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É conversando que a gente se entende

Jos Schoenmaker

“O que traz mais refrigério do que a luz? / A conversa!” (Goethe em A Serpente Verde e a Bela
Líria)

Diz o ditado popular que ‚é conversando que a gente se entende’. De fato, a conversa é
o melhor instrumento de que dispomos para nossa comunicação e nosso
entendimento de e com outras pessoas. E quando este entendimento se estabelece, se
realiza isto que afirma a citação de Goethe acima: nada nos faz sentir melhor do que
nos sentirmos profundamente entendidos, compreendidos por outra(s) pessoa(s). No
entanto, a prática do dia-a-dia nos mostra que esse real entendimento do outro não é
tarefa nada simples nesta nossa época, marcada pela crescente individualização. As
razões são múltiplas, mas tem uma característica comum, resultante deste processo de
individualização: tomamos como referência a nós mesmos e não ao outro. Tendemos a
querer impor o nosso próprio ponto de vista e temos dificuldade de ouvir o outro;
julgamos o ponto de vista do outro a partir da nossa própria experiência e
(pré)conceitos e não no contexto da experiência e conceitos do outro, que o levaram
àquele ponto de vista; perseguimos nossos próprios interesses e objetivos que muitas
vezes se chocam com as intenções do outro. E como resultado temos discussões,
desentendimentos, conflitos, que não nos trazem nenhum refrigério mas ao final nos
deixam um gosto amargo na boca.
Nesta época o ser humano tende a perder cada vez mais o tato social natural que
permeava as relações sociais do passado. Se quisermos construir pontes entre nós e
o(s) outro(s), vamos cada vez mais ter que desenvolver conscientemente nossas
habilidades sociais. A tarefa básica da Pedagogia Social consiste exatamente em
contribuir para tal.
Uma contribuição fundamental nesta direção foi trazida por Lex Bos, um dos grandes
impulsionadores da Pedagogia Social de Base Antroposófica no Brasil, através de seu
estudo (e sua tese de Doutorado) sobre a Formação Dinâmica de Juízo. Neste estudo,
Lex mostra como a nossa relação com o mundo - a nossa compreensão do mesmo e a
nossa atuação no mesmo - se fundamenta nos juízos que nós formamos.
Tais juízos se formam em duas direções: para o passado, para o existente - para que
possamos entendê-lo; para o futuro, para o que vai ser - para que possamos nos
posicionar, nos direcionar frente ao mesmo.
No primeiro caso, trilhamos o Caminho do Entendimento, que chega ao final numa
conclusão. Por exemplo: posso me perguntar: ‚porque será que o céu é azul?‛ e,
tomando conhecimento das diversas hipóteses que existem, formar meu próprio juízo
a respeito, que se expressa numa conclusão: ‚o céu é azul porque o ar do firmamento
deixa passar todas as cores, menos a azul, que ele absorve, por isso o vemos azul‛.
No segundo caso, quando precisamos nos definir ou posicionar frente ao futuro, por
exemplo, o que vou ou vamos fazer em determinada situação, nós trilhamos o Caminho
da Escolha, que tem seu fim numa decisão. Por exemplo: ‚afinal, onde vamos passar
nossas férias?‛. Depois de tomar conhecimento das diferentes opções e seus custos,
tempo de viagem, etc. chegamos a uma decisão: ‚vamos ficar em casa mesmo e cuidar
do jardim: vamos unir o útil ao agradável, sem gastar o que não temos‛.
No Caminho do Entendimento o nosso guia principal é o nosso Pensar, enquanto no
Caminho da Escolha nos impulsiona o nosso Querer. Na Formação de Juízo
propriamente dito, que se realiza por meio de ambos os caminhos, nosso guia é o
Sentir. Este permeia tanto o nosso Pensar, para checar a veracidade e a consistência da
conclusão a que chegamos, quanto o nosso Querer, checando se a decisão foi
realmente boa, adequada. Quando isto é o caso, estamos (temporariamente)
satisfeitos: formamos o nosso juízo. Caso contrário, continuaremos buscando,
trilhando um e/ou outro caminho.
O estudo de Lex Bos mostra ainda como se dá este trilhar de ambos os caminhos. Da
mesma forma que em nosso andar só avançamos pela alternância do movimento
sobre uma e outra perna, a Formação de Juízo - no Caminho do Entendimento - se dá
através de um pendular da nossa atenção para Fatos, de um lado, e Conceitos de outro
. E o que faz o médico ao tentar chegar a um diagnóstico sobre a dor de cabeça de que
se queixa seu paciente. Ele pergunta por fatos: ‚quando se manifestou, como se
manifesta: de forma aguda, latejante ou.... ‚ Ao mesmo tempo ele pesquisa
interiormente hipóteses (Conceitos) que possam explicar de forma satisfatória estes
fatos: ‚se for de origem nervosa, então precisa estar associado a tais sintomas ou
fatos...; se for de origem hepática, então..." E volta a informar sobre fatos que possam
confirmar mais uma ou outra hipótese, até que fatos e conceitos se unem
satisfatoriamente numa Conclusão.

Já no Caminho de Escolha, avançamos na formação de juízo alternando entre Objetivos


de um lado e Meios do outro. Ficando ainda com o exemplo da paciente com dor de
cabeça, ela não veio só para saber porque está com dor de cabeça, mas para se livrar
dela e o médico precisa decidir o que vai fazer. Nisto é guiado pelo seu diagnóstico,
mas não só. Se seu objetivo (e o do paciente) for apenas tratar o sintoma, um meio
adequado poderia ser receitar um analgésico. Se ele almeja como cura a superação das
causas que levaram ao sintoma, irá receitar completamente outra coisa. A decisão
sobre o que receitar resulta de encontrar os meios satisfatórios para realizar o objetivo
que tem em vista. Sendo assim, podemos representar o Modelo de Formação Dinâmica
de Juízo, esquematicamente, da seguinte forma:
FATOS OBJETIVOS
B D
b

Pessoa ou
grupo com
CONCLUSÕES uma DECISÕES
pergunta

CONCEITOS MEIOS
C E
Pois bem devem já estar se perguntando os pacientes leitores, e o que tem isso tudo a
ver com o tema?
Em primeiro lugar, é fundamental termos consciência de que numa conversa nos
colocamos naturalmente numa postura a-social, como mencionamos no início:
tendemos mais a falar do que a ouvir, a defender pontos de vista do que perguntar. E os
componentes sociais da conversa são exatamente estes: o ouvir e o perguntar! Dizem
que foi por isso, para podermos nos entender com o outro, que Deus nos deu só uma
boca e dois ouvidos! Através do falar, tentamos preencher o outro com nós mesmos. E
o resultado geralmente é que os outros acabam mesmo ficando ‘cheios’ de nós! Através
do ouvir e do perguntar, abrimos em nós espaço para acolher o outro, o que requer um
esforço consciente, que traz uma qualidade social à conversa que pode ser cultivada.
E para quem se propõe esse cultivo do perguntar e do ouvir como componentes
socialmente saneadores da conversa, o Modelo de Formação Dinâmica de Juízo se
mostra um instrumento utilíssimo. EIe nos oferece, de uma perspectiva holística,
valiosos subsídios para direcionarmos nossas perguntas para aqueles aspectos que
estão pouco claros, pouco explicitados. Assim fazendo, não só chegaremos a um
melhor entendimento do outro, como o ajudaremos a se expressar mais claramente
sobre aspectos fundamentais da questão em pauta. O mesmo vale para o trabalho em
grupo, numa reunião p.ex., para chegar a um melhor entendimento comum da situação
e a uma melhor decisão conjunta acerca do que fazer.

As questões abaixo, elaborados por Jacques Uljée (de caráter ilustrativo, cabendo a
cada um encontrar sua própria formulação) podem servir de orientação para tal. As
questões do centro se destinam a clarear qual a pergunta, qual a questão que está em
pauta (pois muitas vezes nem sobre isso se tem uma visão comum) e as demais
contribuem para explorar os 4 campos que precisam ser cultivados para que dessa
pergunta possa germinar a resposta que se encontra dentro dela. ‚E se isto for bem
feito‛ conclui o próprio
Lex, ‚a potência de resposta que se encontra no germe da pergunta pode ser liberada e
ao final da conversa poderá ser colhida‛. Que possam contribuir para conversas mais
frutíferas!

PERGUNTA
 Como você formularia o problema?
 Qual é a questão que te preocupa? Algo mudou na sua ótica do problema?
 O que está atrás desta sua preocupação?
 etc.
FATOS
 O que aconteceu exatamente? Quando, onde, com quem?
 Pode descrever um pouco mais precisamente...? Em que fatos você
baseia esta sua opinião? O que você pensou / sentiu/ queria, quando
isto aconteceu?
 Quais foram os fatos que chamaram a sua atenção? Quais são as suas
experiências com relação a isto? Que dados concretos você têm para
supor isso?
 Você pode tornar isto mais concreto? Me dê um exemplo por favor, mas
bem concreto. Quem fez isso? O que você fez? etc. etc.

CONCEITOS, CRENÇAS, VALORES


 Você diz que . . . Pode explicar isso melhor? Um momento! Porque você
acha isso?
 Estou ouvindo que você se fundamenta no seguinte: ...
 Qual o raciocínio?
 Você coloca a seguinte afirmação...Como assim?
 Pode entrar nisto um pouco mais a fundo? Explique por favor...
 Porque é importante para você? O que há por trás? Quais são as suas
convicções por detrás disso? Qual é a sua visão sobre
 Como isso confere com os fatos? Porque você pensa isso? Não consigo
acompanhar o seu pensamento. Explique-se melhor. etc.

OBJETIVOS
 O que você quer alcançar?
 Qual era/é a sua intenção?
 Mesmo não sabendo como, o que você quer/não quer?
 O que você quer/quis evitar? For quê?
 Para quê fazer esse trabalho todo?
 O que isso tem a ver com você e seu futuro, com a sua situação?
 Qual é o seu objetivo?
 Quais são as suas prioridades, por quê?
 Qual o rumo que você quer tomar? etc.
MEIOS E CAMINHOS
 Quais os meios para chegar lá?
 De que meios você precisa?
 Como você pretende/pretendeu fazer isso?
 Como você conseguirá fazer?
 Descreva como você pretende prosseguir?
 Que conseqüências esta decisão pode acarretar?
 Que implicações isto tem?
 De que recursos você dispõe?
 Você tem /tinha um plano?
 Quais as alternativas para alcançar isto ?
 O que você quis/quer primeiro? E depois?
 De onde você arruma os meios para tal?
 Quanto tempo você acha que vai precisar? etc.

Bibliografia:
Formação de Juízo – um caminho para a liberdade interior. Bos; Alexander. Editora
Antroposófica - São Paulo.
(Artigo originalmente publicado no Boletim de Pedagogia Social –
www.pedagogiasocial.com.br)