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AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E A QUALIDADE DAS APRENDIZAGENS ESTUDOS DE CASO EM PORTUGAL OCDE

colecção tecnologias da informação e comunicação

ESTUDOS DE CASO EM PORTUGAL


OCDE

ISBN 972-614-376-4

Departamento de Avaliação
Ministério da Educaçao Prospectiva e Planeamento
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

2
Errata
1. Anexo B - Resumo dos dados do Questionário aos Professores -
(p.32/37).

MC C AC NC
1. Escrever um artigo 61 33 0 6
3. Criar e manter páginas da Internet 5 17 28 50
MI I +- NI
10. Escrever um artigo com um
61 17 17 5
processador de texto
17. Desenhar uma imagem ou
diagrama com um software de 11 22 56 11
desenho /graficos
Número de vezes
(% de professores )
> 11 6-11 1-5 Nenhuma
40. Quantas mensagens de correio
electrónico
envia em média por semana? 6 11 39 44
recebe por dia?6 11 44 39
Número de vezes
(% de professores )
>5 1-5 0
44. Criou uma página da Internet 0 11 89

2. Anexo B - Resumo dos dados do Questionário aos Professores -


(p.97/100).
Os quadros apresentados não incluem os valores dos sujeitos não
respondentes.
(Página 100 no ficheiro pdf)

Tabela 3:
Até que ponto se sente confortável a realizar as seguintes actividades no computador
linha 3: criar e manter páginas na internet
onde se lê:
Muito confortável 3.8 Confortável 5.7 Algo Confortável 17.0 Nada Confortável 75.5
deve ler-se:
Muito confortável 4.0
Confortável 4.0
Algo Confortável 15.6
Nada Confortável 76.4
Não respondem 0.0
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Ministério da Educação
Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento

ESTUDOS DE CASO EM PORTUGAL


OCDE

Escola Básica 2º e 3º ciclos de André de Resende


Escola Secundária Padre António Vieira
Escola Básica 2º e 3º ciclos de Cabreiros
Escola Secundária da Póvoa de Lanhoso
Escola Básica 2º e 3º ciclos de Santa Clara

Lisboa, 2002

Departamento de Avaliação
Ministério da Educaçao Prospectiva e Planeamento

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO


E A QUALIDADE DAS APRENDIZAGENS
ESTUDOS DE CASO EM PORTUGAL

Escola Básica 2/3 de André de Resende


Escola Secundária Padre António Vieira
Escola Básica 2/3 de Cabreiros
Escola Secundária da Póvoa de Lanhoso
Escola Básica 2/3 de Santa Clara

Documento elaborado por:


Centro de Competência Nónio da Universidade de Évora
Centro de Competência Nónio da Universidade do Minho
Centro de Competência Nónio da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Biblioteca Nacional - Catalogação na Publicação

As tecnologias de informação e comunicação e a qualidade


das aprendizagens / Escola Básica 2.3 de André de Resende...
[Et al.]
ISBN 972-614-376-4

I - Escola Básica 2.3 de André de Resende

CDU 004(469)(078.7)
373.3/4(469)(078.7)
371.3(469)(078.7)

AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO


E A QUALIDADE DAS APRENDIZAGENS
ESTUDOS DE CASO EM PORTUGAL
Colecção: Tecnologias da Informação e da Comunicação
1.ª Edição: Maio de 2002
Tiragem: 1000 exemplares
ISBN 972-614-376-4
Depósito legal n.º 181038/02
Capa: Francisco V. da Silva
Miolo: Agostinho Lima
Impressão: Europress, Lda
Lisboa/PORTUGAL

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

SUMÁRIO
Nota Prévia ............................................................................................................ 9

Escola Básica 2/3 de André de Resende ............................................................. 11


1. Resumo ..................................................................................................................... 13
2. Passado ..................................................................................................................... 15
3. Presente .................................................................................................................... 16
Infra-estrutura de TIC ............................................................................................... 16
Eficácia ...................................................................................................................... 17
4. Principais hipóteses ................................................................................................... 18
Padrões de difusão .................................................................................................... 18
Valorização e envolvimento do pessoal docente ...................................................... 21
Papel de liderança ..................................................................................................... 21
Ligações TIC-Reforma .............................................................................................. 22
Equidade ................................................................................................................... 24
Discussão das hipóteses ............................................................................................ 25
5. Projecções ................................................................................................................ 30
Sustentabilidade ........................................................................................................ 30
Disseminação ............................................................................................................ 30
6. Anexo A .................................................................................................................... 31
7. Anexo B .................................................................................................................... 32
8. Anexo C .................................................................................................................... 37

Escola Secundária Padre António Vieira ............................................................ 39


1. Resumo ..................................................................................................................... 41
2 O passado ................................................................................................................. 42
3. O presente ................................................................................................................ 48
Recursos TIC disponíveis .......................................................................................... 49
O site da escola e a criação de uma intranet ............................................................ 51
Novas Tecnologias de Informação - nova disciplina oferecida pela escola ................ 54
Oficina Multimédia - Um dos orgulhos da ESPAV ..................................................... 57
As TIC como terramenta nas diferentes disciplinas curriculares .............................. 58
4. Principais hipóteses ................................................................................................... 60
5. Projecção para o futuro ............................................................................................ 64

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

6. Anexo A - Metodologia ............................................................................................ 66


Negociação de entrada ............................................................................................. 66
Procedimentos de recolha e análise dos dados ......................................................... 67
7. Anexo B - Documentos utilizados para análise ......................................................... 68

Escola Básica 2/3 de Cabreiros ............................................................................ 69

1. Resumo ..................................................................................................................... 71
2. Passado ..................................................................................................................... 73
3. Presente .................................................................................................................... 75
Infra-estrutura de TIC ............................................................................................... 75
Eficácia ...................................................................................................................... 77

4. Principais hipóteses ................................................................................................... 79


Padrões de difusão .................................................................................................... 79
Valorização e envolvimento do pessoal docente ...................................................... 81
Papel de liderança ..................................................................................................... 83
Ligações TIC-Reforma .............................................................................................. 83
Rigor académico ........................................................................................................ 85
Equidade ................................................................................................................... 86
Discussão das hipóteses ............................................................................................ 87

5. Projecções ................................................................................................................ 93
Sustentabilidade ........................................................................................................ 93
Disseminação ............................................................................................................ 95
6. Anexo A .................................................................................................................... 96
7. Anexo B .................................................................................................................... 97
8. Anexo C .................................................................................................................. 100

Escola Secundária da Póvoa do Lanhoso .......................................................... 101

1. Resumo ................................................................................................................... 103

2. O Passado . ........................................................................................................... 105

3. O Presente .............................................................................................................. 106


Infra-estrutura das TIC ........................................................................................... 106
Eficácia .................................................................................................................... 107

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

4. Principais hipóteses ................................................................................................. 108


Padrões de difusão .................................................................................................. 108
Valorização e envolvimento do pessoal docente .................................................... 109
Papel da liderança ................................................................................................... 112
Ligações TIC-Reforma ............................................................................................ 113
Rigor académico . .................................................................................................... 114
Equidade ................................................................................................................. 115
Discussão das hipóteses .......................................................................................... 116

5. Projecções .............................................................................................................. 119


Sustentabilidade ...................................................................................................... 119
Disseminação .......................................................................................................... 120
6. Anexo A .................................................................................................................. 121
7. Anexo B .................................................................................................................. 122
8. Anexo C .................................................................................................................. 124

Escola Básica 2/3 de Santa Clara .................................................................... 125


1. Resumo ................................................................................................................... 127
2. O Passado ............................................................................................................... 128
3. O Presente .............................................................................................................. 129
Infra-estrutura das TIC ........................................................................................... 130
Eficácia .................................................................................................................... 130
4. Principais hipóteses ................................................................................................. 132
Padrões de difusão .................................................................................................. 132
Valorização e envolvimento do pessoal docente .................................................... 133
Papel da liderança ................................................................................................... 135
Ligações TIC-Reforma ............................................................................................ 136
Rigor académico ...................................................................................................... 137
Equidade ................................................................................................................. 138
Discussão das hipóteses .......................................................................................... 139
5. Projecções .............................................................................................................. 143
Sustentabilidade ...................................................................................................... 143
Disseminação .......................................................................................................... 144
6. Anexo A ................................................................................................................. 145
7. Anexo B ................................................................................................................. 146
8. Anexo C ................................................................................................................. 148
Siglas ............................................................................................................................. 149

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

NOTA PRÉVIA

A questão de saber quais os impactos reais da utilização dos computadores na


aprendizagem tem preocupado investigadores, professores e instituições educativas em
todo o mundo. Foi precisamente para tentar encontrar respostas a esta questão que o
Centro para a Investigação e Inovação Educacional (CERI) da Organização para a Coope-
ração e Desenvolvimento Económico (OCDE) lançou em 1998 o projecto “ICT and the
Quality of Learning” ( As TIC e a Qualidade da Aprendizagem), por sua vez integrado
num programa mais vasto com a designação de “Schools for Tomorrow”.
Uma das linhas de acção deste projecto, previa a realização de uma avaliação
internacional sobre o impacto das TIC na aprendizagem, incluindo o lançamento de um
conjunto de estudos de caso de escolas que pretendia descrever diferentes situações de
difusão das TIC na educação.
Neste contexto, dezoito países cooperaram num estudo “destinado a identificar
em que condições as tecnologias de informação e comunicação (TIC) têm funcionado
como catalisadores de reformas escolares. Através do estudo de casos de escolas inova-
doras, quer em termos organizacionais, quer na utilização das TIC, pretendeu-se ofere-
cer aos decisores políticos uma orientação sobre a forma como os investimentos nacio-
nais em TIC podem tornar mais produtivo o funcionamento das escolas.”
É o resultado dos estudos realizados em Portugal que agora se dá a conhecer. Não
será demais salientar a importância que o conhecimento da realidade das escolas assume
para a melhoria da qualidade da Educação em Portugal. Não só por poder servir de base
à tomada de decisões nesta área como, fundamentalmente, por dar a conhecer um con-
junto de práticas quotidianas de qualidade que continuam muitas vezes desconhecidas e
que podem e devem ser tomadas como exemplos a seguir noutras comunidades
educativas. Assim haja empenhamento e capacidade.
Coube ao Departamento de Avaliação Prospectiva e Planeamento, através do
Programa Nónio – Século XXI, a coordenação dos estudos de caso portugueses que
foram realizados em escolas de diferentes regiões do país, por uma equipa coordenada
pelo Professor Doutor José Luís Ramos, da Universidade de Évora. A competência e o
rigor demonstrados pela equipa constituem uma garantia dos resultados alcançados. E
não deve causar admiração o tom relativamente optimista que ressalta da leitura destes
estudos de caso. Por detrás das situações observadas e analisadas está certamente muito
trabalho, competência e vontade de mudar, de professores, alunos e funcionários, que
demasiadas vezes são esquecidos quando se fala das TIC na Educação. É a eles que a
publicação destes estudos deve ser dedicada.

Francisco Melo Ferreira

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a


Qualidade das Aprendizagens

Estudos de Caso em Portugal

Escola Básica 2º e 3º ciclos de André de Resende


Évora – Portugal

José Luís Pires Ramos (Coordenador)


Vicência Maria Gancho do Maio
Isabel Maria Macedo Fernandes
José Luís Carvalho

Centro de Competência Nónio da Universidade de Évora

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1. RESUMO

“Professor, estas imagens vão para a Internet?” Sim, respondi suavemente, para
não chamar a atenção da turma.... “Podemos vê-las depois?” insistiu. Sim! Respondi
para atalhar a conversa. “Quer ver a página da minha equipa de futebol, lá do meu
bairro?” Foste tu que a fizeste? perguntei. “Claro! Está a ver ?! Estes são os meus
amigos... juntamo-nos aos sábados, depois de ajudar os meus pais no trabalho.... aquele
é o capitão da equipa....eu sou o mais novo. Esta página está num servidor público, fui
eu que a fiz e coloquei lá!” (Notas de investigação, 1º dia de observação de aulas nos
currículos alternativos. Diálogo entre o investigador e um aluno).

A Escola EB 2,3 André de Resende é uma escola da rede pública, situada em


Évora, cidade de média dimensão (cerca de 50000 habitantes) do interior de Portugal. A
sua localização, periférica em relação ao centro histórico da cidade, coloca a escola em
contacto, simultaneamente, com o centro da cidade e com bairros suburbanos, tendo
como resultado alguns contrastes no que se refere a padrões culturais e também ao nível
socio-económico dos alunos.
Entre a população escolar (845 alunos do 5.º ao 9.º ano de escolaridade, com
idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos) existem alguns alunos problemáticos
que transportam consigo um mundo de problemas e que se traduzem em dificuldades
de aprendizagem, indisciplina e insucesso escolar repetido. A experiência mostrou que a
integração desses jovens, em turmas regulares, é bastante difícil e origina situações fre-
quentes de abandono escolar e insucesso em diferentes planos.
A Direcção da Escola, à qual se associou um grupo de professores, avançou com
um projecto de criação de Currículos Alternativos para os alunos que, revelando poucas
expectativas académicas e sociais, constituíam um grupo com necessidades particulares.
Os Currículos Alternativos contemplam um programa académico diferente do que se
cumpre nas restantes turmas e na maioria das escolas do país e consistem numa inter-
venção estruturada e planeada junto de grupos concretos de jovens. Trata-se de uma
reforma cujo enquadramento legal prevê o reforço do quadro de autonomia, uma vez
que todo o processo de tomada de decisões é entregue à escola, que detecta as neces-
sidades e interesses dos alunos e procura conhecer as expectativas dos pais, envolven-
do-os também no processo. Inventariados os recursos humanos e materiais é então
desenhado o currículo a ser implementado.
A oportunidade surgiu, com a implementação do Programa Nónio Século XXI,
em 1997, pelo Ministério da Educação, e a Escola, que estava a preparar uma nova refor-
ma curricular – a criação de Currículos Alternativos para o 5º ano– apresentou e apro-
vou um projecto com a integração das TIC, tendo como contexto as turmas de Currícu-
lo Alternativo.
Para estes alunos, os Currículos Alternativos representam uma nova oportunida-
de: garantindo a sua formação básica geral em áreas diversas, os programas estão muito

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

orientados para a ligação ao mundo profissional e atribuem às TIC um papel relevante


em todo o currículo (os alunos utilizam as TIC 6-8 horas por semana).

A reforma é assegurada por um grupo de professores que, na sua maioria, tem


protagonizado também a utilização educativa das TIC e que, numa perspectiva de aber-
tura à inovação, valoriza potenciais contributos provenientes de interacções e parcerias
com a comunidade. Esta abordagem, em que são os professores os “artífices” da mu-
dança, exige também deles uma responsabilidade acrescida, pelo que a sua formação e
actualização em múltiplas vertentes tem sido uma preocupação constante.

O Quadro seguinte apresenta alguns dados da escola e da reforma.

Nome da Escola E. B. 2,3 André de Resende


Endereço Avenida Gago Coutinho 7000 Évora
Telefone (+351) 266 739560
Fax (+351) 266 739569
e-mail eb23res@mail.telepac.pt
Web http://www.eb23-andre-resende.rcts.pt
Pessoa de contacto Drª. Maria Beatriz M. R. M. Antunes
Número total de professores 112
Número total de alunos 845
N.º de professores da reforma – currículos 21
alternativos
N.º de alunos nos currículos alternativos 34
Infra-estrutura de TIC (Anexo B, quadro 2)
n.º total de computadores 42 computadores
salas c/ TIC 13 salas
acesso à Internet 38 computadores com acesso (2 redes locais)

Trata-se de uma verdadeira reforma, porque as mudanças operadas atravessam


todo o processo (objectivos, conteúdos, metodologias, recursos e avaliação), que só é
possível porque a escola reúne um grupo de professores, não só com uma sólida forma-
ção pedagógica e capacidade de inovação, mas também com uma larga experiência em
projectos com utilização das TIC.

A ligação entre as TIC e estes percursos alternativos de aprendizagem, propostos


nesta reforma, constituem, de acordo com os dados disponíveis, o principal factor de
adesão e sucesso até agora conseguidos. As TIC são objecto de estudo numa das disci-
plinas específicas, mas são, ao mesmo tempo, uma ferramenta de trabalho, em grande
parte, das restantes disciplinas.
Depois dos resultados positivos obtidos em anos anteriores com os Currículos
Alternativos, graças à mobilização e à preparação dos professores, aliada à satisfação dos

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

requisitos mínimos em termos de recursos, a Escola veio alargando a reforma a outros


grupos de alunos com necessidades idênticas. No ano lectivo de 2000/2001, quatro tur-
mas (34 alunos), duas do 6º ano e duas do 8º ano, foram abrangidas directamente por
esta reforma. Uma das turmas do 8º ano, designada Turma de Aprendizagem, estava já
no 4º ano da reforma (grupo inicial) e continuava a funcionar em parceria com Instituto
de Emprego e Formação Profissional.
Em matéria de utilização das TIC e desenvolvimento das competências associa-
das, os alunos dos Currículos Alternativos passam de jovens desfavorecidos a estudantes
privilegiados, com reflexos naturalmente positivos na auto-estima, melhorando significa-
tivamente a sua relação pessoal com a escola e a aprendizagem.
Para além dos Currículos Alternativos, a utilização educativa das TIC é uma práti-
ca não muito alargada mas sistemática na escola. Naquele momento, para além de activi-
dades curriculares, que não foram inventariadas, estavam em curso dois projectos no
âmbito do programa Comenius (“Sensibilização à Interculturalidade” e “Desen-
volver laços entre alunos”); o projecto “GrafiTICS” para dinamização do espaço BE/
CRE, onde um grupo de alunos realizava um conjunto de tarefas de actualização e
dinamização do site. A edição do jornal electrónico é também um projecto já com tradi-
ção nesta escola. Nos Clubes (de Inglês e de Matemática ) foram, igualmente, desenvol-
vidas actividades extra-curriculares com recurso às TIC.

2. PASSADO

O processo de integração das TIC na escola EB2,3 André de Resende iniciou-se


em 1989 com o Projecto MINERVA e com a constituição do Centro Escolar Minerva
(CEM), dinamizado por um grupo de professores. O projecto Minerva desenvolveu-se
até 1994, tendo contribuído para o apetrechamento, para a animação de projectos e
para a formação de professores, quer através de acções realizadas no Pólo da UE, quer
através de acções dinamizadas pela equipa do CEM.
Ao longo dos anos, o número de professores que aderiu à formação e utilização
das TIC foi aumentando e a escola foi explorando diferentes oportunidades para enri-
quecer e actualizar os seus recursos informáticos, através de projectos curriculares e
extra-curriculares.
Neste período, desenvolveram-se diversos projectos de integração das TIC:
 “Grupos de Escrita” com o objectivo de desenvolver o processo de escrita,
utilizando o processador de texto. Este projecto teve uma articulação vertical
com escolas associadas do 1º ciclo ;
 “Sonoridades do Quotidiano”, um projecto telemático nas áreas da Educa-
ção Musical e da Língua Materna.
Esta fase coincidiu com a implementação de uma reforma curricular onde se cria-
va um espaço interdisciplinar – Área Escola – que veio a revelar-se um bom pretexto

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

para a utilização das TIC. Foi neste contexto que se desenvolveu um projecto curricular
e de intercâmbio (Inglês, Educação Visual e História), denominado “Visiting Évora”.
Estando já instalada uma dinâmica entre os professores e existindo uma estrutu-
ra organizativa e de gestão favorável à iniciativa, estavam criadas algumas condições para
o incremento de projectos e actividades suportadas pelas TIC.
A título de exemplo, mencionam-se:
 Os Projectos “RECTA (I e II) – Rede Educativa em Ciência e Tecnologia e sua
Aprendizagem”, apoiados pelo Programa Ciência Viva do MCT (1996/97 e
1997/98);
 O Projecto “Ser e Conhecer”, de intercâmbio, em língua Inglesa, sobre os
Jogos Olímpicos de Atlanta (1996);
 O Projecto “Escrita Telemática – Uma janela para o Mundo”, que foi
apoiado pelo Instituto de Inovação Educacional (1996/1997).
A Escola participou, ainda em 1997, na iniciativa do “IIE Semana dos Media”,
com a criação da página da Escola. Nesse ano, co-organizou e dinamizou, também, o
“Forum – Aprender e Ensinar com a Internet”, destinado à comunidade educativa
e que se insere numa preocupação de divulgação de experiências e também de
aprofundamento de parcerias (Câmara Municipal e Universidade de Évora - Núcleo UE/
Minerva).
 O Projecto “Navegar através da Internet” desenvolveu-se durante os anos
lectivos de 1997/98 e de 1998/99 e possibilitou, aos alunos, aprendizagens
diversificadas com a utilização das várias ferramentas da Internet.
A dinâmica da escola tem-se traduzido, também, na resposta a desafios, evidenci-
ados na participação regular em iniciativas, como a semana Netdays. No âmbito
Netdays2000, quatro turmas participaram ainda com a criação de histórias colaborativas
através da Internet em português, francês e inglês e a nova página da escola (construída
por alunos) ganhou o segundo prémio no concurso de “Homepages”, promovido pelo
Programa Nónio. Também associada à utilização das TIC está a atribuição do “Selo Euro-
peu” em 1998 e em 2000 (relativamente à aprendizagem precoce de línguas estrangei-
ras) e, naturalmente, o reconhecimento, desde 1998, como escola inovadora na utiliza-
ção das TIC (ENIS) no quadro da European Schoolnet.

3. PRESENTE

Infra-estrutura de TIC

Este local é uma Escola ENIS (European NetWork Innovative School) e, embora o
parque de equipamento informático tenha aumentado, continua a não satisfazer as ne-
cessidades reais, da escola, em TIC (os professores referem, como obstáculos à utiliza-
ção das TIC com os alunos, a sobre-ocupação de espaços e equipamentos). À data,

16
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

cerca de 10% do orçamento geral da escola era afecto às TIC (aquisição, gestão e
manutenção dos recursos informáticos).

Para além dos 42 computadores, disseminados por diferentes espaços, a escola


possuia outros equipamentos de utilização geral, como o scanner, a máquina digital, o
projector de vídeo, as impressoras e o microcóspio ligado ao PC. A Escola dispõe de
cerca de 50 títulos de CD-ROM diversos. Nesta escola estão igualmente instaladas duas
redes: uma com acesso RDIS - Programa Internet na escola- que serve BE/CRE (biblio-
teca/centro de recursos), o Conselho Executivo, os Serviços Administrativos e a Sala dos
Professores; uma outra com acesso analógico –Telepac – serve 4 salas de aula, o Labo-
ratório de Informática e o Gabinete do Ensino Especial (Anexo B, Quadro 2).
Considerando que 10 dos computadores se destinam aos diferentes sectores e
serviços de gestão e administração da escola, estão de facto acessíveis aos alunos os
restantes 32 computadores.
Assim, o ratio geral (a nível da escola) é de 26 alunos por computador. No entan-
to, nas turmas dos Currículos Alternativos, cada aluno dispõe de um computador com
acesso à Internet, uma vez que todo o trabalho de sala de aula que envolva TIC decorre
no Laboratório de Informática. Os alunos dispõem de apoio e acompanhamento na bibli-
oteca/centro de recursos, através de uma folha de registo, que identifica o software
utilizado. No laboratório de informática, os alunos são acompanhados por professores.
A manutenção dos equipamentos é realizado por um técnico exterior à escola e,
em casos pontuais, pelos professores mais experientes e conhecedores da área das TIC.

Eficácia

A apreciação da eficácia dos currículos alternativos deverá, evidentemente, levar


em linha de conta as características dos alunos envolvidos nesta reforma. A eficácia deve,
pois, ser medida em relação às condições iniciais: alunos com insucesso escolar repetido,
problemas de integração na comunidade escolar, risco de abandono da escolaridade bá-
sica e dificuldades condicionantes de aprendizagem. A adaptação do currículo aos inte-
resses e necessidades dos alunos, bem como a utilização transversal das tecnologias de
informação e comunicação, tiveram, como resultado, a motivação e o envolvimento dos
alunos na aprendizagem.
De acordo com os professores, a reforma permitiu uma maior aproximação aos
alunos ( turmas com menor número de alunos), a diversificação de estratégias, maiores
oportunidade de trabalhar de forma colaborativa com os colegas e a criação de situações
de aprendizagem significativa para os alunos. A relação entre professores e alunos tam-
bém melhorou substancialmente.
Outros indicadores da eficácia são a redução do absentismo escolar (número de
faltas dos alunos) e da indisciplina na escola e na sala de aula, a percepção de uma maior

17
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

atenção dada a cada um dos alunos, a melhoria da auto-estima dos alunos, a aquisição de
conhecimentos e competência no uso dos computadores por parte dos alunos, bem
como a possibilidade de adquirirem uma formação prática de carácter profissionalizante.
De acordo com alguns professores, a reforma parece beneficiar os alunos com mais
dificuldades de aprendizagem, pois estes dispõem de mais tempo para as tarefas e de-
senvolvem um tipo de trabalho mais prático do que no ensino regular, onde se verifica
um ensino mais teórico.

A eficácia é, pois, um conceito aplicável, mas não segundo os padrões do ensino regular.
Quando um aluno, desta população, consegue terminar o ciclo da escolaridade básica
obrigatória, estamos perante uma “pequena vitória” da Escola, dos professores, dos pais
e da comunidade, uma vez que quase todos os factores condicionantes apontavam, inici-
almente, para o insucesso e/ou o abandono escolar. Se o resultado for, para além deste,
o aluno vir a prosseguir estudos, no quadro do ensino regular, então o sistema funcionou
e teve eficácia.

4. PRINCIPAIS HIPÓTESES

As principais hipóteses deste estudo estão relacionadas com as dimensões identificadas


como especialmente relevantes no que diz respeito ao desenvolvimento da Escola e o
eventual contributo das TIC, nomeadamente: os padrões de difusão, a valorização e
envolvimento do pessoal docente, o papel da liderança, as ligações TIC e reforma e ainda
o rigor académico e a equidade. Os dados foram inventariados, recolhidos, codificados e
classificados de modo a permitir construir uma base empírica e, a partir desta, iniciar o
processo de confirmação ou refutação das hipóteses em estudo. Desenvolvem-se, ago-
ra, as principais conclusões relativas a cada uma das dimensões, tendo como base os
dados recolhidos.

Padrões de difusão

A reforma em curso nesta escola - designada por Currículos Alternativos (Alternative


Education) - envolve 34 alunos, agrupados em turmas de dimensão reduzida e com ca-
racterísticas muito particulares: alunos com insucesso escolar repetido, problemas de
integração na comunidade escolar, risco de abandono da escolaridade básica e dificulda-
des condicionantes da aprendizagem. Esta reforma surge como uma proposta inovadora
e com inúmeras potencialidades na procura de soluções alternativas, ajustadas à diversi-
dade de casos que não se enquadram nem no ensino regular nem no ensino recorrente.
Experiências anteriores, no interior do sistema, mostraram as virtualidades e resultados
positivos deste tipo de solução.

18
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

O Ministério da Educação regula o quadro legal e as condições de funcionamento da


reforma. As escolas, opcionalmente, e no âmbito do regime de autonomia estabelecido,
propõem a criação e o funcionamento dos Currículos Alternativos para os grupos de
alunos que consideram poder beneficiar deste tipo de programa, depois de efectuado o
diagnóstico e assegurado o contributo dos professores.

A reforma consiste na possibilidade de, mantendo a mesma validade que o currículo


regular, construir e desenvolver um currículo ajustado aos interesses e necessidades dos
alunos. Todas as turmas têm uma componente escolar e uma componente prática (artís-
tica, vocacional, pré-profissional ou profissional). De acordo com as parcerias que for
possível realizar – através de protocolos - os alunos podem desenvolver a componente
prática numa entidade que acolhe os estudantes e os orienta na aprendizagem, em cola-
boração com a escola que assegura a componente escolar da formação.
O sistema de avaliação é, igualmente, proposto pela escola e aprovado pelo Minis-
tério da Educação. Todos os estudantes têm orientação psicológica e vocacional e a par-
ticipação dos estudantes nos CA deve ser autorizada por escrito pelos pais ou encarrega-
dos da educação. Os estudantes, desde que o solicitem, têm sempre a possibilidade de
regressar ao currículo regular.
Esta proposta inovadora, de atender a um grupo específico de alunos que, na sua
maioria, são oriundos de estratos sócio-económicos desfavorecidos, teve o seu início há
4 anos, por decisão do Conselho Pedagógico, e foi dinamizada por um pequeno grupo de
professores, nomeadamente os que mais estavam envolvidos com a utilização educativa
das tecnologias de informação e comunicação, gera, nesta Escola, sentimentos contradi-
tórios, mas, em geral, favoráveis a esta solução, porque a Escola, no seu conjunto, bene-
ficia da reforma em curso.
Os professores envolvidos na reforma consideram-na uma solução socialmente
justa e adequada e, neste sentido, constituem o principal suporte e a sua principal defesa
da reforma. Eles estão muito motivados e envolvidos do ponto de vista emocional e
afectivo e, apesar de ser um trabalho de elevado desgaste psicológico e de grande exi-
gência pessoal, não deixa de ser compensador, pelo facto de participarem na possibili-
dade de proporcionar, àqueles alunos, um futuro certamente muito melhor do que
aquele que lhes estaria reservado, se esta solução não fosse implementada: o insucesso,
o abandono da escola e outras possibilidades pouco animadoras. São razões de ética
profissional, de consciência social e de cidadania, as razões que levam estes professores
a envolverem-se de uma forma tão empenhada neste trabalho.
Os professores consideram que os CA permitem a criação de uma solução adap-
tada aos alunos e convergente com o Projecto Educativo. Os problemas de indisciplina,
nas turmas e na escola em geral, ficam igualmente mais atenuados com a existência de
turmas de CA, até porque, com menos alunos nas turmas e mais recursos disponíveis,
os professores têm a possibilidade de, na sua prática pedagógica, se aproximarem mais
dos alunos e dedicarem uma maior atenção a cada um e aos seus problemas.

19
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Trabalhar com as TIC, sobretudo no apoio aos processos de ensino-aprendiza-


gem, significa, sem dúvida, algum trabalho adicional e implica alterações nas rotinas e
formas de trabalho do professor. Por isso, muitos professores não ousam ou não arris-
cam nesta perspectiva de trabalho e preferem a forma de trabalho mais tradicional, na
qual se sentem mais à vontade e que não exige esforço suplementar.
Os professores que adoptaram esta inovação formam uma equipa onde conver-
gem os experientes e os novos, mas profissionalizados. Apresentam comportamentos
típicos de adoptantes: a vontade de ter o reconhecimento social do seu envolvimento e
dedicação à reforma e o desejo de que outros colegas adoptem atitudes e comporta-
mentos igualmente relevantes para a vida da Escola.
Os que mais resistem à inovação são sobretudo professores com muito tempo de
serviço e com a percepção de terem um estatuto social mais elevado. No caso dos CA,
as resistências parecem ser mais evidentes em professores com estatuto aparentemente
mais elevado, enquanto no que se refere às TIC são, em geral, os professores mais
velhos. Mas o factor idade não parece ser determinante, uma vez que também podem
ser encontrados professores jovens igualmente resistentes. Trata-se sobretudo de uma
atitude passiva e até de indiferença, relativamente a inovações pedagógicas, envolvendo
ou não as tecnologias.
Um pequeno grupo de professores dinâmicos e já envolvidos na área das TIC,
iniciou o processo de introdução e difusão da utilização educativa das TIC na Escola.
Apesar dos esforços deste pequeno grupo de professores (incluindo acções de forma-
ção, ajuda mútua a colegas, etc.), um número reduzido de professores (entre 10 a 15 %,
segundo um dos professores mais conhecedores da escola e deste domínio) utiliza as
TIC no apoio aos processos de ensino-aprendizagem (72% dos professores afirma que
não envolveu os alunos em aprendizagem colaborativa através da Internet). A maioria
utiliza o computador como instrumento de trabalho pessoal, nomeadamente na prepa-
ração das suas aulas. Para os professores que utilizam as TIC e que estão envolvidos na
reforma, o computador desempenha um papel de catalisador: foi a partir das propostas
de trabalho educativo envolvendo as TIC que os currículos foram alterados e passaram a
incluir a informática, como objecto de estudo e como instrumento de apoio aos proces-
sos de ensino-aprendizagem, transversalmente a quase todas as outras disciplinas (Edu-
cação Musical , Educação Visual, Inglês, Mundo Actual, Língua Portuguesa e O Homem e
o Ambiente).
Um aluno dos CA nesta escola utiliza o computador em média de 6 a 8 horas por
semana (enquanto a média da escola, por aluno, é muito mais baixa). O processador de
texto, o correio electrónico, a pesquisa na web, as enciclopédias e os programas de
desenho permitem o desenvolvimento da autonomia dos alunos e de competências lin-
guísticas, comunicacionais e investigativas e promovem o domínio da língua materna e de
língua estrangeira. As estratégias passam frequentemente por projectos interdisciplinares,

20
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

valorizando o intercâmbio e a multiculturalidade. O jogo e as potencialidades lúdicas das


TIC são igualmente exploradas, como forma de facilitar a familiarização com os compu-
tadores e também como entretenimento, nos tempos livres dos alunos.

Valorização e envolvimento do pessoal docente


O desenvolvimento e manutenção da reforma, nesta Escola, assentam em dois
pilares: o empenhamento dos professores e o contributo da direcção. A valorização e o
envolvimento do pessoal docente foram contemplados, de uma forma muito insuficien-
te, na implementação da reforma. Algumas acções de formação, a auto-formação, a tro-
ca de experiências e o debate sobre as implicações da reforma constituem os elementos
que permitem aos professores reflectir sobre as práticas pedagógicas e melhorar o seu
desempenho profissional. De acordo com os professores, esta vertente foi claramente
insuficiente, exigindo-lhes uma capacidade de auto-aprendizagem e de resolução de pro-
blemas de elevada complexidade, um enorme espírito de sacrifício e brio profissional
para poderem ultrapassar as situações mais complexas. Apesar da maioria dos professo-
res da Escola frequentar acções de formação, no âmbito da formação contínua de pro-
fessores, em diversas áreas científicas e pedagógicas, essas acções não foram orientadas
para os currículos alternativos, ou seja, para a reforma.
No que diz respeito às TIC, desde há muito anos que nesta Escola, um pequeno
grupo de professores, ainda no período do Projecto Minerva ( um dos projectos de
maior desenvolvimento das TIC em Portugal, que foi aliás objecto de um estudo de
Avaliação coordenado pela OCDE) tem demonstrado o seu interesse e entusiasmo pela
utilização educativa das TIC e, nesse sentido, vem regularmente frequentando acções de
formação neste domínio, em geral dinamizadas pelos Centros de Formação de Professo-
res e Centro de Competência Nónio Século XXI da Universidade de Évora.
É este pequeno grupo de professores que igualmente está envolvido na reforma.
A formação dos professores neste domínio, embora seja considerada, pelos professores
em geral, como insuficiente, tem permitido à Escola resultados positivos. Por exemplo, a
Escola obteve o Selo Europeu para as Iniciativas de Sensibilização às Línguas Estrangeiras
e o estatuto de Escola Europeia Inovadora na áreas das TIC (ENIS) , no quadro da inici-
ativa European SchoolNet. No caso da reforma, as reuniões regulares entre os profes-
sores têm igualmente sido aproveitadas, pontualmente, para discutir aspectos relaciona-
dos com a utilização das TIC por parte dos professores, tirar dúvidas e criar novos mate-
riais curriculares.

Papel de liderança

A liderança dos Currículos Alternativos recai sobre a direcção e um grupo de


professores que se empenhou neste projecto desde o início do processo. Começou por

21
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ser um pequeno grupo de quatro professores, que se foi alargando, integrando actual-
mente 21 professores. A dinâmica, o sentido pragmático da vida, a capacidade de lidar
com situações de incerteza, a forte consciência social, a capacidade de comunicação
interpessoal e elevado empenhamento profissional, são as principais características des-
tes professores. Pode ser observado um verdadeiro trabalho de equipa.
A reforma em estudo, apesar de apresentar um quadro legal e jurídico bem deli-
mitado pelo Ministério da Educação, é um exemplo do exercício da autonomia da Esco-
la, caminho que agora se inicia no sistema educativo português. As decisões de constituir
turmas de currículos alternativos, de convidar professores para leccionarem nestas tur-
mas e outros aspectos de carácter organizacional (recursos e espaços), são da responsa-
bilidade da direcção da escola.
Os aspectos de implementação prática da reforma, no que diz respeito ao quoti-
diano, recaem sobre os professores que aceitam, voluntariamente, leccionar estas tur-
mas de alunos. A cultura de gestão da escola implementada nesta e noutras escolas,
assenta na colegialidade. A importância e o papel da liderança, embora muitas vezes não
assumida, pode ser observada na forma como foi e é ultrapassada a resistência de alguns
professores, mas também a resistência de pais e encarregados de educação, membros
da comunidade e parceiros da escola nestes projectos. A capacidade de persuasão torna-
se num elemento fundamental. A manutenção dos CA nesta escola depende essencial-
mente da vontade de prosseguir o esforço por parte dos professores envolvidos. A difi-
culdade em recrutar novos professores para esta área é um dos grandes obstáculos à
continuidade da reforma neste local.

Ligações TIC-Reforma

As tecnologias de informação e comunicação desempenham um importante papel


no quadro dos currículos alternativos: como ferramenta de trabalho, instrumento de
apoio à aprendizagem e também como conteúdo curricular privilegiado, numa perspec-
tiva de integração futura no mercado de trabalho. De acordo com a administração e com
os professores, esta forte relação entre as TIC e a reforma explica-se pelo facto de
terem sido muito dos professores envolvidos em TIC os que se associaram ao pequeno
grupo de professores que elaboraram a proposta de constituição de turmas de CA,
colocando em prática aquilo que era o fruto da sua experiência : as TIC exercem sobre
os jovens um forte poder de atracção e desejo de aprender através destas ferramentas,
e que tal evidência correspondia a ganhos na aprendizagem dos alunos e melhoria da sua
atitude face à aprendizagem e face à Escola. E esta observação estende-se eventualmen-
te aos alunos com mais dificuldades de aprendizagem.
As TIC, quer como ferramenta de trabalho pessoal, quer como instrumento de
apoio à aprendizagem, têm importantes efeitos motivacionais nos alunos. Ajudam os
professores na criação de novas situações de aprendizagem, diversificando as estratégias

22
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

de trabalho educativo e ajudam os alunos, enquanto factor de envolvimento na aprendi-


zagem. Uma grande parte do trabalho é realizado de forma individual ou em pares.
As TIC fornecem “outra forma de pensar e olhar para o currículo” e, neste senti-
do, são catalisadoras e facilitadoras de novas abordagens e novas estratégias, embora
esta situação seja aplicável a um número reduzido de professores na Escola. O seu efeito
motivacional nos alunos e o seu papel agregador, favorável à interdisciplinaridade, são
os aspectos de ligação entre as TIC e a reforma, mais sublinhados pelos professores. Os
professores também associam o uso das TIC com a obtenção de melhores resultados na
aprendizagem, com novas abordagens a novos conteúdos, com a melhoria da qualidade
de apresentação e comunicação de trabalhos dos alunos, com melhores resultados no
domínio da escrita e com o desenvolvimento de competências comunicativas e sociais. A
sua utilização como ferramenta de trabalho pessoal é predominante, mas as TIC tam-
bém são usadas como fonte de informação e como recurso de apoio à aprendizagem dos
alunos em áreas específicas ( Música, Inglês, Português, etc. ).
As TIC são já utilizadas na Escola, quer no plano administrativo ( horários, venci-
mentos, pautas, termos de avaliação, etc.), quer no plano pedagógico, onde vão sendo
gradualmente adoptadas pelos professores, (primeiro para trabalho pessoal e, mais tar-
de, por alguns, em processos de ensino-aprendizagem). Geralmente começam com
trabalhos que pedem aos alunos (de pesquisa na Internet ou em enciclopédias); depois,
vão progredindo para a exploração de aplicações mais específicas, dependendo da disci-
plina ou área de trabalho e da facilidade de encontrar software adequado.
A utilização das TIC depende do tipo e natureza dos problemas a resolver, tor-
nando assim a aprendizagem mais significativa. Nem todos os professores têm mostrado
abertura neste campo: alguns dos professores mais velhos e até alguns dos mais novos,
não estão ainda a dar passos neste sentido e, quando ousam usar o computador, é
apenas para fazer alguns testes com melhor apresentação, algumas fichas e pouco mais.
Como já se referiu, nem sempre a idade está relacionada com este aspecto,
porque podemos encontrar professores mais velhos com grande capacidade de inovar e
de reflectir sobre a sua prática.
Evidentemente que o facto dos CA contemplarem uma disciplina de informática
e, para além disso, estarem em grande parte “marcados” pela expectativa de utilização
das TIC como catalisador da reforma, verifica-se com regularidade a aplicação das TIC
em outras disciplinas, de uma forma transversal.
É igualmente necessário salientar que a Direcção da escola e alguns elementos
deste pequeno grupo de professores tiveram a preocupação de instalar e pôr a funcionar
um Centro de Recursos, associado à Biblioteca (BE/CRE), que constitui uma importante
estrutura de apoio ao desenvolvimento das TIC na Escola. Esta estrutura tem-se revela-
do de grande importância na forma como as TIC, paulatinamente, vão sendo adoptadas
pelos professores. Este espaço é igualmente importante, porque é o espaço de encontro
entre alunos e entre professores e é também, por isso, um contexto favorável à apren-
dizagem mútua informal. Aqui, no BE/CRE, é feito um acompanhamento dos alunos na
utilização das TIC.

23
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Equidade
A Sala de Informática e a Biblioteca/Centro de Recursos assumem um papel fun-
damental no que diz respeito à equidade, entendida enquanto a possibilidade de acesso
por todos os membros da comunidade escolar aos meios e recursos informáticos dispo-
níveis na escola. E, neste aspecto, esta escola tem uma particularidade: ao construir um
currículo alternativo, para uma população com mais dificuldades de aprendizagem e em
risco de abandono escolar, utilizando as TIC como elementos essenciais no desenvolvi-
mento das propostas educativas, a Escola proporciona a estes alunos um maior acesso às
TIC do que aos alunos do ensino regular, pelo menos de uma forma sistemática e inte-
grada no currículo.
Isto não significa, obviamente, discriminação, mas apenas atenção especial da par-
te da escola e dos professores aos alunos dos currículos alternativos. Todos os outros
alunos dispõem de acesso idêntico na biblioteca/centro de recursos, enquanto não são
instaladas novas salas de informática, e têm a possibilidade de frequentar este espaço
onde têm acesso, livre e acompanhado, à utilização das TIC. E, desde logo, as eventuais
diferenças entre alunos que dispõem de computador em casa e os que não dispõem
dessa facilidade, serão certamente, no que diz respeito a estas turmas de currículos
alternativos, atenuadas.
Embora não tenham sido recolhidos dados sobre este aspecto, será de esperar
uma maior proporção de alunos com computador em casa, no caso dos alunos que
frequentam o ensino regular, do que no caso dos alunos que frequentam currículo alter-
nativo, uma vez que, em geral, estes alunos são provenientes de estratos sócio-económicos
mais desfavorecidos.
Ou seja, ao adoptar esta solução para estes alunos, a Escola está, claramente, a
contribuir para diminuir eventuais diferenças que os alunos tragam, à partida, de casa. A
esta vantagem pode juntar-se uma situação de sucesso no que diz respeito à integração
social e profissional destes alunos. Esta situação de aparente privilégio (no acesso mais
regular às TIC) parece repercutir-se no conjunto da escola, pois as outras turmas, por
não terem alunos em risco, parecem ter ganho, numa espécie de “contrapartida”, uma
melhoria no clima social da sala de aula e uma real diminuição de problemas de compor-
tamento e indisciplina.
Quanto à percepção de quem tira mais partido das TIC, se alunos mais favoreci-
dos ou alunos desfavorecidos, as opiniões dos professores dividem-se. A favor da vanta-
gem dos alunos ricos que têm computador em casa, são apontados o maior tempo de
aprendizagem com os computadores, uma maior autonomia, maior capacidade de selec-
cionar a informação, dedicarem mais tempo à pesquisa na internet e disporem de acom-
panhamento dos pais.
As evidências a favor dos alunos mais desfavorecidos dizem respeito ao facto de,
por disporem de menos tempo com o computador, racionalizarem a sua utilização e
aprendizagem, não se dispersando tanto, sobretudo, com os jogos de computador.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

No que diz respeito ao género, as raparigas e os rapazes utilizam as TIC , não


havendo a registar qualquer desigualdade no acesso e na possibilidade de trabalho com
as mesmas. No entanto, e apesar de alguns professores considerarem que não há dife-
renças entre rapazes e raparigas, alguns deles referem que as raparigas tiram menor
partido das TIC, pelo facto de serem mais inibidas do que os rapazes e que estes, por
sua vez, serão mais ousados e aventureiros.
Também não há unanimidade na opinião dos professores quanto ao impacto dos
alunos terem ou não computador em casa. Aparentemente, os alunos com acesso a
computador em casa têm, potencialmente, mais tempo de utilização do computador
(mais tempo na tarefa), o que poderá ser, à partida, uma vantagem. Mas, na realidade, tal
efeito está por determinar, uma vez que esse tempo adicional pode apenas ser usado no
jogo sem que haja repercussões sérias no desenvolvimento da criança/jovem. Não será,
portanto, apenas uma questão de tempo e disponibilidade, mas também a forma como é
usado o computador e o acompanhamento que é realizado pela família. No caso em
presença não existe informação precisa quanto ao número de alunos que dispõem de
computador em casa e dos efeitos que tal poderá acarretar.

Discussão das Hipóteses

Reservamos este espaço para discutir, uma a uma, as hipóteses avançadas para
este estudo com algumas condicionantes, que queremos identificar, à partida, antes da
discussão. Algumas das hipóteses, nomeadamente as hipóteses 3 e 4, como referiremos
mais adiante no corpo do texto, não são, em nosso entender, mutuamente exclusivas,
tornando difícil o processo de tomada de decisão quanto à confirmação ou refutação
total das hipóteses referidas.

Hipótese 1
A Tecnologia é um importante catalisador das reformas educacionais, especialmente
quando estas envolvem a Internet. A hipótese alternativa é a de que, quando existe uma
verdadeira reforma em curso, a tecnologia sirva apenas como um recurso adicional e não
como um catalisador, i.e., que as forças impulsionadoras da reforma, promovam igualmente a
aplicação da tecnologia para solucionar problemas educacionais específicos.

A análise dos dados recolhidos mostra que a hipótese principal deve ser aceite e
não a hipótese alternativa, i.e., a tecnologia constitui, neste caso, um importante catalisador
das reformas educacionais, especialmente quando estas envolvem a Internet.
As evidências a favor são, no essencial, três: a primeira é a associação entre os
professores que, na Escola desde há muitos anos, trabalham com as TIC e o pequeno
grupo de professores que, estimulados pela direcção da escola, puseram em marcha a
constituição dos Currículos Alternativos, incluindo as TIC, como elemento estrutural da

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

proposta de trabalho educativo apresentada ao Ministério da Educação. A segunda evi-


dência é a disponibilidade e a afectação dos necessários recursos humanos e materiais da
Escola para este projecto; a terceira é o reconhecimento generalizado entre os profes-
sores e alunos dos benefícios da reforma, em comparação com as suas desvantagens.
As TIC são, nesta Escola e no âmbito dos Currículos Alternativos, utilizadas de
forma extensiva, o que inclui uma disciplina de informática e a sua aplicação transversal
em, praticamente, todas as outras disciplinas que compõem o currículo dos alunos. Estes
utilizam as TIC em média 6 a 8 horas por semana, o que é francamente muito, sobretu-
do se pensarmos que se trata de um currículo no quadro da escolaridade básica e obri-
gatória. Esta situação está, evidentemente, longe de se aplicar aos restantes alunos desta
escola, no quadro do ensino regular.

Hipótese 2
A difusão da reforma (e consequentemente das TIC) segue o tradicional padrão de
difusão das reformas e inovações descrito por Rogers (1995). A hipótese alternativa é a de que
a tecnologia funcione de forma diferente das reformas e inovações tradicionais e que o seu
padrão de difusão tenha, por isso, características distintas.

Os dados recolhidos mostram que a hipótese que sustenta que a difusão da re-
forma e inovações segue o tradicional padrão de difusão das reformas e inovações pro-
posto por Rogers (1995) pode ser aceite, para este estudo de caso.
As evidências baseiam-se na forte associação entre Currículos Alternativos e utili-
zação educativa das TIC, neste local. Neste sentido, e apesar desta inovação estar devi-
damente regulamentada pelo Ministério da Educação e ser destinada a uma população
muito específica, a sua exposição, adesão, envolvimento e adopção dependem da von-
tade das escolas, da sua direcção e dos seus professores.
Uma segunda evidência a favor desta hipótese reside no facto de a adopção dos
Currículos Alternativos ter sido baseada em experiências anteriores no sistema educativo
e que influenciaram positivamente a Escola e os professores, levando-os a experimentar
e adoptar uma estratégia semelhante.
Se considerarmos a história da introdução e difusão das TIC nesta escola e o modo
como foram e são progressivamente adoptadas como recursos fundamentais no trabalho
quotidiano da escola e da profissão docente, encontramos alguns elementos que nos per-
mitem associar positivamente reforma e tecnologias. Os dados mostram que muitos dos
aspectos e características do modelo de Roger podem ser observados nesta escola, quer
no que diz respeito aos Currículos Alternativos, quer no que diz respeito ao uso educativo
das TIC, nomeadamente, o comportamento dos adoptantes pioneiros (early adopters) e a
importância dos canais de comunicação interpessoal na fase de persuasão.
Os canais de comunicação particulares próprios do padrão de difusão de inova-
ções, proposto por Roger, podem ser observados neste local e estão a funcionar, condu-

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

zindo a escola, neste processo de progressiva adopção das TIC, por parte dos seus mem-
bros.

Hipótese 3
A implementação eficaz das TIC depende essencialmente das competências do pesso-
al docente para a integração das mesmas na aprendizagem. Esta hipótese assume que a
eficácia das TIC está associada à mediação dos professores e de que o seu valor académico
está positivamente relacionado com as competências do professor. A hipótese alternativa é a
de que a infraestrutura tecnológica da escola e as competências dos alunos, e não as compe-
tências do pessoal docente, em TIC, determinem os resultados da implementação das TIC.

A hipótese, de que a implementação eficaz das TIC depende das competências do


pessoal docente na integração das TIC na aprendizagem, deve ser aceite, uma vez que as
evidências recolhidas apontam, maioritariamente, neste sentido.
As evidências que suportam esta hipótese são essencialmente duas. A primeira
evidência tem a ver com o facto da constituição de turmas com currículos alternativos
ter, como pressuposto, a possibilidade de concentrar no aluno uma atenção particular,
de modo a atender às suas necessidades e interesses pessoais, criando, assim, condições
que favoreçam uma aprendizagem significativa e de carácter prático, em que as TIC
surgem como facilitadoras da aprendizagem e elementos de grande efeito motivacional.
Este pressuposto é realizado através da alteração ao currículo regular, com a introdução
da componente prática, com a redução da componente teórica, com a redução drástica
do número de alunos por turma e ainda com o acesso às TIC de forma sistemática e
transversal (em quase todas as disciplinas). Uma segunda evidência consiste no elevado
profissionalismo dos professores e no aproveitamento das suas competências pedagógi-
cas e científicas, mas, igualmente, na sua consciência social que os leva a contribuir para
a construção de um futuro melhor para crianças e jovens ameaçados pelo insucesso e
abandono escolar.
O envolvimento dos professores na reforma, pode ser observado desde a consti-
tuição das turmas, à concepção e elaboração da proposta de currículo alternativo, sua
execução e avaliação. A capacidade de entrega destes professores e sensibilidade revela-
das perante a situação de alunos em insucesso escolar repetido, risco de abandono esco-
lar e dificuldades de aprendizagem, são elementos determinantes no desenvolvimento
sustentável da reforma.
Dadas as circunstâncias e as provas recolhidas e apresentadas, não há dúvida ,
neste caso, quanto à aceitação da hipótese principal, uma vez que não seriam, certamen-
te, nem a infra-estrutura tecnológica, nem as competências dos alunos, os factores res-
ponsáveis determinantes dos resultados da implementação da reforma neste local.

Contudo, a aceitação desta hipótese não exclui, totalmente, a hipótese rival, so-
bretudo se levarmos em linha de conta que a infra-estrutura tecnológica e as competên-

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

cias dos alunos, constituem igualmente factores que facilitam ou condicionam, positiva
ou negativamente, o papel mediador do professor no processo de integração das TIC na
aprendizagem.
A existência de uma infra-estrutura tecnológica que possa garantir acesso ilimita-
do e generalizado a todos os membros da comunidade escolar - e não apenas aos alunos
dos Currículos Alternativos - certamente que conduziria a uma nova equação destas
hipóteses. Tal apenas pode acontecer em escolas que tenham uma infra-estrutura
tecnológica alargada e um ratio de alunos/computador bastante mais favorável.

Hipótese 4
Se todos os alunos tiverem acesso idêntico às TIC, as diferenças de desempenho
académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres não deverão aumentar. A hipótese
alternativa é a de que, em condições de igualdade de acesso às TIC, os alunos mais favoreci-
dos tenderão a aumentar a diferença de desempenho académico relativamente aos alunos
menos favorecidos (mais pobres).

A hipótese que defende que, se todos alunos tiverem idêntico acesso às TIC, as
diferenças de desempenho académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres
não deverão aumentar, deve, sob certas condições, ser aceite.
De acordo com as informações recolhidas, o acesso aos computadores é idêntico
para todos os alunos e este facto não se reflecte em diferenças no desempenho académico
entre alunos favorecidos e desfavorecidos. No entanto, a percepção dos professores
não é unanime. Por exemplo, uns afirmam que “desde que tenham acesso, as diferenças
não são relevantes”, “todos - favorecidos e desfavorecidos- beneficiam ”, “os alunos
mais desfavorecidos e que não possuem computador em casa, usam-no na escola, com
mais avidez”, “os alunos mais ricos têm computador em casa e outras oportunidades
fora da escola e revelam, por isso, maior autonomia porque provavelmente usam mais
frequentemente [o computador] “
Ou seja, alguns dos professores consideram que essas diferenças ou não existem
ou são irrelevantes; outros referem que os alunos mais favorecidos e que dispõem de
computador em casa, têm oportunidade de desenvolver a autonomia e acedem à infor-
mação com mais facilidade.
De igual modo, muitos dos professores não arriscaram uma resposta, afirmando
que não dispunham de dados suficientes sobre esta questão.
Mas, e mais uma vez, não está totalmente excluída a hipótese alternativa. E a
razão é de que não devem ser ignorados alguns dados do problema: há, cada vez mais,
alunos com computador em casa e acesso à Internet e esses alunos dispõem de uma
vantagem que, se a Escola não fizer intervenções educativas destinadas aos alunos que
delas precisem (nomeadamente os alunos mais desfavorecidos), então essa vantagem

28
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

poderá aumentar as diferenças de desempenho académico entre alunos favorecidos e


desfavorecidos, e não diminuí-las.
O tempo dedicado à tarefa, factor determinante na aprendizagem e sucesso es-
colar, é, neste caso, muito favorável a quem já dispõe de computador em casa. Se a curto
prazo esse factor não se faz sentir, até pela idade dos alunos, a médio prazo tal poderá,
eventualmente, verificar-se, pelo que não é de excluir total e liminarmente a hipótese
rival.
Em conclusão: a hipótese principal pode ser aceite, sob condição da Escola garan-
tir idêntico acesso às TIC para todas as crianças e jovens e proporcionar a orientação e
acompanhamento por professores que assegurem o necessário apoio aos jovens que se
envolvem em processos de aprendizagem neste domínio.

Hipótese 5

Uma implementação eficaz das TIC conduzirá à manutenção ou aumento dos padrões
académicos, apesar da reduzida qualidade de muitos materiais de TIC. Os padrões académicos
são função das expectativas dos professores e da escola e não do nível dos manuais, dos
materiais de TIC ou outros. A hipótese alternativa é a de que a utilização das TIC conduzirá a
uma redução dos padrões académicos, na medida em que os alunos irão despender mais
tempo em pesquisas com benefícios marginais e a navegar em conteúdos da Internet e
curriculares de baixa qualidade.

A hipótese principal do estudo deve ser aceite, considerando que os dados reco-
lhidos neste local suportam esta afirmação. A percepção dos professores reforça os efei-
tos positivos das TIC na aprendizagem dos alunos, bem como o desenvolvimento de
competências investigativas, sociais e comunicacionais.
As TIC exercem, sobre os jovens, um forte poder de atracção e desejo de apren-
der através destas ferramentas, e esta evidência corresponde a ganhos na aprendizagem
dos alunos e ainda a uma melhoria da sua atitude face à aprendizagem e face à Escola.
Esta observação estende-se aos alunos com mais dificuldades de aprendizagem, dificul-
dades de integração na comunidade escolar, alunos com insucesso escolar repetido ou
em risco de abandono escolar, como é o caso da população escolar inscrita nos currícu-
los alternativos.
No entanto, é preciso sublinhar que os padrões académicos de uma Escola não
dependem apenas de uma implementação eficaz das TIC, nem da qualidade dos seus
materiais. Dependem de um conjunto muito mais alargado de factores e que estão longe
de se esgotar em parâmetros mais ou menos relacionados com as TIC. E mais ainda
quando, nesta escola , as TIC e o trabalho educativo que é feito, sem dúvida, de mérito,
apenas representam uma pequena parte do trabalho que é realizado pelo conjunto dos
professores e da Escola, numa população muito específica.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As evidências a favor: 72% dos professores não envolveu os seus alunos em apren-
dizagem colaborativa, através da Internet, com alunos de outras turmas; 61% dos pro-
fessores não utiliza tecnologia para colaborar com outros professores; 61% dos profes-
sores afirma que a utilização de computadores por parte dos alunos não foi considerada
na avaliação da aprendizagem.
Estes dados mostram que, apesar de algum desenvolvimento das TIC nesta Esco-
la, será muito difícil relacionar apenas o seu nível de desenvolvimento em TIC com os
padrões académicos dos seus alunos. Outros factores devem ser investigados e
aprofundada esta discussão.

5. PROJECÇÕES

Sustentabilidade

A sustentabilidade da reforma, nesta escola, depende de um conjunto de factores,


nomeadamente da disponibilidade de professores para continuar a trabalhar com estes
alunos. De facto, o factor mais importante parece ser o empenhamento e a dedicação
dos professores, sem os quais certamente não seria possível realizar este trabalho, con-
siderando até o desgaste pessoal e emocional que tal tarefa acarreta. Também os resul-
tados que estão a ser obtidos, quer ao nível das próprias turmas de currículos alternati-
vos, quer ao nível do impacto na escola, constituem um importante factor de pondera-
ção neste processo.
Não se trata de uma questão pacífica e a discussão sobre a eficácia e equidade
desta solução continua a ser realizada pelos intervenientes, ponderando as vantagens e
as desvantagens dos currículos alternativos É preciso sublinhar também que terá sem-
pre que existir consenso entre a direcção da escola, os professores e as famílias, que
terão sempre um papel importante a desempenhar, até porque a inclusão de qualquer
aluno numa turma de CA requer a autorização por escrito do encarregado de educação.
Naturalmente que mais e melhores recursos, mais espaços de trabalho, mais for-
mação de professores orientada para este tipo de situações, um sistema de compensa-
ção atribuído aos professores que se envolvem nos currículos alternativos, seriam igual-
mente necessários para garantir a sustentabilidade da reforma.

Disseminação
Embora o decreto-lei 22/SEE/96 permita a todas as escolas a implementação des-
ta reforma, até ao momento, esta solução está a ser implementada em quase duas
centenas de escolas no País. Se esta solução de constituir turmas de Currículos Alterna-
tivos vai ou não continuar a expandir-se ou mesmo a manter-se , tal não é possível pre-

30
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ver. Que era possível generalizar, a outros estabelecimentos de ensino básico, os Currí-
culos Alternativos, disso os professores e a direcção da escola não têm dúvidas e consi-
deram até que se trata de uma questão de consciência social e da importância do papel
social da Escola, uma vez que esta reforma consiste numa forma muito clara e possível de
ajuda a alunos que se encontram em risco de insucesso e abandono escolar. A própria
direcção da escola não pode garantir a continuidade da reforma, pois não sabe se estes
professores, que agora estão envolvidos, conseguem manter-se neste tipo de trabalho,
tal o nível de desgaste que é produzido nos professores.
Apesar de tudo, e levando em linha de conta os resultados alcançados e as expec-
tativas positivas entretanto criadas e ainda o empenhamento, a dedicação e o espírito de
sacrifício dos professores, é de esperar que esta Escola prossiga nesta linha de trabalho.

6. ANEXO A
A metodologia utilizada neste estudo de caso seguiu as instruções fornecidas pela
OCDE constantes no manual de investigação. Foi constituída uma equipa de investigação
com um coordenador e quatro assistentes de investigação. Os plano de trabalho e pro-
tocolos de investigação foram elaborados pela equipa. O trabalho de campo decorreu de
Novembro de 2000 a Janeiro de 2001. As entrevistas semi-estruturadas, a professores
(10), a representantes da direcção (2), a especialista (1) e a alunos (2), a observação de
aulas ( 6) e inquéritos aos professores da Escola, foram os métodos de recolha de dados
utilizados pela equipa. As entrevistas foram realizadas a dois professores em simultâneo,
por duas vezes, e aos restantes professores e aos directores de forma individual. Tive-
ram a duração média de uma hora e meia ou duas horas e meia, dependendo se foram
realizadas em pares ou individualmente. As entrevistas aos alunos e especialista duraram
uma hora e hora e meia, respectivamente.
As entrevistas foram registadas em documento áudio e em suporte electrónico,
usando um computador portátil para o efeito. Os dados das observações foram registados
nas grelhas de observação e captadas imagens (fotos e vídeo) das sessões.
Os materiais complementares de alunos, professores e da Escola foram
inventariados e estão disponíveis na Internet a partir do site http://www.minerva.uevora.pt/
ocde/andreresende/
Depois de recolhidos, os dados foram codificados, classificados e organizados na
matriz constante do manual de investigação. Foram, posteriormente, inventariados os
dados destinados à refutação ou confirmação das hipóteses e elaborada a síntese indivi-
dual de cada caso, respeitando a estrutura sugerida. Finalmente, foram redigidas as res-
pectivas conclusões.

31
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

7. ANEXO B
Quadro 1– Resumo dos dados do Questionário aos Professores
Até que ponto se sente confortável/habilitado a realizar as seguintes actividades no
computador?
(% de professores )

Muito Algo Nada


Confortável
Confortável Confortável Confortável
1. Escrever um artigo 61 33 0 56

2. Pesquisar informação na World Wide Web 44 22 11 22

3. Criar e manter páginas da Internet 56 17 28 50

4. Utilizar uma base de dados 11 28 33 28

5. Desenvolver uma base de dados 0 22 17 61

6. Enviar e receber correio electrónico 39 28 6 28

7 Escrever um programa 0 6 17 78

8. Desenhar uma imagem ou diagrama 22 28 17 33

9. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou


11 22 17 50
equivalente)

Em que medida são importantes, para a sua leccionação, cada uma das seguintes capacidades
relacionadas com o uso de computadores?

(% de professores )

Muito +/- Nada


Importante
Importante Importante Importante
10. Escrever um artigo com um processador de texto 61 17 17 56

11. Procurar informação na Internet 50 44 6 0

12. Criar páginas da Internet 0 39 39 22

13. Utilizar uma base de dados 17 33 28 22

14. Desenvolver uma base de dados 0 28 28 44

15. Enviar e receber correio electrónico 28 28 22 22

16. Escrever um programa 11 17 28 44


17. Desenhar uma imagem ou diagrama com um
11 56 56 11
software de desenho/gráficos
18. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou
28 28 28 17
equivalente)

32
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Em média, com que frequência os seus alunos estiveram envolvidos nas actividades a seguir indicadas
como parte dos trabalhos que lhes atribuiu durante o último ano escolar?
(% de professores )

Várias vezes Várias vezes Algumas


Nunca
por semana por mês vezes
19. Utilizar a World Wide Web 11 28 39 22

20. Criar páginas da Internet 6 6 22 67

21. Enviar e receber correio electrónico 0 11 50 39


22. Utilizar um programa de processamento de
11 33 39 17
texto
23. Utilizar um computador para jogar jogos 11 0 50 39

24. Utilizar uma folha de cálculo 0 6 11 83

25. Utilizar um programa de gráficos 0 6 22 72

26. Aderir a um fórum de discussão ou chat room 0 0 11 89

27. Utilizar um programa de apresentações (ex.


0 0 17 83
PowerPoint)

28. Utilizar um programa educativo (incluindo


5 17 33 44
simulações)

29. Outras utilizações do computador (especifique) 6 0 11 83

(% de professores )

Bom Razoável Fraco

30. Como classificaria a sua capacidade de


28 61 11
utilização de computadores?

(% de professores )
Sim Não

31. A utilização de computadores, por parte dos alunos, foi


39 61
alguma vez considerada na avaliação?

(% de professores )

Algumas Apenas os sites


Sem restrições
restrições indicados

32. Se pediu aos seus alunos para pesquisar a World Wide


Web, qual o grau de liberdade que lhes deu para navegar 6 55 39
na Internet?

33
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

(% de professores )

Sim Não

33. Criou ou modificou alguma página de Internet com alguma


28 72
das suas turmas?

(% de professores )

Totalidade Maioria Alguma Muito Pouca

34. Que parte da utilização do computador nas


suas aulas esteve directamente relacionada 6 39 33 22
com o conteúdo do curso?

35. Que parte da utilização do computador que


0 61 17 22
atribui aos alunos foi feita individualmente?

Número de vezes
(% de professores )
Várias X por
Várias X por mês Algumas vezes Nunca
semana
36. Com que frequência utilizou o
computador em casa para preparar as 33 28 33 6
suas aulas?

Número de vezes
(% de professores )

Sim Não

37. Alguma vez participou como estudante ou formador num curso virtual
11 89
através da Internet/World Wide Web?

38. Alguma vez envolveu os seus alunos em aprendizagem colaborativa


28 72
através da Internet/World Wide Web com alunos de outras turmas?

39. Utiliza actualmente tecnologia para colaborar com outros professores


39 61
(chat rooms profissionais, fóruns ou outros)?

Número de vezes
(% de professores )

> 11 5-10 <5 0

40. Quantas mensagens de correio electrónico


envia em média por semana? 6 11 39 44
recebe por dia? 6 11 44 39

34
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Número de vezes
(% de professores )

>5 1-5 0

41. Fez alterações ao hardware de um computador? 17 11 72

42 Fez uma actualização programa informático? 17 17 66

43. Recuperou ficheiro danificado? 17 17 66

44. Criou uma página da Internet? 11 5 39

45. Desenvolveu uma base de dados? 0 28 72

Quadro 2 - Equipamentos e sua distribuição

Nº de
Espaços Rede local Internet Utilizadores
Computadores

Biblioteca/Centro de Alunos, professores e funcionários – livre


10 LAN * X
Recursos acesso

Conselho Executivo 2 LAN * X Elementos do órgão de gestão

Serviços Administrativos 4 LAN * X Pessoal administrativo

Serviços de Acção Social


2 ___ ___ Pessoal do SASE
Escolar

Gabinete de Psicologia e
1 ___ ___ Equipa de orientação profissional.
Orientação

Sala de professores 1 LAN * X Professores da escola

Laboratório de Física e Clube de astronomia (alunos e


1 ___ ___
Química professores )

Gabinete do Ensino
1 LAN ** X Alunos NEE
Especial

Alunos e professores em situação de


Laboratório de Informática 16 LAN ** X
aula

Alunos e professores em situação de


4 Salas de Aula 4 LAN ** X
aula

TOTAL 42

*LAN com acesso RDIS (Programa Internet na escola)


** LAN de acesso analógico (Telepac)

35
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Quadro 3 – Currículos alternativos 2000/2001


Nº de alunos dos Currículos Alternativos 23
Nº de alunos da Turma de Aprendizagem 11
Nº de professores envolvidos nos C.A. 17
Nº de professores envolvidos na T.A. 4
Nº de retenções nos C.A. 5
Nº de retenções na T.A. 3

Quadro 4 – Nº de alunos por turma 2000/2001

Turmas 5º 6º 7º 8º 9º

1 22 24 24 12 12

2 19 25 23 23 24

3 24 25 24 22 25

4 23 22 24 26 25

5 22 25 24 22 25

6 21 24 18 25 25

7 21 25 15 24 -

8 18 25 - - -

9 14 - - - -

10 14 - - - -

Turma de
- - - 11 -
Aprendizagem

Sub-totais 192 195 152 165 136

Total
2º e 3º ciclos 387 453

36
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Quadro 5 – Abandono e desistência 1999/2000


Ano Nº de alunos
5º ano 5
6º ano 3
Total do 2º ciclo 8
7º ano 2
8º ano 1
9º ano 0
Total do 3º Ciclo 3
Total 11

Quadro 6 – Taxa de sucesso /Taxa de retenção 1999/2000


Aprovados Retidos
Ano
Sexo F Sexo M Total Sexo F Sexo M Total

168 19
5º ano 88 80 6 13
(87,5%) (9,9%)

6º ano 183 9
97 86 5 4
(92,4%) (4.6%)

Total 351 28
185 166 11 17
2º Ciclo (92,6%) (7,4%)

133 16
7º Ano 77 56 5 11
(87,5%) (10,5%)

135 18
8º Ano 71 64 9 9
(87,6%) (11,7%)

114 22
9º Ano 58 56 8 14
(83,8%) (16,2%)

Total 382 56
206 176 22 34
3º Ciclo 87,2% 12,8%

8. ANEXO C
Informação complementar relativa aos currículos alternativos, materiais recolhi-
dos durante esta investigação, documentos relativos ao Projecto Educativo da Escola, e
ainda um link para a página da Escola, estão disponíveis na Internet no endereço: http://
www.minerva.uevora.pt/ocde/andreresende/

37
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

38
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a


Qualidade das Aprendizagens

Estudos de Caso em Portugal

Escola Secundária Padre António Vieira


Lisboa – Portugal

Isabel Chagas (Coordenadora)


Paula Mano
Rosa Tripa
João Sousa

Centro de Competência Nónio e Centro de Investigação em Educação


da Faculdade de Ciências da universidade de Lisboa

39
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

40
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1. RESUMO

Consideramos a Escola Secundária Padre António Vieira (ESPAV) como um


exemplo de boa prática, no meio das escolas portuguesas, no que diz respeito à
implementação e vulgarização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)
no processo educativo. Desde há longa data que a ESPAV tem participado em eventos
sobre as TIC e tem desenvolvido projectos neste domínio. Actualmente, participa no
projecto Europeu de Escolas ENIS.
Sendo uma escola relativamente antiga em Lisboa, tem sabido acompanhar as
grandes mudanças que tem enfrentado. Presentemente, a braços com problemas de
insucesso escolar, devido, em grande parte, a uma mudança na população estudantil, a
escola aderiu ao programa de reforma “Gestão Flexível do Currículo” que lhe tem
permitido pôr em prática a experiência adquirida ao longo de anos no domínio da
utilização educativa das TIC, o que constitui, de facto, o seu plano de reforma.
A figura que a seguir se apresenta é a capa de um CD-ROM produzido em
1997 por um grupo de alunos da disciplina “Oficina Multimédia” oferecida pela escola.
Escolhemos esta imagem porque nos parece reflectir o espírito da escola. Por um lado
virada para aquilo que é novo e cada vez mais relevante na nossa sociedade - a comu-
nicação multimédia - por outro lado, ligada a ideais humanistas que se retractam na
obra do patrono da escola, o Padre António Vieira que, no século XVII, foi “missioná-
rio, orador, político e escritor e grande figura da cultura portuguesa que também
defendeu os índios do Brasil numa altura em que os seus direitos e dignidade corriam
perigo”1 .

1
As citações descritivas da escola que se incluem neste texto são provenientes da documentação
consultada e disponibilizada pela escola. O anexo B contém uma listagem dessa documentação.

41
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Figura 1. O patrono da ESPAV

As secções seguintes do presente relatório contêm, não só informação detalhada


àcerca da escola, como também uma evolução do seu projecto de inovação que se centra,
fundamentalmente, na difusão das TIC na escola, nas actividades curriculares e extra-
curriculares e, também, na utilização das TIC como veículo para a criação de uma escola
“que pretende ser uma comunidade de trabalho em que todos, alunos, professores,
funcionários e encarregados de educação contribuam para a criação de um espaço de
aprendizagem, de formação e de realização pessoal”.

2. O PASSADO

A Escola Secundária Padre António Vieira iniciou a sua actividade em fins da déca-
da de 60 como liceu masculino. Integrada numa zona habitacional de Lisboa predomi-
nantemente de classe média e classe média alta, a escola, cujo projecto arquitectónico,
pela sua qualidade, vem mencionado no Guia Urbanístico da Cidade de Lisboa constitui,
ainda nos dias de hoje, um espaço privilegiado e agradável reforçado pelas zonas verdes
que a circundam e que dela fazem parte.
A ESPAV, como costuma ser mencionada pelos seus membros, tem sofrido, ao
longo dos seus anos de vida, transformações profundas que são o reflexo: das mudanças
sociais, culturais e económicas que têm caracterizado as últimas décadas, tanto a nível
nacional como internacional; das reformas educativas ocorridas no nosso País desde 1974;
das mudanças específicas que se têm operado na zona onde a escola se encontra inserida.

42
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Entre essas mudanças salientam-se, como consequência das reformas operadas


após a revolução de Abril de 1974, a passagem de liceu masculino, cuja população estu-
dantil, se destinava, maioritariamente, a seguir estudos universitários, a escola secundá-
ria com 3º ciclo do ensino básico, frequentada por jovens habitantes do bairro e também
de outras zonas limítrofes, socialmente menos privilegiadas.
Como escola secundária com 3º ciclo passou a ter a seu cargo os três últimos anos
de formação básica obrigatória que, no nosso País se estende até ao 9º ano de escolari-
dade e, a nível secundário, a oferta de cursos profissionais e de cursos gerais (que cons-
tituem a via directa para o prosseguimento de estudos de nível superior).
Fruto do envelhecimento dos habitantes do bairro onde a escola se encontra
inserida, a população estudantil da ESPAV tem vindo a diminuir ou a ser progressivamen-
te preenchida por jovens vindos de outras zonas, umas mais próximas, outras mais lon-
gínquas da chamada “Grande Lisboa”.
Em suma, de escola anteriormente caracterizada pela homogeneidade tanto a
nível de população como de objectivos educacionais, a ESPAV passou a ser uma escola
caracterizada pela diversidade e pela multiplicidade de propostas tendo em vista a for-
mação de uma população de jovens de diferentes proveniências sociais, culturais e étni-
cas, com interesses e motivações muito diversificados.
A nova situação da escola, analisada pelos professores das diferentes áreas disci-
plinares e discutida a nível das diferentes estruturas organizacionais da escola, vem
detalhadamente caracterizada no Projecto Educativo da ESPAV para 1998-20012 onde
se identifica como principal problema o insucesso escolar que se deve, em parte, “à
inadequação entre a escola (as situações de aprendizagem) e as características (gostos,
valores, prioridades e capacidades) dos alunos, mas também à desadequação entre o
plano curricular e as novas exigências da sociedade portuguesa em mudança”. Conclui-
se, face a este diagnóstico, ser “urgente criar uma nova relação pedagógica assente numa
alteração dos papéis do professor e do aluno na construção da aprendizagem, e na cria-
ção de tudo o que se torne necessário para que esta nova relação se concretize”. Na
identificação das possíveis causas do insucesso vem explícita a incapacidade da escola em
“acompanhar as rápidas transformações económicas, sociais e tecnológicas da socieda-
de”.
Tendo em conta o maior problema detectado, ou seja, o fraco rendimento dos
alunos e identificadas as possíveis causas, o plano de reforma da escola para o período a
que diz respeito intitula-se “Educar para a integração e a cidadania” e pretende atingir os
seguintes objectivos gerais:
 “Promover uma profunda estruturação, horizontal e vertical, no domínio da
organização curricular, nomeadamente no Ensino Básico, que permita uma
gestão pedagógica activa, racional e globalizante dos conteúdos.
2
O Projecto Educativo da ESPAV para 1998-2001 está acessível no site da escola: http://www.esec-
pde-antonio-vieira.rcts.pt/pe98e.html

43
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 Promover uma política de escola que recorrendo a parcerias, apoios,


disponibilização de espaços e serviços da escola junto da Comunidade, condu-
za à criação das condições materiais (infra-estruturas e tecnológicas) e huma-
nas que possibilitem a concretização do objectivo geral anterior.
 Desenvolver e requalificar pólos transversais de aprendizagem, isto é, situa-
ções (espaços e tempos) para actividades curriculares e não curriculares que
privilegiem a globalidade dos saberes, a individualização da aprendizagem e do
saber-fazer, o lúdico, o gosto de descobrir, as dimensões cívicas da educação.
 Organizar um plano sistematizado e coerente de formação de professores em
interacção com a vida lectiva quotidiana, de acordo com as necessidades sen-
tidas pelos professores.
 Promover dinâmicas de escola que favoreçam a apropriação de regras de con-
vivência de saber estar e saber comunicar conducentes a uma cidadania cons-
ciente e responsável.”
Para concretizar os objectivos propostos, são enunciados princípios orientadores
que privilegiam métodos de pedagogia activa, a articulação de diferentes áreas disciplina-
res e a participação/aproximação de todos os membros da comunidade escolar. São
igualmente definidos objectivos mínimos e os respectivos critérios de avaliação, assim
como os apoios a prestar de uma maneira geral, nomeadamente, aos projectos da área-
escola e às actividades de complemento curricular. São criados pólos de aprendizagem
de natureza oficinal/tecnológica e linguística e a disciplina de “Iniciação à Tecnologia
Informática” passa a ser dirigida aos alunos dos três anos do básico.
Relativamente aos recursos físicos é dada prioridade: à restruturação e equipa-
mento das salas de estudo e sua associação a um Centro de Recursos, permitindo que
professores e alunos os utilizem; à criação de espaços lúdicos para o exercício de activi-
dades de animação cultural, desportiva e científica; à dinamização e apetrechamento dos
clubes de rádio, vídeo e televisão escolar de modo que possam constituir-se como espa-
ços de aprendizagem cívica.
A degradação das instalações escolares tem sido preocupação de longa data dos
órgãos de gestão que, desde aproximadamente 1988, têm proposto a construção de um
pólo tecnológico dotado das infra-estruturas “capazes de proporcionar níveis de exce-
lência que a construção do futuro exige”. A escola tem vindo ser dotada de salas de
apoio, equipamentos informáticos e ligação à Internet que permitem ampliar as possibi-
lidades de acção educativa e a oferta de novos cursos tecnológicos.
Este projecto educativo, fruto de discussão entre os professores das diferentes
áreas disciplinares e aprovado em Conselho Pedagógico em 1998, está na continuidade
dos projectos educativos anteriores da escola, iniciados em 1994 e integrados nos prin-
cípios da “Escola Cultural”. Desde então que a escola tem assumido uma preocupação
pelo desenvolvimento, na comunidade escolar, de atitudes e valores para a cidadania,
sob o lema “ser um cidadão do mundo”. Uma das consequências de tais perspectivas
tem sido o encorajamento da realização de actividades lúdicas e extra curriculares, con-

44
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

cretizadas com a criação de Clubes e sua integração nas actividades curriculares formais,
o envolvimento de todos os membros da escola - alunos, professores, pais, funcionários
- e o estabelecimento de colaborações ou parcerias com outras instituições.
Neste âmbito, propostas inovadoras nos domínios curricular e extracurricular fo-
ram surgindo e implementadas com o recurso às TIC. Estas têm sido perspectivadas
como “ferramentas de trabalho indutoras de novos processos de aprendizagem e comu-
nicação”. Em tais iniciativas têm participado professores com experiência no domínio
das TIC, nomeadamente, professores que tinham integrado o pólo da Faculdade de Ci-
ências da Universidade de Lisboa do projecto Minerva, o qual, entre 1986 e 1993 teve
como objectivo disseminar a utilização do computador nas escolas portuguesas. Deste
grupo inicial resultou a criação de um núcleo de professores em TIC na escola que per-
mitiu a continuação das tendências desenvolvidas no Minerva acerca da utilização educativa
das TIC, e também a concretização de diferentes actividades tendo em vista a consecu-
ção dos sucessivos projectos educativos da escola. Entre essas actividades destacam-se:
 a criação do projecto “Travessias” que se iniciou em 1996 e que pretendia
constituir-se como espaço de comunicação através da publicação de uma re-
vista - “Travessias” - e da criação de documentos vídeo, concebidos e realiza-
dos por alunos e professores. Os alunos participantes podiam ser tanto do
ensino básico como secundário e, no início do projecto, contava-se com a
participação permanente de duas turmas (60 alunos) da Área da Comunica-
ção.
 O “Clube de Educação Ambiental” que tinha como objectivo o desenvolvi-
mento de projectos na área do ambiente e conservação da natureza, no qual
se integrava o projecto europeu do programa Comenius “Jovens repórteres
do ambiente” que implicava o recurso à Internet. No âmbito das actividades
deste clube, os alunos, colocados no papel de “jornalistas”, publicavam os re-
sultados das suas investigações quer nos jornais escolares, quer na imprensa
regional ou diária e trocavam opiniões através da Internet com os seus colegas
europeus que investigavam problemas idênticos. A ESPAV participou neste
projecto nos anos lectivos de 1996/97 e 1997/98.
 O “Espaço 3D”, ou atelier de informação gráfica, modelação tridimensional e
animação assistidos por computador. Este espaço iniciou-se como um clube
que durou de 1987 a 1989 e continua a ser anunciado nos folhetos de divulga-
ção da escola. É uma iniciativa que parece estar na origem da criação da disci-
plina de “Oficina Mulitmédia” dirigida aos alunos do secundário.
 O curso de “Formação Tecnológica de Produção Multimédia”, apoiado e co-
financiado pelo PRODEP e que, em conjugação com o “Espaço 3D”, constituiu
fonte de experiência aos professores envolvidos e lançou as sementes para a
concepção e concretização dos cursos oferecidos actualmente.
 Trabalhos de projecto no âmbito da disciplina de “Introdução às Tecnologias de
Informação” (disciplina de opção do ensino básico) desenvolvidos por pro-
fessores das áreas disciplinares de Matemática, Português e Geografia.

45
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 Criação de dois círculos de estudos em colaboração com o centro de forma-


ção de uma associação de escolas da qual a ESPAV faz parte, designados: “Di-
mensões pedagógicas das TIC no quotidiano escolar” (com início no ano lecti-
vo de 1997/98) e destinados à formação dos professores da escola no domínio
das TIC.

Em 1996, o Ministério da Educação lançou um novo programa de encorajamento


à utilização das TIC no processo educativo, designado Nónio Século XXI, ao qual as
escolas podiam concorrer apresentando projectos onde seria possível pedir financia-
mento de diferente ordem, como por exemplo, para a aquisição de hardware, software,
formação e apoio específico ao projecto. A ESPAV concorreu com o projecto designado
“Cidadania no limiar do séc. XXI” que obteve aprovação e financiamento parcial, o que
permitiu uma abordagem significativa dos seus objectivos:
 “Dar continuidade às actividades desenvolvidas anteriormente na escola no
domínio das TIC.
 Aprofundar competências operatórias na utilização das TIC perspectivadas
como indutoras de uma renovação do processo ensino/aprendizagem e da
relação pedagógica.
 Desenvolver capacidades de pesquisa, organização e construção de novos mo-
delos de ensino/aprendizagem junto de alunos e professores.
 Criar uma comunidade de informação, com vista a uma cidadania activa, de-
mocrática e participada, no limiar do séc. XXI”.

Pretendia-se, também, com este projecto, dar uma maior coerência entre as acti-
vidades lectivas formais, na sala de aula, e as actividades de âmbito extracurricular de que
a escola já tinha experiência assinalável, assim como consolidar a rede informática a fim
de generalizar a utilização das TIC a todos os membros da escola, o que implicaria, entre
outros aspectos, uma “maior racionalização no aproveitamento pedagógico dos equipa-
mentos informáticos já existentes”.
Além do prosseguimento dos projectos já em desenvolvimento, propôs-se a pro-
dução e manutenção de um site da escola na www, a produção de uma intranet para
facilitar e fomentar a comunicação intra-escola e a consolidação de um Centro de Recur-
sos na Mediateca. Dadas as normas do concurso, segundo as quais cada escola concor-
rente deveria associar-se a uma instituição que lhe pudesse prestar apoio, tendo em vista
a consecução dos objectivos, a ESPAV associou-se ao Centro Nónio da Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa.
Como forma de dinamizar a utilização das TIC no processo ensino/aprendizagem
das diferentes áreas disciplinares oferecidas na escola, o projecto considerava as seguin-
tes vertentes, dirigidas a um público alvo constituído tanto pelos alunos inscritos nas
áreas respectivas como pelos professores:

46
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 Científica - envolvendo as áreas de Matemática, Física, Química e Biologia. Os


objectivos desta vertente consistiam em promover a utilização dos diferentes
recursos informáticos existentes na escola no apoio às actividades lectivas,
nomeadamente como recurso audiovisual, como fonte de simulação e jogo,
nas “actividades de carácter experimental de exploração e investigação”, na
realização de trabalhos de projecto, no estímulo ao trabalho em grupo dos
professores, quebrando o seu isolamento e no apoio a alunos com diferentes
ritmos de aprendizagem.
 Artística - envolvendo as áreas de Computação Gráfica (Espaço 3D, já acima
referido, e Oficina Multimédia). Pretendia-se que os alunos desenvolvessem
capacidades de visualização e construção de objectos tridimensionais e de uti-
lização de ferramentas informáticas na sua vertente gráfica. Pretendia-se, tam-
bém, promover uma maior abertura do corpo docente à utilização destes re-
cursos na sala de aula.
 Comunicação - envolvendo os projectos iniciais da escola já referidos neste
relatório como o “Travessias” e o núcleo dos “Jovens repórteres para o ambi-
ente”. Incluía, também, novas iniciativas como: a criação do “espaço CD-ROM”
com a participação de uma turma do 12º ano e que pretendia familiarizar os
alunos com as potencialidades das TIC, integrar, no quotidiano escolar, estas
tecnologias como recurso, promover nos alunos capacidades de recolha, in-
terpretação e reconstrução da animação; a concretização do projecto
“EXPO98” que tinha como objectivo estudar o processo de renovação urbana
sofrido pelo espaço anteriormente degradado que deu origem à Exposição
Internacional de 1998; a colaboração em projectos nas áreas da Psicologia,
Português, História e Tecnológica. Estas iniciativas que encorajam os alunos a
utilizar as TIC como recursos comuns para a boa consecução das suas tarefas,
integravam-se ou usavam como recursos muitos dos materiais e conhecimen-
tos produzidos noutros projectos ou disciplinas que faziam parte do conjunto
de iniciativas da ESPAV com recurso às TIC.

A estabilidade do corpo docente e a faixa etária em que a maioria se inclui (entre


os 30 e 50 anos, tendo estes últimos aumentado significativamente), traduz um elevado
grau de qualificação profissional, mas também, possivelmente, uma natural resistência à
mudança e inovação pelo que, no Projecto Educativo da Escola, se faz referência à neces-
sidade de criação de acções de formação específicas para que as reformas previstas se
possam realizar. Segundo os dados de um questionário aplicado aos professores pelo
Conselho Executivo da escola, a maioria fez uma apreciação positiva da escola, demons-
trou gostar do que fazia e manifestou-se positivamente em relação à necessidade da
entrada da escola no processo de autonomia, na altura em discussão a nível governamen-
tal. A dinâmica da escola que se evidencia através dos projectos em curso, atrás descri-
tos, deixa transparecer um envolvimento positivo dos professores na reforma em curso.

47
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

No ano lectivo de 1999/2000 a ESPAV aderiu ao projecto de reforma promovido


pelo Ministério da Educação, a “Gestão Flexível do Currículo” para o ensino básico que,
em termos gerais, “visa promover uma mudança gradual nas práticas de gestão curricular.
Tem em vista melhorar a eficácia da resposta educativa aos problemas surgidos da diver-
sidade dos contextos escolares e assegurar que todos os alunos aprendam mais e de um
modo mais significativo”3 . A gestão flexível permite que cada escola, dentro dos limites
do currículo nacional, possa “organizar e gerir autonomamente todo o processo de ensi-
no/aprendizagem. Este processo deverá adequar-se às necessidades diferenciadas de
cada contexto escolar, podendo contemplar a introdução, no currículo, de componentes
locais e regionais”. A adesão a este projecto governamental deu, à escola, não só o su-
porte legal para a consecução de alguns dos objectivos enunciados no seu projecto
educativo, como também a justificação para disseminar as iniciativas previstas e outras,
criadas mais tarde.

3. O PRESENTE
As observações integradas no presente estudo de caso iniciaram-se com uma visi-
ta de diferentes membros da equipa de investigação à escola durante o “Dia da Escola”
que constava de apresentações artísticas-culturais-desportivas, incluídas na “Semana da
Ciência” que actualmente é comum ser comemorada em muitas escolas portuguesas.
Sobre a utilização das TIC, o seguinte testemunho de um colega brasileiro, presente-
mente a colaborar com a equipa da Faculdade de Ciências, constitui um bom princípio
para uma descrição do presente vivido na escola, no que diz respeito ao seu projecto de
reforma e inovação:
A escola possui computadores ligados à Internet onde os alunos po-
dem fazer os seus trabalhos. Possui também um kit multimédia em cada
andar, para uso dos professores em suas aulas. Este kit tem computador,
vídeo, gravador e televisão, podendo ser apresentadas fitas de vídeo ou
programas no computador, com um aparelho de som bastante bom. Os
alunos de comunicação estavam apresentando um trabalho que fizeram
em uma disciplina e demonstraram domínio sobre o material (TIC).
Participamos na apresentação de um projecto que me chamou bas-
tante atenção, em que participavam alunos africanos, onde a presença das
TIC fez a diferença. Os alunos distribuíam contos e poesias de artistas afri-
canos e apresentaram fotografias suas ou da sua família, mostrando a cultu-
ra de seu povo. Trabalho muito elaborado, com uso de data-projector, tex-
to e música.
Nas áreas de Matemática e Física, foram apresentadas experiências
bastante académicas, sem ligação ou contribuição das TIC. Segundo a di-
rectora da escola, os professores usam principalmente a Internet para seus
3
Disponível em: http://www.deb.min-edu.pt/NewForum/brochura.htm

48
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

trabalhos de pesquisa mas não como meio para o seu trabalho docente.
Uma razão de não usarem os computadores é referente à avaliação, que é
feita de maneira tradicional, assim também como o tempo disponível. Com
aulas tradicionais consegue-se terminar os conteúdos, e com a informática,
leva-se muito mais tempo, não se cobrindo todo o conteúdo proposto no
currículo.
Observei que a parte administrativa faz uso da informática pois as sa-
las e gabinetes têm computadores ligados à rede.
Os professores com quem contactámos, mostraram-se bastante sim-
páticos e receptivos. Os alunos ficaram bastante tímidos com a presença
de pessoas estranhas nas apresentações. A escola estava bastante movi-
mentada com as festividades e tinha numerosos visitantes.
Penso que a escola está bem servida de equipamento, precisando, no
entanto, incentivar seu uso pelos professores, motivando-os para que no
seu trabalho docente usem as TIC como MEIO.

Este testemunho toca em alguns aspectos essenciais da situação actual da escola:


 desenvolvimento de projectos no âmbito das TIC realizados pelos alunos e
integrados em algumas disciplinas formais do currículo da escola;
 fraca utilização das TIC como auxiliar do processo de ensino/aprendizagem
pelos professores das disciplinas curriculares;
 criação de condições para disponibilizar computadores, hardware multimédia
e ligação à rede que permitam uma utilização eficaz destes recursos por alunos
e professores.
 criação de espaços adequados onde estes recursos possam ser utilizados como
suporte às actividades curriculares e extracurriculares.
 troca e partilha de experiências, conhecimentos e vivências entre todos os
membros, numa perspectiva consistente com os princípios do Projecto
Educativo da Escola de “Educação para a Cidadania”.
 ambiente positivo que se respira na escola, entre todos os elementos, traduzi-
do pela disponibilidade para a comunicação, troca de ideias, colaboração e
entre-ajuda.

Entre as iniciativas incluídas na reforma e que traduzem o estado actual da escola,


destacamos as seguintes, por terem sido aquelas que foram referidas com maior detalhe
por todas as pessoas com quem contactámos.

Recursos TIC disponíveis


A ESPAV dispõe actualmente de cinco “salas de computadores” completamente
equipadas (figura 2) que, a certas horas, são manifestamente insuficientes dado o elevado

49
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

número de frequentadores. Esta situação conduz a que, presentemente, se discuta a


criação de mais salas disponíveis para os alunos, o que obriga a conseguir pessoal capaz,
não só de gerir o movimento próprio nestas salas, mas também de resolver eventuais
problemas técnicos de fácil resolução que possam surgir.
Existem computadores em muitos outros locais da escola: a sala de professores
está equipada com quatro, na sala dos encarregados de educação existem dois que tam-
bém são de acesso livre ao pessoal docente. A maioria dos gabinetes de cada grupo
disciplinar tem um computador. Existem também quatro computadores na sala de re-
cursos ou mediateca que são de acesso livre a todos os alunos que o requeiram, através
de um sistema de requisição. Tal sistema serve, não só, para os serviços administrativos
gerirem o movimento da mediateca, como também para controlarem o tipo de uso
dado às máquinas solicitadas (pode servir, por exemplo, como prevenção à consulta de
sites menos aconselháveis).

5 6 7 8 9

4
Scanner

3 10
Mesas
2 De 11
Trabalho
Impressora
1
12
Porta 12
computadores

Figura 2. Modelo de uma sala de computadores

Os serviços administrativos, secretaria, e conselho executivo estão também equi-


pados. A razão computadores/alunos é de um computador por 6 alunos, o que
corresponde a uma situação invulgar e invejável no panorama das escolas portuguesas.
Todos os computadores existentes estão conectados em rede e com ligação à
Internet segundo duas vias diferentes: através de RDIS (Rede Digital com Integração de
Serviços) cujos custos de utilização são pagos pela escola e através da rede RCTS (Rede

50
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Ciência Tecnologia e Sociedade) da responsabilidade da Fundação para a Computação


Científica Nacional, cujo acesso é gratuito a todas as escolas portuguesas.
Um dos grandes objectivos da escola é que todas as salas de aula tenham acesso à
Internet, permitindo a sua utilização como fonte de informação e esclarecimento (por
exemplo, acesso ao dicionário electrónico) mas também como veículo de comunicação
entre turmas ou entre escolas. O acesso à Internet, na sala de aula, poderá ser também,
segundo as previsões dos professores que habitualmente usam as tecnologias, uma for-
ma de encorajar os colegas mais recalcitrantes na utilização das TIC como recurso no
processo de ensino/aprendizagem.
Contribuindo para a disseminação das TIC e seu melhor funcionamento nas apren-
dizagens das diferentes disciplinas curriculares e para promover uma maior interactividade
entre as diferentes disciplinas, estão também a ser criados os chamados “carrinhos
multimédia” (ou “kit multimédia”) que consistem em estruturas metálicas movíveis que
podem transportar: um computador, um monitor, um leitor de vídeo, um leitor de DVD,
um data show e uma webcam. O computador está instalado com software adequado que
permite tirar partido das potencialidades de todo este hardware e preparado para ser
facilmente ligado a um local adequado em cada sala de aula. Nas salas de aula com ligação
à Internet, será possível assistir ou participar em videoconferências ou em outras activi-
dades de comunicação em tempo real. Assim, professores de diferentes disciplinas po-
dem estar a contactar de uma sala para a outra. Os alunos podem estar a falar de uma
sala para a outra e ver-se através da câmara de vídeo, o que é muito divertido e muito
motivador. Em princípio, ficará disponível um kit para cada um dos três pisos da escola.
Neste momento já estão prontos dois kits e espera-se o computador que irá completar
o terceiro.
O carrinho surgiu, também, como uma necessidade prática de poder deslocar,
com maior facilidade, o equipamento multimédia para as salas, porque a escola não tem
condições financeiras para ter todas as salas equipadas, pelo menos, com um computa-
dor. A ideia foi inspirada por professores da escola que participaram num encontro de
escolas ENIS na Dinamarca em 2000 onde lhes foi apresentado um recurso semelhante.
O uso do “carrinho multimédia” na ESPAV ainda está em fase experimental. Estão a
decorrer, presentemente, sessões de formação na própria escola, com o objectivo de
familiarizar os professores com este novo recurso. Estas acções têm tido uma adesão
muito positiva.

O site da escola e a criação de uma intranet


A escola tem um site publicado há tempo considerável se compararmos com ou-
tras escolas do mesmo nível de ensino em Portugal. O site inclui informação geral sobre
a escola, suas origens, quem foi o seu patrono, localização e características de quem a
frequenta. Tem publicado o projecto educativo de escola correspondente ao período de
1998-2001, o regulamento interno e a organização curricular da escola, detalhes relati-

51
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

vamente a algumas disciplinas, referência aos projectos - nacionais e europeus - em que


a escola se encontra envolvida e inclui, também, páginas com trabalhos de alguns profes-
sores e alunos. Contudo, segundo as explicações de todos os professores entrevistados,
inclusivamente da directora da escola, este site apresenta-se “parado” há algum tempo
pois não tem sido actualizado regularmente como mandam as actuais regras de publica-
ção e sustentação de um site na WWW. Este facto tem sido preocupação de todos e,
após demorada reflexão e deliberação entre os membros da escola mais envolvidos,
foram criadas condições para resolver esta situação que passam pela formação de um
conjunto de professores sobre publicação na Internet e a criação de uma intranet que irá
dar origem, no futuro, à reformulação do site existente ou à criação de um novo.
O site existente foi criado pelo anterior director da escola e contou com a partici-
pação de alguns colegas, nomeadamente, um professor de Física e Química, actualmente
em licença sabática e que ali publicava os trabalhos dos seus alunos do 9ºano, um colega
de Filosofia que usava a página, por si construída, como ponto de contacto com os seus
alunos e que é conhecida por todos na escola e um professor de Artes que também aí
publicou a sua página pessoal.
Segundo a opinião de alguns dos professores contactados, o site centrava-se num
número reduzido de pessoas, mostrava uma participação relativamente baixa dos alunos
e precisava de transmitir uma imagem mais global da diversidade das actividades em
curso e de todos os membros da escola. Para proceder à sua reformulação constituiu-se
um grupo de cerca de 12 professores de diferentes áreas disciplinares que estão presen-
temente a frequentar uma acção de formação na modalidade de projecto. Esta acção,
realizada na escola e coordenada por dois dos seus professores, integra a aprendizagem
de publicação na WWW, incluindo utilização da aplicação Frontpage, e o desenho da
estrutura do próprio site. O objectivo primeiro é a criação de uma intranet, ou seja, uma
página interna da escola.
O grupo de professores encarregados da renovação do site da escola é muito
heterogéneo no que diz respeito à experiência em TIC e às motivações, atendendo a
que nele se incluem professores com longa experiência no domínio das TIC (pelo menos
dois deles dinamizam a acção de formação) e outros que se denominam a si próprios
como “autodidactas”. Fazem também parte deste grupo professores que têm participa-
do em acções de formação organizadas pelo programa ENIS e outros que se ofereceram
para participar, simplesmente por estarem interessados e com vontade de colaborar.
O site interno que se pretende publicar, segundo os professores envolvidos, irá
contemplar um conjunto de aspectos entre os quais se destacam:
 passagem de informação a nível interno, utilizando uma modalidade de correio
interno através da criação de pastas pessoais para onde será canalizada toda a
informação que for surgindo. Assim, cada professor, dada a facilidade de aces-
so à rede que existe na escola, pode, de uma maneira fácil e cómoda, manter-
se actualizado acerca dos eventos em que terá de participar. Poderá, também,
ter acesso a outro tipo de dados importantes que continuamente são recebi-

52
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

dos pelos órgãos centrais da escola, consultando regularmente a sua caixa pes-
soal de correio interno . Este recurso não se limitará aos professores mas será
expandido, em fases seguintes, aos alunos e funcionários;
 disseminação do uso deste recurso, primeiramente entre os professores, pen-
sando nos mais recalcitrantes que, assim, poderão sentir maior motivação para
consultar a sua caixa do correio e, posteriormente, procurar tirar partido de
todos os outros recursos disponíveis, familiarizando-se progressivamente com
as TIC;
 promoção de “interactividade interna”, facilitando e encorajando a comunicação
e a colaboração entre os professores, o que é importante por si só no domínio
do desenvolvimento profissional dos professores, particularmente no domínio
de uma melhor utilização das TIC nas suas próprias disciplinas, mas que tam-
bém poderá facilitar as parcerias entre disciplinas, o que constitui um aspecto
consignado no programa de reforma, a que a escola aderiu, de gestão flexível
dos currículos;
 encorajamento da utilização deste recurso como instrumento de trabalho entre
professores e alunos. Nas páginas da intranet poderão ser colocados: jornais das
turmas, materiais para consulta e estudo, fichas para os alunos com resoluções
e testes para responderem, obtendo resposta rápida e individualizada do pro-
fessor. Cada disciplina poderá ter um espaço dedicado onde será incluído, por
exemplo, o programa, links para outros sites relevantes, trabalhos realizados
pelos alunos, entre outros documentos, julgados de interesse, para apoio ao
processo ensino/aprendizagem;
 disponibilizar documentação importante para toda a comunidade escolar, tal como,
legislação, cursos e programas oferecidos pela escola, dados sobre o aprovei-
tamento dos alunos, saídas profissionais do mercado de trabalho (de forma a
abranger os alunos do 9º ano que não quiserem seguir a via normal de ensino
e os do 12º ano que queiram ter conhecimento de cursos médios disponíveis)
e acesso a sites que informem acerca dos programas e cursos oferecidos pelas
instituições de ensino superior;
 possibilitar o acesso à base de dados das obras existentes na Mediateca, permitin-
do a pesquisa e a requisição de livros, a qualquer membro da escola, a partir de
qualquer computador, evitando, assim, qualquer deslocação desnecessária.

É convicção, de professores implicados neste processo, que a intranet é um


fortíssimo instrumento de trabalho pois permite um acesso muito mais rápido que a
Internet, devido à maior largura de banda que é possível utilizar. Além disso, se devida-
mente concebida, o que implica a tomada de numerosas decisões quanto à estrutura,
conteúdos e acesso diferenciado, os professores sentir-se-ão muito mais à vontade em
publicar os seus primeiros trabalhos, sendo encorajados a utilizar este recurso e a criar
novas formas de o utilizar.

53
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

A construção desta intranet constituirá, também, uma fase experimental para com-
preender e concretizar a melhor forma de participação de alunos na construção de ma-
teriais e na publicação na Web. Alguns professores mostram receio quanto ao tipo de
utilização que os alunos poderão fazer da Internet, não só como recurso de informação
mas também como local de publicação quando a página da escola estiver novamente
disponível. Assim, pretende-se incluir alunos na construção da intranet que serão selecci-
onados entre os alunos dos professores envolvidos com quem estão a desenvolver pro-
jectos multimédia. Também serão contactados alunos que estão presentemente inseri-
dos em clubes, como o de rádio e o de cinema e a Associação de Estudantes da Escola.
Passado o processo de concepção, construção, publicação e testagem da intranet,
é intenção da equipa envolvida neste projecto construir o site da escola com os materiais
considerados adequados para serem disponibilizados a um público mais vasto. Pensa-se
que, ao longo de todo este processo, os professores directamente envolvidos aumen-
tem as suas competências no domínio da publicação na Internet, podendo prestar apoio
aos colegas que continuam a demonstrar dificuldade na utilização deste recurso. Está
implícito que todos esperam, como consequência fundamental, a utilização generalizada
da intranet/Internet por alunos e professores não só como fonte de informação, mas,
fundamentalmente, como ferramenta de comunicação e recurso original para novas apren-
dizagens adequadas ao programa de reforma inerente ao Projecto Educativo de Escola.

Novas Tecnologias de Informação - nova disciplina oferecida pela Escola

A principal razão que levou a escola a aderir ao programa de “Gestão Flexível do


Currículo”, mais conhecido entre os professores, por “flexibilização”, foi o grave proble-
ma de insucesso verificado na escola. A existência de alunos no ensino básico (a que este
programa de reforma se destina exclusivamente) com muitas carências e dificuldades de
diferente natureza levou a que um grupo de trabalho de desenvolvimento curricular,
criado na escola, tentasse encontrar modalidades de alteração das práticas lectivas e de
funcionamento na escola. Tais alterações conduziriam a uma maior autonomia, traduzida
no desenvolvimento de determinadas competências e conhecimentos úteis para estes
alunos que, previsivelmente, não tencionam continuar os estudos no secundário após
completada a escolaridade obrigatória4 .
Já era convicção de professores na escola, muito antes do lançamento daquele
projecto de reforma, que os alunos, desde o início do 3º ciclo do ensino básico - 7º ano
- deveriam aprender a utilizar as TIC na óptica do utilizador. Diferentes razões apoiavam
este argumento: a desigual preparação, a este nível, com que os alunos ingressavam,
devido não só a enormes diferenças entre eles no que diz respeito à acessibilidade ao
computador fora da escola (nomeadamente em casa), mas também devido a diferenças

4
Que no nosso país corresponde ao fim do ensino básico, ou seja, à conclusão do 9º ano.

54
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

significativas na formação proporcionada pelas diferentes escolas do 2º ciclo de onde os


alunos provinham.
Assim, começaram a criar-se, desde 1995 as chamadas “oficinas” onde alunos,
acompanhados pelos seus professores, podiam desenvolver projectos, geralmente inte-
grados nas disciplinas curriculares, com o recurso às TIC. Era uma forma de se dedica-
rem aos seus estudos ao mesmo tempo que se iam apercebendo das possibilidades que
as tecnologias oferecem. Aqui, aprendiam a pesquisar em bases de dados e na Internet,
recolher e tratar imagens, e trabalhar as ferramentas base: processamento de texto,
folha de cálculo, base de dados, aplicações de apresentação. Estas aprendizagens consi-
deravam-se importantes, não só para os alunos que não tencionassem prosseguir os seus
estudos, mas também para aqueles que pretendessem ingressar nos programas ofereci-
dos no secundário onde, cada vez mais se exige que os alunos cheguem com um conjun-
to de competências em TIC na óptica do utilizador.
Esta experiência prévia levou a que o grupo de trabalho de desenvolvimento
curricular, juntamente com o Conselho Pedagógico da Escola, criassem uma nova disci-
plina opcional, intitulada “Novas Tecnologias de Informação” (NTI). Optou-se por esta
designação para não se confundir com outra disciplina de opção que já faz parte do
currículo regular nacional: a “Introdução às Tecnologias de Informação” que consiste,
basicamente, na introdução ao estudo da informática e que tem sido escolhida, sobretu-
do, pelos alunos que pretendem prosseguir os seus estudos nesse domínio.
As NTI pretendem familiarizar todos os alunos da escola com as TIC e abrir-lhes
os horizontes quanto às suas possibilidades como ferramentas de trabalho, não se limi-
tando aos jogos e às plataformas de conversa em tempo real. É uma disciplina de nature-
za transversal e fundamentalmente de complemento às restantes disciplinas, proporcio-
nando o recurso às TIC. Assim, não há um programa fixo pré-estabelecido. Os professo-
res que se oferecem para leccionar esta disciplina reúnem-se, no início do ano, para
definir alguns objectivos gerais e criar uma programação muito genérica. A metodologia
de aprendizagem mais comum é o trabalho de projecto, em que se encoraja a troca de
experiências e o trabalho colaborativo, em que os alunos com mais conhecimento e
experiência podem ajudar os outros. Os alunos desenvolvem projectos escolhidos por
eles, ou sob proposta dos professores da disciplina, ou sugeridos por professores de
outras disciplinas que gostariam que os alunos aprofundassem determinado tema. Nesta
disciplina também é possível trabalhar no âmbito dos dois projectos Comenius em que a
Escola tem estado envolvida. As duas horas semanais de funcionamento desta disciplina
estão localizadas nos dois últimos tempos do horários dos alunos, permitindo àqueles
que não se inscreveram poderem sair mais cedo da escola e ter tempo para se dedica-
rem a outras actividades. As NTI foram programadas para funcionar durante os três anos
que constituem o 3º ciclo. A organização, embora muito flexível, é a seguinte: no 7º ano
são abordados os princípios básicos de utilização das TIC, envolvendo os tópicos atrás
descritos relativamente às oficinas experimentais antes da implementação da

55
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

“flexibilização”. No 8º ano, prevê-se a abordagem de ferramentas com aplicação nas


disciplinas científicas e na matemática. O 9º ano será dedicado às artes e expressões.
Cada turma tem dois professores. A maior parte dos professores ofereceram-se
como voluntários para a leccionação desta disciplina nos diferentes anos, tendo sido
necessário recorrer a outros de fora, dada a procura dos alunos pela disciplina. Relativa-
mente às 3 turmas do 7º ano, todos os alunos de duas turmas se inscreveram. Muitos
alunos da terceira turma não se puderam inscrever devido a actividades que realizam
fora da escola. Em 2000/01 iniciou-se a disciplina nas duas turmas existentes do 8º ano e
previu-se o início do seu funcionamento no 9º ano para 2001/02.
Apesar de se respirar um sentimento geral de que esta iniciativa está a originar
resultados positivos nas aprendizagens e na participação dos alunos, os professores co-
mentam tratar-se de um grande esforço devido a determinados factores de origem pe-
dagógica, sociológica, psicológica e tecnológica (no que diz respeito à rápida
desactualização dos recursos existentes) que precisam ser encarados e ultrapassados.
Entre eles apontam-se os seguintes:
 alguns alunos têm uma certa preguiça em criar trabalhos que tenham originali-
dade. Geralmente limitam-se ao “copy and paste” a partir do que vão encon-
trando na Internet;
 alguns alunos não mostram interesse ou sensibilidade relativamente a aspectos
de composição e estética dos seus trabalhos. Limitam-se em ir fazendo sem
conceber primeiro aquilo que gostariam de fazer;
 as reacções dos alunos face às limitações da tecnologia são muito diferentes.
Alguns querem que tudo aconteça “já!”, impacientando-se e desinteressando-
se pelo trabalho. Outros são mais pacientes (talvez porque o material de que
dispõem é de melhor qualidade);
 há alunos que não demonstram qualquer apetência pelas TIC, tendo, por ve-
zes, comportamentos destrutivos relativamente aos materiais existentes;
 as turmas do 8º ano são particularmente difíceis, talvez devido à idade dos
alunos (adolescência) ou à sua falta de interesse por temas de ciência. Neste
caso, decidiu-se criar um jornal em cada turma, o que originou maior interesse
e participação.

Apesar de tudo, muito já foi feito de que a comunidade escolar teve conhecimen-
to: no dia da escola, numerosos artigos realizados pelos alunos foram expostos, podendo
ser apreciados pelos restantes colegas, pelos pais e outros visitantes; no Natal a escola
enviou cartões de Boas Festas elaborados nessas aulas e o jornal da escola, projecto de
maior complexidade está em progresso, embora lento. Cada turma criou o seu logotipo
e presentemente trabalham os temas escolhidos para serem publicados. No futuro, es-
ses jornais ficarão disponíveis na intranet e, posteriormente, serão seleccionados para
publicação no site da escola.

56
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Oficina Multimédia - Um dos orgulhos da ESPAV


A nível secundário a Escola oferece cursos integrados em 4 agrupamentos5 . Em
todos eles oferece os cursos necessários para o prosseguimento de estudos universitári-
os, os chamados “cursos gerais” e dois cursos tecnológicos (de carácter profissionalizante)
que são os de “Artes e Ofícios”, integrados no 2º agrupamento e o de “Comunicação”
integrado no 4º agrupamento. No currículo de todos os cursos integrados, em todos os
agrupamentos, consta uma disciplina designada “Oficina Multimédia”, mais conhecida
por “OMM”. O tempo de horas lectivas desta disciplina, em cada agrupamento, é dife-
rente, sendo o máximo de seis horas semanais no curso tecnológico de “Artes e Ofícios”
e o mínimo de 2 horas nos cursos do 1º agrupamento.
Os princípios desta disciplina remontam a 1996/97 onde foi possível, através de
financiamento obtido através do PRODEP, oferecer um curso, em horário pós-laboral, a
alunos do 12º ano ou que já o tivessem concluído. O resultado final foi um CD-ROM
interactivo integrando os trabalhos produzidos e cuja capa reproduzimos na introdução
do presente relatório. O sucesso do curso e a possibilidade de novo financiamento do
PRODEP permitiu a criação de um novo curso, com o mesmo título mas, agora, destina-
do a alunos dos cursos tecnológicos do 10º ao 12º anos, e integrado no horário lectivo
normal. Os bons resultados obtidos levaram à elaboração de uma proposta, apresentada
ao Ministério de Educação, da criação oficial da disciplina “Oficina Multimédia” para figu-
rar em todos os cursos de nível secundário oferecidos pela Escola. A proposta foi homo-
logada e o curso encontra-se presentemente em pleno funcionamento.
Os objectivos da OMM são os seguintes6 :
 compreender a importância das novas tecnologias nos processos criativos, na
produção de bens de cultura e na sua divulgação;
 compreender a importância dos meios informáticos na economia dos proces-
sos de investigação e projectação, nomeadamente através da representação bi
e tridimensional das componentes do projecto;
 compreender a importância dos meios informáticos na economia dos proces-
sos de divulgação dos bens de cultura e saber, nomeadamente através de su-
portes digitais rígidos (CD-ROM), bases de dados interactivas e Internet;
 aceder à projecção, nas suas vertentes bi, tridimensional e interactiva, com
recursos a aplicações informáticas;
 aceder à compreensão das metodologias operativas das novas tecnologias de forma
a possibilitar a permanente actualização e a aprendizagem ao longo da vida activa.
A metodologia utilizada é a de “trabalho de projecto” a partir de problemas propostos
ao longo das aulas. Promove-se o trabalho de grupo colaborativo mas também o trabalho
individual, dependendo das tarefas que estão a ser realizadas no contexto dos problemas
abordados. As aulas, em geral, são dadas em parceria, quando há mais de 6 alunos por turma.

5
Iº agrupamento - ciências; 2º - artes; 3º - economia; 4º - humanidades
6
Programa acessível em http://www.esec-pde-antonio-vieira.rcts.pt/multimed.htm

57
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Os principais tópicos abordados são os seguintes: conceitos fundamentais de


hardware e software, dispositivos de armazenamento, redes e comunicações; sistemas
operativos e comandos; metodologias de projectação, sistemas de representação e apli-
cações específicas; desenho vectorial e imagens raster; modelação bi- e tridimensional;
digitalização de som e vídeo; integração de meios scripto e hipermédia.
Os professores presentemente responsáveis por esta disciplina que se conside-
ram a si próprios mais como dinamizadores do que propriamente como “leccionadores”,
têm formação básica em arquitectura e, ao longo da sua experiência na ESPAV, têm vindo
a dinamizar e a participar em acções de formação sobre informática gráfica, assim como,
segundo as suas próprias palavras “têm aprendido com os colegas e com os alunos!”.
Os resultados obtidos pelos alunos têm sido considerados como excelentes pelos
seus professores, o que é demonstrado pelas boas classificações. A percepção dos pro-
fessores é que os alunos, de uma maneira geral, gostam da disciplina pois mostram muito
empenho e são capazes de dedicar muito do seu tempo na consecução de um determi-
nado projecto. Segundo uma das professoras entrevistadas “isto acontece porque os
alunos têm enorme prazer naquilo que estão a fazer! Está mais relacionado com eles,
está mais relacionado com o mundo fora da escola.”

As TIC como ferramenta nas diferentes disciplinas curriculares


A utilização das TIC como ferramenta no processo ensino/aprendizagem das dife-
rentes disciplinas curriculares, tanto no básico como no secundário, continua a ser um
problema no contexto do programa de reforma da ESPAV.
A julgar pelos comentários dos entrevistados, pelas observações realizadas e pe-
los resultados dos inquéritos aos professores, são relativamente poucos aqueles que se
sentem capazes de inovar as suas práticas lectivas através da aplicação das diferentes
possibilidades de utilização das TIC como auxiliares do processo ensino/aprendizagem.
De uma maneira geral, os professores sentem-se condicionados por um programa cujo
aproveitamento dos alunos é submetido a provas de avaliação que, a nível do básico, são
da responsabilidade da escola e, a nível do secundário, são de âmbito nacional. Por esta
razão optam, nas aulas formais, em particular no nível secundário, por um ensino emi-
nentemente transmissivo e demonstrativo.
Desde há pelo menos 15 anos que um grupo de professores de diferentes áreas,
sobretudo da Matemática, das Línguas e da Física, muitos deles antigos participantes no
projecto Minerva, se preocupa com o assunto e tem tomado iniciativas tendo em vista a
formação dos colegas e a disseminação das TIC como ferramenta das aprendizagens
consignadas no currículo. A ideia original era organizar um espaço com computadores
onde tal formação poderia ser concretizada e à qual os colegas interessados poderiam
recorrer para aprender novas perspectivas, discutir como estas poderiam ser concreti-

58
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

zadas e aconselhar-se àcerca de eventuais problemas que fossem surgindo. Estas iniciati-
vas surtiram bons efeitos e, a pouco e pouco, alguns professores começaram a integrar
as TIC nas suas práticas, embora ainda se esteja muito longe de uma prática generalizada.
Uma professora pertencente a esse grupo inicial explicou-nos que o que se pre-
tende disseminar não são as tecnologias em si mas as metodologias para uma utilização
que apoie os projectos dos alunos. O objectivo é “criar um espírito, na escola, de integração
das tecnologias com toda a naturalidade, na sua parte curricular, nas áreas disciplinares,
tanto a nível do currículo obrigatório, como nas áreas transversais.” Os círculos de estu-
do continuam a realizar-se na escola, dinamizados por um grupo alargado de colegas.
Contudo, muitas dificuldades persistem. Entre elas destacam-se:
 Uma forma particular de resistência à mudança. Neste momento já é aceite
que as TIC podem trazer benefícios à aprendizagem e tornar as aulas mais
cativantes para os alunos; também já há um certo domínio sobre muitas das
modalidades de TIC actualmente existentes. Contudo, os professores sentem
que ainda não sabem tudo e receiam que algo corra mal durante a aula.
 Os próprios alunos são uma limitação. Há alunos que sabem mais do que os
professores àcerca do computador, da Internet e do modo como funcionam.
A alguns professores isso causa uma perturbação que os inibe de abordar as
TIC, enquanto que outros são capazes de aproveitar estas situações para ino-
var as suas práticas envolvendo uma crescente participação dos alunos.
 As aulas requerem uma preparação demorada e complexa que implica o co-
nhecimento, por parte do professor, àcerca da tecnologia específica que vai
ser utilizada, o que obriga, muitas vezes, a praticar o hardware e o software que
vão ser utilizados, assim como a estruturação didáctica que, por se centrar
basicamente nos alunos, é muito diferente daquela a que os professores, prin-
cipalmente os mais velhos, estão habituados a fazer.
 O funcionamento das aulas. Os alunos geralmente em grupo, virados para o
computador, muitas vezes completamente absorvidos pelo que lá se passa, de
costas para o professor, falando uns com os outros e de repente, chamando
impacientemente o professor, para que as dúvidas mais díspares sejam
esclarecidas, cria um novo tipo de “confusão” que está longe daquela “confu-
são” a que os professores experientes, de uma maneira geral, estão habitua-
dos a gerir.
 O regime de voluntariado em que os professores trabalham. Com excepção
de algumas indicações nos currículos de Matemática àcerca do uso de calcula-
doras gráficas, não existe actualmente no país uma política educativa que defi-
na claramente a utilização educativa das TIC no processo ensino/aprendiza-
gem das disciplinas curriculares. Consequentemente, aqueles professores que
não têm formação ou interesse particular nas TIC não se sentem obrigados a
utilizá-las na sua prática lectiva.

59
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 Inexistência de mecanismos de avaliação no domínio das TIC, integrados nas


disciplinas curriculares. Deste modo, as competências que a investigação tem
apontado ser possível desenvolver nos alunos através do recurso às TIC não
são actualmente tidas em consideração e, consequentemente, não constam
nas provas de avaliação nem do ensino básico nem do ensino secundário.
Estes dois últimos factores, obviamente, não são inerentes à escola mas sim a uma
situação a nível nacional que urge resolver. A questão da avaliação tem sido discutida na
ESPAV. Segundo a Directora da Comissão Executiva, esta questão tem sido abordada em
diferentes momentos no presente ano lectivo, nomeadamente ao nível do Conselho
Pedagógico, onde se tem tentado equacionar os critérios de avaliação neste domínio e os
respectivos pesos a atribuir-lhes. A ideia tradicional de avaliação centrada nos resultados
dos testes é actualmente posta em causa pela introdução das TIC no processo ensino/
aprendizagem, devido às novas competências que os alunos demonstram e aos diferen-
tes tipos de actividades. Torna-se necessário que se repensem modalidades alternativas
de avaliação que traduzam, de modo mais válido e fiável, aquilo que os nossos alunos
estão a aprender.

4. PRINCIPAIS HIPÓTESES
Após os dias passados na escola a tentar compreender o papel que as TIC têm aí
desempenhado, as hipóteses que deram início a este estudo parecem, agora, demasiado
redutoras para não dizer simplistas. O que se passa é demasiado complexo para que seja
possível colocar duas perspectivas diferentes, uma em alternativa da outra e optar, clara-
mente, por uma delas. Possivelmente as duas alternativas coexistem, ou não, ou existem
outras; possivelmente factores não pensados previamente estão presentes, condicionando
significativamente aquilo que se pretende estudar.
Apesar destas limitações que são inerentes ao próprio desenho do presente estu-
do, foi possível discutir as hipóteses colocadas e, com base nos dados obtidos, contribuir
para a compreensão de uma tecnologia que, certamente, já interfere nas nossas vidas,
poderá vir a ter um papel mais claro na educação e na formação de todos nós e cujo
futuro continua a ser difícil de prever.

Hipótese 1
No caso da ESPAV, a tecnologia tem sido, claramente, um forte catalisador da
reforma da própria escola. Devido à convicção e intervenção de um conjunto de profes-
sores pioneiros no domínio das TIC e ao apoio prestado consecutivamente pelos órgãos
dirigentes da escola, decisões importantes foram tomadas que tiveram as consequências
que a seguir destacamos:

60
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 a criação de novos tipos de sala de aula - as salas de computadores - que, por


sua vez, originaram novos ambientes de aprendizagem, traduzidos em dife-
rentes tipos de actividades, maneiras de estar na sala de aula (tanto para os
alunos como para o professor), interacções entre alunos, alunos e professor e,
eventualmente, entre outros participantes com os quais é possível trabalhar
atendendo aos novos recursos;
 a utilização de novos auxiliares do processo ensino/aprendizagem, por vezes
sob a iniciativa dos alunos mas que permitem uma nova abordagem dos temas
em estudo, e, principalmente, uma maior participação dos alunos em todo
este processo, ao realizarem projectos sob temas à sua escolha ou sugeridos
pelos professores, cujos produtos é possível pôr à disposição (e à critica) da
comunidade escolar e fora dela;
 a modernização da biblioteca escolar, a Mediateca, constituindo um centro de
recursos que permite o acesso de todos a uma diversidade muito maior de
recursos de consulta do que aqueles que estavam disponíveis no início da es-
cola. O trabalho de pesquisa tornou-se, nesta escola, uma actividade essencial,
como complemento aos procedimentos de aquisição e de construção do co-
nhecimento;
 a formação específica de professores, conduzindo a uma diversidade de moda-
lidades de acções, enquadradas no plano nacional de formação contínua de
professores, concretizadas por professores da escola e em colaboração com
um centro de formação;
 a criação de novas disciplinas curriculares, portadoras de novos conteúdos,
competências e metodologias de ensino para os currículos do básico e do se-
cundário;
 a concepção de uma intranet que permitirá criar não só novos mecanismos e
hábitos de comunicação entre os membros da escola, como também novas
maneiras de trabalhar entre os professores e entre estes e os alunos.

Estas inovações poderão concorrer para a resolução do insucesso da escola, o


grande problema da ESPAV e para o plano “Educar para a Integração e a Cidadania” que
constitui a presente grande meta da escola. Muitas das inovações trazidas pela aplicação
das TIC poderão trazer oportunidades para a consecução dos objectivos deste projecto.
A fronteira torna-se assim difícil de definir. No caso da ESPAV as TIC parecem ser,
simultaneamente, um catalisador imprescindível das reformas ocorridas na escola, mas
também um veículo com potencialidades próprias que permite solucionar problemas
educacionais específicos. Realça-se, aqui, a possibilidade de todos os alunos terem aces-
so a formação básica de utilização das TIC na óptica do utilizador, o que não acontece em
muitas escolas portuguesas.

61
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Hipótese 2
O que foi possível descrever, no presente estudo de caso parece seguir o tradi-
cional padrão de difusão das reformas e inovações descrito por Rogers (1995)7 . Num
breve exercício, é possível identificar aspectos observados neste estudo que estão con-
templados na teoria de Rogers, senão vejamos.
Segundo Rogers, um importante factor na taxa de adopção de uma inovação é a
compatibilidade entre os valores, crenças e experiências passadas dos indivíduos num
determinado meio social. A ESPAV, como meio social, é caracterizada pela estabilidade
do corpo docente com longa experiência de trabalho em comum. A experiência passada
revela a partilha de ideias quanto à importância de uma inovação no domínio das TIC. A
capacidade de pôr em marcha um Plano Educativo de Escola que envolve a negociação
entre os membros da escola, organizados pelos diferentes órgãos administrativos (dos
quais encarregados de educação e alunos têm assento em alguns), revela a existência de
compatibilidades ou a capacidade de negociação entre os seus membros. A estas carac-
terísticas acrescentam-se outras também referidas por Rogers, tais como: os inovado-
res são membros da escola e, de uma maneira geral, membros prestigiados, não só
pelos conhecimentos e experiência que têm no domínio das TIC, mas também pelos
lugares que têm ocupado e pelas iniciativas que têm dinamizado na escola. Um dos ino-
vadores iniciais foi presidente da escola durante vários anos e a actual directora, além de
apoiar esta inovação é, também ela, utilizadora das TIC nas suas diferentes actividades,
nomeadamente como auxiliar no processo de ensino/aprendizagem de Matemática de
que é professora; a difusão das TIC está orientada para os clientes, neste caso os
professores. As numerosas acções de formação e a disponibilidade demonstrada pelos
inovadores para tirar dúvidas e prestar apoio quando pedido são disso exemplo.
Segundo Rogers, o processo de inovação-decisão compreende cinco diferentes
etapas: 1) conhecimento, 2) persuasão, 3) decisão, 4) implementação e 5) confirmação.
As observações realizadas na escola apontam que o processo de difusão da inovação aí
ocorrido se encontra na etapa 4. Diferentes iniciativas estão em pleno funcionamento
enquanto outras (aplicação das TIC nas aulas regulares) ainda se encontram, possivel-
mente, entre o estádio 2 de persuasão e o estádio 3 de decisão. A escola parece estar a
viver um período particularmente sensível neste processo, ou seja, possivelmente de-
penderá dos resultados da implementação dos projectos em curso, o prosseguimento da
difusão, com sucesso, desta inovação.
Aquele autor considera diferentes categorias de pessoas no domínio de adopção
da inovação: 1) os inovadores; 2) quem adopta de início; 3) maioria de início; 4) maioria
tardia; 5) atrasados ou quem não adopta. É possível prever, num determinado processo
de difusão de inovação, as percentagens relativas de cada um destes tipos. No caso da
ESPAV, apesar de não se disporem de dados para fazer uma identificação precisa, poder-

7
Rogers, E. (1995). Diffusion of innovations (4ª Edição). New York: Free Press.

62
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

-se-á prever uma situação de maioria de início o que corresponde a que cerca de 34% dos
professores da escola estão em pleno processo de adopção das TIC nas suas práticas.
O breve exercício, acabado de realizar, serve para reafirmar a utilidade da funda-
mentação teórica e prática que a obra de Rogers proporciona. Contudo, no caso do
processo de difusão de inovação no meio escolar, deveria entrar-se, seriamente, em
conta com a abordagem de questões relacionadas com as culturas de escola e o desen-
volvimento profissional dos professores, apenas para referir algumas das linhas de inves-
tigação em educação que mais poderão contribuir para a compreensão dos factores que
determinam a adopção das TIC no processo educativo.

Hipótese 3
Os dados obtidos apontam para a confirmação desta hipótese porque, sem pro-
fessores interessado em adoptar as TIC e sem professores competentes para integrar as
TIC na aprendizagem, não é possível uma implementação eficaz. Contudo, não é este o
único elemento, e a eficácia das TIC poderá envolver este aspecto mas também todos os
outros que são apresentados na hipótese alternativa. Assim, os resultados da
implementação das TIC são determinados por um conjunto de factores em que se des-
tacam: a cultura da escola, traduzida aqui na consideração de todos os membros da
comunidade educativa, nas relações que se estabelecem entre eles e no clima que se
“respira” de tais relações, a gestão da escola como tendo papel chave nas diferentes
decisões com implicações na implementação das TIC, o apoio prestado pelos órgãos
governamentais, dando oportunidade de tempo e, fundamentalmente, reconhecendo as
iniciativas e os esforços dos inovadores, o equipamento que deve ser continuamente
actualizado e mantido em boas condições de utilização, os alunos que precisam ser ouvi-
dos e ser-lhes dadas oportunidades para uma participação mais activa. A questão não
deve ser posta simplesmente em termos de competências mas, também, dos sentimen-
tos, das percepções e das expectativas das pessoas envolvidas.

Hipótese 4
Os dados apontam para a hipótese alternativa. Esta situação não é específica da-
quela em que se enquadra a implementação das TIC, mas tem sido verificada em muitas
inovações no domínio da educação. Um exemplo já não muito recente corresponde à
difusão das metodologias por descoberta no processo de ensino/aprendizagem das ciên-
cias. Os alunos socialmente privilegiados beneficiam, geralmente, sempre mais com as
inovações do que os alunos menos privilegiados. O fosso entre eles aumenta em vez de
diminuir. Isto significa que, se se pretende uma implementação eficaz das TIC na educa-
ção, não basta que todos os alunos tenham acesso à tecnologia e respectiva formação na
escola mas deverão ser criados mecanismos para apoiar aqueles que tiverem mais difi-

63
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

culdades ou que não poderão pedir apoio fora da escola. Neste caso, o modelo de Rogers
poderá ser insuficiente para compreender estes processos de difusão das inovações,
como já se viu atrás ao abordar a hipótese 2, mas dever-se-à recorrer, também, aos
conhecimentos produzidos por diferentes linhas de investigação no domínio da sociolo-
gia da educação.

Hipótese 5
Os dados obtidos no presente estudo não servem para apoiar esta hipótese e são
insuficientes para fundamentar a discussão mais profunda que tais afirmações merecem. O
que se verifica é que, tendo por base metodologias de aplicação fundamentadas na experi-
ência da escola e na investigação educacional, as TIC trazem novo contributo à educação e
formação dos jovens, sendo um recurso que alarga as possibilidades de pesquisa e de co-
municação de uma forma que, até agora, nenhum outro recurso foi capaz de fazer.
A utilização que se faz de cada recurso depende de cada um. Um bom projecto
educativo, certamente orientará o jovem de qualquer idade a tirar o máximo das
potencialidades que esse novo recurso poderá proporcionar. As práticas observadas na
ESPAV, apesar das dificuldades, dos erros (com os quais se aprende) e das limitações,
apontam neste sentido; e certamente muitas outras escolas em todo o mundo partilham
esta perspectiva.

5. PROJECÇÃO PARA O FUTURO


Apresenta-se, em seguida, o quadro 1 que sumariza alguns dos resultados do pre-
sente estudo.

Quadro 1 - Organização dos dados recolhidos


Avaliação da Mudança
1. Padrões de difusão − Projecto Educativo da Escola
− Equipamento adequado
− Criação de uma intranet
− Criação de novas disciplinas
− Formação de professores
− Apoio informal

2. Valorização e envolvimento do − Envolvimento crescente (encorajado por um grupo inicial de cerca de 20%
pessoal docente dos professores)
− Trabalho voluntário
− Valorização pessoal, profissional
− Fraca valorização pelo Ministério da Educação

64
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

3. Papel da liderança − Implementação do Projecto Educativo da Escola


− Apoio às iniciativas envolvendo a reforma
− Dinamização das relações/reuniões entre os diferentes órgãos da Escola

4. Ligação TIC/Reforma
− Ligação muito estreita. O programa de reforma, a que a Escola aderiu, da
Gestão Flexível do Currículo, permitiu pôr em prática muitas das
iniciativas de implementação das TIC

5. Infraestruturas das TIC


− 5 salas de aula preparadas com cerca de 12 computadores cada
− Mediateca/sala de recursos
− Internet (em reformulação)
− Intranet (em construção)
− Razão 1 computador para 6 alunos

6. Eficácia − Variável, consoante as iniciativas: sucesso das disciplinas novas (NTI,


Oficina Multimédia); aumento da utilização das TIC por alunos e
professores, embora estes últimos continuem a não as utilizar na prática
lectiva; formação de professores diversificada e adequada; utilização das
TIC nas salas de estudo e nas áreas de projecto.

7. Rigor académico − Não estão ainda disponíveis dados que permitam estabelecer uma
relação de causa efeito entre os resultados obtidos e as iniciativas
tomadas no âmbito da reforma. O que se dispõe presentemente são as
percepções dos membros da Escola.

8. Equidade − Todos os alunos podem inscrever-se nas NTI


− Grande heterogeneidade quanto aos recursos informáticos de que os
alunos dispõem em casa
− Diferente apoio prestado pelos pais
− As raparigas apresentam mais dificuldades a princípio mas depois
produzem trabalhos de melhor qualidade que os rapazes.

9. Sustentatibilidade − Corpo docente muito estável


− Avaliação do Projecto Educativo da Escola de 1998/2001
− Negociação em 2001/2002 de um novo Projecto Educativo
− Aplicação a concursos de financiamento
− Pais aprovam iniciativas envolvendo a aprendizagem das TIC
− Estabelecimento de protocolos e parcerias com instituições de ensino
superior

O processo de reforma está ainda em curso e poucos dados concretos estão


disponíveis que permitam uma prospectiva mais segura àcerca da sustentabilidade do
mesmo. Contudo, dada a experiência da Escola, os resultados já conseguidos e as conti-
nuadas iniciativas com o objectivo de encorajar uma generalizada participação dos pro-
fessores, prevê-se que o projecto continue e conduza a resultados positivos. É de realçar

65
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

que, tal como foi referido na discussão das hipóteses de estudo, para uma implementação
eficaz das TIC, não bastam os aspectos que foram pesquisados neste estudo. O contributo
de outras áreas de investigação, assim como uma compreensão mais aprofundada da
cultura desta Escola são factores importantes para uma previsão mais fiável do futuro.
De qualquer forma, o quadro resumo aqui apresentado que faz referência aos tipos de
acção em curso e projectados pela ESPAV, poderá servir de base a outras escolas que
pretendam proceder à implementação das TIC.

6. ANEXO A - METODOLOGIA
O estudo iniciou-se com uma série de contactos com os professores da Escola
que pudessem dar-nos uma ideia da receptividade da mesma para a realização do estu-
do. Uma professora, que consideramos como contacto-chave, fez-nos uma primeira
descrição da actual situação da escola e das possíveis limitações na realização de todos os
mecanismos de recolha de dados previstos no plano de estudos.
Foi também esta professora que estabeleceu contacto com a Directora do Con-
selho Executivo da Escola que aceitou em realizar uma primeira reunião com a chefe de
equipa do presente estudo. Nessa reunião estavam presentes além da chefe da equipa
de investigação, a directora da Escola e a professora com quem estabelecemos o primei-
ro contacto e que, ao longo de todo o estudo, prestou apoio na consecução de todas as
actividades planeadas.

Negociação de entrada
Foi-nos explicado que a Escola tem sido objecto de múltiplos estudos e investiga-
ções pelo que os professores se encontram um pouco saturados em corresponder a
todas as solicitações, principalmente em responder a todos os questionários que têm
surgido. Face às limitações detectadas e tendo como referência o plano de estudos pro-
gramado para a presente investigação, ficou decidido:
 Entrevistar a Directora do Conselho Executivo da Escola que se prestou a dar
apoio e a prestar esclarecimentos sempre que necessário. Esta professora,
interveniente activa no processo de reforma da Escola, prestaria também os
esclarecimentos necessários quanto a este aspecto.
 Entrevistar 5 professores envolvidos nas diferentes iniciativas no domínio das
TIC. Alguns destes professores integram a Comissão Executiva da Escola pelo
que também podiam dar a sua visão acerca do processo de reforma. Um des-
ses professores, com longa experiência na aplicação das TIC na Escola, incluin-
do a criação das salas de computadores, dos espaços de acesso às TIC e da
criação da intranet, respondeu também a algumas das questões previstas no
guião da entrevista para o técnico.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

 Entrevistar 6 alunos em grupo e alunos no fim da assistência a algumas aulas.


 Assistir, pelo menos, a 10 horas de aulas, em disciplinas à escolha, da Escola.
 Aplicar os questionários, que seriam colocados nos cacifos dos professores.
Avisaram-nos que a taxa de resposta deveria ser muito baixa, atendendo à
saturação de documentos deste tipo a que os docentes têm sido solicitados a
responder. De facto, a taxa de resposta foi muito baixa - 18%.
 Dada a dificuldade em conseguir marcação de hora com encarregados de edu-
cação decidiu-se contactar directores de turma que têm dados acerca das re-
acções dos encarregados de educação relativamente às reformas processadas
na Escola ou, então, acrescentar perguntas, a este respeito, aos professores e
aos alunos entrevistados.
 Colocar documentação à nossa disposição. A Escola mantém um acervo consi-
derável de informação acerca dela própria que está disponível, nomeadamen-
te, no site, em documentação produzida e também nos jornais que publica.
 Comunicar todas as iniciativas da Escola às quais a equipa estaria logo à partida
convidada a assistir, como por exemplo, a semana da ciência e o dia da Escola.
 O período de recolha de dados ultrapassou largamente o previsto no plano do
estudo. O período de recolha de dados durou cerca de 15 dias, ultrapassando
largamente o previsto no plano da investigação.

Procedimentos de Recolha e Análise dos Dados


A equipa, constituída por quatro elementos, consultou inicialmente os documen-
tos enviados pela coordenação da investigação. Discutiram-se, fundamentalmente, os
instrumentos de recolha de dados e tomaram-se decisões quanto à sua adaptação aos
objectivos do estudo e às limitações que a Escola pudesse apresentar. Estas limitações
seriam orientadas para os objectivos, mas com muita flexibilidade, de modo a poder
recolher outras informações relevantes.
Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas. A análise de conteúdo proces-
sou-se tendo por base estas transcrições. As entrevistas aos professores foram individu-
ais e duraram cerca de uma hora cada. As entrevistas aos alunos foram realizadas em
grupo como forma de conseguir uma participação mais activa da sua parte.
Os guiões para as observações das aulas foram utilizados com muita flexibilidade.
Optou-se por ir desenhando uma narrativa de cada aula a partir das anotações que iam
sendo tiradas periodicamente pelo observador.
Procedeu-se a uma análise minuciosa do site da Escola, assim como aos documen-
tos a que tivémos acesso. A sua análise foi orientada pelos objectivos do estudo, assim
como pelas hipóteses formuladas.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

7. ANEXO B - DOCUMENTOS UTILIZADOS PARA ANÁLISE


 Projecto Educativo da ESPAV para 1998/2001
 Site da ESPAV na Internet
 Regulamento da ESPAV
 Programa da Gestão Flexível do Currículo
 Projecto Nónio - Cidadadania no Limiar do Sec. XXI - da responsabilidade da
ESPAV
 Relatório da Visita ao Dia da Escola relatado por Estevão Ribeiro da Universida-
de do Estado de S. Catarina, Brasil.
 Desenvolvimento da Informática Gráfica na ESPAV - documento apresentado
na exposição organizada no âmbito do Netdays de 1997
 “Conhecer África”. Prospecto distribuído pelos alunos de Comunicação duran-
te a apresentação feita no Dia da Escola
 Boletim Informativo da Escola
 5 números da Revista “Travessias”
 1º número do Jornal “Tok’a Ler”, que faz parte do projecto “Travessias”

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a


Qualidade das Aprendizagens

Estudos de Caso em Portugal

Escola Básica do 2º e 3º ciclos de Cabreiros


Cabreiros, Portugal

Paulo Dias (Coordenador)


Alexandra Vieira
Cristina Fontes
Armando Gonçalves
Ana Lúcia Faria

Centro de Competência Nónio Séc. XXI da Universidade do Minho

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

70
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1. RESUMO
A Escola de Ensino Básico dos 2º e 3º Ciclos de Cabreiros (http://www.eb23-
cabreiros.rcts.pt/) é uma escola que abrange 602 alunos dos cinco últimos anos da esco-
laridade obrigatória que pertencem à sua zona pedagógica de influência, independente-
mente da condição socio-económica, raça, sexo, ideologia ou religião de cada um. Os
alunos são provenientes de um meio sociocultural pouco desenvolvido; pelo menos 50%
apresenta muitas carências económicas e um número significativo de alunos tem neces-
sidades educativas especiais.
Atendendo às características do meio, periférico em relação à sede de concelho e
à proveniência maioritariamente rural da população escolar, esta Escola está ao serviço
de um grande número de alunos com poucas expectativas de sucesso [em relação à
escola], o que tende a reflectir-se nos processos de abandono escolar. Num esforço para
travar este movimento e promover simultaneamente uma maior ligação dos alunos à
vida escolar, tem vindo a ser desenvolvido um conjunto de iniciativas e experiências de
gestão flexível do currículo no âmbito da reforma e de inovação educacional com as TIC,
no sentido de favorecer o envolvimento e a integração dos alunos na Escola.
O projecto educativo da Escola orienta-se para a qualidade, praticando um currí-
culo e uma pedagogia participados, tendo em vista o desenvolvimento integral e equili-
brado dos alunos na sua diversidade. Procura articular e desenvolver as actividades
educativas, de forma a que a Escola seja um espaço de formação e de sucesso para todos,
procurando perspectivar a articulação curricular horizontal e vertical ao longo da escola-
ridade básica. Neste sentido, foi implementado no ano lectivo de 1994/1995 e por três
anos, um projecto de gestão curricular flexível, designado por “Equipas Educativas”, su-
pervisionado pelo Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho e que abran-
geu todos os alunos. As equipas educativas, designadas por “Conselhos de Ano” nos
quais têm assento professores, alunos, pais e auxiliares de acção educativa, gerem as
actividades lectivas o que tornou possível a adequação dos currículos académicos. Findos
os três anos do projecto, procedeu-se à sua avaliação após o que se sistematizou a sua
aplicação, perdendo, então, o carácter experimental. Esta mudança tem como contexto
legal o Decreto-Lei 115-A/98 sobre a autonomia e gestão escolares, tendo a Escola sido
pioneira, a nível nacional, na mudança da gestão proposta por este documento legal.
O sistema utilizado na Escola nos últimos anos tem, de certo modo, privilegiado o
aluno, no sentido em que, ao organizar as turmas do 5º ano de escolaridade, mantém-no
com os seus companheiros do 4º ano de escolaridade, juntando dois ou mais grupos
provenientes de diferentes escolas do 1º Ciclo. A heterogeneidade é aceite como forma
de evitar a sua diferenciação socio-económica e a selectividade social, e há consciência
da necessidade de maior individualização do ensino. Nos anos subsequentes, salvo indi-
cações contrárias dos Conselhos de Turma, mantêm-se os mesmos alunos na turma, que
poderá integrar um ou outro repetente ou algum aluno que porventura tenha pedido a
sua transferência para a Escola.

71
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Nos últimos anos, a organização pedagógica da Escola sofreu algumas transforma-


ções ao nível do pessoal docente. Os professores estão agora agrupados em equipas
educativas o que implica certas alterações nos hábitos e métodos de trabalho. Neste
campo, salienta-se o facto de esta nova organização permitir horários menos rígidos ao
romper com a interrupção constante do ensino, reduzido a uma sequência de aulas de
50 minutos, e favorece a gestão flexível do tempo escolar, pois a equipa decide, em cada
caso, quem deve realizar tal actividade com tal grupo, quando há-de realizar-se e quanto
tempo deve durar. De salientar que esta nova organização dos tempos lectivos está ainda
numa fase experimental e não generalizada a toda a Escola.
Se, por um lado, há um grupo significativo de docentes que defendem esta nova
organização, afirmando que a mesma apresenta várias vantagens, entre as quais a dimi-
nuição dos inconvenientes da departamentalização do saber, pois rompe com a
parcialização do currículo e permite uma visão integrada e integradora desse mesmo
saber, por outro, há alguns professores que estão habituados a uma dinâmica de trabalho
mais tradicional e individualizada que não se identificam com este sistema. Alguns che-
gam mesmo a considerar uma desvantagem que leva à desarticulação entre as várias
disciplinas prejudicando a interdisciplinaridade. Este aspecto significa que a inovação e a
mudança traduzida pela nova organização curricular não é percepcionada de forma igual
por todos os docentes.
O Órgão de Gestão da Escola, desde cedo previu algumas dificuldades, nomeada-
mente as que derivam dos espaços escolares vocacionados para um ensino tradicional,
agravados pela sobrelotação da Escola, bem como a angústia que alunos, professores e
encarregados de educação sentiram pela nova situação e, por conseguinte, tem levado a
cabo várias sessões de esclarecimento que decorrem antes do início do ano lectivo e ao
longo deste.
Nesta nova organização escolar, tem-se vindo a apostar, cada vez mais, no uso das
Tecnologias de Informação e Comunicação que permitem criar contextos pedagógicos
estimulantes e favoráveis à aprendizagem, despertando nos alunos atitudes propícias à
descoberta, à aquisição e construção gradual do saber, potenciando a troca de ideias e
incentivando a pesquisa partilhada que constitui um ponto de partida para o desenvolvi-
mento das capacidades de comunicação.
Assim, são várias as salas equipadas com computadores ligados à Internet, verifi-
cando-se que a pesquisa em fontes de suporte digital, nomeadamente na Internet, como
base de sustentação de realizações subsequentes e de apoio a trabalhos produzidos no
âmbito das diferentes disciplinas se revela profícua e motivadora. Por outro lado, tem-se
privilegiado a utilização do correio electrónico e do IRC pelos alunos, promovendo a
partilha de ideias e o intercâmbio de experiências que os enriquece e socializa. No en-
tanto, todo este processo se encontra numa fase embrionária, mas de implementação
constante e dinâmica.
Desde o início do Projecto Nónio Século XXI, no ano lectivo de 1998/1999, a
Escola tem vindo a adquirir diverso material informático e tem vindo a beneficiar de

72
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

várias acções de formação levadas a cabo pelo Centro de Competência da Universidade


do Minho, pela Escola e pelo Centro de Formação de Professores Braga/Sul. Assim, tem-
-se vindo, gradualmente, a introduzir e a aperfeiçoar o uso das Tecnologias da Informa-
ção e Comunicação na Escola, sendo que não há nenhum Director de Turma que não
tenha frequentado acções de formação em TIC, nomeadamente para poder utilizar os
programas de gestão de turmas que lhe são facilitados pela Escola.
Conscientes da necessidade de acompanharem a evolução informática, muitos
professores têm frequentado acções de formação, muitas delas creditadas para progres-
são na carreira docente, outras sem atribuição de créditos, mas apenas porque lhes
conferem saber na área das TIC. Neste campo, a Escola tem vindo a ministrar inúmeras
acções de formação nas quais participam os seus professores, sendo muitas delas solici-
tadas por eles.
Paralelamente, têm sido disponibilizadas caixas de correio electrónico a professo-
res e a alunos da Escola que assim o requisitem. A prática do uso de correio electrónico
não é, contudo, recorrente e sustentada ao nível dos professores e dos alunos, pois
apenas uma percentagem mínima de ambos possui e usa este meio de comunicação.
Perspectiva-se, no entanto, uma utilização crescente visto que o órgão de gestão, em
conjunto com o Centro de Competência da Universidade do Minho, tem vindo a atri-
buir, a um ritmo bastante significativo, endereços de correio electrónico, quer a alunos
quer a professores.

2. O PASSADO
A Escola de Ensino Básico dos 2º e 3º Ciclos de Cabreiros liderou, em 1997, um
processo tendente a formar um agrupamento com as escolas do 1.º ciclo e jardins de
infância da sua área de influência pedagógica situada na confluência dos concelhos de
Braga e de Barcelos. Este processo veio a culminar no ano lectivo 1998/99 na criação do
Agrupamento de Escolas do Vale de Labriosque.
Embora em todas as freguesias da área de influência pedagógica da Escola de
Ensino Básico dos 2º e 3º Ciclos de Cabreiros se evidencie e se respire um ar de ruralidade,
mais nítido nas freguesias do concelho de Barcelos, a principal ocupação profissional dos
pais dos alunos relaciona-se com actividades laborais por conta de outrém, no sector
secundário, pouco qualificadas e de baixo nível salarial.
Não têm sido descuradas as oportunidades de percursos inovadores como solu-
ção para os problemas decorrentes do insucesso e do abandono escolares. Partindo da
premissa que o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação permite criar contex-
tos pedagógicos estimulantes e favoráveis à aprendizagem, têm sido desenvolvidos inú-
meros projectos, registando-se o facto de haver uma Equipa de Projectos, cujo coorde-
nador, que também ocupa o cargo de Assessor do Conselho Executivo, tem redução da
componente lectiva, atribuída pelo órgão de gestão da Escola, tendo em conta a autono-
mia que lhes é conferida pela Lei.

73
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Em 1988/89 foi feita a instalação do Centro Escolar de Informática no âmbito do


Programa MINERVA - o primeiro grande esforço ministerial para introduzir a informática
nas escolas básicas e secundárias. No ano lectivo 1992/93 foi equipada a Sala de Informática
no âmbito do projecto “Protecção das Aves”. No ano lectivo 1993/94 foram instalados
computadores nos Serviços Administrativos, funcionando em rede (BNC).
Em 1994/95 fez-se o alargamento da rede, tendo sido colocado um computador
na Sala de Professores e realizada a informatização da gestão de alunos nos aspectos
administrativos e da direcção de turma. Nos anos seguintes foram melhorados alguns
equipamentos e alargada a extensão da rede. Em 1997/98 salienta-se a participação no
projecto “Conto em Construção” em parceria com outras escolas e com o Instituto de
Inovação Educacional. Em 1998/99 realça-se a integração no Programa Internet na Esco-
la, do Ministério da Ciência e Tecnologia, com a instalação do computador com ligação à
Internet na Biblioteca e ligação à rede da Escola através de “HUB”, nela disponibilizando
serviços Internet através de aplicação “proxyserver”.
Após a aquisição de equipamento, em Maio de 1999, com cerca de metade do
financiamento aprovado para o projecto “Uma Aventura em Construção”, no âmbito do
Programa Nónio Século XXI, do Ministério da Educação, foi possível montar um labora-
tório informático numa sala destinada para o efeito. Este espaço, designado por Infoteca,
tem capacidade para acolher uma turma de vinte e cinco alunos e funciona em rede
Windows 98, com a restante rede da escola, acedendo à Internet através de “router”.
As aplicações instaladas incluem processamento de dados, texto, cálculo e imagem.
Dispõe também de um vídeo-projector de qualidade adquirido com verbas do orçamen-
to da escola.
No ano lectivo 1998/1999, foi feita a avaliação diagnóstico através de inquérito
sobre a utilização de ferramentas informáticas a alunos e professores e foi ministrada
formação a professores na utilização de ferramentas informáticas.
No ano lectivo 1999/2000 ministrou-se formação a professores na utilização de
ferramentas informáticas básicas e Internet (elaboração de textos, pelos professores en-
volvidos, contando o historial da respectiva escola). Ministrou-se, igualmente, formação
a todos os alunos da Escola no uso de Intranet e Internet e lançou-se o site do projecto
“Uma Aventura em Construção” no endereço www.iep.uminho.pt/nonio/eb23cabreiros.
A Infoteca é, pois, utilizada no âmbito da formação de professores e alunos nas Tecnologias
de Informação e Comunicação, na operacionalização do projecto “Uma Aventura em
Construção” - Nónio Século XXI, da Associação de Escolas Braga/Oeste e no apoio a
uma multiplicidade de actividades do processo educativo, desde a leccionação à elabora-
ção de trabalhos, passando por pesquisa de informação e comunicação através de nave-
gação na Web e uso do correio electrónico.
No sábado da semana do Netd@ys de 1999, que decorreu de 13 a 21 de Novem-
bro, a Infoteca esteve aberta aos pais e encarregados de educação, os quais tomaram
conhecimento das condições de trabalho dos seus educandos no domínio do projecto
“Uma Aventura em Construção”. Este projecto envolve uma equipa vasta e bastante

74
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

dinâmica composta por um coordenador (professor de Matemática e Ciências da Natu-


reza), dois subcoordenadores (professores de línguas; um do 2.º e outro do 3.º ciclos),
dezoito professores do 1.º ciclo do Ensino Básico, nove professores do 2.º ciclo do
Ensino Básico e onze professores do 3.º ciclo do Ensino Básico. A equipa tem reunido
para planeamento, uma vez por período lectivo, usando uma metodologia colaborativa.
De acordo com a dinâmica própria do projecto, pensa-se que reunirá com mais fre-
quência com carácter executivo.
É neste contexto que se inicia o processo de reforma, com a introdução da gestão
flexível do currículo que a par do desenvolvimento das TIC na escola, tem como grandes
objectivos criar condições para o efectivo desenvolvimento da qualidade do processo
ensino-aprendizagem, a formação de novas competências para o futuro profissional dos
alunos e promover a sua integração plena na sociedade activa.
No entanto, na sua fase inicial, o projecto de reforma/inovação com as TIC conhe-
ceu resistências várias, que se identificam essencialmente com aspectos ligados, por um
lado às dúvidas sobre a eficácia no desenvolvimento educacional da gestão flexível do
currículo, e, por outro, à falta de sensibilização e ausência de domínio das TIC pelos
professores (em parte por não possuírem formação inicial nesta área). Em relação a este
último aspecto, acrescentamos ainda a existência de factores como o desconhecimento
das utilizações educacionais das TIC e dos processos de mudança nas práticas educacio-
nais, nomeadamente no domínio da integração curricular das TIC.

3. O PRESENTE
Infra-estrutura das TIC
O órgão de gestão da Escola tem consciência do impacto das novas Tecnologias da
Informação e Comunicação nos dias de hoje, o que se depreende nas palavras do Presi-
dente do Conselho Executivo quando diz que: (...) o nosso objectivo é fazer com que a
Educação de hoje não seja uma Educação em que se usem ferramentas de ontem, mas tam-
bém uma Educação em que se utilizem as ferramentas de hoje e essencialmente ferramentas
que preparem os meninos para o amanhã, para o futuro. Isto porque as ferramentas de traba-
lho, ao nível social, não serão exactamente aquelas que se usaram no passado, serão outras
mais eficientes e mais modernas. Por isso, é importante que a Escola acompanhe não só esse
ritmo, mas preveja e prepare, digamos, a integração social dessas formas, dessas novas
tecnologias.
Actualmente, estão ligados à rede todos os computadores da Escola (28), excepto
os da Ludoteca (4), através de rede local ligada via RDIS. Do total de 32 computadores,
24 estão disponíveis para os alunos (o que perfaz um ratio de 25 alunos por computador)
e 8 destinam-se a ser utilizados pelos serviços. Estão localizados em salas específicas
como a Infoteca (com projector de vídeo), a Biblioteca, a Videoteca, a Sala de Informática,

75
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

a Sala de Música (com datashow), a Sala dos Professores, o Gabinete da Assessoria, os


Serviços Administrativos e a Ludoteca. Os computadores e a Internet estão acessíveis,
aos alunos, durante todo o tempo lectivo, desde que a Escola abre até à hora de fecho. O
número total de alunos é de 602, dos quais 43 frequentam o Ensino Especial. O número
de professores é 53. Nesta Escola não existem cursos tecnológicos dado que trabalha no
nível do Ensino Básico de 2º e 3º ciclos, com alunos com idades compreendidas entre os
10 e os 15 anos. O número de funcionários de apoio aos laboratórios multimédia e salas
de computadores é de 2, sendo o número de pessoal de apoio educativo de 15 e de
pessoal administrativo de 7.
O apoio técnico e logístico é prestado essencialmente pelo Presidente do Conse-
lho Executivo e pelo Assessor e traduz-se desde a resolução de problemas técnicos até à
motivação inicial. No domínio da manutenção a escola recorre a serviços externos ou
ainda ao apoio do Presidente do Conselho Executivo e do Assessor. O backup é feito em
discos de outras máquinas (ainda não é possível fazer a utilização de vários discos em
simultâneo). Ao nível do apoio aos alunos, ele é feito por alguns professores, por auxilia-
res de acção educativa e por um funcionário contratado especificamente para a Infoteca.
No que concerne aos professores, esse apoio é ainda insuficiente. Os professores refe-
rem a necessidade de haver mais formação, de preferência adaptada às necessidades da
Escola. De salientar, o espírito de inter-ajuda verificado entre os professores, reforçado
durante as entrevistas e conversas informais durante as quais a maioria dos professores
destacou a ajuda que recebem dos colegas mais habilitados no uso da TIC, sobretudo
por parte do coordenador do projecto Nónio.
Segundo o especialista em TIC, (...) em termos de recursos humanos haverá sempre
alguém que liderará o processo de manutenção dos equipamentos, assim como em termos de
afectação de recursos (…) será cada vez maior a fatia do orçamento da Escola dedicado às
novas tecnologias, porque conduzirá a uma melhor qualidade dos serviços não só docente
como também do prestado à comunidade no campo da informação aos encarregados de edu-
cação e no campo mesmo da própria avaliação dos alunos e das suas aprendizagens. O apoio
ministerial é apontado como fundamental, nomeadamente no que respeita à possibilida-
de de adequar equipamentos e edifícios para se poderem atingir as finalidades da Educa-
ção. Os maiores problemas do apoio às TIC, segundo o especialista, são a chegada tardia
dos equipamentos à Escola, (...) quando a sua atribuição é da responsabilidade de entidades
exteriores à Escola.
No que concerne à actual utilização da informática na Escola, fora dos espaços
educativos, destacamos a gestão intermédia, a nível de alunos, que tem como suporte
digital uma base de dados, sendo os dados actualizados pelos directores de turma. De-
corrente deste procedimento, as pautas e os documentos de informação ao encarrega-
do de educação são impressos por meios automáticos. É possível também realizar o
preenchimento de formulários e modelos, disponíveis na rede interna, relativos ao Plano

76
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Anual de Actividades, assim como convocatórias, relatórios e documentos de reflexão


crítica, entre outros, e fazer a respectiva impressão. A operacionalização dos processos
de coordenação pedagógica (departamentos curriculares) e de coordenação educativa
(conselhos de ano/turma; direcção de turma), é realizada a partir de dois postos, um na
sala de professores e outro na sala de directores de turma, podendo ser complementada
pelo acesso à rede a partir destas.
Os acervos da Biblioteca, da Videoteca, das instalações e laboratórios encontram-
se informatizados.

Eficácia
A questão da eficácia deve ser observada na capacidade da Escola em proceder ao de-
senvolvimento do projecto educativo, em particular na resolução dos casos de insucesso
e da integração dos alunos na comunidade escolar. No âmbito da reforma (a gestão
flexível do currículo) iniciada nesta Escola, a eficácia compreende a observação da situa-
ção inicial, a qual apresentava problemas de insucesso escolar repetido e risco de aban-
dono da escolaridade obrigatória, e o desenvolvimento do processo de criação e
implementação da gestão flexível do currículo, nomeadamente nas vertentes da adequa-
ção do currículo às necessidades de formação dos alunos, no acompanhamento dos pro-
cessos de aprendizagem, na integração dos alunos na comunidade escolar e, por último,
na avaliação dos níveis de motivação e envolvimento dos alunos neste projecto. A
implementação da gestão flexível do currículo veio contribuir, de forma decisiva, para a
reconquista do espaço escolar por parte destes alunos, quer através da importância que
a Escola lhes reconhece, quer pela nova situação de integração social e académica que se
traduz num maior empenho pessoal.
Actualmente, está em desenvolvimento o projecto “Uma Aventura em Constru-
ção”, resultante do processo de introdução da flexibilidade curricular e no âmbito do
Programa Nónio Século XXI, cuja fundamentação tem por base o pressuposto que a
língua materna é o suporte matricial de desenvolvimento das aprendizagens escolares.
Neste sentido, as actividades levadas a cabo por alunos e professores articulam-se no
domínio curricular no âmbito das línguas, primordialmente da língua materna, nas quais é
feita a abordagem do texto narrativo e a sua respectiva caracterização. A introdução dos
textos dos alunos na construção da narrativa é feita por intranet, em formulários de
páginas HTML, através de um servidor com Internet Information Server (Pentium II 400
Mz 64Mb RAM). Cada uma das sete instituições educativas integradas no projecto “Uma
Aventura em Construção” receberá um computador e uma impressora (quatro das es-
colas do 1.º ciclo já receberam), além de suportes documentais em CD-ROM, logo que
estejam criadas as condições de segurança dos equipamentos nos estabelecimentos res-
pectivos, as quais foram requeridas às autoridades autárquicas que as tutelam. Foi tam-
bém solicitada à uARTE o acesso à Internet, nos estabelecimentos referidos, através da

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

RCTS. O pedido mereceu despacho favorável e estão em fase de elaboração de propos-


ta formal pelas autarquias.
A utilização do computador é eficaz por parte dos professores, na medida em que
é utilizado para produzir materiais e para a gestão dos alunos. Ao nível da leccionação
ainda não tem a utilização desejável, não só porque ainda não está disponível, de forma
generalizada, na sala de aula, mas também porque o processo ensino-aprendizagem ain-
da não integrou as tecnologias de forma plena. As utilizações compreendem a produção
de materiais, a gestão de alunos, a pesquisa de informação na Internet realizadas indivi-
dualmente ou com grupos de trabalho. A utilização está relacionada com a integração
em actividades de projecto, como é o caso do projecto “Uma Aventura em Construção”
ou com a produção de trabalhos sobre temas relacionados com as disciplinas, se bem
que não sejam, necessariamente, realizados durante a aula.
De igual modo, as medidas de utilização responsável, são dirigidas num sentido de
prevenção. Nesta perspectiva, as competências de funcionamento de cada sala específi-
ca estão definidas e as utilizações terão de ser coincidentes com essas finalidades. A
monitorização é feita por uma auxiliar supervisora (monitora) que está nos respectivos
espaços e dá apoio aos alunos. A independência dos alunos na utilização das TIC é total,
segundo o Presidente do Conselho Executivo, e quando surge algum problema a monitora
tem capacidade para o resolver.
O nível geral de utilização das TIC, por parte dos alunos, é já bastante elevado,
segundo o Presidente do Conselho Executivo, revelando, a maioria, uma grande autono-
mia, se bem que a percentagem de alunos com computador em casa não seja muito
significativa (entre 10 a 15%).
Sobre a reforma e a integração das tecnologias de informação o Presidente do Conse-
lho Executivo diz que são várias as inovações em curso. A este propósito refere: Logo que vim
aqui para a Escola tentei dinamizar a área de informática, desde a utilização das TIC pelos
alunos à Secretaria. [O processo] iniciou-se em 91/92 e em 92/93 com o processamento
dos vencimentos dos professores. A partir daí foi sempre a tentar melhorar a actividade
educativa em vários aspectos, nomeadamente, informatizar os serviços administrativos.
Para os Directores de Turma, para as faltas dos alunos, as pautas, temos utilizado uma
aplicação própria para a gestão de alunos. Os apoios sócio-económicos e do SASE foram
iniciados há dois ou três anos. Neste momento, temos praticamente todos os serviços
informatizados nos serviços administrativos, com excepção da contabilidade.
O Presidente do Conselho Executivo espera que a inovação tenha impacto junto dos
alunos e dos professores. É por estes que se começa, pois, como afirma: (...) se os professo-
res não tiverem à vontade com as tecnologias torna-se mais difícil proceder à sua
implementação junto dos alunos. Espera que tenha também impacto junto do pessoal não
docente como o dos serviços administrativos (a Secretaria) e o restante pessoal de apoio
educativo, que já começa, também, a utilizar as tecnologias nas actividades de apoio aos
alunos.

78
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

4. PRINCIPAIS HIPÓTESES
As principais hipóteses deste estudo compreendem as dimensões identificadas
com o desenvolvimento da Reformas Educacionais e das Tecnologias de Informação e
Comunicação na Educação, em particular, no plano do impacto dos sistemas de comuni-
cação mediada por computador na implementação dos processos de inovação educacio-
nal, nomeadamente: padrões de difusão, valorização e envolvimento do pessoal docen-
te, papel da liderança, ligações TIC-Reforma, rigor académico e equidade.
De acordo com a metodologia e os instrumentos do estudo, os dados foram re-
colhidos, inventariados e tratados, permitindo a formação de uma base empírica, a partir
da qual iniciamos o processo de apresentação de cada uma das dimensões e a discussão
das hipóteses em estudo.

Padrões de difusão
Na perspectiva do Presidente do Conselho Executivo, terá sido a própria Escola
que ao procurar responder ao acréscimo do número de alunos com o alargamento da
escolaridade obrigatória para nove anos, (...) procurou encontrar os meios adequados para
resolver esse problema; uma vez que passam a frequentar a escola não só os alunos (...)
com motivação intrínseca para aprender, mas também aqueles que apresentam dificuldades
de integração.
Segundo o Presidente, foi a Escola, com o apoio do órgão de gestão, que introdu-
ziu o processo de mudança, assim como alguns professores que ao nível da sala de aula,
procuraram inovar e integrar as TIC. Esta opinião é corroborada pela maioria dos entre-
vistados. Terão sido os professores mais jovens a aderir com maior facilidade à inovação
e à introdução das TIC, sendo os resistentes aqueles que estavam há mais tempo no
sistema, apresentando maiores dificuldades e desconforto em relação à mudança. Não
obstante e na generalidade, constata-se que terá sido por um processo informal de auto-
-formação, (na perspectiva de uma professora adepta, até de forma emocional) que fo-
ram introduzidas as TIC nesta Escola. Uma professora identifica os professores de Mate-
mática e de Física-Química como os primeiros a aderir. Outros dão conta da atitude de
displicência comum a alguns professores (parcial e não em bloco). Outros ainda referem
que quem os acolheu em primeiro lugar foram os alunos e que terão sido eles que moti-
varam os professores. A reforma foi experimentada a nível global tendo-se verificado,
gradualmente, as suas vantagens, nomeadamente quando se constata que: (...) os alunos
sentem-se mais confortáveis na Escola e naquilo que aprendem. No entanto, a inovação
implicou quebrar rotinas e motivar pessoas para o que foi necessário formação e
empenho.
Na perspectiva da maioria dos professores entrevistados, a mudança conduziu o
processo de desenvolvimento de forma mais adaptada às necessidades do meio. A Esco-

79
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

la ganhou visibilidade no meio e junto de outras escolas que percebem que esta tem uma
dinâmica diferente. Uma professora resistente afirma que: (...) esta Escola é um achado e
em lado nenhum encontrámos o que temos aqui. Outra, nota que: (...) o aproveitamento e o
comportamento dos alunos se alteraram para melhor após estas mudanças.
A inovação/melhoramento cria sempre problemas novos. Segundo o Presidente
do Conselho Executivo, ultrapassada a fase do receio e da tecnofobia, segue-se a da
procura e a da auto-formação, da sedução e finalmente o período mais trabalhoso du-
rante o qual tem que se continuar a utilizar e actualizar as tecnologias e as ferramentas
que já se conheciam, que já se utilizavam e ao mesmo tempo tem que se aprender a
utilizar outras novas ferramentas. Os problemas novos têm a ver com o sistema educativo
e com a sua evolução.
As equipas educativas que trabalham na flexibilidade curricular são constituídas
por professores de várias disciplinas, estabelecendo-se entre eles uma estreita relação
de trabalho que se traduz numa acção educativa conjunta sobre um grupo de alunos.
Existe, pois, um maior contacto entre os professores, desenvolvendo-se um espírito de
familiaridade e espontaneidade próprio das pequenas comunidades, nas quais todos -
professores e alunos - se conhecem perfeitamente.
Esta nova organização acarreta profundas transformações na organização dos pro-
gramas, no horário, no agrupamento dos alunos, nos métodos de ensino, no equipamen-
to e material didáctico e até na própria estrutura do edifício escolar. Verifica-se uma
participação cooperativa de todos os membros da equipa na planificação, desenvolvi-
mento e avaliação do processo de instrução e na atribuição das tarefas mais apropriadas
a cada membro da equipa. Tal facto permite a especialização interna dentro da equipa e
uma melhor utilização dos recursos pessoais de cada professor que, do conjunto de
actividades programadas em comum para satisfazer as necessidades educativas do grupo
de alunos atribuído à equipa, realiza as tarefas para as quais tem maior capacidade e nas
quais está mais interessado. Por outro lado, desaparece o conceito de turma como uni-
dade fechada e parcela privada de cada professor, uma vez que todo o professor tem
livre acesso a todas as classes e grupos, partilha com os outros membros da equipa a
informação àcerca de todos e de cada um dos alunos, de cuja instrução são conjunta-
mente responsáveis.
Os alunos entrevistados consideram que a mudança verificada na Escola, nomea-
damente a introdução significativa das TIC, acarretou melhoras para o seu processo de
aprendizagem. Todos foram unânimes em dizer que a Escola tem vindo a sofrer mudan-
ças positivas, quer ao nível das infra-estruturas, quer ao nível das TIC. Mesmo os alunos
menos utilizadores já frequentaram as salas específicas, o que é um primeiro passo para
desenvolver métodos de trabalho que incluam as novas tecnologias. No entanto, rara-
mente os alunos utilizam as TIC durante as aulas. A utilização preferencial é efectuada
durante os tempos lectivos livres, por iniciativa própria ou por solicitação do professor
no âmbito da realização de um trabalho de pesquisa.

80
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

A percepção dos encarregados de educação relativamente ao conhecimento acerca


das TIC por parte dos professores é de que estes não estarão preparados para as utilizar,
mas eles próprios se apresentam como desconhecedores, afirmando que os seus
educandos manifestam conhecimentos mais alargados, sobre as TIC, do que eles. Os
encarregados de educação estão conscientes de que a utilização das TIC pelos seus
educandos, quer seja em contexto escolar, quer seja fora dele, acarreta melhorias na
aprendizagem e revela-se fundamental para o seu futuro profissional.
Relativamente aos impactos positivos e negativos das TIC, o Presidente do Con-
selho Executivo destacou a utilização destas pelos alunos, mesmo sem a solicitação dos
professores, a preservação do ambiente (reutilização dos suportes, diminuição do nú-
mero de fotocópias) e o facto de, apesar de a Escola ter três salas equipadas, não serem
já suficientes para as solicitações dos alunos. O especialista destaca a inevitabilidade dos
impactos positivos, a sua tendência generalizadora e globalizadora, devido não só às so-
licitações dos alunos como também às reformulações curriculares que induzem nesse
sentido. Os professores utilizadores salientam a motivação, a concentração, a optimização
da informação e de arquivo, a rapidez, a possibilidade de reconverter e de reutilizar.
Uma professora utilizadora referiu que, apesar de anteriormente considerar que o com-
putador poderia vir a prejudicar a relação professor-aluno, tem vindo a constatar pela
prática, que a sua figura continua importante em termos de apoio, de continuidade, de
solicitação e orientação. Como aspectos negativos, uma professora resistente aponta o
pouco aprofundamento das matérias e uma outra aponta a diminuição do convívio entre
as pessoas.

Valorização e envolvimentos do pessoal docente


A valorização profissional tem sido feita através do apoio informal diário (Presidente e
Assessor) e da formação creditada na área das tecnologias no âmbito do Programa FOCO. É
de salientar que os professores apontam alguma desta formação oferecida pelo FOCO como
insuficiente, demasiado teórica e desarticulada com as necessidades práticas, das experiênci-
as e dos projectos. Na Escola, existem incentivos para a utilização das TIC, nomeadamente o
apoio do órgão de gestão, que transmitem a noção da imprescindibilidade da sua utilização.
Uma professora utilizadora salienta que o facto de haver um computador ligado à Internet
na sala dos professores é, por si só, um incentivo, no entanto, como refere uma professora
resistente, a falta de disponibilidade dos professores constitui um obstáculo.
O grau de dependência relativamente às TIC é já muito grande, se bem que ainda não
se verifique ao nível da sala de aula e ao nível das aplicações mais complexas. Na medida em
que não existe uma área curricular para o ensino das TIC, elas vão sendo integradas em
processos transversais. Ao nível dos professores utilizadores verifica-se que as TIC são já im-
prescindíveis para a sua leccionação, quer na preparação de materiais, quer para comunicar e

81
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

trocar materiais através da Internet, com outros colegas. O grau de dependência é menor
para os professores resistentes.
O órgão de gestão tem vindo a notar que há cada vez menos necessidade de fazer
formação aos professores que chegam pela primeira vez à Escola, se bem que seja ainda
insuficiente no que concerne à formação técnica. Na tentativa de colmatar algumas lacu-
nas nesta área, fazem-se demonstrações do material informático existente, no início de
cada ano lectivo.
Da análise dos dados recolhidos através do “Inquérito às Práticas dos Professores
com TIC” (Cf. Anexo B) há que destacar alguns aspectos importantes, nomeadamente o
nível de familiarização e capacidade de utilização das TIC nas práticas lectivas. O inquéri-
to compreende diferentes secções que a seguir se descrevem e sobre as quais se tecem
comentários.
O corpo docente é, maioritariamente, composto por elementos do sexo femini-
no (64,2%), sobretudo entre os 29 e os 40 anos. No que se refere ao tempo de serviço,
o maior número de professoras tem entre os 6 e os 10 anos de serviço (17%). No que
respeita ao sexo masculino, há uma distribuição mais equitativa do tempo de serviço.
Analisando, ao pormenor, as respostas fornecidas pelos docentes, relativamente à
utilização da Tecnologias da Informação e Comunicação e do computador como instru-
mento de trabalho pessoal, observámos que à medida que aumenta o grau de dificuldade
técnica, os professores sentem-se cada vez menos confortáveis. Se para escrever um
artigo 49% dos professores se sentem “muito confortáveis”, apenas 3,8% se sentem
“muito confortáveis” ao utilizar / desenvolver uma base de dados. Dos professores inquiri-
dos, 35.8% dizem que se sentem “algo confortáveis” ao pesquisar informação na web e
apenas 17% sentem-se “muito confortáveis” na utilização do correio electrónico e 9,4%
na apresentação de informação.
Acerca da importância do uso do computador para a actividade lectiva os profes-
sores consideram “muito importante” utilizar o processador de texto (41,5%) e “impor-
tante” procurar informação na Internet (50,9%), desenhar uma imagem (45,3%) e apresen-
tar informação (41,4%). Os professores colocam no nível “nada importante” criar pági-
nas na Internet (45,3%) desenvolver bases de dados (39.6%) ou escrever um programa
(41,5%). No que se refere à utilização do correio electrónico os professores não conside-
ram que seja fundamental, havendo 32% que acham que enviar e receber mensagens ou
informação por este meio é “nada importante”. Este facto parece-nos significativo, pois
só agora a Escola tem vindo a desenvolver, sistematicamente, a utilização do correio
electrónico por parte dos professores.
No que respeita à periodicidade na utilização das TIC com os alunos, verifica-se
que os professores utilizam-nas pouco, havendo uma incidência maior na utilização men-
sal no que respeita à utilização da www (45,3%) ou esporádica relativamente à utilização
do processador de texto (56,6%). Algumas das ferramentas que requerem mais conheci-
mentos técnicos não são, de todo, utilizadas por alguns dos professores inquiridos. Os
professores desta Escola consideram que são utilizadores “razoáveis” (45,3%) ou até

82
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

mesmo “fracos” utilizadores (45,3%), mas todos têm consciência dessas limitações e, de
um modo geral, procuram formação na área das TIC. Daí que apenas um dos professo-
res inquiridos tenha assinalado que criou ou modificou páginas da Internet com as suas
turmas. Estes factos fazem com que a utilização de computadores, por parte dos alunos,
seja raramente considerada na avaliação.
Quando os professores solicitam que os alunos pesquisem na Internet, alguns
limitam essa pesquisa impondo “algumas restrições” (15,1%), enquanto outros apontam
“algumas restrições” (26,5%). O computador, em contexto da sala de aula, tem estado
“muito pouco” (49,1%) relacionado com o conteúdo da disciplina o que tem a ver com
o facto de os programas curriculares, na sua generalidade, não implicarem, ainda, direc-
tamente, a utilização das TIC. Não obstante, a maioria dos professores diz que utiliza
com “alguma frequência” (45,3%) o computador em casa para preparar as suas aulas.
Pese embora o facto de o grau de dependência em relação à utilização das TIC ser
já considerável, os dados do inquérito demonstram que há a necessidade de articular um
modelo de formação dos professores que promova as competências de utilização na sala
de aula com a integração intensiva das TIC nas actividades lectivas.

Papel da liderança
O arranque e a continuidade do projecto /reforma com as TIC tem, nesta Escola,
como suporte, a capacidade de inovar, a disponibilidade e o dinamismo do órgão de
gestão. Concomitante com esta perspectiva, os professores entrevistados consideraram
que as mudanças se devem ao Conselho Executivo, nomeadamente ao actual presidente
(visto como uma pessoa dinâmica e com força de vontade) o que afecta toda a Escola.
No entanto, referem também que a manutenção da mudança não depende de uma só
pessoa, mas de um conjunto de pessoas, ou seja, de toda a comunidade escolar, neces-
sitando de alguém que seja impulsionador.
Dois professores referem que o processo de reforma se iniciou no tempo da professora
Madalena Araújo (quando o actual Presidente ainda era Vice-Presidente) que introduziu as
TIC no âmbito do MINERVA e a experiência da gestão flexível dos currículos, supervisionada
pela Universidade do Minho.
Poder-se-á considerar que existem indícios de que futuramente o processo de inovação
e mudança em TIC integrará, cada vez mais, docentes e deixará de ser imputável, tão explici-
tamente, à figura do órgão de gestão.

Ligações TIC-Reforma
As Tecnologias de Informação e Comunicação desempenham um papel importan-
te, quer no âmbito da implementação da flexibilidade curricular, quer nas restantes acti-
vidades de ensino-aprendizagem da Escola.

83
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Como exemplo, referimos a forte taxa de utilização da Infoteca pelos alunos. Acres-
ce ainda a esta evidência, que as TIC constituem um motor de desenvolvimento dos
processos de integração dos alunos na vida escolar através dos Clubes Escolares, nome-
adamente os Clubes do Ambiente e Europeu.
É patente na elevada taxa de frequência de utilização, pelos alunos, dos espaços dos
clubes e da Infoteca, a forte adesão e utilização dos novos media como ferramentas para a
construção do conhecimento, sobretudo em situações informais de trabalho individual ou
de grupo, como a realização dos trabalhos escolares e a pesquisa de informação.
É, pois, através da adesão sem restrições que os alunos manifestam aos novos
ambientes de trabalho, que se evidencia o sucesso da implementação da inovação e
mudança.
Alguns dos professores inquiridos referem explicitamente que se sentem bem a traba-
lhar num processo de mudança e procuram informar-se, adaptar-se e evoluir, sublinhando, no
entanto, uma destas professoras utilizadoras das TIC que não viu vantagens na reforma
curricular e que se sente desorientada, se bem que considere que houve melhorias em termos
de equipamento e de salas.
Segundo o especialista em TIC, estas relacionam-se com a inovação e o desenvol-
vimento verificado na Escola, na medida em que melhoram todos os campos que dizem
respeito à organização da Escola e à prestação de um serviço melhor no âmbito das
questões pedagógicas do projecto educativo da Escola. Em quaisquer destes campos, as
TIC são uma ferramenta imprescindível e da qual se deve tirar todo o partido possível,
explorando todas as suas potencialidades. De acordo com o Presidente do Conselho
Executivo: (...) ao nível (…) da produção oficial o papel [desempenhado pelas TIC no
programa académico] é ainda muito residual; isto é, não há uma área curricular específica
para o ensino e a aprendizagem das TIC. No entanto, acrescenta que: (...) a propósito da
nova gestão do currículo que tem a ver com as necessidades dos alunos, foi implementada
formação nessa área sobre Internet e e-mail na 3ª hora do Director de Turma; o que permitiu
abranger todos os alunos sem excepção e de alguma forma evitar a info-exclusão. Desta
feita, as TIC surgem como área transversal do currículo.
Na perspectiva dos professores utilizadores, o uso do computador motiva os alu-
nos para a prática da escrita, desenvolve-lhes a criatividade e autonomia, para além de os
enriquecer no domínio lexical. Esta realidade foi-nos descrita na entrevista de uma das
professoras que acompanha o projecto “Uma Aventura em Construção”, dizendo que:
(...) as TIC têm, de facto, trazido alguma vantagem para os alunos. Estão mais motivados,
sempre que digo vamos para a sala dos computadores eles estão com uma outra disposição.
Sentem-se mais entusiasmados e despertos. Esta professora de Língua Portuguesa vê tam-
bém vantagens ao nível da sua disciplina específica, pois: (...) o facto de o computador ser
um instrumento de trabalho diferente do tradicional, desperta muito interesse e pode dar
respostas mais atraentes do que um livro ou um manual. A qualidade também é importante,
essencialmente ao nível da escrita. Utilizando o corrector automático, facilita-nos a correc-

84
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ção, sem ser necessário refazer. O trabalho desenvolvido com computadores é motivador,
e é já comum o aluno apresentar trabalhos escritos recorrendo ao processador de texto
e a pesquisas feitas na Internet.
No entanto, outra das professoras que integra o projecto lamenta que: (...) como
professora de Português vejo-me limitada na construção do texto porque por vezes tenho de
os ensinar a processar antes de partir para a criação literária propriamente dita. Na Escola
faz-se um esforço para que as pessoas usem as TIC, mas ainda é difícil. Na opinião desta
docente, (...) devia haver mais formação para alunos e professores e esta não deve ser dada
por espírito de carolice dos professores. Seja com redução da componente lectiva para os
professores interessados e motivados para a formação seja com professores específicos só
para a formação de alunos e colegas. Não que tenha que funcionar como disciplina, mas como
um clube para ser menos formal e até mais aliciante. A maioria dos professores não ensina
a trabalhar com as TIC porque sentem que não estão devidamente preparados (excep-
ção do especialista, do professor de Educação Visual e de uma professora atrás mencio-
nada). Consideram o nível dos alunos em TIC razoável, pois movimentam-se bem e
sabem procurar a informação de que necessitam; no entanto, têm alguma dificuldade em
utilizar programas específicos e em analisar criticamente o material que recolhem. Estas
dificuldades podem estar relacionadas, também, com o nível etário.

Rigor Académico
A questão do rigor académico surge tradicionalmente através do tipo de utiliza-
ção das TIC e do seu impacto na qualidade e nas práticas dos processos de ensino-
aprendizagem. No entanto, o rigor académico não está dependente, exclusivamente,
dos materiais, mas sim das atitudes, competências e estratégias dos professores para a
utilização das TIC na Educação.
A utilização das TIC surge como um meio de promover a qualidade das aprendi-
zagens, sendo a sua integração curricular uma questão fundamental, em especial quando
se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem numa perspectiva centrada no aluno
e no desenvolvimento da sua autonomia. Neste sentido, é fundamental a reflexão sobre
as estratégias de acompanhamento das aprendizagens nos novos ambientes, para os quais
é necessário, o desenvolvimento de novas atitudes e competências, da parte dos profes-
sores.
Os professores utilizadores destacam que as Tecnologias impuseram outro ritmo
e a mudança de hábitos, como é o caso da apresentação de trabalhos processados em
computador. Ao nível dos alunos, o Presidente do Conselho Executivo constata que,
para além da formação regular, enquanto uns são também auto-aprendizes, outros, limi-
tam-se apenas a essa. Neste sentido, as TIC actuam como ferramenta de motivação
muito válida. Os professores que não são resistentes observam que, apesar de não utili-
zarem muito as TIC, estão conscientes da sua importância (abertura de novos horizon-

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

tes, de outras realidades) e da sua contemporaneidade num mundo em que a imagem é


essencial. Esta opinião é também partilhada pelos professores resistentes. Os professo-
res utilizadores notam que o software específico para as matérias que leccionam é ainda
escasso. Utilizam as TIC, sempre que possível, para pesquisa, para trabalho com dicioná-
rios e enciclopédias em formato digital, para exploração de CD-ROM e para
processamento de textos.

Equidade
Apesar das vantagens inegáveis da introdução das TIC na Escola, alguns professores
consideram que em termos de aquisição de conhecimentos, os alunos mais fracos continuam
em desvantagem, sobretudo os provenientes de meios carenciados (alguns nem sequer têm
luz em casa). No entanto, o facto de a Escola lhes dar outras oportunidades fá-los sentir mais
motivados para trabalhar.
A introdução da flexibilidade curricular na Escola tem provocado alterações em
vários aspectos ligados à aprendizagem. Um, que se destaca, segundo alguns dos profes-
sores entrevistados, é o que tem a ver com a diminuição do nível da aprendizagem e de
qualificação porque ao ser abrangente, os alunos que têm mais capacidades são prejudi-
cados pelo ritmo lento que lhes é imposto, transformando este processo em factor de
desmotivação do percurso pessoal. Por outro lado, a diferença entre os bons e os menos
bons nota-se mais com a introdução das tecnologias, como refere uma professora resis-
tente ao afirmar que: (...) os alunos com mais capacidades querem sempre mais e os que
têm menos capacidades têm dificuldade em lá chegar.
Sobre quem beneficia mais, o Presidente do Conselho Executivo é peremptório
quando diz que: (...) quem beneficia somos todos nós e em particular os alunos. As estatís-
ticas de ocupação revelam que são os rapazes que mais procuram as salas, principalmen-
te para desenvolver actividades lúdicas, enquanto que as raparigas procuram-nas para
desenvolver trabalhos de natureza escolar. A diferença está entre os bons alunos e os
que não o são. Os primeiros empenham-se num processo de auto-formação (em TIC) e
os segundos preferem actividades mais dirigidas. Do ponto de vista do professor especi-
alista, falta ainda um estudo empírico sistemático de modo a percepcionar quais são os
alunos que mais partido tiram das tecnologias, pois verifica uma dupla constatação. Por
um lado, há os alunos que já possuem computador em casa e que o utilizam na Escola
com mais facilidade, por outro os que não têm esse recurso em casa, sentem na Escola a
possibilidade de o poder utilizar e até, diz ele, (...) uma certa avidez na necessidade da sua
utilização. Logo, à primeira vista, poderia parecer que os alunos de condições sócio-
económicas mais favorecidas tirariam mais partido, mas de facto, os alunos menos favo-
recidos utilizam as TIC na Escola o que traduz (...) uma certa equidade e uma certa não
reprodução social das desigualdades. Este ponto de vista é reforçado pelo facto de não

86
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

existir qualquer tipo de restrições ou discriminações ao acesso, de qualquer aluno, quer


em termos de capacidades e de frequência de utilização quer em termos de nível de
riqueza, funcionando a Escola como factor igualizador. Na opinião dos professores
utilizadores, todos os alunos tiram partido, se bem que uns tiram mais partido, (...) os
mais favorecidos economicamente, os que têm mais perspectivas de estudo; os que adquiri-
ram aprendizagens básicas na infância (...) têm mais facilidade e chegam lá mais depressa;
mesmo sendo o acesso livre e igual. O que não tira partido é, segundo uma professora
utilizadora, aquele aluno (...) que está desmotivado e para quem a Escola não diz nada (...)
[que luta] contra outros problemas que muitas vezes ultrapassam a Escola. De um modo
geral, todos os professores deram conta do entusiasmo que os computadores provocam
em quase todos os alunos. Verificam que, de início, os rapazes aderiram mais que as
raparigas e que têm objectivos diferentes (os rapazes gostam mais do chat e dos jogos, as
raparigas concentram-se mais na investigação e na pesquisa).

Discussão das hipóteses


Cabe-nos, agora, discutir cada uma das hipóteses avançadas para este estudo de
caso. Todavia, ressalvamos que, na nossa perspectiva, para as hipóteses 3 e 4 as afirma-
ções expostas não se excluem mutuamente, uma vez que ocorrem concomitantemente
em várias situações.

Hipótese 1
A Tecnologia é um importante catalisador das reformas educacionais, especialmente
quando estas envolvem a Internet. A hipótese alternativa é de que quando existe uma verda-
deira reforma em curso, a tecnologia serve apenas como um recurso adicional e não um
catalisador, i.e. que as forças impulsionadoras da reforma, promovem igualmente a aplicação
da tecnologia para solucionar problemas educacionais específicos.

De acordo com os dados recolhidos a hipótese principal deverá ser aceite, recu-
sando-se a hipótese alternativa. As Tecnologias de Informação e Comunicação constitu-
em, no presente estudo de caso, o suporte de desenvolvimento da gestão flexível dos
currículos, no sentido em que propiciam a criação de contextos pedagógicos estimulan-
tes de descoberta, aquisição e construção gradual do saber, bem como a pesquisa parti-
lhada, a troca de ideias e a criatividade. Por isso, é intenção manifesta não descurar
qualquer possibilidade de implementar percursos inovadores com o intuito de criar con-
dições para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem, para o desenvolvimento
de atitudes e competências dos alunos com vista ao seu futuro profissional e ao seu
exercício da cidadania. Paralelamente, a introdução da gestão flexível tornou imprescin-
dível a utilização das TIC porque, no que concerne à própria gestão intermédia, ao nível

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

dos alunos, o objectivo é libertar os professores, e em especial o Director de Turma, da


carga burocrática, de modo a permitir mais tempo para planear, concretizar e avaliar as
actividades definidas horizontalmente para cada Conselho de Ano.
A todas estas evidências subjazem, igualmente, outras, nomeadamente a iniciativa
e sensibilidade do órgão de gestão da Escola que dinamizou o processo de criação da
gestão flexível para a utilização educacional das tecnologias, o qual assumiu, durante os
três primeiros anos, um carácter pioneiro e experimental a nível regional e nacional; a
existência de um pequeno grupo de professores especialistas que garantiu o suporte da
iniciativa; a criação de condições para a contextualização das aprendizagens através da
utilização transversal da tecnologia; o reconhecimento, pela comunidade alargada dos
professores, do impacto das TIC no desenvolvimento dos processos de aprendizagem,
promovendo a difusão na Escola das práticas de utilização da tecnologia com uma dimen-
são cada vez mais abrangente.

Hipótese 2
A difusão da reforma (e consequentemente das TIC) segue o tradicional padrão de
difusão das reformas e inovações descrito por Rogers (1995). A hipótese alternativa é de que
a tecnologia funciona de forma diferente das reformas e inovações tradicionais e que o seu
padrão de difusão tem por isso características distintas.

Segundo os dados recolhidos, a hipótese principal deverá ser aceite, recusando-


se a hipótese alternativa. O modelo de difusão da reforma (e das TIC) nesta Escola,
segue o padrão de difusão proposto por Rogers (1995), inovação, incerteza, difusão, adop-
ção/rejeição.
As evidências a favor da aceitação desta hipótese são as seguintes: a adopção e
difusão da reforma/inovação foi resultante da iniciativa e vontade da Escola, em particu-
lar do órgão de gestão, e da vontade de procurar respostas novas para problemas anti-
gos, os quais o sistema tradicional não consegue resolver, como seja a integração e pre-
paração de todos os alunos sem excepção; a existência de um grupo de dinamização
inicial que influenciou positivamente a comunidade, actuando sobre as incertezas e inse-
guranças desta face aos níveis de complexidade dos projectos (gestão flexível do currícu-
lo e inovação com as TIC) que acarretam sentimentos de insegurança e de desconforto;
e o desenvolvimento de canais de comunicação, no seio da comunidade, através dos
quais está a ser possível a promoção do diálogo e do desenvolvimento da consistência
das representações individuais sobre as dimensões e impactos dos projectos em curso
nas práticas educativas.
Nesta Escola, a implementação flexível dos currículos está profundamente associ-
ada ao desenvolvimento da inovação educacional com as TIC. Neste sentido, o modelo
de orientação da criação de gestão flexível é também um projecto de inovação educa-
cional com as TIC. Acresce ainda a necessidade sentida pela generalidade dos professo-

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

res de acompanharem a evolução das TIC e o facto de verem estimulado o seu uso pelo
órgão de gestão que, em cada início de ano lectivo, forma os professores para utilizarem
a aplicação sobre gestão dos alunos. Note-se ainda que a generalidade dos professores,
no que concerne ao exercício da sua prática lectiva, considera já imprescindível a utiliza-
ção das TIC para a preparação de materiais didácticos.
Assim, a adesão da comunidade ao processo de implementação da reforma e das
TIC desenvolve-se de forma conjunta, quer no plano do envolvimento dos membros da
comunidade no processo de reflexão sobre a integração das TIC na Educação, quer no
plano da formação para a utilização das TIC em contextos educativos. Sublinhamos, no
entanto, que este desenvolvimento é resultante do desempenho dos adoptantes pionei-
ros (o órgão de gestão e o grupo de professores especialistas) na adopção da reforma/
inovação e nos processos e canais de comunicação inter-pessoal através dos quais está a
ser possível o alargamento da comunidade de adoptantes na Escola.

Hipótese 3
A implementação eficaz das TIC depende, essencialmente, das competências do pes-
soal docente na integração das TIC na aprendizagem. Esta hipótese assume que a eficácia das
TIC está associada à mediação dos professores e de que o seu valor académico está positiva-
mente relacionado com as competências do professor. A hipótese alternativa é de que a infra-
estrutura tecnológica da Escola e as competências dos alunos, e não as competências do
pessoal docente, em TIC determinam os resultados da implementação das TIC.

Segundo os dados recolhidos, a hipótese principal deverá ser aceite com reservas
e sem que a hipótese alternativa seja excluída. A evidência para a aceitação desta hipóte-
se consiste no facto de que a implementação da gestão flexível do currículo dependeu,
em grande parte, da existência de professores com competências pedagógicas ao nível
da reforma, bem como para o desenvolvimento da integração das TIC no processo de
ensino-aprendizagem numa perspectiva de inovação curricular. Acrescente-se, também,
que se o nível de utilização não é ainda o desejável, deve-se ao facto de as TIC não terem
ainda entrado fisicamente no espaço da sala de aula e porque a sua integração nos currí-
culos académicos não é declarada ao nível superior, permitindo-se apenas, mas não me-
nos importante, a sua utilização de forma transversal e subsidiária de actividades escola-
res. Parece-nos que, a este nível, é importante a discussão acerca das TIC em Educação
como um fim em si mesmas ou como um meio para a construção de um saber que se
pretende construído de forma diferente do tradicional, no qual a interactividade e a
comunicabilidade assumem um papel evidente, como é o caso do projecto “Uma Aven-
tura em Construção”. A criatividade e o exercício da língua materna (e dos conteúdos
académicos) são estimulados pela utilização das TIC. Note-se ainda que ao nível das
competências dos professores, emerge o perfil do professor mais jovem que apresenta
menos dificuldades e menor desconforto, que dinamiza mais actividades com utilização

89
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

das TIC para além da simples apresentação de trabalhos disciplinares e que não
percepciona as TIC como ameaçadoras do seu papel. Não obstante, o trabalho
colaborativo, proporcionado pela organização do corpo docente em equipas educativas,
permite a partilha e impede o isolamento dos professores com menor apetência para a
utilização das TIC. De algum modo, é um processo equilibrado e em permanente cons-
trução e de articulação entre as imposições do currículo académico tradicional e as dinâ-
micas decorrentes da flexibilidade curricular e da introdução e utilização das TIC. Final-
mente, faz sentido a afirmação do Presidente do Conselho Executivo quando diz que: se
os professores não tiverem à vontade com as tecnologias torna-se difícil a sua implementação
junto dos alunos.
Neste contexto, se a implementação das TIC depende da mediação e das compe-
tências do professor, ou de um grupo de professores, o inverso também é verdadeiro,
isto é, a cooperação entre professores e a dinamização de actividades com recurso às
TIC são estimuladas e em algumas situações (“Aventura em Construção”) até viabilizadas,
exclusivamente, pela existência da infra-estrutura tecnológica e pelas solicitações dos
alunos. A existência de uma infra-estrutura tecnológica que garanta um acesso generali-
zado dos alunos, permite-nos dizer que foi e é fundamental no sucesso continuado da
reforma. Por exemplo, a informatização da gestão de alunos é um processo com relativa
complexidade para o qual não foi necessária a formação e a competência dos professo-
res, pelo contrário, é sinal de uma dinâmica organizacional que, norteada pelo conceito
da eficiência, dota a escola de infra-estruturas eficazes antes de serem sentidas como
imprescindíveis pelos professores, como vêm a ser à posteriori. Igualmente, o desempe-
nho dos alunos, relativamente autónomo ao qual não é alheia a vertente lúdica das TIC e
a natural curiosidade, determina positivamente os resultados de implementação das TIC.

Hipótese 4
Se todos os alunos tiverem acesso idêntico às TIC, as diferenças de desempenho
académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres não deverão aumentar. A hipótese
alternativa é a de que em condições de igualdade de acesso às TIC, os alunos mais favorecidos
tenderão a aumentar a diferença de desempenho académico relativamente aos alunos menos
favorecidos (mais pobres).

Os dados recolhidos indicam que se deve proceder à aceitação da hipótese prin-


cipal com reservas, não excluindo a hipótese alternativa, baseados no facto de que as
evidências relativas às percepções dos professores não são unânimes para as hipóteses
em discussão. De facto, as evidências sugerem aspectos controversos que passaremos a
apresentar.
Pretende-se que a utilização das TIC seja generalizada porque existe a noção bem
clara que mesmo tratando-se da escolaridade básica, se utilizem as ferramentas

90
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

tecnológicas em Educação de modo a preparar os alunos para o futuro. Simultaneamen-


te, a implementação da flexibilidade curricular foi norteada pela necessidade de integrar
aqueles alunos que não estão intrinsecamente motivados para aprender, segundo o Presi-
dente do Conselho Executivo, logo, entendeu-se que o acompanhamento dessa mudan-
ça pela introdução das TIC seria um factor motivacional de todos os alunos sem excep-
ção. Houve a preocupação manifesta de contornar a info-exclusão dando formação a
todos os alunos sobre a Internet, integrando as TIC como área transversal do currículo e
não considerando, na avaliação, as competências do aluno relativamente ao uso do com-
putador. Há a noção generalizada de que a utilização das TIC, motiva os alunos para a
prática da escrita, que lhes desenvolve a criatividade e a autonomia, que é entusiasmante
e que dá respostas mais atraentes, sendo já comum a apresentação de trabalhos escritos
em computador. Logo, é inegável que a gestão flexível dos currículos e a introdução das
TIC fizeram com que todos os alunos se sintam melhor na Escola.
No entanto, os alunos com mais dificuldades em termos de desempenho académico
continuam em desvantagem, especialmente os que pertencem a meios sócio-económicos
carenciados, mesmo quando a Escola lhes oferece oportunidades iguais em termos de
acesso e desenvolve com eles actividades mais dirigidas. Constata-se, pois, que as dife-
renças de desempenho são resultantes das diferentes experiências que os alunos trazem
para a Escola, sendo algumas delas inibidoras do desempenho académico, como tornou
bem perceptível a professora que mencionou que há alunos que não têm todas as condi-
ções culturais e económicas junto das suas famílias. No entanto, cumpre aqui deixar a
questão de se pretender, com a utilização das TIC, resolver os problemas sociais que se
repercutem no desempenho académico e que urgem por soluções eficazes, através da
utilização das TIC. De facto, como não há restrição no acesso às TIC, verifica-se uma
certa avidez na sua utilização, como diz o professor especialista, mas será essa a resposta
para as carências que esses alunos com fraco desempenho académico apresentam? É
importante frisar que as diferenças de desempenho académico não são, em praticamen-
te todos os casos, directamente imputáveis aos alunos, mas resultam dos conceitos vei-
culados e questionáveis sobre o que é sucesso escolar, das expectativas que se criam em
relação ao tipo de aluno que se pretende formar e aos próprios currículos os quais, com
o alargamento da escolaridade básica obrigatória, não foram adaptados à diversidade
cultural e de experiências dos alunos que passaram a ter acesso à Escola.
Não obstante, existe um sinal que as TIC podem contribuir para esbater essas
diferenças não tanto pela sua utilização e acessibilidade, indubitavelmente importantes,
mas pelo facto de se ter constatado que, entre os alunos, não existem estas noções
quando estão perante um computador porque, de alguma forma, os alunos com mais
conhecimentos informáticos exercem um acompanhamento semelhante ao de um tutor
em relação aos restantes e existe um espírito de ajuda entre pares. Sendo esta constatação,
já por si, uma diferença de desempenho, permite atenuá-la ao longo do desenvolvimento
das actividades.

91
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Portanto, se há diferenças de desempenho académico entre os alunos e se essas


diferenças dependem de factores estruturais (o acesso generalizado ao ensino pré-esco-
lar, o nível de escolaridade do agregado familiar, as condições sócio-económicas, as pro-
veniências culturais, a escola monocultural) e não exclusivamente da actuação da Escola
e dos professores, elas manter-se-ão, apesar da introdução e do acesso generalizado das
TIC, bem como dos esforços dos agentes educativos, e tenderão a tornar-se mais evi-
dentes não só no desempenho académico como na vida futura dos alunos.

Hipótese 5

Uma implementação eficaz das TIC conduzirá à manutenção ou aumento dos padrões
académicos apesar da reduzida qualidade de muitos materiais de TIC. Os padrões académicos
são função das expectativas dos professores e da Escola e não do nível dos manuais, dos
materiais de TIC ou outros. A hipótese alternativa é de que a utilização das TIC conduzirá a
uma redução dos padrões académicos na medida em que os alunos irão despender mais tem-
po em pesquisas com benefícios marginais e a navegar em conteúdos da Internet e curriculares
de baixa qualidade.

Os dados recolhidos sugerem que se deve confirmar a hipótese principal e infirmar


a segunda, porque as evidências mostram que o aumento dos padrões académicos está
associado aos modelos de implementação das TIC.
A Escola a que respeita este estudo, na perspectiva da generalidade dos professo-
res, ganhou prestígio junto das demais porque tem uma dinâmica diferente, as condições
de trabalho são muito boas, o que se tem notado no aproveitamento, e o comportamen-
to dos alunos tem vindo a modificar-se no sentido positivo, como diz uma professora
resistente. Os alunos partilham estas percepções, sobretudo quando mencionam o au-
mento e a melhoria das infra-estruturas tecnológicas. Constata-se que os alunos utilizam,
sem qualquer tipo de restrição, as salas específicas mesmo sem a solicitação dos profes-
sores, em situações informais ou para concretizar trabalhos escolares. Assim, as TIC
actuam como uma ferramenta de construção do conhecimento, funcionam como forma
de socialização e melhoram a relação professor-aluno. A dinâmica do projecto “Aventura
em Construção” depende da utilização das TIC e, no que respeita à utilização da língua
materna, o nível académico tem tendência a melhorar. As pesquisas com recurso à World
Wide Web são bastantes frequentes, não obstante o nível etário não permitir ainda a
pesquisa crítica, o que significa alguns benefícios marginais. No entanto, os professores
entrevistados não fazem depender o nível académico da capacidade de utilizar as novas
ferramentas, mas sim das atitudes e competências dos docentes para a utilização das TIC
na Educação e da sua reflexão sobre as estratégias de acompanhamento das aprendiza-
gens nos novos ambientes. Para estes professores, a integração curricular das TIC, como
forma de promover a qualidade das aprendizagens, é fundamental, sobretudo porque a

92
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

gestão flexível dos currículos desenvolve o processo de ensino-aprendizagem centrado


no aluno e no desenvolvimento da sua autonomia e, o carácter absolutamente actual e
contemporâneo das TIC, tornam-nas essenciais num mundo onde a imagem é importan-
te, apesar de constatarem que o software específico, para cada disciplina, não ser ainda
suficiente.
Todas estas evidências dão conta da abertura da maioria dos professores em rela-
ção à inovação, das competências dos professores na utilização, da integração cada vez
mais notória das TIC em contextos educativos, da troca de ideias e de materiais cada vez
mais frequente entre os professores e da reflexão decorrente que tem permitido a cons-
trução de estratégias de utilização didáctica das TIC. Se, por um lado, a existência das
infra-estruturas tecnológicas e as solicitações dos alunos são condições de sucesso da
reforma/inovação, também é verdadeiro que a gestão flexível do currículo é suportada
por toda uma nova abordagem na concepção, planeamento, gestão, acompanhamento e
avaliação das situações de aprendizagem com as TIC. Por outras palavras, as estratégias
são fundamentais no sentido em que são as situações de aprendizagem que os professo-
res promovem com os materiais que desempenham uma função positiva no desenvolvi-
mento dos padrões académicos.

5. PROJECÇÕES DE FUTURO
Sustentabilidade
A sustentabilidade da reforma e inovação educacional com as TIC, nesta Escola,
depende fundamentalmente da continuidade da liderança e do seu impacte positivo, dos
processos de envolvimento e partilha entre os membros da comunidade de professores,
na construção conjunta do pensamento sobre a reforma e a inovação, as suas represen-
tações e as suas implicações para o desenvolvimento da educação.
Consideramos, também, que a sustentabilidade depende de factores específicos
no plano da implementação da reforma como: a disponibilidade dos professores para dar
continuidade a um projecto de trabalho inovador que exige um nível elevado de partici-
pação e a capacidade de articular as diferentes fases de desenvolvimento do projecto
com as expectativas da comunidade e dos encarregados de educação.
No plano da inovação educacional com as TIC, a sustentabilidade compreende as
dimensões específicas da sensibilização e formação de uma organização orientada para a
abertura aos ciclos da inovação, à mudança e à avaliação dos seus desempenhos.
Referimos ainda que a sustentabilidade do projecto nesta Escola reside, por um
lado, no desenvolvimento de uma organização que apresenta uma crescente capacidade
de formação interna, através de um processo continuado de reflexão, sensibilização e
desenvolvimento de competências para a utilização e integração das TIC nas práticas e
processos de educação de acordo com as necessidades e objectivos dos seus membros
e, por outro, na continuidade do desenvolvimento das infra-estruturas.

93
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Para que a introdução das TIC na Escola seja continuada de forma sustentada, o
órgão de gestão não deverá descurar oportunidades de apetrechamento informático. A
Infoteca, com capacidade para acolher uma turma de 25 alunos, já não dá cabal resposta,
no quotidiano escolar, às solicitações de alunos e professores, cada vez mais frequentes,
em contexto educativo. Urge, agora, equipar com material multimédia (com capacidade
de projectar dados/vídeo em sistema portátil) os espaços onde se desenvolvem activida-
des educativas, que já se encontram equipadas com acesso à rede e actualizar os equipa-
mentos e software da área administrativa da Escola. Daqui decorre a situação de partida
que a Escola pretende modificar a curto prazo, tendo em conta a vertente pedagógica e
administrativa.
Para tal, procedeu-se à candidatura à Acção 9.1. (Apetrechamento Informático de
Escolas e Ligação à Internet e Intranets) da Medida 9 – Tecnologias de Informação e
Comunicação (TIC) no EIXO 3 – SOCIEDADE DE APRENDIZAGEM do PRODEP III.
Caso este projecto seja aprovado, é intenção da Escola equipar, ainda no decorrer
deste ano lectivo, cada um dos espaços onde se desenvolvem actividades educativas,
com um computador, actualizar o servidor de intranet, disponibilizar dois sistemas por-
táteis de projecção de dados/vídeo (computador portátil e projector), para actividades
do processo de ensino/aprendizagem e, ainda, formar os docentes do agrupamento de
escolas (do pré-escolar ao 9.º ano de escolaridade) no uso do computador, em rede, em
contexto de aula curricular. Está ainda projectada a substituição, a curto prazo, do servi-
dor de Intranet.
Segundo o Órgão de Gestão da Escola, este investimento nas Tecnologias de
Informação e Comunicação pretende ajudar a contribuir para a diminuição da taxa de
abandono escolar, para a melhoria do rendimento escolar a nível global e para o aprovei-
tamento mais eficiente e eficaz dos recursos de rede.
Assim, logo que seja disponibilizado, pelo Ministério da Educação, será efectuada
a aquisição e instalação do equipamento e configuração do respectivo software nas salas
de aula dos sete estabelecimentos de educação do agrupamento de escolas. No caso dos
estabelecimentos do pré-escolar e do 1.º ciclo, a segurança do equipamento será trata-
da, caso a caso, envolvendo a autarquia e as associações de pais.
No que concerne à vertente administrativa, é intenção do órgão de gestão da
Escola actualizar os equipamentos e aplicações informáticas dessa área. Esta actualização
passa pela substituição dos computadores desactualizados das áreas administrativas de:
Gestão de Pessoal (incluindo processamento de vencimentos), Gestão de Alunos e Ges-
tão do SASE, bem como pela implementação da Gestão Informática da Contabilidade
Pública. Paralelamente, será feita a actualização do servidor de rede e continuará a apos-
tar-se na formação do pessoal administrativo, recorrendo, se necessário, ao apoio do
Centro de Formação da Associação de Escolas de Braga/Sul.
Na tentativa de avaliar o impacto da utilização das TIC na aposta da inovação
escolar, a escola pretende proceder à comparação dos níveis de insucesso escolar do

94
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ano lectivo 2000/2001 com os dos três últimos anos anteriores, tentando estabelecer a
correlação da alteração de resultados com a introdução do computador nas salas de aula.
Pretende, ainda, comparar as taxas de abandono escolar do ano lectivo 2000/2001 com
as dos três últimos anos anteriores, tentando estabelecer o mesmo tipo de correlação.
Para fazer esta avaliação será lançado um inquérito, elaborado em sede de Coor-
denação de Projectos, aos alunos (duas amostras aleatórias de 30 alunos), em meados do
3.º período lectivo, com o objectivo de avaliar a frequência de utilização do computador
na sala de aula nas seguintes valências: exploração de software educativo, resolução de
problemas, estimativa e confirmação de resultados, bem como na pesquisa e comunica-
ção de informação. Da mesma forma, os professores serão inquiridos (uma amostra
aleatória de 30 professores, dos vários níveis de ensino), em meados do 3.º período
lectivo de modo a tornar perceptível o grau de pertinência do computador na sala de
aula relativamente às actividades desenvolvidas no âmbito do processo de ensino-apren-
dizagem.
No final do ano lectivo, será elaborado um relatório, pela Equipa de Coordenação
de Projectos, com base nos estudos estatísticos acima referidos, nos resultados da avali-
ação dos alunos e nos dados sobre o abandono escolar precoce. Este relatório será dado
a conhecer ao Conselho Pedagógico e o seu resumo publicado na página da Escola na
Internet; será também enviado às estruturas hierárquicas superiores a quem compete a
sua avaliação e controlo.
No que concerne aos serviços administrativos, é intenção do órgão de gestão da
Escola, aquilatar sobre os graus de melhoria dos serviços prestados e de satisfação dos
utentes. Para tal, será lançado um inquérito, com base em entrevistas aos utentes e ao
pessoal administrativo.

Disseminação
A possibilidade de transferir os processos de mudança e desenvolvimento educa-
cional está profundamente relacionada com o tipo de envolvimento e participação dos
actores na concretização da mudança, como procuramos apresentar ao longo deste es-
tudo, na medida em que se trata da formação no domínio das atitudes e não só da aqui-
sição de competências para a utilização das TIC. A diversidade de factores que caracte-
rizam este cenário, não permite definir um modelo de disseminação, mas sim indicado-
res que poderão contribuir para este propósito e que se baseiam nas boas práticas
conseguidas por esta comunidade educativa, bem como no modelo de análise e de ava-
liação que está a ser implementado pelo órgão de gestão.
Para além dos aspectos relacionados com a regulamentação da implementação da
reforma, a sua disseminação passa, assim, pela mobilização dos professores para a toma-
da de consciência da função social da Escola na promoção da igualdade no acesso à edu-
cação e ao conhecimento.

95
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Neste sentido, a disseminação da inovação educacional com as TIC passará, como


tem feito esta Escola, pela reflexão sobre a importância do espaço e do tempo das apren-
dizagens para o aluno, ao procurar situar os processos de aprendizagem nos novos espa-
ços de mediação do conhecimento que são proporcionados pelas TIC.
O Presidente do Conselho Executivo da Escola, em conjunto com o coordenador
da equipa de projectos, tem vindo a liderar o processo de inovação; por outro lado, há já
um conjunto significativo de professores, a quem foi ministrada formação na área das
TIC na Educação, que tem vindo a desenvolver actividades e projectos, contribuindo não
só para estimular a aprendizagem nos seus alunos, mas também junto dos colegas menos
habilitados nas TIC.
Para promover uma maior e melhor utilização da TIC em contexto educativo,
está desde já garantido o funcionamento de formação nesta área, abrangendo todas as
escolas do Agrupamento (Jardins de infância, 1º Ciclo e EB 2,3 de Cabreiros) no próximo
ano lectivo através da modalidade de projecto “Escola Global” que pretende alargar a
formação e disseminar conhecimentos e materiais.

6. ANEXO A
A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo de caso seguiu as
recomendações da OCDE para a condução do processo de investigação.
A equipa foi constituída por cinco investigadores, membros do Centro de Com-
petência da Universidade do Minho.
A selecção da Escola foi realizada de acordo com os critérios definidos no manual
de investigação, tendo sido efectuada uma visita preliminar para apresentação dos mem-
bros da equipa da investigação e dos objectivos do estudo, familiarização com o ambien-
te da Escola e organização do plano de trabalho em coordenação com o conselho execu-
tivo.
O trabalho de campo decorreu no início de Janeiro de 2001 tendo sido recolhidos
dados, através de entrevistas semi-estruturadas, à direcção da escola, a professores, a
alunos e pais, questionários aos professores, formulários de observação de aulas e for-
mulários de observação fora da sala de aula. Foram recolhidos, também, documentos
relativos aos trabalhos dos alunos, bem como o registo fotográfico das actividades dos
alunos na sala de aula, laboratórios e nos espaços exteriores da Escola. Os dados recolhi-
dos foram inventariados, classificados e organizados de acordo com a matriz constante
no manual de investigação da OCDE.
Foram realizadas entrevistas com o representante da direcção da Escola, um es-
pecialista em tecnologias, oito professores, oito alunos, três encarregados de educação,
recolhidos 53 questionários aos professores e observadas quatro aulas dos professores
entrevistados.
As entrevistas aos professores e representante da direcção foram realizadas indi-
vidualmente, com o tempo médio de 1h30, variando a sua duração entre uma e duas

96
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

horas. As entrevistas aos alunos tiveram a duração média aproximada de 45 minutos. As


entrevistas aos pais tiveram a duração média de uma hora cada.
Todas as entrevistas foram registadas integralmente em formato áudio digital, ten-
do sido elaboradas, também, notas de entrevista, com o recurso a um computador por-
tátil.
Os materiais complementares da Escola e dos trabalhos dos alunos foram
inventariados e estão disponíveis na Internet a partir do site http://minerva.uevora.pt/
ocde/cabreiros/

7. ANEXO B – Inquérito às Práticas dos Professores com TIC

Tempo de Serviço
Classes Etárias / Sexo Feminino Masculino TOTAL Feminino Masculino TOTAL
(anos) / Sexo
1. [23, 28] 15.1% 3.8% 18.9% 1. [1, 5] 13.2% 5.7% 18.9%
2. [29, 34] 17.0% 7.5% 24.5% 2. [6, 10] 17.0% 5.7% 22.6%
3. [35, 40] 17.0% 9.4% 26.4% 3. [11, 15] 13.2% 7.5% 20.8%
4. [41, 46] 7.5% 3.8% 11.3% 4. [16, 20] 7.5% 3.8% 11.3%
5. [47, ...] 5.7% 7.5% 13.2% 5. [21, 25] 5.7% 5.7% 11.3%
Não diz 1.9% 3.8% 5.7% 6. [26, 30] 3.8% 1.9% 5.7%

Total 64.2% 35.8% 100.0% Não diz 3.8% 5.7% 9.4%


Total 64.2% 35.8% 100.0%

Até que ponto se sente confortável a realizar as seguintes actividades no computador?


(% de professores)

Muito Algo Nada


Questão Confortável
Confortável Confortável Confortável
1. Escrever um artigo 49.1 28.3 15.1 7.5
2. Pesquisar informação na World Wide Web 13.2 20.8 35.8 28.3
3. Criar e manter páginas da Internet 3.8 5.7 17.0 75.5
4. Utilizar uma base de dados 3.8 15.1 41.5 37.7
5. Desenvolver uma base de dados 3.8 3.8 18.9 71.7
6. Enviar e receber correio electrónico 17.0 20.8 18.9 41.5
7. Escrever um programa 3.8 7.5 13.2 69.8
8. Desenhar uma imagem ou diagrama 7.5 17.0 49.1 24.5
9. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou
9.4 18.9 22.6 43.4
equivalente)

97
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Em que medida são importantes para a sua leccionação cada uma das capacidades relaciona-
das com o uso dos computadores?
(% de professores)

Muito Mais / Nada


Importante
Importante Menos Importante
10. Escrever um artigo com um processador de texto 41.5 35.8 11.3 7.5
11. Procurar informação na Internet 15.1 50.9 26.4 7.5
12. Criar páginas da Internet 1.9 13.2 35.8 45.3
13. Utilizar uma base de dados 11.3 32.1 37.7 18.9
14. Desenvolver uma base de dados 5.7 20.8 32.1 39.6
15. Enviar e receber correio electrónico 0.0 30.2 37.7 32.1
16. Escrever um programa 1.9 15.1 34.0 41.5
17. Desenhar uma imagem ou diagrama com um software de
18.9 45.3 26.4 9.4
desenho/gráficos
18. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou
18.9 41.5 24.5 15.1
equivalente)

Em média, com que frequência os seus alunos estiveram envolvidos nas actividades a seguir indicadas
como parte dos trabalhos que lhes atribuiu durante o último ano escolar?
(% de professores)

Algumas
Semanal Mensal Nunca
vezes
19. Utilizar a World Wide Web 5.7 45.3 39.6 7.5
20. Criar páginas da Internet 0.0 0.0 15.1 81.1
21. Enviar e receber correio electrónico 3.8 1.9 11.3 75.5
22. Utilizar um programa de processamento de texto 1.9 20.8 56.6 17.0
23. Utilizar um computador para jogar jogos 5.7 7.5 30.2 50.9
24. Utilizar uma folha de cálculo 0.0 0.0 20.8 75.5
25. Utilizar um programa de gráficos 0.0 0.0 26.4 64.2
26. Aderir a um fórum de discussão ou chat room 0.0 0.0 7.5 83.0
27. Utilizar um programa de apresentações (ex.: PowerPoint) 0.0 0.0 18.9 75.5
28. Utilizar um programa educativo (incluindo simulações) 0.0 3.8 20.8 71.7
29. Outras utilizações do computador (especifique) 0.0 1.9 9.4 32.1

(% de professores)
Bom Razoável Fraco
30. Como classificaria a sua capacidade de utilização de
9.4 45.3 45.3
computadores?

98
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

(% de professores)
Sim Não
31. A utilização de computadores por parte dos alunos foi
18.9 81.1
alguma vez considerada na avaliação?

(% de professores)

Apenas as
Sem restrições Alg/restrições
indicadas
32. Se pediu aos seus alunos para pesquisar a World Wide
Web, qual o grau de liberdade que lhes deu para navegar 17.0 26.4 15.1
na Internet?

(% de professores)

Sim Não
33. Criou ou modificou alguma página de Internet com alguma
1.9 94.3
das suas turmas?

(% de professores)

Totalidade Maioria Alguma Muito pouca

34. Que parte da utilização do computador, nas suas aulas


22.6 1.9 26.4 49.1
esteve directamente relacionada com o conteúdo do curso?

35. Que parte da utilização do computador, que atribui aos


11.3 17.0 20.8 35.8
alunos, foi feita individualmente?

(% de professores)

Varias X Varias X Não tem


Algumas X Nunca
semana mês comp.
36. Com que frequência utilizou o computador, em casa, para
9.4 37.7 45.3 1.9 3.8
preparar as suas aulas?

(% de professores)

Sim Não

37. Alguma vez participou, como estudante ou formador, num curso


9.4 88.7
virtual através da Internet/World Wide Web?

38. Alguma vez envolveu os seus alunos em aprendizagem


colaborativa através da Internet/World Wide Web com alunos de 7.5 88.7
outras turmas?

39. Utiliza, actualmente, tecnologia para colaborar com outros


5.7 92.5
professores (chat rooms profissionais, fóruns ou outros)?

99
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Número de vezes
(% de professores)

>11 6_11 1_5 nenhuma


40. Quantas mensagens de correio electrónico,
envia em média por semana? 3.8 9.4 30.2 54.7
recebe por dia? 3.8 3.8 26.4 60.4
41. Fez alterações ao hardware de um computador? 3.8 1.9 20.8 71.7
42. Fez uma actualização programa. Informático? 5.7 1.9 32.1 58.5
43. Recuperou ficheiro danificado? 3.8 1.9 30.2 62.3
44. Criou uma página da Internet? 1.9 1.9 11.3 79.2
45. Desenvolveu uma base de dados? 1.9 1.9 13.2 79.2

8. ANEXO C
A informação complementar relativa à gestão flexível do currículo, materiais re-
colhidos durante a investigação, documentos relativos ao Projecto Educativo da Escola e
ao projecto Nónio da Escola, e ainda ao link para a página da Escola, estão disponíveis na
Internet, no endereço http://www.minerva.uevora.pt/ocde/cabreiros

100
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a


Qualidade das Aprendizagens

Estudos de Caso em Portugal

Escola Secundária da Póvoa do Lanhoso


Póvoa do Lanhoso, Portugal

Paulo Dias (Coordenador)


Armando Gonçalves
Alexandra Vieira
Cristina Fontes
Ana Lúcia Faria

Centro de Competência Nónio Séc. XXI da Universidade do Minho

101
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

102
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1.RESUMO

A Escola Secundária da Póvoa do Lanhoso (http://www.esec-povoa-lanhoso.rcts.pt/)


é uma escola da rede pública localizada numa pequena vila, Póvoa do Lanhoso, com
19.000 habitantes, e que é sede de concelho. Tem uma população escolar de 1150 alunos
(do 7º ao 12º anos) cuja faixa etária se localiza maioritariamente entre os catorze e os
dezanove anos, no período diurno, e entre os dezoito e os trinta, no período nocturno.
Atendendo às características do meio, relativamente pouco desenvolvido em
termos económicos, periférico em relação aos grandes centros e à proveniência
maioritariamente rural da população escolar, esta Escola está ao serviço de um grande
número de alunos com poucas expectativas de sucesso, o que tende a reflectir-se nos
processos de abandono escolar. Num esforço para travar este movimento e promover
simultaneamente uma maior ligação dos alunos à vida escolar, tem vindo a ser desen-
volvido um conjunto de iniciativas no âmbito da reforma e da inovação educacional
com as TIC, no sentido de favorecer o envolvimento e a integração dos alunos na
Escola.
Dentro destas iniciativas, destaca-se a criação de uma turma de currículo alterna-
tivo para o 3º ciclo da escolaridade básica e o envolvimento da Escola nos Programas
Nónio Século XXI e Internet na Escola, que constituíram um suporte para a implementação
da reforma e um meio para a sua generalização.
O esforço de inovação e introdução de novas abordagens curriculares e
metodologias de ensino-aprendizagem baseadas nas TIC reflecte a iniciativa do órgão de
gestão e o envolvimento da grande maioria dos professores no desenvolvimento do pro-
cesso de mudança.
No âmbito das transformações realizadas na Escola no decurso deste processo, a
que provavelmente exerceu maior impacto na vida e organização escolar consistiu na
alteração da filosofia de gestão do espaço da Biblioteca, a qual foi possível graças à apro-
vação de um projecto no âmbito da rede Nacional de Bibliotecas Escolares e do Instituto
de Inovação Educacional, articulado com o Programa Nónio Século XXI. No âmbito
desta reestruturação, a Biblioteca adquiriu uma dimensão central na Escola e nas activi-
dades diárias dos alunos, disponibilizando o acesso à informação desde os jornais diários
até à consulta na Web durante todo o período de aulas, passando pela consulta bibliográ-
fica de referência e de documentos em suporte vídeo e CD-ROM, tendo para o efeito
sido criada uma sala Nónio onde os alunos dispõem de computadores para realizarem os
seus trabalhos, consultar informação, utilizarem o seu correio electrónico e aceder à
Internet.
Este movimento de reestruturação do modelo de utilização das TIC estendeu-se
ao sistema de comunicações interno da Escola, tendo sido criada uma rede de telecomu-
nicações que passou a ligar todas as salas de informática e a sala Nónio, incluindo tam-
bém a sala dos professores e os departamentos administrativos. A partir daqui foi possí-
vel criar uma lógica de partilha entre estes espaços, reforçada pela adesão dos professo-

103
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

res às novas capacidades de acesso e partilha de informação e à sua importância na


construção das aprendizagens, quer no plano da integração curricular das TIC no ensino-
aprendizagem, quer no plano administrativo, nomeadamente através da informatização
dos procedimentos de gestão escolar.
Os professores, para além das suas actividades docentes, estão integrados em
duas organizações escolares: o núcleo de apoio educativo e o núcleo de acompanha-
mento e dinamização de projectos. A actividade do primeiro está orientada para a
dinamização das actividades de apoio aos alunos com maiores dificuldades de apren-
dizagem, designadamente no acompanhamento da turma de currículo alternativo, e
as actividades do segundo grupo compreendem a implementação e o acompanha-
mento dos projectos em curso na Escola. Todos os professores integram, pelo me-
nos, um dos dois núcleos existentes favorecendo, deste modo, a aquisição de um
conhecimento mais aprofundado da realidade da vida escolar e do aluno. É resultan-
te deste procedimento a criação do projecto de currículo alternativo com forte uti-
lização das TIC e com carácter profissionalizante, através do qual foi possível proce-
der à integração no projecto educativo dos alunos com dificuldades de aprendiza-
gem e adaptação escolar.
A dinamização dos projectos e actividades da Escola estendeu-se também à ocu-
pação dos tempos livres dos alunos na Escola e à organização dos Clubes Escolares.
Assim, foi criada uma sala de ocupação de tempos livres onde os alunos podem visionar
documentos e filmes em suporte vídeo e aceder a jogos de natureza didáctica. Os clubes
também foram dotados de condições que possibilitassem uma ocupação efectiva dos
tempos livres por parte dos alunos, destacando-se, neste caso, os clubes de Matemática,
Informática e o espaço das Ciências que passaram a dispor de recursos informáticos que
possibilitaram, aos alunos, uma melhor ocupação dos seus tempos livres.
Paralelamente ao investimento na melhoria das condições e meios de ensino, a
Escola tem procurado investir na qualidade dos processos de ensino, nomeadamente
através da promoção do ensino experimental das ciências, em especial através do apoio
obtido no âmbito dos projectos Ciência Viva III e IV, que têm possibilitado uma efectiva
dinamização das actividades de ensino experimental.
Este sentido de desenvolvimento das actividades da Escola compreende também
a promoção de um ensino de natureza artística, quer ao nível do teatro (várias têm sido
as actividades desenvolvidas nesta área) quer ao nível da pintura, destacando-se aqui a
realização de uma série de ateliers.
Ao promover o movimento de reflexão sobre o espaço e funções da Biblioteca, a
Escola iniciou um processo de envolvimento, partilha e (re)construção conjunta do espa-
ço e funções da Escola, identificando necessidades e problemas, e procurando soluções
para as actividades da comunidade escolar, quer através da disponibilidade de novos
meios para a realização das aprendizagens, quer no apoio à formação para a utilização
destes meios. Sem dúvida alguma encontrámos neste projecto de reflexão e formação
interna, realizada inter-pares, o motor de suporte para o progressivo envolvimento da

104
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

comunidade dos professores na utilização e integração dos novos media no ensino. Mas
encontrámos também, neste processo de mudança, o suporte para a criação de uma
comunidade alargada aos pais, nomeadamente quando a Escola abre a formação em TIC
aos pais dos seus alunos, sob a forma de cursos livres de Verão.

2. O PASSADO
As necessidades de introdução da reforma e da inovação educacional com as TIC
surgiram como um processo natural para ultrapassar as problemáticas culturais e socio-
-económicas de uma população escolar de uma região com acentuadas carências, permi-
tindo à Escola transformar-se no centro, por excelência, para a aquisição e desenvolvi-
mento de novas competências profissionais e, simultaneamente, contribuir para uma
melhor integração dos alunos na comunidade local.
Para compreendermos as características da população escolar, será importante
reflectir, ainda que de modo breve, sobre alguns aspectos relativos à origem
socioeconómica dos pais dos alunos. De acordo com dados coligidos pela Escola no ano
lectivo de 1998-1999, a esmagadora maioria dos pais era constituída por trabalhadores
da indústria, da agricultura ou empregados comerciais. É de assinalar a progressiva emer-
gência de um significativo número de pais que trabalham por conta própria. No entanto,
este quadro não se afirma ainda como um factor positivo para a inversão da situação
genérica que encontrámos.
Para ambos os casos destaca-se que a maioria das profissões exercida está ligada a
actividades que não exigem uma mão de obra qualificada, factor que está fortemente
associado ao baixo nível de habilitações escolares dos pais dos alunos.
Referimos ainda o facto de que estamos perante uma população escolar
tendencialmente homogénea, com uma forte articulação com a comunidade local, sendo
de assinalar, no entanto, a existência de um número relativamente significativo de alunos
originários da França, Suíça e Alemanha (resultado da grande onda emigratória dos anos
60 e 70). Estes alunos apresentam, em alguns casos, dificuldades iniciais de integração o
que os leva a relacionar-se prioritariamente com colegas em idêntica situação pelo que,
pontualmente, pode ouvir-se falar alemão e francês nos corredores da Escola. No entan-
to, na esmagadora maioria dos casos, estes alunos acabam por se integrar na comunida-
de escolar, tendo como indicador os dados relativos à mudança de alunos para outras
escolas. O factor mudança de escola é considerado pelo responsável da Escola como
residual, só se verificando em situações de alteração de residência (um ou dois casos/
ano), transferência para a Escola Profissional local (10 alunos/ano) ou ainda em situações
de transferência para instituições particulares de ensino na fase final dos estudos secun-
dários (12º ano).
É neste contexto que se inicia o processo de introdução da reforma, através da
criação da turma com currículo alternativo, e da inovação com as TIC na Escola, tendo

105
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

como grandes objectivos criar condições para o efectivo desenvolvimento da qualidade


do ensino-aprendizagem, a formação de novas competências para o futuro profissional
dos alunos e a promoção da sua integração plena na sociedade activa.
No entanto, na sua fase inicial, o projecto de reforma/inovação com as TIC
conheceu várias resistências que se identificam essencialmente com aspectos liga-
dos, por um lado, às dúvidas sobre a eficácia no desenvolvimento educacional dos
currículos alternativos, e, por outro, à falta de sensibilização e ausência de domínio
das TIC pelos professores (em parte por não possuírem formação inicial nesta área).
Em relação a este último aspecto, acrescentamos ainda a existência de factores como
o desconhecimento das utilizações educacionais das TIC e dos processos de mudan-
ça nas práticas educacionais, nomeadamente no domínio da integração curricular
das TIC.
Salientamos que, desde o início, o órgão de gestão da Escola procurou integrar,
neste processo de inovação, todos os serviços administrativos da Escola procedendo,
para o efeito, à formação dos quadros de pessoal e à informatização dos respectivos
serviços, nomeadamente na edição electrónica das actas de avaliação.
Num outro nível, as resistências externas ao nível da comunidade dos pais foram
ultrapassadas através do seu envolvimento no projecto de inovação da Escola, em parti-
cular com a criação dos cursos de verão em TIC para os pais. Para além de apresentar
um contributo valorativo no plano da educação de adultos, esta estratégia contribuiu de
modo forte e inequívoco para a aproximação entre a Escola e os pais, não só permitindo,
mas também vindo a favorecer, um melhor conhecimento mútuo e aproximação entre a
Escola e os pais, bem como entre o projecto educativo e a comunidade externa. Este
factor tem vindo a manifestar-se, de forma positiva, na sensibilização das empresas locais
para a criação de estágios profissionais, para os alunos dos currículos alternativos e dos
cursos tecnológicos.

3. O PRESENTE
Infra-estrutura das TIC
Esta Escola tem actualmente 32 salas de aula em funcionamento, uma população
de 1 150 alunos, 98 professores, 26 funcionários auxiliares de acção educativa e 10 fun-
cionários administrativos.
A Escola aderiu, em 1997 ao Programa Nónio Século XXI e ao Programa Internet
na Escola , tendo ainda, nestes últimos três anos projectos aprovados pela Rede Nacional
de Bibliotecas, pela Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, pelo
Instituto de Inovação Educacional e pelo Ciência Viva III e IV.
Resultante das actividades em curso e dos investimentos realizados no âmbito dos
vários projectos, a Escola dispõe de 73 computadores, sendo 14 destes reservados a
actividades administrativas e de gestão (2 no Conselho Executivo; 1 para a gestão docu-

106
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

mental na Biblioteca; 2 na sala dos professores; 1 na sala dos directores de turma; 5 nos
serviços administrativos; 1 no SASE; 2 servidores)
Os alunos têm acesso a 59 computadores distribuídos pelas diferentes salas e
laboratórios, com um ratio de 19 alunos por computador.
Um total de nove salas de aula e laboratórios (três salas de aula normais, a sala do
Nónio que integra o espaço da Biblioteca, o Centro de Produção Multimédia, o labora-
tório de Biologia, o laboratório de Física e as salas dos Clubes de Matemática e de
Informática) está equipado com computadores.
O complexo Biblioteca/Sala Nónio está equipado com gravadores de vídeo para
visionamento de material audiovisual, dispõe de um extenso conjunto de vídeos e software
educativo (CD-ROM), e permite o acesso dos alunos a pesquisas na Internet e à realiza-
ção dos trabalhos escolares na Sala Nónio, a qual dispõe de 12 computadores.
Do conjunto destas salas, destacamos que têm acesso à Internet (ligação em rede
através de linha RDIS) os equipamentos situados nas três salas de aula, na Sala Nónio e
ainda na sala dos professores.
As salas de aula equipadas com computadores estão ligadas em rede sendo de
referir que, dentro deste conjunto, são consideradas salas de utilização aberta a Sala
Nónio e as salas dos Clubes de Matemática e Informática. O conceito de sala aberta
significa que estes espaços estão disponíveis para os alunos durante o período escolar
diário, durante os períodos de férias e ainda durante dois dias por semana, no período da
noite, para os alunos e membros da comunidade.
No domínio da manutenção, existe um professor Director de Instalações com
funções de supervisão dos meios e equipamentos. A Escola não dispõe de pessoal técni-
co, nos quadros próprios, para a manutenção dos sistemas de comunicação e dos equi-
pamentos. A manutenção da rede está entregue a uma empresa da especialidade. No
que respeita à manutenção dos computadores, esta tem vindo a ser efectuada pelos
professores, com todas as limitações inerentes a esta acumulação de funções.

Eficácia
A questão da eficácia deve ser observada na capacidade da Escola em proceder ao
desenvolvimento do projecto educativo, em particular na resolução dos casos de insucesso
e da integração dos alunos na comunidade escolar. No âmbito da reforma iniciada nesta
Escola, a eficácia compreende a observação da situação inicial, a qual apresentava pro-
blemas de insucesso escolar repetido e risco de abandono da escolaridade obrigatória, e
o desenvolvimento do processo de criação e implementação do currículo alternativo,
nomeadamente nas vertentes da adequação do currículo às necessidades de formação
dos alunos, no acompanhamento dos processos de aprendizagem, na integração dos
alunos na comunidade escolar e, por último, na avaliação dos níveis de motivação e
envolvimento dos alunos neste projecto. A implementação do currículo alternativo veio

107
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

contribuir de forma decisiva para a reconquista do espaço escolar por parte destes alu-
nos, quer através da importância que a Escola lhes reconhece, quer pela nova situação de
integração social e académica que se traduz num maior empenho pessoal.
Como refere o professor que lecciona Matemática e Informática a esta turma: (...)
os miúdos do currículo alternativo não tinham grandes expectativas em relação à Escola,
agora têm feito grandes descobertas que os levam a outras descobertas, sendo a sua reacção
bastante positiva.
O impacto das TIC no desenvolvimento dos processos de aprendizagem é resu-
mido pelo mesmo professor do seguinte modo: (...) para alguns é apenas uma ferramenta,
para estes (currículo alternativo) é uma descoberta.
Este impacto estende-se às práticas dos professores, quer no domínio da prepa-
ração dos materiais de ensino-aprendizagem, quer também nas abordagens orientadoras
da sua própria actividade, integrando, progressivamente, os novos meios como instru-
mentos para a construção da aprendizagem e facilitando o desenvolvimento de uma
perspectiva orientada para o ensinar a aprender.
Por outro lado, não podemos deixar de referir, que a introdução do currículo
alternativo veio atenuar as diferenças no acesso às tecnologias e ao conhecimento e,
deste modo, promover a democratização do acesso à informação e à educação.

4. PRINCIPAIS HIPÓTESES
As principais hipóteses deste estudo compreendem as dimensões identificadas
com o desenvolvimento da Reformas Educacionais e das Tecnologias de Informação
e Comunicação na Educação, em particular, no plano do impacto dos sistemas de
comunicação, mediada por computador, na implementação dos processos de inova-
ção educacional, nomeadamente: padrões de difusão, valorização e envolvimento do
pessoal docente, papel da liderança, ligações TIC-Reforma, rigor académico e equi-
dade.
De acordo com a metodologia e os instrumentos do estudo, os dados foram re-
colhidos, inventariados e tratados, permitindo a formação de uma base empírica, a partir
da qual iniciamos o processo de apresentação de cada uma das dimensões e a discussão
das hipóteses.

Padrões de difusão
Esta Escola iniciou o processo de introdução da reforma e inovação com as TIC
através da criação de uma turma com currículo alternativo que integra dez alunos consi-
derados em situação de risco de abandono.
A introdução dos currículos alternativos na Escola constitui uma resposta da insti-
tuição aos problemas de motivação, inadaptação e insucesso escolar, com risco de abando-

108
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

no precoce da escolaridade obrigatória. A implementação da reforma surge no âmbito


do quadro legal que regula a autonomia das escolas, permitindo-lhes propor a criação de
projectos de currículos alternativos, através dos quais é possível aproximar a realidade
escolar aos interesses e necessidades educativas da população dos alunos com dificulda-
des de integração.
O currículo alternativo em desenvolvimento nesta Escola compreende, para além
da componente científica adaptada, uma forte componente prática de carácter vocacional
ou pré-profissional na área das Tecnologias de Informação e Comunicação, tendo como
grande objectivo o sucesso da integração dos alunos na vida activa.
A difusão da reforma e da inovação educacional com as TIC surge intimamente
relacionada com o projecto de criação do currículo alternativo. A proposta e entrada em
funcionamento do currículo alternativo na Escola coincidem com o programa de inova-
ção com as TIC em 1997, através do qual se iniciou o processo de utilização de ferra-
mentas informáticas nas práticas de ensino-aprendizagem. Neste sentido, a introdução
do currículo alternativo constituiu um meio de experimentação continuada das TIC e,
simultaneamente, um meio de avaliação dos resultados dessa mesma integração para a
comunidade dos professores.
A adaptação do currículo às necessidades educacionais do grupo privilegiou a di-
mensão da utilização das TIC como suporte para as novas abordagens, quer no plano da
construção das aprendizagens, quer no sentido profissionalizante das mesmas. A inova-
ção particular a este projecto implicou, sem dúvida ,um volume de incertezas e dificulda-
des na sua implementação, quer na promoção do diálogo entre os campos disciplinares
envolvidos, quer no desenvolvimento de novas abordagens educacionais para a
contextualização das aprendizagens dos alunos.
Contudo, nesta Escola, o processo de difusão da utilização das TIC não se limita às
actividades ligadas ao projecto de reforma/inovação com a turma de currículo alternati-
vo. Bem pelo contrário, existe na comunidade uma sensibilização generalizada para a
utilização das TIC nos processos de ensino-aprendizagem, para a qual contribuiu decisi-
vamente o esforço inicial do órgão de gestão e do grupo que orientou o lançamento dos
primeiros projectos. Resultante deste esforço, hoje, é a percepção de que o projecto é
pertença da comunidade de professores.

Valorização e envolvimento do pessoal docente


A valorização e envolvimento dos professores desta Escola são suportados por um
processo continuado de reflexão interna que conduziu à implementação da reforma e à
sensibilização dos professores para a inovação educacional com as TIC.
Não é estranho ao desenvolvimento deste movimento da comunidade a participa-
ção anterior de parte dos docentes desta Escola no Projecto Minerva (1985-1994) a qual
constituiu, para muitos deles, o seu primeiro contacto com a problemática da inovação

109
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

educacional com as TIC. Esta evidência surge através da análise do tempo de serviço,
sendo que 50% dos professores desta Escola têm entre 11 e 20 anos de serviço. Referi-
mos ainda que o corpo de professores é constituído maioritariamente (55%) por ele-
mentos do sexo feminino, e a nível etário 72.5% dos professores situam-se na classe 32-
-42 anos.
O processo de valorização foi desencadeado inicialmente pelo órgão de gestão e
por uma pequena equipa de docentes com experiência anterior no Projecto Minerva, a
qual promoveu o progressivo reconhecimento da importância da abertura da Escola
para a integração dos projectos de inovação educacional como instrumentos para o de-
senvolvimento da própria Escola e da sua função na construção social e cognitiva das
aprendizagens.
Se, por um lado, existe a percepção de que as TIC constituem uma valorização
horizontal para o desenvolvimento das actividades de ensino-aprendizagem, por outro,
emerge a necessidade de proceder a uma nova fase de trabalho mais orientada para a
utilização pedagógica nas diferentes áreas disciplinares. Neste sentido, o professor espe-
cialista reclama que: (...) é necessário promover uma formação mais pedagógica, orientada
para a sala de aula; através da qual os professores adquiram maior autonomia na integração
curricular das TIC.
O esforço de valorização dos docentes nesta Escola conhece um modelo particu-
lar de formação inter-pares, orientado pelas necessidades e objectivos dos colegas. Atra-
vés deste processo, a comunidade adquiriu alguma autonomia, que se manifesta pelo
envolvimento da esmagadora maioria dos docentes nos projectos de inovação em curso.
No entanto, a continuidade deste envolvimento depende, em parte, de um con-
junto de competências de utilização das TIC no plano individual e nas actividades realiza-
das na sala de aula com os alunos.
O nível de familiarização e capacidade de utilização das TIC nas práticas do profes-
sor é apresentado através do Inquérito às Práticas dos Professores, o qual compreende
diferentes áreas, que passaremos a descrever e comentar.
A primeira compreende a utilização do computador como um instrumento de
trabalho pessoal. Escrever um artigo constitui a tarefa para a qual 73.8% da população
inquirida refere ser “muito confortável”. Neste mesmo nível situam-se as tarefas enviar
correio electrónico (35.7%), pesquisar informação na WEB (31.0%), desenhar uma imagem
(31.0%).
Para a actividade criar e manter páginas na Internet (64.3%) referem sentir-se “nada
confortável”, situando-se ainda neste nível de expressão as actividades utilizar uma base
de dados (31.7%), desenvolver uma base de dados (54.8), escrever um programa (73.8%) e
apresentar informação com PowerPoint (31.7).
Na área da importância do uso do computador para a actividade lectiva, 61.9%
dos professores referem ser “muito importante” a actividade escrever um artigo com um
processador de texto. Situam-se igualmente no nível “muito importante” as actividades
desenhar uma imagem (42.9%) e apresentar informação (39.0%). Procurar informação na

110
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Internet é referido como uma actividade “importante” para 45.2% dos professores. No
nível “mais ou menos importante” apresentam-se as actividades: criar páginas na Internet
(38.1%), utilizar uma base de dados (36.6%), desenvolver uma base de dados (42.9) e
enviar e receber email (35.7). A actividade escrever um programa é referida como “nada
importante” para 52.5% dos professores.
A análise da frequência de envolvimento dos alunos com actividades relacionadas
com o computador na sala de aula apresenta a actividade de utilização educacional da
Web com 43.9% no nível “algumas vezes”. Ainda no mesmo nível “algumas vezes” 51.2%
dos alunos utilizam programas de processamento de texto. A actividade criar páginas da
Internet surge no nível de frequência “nunca” com 85.7%. No mesmo nível de frequên-
cia “nunca” situam-se também as actividades enviar e receber email (70.0%), utilizar um
computador para jogar jogos (61.0%), utilizar uma folha de cálculo (63.4%), utilizar um
programa de gráficos (68.3%), aderir a um fórum de discussão ( 85.4%), utilizar um progra-
ma de apresentações (63.2%).
É patente nestes dados relativos à frequência de utilização pelos alunos que o pro-
cesso de integração das TIC na sala de aula é ainda realizado por um pequeno grupo de
professores.
À pergunta sobre se a utilização dos computadores por parte dos alunos foi alguma
vez considerada na avaliação, 65.9% dos inquiridos responderam negativamente.
Quanto ao grau de liberdade dado aos alunos para navegarem na Web durante activi-
dades lectivas, 44.4% dos professores afirmaram indicarem algumas restrições e 32.0%
afirmaram proceder sem restrições.
A criação ou modificação de páginas da Internet no contexto da turma foi realizada só
por 7.5% dos professores inquiridos.
No plano da utilização pessoal 56.1% dos professores utilizam o computador “vá-
rias vezes por semana” para preparar as aulas. No domínio da participação num curso
virtual, 19.1% dos professores já frequentaram este tipo de formação não presencial.
A totalidade dos inquiridos afirma nunca ter envolvido os seus alunos na aprendiza-
gem colaborativa através da Internet. Relativamente a estes dados, o desenvolvimento
dos processos colaborativos tem vindo a ser realizado no âmbito das actividades realiza-
das na área-escola.
No domínio da colaboração com outros professores através da tecnologia (email,
chat, fóruns), 28.5% utiliza este meio de comunicação. Relativamente à frequência de
envio de email por semana, 9.5% envia um volume superior a 11 mensagens por dia,
4.8% envia entre 6 a 11 mensagens por dia, 38.1% envia 1 a 5 mensagens por dia, e
47.6% não envia qualquer mensagem.
Em relação à questão sobre quantas mensagens de email recebem, por dia, os
professores, 4.2 % recebem mais do que 11 mensagens por dia, 48.2 % recebem entre
1 a 5 mensagens e 47.6% não recebem qualquer mensagem.
Apesar do esforço de promoção da utilização educacional das TIC, os resultados
evidenciam a necessidade de se proceder a um modelo de formação que favoreça o

111
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

desenvolvimento de competências de utilização na sala de aula, bem como a generaliza-


ção da integração das TIC nas actividades lectivas orientadas para o desenvolvimento da
aprendizagem.

Papel da liderança
O começo do projecto de reforma/inovação com as TIC tem como suporte al-
guns aspectos que passamos a referir: a sensibilidade do órgão de gestão para este domí-
nio de questões; o facto de existirem na Escola cursos tecnológicos na área da informática
e da comunicação; e a integração, no corpo de professores, de especialistas na área da
utilização educacional das TIC, factor que permitiu a constituição inicial da equipa dos
projectos de inovação.
O empenho do órgão de gestão no desenvolvimento da inovação é um factor
claramente presente na fase inicial, nomeadamente na organização dos processos de
reflexão sobre a dinamização das actividades da Biblioteca e da Escola, como referimos
em secção anterior, ou ainda na implementação dos processos de informatização dos
procedimentos administrativos. Por outro lado, a criação de equipas de trabalho no âm-
bito dos Programas Nónio Século XXI e Internet na Escola, contribuiu decisivamente
como motor de desenvolvimento da reforma/inovação.
Segundo as palavras do vice-presidente da Escola: (...) procuram que seja uma equi-
pa e não tanto uma pessoa isolada; nomeadamente pelo facto de a integração de novos
docentes com formação na área da utilização educacional das TIC ter permitido a forma-
ção inter-pares e ter desencadeado (...) um efeito de bola de neve. Esta perspectiva é
corroborada pelo professor responsável pelo projecto Nónio da Escola, que afirma: não
há um líder (…) o projecto tem autonomia.
A auto-sustentação do projecto baseia-se no processo interno de aprendizagem
da comunidade de professores da Escola que permitiu alargar o conceito de equipa para
a comunidade escolar, não o restringindo à dimensão de um pequeno grupo de especia-
listas.
Neste sentido, foi decisiva, para o processo de inovação a formação realizada pelo
coordenador local do projecto Nónio, bem como a existência de um Centro de Forma-
ção de Professores, constituindo assim um sistema que permitiu replicar a formação ao
longo do tempo dentro da comunidade e de um modo informal, sempre que necessário,
facilitando a progressiva familiarização dos professores com as TIC, nomeadamente na
utilização do email e da Web entre outras aplicações, e a sensibilização para a sua integração
curricular.
O processo de introdução da inovação conduziu ao desenvolvimento de uma or-
ganização aprendente, cujo percurso se observa no progressivo envolvimento e
responsabilização dos professores na condução do próprio processo de mudança da
Escola, nomeadamente na capacidade de auto-organização para a dinamização interna

112
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

dos projectos a desenvolver, ou ainda na elaboração e apresentação de projectos a agên-


cias de financiamento nacionais, no sentido de suportarem as várias linhas de desenvolvi-
mento das actividades de inovação e melhoramento da Escola.
Ao longo deste percurso iniciado com o lançamento dos primeiros desafios, sob a
forma da reflexão interna, continuado depois nos processos de sensibilização e formação
para a utilização das TIC numa perspectiva educacional que se estendeu ao envolvimento
de todos os professores nos grupos de dinamização dos projectos, é evidente o sentido
de desenvolvimento de uma organização aprendente, a qual sustenta e acompanha a
inovação na Escola. Foi através da actividade da comunidade de professores como orga-
nização aprendente, que o projecto de inovação conseguiu ultrapassar as resistências
internas da comunidade, transformando-as em motor do seu próprio desenvolvimento,
ao dar início às acções de formação inter-pares, de acordo com as necessidades, as ex-
pectativas e os objectivos do projecto educativo.

Ligações TIC-Reforma
As Tecnologias de Informação e Comunicação desempenham um papel central,
quer no âmbito da implementação do currículo alternativo, quer também e de forma
não menos incisiva nas restantes actividades de ensino-aprendizagem da Escola.
Se, por um lado, o currículo alternativo constitui um catalisador das experiências
de integração das TIC, principalmente para o grupo de professores directamente envol-
vidos, por outro, estas mesmas experiências estão disseminadas através das actividades
de ensino-aprendizagem dos restantes professores. Como exemplo, referimos, para além
das actividades ligadas aos cursos tecnológicos de informática, as quais têm os seus su-
portes nas TIC, a forte taxa de utilização da sala Nónio para actividades lectivas pelas
restantes turmas da Escola. Acresce ainda a esta evidência, que as TIC constituem um
motor de desenvolvimento dos processos de integração dos alunos na vida escolar atra-
vés dos Clubes Escolares.
É patente na elevada taxa de frequência de utilização pelos alunos dos espaços dos
clubes e da Biblioteca, a forte adesão e utilização dos novos media como ferramentas
para a construção do conhecimento, quer em situações formais de aula, quer em situa-
ções informais de trabalho individual, como a realização dos trabalhos escolares e a pes-
quisa de informação.
É, pois, através da adesão sem restrições que os alunos manifestam aos novos
ambientes de trabalho, que se evidencia o sucesso da implementação do currículo alter-
nativo. Como referem os alunos envolvidos no projecto de currículo alternativo: (...)
possuem email, enviam mensagens de email para os colegas e também para os professores,
trabalham através da Internet com os colegas; sentem que a Escola lhes fornece meios para
a construção das aprendizagens nomeadamente ao referirem a Biblioteca como: (...) o
melhoramento mais importante.

113
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

O papel das TIC na organização do currículo alternativo surge como uma condi-
ção de sucesso para a realização das aprendizagens.
Neste sentido, a percepção que estes alunos têm da importância dos ambientes
baseados em TIC para o seu desenvolvimento educacional (no âmbito do currículo alter-
nativo) passa sem dúvida pela afirmação de um aluno: (...) sem computadores não saberi-
am o que sabem hoje.
Esta afirmação resume o impacto das TIC no processo de implementação do cur-
rículo alternativo. Por outro lado, o impacto não se limita ao projecto do currículo alter-
nativo, já que, no âmbito geral da Escola, os restantes alunos corroboram a importância
da Biblioteca, nomeadamente quando afirmam que: (...) têm tudo na Escola e não preci-
sam de ir à biblioteca municipal; e (...) têm possibilidade para aceder à Internet na Sala
Nónio; referindo, em particular, a importância que atribuem a este aspecto (...) porque
nem todos os alunos têm disciplinas de informática e isso (aceder à Internet) é importante
para todos.

Rigor académico
A questão do rigor académico surge tradicionalmente através do tipo de utiliza-
ção das TIC e do seu impacto na qualidade e nas práticas dos processos de ensino-
aprendizagem. No entanto, o rigor académico não está dependente, exclusivamente,
dos materiais, mas sim das atitudes, competências e estratégias dos professores para a
utilização das TIC na educação.
A utilização das TIC implica maior envolvimento e participação do professor no
planeamento e gestão das actividades e no seu acompanhamento, quer dentro da sala de
aula como meio de desenvolvimento das aprendizagens do aluno, quer a distância, no-
meadamente nas práticas já estabelecidas por alguns docentes na utilização do email para
envio de sugestões de trabalho ou responderem às dúvidas dos alunos, realizando, deste
modo, um novo tipo de acompanhamento das aprendizagens.
As práticas de utilização das TIC na sala de aula têm promovido o desenvolvimen-
to da qualidade das aprendizagens, quer através dos processos colaborativos que se
desencadeiam, quer também através da crescente autonomia e responsabilização do
aluno na realização das tarefas, em particular na pesquisa de informação e na preparação
das apresentações à turma ou à comunidade.
O desenvolvimento do projecto Jovens Repórteres do Ambiente, no âmbito das
actividades da área escola, constitui um exemplo da responsabilização e autonomia dos
alunos que têm de funcionar através da Internet para procurar informação, desenvolver
actividades colaborativas e publicar informação.
Esta prática constitui um meio de desenvolvimento de critérios individuais de se-
lecção da informação, da sua qualidade e relevância para a tarefa em execução. Neste
sentido, é afirmado pelo vice-presidente que: (...) potencialmente a Internet pode fazer

114
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

crescer o processo crítico dos alunos, já que o que lá existe poderá não estar correcto. Igual
percepção é manifestada pelos restantes professores mais directamente envolvidos na
utilização educacional das TIC na sala de aula, os quais sublinham ainda a importância da
dimensão social do grupo de trabalho no qual o aluno está envolvido (...) como meio de
desenvolvimento do pensamento crítico. Por outro lado, a pressão do grupo constitui uma
forma natural de diminuição da utilização marginal das TIC no decurso da realização das
tarefas escolares.
A utilização das TIC surge como um meio de promover a qualidade das aprendi-
zagens, sendo a sua integração curricular uma questão fundamental, em especial quando
se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem numa perspectiva centrada no aluno
e no desenvolvimento da sua autonomia. Neste sentido, é fundamental a reflexão sobre
as estratégias de acompanhamento das aprendizagens nos novos ambientes, para as quais
é necessário o desenvolvimento de novas atitudes e competências da parte dos profes-
sores, tal como é assinalado pelo professor especialista, que refere a pertinência de se
proceder, na fase actual, à formação pedagógica dos professores para a utilização das
TIC.

Equidade
A Sala Nónio e a Biblioteca, em conjunto com as salas dos Clubes Escolares, assu-
mem o principal papel na criação de condições de acesso às TIC para os membros da
comunidade escolar.
A existência, nesta Escola, dos cursos tecnológicos de informática e de comunica-
ção, bem como a turma de currículo alternativo, apresenta à partida uma condição dife-
renciada nas modalidades de acesso aos meios informáticos; para os primeiros, trata-se
de uma condição natural do próprio curso; para os segundos, é uma forma de ultrapassar
as dificuldades de aprendizagem deste grupo, baseada numa abordagem centrada no
maior acesso às TIC e nas suas utilizações enquanto ferramentas para os processos de
aprendizagem. Para estes, o acesso privilegiado constitui uma forma de atenuar as dife-
renças com que chegam à Escola.
No entanto, a Escola demonstra uma forte consciência dos problemas decorren-
tes das condições gerais de acesso às TIC, procurando criar condições de igualdades de
oportunidade na utilização das tecnologias de informação. Neste sentido, o modelo de
acesso às TIC na Sala Nónio e salas dos clubes escolares (Matemática, Informática e
Ciências), contribuiu de forma inequívoca para a promoção da utilização não formal,
bem como para a utilização integrada nos sistemas regulares de formação da Escola. É
nesta perspectiva que tem vindo a ser promovida a abertura da sala Nónio à comunida-
de, em particular através dos cursos de verão dirigidos não só para os alunos, mas tam-
bém para a comunidade.
A promoção das condições de acesso às tecnologias de informação e comunica-
ção é uma perspectiva central no projecto educativo da Escola, nomeadamente através

115
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

da sala de ocupação dos tempos livres, dotada de recursos informáticos, e no projecto


em concurso para a criação de um novo laboratório de informática dedicado aos alunos
do ensino básico que ficará em rede com as salas actualmente existentes. Ainda no âmbi-
to deste projecto considera-se a colocação de um terminal de acesso à rede em cada sala
da escola.
No que respeita ao domínio das diferenças de utilização entre os alunos mais
favorecidos e os desfavorecidos, as opiniões dos professores referem o factor de dife-
renciação na familiarização com as tecnologias pela parte dos alunos mais favorecidos,
que se traduz num desempenho mais elevado numa fase inicial de trabalho. No entanto,
esta diferença tende para o equilíbrio com a continuidade no âmbito dos programas
regulares de utilização. Por outro lado, alguns professores manifestam que a diferença
entre os dois grupos de alunos se faz sentir no seu desempenho académico, nomeada-
mente porque possuem computador em casa e dispõem de mais tempo de trabalho.
Referem em particular que o facto de não terem limitações de uso se reflecte numa
vantagem na utilização das tecnologias, contrapondo que os mais desfavorecidos (...) têm
menos abertura e isto limita-os e funciona como uma barreira.
No aspecto relativo à diferença de utilização quanto ao género, a opinião dos
professores divide-se, por um lado, na percepção da utilização indiferenciada entre rapa-
rigas e rapazes, e, por outro, na percepção de que os rapazes tendem a assumir uma
atitude mais exploradora na utilização das TIC.

Discussão das Hipóteses


Hipótese 1
A Tecnologia é um importante catalisador das reformas educacionais, especialmente
quando estas envolvem a Internet. A hipótese alternativa é de que quando existe uma verda-
deira reforma em curso, a tecnologia serve apenas como um recurso adicional e não um
catalisador, i.e. que as forças impulsionadoras da reforma, promovem igualmente a aplicação
da tecnologia para solucionar problemas educacionais específicos.

De acordo com os dados recolhidos, a hipótese principal deverá ser aceite, recu-
sando-se a hipótese alternativa. A tecnologia constitui, no presente caso de estudo, o
suporte de desenvolvimento da reforma através da criação de um currículo alternativo
essencialmente suportado pelas tecnologias de informação.
As evidências a favor compreendem: i) a sensibilização do órgão de gestão da
Escola que dinamizou o processo de criação do currículo alternativo para a utilização
educacional das tecnologias; ii) a existência de um pequeno grupo de professores especi-
alistas que garantiu o suporte da iniciativa; iii) a criação de um currículo orientado para a
contextualização das aprendizagens através da utilização intensiva da tecnologia; iv) o
reconhecimento pela comunidade alargada dos professores do impacto da tecnologia no

116
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

desenvolvimento dos processos de aprendizagem, promovendo a difusão na Escola das


práticas de utilização da tecnologia.

Hipótese 2
A difusão da reforma (e consequentemente das TIC) segue o tradicional padrão de
difusão das reformas e inovações descrito por Rogers (1995). A hipótese alternativa é de que
a tecnologia funciona de forma diferente das reformas e inovações tradicionais e que o seu
padrão de difusão tem, por isso, características distintas.

Segundo os dados recolhidos, a hipótese principal deverá ser aceite, recusando-


se a hipótese alternativa. O modelo de difusão da reforma (e das TIC) nesta Escola segue
o padrão de difusão proposto por Rogers (1995), inovação, incerteza, difusão, adopção/
rejeição.
As evidências a favor da aceitação desta hipótese baseiam-se nos seguintes factos:
i) a adopção e difusão da reforma/inovação ter sido resultante da iniciativa e vontade da
Escola; ii) a existência de um grupo de dinamização inicial que influenciou positivamente
a comunidade, actuando sobre as incertezas e inseguranças da comunidade face aos
níveis de complexidade dos projectos (currículo alternativo e inovação com as TIC); iii)
o desenvolvimento de canais de comunicação, no seio da comunidade, através dos quais
foi possível promover o diálogo e o desenvolvimento da consistência das representações
individuais sobre as dimensões e impactos dos projectos em curso nas práticas educativas.
A criação do currículo alternativo está profundamente associada, nesta Escola, ao
desenvolvimento da inovação educacional com as TIC. Neste sentido, o modelo de ori-
entação da criação do currículo alternativo é também um projecto de inovação educaci-
onal com as TIC.
A adesão da comunidade ao processo de implementação da reforma e das TIC
desenvolve-se de forma conjunta, quer no plano do envolvimento dos membros da co-
munidade no processo de reflexão sobre a integração das TIC na educação, quer no
plano da formação para a utilização das TIC na sala de aula. Sublinhamos, no entanto, que
este desenvolvimento é resultante do desempenho dos adoptantes pioneiros (o órgão
de gestão e o grupo de professores especialistas) na adopção da reforma/inovação e nos
processos e canais de comunicação inter-pessoal através dos quais conseguiu criar uma
comunidade de adoptantes na Escola.

Hipótese 3
A implementação eficaz das TIC depende, essencialmente, das competências do pes-
soal docente na integração das TIC na aprendizagem. Esta hipótese assume que a eficácia das
TIC está associada à mediação dos professores e de que o seu valor académico está positiva-
mente relacionado com as competências do professor. A hipótese alternativa é de que a infra-
estrutura tecnológica da Escola e as competências dos alunos, e não as competências do
pessoal docente, em TIC determinam os resultados da implementação das TIC.

117
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Segundo os dados recolhidos, a hipótese principal deverá ser aceite, recusando-


se a hipótese alternativa. A evidência para a aceitação desta hipótese consiste no facto de
que a constituição da turma de currículo alternativo dependeu, essencialmente, da exis-
tência de professores com competências para o desenvolvimento da integração das TIC
no desenvolvimento das aprendizagens.
A criação do currículo alternativo e a sua implementação apresentaram, desde o
início, uma forte componente de inovação nas abordagens educacionais através da utili-
zação da tecnologia, sendo a sua integração na aprendizagem, uma questão fundamental,
em especial quando se desenvolve o processo de ensino-aprendizagem numa perspecti-
va centrada no aluno.
Neste sentido, constitui uma condição para a implementação das TIC o domínio
das competências de utilização e integração das tecnologias nos processos de ensino-
-aprendizagem.

Hipótese 4
Se todos os alunos tiverem acesso idêntico às TIC, as diferenças de desempenho
académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres não deverão aumentar. A hipótese
alternativa é de que em condições de igualdade de acesso às TIC, os alunos mais favorecidos
tenderão a aumentar a diferença de desempenho académico relativamente aos alunos menos
favorecidos (mais pobres).

Os dados recolhidos indicam que se deva proceder à aceitação da hipótese princi-


pal com reservas, não excluindo a hipótese alternativa, baseados no facto de que as
evidências relativas às percepções dos professores não são unânimes para as hipóteses
em discussão. De facto, as evidências sugerem aspectos controversos que passaremos a
apresentar.
Por um lado, as opiniões recolhidas sugerem a não existência de diferenças de
desempenho entre os dois grupos em análise para uma situação de igualdade de acesso
às TIC. Contudo, o acesso em condições idênticas na Escola, para ambos os grupos,
apresenta, segundo a opinião de alguns professores, índices de utilização acentuadamen-
te diferenciados no início, os quais se atenuam e tendem para a uniformização ao longo
do desenvolvimento das actividades. De acordo com esta perspectiva poderíamos vali-
dar a hipótese principal, tendo em consideração que se observa no final do programa de
actividade a não diferenciação nos desempenhos.
Por outro lado, os professores referem também que, apesar da situação de igual-
dade de acesso na Escola, os alunos transportam consigo para a sala de aula um vasto
conjunto de experiências que, no domínio em análise, reflectem claramente a vantagem
de possuírem computador e acesso à Internet a partir de casa. Para estes alunos (os mais
favorecidos), a experiência constitui uma vantagem na utilização em situação escolar,
mesmo quando esta se processa em condições de igualdade de acesso na Escola.

118
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Neste sentido, e de acordo com as opiniões recolhidas, não podemos excluir a


hipótese alternativa, na medida em que a pequena diferença de hoje constituirá a vanta-
gem de amanhã, apesar de tender a ser atenuada na Escola, particularmente quando esta
está empenhada na construção da inovação educacional com as TIC e na criação de
condições de igualdade de acesso.

Hipótese 5
Uma implementação eficaz das TIC conduzirá à manutenção ou aumento dos padrões
académicos apesar da reduzida qualidade de muitos materiais de TIC. Os padrões académicos
são função das expectativas dos professores e da Escola e não do nível dos manuais, dos
materiais de TIC ou outros. A hipótese alternativa é de que a utilização das TIC conduzirá a
uma redução dos padrões académicos na medida em que os alunos irão despender mais tem-
po em pesquisas com benefícios marginais e a navegar em conteúdos da Internet e curriculares
de baixa qualidade.

Os dados recolhidos indicam a aceitação da hipótese principal e a rejeição da


hipótese alternativa. As evidências mostram que o aumento dos padrões académicos
está ligado directamente aos modelos de implementação das TIC, particularmente atra-
vés dos seguintes aspectos: i) as atitudes dos professores na abertura à inovação; ii) as
competências dos professores na utilização e integração das TIC na sala de aula; iii) o
desenvolvimento de estratégias de utilização das TIC no ensino-aprendizagem; iv) o de-
senvolvimento de um pensamento crítico nos alunos para a utilização das TIC como
ferramenta de construção das aprendizagens.
O projecto da turma de currículo alternativo é suportado por toda uma nova
abordagem na concepção, planeamento, gestão e acompanhamento das situações de
aprendizagem com as TIC, sendo a condição de sucesso deste projecto não a existência
dos meios, mas sim as estratégias de utilização desses mesmos meios.
Nesta perspectiva, não são os materiais, mas sim as situações de aprendizagem
que os professores promovem com os materiais que desempenham uma função positiva
no desenvolvimento dos padrões de qualidade do ensino.

5. PROJECÇÕES
Sustentabilidade
A sustentabilidade da reforma/inovação educacional com as TIC nesta Escola de-
pende fundamentalmente da continuidade dos processos de envolvimento e partilha entre
os membros da comunidade de professores, na construção conjunta do pensamento
sobre a inovação, as suas representações e as suas implicações para o desenvolvimento
da educação.

119
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Consideramos também que a sustentabilidade depende de factores específicos


no plano da implementação da reforma como: a disponibilidade dos professores para dar
continuidade a um projecto de trabalho inovador que exige um nível elevado de partici-
pação e envolvimento, quer no acompanhamento individual dos alunos quer também
nos processos de integração dos alunos do currículo alternativo na comunidade escolar;
a capacidade de articular as diferentes fases de desenvolvimento do projecto com as
expectativas da comunidade dos pais.
No plano da inovação educacional com as TIC, a sustentabilidade compreende as
dimensões específicas da sensibilização e formação de uma organização aprendente ori-
entada para a abertura aos ciclos da inovação, à mudança e à avaliação dos seus desem-
penhos.
Merece especial referência, neste sentido, registar que a sustentabilidade do pro-
jecto nesta Escola reside, principalmente, no desenvolvimento de uma organização que
apresenta uma elevada capacidade de auto-formação, através de um processo continua-
do de reflexão, sensibilização e desenvolvimento de competências para a utilização e
integração das TIC nas práticas e processos de educação de acordo com as necessidades
e objectivos dos seus membros. Este projecto surge, assim, fortemente articulado com
as necessidades educativas dos alunos e da comunidade na qual se insere a Escola, pro-
movendo a distribuição da responsabilidade da continuação da mudança por todos os
seus membros.

Disseminação
A possibilidade de transferir os processos de mudança e desenvolvimento educa-
cional está profundamente relacionada com o tipo de envolvimento e participação dos
actores na concretização da mudança, como procuramos apresentar ao longo deste es-
tudo, na medida em que se trata da formação de atitudes e não só da aquisição de
competências para a utilização das TIC. A diversidade de factores que caracterizam este
cenário, não permite definir um modelo de disseminação, mas sim indicadores que po-
derão contribuir para este propósito e que se baseiam nas boas práticas conseguidas por
esta comunidade de professores.
Para além dos aspectos relacionados com a regulamentação da implementação da
reforma, a sua disseminação passa, assim, pela mobilização dos professores para a toma-
da de consciência da função social da Escola na promoção da igualdade no acesso à edu-
cação e ao conhecimento.
Neste sentido, a disseminação da inovação educacional com as TIC passará, como
o fez esta Escola, pela reflexão sobre a importância do espaço e do tempo das aprendi-
zagens para o aluno, ao procurar situar os processos de aprendizagem nos novos espa-
ços de mediação do conhecimento que são proporcionados pelas TIC.

120
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

6. ANEXO A
A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo de caso seguiu as
recomendações da OCDE para a condução do processo de investigação.
A equipa foi constituída por cinco investigadores, membros do Centro de Com-
petência da Universidade do Minho.
A selecção da Escola foi realizada de acordo com os critérios definidos no manual
de investigação, tendo sido efectuada uma visita preliminar para apresentação dos mem-
bros da equipa e dos objectivos do estudo, familiarização com o ambiente da Escola e
organização do plano de trabalho em coordenação com o conselho executivo.
O trabalho de campo decorreu no início de Janeiro de 2001 tendo sido recolhidos
dados através de entrevistas semi-estruturadas à direcção da Escola, a professores, alu-
nos e pais, questionários aos professores, formulários de observação de aulas e formulá-
rios de observação fora da sala de aula. Foram recolhidos, também, documentos relati-
vos aos trabalhos dos alunos, bem como o registo fotográfico das actividades dos alunos
na sala de aula, laboratórios e nos espaços exteriores da Escola. Os dados recolhidos
foram inventariados, classificados e organizados de acordo com a matriz constante no
manual de investigação da OCDE.
Foram realizadas entrevistas com o representante da direcção da Escola, dois
especialistas em tecnologias, seis professores, sete alunos, dois pais, recolhidos 40 ques-
tionários aos professores e observadas três aulas dos professores entrevistados.
As entrevistas aos professores e representante da direcção foram realizadas indi-
vidualmente, com o tempo médio de 1h30, variando a sua duração entre uma e duas
horas. As entrevistas aos alunos tiveram a duração média aproximada de 45 minutos. As
entrevistas aos pais tiveram a duração média de uma hora cada.
Todas as entrevistas foram registadas integralmente em formato áudio digital, ten-
do sido elaboradas também notas de entrevista, com o recurso a um computador
portátil.
Os materiais complementares da Escola e dos trabalhos dos alunos foram
inventariados e estão disponíveis na Internet a partir do site http://minerva.uevora.pt/
ocde/povoalanhoso/

121
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

7. ANEXO B
Resumo dos questionários aos Professores
Até que ponto se sente confortável a realizar as seguintes actividades no computador?
(% de professores)

Muito Algo Nada


Confortável
Confortável Confortável Confortável

1. Escrever um artigo 73,8 19,0 7,2 0,0

2. Pesquisar informação na World Wide Web 31,0 28,6 23,8 16,6

3. Criar e manter páginas da Internet 9,5 14,3 11,9 64,3

4. Utilizar uma base de dados 19,5 17,1 31,7 31,7

5. Desenvolver uma base de dados 9,5 9,5 26,2 54,8

6. Enviar e receber correio electrónico 35,7 23,8 16,7 23,8

7. Escrever um programa 7,1 7,2 11,9 73,8

8. Desenhar uma imagem ou diagrama 31,0 21,4 23,8 23,8


9. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou 22,0 17,0 29,3 31,7
equivalente)

Em que medida são importantes, para a sua leccionação, cada uma das seguintes capacidades
relacionadas com o uso de computadores?
(% de professores)

Muito Nada
Importante +/- importante
Importante importante

10. Escrever um artigo com um processador de texto 61,9 28,6 7,1 2,4
11. Procurar informação na Internet 38,1 45,2 14,3 2,4
12. Criar páginas da Internet 7,1 26,2 38,1 28,6
13. Utilizar uma base de dados 14,6 31,7 36,6 17,1
14. Desenvolver uma base de dados 9,5 28,6 42,9 19,0
15. Enviar e receber correio electrónico 9,6 33,3 35,7 21,4
16. Escrever um programa 7,5 17,5 22,5 52,5

17. Desenhar uma imagem ou diagrama com um


42,9 33,3 14,3 9,5
software de desenho/graficos

18. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint


39,0 31,7 24,4 4,9
ou equivalente)

122
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Em média, com que frequência os seus alunos estiveram envolvidos nas actividades a seguir indicadas
como parte dos trabalhos que lhes atribuiu durante o último ano escolar?
(% de professores)

Várias vezes Várias vezes Algumas


Nunca
por semana por mês vezes
19. Utilizar a World Wide Web 9,7 4,9 43,9 41,5
20. Criar páginas da Internet 0,0 2,4 11,9 85,7
21. Enviar e receber correio electrónico 2,5 7,5 20,0 70,0
22. Utilizar um programa de processamento de texto 17,1 14,6 51,2 17,1
23. Utilizar um computador para jogar jogos 0,0 2,4 36,6 61,0
24. Utilizar uma folha de cálculo 4,9 7,3 24,4 63,4
25. Utilizar um programa de gráficos 0,0 7,3 24,4 68,3
26. Aderir a um fórum de discussão ou chat room 0,0 4,8 9,8 85,4
27. Utilizar um programa de apresentações (ex.:
2,5 5,0 25,0 67,5
PowerPoint)
28. Utilizar um programa educativo (incluindo
0,0 0,0 36,8 63,2
simulações)
29. Outras utilizações do computador (especifique) 17,4 4,3 8,7 69,6

(% de professores)

Bom Razoável Fraco


30. Como classificaria a sua capacidade de utilização
0 0 0
de computadores?

(% de professores)

Sim Não
31. A utilização de computadores por parte dos alunos foi
34,1 65,9
alguma vez considerada na avaliação?

(% de professores)

Apenas as
S/restrições Alg/restrições
indicadas
32. Se pediu aos seus alunos para pesquisar a World Wide
Web, qual o grau de liberdade que lhes deu para 32,0 44,0 24,0
navegar na Internet?

(% de professores)

Sim Não
33. Criou ou modificou alguma página de Internet com
7,5 92,5
alguma das suas turmas?

123
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

(% de professores)
Totalidade Maioria Alguma Muito pouca
34. Que parte da utilização do computador nas suas 17,6 14,8 32,4 35,2
aulas esteve directamente relacionada com o
conteúdo do curso?

35. Que parte da utilização do computador que atribui 12,2 21,3 39,3 27,2
aos alunos foi feita individualmente?

(% de professores)
Várias X Várias X mês Algumas X Nunca
semana
36. Com que frequência utilizou o computador em 56,1 26,8 17,1 0
casa para preparar as suas aulas?

(% de professores)
Sim Não
37. Alguma vez participou como estudante ou formador num 19,1 80,9
curso virtual através da Internet/World Wide Web?
38. Alguma vez envolveu os seus alunos em aprendizagem 0 100
colaborativa através da Internet/World Wide Web com alunos
de outras turmas?
39. Utiliza actualmente tecnologia para colaborar com outros 28,5 71,5
professores (chat rooms profissionais, fóruns, ou outros)?

(% de professores)
> 11 6_11 1_5 0
40. Quantas mensagens de correio electrónico
envia em média por semana? 9,5 4,8 38,1 47,6
recebe por dia? 4,2 48,2 47,6

Frequências
1-10 11_20 21_30 31_40 41_50 >50
41. Fez altearções ao hardware de um computador? 6 1 2
42 Fez uma actualização progr. Informático? 7 1 3
43. Recuperou ficheiro danificado? 9 1 1 3
44. Criou uma página da Internet? 13 1 1
45. Desenvolveu uma base de dados? 6 4

8. ANEXO C
Informação complementar relativa aos currículos alternativos, materiais recolhi-
dos durante esta investigação, documentos relativos ao Projecto Educativo da Escola e
ao projecto Nónio da Escola, e ainda ao link para a página da Escola, estão disponíveis na
Internet no endereço http://www.minerva.uevora.pt/ocde/povoalanhoso/

124
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a


Qualidade das Aprendizagens

Estudos de Caso em Portugal

Escola Básica 2º e 3º ciclos de Santa Clara


Évora, Portugal

José Luís Pires Ramos (Coordenador)


Manuela Bacelar do Carmo

Centro de Competência Nónio da Universidade de Évora

125
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

126
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

1. RESUMO

A sala da Biblioteca da Escola estava literalmente apinhada de pessoas: alunos, mui-


tos alunos, professores e também muitos pais. A azáfama era grande: câmaras de
vídeo, microfones, equipamento de videoconferência, técnicos e um emaranhado
de fios compunham o cenário daquela manhã de Junho do ano dois mil. Numa mesa,
decorada com flores e que as câmaras teimavam em mostrar, estava o Guilherme,
vestido com o seu melhor fato. Sempre muito apoiado pelas professoras, e muito
compenetrado da responsabilidade, o Guilherme estava preparado para iniciar a pri-
meira sessão do Parlamento Virtual dos Jovens.
A sessão iniciou-se com as intervenções da Coordenadora do Projecto, seguindo-se
o Senhor Ministro da Educação. Depois das primeiras intervenções, chegou a sua
vez: “ Tem a palavra o Senhor Deputado Guilherme Silva, da Escola EB2/3 de Santa
Clara em Évora. Seja bem-vindo a esta Assembleia.” O Guilherme, puxou cuidado-
samente o microfone para mais perto e iniciou a sua intervenção. “ É com muita
honra que me dirijo a V.Ex.ª em representação da minha Escola ... . O tema da
minha intervenção é qualidade do ensino.... .
Diário do Investigador, Évora, Escola Santa Clara, no dia 6 de Junho na sessão do
projecto “ O Parlamento das Crianças e dos Jovens: a Escola e a Assembleia 2000”.

A reforma que constitui uma das dimensões fundamentais deste estudo, designa-
-se por Gestão Flexível dos Currículos (GFC) e tem como finalidades: introduzir uma
mudança gradual na organização, orientação e gestão das escolas do ensino básico, visan-
do a construção de uma escola mais humana, criativa e inteligente, com vista ao desen-
volvimento integral dos seus alunos; a criação de condições para que os alunos realizem
mais e melhores aprendizagens, numa perspectiva de desenvolvimento de competências
à saída do Ensino Básico; o desenvolvimento profissional dos docentes e da sua capacida-
de de tomada de decisões em áreas chave do currículo, adoptando, sempre que possível,
estruturas de trabalho colegial entre professores; uma maior implicação da comunidade
educativa no desenvolvimento conjunto de projectos educativos e culturais que visem
uma maior qualidade e pertinência das aprendizagens. A GFC tem como inovação prin-
cipal a introdução de novas áreas curriculares não disciplinares: o Estudo Acompanhado,
o Projecto Interdisciplinar e a Educação para a Cidadania.
A Escola aderiu, no ano lectivo de 97/98, à fase experimental relativa à “Gestão
Flexível dos Currículos” e, numa fase inicial, abrangeu apenas duas turmas do 5º ano de
escolaridade, tendo sido, no ano lectivo seguinte, alargado a todas as turmas do 5º ano.
Em 99/2000 estavam abrangidas todas as turmas do 2º ciclo (5º e 6º anos de escolarida-
de). No ano lectivo 2000/2001 estão também abrangidas todas as turmas do 7º ano de
escolaridade.

127
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Os impactos, nos alunos, parecem fazer sentir-se principalmente na diminuição


da carga horária semanal, na melhoria no clima social na sala de aula, na maior diversida-
de das actividades de aprendizagem na Escola e na possibilidade de aquisição de técnicas
de estudo e de auto-aprendizagem. Parece também que a reforma, de acordo com os
professores, ajuda mais os alunos com menor capacidade de aprendizagem, sobretudo
ao nível do Estudo Acompanhado, enquanto aos alunos com maiores capacidades, a
reforma proporciona novas oportunidades de enriquecimento, especialmente na Área
de Projecto.
Em certa medida os alunos são beneficiados pela reforma devido ao facto de esta
se centrar no aluno, apelar à sua participação activa (e responsável) e ser criada uma
situação propícia à introdução de novas metodologias, por força da nova organização dos
tempos, espaços e recursos.
As TIC são perspectivadas e utilizadas pelos professores como um importante
instrumento de trabalho pessoal, uma importante fonte de informação, em especial a
Internet, e um factor de motivação adicional relativamente à participação dos alunos nos
processos de ensino-aprendizagem. As TIC são utilizadas pelos professores no trabalho
com os alunos sobretudo na aquisição e desenvolvimento das novas competências
cognitivas, sociais e relacionais, e como forma de melhorar a qualidade dos materiais
didácticos produzidos.

2. PASSADO
Esta Escola, fundada em 1979, iniciou o processo de integração das TIC no ano de
1986, por iniciativa de 4 professores, que criaram um clube de informática (ainda hoje a
funcionar).
O envolvimento desta Escola em contextos/projectos inovadores, como “A Esco-
la Cultural” e o “Projecto MINERVA”, contribuíram para a criação de uma nova dinâmica
nas actividades desenvolvidas e, no caso do Projecto MINERVA, foi determinante para as
TIC.
A equipa que assegurou a implementação das TIC neste local era constituída por
um pequeno grupo de professores, que se manteve mais ou menos estável.
No ano lectivo 1996/97 foi instalado, na Biblioteca da Escola, pelo Programa Naci-
onal “Internet na Escola” (da responsabilidade do Ministério da Ciência e Tecnologia) um
computador multimédia com ligação RDIS gratuita à Internet e procedeu-se à instalação
de uma outra ligação à Internet através de uma assinatura à Telepac. Ainda nesse ano (e
em anos subsequentes) a Escola desenvolveu alguns projectos do Programa Ciência Viva
(Ministério da Ciência e Tecnologia). No triénio 1997/00 desenvolveu um projecto de
aplicação das TIC em Educação no âmbito do Programa Nónio (da responsabilidade do
Ministério da Educação) e, em 2000, participou na iniciativa “Hannover – Portugal
(D)escrito pelos seus Jovens” e ainda num evento de grande alcance e significado em

128
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

resultado de um protocolo entre o Ministério da Educação e a Assembleia da República,


com o apoio da uARTE do Ministério da Ciência e Tecnologia designado “ A Escola e a
Assembleia 2000”. No âmbito deste projecto, a Escola participou na iniciativa “ O Parla-
mento das Crianças e dos Jovens: a Escola e a Assembleia” . Pela primeira vez a voz dos
membros desta comunidade escolar foi representada no Parlamento por um cyber-de-
-putado, um aluno desta Escola, através de videoconferência (ver Anexo C).
Os principais obstáculos ultrapassados pela Escola, dizem respeito aos recursos
humanos e materiais, embora a situação actual, no que diz respeito ao desenvolvimento
da Escola no domínio das TIC, esteja ainda longe do que é considerado ideal por profes-
sores e pela direcção. No que diz respeito ao primeiro obstáculo, a Escola desenvolveu
os necessários esforços de modo a que os professores tivessem acesso à formação con-
tínua, quer seja na área das TIC, quer seja em outras áreas. A Escola procurou ainda
garantir a colaboração de professores, ou com horário incompleto ou com horário zero,
de um funcionário na biblioteca com formação adequada, assegurar a manutenção dos
equipamentos e recorreu ainda a estagiários dos cursos técnico-profissionais para apoio
aos alunos. Este pessoal assegurou o apoio e acompanhamento dos professores e alunos
nas salas de informática e na biblioteca. No que diz respeito aos meios financeiros, a
Escola elaborou e submeteu a aprovação, com frequência, propostas e candidaturas a
projectos e programas de modo a obter os recursos financeiros necessários ao desen-
volvimento das actividades.

3. PRESENTE
Esta é uma Escola do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico da rede pública que acolhe
alunos entre os 10 e os 16 anos. É uma Escola urbana, implantada no centro de uma cidade
de média dimensão (cerca de 50.000 habitantes) situada no interior de uma região de
Portugal predominantemente rural e classificada como património mundial pela UNESCO.
A Escola situa-se no interior das muralhas medievais, no centro histórico da cidade, num
edifício que acolheu o antigo Convento de Santa Clara. A arquitectura do edifício condiciona
a sua utilização educativa - é um edifício de três pisos (cujos acessos são feitos através de
várias escadarias) com claustros interiores e em que uma grande parte das salas foram
adaptadas a salas de aula. Há 26 salas de aula, 10 das quais são salas específicas das áreas de
Ciências e de Expressões. Dispõe, ainda, de Sala de Professores, 2 Ginásios, Biblioteca/
Mediateca, Sala de Convívio dos alunos, 8 Gabinetes de Trabalho, Centro de Recursos
Informáticos e Centro de Apoio Educativo. Acolhe crianças e jovens moradores da cidade,
bem como de alguns dos bairros periféricos mais próximos e ainda de Instituições Particu-
lares de Solidariedade Social. A principal ocupação dos pais é na área dos serviços, sendo o
nível sócio-económico dos alunos predominantemente médio.
É uma Escola com 605 alunos (289 rapazes e 316 raparigas) e 79 professores. É
pequena a percentagem de alunos que muda de escola antes do fim do ano (cerca de

129
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

3,8%) e o corpo docente mantém-se estável ao longo do ano. O calendário escolar


compreende 180 dias lectivos. A semana compreende 5 dias lectivos, decorrendo as
actividades com alunos das 8:30 às 17:35 e sendo o número máximo de tempos lectivos
por dia de 8.
A Escola está organizada administrativamente de acordo com o novo modelo de
gestão e é actualmente Escola-Sede do Agrupamento n.º 3 de Évora. Os seus órgãos são
a Comissão Executiva (Instaladora), o Conselho Pedagógico e a Assembleia de Agrupa-
mento de Escolas, que se encontra ainda em fase de instalação. Do ponto de vista da
organização pedagógica, a Escola observa a estrutura por Departamentos, Grupos Disci-
plinares e Conselhos de Turma. Existe ainda o Núcleo de Apoio Educativo com três
professores destacados (1 do 2º ciclo e 2 do 1º Ciclo) que se encontram dependentes da
ECAE (Equipa de Coordenação dos Apoios Educativos). O orçamento da Escola é atri-
buído pelo Orçamento Geral do Estado. Uma outra fonte de recursos provém do finan-
ciamento de projectos a que a Escola habitualmente se candidata. A percentagem do
orçamento da Escola afecto às TIC é de cerca de 2%.
De salientar que esta reforma curricular está a ser progressivamente alargada
quer em termos de mais Escolas do País, quer em termos de anos de escolaridade.

Infra-estrutura de TIC
O número total de computadores da Escola utilizados pelos alunos é de 22. Exis-
tem outros destinados aos professores (3) à Direcção (1) e Administração da Escola (6).
A Escola continua a possuir duas ligações à Internet e tem, actualmente, 8 computadores
ligados a esta rede, todos eles à disposição dos alunos. Os computadores encontram-se
distribuídos por vários locais da Escola: Centro de Recursos Informáticos, Sala dos Pro-
fessores, Salas de Ciências, Sala de Físico-Química, Biblioteca, Comissão Executiva, Se-
cretaria, SASE e Centro de Apoio Educativo. O ratio alunos/computador, tendo em con-
ta apenas os computadores que os alunos utilizam, é de 27,5 alunos por computador.
A estrutura de maior relevo no que diz respeito ao desenvolvimento das TIC no
local é o Centro de Recursos Informáticos que dispõe de diversos computadores ligados
em rede e à Internet, biblioteca de software educativo, impressoras, etc. de acesso livre
a professores e alunos. O Centro de Recursos conta com a colaboração dedicada de
diversos professores experientes na utilização educativa das TIC e com sólida formação
pedagógica.

Eficácia
De acordo com a percepção da administração da Escola, a reforma é eficaz, se
medirmos pelos resultados positivos obtidos até ao momento. A redução do insucesso
escolar é apontado como o indicador mais seguro desta eficácia. Apesar disso a adminis-

130
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

tração considera que esta melhoria carece de consolidação e aprofundamento. Tal ob-
jectivo poderá implicar um maior investimento na formação dos professores, na aquisi-
ção de recursos e na generalização do seu acesso. Um aspecto a sublinhar é a mudança
clara relativamente aos estilos de ensino mais tradicionais “o ensino é agora mais centrado
na pessoa do aluno, mais aberto a novos modos de aprender e de ensinar, novos méto-
dos de trabalho educativo”. É clara e objectiva “uma melhoria no clima social da sala de
aula, resultado de uma relação menos formal e rígida por parte dos professores e por
efeito da flexibilidade na gestão dos tempos, espaços e modos de aprender”. Podemos
facilmente observar que existe hoje, na Escola, uma maior diversidade de estratégias e
actividades de ensino e aprendizagem e tal só pode significar uma mudança nas práticas
pedagógicas docentes, por força de um contexto que faz constante apelo à
interdisciplinaridade, à partilha e à comunicação dos produtos e resultados do trabalho
desenvolvido e ainda, com um carácter bastante inovador, ao apoio mais individualizado
aos alunos, através do Estudo Acompanhado. O espaço aberto pela reforma representa
um convite à imaginação e à criatividade de professores e alunos, nesta Escola, apesar de
todas as dificuldades. Mas isto é difícil de medir em termos de eficácia, sobretudo quan-
do os professores não têm tempo de fazer tudo o que desejariam .
Do ponto de vista dos professores, a reforma é sobretudo muito eficaz com os
alunos que habitualmente teriam mais dificuldade de aprendizagem. Os alunos com mais
capacidades também beneficiam porque dispõem de mais oportunidades de aprendiza-
gem e enriquecimento, pela facilidade com que é possível definir e solicitar novas tarefas
mais ajustadas às suas capacidades. “ Não é preciso estarmos todos a fazer a mesma
coisa ao mesmo tempo.”
A flexibilização parece constituir a “pedra angular” desta reforma – “Gestão Flexí-
vel do Currículo”. As mudanças introduzidas permitiram: flexibilizar os métodos de tra-
balho, as estratégias, a gestão dos espaços, os tempos de aprendizagem, as oportunida-
des, etc.
Apesar de tudo, a introdução de mudanças com esta amplitude provocam algu-
mas dificuldades que, de certa forma, podem contribuir para uma maior ou menor eficá-
cia da reforma: uma maior sobrecarga de trabalho para os professores (94 % dos profes-
sores da Escola estão envolvidos na reforma); dificuldades de adaptação de alguns dos
intervenientes a situações novas (por exemplo, a introdução recente de aulas com a
duração de 90 minutos); dificuldades de adaptação ao trabalho em parceria entre profes-
sores (nas áreas onde estão dois professores em sala, simultaneamente, como é o caso
do Estudo Acompanhado e da Área de Projecto); as novas situações criadas pela reforma
implicam uma nova cultura de trabalho baseada no diálogo constante e na negociação,
abertura para enfrentar, de forma partilhada, as responsabilidades na resolução de pro-
blemas práticos do quotidiano.

131
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Quadro – Características da Escola


Nome da Escola E.B. 2,3 de Santa Clara
Endereço R. de Santa Clara, nº 2 7000-517 Évora
Telefone 266 707329
Fax Fax: 266 743303
e-mail stclara@mail.telepac.pt
Web http://www.minerva.uevora.pt/stclara/
Pessoa de contacto Antónia Ilhéu
Número total de professores 79
N.º de professores - reforma 75
Número total de alunos 605
N.º de alunos na reforma 451
Infra-estrutura de TIC
n.º total de computadores 32 (8 ligados à Internet)
salas c/ TIC 6
acesso à Internet 2

4. PRINCIPAIS HIPÓTESES
Padrões de difusão
Trata-se de um modelo de inovação centralizado, em que os processos de decisão
se encontram quase todos fora da Escola e a adopção faz-se por “imposição” externa,
relativamente aos utilizadores.
De acordo com os dados, podemos encontrar professores muito entusiasmados,
moderadamente entusiasmados e mais cépticos ou mesmo resistentes; estes últimos
são, em geral, professores com estilos de ensino de tipo tradicional.
Referem ainda que a reforma trouxe novas exigências e novos problemas (a ne-
cessidade de recursos, formação dos professores, gestão dos espaços e dos tempos de
trabalho); novos desafios à profissão docente como a aquisição e desenvolvimento de
novas competências e capacidades (pesquisa, selecção, organização e crítica de informa-
ção), capacidade de inovação na produção de materiais didácticos de apoio aos proces-
sos de ensino-aprendizagem, capacidade de confronto com as novas fontes de informa-
ção e capacidade para adoptar novos papéis e funções na Escola.
As vantagens mais assinaladas pelos professores são sobretudo as relacionadas
com a possibilidade de desenvolver trabalho pedagógico em parceria, (para contrabalan-
çar o isolamento tradicional do professor); a reforma facilita a “entrada” e a adopção de
inovações, tomado este termo no sentido de “novos modos de trabalho educativo”, e o
recurso a metodologias mais activas e participativas.

132
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Os professores consideram as áreas curriculares introduzidas como inovadoras. A


área de Educação para a Cidadania é considerada necessária para a formação integral do
aluno; a área de Estudo Acompanhado é sobretudo importante nos primeiros anos ( 5º e
6º anos) e a Área de Projecto é fundamental, em todos os níveis de escolaridade.
No entanto, sublinham que esta Escola tem condições para acolher positivamente
esta reforma porque é uma Escola onde se respira uma “cultura de projecto”, isto é,
desde há muito tempo que se desenvolvem projectos nos mais variados sectores,
sedimentando hábitos de interdisciplinaridade entre os professores.
As principais dificuldades relacionam-se com o aumento do volume de trabalho
para alguns dos professores (o sistema não prevê mecanismos de recompensa); dificul-
dades na avaliação da aprendizagem, pois alguns dos professores consideram que a no-
vas abordagens e novas experiências curriculares deveria corresponder novo regime de
avaliação; para alguns professores a reforma propõe inovações mais na forma do que no
conteúdo; os programas são praticamente os mesmos, o que é abandonado é o sistema
de organização dos tempos e modos de aprendizagem, o que, tendo as suas virtualidades,
não parece satisfazer completamente alguns dos professores.
De acordo com os professores desta Escola, a utilização inovadora das Tecnologias
de Informação e Comunicação na reforma é realizada com êxito, embora de forma limi-
tada, por um grupo de professores e predominantemente na Área de Projecto.
Para a larga maioria dos professores, as TIC são principalmente utilizadas na pers-
pectiva do computador como um instrumento de trabalho, com maior predominância
fora da sala de aula (Centro de Recursos Informáticos) e com menos frequência na sala
de aula. Esta utilização está longe de ter um carácter sistemático e caracteriza-se pela
utilização do processador de texto (com muita frequência), da Internet e ainda do cor-
reio electrónico (e-mail), embora com menor frequência.
O pequeno grupo de professores que dinamiza e dá apoio aos outros professores
e aos alunos, o apoio da direcção da Escola e a infra-estrutura (Centro de Recursos
Informáticos), desempenham um papel fundamental no que diz respeito à importância
das TIC na reforma e à forma como as novas tecnologias são difundidas e adoptadas
pelos outros membros da Escola.
O impacto das TIC nos processos de ensino-aprendizagem, ao nível da reforma,
resulta essencialmente da possibilidade de utilizar o computador como instrumento de
trabalho e como fonte de informação e, menos vezes, como meio de comunicação. A
vontade, disponibilidade e competência do professor são os factores essenciais no suces-
so da utilização das TIC na reforma.

Valorização e envolvimento do pessoal docente


No que diz respeito à valorização e envolvimento do pessoal docente no quadro
da reforma, a Escola, através do Ministério da Educação, promoveu acções de formação

133
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ao pessoal docente envolvido na Gestão Flexível dos Currículo. A oferta de formação foi
realizada através dos centros de formação de professores e tem vindo a contribuir para
valorização profissional dos docentes. Esta intervenção, no entanto, parece ser insufici-
ente, quer no que diz respeito aos conteúdos e temáticas das acções, quer quanto ao
número de professores envolvidos nas acções.
Identificadas foram, também, algumas medidas que podem, de acordo com os
professores, aumentar a eficácia da reforma: a) aumentar e melhorar a informação e a
formação de professores em temas relacionados com a qualidade da intervenção do
professor no quadro da GFC (reforma), nomeadamente, na avaliação de aprendizagem,
metodologia de projecto, educação multicultural, educação para a cidadania, área das
TIC e sua integração curricular, e não apenas na utilização curricular; b) disponibilizar
recursos humanos e materiais para as exigências da reforma, c) clarificação dos objecti-
vos da reforma aos professores, alunos, pais e comunidade educativa, estimulando um
maior envolvimento e participação de todos.
No que respeita à valorização do pessoal docente no domínio das TIC, uma gran-
de maioria dos professores utiliza, embora de forma limitada, as TIC na sua actividade
profissional. Entre 80 a 90 % destes professores, usam-nas para redigir trabalhos no
computador, produzir materiais didácticos, desenhar pequenas apresentações e ainda
como fonte de informação (Internet) e comunicação (e-mail), embora a utilização das
TIC como meio de comunicação apresente menor expressão (cerca de 98 % dos pro-
fessores inquiridos assinala que não envolveu os seus alunos em actividades de aprendi-
zagem com outros alunos de outras turmas ou escolas).
Note-se que, em resultado do inquérito administrado, 84% dos professores sen-
te-se muito confortável ou confortável a escrever um artigo e quase 50% dos professo-
res utiliza o computador, em casa, para preparar as suas aulas, enquanto 65% dos pro-
fessores não envia mensagens de correio e 69% simplesmente não recebe mensagens.
Estes dados mostram que a principal utilização dos computadores é na preparação das
aulas e na produção de materiais de apoio, aspecto em que os professores se sentem
muito confortáveis.
Neste sentido não é de estranhar que, em muitos casos, as TIC sirvam essencial-
mente como ferramentas de trabalho pessoal dos professores, enquadradas no âmbito
de projectos, iniciativas e actividades fora da sala de aula. Este facto mostra que, no
essencial, as TIC constituem um instrumento de trabalho importante no quadro da pro-
fissão docente, mas estão ainda longe de chegarem à sala de aula. A meta é que os alunos
tenham acesso às ferramentas da sociedade da informação de forma sistemática e gene-
ralizada e no contexto do seu ethos: a sala de aula.
As estratégias de formação do pessoal docente são resolvidas através da frequên-
cia de cursos ou acções apoiadas pelo FOCO- PRODEP II ( programa de formação con-
tínua de professores apoiado pelo Fundo Social Europeu, agora enquadrado no novo
programa do quadro comunitário de apoio (Q. C. A. III) através do PRODEP III Progra-

134
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

ma de Desenvolvimento da Educação em Portugal). Apesar de tudo a procura e necessida-


de de formação é claramente superior à oferta, pelo que muitos professores recorrem à
auto-formação e auto-estudo no sentido de ultrapassar as dificuldades neste domínio.
Nesta Escola o apoio prestado pelos colegas que fazem parte do pequeno grupo
de professores que se dedica mais às TIC na Escola, tem sido fundamental. Na perspec-
tiva dos professores, a oferta de formação é insuficiente, até pela simples razão dos
programas informáticos evoluírem muito rapidamente. A auto-formação e auto-apren-
dizagem tornam-se, assim, estratégias de actualização essenciais.
A Escola tem igualmente uma relação privilegiada com a universidade local que
procura, através de programas de formação e do acompanhamento de projectos, contri-
buir para o desenvolvimento da Escola neste domínio. Em colaboração com o Centro de
Competência Nónio Século XXI da Universidade de Évora, muitos dos professores
desta Escola têm frequentado cursos e acções de formação neste domínio. A colabora-
ção em projectos educativos na área das TIC tem igualmente constituído um contributo
positivo, possibilitando novas oportunidades de aprendizagem a professores e alunos.

Papel de liderança
As características da reforma em análise neste local condicionam o fenómeno da
liderança e o seu eventual papel. A reforma, enquanto mudança decidida e planeada no
exterior da escola, merece o envolvimento determinado da Direcção da Escola, caben-
do a esta o papel de liderança, por força da sua posição de poder dentro da Escola. As
decisões de implementação relativas ao ajustamento da reforma à circunstância de cada
Escola passam, em grande parte, pela direcção da Instituição: definição de prioridades,
gestão de recursos humanos e materiais, espaços, equipamentos, etc. .
No entanto, de acordo com a administração, não existe uma liderança propria-
mente dita, uma vez que a reforma é assumida por toda a Escola. Sendo a direcção da
Escola exercida por órgão colegial, a responsabilidade é partilhada por todos.
No que diz respeito à liderança no quadro do desenvolvimento das TIC na Escola,
um grupo de professores desempenha, no quotidiano da Escola, um conjunto múltiplo
de papéis que configuram um fenómeno de liderança partilhada. Este grupo presta assis-
tência técnica e pedagógica aos professores e alunos, lidera a formulação de propostas e
projectos neste domínio (desde a fase da concepção, redacção da proposta, execução
do projecto e avaliação) e mantém uma colaboração com a direcção da Escola.
Este grupo é reconhecido, na Escola, como o “grupo das TIC”; é um grupo com
larga experiência, recolhida nos vários projectos em que a Escola se envolveu, desde o
Projecto Minerva ao mais actual Programa Nónio. Os resultados, embora positivos, es-
tão longe de satisfazer estes professores que gostariam de ver em maior destaque a
questão do desenvolvimento das TIC na Escola. As horas que dedicam à ajuda aos outros
professores e alunos ultrapassam as que lhes são atribuídas no seu horário de trabalho.

135
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Quando interrogados sobre esta questão afirmam que não se sentem como líde-
res, apenas se consideram mais experientes e conhecedores neste domínio, precisando,
mesmo assim, de mais formação para poderem melhorar a sua capacidade de resposta.
Salientam que, apesar de tudo, têm o apoio incondicional da direcção da Escola e
só com este apoio foi e é possível fazer pouco, mas bem, aquilo que se faz neste campo.
No entanto, o “pequeno passo decisivo” que constitui a utilização das TIC no
apoio aos processos de ensino-aprendizagem na sala de aula, parece, a este grupo de
professores, bem mais difícil de alcançar e generalizar a sua prática. E as razões são
conhecidas: na escola faltam recursos (humanos, materiais e financeiros) e formação de
professores, incluindo aos professores mais novos ou recém-chegados à Escola. Se jun-
tarmos a este quadro a natural resistência de uma parte dos professores, dificuldades na
organização do espaços (turmas grandes e salas pequenas), temos um cenário que ape-
nas poderá ser modificado com uma forte aposta estratégica neste campo.

Ligações TIC-Reforma
No que diz respeito a um dos problemas centrais desta investigação, parece exis-
tir uma ligação moderada entre a reforma e as TIC. Estas ligações parecem existir em
ambos os sentidos. Por um lado, a GFC (reforma) beneficia da existência e do uso das
TIC, nomeadamente através do trabalho desenvolvido no Centro de Recursos
Informáticos que serve de suporte logístico e humano. Os professores que dão apoio a
este centro acabam por desempenhar um papel de dinamizadores da própria reforma.
Este apoio manifesta-se, essencialmente, na área do Projecto Interdisciplinar e, mais pon-
tualmente, no Estudo Acompanhado. As TIC desempenham sobretudo um papel de
ferramenta de trabalho pessoal, fonte de informação e instrumento de apoio ao desen-
volvimento de competências investigativas e comunicacionais dos alunos.
A Área de Projecto Interdisciplinar parece ser a área da reforma onde as TIC são
mais solicitadas e utilizadas pelos alunos.
Exemplos de actividades são o acesso à informação através da Internet, redacção
e apresentação de trabalhos realizados pelos alunos; trabalho de grupo (trabalho dirigido
e trabalho livre) e preparação de materiais didácticos por parte dos professores.

Estas iniciativas são igualmente enquadradas na reforma da Gestão Flexível do


Currículo, que prevê que “as áreas curriculares não disciplinares devam ser desenvolvi-
das em articulação entre si e as áreas disciplinares, incluindo uma componente de traba-
lho dos alunos com as Tecnologias da Informação e da Comunicação”. No entanto, tudo
depende das condições das escolas e das opções dos professores.

136
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Rigor Académico
Os resultados escolares, num contexto de escolaridade obrigatória ganham ne-
cessariamente um significado muito específico. Em Portugal, algumas dezenas de milha-
res de alunos abandonam a escola, antes de terminar a escolaridade básica obrigatória.
Este facto é uma preocupação nacional e tem conduzido a diversas iniciativas e progra-
mas apoiados pelo Estado Português (PIPS e Currículos Alternativos, entre outros). Nes-
te contexto, a avaliação não tem o sentido tradicional da avaliação sumativa, da classifica-
ção dos alunos para eventual selecção, mas sim um sentido e uma finalidade claramente
formativa. Este é um aspecto central na apreciação do rigor académico como resultado
da reforma.
Os procedimentos de avaliação são essencialmente testes, exercícios e trabalhos
realizados pelos alunos, individualmente ou em grupo. A participação na aula e a assidui-
dade são igualmente elementos a levar em linha de conta.
Será de sublinhar que alguns dos professores referem dificuldades na avaliação da
área da reforma, por esta estar mais centrada em processos do que em produtos e, pelo
contrário, o sistema tradicional de ensino estar mais orientado para os produtos e con-
teúdos.
No quadro seguinte, relativo ao ano lectivo 1999/2000, podemos observar o
número de alunos aprovados, retidos e a percentagem de retenções.

Quadro 1 – Alunos aprovados, retidos e percentagem de retenção no ano


lectivo de 1999/2000

Ano Total de alunos Número de Percentagem de


Académico aprovados alunos retidos retenções

5º ano 172 28 16

6º ano 168 15 9

7º ano 81 23 28

8º ano 81 12 15

9º ano 78 9 12

De acordo com a direcção da Escola, um dos indicadores que constitui evidência


é a diminuição do insucesso escolar na Escola, nos níveis abrangidos pela reforma, embo-
ra seja difícil estabelecer uma relação de causa-efeito entre a reforma e estes dados.
Para dar um exemplo, os resultados dos alunos da Escola nas disciplinas de Mate-
mática e Língua Portuguesa em dois níveis representativos, foram os seguintes:

137
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Quadro 2 - Alunos com resultados positivos no primeiro período do ano


lectivo 2000/2001
Anos Situação Língua Portuguesa Matemática

6º ano reforma 80 % 73 %

9º ano não reforma 78 % 54 %

Por outro lado, na Escola podem facilmente ser identificados um conjunto alarga-
do de factores envolvidos na reforma, o que torna difícil a associação entre um factor,
isolado dos restantes, e os resultados obtidos. Acrescente-se, ainda, um contexto de
mudança e teremos um cenário de grande complexidade para avaliar esta dimensão do
problema.
Neste sentido, e até que sejam realizados estudos mais aprofundados sobre este
aspecto, permanece um escasso conhecimento sobre os impactos da reforma e da utili-
zação educativa das TIC e o rigor académico.

Equidade
A direcção e os professores revelam preocupações profundas com os aspectos
sociais intrinsecamente envolvidos na função da Escola e na função docente.
O acesso às ferramentas da sociedade da informação e do conhecimento não
constitui, por isso, excepção a esta atitude dos Professores e da Escola. Neste sentido
procuram, por todos os meios, proporcionar condições de equidade no acesso às TIC,
através de diversas estratégias.
Uma delas, e apesar do seu número limitado, tem a ver com a distribuição dos
computadores pelos vários espaços da Escola: Centro de Recursos Informáticos, Sala
dos Professores, Salas de Ciências, Sala de Físico-Química e Biblioteca, permitindo um
acesso distribuído e, deste modo, abranger um maior número de alunos.
Uma segunda estratégia assenta na promoção e apoio, na Escola, a estruturas e
espaços de ocupação dos tempos livres e actividades extra-curriculares para os alunos:
Clube de Informática e Laboratório de Multimédia que funcionam, cada um, 2 horas por
semana, sendo frequentados livremente pelos alunos, acompanhados de professores que
dinamizam as actividades.
Uma terceira condição diz respeito ao acesso ao Centro de Recursos Informáticos
de modo a garantir a sua utilização por parte de professores e alunos, de forma indepen-
dente (desde que este não esteja ocupado com aulas ou outras sessões), durante o horá-
rio lectivo.
Neste Centro de Recursos, os apoios vêm também da parte dos professores que
dedicam muito do seu tempo na assistência a colegas e a alunos e ainda de uma estagiária
do Curso Profissional de Multimédia da Escola Profissional da Região Alentejo e, portan-

138
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

to, com formação em TIC. No caso dos professores, dispõem ainda de computadores e
impressoras na sua sala específica. Na Biblioteca está, igualmente, uma funcionária com
formação em TIC para ajudar os alunos nos trabalhos e tarefas a desenvolver.

Discussão das Hipóteses


Reservamos este espaço para discutir as hipóteses avançadas, com algumas
condicionantes que queremos identificar, à partida, antes da discussão. Algumas das hi-
póteses, nomeadamente as hipóteses 3 e 4, como referimos mais adiante no corpo do
texto, não são, em nosso entender, mutuamente exclusivas, tornando difícil o processo
de tomada de decisão quanto à confirmação ou refutação das hipóteses referidas.

Hipótese 1
A Tecnologia é um importante catalisador das reformas educacionais, especialmente
quando estas envolvem a Internet. A hipótese alternativa é a de que, quando existe uma
verdadeira reforma em curso, a tecnologia sirva apenas como um recurso adicional e não
como um catalisador, i.e., que as forças impulsionadoras da reforma, promovam igualmente a
aplicação da tecnologia para solucionar problemas educacionais específicos.

A análise dos dados recolhidos mostra que esta hipótese não deve ser aceite, mas
sim a hipótese alternativa, i.e., a tecnologia é utilizada apenas como um importante re-
curso adicional e não como catalisador da reforma em curso nesta Escola.
Os dados que suportam a hipótese alternativa são sobretudo dois: o primeiro diz
respeito à natureza da mudança que foi “imposta” à Escola (a reforma) e ao facto desta
ter tido origem e sido instituída a partir de entidades externas e hierarquicamente supe-
riores à Escola, com objectivos e programação prévia. A partir do momento em que a
Escola decidiu aderir ao novo modelo curricular, a participação de todos os professores
tornou-se, na prática, obrigatória. O grau de envolvimento dos professores é, pois, vari-
ável, embora na sua grande maioria tenham adoptado os pressupostos e princípios da
reforma e encontrem nesta, vantagens e soluções para alguns dos problemas do quotidi-
ano da Escola. A sua difusão, quer interna (a outros ciclos de ensino), quer externa (a
outras escolas) não depende da vontade dos intervenientes.
Um segundo dado de suporte à hipótese alternativa tem a ver com a escassez de
recursos em TIC, a escassa proporção de professores que utiliza as TIC no apoio directo
aos processos de ensino-aprendizagem em comparação com a proporção de professo-
res que utilizam o computador como instrumento de trabalho pessoal, o que deixa antever
a sua utilização, essencialmente na produção de materiais de apoio ao trabalho educativo.

Hipótese 2
A difusão da reforma (e consequentemente das TIC) segue o tradicional padrão de
difusão das reformas e inovações descrito por Rogers (1995). A hipótese alternativa é a de que

139
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

a tecnologia funcione de forma diferente das reformas e inovações tradicionais e que o seu
padrão de difusão tenha, por isso, características distintas.

Os dados recolhidos mostram que a hipótese que sustenta que a difusão da refor-
ma segue o tradicional padrão de difusão das reformas e inovações proposto por Rogers
(1995) não pode ser aceite, para este estudo de caso.
E a razão principal diz respeito ao facto da reforma ter sido decidida e planeada
por entidades exteriores à Escola e hierarquicamente superiores. A Escola declarou a
sua adesão a uma fase experimental e implementou as mudanças. Os dados de suporte
revelam que os professores garantem a sua adesão à reforma e implementam as mudan-
ças fixadas no decreto-lei que a regulamenta, com graus de entusiasmo e envolvimento
variáveis. Neste sentido, o modelo de difusão e adopção de inovações não é aplicável a
uma reforma com estas características.
Quanto à hipótese alternativa, ela deve ser aceite, considerando que a reforma e
as tecnologias têm, neste caso, características distintas. Ao contrário da reforma, as TIC
não são impostas por decreto: a sua exposição, adesão, envolvimento e adopção de-
pendem da vontade individual e estão sujeitas a um padrão de difusão compatível com a
proposta de Roger Clarke.
As evidências a favor da hipótese alternativa, residem na história da introdução
das Tecnologias de Informação e Comunicação nesta Escola e no modo como foram e
são progressivamente adoptadas, à medida que a vontade individual dos professores e
directores vai permitindo uma adopção cada vez maior das TIC, como elementos funda-
mentais no trabalho quotidiano da Escola e da profissão docente.
Os canais de comunicação particulares e próprios do padrão de difusão de inova-
ções proposto por Rogers, podem ser observados nesta Escola - funcionam e estão de
facto a conduzir a Escola neste processo de progressiva adopção das TIC pela maioria dos
seus membros. Os dados mostram que muitos dos elementos e características do modelo
de Rogers podem ser observados nesta Escola, no que diz respeito ao uso educativo das
TIC, nomeadamente, o comportamentos dos adoptantes pioneiros (early adopters), a im-
portância dos canais de comunicação interpessoal na fase de persuasão, etc.

Hipótese 3
A implementação eficaz das TIC depende essencialmente das competências do pesso-
al docente na integração das TIC na aprendizagem. Esta hipótese assume que a eficácia das
TIC está associada à mediação dos professores e a que o seu valor académico está positiva-
mente relacionado com as competências do professor. A hipótese alternativa é a de que a
infra- estrutura tecnológica da Escola e as competências dos alunos, e não as competências
do pessoal docente, em TIC determinem os resultados da implementação das TIC.

A hipótese de que a implementação eficaz das TIC depende das competências do


pessoal docente na integração das TIC na aprendizagem deve ser aceite, uma vez que as
evidências recolhidas apontam maioritariamente neste sentido.

140
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

As evidências a favor baseiam-se, sobretudo, na importância do papel mediador


do professor nas intervenções educativas em populações com esta idade, que condicionam
fortemente o nível de autonomia e independência dos alunos. Um exemplo concreto é
que mesmo o Clube de Informática e o Laboratório Multimédia são orientados e coor-
denados pelos professores, o mesmo acontecendo nas actividades curriculares ao nível
da sala de aula, quando se realizam. Os professores desta Escola assumem claramente o
papel mediador neste processo e o potencial das TIC é explorado e valorizado quando
os professores detêm competências neste domínio.
As evidências contra são o reduzido número de computadores na Escola e o re-
duzido número de professores que utilizam as TIC no apoio à aprendizagem ou directa-
mente relacionadas com os conteúdos curriculares: 75% afirma que apenas uma ínfima
parte da utilização do computador na aula esteve directamente relacionada com conteú-
dos do currículo e 98 % não envolveu os seus alunos em aprendizagem colaborativa
através da Internet.
Contudo, a aceitação desta hipótese não exclui totalmente a hipótese rival, sobre-
tudo se levarmos em linha de conta que a infra-estrutura tecnológica e as competências
dos alunos constituem igualmente factores que facilitam ou condicionam positiva ou ne-
gativamente o papel mediador do professor no processo de integração das TIC na apren-
dizagem.
A existência de uma infra-estrutura tecnológica dimensionada de forma a garantir
o acesso ilimitado e generalizado a todos os membros da comunidade escolar, certamen-
te conduziria a uma nova equação destas hipóteses.
Um segundo factor, que teria de ser objecto de estudo mais aprofundado, consis-
te na avaliação das competências em TIC dos alunos. Apenas temos uma vaga ideia,
resultante da observação dos professores, de que alguns alunos, e certamente cada vez
mais, dispõem de computador em casa e que, seguramente, aprendem com a sua utiliza-
ção. Não sabemos o que aprendem, mas sabemos que, daquilo que aprendem, uma
parte levam para a Escola. E levam também a curiosidade para aprender mais e a vonta-
de de utilizar, cada vez mais, estes meios, quer na Escola quer em casa. Qual é a impor-
tância deste factor na implementação eficaz das TIC na aprendizagem? Apenas sabere-
mos através da realização de estudos aprofundados.
Nesta Escola, são cada vez mais frequentes as solicitações, por parte dos alunos,
para usar a Internet, sobretudo como fonte de informação. Da mesma forma é frequen-
te os professores pedirem aos alunos tarefas de pesquisa na Internet, ou pesquisa nas
enciclopédias electrónicas existentes usando os computadores da Biblioteca ou do Cen-
tro de Recursos Informáticos.

Hipótese 4
Se todos os alunos tiverem acesso idêntico às TIC, as diferenças de desempenho
académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres não deverão aumentar. A hipótese

141
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

alternativa é a de que, em condições de igualdade de acesso às TIC, os alunos mais favoreci-


dos tenderão a aumentar a diferença de desempenho académico relativamente aos alunos
menos favorecidos (mais pobres).

A hipótese principal (se todos os alunos tiverem acesso idêntico às TIC, as dife-
renças de desempenho académico entre os alunos mais pobres e os menos pobres não
deverão aumentar) deve, sob certas condições, ser aceite.
De acordo com as informações recolhidas, o acesso aos computadores é idêntico
para todos os alunos, e este facto não se reflecte em diferenças no desempenho académico
entre alunos favorecidos e desfavorecidos.
No entanto, a formulação da hipótese não delimita o contexto onde a hipótese
deve ser observada. Assume-se então que, nesta Escola, de acordo com os professores,
onde o acesso aos computadores é idêntico para todos os alunos, este facto não se
reflecte em diferenças no desempenho académico entre alunos favorecidos e
desfavorecidos.
Mas, e mais uma vez, não está totalmente excluída a hipótese alternativa. E a razão
é que não devem ser ignorados alguns dados do problema: há cada vez mais alunos com
computador em casa e acesso à Internet e esses alunos dispõem de uma vantagem que, se
a Escola não fizer intervenções educativas destinadas aos alunos que delas precisem (no-
meadamente os alunos mais desfavorecidos), irá aumentar as diferenças e não diminuí-las.
O tempo dedicado à tarefa, factor determinante na aprendizagem e sucesso escolar, é,
neste caso, muito favorável a quem já dispõe de computador em casa. Se a curto prazo
esse factor não se faz sentir, até pela idade dos alunos, a médio prazo tal poderá natural-
mente verificar-se, pelo que não é de excluir total e liminarmente a hipótese rival.
Neste sentido, a Escola deverá, por um lado, garantir idêntico acesso às TIC para
todas as crianças e jovens mas, por outro lado, deverá igualmente assegurar a presença
de professores /animadores que possam garantir o adequado acompanhamento dos jo-
vens nas aprendizagens neste domínio.

Hipótese 5
Uma implementação eficaz das TIC conduzirá à manutenção ou aumento dos padrões
académicos apesar da reduzida qualidade de muitos materiais de TIC. Os padrões académicos
são função das expectativas dos professores e da escola e não do nível dos manuais, dos
materiais de TIC ou outros. A hipótese alternativa é a de que a utilização das TIC conduzirá a
uma redução dos padrões académicos, na medida em que os alunos irão despender mais
tempo em pesquisas com benefícios marginais e a navegar em conteúdos da Internet e
curriculares de baixa qualidade.

A hipótese principal deve ser aceite, considerando que os dados recolhidos neste
local suportam esta afirmação. A percepção dos professores reforça os efeitos positivos

142
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

das TIC nos padrões académicos, em especial o desenvolvimento de competências


investigativas, sociais e comunicacionais, apesar da reduzida qualidade de muitos materi-
ais TIC.
No entanto, é preciso sublinhar que os padrões académicos de uma Escola não
dependem apenas de uma implementação eficaz das TIC, nem da qualidade dos materi-
ais de TIC. Dependem de um conjunto muito mais alargado de factores que estão longe
de se esgotar em parâmetros mais ou menos relacionados com as TIC . E mais ainda
quando, nesta Escola , as TIC e o trabalho educativo que é feito, sem dúvida de mérito,
apenas representam uma pequena parte do trabalho que é realizado pelo conjunto dos
professores e da Escola.
As evidências a favor: 98% dos professores não envolveu os seus alunos em apren-
dizagem colaborativa através da Internet com alunos de outras turmas; 93% dos profes-
sores não utiliza tecnologia para colaborar com outros professores; 89% dos professo-
res afirma que a utilização de computadores, por parte dos alunos, não foi considerada
na avaliação da aprendizagem; quase 70% dos professores, praticamente não recebe
nem envia mensagens de correio electrónico ...
Estes dados mostram que será muito difícil relacionar apenas o nível de desenvolvimento
das TIC numa escola com os padrões académicos dos seus alunos.

5. PROJECÇÕES
Sustentabilidade
No que diz respeito à sustentabilidade da Gestão Flexível do Currículo, esta está
assegurada, uma vez que é uma reforma por decreto e está em fase de generalização,
quer a outros níveis de escolaridade (7º, 8º e 9º anos), quer a outras escolas no País . A
reforma tem importantes impactos e implicações na Escola. Apresenta um programa de
alteração curricular, através da introdução de novas áreas que representam vectores de
inovação, os quais poderão resultar em modificações profundas no ensino com uma mai-
or preocupação: ensino com mais espaço para o apoio individualizado, mais oportunida-
des para o desenvolvimento de competências investigativas e comunicativas, mais espa-
ço para a educação multicultural e educação para a cidadania e mais espaço para o traba-
lho em grupo e desenvolvimento das competências sociais dos alunos. Há ainda um ape-
lo à participação da família e da comunidade na vida da Escola.
A sustentabilidade da reforma é garantida, tal como a sua adopção e implementação,
por decreto governamental. É algo exterior à Escola e à vontade individual de cada um
dos seus membros.
Na medida do que foi observado nesta Escola, alguns problemas estão por resol-
ver no que diz respeito à Gestão Flexível do Currículo.
Uma reforma com a natureza e filosofia da GFC e com tal amplitude de objecti-
vos, carecia de infra-estrutura adequada (o que, em muitos casos, significaria renovada

143
As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

e/ou ampliada) no que diz respeito aos espaços físicos, meios e equipamentos. A Escola
não beneficiou, particularmente, de intervenções, a este nível. Apenas ao nível da forma-
ção dos professores, foram realizadas acções de formação. Apesar do grau de aceitação
e envolvimento dos professores ser muito positivo (um indicador claro é o facto dos
professores se envolverem em actividades e tarefas que ultrapassam em muito o seu
tempo de trabalho), tal não impede que estes manifestem a sua crítica pelo facto da
reforma não contemplar intervenções ao nível das infra-estruturas e equipamentos. E
algumas das dificuldades de implementação poderiam, facilmente, ser ultrapassadas se
os espaços e os equipamentos estivessem correctamente dimensionados para o número
de turmas e de alunos.
No que diz respeito à sustentabilidade relativa ao desenvolvimento das TIC na
Escola, o factor que mais contribuiu para esta sustentabilidade foi o envolvimento, a
motivação e a dedicação dos professores e da direcção, não apenas em relação à utiliza-
ção educativa das TIC, mas em relação à Escola . Este facto justifica a verdadeira “cultura
de projecto” que existe na Escola, desde há largos anos. A abertura à inovação, o risco
calculado e a vontade de aprender ao longo da vida, fazem parte da cultura desta Escola,
e os novos membros adquirem-na gradualmente. Apesar das dificuldades e obstáculos,
aquilo que é possível fazer e realizar, é realizado com vontade e determinação.
A Escola continua a perseguir o objectivo do desenvolvimento das TIC e a recor-
rer a todas as oportunidades que surjam para poder melhorar a sua capacidade de res-
posta: aquisição de novos equipamentos e de programas informáticos educativos, for-
mação de recursos humanos, sensibilização das famílias e da comunidade para a impor-
tância da sua participação, procura de novas fontes de receita, etc. A sustentabilidade das
TIC na Escola é reconhecida pelos professores e pela administração como um factor de
valorização da qualidade do ensino prestado pela Escola e, neste sentido, a Escola quer
consolidar os progressos registados até ao momento.

Disseminação
No que diz respeito à disseminação da reforma, a sua generalização está igual-
mente assegurada, quer dentro da Escola, quer a outras escolas e está inclusivamente já
prevista na legislação entretanto produzida. Trata-se de um processo conduzido por es-
truturas do sistema educativo português, hierarquicamente superiores à Escola, que a
determinam.
No entanto, o Ministério tem promovido a divulgação desta reforma, através de
reuniões e encontros a ainda através da Internet, onde dispõe de páginas com informa-
ção, e ainda um fórum a funcionar no local virtual do Ministério da Educação (disponível
em: http://www.deb.min-edu.pt/nocf/gestaoflexivelcurriculo.htm ).

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Esta discussão tem como objectivo recolher informações sobre as estratégias de


implementação seguidas, no sentido de ajustar os aspectos que possam eventualmente
funcionar menos bem e a Escola tem igualmente participado nessa discussão.
No que diz respeito à disseminação das práticas de utilização educativa das TIC,
consideram os professores que a Escola terá que prosseguir os seus esforços de aquisi-
ção de novos equipamentos, instalação de uma Intranet, melhoria do aproveitamento
dos espaços disponíveis e promoção da formação dos professores neste domínio. A Es-
cola tem igualmente desenvolvido esforços no sentido de divulgar as iniciativas e projec-
tos em curso na Escola, bem como uma eventual participação da comunidade através da
manutenção e actualização da sua página ( disponível em http://www.minerva.uevora.pt/
stclara/).

6. ANEXO A
A metodologia, utilizada neste estudo de caso, seguiu as instruções fornecidas
pela OCDE, no manual de investigação. Foi constituída uma equipa de investigação com
um coordenador e quatro assistentes de investigação. Os plano de trabalho e protocolos
de investigação foram elaborados pela equipa. O trabalho de campo decorreu, numa
primeira fase, em Julho de 2000 e, numa segunda fase, de Novembro de 2000 a Janeiro
de 2001. As entrevistas semi-estruturadas, a professores (5), ao representante da direc-
ção(1), ao especialista (1), ao encarregado de educação (1), a alunos (1), a observação de
aulas (1) e inquéritos aos professores da Escola, foram os métodos de recolha de dados
utilizados pela equipa. As entrevistas foram realizadas aos professores em simultâneo e
ao director de forma individual. Na primeira fase, tiveram a duração média de duas horas
por cada duas sessões e duas horas no caso do representante da direcção. Na segunda
fase, foram realizadas entrevistas à representante da direcção da Escola, com a duração
de duas horas e meia.
As entrevistas ao aluno e especialista duraram uma hora e hora e meia, respecti-
vamente.
As entrevistas foram registadas em documento áudio e em suporte electrónico,
usando um computador portátil para o efeito. Os dados das observações foram registados
nas grelhas de observação.
Os materiais complementares de alunos, professores e da Escola foram
inventariados e estão disponíveis na Internet a partir do site http://www.minerva.uevora.pt/
ocde/stclara/ .
Depois de recolhidos, os dados foram codificados, classificados e organizados na
matriz constante do manual de investigação, inventariados os dados de suporte às hipó-
teses, elaborada a síntese individual respeitando a estrutura sugerida e foram redigidas as
respectivas conclusões.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

7. ANEXO B
Número de inquéritos : 45
Taxa de devolução: 64%

1. Até que ponto se sente confortável/habilitado a realizar as seguintes actividades no computador?

MC C AC NC
1. Escrever um artigo 53% 31% 7% 9%
2. Pesquisar informação na World Wide Web 13% 16% 27% 44%
3. Criar e manter páginas da Internet 2% 0% 16% 82%
4. Utilizar uma base de dados 0% 27% 27% 47%
5. Desenvolver uma base de dados 0% 4% 22% 73%
6. Enviar e receber correio electrónico 16% 20% 13% 51%
7. Escrever um programa 2% 2% 9% 87%
8. Desenhar uma imagem ou diagrama 9% 20% 38% 33%
9. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint 2% 18% 22% 58%
ou equivalente)

Em que medida são importantes, para a sua leccionação, cada uma das seguintes capacidades
relacionadas com o uso de computadores?

MI I MN NI
10. Escrever um artigo com um processador de texto 64% 24% 9% 2%

11. Procurar informação na Internet 31% 53% 16% 0%

12. Criar páginas da Internet 7% 20% 33% 40%

13. Utilizar uma base de dados 13% 38% 38% 11%

14. Desenvolver uma base de dados 7% 22% 49% 22%

15. Enviar e receber correio electrónico 9% 44% 29% 18%

16. Escrever um programa 9% 29% 18% 44%

17. Desenhar uma imagem ou diagrama com um software 31% 44% 16% 9%
de desenho/gráficos
18. Apresentar informação (ex.: Utilizar o PowerPoint ou 13% 49% 24% 13%
equivalente)

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Em média, com que frequência os seus alunos estiveram envolvidos nas actividades a seguir indicadas
como parte dos trabalhos que lhes atribuiu durante o último ano escolar?

Várias vezes Várias vezes Algumas Nunca


por semana por mês vezes
19. Utilizar a World Wide Web 2% 4% 42% 51%
20. Criar páginas da Internet 0% 0% 9% 91%
21. Enviar e receber correio electrónico 2% 0% 13% 84%
22. Utilizar um programa de processamento de texto 4% 33% 47% 16%
23. Utilizar um computador para jogar jogos 4% 11% 24% 60%
24. Utilizar uma folha de cálculo 0% 4% 13% 82%
25. Utilizar um programa de gráficos 0% 4% 24% 71%
26. Aderir a um fórum de discussão ou chat room 2% 2% 4% 91%
27. Utilizar um programa de apresentações (ex.: 0% 2% 7% 91%
PowerPoint)
28. Utilizar um programa educativo (incluindo simulações) 2% 4% 31% 62%
29. Outras utilizações do computador (especifique) 2% 7% 11% 80%

Boa Razoável Fraca


30. Como classificaria a sua capacidade de utilização de computadores? 4% 58% 38%

Sim Não
31. A utilização de computadores por parte dos alunos foi alguma vez 11% 89%
considerada na avaliação?

Sem Algumas Apenas as


restrições restrições indicadas

32. Se pediu aos seus alunos para pesquisar a World Wide Web, qual 24% 36% 40%
o grau de liberdade que lhes deu para navegar na Internet?

Sim Não
33.Criou ou modificou alguma página de Internet com alguma das suas 2% 98%
turmas?

Totalidade Maioria Alguma Muito pouca

34. Que parte da utilização do computador nas suas 11% 13% 20% 56%
aulas esteve directamente relacionada com o
conteúdo do curso?
35. Que parte da utilização do computador que atribui 2% 20% 31% 47%
aos alunos foi feita individualmente?

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

Várias vezes/ Várias vezes/ Algumas vezes Nunca Não tem comp.
semana mês
36. Com que frequência utilizou o 36% 13% 42% 2% 7%
computador, em casa, para
preparar as suas aulas?

Sim Não
37. Alguma vez participou como estudante ou formador num curso virtual 9% 91%
através da Internet/World Wide Web?

38. Alguma vez envolveu os seus alunos em aprendizagem colaborativa 2% 98%


através da Internet/World Wide Web com alunos de outras turmas?

39. Utiliza actualmente tecnologia para colaborar com outros professores 7% 93%
(chat rooms profissionais, fóruns ou outros)?

>11 6_11 1_5 Nenhuma


40. Quantas mensagens de correio electrónico
envia em média por semana? 7% 4% 24% 64%
recebe por dia? 7% 0% 24% 69%

Poucas Muitas Várias Nenhuma


1-5 >5 (2)
41. Fez alterações ao hardware de um computador? 7% 2% 2% 89%
42 Fez uma actualização progr. informático? 16% 7% 2% 76%
43. Recuperou ficheiro danificado? 16% 2% 2% 80%
44. Criou uma página da Internet? 29% 0% 0% 71%
45. Desenvolveu uma base de dados? 16% 9% 0% 76%

8. ANEXO C
Informação complementar relativa à Gestão Flexível de Currículos, materiais re-
colhidos durante esta investigação, documentos relativos ao Projecto Educativo da Es-
cola, e ainda um link para a página da Escola, estão disponíveis na Internet no endereço:
http://www.minerva.uevora.pt/ocde/stclara/ . Uma das mais interessantes iniciativas em
que a Escola se envolveu “ A Assembleia e Escola 2000”, pode ser encontrada no local
virtual do Ministério da Ciência e Tecnologia, na Unidade de Apoio ao Programa Internet
na Escola: http://www.uarte.mct.pt/activ/parlamento/netvideo.html ou, ainda, no local
virtual da Assembleia da República.

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As TIC e a Qualidade das Aprendizagens - Estudos de Caso em Portugal

SIGLAS

BE/CRE – Biblioteca Escolar / Centro de Recursos Escolar

UE – Universidade de Évora

CA – Currículo Alternativo

EB2,3 – Escola Básica do 2º e 3º ciclos do Ensino Básico

GFC – Gestão Flexível do Currículo

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