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Apresentação

Um lugar-comum, difundido, sobretudo, nos manuais de história da filosofia,


nos informa que o século XVIII explorou, com uma insistência sem precedentes, os
limites da razão humana que o século anterior havia formulado. 1 Evidentemente restrita
– como toda tese demasiado genérica – essa ideia passa voluntariamente desatenta pela
amplitude das consequências epistemológicas deduizadas das obras de John Locke ou
Robert Boyle, por exemplo2; mas, por outro lado, ela apresenta uma imagem que,
articulando uma antropologia e uma metodologia filosóficas, a própria modernidade
procurou constituir para si. Essa visão retrospectiva, se abandonarmos qualquer
pretensão positivista da história, tem, em si mesma, um valor: ela assinala como, desde
os primeiros anos do século XIX, a reflexão filosófica procurou reconhecer, nos
pensadores da geração que lhe antecedera, o anúncio de uma nova tarefa, de um novo
projeto de sistema. Isso é particularmente notável em função de uma herança ao mesmo
tempo teórica e simbólica: na Prússia, a Afklärung de Kant e Jacobi havia imprimido
sua marca nos pré-românticos e nos românticos do século seguinte, enquanto, na
França, as Lumières dos enciclopedistas e philosophes se esforçavam para garantir a
consolidação de um ethos cujo legado a Revolução Francesa não deixaria a Europa
esquecer. Se o momento kantiano é esse que, para utilizar uma expressão de Michel
Foucault, constitui um ponto de junção 3, é na medida em que uma inflexão
incontornável é instaurada a partir daí por seus leitores. A Crítica da razão pura, bem
como a Enciclopédia, constituiriam, assim, os signos luminosos de uma antropologia
filosófica emergente, capaz agora de fundar a emancipação no escrutínio dos limites do
pensamento.
É claro que é o próprio horizonte filosófico do século XVIII que autoriza essa
instauração. O leitor do Tratado da natureza humana, de Hume, sabe, desde as
primeiras linhas de sua Introdução, que se trata aí de deslocar os problemas da
metafísica para “dentro do alcance da capacidade humana”.4 Por outro lado, em uma
passagem mais sugestiva que analítica, o verbete Philosophe da Enciclopédia denuncia
o excesso de orgulho do filósofo em que “a liberdade de pensar substitui o raciocício”
precisamente enquanto ele pretende “reverter os limites sagrados impostos pela
religião”, como se ele tivesse “rompido o entrave onde a fé introduzia suas razões” 5. Do
outro lado do Reno, sabemos o quanto o texto de Kant está comprometido com essa
1
É essa a posição defendida, por exemplo, por Kuno Fischer em sua Geschichte der neueren Philosophie
(vol. 3, p. 613), onde a reflexão herdada do século XVIII é caracterizada como “uma ciência dos limites
[Grenzen] da razão humana”. Heinrich Ritter retoma essa ideia quase identicamente a respeito de
Rousseau (Geschichte der Philosophie, vol. 12, pp. 612 e ss.). Mais recentemente, Maria Rosa
Antognazza identificou as complexidades do tema dos limites no século XVIII e seus tensionamentos
políticos com a teologia cristã do período (ANTOGNAZZA, M. R., “Revealed Religion: The Continental
European Debate” In.: HAANKOSSEN, K. (ed.), The Cambridge History of Eighteenth-Century Philosophy,
vol. 2, pp. 666-682).
2
Sobre esse ponto, cf. SHANKULA, H. A. S., John Locke : Ideas, Knowledge, and the Limits of Science: A
Historico-philosophical Examination of Some Aspects of An Essay Concerning Human Understanding, e
WOJCIK, J. W., Robert Boyle and the Limits of Reason, especialmente pp. 151-187.
3
Cf. FOUCAULT, M., Les mots et les choses, p. 339: “Le moment kantien fait charnière (…)”.
4
HUME, D., A Treatise of Human Nature, Introdução, § 4 (doravante citado como T, seguido dos
números do livro, parte, seção e parágrafo).
5
Verbete PHILOSOPHE da Encyclopédie, ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers,
vol. 25. O autor provável do texto é o gramático César Chesneau Dumarsais, mas o verbete foi
selecionado e edito por Diderot. Sobre esse ponto, cf. o estudo clássico de Herbert Dieckman, Le
philosophe; texts and interpretation.
ideia. Todo o parágrafo 59 dos Prolegômenos pode ser lido como a chave heurística de
seu idealismo transcendental, justamente na medida em que circunscreve o
conhecimento na “limitação [Begrenzung] do campo da experiência”. 6 Em todos esses
casos, o tema da fronteira interna da razão surge como divisa metodológica. A
antropologia que eles fazem emergir depende, assim, desse exercício – experimental ou
sistemático – que o pensamento exige de si mesmo: a construção de uma intimidade
autorefletida, sem o auxílio do transcendente. É assim que encontramos o philosophe e
o Gelerhte medindo cuidadosamente os passos até o limiar onde, entrando em uma zona
opaca, mas constitutiva do mundo, eles deixariam de ser eles mesmos, resvalando para o
terreno da especulação sem freios, da metafísica de castelos no ar que Hume e Kant
souberam desprezar.
Vê-se, portanto, o quanto a alteridade tem de figurar duplamente nesse universo:
como o avesso insondável da razão, mas também como seu viznho mais próximo,
através do qual ela, disntinguindo-se negativamente, garante sua identidade. Essa
axiomática dupla do Outro no século XVIII permite ao procedimento filosófico dois
tipos gerais de análise. Em primeiro lugar, aquela onde o sujeito se depara com suas
fronteiras desde o solo seguro da luminosidade, do cognoscível. Não são essas as lições
mais imediatas da Crítica da razão pura? Não é esse o princípio, não da filosofia de
Newton, mas do newtonianismo cuja versão vulgata circulou entre os eruditos às
vésperas da Revolução Francesa? Um elogio enfático da observação, da clareza, da
visualidade plena reverbera ao fundo dos inúmeros projetos de uma ciência
experimental – algo que encontramos mesmo em Hume, em alguma medida. 7 Mas o sol
do Iluminismo também tem suas sombras. E é essa figuração do Outro como aquele que
também olha, de fora, para a razão humana, que inaugurará uma segunda abordagem
filosófica: a que teve de pensar a alteridade não apenas como a fronteira longínqua e
opaca do que se pode saber, mas como um ponto de vista desde o desconhecido.
O projeto de pensar a alteridade radical sob essa perspectiva assinala, assim,
uma reflexão disposta a considerar o fundamento da antropologia desde fora. Figuras
como o selvagem, o louco, o bêbado, o ateu, o libertino – enfim, todos os duplos do
grande Outro elencados a partir daí nos romances e tratados filosóficos – são investidas
de um novo poder. Já não mais empurradas para uma escuridão silenciosa pelo poder
de uma razão homogênea, linear, elas ganham voz. É por isso que, mesmo que essas
figuras do Outro anunciassem sua presença bem antes do século XVIII – como é o caso
dos habitantes do Novo Mundo e toda reconfiguração do pensamento europeu que eles
promoveram nos séculos XVI e XVII8 – a crença irredutível na fonte luminosa da razão
teológica as apresentava com contornos suficientemente nítidos. No século das Luzes,
elas, paradoxalmente, assumem a dimensão positiva de sua informidade. O
renascimento do cinismo entre os intelectuais9, a insistência nos momentos de verdade
do discurso da loucura ou a emergência da libertinagem indicam à filosofia que ela tem
algo a aprender com o informe. Algo sobre si mesma.
O conjunto de estudos propostos neste projeto constitui uma leitura dessa escrita
da razão desde a perspectiva da alteridade radical no séclo XVIII, uma análise sobre a
6
KANT, I., Prolegomena, In. Gesammelte Schriften, vol. 5, p. 361 (edição doravante citada como Ak,
seguida do número do volume e da página).
7
Cf. STEWART, L., “The Trouble with Newton in the Eighteenth Century” In.: FORCE, J. & HUTTON, S.
(ed.), Newton and Newtonianism – New Studies, pp. 221-238; especificamente sobre o newtonianismo
de Hume, cf. FORCE, J., “Hume’s Interest in Newton and Science” In.: Hume Studies, vol. XIII, n. 2, pp.
166-216.
8
Cf. BORNHEIM, G., “O bom selvagem como philosophe e a invenção do mundo sensível” In.: NOVAES,
A. (org.), Libertinos libertários, pp. 59 e ss.
9
Cf. SHEA, L., The cynic enlightenment : Diogenes in the salon, especialmente pp. 23-44.
compreensão de seus limites e da antropologia que eles fundam a partir da voz do
Outro. Trata-se, assim, em primeiro lugar, de reconstituir o horizonte teórico, político,
mas também simbólico em que a alteridade radical se inscreveu no século XVIII,
funcionando como um outro olhar sobre os limites da razão. Mas esse esforço analítico
deve ser complementado pela investigação de casos particulares, segundo um modelo
experimental perseguido nesse período. Trabalhos importantes já foram empreendidos
na direção de certas figurações dessa alteridade: o sobrinho de Rameau, os perversos de
Sade ou o ateísmo dos philosophes tiveram suas perspectivas discutidas em obras
recentes.10 Três figuras permanecem, no entanto, ao menos sob importantes aspectos,
relativamente pouco exploradas. A primeira é a do moribundo. Sua presença é constante
na memorabilia iluminsta.11 Como indivíduo limítrofe, ele permite avaliar o sistema
moral da perspectiva mesma de seu aniquilamento. A morte estóica de Hume, retratada
primeiramente por Adam Smith, e depois repetida à exaustão, ampliada ou desmentida
nas décadas seguintes, forneceriam, assim, um estudo de caso importante. A segunda
figura é a do cego. Embora ela, entre as três, seja a que tenha recebido maior atenção,
uma dimensão importante permanece pouco abordada. INSERIR OBSERVAÇÃO. A
Carta sobre os cegos, de Diderot, se apresenta como o conjunto discursivo onde essas
questões podem ser reconhecidas. Por fim, uma terceira formulação do problema da
alteridade se encontra no tratamento dado por Kant ao Ungeheuer, ao monstruoso e à
monstruosidade. Atravessando toda a filosofia crítica, ela se transforma, gradualmente,
na voz próxima da razão, o lugar para onde ela tenderia a se deslocar em função de sua
própria e excessiva natureza. O gesto com que Kant afasta o Monstro não traduz mais o
desdém cartesiano pelo erro, mas uma espécie de assombro da razão que reconhece a si
mesma também pela ameaça de seu aniquilamento.
O moribundo, o cego, o monstro: essas três figuras da alteridade desenham uma
espécie de triângulo em cujo centro podemos identificar a antropologia com que se
ocuparam os filósofos modernos. As hipóteses de trabalho desse projeto se reunem,
portanto, a partir desses três estudos de caso, que devem ser precedidos por uma análise
mais geral sobre o problema da alteridade radical no século XVIII.

Estrutura e Metodologia.

De acordo com as hipóteses erguidas acima, a pesquisa proposta articula se


articula em dois níveis. Em primeiro lugar, uma investigação de caráter mais horizontal,
onde seriam debatidos os contornos gerais do sistema ao mesmo tempo teórico, político
e simbólico através do qual o século XVIII tensionou a ideia de limite antropológico e a
ideia de alteridade radical. Nesse ponto, as pesquisas de Michel Foucault 12 em torno da
constituição da identidade moderna e os confrontos com seus duplos, desenvolvida
sobretudo em As palavras e as coisas, podem fornecer uma série de procedimentos de
leitura importantes. Considerando, assim, horizontalmente, o recorte historiográfico e
evitando o uso de categorias de análise comprometidas com universais antropológicos –
que, afinal, são objetos dessa mesma análise – seria possível promover uma

10
Cf. WERNER, S., Socratic Satire: An Essay on Diderot and Le Neveu De Rameau; ALLISON, D. ROBERTS,
M. S. (ed.), Sade and the narrative of transgression; NEMO, Ph., La belle mort de l’atheisme moderne.
11
O Dialogue entre um prêtre et um moribond de Sade seria apenas seu exemplo mais evidente.
12
Cf. FOUCAULT, M., Les mots et les choses. O capítulo IX do livro, “L’homme et ses doubles”, é, sob esse
aspecto, o mais significativo.
investigação orientada, o menos possível, pelo privilégio do discurso da racionalidade.
Com isso, é a própria razão que se apresenta sob novas perspectivas.
Em segundo lugar, esse trabalho mais amplo se complementa significativamente
pelos estudos de caso apresentados. Nesses, uma leitura exegética conduziria o
horizonte mais amplo do século XVIII às condições de sua realização enquanto
experiência – cultural, mas, mais especificamente, de pensamento. Não se trata aqui,
contudo, de uma denomenologia da alteridade. O que se pretende, antes, é identificar os
nexos de continuidade entre a particularidade e a universalidade do Outro no século das
Luzes, sublinhando as transformações operadas em torno do sentido da racionalidade na
passagem entre esses dois níveis. A experiência é abordada, portanto, não como
condição matriz de inteligibildade do mundo, mas como efeito histórico. Ao
investigarmos os textos de Diderot, procurando assinalar a questão da cegueira como
ponto de vista – assim como no caso dos textos de Hume (ou sobre ele) e o problema da
morte, ou de Kant e a representação do Ungeheuer – não se pretende afirmar que a
experiência do Outro se sobrepõe à do Mesmo da Razão, mas, de modo mais complexo,
que Outro e Mesmo constituem-se aqui, mutuamente, enquanto experiência
historicamente determinada.
Pode-se notar, com isso, a importância do aspecto histórico e historiográfico na
constituição das hipóteses da pesquisa. Se, por um lado, evidentemente, não se trata de
esgotar o problema da historicidade da razão, por outro, um certo número de trabalhos
históricos – capazes de relacionar aspectos conceituais a aspectos materiais e culturais –
nos permite evitar a universalização do sentido da filosofia na modernidade. Os
problemas erguidos por Robert Darnton, Roger Chartier e Jonathan Israel podem ser
citados como exemplos dessa abordagem, embora uma avaliação mais detalhada do
conjunto bibliográfico nesse sentido seja parte da execução do projeto. Esses trabalhos
circunscrevem, assim, um recorte histórico-conceitual que baliza os desenvolvimentos
da pesquisa e, colocados sob o mesmo estatuto epistemológico que o discurso filosófico,
acabam por evidenciar complexidades antes insuspeitas no processo de construção da
identidade da racionalidade moderna.

Bibliografia.
ALLISON, D. ROBERTS, M. S. (ed.), Sade and the narrative of transgression,
Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
ANTOGNAZZA, M. R., “Revealed Religion: The Continental European Debate” In.:
HAANKOSSEN, K. (ed.), The Cambridge History of Eighteenth-Century
Philosophy, vol. 2, Cambridge: Cambridge University Press, 2006.
BORNHEIM, G., “O bom selvagem como philosophe e a invenção do mundo sensível”
In.: NOVAES, A. (org.), Libertinos libertários, São Paulo: Companhia das
Letras, 1996.
CHARTIER, R., Les origines culturelles de la Révolution Française, Paris: Seuil, 1990.
DARNTON, R., The Business of Enlightenment – a publishing history of the
Encyclopédie, 1775-1800, Cambridge: Harvard University Press, 1979.
DIECKMAN, H., Le philosophe; texts and interpretation, St. Louis: University of
Michigan Press, 1948.
DUMARSAIS, C. C., verbete “Philosophe” In.: Encyclopédie , ou Dictionnaire
raisonné des sciences, des arts et des métiers, vol. 25, Genève: Jean-Léonard
Pellet, 1779.
FISCHER, K., Geschichte der neueren Philosophie, Bd. 3, Heidelberg: Friedrich
Bassermann, 1869.
FORCE, J., “Hume’s Interest in Newton and Science” In.: Hume Studies, vol. XIII, n. 2.
FOUCAULT, M., Les mots et les choses, Paris: Gallimard, 1966.
ISRAEL, J., Radical Enlightenment – Philosophy and the making of modernity, 1650-
1750, Oxford: Oxford University Press, 2001.
NEMO, Ph., La belle mort de l’atheisme modern, Paris: PUF, 2012.
RITTER, H., Geschichte der Philosophie, Bd. 12, Hamburg: Friedrich Petter, 1853.
SHANKULA, H. A. S., John Locke : Ideas, Knowledge, and the Limits of Science: A
Historico-philosophical Examination of Some Aspects of An Essay Concerning
Human Understanding, Toronto: University of Toronto Press, 1976.
SHEA, L., The cynic enlightenment : Diogenes in the salon, Maryland: The John
Hopkins University Press, 2010.
STEWART, L., “The Trouble with Newton in the Eighteenth Century” In.: FORCE, J.
& HUTTON, S. (ed.), Newton and Newtonianism – New Studies, New York:
Kluwer, 2004.
WERNER, S., Socratic Satire: An Essay on Diderot and Le Neveu De Rameau,
Alabama: Summa, 1987.
WOJCIK, J. W., Robert Boyle and the Limits of Reason, Cambridge: Cambridge
University Press, 1997.