experiências de
um vintênio dificilmente resumível, que na medida em que
iberou grande quantidade de forças mostrou mais claramen­
te as enormes diferenças internas da região, não poderiam
ficar fora da análise (por suas possíveis conseqüências) os
bárbaros processos autoritários no Cone Sul — quer dizer,
exatamente onde os socialismos nasceram no continente __,
0 relançamento exitoso dos movimentos de raiz cubana na
América Central potencializados pelo êxito do “sandinismo”
no início da década de 80 e, last but not least, a ressurreição
a partir das cinzas (que haviam começado a se acumular des­
de os anos 30) da Internacional Socialista na América Latina.

d
Gramsci e as culturas populares
na América Latina

Nestor Garcia Canclini

Era necessário uma obra tão lacônica como a de Gramsci


para poder fazê-la dizer tantas coisas. Se nenhum autor está
só com seus textos, se “sua obra” é também o conjunto das
interpretações que a refazem, das citações que a situam em
outro campo conceituai, essas variações são ainda mais errá­
ticas quando se trata de textos fragmentários lidos num con­
tinente longínquo. Como teórico da superestrutura, Gramsci
serviu para escapar das simplificações economicistas. Diante
da crise do althusserianismo, do funcionalismo estruturalista
que guiou sua análise dos aparelhos ideológicos, redescobri-
mos a fecundidade política e científica do conceito “ apare­
lhos de hegemonia”. Houve quem nele encontrasse o teórico-
chave para tudo: o superador de Lenin, o intérprete da crise
capitalista e da revolução no Ocidente, o reformulador da
teoria do Estado e do partido, o estrategista das conjunturas.
Pode uma obra tão fragmentária fornecer visões com­
pletas e satisfatórias sobre fenômenos tão diversos? Ou será
que Gramsci, mais que o autor de algumas centenas de pági­
nas. por vezes brilhantes, por vezes rudimentares, é um lugar
62 Nestor Garcia Canclini

imaginário onde situamos a fantasia de que o marxismo


volte a funcionar como fornecedor de receitas onicompreen-
sivas!
Acreditamos que, diante dessa dispersão interpretativa,
tenha-se escrito torrencialmente para tentar estabelecer qual
o verdadeiro Gramsci. Mas nos parece curioso que, na Amé­
rica Latina, essa paixão hermenêutica tenha permanecido
quase sempre uma tarefa especulativa. Publicou-se muito so­
bre hegemonia e revolução, sobre a concepção gramsciana do
Estado e do partido, da religião e da escola. Tentou-se, a
partir dos Cadernos do cárcere, explicar os equivalentes lati­
no-americanos do fascismo, da derrota da esquerda e da re­
construção dos movimentos políticos. Mas é raro que tais afir­
mações sejam postas à prova em investigações empíricas.
Uma carência particularmente significativa é a ausência
de Gramsci na maioria das investigações sobre culturas po­
pulares. Quando me pediram uma comunicação que anali­
sasse a possível contribuição de Gramsci para os estudos
latino-americanos sobre a questão étnica, reexaminei o índice,
publicado em 1981, dos 40 anos da revista América indígena,
a publicação que acompanhou de forma mais constante a
problemática étnica do continente: no catálogo de todos
os autores mencionados nos artigos dessa revista, Gramsci
não aparece uma única vez L
É verdade que, nos anos recentes, há muitos artigos e
alguns livros que recolhem elementos soltos de Gramsci —
sobretudo sua oposição entre hegemonia e subalternidade —
mas são escassos os trabalhos sobre cultura popular que dis
cutam globalmente seu pensamento e o vinculem com pesqui
sas de campo. A limitada influência de Gramsci nessa área
bem como sua recente adoção por alguns cientistas sociais
parecem-me sintomáticas das condições em que se investigam
as culturas populares na América Latina. Portanto, em vez
de tentar detectar como Gramsci é usado em relação ao popu­
lar nos textos reflexivos e apologéticos (que são a maioria.

I A m rrira indlgenisia — 40 anos de indice general, elaborado por


I llo MiiNrrrrcr K., México, Instituto Indigenista Americano, 1981.
I n ii in t
Gramsci e as culturas populares na America Latina 63

mas também os menos sugestivos), gostaria de indagar sobre


o que ele pode nos dizer em relação a alguns problemas
básicos da investigação sobre as culturas populares: como se
inseriu, que processos ajuda a entender e, também, o que
foi que a expansão entusiasta do gramscismo impediu por
vezes de pensar?

O popular: das derrotas políticas ao interesse


científico

Como explicar por que, até há bem poucos anos, as cul­


turas populares estavam ausentes nas investigações sobre a
hegemonia e o Estado, a mudança social e o desenvolvimen­
to? Por que, em um continente no qual as massas foram de­
cisivas nas revoluções, pelo menos a partir da mexicana de
1910, a cultura popular nunca foi um problema central nos
estudos políticos? Como entender a razão pela qual tantas
revoluções frustradas — a boliviana de 1952, as tentativas
de repetir a experiência cubana nesse e em outros países
não suscitaram trabalhos científicos sobre as causas das der­
rotas das massas e do motivo pelo qual elas nao atenderam
aos apelos das vanguardas? Foram necessários os recent^es
"triunfos” da repressão e o monetarismo para que reconhe­
céssemos a crise de todas as estratégias de modernização ou
mudança social: os desenvolvimentos, os populismos, os
marxismos. A partir de então, alguns Estados e as esquerdas
que levam a sério seus fracassos estão tentando conhecer e
entender os processos culturais. Surgem novas condições de
produção do conhecimento: pela primeira vez, a cultura nao
é unicamente motivo de reflexão especulativa em revistas lite­
rárias, mas se torna tema central das ciências sociais, de
congressos onde organismos nacionais e internacionais ana­
lisam a relação dela com o desenvolvimento e com o poder.
Cresce, sobretudo, o interesse pelas culturas populares: criam-
se museus para resgatá-las, centros de investigação para co­
nhecê-las, organismos estatais e de base para promover sua
expansão.
Nessa reconsideração do papel e da problemática das
culturas populares, a obra de Gramsci e de alguns antropólo-
64 Nestor Garcia Canclini

gOE italianos que a recolhem e a desenvolvem (Alberto M.


Cirese, L. M. Lombardi Satriani) está tendo um grande peso.
Podemos mencionar quatro contribuições básicas:
a) está contribuindo para conhecer o papel da cultura
na análise econômica e política;
b) fornece aos estudos sobre processos simbólicos uma
teoria social e política através da qual se torna possível
entender o significado e a função das práticas em cada setor
da cultura (estou me referindo a alguns trabalhos sobre co­
municação de massa produzidos no Brasil e sobre religiosi­
dade ®e medicina popular^, no México);
c) ajuda a situar as práticas e as políticas culturais dos
diferentes grupos num esquema de classe, sem o reducionis-
mo das análises stalinistas e lukacsianas, que haviam afu­
gentado muitos historiadores da arte, antropólogos e folclo-
ristas, por causa da incapacidade delas de reconhecer o sen­
tido próprio da produção simbólica ®;
d) como conseqüência disso, o popular deixa de ser de­
finido por uma série de características internas e por um re­
pertório de conteúdos tradicionais, anteriores à industrializa­
ção e à massificação da cultura (como ocorre no folclore),
e passa a ser caracterizado por sua posição frente às classes
hegemônicas
Todavia, a repercussão de Gramsci nos últimos anos
também fomentou usos parciais e esquemáticos de seu pen-

2. Cf., por exemplo, Carlos Eduardo Lins e Silva (coord.), Comuni­


cação, hegemonia e contra-informação, São Paulo, Cortez/Intercom,
1982, especialmente os artigos de Lins e Silva e Anamaria Fadul.
3. Gilberto Giménez, Cultura popular y religión en el Anahuac, Mé­
xico, Centro de Estúdios Ecumênicos, 1978.
4. Eduardo L. Menéndez, Poder, estratificación y salud, México, Edi-
ciones de la Casa Chata, 1981, era particular Cap. IV.
5. Para ver o novo tratamento que o uso de Gramsci possibilitou
nesses campos, cf. Sérgio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no
Brasil (1920-1945), São Paulo, DIFEL, 1979; Marilena Chauí, Semi­
nários, São Paulo, Brasiliense, 1983; Renato Ortiz, Cultura brasileira
& identidade nacional, São Paulo, Brasiliense, 1985.
6. Cf. G. Gimenez, cit., e N. Garcia Canclini, Las culturas populares
en el capitalismo. México, Nueva Imagen, 1982.
Gramsci e as culturas populares na América Latina 65

sarnento que entorpeceram o trabalho de investigação. Um


ponto-chave no qual a influência “gramsciana” engendrou
produtos questionáveis foi a redução dos processos sociais a
um esquema bipolar de classes. Quantos livros e teses foram
escritos supondo que a explicação dos processos sócio-cultu-
rais consiste em ver que fatos se deixam enquadrar numa
lista de "hegemônicos” em contraposição a uma de “ subal­
ternos”? Na verdade, a ressonância de Gramsci não fez mais
do que acentuar uma tendência maniqueísta de grande parte
dos estudos sobre culturas populares e sobre a relação entre
cultura e poder. Quando as complexas relações entre a hege­
monia e a subalternidade são reduzidas a um simples jogo
bipolar, minimiza-se a sutil distinção gramsciana entre do­
minação e hegemonia, descuida-se da “rede de intercâmbios,
empréstimos, condicionamentos recíprocos” entre as culturas
de diferentes classes, ou seja, das “formações intermediárias”
destacadas por Clrese

Dedução e indução: o debate sobre o método


A maioria dos trabalhos escritos sobre as culturas popu­
lares, independentemente da influência gramsciana, padece
de dois vícios teórico-metodológicos: o dedutivismo e o induti-
vismo. Chamamos de “dedutivistas” os que definem a cul­
tura popular partindo do geral para o particular, segundo os
traços que lhe teriam sido impostos: pelo modo de produção,
pelo imperialismo, pela classe dominante, pelos aparelhos
ideológicos ou pelos meios de comunicação de massa. Qs
“indutivistas”, ao contrário, são os que encaram o estudo do
popular a partir de certas propriedades que supõem intrínse­
cas às classes subalternas, ou a seu gênio, ou a uma cria­
tividade que os outros setores teriam perdido, ou a um poder
de impugnação que seria a base de sua resistência.

O dedutivismo
Para muitos autores, nos anos 60 e 70, e em grande parte
até hoje, analisar a cultura equivale a descrever as manobras

7. Alberto M. Cirese, Ensayos sobre Ias culturas subalternas. México.


CISINAH. 1979. pp. 53-4.
Nestor Garcia Canclini

da dominação. Os usos do marxismo, sua renovação estrutu-


ralista e depois semiológica, mais do que buscar a confronta­
ção desses modelos com as exigências dos novos objetos de
estudo, tentaram tomar mais astuciosas as análises da astú­
cia do poder. A teoria da dependência forneceu os instru­
mentos para que a crítica à dominação se especializasse em
desmistificar o imperialismo e sua manipulação das consci­
ências. Os novos objetos de estudo — a televisão, o rádio,
a publicidade —, por serem os setores culturais mais ligados
às corporações norte-americanas, confirmavam a fecundidade
da interpretação dependentista e contribuíram para superesti­
mar a ação dos dominadores sobre a consciência popular.
Mas não foram as análises críticas sobre o imperialismo
o único modo de descrever a realidade segundo uma metodo­
logia dedutivista. Também foram atribuídos poderes absolu­
tos ao “modo de produção”, na época em que fazer ciência
converteu-se em aplicar O capital aos “aparelhos ideológi­
cos”, durante a moda althusseriana, e aos meios ou aos có­
digos, nos estudos sobre comunicação de massa. Em todos os
casos, 0 dedutivismo se apoia em duas operações: primeiro,
substancializa os grandes agentes sociais e lhes atribui a posse
exclusiva do poder; depois, deduz de suas estratégias de do­
minação os efeitos sobre as culturas populares.
A metodologia dedutivista é usada com especial entu­
siasmo nos estudos sobre comunicação de massa. Eles con­
cebem 0 poder de “manipulação” das mídias como atributo de
um sistema monopolista que, administrado por uma minoria
de especialistas, poderia impor os valores e opiniões da bur­
guesia ao restante das classes. A eficácia desse sistema resi-
diria não só na ampla difusão que os meios eletrônicos pro­
porcionam às mensagens dominantes, mas na manipulação
inconsciente dos receptores. A história social e política refu­
tou várias vezes essa prepotência dos meios: por exemplo,
o triunfo eleitoral do peronismo em 1973, depois de 18 anos
de proscrição política e comunlcacional, e o fracasso da
direita econômica e militar, que dispunha dos canais de in­
formação, só podem ser entendidos se admitimos que as
mensagens de massa, para promover novas respostas polí­
ticas. precisam — além de ser percebidas por cada pessoa —

I
Gramsci e as culturas populares na América Latina 67

“obter uma sanção favorável do resto do grupo e, muito


em especial, de seus líderes. A experiência do indivíduo e
do seu grupo é tanto ou mais decisiva quanto a possível in­
fluência dos meios de comunicação de massa” ®.
Ê interessante destacar quais são os pilares “teóricos” do
dedutivismo nas análises comunicacionais. A partir da descri­
ção frankfurtiana da indústria cultural e dos primeiros textos
de Armand Mattelart (que depois modificou sua posição),
essa linha desenvolve uma concepção do poder que chama­
ríamos de “teológica”, já que o imagina como onipotente e
onipresente. Os consumidores são vistos como passivos exe-
cutantes das práticas impostas pela dominação, incapazes de
distinguir, entre as mensagens, quais as que lhes são bené­
ficas ou prejudiciais, qual é, no conjunto de bens, o valor
de uso (que se supõe “autêntico”), o valor de troca e o valor
simbólico (que se considera como “artificial”). A conseqüên-
cia metodológica é a crença de que basta o estudo dos obje­
tivos econômicos das mídias e da estrutura ideológica de suas
mensagens para que se possam deduzir as necessidades que
geram nos espectadores. Não se reconhece nenhuma autono­
mia às culturas populares, nem à relação entre consumidores,
objetos e espaço social.
As tendências dedutivistas produziram mais obstáculos
do que conhecimento sobre a vida das classes populares. Por
isso, deixaremos a discussão sobre como conhecer o popu­
lar para o próximo item, quando nos ocuparemos dos que
se dedicam ao seu estudo: os indutivistas. Deve-se fazer a
crítica de dedutivismo com relação ao que ele diz investigar:
o poder. Concebemos hoje o poder não como blocos de es­
trutura institucionais, fixados em tarefas preestabelecidas (do­
minar, manipular), nem como mecanismos de imposição ver­
tical de cima para baixo, mas como uma relação social disse­
minada em todos os espaços. Nas palavras de Foucault, não
devemos buscar o poder “num ponto central, num foco último
de soberania do qual irradiam formas derivadas e descenden­
tes”. Dado que o poder “não é algo que se conquiste”, não

8. Heriberto Muraro, Neocapitalismo y comunicación de masa, Buenos


Aires. Eudeba, 1974, em especial Cap. III.
6« Nestor Garcia Canclini

pode estar preso a uma instituição, às escolas, aos canais


de televisão ou ao Estado. Não é certa potência de que alguns
estariam dotados: “ É o nome que se dá a uma situação
estratégica numa dada sociedade”. São relações de força múl­
tiplas que se formam e atuam na produção, nas famílias e
nos indivíduos, que se fortalecem ao atuar conjuntamente
em todos esses espaços ®. Contudo, esse descentramento do
poder não deve levar a esquecer, como ocorre nas análises
foucaldianas, que o poder se sedimenta e se concentra em
instituições e agentes sociais. Se virmos apenas o poder disse­
minado, não poderemos hierarquizar as ações de diferentes
“instâncias” ou “dispositivos”: não é mesma coisa o poder
das multinacionais e o de um pai de família.
Em meio a esse debate, é útil recordar a linha que, de
Gramsci a alguns antropólogos recentes, diz que toda domi­
nação se fortalece na medida em’ que deixa de sê-lo para
se converter em hegemonia. Pode ser cômodo resumir em
abstrações como “a burguesia”, “o imperialismo” ou “as
mídias”, a responsabilidade pela organização material e ideo­
lógica da vida popular. Mas essa concepção apresenta dois
problemas. Em primeiro lugar, suprime a heterogeneidade
interna dos setores hegemônicos e a dos subalternos: para os
dedutivistas, os dominadores são um único bloco, enquanto
o mesmo ocorre com os dominados. Por conseguinte, as
investigações abarcam os atos mais evidentes de sujeição
sem considerar nem o fato de que os dominadores se ocupam
de algumas necessidades dos dominados, nem as respostas le-
gitimadoras que suscitam em alguns setores populares. Mesmo
os que defendem as ditaduras sabem que o consenso forçado
não é estável. Por isso, buscam fazer com que suas ações
pareçam úteis aos oprimidos. Não estamos negando a cota
de violência, real ou virtual, que está sempre implícita na
dominação e na desigualdade. O que queremos dizer, de
acordo com muitos exemplos antropológicos dados por Go-
delier, é que as relações de dominação e de exploração, para
se reproduzirem de modo duradouro, “devem se apresentar

V Michcl Foucault, Historia de Ia sexualidad. I La voluntad de


\aher, México. Siglo XXI. 1978, pp. 112-5.
Gramsci e as culturas populares na América Latina 69

como um intercâmbio, e um intercâmbio de serviços” entre


as classes As classes hegemônicas se tornam tais na medida
em que incluem nas instituições, nos objetos e nas mensagens,
em sua função e em seu sentido, não só seus interesses seto­
riais, mas também aquela parcela das culturas populares que
se revela útil e significativa para a maioria. Se não vemos
o povo como uma massa submissa que sempre se deixa iludir
sobre o que quer, temos de admitir que sua dependência
se deve, em parte, ao fato de que encontra na ação hegemô­
nica algo útil às suas necessidades.
Tomemos como exemplo os migrantes camponeses, em
muitos casos indígenas, que sentem que sua cultura local
(a língua, os hábitos cotidianos, as crenças sobre a natureza)
lhes dificulta a participação na vida urbana. Recebem da
cultura de massa a informação necessária para entender e
atuar “corretamente” em suas novas condições, para sair do
isolamento e deixar de ser “inferiores”. Talvez pudéssemos
compreender por que a televisão é tão atraente, até mesmo
no que se refere à publicidade de objetos que não podem
ser comprados, se, além de criticar a dominação, examinásse­
mos o serviço que ela presta às classes populares enquanto
“manual de urbanidade”, que indica como se vestir, comer e
expressar os sentimentos na cidade. Reconhecer isso não
significa minimizar a exploração. Ajuda apenas a entender
por que os oprimidos, percebendo que esse serviço não é
inteiramente ilusório, dão seu consenso, emprestam certa
legitimidade à hegemonia. Quando se trata de hegemonia
e não de simples dominação e coerção, o vínculo entre as
classes se apóia menos na violência de cima para baixo do
que no contrato, numa aliança na qual hegemônicos e su­
balternos contratam entre si prestações “ recíprocas”. A im­
portância objetiva e subjetiva desse intercâmbio explica por
que a exploração não aparece o tempo todo com o traço de
suas relações. Explica também o êxito do populismo — polí­
tico e comunicacional —, não tanto como operação mani-
puladora, mas por sua capacidade de compreender esse

10. Maurice Godelier, “La part idéelle du réel”. in VHomme. julho-


dezembro de 1978, XVIU, 3-4, pp. 176-83.
70 Nestor Garcia Canclini

vínculo, essa necessidade recíproca entre classes opostas. A


fragilidade dessas alianças interclassistas na América Latina
deriva, entre outras coisas, das dificuldades que têm as clas­
ses hegemônicas de desenvolver de modo combinado a dis­
tribuição no plano do consumo e o crescimento na produção.
Primeira conclusão; este item poderia intitular-se “com­
portamento nos elevadores” . Para as teorias que resenhamos,
as classes sociais são grupos compactos que só sobem ou
descem; não parecem desenvolver outra atividade além de
se alinhar no interior de um bloco que se deslocará ver­
ticalmente ou que tentará fazê-lo. Com freqüência, as descri­
ções da luta de classes dão a impressão de que, enquanto
se processa essa luta, será suspensa toda interação, tal como
no elevador, como se no interior de cada classe as relações
fossem impessoais, entre desconhecidos. Como se não hou­
vesse diferenças e conflitos internos entre os que se situam
perto do painel de controle ou os que se põem no fundo,
entre os que entram primeiro ou no fim, entre os que che­
gam com a família ou os que viajam sós. Chamamos de “de-
dutivistas” as teorias macrossociais que inferem “dos grandes
movimentos da história” o sentido do que ocorre nos setores
subalternos, esquecendo-se de que esses movimentos se cons­
tróem a partir das interações básicas que os grupos estabele­
cem na vida cotidiana, e de que por vezes eles se frustram
quando se busca realizá-los sem tais interações.

O indutivismo

Na década de 70, os estudos feitos a partir do modelo


anterior revelaram sua unllatejalidade, seu fatalismo, suas de­
ficiências para explicar muitos aspectos das culturas popula­
res. A influência gramsciana foi útil, nesse momento, para
indicar como devia ser considerada a capacidade de réplica
e a autonomia das classes subalternas. Mas, nessa tarefa, duas
tendências — bastante difundidas anteriormente no pensa­
mento latino-americano — fomentaram um exagero oposto
ao do dedutivismo; o culturalismo antropológico e o popu-
lisino político.

1
Gramsci e as culturas populares na América Latina 7/

A antropologia e o folclore, que durante décadas foram as


únicas disciplinas dedicadas ao conhecimento do popular, con­
tribuíram — porque restringiam o objeto de estudo — para
identificá-lo com o tradicional, o camponês e o indígena,
isolando supostas propriedades imanentes dessas “comunida­
des tradicionais”. Seus trabalhos, muito sensíveis ao especí­
fico de cada grupo, tendem a marcar a diferença sem ex­
plicar a desigualdade que os confronta, e os vincula a ou­
tros setores. Pretendem dissimular as distâncias entre culturas
desiguais com a doutrina do relativismo cultural, afirmando
que todas são valiosas à sua maneira. O pseudo-igualitarismo
relativista serviu para que as políticas indigenistas, sob o
pretexto de conservar algumas características próprias dos
grupos étnicos, institucionalizassem a marginalização desses
grupos e mascarassem a soberba com que os Estados costu­
mam segregá-los. (Géza Roheim dizia que, ao escutar os
antropólogos pregando o relativismo, parecia-lhe escutar o
seguinte: “Você é completamente diferente, mas eu o perdoo
por isso”.)
Uma das conseqüências metodológicas dessa concepção
na prática de muitos antropólogos (que tentam assumir com
seriedade a especificidade e o direito à autonomia dos indí­
genas, mas que o fazem a partir de uma concepção imanentis-
ta do popular) é que analisam as culturas subalternas utili­
zando somente o relato dos autores. Dado que o entrevistado
se define como indígena, a investigação consiste em “resga­
tar” o que ele faz em seus próprios termos; a tarefa antro­
pológica ou folclorista se reduz a duplicar “fielmente” o
discurso do informante. Ou, se ele se define como operário,
será necessário crer — já que ninguém conhece melhor do
que ele o que se passa — que sua condição e sua consciência
de classe são tais como ele as apresenta. Esse empirismo
ingênuo desconhece a divergência entre o que pensamos e
nossas práticas, entre a autodefinição das classes populares
e o que podemos saber sobre a vida delas a partir das leis
sociais em que estão inseridas. Opera como se conhecer fosse
aglomerar fatos segundo seu aparecimento “espontâneo”, em
vez de construir conceitualmente as relações que lhes dão
sentido na lógica social.
72 Nestor Garcia Canclini

O folclore radicaliza o tradicionalismo antropológico.


Não somente limita o popular às manifestações camponesas e
indígenas, mas também reduz as investigações — salvo nos
autores gramscianos e em poucos outros — à coleta de obje­
tos e à descrição de seus valores formais. Por isso, a maioria
dos textos sobre artesanatos, festas e músicas tradicionais
cataloga e exalta os produtos populares, sem situá-los na
lógica presente nas relações sociais. Essa descontextualização
é ainda mais patente nos museus de folclore ou arte popular.
Exibem as vasilhas e as roupas despojando-as dé qualquer
referência às práticas cotidianas para as quais foram produ­
zidas. São excepcionais os que incluem as formas contem­
porâneas de cultura popular. Limitam-se, ao contrário, a listar
e classificar aquelas peças que representam as tradições e que
se destacam por sua resistência ou indiferença às mudanças.
“Pensar a ‘cultura popular’ como sinônimo de ‘tradição’ —
afirma Antonio Augusto Arantes, referindo-se ao Brasil, mas
numa observação válida para toda a América Latina — é
reafirmar a idéia de que sua Idade de Ouro ocorreu no
passado. Por conseguinte, as sucessivas modificações por que
necessariamente passaram esses objetos, concepções e prá­
ticas não podem ser compreendidas a não ser como per­
turbadoras e empobrecedoras. O que se considera como ten­
do tido plena vigência no passado só pode ser interpretado
no presente como curiosidade. Desse ponto de vista, a ‘cul­
tura popular’ surge como ‘outra’ cultura que, em contraste
com 0 saber culto dominante, apresenta-se como ‘totalidade’,
embora seja construída, na realidade, através da justaposição
de elementos residuais e fragmentários considerados como
resistentes a um processo ‘natural’ de deterioração”
Essa concepção do popular tem influência em muitos
espaços acadêmicos; mas essa influência é maior ainda no
modo de produzir conhecimento e em sua difusão por parte
das instituições estatais e dos meios de comunicação de mas­
sa. Aparece nos museus e nos livros, nos programas folcló­
ricos do rádio e da televisão, nos grupos artísticos que re-

11. Antonio Augusto Arantes, O que é cultura popular, São Paulo,


Mriislllense, 19S1, pp. 17-8.

i
Gramsci e as culturas populares na América Latina 13

criam para públicos urbanos a música e as danças tradicio­


nais, mostrando o produto e ocultando o processo social que
o engendrou, selecionando o que melhor se adapta à estética
"ocidental” e eliminando os sinais de pobreza ou os conflitos
que originaram os cantos e as danças. O folclore realiza uma
dupla redução: da pluralidade e da diversidade das culturas
populares à unidade da “arte” ou da “música” nacionais; e
dos processos sociais aos objetos ou à expressão coisificada
que adquiriram em épocas passadas.
No campo político, o populismo converge com essa ten­
dência acadêmica e comunicacional. Num texto anterior
analisei duas das principais correntes do populismo latino-
americano. A que chamamos de biológico-telúrica submete a
cultura à natureza, afirma que ser povo é ser uma força
originária, um conjunto unido por laços físicos (o espaço
geográfico, a raça) ou irracionais (o amor a uma mesma terra,
uma religião que expressa verdades “naturais”); vimos que
esse pensamento, próprio do modo de relacionar a natureza
como a história em épocas de baixo desenvolvimento das
forças produtivas, beneficia os setores oligárquicos que obti­
veram hegemonia em tais períodos. A outra concepção, que
chamamos de estatista, embora seja gerada fora das classes
subalternas, consiste em fazer com que essas aceitem que o Es­
tado condense os valores populares, revolucionários ou nacio­
nais, concilie os interesses de todos e arbitre seus conflito; a
organização corporativa dessa “participação" popular pode es­
tar apoiada na figura mitologizada de um líder (Vargas, Perón)
ou numa estrutura partidária-estatal hierarquicamente coesa
(o sistema mexicano).
Cresceu também, nos últimos anos, um populismo de es­
querda. O avanço de movimentos políticos revolucionários,
desde a revolução cubana até a nicaragüense, fomentou uma
idealização da cultura política das classes populares. Alguns
grupos insistem tanto na contraposição entre cultura subal­
terna e cultura hegemônica, na necessidade política de defen­
der a independência da primeira — fundamentando essa exi-

12. N. Garcia Canclini, Las políticas ciiiturales en América Latina.


Lima. IPAL, 1983.
74 Nestor Garcia Canclini

gêncía, por vezes, em Gramsci — , que ambas são pensadas


como exteriores uma à outra. Na pressuposição de que a
tarefa da cultura hegemônica é dominar, enquanto a da su­
balterna é resistir, muitos estudos parecem não ter nada mais
a investigar além dos modos pelos quais uma e outra cultura
desempenham seus papéis nesse roteiro. À oposição mais
difundida entre hegemonia e subalternidade, agrega-se em
alguns trabalhos o enfrentamento entre a “narcotização” das
mensagens dominantes e a “impugnação” dos atos populares.
Ambas essas noções, tomadas dos livros de Lombardi Sa-
triani nos quais (apesar do maniqueísmo) apresentam uma
certa sofisticação, tornam-se em alguns textos simples eti­
quetas; consideram o hegemônico e o subalterno como pro­
priedades intrínsecas dos discursos e práticas, e não como
modalidades, ambíguas e transitórias, dos conflitos em que se
articulam.
Nos últimos anos, assistimos à multiplicação de trabalhos
que descobrem por toda parte a resistência popular, baseando-
se mais em aspirações políticas do que nas escassas descri­
ções científicas (ou, então, confundindo-as). São atribuídas
propriedades de resistência contra o poder a fatos que são
simples recursos populares para resolver seus problemas ou
organizar a vida à margem ou nos interstícios do sistema he­
gemônico (solidariedade de bairro, festas tradicionais). Em
outros casos, as manifestações de pretensa “impugnação” ou
“contra-hegemonia” representam sobretudo a ambigüidade, o
caráter não resolvido das contradições das classes subalter­
nas (por exemplo, defesa de interesses localistas, que não
põem em discussão os pilares básicos da exploração que os
originou). Para saber se tais fatos podem passar da condição
de mera auto-afirmação conservadora à de resistência revo­
lucionária, deve-se começar por reconhecer neles compo­
nentes que misturam o autônomo com a reprodução da ordem
imposta, e que, portanto, não podem ser situados no quadro

l.t. I.. M. Lombardi Satriani, Antropologia cultural. Análisis de la


cultura .subalterna, Buenos Aires, Galerna, 1975; Apropriación y des-
irucciiin de la cultura de la.s clases subalternas, México. Nueva Ima-
tien, IV7K,

1
Gramsci e as culturas populares na América Latina 75

de uma polarização extrema voltada apenas para registrar


confrontações.
O que será que vai ocorrer agora com os movimentos
populistas, no momento em que a crise econômica interna­
cional e a reorganização monetarista da sociedade elimina­
ram as suas bases econômicas (não há excedente para dis­
tribuir), no momento em que as ditaduras militares e/ou a
perda de representatividade dos grandes partidos dificultam
os setores populares de encontrar formas de participação? O
populismo tornou-se uma opção quase impraticável do ponto
de vista hegemônico. Dizemos “quase” porque, apesar das
carências econômicas e organizativas, existem duas possíveis
ressurreições; o populismo autoritário, como o que Gualtieri
conseguiu de modo efêmero durante a Guerra das Malvinas,
e o populismo como sistema cultural dos grupos subalternos.
Interessa-me destacar que esse último é não só conseqüência
de uma “inércia” da cultura para além do desaparecimento
das condições econômicas e políticas, mas também uma linha
promovida por algumas tendências de esquerda. Em “ movi­
mentos de base”, setores “alternativos” e grupos procedentes
dos partidos populistas, ressurge a crença na “natureza pura”
do povo como único recurso contra a crise dos aparelhos
políticos e dos modelos ideológicos.
Segunda conclusão: o que têm em comum o folclore e o
populismo? Ambos escolhem objetos empíricos particulares
e “concretos”, absolutizam seus traços imediatos e aparentes,
e inferem indutivamente — a partir desses traços — o lugar
social e o destino histórico das classes populares. Na autono-
mização que a antropologia faz das comunidades tradicionais,
o folclore dos objetos arcaicos e o populismo de uma sabedo­
ria natural dos oprimidos, o que fica fora de questão é o rela­
tivo êxito com que o capitalismo reorganizou as sociedades
e as culturas latino-americanas. Embora a ineficácia da hege­
monia e a persistente resistência popular impeçam deduzir das
políticas imperialistas ou dos meios de comunicação de massa
o modo como cada grupo vive, tampouco se deve cair no
erro inverso: imaginar que as classes oprimidas possam con­
servar intacta uma essência a-histórica, ou que sejam capazes
76 Nestor Garcia Canclini

de se autodeterminar independenteniente das mudanças glo­


bais que as envolvem.
Mas não é só a questão do conhecimento que está cm
jogo. Quando o dedutivismo e o indutivismo se negam a
pensar a discrepância entre as leis macrossociais e as condi­
ções concretas das classes populares, o que estão também
excluindo é o problema dos fracassos políticos; por que a
hegemonia não consegue se reproduzir na cotidianidade de
alguns setores, por que tantos projetos populares de trans­
formação não são capazes de alterar a estrutura social? Para
responder a essas perguntas, tem-se de ir além das afirmações
doutrinárias do tipo “devemos relacionar dialeticamente o teó­
rico e o empírico”; tem-se de construir os instrumentos que
articulam a ordem social e as condições particulares de cada
grupo. Mas, com isso, começamos a descobrir alguns proble­
mas situados na fronteira entre o dedutivismo e o indutivis­
mo, nos vazios deixados por ambos. Vejamos por onde vale-
ria a pena prosseguir.

F olclore versus modernidade

A questão que até aqui colocamos, em seu aspecto me­


todológico, corresponde a uma oposição político-cultural. Nos
termos de Gramsci, é a confrontação entre o folclore, enten­
dido como “aglomerado indigesto de fragmentos” de diferen­
tes concepções do mundo e a cultura nacional-popular,
como uma concepção do mundo, um “humanismo moderno”,
adequado ao desenvolvimento atual do conhecimento, capaz
de unificar nacionalmente o povo e construir um bloco hege­
mônico que dirija a transformação social.
À luz dessa perspectiva, alguns autores afirmam que não
existiria na América Latina cultura popular com os compo­
nentes que Gramsci atribui ao conceito de cultura; a) uma
concepção do mundo; b) produtores especializados; c) porta­
dores sociais preeminentes; d) capacidade de integrar um

M. Anioniü Gramsci, “Observaciones sobre el folklore”, in Literatura


V vlitii tuirionitl. Buenos Aires. I.autaro. 1961. p. 240.

I
Gramsci e as culturas populares na América Latina 77

conjunto social, de levá-lo “a pensar coerentemente e de for­


ma unitária”; e) tornar possível a luta pela hegemonia; f)
manifestar-se através de uma organização material e institu­
cional O que habitualmente se chama de “cultura popu­
lar” nesses países multiétnicos, onde existem tradições regio­
nais diversas, estaria mais perto — no vocabulário gramsciano
— do conceito de folclore. Mas o problema é que esses uni­
versos de práticas e símbolos antigos foram perecendo ou se
debilitando em função do desenvolvimento capitalista. As mi­
grações do campo para a cidade desenraizaram muitos pro­
dutores e usuários do folclore, incorporando-os a um meio
urbano organizado conforme as leis da modernidade. Diante
da ação da escola e das indústrias culturais, o folclore só
pode oferecer “estados de consciência dispersos, fragmenta­
dos, onde coexistem elementos heterogêneos e diversos estra­
tos culturais tomados de universos bastante diferenciados.”
As formas culturais tradicionais mantêm certa coesão e resis­
tência em comunidades indígenas ou zonas rurais, em “espa­
ços urbanos de marginalidade extrema”; mas, mesmo nesses
casos, avança a exigência de educação formal. Essa cultura
popular, que a rigor seria mero folclore, acha-se exposta a
uma interação crescente com a informação, a comunicação e
as diversões produzidas de modo industrial e massificado. “As
favelas e as periferias de nossas grandes cidades encheram-se
de rádios transistores; nas zonas rurais, avança a instalação de
torres repetidoras de televisão; o rock é a linguagem universal
das festas juvenis, atravessando os diversos grupos sociais
Contudo, outras linhas de pensamento defendem uma in­
terpretação oposta. A tendência mais consistente pode ser
encontrada no etnicismo, segundo o qual, nos grupos indíge­
nas, mantém-se viva uma reserva política e cultural liberta­
dora. A permanência de cerca de 30 milhões de indígenas na
América Latina, com territórios diferenciados em muitos paí-

15. É o que enuncia José Joaquín Brunner, Notas sobre cultura po­
pular, industria cultural y modernidad, Santiago do Chile, hLACSO.
1985. pp. 6-9.
16. Idem. p. 27.
17. Idem, p. 29.
78 Nestor Garcia Canclini

ses, com línguas e histórias comuns, hábitos de trabalho e de


consumo que os distinguem dos demais grupos, por vezes
com organizações políticas próprias, não são — diz Guiller-
mo Bonfil — “um fenômeno residual, um anacronismo inex­
plicável, nem um traço de colorido folclórico sem maior im­
portância” Embora esses autores não se refiram a Gramsci,
pode-se ler a afirmação de que “os grupos étnicos são ‘na­
ções em potência’, unidades capazes de ser o campo social da
história concreta” como uma concepção contrária à pro­
posta gramsciana de que o folclore deve ser superado por
uma cultura nacional-popular adequada ao desenvolvimento
moderno.
Como participar desse debate? As culturas populares são
sobrevivências pré-capitalistas em processo de extinção, inca­
pazes de atuar como agentes transformadores? Ou podemos
considerá-las como uma alternativa ao desenvolvimento hege­
mônico, precisamente por causa do caráter “disfuncional” de
seus hábitos de produção e consumo, de suas crenças imper­
meáveis ao saber que lhes é imposto, por causa de suas festas
nas quais o gasto do excedente zomba da lógica mercantil
da acumulação? Quase toda a bibliografia produzida na Amé­
rica Latina expõe argumentos doutrinários para fundamentar
uma ou outra posição, mas dispomos de poucos trabalhos de
investigação destinados a averiguar, sem preconceitos ou com
o mínimo possível deles, como funciona a contradição entre
hegemonia e subalternidade.
De um e de outro lado, podem-se invocar dados que pare­
cem decisivos. Os que afirmam o crescimento irreversível da
modernização apresentam cifras impressionantes sobre o au­
mento dos aparelhos de rádio e de televisão, da matrícula
escolar, inclusive da educação universitária: enquanto em
1950 os estudantes de nível superior na América Lati­
na mal ultrapassavam os 250.000, já chegavam em 1980

IK. Guillermo Bonfil (org.), Utopia y revolución. El pensamienio


contemporâneo de los Índios en América Latina, México, Nueva
Imiigen. 1981, p. 27.
19 i dcm. pp. 20-1.

1
Gramsci e as culturas populares na América Latina 79

a 5.380.000 Os que defendem a potencialidade política


autônoma das culturas tradicionais mencionam a resistência
a quatro séculos de opressão e desaculturação, o aumento da
produção artesanal no México e em algumas áreas andinas, a
subsistência de festas e práticas próprias e, inclusive, o au­
mento de pessoas que falam línguas indígenas em certas
regiões
Uma primeira observação a ser feita em face desses
dados aparentemente contraditórios é que talvez as posições
em favor da modernização inexorável e da resistência persis­
tente das culturas populares sejam regionalmente verdadeiras,
mas nenhuma das duas tem o direito de generalizar-se como
proposta política ou cultural. Também poderiamos afirmar
que ambas as posições se beneficiariam se levassem em conta
o problema metodológico enunciado no item anterior: com
efeito, as generalizações dos “modernizadores” costumam
deduzir abusivamente de uma teoria geral do desenvolvimento
capitalista o sentido particular de processos populares não
redutíveis a essa legalidade macrossocial; ao contrário, as
generalizações etnicistas induzem, da observação de casos
particulares, a condição global das culturas populares.
Mas essas anotações são muito elementares. Se quisermos
encarar com seriedade o problema científico — conhecer a
diversidade das culturas populares e sua complexa inserção
no sistema hegemônico — e o problema político — sair do
círculo do voluntarismo e dos fracassos —, parece indispen­
sável estudar melhor os processos de continuidade e descon-
tinuidade, de alianças e conflitos, entre “o tradicional” e “o
moderno”.

Um final pouco con fortá vel

Quando redefinimos desse modo o objeto de investiga­


ção e das práticas políticas — ou seja, quando aceitamos

20. Juati Carlos Tedesco, “5.380.000 preguntas al futuro. La educa-


ción superior en América Latina”, in Nueva Sociedad, 76, março-abril
de 1985, p. 28.
21. G. Bonfil. op. cit., introdução.
80 Nestor Garcia Canclini

que as perguntas-chave não são como o folclore sobrevive nem


como desaparece ou se subordina à cultura hegemônica, mas
sim de que modo interage com ela —, os resultados começam
a se tornar incômodos para as posições acadêmicas e políti­
cas tradicionais. Também abalam algumas das certezas mais
enraizadas que tínhamos sobre a potencialidade revolucioná­
ria das classes populares. Como exemplos de formas em que
a situação se torna mais complexa, gostaríamos de nos refe­
rir a duas análises sobre a interação entre setores hegemô­
nicos e subalternos no México, realizadas por Eduardo Me-
néndez. Seu estudo sobre a saúde e o poder em lucatán tem
o interesse de usar e discutir a contribuição gramsciana para
o conhecimento e a avaliação da cultura popular, vinculan­
do-a aos problemas que emergem da investigação empírica.
Por isso, vale-se tanto dos textos de Gramsci como da elabo­
ração que deles fez Ernesto de Martino em seu trabalho an­
tropológico.
Uma das contribuições de de Martino no sentido de
dissolver a relação bipolar entre o hegemônico e o subalterno,
e de tornar visíveis processos intermediários de maior com­
plexidade, deriva de sua pergunta sobre a possibilidade de as
classes populares criarem uma alternativa ao desenvolvimento
capitalista. Menéndez coincide, a partir de sua própria inves­
tigação sobre os maias, com uma das descobertas feitas por
de Martino em seus estudos sobre o campesinato meridional
italiano: com freqüência, a única alternativa gerada pelos
setores subalternos são as técnicas mágicas, mediante as quais
tentam controlar o “risco” e a dominação. Já que o atraso
sócio-econômico, a fome, o desemprego, a falta de assistência
médica, etc., os fazem viver em “risco permanente”, os gru­
pos populares tendem a desistoricizar a realidade a fim de
conjurar o risco. “O mundo popular :ubalterno precisa deter
a história, repetir a segurança, embora essa gere um processo
de exploração e dominação. A superação das situações mais
críticas (doenças graves, morte, catástrofes, etc.) é obtida
mediante a desistoricização de seus processos” ^* realizada
pelo pensamento mágico. Podem essas técnicas, essa cultura,

22. Bduardo L. Menéndez. op. cii., pp. 405-6.


Gramsci e as culturas populares na América Latina 81

que desistoriciza o risco, superá-lo e mudar a situação real?


De Martino mostra que, se nos ocuparmos não só da explo­
ração econômica, mas da “miséria cultural” do camponês,
podemos evitar a idealização rousseauniana e perceber que a
mera continuidade das tradições subalternas pode consolidar
a dominação. “Somente a historicização, ou seja, a ruptura
— afirma Menéndez — , pode levar à apropriação de uma
alternativa.”
Outro caminho através do qual o mesmo autor tenta
entender as condutas populares que colaboram com a hege­
monia é o conceito de transação. Por que é tão comum que
as classes subalternas apoiem os seus opressores? Como ex­
plicar por que as expressões mais enérgicas de protesto (“não
se pode viver assim”, “o povo não agüenta mais ) só em
poucas ocasiões se convertem em apoio à greve ou à ação
armada que algumas pessoas estimulam levando em conta
aquele mal-estar? Por que a conduta mais freqüente das clas­
ses populares, pergunta Menéndez, não é o questionamento,
e sim a transação? Não se deve à falta de consciência sobre
as suas necessidades de saúde, nem sobre a opressão que
as agrava, nem sobre a insuficiência dos serviços estatais.
Mesmo nos casos em que dispõem de meios radicais de ação
para combater a desigualdade, optam por soluções interme­
diárias. Em face da crise econômica, reclamam melhorias
salariais e, ao mesmo tempo, autolimitam seu consumo. Di­
ante da hegemonia política, a transação consiste, por exem­
plo, em aceitar as relações pessoais para obter benefícios de
tipo individual. No plano ideológico, a transação aparece
como tendência a incorporar e valorizar positivamente ele­
mentos produzidos fora do grupo (critérios de prestígio, hie­
rarquias, desenhos e funções dos objetos). Diante dos proble­
mas de saúde, a conduta habitual não é impugnar a explora­
ção, mas acomodar-se ao uso da enfermidade pela medicina
privada ou se valer dos deficientes serviços estatais. Até mes­
mo a combinação de práticas científicas e tradicionais — ir
ao médico e ao curandeiro — é uma maneira transacional de
encarar a situação. Para Menéndez, a autodeterminação é o

23. Idem. p. 406.


S2 Nestor Garcia Canclini

caso paradigmático” : diante da origem da enfermidade e


de sua exploração econômica, as classes populares “tentam
estabelecer ações mínimas de eficiência, apropriando-se das
técnicas geradas de ‘fora’ e ‘pelo alto’ da comunidade, sem
chegar por isso a questionar o sistema de exploração” Por
vezes, a negociação é um modo de obter certa reciprocidade
dentro da subordinação, mas essas transações são geralmente
tão assimétricas que “ supõem não apenas o não questiona­
mento, mas sobretudo a aceitação e a ‘solução’ dos proble­
mas no interior dos limites estabelecidos pelas classes do­
minantes”
Poderiamos citar alguns outros estudos que mostram a
transação como um mecanismo constante na formação dos
produtos artísticos e culturais das classes subalternas. Penso
na investigação de Lloréns Amico sobre a “urbanização”
da valsa crioula peruana, uma história de reajustes estilísticos
através dos quais os criadores da música tradicional andina
foram adaptando-a à difusão pelo rádio, aos migrantes que
se instalam em Lima, ao cruzamento com formas musicais
novas Em meu próprio trabalho sobre as mudanças no ar­
tesanato tarrasco no México, descobri que as modificações da
iconografia e o desenho das peças não são unicamente táticas
para adequá-los ao consumo urbano e turístico; tal como suas
danças e obras teatrais, as vasilhas de barro e os tecidos são
espaços onde eles ensaiam novas relações sociais, nos quais
“resolvem” simbolicamente as contradições
Muitas vezes, como explica Menéndez, as transações —
por seu caráter assimétrico — são formas de auto-exploração.
Em outros casos, funcionam como reacomodações para pre­
servar a identidade. Em outros, ainda, como único recurso
para manter espaços de desenvolvimento social ou político
independentes. Mas o que nos interessa destacar, sobretudo.

24. Idem, p. 381.


25. Idem, p. 380.
26. José A. Lloréns Atnico, Música popular en Lima: crioUos y andi­
nos. Uma, instituto de Estudos Peruanos, 1983.
II N. Garcia Canclini, Las culturas populares en el capitalismo, cit.,
( iipii. V e VI,
Gramsci e as culturas populares na América Latina 83

é que 0 conhecimento dos processos transacionais revela a


complexa variedade de interações por meio das quais se rela­
cionam os setores hegemônicos e os subalternos.
A épica romântica da resistência popular costuma se
apoiar nos exemplos mais espetaculares de oposição: rebe­
liões, greves, manifestações contestatórias de rua. A análise
dos processos culturais na vida cotidiana mostra que, nos
longos intervalos entre essas explosões, as classes populares
articulam seu Inconformismo com a reprodução da cultura
hegemônica. A resistência é um árduo processo de reelabo-
ração do próprio e do alheio, de seleção e combinação, para
se proteger e se desenvolver em condições que as classes
subalternas não controlam. A força da dominação permite
poucas eclosões; a astúcia da hegemonia exige que se man­
tenham furtivamente, todos os dias, os usos heterodoxos dos
objetos, as manobras para se contrapor às hierarquias, as
pequenas táticas de sobrevivência. Uma atenção cuidadosa,
na ciência e na política, a essas transações e táticas, aos re­
cursos discretos e contraditórios com que as classes populares
organizam sua vida, capta de modo mais sutil as possibilida­
des e empecilhos dos movimentos populares.
Talvez nossa tarefa nos países latino-americanos consis­
ta na superação do folclore a fim de construir culturas na-
cional-populares e, ao mesmo tempo, na reivindicação da
riqueza das diferenças, no risco da pluralidade. É verdade que
essa oscilação gera incerteza. Por isso, para exorcizá-la, al­
guns preferem que a identidade popular seja fixada, de uma
vez por todas, pela raça, pela classe, pelo Estado. Como tra­
balhar com um aglomerado de fragmentos? Essa dispersão
não leva a mudanças parciais, a estratégias reformistas?
Poderiamos responder com outra pergunta; essa cons­
ciência mais diversificada e densa das condições sócio-cultu-
rais da mudança não servirá para fazer com que as transfor­
mações abarquem a totalidade das relações sociais, com que
os processos que começam como revoluções não terminem
por se converter em reformas?
Antonio Gramsd
e a esquerda mexicana

Arnaldo Córdova

Pela complexidade e pela riqueza de sua história, por


seu caráter paradigmático no conjunto da América Latina e
por ser um país em que se realizou uma das grandes revolu­
ções do século XX, 0 México pôde ser e continua sendo um
objeto de estudo verdadeiramente privilegiado para a análise
marxista e, especialmente, para a análise gramsciana.
Em nenhum outro país da América Latina, para dizer
o mais elementar, a política adquiriu tanta autonomia com
respeito à vida econômica e social; em nenhum outro se
registrou, tanto quanto no México, a evolução da política
daquilo que Gramsci chamaria de “guerra de posição” para
uma “guerra de movimento” ou de “ manobras” (no México
“oriente” e “ocidente” se encontram, se combinam e se fun­
dem); em nenhum outro faz-se de maneira tão complexa e
diferenciada a separação entre “sociedade civil” e “sociedade
política”; em nenhum outro, particularmente, a luta de classes
adquiriu caráter tão “corporativo” e, ao mesmo tempo, tão
institucional; em nenhum outro, enfim, as massas entraram
na política de forma tão variada, plena e distinta. Como afir-
86 Arnaldo Córdova

mou em certa ocasião o sociólogo brasileiro Francisco de


Oliveira, o México sempre representou para a América Latina
este de te fabula narratur em que se resume nossa inteira his­
tória continental e seu futuro.
Por tudo isso, resulta algo estranho e, ao mesmo tempo,
desolador constatar a escassa fortuna que Gramsci teve no
México, especialmente junto à esquerda e aos intelectuais. É
verdade que hoje, no México, são poucos os que falam de
política sem citar Gramsci, e quase não há intelectuais de es­
querda que não tenham lido ou ao menos folheado as obras
de Gramsci ou uma das antologias de seus escritos publicadas
em língua espanhola. Também é verdade que o México é
agora um dos países em que mais se publicou Gramsci, in­
cluindo até mesmo a última edição dos Quaderni. E um fato
verdadeiramente notável é que o léxico típico de Gramsci
passou hoje a fazer parte da fraseologia dos grupos gover­
nantes mexicanos, cujos expoentes, com o maior desembaraço,
falam continuamente do binômio “sociedade civil — socieda­
de política” e da “hegemonia” das forças políticas herdeiras
da Revolução Mexicana, chegando até a propor uma “renova­
ção moral” da sociedade e do Estado, que lembra bastante a
demanda gramsciana de uma “reforma intelectual e moral”
da sociedade. Mas esses são apenas fatos superficiais e até
certo ponto irrelevantes. A realidade é que Gramsci ainda
não conseguiu entrar em nossa cultura política e continua
sendo um estranho, inclusive para a maior parte dos intelec­
tuais de esquerda.
Os homens e seu modo de viver e de pensar são fruto
de suas circunstâncias, da sociedade em que se dão e das
tradições culturais de que são caudatários. Como não podia
deixar de ser, a esquerda mexicana é um resultado lógico
das condições em que se desenvolveu o país antes e depois
da Revolução Mexicana de 1910-1917. Diferentemente do
que ocorreu em outros países latino-americanos, como Argen­
tina, Uruguai e Chile, o México não recebeu uma massiva
imigração de europeus que, junto com uma força de trabalho
qualificada, produzissem também um acúmulo das mais avan
'.adas idéias políticas e sociais. Como se sabe, naqueles países

\L
Antonio Gramsci e a esquerda mexicana S7

sul-americanos o socialismo é, em grande parte, obra de tra­


balhadores imigrantes e de pequenos intelectuais europeus
que, já antes na Europa, tinham militado nos movimentos
socialistas e revolucionários.
No México foram também europeus os que introduziram
as idéias revolucionárias; a obra deles, porém, não foi a de
uma grande corrente migratória e sim a de uma aventura
pessoal. Além do mais, no México não aportaram revolucio­
nários marxistas ou social-democratas, mas preferentemente
anarquistas da mais antiga formação, radicais e sectários, atra­
sados e de escassa cultura, que desprezavam a ação de mas­
sas e preferiam as catacumbas da clandestinidade e o golpe
de mão (a “ ação direta”, como costumavam dizer até os anos
20). Sua obra educativa entre as massas trabalhadoras foi
totalmente marginal; mas suas idéias, que forjaram a cons­
ciência da esquerda revolucionária, assentaram-se fortemente
e ainda hoje pesam como uma lápide irremovível sobre os
hábitos, os usos e costumes e sobre a ideologia da esquerda
mexicana. Em correspondência com seu anarquismo tosco e
atrasado, os primeiros esquerdistas mexicanos partiam da
convicção inicial e globalizante de que o inimigo “de classe”
deve ser destruído enquanto se leva a cabo a revolução, que
o Estado é tão-somente a força protetora do capital e uma
máquina de opressão que deve desaparecer a todo custo,
bastando o próprio ato da revolução para fundar a nova
sociedade, igualitária e livre de opressores.
Muitos destes antigos esquerdistas, anarquistas revolu­
cionários, estão entre os primeiros precursores e iniciadores
da Revolução Mexicana. Ricardo Flores Magón, Praxedis
Guerrero, Lázaro Gutiérrez de Lara, para mencionar apenas
alguns, estão incluídos no santuário laico e patriótico da Re­
volução Mexicana, e para muitos a sua ação foi tão impor­
tante que sem ela, talvez, a Revolução mesma não teria ocor­
rido ou, pelo menos, teria se retardado por muito tempo.
Eles podem ser encontrados entre os primeiros críticos da
ditadura porfirista, e entre seus inumeráveis méritos deve ser
incluído o de terem sido os organizadores das primeiras gran­
des greves de operários que sacudiram, em seus próprios
alicerces, o Estado oligárquico porfiriano e constituíram os
ss Arnaldo Cordova

antecedentes imediatos da revolta das massas que culminou


na eclosão da Revolução em 1910. As greves de Cananea
(1906) e Rio Blanco (1907) e as ações de guerrilha desen­
volvidas pelos anarquistas mexicanos prepararam o ambiente
e anteciparam as causas das quais surgiría a Revolução. To­
dos reconhecem tal fato. Os anarquistas (que se autodeno­
minavam “liberais” ou “libertários”) foram também os auto­
res do mais consistente programa revolucionário, antecedente
da Constituição de 1917 e ideário de todos os grupos que
pegaram em armas contra a ditadura: o Programa do Partido
Liberal de 1906.
Com muita razão afirmou-se que a Revolução Mexicana
foi, essencialmente, obra das massas camponesas. Em fins do
século passado e princípios do atual, com efeito, a classe
operária estava apenas nascendo. Mais bem organizada que as
massas rurais, a classe operária jogou o extraordinário papel
de detonador do movimento revolucionário, muito mais do
que qualquer outro grupo, mas não foi e nem podia ser a
base social de um grande movimento revolucionário de mas­
sas. Os exércitos revolucionários, de todos os bandos (ma-
deristas, orozquistas, zapatistas, villistas e carrancistas), fo­
ram integrados fundamentalmente por lutadores provenientes
do campo, enquanto a pequena e nascente classe operária se
convertia em simples espectador do furacão revolucionário
que desabava sobre ela.
Para os dirigentes anarquistas, incluídos os mais radicais,
como Ricardo Flores Magón, aquela era uma luta “pelo
poder que, por isso mesmo, não podia interessar como tal à
classe operária. Para os explorados, diziam, não se tratava
de conquistar o Estado, mas de destruí-lo. Acreditavam que
os grupos revolucionários que lutavam pelo poder e se ani­
quilavam uns aos outros acabariam por subjugar as massas
trabalhadoras da mesma forma que seus antigos opressores.
Os mais radicais pregavam a luta contra os novos amos,
inclusive com o recurso às armas; os menos radicais sim­
plesmente suportavam o temporal para ver quais seriam os
vencedores que governariam o país após a tempestade. De
qualquer forma, a Revolução terminou sem que a classe ope-

ll
niria dela tivesse participado ativamente, posto que sempre
Anionio Gramsci e a esquerda mexicana 89

esteve dominada por grupos anarquistas e oportunistas, cujo


ódio ao grande Leviatã, o Estado que surgia, não os impediu,
muitas vezes, de se venderem ao melhor comprador.
No entanto, a Revolução foi um grande movimento mo-
dernizador das estruturas sociais e, embora seja certo que
muito pouco deveu à classe operária como movimento social,
ideológico e político, o fato é que ela criou de imediato as
condições que fizeram da própria classe operária o fator mais
importante da luta política na nova sociedade. Como ocorre
com toda grande revolução burguesa, seu primeiro objetivo
foi cumprido com a criação de um verdadeiro Estado mo­
derno no México, um Estado como poder autônomo e inde­
pendente dos diferentes grupos e classes sociais. A política,
agora como política institucional, converteu-se em política
de massas e nela a classe operária passou a ser o elemento
sobre o qual começou cada vez mais a se fundar a direção
do Estado sobre a sociedade. Mesmo que lentamente, a in­
dústria e o comércio voltaram a ganhar novo impulso, e logo
o México superou os níveis de desenvolvimento que havia
alcançado durante o porfirismo. Em conseqüência, a classe
operária também cresceu, em número e em qualidade política,
até se converter na classe popular mais importante.
Em 1919 nasceu o Partido Comunista. Foi um fato im­
portante da história política do México, embora extraordina­
riamente marginal com respeito à história geral do país e,
em especial, à história que naquele momento vivia a classe
operária mexicana. Mesmo assim, representava o nascimento
de uma nova esquerda e, em certo sentido, também de uma
nova perspectiva na situação social, econômica e política
criada pela Revolução Mexicana. Como não podia deixar de
ser, seu referencial era a Revolução Russa. A Revolução
Mexicana estava concluída, era história passada, e para os
comunistas de então abriu-se a perspectiva de uma nova
revolução”, que se concluiría com a “ tomada do poder” por
parte da classe operária. Da Revolução Russa conheciam-se
apenas os dados exteriores e mais gerais: lá a classe operária,
dirigida pelo partido dos bolcheviques, havia tomado o poder.
Mas o dramático era que os comunistas tampouco conheciam
muito da Revolução Mexicana, apesar de a terem vivido na
90 Arnaldo Córdova

própria carne; acabavam por aceitar uma versão vulgarizada


dela, que dizia ter sido a revolução popular traída e mani­
pulada por grupos minoritários e arrivistas. Muitos de nossos
primeiros comunistas eram provenientes do anarquismo, e em
seu modo de pensar e agir não se diferenciavam muito dos
antigos anarquistas, dogmáticos, sectários e sobretudo anti-
estatistas.
Embora tenham mantido uma certa presença até fins
dos anos 30, os antigos anarquistas foram varridos da di­
reção dc movimento operário. A classe operária, em seu
novo desenvolvimento, abandonou por completo o credo anar­
quista para se entregar plenamente à fantasia ideológica da
“aliança” entre a classe operária e o “campesinato” por um
lado e o Estado da Revolução Mexicana por outro. As gran­
des organizações de trabalhadores dos anos 20 e 30 já
não seriam mais dirigidas por elementos radicais cujo pri­
meiro objetivo era “destruir” o Estado, mas por novos grupos
políticos cujo objetivo era preservar o Estado da Revolução e,
no melhor dos casos, buscar desenvolver uma ação revolu­
cionária e transformadora da sociedade através deste próprio
Estado. O ponto de partida destes últimos era, assim, a
Revolução Mexicana.
Destes grupos nasceu uma figura singular da história
política do México e, em especial, da história da esquerda e
da classe operária mexicanas: Vicente Lombardo Toledano,
militante das organizações operárias dos anos 20, primeiro,
e depois o mais importante dirigente das classes trabalhadoras
durante os anos 30. Intelectual de ampla cultura univer­
sal e orador extraordinário, Lombardo nasceu e evoluiu ideo­
logicamente no horizonte da Revolução Mexicana. Jamais dei­
xou de ser uma criatura dela; o socialismo, para ele, deveria
chegar através da brecha aberta pela Revolução Mexicana.
No fina! des anos 20 Lombardo tornou-se marxista, mas
sempre se recusou a entrar no Partido Comunista. Era para
ele inaceitável a recusa dos comunistas à Revolução Mexicana
e sobretudo à ação do Estado dela surgido. Curiosamente, o
homem da III Internacional no México e, em mais de
um sentido, na América Latina, foi Lombardo, quando na
Anionio Gramsci e a esquerda mexicana 91

segunda metade dos anos 30 floresceu a estratégia da "fren­


te popular” .
A esquerda comunista sempre se opôs a Lombardo,
apesar de ter ele se convertido ao marxismo, precisamente
porque para ele era vital apoiar o Estado nascido da Revolu­
ção Mexicana. Nos anos 20, antes de ser marxista, Lom­
bardo caracterizava o Estado da Revolução como uma orga­
nização política colocada por sobre as classes sociais e que
servia para impor o equilíbrio entre elas e realizar a justiça
social definida entre os objetivos da Revolução. lá como
marxista e como grande dirigente do movimento operário,
nos anos 30, Lombardo sustentou a teoria das etapas no
desenvolvimento da revolução socialista que caracterizou a
linha da Internacional: o México chegaria ao socialismo, que
era inevitável, mas antes devia travar uma luta nacionalista
para se libertar da dominação imperialista — luta na qual o
proletariado faria frente comum com todas as classes sociais
mexicanas. Neste processo o papel do Estado era de uma
importância vital: sem ele, influenciado pelas classes popula­
res, o trânsito para o socialismo seria impossível. Anos depois,
logo após ter sido expulso do movimento operário pelos^ diri­
gentes oficialistas, Lombardo fundou, com a colaboração de
vários importantes homens de esquerda, um novo partido que
desejava ser o elo de ligação entre os objetivos históricos da
Revolução Mexicana e a demanda marxista da revolução so­
cialista — o Partido Popular, que hoje, passados mais de
quinze anos da morte de Lombardo, se apresenta como o
partido que deve levar a Revolução Mexicana até o socialis­
mo, naturalmente em aliança com o Estado, na luta para
libertar nosso país do domínio imperialista. Com esta ban­
deira, 0 Partido Popular (agora Partido Popular Socialista)
convêrteu-se num dos mais fiéis aliados dos grupos governan­
tes do México.
De sua parte, os comunistas permaneceram fiéis ao sec­
tarismo e ao radicalismo antiestatista que tinham herdado do
anarquismo. Como para os anarquistas de então, seu lerna
parecia ser: "Com o Estado nada, contra o Estado tudo”.
Esta foi e tem sido uma herança que os caracterizou até épo­
cas bem recentes. E embora seja certo que em muitas oca-
92 Arnaldo Córdova

siões ela foi um claro elemento de diferenciação frente aos


demais setores da sociedade mexicana, tal herança acabou por
impedir que os comunistas fizessem uma política que lhes
desse penetração e influência numa classe operária e em
massas rurais que até hoje permanecem totalmente ungidas ao
Estado nascido da Revolução Mexicana. Seu antinacionalis-
mo, fruto de seu antiestatismo, esteve sempre regido, inclu­
sive durante os anos da “frente popular”, pela idéia de que
uma clara posição classista (obreirista e campesinista) seria
o maior trunfo para atrair as massas populares para uma
decidida militância pelo socialismo.
Como não podia deixar de ser (e segue sendo até os
dias de hoje), seu problema, como para toda a esquerda,
sempre foi a Revolução Mexicana: como defini-la e como
definir o Estado dela derivado? Que estratégia deveria deri­
var de uma clara posição frente à Revolução e à sociedade
que dela havia surgido? Que ligações a nova esquerda his­
tórica do México poderia ter com a Revolução e com os mo­
vimentos sociais por ela desencadeados? Q rechaço à Revo­
lução ditou as soluções teóricas que os comunistas deram à
sua interpretação da história nacional. Nos anos 20 defi­
niam a Revolução Mexicana como uma revolução “pequeno-
burguesa”; não se atreviam a defini-la como uma revolução
“burguesa”, porque não lhes parecia, e com razão, que aque­
les que a tinham dirigido e agora governavam o país fossem
“burgueses”, ao menos em suas origens. Sob a influência do
stalinismo da III Internacional, já durante os anos 30 era
usual que os comunistas mexicanos definissem a Revolu­
ção Mexicana como uma revolução “democrático-burguesa”.
Nesta interpretação, o México aparecia como um país “semi-
colonial” e “semifeudal”, que devia se libertar da dominação
imperialista e destruir o latifúndio “feudal” que imperava em
seus campos. A Revolução havia sido apenas o capítulo “po­
lítico” deste processo de libertação: a “burguesia em ascen­
são” tinha derrubado o antigo Estado feudal e consolidado
seu domínio sem ter podido, no entanto, realizar seus objetivos
antiimperialistas, antifeudais e democráticos. Tais teorias fo­
ram logo reforçadas pelos historiadores soviéticos dos anos
50 e 60 (Alperovich, Rudenko, Lávrov, entre outros) e cons-
93
Anionío Gramsci e a esquerda mexicana

tituíram um firme patrimônio dos comunistas mexicanos du­


rante cerca de quatro décadas.
Tudo isso não impediu que os comunistas
merosas provas de seu heroísmo na luta, de seu espírito d
abnegação e sacrifício e inclusive de sua eficacia
des organizadores das massas. Taslicamentê
madores da grande greve ferroviana de 1926, drasticamente
rprim lda pelo governo callista; David Alfaro S.queiros^era,
rrfin s '^ d o B * .n o s 20, on, dos ™is a.ivos
Sindicais de trabalhadores da mineraçao e ahmentaçao
ambém um dos principais dirigentes do Partido Comunista,
no início dos anos 30 os comunistas distinguiram-se, pa
ticularmente, como agitadores das
camponesas que conduziriam, alguns anos depois as gran
des Apropriações de latifúndios em Michoacan, na Comarca
U . Z : no 'vale de Mexioali e em Y u « á m «
air‘am OS principais sindicatos nacionais de industria tterro
diários mineiros, petroleiros), e os comunistas estiveram tam-
S entre seus principais organizadores. No g-nde movtm n
,0 emdie.l independente <!“ %='
1936 e que culminou com a fundaçao da C Ç _
S a m a l r e e do México, a maior dae «n.™ » o p e » ™
ainda hoje existente, os comunistas estiverani «empre «a^van
; Í a , i sua ação foi " ^ r S a ;

díc"d1u S a r ° o s sindicatos e as ligas camponesas no par­

e desde 1946 Partido Revolucionário Institucional), dand^


o riíe m ao regime de corporativismo político ainda dominante
no México de hoje, os comunistas “ dôsídõ n“
nostos de direção do movimento de massas, tendo sido ne
t s S s por parte do governo e dos lideres oficial,stas, cnor-
cessarios, por pa e comunistas
mes esforços P ™ ' 7 ' ? ^ principais sindicatos
mantiveram-se como torça aingcuic “ r- . onupr-
Acionais até deles serem expulsos, a força durante o gove
no de Miguel Alemán, especialmente entre
Como lemLamos antes, Lombardo foi expulso da CTM em
S ” S d e então a esquerda iombardisi. e comuntsia per­
maneceu virtualmente desterrada do movimento operano e
T

94 Arnaldo Córdova

camponês e isso se traduziu em seu extremo enfraquecimento


no terreno da luta política e ideológica até nossos dias.
A grande diversificação experimentada pela esquerda
mexicana desde fins dos anos 50 (comunistas, lombardistas,
trotskystas, maioístas, foquistas, etc.) não removeu os pon­
tos e as idéias tradicionais que a tinham caracterizado
até então, mas ao menos ajudou a pôr novamente em dis­
cussão o problema do Estado, a definição da Revolução Me­
xicana e a história mesma da esquerda desde suas origens.
Para isso contribuiu, essencialmente, o movimento estudantil
de 1968, que em grande parte esteve dirigido por novos gru­
pos de esquerda que nada tinham em comum com a velha
esquerda. O Partido Comunista, depois da invasão da Tche-
coslováquia pelas forças do Pacto de Varsóvia naquele mes­
mo ano, rompeu sua tradicional dependência com respeito à
União Soviética e iniciou um lento e prolongado processo de
transformação ideológica que culminou na sua legalização,
com a abertura democrática que inaugurou a reforma polí­
tica de 1977. Outros grupos da esquerda cresceram e se
desenvolveram naquele período, dando lugar a um pluralis­
mo que tornou muito mais variados e diversificados os pon­
tos de vista e as posições políticas da própria esquerda. Os
novos intelectuais de esquerda, muitos deles à margem dos
partidos ou grupos tradicionais, deram início a uma ampla
revisão da história do país e, em particular, do período da
Revolução Mexicana, buscando conformar uma bagagem de
idéias que permitissem o conhecimento da realidade nacional
por fora dos esquemas vulgares e sectários que tinham sido
próprios da esquerda mexicana até então. Mesmo assim, o
grosso da esquerda continuou aprisionado, no essencial, às
suas antigas posições políticas e ideológicas, forjadas com
expressiva contribuição dos anarquistas.
Seria de se supor que nas condições da reforma política
de 1977 — embora sendo esta tão limitada como foi, ideali­
zada apenas para evitar que a esquerda seguisse o caminho
da subversão e para ligá-la a um compromisso institucional
com o Estado — a esquerda estaria obrigada, sobretudo, a
reivindicar uma história política e social da qual ela mesma
é co-autora e co-responsável. No entanto, seu rechaço ao Es-
Anionio Gramsci e a esquerda mexicana 95

tado e à Revolução e seu antinacionalismo (que jamais se


traduziu num claro internacionalismo) impediram-na de se
identificar com esta história e com suas tradições, de se apro­
priar dela e de apresentar às massas trabalhadoras opções
afinadas com seu ser nacional. Isso também incapacitou a
maior parte das forças de esquerda de lutar por um autên­
tico programa democrático e para mudar o país por vias de­
mocráticas. Na reforma política de 1977, a maior parte da
esquerda viu-se envolvida nos processos eleitorais, mas sem
acreditar que as eleições servissem para efetuar transforma­
ções de importância no sistema político mexicano, acabando
por ser, na essência, uma saída inútil na grande tarefa de aca­
bar com a exploração e a opressão no México e de instaurar
uma sociedade socialista.
Considerando, mesmo em linhas gerais, o panorama his­
tórico da esquerda mexicana, de suas tradições políticas e
ideológicas e de sua experiência nacional, pode-se entender
por que um pensamento tão fino, tão realista e tão dúctil como
0 gramsciano não pôde deitar raízes profundas e duradouras
no México. Acostumada a conceber seus objetivos políticos
e suas razões ideológicas como o combate final entre as clas­
ses sociais do qual indefectivelmente sairia vitoriosa a classe
revolucionária por excelência” (o proletariado, a classe ope­
rária), para a esquerda a história não foi senão um pro­
cesso natural”, regido por leis férreas e irremovíveis, no qual
se impõe, finalmente, um desígnio superior aos homens: a
libertação dos trabalhadores e a morte do capital. Para ela
a luta política jamais foi a escolha de determinados meios e
inclusive de inimigos para chegar a certos fins, mas, para
recordar justamente Gramsci, uma autêntica profissão de fé
religiosa e uma oculta, porém sempre ativa, visão teológica do
mundo e da vida. O socialismo e o comunismo chegariam,
porque isso era algo que transcendia a vontade dos homens.
Sua própria história aparecia aos olhos dos homens da esquer­
da como uma cadeia heróica de fracassos momentâneos no
esforço permanente pelo “combate final", pelo derradeiro
acerto de contas com os inimigos de classe. Os fracassos se
explicavam pela falta de inteligência, pelo despreparo e pelas
mais diversas limitações dos predecessores ou pela superio-
96 Arnaldo Córdova

ridade do inimigo, mas tudo isso nunca bastou para pôr em


dúvida 0 inevitável advento do “juízo final” dos justos. Um
pensamento como o gramsciano — para o qual a história não
é apenas o desenvolvimento cego de forças materiais, mas
também um complexo inter-relacionamento de vontade e cul­
tura — evidentemente não encontrava lugar naquela visão
simplista e em boa medida teleológica da história.
É verdade que Gramsci chegou tarde ao México, em­
bora não muito mais tarde do que em outros países latino-
americanos; tampouco foi pior recebido. O marxismo vulgar
e esquemático derivado do stalinismo continuou dominando
durante grande parte dos anos 60, e ainda nos anos 70
havia numerosos seguidores desta característica perversão
do socialismo científico. Porém Gramsci já estava dispo­
nível no México desde fins dos anos 50, mediante as edi­
ções (realizadas pela Editorial Lautaro, da Argentina) dos
Quaderni em sua primeira versão editorial e também da pri­
meira edição das Cartas do cárcere. Mas Gramsci foi apenas
uma raridade editorial e nada mais. Evidentemente, os pou­
cos que o liam não encontravam nele nenhuma inspiração. Os
que tinham alguma informação sobre o movimentto comu­
nista internacional sabiam, embora superficialmente, que
Gramsci havia sido um grande dirigente comunista italiano
e um dos fundadores do Partido Comunista Italiano; mas
Ignoravam que papel tinha representado na política italiana,
desconheciam sua obra e sobretudo não sabiam inseri-lo no
contexto histórico do movimento comunista internacional.
Togliatti era conhecido entre os comunistas mexicanos como
o grande dirigente do PCI que, por certo, estava se desta­
cando como um opositor “reformista” a Moscou, com suas
teorias do policentrismo político e suas “reformas de estru­
tura e com tudo o que começou a se identificar, a partir da
segunda metade dos anos 50, como a “via italiana para o
socialismo”. Gramsci, no máximo, podia ser distinguido
como o mestre “reformista” do “reformista” Togliatti, embo­
ra ninguém soubesse exatamente por quê. Apesar de já
circularem em .espanhol, suas obras não eram lidas. Litera-
riamente, no México era mais conhecido Antonio Labriola,
o amigo italiano de Engels”, de quem se conheciam alguns
Antonio Gramsci e a esquerda mexicana 97

escritos desde os anos 30 e se sabia ter sido o mais im­


portante precursor do comunismo italiano.
A explosão do conflito sino-soviético em abril de 1960
turvou ainda mais o contato da esquerda mexicana com
Gramsci. Naturalmente, tal como ocorreu na maior parte do
mundo, os homens de esquerda mexicanos dividiram-se ins­
tantaneamente em “pró-chineses” e "pró-soviéticos”. Os pri­
meiros se esforçaram para defender uma certa ortodoxia re­
volucionária que afirmava que a única via conhecida para
chegar ao socialismo era a luta armada e que uma suposta
via “pacífica” ou de “reforma de estruturas”, como propu­
nham os italianos, era uma ilusão contra-revolucionária que
apenas fazia o jogo da burguesia. Os segundos tratavam,
muito debilmente por certo, de demonstrar que nem tudo
estava escrito sobre as vias da revolução e que, em última
instância, seria o povo a decidir. A oportunidade era exce­
lente para que todas as tendências da esquerda mexicana
abrissem um amplo debate sobre a luta pela democracia e a
contribuição que esta poderia dar à causa revolucionária;
mas ninguém pensou seriamente, naquele momento, na de­
mocracia. Ao invés disso, todos se puseram a remexer nas
poucas obras de Marx e Engels que se conheciam em espanhol
e sobretudo nas Obras completas de Lenin (quarta edição,
então publicada na Argentina), para colecionar citações que
apoiariam uma ou outra posição. Todos acabaram tendo ra­
zão, e na guerra das citações não houve vencidos nem vence­
dores, pois era evidente que Marx, Engels e Lenin serviam
tanto para apoiar a via “pacífica” como a via “armada” da
revolução. Tudo isso foi pago pela própria esquerda, com
sua desintegração ininterrupta. Nos anos 60 costumava-se
dizer que onde houvessem dois esquerdistas mexicanos era
muito possível que surgissem cinco partidos.
Fora da esquerda militante algo positivo ocorreu naque­
les anos. Gramsci entrou em alguns ambientes acadêmicos.
Jovens professores marxistas sem militância política, muitos
dos quais tinham estudado na Europa e inclusive na Itália,
trouxeram, junto com as obras juvenis de Marx recém-des-
cobertas, uma nova visão do marxismo em que era comum
e necessária a referência a Gramsci e, em muitos casos, à
98 Arnaldo Córdova

obra do novo marxismo italiano surgido essencialmente da


inquietação intelectual de Delia Volpe. Além do mais, o mar­
xismo se renovava em todas as partes do mundo. E no Mé­
xico ocorreu um pequeno renascimento intelectual, do qual
aquele novo marxismo era parte indissolúvel. Enquanto a
esquerda militante, atomizada e diminuída sem descanso, dis­
cutia para ver quem tinha razão, os chineses ou os soviéti­
cos, na universidade florescia o interesse pela redescoberta
do marxismo e discutiam-se todos os ensaios de interpreta­
ção que neste sentido eram produzidos em outras partes.
Agora um maior número de pessoas passava a conhecer
Gramsci, e diretamente em italiano, pois as traduções argen­
tinas de suas obras estavam esgotadas e já não circulavam na
metade dos anos 60. Mesmo assim o número de conhece­
dores de Gramsci continuou sendo extremamente reduzido.
Além do mais, o marxismo universitário do início dos anos
70 era demasiado intelectualista e elitista, e demorou multo
para se dedicar ao estudo e ao conhecimento da realida­
de nacional, de maneira que as melhores propostas grams-
cianas com respeito ao método e à recuperação da cultura
nacional permaneceram como simples temas de distração teó­
rica e acadêmica.
Mas o México reservaria a Gramsci um destino ainda
mais amargo do que o de ser objeto de discussões acadêmicas
e cenaculares. A esquerda militante finalmente conheceu
Gramsci de maneira mais ou menos generalizada, mas isso
ocorreu de modo muito lamentável. Em 1967 começou a ser
publicada no México a obra de Louis Althusser. Sua difusão
foi extraordinariamente rápida e massiva, inclusive nos am­
bientes acadêmicos que se tinham aberto ao novo marxis­
mo no início dos anos 60. Também foi rápida e massiva a
sua aceitação, principalmente quando se fez célebre nos
círculos de esquerda um jovem aluno de Althusser, Régis
Debray, que se apresentava então como o máximo teórico do
“foquismo” na América Latina, numa época, por certo, em
que operavam numerosos grupos guerrilheiros na região. O
próprio Régis Debray quis pôr em prática suas teorias e foi
imediatamente aprisionado na Bolívia nos dias da morte de
Che Guevara. Logo Debray e o “foquismo” saíram de moda,
Antonio Gramsci e a esquerda mexicana 99

mas não Althusser, que durante boa parte dos anos 70


continuou tendo extraordinária difusão nos ambientes acadê­
micos e da esquerda militante.
Althusser fez com que Gramsci se tornasse moda no
México, e é provável que isso também tenha ocorrido em
outras partes da América Latina. O lamentável de tudo aquilo
consistia em que as obras de Gramsci ainda não estavam
disponíveis em espanhol, depois que as edições de Lautaro
se tinham convertido em raridade de livraria. Uma excelente
antologia de escritos gramscianos, devida a Manuel Sacristán
Luzón, apareceu apenas três anos depois da publicação no
México do Pour Marx, de Althusser. Para o filósofo francês,
Gramsci não podia ser considerado um verdadeiro marxista;
era um “croceano”, e os ensinamentos de Croce o tinham
conduzido a um historicismo neo-hegeliano que se chocava
resolutamente com o “verdadeiro” marxismo (vale dizer, o
marxismo estruturalista de Althusser). Como se pode ima­
ginar, quando Gramsci finalmente caiu nas mãos dos mili­
tantes de esquerda estava irremediavelmente precedido de
uma péssima fama, não apenas de “croceano” e “historicista”,
mas até de “reformista” (ignorando-se, em decorrência, que
muitos consideravam Gramsci como um dos “ radicais” do
movimento comunista internacional dos anos 20).
Apesar disto, Gramsci finalmente impôs sua presença no
México e na América Latina. Suas obras começaram a ser
editadas em grande profusão, sobretudo no México e na
Espanha. Em poucos anos praticamente deixaram de existir
marxistas que não tivessem ao menos um ou dois livros de
Gramsci na biblioteca. Tornaram-se cada vez mais numero­
sos os estudos sobre o pensamento gramsciano, primeiro eu­
ropeus, depois latino-americanos e por último mexicanos.
Curiosamente, Gramsci começou a ganhar força na mesma
medida em que todos iam se esquecendo de Althusser. Isso
já era evidente em meados dos anos 70. De tudo, porém,
o mais importante foi a proliferação de estudos marxistas
mexicanos sobre a realidade mexicana e a cada vez mais
difusa ligação entre eles e a obra e o pensamento de Gramsci.
Seus grandes conceitos e preocupações (sociedade civil, so­
ciedade política, hegemonia, bloco histórico, reforma intelec­
100 Arnaldo Córdova

tual e moral da sociedade, o príncipe moderno, o mito popu­


lar de inspiração maquiaveliana, etc.) foram se convertendo
em referenciais teóricos indispensáveis para o estudo da na­
ção mexicana e de sua história. Enquanto as modas intelec­
tuais chegavam e partiam, umas após outras, aí incluída a
do althusserianismo, Gramsci permaneceu no México.
Hoje são inegáveis e amplamente reconhecidas as con­
tribuições que o marxismo mexicano deu ao conhecimento da
realidade nacional do México. Desde fins dos anos 60
iniciou-se um debate que com o tempo foi-se aprofundando
e legitimando em torno da redefinição da história do país, da
Revolução Mexicana, da sociedade e sobretudo do Estado.
Neste debate não apenas foram revisados velhos dogmas (mui­
tos dos quais provenientes do antigo marxismo) e velhos pon­
tos de vista, mas principalmente surgiram novos conceitos e
se veio conformando um novo acervo teórico e doutrinai da
história política, social e econômica do México, cada vez mais
influente na atual cultura nacional. Em tudo isso pesou de
maneira destacada o conhecimento de Gramsci e, em espe­
cial, a discussão cada vez mais criativa de suas sugestões
teóricas e metodológicas.
Tudo isso, no entanto, não resulta tão alentador quando,
como dissemos no início, se considera a esquerda em seu
conjunto e sobretudo a esquerda que milita nos mais variados
partidos e organizações políticas. Aqui Gramsci continua à
espera de ser reivindicado como o grande marxista e forjador
de cultura que foi. É certo que agora a esquerda é menos
dogmática do que antes e que seus dirigentes e expoentes
intelectuais, a cada vez que discutem, sentem menos a ne­
cessidade de reforçar e escorar suas opiniões com um rosário
de citações tomadas das obras de Lenin, Trotsky, Mao ou
qualquer outro grande dirigente revolucionário. Porém, em
mais de um sentido a esquerda e seus dirigentes continuam
sendo prisioneiros de antiquíssimas posições dogmáticas e
sectárias e isso, a curto ou a longo prazo, limitará as possi­
bilidades de que Gramsci e sua obra sejam objeto de um
estudo sério e proveitoso por parte das esquerdas mexicanas.
Tampouco se pode descartar, por outro lado, a possibilidade
de que Gramsci encontre um maior interesse nos círculos da
As categorias de Gramsci
e a realidade brasileira

Carlos Nelson Coutinho

Premissa

Entre 1966 e 1968, no período em que as contradições


internas ao regime ditatorial brasileiro instaurado em 1964
ainda permitiam uma relativa margem de liberdade no cam­
po cultural, verificou-se uma corajosa iniciativa editorial: em
apenas três anos foram publicadas no Brasil cinco das mais
importantes obras de Antonio Gramsci, até então inédito em
língua portuguesa O leitor brasileiro tinha assim a sua
disposição um corpo de escritos gramscianos que, por sua am­
plitude, não era então acessível nem mesmo ao leitor de lín­
gua francesa, inglesa ou alemã.
Num primeiro momento, as conseqüências dessa iniciati­
va editorial foram bastante modestas. As primeiras edições
dos textos de Gramsci esgotaram-se com lentidão e dificul­
dade: a influência dos mesmos na produção intelectual brasi­
leira daqueles anos foi praticamente inexistente ou, em poucos

1. Para os textos de Gramsci publicados entre nós, cf., neste volume,


a “Bibliografia de Gramsci no Brasil”, pp. 153-159.
104 Carlos Nelson Coutinho

casos, subterrânea. Não há dúvida de que a recepção de


Gramsci no Brasil foi prejudicada pela decretação, em de­
zembro de 1968, do AI-5. Mas as desfavoráveis condições
políticas e institucionais explicam só em parte as razões do
temporário eclipse de Gramsci. Uma outra razão, pelo menos
igualmente importante, deve ser apontada na própria cultura
então dominante nos ambientes culturais brasileiros de es­
querda, que eram fortemente influenciados por modelos in-
terpretativos do que passou a ser convencionalmente chamado
de “marxismo da III Internacional”, ou, mais sinteticamente,
“marxismo-leninismo”.
Essa predominância da tradição terceiro-internacionalista
não se manifestava somente na concepção geral do marxismo,
fortemente economicista, mas também no próprio modo .de
interpretar a realidade brasileira. O Brasil era visto como
uma formação social “atrasada”, semicolonial e semifeudal,
que teria necessidade — para superar suas contradições e
encontrar o caminho do progresso social — de uma revolu­
ção “democrático-burguesa” ou de “libertação nacional”. Foi
essa, pelo menos desde os anos 30, a posição do Partido Co­
munista Brasileiro. Mas também os grupos que, a partir de
1964, afastaram-se da política do PCB, escolhendo o caminho
da luta armada sob a influência ideológica e política do ma-
oísmo e/ou do “foquismo”, mantinham-se em sua maioria
vinculados a essa mesma colocação geral. Por exemplo: o
agrupamento criado e liderado por Carlos Marighela chama­
va-se Aliança de Libertação Nacional e se propunha a rea­
lização imediata de uma revolução antifeudal e antiimpe-
rialista.
Apesar de substanciais divergências táticas e estratégi­
cas, portanto, havia algo que ligava o “gradualismo” do PCB
ao “militarismo” dos grupos de ultra-esquerda: ou seja, a
convicção de que o Brasil, enquanto país atrasado, deveria
adotar os modelos revolucionários próprios do bolchevismo,
do maoísmo ou do castrismo. Naquele momento, não eram
muitos os intelectuais brasileiros a compreenderem o fato de
que o país — e em grande parte, precisamente, por causa da
política econômica do regime militar-tecnocrático — alcançara
/4í categorias de Gramsci e a realidade brasileira 105

um nível de desenvolvimento capitalista pleno, e até mesmo


de capitalismo monopolista de Estado.
A estranha (mas não paradoxal) convergência entre as
posições mais reacionárias da ditadura e a orientação terceiro-
internacionalista do marxismo brasileiro explica as dificul­
dades registradas, num primeiro momento, à recepção da
obra de Gramsci. Não é assim casual que o declínio da dita­
dura e a crise da velha esquerda estejam na raiz do espeta­
cular crescimento da influência gramsciana no curso da úl­
tima década: a partir da metade dos anos 70 — ou seja,
simultaneamente ao início (ainda tímido) do processo de aber­
tura política e à crise cada vez mais explícita das organiza­
ções marxistas tradicionais —, os escritos de Gramsci come­
çaram a ser amplamente estudados e discutidos. A difusão
do autor dos Cadernos do cárcere superqji amplamente as
fronteiras da universidade; alguns de seus conceitos funda­
mentais, em particular o de “sociedade civil”, são cada vez
mais utilizados em análises políticas e historiográficas publi­
cadas recentemente no Brasil por autores comunistas, social-
democratas, cristão-progressistas e até mesmo liberais. Pode­
mos assim dizer que Gramsci conquistou um espaço próprio
na vida intelectual brasileira, tornando-se uma força viva e
um ponto obrigatório de referência no complexo processo de
renovação teórica e política que hoje envolve a esquerda
brasileira.
Mas o que explica essa “adoção” brasileira de Gramsci,
de um autor que — nas mais de duas mil páginas dos Cader­
nos — refere-se ao Brasil uma única vez Parece-me evi­
dente que é no plano do método e dos conceitos básicos, e
não no das afirmações literais, que se pode encontrar uma
resposta para essa questão: ou seja, é através de sua profunda
universalidade que Gramsci é capaz de iluminar alguns aspec-

2. A breve referência ao Brasil, feita no contexto de uma interessante


observação sobre o papel dos intelectuais na América Latina, encon­
tra-se em Antonio Gramsci, Quaderni dei cárcere, ed. crítica organiza­
da por V. Gerratana, Turim, Einaudi, 1975, pp. 1528-9. Todas as cita­
ções de Gramsci contidas neste ensaio são extraídas dos Quaderni,
pelo que, em seguida, indicarei apenas a letra Q e o número da pági­
na. no próprio corpo do texto.
106 Carlos Nelson Coutinho

tos decisivos de nossa peculiaridade nacional. Irei me deter


aqui em dois desses conceitos; o de “revolução passiva”, que
me parece capaz de fornecer importantes indicações para a
análise dos processos de “modernização conservadora” que
caracterizam a história brasileira; e o de “Estado ampliado”,
através do qual podemos apontar algumas das características
essenciais de nossa situação atual (ou seja, o fato de que o
Brasil é hoje uma formação social de tipo “ocidental”) e, por
conseguinte, fornecer indicações para a construção de uma
estratégia democrática para a luta pelo socialismo no Brasil.

A "revolução passiva” e a história brasileira

Ao contrário do que supunha a tradição marxista-leni-


nista, o Brasil experimentou um processo de modernização
capitalista sem por isso ser obrigado a realizar uma “revolu­
ção democrático-burguesa” ou de “libertação nacional” se­
gundo 0 modelo jacobino: o latifúndio pré-capitalista e a
dependência em face do imperialismo não se revelaram obs­
táculos insuperáveis ao completo desenvolvimento capitalista
do país. Por um lado, gradualmente e “pelo alto”, a grande
propriedade latifundiária transformou-se em empresa capita­
lista agrária e, por outro, com a internacionalização do mer­
cado interno, a participação do capital estrangeiro contribuiu
para reforçar a conversão do Brasil em país industrial moder­
no, com uma alta taxa de urbanização e uma complexa es­
trutura social. Ambos os processos foram incrementados pela
ação do Estado: ao invés de ser o resultado de movimentos
populares, ou seja, de um processo dirigido por uma burgue­
sia revolucionária que arrastasse consigo as massas campone­
sas e os trabalhadores urbanos, a transformação capitalista
teve lugar graças ao acordo entre as frações das classes eco­
nomicamente dominantes, à exclusão das forças populares e
à utilização permanente dos aparelhos repressivos e de inter­
venção econômica do Estado. Nesse sentido, todas as opções
concretas enfrentadas pelo Brasil, direta ou indiretamente liga­
das à transição para o capitalismo (desde a independência po­
lítica ao golpe de 1964, passando pela Proclamação da Re-
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 107

pública e pela Revolução de 1930), encontraram uma solução


“pelo alto”, ou seja, elitista e antipopular.
Embora a noção leniniana de “via prussiana” fosse capaz
de constituir uma chave interpretativa para esse processo de
transformação pelo alto, só recentemente ela passou a ser uti­
lizada nas análises marxistas da realidade brasileira De
qualquer modo, na medida em que se concentra prioritaria­
mente nos aspectos infra-estruturais do processo, o conceito
de Lenin não é suficiente para compreender plenamente as
características supra-estruturais que acompanham — e, em
muitos casos, determinam — essa modalidade de transição.
Portanto não é um acaso que essas tentativas recentes de
aplicar ao Brasil o conceito de “via prussiana” sejam quase
sempre complementadas pela noção gramsciana de “revolu­
ção passiva”. Na medida em que esse conceito, como todos
os demais conceitos gramscianos, sublinha fortemente o mo­
mento supra-estrutural, em particular o momento político, su­
perando assim as tendências economicistas, ele se revelou de
inestimável utilidade para contribuir à especificação e à aná­
lise do caminho brasileiro para o capitalismo, um caminho
no qual o Estado desempenhou freqüentemente o papel de
principal protagonista.
A literatura sobre Gramsci é hoje unânime em reconhe­
cer que a noção de “revolução passiva”, ou “revolução-res-
tauração”, ocupa um posto de destaque nas reflexões conti­
das nos Cadernos *. Essa noção é um instrumento-chave de
que Gramsci se serve para compreender não apenas a for­
mação do Estado burguês moderno na Itália (os episódios do
Risorgimento, que culminaram na unidade nacional italiana),
mas também para definir traços essenciais da passagem do
capitalismo italiano para a sua fase monopolista, ao apontar

3. Combinado com a noção de “revolução passiva”, o conceito de


“via prussiana” foi utilizado, entre nós, por Luiz Werneck Vianna,
Marco Aurélio Nogueira e por mim.
4. Cf., por exemplo, os ensaios de Christine Buci-Glucksmann e de
Franco de Felice, in Vários Autores, Política e história em Gramsci,
ed. brasileira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, vol. 1, pp.
117-48 e 189-257.
108 Carlos Nelson Coutinho

também o fascismo como forma de “revolução passiva”. De


resto, 0 conceito é utilizado por Gramsci como critério de
interpretação mais geral: basta pensar, por exemplo, em sua
sugestão de leitura da experiência americanlsta e fordista à
luz desse conceito (Q, 2140). Essa possibilidade de generali­
zação autorizou Christine Buci-Glucksmann e Goran Ther-
born, entre outros, a apresentar uma análise — a meu ver,
convincente — da ação da social-democracia européia no
período posterior à Primeira Guerra Mundial a partir do
conceito de “revolução passiva” De minha parte, estou con­
vencido — e tentarei em seguida fornecer alguns exemplos
— de que sua aplicação ao caso brasileiro pode se revelar de
grande utilidade para determinar traços fundamentais de nos­
sa formação histórica.
Recordemos brevemente algumas das características que
o conceito de “revolução passiva” apresenta em Gramsci.
Deve-se sublinhar, antes de mais nada, que um processo de
revolução passiva, ao contrário de uma revolução popular,
realizada a partir “de baixo”, jacobina, implica sempre a
presença de dois momentos: o da “restauração” (na medida
em que é uma reação à possibilidade de uma efetiva e radi­
cal transformação “de baixo para cima”) e o da “renovação”
(na medida em que muitas demandas populares são assimila­
das e postas em prática pelas velhas camadas dominantes). É
assim que Gramsci afirma que a revolução passiva manifesta
“o fato histórico da ausência de uma iniciativa popular unitá­
ria no desenvolvimento da história italiana, bem como o outro
fato de que o desenvolvimento se verificou como reação das
classes dominantes ao subversivismo esporádico, elementar,
desorganizado, das massas populares, mediante ‘restaurações’
que acolheram uma certa parcela das exigências provenientes
de baixo; trata-se, portanto, de ‘restaurações progressistas’, ou
‘revoluções-restaurações’, ou ainda ‘revoluções passivas’ ” (Q,
1324-5).
O aspecto restaurador, portanto, não anula o fato de que
ocorrem também modificações efetivas. Numa outra passa-

1 Oiriitine Buci-Glucksmann e Goran Therbon. Le défi social-démo-


iiiih. I’iiri». Maspero, 1981.
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 109

gem, Gramsci diz: “Pode-se aplicar ao conceito de revolução


passiva (e isso pode ser documentado no caso do Risorgi-
mento italiano) o critério interpretativo das modificações mo­
leculares que, na realidade, modificam progressivamente a
composição anterior das forças e, por conseguinte, tornam-se
matriz de novas modificações” (Q, 1767).
Não seria difícil documentar também nas principais
transformações “pelo alto” que tiveram lugar no Brasil a pre­
sença dos dois momentos apontados por Gramsci: como rea­
ções a movimentos populares, reais ou potenciais, as classes
dominantes empenharam-se em "restaurações” que, em última
instância, produziram importantes modificações na composi­
ção das classes e prepararam o caminho para novas trans­
formações reais. Irei me deter aqui num único exemplo, que
me parece bastante emblemático: a instauração da ditadura
de Vargas em 1937, culminação do agitado período que se
inicia em 1922, ano da fundação do PCB e da primeira re­
volta militar tenentista. Naquele período, o movimento ope­
rário lutava pela conquista dos direitos civis e sociais, en­
quanto as camadas urbanas emergentes exigiam uma maior
participação política. Essas pressões “de baixo” (que não ra­
ramente assumiam a forma de um “subversivismo esporádico,
elementar, desorganizado”) fizeram com que um setor da
oligarquia agrária dominante, o setor mais ligado à produ­
ção para o mercado interno, se colocasse à frente da cha­
mada Revolução de 1930. O triunfo dessa Revolução levou
à formação de um novo bloco de poder, no qual a fração
oligárquica ligada à agricultura de exportação foi colocada
numa posição subalterna, ao mesmo tempo em que se bus­
cava cooptar a ala moderada da liderança político-militar
das camadas médias (os tenentes). Mas o caráter elitista
desse novo bloco de poder fazia com que os setores popu­
lares permanecessem marginalizados. Eles ainda não esta­
vam suficientemente organizados; eram representados apenas
pelo débil Partido Comunista e por um pequeno grupo de
tenentes de esquerda, entre os quais Prestes, que haviam se
recusado a participar da Revolução de 1930. Nessas condi­
ções, o resultado do protesto contra o caráter elitista da Re-
IIO Carlos Nelson Coutinho

volução foi a adoção (ou a retomada) de um “subversivismo


elementar”, cuja manifestação mais evidente foi o putsch de
1935, uma desastrosa iniciativa comum dos comunistas e dos
tenentes de esquerda.
Reprimido com extrema facilidade pelo governo, esse
putsch será o principal pretexto para a instauração da dita­
dura de Vargas. Contudo, apesar de seu caráter repressivo e
de sua cobertura ideológica de tipo fascista, o “Estado Novo”
varguista promoveu uma acelerada industrialização do país,
com o apoio da fração industrial da burguesia e da camada
militar; além disso, promulgou um conjunto de leis de pro­
teção ao trabalho, há muito reivindicadas pelo proletariado
(salário mínimo, férias pagas, direito à aposentadoria, etc.),
ainda que ao preço de impor uma legislação sindical corpo-
rativista, copiada diretamente da Carta dei Lavoro, de Mus-
solini, que vinculava os sindicatos ao aparelho estatal e anu­
lava sua autonomia. Portanto a ditadura de Vargas pode
ser definida, gramscianamente, como uma “revolução passi­
va” ou uma “restauração progressista”
Mas Gramsci, em suas análises da história italiana, não
limitou a aplicação da noção de “revolução passiva” ao perío­
do de consolidação do capitalismo; aplicou-a também como
instrumento para explicar a passagem da fase concorrencial à
fase monopolista do capitalismo. Diz Gramsci: “ [Com o fas­
cismo], ter-se-ia uma revolução passiva no fato de que, me­
diante a intervenção legislativa do Estado e através da orga­
nização corporativa, teriam sido introduzidas na estrutura
econômica do país modificações mais ou menos profundas, a
fim de acentuar o elemento ‘plano de produção’, ou seja,
teriam sido acentuadas a socialização e a cooperação da
produção, sem por isso tocar (ou limitando-se apenas a regular
e controlar) na apropriação individual e grupista do lucro.
No quadro concreto das relações sociais italianas, essa poderia
ser a única solução para desenvolver as forças produtivas da

6. Esse periodo foi analisado, à luz de conceitos gramscianos, por


Luiz AVerneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil, Rio de Ja­
neiro, Paz e Terra. 1976. pp. 128 e ss.
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 111

indústria sob a direção das classes dirigentes tradicionais”


(Q, 1228).
Essas indicações valem em grande medida para com­
preender os objetivos do regime ditatorial instaurado no
Brasil depois de 1964. Como veremos adiante, ele não pode
ser caracterizado como um regime fascista “clássico”; mas
seus objetivos de política econômica têm fortes semelhanças
com os do fascismo italiano: as forças produtivas da indústria,
através de uma maciça intervenção do Estado, desenvolve­
ram-se intensamente, com o objetivo de favorecer a consoli­
dação e a expansão do capitalismo monopolista. A estrutura
agrária, por seu turno, mesmo conservando o latifúndio como
eixo central, foi profundamente transformada, sendo hoje
predominantemente capitalista. A camada tecnocrático-militar,
que se apoderou do aparelho estatal, certamente controlou
e limitou a ação do capital privado, na medida em que
submeteu os interesses dos “múltiplos capitais” ao “capital
em seu conjunto”; mas adotou essa posição “cesarista” preci­
samente para manter e reforçar o princípio do lucro privado
e para conservar o poder das classes dominantes tradicionais,
quer da burguesia industrial e financeira (nacional e inter­
nacional), quer do setor latifundiário que foi se tornando
cada vez mais capitalista.
O regime militar-tecnocrático conseguiu conquistar, em
alguns momentos, um significativo grau de consenso entre
amplos setores das camadas médias. E conseguiu isso preci­
samente na medida em que se fez protagonista dessa obra
de modernização, ainda que se tenha tratado de uma moder­
nização que, ao mesmo tempo, conservou e reproduziu muitos
elementos de “atraso”. Ou seja: obteve consenso na medida
em que assimilou e deu resposta a algumas das demandas
dos grupos sociais derrotados em 1964. Sucedeu assim, no
caso da ditadura brasileira, algo similar ao que Gramsci
indicou como próprio do fascismo italiano: “O que importa
política e ideologicamente” — diz ele — “é que esse [o mode­
lo de modernização fascista] pôde ter e realmente teve a virtu­
de de criar um período de expectativa e de esperanças, espe­
cialmente em certos grupos sociais italianos, como a grande
112 Carlos Nelson Coutinho

massa dos pequenos burgueses urbanos e rurais, e, por conse­


guinte, pôde manter o sistema econômico e as forças de
coerção militar e civil à disposição das classes dirigentes
tradicionais” (Q, 1228).

O transformismo e o fortalecim ento do Estado

O conceito de "revolução passiva” constitui, portanto,


um importante critério de interpretação ^ para compreender
não só episódios capitais da história brasileira, mas também,
de modo mais geral, todo o processo da transição de nosso país
à modernidade capitalista e, mais recentemente, ao capita­
lismo monopolista de Estado. Disso resulta, por conseguinte,
que ele pode também nos proporcionar instrumentos analí­
ticos capazes de indicar traços decisivos de nossa formação
política e social. Gostaria de chamar a atenção para duas
causas-efeitos da “revolução passiva” que foram indicados por
Gramsci: por um lado, o fortalecimento do Estado em detri­
mento da sociedade civil, ou, mais concretamente, o predo­
mínio das formas ditatoriais da supremacia em detrimento
das formas hegemônicas; e, por outro, a prática do transfor­
mismo como modalidade de desenvolvimento histórico que
implica a exclusão das massas populares.
Depois de ter examinado o papel do Piemonte no Risor-
gimento, Gramsci faz uma observação que pode ser aplicada
também ao Brasil: “Este fato é da máxima importância para
0 conceito de ‘revolução passiva’: ou seja, que não um grupo
social seja o dirigente de outros grupos, mas que um Estado
( . . . ) seja o ‘dirigente’ do grupo que, ele sim, deveria ser
dirigente ( . . . ) . O importante é aprofundar o significado
que tem uma função do tipo ‘Piemonte’ nas revoluções
passivas, ou seja, o fato de que um Estado substitui os grupos

7. Deve-se observar que Gramsci recusa explicitamente a possibilidade


de uma leitura “positiva” da “revolução passiva”: “Portanto, — diz
ele, —, “não teoria da ‘revolução passiva’ como programa, como foi o
caso nos liberais italianos do Risorgimento, mas como critério de in-
leipretnção nos casos cm que há ausência de outros elementos ativos
il» modo dominante” {Q 1827)
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 113

sociais locais na função de dirigir uma luta de renovação”


(Q. 1823).
Decerto, existe uma diferença fundamental entre o Risor-
gimento e o caso brasileiro: enquanto na Itália um Estado
particular desempenhou o papel decisivo na construção de
um novo Estado nacional unitário, o Estado que desem­
penha no Brasil a função de protagonista das “revoluções pas­
sivas” é já um Estado unificado. Mas essa diferença, ainda
que não negligenciável, parece-me passar para o segundo
plano diante do fato de que o Estado brasileiro teve histori­
camente 0 mesmo papel que Gramsci atribui ao Piemonte,
ou seja, o de substituir as classes sociais em sua função de
protagonistas do processo de transformação e o de assumir
a tarefa de “dirigir” politicamente as próprias classes econo­
micamente dominantes. E mais: o resultado desse processo,
no caso brasileiro, tem fortes analogias com a situação que
Gramsci descreve para a Itália, quando afirma: “ É um dos
casos em que esses grupos têm a função de ‘domínio’ e não
de ‘direção’: ditaduras sem hegemonia. A hegemonia será
de uma parte do grupo social sobre o conjunto do grupo, não
desse sobre outras forças a fim de potenciar o movimen­
to, de radicalizá-lo, etc., segundo o modelo ‘jacobino’ ”
(Q, 1824).
Também no Brasil as transformações foram sempre o
resultado do deslocamento da função hegemônica de uma
para outra fração das classes dominantes. Mas essas, em seu
conjunto, jamais desempenharam até agora uma efetiva
função hegemônica em face das massas populares. Prefe­
riram delegar a função de “ direção” política ao Estado —
ou seja, às camadas militares e tecnoburocráticas — , ao qual
coube a tarefa de “controlar” e, quando necessário, de
reprimir as classes subalternas. Mas essa modalidade antija-
cobina de transição ao capitalismo não significa absoluta­
mente que a burguesia brasileira não tenha levado a cabo
sua “revolução” : fez isso, precisamente, através do modelo
da “revolução passiva”, que tomou entre nós a forma — para
utilizar a terminologia de Florestan Fernandes — de uma
IH Carlos Nelson Coutinho

“contra-revolução prolongada” que é outro modo de dizer


“ditadura sem hegemonia”.
“Ditadura sem hegemonia”, porém, não significa que o
Estado protagonista de uma “revolução passiva” possa pres­
cindir de um mínimo de consenso; de outro modo, ele teria
de utilizar sempre e apenas a coerção, o que, a longo prazo,
tonaria impossível o seu funcionamento. E foi justamente
Gramsci quem indicou o modo pelo qual se obtém esse con­
senso mínimo no caso de processos de transição “pelo alto”.
Gramsci fala de “transformismo”, isto é, da cooptação ou
assimilação pelo bloco de poder das frações rivais das pró­
prias classes dominantes ou até mesmo de setores das classes
subalternas. Depois de ter estabelecido uma relação orgânica
entre transformismo e “revolução passiva”, Gramsci indica a
presença, na história da Itália, de “dois períodos de trans­
formismo: 1) de 1860 a 1900, transformismo ‘molecular’,
ou seja, personalidades políticas singulares elaboradas pelos
partidos democráticos de oposição se incorporam individual­
mente à ‘classe política’ conservadora-moderada (caracteri­
zada pela aversão a qualquer intervenção das massas popu­
lares na vida estatal, a qualquer reforma orgânica que subs­
titua o cru ‘domínio’ ditatorial por uma ‘hegemonia’); 2) a
partir de 1900, transformismo de grupos radicais inteiros,
que passam para o campo moderado” (Q, 962).
Ambos os tipos de transformismo podem ser apontados
também na história brasileira. A modalidade “molecular”
foi certamente a mais freqüente, manifestando-se como incor­
poração ao bloco de poder de políticos de oposição, processo
que teve lugar desde a época do Império até o recente período
ditatorial. E o transformismo “molecular” desempenhou um
papel decisivo, talvez ainda mais negativo, em nossa vida
cultural, através da assimilação pelo Estado de um grande
número de intelectuais que representavam, real ou potencial-

S. Cf. Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, Rio de


Janeiro, Zahar Editores, 1975, pp. 310 e ss. Embora Gramsci seja
citado apenas na bibliografia (e é significativo que o título arrolado
seja II Risorgimento, onde o conceito de “revolução passiva” aparece
iiiiii'i aiiipliiinentc elaborado), parece evidente a sua influência nesse
irii|iiii liiiilr trabalho de Florestan Fernandes.
/4í categorias de Gramsci e a realidade brasileira U5

mente, os valores das classes subalternas. Esses intelectuais


eram freqüentemente cooptados para a burocracia estatal,
uma camada que — herdada da colonização portuguesa e
reforçada na época imperial — jamais deixou de crescer ao
longo de todo o período republicano, à medida mesmo"^e
o Estado ampliava o seu papel de protagonista das transfor­
mações políticas e econômicas que preparavam ou consoli­
davam 0 capitalismo. Essa ação transformista em face dos
intelectuais era indubitavelmente facilitada pela debilidade
da sociedade civil, em particular dos organismos culturais
“privados”, o que tornava bastante difícil a própria subsis­
tência material do intelectual não cooptado pelo Estado
Na história brasileira, contudo, houve também tenta­
tivas de assimilação de inteiros grupos ou classes sociais de
oposição. Sob muitos aspectos, o "populismo” — uma moda­
lidade de legitimação carismática que teve início no curso
da ditadura de Vargas, entre 1937 e 1945, mas que se desen­
volveu plenamente durante o período liberal-democrático que
vai de 1945 a 1964 — pode ser interpretado como uma
tentativa de incorporar ao bloco de poder, em posição subal­
terna, os trabalhadores assalariados urbanos, através da con­
cessão de direitos sociais e de vantagens econômicas reais.
Nesse caso, a ação transformista não teve pleno êxito, em
virtude não só da resistência dos setores mais combativos da
classe operária, mas também por causa da impossibilidade
de garantir ao conjunto dos trabalhadores, sobretudo em
períodos de crise econômica, as bases materiais mínimas exi­
gidas para o funcionamento do pacto populista. Não há
dúvida, porém, de que a forma populista de legitimação teve
um relativo sucesso, em particular no curso do segundo
Governo Vargas e do Governo Kubitschek. Deve-se a esse
sucesso o amplo consenso conquistado pela política nacional-

9. Os efeitos do transformismo sobre a intelectualidade brasileira, em


particular as dificuldades para a elaboração de uma cultura nacional-
popular entre nós, foram examinados por mim, com a utilização de
conceitos gramscianos, no ensaio “Cultura e democracia no Brasil”,
publicado originalmente em 1979 e agora incluído em C. N. Coutinho.
A democracia com o valor universal e outros ensaios, Rio de Janeiro,
Salamandra. 1984, pp. 121-61.
116 Carlos Nelson Coutinho

desenvolvimentista posta em prática naquele período, uma


política caracterizada por processos de industrialização acele­
rada com base na substituição de importações. Restavam
excluídos do pacto populista os assalariados agrícolas e os
camponeses, que permaneciam privados de direitos sociais
trabalhistas e — na medida em que a maioria era formada
por analfabetos — até mesmo do direito de voto. Essa
exclusão tornava possível a manutenção no bloco de poder
da velha oligarquia latifundiária, mas servia também à bur­
guesia industrial, na medida em que ampliava enormemente
0 exército industrial de reserva e, por conseguinte, pressio­
nava para baixo os salários dos trabalhadores urbanos. Creio
que seria extremamente interessante uma reavaliação da pro­
blemática do populismo à luz dos conceitos gramscianos de
“revolução passiva” e de “transformismo”.

Á teoria “ampliada" do Estado e o Brasil


contemporâneo

Quando Gramsci fala de “ditadura sem hegemonia” como


uma manifestação da “revolução passiva”, ele indica uma
das características fundamentais das formações sociais que
seguem essa modalidade de desenvolvimento histórico. Se o
instrumento da transição “pelo alto” é o Estado, isso signi­
fica que há uma tendência, em tais formações, ao fortaleci­
mento do que Gramsci — no contexto de sua teoria
“ampliada” do Estado — chama de "sociedade política” (os
aparelhes militares e burocráticos de dominação e de coer-
ção), enquanto permanece subalterna a “sociedade civil” (o
conjunto dos aparelhos “privados” através dos quais uma
classe ou um bloco de classe luta pela hegemonia e pela
direção político-moral). Tais formações, em suma, seriam
mais próximas do “ Oriente” do que do “Ocidente”.
Se essa distinção gramsciana entre “Ocidente” e “Orien­
te” fosse entendida de modo estático, disso decorreria uma
conclusão inevitável: precisamente na medida em que a forma
dc desenvolvimento adotada pelo Brasil foi a “ revolução pas-
a formação social brasileira seria de tipo “oriental” e,
l>or conseguinte, não se poderia aplicar ao Brasil de hoje a
AS categorias de Gramsci e a realidade brasileira 117

teoria “ ampliada” do Estado. A reflexão de Gramsci traria


contribuições à compreensão da realidade brasileira somente
em nível historiográfico, mas não teria validade — ou teria
apenas uma validade parcial — na análise de nosso presente
e na elaboração de alternativas para o nosso futuro. Mas,
antes de aceitar essa conclusão (que certamente agradaria
aos seguidores brasileiros do "marxismo-leninismo”), é pre­
ciso examinar mais de perto a definição gramsciana de
“ Oriente” e “Ocidente”. Recordemos a célebre passagem de
Gramsci: “ No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil
era primitiva e gelatinosa; no Ocidente, entre Estado e socie­
dade civil havia uma justa relação e, quando se dava um
abalo do Estado, percebia-se imediatamente uma robusta es­
trutura da sociedade civil. O Estado era apenas uma trin­
cheira avançada, por trás da qual havia uma robusta cadeia
de fortalezas e casamatas; a proporção variava de Estado
para Estado, decerto, mas precisamente isso exigia um rigo­
roso reconhecimento de caráter nacional” (Q, 866).
Como se sabe, essa distinção foi elaborada por Gramsci
diante da necessidade de dar uma resposta teórica a uma
precisa questão prática: explicar as razões por que o modelo
estratégico dos bolcheviques fracassara nos países capitalistas
mais desenvolvidos da Europa. Demonstrando que nesses paí­
ses 0 Estado assumira uma forma “ampliada”, Gramsci pôde
formular uma nova estratégia que substituísse a “guerra de
movimento”, válida no “ Oriente”, e por isso aplicada com
sucesso na Rússia, pela “guerra de posição”, que seria ade­
quada à luta pelo socialismo no “Ocidente”. Dado que
Gramsci se vale de metáforas geográficas, poder-se-ia supor
que ele conceba a distinção entre “Oriente” e “Ocidente”
como um dado estático. Nada mais falso: a “ocidentalidade”
de uma formação social é para ele o resultado de um pro­
cesso histórico. Gramsci não se limita a registrar a presença
sincrônica de formações de tipo “oriental” ou “ocidental”,
mas indica também os processos histórico-sociais, diacrônicos,
que fazem com que uma formação social se torne “ocidental”,
ou, mais concretamente, que passe a ter um Estado “amplia­
do”, no qual exista uma “justa relação” entre Estado e socie­
dade civil.
118 Carlos Nelson Coutinho

Numa passagem em que se refere à fórmula da “ revo­


lução permanente” (ou seja, a uma modalidade da “guerra
de movimento”), na acepção na qual a concebera Marx e
Engels em 1850, Gramsci observa: “A fórmula é própria de
um período histórico no qual não existiam ainda os gran­
des partidos políticos de massa e os grandes sindicatos eco­
nômicos, e a sociedade se encontrava ainda sob muitos aspec­
tos, por assim dizer, num estado de fluidez” (Q, 1566).
Porém, de modo gradual, à medida ^ e o desenvolvimento
dos processos de socialização da produção leva a uma cres­
cente socialização também da participação política, essa “flui­
dez” própria da época do liberalismo elitista (ou seja, da
época caracterizada por uma cidadania restrita) é superada
por uma nova situação, na qual — como ele diz — “as rela­
ções organizativas internas e internacionais do Estado tor­
nam-se mais complexas e maciças, e a fórmula tipo-1848 da
‘revolução permanente’ é elaborada e superada na ciência po­
lítica pela fórmula da ‘hegemonia civil’. Ocorre na arte polí­
tica o que ocorre na arte militar: a guerra de movimento
torna-se cada vez mais guerra de posição” (Q, 1566). Quan­
do isso ocorre — e Gramsci situa essa virada em torno de
1870 —, as sociedades européias começam a se “ocidentali­
zar”. Em outras palavras: o Estado “restrito”, característico
da primeira metade do século XIX, torna-se um Estado “am­
pliado”, “complexo”, “maciço”, no qual o crescente protago-
nismo das massas se traduz na criação de uma rede articulada
de “aparelhos privados de hegemonia”. E isso impõe, como
Gramsci não deixa de observar, uma mudança de estratégia
por parte do movimento operário.
Na passagem dos Cadernos acima citada, há dois pontos
que devem ser sublinhados. Antes de mais nada, Gramsci
afirma que a necessidade de uma nova teoria marxista do
Estado — e, portanto, de uma nova estratégia socialista —
não é imposta apenas pela existência sincrônica de socieda­
des “orientais” e “ocidentais”, mas também pela diferença
diacrônica, no interior das sociedades hoje “ocidentais”, de
períodos caracterizados pela debilidade das organizações po­
pulares e períodos marcados por uma intensa socialização da
política. Nesse sentido, Gramsci observa que a “guerra de
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 119

movimento” não permanece válida apenas para os Estados


absolutistas ou despóticos de tipo claramente “oriental”, mas
o era também para os Estados liberais elitistas da primeira
metade do século XIX, enquanto a “guerra de posição” tor­
na-se válida para os Estados democráticos modernos. Em
segundo lugar, pode-se supor — embora Gramsci não se te­
nha manifestado explicitamente a respeito — que esse pro­
cesso de “ocidentalização”, por ele descrito como próprio das
sociedades européias, possa também se verificar, em épocas
diversas e de modo tardio, em outras regiões do mundo. Seria
esse o caso não apenas do Japão, país geograficamente “ori­
ental”, mas também — e é isso que aqui mais nos interessa
— de um grande número de países da América Latina.
Devemos agora responder a uma questão fundamental;
a sociedade brasileira é de tipo “oriental” ou de tipo “oci­
dental”? Em outras palavras: aceita a idéia de que a dinâ­
mica de “ocidentalização” é um fenômeno potencialmente uni­
versal, a que grau de amadurecimento já chegou tal processo
no caso brasileiro? A resposta tem implicações de grande
alcance: por um lado, é condição sine qua non para uma
adequada definição marxista da sociedade brasileira de hoje;
por outro, depende em grande medida dessa resposta a esco­
lha da justa estratégia que a esquerda brasileira deve adotar
em suas lutas pela democracia e pelo socialismo.
Uma visão de conjunto — ainda que superficial — da
evolução histórica do Brasil mostra o fato de que houve (como
causa e efeito dos processos de “revolução passiva”) um longo
período, que compreende toda a fase imperial e uma parte
da republicana, no qual a sociedade brasileira apresentava
fortes traços típicos do modelo “oriental” no que se refere
à relação entre Estado e sociedade civil Contudo, deve-se

10. Em seu excelente ensaio sobre Gramsci, Juan Carlos Hortuntiero


{Los usos de Gramsci, Buenos Aires, Folios, 1983, pp. 124 e ss.) colo­
ca-se também a questão da caracterização da América Latina como
“Oriente” ou “Ocidente”. Partindo de uma aguda distinção entre dois
tipos de “Ocidente” em Gramsci, Portantiero afirma a impossibilidade
de tratar como sociedades “orientais” os países mais desenvolvidos da
América Latina (Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, México, Uruguai
e Venezuela), que são para ele casos típicos de um “Ocidente” peri­
férico e tardio. Estou inteiramente de acordo com essa conclusão. Mas
120 Carlos Nelson Coutinho

deixar claro que, já na época imperial, existiam no Brasil


partidos políticos, tornados necessários em função da existên­
cia de um Parlamento. Por outro lado, com a Proclamação da
República, o Estado torna-se formalmente laico, e a Igreja
Católica deixa de ser um “aparelho ideológico de Estado”
para se transformar, juntamente com as outras igrejas mino­
ritárias, num “aparelho privado de hegemonia” Desde o
início do século XX, concomitantemente ao começo da indus­
trialização, os processos de auto-organização popular levaram
à formação de sindicatos. Assistimos, de resto, a fases relati­
vamente longas em que o regime vigente era formalmente
liberal e, nessa medida, tornava possível o desenvolvimento
de germes de sociedade civil. Portanto, nesse sentido, a for­
mação social brasileira jamais foi tão “oriental” quanto a
Rússia czarista ou â China pré-revolucionária. Houve, em
nosso passado, muitos traços peculiares que nos aproximavam
das sociedades liberais européias da primeira metade do
século XIX.
Contudo, o que torna possível afirmar a predominância
de pontos de semelhança com o modelo “oriental” é o fato
de que não só a sociedade civil era até pouco tempo “primi­
tiva e gelatinosa”, mas também de que o Estado — ao con-

creio que o fato indubitável da “ocidentalização” desses países não


exclui que, num certo período da sua história, eles tenham apresenta­
do traços predominantemente “orientais”, ainda que — como tento
demonstrar para o caso brasileiro — estejamos diante de um “Orien­
te” bastante peculiar, dada a presença, desde a Independência, de ele­
mentos “ocidentais”. Estou convencido, porém, de que, em última
análise, minha divergência com Portantiero prende-se mais a questões
de terminologia do que a problemas de fundo.
11. O conceito de “aparelhos ideológicos de Estado”, como se sabe,
é de Louis .A.lthusser (“Idéologie et appareils idéologiques d’État", in
Positions, Paris, Editions Sociales, 1976, pp. 67-125). Porém, como o
próprio Althusser sublinhou, não se pode confundir seu conceito com
a noção gramsciana de “aparelhos ‘privados’ de hegemonia”, na me­
dida em que a noção de Gramsci pressupõe uma maior autonomia dos
aparelhos privados (que são “privados” precisamente porque a adesão
aos mesmos é voluntária e não obrigatória) em face do Estado em
sentido estrito. Parece-me que o conceito de Althusser é adequado
somente para caracterizar os aparelhos ideológicos nas sociedades
otule o Estado ainda não se “ampliou”, ou seja, nas sociedades que
não viveram — ou viveram só parcialmente — um processo de
"niiilrntiiliziição".
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 121

trário das mencionadas sociedades liberais — foi sempre bas­


tante forte. No curso da época imperial, por exemplo, o papel
efetivo do Parlamento (e, portanto, dos partidos) era bastante
exíguo, comprimido pelo Executivo e por um vasto aparelho
burocrático. Nem se deve esquecer a presença do instituto
da escravidão, que excluía de qualquer direito, até mesmo
civil, uma parte substancial da população; basta a existência
da escravidão, ao que me parece, para tornar ainda mais
plausível a afirmação de que a sociedade brasileira da época
imperial era predominantemente “oriental”
Essa situação não sofreu alterações notáveis com a Abo­
lição e a Proclamação da República. Tal como a Indepen­
dência, também a República foi resultado de uma ação “pelo
alto”, de um golpe, que impediu a participação ativa das
massas populares. Por conseguinte, o bloco de poder que pre­
dominou na Primeira República (1889-1930) foi tão oligár-
quico quanto o da época imperial, com a única diferença de
que, no interior dessa oligarquia, a burguesia agrária ligada
à exportação do café tornou-se a fração hegemônica. As ins­
tituições liberais republicanas então criadas não eram de
molde a favorecer o desenvolvimento de uma verdadeira so­
ciedade eivil. O Parlamento permaneceu um mero apêndice
do Executivo, reforçado esse, ademais, pela adoção do sistema
presidencialista de governo; os partidos políticos, todos de
dimensão somente regional, não eram mais do que clientelas
a serviço das oligarquias estaduais e de suas políticas trans­
formistas. De resto, a utilização da repressão aberta contra as
tentativas de organização autônoma do proletariado e das
camadas médias foi uma prática constante na Primeira Re­
pública: 0 Brasil atravessou grande parte desse período sob
“estado de sítio”, ou seja, numa situação em que estavam
suspensos os direitos constitucionais.
Mas seria um erro ignorar as mudanças que se iniciam
com a República e que se afirmam sobretudo a partir dos
anos 20. A abolição da escravidão e, mais tarde, o começo do

12. Uma bela análise do período imperial no Brasil se encontra em


Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do liberalismo, Rio de Ja­
neiro, Paz e Terra, 1984, que se vale explícitamente de categorias
gramscianas.
122 Carlos Nelson Coutinho

processo de industrialização fazem com que o capitalismo se


torne o modo de produção predominante no Brasil; a estru­
tura social do país se torna mais complexa, mais moderna,
ainda que o “moderno” permaneça estreitamente vinculado
com o atraso pré-capitallsta, sobretudo no campo. Malgrado
a repressão, as novas classes e camadas sociais contestam o
poder oligárquico da Primeira República: crescem os sindi­
catos operários e aumentam as greves econômicas e políticas;
as camadas médias exigem uma maior participação na vida
política, enquanto a vanguarda militar delas, os tenentes, es­
colhe 0 caminho da insurreição armada.
O modo pelo qual as classes dominantes reagiram a essas
pressões “de baixo” foi a realização de uma outra “revolução
passiva”, a chamada “ Revolução de 1930”, através da qual —
como já observei — os setores mais modernos da oligarquia
agrária conquistaram uma posição hegemônica no bloco de
poder, cooptando ao mesmo tempo a ala mais moderada da
liderança das camadas médias, os tenentes. Essa solução “pelo
alto” obstaculizou em parte as tendências “ocidentalizantes”
que se vinham desenvolvendo na década anterior. Mas só em
parte. Já me referi a esse período da vida brasileira e, em
particular, às condições que levaram em 1937 à ditadura de
Vargas. Basta agora recordar que a modernização capitalista
do Brasil se reforçou no decorrer dos anos 30 e, sobretudo,
durante o Estado Novo vargulsta. Os pressupostos objetivos
de uma sociedade civil autônoma haviam sido criados; os
seus resultados subjetivos (ou seja, a formação de aparelhos
de hegemonia independentes do Estado) podiam certamente
sofrer um processo repressivo, como ocorreu sob a ditadura
de Vargas; mas, em si, aqueles pressupostos já não eram
mais elimináveis.
Em 1945, com a queda da ditadura e o retorno à demo­
cracia (ainda que limitada), o processo de “ocidentalização”
da sociedade brasileira tomou-se mais nítido. O PCB, que
volta à legalidade, torna-se pela primeira (e até agora única)
vez um partido de massa, obtendo 10% dos votos. Os outros
partidos que nasceram nesse momento assumiram dimensão
nacional e perfil ideológico mais nítido. Também os sindica-
los operários tornam-se cada vez mais importantes na vida
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 123

econômica e política do país, ainda que continuassem subor­


dinados a uma estrutura corporativa. Apesar de alguns episó­
dios regressivos (como a proibição do funcionamento legal do
PCB, em 1947), a tendência à “ocidentalização” da sociedade
brasileira continuou a predominar, reforçando-se ainda mais
no período 1955-1964.
Essa tendência foi obviamente freada pelo golpe de Es­
tado de 1964, que deu início à mais longa ditadura da his­
tória brasileira. O regime militar que dele resultou, sobretudo
depois do AI-5, buscou por todos os meios quebrar os orga­
nismos autônomos da sociedade civil. Ao mesmo tempo, o
extraordinário fortalecimento do Estado — não só de seus
aparelhos repressivos, mas também dos inúmeros organismos
tecnocráticos de intervenção na economia — contribuiu para
"desequilibrar” a relação entre Estado e sociedade civil, tor­
nando-a aparentemente pouco “ocidental”. Todavia, apesar de
tudo, a sociedade civil — embora por vezes duramente re­
primida — sempre conservou uma margem de autonomia
real. Mais que isso: cresceu e se diversificou a partir de mea­
dos dos anos 70, quando um forte carecimento de auto-orga-
nização envolveu os operários, os camponeses, as mulheres,
os jovens, as camadas médias, os intelectuais e até mesmo
os setores da burguesia. O movimento de massa em favor da
eleição direta para a Presidência da República, que desem­
penhou um papel decisivo na derrota definitiva da ditadura
militar, foi a culminação desse processo de fortalecimento da
sociedade civil, que assumiu dimensões até agora inéditas na
história do Brasil.
Como se pode explicar o aparente paradoxo de uma
sociedade civil crescer e ampliar sua autonomia sob um re­
gime ditatorial? Antes de mais nada, deve-se recordar que
o regime militar brasileiro, malgrado a intensa utilização da
coerção e mesmo do terrorismo de Estado, sobretudo nos anos
1969-1976, jamais foi uma ditadura fascista clássica, ou seja,
não foi um regime reacionário com bases de massa organi­
zadas Apoiando-se na camada militar-tecnocrática, esse re-

13. Essa concepção do fascismo, como se sabe, tem suas origens em


Gramsci e foi aprofundada por Palmiro Togliatti, em Lições sobre o
fascismo, ed. brasileira. São Paulo, Ciências Humanas. 1978.
124 Carlos Nelson Coutinho

gime não foi capaz de criar organismos capazes de conquistar


uma hegemonia real na sociedade civil, nem de fazer funcio­
nar os aparelhos dessa como “correias de transmissão” de
um Estado totalitário, como ocorreu na Itália e na Alemanha.
Pode-se falar aqui de fascismo somente se aceitarmos o termo
“fascismo pelo alto”, aplicado por Barrington Moore Jr. ao
Japão pré-bélico Para obter um consenso mínimo, a dita­
dura foi assim obrigada a tolerar a presença do Parlamento
(ainda que emasculado) e de um partido de oposição, o MDB,
que se transformou progressivamente numa ampla frente po­
lítica de todas as forças antiditatoriais. É certo que o regime
se empenhou em conquistar o consenso de amplas faixas da
população. Mas o consenso buscado (e por vezes obtido) foi
sempre um consenso passivo, que pressupunha a atomização
das massas e não era capaz de se expressar através de orga­
nizações que, a partir de baixo, dessem apoio ativo à dita­
dura. O regime, em suma, era “desmobilizador”. Sua legiti­
mação ideológica não era de tipo fascista. Tratava-se, antes,
de uma espécie de “ideologia da antiideologia”, ou seja, de
um pragmatismo tecnocrático que contrapunha a “eficiência”
às ideologias em geral, aos conflitos políticos, acusados de
“dividir a nação” e, portanto, de pôr em risco a “segurança”
requerida pelos militares como condição para o desenvolvi­
mento econômico.
A partir da crise do “milagre econômico”, tornada evi­
dente em 1974, essa tentativa de legitimação entrou progressi­
vamente em colapso, como o demonstram as derrotas sofridas
pela ditadura nas eleições parlamentares de 1974, 1978 e
1982. Ela perdeu rapidamente as bases de consenso não so­
mente entre as camadas médias, mas inclusive em alguns seg­
mentos da burguesia monopolista que o haviam anteriormente
apoiado com decisão. No contexto dessa profunda crise de
legitimação, os aparelhos da sociedade civil puderam de novo
voltar à luz, hegemonizados agora por um amplo arco de
forças antiditatoriais, que ia da esquerda aos conservadores
"esclarecidos”, ainda que com predominância desses últimos.

14. Cf. Barrington Moore Jr., Le origini sociali delia dittatura e delia
democracia, ed. italiana. Turim. Einaudi, 1969, pp. 487 e ss.
N.

As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 125

O “feiticeiro” desencadeara forças que já não podia controlar.


Pondo em prática uma política econômica fortemente moder-
nizadora, a ditadura promoveu um espetacular desenvolvi­
mento das forças produtivas: sob a égide de uma “revolução-
restauração”, o Brasil ingressou na fase do capitalismo mono­
polista de Estado. E essa modernização, mesmo sendo “con­
servadora” — na medida em que manteve e aprofundou a
dependência ao imperialismo, as disparidades regionais e a
desigual distribuição de propriedade e de renda —, consoli­
dou de modo irreversível os pressupostos objetivos da “oci-
dentalização” da sociedade brasileira.
Mas pressupostos objetivos — como ensina o marxismo
antideterminista de Gramsci — não significam forçosamente
resultados subjetivos. Resta ainda um longo caminho a per­
correr na luta para ampliar a socialização da política, para
construir um efetivo protagonismo das massas capaz de con­
solidar definitivamente a sociedade civil brasileira. Do desen-
lace dessa luta irá depender, de resto, o destino do atual pro­
cesso de transição iniciado com a chamada “Nova Repúbli­
ca”: na medida em que esse processo é fruto da combinação
de pressões populares “de baixo” e de operações transformis­
tas “pelo alto”, seu ponto de chegada pode ser ou a criação
de uma real democracia de massas ou a restauração do velho
liberalismo elitista e excludente. Mas, também nesse caso, os
dados empiricamente constatáveis (adesão aos sindicatos, cres­
cimento das comunidades de base, incremento dos agrupa­
mentos políticos legais, etc.) não desautorizam um relativo
otimismo, apesar da clara involução conservadora do Go­
verno Sarney. Portanto falar de fortalecimento da sociedade
civil brasileira não é apenas propor um programa político,
mas, ao mesmo tempo, registrar uma realidade de fato' “.
Pelas vias transversas da “revolução passiva”, o Brasil tornou-
se uma sociedade “ocidental”.

15. Os dados sobre o atual nível da modernização brasileira, tanto


no plano econômico-social quanto no da organização da sociedade civil,
podem ser encontrados no importante ensaio de Wanderley Guilherme
dos Santos, “A pós-‘revolução’ brasileira”, in Vários Autores, Brasil,
sociedade democrática, Rio de Janeiro, José Olympio. 1985, pp. 223­
336.
126 Carlos Nelson Coutinho

É daqui que se origina a crise dos modelos interpretati-


vos terceiro-internacionalistas próprios da velha esquerda. Se
o Brasil é hoje uma sociedade “ocidental”, então não mais
se podem imaginar formas de transição centradas na “guerra
de movimento”, no choque frontal com os aparelhos coer­
citivos de Estado, em rupturas revolucionárias entendidas co­
mo explosões violentas concentradas num breve lapso de
tempo. Começa a emergir também no Brasil uma esquerda
moderna, disseminada em vários partidos e organizações, mas
que tem em comum o fato de haver assimilado uma lição
essencial da estratégia gramsciana: o objetivo das forças po­
pulares é a conquista da hegemonia, no curso de uma difícil
e prolongada “guerra de posições”. Ora, no caso brasileiro,
isso significa que a consolidação da democracia pluralista,
bem como seu ulterior aprofundamento numa “democracia de
massas” deve ser considerada como ponto de partida e,
ao mesmo tempo, condição permanente de nosso caminho
para o socialismo.
Creio assim que o pensamento de Gramsci é capaz de
fornecer sugestões não somente para a interpretação de nosso
passado, mediante os conceitos de “revolução passiva” e de
“transformismo”, mas também para a análise de nosso pre­
sente, através da noção de “Estado ampliado”, e para a ela­
boração de uma estratégia de luta pela democracia e pelo so­
cialismo, concebida como busca de uma nova hegemonia
através da “guerra de posição”. É aqui que devem ser bus­
cadas as raízes da grande influência do pensamento de
Gramsci no Brasil de hoje e, em particular, do papel fun­
damental que ele vem desempenhando no processo de auto­
crítica e de modernização que envolve a esquerda brasileira.
Mas os que “adotaram” Gramsci no Brasil e buscam “tradu­
zi-lo” em “brasileiro” não podem esquecer uma de suas mais
lúcidas advertências metodológicas. Depois de ter lamentado
o fato de que a morte prematura de Lenin o houvesse im-

16. Utilizo o conceito de ‘‘democracia de massas” no sentido que


lhe é atribuído por Pietro Ingrao (cf., por exemplo. As massas e o
poder, ed. brasileira, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980) e
não nus acepções com que aparece, entre outras, nas obras de Fran­
cisco Weffort e de Hélio laguaribe.
As categorias de Gramsci e a realidade brasileira 127

pedido de aprofundar suas intuições sobre a diferença entre


“Oriente” e “ Ocidente”, Gramsci aponta a “tarefa fundamen­
tal” de um verdadeiro pensamento marxista; “ Ilitch[Lenin]”,
diz Gramsci, não teve tempo de aprofundar sua fórmu­
la, mesmo levando-se em conta que ele podia aprofundá-la só
teoricamente, já que a tarefa fundamental era nacional, ou
seja, requeria um reconhecimento do terreno e uma fixação
dos elementos de trincheira e fortaleza representados pelos
elementos de sociedade civil (. . .)• [Esse terreno muda] de
Estado para Estado, como é evidente, mas precisamente isso
requer um cuidadoso reconhecimento de caráter nacional”
(Q, 866). Sem negar os progressos realizados, cumpre admitir
que esse reconhecimento, no caso brasileiro, ainda está em
grande parte por ser feito.
Gramsd, a questão democrática
e o esquerda no Brasil

S^arco Aurélio Nogueira

Quando as principais obras de Antonio Gramsci foram


traduzidas e publicadas no Brasil, entre 1956 e 1968, era
quase impossível delinear que impacto viriam a ter sobre a
cultura e a política em terras brasileiras *. Compreensível que
assim fosse. Afinal, o autor dos Quaderni dei cárcere era um
nome praticamente desconhecido em nosso país e apenas co­
meçava a ganhar projeção fora da Itália. Além do mais, o
Brasil estava às vésperas da edição do Ato Institucional n.“ 5
— que explicitaria e daria plena expressão à ditadura impos­
ta em 1964 — e já havia sido alcançado pelo vagalhão ideo­
lógico que alimentaria muito dos comportamentos, posturas
e modos de pensar “sessentoitistas”. Começávamos, pois, a
ingressar numa fase pouco favorável à reflexão crítica em
larga escala e ao debate político produtivo. Não faltaria se­
quer uma boa dose de confusão e paralisia, certamente deri­
vada da alteração radical e/ou esgotamento dos campos ideo­
lógicos até então estruturados no país e bastante condicio-

1. Para os textos de Gramsci publicados entre nós, cf., neste volume,


a “Bibliografia de Gramsci no Brasil”, pp. 153-159.
IJO Marco Aurélio Nogueira

nada pela nova fase da crise do “marxismo-leninismo” e


pelo fim do monopólio exercido pelos partidos comunistas,
em escala mundial, sobre o marxismo^. Quebrado o monoli-
tismo e consagrada a diversificação das ‘“leituras” de Marx,
mergulhava-se (meio às cegas?) na era dos marxismos Foi
assim inevitável que a recepção do sofisticado e “heterodo­
xo” pensamento de Gramsci ficasse algo prejudicada. Igno­
radas pelos políticos progressistas e obrigadas a restar como
que reclusas na universidade, obtiveram pouquíssima res­
sonância nacional. Quase em silêncio, e pouco a pouco,
porém, iriam se espalhar como fermento entre a intelec­
tualidade do período (então encharcada de estruturalismo
e do “efeito Althusser”), cumprindo importante papel na
preparação do terreno à base do qual passariam a se diversi­
ficar os estudos marxistas e a se renovar, entre outras, a
ciência política que se praticava no país.
A partir de 1975-1976 tal situação conhecerá um deslo­
camento. De certa maneira, as idéias de Gramsci serão então
“socializadas”, transbordarão as fronteiras universitárias e
passarão a integrar o corpo conceituai com que comunistas,
liberais, socialistas e cristãos começariam a interpretar a reali­
dade do país. Naquele momento foi como se explodisse a
especulação contida na universidade. Q gramscismo veio à
luz do dia com a força de um vulcão. Todos, de uma ou
outra forma, tornaram-se “gramscianos”.
Evidentemente, tal popularidade confirmava a universali­
dade da elaboração teórica de Gramsci, sua capacidade de

2. Sobre o tema da crise e, mais em geral, sobre diversos outros pro­


blemas da história do marxismo, ver Leandro Konder, O marxismo
na batalha das idéias, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984, espe­
cialmente o ensaio “As crises do socialismo e a situação atual do
marxismo”, pp. 13-27.
3. A repercussão de tais fatos se fez evidentemente sentir no Brasil.
Interessante espelho da época pode ser encontrado no movimento edi­
torial, que conheceu — grosso modo entre 1966 e 1968 — verdadeiro
boom de textos marxistas, escritos em geral por autores não propria­
mente “ortodoxos” e, de maneira clara, expoentes do pluralismo que
plissava então a imperar; Lucien Goldman, Georg Lukács, Karel
Kosik, Louis Althusser, Rosa Luxemburgo, Herbert Marcuse, Isaac
Dciitscher, Henri Lefebvre.
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 131

iluminar as contradições do capitalismo contemporâneo e de


auxiliar a investigação da particular história brasileira. No
entanto, como é fácil imaginar, não iria refletir um entendi­
mento unívoco das posições gramscianas, que seriam, desde
0 início, incorporadas de maneira radicalmente heterogênea,
aberta aos mais diversos usos e interpretações. Aliás, talvez
tenha sido exatamente neste traço que elas encontraram impul­
so para conquistar tantos e tão fortes consensos. Ganhando
múltiplas facetas e inúmeros porta-vozes, Gramsci foi rapida­
mente difundido no Brasil, mas acabou também por funcionar
como “meio” para o estabelecimento de um descompromis-
sado flerte com o marxismo e por emprestar autoridade a
idéias as mais estranhas, regra geral arquitetadas a partir de
uma operação preocupada em manipular as categorias grams­
cianas como se se tratasse das peças de um puzzle cuja re­
solução pouco interessava. Seu pensamento terminou assim
por ser reduzido a conceitos, desvinculado de qualquer di­
mensão doutrinária mais abrangente e sobretudo separado da
perspectiva de transformação socialista e da particular teoria
do Estado que fazem de Gramsci um ponto de inflexão na
história do marxismo e do movimento operário. Quem não se
recorda, por exemplo, no início das primeiras manifestações
mais fortes pela democracia, ali por volta de 1976-1977, das
piruetas feitas com os conceitos de consenso, sociedade civil
e hegemonia? De certa forma, acentuou-se ao limite do pa-
radoxismo o caráter fragmentário inerente à própria obra de
Gramsci, deixando-se em segundo plano sua unidade c a visão
do mundo a ela subjacente.
Por vias transversas, impregnado do tom e dos vícios
do discurso acadêmico, manipulado e rcintcrpretado de mil
maneiras pela imprensa e pelos políticos, o pensamento de
Gramsci iria também contribuir para a generalização de cer­
tas impropriedades no campo do marxismo, hiperpolitizan-
do-o e afastando-o da dialética, como assinalou certa vez José
Arthur Gianotti Sqmente aos poucos, e no calor da batalha
pela afirmação da democracia no Brasil, é que Gramsci encon-

4. José Arthur Gianotti, “Acabou o capitalismo, é a barbárie?”. Entre­


vista à revista Presença, São Paulo. n.° 3. maio de 1984. pp. 37-52.
132 Marco Aurélio Nogueira

trará um tratamento mais abrangente e uma inserção mais


equilibrada na vida política e cultural brasileira. Aí sim cla­
ramente conquistará, conforme a correta observação de
Carlos Nelson Coutinho, “um espaço en maitre na cultura
brasileira, passando a ser uma força viva e uma referência
obrigatória para qualquer reflexão criadora sobre as nossas
contradições e perspectivas”

I
Creio não ser difícil entender esta sinuosa trajetória.
Antes de mais nada, é preciso considerar que ela se desenrolou
num período especialmente delicado, no qual o Brasil come­
çava a viver o drama de se estar convertendo numa moderna
sociedade de massas sem ter resolvido previamente seus anti­
gos problemas sociais (miséria, concentração da propriedade
fundiária, dependência) e tendo de enfrentar uma ditadura
que o desorganizava politicamente e bloqueava o desenvolvi­
mento de instituições compatíveis com o grau de modernidade
que iam adquirindo suas estruturas produtivas. Nada facili­
taria a recepção “normal” (isto é, crítica) do pensamento de
Gramsci. Primeiro, nos anos do “milagre econômico”, da re­
pressão política intensiva e da opção “guerrilheira” feita por
parcela das esquerdas, pouco espaço havia para o marxista
italiano, com sua obra toda afinada com a conquista gradual
de posições, a ampliação de espaços e a afirmação da hege­
monia operária pela via do consenso e da batalha de idéias.
Mais tarde, quando a presença de Gramsci começou a se fazer
sentir de maneira significativa, nos anos de 1975-1976, a
crise do regime autoritário e do modelo de vida por ele esti­
mulado ganhava contornos nítidos, impulsionada pelos pro­
blemas do capitalismo em escala mundial e especialmente pelo
esgotamento do ciclo expansivo interno que fizera a glória
dos tecnocratas e militares entre 1968 e 1973. Em outros
termos; Gramsci difundiu-se no Brasil no exato momento em

V Carlos Nelson Coutinho, “Gramsci e nós”, in A democracia como


valor universal, segunda edição, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984.
p 70. Ver também, e especialmente, o ensaio de Coutinho incluído
no presente volume.
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 133

que já se objetivara a crise econômico-social dos anos 70/80


e em que se anunciava com clareza o particularíssimo pro­
cesso de abertura democrática que iria demarcar toda a expe­
riência social brasileira até os dias de hoje.
A abertura não foi — nem está sendo, posto que não
completada — um processo simples ou indolor. Multo pelo
contrário. Em primeiro lugar, porque ocorreu numa socie­
dade impregnada de autoritarismo, excludente da participa­
ção popular, politicamente atrasada e às voltas com uma crise
econômica de caráter recessivo que não só mantinha em firme
ascendência a taxa de desemprego e o custo de vida como
injetava elementos de corporativismo e “insociabilidade” às
relações sociais e à vida associativa. Em segundo lugar, como
lembrou certa vez Fernando Henrique Cardoso, porque “a
abertura pegou a sociedade de calças curtas”, despreparada
para neutralizar o asfixiante controle do Estado, promover
uma rápida ruptura com o autoritarismo e impulsionar a trans­
formação democrática do país. O processo foi lento, arrastado,
condicionado por complicados acordos e compromissos.
Embora fortalecendo-se e ganhando diversificação, a socie­
dade civil não era capaz de estabelecer maiores vínculos
orgânicos com a sociedade política; da mesma forma, avan­
çavam a consciência democrática e a participação das massas,
mas existiam poucas instâncias capazes de agregar e organizar
em nível superior (político-estatal) os múltiplos interesses
sociais e, especialmente, de dar vazão e operacionalidade às
reivindicações populares. A abertura brasileira esteve sempre
marcada por uma pressão democrática que crescia sem conse­
guir se completar, esbarrando na capacidade de reprodução
do regime autoritário. Sua “lógica” foi nitidamente ciclotímicu
e jamais deixou de estar determinada pela tensão entre o
excludente projeto oficial de auto-reformu e um processo po­
lítico orientado em sentido popular-dcmocrático. For isto,
não pode espantar que a abertura tenha sido vivida como uma
fase repleta de indefinições, retrocessos c confusão, embora
inegavelmente criativa.
Como se não bastasse, a abertura — especialmente em
seus instantes iniciais — coincidiu com a dispersão e a estag-
134 Marco Aurélio Nogueira

nação teórico-política da esquerda. Pôs-se em marcha quando


ainda se ouviam os ecos da fracassada experiência “guerrilhei­
ra” de 1968-1972, que deixara um doloroso saldo negativo
para todos os socialistas e ajudara a estilhaçar a esquerda em
mil frações. Por outro lado, em 1974-1975 a violência re­
pressiva do regime iria voltar-se com inédita intensidade
contra o antigo e influente Partido Comunista Brasileiro
(PCB), despojando a esquerda e mesmo a democracia de um
expressivo pólo de referência e unificação. A abertura, portan­
to, iniciou-se num momento em que estavam esgotados os
projetos que até então haviam estruturado o campo político-
intelectual da esquerda e em que se abrira um vácuo “organi-
zativo” no movimento socialista brasileiro. Por isso mesmo,
acabou por criar gradativamente (e não sem um certo para­
doxo) um clima bastante propício à renovação e à busca de
novas referências.
A perspectiva teórica de Gramsci, portanto, não pôde
ter como referência política, no Brasil, uma esquerda forte e
organizada, com presença ativa no movimento sindical e ope­
rário, na cultura e no conjunto da vida nacional. Nem encon­
trou uma sociedade politicamente ordenada, com padrões inte­
lectuais “estáveis” e uma organização da cultura sedimentada.
Ao contrário, teve de se defrontar com uma sociedade toda
dividida em compartimentos estanques, atravessada por uma
movimentação social repleta de componentes “selvagens” e
submetida à irrupção de comportamentos e demandas deriva­
dos do “inchaço” do setor terciário e de uma inusitada pre­
sença reivindicativa das camadas médias. Teve ainda de
conviver com um marxismo largamente difuso mas volúvel
ao extremo e carregado de ingenuidade, e com um liberalismo
em ascensão que, obrigado a se reciclar, não hesitava em
tomar de empréstimo conceitos e procedimentos estranhos à
sua racionalidade formal e à sua tradição, misturando ainda
mais as já embaralhadas cartas da cultura política nacional.
Num quadro assim instável e turbulento, acabou por ser
inevitável que o pensamento de Gramsci sofresse os usos
mais diversos. Quase todos os tipos de malabarismo teórico
foram com ele justificados, especialmente nos ambientes de

1
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 135

esquerda, nos setores da oposição democrática e na universi­


dade. Ao mesmo tempo, em sua incorporação iriam se espe­
lhar 0 modo de ser e as características da intelectualidade
brasileira, sua dispersão e seu fascínio pelas “últimas modas”
européias, sua instabilidade e o caráter fragmentário de sua
produção, seu tratamento “instrumental” e não filosófico (dia­
lético) do marxismo, para mencionar mais uma vez José
Arthur Gianotti.
No entanto, seria absurdo não reconhecer o papel posi­
tivo que a obra de Gramsci desempenhou na história recente
da teoria social brasileira, em particular junto às suas verten­
tes marxistas. Creio, aliás, que este é o verdadeiro ponto a
ser destacado quando se examinam as relações entre Grams­
ci e o Brasil; Gramsci foi decisivo para arejar o pensa­
mento de esquerda no Brasil, até então globalmente subordi­
nado ou às formas clássicas do “marxismo-leninismo”, ou aos
dogmatismos mais sofisticados da escola de Althusser, ou a
variantes funcionalistas do radicalismo liberal. Em boa me­
dida, foi com ele que aprendemos a desmistificar o marxismo,
a ser tranqüilamente heterodoxos, a abandonar as ultrapas­
sadas fórmulas “revolucionárias” de pensar o Estado, o par­
tido político e o socialismo. Nas páginas instigantes de seus
Quaderni — repletas de “revolução passiva”, “bloco históri­
co”, “transformismo” e “guerra de posição” — encontramos
uma privilegiada perspectiva para compreender o caráter
“prussiano” assumido pelo processo de transformação capi­
talista e de formação da nacionalidade no Brasil. Através
delas, aguçamos nossa percepção da modernização conserva­
dora impulsionada pelo regime implantado em 1964 e pude­
mos requalificar nosso conhecimento sobre o “atraso” brasi­
leiro. De certa forma, Gramsci nos ajudou a entender o Brasil
moderno, industrial e de massas — mas também autoritário,
excludente e miserável — que tínhamos diante dos olhos e
nem sempre percebíamos. Ele foi, sobretudo, decisivo para
que se resgatassem entre nós o valor e a autonomia relativa
da política e do fazer política, que ao longo dos anos 70
passam a ocupar o centro mesmo das preocupações teóricas
marxistas e da prática de esquerda.
136 Marco Aurélio Nogueira

É preciso deixar claro, porém, que o pensamento de


Gramsci ganhou força e expressão no Brasil regra geral
vinculado à elaboração teórico-política do Partido Comunista
Italiano: à "democracia progressiva” e ao “partido novo” de
Togliatti, ao “eurocomunismo” e à tese do “valor universal
da democracia” de Berlinguer, à “democracia de massas” de
Ingrao — em suma, ao nexo entre socialismo e democracia
que se tornou o pezzo grosso do marxismo italiano na segun­
da metade dos anos 70. Difundiu-se impulsionado pela exci­
tação intelectual decorrente da ascensão do PCI em 1976,
da política do “compromisso histórico” e da plena explici­
tação do eurocomunismo, especialmente naquilo que tinha
de autonomia diante da URSS e de afirmação sem ambigui­
dades de uma via democrática e nacional para o socialismo.
Trouxe consigo as marcas daquela rica experiência, suas
inúmeras virtudes e qualidades, mas também seus problemas
e insuficiências. Não foi certamente por acaso que quase si­
multaneamente à reedição da tradução brasileira das obras de
Gramsci — que ocorre em 1976 —, exista como que um
boom eurocomunista no mercado editorial brasileiro. Pouco a
pouco, chegaram às livrarias Lições sobre o fascismo (São
Paulo, 1978) e a coletânea de ensaios Socialismo e democracia
(Rio, 1980), de Palmiro Togliatti; O Partido Comunista Ita­
liano, o socialismo e a democracia, de Giorgio Napolitano
(São Paulo, 1979); Massas e poder (Rio, 1980) e Crise e ter­
ceira via (São Paulo, 1981), de Pietro Ingrao; O conceiio
de hegemonia em Gramsci (Rio, 1978) e O pensamento de
Lenin (Rio, 1979), de Luciano Gruppi; a polêmica Gramsci/
Bordiga sobre os conselhos de fábrica (São Paulo, 1981);
Teoria do partido político, de Umberto Cerroni (São Paulo,
1982); Um socialismo a inventar, de Lucio Lombardo Radice
(São Paulo, 1982). Foi um período de ouro para a elaboração
teórica do PCI e para a renovação mesma do marxismo, aí
incluído 0 brasileiro.
De fato, entre 1976 e 1982 as idéias e posições “italia-
niis” repercutiram com intensidade no Brasil, interessando a
um número significativo de políticos e intelectuais, de estu-
ilnnlcH universitários e ativistas da vida associativa. Foram
ictiui ilf cursos c debalcs, receberam atenção da imprensa,
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 137

foram vistas com grande simpatia pela esquerda. Não houve


quem não lesse e discutisse, por exemplo, o ensaio de Carlos
Nelson Coutinho sugestivamente intitulado “A democracia
como valor universal”, publicado pela revista Encontros com
a civilização brasileira em 1979. Apoiando-se na tese berlin-
gueriana do valor em si do método e dos procedimentos de­
mocráticos, e dando ampla divulgação às posições teóricas
que a sustentavam, o ensaio de Coutinho funcionou como um
verdadeiro divisor de águas no marxismo brasileiro. Gerou
polêmicas até então inimagináveis, polarizou a esquerda, fez
com que viessem à superfície o doutrinarismo e a resistência
à mudança dos militantes comunistas, impulsionou realinha-
mentos teóricos fundamentais e, sobretudo, ajudou a consoli­
dar, entre muitos revolucionários, uma cultura política de­
mocrática e uma visão moderna do socialismo. Isso sem falar
dos efeitos renovadores que teve sobre o próprio liberalismo
brasileiro.
Quer dizer: o gramscismo ganhou densidade no Brasil
como parte (dotada de expressiva singularidade) de uma nova
teoria do socialismo, elaborada coletivamente — e, portanto,
pluralmente — por um partido (o PCI) que nas concretas
condições dos anos 70 apresentava-se vocacionado para repor
o movimento comunista e a idéia mesma de esquerda, de so­
cialismo, numa posição de contemporaneidade com o mundo
realmente existente. O pensamento de Gramsci e a elabora­
ção teórico-política do PCI — o “marxismo italiano dos anos
70” — agiram, assim, no Brasil, como revitaliziidorcs de
uma esquerda que se esfacelara no plano organizntivo c se
repetia no plano político-cultural, por força de sua própria
evolução interna, da violência ditatorial e da "selvagem” mo­
dernização capitalista do país.
Neste sentido, o marxismo italiano daqueles unos foi
duplamente funcional no Brasil. Por um lado, porque facili­
tou a ruptura com a tradicional visão doutrinária do marxis­
mo sem implicar a rejeição do próprio marxismo e, com isso,
suavizou a renovação de uma esquerda que se dispunha a
largar pela estrada o “marxismo-leninismo” de que era cauda-
tária e a resgatar o núcleo universalmente vivo do pensa-
138 Marco Aurélio Nogueira

mento de Marx. Por outro lado, porque se ajustou muito bem


à forma e às características da luta contra a ditadura e pela
democracia no Brasil. De fato, como sabemos, a oposição ao
regime tecnocrático-militar de 1964 jamais pôde se sustentar à
base do confronto direto (insurrecional, violento) ou da ruptu­
ra brusca e radical com o sistema político e o Estado; ao
contrário, só conseguiu realmente avançar à custa de um
amplo esforço unitário que gradativamente deslocou as bases
de sustentação do regime, isolou-o da sociedade e bloqueou
sua reprodução. A transição brasileira, na verdade, se fez
centralizando o momento democrático, político-institucional:
a heterogênea frente que se opôs ao regime (e finalmente o
derrotou em 1984-1985) encontrou seu elemento catalisador
na luta contra o autoritarismo, que não só restringia os direi­
tos humanos, as liberdades políticas e a livre manifestação dos
interesses sociais como perturbava o prosseguimento da
acumulação e jogava o país na mais profunda crise de sua
história. Sempre foi preciso, portanto, fazer política em todos
os níveis, buscar a construção de um consenso ativo entre as
massas, insistir na consolidação e no progressivo alargamento
dos espaços duramente conquistados — temas, digamos, quase
“puramente” gramscianos. Alianças amplas, negociações,
recuos táticos, transformações progressivas: as oposlções de­
mocráticas só conseguiram progredir travando aquela prolon­
gada “guerra de posição” que exige “qualidades excepcionais
de paciência e espírito inventivo”, como costumava dizer
Gramsci; foram levadas a combater a ditadura por dentro e
pela base, explorar todas as oportunidades legais de atuação
sem desconsiderar as particulares características da movimen­
tação social (cerceamento terrorista da ação sindical, mobili­
zação dificultada, fragilidade dos partidos operários, corpora­
tivismo, pouca unidade, etc.). Compreende-se assim a rele­
vância que adquiriram as eleições e o parlamento na demo­
cratização brasileira. Tornam-se compreensíveis também a
longa agonia do regime e a enorme capacidade de reprodução
e iniciativa por ele detida durante os dez anos (1974-1984)
em que evoluiu sua crise. E fica mais inteligível o complexo
(c pnrii muitos surpreendente) desfecho de todo o processo —
iimii "normiil” c constitucional transmissão de poderes feita
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 139

pelo derradeiro general-presidente a uma vasta e heterogênea


coalisão hegemonizada pelo liberal-conservadorismo. Não se
pode pois estranhar nem o excessivo continuismo nem a lon­
gevidade da transição brasileira, incapaz de se completar após
década e meia de desdobramentos.
Foram, pois, as próprias condições da luta democrática a
“ajustar” o marxismo italiano à realidade brasileira e a evi­
denciar seus nódulos universais. Ao fazer-se através da com­
binação dialética de crise social, pressão democratizante e
progressivo deslocamento de forças — num contexto em que
estavam presentes uma grave crise das esquerdas, um ex­
pressivo fortalecimento da sociedade civil e o nascimento de
um sindicalismo operário de “novo tipo” (concentrado nas
indústrias de ponta do cinturão industrial paulista, o ABC)
— a transição brasileira provocou a emergência de temas e
problemas que, com outras determinações, vinham sendo ela­
borados teoricamente pelos comunistas italianos. O fascínio
exercido pelo eurocomunismo sobre a esquerda e o liberalis­
mo avançado no Brasil não foi, portanto, um mero capricho
intelectual, mas uma “imposição” da realidade; a moderna
sociedade de massas em que se tinha transformado o Brasil
decretara o anacronismo de todas as velhas doutrinas (e assim
do marxismo-leninismo) e, sobretudo, exigia o que havia de
mais moderno e sofisticado no campo teórico, inclusive e
principalmente naquele demarcado pelas idéias de Marx,
embora não proibisse a reprodução dos componentes mais
atrasados e problemáticos da cultura política nacional e dc
nosso tradicional pensamento progressista.
Estou convencido de que isto explica muito do fato dc
a incorporação do marxismo italiano, ao longo da segunda
metade dos anos 70, não ter criado nenhum nexo de de­
pendência intelectual no Brasil. O eurocomunismo não foi
imitado ou grosseiramente copiado, mas tratado como d e­
mento de vanguarda da moderna teoria socialista, uma espécie
de ponte que permitiu saltar as armadilhas do "marxismo-
leninismo”. Deu-se, por assim dizer, um justo peso à tese
togliattiana de que deixaram de existir centrou diretores da
luta pelo socialismo e modelos teóricos a serem seguidos ou
“venerados”. A elaboração teórico-política do PCI, portanto.
140 Marco Aurélio Nogueira

não foi incorporada pela esquerda brasileira como um siste­


ma fechado ou como “guia” para o encontro do caminho
brasileiro para o socialismo, mas como uma contribuição a
mais para adequar a teoria da transformação socialista aos
quadros do capitalismo monopolista e da sociedade industrial
de massas que se organizaram (com face muito peculiar) no
Brasil. Neste sentido, foi uma contribuição realmente notável.
Em primeiro lugar, como já apontou à exaustão Carlos
Nelson Coutinho ®, o marxismo italiano — e, aqui, sobretudo
o gramscismo — estimulará uma expressiva revitalização dos
estudos sobre a história brasileira. Agregará novas categorias
e perspectivas ao entendimento do caráter prussiano, auto­
ritário e elitista assumido pelo processo de formação da na­
cionalidade e de desenvolvimento capitalista no Brasil, faci­
litando a compreensão de diversos de seus componentes su-
perestruturais. As análises gramscianas do Risorgimento e do
fascismo italiano (das quais derivam, entre outros, os con­
ceitos de “revolução passiva” e “revolução-restauração”), por
exemplo, ajudarão sobremaneira a explicitar nuances decisivos
da modernização conservadora reforçada pelo regime resul­
tante do golpe militar de 1964, requalificarão o conhecimento
sobre o “atraso” brasileiro e iluminarão questões — o forta­
lecimento da sociedade civil, a nova forma do Estado, o
“transformismo” dos políticos, etc. — até então pouco con­
sideradas pela intelectualidade. Será também particularmente
significativo o impacto de Gramsci sobre a ciência política
e os estudos pedagógicos.
Em segundo lugar, na esteira desta requalificação teó­
rica, 0 marxismo italiano balizará muito do ajuste de contas
que a esquerda brasileira irá empreender, a partir de 1977,
com seu próprio passado e sua própria tradição. Explieo-me.
Por força do “prussianismo” inerente à história do Brasil —
expresso no predomínio do Estado como agente político, na
marginalização das massas, no conservadorismo das elites do­
minantes, nas transições feitas sempre “pelo alto”, no uso
intensivo da violência e da cooptação — , a vida política
nacional esteve sempre intoxicada de golpismo e de autorita-

ft, l it e m . pu.síini
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 141

rismo. Parte integrante deste processo, a esquerda não teve


como evitar seus efeitos e conseqüências, pois estava obri­
gada a atuar com os dados oferecidos pela própria sociedade
que queria transformar e era por eles contaminada. Além do
mais, esteve sempre vitimada pelo revolucionarismo terceiro-
internacionalista (especialmente aquele demarcado pela épo­
ca de Stálin), que lhe impediu de analisar com independên­
cia, realismo e rigor científico a situação nacional. Acabou
assim por construir uma tradição repleta de arrogância e de
procedimentos golpistas, autoritários e dogmáticos.
É claro que tal constatação não pode ser empregada para
encobrir a presença globalmente positiva que a esquerda tem
na história brasileira, seja como organizadora da resistência às
sucessivas ditaduras republicanas, seja como impulsionadora
da organização operária e da luta por decisivas conquistas sin­
dicais, políticas e econômico-sociais do proletariado, seja en­
fim como ponto de referência das melhores tradições humanis­
tas e libertárias no Brasil. Mas serve para assinalar as princi­
pais deformações que acompanharam e em boa medida condi­
cionaram (e condicionam ainda hoje) aquela ineliminável pre­
sença: o extremismo de perfil jacobinista, o estatalismo, a
tendência a "substituir” a participação permanente das mas­
sas, a relação instrumental com a democracia política. Esta
bagagem “negativa” pesará como um fardo na conduta da
esquerda, especialmente após 1964. Aparecerá na opção
“guerrilheira” feita pelo então “maoísta” Partido Comunista
do Brasil (PCdoB) ou pelas diversas correntes que romperam
com 0 Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1967-1968;
na cristalização de uma rígida e burocrática estrutura orga-
nizativa no interior do PCB; no antiparlamcntarismo de mui­
tos militantes de esquerda que irão se agrupar no Partido dos
Trabalhadores (PT); no comportamento “caudilhista” de di­
versos líderes políticos (Brizola, Prestes) após a anistia de
1979. Tudo isto, por sua vez, irá dificultar sobremaneira o
surgimento de uma organização socialista forte, moderna,
capaz de atrair e aglutinar as diferentes correntes de esquer­
da existentes no país. Em consequência, a abertura irá se
desenrolar no Brasil sem conhecer a emergência de um mo-
142 Marco Aurélio Nogueira

vimento pelo socialismo em condições de disputar a hege­


monia com o liberalismo em ascensão.

II
Será sobretudo no combate a este patrimônio que o
marxismo italiano encontrará condições para se difundir no
Brasil, chegando mesmo a aparecer como um dos fatores
“subjetivos” que impulsionaram a elaboração da “teoria” da
transição democrática brasileira. Particularmente junto à es­
querda, cumprirá uma função modernizante de largo espectro:
contribuirá para trazê-la — ou ao menos importantes setores
dela, mais próximos da tradição comunista — para o campo
da política institucional e da democracia, estimulando-a a
adotar uma relação não doutrinária e não dogmática com as
idéias de Marx (Engels, Lenin), um posicionamento autôno­
mo diante da União Soviética, uma postura crítica perante o
socialismo do leste, uma visão aberta e laica do partido po­
lítico.
Tal processo conhecerá sua expressão mais bem acabada
na trajetória seguida pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB)
entre 1977 e 1982. Neste período e no interior deste partido,
ganhará corpo um movimento de renovação dedicado a testar
a possibilidade de reorganizar um PC em bases novas, ajus­
tadas às condições brasileiras. Recompondo parcialmente as
relações dos comunistas com os intelectuais marxistas, tal
movimento será decisivo para dar ressonância ao marxismo
italiano, do qual extrairá muita inspiração. Por isso mesmo,
a consideração da história recente do PCB converteu-se num
importante passo para dar transparência à história das rela­
ções entre Gramsci e a esquerda brasileira. Examinemos ra­
pidamente a questão.
Antes de tudo, é preciso reconhecer que o PCB —
naqueles anos e ainda hoje — portava consigo uma longa
história de inserção social e luta política. Fundado em 1922,
e desde então posto sempre arbitrariamente à margem da lei,
adquiriu invejável capacidade de sobrevivência e reprodução,
que o manteve unido e atuante mesmo nos piores momen­
tos da vida nacional. Operando numa sociedade com escassa
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 143

tradição democrática e asfixiante presença organizadora do


Estado — fatores que bloqueavam o fluxo da vida partidária
e associativa — , o PCB acabou por se converter praticamente
no único partido político implantado nacionalmente e em
condições de estabelecer relações contínuas com a classe ope­
rária, os trabalhadores rurais, as camadas médias e a intelec­
tualidade. Transformou-se assim num dos pontos de referên­
cia da democracia brasileira. Os demais partidos e organiza­
ções progressistas ou tinham vida efêmera e relativamente
marginal — como os agrupamentos trotskistas ou o Partido
Socialista Brasileiro, surgido no pós-guerra — ou eram obri­
gados (como 0 Partido Trabalhista Brasileiro, criado por
Vargas em 1945) a considerar seriamente a influência do
pequeno PCB, disputando com ele a liderança do movimento
sindical, aliando-se a ele em determinadas conjunturas e inclu­
sive apropriando-se de sua elaboração teórico-política. Essa
privilegiada posição foi decisiva para organizar e reproduzir
a hegemonia dos comunistas sobre a esquerda ao longo dos
anos 40, 50 e 60, mas não impediu que o PCB derivasse,
com espantosa regularidade, para posições aventureiristas,
absurdas e golpistas — como em 1935, no período 1950­
1958, às vésperas do golpe militar de 1964 e mesmo pos­
teriormente, por exemplo em 1973. Nem evitou que os
comunistas fossem perseguidos sem trégua, mantidos numa
ilegalidade injustificável e forçados a uma clandestinidade
que, se não chegou a lhes impossibilitar a ação política, difi­
cultou-a sobremaneira e carregou-a de deformações. Reagindo
à discriminação através do doutrinarismo e da fuga para
guetos fetichizados, os comunistas acabaram por ver seu par
tido contaminado por práticas e métodos autoritários, contro­
lado burocraticamente por grupos dirigentes continuistas c
corroído por um clima de intolerância que transformava toda
divergência em exclusão e dissidência.
Não deixa de surpreender, portanto, que justamente no
interior do PCB tenha se desenvolvido — a partir de 1958
— uma formulação política engenhosa, sensível à concreta
realidade brasileira, favorável à elaboração de programas de­
mocráticos amplos e unitários, aberta aos temas institucio­
nais e de governo, ao pluralismo e aos direitos básicos da
144 Marco Aurélio Nogueira

cidadania. Tal formulação — o chamado “caminho brasilei­


ro para o socialismo” — contrastará muito da estrutura au­
toritária e excludente do partido (embora sem nunca con­
seguir dissolvê-la) e permitirá aos comunistas uma conside­
rável ampliação de sua influência na sociedade. O PCB fi­
cará assim atravessado por uma grave disjunção: sua estrutu­
ra organizativa condicionará e chegará mesmo a desmentir a
sua generosa orientação política, impedindo-a de produzir
resultados orgânicos significativos. Grande na elaboração polí­
tica, 0 PCB jamais deixará de ser um pequeno partido.
De qualquer forma, será essa formulação que dará ao
PCB, alguns anos depois do golpe de 1964 (mais precisa­
mente, ao se iniciar o período negro da ditadura), condições
de resistir à inconseqüência da luta armada e desenvolver
uma ação política eficiente e relevante Embora com vaci-
lações e retrocessos (como em 1973, quando se sacramenta
uma política de “frente patriótica antifascista” que desquali­
ficava os conflitos interburgueses e centralizava a luta con­
tra o capital), 0 PCB conseguirá trabalhar o entendimento
de que o golpe militar representara uma mudança de quali­
dade na vida nacional e instaurara uma ditadura com expres­
sivas bases de sustentação social, inserida num quadro deter­
minado pela consolidação de profundas transformações econô­
micas e dos fundamentos de uma sociedade industrial de
massas. Em decorrência, ganhará corpo no interior do par­
tido uma perspectiva concentrada na questão da política e do
fazer política, toda voltada para o impulsionamento de uma
ação oposicionista permanente, ampla e unitária. De certa ma­
neira, e abrindo mão ao menos de parte de sua inserção
junto à classe operária e aos movimentos sociais, o PCB irá
se converter no grande articulador da contestação ao regime
e da sua deslegitimação, especializando-se na “costura” de
alianças e na montagem da própria frente de oposições com
que se chegaria à abertura na segunda metade dos anos
70. Não medirá esforços para aproveitar os espaços legais

7. Uma reconstrução, no plano meramente documental, dessa traje­


tória pode ser encontrada em PCB: vinte anos de política (1958-1979).
Organização e apresentação de Marco Aurélio Nogueira, São Paulo,
Ciências Humanas, 1980.
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 145

de atuação, valorizar o momento institucional, vincular


as diversas reivindicações específicas à questão geral da luta
contra o autoritarismo. Acabará por se comportar como ver­
dadeiro “substituto” de diversos sujeitos (principalmente li­
berais) que relutavam em contestar abertamente o regime,
como observou com precisão Luiz Werneck Vianna; com
isso, arcará com o ônus de se ver imerso em grave "crise
de identidade no movimento popular e operário, mais visível
quando se inicia a política de abertura” Seja como for, mes­
mo debilitado por suas dissidências “guerrilheiras”, por sua
estrutura mandonista e pelas ambigüidades que persistiam
em suas formulações (além, é evidente, da perseguição terro­
rista do Estado), o partido irá se converter num importante
pólo de aglutinação democrática, voltará a ser o maior refe­
rencial da esquerda e chegará inclusive a oferecer, no momen­
to exato, uma “saída” partidária para diversos militantes da
oposição armada. Sem a presença e a política dos militantes
pecebistas seria muito diferente a história da resistência e da
transição democrática no Brasil.
No entanto, nem o partido mostrou-se capacitado para
manter e administrar toda essa sua influência, nem o regime
permitirá aos comunistas o pleno aproveitamento dos acertos
de sua política. Entre 1974 e 1975, exatamente quando maio­
res eram os êxitos do PCB (afinal, naqueles anos as oposi-
ções coligadas obtinham sua primeira grande vitória eleitoral
e o próprio regime reconhecia a necessidade de buscar uma
“abertura”), a ação concentrada dos órgãos de segurança da
ditadura — numa blitz desproporcional ao tamanho do alvo
— praticamente eliminará o partido da vida política nacional.
Os principais organismos partidários serão desmantelados, di­
versos dirigentes assassinados, centenas de militantes presos
e processados, forçando o Comitê Central, pela primeira vez
na história do partido, a abandonar o país.
A desarticulação do PCB coincidirá, por um lado, com
o início do processo de abertura; por outro, com a plena

8. Luiz Werneck Vianna, “O popular e o operário na história recente


do PCB”, in Presença, n.° 2, fevereiro de 1984, São Paulo, Caetés.
Agora em Travessia. Oa abertura à Constituinte, Rio de Janeiro, Tau-
rus, 1986. p. 144.
146 Marco Aurélio Nogueira

explicitação da “selvagem” e conservadora modernização ca­


pitalista do país. Neste quadro contraditório e tumultuado —
no qual conviviam recessão, desemprego e inflação, fortale­
cimento da sociedade civil e multiplicação das reivindicações
trabalhistas, violência urbana e crise da sociabilidade, pressão
democrática e “crise da política” —, a ausência do PCB terá
efeitos profundos. Acima de tudo, decretará o fim da hege­
monia comunista sobre a esquerda. Naquele exato momento
(1976-1977), liberada da “tutela” de seu irmão mais velho e
bastante diversificada culturalmente, a esquerda brasileira ex­
perimentará uma fase de desencontros e confusão toda emol­
durada pela busca do novo e da renovação. Verá agravar-se
sua dispersão orgânica e divisão e terá drasticamente reduzi­
da sua capacidade de competir com o liberalismo em as­
censão.
Sobre o próprio universo comunista, o momentâneo desa­
parecimento do PCB provocará um duplo efeito. Em primeiro
lugar, 0 exílio europeu de sua direção central fará com que
o partido se torne suscetível ao impacto da reviravolta euro-
comunista: na Europa, cercado por intelectuais competentes e
em contato com um universo cultural mais diversificado, o
Comitê Central do PCB irá encontrar condições ótimas para
atualizar sua linha política e alcançar uma concepção mais
moderna de socialismo e de ação revolucionária. Em dezem­
bro de 1977, por exemplo, reconhecerá explicitamente que
“a conquista das liberdades democráticas é o centro de nossa
luta” e que “só a democracia poderá abrir caminho para as
transformações de que o Brasil necessita urgentemente”. Um
ano depois, a fraseologia adotada é francamente “euroco-
munista” ; “a luta pela democracia, pela manutenção, amplia­
ção e aprofundamento das conquistas alcançadas é parte in­
tegrante da luta pelo socialismo” ®. Era uma revisão em pro­
fundidade das posições de 1973 e uma retomada da melhor
tradição pecebista, agora posta em nível superior. Represen­
taria um expressivo avanço das concepções democráticas no
interior do partido, para gáudio dos comunistas que haviam
permanecido no país e ensaiavam os primeiros passos da reno-

PCB: vinte ano.': de política, op. cit., pp. 272 e 291.


Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 147

vação. O abalo foi generalizado em toda a estrutura partidá­


ria. E, em termos imediatos, teve como principal conseqüên-
cia a irrupção de uma virulenta crise no interior do próprio
Comitê Central, que, após marchas e contramarchas, implicou
o afastamento de Luis Carlos Prestes da secretaria-geral e,
sucessivamente, da direção central e do partido.
Em segundo e mais importante lugar, a ausência de
direção nacional facilitará aos comunistas que permaneceram
no país uma reorganização partidária repleta de inovações,
menos comprometida com a velha doutrina e os antigos mé­
todos de direção. Dará a eles, por assim dizer, condições de
ousar. A experiência de renovação ocorrida especialmente no
Estado de São Paulo e junto à intelectualidade comunista do
Rio de Janeiro, entre 1977 e 1982, será o melhor exemplo
disto, inclusive porque refletirá os impasses, as contradições,
as potencialidades e a resistência à mudança do PCB De
fato, esforçando-se para atualizar com unidade e democracia
a tradição comunista e para construir um partido em cujo
centro estivesse o fazer política, não a doutrina ou a mera
reprodução de uma “máquina”, a experiência renovadora fará
com que o PCB volte a ser, em pouco tempo, uma realidade
viva no cenário político nacional, junto ao movimento sindi­
cal e à intelectualidade. Seus êxitos, entretanto, não terão
correspondente tradução orgânica (sempre haverá muita in-
fluêneia e pouca organização), nem serão suficientes para em­
polgar o conjunto do partido ou a maioria de seu Comitê
Central, Ingressará num beco sem saída, minado por cima e
por baixo. Com o avanço da abertura (com a anistia e a libe­
ralização política, em particular), tal experiência conhecerá a
derrota: será gradativamente inviabilizada por suas próprias
insuficiências e sobretudo pelo próprio Comitê Central do
partido, que, retornando ao país em dezembro de 1979, re­
cuperará os mesmos velhos métodos de direção — baseados

10. Um registro de experiência renovadora paulista e da luta interna


dos anos 80-82 pode ser encontrado em O PCB em São Paulo:
docum entos (1974-1981). Organização e apresentação de Marco Auré­
lio Nogueira, David Capistrano Filho e Cláudio Guedes, São Paulo,
Ciências Humanas, 1981. E também em Unidade, renovação, dem o­
cracia. Resoluções do E ncontro Estadual de São Paulo pela Legalidade
do PCB. M arço de 1982, São Paulo, Caetés, 1982.
148 Marco Aurélio Nogueira

numa concepção burocrática do “centralismo”, na exclusão


das minorias e na cooptação — e procederá de forma ambí­
gua e conciliatória, reanimando o doutrinarismo das bases
e fazendo novamente predominar a tensão entre orientação
política democrática e “máquina” autoritária. Nas palavras
de um atento observador das coisas partidárias: “Vencia,
ainda dessa vez, a política de conciliação. Os militantes liga­
dos aos movimentos sociais são enquadrados, inibidos em
sua iniciativa, recompondo-se o anquilosado tecido do aparato.
Golpeia-se burocrática e administrativamente a parte viva do
partido. De instrumento vivo que articula a vanguarda polí­
tica de uma classe com o conjunto dessa classe e com a
sociedade, o partido se amesquinha em máquina. Pretende-se
resolver a crise do partido por procedimentos internos, ad­
ministrativos. Primeiro a máquina, depois a sociedade” ^*.
Nesta situação de duplicidade, conciliação e conservadorismo,
não será apenas a experiência renovadora que conhecerá um
golpe e fracassará, mas o próprio PCB; de 1982 em diante,
ele verá crescer seu isolamento na sociedade, sua incapaci­
dade de obter consensos junto à classe operária e às camadas
médias, sua distância em relação à intelectualidade.

III
O percurso do marxismo italiano (aí incluído o grams-
cismo) no Brasil em boa medida acompanhará as vicissitudes
da experiência renovadora no interior do PCB. Enquanto ela
teve força e repercussão, pôde encarregar-se de difundir e
amplificar a produção italiana, que funcionava como seu
principal ponto de referência. Não por acaso os comunistas
renovadores foram reiteradamente adjetivados por seus ad­
versários internos de “eurocomunistas”, tanto para frisar,
graças a uma perversa inversão, sua alienação da realidade
nacional e sua capitulação diante de posições “reformistas”
quanto para excitar (com fins manipuladores) as bases par­
tidárias. Mal compreendido e maltratado pelo aparato pece-

I I I ulz Werneck Vianna. A classe operária e a abertura, São Paulo,


('•rifa, 1983, p. 24.
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil 149

bista e por boa parte da militância comunista, o marxismo


italiano será amplamente manipulado nos entrechoques e
querelas da luta interna. Com a vitória e a cristalização do
burocratismo tradicional (contraface obrigatória da derrota
dos renovadores), praticamente deixará de circular nos am­
bientes pecebistas. No interior do PCB, porém, não foram
apenas as sugestões italianas que perderam espaço, mas o
debate mesmo sobre a democracia. Como bem observou Car­
los Nelson Coutinho em 1984, tornou-se patente que aquele
agrupamento político “não estava preparado para aceitar, em
todas as suas implicações teóricas e políticas, o valor uni­
versal da democracia”, e isso não apenas em decorrência da
“eventual composição de sua atual direção” ou dos “precon­
ceitos de grande parte de seus militantes de base”, mas da
manifestação de raízes mais fundas; “Era conseqüência da
própria forma de organização que, herdada de uma tradição
oriunda da III Internacional, o PCB persistia e ainda persiste
em adotar”
Entre 1982 e 1985, não se fez notar, na vida brasileira,
qualquer acréscimo significativo de interesse por Gramsci ou
pelo eurocomunismo. O próprio mercado editorial fechou-se
para eles. Verdade que a impostação e os temas italianos
permaneceram na ordem do dia do trabalho intelectual, aju­
dando a demarcar posições, a clarear controvérsias, a aproxi­
mar estudiosos Porém, tudo somado, as coisas têm-se pas­
sado como se o marxismo italiano já tivesse esgotado sua
função entre nós. A atração maior passou a ser principalmente
Bobbio, com suas instigantes reflexões sobre o socialismo, suas
“leituras” dos clássicos do liberalismo e sua pregação em

12. Carlos Nelson Coutinho, A democracia com o valor universal, op.


cit; “Prefácio à segunda edição”, pp. 12-3.
13. Exemplos desse continuado interesse pelo marxismo italiano e por
Gramsci são, para mencionar apenas aiguns, o livro de Francisco
Weffort, Por que democracia? (São Paulo, Brnsiliense, 1984); o volu­
me coletivo A s esquerdas e a democracia, organizado por Marco Auré­
lio Garcia (Rio de Janeiro, Paz e Terra; São Paulo, Cedec, 1986);
e a coleção de Presença, revista que — editada primeiro (1983) em
São Paulo e a partir de 1985 noi Rio — tornou-se verdadeiro estuário
das posições arejadas da esquerda brasileira, em particular a de extra­
ção comunista.
150 Marco Aurélio Nogueira

favor do liberal-socialismo O problema, no entanto, é por


demais complexo, e não se reduz pura e simplesmente às des­
venturas da renovação no interior do PCB ou sequer à crise
deste partido. Primeiro de tudo, não podemos esquecer que
vivemos aquele período de quatro anos buscando a resolução
do quebra-cabeças armado pela lenta agonia do regime auto­
ritário: nos entregamos de corpo e alma — como aliás era
justo fazer — à política concreta, deixando meio de lado a
pesquisa e a reflexão teórica sistemática. Em segundo lugar,
fomos afetados pelo refreamento da auto-renovação da es­
querda brasileira: junto com o fracasso do projeto de demo­
cratização do PCB, resfriaram-se a “novidade” e o entusiasmo
do PT (em cujo interior não predominam as correntes pro­
priamente “modernas”) e nenhuma proposta socialista apare­
ceu para seduzir e aglutinar as diversas correntes de esquer­
da, hoje praticamente reduzidas à impotência ou ao mero fus-
tigamento do Estado. Mas não é só: em toda parte, o marxis­
mo permanece enredado em grave crise de produção, a es­
querda conhece um agudo impasse, e o eurocomunismo não
existe mais. Mesmo na Itália, o PCI vive em compasso de
espera desde o esgotamento da política do compromisso histó­
rico, na virada dos anos 70; sua rica e variegada elaboração
teórica de antes encontra-se como que suspensa no ar, en­
quanto ganha intensidade um debate todo polarizado pela
disputa entre o novo reformismo dos “melhoristas” e a “ter­
ceira via” dos continuadores de Berlinguer. Não só no Brasil
a esquerda está pobre de idiéas e repleta de indefinições. Es­
tamos em sintonia com o mundo.
Certo, entre nós tudo é mais complicado, e os mesmos
velhos dilemas de antes persistem quase inalterados. Ainda
precisamos dar vazão a uma nova ordem político-institucio-

14. A partir de 1980, pode-se registrar uma verdadeira explosão de


interesse pelo pensamento de Norberto Bobbio. Desde então foram
publicados no Brasil: A Teoria das form as de governo (UNB, 1980),
O conceito de sociedade civil (Graal, 1982); Qual socialismo? (Paz
r Terra, 1981); Direito e Estado no pensam ento de E m anuel K ant
illNH, 19841; Sociedade e Estado na filosofia política moderna (Bra-
«lllensr, 198ti); O futuro da democracia (Paz e Terra, 1986); Estado,
ni‘veino e uuiedade. Para uma teoria geral da política (Paz e
Iriiii 1'lHli l thrrulismo e Democracia (Brasiliense. 1988),
Gramsci, a questão democrática e a esquerda no Brasil IS l

nal que atualize o Brasil à modernidade de suas estruturas


produtivas, mantendo a centralidade da questão democrática
sem adiar o ataque à questão social, à miséria, ao desemprego,
à inflação; mais que nunca é necessário reduzir o fosso que
separa o Estado da sociedade e fazer com que os governos
— ainda carregados de elitismo e excludência — articulem-se
de fato com os movimentos sociais e as grandes massas, re­
cusem 0 papel de administradores da crise nacional e realizem
um programa reformador de amplo alcance. Sem isto, estará
comprometida toda a transição.
Maiores ainda os desafios postos à esquerda. Seu futuro
está sendo decidido ho]e, quando se começa a redesenhar nos­
sa vida institucional. Conseguirá ela superar sua fragmenta­
ção, resgatar a decisiva contribuição (teórica e prática) que
deu ao processo de democratização e alcançar uma nova iden­
tidade, contemporânea do país realmente existente? Saberá
aproveitar a nova dialética política para requalificar sua orga­
nização e repensar sua inserção social? Ou continuaremos a
conviver com estes partidos que estão aí — ingênuos e em-
piricistas uns, velhos e fora de forma outros, encurralados
todos entre os fantasmas dos sovietes e os desafios da mo­
dernidade?
A situação brasileira contém bem mais problemas de
grosso calibre que perspectivas generosas a curto prazo. Mas
não está cristalizada em sentido conservador. Ao menos uma
virtude já teve a “ Nova República”: iniciou o remaneja-
mento da institucionalidade autoritária de antes, liberalizou
politicamente o país, desobstruiu e facilitou a ampliação dos
espaços políticos. O próprio jogo de interesses sociais ganhou
inédita transparência a partir de 1984-1985. Além do mais,
a sociedade civil persiste com seu potencial inexplorado (ou
mal explorado), e temos como patrimônio uma rica expe­
riência de unidade e luta democrática, que já provou sua
eficácia e nos ajudou a dar justo valor à política, ao plura­
lismo, à cidadania. Conta cada vez menos a velha esquerda,
com sua dogmática “ marxista-leninista” e seu revolucionaris-
mo, e as expectativas recaem sobre a esquerda moderna sur­
gida nos últimos anos, que está no mínimo obrigada a tentar
uma aproximação política que a qualifique para disputar
152 Marco Aurélio Nogueira

democraticamente a direção da sociedade. Em meio às difi­


culdades da transição — entre as quais parecem ganhar pro­
jeção o crescimento do desencanto de muitos para com a
política e a vida pública, bem como as imprevisíveis reper­
cussões da crise econômico-social —, ainda é possível en­
contrar condições e tempo para a retomada da renovação e
o alcance de uma nova identidade por parte da esquerda.
Tudo depende do nascimento de articuladores de maior en­
vergadura e competência, capazes de aglutinar e agir com
base num aprofundado entendimento do Brasil.
Por seu marxismo antideterminista e avesso a dogmatis-
mos, por sua visão arejada do Estado, da política e da luta
pelo socialismo em países que já se deixaram tingir pelas
cores do “ocidentalismo” (onde o Estado já não é tudo), o
pensamento de Gramsci continua a ser de grande valia e uti­
lidade para a análise dos problemas presentes da vida brasi­
leira. Hoje, mais de vinte anos após a publicação de seus
primeiros livros no Brasil, o balanço de sua presença e con­
tribuição é altamente positivo. Trata-se agora de impedir que
ele submerja no ostracismo, volte a ser simples moda acadê­
mica ou seja meramente “aplicado” à vida brasileira.
Bibliografia
de Gramsci no Brasil

Esta bibliografia não é exaustiva, salvo, talvez, na parte


relativa a livros de e sobre Gramsci. Estão ausentes do elen­
co, sobretudo, muitas das resenhas jornalísticas sobre as edi­
ções brasileiras de Gramsci e de seus intérpretes. Também
estão ausentes os ensaios e livros que se valem, em maior
ou menor medida, de categorias gramscianas, mas que não
tematizam diretamente o seu pensamento. Finalmente, não fo­
ram registradas as edições portuguesas, que nem sempre nos
são acessíveis (ou o são na mesma medida que as espanholas
e francesas), e, além do mais, apresentam-se até hoje em
menor número que as brasileiras. Na “Bibliografia passiva",
os títulos são elencados em ordem cronológica de publicação.
(C./V.C.)

BIBLIOGRAFIA ATIVA
1. Escritos 1910-1926
Convite à leitura de Gramsci, introduções e organização de
Pedro Celso Uchôa Cavalcanti e Paul Piccone, Rio de
Janeiro, Achiamé, s.d. [1985?], 131 pp. (contém 33 ar­
tigos do período 1910-1918).
154 Bibliografia de Gramsci no Brasil

Conselhos de fábrica, introdução de A. Leonetti, prefácios de


Carlos Nelson Coutinho e Maurício Tragtenberg, tra­
dução de Marina B. Svevo, São Paulo, Brasiliense, 1981,
121 pp. (contém 6 artigos de Gramsci da época de
Uordine nuovo, escritos entre 1919-1920, bem como
outros 5 artigos polêmicos de Amadeo Bordiga).
“Conselhos de fábrica, sindicatos e partidos”. Cara a cara,
Campinas, ano I, n.“ 2, 1978, pp. 161-188 (artigos da
época de Uordine nuovo, 1919-1920).
“A situação italiana e as tarefas do PCI” (conhecidas como
Teses de Lyon, escritas em colaboração com Palmiro
Togliatti), trad. de Jussara Moraes, in Temas de ciências
humanas, São Paulo, vol. 9, 1980, pp. 11-37.
A questão meridional, introd. e seleção de F. de Felice e Va-
lentino Parlato, apresentação de Carlos Nelson Coutinho,
trad. de Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio No­
gueira, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, 165 pp. (con­
tém 10 textos do período 1916-1926).

2 . Dos Cadernos do cárcere (1929-1935)


Concepção dialética da história, apresentação de Carlos Nel­
son Coutinho e Leandro Konder, contracapas de Luiz
Mário Gazzanneo, trad. de Carlos Nelson Coutinho, Rio
de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966 (6 .“ ed., 1986),
341 pp.
Os intelectuais e a organização da cultura, trad. e contracapas
de Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1968 (5.“ ed., 1987), 244 pp.
Literatura e vida nacional, seleção, trad. e contracapas de Car­
los Nelson Coutinho, Rio de Janeiro, Civilização Brasi­
leira, 1968 (3.“ ed., 1986), 273 pp.
Maquiável, a política e o Estado moderno, trad. e contracapas
de Luiz Mário Gazzanneo, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1968 (8 .‘ ed., 1987), 444 pp.
Bibliografia de Gramsci no Brasil 155

3. Cartas
Cartas do cárcere, seleção, trad. e apresentação de Noênio
Spínola, contracapas de Roberto Pontual, Rio de Janei­
ro, Civilização Brasileira, 1966 (2.“ ed., 1978), 420 pp.
Novas cartas de Gramsci (e algumas cartas de Piero Sraffa),
prefácio de Nicola Badaloni, trad. de Carlos Nelson
Coutinho e Marco Aurélio Nogueira, contracapas de
Marco Aurélio Nogueira, Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1987, 11 1 pp. (contém cartas de Gramsci, de familiares
e de amigos, recentemente descobertas).

4. Antologias
Obras escolhidas, trad. de Manoel Cruz, São Paulo, Martins
Fontes, 1978, 378 pp. (contém, além de artigos do perío­
do anterior à prisão, textos dos Cadernos do cárcere, al­
guns dos quais não incluídos nas edições brasileiras ci­
tadas em I, 2 ).
“Textos selecionados de Gramsci”, in Carlos Nelson Couti­
nho, Gramsci, Porto Alegre, L&PM Editores, 1981, pp.
131-232 (contém fragmentos dos Cadernos e 11 textos
do período 1919-1926).

BIBLIOGRAFIA PASSIVA

1. De autores brasileiros
a) Livros ou números especiais
Mário Innocentini, O conceito de hegemonia em Gramsci,
São Paulo, Tecnos, 1979, 150 pp.
Carlos Nelson Coutinho, Gramsci, Porto Alegre, L&PM Edi­
tores, 1981, 232 pp.
Elimar Nascimento, A universalidade de Gramsci. Campina
Grande-Recife, s.e., 1983, 62 pp.
Oliveiros S. Ferreira, Os 45 cavaleiros húngaros. Uma leitu­
ra dos Cadernos de Gramsci, São Paulo-Brasília, Hucitec-
Editora da UnB, 1986, 552 nr
156 Bibliografia de Grainsci no Brasil

Cadernos Brasil em debate, Campina Grande, ano I, n." 3,


maio de 1983, 72 pp. (contém artigos de Elimar Nas­
cimento, Raimundo Santos e José Marcelo Castro Lopes).
Cadernos do CEDES, São Paulo, n.° 3, s.d. [1984?], 56 pp.
(contém artigos de Marco Antonio V. Pamplona e Ed­
mundo Fernandes Dias, reunidos sob o título geral “Edu­
cação e política; Gramsci e o problema da hegemonia”).

b) Ensaios, artigos ou capítulos de livros


Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, “ Nota sobre An­
tonio Gramsci” , in A. Gramsci, Concepção dialética da
história. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966 pp.
1-7.
Otto Maria Carpeaux, “A vida de Gramsci”, in Revista Civili­
zação brasileira. Rio de Janeiro, ano I, n.“ 7, maio de
1966, pp. 337-47.
Leandro Konder, “ Gramsci”, in Id., Os marxistas e a arte.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967, pp. 109-20.
Alfredo Bosi, “O trabalho dos intelectuais segundo Gramsci”,
in Debate e crítica, São Paulo, n.“ 6 , 1975, pp. 105-13.
Carlos Nelson Coutinho, “ Um certo senhor Gramsci”, in Jor­
nal do Brasil, Rio de Janeiro, 29.2.1976, Caderno Es­
pecial, p. 3.
Marco Aurélio Nogueira, “ Gramsci, de reformista a pensa­
dor original”, in Folha de S. Paulo, 31.7.1976, p. 27.
Carlos Eduardo Machado, “Gramsci, sem contrafações aca­
dêmicas”, in Folha de S. Paulo, 15.4.1977, p. 32.
Francisco Weffort, “Exercícios de idéias de um enfermo”, in
IstoÊ, São Paulo, 26.10.1977, p. 24.
Théo Santiago, “Gramsci virou moda. Isso é bom ou isso é
mau?’”, in IstoÊ, São Paulo, 5.7.1978, pp. 44-5.
Carmen Sylvia V. Moraes, “ Ideologia e intelectuais em
Gramsci”, in Educação e sociedade. São Paulo, ano I,
n." I. setembro 1978, pp. 71-92.
Bibliografia de Gramsci no Brasil 157

Michel Thiollent, “Uma estratégia de conhecimento crítico ,


in Cara a cara, Campinas, ano I, n." 1, maio 1978, pp.
98-104.
Sérgio Paulo Rouanet, “ Gramsci”, in Id„ Imaginário e domi­
nação, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1978, pp. 51-89.
Luiz Werneck Vianna, “A propósito de uma apresentação”, in
Luciano Gruppi, O conceito de hegemonia em Gramsci,
Rio de Janeiro, Graal, 1978, pp. V-XV.
Carlos Alberto Dória, “Religião e política em Gramsci”, in
Religião e sociedade, Rio de Janeiro, n.° 3, outubro de
1978, pp. 143-62.
Carlos Nelson Coutinho, “ Gramsci e nós”, in A democracia
como valor universal, São Paulo, Ciências Humanas,
1980, pp. 43-60 (2.“ ed.. Rio de Janeiro, Salamandra,
1984, pp. 84-90).
João Carlos Brum Torres, “ Marxismo e teoria da revolução
burguesa”, parte 3; “Gramsci e o ‘Risorgimento’: o con­
ceito de revolução passiva”, in Oitenta, Porto Alegre,
vol. 2, 1980, pp. 187-225.
João Agostinho A. Santos, “Gramsci: ideologia, intelectuais
orgânicos e hegemonia”, in Temas de ciências humanas.
São Paulo, vol. 8, 1980, pp. 39-64.
Renato Ortiz, A consciência fragmentada. Rio de janeiro. Paz
e Terra, 1980, cap. III (“ Gramsci: problemas de cul­
tura popular”), VI (“Gramsci/Weber: contribuições para
uma teoria da religião”) e VII (“Gramsci: problemas de
religião”), respectivamente pp. 45-65, 109-56 e 157-92.
Raymundo Faoro, “ Um milagre de síntese", in Leia livros,
São Paulo, setembro de 1981, p. 7.
Carlos Eduardo Berriel, “ Gramsci e eles”, in Escrita/Ensaio,
São Paulo, ano IV, n." 9, 1982, pp. 47-52.
Elimar Nascimento, “ Hegemonia em Gramsci: uma teona
das relações políticas nas formações sociais modernas. ,
in Ensaio. São Paulo, n.° 13, 1984. pp. 67-84.
158 Bibliografia de Gramsci no Brasil

Leandro Konder, “Gramsci e os caçadores de dissidentes”,


in Id., O marxismo na batalha das idéias, Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1984, pp. 47-52.
Marco Aurélio Nogueira, “ O pensamento de Gramsci e o
Brasil”, in Jornal do Brasil, 13.10.1985, Caderno Espe­
cial, pp. 6-7.
* Carlos Nelson Coutinho, “As categorias de Gramsci e a rea­
lidade brasileira,”, in Presença, Rio de Janeiro, n.° 8 , se­
tembro de 1986, pp. 141-62.
Alba Maria P. de Carvalho, “A teoria gramsciana da trans­
formação social”, in Id., A questão da transformação e
o trabalho social, São Paulo, Cortez, 1986, pp. 26-86.
José Guilherme Merquior, “ Gramsci e o historicismo mar­
xista”, in Id., O marxismo ocidental. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1987, pp. 135-55.
Francisco Weffort, “Os segredos do mundo e os mistérios da
obediência”, in O Estado de S. Paulo, 23.5.1987, Su­
plemento Especial, pp. 6-7.
Carlos Nelson Coutinho, “ Gramsci: universalidade que se am­
plia geograficamente”, in Folha de S. Paulo, 25.4.1987,
p. A-37.
Paulo Sérgio Pinheiro, “ Gramsci: a dimensão do poder es­
capa da cela”, in Folha de S. Paulo, 25.4.1987, p.
A-36.
Carlos Winckler, “Gramsci: um caminho para a compre­
ensão da realidade brasileira”, in Sete dias. Caxias do
Sul, 3/4.10.1987, pp. 6-7.

2 . Traduzidos

Luciano Gruppi, O conceito de hegemonia em Gramsci,


Rio de Janeiro, Graal, 1978, 143 pp.
Vários Autores, Política e história em Gramsci, Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1978, 257 pp. (contém ensaios de
Nicola Badaloni, Remo Bodei, Christine Buci-Glucks-
mimn, Umberto Cerroni e Franco de Felice).
Bibliografia de Gramsci no Brasil 159

Maria-Antonietta Macciocchi, A favor de Gramsci, Rio de Ja­


neiro, Paz e Terra, 1978, 302 pp.
Hughes Portelli, Gramsci e o bloco histórico, Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1978, 142 pp.
ê James Joll, As idéias de Gramsci, São Paulo, Cultrix, 1979,
99 pp.
Giuseppe Fiori, A vida de Antonio Gramsci, Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1979, 366 pp.
Christine Buci-Glucksmann, Gramsci e o Estado, Rio de Ja­
neiro, Paz e Terra, 1980, 500 pp.
0 Palmiro Togliatti, “O leninismo no pensamento e na ação
de Gramsci”, in Id., Socialismo e democracia. Rio de
Janeiro, Muro, 1980, pp. 165-82.
fi Pietro Ingrao, ‘‘Por que o debate sobre Gramsci”, in Id., As
massas e o poder. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1980, pp. 151-64.
Norberto Bobbio, O conceito de sociedade civil. Rio de ja­
neiro, Graal, 1982, 77 pp.
0 Laurana Lajolo, Antonio Gramisci: uma vida, São Paulo,
Brasiliense, 1982, 151 pp.
Hughes Portelli, Gramsci e a questão religiosa, São Paulo,
Paulinas, 1984, 184 pp.
Nicola Badaloni, “Gramsci e a filosofia da práxis como pre­
visão”, in Eric Hobsbawm (org.). História do marxismo.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, vol. X, 1987, pp. 13-128.
Perry Anderson, “As antinomias de Gramsci”, in Vários Au­
tores, As estratégias revolucionárias na atualidade, São
Paulo, Joruês. 1986, pp. 7-74.
SO B R E OS A U TO R ES

Nicola Badaloni: professor de história da filosofia da Universidade


de Pisa (Itália). Autor de vasta obra teórica, na qual se incluem,
entre outros, II marxismo di Gramsci (Turim, Einaudi, 1975), Per il
comunismo (Turim, Einaudi, 1972) e Marxismo come síoricismo (Mi­
lão, Feltrinelli, 1970). No Brasil, há artigos seus publicados na His­
tória do Marxismo, org. Eric Hobsbawm (Rio de Janeiro, Paz e Terra,
12 volumes).
José Aricó: foi editor da revista argentina Pasado y Presente e da
coleção Cuadernos de Pasado y Presente; é tradutor e u saísta. No
Brasil, tem publicado Marx e a América Latina (Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1982).
Juan Carlos Portantiero: cientista político argentino, ensaísta e pro­
fessor universitário. Autor de Los usas de Gramsci (Buenos Aires,
Folios Ediciones, 1983).
Arnaldo Córdova: professor da Faculdade de Ciências Políticas e
Sociais da Universidade Nacional Autônoma de México (UNAM).
Autor, entre outros, de La formación dei poder pcAitico en México
(ERA, 1972), La politica de masas dei cardenismo (ERA, 1974) e
La politica de masas y el futuro de la izquierda en México (ERA,
1979).
Nestor Garcia Canclini: professor da Escuela Nacional de Antropo­
logia e História, no México, Autor de Las políticas culturales en
America Latina (Lima, IPAL, 1983) e Las culturas populares en el
capitalismo (México, Nueva Imagem, 1982), este último também
publicado no Brasil (São Paulo, Brasiliense, 1984).
Carlos Nelson Coutinho; ensaísta, tradutor e professor da Universi­
dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autor de O estruturalismo
e a miséria da razão (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972), A demo­
cracia como valor universal (2.® edição. Rio de Janeiro, Salamandra,
1984), Gramsci (Porto Alegre, L&PM, 1981) e A dualidade de pode­
res (2.® edição, São Paulo, Brasiliense, 1987).
Marco Aurélio Nogueira: tradutor, professor de Teoria Política da
Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araraquara
(SP), e Diretor de Publicações da Fundação para o Desenvolvimento
du UNESP. Autor de As Desventuras do Liberalismo-Joaquim Na-
huco, a monarquia e a república (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984)
c Joaquim Nabucó-Um aristocrata entre os escravos (São Paulo,
RrnNÍIíense, 1987).

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