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MIRÓBRIGA: URBANISMO E ARQUITECTURA

Maria Filomena Santos Barata

Ministério da Cultura

Instituto Português do Património Arquitectónico

1
EDIÇÃO
.....IPPAR
Lisboa, 1998

AUTOR
Maria Filomena dos Santos Barata

COORDENAÇÃO DA EDIÇÃO
Divisão Comercial  Isabel Lage

FOTOGRAFIAS
Henrique Ruas
....José Nascimento
....Maria Filomena Barata
IPPAR

DESIGN GRÁFICO
TVM Designers

CORRECÇÃO DE PROVAS
.... ........................Nascimento

IMPRESSÃO
....

ISBN n.º .............


Depósito Legal n.º ..............

Edição ............. exemplares

2
Introdução

(Dr. Luís Ferreira Calado)

3
MIRÓBRIGA: URBANISMO E ARQUITECTURA

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

I PARTE  HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA DA INVESTIGAÇÃO EM


MIRÓBRIGA
1. Dos Humanistas ao século XIX
2. O século XX e a investigação em Miróbriga

II PARTE  QUADRO GEOGRÁFICO

III PARTE  O TERRITÓRIO DE MIRÓBRIGA E SUA INSERÇÃO


NO PROCESSO DE ROMANIZAÇÃO DO SUDOESTE PENINSULAR

IV PARTE  CARACTERIZAÇÃO GERAL DE MIRÓBRIGA


1. O aglomerado urbano e a sua fundação
2. Características gerais do aglomerado urbano
3. A estrutura viária e as habitações
4. O hipódromo ou circo
5. As termas

V PARTE  O CONJUNTO FORENSE


1. O forum  características gerais
2.  A modulação do conjunto forense: os sistemas construtivos
3.  O templo centralizado
4.  O templo de planta absidial
5 . As tabernae

VI PARTE  CONCLUSÃO

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APÊNDICE I  MIRÓBRIGA

APÊNDICE II  O PROJECTO DE VALORIZAÇÃO E AS ÚLTIMAS


CAMPANHAS REALIZADAS EM MIRÓBRIGA

1.  O «Projecto de Valorização»
2.  Acções de sensibilização e de divulgação
3.  Limpeza, desmatação e manutenção
4.  Acções de conservação e de restauro
5.  Levantamento topográfico de pormenor
6.  Escavações
7.  Estudos

APÊNDICE III  ARQUIVOS CARTOGRÁFICOS CONSULTADOS


TENDO EM VISTA UMA MELHOR COMPREENSÃO DO
TERRITÓRIO

BIBLIOGRAFIA

5
Estranha-se a pedra porque está ali onde a olhamos e ela vê-nos à sua maneira
com indiferença máxima pelo nosso andar. Andamos-lhe em volta não a ignoramos
nem a conhecemos nem a domesticamos só podemos admirá-la. Virá-la para dentro.
Para o tempo. Que ela mostra. É um relógio de um ponteiro que marca séculos se os
contarmos e tudo o que neles acontece. Um soldado morto vive numa pedra e só nasce
debaixo do travesseiro. É um sonho de pedra pequena e muita guerra vista em volta.
Com muito tempo.

Álvaro Lapa, «Impressões da Lusitânia»,


A Phala,.n.∫ 39, 1994, Assírio & Alvim

6
Agradecimentos

Agradeço a colaboração prestada por todos os meus companheiros de trabalho em


Miróbriga e aos amigos que dele acabaram, directa ou indirectamente, por partilhar,
especialmente a: Antónia González Tinturé; António Bairinhas; António Lampreia;
Armando Guerreiro; Carlos Fabião; Carolina Grilo; Emílio Ambrona de Tejada;
Fernando Real; Henrique Ruas; Isabel Inácio; Isabel Vilhena; Joaquim Ascensão
Garcia; José Carlos Oliveira; José Carlos Quaresma; Luís Cruz; Maria Luísa Sebolão
Nata; Mário Reis Soares; Rui Parreira; Telmo Carapinha; Teresa Ricou da Ponte.
Queria fazer um agradecimento especial a Susana Helena Correia que, como
técnica do ex-Serviço Regional de Évora do IPPC, me convidou, em 1990, a participar
no «Projecto de Valorização de Miróbriga» abrindo-me a possibilidade de poder
trabalhar num sítio com as características de Miróbriga e com a qual constituí, até muito
recentemente, equipa; a José Matias, da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, pelo
seu apoio ao longo destes anos, quer nas saídas de campo, quer nas pesquisas nos
arquivos cartográficos e documentais municipais; a António Marques Faria pelos
comentários feitos a este trabalho e pelo apoio na classificação dos numismas de
Miróbriga; a Jorge Humberto Vilhena pela constância e empenhamento com que nos
tem acompanhado desde o reinício dos trabalhos arqueológicos nos anos 90 e a Luís
Ferreira Calado pela atenção prestada a Miróbriga e à sua valorização.
A Rui Centeno, o meu obrigada pelo apoio dado durante a execução deste
trabalho.
A Armando Coelho agradeço os comentários feitos em Miróbriga à minha
interpretação das estruturas arqueológicas da Idade do Ferro.
A Jorge de Alarcão, que foi arguente na dissertação de Mestrado que serviu de
base a esta publicação, o meu reconhecimento pelo que o seu trabalho tem contribuído,
ao longo dos anos, para a dignificação da Arqueologia em Portugal.
A Alberto Marques o meu reconhecimento pela adesão à ideia de que a
preservação do Passado é fundamental à melhor fruição do Presente.
À Adelaide Brito; à Ivone Tavares e à Mafalda Moniz Pereira o meu obrigada
pelo apoio na última fase deste trabalho.
Ao IPPAR, Instituto Português do Património Arquitectónico, entidade a que está
afecta Miróbriga, queria manifestar a minha gratidão por ter gradual e crescentemente
vindo a criar condições para que possa estudar e valorizar este importante Sítio
Arqueológico.
Agradeço também à Associação Cultural de Santiago do Cacém, à Câmara
Municipal de Santiago do Cacém, ao Instituto Português da Juventude, pela colaboração
prestada por estas entidades nas acções que se têm realizado em Miróbriga, e ao Museu
Nacional de Arqueologia, pelas facilidades concedidas na consulta de arquivos e
materiais arqueológicos pertencentes ao seu acervo.
Aos meus pais, à minha avó, às minhas sobrinhas, Joana Albarran e Ana Beatriz
Pessa Degues, e a António Camacho Lampreia a minha lembrança, pelo que me têm
dado ao longo dos anos. A um tio-avô que mal conheci, Eduardo Albarran, que, como
Presidente da Junta Distrital de Setúbal, incentivou a publicação do primeiro trabalho

7
de vulto sobre a Miróbriga dos Célticos, de D. Fernando de Almeida o meu
reconhecimento.
APRESENTAÇÃO

Os estudos arqueológicos e, mais especificamente os trabalhos sobre a Cidade


Antiga, têm vindo a dedicar cada vez mais atenção às questões da territorialidade e da
especificidade local da ciuitas latina. Deve-se isto, muito provavelmente, à
complexidade que assume a dimensão contemporânea.
Numa época em que a democraticidade, a partilha mais equidistante dos recursos
e a consciência da sua não perenidade se interioriza, reconsidera-se também, a nível do
estudo do Passado longínquo, a importância do «Território» para a sobrevivência dos
fenómenos urbanos.
Sem querer cair na tentação de anacronismos falaciosos, poderemos dizer que a
contemporaneidade nos exige uma reflexão mais abrangente do que é o Estado, a
Cidade ou o Território, e olhar a Romanidade de um outro modo ( GROS, 1993: 79).
A ideia de um Império, que se alicerça, por um lado, na «normalização» que tenta
imprimir às mais longínquas fundações e que se sustenta, por outro lado, à custa da
diversidade local e da maximização das potencialidades regionais, faz-nos dimensionar
a complexidade de questões que se levantam ao estudo da organização urbana em
época de dominação romana.
A própria Romanização não consistiu num processo de aculturação único ou
unidireccional, mas numa trama complexa de interacções entre grupos de agentes muito
variados (HOPKINS, 1996: 18). Todo este complexo processo de interacções, a variedade
e diversidade infindável de situações e as estruturas urbanas pré-existentes com que os
Romanos se deparam na Hispânia1 fez «flutuar», numa primeira fase, os estatutos
administrativos dos aglomerados urbanos, a definição dos seus «territórios», das
ciuitates2 (NICOLET, 1988: 266; LE ROUX, 1995: 41), e o próprio conceito de cidadania.
A noção de urbanidade, de que já os Romanos fizeram um dos pilares
«civilizadores», contempla não só o fenómeno citadino propriamente dito, mas também
a ideia de centros polarizadores de unidades territoriais, administrativas, económicas e
produtivas que geram e partilham da dinâmica da cidade e das permutas feitas entre esta
e outros «lugares centrais» (ALARCÃO1, 1992: 35).
À volta de um aglomerado central do ponto de vista político e económico,
desenvolvem-se no território pertencente à ciuitas um conjunto de actividades
económicas de características fundamentalmente rústicas, que são fontes de
abastecimento e de troca da urbs.
A relação entre estes «centros» e as suas «capitais» e entre eles e os seus
«territórios» não é, por seu lado, estanque ou fixa no tempo, dependendo das relações

1
Sobre este tema ver BENDALA GALÁN, 1994: 115-123.
2
Aqui utilizado segundo o conceito empregue por Le Roux «A ciuitas formava uma unidade
territorial de dimensão variável, organizada em torno de um lugar-chave urbanizado» (LE ROUX,
1995: 79) e por Gros e Torelli: «ciuitas é, em primeiro lugar, uma divisão territorial dotada de
relativa autonomia e correspondente, nos limites do possível, a uma unidade étnica» (GROS e
TORELLI, 1992: 238). O conceito abrange, portanto, o aglomerado urbano e o território sobre o
qual exerce autoridade administrativa (DIAS, 1997: 289).

8
de dominação militar e política que se estabelecem entre vencidos e vencedores, ou da
permeabilidade que se consegue com as pré-existências culturais e económicas.

Não obstante, a cidade3 foi, como continua a ser, o local onde se organizam
modelos, onde se apreende o sistema de símbolos comuns que participam de uma
determinada cultura dominante, pese a capacidade de nela serem ou não integrados, ou
miscigenados, valores de outras que lhe são «alheios».
A urbs foi, embora se tenha que atender ao amplo processo de adaptação entre
conquistadores e conquistados4, o veículo e o suporte da ordem romana dominante e do
império: «um poder ecuménico cimentado em cidades e estas num corpo social
hierarquizado, em cujo seio a elite perpetuava a ordem tradicional. .... Se para os
gregos ... não existia fora da polis espaço para a liberdade, também o sentido romano
de libertas era impossível fora de uma colónia ou um município. A romanização
jurídica substituía, portanto, no plano ideal o “homem bárbaro” pelo “cidadão”»
(ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 45).
A criação de núcleos urbanos foi, pois, um dos veículos usados para a
penetração e difusão da Romanidade5, favorecida pelas elites locais, que procuravam a
todo o custo manter a sua situação privilegiada, garantida ou mesmo beneficiada à
medida que a municipalização desses núcleos se vai alargando. Fot. 1.
É, pois, nesta relação territorial que se afirma o poder da urbs; e é nessa
articulação que se enforma o conceito de ciuitas.
Uma interpretação mais estanque da realidade em período romano permitiu isolar
o fenómeno urbano, justificando-se teoricamente a sua existência, em grande parte dos
casos, em fenómenos de índole endógena ou, em alguns outros, de índole exógena, que
assentam em factores militares ou religiosos, omitindo, portanto, a sua crucial
importância como organizador de um determinado território.
Por exemplo, ao aglomerado urbano de Miróbriga era conferida uma função de
«Santuário Rural» (ALMEIDA, 1964: 30), sendo mesmo algumas das suas infra-estruturas
justificadas como local de distracção dos peregrinos 6. D. Fernando de Almeida
fundamentava a sua opinião na concentração de templos nesse oppidum romanizado e
no desconhecimento de zonas habitacionais que comprovassem a existência de uma
grande população fixa.
Um conceito de santuário rural assim definido exigia, portanto, a ideia de um
local fundamentalmente destinado a peregrinações, sem ter, por isso, as infra-estruturas
necessárias a um aglomerado urbano. De gente passageira e incógnita ficava apenas
uma memória que não se questionava. E, deste modo, era também justificado o
desconhecimento acerca do próprio aglomerado urbano e da sua envolvente.  Fot. 2.
A sacralidade sustentava, portanto, a importância do local, conferindo-lhe de per
si uma excelência no contexto nacional.

3
Segundo H. Hopkins, «no século II d. C., em contraste com épocas anteriores à conquista,
uma proporção muito maior dos habitantes do império romano, especialmente nas províncias
ocidentais, habitava nos centros urbanos» (HOPKINS, 1996: 20).
4
Segundo o conceito de «Romanização» utilizado por Hopkins, 1996: 22.
5
Para este tema ver também LE ROUX, 1995, Capítulo I.
6
Construído, segundo este autor, durante os séculos III d. C. e IV d. C.

9
Ora, a noção de «Santuário Rural», muito em voga nos anos 70, se, por um lado,
contribuiu para levantar algumas questões acerca da ocupação do território no período
romano, colaborou, por outro lado, para bloquear a própria investigação (GROS, 1993:
80), fundamentalmente no que diz respeito à função desses aglomerados e à sua relação
com os centros produtivos envolventes.
Para o abandono dos núcleos urbanos as justificações eram, também elas,
igualmente fixistas, quer fossem fundamentadas em teorias fenomenologistas ou
economicistas: a crise do século III7; as invasões bárbaras no século V8; terremotos;
incêndios; e, contudo, nem sempre as evidências arqueológicas o testemunhavam e
confirmavam indubitavelmente.
No caso agora em apreço, para além da comum justificação atribuída às invasões
bárbaras na decadência do aglomerado, houve quem defendesse a ideia de ter sido
arrasada e incendiada9 no século V d. C.10 (ALMEIDA, 1964: 22; ARTHUR, 1983: 52) e
houve ainda quem advogasse que o total abandono da cidade, a partir do século V d. C.,
se deveria a um tremor de terra. Algumas destas justificações são ainda utilizadas nesses
moldes entre os materiais de divulgação produzidos localmente11.
E, não obstante, sobre algumas delas não há testemunhos arqueológicos
concludentes.
No que diz respeito a Miróbriga apenas se pode inferir através das evidências
arqueológicas que o aglomerado urbano deverá ter começado a decair a partir do século
IV d. C. Em relação à forma como se processou a ocupação e o abandono do mesmo
não é possível senão levantar algumas hipóteses, uma vez que este aglomerado urbano
está apenas muito parcelarmente conhecido, mantendo-se ainda em aberto as seguintes
questões:

1.  A localização de Miróbriga

Várias inscrições têm servido de base à identificação deste local com a Miróbriga
dos Célticos de Plínio (ALMEIDA, 1964 e 1988: 22-23), não podendo a maior parte delas ser
tomada em consideração ou, pelo menos, ter uma interpretação inequívoca
(ENCARNAÇÃO, 1984, IRCP n.º 149, n.º 150).
Uma delas, proveniente da Herdade Francisquinho, freguesia de Santa Cruz
(aprox. 4 km de Miróbriga), se bem que tenha fundamentado algumas das teorias que
permitiam identificar Miróbriga com o local agora em estudo, uma vez que o defunto se
7
No que diz respeito a Miróbriga, os dados arqueológicos parecem apontar num sentido
diferente, pois não são claramente manifestos quaisquer sintomas de uma crise no século III.
Por exemplo, no que se refere à importação de cerâmicas, designadamente as Terra Sigillata
Africanas C e D, parece que as últimas só começam a decair a partir de meados do século IV d.
C. (QUARESMA, s/d, inédito).
8
«O velho municipio, cuja historia fazemos, abysmou-se por fim n’esse immenso cataclysmo
que mudou a face da Europa, a invasão dos barbaros» ( SILVA, 1869: 10).
9
«Foi então queimada e arrasada; a maioria dos seus habitantes poupados ou escapados à
morte abandonou-a» (SILVA, op. cit).
10
Sobre este tipo de argumentos, utilizados comummente para justificar a decadência de
cidades ou de uillae, ver o artigo de Enrique Cerrillo Martín, 1995, 13-48.
11
Para este tipo de justificações poderá colaborar o facto de Santiago do Cacém, por se
encontrar junto de uma falha, ter sido muito abalado por sucessivos tremores de terra, havendo
bastantes notícias das destruições provocadas pelos de 1755 e de 1858.

10
afirma mirobrigensis celticus, tem também levantado bastantes questões sobre a sua
autenticidade12.
A localização de Miróbriga na foz do rio Mira tem sido também admitida por
alguns investigadores portugueses, nomeadamente pelos epigrafistas Cardim Ribeiro e
José d’Encarnação, que colocam algumas dúvidas à correlação directa entre a inscrição
do magistrado do Município Mirobrigense, encontrada nas proximidades, e o
aglomerado urbano a que nos referimos.  Fot. 3.
As fontes literárias, nomeadamente a referência de Plínio a um oppidum
estipendiário (Nat. Hist., IV, 116) não nos permite, contudo, assegurar a localização
exacta desse aglomerado urbano.
Por outro lado, também a ocupação pré-romana do local é mal conhecida. Nem a
designação de «Miróbriga Céltica» nos pode servir de referência segura sobre os povos
que aí habitaram em período pré-romano.
Por Celti são nomeados indiscriminadamente pelos autores gregos e latinos várias
gentes do tronco indo-europeu, sem que correspondessem, contudo, a um povo
homogéneo, com uma comunidade linguística própria, diferenciado de forma clara dos
seus vizinhos ou estanques à miscigenação com outros povos (KURTZ, 1995: 26;
ENRÍQUEZ NAVASCUÉS, 1995: 65 ). Embora sendo relativamente unânimes em afirmar
que a região compreendida entre o Tejo e o Guadiana era habitada pelos Célticos , pouco
ou nada nos esclarecem, no entanto, sobre a sua distribuição, tipo de povoamento ou
sobre o sistema social em que se inseriam, o que dificulta a compreensão da geografia
política neste período (FABIÃO, 1992: 170).
Há ainda a acrescentar que em Miróbriga não são também conhecidos materiais
arqueológicos que a possam inscrever inequivocamente nessa tradição cultural.
No entanto, e apesar de todas as dúvidas que se levantam à identificação de
Miróbriga ou à sua ocupação pré-romana, parece-nos ser lícito, dadas as características
do local e da implantação deste povoado fortificado, reconhecer-lhe um papel
estruturante, desde períodos pré-romanos, no território compreendido aproximadamente
entre a bacia do rio Sado e o mar.
Deste modo, e até que novos dados venham decididamente provar o contrário 
pese a consideração que algumas das objecções colocadas à identificação de Miróbriga
com o local agora em estudo nos merecem  optamos por continuar a designá-la como
tal.
12
«Efectivamente se a análise paleográfica nos deixa algumas dúvidas, sabemos, por outro
lado, que, normalmente, quando alguém morre na sua localidade de origem, não indica a
naturalidade, seria desnecessário; por outro lado, sendo mirobrigense na sua própria terra, que
necessidade haveria de especificar a sua qualidade de “céltico”? Além disso, tendo-se posto
tanto empenho em fazer notar a naturalidade do defundo, não houve igual intenção de afirmar
para a posteridade a sua condição de homem livre, indicando a filiação .... Poder-se-ia, pois,
suspeitar da autenticidade deste monumento, eventualmente forjado com a intenção de bem
especificar o nome da povoação cujas imponentes ruínas se encontraram em Santiago do
Cacém» (ENCARNAÇÃO, 1984: 232-234). Jorge de Alarcão, não obstante, defende que não
se pode tomar como «norma absoluta que a naturalidade não se indica quando alguém é
homenageado ou morre na sua terra e que, inversamente, se indica sempre que alguém se
homenageia ou enterra fora da sua terra natal» (ALARCÃO, 1985 2:105). Cardim Ribeiro
reforça a problemática referente à identificação de Miróbriga com este local, pois, embora
ressalvando que a inscrião de Miróbriga é «controversa», continua a admitir que a «menção
da origo numa inscrição funerária indica que o indivíduo nomeado faleceu e foi sepultado fora
do territorium da sua ciuitas» (RIBEIRO, 19941: 80).

11
2.  Tipo de aglomerado urbano

No que diz respeito a Miróbriga, se analisados, caso a caso, os argumentos que


justificaram a designação de «Santuário Campestre Romano», com os seus «três
elementos indispensáveis: o templo, as termas e o edifício para divertimento dos
devotos peregrinos, que aqui é um circo» (ALMEIDA, 1964: 71-2 e 1988: 19-20 ) e a
associação do mesmo ao culto do deus de origem grega de Esculápio 13, já aceite por
Leite de Vasconcelos (VASCONCELOS, 1925: 19), parecem manifestar-se controversos os
dados em que assentam.
A inscrição dedicada a Esculápio, considerada por D. Fernando de Almeida como
uma das provas abonatórias para considerar este local como um «Santuário Rural» 14
dedicado a essa divindade, foi colocada no século XVI numa das paredes dos Paços do
Concelho15 e, posteriormente, Hospital Velho ou do Espírito Santo de Santiago do
Cacém, desconhecendo-se a sua proveniência exacta. Continuamos a admitir, contudo,
que tenha pertencido a Miróbriga.
No entanto, não são conhecidos em Miróbriga ex-votos que confirmem as práticas
curativas da incubatio, nem é possível atestar a existência de libações ou sacrifícios
dedicados a Esculápio, pesem as referências de Cruz e Silva ao aparecimento de muitos
«fragmentos de candeias, rodelas de chumbo ... e uns atiçadores» encontrados no
forum e que este investigador admite, curiosamente, tratar-se de «oferendas a Apolo »
(SILVA, 1946: 343).  Fot. 4.

13
O culto a Esculápio tem o seu auge em época helenística em Epidauro e em Cos, grandes
centros culturais e complexos terapêuticos (CASILLAS, 1996: 22-34), de tal forma que Roma
o decide «importar» no século III a. C. (293 a. C.), aquando de uma grande epidemia e,
provavelmente, atendendo também a interesses políticos «integrativos e federativos» das
cidades gregas meridionais: «No mesmo ano que Roma acolhia o culto de Esculápio, os
cidadãos romanos assistiam pela primeira vez aos ludi Romani com coroas na cabeça e foram
entregues palmas aos vencedores, costumes secularmente arreigados nos espectáculos
desportivos gregos» (MARTÍNEZ-PINNA, 1993: 448). Apolo parece ter perdido, a partir dessa
data, a relevância que tinha pelas suas virtudes médicas (BAYET, 1994: 139). No entanto, na
Península Ibérica existem vários exemplos de consagrações a Apollo Aug. que aliás têm
alguma supremacia sobre Aesculapius Aug. (RIBEIRO, 1982/83: 204) podendo até referir-se
uma consagração simultânea (op. cit., loc. cit.). Por seu lado, o culto a Esculápio está apenas
comprovado epigraficamente na Hispânia, na Tarraconense  em Valência existe um
pedestal dedicado a Asclepio por um sevir augustal  e na Lusitânia, não sendo conhecidos
quaisquer cultos colectivos de cidades ou uici nem dedicatórias oficiais. Os seus dedicantes são
varões, libertos na sua maior parte. Somente numa inscrição (León) o seu nome aparece
associado à saúde (MAÑANES, 1983/84: 228-29; VAZQUEZ Y HOYS, 1981: 172). No caso
de Miróbriga essa associação é indirecta pois o dedicante dá a conhecer a sua profissão de
médico. Também é apenas conhecido um templo dedicado a esta divindade, em Ampúrias
(VAZQUEZ Y HOYS, 1981: 173). Na Bética, em Nova Cartago, existe uma edícula
consagrada ao culto de Esculápio (BLÁZQUEZ, 1991: 284).Vasco Mantas justifica o culto de
Esculápio e de Vénus em Miróbriga como sobrevivência, graças à interpretatio, de divindades
locais que, segundo este investigador, poderiam ser versões romanizadas de Eshmun e de Tanit
(MANTAS, 19962: 350-51).
14
A tónica dada por D. Fernando de Almeida à ideia de um Santuário onde se venerava
Esculápio, tendo por base a dedicatória de um medicus Pacensis, pode atribuir-se, segundo
alguns investigadores, a uma forma inconsciente de honrar a Medicina, profissão exercida,
durante muitos anos, por aquele investigador.
15
SILVA, 1869: 121.

12
Por outro lado, a inscrição dedicada a Esculápio através de um «legado
testamentário ... feito por medicus pacensis: verosimilmente, Gaio Átio Januário, que
deixou dinheiro ao conselho municipal de Miróbriga para que ele organizasse  ou
continuasse a organizar  os Quinquatrus16 em honra de Esculápio» (ENCARNAÇÃO,
1984: 219) poderá apontar para a existência dos ludi circenses consagrados a essa
divindade.
José d’Encarnação, regressando à análise desta inscrição 17, reconhece que a
mesma não se trata de uma placa mas de uma ara, o que pressupõe a existência de um
templo dedicado a Esculápio em Santiago do Cacém e a consequente grande devoção a
esta divindade no local (ENCARNAÇÃO, 1991: 186). Não fica, contudo, justificada por
esse facto a sua directa correlação com o templo centralizado no forum de Miróbriga.
No território actualmente português são conhecidos outros exemplos da dedicação
a esta divindade. Se bem que não esteja comprovada arqueologicamente a existência de
quaisquer práticas curativas de incubatio, é evidente a associação desta divindade a
actividades ou locais de índole terapêutica ou a votos de cariz salutífero.
É de salientar que, em Olisipo, uma das três inscrições consagradas a Esculápio,
datável do século I d. C., foi, provavelmente, encontrada nas ruínas do criptopórtico a
que foi, durante muito tempo, atribuída uma função termal 18, e portanto no edifício
conhecido como «Termas dos Augustais». Deve-se essa designação ao facto de os dois
dedicantes da inscrição votiva, que oferecem o monumento ao Município (MANTAS,
1994: 218), se tratarem de Augustais, o que confirma a importância do culto imperial
neste território. No entanto, daí não se pode inferir uma associação nítida entre o culto
de Esculápio e a existência de um edifício termal, mas apenas a íntima ligação do culto
de Esculápio e do culto imperial às águas salutíferas e purificadoras 19 que, neste caso,
parecem relacionar-se com um «forum dos mercadores» (RIBEIRO, 19942: 193).
Se atendermos à relação existente entre as divindades e as virtudes imperiais
(ÉTIENNE, 1974: 333)e ainda à associação entre as mesmas e «as condições e qualidades
vitais à sobrevivência cultural, política e económica do Império Romano ... que
aspira, em primeiro lugar, à Aeternitas» (RIBEIRO, 1982/83: 201; 19942: 194) não é pois de

16
Estas festividades, que se realizavam entre 19 e 23 de Março, eram inicialmente dedicadas a
Marte e associadas ao ciclo da guerra (BLÁZQUEZ et alii, 1993: 436), se bem que, mais tarde,
Minerva tenha passado a ocupar nelas um lugar destacado. No dia 19 de Março, primeiro dia
das festividades, celebrava-se o nascimento da deusa Minerva e, no último, dia 23 realizava-se
o Tubilustrium onde as trombetas bélicas e rituais eram purificadas.
17
Pesem as reticências que vários autores têm colocado e que se possam continuar a levantar
em relação à interpretação desta inscrição e à atribuição das Quinquatrus a Esculápio, o
epigrafista José d’Encarnação conclui da transposição do culto de Minerva para Esculápio,
dadas as qualidades medicinais da deusa e conclui que Miróbriga pudesse efectivamente
funcionar como local de peregrinação e que «num santuário, Esculápio era anualmente
festejado decerto por causa das curas miraculosas que ali operava» (op. cit. 218-19). Este
investigador atribui a inscrição ao século II d. C. Num artigo recente, José d’Encarnação
retoma a questão do estatuto de Miróbriga, reafirmando a importância desta epígrafe para
concluir da existência da «ordem dos decuriões» e, portranto, de «conselho municipal»
(ENCARNAÇÃO, 1996: 133).
18
Para melhor esclarecimento ver a síntese apresentada por RIBEIRO, 19941: 84.
19
Cardim Ribeiro já havia demonstrado em trabalhos anteriores (RIBEIRO, 1982/83 e 1983) a
associação do culto imperial com alguns cultos salutíferos, nomeadamente os de cariz
aquático.
No II Colóquio Internacional de Epigrafia, Sintra, 1995, R. Zucca apresentou vários exemplos
do culto de Esculápio associado a outros cultos aquíferos.

13
estranhar a sua conotação com alguns cultos salutíferos, como se verifica, nas
províncias ocidentais, com o «culto das águas» (idem,1982: 188).
Numa outra inscrição de Olisipo a divindade aparece mesmo mencionada como
Aesculapio Aug (CIL, II, 174).
Tendo em atenção o anteriormente exposto, podemos admitir que, em Miróbriga,
Esculápio, pelas suas características médico-terapêuticas, e se bem que não sendo
nomeado com o atributo de Augusto, possa ter funcionado como um dos guardiães da
Salus Augusta20 e associar o seu culto e dos ludi dedicados em sua honra à pessoa do
imperador21.
Revela-se, deste modo, esclarecedora a associação, em Miróbriga, de outras
divindades, atestadas epigraficamente, tais como Marte22 e Vénus.  Fot. 5.
O culto a Vénus23, comprovado epigraficamente e ainda através do aparecimento
de uma estátua da deusa, provavelmente do século II d. C.24, deve estar associado ao
culto da família imperial, como já o admitira José d’Encarnação 25 e Cardim Ribeiro26.
 Fot. 6.
Por seu lado, consagrada a Marte é uma inscrição, da qual apenas existe cópia no
Chafariz da Senhora do Monte, Santiago do Cacém, em honra de um indígena
romanizado: Gaio Pagúsico Marino (ALMEIDA, 1964: 74). Marte assume aqui
características funerárias e votivas (ENCARNAÇÃO, 1984: 221).  Fot. 7.
Estas duas divindades poderão, pois, ser associadas ao culto imperial pois
«Augusto valeu-se também, de duas velhas divindades romanas, Marte e Vénus, para

20
A associação entre esta divindade e a referida virtude  Salus Augusta  já havia sido
proposta por José Cardim Ribeiro (RIBEIRO, 1982/83: 204).
Essa relação torna-se inequívoca na estátua descoberta no interior de umas termas romanas no
Monte da Salsa, Brinches, Serpa, onde sobre o corpo representando Aesculapius foi colocada a
cabeça-retrato de uma personagem identificada com o imperador Adriano (SOUZA, 1990: 14;
MATOS, 1995: 50).
21
O hipódromo e o anfiteatro eram fundamentais ao desenrolar das sacra Augustalia que
contemplavam obrigatoriamente a existência de ludi. Os locais de espectáculo  hipódromos,
anfiteatros e teatros  tornaram-se, pois, fundamentais ao desenvolvimento dos cultos oficiais e
dos circuitos litúrgicos de exaltação imperial (GROS, 1990: 381-390).
22
Provavelmente associado a Victoria Augusta.
23
Vénus, protectora da gens Iulia e com ela do Império, funciona como um dos garantes da
nova «Idade de Ouro» (GROS, 1994: 21-22) tendo o culto a esta divindade atingido o seu auge no
reinado de Adriano. Em Seilium (Tomar) apareceu uma cabeça de Vénus, atribuível à época de
Adriano (ALARCÃO, 19902: 51).
24
Encontra-se no Museu Municipal de Santiago do Cacém. Para esta estátua, de proveniência
desconhecida, existe um paralelo no Museu Nacional de Arqueologia do Dr. Leite de
Vasconcelos, onde a deusa é igualmente representada sobre um plinto, com um vaso para
conter água  lutrophoros  e que serve de suporte ao vestuário (SOUZA, 1990: 62; MATOS, 1995:
70/71). Segundo este autor esta escultura deverá ser datável do século II d. C.
25
Numa das duas epígrafes dedicadas a Vénus a deusa é nomeada sem qualquer dos atributos
que lhe são habituais: Augusta, Victrix ou Domina. O dedicante é um magister e consideramos
que José d’Encarnação concluiu clarividentemente que «se poderia tratar também de um
magister de Miróbriga …: prestar culto a Vénus era prestar homenagem à família imperial»
(ENCARNAÇÃO, 1984: 222). Na outra epígrafe dedicada à divindade, a consagração é a Vénus
Vencedora Augusta e honra-se uma defunta, como é aliás comum nos epitáfios com evocação
a Vénus na Península (VAZQUEZ Y HOYS, 1982: 174).
26
Cardim Ribeiro relaciona Venus Aug. com as virtudes Pietas Aug. e Concordia Aug.
Nas primeiras fases do culto imperial, relacionar-se-á ainda com a Aeternitas Aug. e,
possivelmente, com a Victoria Aug. (RIBEIRO, 1982-83: 205).

14
impulsionar o seu programa político» (BLÁZQUEZ et alii, 1993: 540). Ambos os deuses
aparecem, a partir dessa data, com frequência, quer na literatura, quer na arte romanas.
São ainda reconhecidos em Miróbriga outros cultos, se bem que de alguns deles
apenas haja conhecimento através de fontes escritas.
O Padre Macedo e Silva refere o aparecimento de «divindades romanas»,
nomeadamente «alguns Penates e um Priapo» aquando das escavações que Frei Manuel
do Cenáculo promoveu em 180027.
Autores houve também que quiseram ver em Miróbriga uma forte devoção a
Vulcano, e que defenderam a existência de um templo dedicado a essa divindade, como
o comprovaria uma estátua encontrada no local28.
Sem termos quaisquer notícias sobre o paradeiro da referida estátua, nem do local
exacto onde ela teria aparecido e não havendo em território nacional qualquer outro
paralelo na Lusitânia, não deixa, contudo, de ser curiosa a associação que Bernardo
Falcão faz, no século XVIII, entre a mesma e a existência de forte exploração mineira
desde remotas épocas, porque em Miróbriga e áreas limítrofes é muito comum o
aparecimento de grandes concentrações de escória metálica, como o comprovaram as
prospecções e escavações ultimamente efectuadas.
Se bem que ainda não tenham sido identificados os ateliers onde na urbs se faria a
fundição29, é um facto que a concentração de escória de ferro no interior de uma casa
em fase de escavação e no declive existente junto à entrada da estação arqueológica nos
faz indubitavelmente concluir da existência de processos de manipulação metalúrgica,
que se concentrariam, com bastante probabilidade, do lado poente do oppidum.
A atestar essa importante actividade existem no Museu Municipal de Santiago de
Cacém dois exemplares de cadinhos de fundição de grandes dimensões provenientes de
Abela, no actual concelho de Santiago do Cacém.  Fot. 8.
Inclinamo-nos, pois, a aceitar que a riqueza metalífera pode ter sido um dos
factores determinantes da ocupação deste local 30, funcionando Miróbriga como uma
espécie de “tampão” de acesso à zona mineira e aos povoados do interior da serra, o que
justificaria também a localização do oppidum pré-romano31.
Não obstante o facto de existirem vários relatos sobre estatuária de índole
religiosa, epígrafes de consagração a divindades e ainda vestígios arqueológicos que
apontam para a existência de vários templos de período romano, não podemos, pois,
27
«Referimo-nos à excavação que, no anno de 1800, mandou fazer nas ruinas de S. Braz o
illustre arcebispo Cenaculo. As medallas que ahi se acharam e que o sabio prelado levou para
Evora, eram umas do tempo da republica e outras dos imperadores desde Augusto até á divisão
do imperio. As divindades foram alguns penates e um Priapo, que se acharam no logar hoje
chamado: pomar do Callisto» (SILVA, 1869: 11).
28
Bernardo Falcão dever-se-á ter baseado na informação do humanista André de Resende
sobre «uma pequena estatueta de bronze de Vulcano Cyrio». É portanto abusivo admitir a ideia
de um templo dedicado ao deus. Na Hispânia o culto a Vulcano só aparece atestado na
numismática (VAZQUEZ Y HOYS, 1982: 170).
29
Cruz e Silva havia, no entanto, referido a existência de fornos siderúrgicos de grandes
dimensões: 2,30 m de diâmetro e 4,60 m de altura (Album Alentejano: 1057).
30
Na «Miróbriga Túrdula» encontraram-se também abundantes escórias de fundição (PASTOR,
1993: 614), parecendo que o controlo aos minérios deve ter justificado a ocupação do local.
31
Curiosamente, na estação arqueológica da Cerradinha, nas margens da lagoa de Santo André,
a actividade metalúrgica está atestada desde a Idade do Bronze, tendo aí sido encontrados dois
fragmentos de cadinhos, utilizados para a fundição de estanho e de ferro (SILVA e SOARES, 1978:
71:115; GOMES e SILVA, 1994: 110).

15
concordar que estes dados conduzam à caracterização de Miróbriga como um
«Santuário Rural».
Um fragmento marmóreo, proveniente de Miróbriga, e que se encontra no
Museu Municipal de Santiago do Cacém, poderá ter pertencido a uma estátua da deusa
Cibele, com uma torre e respectiva porta. Esta representação de uma Cibele citadina,
admitindo que efectivamente se trata de um fragmento da torre que encimava o
penteado da deusa, aponta, ao invés, para um símbolo propiciatório de cariz urbano, a
alegoria da Cidade32.  Fot. 9.
David Soren, que escavou em Miróbriga na década de 80, inserido numa equipa
luso-americana, retoma a questão da sacralização do local, já em período pré-romano,
atribuindo a uma das construções de forma inicialmente quadrangular a função de um
templo da II Idade do Ferro, datável do século IV a. C. (BIERS et alii, 1982: 40 e 1983: 54).
Numa segunda fase, o templo teria sido reedificado, sendo dotado, segundo Soren, de
pronaos, cella e temenos, correspondendo-lhe o «depósito votivo» a que faremos
referência.
As plantas do edifício, de diferentes épocas, e o espólio arqueológico aí exumado,
nomeadamente o aparecimento de duas taças de cerâmica com ossos de pássaro no
interior, teriam feito chegar a tal conclusão (BIERS et alii, 1982: 41 e 1983: 54, 55, 66).
Como pertencendo ao mesmo local, mas de um período posterior, já numa fase de
abandono do «templo fundacional», são referidos materiais arqueológicos de origem
mediterrânica, datáveis de meados do século III, nomeadamente uma ânfora ibero-
-púnica.
Após esta fase de abandono, e correspondendo genericamente ao século II a. C.,
esta área foi de novo reutilizada, tendo sido edificada, segundo David Soren, a zona
correspondente ao temenos.
Uma última fase de ocupação e de transformação do edifício corresponderia ao
século I a. C., ainda segundo o investigador acima mencionado, aproximando-se de
um templo de características greco-romanas com pronaos e cella.  Fot. 10.
Em relação a este assunto cabe-nos fazer alguns comentários e colocar algumas
questões:
 Se por um lado a construção identificada como «Templo da Idade do Ferro»
tem uma localização privilegiada, na plataforma mais elevada de Miróbriga, podendo
admitir-se que seria a ideal para uma edificação sagrada de cariz greco-mediterrânico 33,
não é fácil aceitar que se tratasse, desde o início, de uma obra com essas influências
culturais. Os materiais arqueológicos mais antigos da II Idade do Ferro em Miróbriga 
32
Proveniente de Myrtilis existe um exemplar de inícios do século I com a simbologia da
corona muralis no alto da cabeça, representando Cibele (SOUZA, 1990:9; MATOS, 1995: 54/55). A
corona muralis, que era concedida aos militares que primeiro entrassem numa muralha
inimiga, representava uma cidade amuralhada ou uma torre, ou seja era a metáfora de uma
cidade ou país (LIBERATI, 1988: 65).
De referir ainda o exemplar, proveniente de Itálica, publicado em La Ciutat Hispano-Romana,
1993: 20, 21 e 263 e em LÉON, 1995: 46:149.
33
Em Glanon (Saint-Remy-de-Provence), foi construído um santuário de influência
helenística, onde se adorava uma divindade indígena associada a uma fonte localizada num
vale. Este sítio foi posteriormente romanizado, originando o centro monumental de Glanum,
onde se continuou a homenagear uma divindade aquífera e salutífera (ROTH CONGÈS, 1994: 376).
Em nada se assemelha, contudo, ao templo da Idade do Ferro e à situação conhecida em
Miróbriga.

16
séculos V-IV a. C. , que corresponderiam à fase de construção do templo
«fundacional», denunciam uma influência mais continental34 «só enriquecida
tardiamente por elementos provenientes do meio-dia peninsular ânforas ibero-púnicas,
cerâmica pintada de bandas e, por vezes, de carácter acentuadamente mediterrânico 
“prato de pescado”35 com engobe vermelho» (SILVA, 1979: 160).
 Por outro lado, mesmo que se admitisse tratar-se de um templo de tradição
continental/céltica? (BIERS et alii, 1983: 58), posteriormente modificado, haveria que
questionar por que motivo a sua planta inicial em nada se assemelha aos templos
conhecidos nessa esfera de influência36 e por que razão a sua localização, no interior de
um aglomerado, não contempla as preferenciais opções por santuários rústicos ou
naturais (BENDALA, 1988: 125). Ou poderá Miróbriga integrar-se no fenómeno de
«ascendência de santuários urbanos» que, segundo alguns autores, se verifica na II
Idade do Ferro? (GOMES, 1994: 180).
 É ainda de notar que as várias plantas do edifício, outro dos argumentos usados
para a sua classificação como «templo», não estão completamente clarificadas, até
porque a área não foi escavada na íntegra, verificando-se que só foram postos os muros
à mostra, em antigas escavações, e feitas sondagens apenas em alguns pontos, como é
visível na planta publicada pela equipa luso-americana. As estruturas que definiriam,
portanto, uma fase posterior com cella e pronaos estão só em parte definidas.
Parece-nos, pois, difícil aceitar como ponto assente, e até que sejam feitas mais
escavações e estudos no local, a periodização e a funcionalidade atribuídas pela equipa
luso-americana e pelos investigadores que posteriormente se dedicaram a este assunto
(CORREIA, 19952: 237-262; CORREIA, 1996: 83), parecendo-nos, pelos motivos já referidos,
que são, de algum modo, especulativos os paralelos usados com algumas construções
«religiosas» do Sul de Portugal, também elas, na maioria dos casos, de funcionalidade
ainda não comprovada de forma inequívoca (GOMES, 1994: 181; CORREIA, 19952: 243-247).
Dada a sua localização  adossada à muralha e paralela a outras construções do
mesmo tipo  e a sua planta rectangular  comum aos povoados desta época37 
julgamos ser razoável admitir-se também que a sua funcionalidade fosse mais
«profana», tratando-se de uma das várias construções que se edificaram em Miróbriga
na II Idade do Ferro, que teriam funcionado como habitações ou, pontualmente, como
locais de armazenamento, contribuindo também para reforçar a própria defesa.
Exemplos destes são comuns a inúmeros povoados da Idade do Ferro, de que Pedrão,
Setúbal, é um bom paralelo (SILVA e SOARES, 1973; BARATA, 1994: 128; CORREIA, 1995 2:
251). Ou questionarmo-nos ainda se não se tratará apenas de uma casa subdividida em
dois compartimentos, por «bancos ou muretes» 38, arquitectura comum a outros
povoados sidéricos peninsulares. Podemos ainda referir, para reforçar a hipótese de uma
34
Como as cerâmicas manuais com decoração plástica de «cordões horizontais situados junto
ao bordo de vasos de bordo ligeiramente inclinado para o interior» e recipientes fabricados ao
torno, decorados por estampilhas (SILVA e SOARES, 1979: 160 e 161).
35
Efectivamente, existe no Museu Municipal de Santiago do Cacém um «prato de pescado»
com engobe vermelho, desconhecendo-se, contudo, se se trata dos materiais publicados por C.
T. da Silva.
36
O fanum, caracterizado pela existência de uma cella envolvida por uma galeria ou espécie
de deambulatório acessível aos fiéis, o ambitus dos latinos (FAUDUET, 1993: 6; GROS, 1996: 199 e
203).
37
Em Conímbriga a maioria das casas da Idade do Ferro apresenta uma planta quadrangular
(ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 22).No entanto, já em na citânia de Briteiros e na citânia de
Sanfins existem perto das construções circulares, que são dominantes, algumas outras de planta
quadrangular (CENTENO e SILVA, 1996: 134 -136).

17
construção doméstica, que o século III a. C. assiste à divulgação da «casa com
vestíbulo», bem documentada em vários povoados, de que, muito possivelmente, a
construção de Miróbriga é apenas mais um exemplo.
Será ainda de salientar que a tacinha com ossos39 que serviu como um dos
«suportes arqueológicos» para admitir as características votivas do espólio  e,
portanto, a designação de «templo» atribuída à última fase da construção da II Idade do
Ferro poderá não corresponder linearmente à existência de uma construção
sacralizada.
A sacralização de um determinado espaço, e de um momento da sua construção,
ou mesmo o aparecimento pontual de espólio de carácter votivo ou fundacional, como
parece ser o do caso em análise, não pode funcionar de per si como sinónimo de
templo, onde se partilha uma sacralidade comungada por uma comunidade.
Para especificar esta ideia, gostaríamos de referir que em recentes escavações
promovidas em Miróbriga, na «zona habitacional», apareceu, ao nível da fundação de
uma casa romana de átrio, escondida no afloramento xistoso de base, uma tigela ou
patella invertida40 contendo no seu interior ossos de pássaro, que pensamos poder tratar-
-se de um ritual fundacional. No entanto, não pode daí concluir-se que escavámos um
«templo» romano.  Fot. 11 e 12 e 12 A.
Apesar da referência à sacralidade do local desde a Idade do Ferro, a equipa luso-
americana considerava este aglomerado urbano não como um santuário, mas
assemelhar-se-ia, segundo alguns destes especialistas, a uma cidade fortificada, «o
oppidum de Plínio» (BIERS et alii 19812: 32-33). Por seu lado, o templo centralizado e
área do forum apresentava, segundo alguns destes investigadores, características de um
capitolium provincial (BIERS et alii, 19811 e 19812: 31).
Também esta interpretação nos parece forçada tendo em atenção que, por um
lado, são raras as construções efectivamente tidas como capitolia nas províncias
ocidentais, seja nas gálicas, africanas ou ibéricas41, no século I, nem tão-pouco o culto a
38
As plantas publicadas por Berrocal de Castro de Capote apresentam-nos também vários
exemplos de casas subdivididas em dois compartimentos (BERROCAL, 1992: 180 e 222) que
poderão ser paralelos para a construção de Miróbriga, em análise.
39
A tacinha descrita pela equipa americana e que foi datada de finais século I a. C. (BIERS et
alii, 1984: 36) parece ter aparecido invertida, situação que é comum à que foi encontrada na
zona habitacional, quando da escavação que efectuámos em 1995/1996.
40
Para a tijela ou patella de calote esférica recentemente encontrada em Miróbriga existem
inúmeros paralelos, podendo referir os espécimes provenientes de necrópoles romanas do Alto
Alentejo publicadas sob a designação de «taças» por Jeannette Nolen (NOLEN, 1985: 100), o de
Conímbriga, publicado nas Fouilles com o número 979 (ALARCÃO et alii, 1975, V: 121) e os da
necrópole de Gulpilhares, publicados com os números 35 e 36 (LOBATO, 1995: 44). Aparecidos
também em Miróbriga são dois exemplares de características muito semelhantes e que se
encontram em depósito no Museu Municipal de Santiago do Cacém. Leite de Vasconcelos dá-
nos notícia de «uma tijela de barro grosseiro, cuja forma é o protótipo das nossas Malgas»
(VASCONCELOS, 1914: 318 e Fig. 44), pertencente a uma colecção particular e proveniente do
concelho de Santiago do Cacém, que aparenta ter semelhanças com a taça exumada nas
escavações de 1995.
41
Sobre este assunto ver BENDALA, 1989-1990: 11-36. Bendala Galán admite como provável, se
bem que não isento de dúvidas, o de Ampúrias, de Sagunto e de Valentia, na Ulterior, e o de
Itálica, e de Carteia, na Citerior, todos datáveis entre o século III a I a. C. Acrescenta-se ainda
a existência de um possível capitólio em Pollentia, datado do século II a. C. (ARRIBAS e
TARRADELL, 1987: 125). Gros e Torelli corroboram a opinião de Bendala no que diz respeito à
diminuta construção de capitolia nas regiões ocidentais, onde são preteridos pelos templos
dedicados ao culto imperial (GROS e TORELLI, 1992: 256). Recentemente Vasco Mantas admite,

18
qualquer uma das divindades da tríade capitolina está comprovado em Miróbriga. Por
outro lado, nunca a cidade que estudamos se tratou de uma colónia, condição necessária
para se dispor de um capitolium, numa primeira fase da romanização (BENDALA, 1989-
1990: 16).
Além de todas estas questões há ainda a acrescentar que, à época da construção
do templo centralizado de Miróbriga, em meados do século I, já o culto da tríade
capitolina havia, de certo modo, caído em desuso como fenómeno aglutinador do
forum, por motivos de ordem ideológica e política que trataremos no ponto referente ao
aglomerado urbano.

Admitimos, portanto, que este local, que tem uma ocupação da Idade do Ferro
desde os séculos V-IV a. C., onde se vão cruzar influências de cariz continental e
mediterrânico, entra na esfera de influência romana a partir, pelo menos, do século II a.
C., que irá impor, no século I d. C., os seus padrões.
Miróbriga tornar-se-á depois município, capital de uma ciuitas , polarizadora de
um território, e portanto um aglomerado urbano com as características e as infra-
estruturas comuns às cidades provinciais do império.  Fot. 13.

3.  As necrópoles de Miróbriga

Até muito recentemente não era conhecida qualquer sepultura ou necrópole


associada a Miróbriga, se bem que um achado vítreo encontrado numa sepultura junto
da aldeia da Formiga, datável do século I d. C. (ALARCÃO, 1968: 29), junto a uma das
possíveis saídas de Miróbriga com ligação ao Cercal e a Alvalade do Sado, e uma
pequena nota referente à descoberta de uma sepultura com vidros e um anel, em 1841
(BIERS, et alii, 1988: 5), poderão ser indícios das mesmas. Não há, contudo, quaisquer
outros dados que nos esclareçam sobre a sua tipologia e cronologia.
Recentemente, na encosta onde se têm desenvolvido escavações na área
limítrofe à capela de S. Brás, apareceram duas sepulturas de forma sub-rectangular
escavadas no xisto, com as paredes do topo formadas por lajes postas na vertical,
sobressaindo-se as que delimitavam a zona da cabeceira e que se salientavam do nível
do terreno. As duas sepulturas estão orientadas no sentido W/E.  Fot. 14.
Nenhuma delas continha espólio, tendo apenas o esqueleto da Sepultura 1, junto
aos dedos da mão direita, um aro em bronze, que deveria tratar-se de um anel. O seu
estado de conservação não permite, no entanto, a atribuição de uma cronologia.
Com uma arquitectura semelhante há paralelos de sepulturas romanas no Nordeste
Alentejano, como as de Serrones, Elvas; Padrãozinho, Vila Viçosa; Pombais, Marvão
(FRADE, 1993: 853 e 858), se bem que a orientação das sepulturas de Miróbriga (o
crânio virado a Poente) e a ausência de espólio indiquem que se devem tratar de
exemplares muito tardios.

contudo, a existência de um capitólio em Beja (MANTAS, 19961: 54).

19
A sua localização, junto a uma casa que se encontra em fase de escavação, em uso
até ao século IV, reforça a ideia de se tratarem de sepulturas pertencentes ao declínio do
aglomerado urbano ou mesmo posteriores42.  Fot. 15.
A existência dessas sepulturas tardias43, já provavelmente medievas, que devem
pertencer a uma necrópole mais vasta, não nos dão, nesta fase dos conhecimentos,
qualquer elemento quanto à organização espacial do oppidum latino e quanto aos
acessos à mesma.
Haveria, pois, que conhecer as necrópoles correspondentes à ocupação efectiva do
aglomerado, para daí se poderem tirar quaisquer conclusões relativas a algumas das
características do mesmo e sobre a rede viária que o uniria a outras localidades.
Ainda durante o corrente Inverno foi identificada, devido às fortes chuvadas que
assolaram a região, uma terceira sepultura, ainda não escavada, que aponta para o
período tardo-romano, pois são visíveis, à superfície, as telhas laterais de grandes
dimensões que deveriam delimitar a caixa.

4.  O processo de romanização do Sudoeste Peninsular

Há também a salientar que o processo de romanização do Sudoeste Peninsular e o


relativo desconhecimento acerca dos povos pré-romanos que aí habitaram,
nomeadamente os Túrdulos e Celtas, não permitem ainda uma boa análise territorial da
implantação da ciuitas de Miróbriga, temática que, só de per si, exige um exaustivo
trabalho de investigação na área e que não constitui o objecto deste trabalho.
A própria ocupação de Miróbriga em período romano é apenas conhecida muito
parcelarmente, restringindo-se aos «núcleos monumentais» e a alguns vestígios de
tabernae e de habitações dispersos. Só a continuação das escavações e das prospecções,
a curto e médio prazo, poderá vir a resolver questões ligadas com o seu urbanismo e
com as cronologias respeitantes à sua fundação, apogeu e decadência.
Deste modo, tendo em atenção todas as lacunas que os trabalhos arqueológicos aí
desenvolvidos não conseguiram colmatar; o desconhecimento que se mantém de
grande parte da sua estrutura urbana; a dificuldade em atribuir cronologias seguras a
muitas das estruturas arquitectónicas tendo como base o recurso ao espólio
arqueológico, uma vez que, no que diz respeito às antigas escavações, se encontra em
grande parte descontextualizado ou se desconhece o seu paradeiro; e ainda as incógnitas
acerca da realidade político-administrativa e económica da sua ciuitas, não é possível
escamotear a dificuldade em abordar o Sítio Arqueológico de Miróbriga. Mais do que
recheado de «certezas» ou de «conclusões», esta publicação será, pois, constituída por
um conjunto de questões que, ao longo de alguns anos de trabalho em Miróbriga, se nos

42
Segundo José Carlos Oliveira, director do Museu Regional de Beja, que estudará mais
detalhadamente estes dois esqueletos, nas sepulturas deve ter havido a intrusão de animais,
uma vez que partes dos esqueletos não estavam em conexão anatómica.
43
Em Pollentia foi escavada uma necrópole tardo-romana, onde algumas sepulturas feitas com
lajes laterais e cobertura podem ser um bom paralelo para Miróbriga. Algumas delas
apresentam uma laje na cabeceira, colocada na vertical, ao modo de estela, sem qualquer
espólio. Muitos dos esqueletos encontravam-se numa posição semelhante aos de Miróbriga,
com os braços ao longo do corpo e cabeça virada para o Oeste. Estas sepulturas foram datadas
do século IV d. C. (ARRIBAS e TARRADELL, 1987: 136).

20
foram levantando quanto à sua interpretação e à articulação com a sua área envolvente.
Decidimo-nos, portanto, orientar o trabalho no sentido de fazer:
A história da investigação em Miróbriga tendo em atenção todos os anteriores
trabalhos aí promovidos;
A caracterização do seu território em período romano e o que dele ainda
remanesce;
A apresentação geral de Miróbriga e do seu urbanismo, atendendo à investigação
recente neste domínio e ao resultado dos trabalhos arqueológicos que aí se têm vindo a
desenvolver nos últimos anos;
Finalmente, em forma de apêndice, incluímos uma ficha de caracterização geral
do Sítio Arqueológico bem como o «Projecto de Valorização de Miróbriga» que aí se
vem a desenvolver desde 1990. Em relação a este «Projecto de Valorização» podemos
considerar genericamente três fases de concretização: uma primeira fase, centrada no
levantamento das necessidades prioritárias para a manutenção do Sítio Arqueológico e
na criação de infra-estruturas de apoio ao visitante e aos participantes das actividades
arqueológicas, através da recuperação da capela de S. Brás e da inauguração de uma
pequena exposição no local; uma segunda fase, a partir de 1992, correspondendo ao
reinício das escavações, dos trabalhos de conservação e de restauro,  Fot. 16, bem
como na realização de um conjunto de actividades de sensibilização e de divulgação;
uma terceira fase, cujo programa se prevê venha a ter um carácter mais lato,
englobando um conjunto de acções iniciadas após a assinatura de um Acordo entre a
então Secretaria de Estado da Cultura e a Secretaria de Estado do Turismo, que integrou
Miróbriga no programa de acções estruturantes «Itinerários Arqueológicos do Alentejo
e do Algarve».
Gostaríamos ainda de salientar que não nos centraremos nas escavações
arqueológicas por nós promovidas, senão muito pontualmente e quando tratamos o
urbanismo de Miróbriga, porque ainda não estão finalizados os trabalhos, e, porque
gostaríamos que elas fossem, numa outra fase, objecto de um estudo monográfico44.

44
Esperamos vir a contar com a colaboração de José Carlos Quaresma para o estudo das terra
sigillata, uma vez que tem vindo a investigar as provenientes de antigas escavações e ainda
inéditas, e de Teresa Ricou da Ponte para os numismas, entre outros investigadores.

21
I PARTE  HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA DA INVESTIGAÇÃO
EM MIRÓBRIGA

1.  Dos Humanistas ao século XIX

Miróbriga tem sido, como a maioria dos sítios da Antiguidade, sujeita a vários
tipos de intervenção ao longo dos séculos, sendo algumas planeadas, das quais nos
ficaram ou parcelares memórias e descrições ou relatórios e publicações; outras de
«recolha», fruto de coleccionismos privados; e ainda as de «saque» puro e simples,
contribuindo para que se tenha perdido grande parte da informação sobre este local.
A confirmar estas últimas situações está a pequena quantidade de elementos
arquitectónicos e de estatuária, pesem algumas referências escritas sobre a existência
dos mesmos (FALCÃO: 1931), e os exemplares depositados no Museu de Santiago, tais
como bases de estátuas, colunas, capitéis, frisos, entre outros, que nos fazem vislumbrar
a imponência de algumas das construções de Miróbriga.
Refira-se ainda que grande parte dos elementos construtivos foram reutilizados na
edificação do castelo medieval de Santiago do Cacém, sendo ainda presentemente
visíveis muitos deles.
Data de 1517-1518 uma «Visitação da Ordem de Santiago» ao Hospital do Santo
Espírito na qual nada se refere a propósito da inscrição dedicada a Esculápio,
possivelmente porque o local onde a mesma foi colocada pertencia à Câmara e só numa
fase posterior foi alugada pela Misericórdia 45. Cai, portanto, por base a ideia de que a
ara dedicada a Esculápio aí tivesse sido posta a propósito das suas conotações
medicinais. Quanto muito o local escolhido para a sua colocação tem a ver com o
reforço da ideia de municipalidade. De qualquer modo, e a admitir que a recuperação
da mesma se deva ao humanista André de Resende, questão sobre a qual não há
confirmação, pode admitir-se que fosse em data mais avançada do que a referida
«Visitação».
André de Resende, retomando as referências de Plínio, referia-se a uma povoação
outrora chamada Merobrica, no seu De Antiquitatibus Lusitaniae, lib. 4, publicado em
1597. A existência de vestígios de muralhas cercadas de torres, de um aqueduto 46, de
45
Infelizmente esta inscrição não se encontra no local, que está já há alguns anos em obras,
ainda inacabadas. Temos conhecimento que a mesma foi retirada por José António Falcão,
aquando do início das obras, estando à guarda da Real Sociedade Arqueológica Lusitana, o que
não nos permitiu observá-la com maior acutilância.
Segundo o Mappa de Portugal do Padre João Baptista de Castro, citado por Macedo e Silva, a
referida inscrição «estaria na escada exterior da casa da camara». Esta casa foi alugada à
Misericóridia em 1770 que depois a adquiriu «para melhor largueza do hospital» (SILVA, 1869:
121). Posteriormente «no anno de 1844 se reedificou o hospital da misericordia, e se demoliu a
varanda que para elle dava entrada por meio de duas escadas de pedra …. Na parede da
frente da dita varanda estava a memoria dedicada a Esculápio pelo medico pacense C.
Januarius, que foi transferida para a parede lateral do edificio onde se acha» (SILVA, 1869: 121 e
146).
46
Não há quaisquer vestígios visíveis de um aqueduto. Aliás o Padre Macedo e Silva comenta
as informações de Resende do seguinte modo: «A existencia de muralhas cercadas de torres,
umas inteiras, outras meio destruidas, de um aqueduto, de uma ponte (que ainda existe)
lançada no valle immediato, e de uma fonte correndo de uma pedra quadrada, me dão a ver

22
uma ponte e de uma fonte correndo de uma pedra quadrada 47, fizeram-no concluir que
no local teria havido uma «antiga cidade». Resende estudou algumas inscrições
provenientes de Miróbriga, algumas das quais posteriormente consideradas falsas ou
fruto da imaginação do estudioso humanista.
Durante os séculos XVI e XVII as notícias especificamente dedicadas a Miróbriga
são escassas. As Visitações da Ordem de Santiago não nos dão muitos elementos sobre
o Sítio, ao contrário do que acontece com alguns outros vestígios arqueológicos48.
No entanto é muito curiosa uma carta Hispaniae Antiquae Tabulae de 1641,
existente no Museu de Sines, onde Merobriga aparece identificada com o local que
estudamos e integrada no Conventus Pacensis.  Fot. 17.
Em 1720, o Marquês de Abrantes, um dos fundadores da Academia Real da
História, foi a Miróbriga para estudar as inscrições, tendo feito uma leitura parcial da
inscrição consagrada a Esculápio (FALCÃO et alii, 1988: 41).
D. Frei Manuel do Cenáculo, enquanto Bispo de Beja 49, visitou Santiago do
Cacém, em 1800, para a sagração da Igreja Matriz que havia sido destruída pelo
terremoto de 1755 e que muito afectou toda a vila.  Fot. 18. Logo nessa altura, se
iniciaram em Miróbriga50 escavações por ele patrocinadas, que foram retomadas em
1801 e em 1808. O responsável pelas mesmas foi o pároco de Santiago, Padre
Bonifácio Gomes de Carvalho, tendo sido os materiais aí exumados integrados
inicialmente no «Museo Sezinando Cenaculano Pacense», em Beja, e, mais tarde,
quando já Arcebispo, na cidade de Évora.
De finais do século XVIII, datam os manuscritos do Padre Bernardo Falcão,
intitulados «Memorias sobre a Antiga Mirobriga» e que foram parcialmente dados a
conhecer em jornal da região, Nossa Terra, nos anos trinta da nossa centúria. Este
estudioso defende que em Miróbriga, de fundação Cipriota, existiria um templo
dedicado a Vulcano, como o comprovaria uma estátua encontrada no local e a
existência de mineração de ferro desde remotíssima época. Influenciado pela

que n’este logar isistiu uma antiga cidade» (SILVA, 1869: 9).
47
De facto, existe localizada entre as «Termas Este» e a ponte uma pedra de grandes
dimensões perfurada no meio, que deveria servir para escoar a água. No entanto, parece-nos
estar deslocada do local de origem, não sendo possível assegurar se efectivamente esteve
associada a alguma fonte ou a um poço.
48
Como por exemplo em relação a Tróia onde há referências a materiais arqueológicos
depositados na capela edificada junto às ruínas. A partir do século XVI são também constantes
as referências à utilização das pedras das ruínas. Ainda no século XVIII se encontram vários
documentos sobre o emprazamento de Tróia, que salientam: «fica de fora a pedra, que todos
poderão tirar para fazerem casas e moinhos e os possuidores de sesmaria não poderão tolher a
qualquer pessoa que a queira ir buscar» (COSME, 1985: 26). Sobre este Sítio há também um
conjunto enorme de outro tipo de registos, desde os relatos de viagem de Gaspar Barreiros, às
interpretações «nacionalistas» de Frei Bernardo de Brito e ainda as descrições de Duarte Nunes
de Leão e de João Baptista Lavanha, entre tantas outras. De Seilium também há notícias do
aproveitamento da pedra para a construção do castelo (BATATA, 1997: 185).
49
D. Frei Manuel do Cenáculo Villas-Boas (1724-1814) foi provincial da Ordem Terceira de
S. Francisco, bispo de Beja e arcebispo de Évora.
50
Macedo e Silva informa-nos que: «Referimo-nos á excavação que, no anno de 1800, mandou
fazer nas ruinas de S. Braz o illustre arcebispo Cenaculo. As medalhas que ahi se acharam e
que o sabio prelado levou para Evora, eram umas do tempo da republica e outras dos
imperadores desde Augusto até á divisão do imperio. As divindades foram alguns penates e um
Priapo, que se acharam no logar hoje chamado: pomar de Callisto» (SILVA, 1869: 11).

23
historiografia alcobacense e por Frei Bernardo de Brito, pretende fazer remontar a
fundação de Miróbriga aos descendentes de «Thubal» 51.
Bernardo Falcão refere no seu texto que, aquando da visita, em 1755, do «Rev.mo
Padre Mestre Frei Alexandre da Sagrada Família (ao) dito sítio de São Brás, descobriu
uma pedra de bom lavor quebrada». Tratava-se de uma lápide com a inscrição PORTA
CIVITA, que denunciaria a existência de uma porta da cidade. Desconhece-se, contudo,
o paradeiro desta inscrição.
Em 1869, o Padre Macedo e Silva publicou um importante estudo sobre Santiago
do Cacém, Annaes do Município de Sant’Iago do Cacém, onde, na primeira parte,
dedica atenção às origens remotas do Município e nomeadamente às ruínas da antiga
«Merobriga», cuja origem admite remontar a uma fundação «celtico-phenicia». Este
estudioso transcreve no seu trabalho algumas inscrições lapidares da antiga povoação
(SILVA, 1869, I: 11) e faz sumária alusão ao estatuto municipal que a mesma teria em
período romano.
Dos séculos XIX e XIX data também um conjunto de obras de carácter
enciclopédico «Diccionários chorográphicos» e «Geográficos» que aludem à fundação
de Miróbriga, prevalecendo em quase todos elas explicações míticas ou especulativas
para a mesma. No Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal aceita-se como possível a
fundação céltica da «povoação de Mero»52.

2. O século XX e a investigação em Miróbriga

José Leite de Vasconcelos, em 1914, dá-nos conhecimento de uma série de


vestígios arqueológicos situados nas proximidades de Alcácer do Sal, Santiago do
Cacém e Sines.
Este investigador descreve Miróbriga como tratando-se de um oppidum, «onde se
distinguem três aterros ... amparados por muralhas exteriores, construídas de fiadas de
pedra postas horizontalmente e cimentadas, muralhas de que só restam alguns lanços»
(VASCONCELOS, 1914: 315).  Fot. 19.

51
«Thubal de quem dizem ... contava em seus dias setenta e cinco mil descendentes ...
Ultimamente Brigo, bisneto de Tubal, grandemente apaixonado pela gente lusitana, fez varias
fundações neste Reyno pelos anos de 1:906 antes de Christo em que deixou o seu proprio
nome, como foi Coním Briga a Coimbra, na praia do Mondego junto a Porto Alegre,
Medobriga, Brigancia e junto à cidade de Lagos, Laco Briga; pois então porque não fundaria
Miróbriga que ao depois os Cyprios ampliaram por estabelecer nela suas oficinas de fundir
ferro e metal, recebendo o nome de Mirones da Cidade que povoavam» ( FALCÃO, 1932, Nossa
Terra, n.º 14). Posteriormente a povoação teria caído, como tantas outras, nas mãos dos
«barbaros» Celtas e «mais nações barbaras ... até que caíram em poder dos romanos ....
Porem, sem dúvida que em todos estes domínios existiu a antiga Cidade no sitio da sua
primeira fundação; com grandeza e opulência teve nela templo Vulcano; no tempo dos
Romanos Esculápio a quem Catmo Jannuario, medico dessa capital (Beja), deixou em legado»
(FALCÃO, 1932 , Nossa Terra, n.º 14).
52
No artigo referente a Santiago do Cacém são apresentadas várias teorias sobre a fundação de
Miróbriga. Uma delas, que o autor não adopta, diz que «foi fundada pelos phenicios, ou pelos
gregos, com o nome de Merobriga, que significa castello dos fundidores de ferro de Merones,
fundidores – e briga, povoação» (LEAL, 1874: 32).

24
Ainda segundo este autor «O tipo d’esta fortificação (é a) dos castros proto-
-históricos (não havendo) porém dúvida que ela recebeu grande influencia romana,
revelada nas muralhas, nas casas e nos achados» (VASCONCELOS, 1914: 316).
Neste artigo, Leite de Vasconcelos descreve algum do espólio proveniente de
Miróbriga, em posse de um particular, e transcreve os textos de quatro inscrições que
viu «num tanque à entrada da vila», que admite serem cópias. Deveria tratar-se, de
facto, de cópias das inscrições que foram colocadas junto ao chafariz da Senhora do
Monte, em Santiago do Cacém.
Refere ainda a inscrição consagrada a Esculápio, que se encontrava «na parede do
antigo hospital da vila».
No entanto, e apesar das notícias anteriores, num roteiro da Vila de Santiago, de
1938, no que respeita ao aglomerado urbano de Miróbriga são ainda apenas referidas as
«termas romanas» (VILHENA, 1938: 30-31), o que demonstra que só a partir das
escavações promovidas por Cruz e Silva, a partir da década de 20, foram melhor
conhecidos os restos da antiga cidade53.
Cruz e Silva, investigador natural de Santiago do Cacém, fez em Miróbriga
inúmeras sondagens e escavações, tendo posto a descoberto o hipódromo, as termas,
parte da «acrópole» e uma via.
Para além de ser o fundador e director do Museu Municipal de Santiago do
Cacém, ao qual doou a maioria do espólio proveniente das suas escavações em
Miróbriga, desenvolvidas entre 1922 e 1948, e uma colecção numismática, Cruz e
Silva publicou no Album Alentejano e no Arquivo de Beja vários artigos sobre a
arqueologia do concelho e mais especificamente sobre Miróbriga. No entanto, dos
trabalhos arqueológicos aí efectuados não existe qualquer relatório detalhado, o que
dificulta a contextualização dos materiais arqueológicos que, segundo este estudioso,
seriam tão diversificados como «cerâmica de transição entre os últimos tempos da pedra
pulida, e as idades do Bronze e primeira do Ferro», «louça grega», e materiais romanos
(SILVA, 1945: 294).
Cruz e Silva admite que a antiga Miróbriga se estenderia pela área que é ocupada
actualmente pela povoação de Santiago do Cacém e rapidamente conclui da sua
ocupação pré-romana54.
Este autor descreve-nos vários materiais da Idade do Ferro existentes, à época, no
Museu de Santiago do Cacém.
Adere sem hesitação à fundação céltica de Miróbriga, em 500 a. C. e, numa
atitude vincadamente histórico-culturalista, distingue três fases de ocupação do local:
1. «A de fixação». «Nesta fase se abrem ou se alargam no chisto profundas
cavidades que seriam cobertas de junco ou de argila, ou até de grandes placas do
próprio chisto, afim do castro ficar oculto, camuflado, para que de Poente, isto é, do
lado do mar, não surgisse a surpreza de qualquer assalto dos que faziam da rapina o
meio de abastecer as suas galeras, de escravos e mercadorias» (SILVA, 1946: 337).

53
Na Carta Corográfica de Portugal, dirigida por Filipe Folque, Miróbriga vem assinalada
como «Ruínas das termas romanas».
54
«O antigo Castro  Castelo Velho  não se nos apresenta como uma estação arqueológica
que nos sirva de tipo. Não  diferentes gerações por êle passaram existindo hoje as suas ruínas,
a escrita do seu numerário, ainda hoje indecifrável e, ainda, fragmentos das suas indústrias».

25
A ocupação pré-romana está efectivamente comprovada. No entanto, não se
poderá admitir que a ela se possa fazer corresponder linearmente as construções
«escavadas no xisto», até porque o são grande parte das obras romanas em Miróbriga.
Na campanha de 1995/96 detectou-se, de facto, na área habitacional ainda em fase
de escavação, uma situação de rocha escavada e que à primeira impressão tinha quase a
aparência de um abrigo. No entanto, os buracos de poste a ela associados e o seu
contexto arqueológico, no meio de outras casas romanas, fazem-nos admitir que se
trataria de uma obra articulada com as habitações e que teria tido um revestimento
perecível. Não podemos, infelizmente, apontar qualquer cronologia para a mesma,
porque esta «concavidade» foi usada ao longo do tempo como uma lixeira, tendo sido a
estratigrafia revolvida, havendo materiais arqueológicos misturados com objectos
recentes.  Fot. 20.
No entanto, nas suas imediações, mas em contexto marcadamente romano, junto a
uma escada que deveria dar acesso exterior a um segundo piso de uma casa de grandes
dimensões, apareceu um machado de pedra polida calcolítico, que nos parece ter uma
função votiva, uma vez que não tem quaisquer marcas de uso.
Não sabemos, portanto, identificar ou precisar cronologicamente a fase de
«fixação» a que Cruz e Silva se refere.
2. «A de vencidos ou vencedores em que a evolução social se vai fazendo num
sentido mais perfeito», quando os habitantes começaram a abandonar os abrigos e
principiam a edificar.
3. «A de plena romanização», correspondendo, segundo este autor, à segunda
metade do século I a. C. (SILVA, 1946: 336 e 337).
Corresponderia a esta terceira fase a edificação da «Porta Civitas», lápide que,
segundo a descrição de Bernardo Falcão já mencionada (FALCÃO, 1931-32, Nossa Terra),
teria aparecido em Miróbriga e que deveria pertencer a uma das portas da cidade; se
construiu o hipódromo, e que «as suas águas medicinais se estudaram e se levantou,
milagrosamente, o magnífico edifício das termas» (SILVA, 1946: 338).
Destinadas parcelarmente, segundo este investigador, ao emprego de águas
minerais, ou seja medicinais, as termas de Miróbriga são descritas e é desenhada em
pormenor a sua planta (SILVA, 1946: 338). A inscrição a Esculápio reafirmaria, na sua
opinião, as virtualidades curativas do local55.
Da sua descrição da entrada das termas conclui-se que estavam in situ «três altas
colunas cilíndricas, de fino mármore, uma delas nichada, isto é, aderente à parede»
(SILVA, 1946: 344), a que nos referiremos quando tratarmos da intervenção de
D. Fernando de Almeida em Miróbriga.
Cruz e Silva faz uma apresentação cuidada das termas, dos seus compartimentos e
pavimentos «coberto(s) de placas de lioz branco  calcário, jurássico  em que,
55
Não há actualmente qualquer referência a águas medicinais no concelho, segundo as análises
municipais. O Padre Macedo e Silva informa-nos que as águas das «fontes proximas da villa
contêem muito carbonato calcareo e algum sulphato da mesma base, abundando este ultimo sal
nos poços da villa, cuja agua é por isso impotavel» (SILVA, 1869: 97). Mais adiante acrescenta:
«Não ha aguas thermais no concelho» (SILVA, 1869: 102).
Pesem todas as interrogações que se possam colocar quanto à fiabilidade das informações
dadas por Pinho Leal, é um facto que este autor confirma a nota de Macedo e Silva afirmando
que «não há em todo este concelho nascente alguma de águas medicinais, senão duas de águas
ferreas, na serra, a 2 kilómetros ao N. da vila».

26
parcialmente, está formada esta região, assim como da mesma pedra é o lambris, com
um metro de altura, pouco mais ou menos, que revestia pela parte interna, todas as
divisões do edifício. Este lambris estava seguro às paredes por meio de argamassa e por
“gatos” de cobre ou bronze. As ombreiras das portas eram forradas de mármore
cinzento-azulado muito fino. As salas que estão em frente da grande porta de entrada
eram as mais ricamente ornamentadas, conhecendo-se ainda o sítio das molduras, para
os painéis que não chegaram até nós, e nos capitéis os orifícios de suspensão de
adornos» (SILVA, 1946: 345).
As informações e os registos gráficos publicados por este investigador são
preciosos para o estudo dos edifícios termais de Miróbriga. Isto, porque, se, por um
lado, nos permitem reconstituir o seu aspecto geral, à data das escavações aí
promovidas por Cruz e Silva, por outro, permitem-nos aferir comparativamente o tipo
de intervenções de «conservação, restauro ou mesmo reconstrução» efectuadas mais
tarde, por D. Fernando de Almeida, que, na maioria dos casos, não foram objecto de
qualquer publicação detalhada.
Cruz e Silva, atendendo aos trabalhos que realizara em Miróbriga, concluiu que
«uma parte da cidade fortificada estava no cêrro mais alto e nos três outros que o
cercam» (SILVA, op. cit.: 342). O cerro mais alto estava ligado a outro mais baixo por
meio de degraus de pedra assentes no xisto e nele «devia ter existido o Templum», que
observado «à distância fica-se com a impressão de que deveria ser circular» (op. cit.:
343).
Pela descrição deste investigador, fica-se com a ideia que as plataformas onde se
implanta o forum eram ainda pouco conhecidas. No entanto, a planta do templo absidial
e as escadas que o ligavam à praça pública, num «cêrro mais baixo», eram já
identificadas. De igual modo foram referidas algumas das construções da praça
propriamente dita que, localizada nesse «cêrro inferior, dividido em vários
compartimentos, seria destinado aos sacerdotes, e ainda o espaço vazio, fronteiro à
porta, ou vestíbulo, reservar-se-ia, provàvelmente, à manutenção dos lumes para os
sacrifícios ...» (op. cit., loc. cit.), pois aí apareceram as «oferendas a Apolo» a que já
nos referimos na apresentação deste trabalho.
A primeira notícia sobre o hipódromo de Miróbriga é-nos dada por este
investigador, tendo sido por ele publicada a primeira planta conjectural do mesmo: «As
águias romanas havendo levantado a Marte, Vénus, Vulcano e a Esculápio os seus
votos, estando, por assim dizer, a bem com os Deuses, edificam semelhante ao Stadio
entre os gregos  um circo tendo 395 passos de comprimento e 84 de largo».
Em anos posteriores, após a morte de Cruz e Silva, a Direcção Geral dos Edifícios
e Monumentos Nacionais convida os arqueólogos Afonso do Paço e Maria de Lourdes
Costa Arthur para desenvolverem em Miróbriga trabalhos arqueológicos. Esta
investigadora, que aí permaneceu alguns meses, nos anos de 1954 e de 1955, incidiu
fundamentalmente a sua atenção na via que dava acesso às termas e nas casas anexas.
Maria de Lourdes Costa Arthur publica, em 1983, um trabalho intitulado
Meróbriga, Santiago do Cacém (Portugal), dedicado às campanhas que aí havia
efectuado.
A direcção dos trabalhos arqueológicos passou a ser assegurada a partir de 1959
por D. Fernando de Almeida, que aí efectuou, praticamente sem interrupção,
campanhas de escavação nas décadas de 60 e 70.

27
Os cadernos de campo de D. Fernando pertencem ao acervo do Museu Nacional
de Arqueologia. Do ponto de vista documental, é extremamente curioso o manuscrito
que relata as escavações de 1959, cujos trabalhos começam a 3 de Agosto e terminam a
22 do mesmo mês.
As escavações iniciaram-se «pela parte mais alta do Castelo Velho, que supus ter
sido ali o primeiro assento dos povoadores .... Fiz trincheiras longitudinais e
perpendiculares ... escavei a grande construção a meio desta parte mais alta e que é
nitidamente romana, do séc. III d. C. A parte da colina que fica em plano inferior a este
mais alto também foi cortada em trincheiras quadriculadas; os espaços entre as
trincheiras não eram iguais entre si, pois mandei abrir sanjas em sítios que julguei mais
proveitosos, ou que aflora uma parede, ou por outro motivo».
A segunda campanha, iniciada em 8 de Agosto de 1960, incide
fundamentalmente «entre a torre (templo?) e o muro que dá para a esplanada ....
Outro grupo segue a muralha que atravessa o 3.º plano e encontra uma pequena porta,
com soleira e sulco na soleira. Os estudantes, em número aproximado de 20, ficam
entre a 2.ª e a 3.ª muralhas, do lado das termas, onde procuram verificar o que há por
ali».
Nessa campanha foram encontrados vários fragmentos de inscrições na área do
«terreiro». A escavação estendeu-se ainda aos «terrenos laterais ao terreiro».
D. Fernando dá ainda conhecimento de ter mandado «restaurar parte da coluna de que
aparecera a base e parte do fuste revestido de estuque, nas escavações do ano anterior».
Se bem que no texto não seja clara a localização da mesma, calculamos que se trate de
uma coluna de quadrante situada no lado nordeste do forum, no que D. Fernando
julgava ser uma domus. Contudo, e uma vez que no forum são vários os exemplares
integralmente «restaurados» e cimentados, não nos é possível chegar a uma conclusão
definitiva.
Ainda nessa campanha de 1960, D. Fernando decide «explorar o circo» e é feita,
pelos Monumentos Nacionais, uma planta do mesmo.
Segundo informação de D. Fernando (ALMEIDA, 1963: 149 e 1964: 3), o circo, depois
de descoberto, foi novamente tapado para permitir a exploração agrícola, tal como já
acontecera após as sondagens de Cruz e Silva (ALMEIDA, 1963: 149 e 1964: 3).
Sobre o hipódromo D. Fernando publica, em 1963, uma Nota sobre os Restos do
Circo Romano de Miróbriga dos Célticos (Santiago do Cacém).
Dos trabalhos efectuados em 1962 existe, no seu caderno de campo, uma pequena
referência que alude a escavações na vertente sul do alto do monte do Castelo Velho,
limpeza e sondagens «do caminho para as termas» e «sondagens junto à capela de
S. Brás». Efectivamente, em recentes limpezas e escavações, encontrámos esta área
bastante revolvida e com materiais recentes misturados com espólio romano.
É nessa altura deslocada para o lado noroeste da praça pública, junto à calçada,
«em cima de um plinto que estava ao lado e, da mesma pedra e dimensões ajustáveis»
uma a inscrição encontrada no forum, «encostada ao rostrum» (ALMEIDA, 1964: 55).
Em 1964, publica Ruínas de Miróbriga dos Célticos, onde, segundo o seu autor,
conta «em livro, a história das escavações a que me dedico de há anos. ... não com o
fim de dar um relato completo, para arqueólogos, do que ali tem sido encontrado e as
conclusões a tirar, mas para tornar mais conhecido do grande público um dos locais de
maior interesse do País ...» (ALMEIDA, 1964: 3).

28
Nesse trabalho, D. Fernando admitia a ligação, por via romana, deste aglomerado
a Salacia, Pax Iulia, Sines e aos Cúneos, em Lacobriga, conferindo-lhe, portanto, um
papel axial na ligação entre várias cidades da Lusitânia.
D. Fernando detectou estruturas que distavam entre si aproximadamente 1 km, o
que o levou a concluir ter tido Miróbriga um «amplo perímetro», se bem que não fosse
«integralmente urbanizada» (ALMEIDA, 1964: 6).
Este investigador defendeu a tese de que Miróbriga, de origem céltica, foi
arrasada e abandonada por altura das invasões do século V (ALMEIDA, 1964: 22). Teria
sido uma ciuitas romana, que «teve magistri» e Município. «Nos séculos III-IV,
alargaram-lhe o âmbito e transformaram o cimo da colina num santuário dedicado a
Esculápio ? e a Vénus ?». (ALMEIDA; 1964: 71)  Fot. 21 a 23 , local de peregrinação
concorrido na época romana, com um complexo termal de apoio aos visitantes e um
hipódromo ou circo, destinado a proporcionar-lhes «distracções» durante as festividades
religiosas que se celebrariam em Miróbriga.
Em 1968, D. Fernando publica um artigo intitulado O Santuário Romano,
Campestre, de Miróbriga dos Célticos, onde reforça a ideia de Miróbriga se tratar de
um local de peregrinação, localizado fora de qualquer aglomerado populacional: «além
do lugar propriamente dedicado à divindade, à sua morada, o templo e construções
anexas, havia balneários com as suas latrinas, para uso dos peregrinos, e um edifício
para distracções, geralmente um anfiteatro ou um teatro». Em Miróbriga os peregrinos
podiam, segundo este investigador, «distrair-se em um circo» (ALMEIDA, 1968: 92 e 94).
D. Fernando, para além das escavações, fez inúmeros restauros e reconstituições
ao longo de todo o sítio romano. Em documento datado de 1972, pertencente ao
«Arquivo Morto» do Museu Nacional de Arqueologia, Miróbriga dos Célticos,
Delimitação da Área Arqueológica e Incremento das Escavações, este investigador
refere que «Para o templo de Esculápio foram levadas as colunas que lhe pertenciam e
tinham ido para o vale: precisamente, para as termas romanas. Foi levantada parte das
paredes, com o fim de sugerir o aspecto do templo a que não restava mais do que boa
parte do podium e da escada central» (ALMEIDA, 1972: 2).  Fot. 24 e 25.
A este trecho do documento de D. Fernando de Almeida cabe-nos fazer os
seguintes comentários:
1. Os acidentes topográficos dificilmente permitiriam que as colunas resvalassem
até à zona das termas e não há qualquer notícia das mesmas terem para aí sido carreadas
em trabalhos anteriores. Pelo contrário, as descrições feitas por Cruz e Silva referem a
existência de três colunas in situ nas termas;
2. Da existência dessas três colunas ainda in situ nas termas existe referência
escrita de Cruz e Silva (SILVA, 1946: 344) e documentação fotográfica que nos permite
concluir ser abusiva a ilacção de D. Fernando de Almeida.
3. Nas termas é ainda bem visível o negativo da implantação das colunas.

Posteriormente debruçar-nos-emos também sobre as dificuldades que esta


intervenção causa à interpretação do templo centralizado. Gostaríamos, contudo, de
salientar que a situação recriada no templo  parede e coluna adossada  replicam a
situação encontrada nas «Termas Oeste», como aliás se pode documentar por algumas
fotografias que apresentamos neste trabalho.  Fot. 24 e 31.

29
D. Fernando sugere ainda, mais adiante, que o balneário teve de ser sujeito a
diversas intervenções pois era «necessário restaurar uns revestimentos de paredes e
colocação de capitéis existentes; finalmente, fazer uma pequena ponte em betão, forrado
com o piso romano, que dali foi arrancado, mas está guardado, para se passar de
tepidarium para caldarium» (ALMEIDA, 1972: 3). Estas intervenções foram,
efectivamente, concretizadas, podendo ser ainda visíveis nas termas de Miróbriga
muitas das reconstruções aí efectuadas, como as paredes e as pilastras que se situam
junto à piscina de água fria e no caldarium.  Fot. 27 a 34.
A ponte romana foi também sujeita a consolidações, algumas delas recorrendo a
cimento, como detectámos quando de alguns trabalhos de consolidação e restauro,
efectuados em 1992. Aliás segundo texto firmado por D. Fernando em 1972, este
investigador afirma: «Na pequena ponte romana, em pedra, vizinha do balneário, já
restaurei o que se tornava urgente fazer e não precisa de outros trabalhos além dos de
voltar a limpá-la da cobertura que com mais de um palmo de terra reveste o taboleiro,
para tornar a por a descoberto o piso romano, aliás bastante bem conservado. É que as
vacas que por ali passavam, diàriamente, escorregavam no lageado e fui como que
intimado a tornar a cobrir a calçada» (ALMEIDA, 1972: 3).
Em pequenas sondagens por nós efectuadas não foi possível encontrar as lajes do
tabuleiro a que D. Fernando de Almeida se refere neste documento que, a terem
existido, se situariam a uma cota muito mais baixa do que o piso actual.
Segundo a posterior publicação da equipa americana, os 50 cm superiores da
ponte não fazem parte da edificação primitiva ( BIERS et alii, 1988: 14), dado que nos
parece certo, pois no levantamento que fizemos em 1992 verificámos que o aparelho da
construção era, nessa zona, completamente diferente. Como testemunho da sua
fisionomia, em fase anterior ao «restauro» de D. Fernando, existe uma fotografia
publicada em 1964 em Miróbriga dos Célticos, em que essa construção não tem ainda a
parte superior reconstruída.
D. Fernando propunha ainda, nesse documento, a consolidação das paredes do
circo, intervenções que foram efectivamente efectuadas, como ainda é facilmente
detectável através da quantidade de cimentos utilizada.
Em Abril de l979, após a morte daquele especialista, era criada, no âmbito da
Comissão Organizadora do Instituto de Salvaguarda do Património Cultural e Natural
(COISPCN), uma comissão encarregada de estudar a situação da estação e elaborar um
relatório sobre os principais problemas que com ela se prendiam.
Nesse mesmo ano, Maria Maia e Manuel Maia faziam um pedido para
continuação dos trabalhos de D. Fernando de Almeida, que não foram levados por
diante, uma vez que se aguardava o relatório da mencionada Comissão. Esse relatório,
de carácter sucinto, foi finalmente apresentado, mas não foram tomadas então quaisquer
medidas tendentes à resolução dos problemas por ele apontados: necessidade de serem
encetadas negociações com vista à eventual criação de um «Museu de Sítio»; de se
efectuarem trabalhos de consolidação de estruturas; de contratação de mais um guarda
para a estação; de construção de infra-estruturas de apoio às ruínas; de elaboração de
um roteiro e de definição de circuitos de visita, etc.
De 1971 data o trabalho de Maria Adelaide Garcia Pereira, «Subsídio para o
Estudo da Terra Sigillata de Miróbriga».

30
Entretanto, foram publicados vários estudos parcelares sobre Miróbriga, na revista
Setúbal Arqueológica (II-III, 1976-77): «Terra Sigillata de Miróbriga»; «Alguns
Fragmentos de “Paredes Finas” de Miróbriga»; «Lucernas Romanas de Miróbriga» e
«As Fíbulas de Miróbriga» assinados reciprocamente por Luísa Ferrer Dias, Jeannette
Smit Nolen, Maria Elisabeth Neves Cabral e Salete da Ponte.
Na mesma revista, em 1979, publicaram Carlos Tavares da Silva e Joaquina
Soares a «Cerâmica pré-romana de Miróbriga» e J. A. Horta da Silva e Vítor D. T.
Mendonça uma «Nota prévia sobre Composição Mineralógica e Condições de Cozedura
de Cerâmica pré-romana de Miróbriga».
Já em 1968, Jorge de Alarcão havia estudado e dado a conhecer alguns vidros
provenientes de Miróbriga, que se encontram no Museu Municipal de Santiago do
Cacém (ALARCÃO, 1968: 29-32)
Em 1981, no seguimento de contactos com arqueólogos americanos, lançou-se um
projecto de cooperação internacional, «The Mirobriga Project», dirigido por
arqueólogos das Universidades de Missouri-Colombia e Arizona e representantes
portugueses. No decurso desse projecto, que se previa quadrianual mas que se
prolongou até 1985, foram estudadas em pormenor diversas zonas  «acrópole»/forum,
termas, zona habitacional e hipódromo , que contribuíram para um melhor
conhecimento global deste Sítio Arqueológico.
Colaboraram nesse projecto José Olívio Caeiro, como responsável pela parte
portuguesa, e Carlos Tavares da Silva.
Na primeira campanha, a equipa de Missouri concentrou-se fundamentalmente na
zona do forum e do templo, na zona das termas e no hipódromo. José Olívio Caeiro
encarregou-se, por sua vez, da área limítrofe à capela de S. Brás.
Na segunda e terceira campanhas, os trabalhos continuaram na área do Castelo
Velho, tendo-se confirmado a ocupação pré-romana de Miróbriga, nas termas e na zona
habitacional. Em 1982 foi feita a primeira planta geral das termas, tendo-se dado início,
em 1983, ao levantamento topográfico do sítio, que foi completado em 1984.  Fot. 35.
Para todo o Sítio Arqueológico foi feito um sistema de referências orientado Norte-Sul.
Neste último ano, a campanha incidiu ainda no circo, onde foram feitas novas
sondagens, e nas termas. São publicados de seguida os resultados, bem como estudos de
alguns frescos de Miróbriga (BIERS et alii, 1984: 35-53), tendo sido consolidadas as
pinturas murais.
Os resultados preliminares das escavações efectuadas pela equipa luso-americana
foram sendo editados anualmente, na revista Muse, e aí se publicaram, em 1981, 1982 e
1983, os únicos estudos parcelares das sondagens feitas no forum, uma vez que os BAR
não lhes dedicam senão uma pequena nota (BIERS et alii, 1988: 15).
A equipa luso-americana perfilha a opinião de que Miróbriga constituiria um
aglomerado urbano importante, habitado desde, pelo menos, a Idade do Bronze, sendo
as termas e o circo partes integrantes de um perímetro urbano ainda não definido em
toda a sua extensão.
O forum da povoação  com as construções que, logicamente, lhe ficariam anexas
 teria uma sucessão de ocupações que inclui, para além dos níveis de épocas
anteriores, duas fases de construção da época romana, datando a mais antiga do século

31
I. O templo centralizado dataria de meados do século I d. C., tal como a maioria das
construções que se desenvolvem a Sul do mesmo  tabernae.
Em 1988 é publicado em Oxford Mirobriga  Investigations at an Iron Age and
Roman Site in Southern Portugal by the University of Missouri-Columbia, 1981-1986,
onde são sintetizados os trabalhos desenvolvidos e publicados os materiais
arqueológicos aí exumados. Como já foi referido, as sondagens do forum não foram, até
hoje, pormenorizadamente dadas a conhecer, devido ao facto de entretanto a equipa se
ter desmembrado.
Em 1984, publicou-se a tese de doutoramento de José d’Encarnação sobre as
Inscrições Romanas do Conventus Pacensis, trabalho fundamental ao estudo da
Romanização do Sul do actual território português. Às inscrições de «Miróbriga e seu
Termo» dedica um capítulo que vem, a muitos níveis, clarificar o tipo de ocupação
humana na região.
O trabalho publicado por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, Pré-História
da Área de Sines, o inventário publicado, em 1988, por Jorge de Alarcão no seu Roman
Portugal, que faz uma abordagem sistemática dos sítios e do povoamento romano no
actual território português, e ainda os Subsídios para uma Carta Arqueológica, editados
em 1993, entre tantos outros trabalhos, foram, pois, uma base fundamental para o
estudo da ciuitas de Miróbriga.

32
II PARTE  QUADRO GEOGRÁFICO

Miróbriga fica situada no limite de uma faixa acidentada que se desenvolve a


Este, constituída pelos contrafortes da Serra de Grândola e do Cercal, de que a colina
onde se situa o oppidum se pode considerar a retaguarda. Esta faixa acidentada
corresponde, genericamente, à mancha xistosa do Carbónico.  Fot. 36, 37 e 38.
A zona de Santiago do Cacém fica na zona de contacto do maciço antigo e de um
pequeno afloramento de rochas do Secundário, do Triásico («arenitos de Silves») e do
Jurássico Inferior (dolomitos, calcários dolomíticos, margas e argilitos) 56.
A Oeste, desenvolve-se uma faixa costeira, plana. Uma série de lagunas faz o
contacto entre a terra e o oceano, fertilizando as zonas mais interiores.
A área que corresponderia ao núcleo urbano de Miróbriga e zonas limítrofes é
caracterizada, do ponto de vista litológico, por afloramentos xistosos, que confinam
com uma faixa de arenitos e de conglomerados com cimento argilo-ferroso e outras
com argilas, calcários margosos e calcários dolomíticos.
Do ponto de vista da capacidade de uso dos solos, a zona onde se implantou o
oppidum de Miróbriga corresponde, portanto, à classe E  os solos litológicos não
húmicos de «arenitos de Silves» ou afins (fase pedregosa). Na área limítrofe
encontramos solos pertencentes às classes A, B, C e D, correspondendo genericamente
a: A  barros pretos calcários; B  solos mediterrânicos pardos, de margas ou calcários
margosos ou arenitos calcários; C  solos mediterrânicos vermelhos ou amarelos, de
calcários compactos ou dolomias e margas, calcários margosos ou arenitos calcários 
que podem comportar várias culturas, desde a horticultura (irrigação), ao cultivo de
cereais e de oliveira, até à cobertura vegetal, como actualmente se pode verificar nessas
zonas; e D  solos litológicos não húmicos de «arenitos de Silves» e afloramentos
rochosos de calcários ou dolomias.
As construções de Miróbriga utilizam, na sua maioria, os materiais litológicos
locais, à excepção de alguns elementos arquitectónicos ou epigráficos que utilizam o
calcário fétido de S. Brissos.
Região de clima temperado oceânico, húmido e moderadamente chuvoso  ou
«marítimo de fachada atlântica», segundo S. Daveau , a zona de Santiago do Cacém
regista uma temperatura média anual de 15,8º C e uma amplitude térmica anual de
11,2 º C, condições estas que não se deverão ter alterado muito desde o período
romano57. A amplitude térmica atenua-se à medida que se caminha para o mar.
Sendo caracterizada por uma humidade relativa elevada e por um alto nível de
pluviosidade58 que, no Inverno, contribui para engrossar as ribeiras que fertilizam a

56
Segundo FEIO, 1983: 8 e MANUPPELLA et alii, 1985: 44-45.
57
Macedo e Silva refere em 1869 a «temperatura média do inverno é de 10º a 15º centigrados e
a do estio de 20º a 25º dentro de casa. Durante os grandes calores nunca o thermometro
centigrado sobe a mais de 33º, e nunca desce nos maiores frios a menos de 4º acima de zero.
Os ventos mais constantes são os do norte e do poente. O inverno e o estio são mais sensiveis
nas freguesias da serra» (SILVA, 1869: 61).

33
«campina»59, pode considerar-se uma região muito fértil do ponto de vista agrícola,
permitindo também o desenvolvimento da fruticultura 60, atestada arqueologicamente
desde a ocupação romana (BIERS et alii, 1984: 51).
Segundo Jorge de Alarcão, o Alentejo deveria ser coberto de florestas de
sobreiros e azinheiras61, as primeiras mais frequentes na parte ocidental62 e nas terras
mais altas; as segundas no interior e nas encostas voltadas a Leste ( ALARCÃO, 1974: 4).
Menos frequentes seriam os pinheiros mansos63.
Lobos64, javalis e veados povoariam uma mata formada por zambujeiros,
medronheiros, loureiros, urze branca, entre outras espécies vegetais. Nas zonas xistosas
as estevas cresceriam em grande quantidade, como ainda hoje se verifica em parte do
concelho de Santiago do Cacém.
À excepção de algumas terras férteis das bacias do Mira e do Sado, os solos
alentejanos eram, em grande parte, pouco fecundos.
Pesem os resultados da investigação recente que têm vindo a questionar esta
opinião, nomeadamente as prospecções efectuadas em torno da uilla de S. Cucufate,
que apontam para a existência de numerosos «estabelecimentos agrícolas secundários,
tipo casal ou uilla rustica» (MANTAS: 1988: 207 e 208) , as grandes unidades agrárias, as
culturas pouco diversificadas e a fraca densidade populacional devem ter caracterizado
grande parte do território alentejano desde a Antiguidade, fenómeno que se deve ter
acentuado a partir do século III d. C. (MANTAS, 1988: 208; ALARCÃO, 1990: 419).
A produção de trigo apenas se conseguia poupando os solos pelo recurso ao
afolhamento, sendo a sua rentabilidade muito baixa. A fraca produtividade só tornava,
assim, rentáveis as culturas extensivas e a pecuária, pelo que certas zonas do Alentejo se

58
Segundo dados de José Casimiro Mendes (1991), Variabilidade da Precipitação no Alentejo,
Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, a humidade relativa do ar em Santiago do
Cacém varia em média ao longo do ano entre os 70% (9 h) e 74% (18 h), atingindo nos meses
de Janeiro e Fevereiro o nível mais alto (80%). A precipitação atinge nessa altura um valor
médio entre 126,0 mm e 96,9 mm, com tendência a diminuir até ao período estival, sendo os
meses de Julho e Agosto os que observam um índice mais baixo (em média 1,9 mm e 3,4 mm).
A média anual é de situa-se nos 700-720 mm.
59
Bernardo Falcão que informa-nos que a zona era propícia a «Muitas e copiozas aguas
q’emanão da parte proxima desta Serra» (Nossa Terra, 1932, n.º 23).
60
A equipa americana refere a possível existência de uvas, figos, romãs, amêndoas e nozes.
Quer Bernardo Falcão quer o Padre Macedo e Silva referem-se ainda à abundância de pomares
na região. Na zona adjacente a Miróbriga existem ainda actualmente alguns desses pomares.
61
Como aliás acontece ainda actualmente na região de Santiago do Cacém, que se admite
pertencer à Formação Vegetal designada como Carvalhal da zona Húmida-Quente (CABRAL,
1960) dominada pelo sobreiro, azinheiro, carrasco, zambujeiro, pinheiro manso. Os arbustos
que mais comummente se lhe deveriam associar são: o abrunheiro bravo, a murta, a urze
branca, a roseira branca, a madressilva caprina actualmente rarefeitas devido aos trabalhos
agrícolas e mesmo arqueológicos (FORTES, Mário, 1997: 10).
62
De facto, assim o comprova toda a documentação medieval, moderna e contemporânea
consultada.
63
Segundo informações da equipa luso-americana, foram encontrados carvões de carvalho e de
pinheiro, datando de período pré-romano (SOREN, 1983: 59).
64
Segundo Pinho Leal (1880), todo o concelho de Santiago era muito abundante em caça. Em
todas as freguesias da serra, eram frequentes as corças e porcos monteses (javardos). Nos
montes e bosques do concelho pululavam os lobos, raposas, gatos bravos, doninhas, furões
bravos e texugos. Na ribeira e na lagoa havia muitas lontras. Macedo e Silva, por seu lado,
informa-nos que no concelho há «montes mais ou menos elevados, cobertos de estevaes ou de
seculares sobreiros e azinheiras e carvalheiros» (SILVA, 1869: 96).

34
caracterizaram, ao longo do tempo, pela existência de grandes latifúndios e pelo
povoamento menos denso (ALARCÃO, 19901: 419)65.
A exploração pecuária fazia parte da exploração das uillae, actividade que parece
ter tido continuidade neste território66, ao longo dos séculos67, atestada pela importância
económica que ainda nos nossos dias tem a produção de gado bovino, caprino, ovino,
suíno e equino.
Hoje reduzida no Sudoeste alentejano, a produção de azeite 68 bem como a
vinícola parece ter sido abundante no período romano69.
São conhecidas referências medievais e da Época Moderna a uma importante
produção vinícola nas freguesias de Melides e de Santo André, bem como à existência
de laranjais no concelho dado, por um lado, o carácter arenoso dos solos e, por outro, os
terrenos aluviais e alagadiços junto às lagoas. Estas duas freguesias asseguravam
também o fornecimento do peixe70 às regiões limítrofes.
Se bem que não sejam conhecidos vestígios romanos de actividades ligadas à
pesca ou à salga de peixe nestas duas localidades, Sines comprovou a importância das
actividades piscícolas no litoral alentejano.
65
Durante a Idade Média, a grande propriedade continuou a caracterizar o território que teria
pertencido à ciuitas de Miróbriga, tendo sido entregue, como tantos outros, à Ordem de
Santiago que se encarregou de o povoar e desenvolver. Desde os primeiros documentos
conhecidos sobre Santiago do Cacém, há  uma referência constante a actividades ligadas à
agricultura e à pastorícia, bases da economia medieval. O pagamento do «montado» e da
«dízima» e a propriedade das terras são motivo de inúmeras petições ao rei, ao longo dos
séculos. No documento impropriamente conhecido por foral, datado do reinado de D. Manuel,
especificam-se os direitos e deveres dos habitantes e as actividades a que se dedicam. Há   nele
referências ao gado e a produtos agrícolas, bem como a uma série de derivados  o pão, os
panos, os couros, entre outros. As referências aos pomares desta região são também
constantes. A partir do século XVII, são inúmeras as notícias referentes a essas actividades,
acentuando a predominância da agropecuária que, ainda hoje, caracteriza o território. Data de
1763 uma regulamentação das actividades agrícolas. A produção de azeite e mel e a extracção
e transformação da cortiça são aqui referidas como as actividades principais. No entanto, o
Padre António de Macedo e Silva desabafava em 1869, nos Anais do Município de Santiago:
«Desde o tempo da conquista d’este castello pelos freires spatharios até ao anno de 1833,
foram, sem duvida acanhados os progressos agricolas. Os instrumentos agrarios de que nos
falla Columella são os mesmos que os nossos avós nos transmittiram ... Os nossos
cultivadores desconhecem o afolhamento, a rotação de culturas, o aperfeiçoamento dos
utensilios de lavoura, o uso das machinas, a creação dos prados artificiais, o melhoramento das
raças pecuárias, a introdução de plantas exoticas, os preceitos da hygiene tão necessarios para
a conservação dos seus gados, etc. Os prados naturaes dos nossos antepassados seriam
porventura os mesmos que hoje temos, algumas plantas incultas e estioladas, crescendo
espontaneas no fundo dos valles, nos brejos e nas margens das ribeiras» (SILVA, 1869: 38 e 39).
66
Em toda a documentação consultada sobre a Vila de Santiago do Cacém (Apêndice II) há
uma quase constantante referência aos «montados» e ao gado.
67
Para este tema, poder-se-ão também consultar os capítulos «Quadro Geográfico» e
«Economia e Sociedade» da obra de M. V. Gomes e Armando Coelho F. Silva, Proto-História
de Portugal.
68
«A freguesia de Sant’Iago é a unica d’este concelho onde se vêem alguns olivaes. A
produção d’estes poderá calcular-se em 300 alqueires de azeite» (SILVA, 1869: 106).
69
Nas freguesias de Sines, Melides e Santo André «chegou este ramo agricola a tal
desenvolvimento, que só a freguesia de Mellides produzia trezentas pipas; a de Santo André
chegou a produzir duzentas pipas de excelente vinho» (SILVA, 1896: 103).
70
Bernardo Falcão refere no século XVII a existência de «groças Ribeiras q’correm para a
campina, fertilizão as margens, e vão daqui duas pequenas leguas lançarse em hu’a grande
Lagoa q’ tem cavado junto a praia do Oceano». … «Criace nella mt.º e bom pescado que os
pescadores reduzem a 13 especies» (Nossa Terra, 1932, n.º 23).

35
Não são bem conhecidas, nesta zona, as modificações das linhas da costa que
participam nas alterações das formações lagunares, se bem que seja óbvia a sua
mobilidade em todo o litoral alentejano (FONSECA, 1993: 11-28).
Não obstante, desde o século XVI e até ao século XIX, aparece representada na
cartografia existente desta zona uma curiosa lagoa, denominada comummente como «da
Pera» , que se desenvolveria até às proximidades de Santiago do Cacém. Trata-se,
muito provavelmente, de um erro de representação cartográfica, uma vez que ela era
feita, na maioria dos casos, e até ao século XIX, por repetição de mapas anteriores, sem
a devida confirmação no campo71.  Fot. 39 a 43.
No entanto, o Padre Macedo e Silva refere nos Anais do Município entre as
propriedades foreiras, arrendadas em 1800, «os quartos do Paul da Pera», denunciando
as características férteis do local (SILVA, 1869, 1.º vol.: 40).
No levantamento coordenado, no século XIX, por Filipe Folque, esta lagoa já não
aparece assinalada, o que poderia confirmar, por um lado, a hipótese de erro
cartográfico.  Fot. 44.
Por outro lado, seria de averiguar melhor se o seu assoreamento não poderia ter
sido provocado por movimentos tectónicos, particularmente pelo Terremoto de 1755, a
exemplo do que se passou no estuário do Tejo (ALMEIDA et alii. 1996: 139), e ainda pela
desflorestação, pelos novos sistemas agrícolas e pela introdução de novas culturas
confirmadas na região, a partir do século XIX, como aconteceu com os aterros no Sado,
na zona de Alcácer do Sal (ANTUNES, 1983, Nota Explicativa da Folha 39-C). A
existência desta lagoa, que alguns autores admitem poder tratar-se da Lagoa de Santo
André (FONSECA, 1993: 27)72 poderia justificar a ocupação do lugar, permitindo um
contacto directo, mas protegido, com o mar desde épocas remotas (BARATA, 1993, GTL
Santiago do Cacém).
Localizada numa situação dominante73  a zona do forum romano situa-se a uma
cota altimétrica de 247 m acima do nível do mar  em relação à faixa arenosa e plana
que se estende deste local até ao oceano, que dista cerca de 15 km em linha recta, a
implantação de Miróbriga deve-se seguramente a motivações geoestratégicas. .... Fot....
Numa situação semelhante se irá implantar na Idade Média, numa colina
fronteira, um castelo, núcleo do aglomerado urbano que deu origem à actual cidade de
Santiago do Cacém, fenómeno este comum a algumas urbes romanas abandonadas74.

71
No final deste trabalho refiro toda a cartografia pesquisada nos vários arquivos nacionais,
bem como todos os arquivos documentais cuja consulta foi útil para a realização deste
trabalho.
72
Segundo esta investigadora, «o aumento da deposição de material arenoso nas margens
Oeste e Sul da laguna denotam uma tendência para um lento e progressivo assoreamento deste
sistema. Esta observação está de acordo com documentos e cartas antigas, que referem que
Santo André nos séculos XV e XVI era um estuário navegável até Santiago do Cacém» (op.
cit., loc. cit.).
Já em 1963, Fernando Castelo-Branco admitia que «Também as lagoas de Albufeira, Melides e
Santo André foram outrora pequenas enseadas que o assoreamento das respectivas barras
isolou do oceano, transformando-as em lagoas litorais, tal-qual se encontram actualmente»
(Revista Ocidente, 1963:158).
73
Podemos inferir que existe em Miróbriga, pelo menos a partir da Idade do Ferro, uma
ocupação de «crista», com a qual o crescimento urbano romano irá  romper, pois são
invadidas, gradualmente, as zonas mais baixas.
74
De que Ruscino é um bom paralelo (BARRUOL et alii, 1987: 47).

36
A cidade latina torna-se, após o seu abandono, num óptimo fornecedor de
matéria-prima para as construções posteriores, nomeadamente para o Castelo que se
ergue na Idade Média, em Santiago do Cacém, onde são visíveis silhares, bases de
colunas e outros materiais de construção romanos.  Fot. 46.

37
III PARTE
O TERRITÓRIO DE MIRÓBRIGA E SUA INSERÇÃO NO PROCESSO
DE ROMANIZAÇÃO DO SUDOESTE PENINSULAR

É relativamente mal conhecida a estrutura agrária romana na zona que estudamos,


uma vez que na área adjacente apenas são conhecidos alguns indícios de uillae.
Acresce a dificuldade em nos apercebermos de uma possível centuriação na área
limítrofe a Miróbriga, devido às grandes alterações de propriedade ao longo do tempo,
fundamentalmente as verificadas a partir do século XIX. Pela análise da actual divisão
da propriedade não se pode concluir da existência de quaisquer reminiscências da
antiga, até porque assenta no sistema métrico (BIERS et alii, 1988: 20).
Este facto não é aliás inédito, porque embora existindo um modelo teórico
considerado óptimo para a planificação das cidades e seu território, são mais as
excepções que a regra, pelo que, em muitos casos, a centuriação se detecta
dificilmente75.
Se bem que sejam escassos os vestígios de casas agrícolas conhecidos na área
circundante a Miróbriga, em Alvalade do Sado, a aproximadamente 20 km, foram
referenciadas várias uillae romanas, que deveriam pertencer a um conjunto mais vasto
de pólos de exploração agropecuária, em íntima relação com a grande bacia
hidrográfica do Sado.
Embora não tenham sido também identificados vestígios de estradas vicinais, ou
dos eixos viários estruturantes deste território já no período romano, pensamos que
deverão ter-se mantido praticamente os mesmos durante toda a Idade Média e Época
Moderna.  Fot. ............. .
A ponte do Cacém, à saída de Santiago do Cacém, possivelmente construída no
século XVI, deve sobrepor-se a um caminho anterior que ligaria esta povoação a Sines.
Não se conseguiu detectar, no entanto, na construção desta ponte indícios de uma
origem mais antiga76.
Uma descrição de Macedo e Silva faz-nos concluir da existência de restos de uma
via junto da Aldeia dos Chãos pois este autor refere a existência «nas planícies que se
estendem ao redor desta aldeia, Aldeia dos Chãos, Meróbriga, vêem-se restos de
calçada e grande quantidade de pedra» (SILVA, 1869, cit. in SILVA, 1946: 339) . No entanto,

75
Por um lado, há que considerar as pré-existências, como antigos caminhos ou vias, que
podem originar uma centuriação relacionada com elas e não com o novo aglomerado urbano
latino, e, por outro, a topografia dos terrenos que não permitem uma centuriação canónica.
Condicionalismos geográficos de outra ordem, nomeadamente a proximidade da costa ou de
zonas montanhosas (não nos referimos às montanhas propriamente ditas, em geral não sujeitas
a centuriação, mas de aproveitamento mais silvo-pastoril), podem também provocar cadastros
menos regulares. No caso das cidades de estatuto jurídico municipal, como é o caso de
Miróbriga, as relações entre as tramas urbanas e as rurais são também escassas (ARIÑO GIL et alii,
1994: 34-36).
76
A ponte do Cacém, constituída por um só arco de volta inteira que assenta em silhares
aparelhados, por sua vez apoiados na rocha, apresenta um tabuleiro com guardas, de dimensões
semelhantes à que existe em Miróbriga, que lhe deve ter servido de «matriz». No entanto, a
primeira referência conhecida a esta ponte consta de um livro de Posturas de 1680, citado pelo
Padre Macedo e Silva, no século XIX.

38
não é especificada a localização exacta dos vestígios, o que dificulta actualmente a sua
contextualização.
Em Alvalade do Sado uma ponte de origem medieval pode ter dado continuidade
a uma via romana que ligaria Miróbriga a Pax Iulia, passando por Aljustrel.  Fot. 48.
A teia de relações entre Miróbriga e o porto de Sines, a Oeste; entre Miróbriga e
as povoações a Norte (Salacia, Caetobriga?); entre Miróbriga e o Sul (Ilha do
Pessegueiro, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes e Odemira) e ainda entre Miróbriga e
as zonas do interior, deveria ter-se reforçado com a dominação latina. Ficaria, deste
modo assegurado, por um lado, o fornecimento dos produtos agrícolas e piscatórios à
ciuitas e, por outro, o escoamento dos minérios de que é rica a região adjacente a
Miróbriga, salientando-se o cobre e o ferro.
A exploração mineira que já deveria ser, nesta zona, do conhecimento dos
romanos, sofreu, no século passado, um grande desenvolvimento na região, e continua,
nos nossos dias, a constituir a grande fonte de riqueza do Cercal 77. Mais para Norte, no
actual concelho de Grândola, mas deveriam pertencer em período romano à ciuitas de
Miróbriga, desenvolviam-se as minas da Caveira.
Através de uma carta de distribuição de estações da Idade do Ferro publicada por
Teresa Gamito (JÚDICE GAMITO, 1986: 193-94), conhecem-se cerca de cinquenta
povoados a Sul do Tejo, sendo evidente a sua implantação em locais-chave de
exploração agrícola e mineira78.
A óptima situação geoestratégica, permitindo um eficaz domínio territorial,
associada aos recursos naturais  agrícolas e mineiros  deve ter conferido a Miróbriga
importantes funções comerciais.
No entanto, só a continuação das prospecções, o levantamento exaustivo dos
povoados mineiros circundantes (BERROCAL RANGEL, 1995: 168) e a publicação dos
dados inéditos da Idade do Ferro provenientes das escavações luso-americanas em
Miróbriga poderão confirmar esta hipótese.
O rio Sado, que deverá ter funcionado em período romano como um limite
natural do território de Salacia (MANTAS, 1990: 175) e de Miróbriga, foi durante toda a
Proto- -História uma via fundamental de ligação ao hinterland. Sobranceira ao
Sado, a antiga Beuipo (FARIA, 1992: 39-48 e 1996: 117-119) controlaria uma região-chave,
onde afluíam tanto bens alógenos como os provenientes do interior (GOMES, 1994: 141).

77
Segundo um levantamento feito por João Madeira (Escola Secundária de Santiago do
Cacém) e por José Matias (Câmara Municipal de Santiago do Cacém), verifica-se que, nos
arredores de Santiago do Cacém, são inúmeras as explorações mineiras ao longo dos séculos
XIX e XX, quer se trate de ouro, prata, ferro, galena, cobre, entre outras. Em prospecções
recentes com a participação da signatária foram também detectadas inúmeras galerias mineiras
relativamente próximas de Santiago do Cacém, desactivadas actualmente, mas às quais não foi
possível atribuir cronologia.
«A faixa piritosa portuguesa estende-se por duas bandas grosseiramente paralelas, entre a
região de Alcácer do Sal e a fronteira com Espanha, devendo ainda nela ser incorporada a
Serra do Cercal (OLIVEIRA, Tomás e Vítor, 1996: 11).
78
Os recursos mineiros e agropecuários devem ter condicionado, desde a Idade do Bronze,
todo o povoamento no Sul da Península Ibérica, processo que conduziu a uma complexificação
económica e social e que culminou, durante a I Idade do Ferro, com o desenvolvimento de
áreas acentuadamente comerciais ou entrepostos, muitas das quais fruto de presenças alógenas
(GOMES, 1994:129).

39
Por sua vez, Miróbriga controlaria, muito provavelmente, um vasto território que
poderia ir até Sines, a Ocidente, pesem embora os achados que, nesta última vila,
podem fazer equacionar a verdadeira importância desta localidade, em período romano.
 Fot. 50.
A estreita ligação com esta cidade está, de certo modo, comprovada, porque em
Miróbriga está atestada epigraficamente uma família que se encontra também em Sines
(ENCARNAÇÃO, 1984: 230; ALARCÃO, 1985 2: 109). Essa inscrição a que se têm levantado
muitas dúvidas (ALMEIDA, 1964: 12; ENCARNAÇÃO, op. cit., loc. Cit.; RIBEIRO, 1982-83: 175)
diz respeito a um homenageado cuja profissão poderia ser caudicarius (armador ou
proprietário de embarcações), o que poria em relevo as actividades marítimas na região,
e nomeadamente as do porto de Sines. A importância económica destas actividades
teria, possivelmente, permitido a Marco Júlio Marcelo exercer, em Miróbriga, as
funções de edil e duúnviro (ALARCÃO, 19852: 110; ENCARNAÇÃO, 1996: 136).
Admitindo-se assim uma continuidade na rede de relações urbanas pré-romanas e
romanas, Miróbriga deveria, pois, já na Idade do Ferro, ter funcionado como núcleo
polarizador da região. Não obstante, Luis Berrocal considera que, mesmo já em período
romano, poucos aglomerados devem ter atingido uma vida «plenamente urbana» e que
Miróbriga se deveria tratar de um «mero lugar central, aglutinador da vida pública num
habitat disperso» (BERROCAL, 1992: 71).
Contudo, a sua localização obedece, genericamente, aos cânones previstos por
Vitrúvio, que aconselha a localização preferencial das cidades em zonas férteis que
garantam o alimento das populações; em zonas salubres, onde não haja águas
estagnadas (De Architectura, I. IX. 4), e em locais onde seja fácil assegurar o
aprovisionamento através dos transportes marítimos (caso se trate do litoral), terrestres
e fluviais, caso se trate de uma zona interior (De Architectura, I. X. 1-4).
Pode-se, pois, admitir que a ligação de Miróbriga ao mar estava assegurada, quer
se venha (ou não) a comprovar a existência de uma formação lagunar navegável até
bastante próximo, e através do porto de Sines, onde os testemunhos arqueológicos
anteriormente referidos são prova dessa estreita articulação.
Pina Polo admite que na região Nordeste da Península Ibérica «Roma elegeu uma
série de povoações indígenas, pela sua importância estratégica e económica, ... e
converteu-as conscientemente em centros comarcais. Manteve os seus respectivos
topónimos pré-romanos, através do que deu uma ideia de continuidade, mas preferiu
promover a construção de centros urbanos totalmente novos, planeados segundo
modelos romanos de urbanismo, em lugar de sobrepor esse urbanismo a povoações que
tinham uma tradição e que estavam modeladas segundo formas de vida muito
diferentes» (PINA POLO, 1993: 90; 1994: 329-331), ou seja criou inúmeras fundações ex
novo que originaram cidades importantes, algumas das quais integrando as populações
indígenas trasladadas.
Alguns investigadores haviam já admitido que os três princípios fundamentais que
regeram a actuação romana na Hispânia foram: aproveitar, sempre que possível, a
estrutura anterior; aplicar o sistema de contributio, potenciando aglomerados urbanos a
partir de centros de menor entidade79; e fundar cidades novas (BENDALA et alii, 1987: 128
e 1990: 25).

79
Segundo este autor, trata-se da unificação de vários centros, geralmente modestos (pagi,
uici) num só ou a vinculação administrativa e jurídica de centros menores a outro principal de
que dependem como entidades contributae (BENDALA, 1990: 31).

40
Segundo Bendala Galán, na Baetica a maioria das cidades que passaram a ser
núcleos importantes em período romano «já existiam anteriormente, o que quer dizer
que na altura de edificar esta parcela do seu Império encontraram já feitas as bases e
boa parte da estrutura». Embora podendo dar-lhes um nome novo, ou mudando o sítio
mantendo o «lugar» (BENDALA, 1990: 33), estas cidades romanas aproveitam-se dos «nós
de comunicação» próprios de um sítio estratégico anterior 80. Muitos dos aglomerados
«centrais» mantêm, não obstante, no cognome dado à nova cidade latina o seu primitivo
nome81, como acontece, para citar um exemplo português, com Felicitas Iulia Olisipo
(RIBEIRO, 19941: 79).
Esses oppida serão, portanto, como que bases gestoras que se tornaram elementos
fundamentais aos processos que conduziram à Romanização (ENRÍQUEZ, 1997: 39-40),
constituindo, pelas suas características, verdadeiras «células de Romanização»
(RODRIGUEZ, 1995: 238)82.
Os modelos apresentados por Bendala não podem ser transpostos, senão muito
parcialmente, para o Sul de Portugal e em particular no que diz respeito ao litoral, onde,
por um lado, pouco se conhece sobre os povos pré-romanos que aí habitaram e sobre a
sua organização política, social e económica e, por outro, porque os vestígios
arqueológicos conhecidos parecem apontar, de facto, para a existência de poucos
núcleos urbanos desenvolvidos pré-romanos, sem que algum tenha alguma vez atingido
a importância das fundações da área de influência fenício-púnica na Andaluzia
espanhola, fossem interiores ou costeiros, como por exemplo Carmo, Malaca, Carteia,
Gadir/Gades ou Baelo (LEÓN et alii, 1993: 13-53; BENDALA, 1987: 121-140).
No entanto, estes exemplos, se bem que dificilmente transponíveis como padrões
para a análise do fenómeno «Romanização» do Sudoeste da Lusitânia, até porque é mal
conhecida a complexa «trama» pré-romana  pesem os modelos apresentados por Luis
Berrocal, no seu trabalho publicado em 1992 , servem-nos, contudo, como que para
«balizar» a abordagem da mesma.
Da análise dos dados conhecidos e publicados, podemos concluir que a
implantação romana nesta região assume formas muito diversificadas do ponto de vista
histórico, político e administrativo, sendo difícil inferir da existência de um modelo,
propriamente dito, de Romanização. Um dos factores que deverá ter contribuído para a
heterogeneidade de situações é seguramente a utilização diversificada de estratégias de
povoamento do território em período pré-romano, onde existiam modelos organizativos
diferenciados, onde coexistiam Túrdulos e Celtas, e onde se mesclavam as influências
culturais mediterrânicas e continentais.
Encontramos, deste modo, «lugares» romanizados que, apesar de manterem o
topónimo pré-romano, apresentam uma deslocação do sítio de ocupação 83, como é
provavelmente o exemplo de Caetobriga, cujo topónimo denuncia influência céltica;
80
A fórmula de criação de «dipólis» ou «cidades duplas», que organiza núcleos urbanos
adossados ou próximo de outros anteriores, foi também utilizada na Romanização , sendo um
caso paradigmático o de Ampúrias (BENDALA, 1990: 34).
81
Mesmo quando alteram o local de fixação, ou organizam um núcleo urbano adossado ou
próximo a outro anterior, originando uma dípolis (BENDALA, 1990: 34).
82
O autor centra o seu estudo na Betúria Túrdula, mas, a muitos níveis, ele poderia ser
transposto para as zonas mais ocidentais da Península Ibérica.
83
Pina Polo defende que este modelo é mais comum do que se supunha, no Nordeste da
Hispânia, onde Roma se adaptou à rede de cidades ou centros proto-urbanos indígenas, mas
adaptando-a aos seus interesses, tendo impulsionado uma série de centros administrativos e
económicos, em torno dos quais hierarquizou, por sua vez, a rede viária (PINA POLO, 1994: 330).

41
locais ocupados desde o Calcolítico até ao Período Romano, como é o caso de Chibanes
(CARVALHO, 1996: 117); oppida romanizados em que a continuidade de ocupação no
mesmo sítio é atestada arqueologicamente, se bem que o topónimo seja alterado, como
poderemos verificar em Alcácer do Sal; oppida romanizados mantendo o mesmo
topónimo e o mesmo local de ocupação pré-romana, como é o caso de Miróbriga, onde
se poderá admitir um fenómeno de contributio; e ainda as fundações de raiz como são o
uicus de Tróia84, provavelmente na dependência da ciuitas de Salacia (MANTAS: 1987:
37; ALARCÃO, 1988: 77) e, com muita probabilidade, Sines.
Em Caetobriga, admitindo-se que efectivamente se trata da actual Setúbal, as
escavações promovidas pelo Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal
comprovaram uma ocupação que remonta aos séculos VII-IV a. C. (SILVA e SOARES,
1986: 87-101).
No entanto, e apesar de todas as questões que se levantaram à sua localização 85, os
romanos mantêm o topónimo pré-latino, mas a ocupação romana é ligeiramente
deslocada de uma zona mais alta para uma mais baixa, existindo vestígios de produção
de preparados piscícolas e de olarias a ela associadas desde o segundo quartel do século
I d. C. e que se mantém até ao século V d. C. (FERREIRA et alii, 1993: 293; SILVA, 1996: 43-
-54).
O centro conserveiro de Tróia, cuja laboração se deve ter iniciado em meados do
século I d. C., em época claudiana (ETIENNE et alii, 1994: 30), é, por seu lado, uma
fundação de raiz, ao contrário do que acontece com a antiga Setúbal86.  Fot. 51.
Apesar do relativo desconhecimento que existe sobre o urbanismo deste uicus que
só foi muito parcelarmente estudado e publicado (ETIENNE et alii, 1994) e embora não
estejam identificados os edifícios públicos que existiriam associados à vida
administrativa, é um facto que entre os diversos núcleos industriais e habitacionais
parece haver uma articulação que lembra, em alguns pontos, os cânones vitruvianos
usados em muitas fundações latinas.
As várias necrópoles que se desenvolvem no interior do aglomerado, quer as
sepulturas de mensae (ALMEIDA, 1978: 323-335) integradas num grande cemitério tardio,
que se estenderia até ao interior do «Templo Paleo-cristão», onde são visíveis várias
sepulturas sobrepostas aos tanques de salga, apontam para uma cronologia tardia, já de
abandono de parte do centro conserveiro (MACIEL, 1995: 117).  Fot. 52.
O mesmo se poderá dizer das sepulturas de falsa cúpula existentes junto ao
columbarium, debaixo do qual existiriam cetárias, como se pode comprovar pelos
vestígios de alinhamentos e pela concentração de material anfórico nessa área.
A produção deste uicus industrial mantém-se até à primeira metade do século
V d. C. (ETIENNE et alii, 1994: 165).
84
São vários os autores que querem ver neste uicus como que um prolongamento das
actividades industriais de Caetobriga, se bem que as cronologias apontadas para Tróia 
primeiras décadas do século I d. C. (ETIENNE et alii, 1994) e para a laboração das fábricas em
Caetobriga  segundo quartel do século I d. C. (SILVA, 1996: 43-54) sejam praticamente
coincidentes. Na obra O Património Arqueológico do Distrito de Setúbal os seus autores optam
pelo conceito de uma «cidade binucleada» (FERREIRA et alii, 1993: 23).
85
COSTA, 1960; BANDEIRA FERREIRA, 1959; CASTELO-BRANCO, 1963; MANTAS, 1993: 473 e MANTAS,
19962: 346, entre outros.
86
Segundo Jorge Alarcão, Caetobriga se bem que não funcionasse como capital de ciuitas, que
deveria ser Salacia, seria possivelmente um uicus dotado de administração local e, portanto, de
uma sede (ALARCÃO, 1988: 77).

42
Associados a este complexo fabril e à exportação dos seus produtos conserveiros
existiam inúmeros centros oleiros de produção em grande escala87, que funcionaram a
partir de meados do século I d. C., nomeadamente os da Quinta da Alegria, em Setúbal,
da Herdade do Pinheiro e de Abul88, que poderão ter funcionado até ao século V, e
ainda os que se situavam mais perto ou mesmo junto a Salacia: Barrosinha, Bugio,
abandonados no século II, e Enchurrasqueira, que terá laborado até ao século III
(SILVA, 1996: 49; DIOGO, 1996: 65; MAYET et alii, 1996: 30; FABIÃO, 1997: 44). De notar que
em Abul A se confirmou a presença fenícia com materiais arqueológicos datáveis dos
séculos VII-VI a. C. (MAYET e SILVA, 1996: 53).
Em alguns sítios a ocupação romana consuma-se, portanto, sobrepondo-se às
presenças pré-romanas ou mesmo aos oppida pré-latinos, sem que haja qualquer
deslocação do povoado anterior, como se pode verificar no Castelo de Alcácer do Sal.
Nesse local verifica-se que a continuidade de ocupação se mantém desde, pelo menos, o
Neolítico Final (SILVA, 1983: 1-3; FERREIRA et alii, 1993: 23 e 60-65). Da Idade do Ferro há
materiais arqueológicos datáveis dos séculos VII ao século II a. C.89, tendo-se detectado
vestígios de casas do século IV a. C. que denotam forte influência mediterrânica (SILVA,
1981: 149-218; PAIXÃO et alii, 1994: 215-256).

No entanto, a vizinha necrópole de incineração do Olival do Senhor dos Mártires


parece colocar algumas questões quanto às esferas de influência a que esteve sujeita a
população pré-romana que habitou esse território. Remontando ao século VII a. C., ao
designado por «Período Orientalizante», portanto com óbvia afinidade com as
designadas «necrópoles da I Idade do Ferro do Sul de Portugal», apresenta, num
segundo momento, datável dos séculos IV-III a. C., quer influências de cariz
continental, portanto na esfera indo-europeia, a cuja influência se tem conotado a «II
Idade do Ferro», quer ainda elementos de filiação mediterrânica (PAIXÃO, 1983: 55-59;
FABIÃO, 1992: 172-3; ALARCÃO, 1996: 23)90.
A ocupação romana remonta ao século I a. C. No entanto, aqui o topónimo pré-
romano é alterado (FARIA, 1992: 39-48), passando possivelmente a partir de Pompeio ou
Júlio César a denominar-se Imperatoria Salacia (FARIA, 1996: 118).
No núcleo urbano de Sines há vestígios materiais de uma forte ocupação romana 91
(VIANA, 1946: 120; ALARCÃO, 1988: 172), se bem que sejam desconhecidos nesse local
materiais da Idade do Ferro, pois os materiais arqueológicos mais antigos remontam ao
século I a. C. (SILVA e SOARES, 1993: 178).
As salgadeiras do período romano localizadas junto ao castelo denunciam a
existência de indústria conserveira no local, desde o século I d. C. e outros vestígios
87
De algum modo contrastando com a produção inicial das indústrias de salga no Baixo Sado,
ainda de pequena escala, como é o caso das olarias do Largo da Misericórdia em Setúbal
(MAYET et alii, 1996: 202).
88
Um dos sítios que, na embocadura do Sado, produziu materiais fenícios (MAYET et alii, 1996:
56).
89
Segundo informação de António Cavaleiro Paixão.
90
Carlos Fabião problematiza esta questão e desenvolve três hipóteses de abordagem para a
explicação da convergência cultural no mesmo sítio. Admitindo, contudo, preferencialmente,
ou que os migrantes continentais teriam ocupado, num dado momento, toda a região,
conservando, não obstante, um enclave mediterrânico, ou que a cidade mediterrânica se tivesse
socorrido de mercenários entre as populações célticas do interior para se proteger de outras
belicosas comunidades também de filiação céltica (FABIÃO, 1992: 173).
91
Já Frei Manuel do Cenáculo havia referido «no interior d’aquella Baia vestigios de paredes
grossas e antiquissimas; e junto ao mar eu mesmo descobri nos difficultosos médos de areia
muitas sepulturas, e pedaços de bronze» e um cemitério (cit. in VIANA, 1946: 120).

43
arqueológicos confirmam a ocupação do local até aos séculos V-VI (FERREIRA et alii,
1993: 24). Também aqui um forno de olaria permitia garantir o fabrico de ânforas
utilizadas na contentorização de produtos piscícolas provenientes das unidades de
processamento de pescado de Sines (COSTA et alii, 1996: 109).
A inscrição de um pedestal de que José d’Encarnação dá notícia, refere a oferta de
uma estátua a Marte Augusto feita por um sacerdote, o que pressupõe um local de culto
de toda a comunidade (ENCARNAÇÃO, 1991: 185; 1996: 135). Será, pois, de admitir que
Sines teria um forum.
A sua localização no litoral e os vestígios romanos aí encontrados têm colaborado
para moldar a ideia de que Sines se trataria do porto de Miróbriga ( ALARCÃO, 1988, II:
172; SILVA e SOARES, 1993: 24 ) ou que, como é lógico admitir, em estreita associação
com esta cidade92. Em S. Torpes, a Sul de Sines, foram encontrados dois cepos de
âncoras romanas de chumbo (SILVA e SOARES, 1993: 24-26) que confirmam a importância
do comércio marítimo nessa zona.
A estreita relação entre Sines e Miróbriga está atestada através de importações
sudgálicas comuns, como são as dos oleiros Libertus e Mercator, cuja
representatividade está apenas confirmada, em território português, nestes dois locais
(ALMEIDA, 1988: 32; DIAS, 1976-77: 369; COSTA et alii, 1996: 107) bem como através da
duvidosa inscrição do caudicarius, já acima referido, onde é possivelmente
homenageado um Júlio Marcelo, cuja família aparece também registada em Sines
(ENCARNAÇÃO, 1984: 230).
Os elementos arquitectónicos da «Antiguidade Tardia» existentes em Sines
confirmam a importância deste local e são de tal modo exuberantes do ponto de vista
qualitativo e quantitativo que constituem um subgrupo específico dentro do «pacense»,
proposto por Justino Maciel para a abordagem da arte visigótica em território
actualmente português (MACIEL, 1995: 140).
A indústria conserveira está também representada na ilha do Pessegueiro, que
alguns investigadores admitiram tratar-se da ilha de Poetanion93 citada na Ora
Marítima, desde a segunda metade do século I até finais do século IV  inícios do
século V d. C., e que possa ter funcionado temporariamente como entreposto
relacionado, por um lado, com o escoamento, por via marítima, de minérios e, por
outro, com a importação de produtos mediterrânicos (SILVA, 1983-84: 20-22; SILVA e
SOARES, 1993: 24, 28 e 103; SILVA e SOARES, 1997: 62-63 ).

Aqui está também atestada a existência de actividades metalúrgicas, através de


uma oficina de fundição do século I d. C. e de uma forja, com a respectiva acumulação
de escórias, do século II d. C. (SILVA e SOARES, 1993: 32).
Também durante os séculos I a V d. C. terá sido ocupada a uilla de Courela dos
Chãos, nos arredores de Sines.
Em nenhum destes locais, à excepção da ilha do Pessegueiro, onde foi
referenciado um estrato da Idade do Ferro (FERREIRA et alii, 1993: 307; SILVA e SOARES,

92
Frei Manuel do Cenáculo anotou a existência de um cemitério «ao longo litoral da Praça de
Sines» (VIANA, 1946: 121). Pela descrição, certamente se trataria de uma necrópole romana, mas
não existem quaisquer elementos que nos permitam aferir a sua cronologia.
93
Como é o caso de Leite de Vasconcelos, Lambrino, Carlos Tavares da Silva e Joaquina
Soares. Num recente trabalho, Cardim Ribeiro demonstra que não se deveria localizar neste
local, mas na foz do Tejo (RIBEIRO, 1996: 283-296).

44
1993: 83), está atestada a ocupação pré-romana e romana em continuidade no mesmo
sítio.
Mais para o interior, no actual concelho de Grândola, a presença romana está
confirmada arqueologicamente em vários locais, quer através de actividades mineiras 
nas minas da Caveira (VASCONCELOS, 1914: 310-11; DOMERGUE, 1987: II-529; ALARCÃO,
1988: 172; CENTENO, 1983: 189 ) e no Lousal , quer agrícolas, industriais ou comerciais
como parecem comprovar os vestígios encontrados no núcleo urbano. Segundo os
arqueólogos que aí trabalharam, os vestígios do Cerrado do Castelo 94 poderão indiciar a
existência de uma uilla ou de uma mutatio ou mansio95 datável dos séculos I a III/IV
d. C. (FARIA e FERREIRA, 1991: 95-104). No mesmo local foram ainda detectados fornos
de uma olaria. Associada a esta construção e relativamente próximo, no Cerrado do
Arraial, apareceu uma sepultura romana de inumação onde foram exumados alguns
objectos de ourivesaria. Os vestígios da Herdade de Martins Pereira, Melides
(ALARCÃO, 1988: 172) e a barragem das Represas ou de Pego da Moura (FARIA e
FERREIRA, 1991: 102) confirmam a importância das actividades agrícolas na região.

Apesar dos inúmeros vestígios de ocupação romana é, contudo, ainda mal


conhecida a ocupação pré-romana deste território.
Ainda mais para o interior, em Aljustrel, a exploração mineira da faixa piritosa
parece ter-se efectuado desde o Bronze Final/Calcolítico ( DOMERGUE, 1987: II-499),
sendo atestada arqueologicamente no «Cerro da Mangancha» e no «Castelo de
Aljustrel» (ESTORNINHO et alii, 1993: 11-40; MARTINS, 1996: 100).
No entanto, o uicus pertencente à ciuitas de Pax Iulia, se bem que com
administração autónoma (ALARCÃO, 1988, II: 175) desloca-se, no século I d. C., após ter
havido uma temporária ocupação romana do «Cerro da Mangancha», para um outro
local, o sítio da Valdoca, mantendo, contudo, o topónimo «Vipasca» de origem pré-
-romana e para a área envolvente do Chapéu de Ferro de Algares (ALARCÃO, 1988: 176;
MARTINS, 1996: 102 e 111).
Por outro lado, em Beja as recentes investigações têm vindo a provar que não se
trata da fundação de uma cidade de direito latino ex nihilo96 como até recentemente se
defendia (ALARCÃO, 1988: 49 e 1993: 209; MANTAS, 1993: 489; MANTAS, 1996 1: 50), mas que
também aqui os romanos aproveitaram um local ocupado pelo menos desde a II Idade
do Ferro, como parece comprovar o aparecimento de cerâmicas estampilhadas
associadas a um troço de muralha de possível construção pré-romana 97, na Rua de
Sembrano. O oppidum deveria situar-se na parte mais elevada da área urbana da actual
cidade (MANTAS, 19961: 47). A existência de duas comunidades distintas e,
enventualmente, dois fora, como parece sugerir uma inscrição de Beja, que permitiu
que Jorge de Alarcão e José d’Encarnação concluíssem ter aí havido duas assembleias
 uma de cidadãos romanos e outra de indígenas romanizados (IRCP 233) , fez ainda

94
José Leite de Vasconcelos já havia referido a existência de uma ocupação romana em
Grândola no «Castelo» e no «Castelinho» (VASCONCELOS, 1914: 310).
95
Os arqueólogos inclinam-se para esta possibilidade dada a localização dos vestígios, entre
Mirobriga e Salacia. Segundo Jorge de Alarcão, estes edifícios para apoio aos viajantes
situavam-se geralmente em aglomerados urbanos, junto a uma estrada. No entanto, também os
havia isolados na estrada (ALARCÃO, 1990 1: 422), como parece tratar-se do caso dos vestígios do
Cerrado do Castelo.
96
Sobre a data de fundação da colónia de Pax Iulia ver FARIA, 1995: 89-99 e MANTAS, 1996 1, pp.
41-62.
97
Segundo informações que nos foram fornecidas pelos arqueólogos responsáveis, José Carlos
Oliveira e Susana Helena Correia.

45
com que Vasco Mantas admitisse que poderia Beja tratar-se de uma dipolis (MANTAS,
19961: 52). Não obstante, só as futuras escavações e um melhor conhecimento da fase de
ocupação romana nesta região poderão colaborar (ou não) na construção de um possível
modelo de romanização98.
Em Vila Nova de Milfontes, que Berrocal admite tratar-se um dos locais onde se
localizaria a Merobrica de Plínio (BERROCAL, 1992: 64), a presença romana foi atestada
arqueologicamente com achados datados de entre o século I d. C. e III d. C. Não são,
contudo, conhecidos vestígios romanos no mesmo local que fora ocupado pelos
povoados calcolíticos e da Idade do Ferro, no topo do Outeiro de S. Sebastião (Inf.
Arqueol. 1985: 9; QUARESMA, 1986: 14-15). Os Romanos devem ter deslocado a sua
ocupação para uma zona mais baixa, junto do rio, onde foi, muito possivelmente,
construída uma estrutura portuária (SILVA, C. T., 1990, Lev. Arq. A. P. P. S.A. C. V.;
BEIRÃO e CORREIA, 1988 , Lev. Hist. Arq.  PDM). A jusante do «porto romano» e na
mesma margem, aparecem também abundantes materiais de construção romanos,
cerâmica comum e escórias99.
Ainda neste concelho100 há vestígios de, pelo menos, três povoados da Idade do
Ferro que aparentam ter uma continuidade de ocupação em período romano, a designar:
«Cerro do Castelo de Caneja», na freguesia de S. Salvador de Odemira, cuja cronologia
é de mais difícil atribuição; «Cerro do Castelo dos Moiros», Sabóia, e «Cerro do
Castelo das Bouças», Santa Maria de Odemira (VILHENA, inédito, D. R. Évora - IPPAR).
No concelho de Santiago do Cacém, as sepulturas e necrópoles da Formiga
(ALARCÃO, 1968: 36); do Monte da Sardinha, S. Francisco da Serra, com materiais do
século I d. C. (ALARCÃO, 1988: 172); de Vale Vistoso, S. Francisco da Serra, com um
balão de vidro datável do séculos I a IV d. C. (BARATA, 19931: 73); de Deixa o Resto,
com materiais do século I d. C. (FERREIRA et alii, 1993: 193); de Francisquinho, Santa
Cruz (de onde provém a inscrição do «Mirobrigense céltico»); da Herdade do Parral
(VASCONCELOS, 1914: 316); da Várzea dos Pereiros (VASCONCELOS, 1914: 317); da Torre,
também na freguesia de Santa Cruz, esta última com materiais vítreos datáveis dos
séculos III-IV d. C. (ALARCÃO, 1968: 35); da Várzea do Outeirinho, S. Bartolomeu da
Serra (VASCONCELOS, 1914: 317); da Cascalheira, Santo André, de onde provém uma ara
epigrafada, segundo documento pertencente ao acervo de Frei Manuel do Cenáculo
Villas Boas (FALCÃO et alii, 1988: 39-48), datável do século II d. C. (ENCARNAÇÃO, 1996:
139); de Santo André (ALARCÃO, 1988, II: 172 ), se bem que parcial ou totalmente
destruídas e embora desconhecendo-se, em alguns casos, os habitats que serviriam
(deveriam tratar-se possivelmente de uillae), indicam que a partir do século I d. C. a
Romanização do território é plena.
Por outro lado, na Várzea do Outeirinho, S. Bartolomeu da Serra, existiam
também materiais arqueológicos que deveriam corresponder a indícios de actividades
agrícolas, bem como na Herdade do Sargaçal, Santa Cruz, onde, segundo informação de
José Leite de Vasconcelos, apareceu uma esfinge com carácter apotropaico que deveria
pertencer a uma uilla, se bem que dados mais recentes a incluam num contexto
funerário sidérico (VASCONCELOS, ed. 1981, 3.º: 521-24 ; SOUZA, 1990: 58; MATOS, 1995: 76;
GOMES et alii, 1994: 151; ALARCÃO, 1996: 21).

98
Em Pax Iulia foram alojados colonos e indígenas, «em duas comunidades de alguma
maneira autónomas», tratando-se, portanto, de uma «cidade mista» (ALARCÃO, 1990: 47-48).
99
Segundo informação fornecida por Jorge Vilhena, que efectuou e coordenou a actualização
do Levantamento Arqueológico do concelho de Odemira (IPPAR, Direcção Regional de Évora).
100
Ainda segundo informações do arqueólogo acima mencionado.

46
A sepultura da Herdade da Defesa (ALARCÃO, 1988: 175) e a inscrição funerária da
Herdade da Corona (ENCARNAÇÃO, 1984: 217) deveriam pertencer às inúmeras uillae
que existiriam em redor de Alvalade, aproveitando os terrenos fertilizados da bacia do
Sado e as fortes potencialidades do comércio fluvial. A atestá-lo existem os vestígios de
ocupação romana encontrados na Ameira, na Herdade das Gáspeas (ALARCÃO, 1988:
175); nos restos de uma uilla no sítio da Figueira-de-à-Metade, Herdade dos
Conqueiros, cujos materiais arqueológicos foram datados de entre os séculos I-IV d. C.
e que também forneceu lápides (AMARO, 1982: 79-82; ENCARNAÇÃO, 1984 : 234 e 247),
uma delas datável do século I, de Múnia Brocina, uma das «primeiras indígenas
romanizadas do ager mirobrigensis» (ENCARNAÇÃO, 1996:142-43); no Roxo101 e na
Herdade de Torre Vã (ENCARNAÇÃO, 1984: 202) que, embora pertencendo actualmente
ao concelho de Ourique, se inclui nas grandes explorações agrícolas em redor do Sado,
ainda na esfera de influência de Miróbriga.
Deste modo, em torno de Miróbriga, um conjunto de explorações agrícolas
asseguravam o abastecimento do aglomerado urbano e permitiam a ocupação do
território que se concretiza materialmente pela distribuição de uillae em volta de um
«lugar central», interligadas por uma rede viária ( ALMEIDA e CARVALHO, 1996: 147).
Julgamos nós que é possível admitir, como já Jorge de Alarcão o fazia em 1976, que
alguns desses proprietários pudessem também explorar minas, como parece ter
acontecido na uilla que se situa junto do lugar da «Ferraria», S. Luís da Serra, no actual
concelho de Odemira, onde há vestígios de actividade metalúrgica. Relativamente perto
corre uma ribeira, fundamental à lavagem do minério (MAIA, 1996: 62) e existem
vestígios que nos parece tratar-se de um forno de fundição, dada a concentração de
escória vitrificada e de vestígios de terra queimada numa pequena área elevada,
formando um círculo. Não eram contudo visíveis restos de qualquer construção.
Desta zona, nos arredores do Cercal102, é o bracelete serpentiforme de quatro
cabeças, de que José Leite de Vasconcelos dá notícia, baseando-se numa referência de
Frei Manuel do Cenáculo103, cuja cronologia parece apontar para o século I d. C.
(FERNANDES, 1994: 134) .

101
Abel Viana, citando Frei Manuel do Cenáculo informa-nos: «No Roxo, uma legoa distante
de Alvalade, tem-se descoberto antiguidades, e pouco alli observei o descobrimento de hum
lagar onde se acharão bagulhos resequidos de uvas, medalhas e lanternas sepulcraes» .... «he
sitio cheio de paredes antigas» (VIANA, 1946: 120).
102
Aqui há vários vestígios de exploração mineira antiga e escoriais de ferro em grande
quantidade, ao longo da ribeira da Despada e é também muito comum encontrar-se escória
utilizada nos caminhos, tal como acontece em Santa Margarida do Sado (ENCARNAÇÃO, 1987, I:
32). A toponímia antiga confirma a existência de mineração.
103
«em huma sepultura na erdade do Raco (S. Tiago de Cacem) ... se achou o symbolo da
eternidade, figurada na serpente circular de bronze» (VASCONCELOS, 1905, III: 501). Abel Viana
retoma essa informações citando o documento de Cenáculo que diz ter aberto «... mais de dez
sepulturas» (VIANA, 1946: 119).

47
No entanto, no território que deveria corresponder à ciuitas de Miróbriga104,
compreendendo uma zona delimitada a Ocidente pelo mar, a Norte e a Este pela bacia
hidrográfica do rio Sado, confinando respectivamente com os territórios de Salacia e de
Pax Iulia (ALARCÃO, 19901: 365), e a Sul pela Serra do Cercal 105, raros são os sítios
conhecidos em que os Romanos se sobrepõem exactamente aos habitats da Idade do
Ferro.
Para além de Miróbriga, onde se comprova uma ocupação pré-romana, apenas no
caso da Pedra da Atalaia, S. Francisco da Serra, está atestada arqueologicamente uma
sobreposição: no século I d. C., os romanos instalam-se no mesmo local onde houvera
uma ocupação da II Idade do Ferro, datada dos séculos III-I a. C., de cariz
marcadamente continental (SILVA e SOARES, 1982: 26; 1993: 180; FERREIRA, 1993: 23 ;
ALARCÃO, 1996: 23).
Relativamente próximo deste território, em Garvão, Ourique, um dos locais que
Jorge de Alarcão admite poder tratar-se de capital de ciuitas (ALARCÃO, 19901: 362) a
realidade é já outra. Ao «Depósito Votivo» formado entre o século IV e III a. C. de forte
influência «orientalizante» e possivelmente utilizado como tal até à primeira metade do
século II a. C. (BEIRÃO et alii, 1985: 45-135; FABIÃO, 1992: 174-75; GOMES, 1994: 174;
CORREIA, 1996: 101-106) poderá corresponder um povoado de origem mais antiga, cuja
extensão pode ser precisada no «Cerro do Castelo», onde as escavações vieram
identificar a muralha e fosso que o delimitariam (CORREIA, 1996: 105). Este povoado foi
posteriormente romanizado (ALARCÃO, 1988, II: 179).
Sem querer prender-me a todas as questões que se levantam às influências ditas
«orientalizantes» ou «continentais» da I e da (ou na) II Idade do Ferro do Sudoeste do
território actualmente português, até porque não são do âmbito do nosso estudo, parece
ser possível admitir-se que este povoado se tenha expandido para uma plataforma mais
baixa no «Cerro da Igreja ou Cerro da Vila» onde aparecem cerâmicas estampilhadas da
denominada «II Idade do Ferro». Este povoado foi também ele romanizado, porque são
visíveis em níveis superficiais materiais que o comprovam, nomeadamente cerâmicas
comuns e uma fíbula anular do século IV d. C. (VILHENA e PONTE, 1996, IPPAR, Évora;
CORREIA, 1996: 105).
Os materiais arqueológicos e os elementos arquitectónicos do período romano, a
exemplo do fuste de uma coluna que se encontra nas instalações do futuro «Museu de
Garvão», indicam uma ocupação forte do território, atestada na uilla da Herdade dos

104
Ainda no século XVIII o «Termo de Santiago» ia de Tróia ao Vale de Santiago,
circunscrevendo-se a uma área que tinha como fronteiras os «Termos» de Sines, Vila Nova de
Milfontes, Colos, Garvão, Messejana, Alvalade, Grândola e Alcácer do Sal, com o qual
confinava na Comporta. Sines, que já pertencera a Santiago do Cacém e que posteriormente
havia obtido a sua completa autonomia administrativa e judicial (1834), será novamente
integrado nesse concelho em 1855. Nos nossos dias o concelho de Santiago do Cacém continua
a ser um dos maiores do território nacional, tendo Alvalade do Sado sido integrada neste
concelho, em 1871, depois de ter perdido o poder concelhio após as Lutas Liberais e ter
pertencido sucessivamente à Messejana e a Aljustrel. É constituído pelas freguesias da Abela,
Alvalade, Cercal, Ermidas do Sado, Santa Cruz, Santiago do Cacém, Santo André, São
Bartolomeu da Serra, São Domingos e S. Francisco da Serra.
105
Concordamos com os limites apresentados por Jorge de Alarcão para a ciuitas de Miróbriga,
que confinaria a Norte com o território de Salacia, a Este com o de Pax Iulia e a Sul com o de
Arandis (?) (ALARCÃO, 19901: 364-367). No entanto, não são conhecidos quaisquer termini que nos
permitam justificar arqueologicamente esta delimitação, pelo que o critério obedece mais a
uma análise dos acidentes geográficos e a hipóteses de correlação relativas aos recursos
naturais circundantes.

48
Franciscos, em Santa Luzia e em Panóias (ALARCÃO, 1988, II: 179; ENCARNAÇÃO, 1984:
191).
Segundo alguns investigadores o oppidum de Garvão teria polarizado um vasto
território ao qual poderia ter estado sujeita, em certa fase, a Ilha do Pessegueiro ( SILVA
e SOARES, 1993: 178).

Os restantes povoados ou «núcleos residenciais» (FABIÃO, 1992: 132) e necrópoles


referenciados na região de Ourique não nos revelam importantes dados sobre os povos
que aí habitavam no período antecedente à invasão romana ou sobre a sua organização
no território, situando-se, praticamente todos os conhecidos, na tradição do «Bronze
Final». Denotando uma forte componente cultural «orientalizante», foram estes
povoados que, de algum modo, serviram para a delimitação da chamada «I Idade do
Ferro do Sul de Portugal» (GOMES, 1994: 141-146).
Pelos exemplos citados, e pela disparidade de situações a que correspondem, não
se consegue deduzir uma uniformidade de modelos utilizado na Romanização dos
territórios circundantes a Miróbriga, nem concluir da forma como se estabeleceu a
permeabilidade entre os Romanos e os diversos povos que aí habitavam na primeira
etapa de dominação. Contudo, parece-nos lícito concluir que a continuidade de
ocupação no mesmo local é bastante mais evidente quando os povoados tinham uma
situação estratégica e de acessibilidade terrestre, fluvial, ou marítima dos recursos,
nomeadamente os mineiros, ou quando poderiam ter já atingido, de algum modo, a
«capitalidade». Na Idade do Ferro essa estratégia de povoamento no litoral Sul-Centro
parece ter também obedecido, a seu tempo, a factores de acessibilidade aos recursos
mineiros e à viabilidade de transporte marítimo, localizando-se os centros polarizadores
do território junto dos estuários, tanto mais a montante quanto o limite dos navios o
permitisse, a exemplo do que se passou em Santarém e Alcácer do Sal ( SILVA e
SOARES, 1993: 179).
Deste modo, a centralidade em relação aos recursos e em relação ao acesso ao mar
poderão ter já justificado a ocupação pré-romana do «lugar central» de Miróbriga.
O relativo desconhecimento do ponto de vista arqueológico quanto à
Romanização do Sudoeste peninsular, e, em particular, no que diz respeito ao litoral,
onde há que incrementar trabalhos arqueológicos, pois nele apenas tem havido, nos
últimos anos intervenções pontuais106 dificulta, como já referimos, o entendimento das
motivações e dos mecanismos de ocupação do território de Miróbriga, nomeadamente
da sua possível tradição céltica. Aliás, é de salientar que também são ainda
desconhecidos indícios no território actualmente português das «típicas organizações
sociais célticas» a exemplo do que acontece noutras regiões da península Ibérica
(FABIÃO, 1992: 177).

106
O levantamento feito por C. T. Silva e Joaquina Soares, Pré-História da Área de Sines
(1981), continua a ser, no que diz respeito à Pré-História, o mais exaustivo. Em relação aos
vestígios romanos o Roman Portugal de Jorge de Alarcão e as IRCP de José d’Encarnação
continuam a ser as obras mais relevantes. Recentemente a publicação dos Subsídios para uma
carta Arqueológica referente ao Património Arqueológico do Distrito de Setúbal vem, se bem
que de uma forma muito esquemática, contribuir para uma visão mais alargada do povoamento
na região. Desejamos poder, a curto prazo, poder constituir uma equipa que alargue as
prospecções intensivas nesta área, podendo deste modo aprofundar os estudos anteriormente
feitos, uma vez que recentemente foram efectuadas nas zonas limítrofes de Miróbriga.

49
Acrescido a esse facto são também muito escassos os dados obtidos através das
fontes latinas sobre a fase de Romanização, que se circunscrevem praticamente aos
pontos de maior interesse para a navegação (MANTAS, 19962: 343-370).
O pouco que Estrabão nos esclarece é em relação à Turdetânia, região que, no
entanto, refere de uma forma indiscriminada, em passos diferentes da sua Geografia:
como entidade geográfica  cujos limites são indefinidos, mas que, em termos gerais
compreende a «Mesopotâmia» formada entre o Tejo e o Guadiana, abrangendo,
portanto, o Alentejo (ARRUDA, 1993: 457) e o litoral algarvio; como unidade étnica 
área de influência dos Turdetanos; e ainda como unidade política  correspondente à
província da Bética (PÉREZ VILATELA, 1990: 101). Este geógrafo informa-nos que nessa
vasta «Mesopotâmia» os célticos são a maioria étnica e que algumas tribos lusitanas
teriam sido deslocadas pelos Romanos para a margem esquerda do Tejo (Estr. III, 1, 6).
Segundo Estrabão, os Keltikoi ocupariam a área compreendida entre as bacias do
Sado e do Guadiana, que a Este tinham por limite a «Betúria dos Célticos» e que a
Ocidente se estendiam até ao Oceano, em cujas costas referirá Plínio o oppidum de
Miróbriga.
Estrabão refere ainda a localização dos principais centros urbanos da Turdetânia:
«Os indígenas, conhecedores da natureza da região, e sabendo que os esteiros podem
servir para o mesmo que os rios [refere-se às trocas comerciais] construíram as suas
cidades e povoados nas suas margens, como o fazem nas ribeiras dos rios. Assim foram
fundadas Asta, Nabrissa, Onoba, Ossonoba, Mainoba e outras mais» (Estr. III, 2, 5).
Não cita, contudo, qualquer centro urbano localizado no Sudoeste alentejano, pelo que
não é de estranhar que não haja qualquer referência de Estrabão a Miróbriga, que
deveria tratar-se de um pequeno oppidum à época em que o geógrafo faz grande parte
da sua obra.
Esta omissão deve-se, por um lado, ao facto de a Geografia se destinar
fundamentalmente a informar marinheiros, soldados e governantes e a fornecer dados
do seu interesse (GONZÁLEZ PONCE, 1990: 83) e, por outro, porque utiliza, em grande
parte, dados desactualizados (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 14).
No entanto, embora algumas informações do texto de Estrabão sejam mais
actuais107, as poucas que nos dá em relação à costa do Sudoeste alentejano pode
significar também o atraso da Romanização e da urbanização nesta área geográfica, em
finais do século I a. C. 108.
O texto pliniano é um pouco mais esclarecedor 109, porque relaciona algumas
cidades junto a rios ou a outros acidentes naturais, o que permite conhecer um pouco
mais aproximadamente a sua localização, nomeando de Norte para Sul: Olisipo,
Salacia, Merobrica, o Sacrum Promunturium, o promontório Cúneo, e os oppida

107
O autor já conhece a divisão administrativa de 27 a. C., a reorganização de Agripa de 19 a.
C. ou 18 a. C. e a divisão de Augusto, feita entre 7 a. C. e 2 a. C. (a este último momento
correspondem os dados mais recentes de Estrabão, que equivalem ao definitivo ajuste da
divisão provincial da Hispânia (PÉREZ VILATELA, 1990: 100, 114).
108
Aliás, segundo Vasco Mantas, o «exíguo número de cidades romanas citadas na Naturalis
Historia corresponde bem ao estado da romanização da Lusitânia no último quartel do século
I a. C. e não permite quaisquer dúvidas quanto à posição de privilégio das mesmas, sobretudo
das colónias, em relação às ciuitates estipendiárias que, através do exercício de funções
administrativas regionais, se preparavam para o passo decisivo da municipalização flaviana
enquanto Plínio redigia a sua obra» (MANTAS, 1993: 480).
109
Sobre o texto pliniano, ver OLIVEIRA, 1993: 97-109.

50
Ossonoba, Balsa e Myrtilis (N.H., 4, 116). Mas, não obstante, não o é suficientemente,
porque, como já referimos, ainda hoje há dúvidas sobre a localização exacta de alguns
dos sítios por ele designados, como é o caso do local que estudamos.

51
IV PARTE  CARACTERIZAÇÃO GERAL DE MIRÓBRIGA

1. O aglomerado urbano e a sua fundação

Muito frequente no Sul de Portugal, o topónimo Castelo indicia, genericamente,


uma ocupação pré-romana (MAIA, 1986: 44).
Efectivamente, a zona onde se implanta o forum de Miróbriga, conhecida
vulgarmente por «Castelo Velho», deve ter sido ocupada desde a Idade do Bronze.
O sufixo «briga», comum a mais de uma centena de topónimos peninsulares,
numa região designada por alguns autores como «Hispânia indo-europeia» (DIAS, 1997:
25), poderá denunciar a celticização a que temporariamente foi sujeito este território 110, e
encerra, como é assinalado por muitos autores, a ideia de «castelo», «fortificação» ou
aglomerado situado num ponto alto.
A existência de uma ocupação sidérica no local que estudamos é confirmada
arqueologicamente a partir do século V a. C. (SILVA e SOARES, 1979: 163; PONTE, 1979:
195)111 e, apesar das dúvidas levantadas quanto à sua designação e à identificação com a
«Miróbriga Céltica», quer as suas características topográficas, quer a existência de uma
muralha construída com aparelho pequeno e médio de pedra seca, característico da
II Idade do Ferro, poderiam justificar o sufixo «briga» deste oppidum.
A significação do topónimo Miróbriga  com o característico sufixo em-briga,
muito frequente nas áreas de influência céltica  e o radical miro-/-mira  que alguns
autores admitem ser uma possível alusão a um rio , é muito comum nos povos
hispano-romanos, aparecendo citadas várias cidades distintas nas fontes antigas: a
«Miróbriga Céltica» de que tratamos; a «Miróbriga dos Vetões», situada na actual
Cidade Robrigo (Salamanca) e a «Miróbriga Turdula» no «Cerro del Cabezo» de
Capilla (Badajoz).
O radical deste topónimo tem contribuído, como acabámos de verificar, para que
alguns autores associem a «Miróbriga Céltica» ao rio Mira, como já o admitira José
Leite de Vasconcelos inclinando-se assim para que a sua localização se situasse em
Odemira112.

110
Vasco Mantas considera como possível que «a zona ocidental do Algarve se situasse numa
faixa de influência céltica, prolongada para norte até aos confins de Miróbriga» (MANTAS, 1997:
289).
111
Quer as cerâmicas com decoração de cordões estudadas por C. T. Silva e Joaquina Soares,
já anteriormente referidas, quer as fíbulas anulares publicadas por Salete da Ponte.
112
José Leite de Vasconcelos, ao debruçar-se sobre uma deidade de nome Mirobieus afirmava
«Miro-briga pode significar “fortaleza do Mira” e como na costa occidental, no Alemtejo, fica
o rio, palavra que se decompõe, como é sabido em ode-Mira, sendo ode  palavra de origem
arabiga que quer dizer “rio” ... é de crer que a primeira parte de Miro-briga nada mais seja do
que o nome do rio, e que a situação da cidade fosse por aqui e não ao Norte, em S. Tiago de
Cacem, onde varios AA. a collocam. ... Curioso é de notar que o deus Mirobeus era adorado
dentro tambem de um rio. Talves na lingua indegena, a palavra Mira contivesse uma ideia
aparentada com a de “agua”» (VASCONCELOS, 1905, II: 235-36).

52
A questão do radical «Mira» foi posteriormente retomada por vários autores que o
consideram como vocábulo de origem pré-romana, ou mesmo pré-céltica e que o
associam à ideia genérica de «água» ou de rio ( QUARESMA, 1986: 83; PASTOR et alii, 1992:
17; AMARAL, 1997: 100)113.
A referência de Plínio a uma Merobrica entre as povoações costeiras dignas de
nota, localizadas entre o Tejo e o Algarve, e aos Stipendiariorum entre os quais nomeia
Mirobrigenses qui Celtici cognominantur (Plínio, N.H., 4, 116) e a correspondência
entre o mesmo e o local que estudamos é difícil, uma vez que a inscrição funerária já
anteriormente mencionada de Gaio Pórcio Severo, um Mirobrigensis celticus, é de uma
autenticidade questionável, quer do ponto de vista paleográfico, quer formal e textual
(ENCARNAÇÃO, 1984: 233; 1996: 133-135), passando-se o mesmo em relação à
interpretação de outros textos epigráficos provenientes deste Sítio.
Luis Berrocal, analisando o texto de Plínio e as diferenças gráficas dos topónimos
citados, apresenta como hipótese existirem dois povoados diferentes no Sudoeste
peninsular: Mirobriga Celticorum, que situa no local que estudamos, e Merobrica, cuja
localização se desconhece, mas que deduz situar-se na costa entre Sines e Vila Nova de
Milfontes. Não obstante, inclina-se mais para a sua localização na foz do Mira, em Vila
Nova de Milfontes, uma vez que Plínio a cita como povoação costeira (BERROCAL,
1992: 64)114.
Também Ptolemeu refere uma Miróbriga (G.H., II, 4, 10), que, situa entre as
quarenta cidades turdetanas115 que ocupam as terras béticas do interior  a Miróbriga
Túrdula  e uma outra que, muito possivelmente, se trata da povoação a que nos vimos
a referir, mas que Ptolemeu coloca na Tarraconense (G.H., II, 6, 58)  uma das cidades
que atribui aos Oretanos e que coloca junto de localidades como Salaria, Sisapone,
Oretum, Salica, Libisosa e Castulo, entre outras116  contribui para gerar alguma
confusão sobre a localização deste aglomerado.
Marcada, possivelmente, por uma componente continental/«celticizante»,
Miróbriga tornar-se-á permeável às influências das regiões meridionais e costeiras
(GOMES, 1994: 173), como o demonstram os materiais anfóricos de origem púnica aí
encontrados (SILVA, 1979: 160).

113
Se bem que para Luis Berrocal não haja elementos suficientes para aceitar como certa a
antiguidade pré-romana do hidrónimo «Mira» (BERROCAL, 1992: 69), outros autores aceitam que
esse mesmo radical Mira se trate, de facto, de um hidrónimo indoeuropeu antigo presente em
muitos outros topónimos  Miranda, Miragaia , se bem que não necessariamente com o
mesmo significado (AMARAL, 1997: 100, 104). O elemento encontra-se também no teónimo
referenciado no território português Ocrimira (ENCARNAÇÂO, 1975: 255; ALARCÃO, 1988: 158 e 218).
114
A. Tovar havia já defendido (1976) também a ideia de que existiriam duas cidades próximas
com nomes idênticos. A primeira corresponderia à actual Sines e a segunda à que estudamos.
115
Segundo Bendala Gálan (BENDALA, 1987) em pleno Alto Império os termos Turdetânia e
Turdetanos deveriam já ter perdido o seu sentido original para equiparar-se a povos do Sul
Ocidental com forte influência púnica. Segundo a informação de Ptolemeu, reafirma-se a
presença do cabo Sacro entre os «Turdetanos», numa concepção que abarca provavelmente
todo o Baixo Alentejo, uma vez que Pax Iulia, Myrtilis e também Salacia estariam habitadas
por «estas gentes». Curiosamente, a Miróbriga Túrdula parece tratar-se, segundo os
investigadores que aí vêm trabalhando, de uma fundação ex nihilo ou ex novo, se bem que
admitam possa ter havido, neste mesmo local ou num próximo, ocupação pré-romana (PASTOR
et alii, 1992: 17; PASTOR, 1993: 609).
116
Sobre o topónimo Miróbriga e as suas referências clássicas, ver PASTOR et alii, 1992:17 e
PASTOR, 1993: 601-2.

53
Tratando-se de um oppidum fortificado que foi romanizado, a implantação latina
de Miróbriga foi condicionada pela pré-existente ocupação 117 e pela teia de relações
estabelecida entre as comunidades da II Idade do Ferro (BERROCAL: 1992: 243-267).
A forma como se estruturou a própria ciuitas foi seguramente marcada pela organização
territorial precedente118, uma vez que a óptima localização do ponto de vista geo-
estratégico, que lhe deve ter conferido, desde bastante cedo, importância como «local
central».
Situada na fachada atlântica da Hispânia, portanto extera Europae119, ter-se-ia
tornado, segundo Plínio, num oppidum stipendiarium (Plínio, Nat. Hist., IV, 116)120.
Deverá ter-se entregue a Roma, tornando-se os seus habitantes livres, tal como
aconteceu a numerosas povoações que se tornaram em «ciuitates stipendiariae», não
desfrutando, contudo, os membros destas comunidades de todos os direitos de cidadania
romana e ficando submetidos a todo o tipo de imposiÁões e cargas fiscais121.
Sujeita à influência romana desde, pelo menos, inícios do século II a. C., como o
demonstram os materiais arqueológicos aí exumados122  como alguns espécimes
numismáticos, que comprovam a existência de uma circulação monetária republicana
(PEREIRA, 1997: 23); as terra sigillata itálica123 (FERRER DIAS, 1976-77: 362); algumas
«paredes finas - grupo A»124, datáveis de fins da República e inícios do Império
(NOLEN, 1976-77: 425), ou mesmo as campanienses tipo B (ALMEIDA, 1964: 28; ARTHUR,
1983; BERROCAL, 1992: 116) , Miróbriga terá tido uma ocupação plena a partir do século

117
Situação que é comum a muitas outras povoações romanizadas, e que parece confirmar-se
em Tongobriga (DIAS, 1997: 29).
118
Segundo Berrocal, Miróbriga, atendendo aos seus recursos, pode considerar-se um povoado
de «exploração mineira» (BERROCAL, 1992: 265).
119
Na perspectiva pliniana e ainda centrada no mundo mediterrânico.
120
Se se admitir que o local agora em estudo é a Miróbriga dos Célticos citada por Plínio, a
primeira referência conhecida é a deste autor e, portanto, já posterior à divisão administrativa
efectuada por Augusto.
121
Ou seja, deviam pagar o vectigal ou stipendium, ao qual se adicionavam outras
contribuições de carácter pessoal (RUBIO, 1993: 571-572). Roma era dona por direito de guerra,
porque as havia rendido sem condições  deditio (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 23).
122
Nomeadamente uma moeda do século I a. C., segundo António Faria, e que foi
recentemente encontrada junto à área residencial que escávamos em 1995-1996.
123
De notar contudo que, em Miróbriga, são escassos e pouco antigos os exemplares de terra
sigillata itálica, sendo as formas mais comuns as do tipo Goudineau 27  a cronologia dos seus
paralelos situam-se por volta de 10 a. C. , como já o afirmara Luísa Ferrer Dias (DIAS, 1976-
1977: 362). À mesma conclusão chegou o estudo feito recentemente por José Carlos Quaresma.
Em contrapartida, no que diz respeito às «paredes finas» verifica-se que o «grupo mais antigo
(grupo A), na sua maioria importado, está comparativamente bem representado, enquanto os
grupos de cronologia mais tardia, de manufactura ibérica, são menos abundantes» (NOLEN, 1976-
1977: 423).
124
Nolen chama a atenção para o facto de, num total de trinta e cinco fragmentos de «paredes
finas», existirem onze atribuíveis ao «Grupo A», datável de finais da República-inícios do
período imperial (NOLEN, 1976-1977: 425).

54
I d. C.125, sendo construídas as infra-estruturas comuns às cidades provinciais126, como o
forum, na segunda metade da centúria.
A epigrafia confirma essa ocupação plena nos séculos I e II d. C.
Verifica-se em Miróbriga a incidência no uso dos tria nomina, reflexo seguro de
uma profunda romanização e indicativos da cidadania (MANTAS, 1987: 39 e 19962: 357)
mais comum na epigrafia urbana e rural, mas que em Miróbriga denuncia a origem de
uma população de indígenas romanizados (ENCARNAÇÃO; 1984: 217-247). Apesar de não
haver praticamente cognomina gregos127 nem indivíduos que se identificam com um
único nome, como acontece nas zonas portuárias e industriais de Tróia e de Salacia
(MANTAS, 1987: 39 e 19962: 364) há contudo algumas referências a libertos, como é o caso
do testamentário da ara de Esculápio, Gaio Átio Januário (ENCARNAÇÃO, 1984: 218-220).
A política de fomento económico e de desenvolvimento urbanístico prosseguida
na Península por todo o século I d. C. recebeu novo impulso na dinastia flaviana 128,
sendo, então, promovidas à categoria de município algumas cidades, entre elas, em
território actualmente português, Bracara Augusta, Aquae Flaviae, Conimbriga ou
mesmo Tongobriga. É provável que Miróbriga tenha também obtido a sua
municipalização nessa altura, e que tenha beneficiado do «Edito de Latinidade»
decretado por Vespasiano em 73 ou 74 d. C. que concede o ius latii, sendo os seus
habitantes inscritos numa das tribos romanas, neste caso a Quirina129.
A inscrição com a qual se tem pretendido atestar a inclusão de Miróbriga entre os
municípios flávios da Península não é isenta de dúvidas, até porque se desconhece o
seu paradeiro.

125
Para além de um conjunto de estudos publicados que confirmam essa ocupação plena, o
recente trabalho de José Carlos Quaresma sobre As Terra Sigillata Focense Tardia e Africana
de Miróbriga (inédito) aponta também para essa vitalidade, uma vez que «Miróbriga parece ter
iniciado as suas importações de T.S.Af. A desde que esta começou a ser fabricada na região de
Cartago, nos finais do século I d. C., sob a governação dos Flávios», tendência que se acentua
entre meados do século II a meados so século IV (QUARESMA, s/d).
126
Segundo a equipa luso-americana há uma constante nas datas apontadas para o
desenvolvimento das estruturas urbanas de Miróbriga, correspondendo a meados do século I d.
C. (BIERS et alii, 1984: 51).
127
Só o herdeiro de C. Attius Iannuarius, o testamentário da ara de Esculápio, usa um cognome
que parece ter origem grega (ENCARNAÇÃO, 1984: 220). Aliás, segundo Vasco Mantas, a
antroponímia grega parece quase totalmente alheia ao fundo populacional indígena (MANTAS,
19962: 357).
128
Em Tarragona, na parte baixa da cidade, são visíveis os primeiros indícios de
monumentalização a partir da época augustana. Também na época flávia são impulsionados
vários programas urbanísticos na parte alta da cidade, tendo-se edificado o conjunto do forum
provincial com a sua praça e templo separado da área habitacional pelo circo (MIRÓ, 1996).
129
Jorge de Alarcão defende como verosímil esta promoção pelos flávios, tanto mais que há
uma inscrição que refere um cidadão inscrito na tribo Quirina (ALARCÃO, 19852: 109; MANTAS,
1987: 29; GONZÁLEZ BLANCO, 1996: 105). No entanto, o facto de Vespasiano ter outorgado o ius
Latii a toda a Hispânia não convertia automaticamente todos os seus beneficiários em Ciues
Romani, uma vez que se tratava de Latium minus  só o exercício de uma magistratura (honos)
permitia o acesso à cidadania romana. Deste modo os principais beneficiados foram as elites
locais (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 44; TRANOY, 1993: 32). Segundo González Blanco é difícil
precisar «se a teoria da regularização jurídica de toda a Península afectou também os territórios
ainda debilmente romanizados em que a ciuitas era mais uma fictio iuris para atender às
necessidades da administração do que uma realidade sociológica ..., mas o mais provável é
que se tenha aberto a possibilidade de adoptar o caminho de aproximação às formas de vida
impostas pelos Romanos» (GONZÁLEZ, 1996: 95).

55
Para José d’Encarnação, a interpretação que dela se faz não é suficiente para
justificar a inclusão de Miróbriga entre os municípios flávios da Península
(ENCARNAÇÃO, 1984: 230). No entanto, Jorge de Alarcão conclui que é exagerada esta
preocupação e que a inscrição seria de extrema importância porque poderia ler-se, de
forma abreviada, Municipium Flavia Mirobriga, até porque a cópia de uma outra
inscrição (IRCP 158) regista um cidadão inscrito da tribo Quirina ( ALARCÃO, 1985: 109).
Não obstante, os dois investigadores admitem a municipalização de Miróbriga na época
flávia (ENCARNAÇÃO, 1984: 223).
Quando se fala da municipalização romana na Península Ibérica temos que ter
presente que a cidadania e a urbanização foram dois importantes meios de domínio
imperial, já que a concentração das instituições políticas e da aristocracia da
comunidade submetida reduzia consideravelmente as tarefas de governação das
comunidades, pois essa aristocracia à qual era garantida, na maioria dos casos, uma
posição privilegiada era forçada a adaptar-se e a incorporar-se nas directivas romanas.
Isto porque a mudança de status jurídico dos núcleos urbanos promovidos a municípios
significava não só a concessão de privilégios respeitantes aos seus habitantes como à
gestão pública da cidade, com a provisão das instituições inerentes à sua nova categoria
(RUBIO FUENTES, 1993: 568).
Desenvolvem-se, deste modo, as estruturas municipais, que tinham como
objectivo criar um modelo uniforme de organização interna (CASILLAS et alii, 1993: 628-
629), e dá-se, em muitos casos, a correspondente remodelação urbana. Surgem os
duúnviros130 que, para além das suas funções de gestão e governação pública,
presidindo e convocando o senado local, assumem ainda uma importante feição judicial
 uma vez que são eles que nomeiam os juízes da cidade e supervisionam a sua
actuação  e ainda religiosas, porque deviam propor a nomeação de alguns responsáveis
dos templos  magistri (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 134).
A existência de um magister em Miróbriga, Caius Iulius Rufinus, dedicante de
uma ara a Vénus, e as funções que Marco Júlio Marcelo deve ter exercido,
nomeadamente de edil e duúnviro (IRCP 150)131, confirmam a complexificação
130
Em Pax Iulia está atestada a existência de um duúnviro e flâmine do imperador Tibério
(IRCP 236; MANTAS, 1987: 32) e na epigrafia de Olisipo estão atestados sete duúnviros e seis edis,
ostentando todos uma antroponímia latina (MANTAS, 1996 2: 358). Por seu lado, os edis
acumulavam funções urbanísticas e legislativas, uma vez que também se esperava que
actuassem no sentido de serem criadas leis referentes ao urbanismo. Na maioria dos casos, o
exercício da edilidade era um «trampolim» para a ascensão ao cargo de duúnviro, como parece
ter acontecido com o cidadão de Miróbriga. Situações destas são muito comuns na Hispânia,
podendo-se citar o exemplo de Tarraco, onde de onze edis conhecidos, oito foram promovidos
a duúnviros, ou em Barcino, onde de dezanove registados, quinze também o foram (ABASCAL e
ESPINOSA, 1989: 137). Em Saguntum, junto à Basílica apareceu uma inscrição que menciona L.
Manlius Fabianus também nomeado noutra epígrafe e que parece ter exercido a função de
duúnviro (ARANEGUI et alii, 1987: 92).
131
De salientar que o exercício de uma magistratura outorgava a cidadania a quem a
desempenhava, bem como aos seus ascendentes e descendentes. O direito de cidadania
compreendia direitos civis, como o uso dos tria nomia, o direito de connubium e de
comercium, bem como os direitos políticos como o voto, ius sufragii, ou de aceder às
magistraturas, ius honorum, e o privilégio de servir nas legiões. A existência destes
funcionários, para além do que representa em termos jurídico-administrativos, implica a
existência de receitas autárquicas próprias, as summae honorariae, sobre as quais não há
qualquer informação referente às cidades do Portugal Romano. No entanto, estas receitas eram
apenas uma parte do rendimento de uma autarquia, que eram refoçadas com os impostos sobre
o comércio e indústria, as taxas ou tarifas sobre prédios urbanos ou mesmo algumas
propriedades rústicas e ainda sobre alguns edifícios públicos, como as termas (ABASCAL e

56
administrativa a que Miróbriga assistiu, correspondendo ao seu estatudo municipal
(ALARCÃO, 1989: 244; ENCARNAÇÃO, 1996: 136).
Segundo José d’Encarnação, magister poderá entender-se aqui, quer no sentido
administrativo (chefe de uma comunidade), quer religioso  magister é o presidente
dum colégio sacerdotal, o encarregado dos ofícios religiosos (ENCARNAÇÃO, 1984:
223)132. Admitimos, contudo, que se possa efectivamente tratar de uma função religiosa,
tendo em atenção a existência de um hipódromo em Miróbriga e se pesarmos que uma
das funções destes magistri era zelar pela realização dos sacrifícios religiosos e pela
realização dos jogos circenses (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 135) , também eles de forte
componente religiosa.
A ara dedicada a Esculápio, para além da importância religiosa que assume,
contém também informações de índole administrativa que importa reter. A referência a
splendidissimus ordo que, apesar de não esclarecer o «estatuto administrativo do
aglomerado populacional a que diz respeito, não especificando sequer, através dum
desejável adjectivo, o nome desse aglomerado ... implica a existência duma
organização de tipo municipal, splendidissimus, como é habitual» (ENCARNAÇÃO, 1984:
220; GONZÁLEZ BLANCO, 1996: 104).

Miróbriga trata-se, portanto, de um aglomerado dotado de ordo decurionum133,


logo de assembleia ou Senado local134, que, como em tantos municípios, deveria
sancionar quase todos os actos da vida local e, nomeadamente, a organização dos actos
religiosos e do calendário festivo e lúdico135 e até, com toda a probabilidade, a
existência de quinquatrus em Miróbriga.
Por seu lado, o culto imperial também se organiza, na Península, à medida que se
desenvolve o processo de municipalização136, existindo exemplos deste culto em
ESPINOSA, 1989: 184; ALARCÃO, 1992 1: 49-50).O evergetismo privado desempenhava um papel
preponderante no financiamento da construção dos edifícios públicos (GROS e TORELLI, 1992:
260). Em Saguntum parece estar bem demonstrada essa atitude no forum, através da doação
testamentária do pontifex e edil Cneus Baebius Geminus (ARANEGUI et alii, 1987: 95).
132
Jorge de Alarcão deixa em aberto esta questão, mas inclina-se a admitir que se tratava de
uma função possivelmente administrativa, num período em que Miróbriga ainda não era
município, sendo, portanto, governada por magistri (ALARCÃO, 1985: 110; 1990: 393). José
d’Encarnação continua a optar por uma conotação religiosa (ENCARNAÇÃO, 1996: 136).
133
«Os magistrados principais  duúnviros, edis e questores  depois de desempenharem os
seus cargos, colegiais e anuais, integravam o senado local  a curia  constituindo com os seus
familiares o ordo decurionum, no qual, apesar de existir uma assembleia popular, denominada
populus, residia o verdadeiro poder» (MANTAS, 1987: 27). O ordo decurionalis integrava,
portanto, a aristocracia das colónias e dos municípios, e a sua pertença contrapunha de per si
os seus membros aos restantes cidadãos (ABASCAL e ESPINOSA, 1989: 116).
Sobre o merita splendidissimi ordinis e o estatuto municipal de Miróbriga ver ainda
ENCARNAÇÃO, 1996: 133.
134
Também na «Miróbriga Túrdula» parece ter aparecido uma inscrição onde os municipes
seviri do ordo municipal de Miróbriga  ordo mirobrigensium  fazem uma dedicatória a
Antonino Pio (PASTOR, 1993: 605).
135
Sobre a importância do ordo ver ENCARNAÇÃO, 1993: 59-64.
Alguns autores defendem que em vastas regiões do Império, de forte substrato céltico, o ordo
não fez mais do que substituir o conselho dos nobres das organizações da Idade do Ferro
(BALTY, 1991: 6).
136
Desde Augusto que se vinha verificando a necessidade de expandir a religião imperial,
como um elemento de coesão dos povos recentemente conquistados (ÉTIENNE, 1974: 355-403).
Data de 26 a. C. a construção de um altar dedicado a Augusto em Tarragona e é, possivelmente
nessa altura, construído o aedes augusti no forum desta cidade. Em Asturica Augusta edificou-
se também um aedes augusti na basílica (GARCIA e VIDAL, 1995: 383). Ainda em Mérida, fundada
em 25 a. C., parece ter existido, desde bastante cedo, um altar em honra de Augusto. Também

57
território actualmente português, como acontece em Armês, Sintra, já em período
augustano, como parece comprovar a homenagem rendida a Augusto por L. Iulius
Maelo Caudicus, na sua condição de flamen Diui Augusti (RIBEIRO, 1982/83: 183-188).
O culto imperial parece ter tido também bastante adesão em Salacia no século
I d. C., ainda em época pré-flaviana, como se pode comprovar pela existência de
flâmines provinciais137 (ENCARNAÇÃO, 1984: 743 e 1990: 457; GUICHARD, 1993: 73; KEAY,
1995: 306; MANTAS, 19962: 365).
Em Miróbriga o culto imperial parece esboçar-se já em meados do século I d.
C., como o indicia a dedicatória a Vénus de Caius Iulius Rufinus, sendo confirmado
através da dedicatória a essa deusa feita por Flavia Titia; pela consagração a Marte
(ENCARNAÇÃO, 1984: IRCP 145) e ainda pela construção de um templo centralizado,
dedicado ao imperador138, como aliás já vinha a ser admitido por outros investigadores
(ALARCÃO, 1989 243-245; BURGHOLZER, 1994: 78-79).  Fot. 53.

Até ao século III confirma-se uma enorme vitalidade e uma ocupação intensa em
Miróbriga, atestada pela concentração de materiais cerâmicos desse período, que
tendencialmente vai diminuindo na segunda metade do século IV d. C., sendo muito
escassas as importações de Terra Sigillata Africana (QUARESMA, inédito).
As razões que motivaram o abandono de Miróbriga não foram determinadas,
mas os vestígios arqueológicos indicam uma gradual desactivação a partir do século IV
d. C. (BIERS et alii, 1988: 10). No entanto, não se pode falar propriamente de um colapso,
pois apesar do decréscimo que se verifica a partir do século IV, continuam a verificar-se
importações de cerâmicas de origem africana a que se juntam trocas com o
Mediterrâneo oriental (QUARESMA, s/d  inédito, para publicação).

no final do seu reinado ou de inícios do de Tibério é feita a reconstrução do forum de


Caesaraugusta e a edificação de um templo sagrado a Pietas Augusta (KEAY, 1995: 308; 312 e 313).
No entanto, na Lusitânia, a divulgação do culto imperial e o desenvolvimento municipal estão,
de algum modo, associados (CENTENO, 1983: 204), dadas as características do crescimento
político e administrativo desta província. As colónias e os municípios são, pois, os locais
privilegiados para a implantação do culto imperial. Com a nova dinastia flávia, que se
reclamava como criadora da «monarquia imperial», organiza-se, assim, definitivamente o culto
imperial (LE ROUX, 1995: 76-78).
137
O flaminato está representado em Olisipo, Salacia, Ebora, Pax Iulia, Balsa e Ossonoba
(CENTENO, 1983: 204). Em Bracara o culto imperial está representado num escalão superior,
através de um sacerdote e de uma sacerdotisa do conventus (MANTAS, 1987: 35).
138
Também em Idanha-a-Velha está atestado o culto a Vénus e Marte (MANTAS, 1987: 36).

58
2. Características gerais do aglomerado urbano

Assentando num aglomerado anterior fortificado, de que desconhece a verdadeira


dimensão, a urbanização romana de Miróbriga deverá ter-se adaptado à ocupação
anterior e à topografia do local.
Os Romanos utilizaram, para além de outras zonas, o alto da «acrópole» ou
fortificação pré-romana, dotada de uma muralha construída com pedra-seca139, numa
situação de domínio em relação ao território envolvente. Deverão ter utilizado a zona
fortificada, na fase inicial de Romanização, se bem que rompendo com o
amuralhamento em algumas zonas, como se pode verificar junto do templo
centralizado.
Se bem que ainda não sejam bem conhecidos o perímetro e a malha urbana da
cidade, que só se poder clarificar com futuras escavações, é manifesto que Miróbriga
não apresenta as características ortogonais do modelo ideal de urbanismo romano a
exemplo de algumas fundações do território actualmente português, como Ebora, Pax
Iulia, Bracara Augusta, Seilium (MANTAS, 1987: 40-55 PONTE, 1989: 11 ALARCÃO et alii,
1994: 71-81).
A dispersão dos vestígios e dos materiais arqueológicos romanos abrange uma
área de cerca de 8/9 há sendo, contudo, desconhecido se toda ela foi intensa e
uniformemente ocupada140.
Atendendo ainda às calçadas existentes, quer no local por onde actualmente se faz
a entrada em Miróbriga, quer a Norte do Forum, é óbvio que todo o aglomerado urbano
se estendia pelas áreas limítrofes à actualmente vedada.
Conhecidos são restos de estruturas que se desenvolvem numa encosta virada a
Este, a Poente da zona actualmente vedada em Miróbriga. Julgamos que deve tratar-se
de habitações, uma vez que são visíveis vários telhados e muros alinhados definindo
compartimentos, e parece articularem-se com as insulae que se situam na actual entrada
das ruínas. Relativamente perto identificam-se lajes que deveriam pertencer a uma
calçada.
Através de referências escritas deduz-se ainda a existência de vários vestígios
romanos dispersos relativamente próximo de Miróbriga, como restos de calçadas e
sepulturas.
D. Fernando de Almeida refere uma «Villa Periquito», por si escavada e voltada a
tapar, e que se desenvolveria na pequena depressão que existe junto às casas rurais
construídas a Sudeste das Termas (ALMEIDA, 1964: 23).
Infelizmente, devido aos trabalhos de lavoura que se têm praticado (e continuam a
praticar), através dos tempos, em torno da área vedada, não é fácil tirar conclusões
através das fotografias aéreas, uma vez que o terreno tem sido completamente
revolvido.

139
Que é o sistema dominantemente usado nas fortificações da Idade do Ferro (CORREIA, 19952:
250), de que Pedrão, Setúbal, é um bom exemplo.
140
A equipa luso-americana apontava para uma área de ocupação de aproximadamente 3 ha
(BIERS et alii, 1988: 24).

59
As prospecções efectuadas na zona limítrofe e os achados materiais fazem-nos
concluir, não obstante, de uma área de dispersão do núcleo urbano semelhante a
algumas pequenas cidades da Hispânia, inserindo-se, portanto, no contexto conhecido
das províncias ocidentais141.
Mesmo admitindo que o hipódromo se situaria num local periférico em relação ao
centro urbano  este local de espectáculo situa-se a cerca de 1 km a Sul do núcleo
urbano  é lógico que na área que os medeia existissem também as estruturas que
habitualmente se desenvolvem junto dos núcleos urbanos, tais como as unidades fabris
e as uillae, de que foi referenciado um exemplar junto à Aldeia dos Chãos e um outro a
que pertenceriam os mosaicos referidos por D. Fernando de Almeida142.
Pela área de dispersão dos vestígios, a população de Miróbriga não deveria
ultrapassar os dois mil habitantes, comum às cidades de pequenas dimensões 143 (LE
ROUX, 1995: 80) sendo, contudo, prematura qualquer conclusão definitiva sobre este
assunto, uma vez que não existem sequer dados exactos sobre a dimensão das insulae144
e sobre os pontos em que as mesmas se distribuíam no aglomerado urbano145.
Ainda mal conhecido em toda a sua extensão, este aglomerado urbano distingue-
se pelo seu Forum, pela zona residencial e comercial, pelo seu complexo termal  um
dos melhor conservados em território peninsular , pelas suas calçadas, pelos seus
sistemas hidráulicos, pela sua ponte e ainda pelo seu hipódromo, o único exemplar de
planta conhecida em território português.
As infra-estruturas hidráulicas, uma das novidades introduzidas pelos Romanos,
devem ter sido em Miróbriga um dos primeiros empreendimentos urbanísticos 146, a par
141
Conímbriga pouco ultrapassava no Baixo Império os 9 ha (ALARCÃO, 1992: 47). Tongobriga
deveria ter ocupado uma área de 30 ha, incluindo as necrópoles, com uma área residencial de
cerca de 10 ha (DIAS, 1997: 30). Para Seilium é apontada uma área com uma dispersão de
vestígios de 28 ha (BATATA, 1997: 185). Pax Iulia parece não ter excedido uma área de cerca de
24 ha (ALARCÃO, 19902: 47; MANTAS, 1990: 83). A capital da Lusitânia, à data da sua fundação,
parece ter ocupado uns 26 ha intra-muros (GARCÍA Y BELLIDO, 1966: 178) e deve ter atingido no
auge do crescimento urbano uns 100 ha (BERROCAL, 1987: 36). Por seu lado, Itálica deve ter
ocupado uns 30 ha.
Baelo ocuparia 10 ha intra-muros e a maioria das suas insulae mediriam em média 46 m de
comprimento e Barcino, na fase inicial (finais do século I a. C.  inícios do I d. C.) teria intra-
muros 10,4 ha (GUITART I DURAN, 1993: 68; GROS, 1996: 45). Tarragona parece ter ocupado, numa
primeira fase, 11 ha (DUPRÉ, 1990: 319) e Volubilis, em Marrocos, rondaria os 40 ha. intramuros
(PONSICH, 1990: 34). A Miróbriga Túrdula ocupava, por seu lado, apenas 3/4 ha (PASTOR et
alii, 1992: 16).
Em Maiorca as cidades têm em média 10 ha. Só algumas são de maiores dimensões como é o
caso de Pollentia (ARRIBAS e TARRADELL: 1987: 125).
142
D. Fernando de Almeida, no documento pertencente ao Museu de Arqueologia, «Miróbriga
dos Célticos  Delimitação da Área Arqueológica e Incremento das Escavações», refere que
nos terrenos onde está o circo romano haviam aparecido mosaicos romanos.
143
Tende-se a atribuir à maior parte das cidades do Ocidente uma população oscilante entre
5 000 e 20 000 habitantes. Sobre a forma aleatória como têm sido calculadas muitas das
densidadades demográficas ver GROS e TORELLI, 1992: 251 . Alguns autores têm usado como base
dos cálculos uma média de 250 pessoas por hectare (DIAS, 1997: 30).
144
As zonas escavadas em trabalhos anteriores apenas o foram apenas parcialmente e a área
que está actualmente a ser intervencionada ainda não pode fornecer dados conclusivos.
145
A população de Tongobriga teria 2 500 habitantes (DIAS, 1996: 32) e Conímbriga deveria
rondar os 10 000/15 000 habitantes. No entanto, Pax Iulia e Olisipo poderiam ter tido entre 30
000/ 40 000 habitantes (ALARCÃO, 1990: 396).
146
Os recursos hídricos se condicionavam, por um lado, a implantação das cidades, e os seus
sistemas de distribuição, que se tinham de adaptar à topografia, têm implicações, por outro
lado, na própria evolução da rede viária e da malha urbana. Não obstante, num estudo

60
da construção do forum datado do terceiro ou quarto quartel do século I147 e das termas,
iniciadas ainda nessa centúria e em princípio da seguinte (BIERS et alli, 1988: 109, 110),
que conferem a Miróbriga um cariz urbanístico marcadamente latino 148.
Sobre o aprovisionamento de água poucos dados se conhecem, não tendo sido
localizado qualquer aqueduto149 ou quaisquer fontes, poços150 ou cisternas que,
certamente, existiriam no interior do aglomerado urbano151. Apenas os tanques visíveis
junto às «Termas Oeste» e o poço de decantação, localizado numa cota mais alta em
relação ao topo das mesmas, nos dão indícios dessa preocupação. No entanto, nos
terrenos limítrofes a Miróbriga são conhecidos dois poços, cuja origem é seguramente
romana.
Atendendo a esses vestígios, torna-se claro que o sistema de abastecimento e de
escoamento de águas do complexo termal se desenvolvia para fora da área actualmente
vedada, denunciando que o aglomerado urbano se estendia para além da zona posta a
descoberto.
Sobre essa linha de água existe uma ponte que deveria funcionar,
fundamentalmente, para criar um vão debaixo do qual corriam as águas provenientes
dos esgotos que drenavam para a cloaca, localizada junto às «Termas Este».

efectuado sobre a urbanística de Itálica levantaram-se algumas dúvidas sobre se a rede de


esgotos se traçava em função da orientatio prevista para as ruas e casas ou se a própria
cerimónia de orientatio não era já condicionada pela direcção dos colectores principais das
cloacas (LUZÓN NUGUÉ, 1982: 81).
147
Para a equipa luso-americana o templo centralizado dataria de meados do século I d. C.
(BIERS et alii, 1982: 36).
148
Segundo Jorge de Alarcão, é possível que na época de Augusto e ainda boa parte do século
I d. C. não houvesse, no actual território português, arquitectos capazes de conceberem um
forum ou umas termas e de fiscalizarem a respectiva construção (ALARCÃO, 1992: 55).
149
Pese a referência de André de Resende. Em Conímbriga a construção de um aqueduto já em
época augustana permitia o abastecimento de água à cidade e foram ainda reconhecidos vários
putei (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 51-57).
150
De referir a existência de uma pedra de grandes dimensões com um orifício central, sobre a
qual já anteriormente nos detivémos, e que poderá ter sido utilizada num poço ou fontanário.
151
Ao contrário do que acontece em Tróia, onde são visíveis no interior do aglomerado poços e
cisternas que abasteceriam o complexo fabril.

61
3. A estrutura viária e as habitações

Pelas características peculiares do urbanismo de Miróbriga, não é possível


visualizar qualquer resquício de uma malha urbana definida por eixos viários principais
 cardo e decumanus , como é comum nas fundações latinas de plano ortogonal. No
entanto, os arruamentos conhecidos permitem-nos delinear o espaço ocupado por
algumas das insulae da cidade onde se instalam aedificia privata e definir os percursos
de acesso a alguns dos seus núcleos polarizadores, como é o caso das opera publica
conhecidas em Miróbriga  o forum e as termas.
O forum deveria ser circundado por uma rede viária que constituía como que uma
espécie de «circunvalação», permitindo o crescimento do casario em anéis concêntricos
(ALARCÃO, 1990: 465) que, a alguns níveis, mais lembram algumas malhas urbanas
medievais.
Ao longo dessas calçadas e entre elas desenvolviam-se os quarteirões onde se
implantavam as áreas comerciais e habitacionais. A maioria desses quarteirões estão
apenas relativamente clarificados, como acontece na zona por onde se faz a entrada
actual nas ruínas.
Uma ampla calçada estrutura uma área habitacional, que se desenvolve quer para
Norte quer para Sul da mesma. Do lado sul constata-se que as casas se adaptam à
pendente e que os desníveis são vencidos através de grandes escadas que permitiam o
acesso pedonal à via. Muito possivelmente, a uma cota mais baixa, se desenvolveria
uma outra via que poderia fazer a ligação, mais a sul, às termas.
Continuando pela via inicialmente referida, na direcção do forum, chega-se a um
ponto onde a via se ramifica, permitindo o acesso ao mesmo, a Este, aos quarteirões que
se desenvolviam do seu lado norte e ainda às termas, a Sul.  Fot. 55 e 56 e Ilust. 1.
Junto às termas verifica-se um caso semelhante de bifurcação, porque, por um
lado, a calçada acede directamente aos balnea e, por outro, inflecte no sentido de
Nordeste, onde poucos vestígios restam, mas que deveria articular uma segunda
plataforma que circundava, do lado sul e este, o forum.
Infelizmente, são mal conhecidas as estruturas arqueológicas que se desenvolvem
a Este do forum, mas os vestígios identificados permitem-nos admitir tal hipótese.
Perto das tabernae implantadas a Sul do forum, vencendo também uma enorme
pendente, é visível uma calçada que, também ela, deveria fazer uma circunvalação à
zona central da cidade.
Todos os troços de calçadas conhecidos são construídos com grandes lajes
assentes directamente no afloramento xistoso ou sobre o solo, e carecem de qualquer
tratamento para a sua colocação ou seja statumen e rudus. Medem, em média, 10-11 pés
de largura.
Em alguns pontos, as calçadas apresentam rebordos laterais isolados com opus
signinum, nomeadamente na que desce em direcção às termas. Julgamos que a sua
funcionalidade poderá ser a de contribuir para a impermeabilização na zona da
entrada152 das tabernae e habitações, que se situam ao longo desta via construída em

152
A exemplo do que se verifica em Itálica (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 94, fot. 3).

62
declive. Não existem quaisquer vestígios de, sob o opus, haver canalizações de
evacuação laterais em materiais cerâmicos ou outros153.
Noutros casos, ao longo das calçadas, foram construídas as condutas dos esgotos
em opus incertum pavimentadas com lateres, como acontece na «área habitacional»,
junto da entrada actual das ruínas, e do lado sudoeste do forum, onde apenas restam
alguns vestígios da via pública. Estes esgotos deveriam ser cobertos com laterae ou
tegulae, mas não existem quaisquer vestígios dessas coberturas.  Fot. 57.
Com alguma certeza apenas se conhecem algumas habitações das muitas que
devem ter existido no núcleo urbano de Miróbriga, tendo parte delas sido publicada por
Maria de Lurdes Costa Artur, na década de 40. Das escavações coordenadas por José
Olívio Caeiro, nos anos 80, na área limítrofe à capela de S. Brás, não existe,
infelizmente, senão uma pequena notícia (CAEIRO, 1985: 128-129), tendo sido algumas das
pinturas a fresco publicadas pela equipa de Missouri. O mesmo se poderá dizer em
relação a uma construção, desenvolvida em torno de um atrium, que foi escavada a
nordeste do forum e de que apenas há uma pequena referência publicada (BIERS, 1988:
24). A existência de colunas que delimitam uma zona porticada fazem-nos aceitar a
possibilidade de se tratar de uma habitação. São visíveis, contudo, de um lado e do
outro da calçada que se encontra logo à entrada actual das ruínas, várias insulae, com
uma ocupação sucessiva entre os séculos I d. C. (CAEIRO, 1985: 129) e o século IV d. C.
Apesar do conhecimento incipiente das zonas habitacionais existentes nessa
área, pode-se verificar que as insulae são de métricas diferentes, em função das ruas e
acessos públicos, variando entre 25 a 30 m154. As escadarias que se desenvolvem a sul
da via anteriormente referida delimitam claramente insulae, em torno das quais se pode
ainda ver o respectivo sistema de esgotos.  Fot. 58.
A sua organização adapata-se também à topografia do sítio, crescendo o casario
em patamares.  Fot. 59 e 60.
Algumas destas construções tinham água canalizada, como se pôde verificar
aquando dos trabalhos de limpeza e de restauro efectuados na «casa com frescos», do
lado direito da calçada. Junto à entrada havia um pequeno tanque, possivelmente de
aprovisionamento de água que era conduzida por uma tubagem de chumbo. Nesta casa
e, mais especificamente, no compartimento decorado com estuques pintados a fresco o
pavimento é de opus signinum.
153
Como por exemplo acontece em Pompeios (ADAM, 1989: 259).
154
As insulae de Bracara Augusta têm uma modulação quadrada, medindo aproximadamente
150 pés (44,33m) com uma área construída de 1 actus  aprox. 120 pés = 35 m  (ALARCÃO et
alii, 1994: 74). Um outro módulo havia sido apontado por Vasco Mantas (75x80 m), através da
análise estereoscópica de fotogramas da cidade de Braga, que seriam provavelmente
subdivididos. As insulae de Beja têm aproximadamente 40x80 m, medidos entre os eixos das
ruas, e o módulo das de Évora deverá ter sido o mesmo (ALARCÃO, 1990: 462 e 1992: 80). Vasco
Mantas havia proposto um valor de 2 actus = aproximadamente 70 m (MANTAS, 1987: 42). Para
as insulae de Beja propõe, portanto, uma média de 35x75 m (MANTAS, 1990: 86). As de
Conimbriga têm 25 m, parecendo adaptar-se aos quarteirões do oppidum pré-latino, tal como
todo o urbanismo da cidade romana, que «parece um compromisso entre um traçado pré-
romano e um alinhamento novo definido pelo forum de Augusto» (ALARCÃO, 1992: 90). As
insulae de Tongobriga parecem formar um quadrado com cerca de 34 m de lado (DIAS, 1997: 78).
As de Corduba têm 35 m entre os cardines e as de Itálica variam consoante a separação entre
as ruas situando-se entre 115,70x57,20 m, 113,90x39,10 m e 114,50x75,20 m (LUZÓN NOGUÉ,
1982: 85). A Ampúrias latina tinha insulae de 1x2 actus (35x70 m), ocupando o forum o espaço
de 4 insulae (ARBULO, 1992: 27).

63
A Este desta construção, ao longo da via, quer do lado norte quer do Sul da
mesma, são visíveis vários muros dispersos, devendo tratar-se de habitações. No
entanto, como todos eles foram postos a descoberto, em anteriores trabalhos
arqueológicos, através de valas abertas paralelamente aos mesmos, nada se pode
concluir, porque nenhuma planta está clarificada. A equipa luso-americana admitia a
hipótese de uma das estruturas  localizada junto do local onde a via bifurca para as
termas  poder ser identificada como um pequeno templo, atendendo às suas fundações
(BIERS et alii, 1988: 13). Efectivamente essa construção, localizada junto a um talude,
apresenta muros de grossura superior à que é comummente utilizada na arquitectura
doméstica, mas o desconhecimento em relação à sua planta não nos permite avançar
qualquer hipótese quanto à sua funcionalidade.
Mais a Oeste, do lado norte da via, iniciámos em 1995 uma escavação numa área
que já havia sido parcialmente assinalada pela equipa luso-americana, e que veio a
revelar a existência de uma domus, cujos compartimentos se desenvolvem em torno de
um átrio. Este átrio tinha uma zona coberta, como o comprovam a concentração de
telhas no local e os entalhes definidos no afloramento xistoso que deveriam servir para
apoiar o telhado.  Ilust. 18-23. O pavimento da zona circundante do átrio era revestido
a opus signinum, ainda visível em alguns pontos. Na zona central, subdividida num
segundo momento da ocupação da casa, deveria ter existido uma zona ajardinada.
Por seu lado, os pavimentos das salas que se desenvolvem em seu redor deveriam
ser feitos com traves de madeira, pois não existe qualquer vestígio de revestimento e o
afloramento xistoso é bastante irregular, o que aliás deveria acontecer em muitas das
residências localizadas nesta área. A evidência de vários orifícios circulares escavados
no xisto, na residência que escavámos, assemelhando-se a «buracos de poste», mas
distribuídos sem qualquer aparente regularidade, contribuem para colocar esta hipótese.
Numa destas concavidades estava perfeitamente conservada, ao nível da rocha de base,
que havia sido escavada, em período romano, para o efeito, a tacinha com ossos a que
fizemos referência na apresentação deste trabalho.  Fot. 61.
Num dos compartimentos paralelos à calçada, à entrada da casa, e que
possivelmente se trataria de uma oficina de metalurgia 155, até porque se detectou uma
grande concentração de escória de ferro, foi posta a descoberto, por cima do
afloramento xistoso, uma conduta construída com imbrices encaixados uns nos outros,
que escoava para a rua. Essa conduta passava por debaixo de um dos muros que
definem o limite sul da casa, junto à soleira da porta de entrada.  Fot. 62 e Ilust. 19- 20.
Em alguns dos compartimentos desta construção são visíveis estuques, mas não
foram ainda identificados quaisquer indícios de pinturas a fresco.
A casa encontra-se praticamente ao nível das fundações, à excepção de alguns
muros mais altos construídos em opus incertum. Pode-se daí deduzir que as pedras
devem ter sido roubadas e reutilizadas, porque há poucos vestígios de derrube das
mesmas, ao contrário do que acontece com os materiais de construção cerâmicos dos
telhados  imbrices e tegulae. Ainda atendendo aos muros conservados com uma maior
altura e pertencentes à mesma construção, nada nos permite concluir que pudessem os
restantes ter sido edificados em adobe ou taipa.

155
Em Tongobriga foi também detectada no interior de uma construção uma oficina de
metalurgia (DIAS, 1997: 79).

64
Os materiais arqueológicos entretanto exumados atestam uma ocupação que vai
do século I ao século IV d. C., tendo mesmo sido encontrado um numisma republicano.
Esta casa poderia ter tido dois pisos, porque se adossou, do lado oeste, uma
escada, que deveria dar também serventia às construções que se desenvolvem num
plano mais elevado, a Noroeste da habitação.  Fot. 63 Dessas edificações foram já
postos a descoberto alguns muros, cujas fundações são ligeiramente «enterradas» no
afloramento xistoso, que foi escavado para permitir uma maior estabilidade ao edifício.
Entre a calçada, que se desenvolve a Sul, e a soleira da porta de entrada da
«construção de átrio» que escavámos, existe um pavimento em opus signinum,
desaparecido em grande parte, que permitia um acesso mais confortável e higiénico à
mesma. É junto a esta zona que desaguavam as águas canalizadas pela conduta de
imbrices anteriormente referida.
A escavação na íntegra desta casa e das adjacentes é fundamental, pois só ela
permitirá a compreensão de uma insula de Miróbriga.
É, no entanto, de salientar que a planta da casa em escavação é paralela à da
capela de S. Brás, edificada, a Noroeste, ao lado e sobre estruturas romanas, devendo
pertencer ao mesmo programa urbanístico.  Ilust. 26. Os restos de uma casa romana,
escavada por José Olívio Caeiro nos anos 80, e que são ainda visíveis junto à capela,
pertenceriam, portanto, a um conjunto residencial mais vasto que se estendia do lado
norte da calçada, adaptando-se ao declive natural do terreno.
Numa área recentemente adquirida, a Oeste da actual entrada de Miróbriga,
iniciaram-se, em 1997, trabalhos arqueológicos, tendo sido feitas algumas sondagens
para averiguar da possibilidade de aí ser construído o «Núcleo Interpretativo». À
superfície foi encontrada uma moeda de Marco Aurélio e, já pertencente a um nível
arqueológico bem selado, de fundação de algumas construções, foi encontrado um
outro, cunhado em Mérida no reinado de Augusto.  Ilust. 24.
Se bem que sendo ainda demasiado precoce fazer afirmações sobre esta zona, é
um facto que os muros que começam a aflorar deverão pertencer a construções
articuladas com a «área residencial», pois parecem obedecer à mesma orientação das
casas localizadas na área limítrofe da capela de S. Brás. Junto a uma dessas construções,
em fase de escavação, detectou-se uma enorme concentração de escória, associada a
uma terra barrenta que foi sujeita a alta temperatura, porque se encontra cozida, como
se de terracota se tratasse. Deveria tratar-se, também, de uma zona onde existiam
ateliers metalúrgicos.
Pelo numisma augustano anteriormente referido, pode deduzir-se que a ocupação
desta área do oppidum romanizado se deverá ter processado desde bastante cedo, não
conferindo, portanto, à zona onde foi implantado o forum (o único local onde
apareceram in situ materiais da Idade do Ferro) o papel único de polarizador de
crescimento de Miróbriga em período de dominação latina, pois essa intervenção
monumental é mais tardia.

65
4. O Hipódromo ou Circo

Os lugares de espectáculo, tais como os teatros, os anfiteatros e os circos foram,


nas províncias, uma das formas utilizadas para facilitar o processo de Romanização,
pois incentivavam as deslocações periódicas dos rurais à cidade (ALARCÃO, 1992: 60).
O ecumenismo, tema fundamental da propaganda, imposto pela extensão
territorial e pela variedade étnica do Império, encontrava nos anfiteatros (e nos lugares
de espectáculo em geral) os locais ideais para a expansão da mística imperialista,
porque neles se transcendiam todas as diversidades culturais (GROS, 1994: 22).
A presença de um circus associado a locais de culto imperiais, como acontece em
Tarragona, não é pois de estranhar, uma vez que a realização dos ludi é indispensável
ao desenvolvimento dos sacra Augustalia (GROS, 1994: 27).
Muitos dos edifícios monumentais do Império devem-se mesmo à intervenção
directa do imperador, que, por seu lado, estimulava a participação das elites urbanas
locais nas construções de grandes obras públicas, através de donativos 156. De Balsa, no
actual Algarve, temos notícia epigráfica da existência de um circo, cuja construção se
deve parcialmente a dois evergetas  G. Licinius Badius e L. Cassius Celer. Vasco
Mantas apresentou uma hipótese para a sua localização através de foto-interpretação
(MANTAS, 1997: 292), se bem que ainda esteja sujeita a uma confirmação no terreno.

A construção de um hipódromo ou circo157 em Miróbriga deve ter obedecido aos


mesmos princípios, contribuindo para consumar a ideologia imperial. Não foram,
contudo, identificados quaisquer evergetas que possam ter (co)financiado a sua
edificação, desconhecendo-se também o papel que as elites locais possam ter
desempenhado na construção de qualquer outra obra monumental. Apenas uma
inscrição com invocatória a Esculápio, a que já nos referimos, atesta um legado
testamentário feito por um medicus pacensis, Gaio Átio Januário, que deixou dinheiro
ao conselho municipal para que organizasse os quinquatrus (ENCARNAÇÃO, 1984: 218).
O hipódromo de Miróbriga dista aproximadamente 1 Km em linha recta da zona
central do aglomerado urbano, como acontece em muitos locais de espectáculo com
estas características, que são afastados por motivos práticos158  o circo de Mérida é
disso um bom exemplo  ou ainda projectados para fora do núcleo urbano inicial tendo
em vista polarizar uma nova área de crescimento urbano, como se verifica em
Saguntum (ARANEGUI, 1994: 74).

156
Sobre este assunto ver ALFÖLDY, 1994: 63-67.
157
Usamos aqui os dois conceitos baseando-nos na definição apresentada por GROS, 1996: 346.
«No caso do hipódromo grego o que conta é a pista ...; se bem que o espectador não seja
excluído, mas o espaço não é organizado em função da sua presença. Em Roma, pelo contrário
as instalações essenciais foram desde cedo concebidas para o espectador: as bancadas que
envolvem a pista definem o próprio edifício e as infra-estruturas, cada vez mais desenvolvidas,
do circus tinham como finalidade melhorar a qualidade do espectáculo». No caso de Miróbriga
o facto de nada indiciar a existência de bancadas laterias monumentais pode fazer-nos admitir
que se trate de um lugar de espectáculo que mais se aproxima da ideia do hipódromo grego.
158
Ao contrário do que acontece com o circo de Tarragona, situado na zona central da urbs. A
sua localização tem intrigado muitos investigadores, sendo justificada pelo facto de se tratar do
terceiro componente do «santuário provincial de culto imperial» (GROS, 1996: 352).

66
O acesso ao hipódromo ou circo de Miróbriga deveria fazer-se através de uma
fachada que se localizava frontalmente em relação a essa estrada de saída do
aglomerado urbano159, ligando-o a Alvalade do Sado onde, como já foi referido,
existem inúmeros vestígios romanos. Justifica-se, desse modo, o facto da entrada se
fazer de costas viradas para o centro da cidade.
Reconhecido por Cruz e Silva em 1949, quando da construção de uma estrada que
afectou parcelarmente a zona da entrada, foi, nessa altura, feita a primeira planta
conjectural do hipódromo de Miróbriga. O citado investigador promoveu no local
várias campanhas de escavações bem como inúmeras reconstruções.
Posteriormente, em 1964, D. Fernando de Almeida fez uma planta mais
pormenorizada, dedicando-lhe o estudo «Nota sobre os restos do circo romano de
Miróbriga».
São ainda visíveis os inúmeros restauros feitos nessa altura na spina e nas paredes
que limitam a arena, alguns dos quais com cimentos recentes.
Nos anos 80, a equipa luso-americana promoveu sondagens no hipódromo que
constam da publicação dedicada a Miróbriga (BAR), contribuindo para definir mais
exactamente as suas características. É feito novo levantamento do imóvel, o mais
actualizado até este momento, pois desde essa data não foram feitas senão algumas
limpezas e pequenas sondagens para confirmação de dados.
Já na década de 90 se tentou constituir uma equipa luso-espanhola tendo em vista
um estudo mais aprofundado do hipódromo, sem que, no entanto, se tivesse conseguido
concretizar.
A investigação dos últimos anos não tem, portanto, incidido nesta área, se bem
que se considere prioritária a sua valorização, pois trata-se, até ao presente, do único
exemplar com a planta totalmente definida de uma construção deste tipo em território
português160.  Fot. 64.
Podendo considerar-se um recinto de média proporção 161, apesar de não
apresentar um aspecto monumental162  é inferior ao de Mérida que mede 417,30 m de
comprimento por 112 m de largura (SÁNCHEZ, 1997: 245) e ao de Todelo, datável entre o
final da dinastia Júlio-Cláudia, cuja arena mede 408 m de comprimento e 86 m de
largura (SÁNCHEZ-PALENCIA et alii, 1988: 25) , a arena de Miróbriga é, contudo, de
maior dimensão do que a do circo de Tarragona  290x67-77 m  localizado no centro
da cidade e datado da dinastia flávia (DUPRÉ, 1990: 319; AQUILUÉ et alii, 1991: 79). Mede
aproximadamente 359 m de comprimento por 77,5 m de largo.
159
Em Tongobriga foram dados a conhecer vestígios identificados um circo localizado fora da
cidade, localizados junto à estrada que ligaria Tongobriga à ponte sobre o rio Tâmega, com
cerca de 148m de comprimento e 64m de largura ( DIAS, 1997: 32).
160
Vestígios encontrados quando das obras do Metro no Rossio, em Lisboa, se bem que ainda
não suficientemente estudados e publicados, fazem admitir a existência de um circo localizado
nessa área (AMARO, 1995: 13), relativamente próximo de um dos esteiros do Tejo, pois aqui
apareceu uma estrutura de grandes dimensões, revestida com opus signinum, que pode tratar-se
da spina. A topografia do local e a existência de referências anteriormente divulgadas parecem
confirmar esta hipótese. Conhecem-se ainda as estruturas identificadas como circo em
Tongobriga (ver nota supra).
161
Os circos do século I d. C. tinham à volta de 300 m.
162
Em África os circos monumentais são relativamente tardios, não existindo qualquer
exemplar anterior ao século II d. C. (GROS, 1996: 354). Por seu lado, Arles, de fundação pré-
romana, tem com Augusto o primeiro plano ortogonal. Novamente sujeita a uma reforma
urbana em período flaviano, é edificado o circo por volta de 149 (SINTES, 1996: 15).

67
O hipódromo ou circo de Miróbriga está orientado NE/SW 163, orientação que é
considerada a conveniente para não ofuscar os agitadores ou aurigae a qualquer hora
do dia (SÁNCHEZ-PALENCIA, et alii, 1988: 16) e a sua implantação foi condicionada pela
topografia do local, que aqui é incomparavelmente mais plano do que o sítio onde
cresceu o aglomerado urbano e ainda pelos ventos dominantes (ENCARNAÇÃO, 1994: 13).
Do hipódromo conhecem-se as fundações da spina, construída em opus
caementicium, e os limites da arena. Pesem os restauros e reconstituições parcelares, é
clara a evidência de metae  meta prima e meta secunda. Aproximadamente a meio da
spina, as fundações interrompem-se ao longo de 7 m. Não são bem conhecidos os
motivos dessa interrupção (BIERS et alii, 19811: s/p), se bem que se possa admitir que aí
teria sido implantado algum elemento escultórico dedicado a uma divindade ou ao culto
imperial, ou apenas que estivesse dividida em vários segmentos, à maneira de euripus,
como é comum em numerosos circos romanos (SÁNCHEZ-PALENCIA et alii, 1988: 20).
Ainda é visível o revestimento que era utilizado em grande parte da spina, tratando-se
de opus signinum, como acontece em Mérida.
Os muros que delimitam a arena são simples, construídos em opus caementicium,
variando a sua grossura entre 60 a 90 cm (pé de 30 cm aprox.). As diferentes grossuras
dos mesmos permitiram à equipa luso americana admitir que o circo tivesse várias
fases de construção, sobrepondo-se as paredes mais grossas a outras mais estreitas e
anteriores (BIERS, 1988: 41). A sua construção deve datar do século II d. C. e o auge da
sua utilização deve ter correspondido ao século III d. C.164, seguida do seu declínio a
partir de finais dessa centúria (op. cit.: 36 e 43).
No lado sul do circo situam-se algumas construções que D. Fernando de Almeida
identificou como tratando-se dos carceres165, comparando-o ao circo de Mérida. Pesem
algumas dúvidas levantadas, a equipa americana acabou por aderir, de algum modo, a
esta interpretação (BIERS et alii, 19812: 36-38 e 41).
De bancadas perenes ou pétreas, bem como do derrube das mesmas, não existem
quaisquer referências ou vestígios arqueológicos. Pode admitir-se, portanto, que as
mesmas fossem construídas de madeira, suportadas por postes feitos do mesmo material
(ALARCÃO, 1989: 245), de que não foram encontrados ainda os negativos de fundação,
mas tal poderá dever-se ao facto de o local não ter sido extensivamente escavado.
Nunca poderiam, contudo, ter tido a monumentalidade das reconhecidas em circos da
Hispânia (GROS, 1996: 351 e 352).
Nem nos trabalhos arqueológicos anteriores, nem em limpezas de superfície
efectuadas recentemente em Miróbriga se detectou qualquer indício de pavimento
cimentício na pista, que deveria ser térreo, porque uma camada muito escura e
compactada é visível ao longo da pista. Há que salientar, no entanto, que o hipódromo
foi sujeito, ao longo do tempo, a vários tipos de ameaça. Por um lado, a necessidade de
materiais de construção, nomeadamente para a edificação do castelo, em período
medieval, poderá ter contribuído para uma devastação deste lugar de espectáculo e, por
outro, os trabalhos agrícolas que se efectuaram até data recente contribuíram também
para a sua destruição166.
163
Como o de Toledo (SÁNCHEZ-PALENCIA et alii, 1988: 16).
164
O circo de Mérida, construído no século I d. C, teve uma grande remodelação no século
IV d. C. (SÁNCHEZ, 1997: 245).
165
Como acontece no circo de Toledo (SÁNCHEZ-PALENCIA et alii, 1988: 18).
166
D. Fernando de Almeida diz textualmente que as sondagens efectuadas por Cruz e Silva
foram tapadas e «o terreno continuou a dar trigo» e que «Não chegámos a concluir o trabalho

68
5. As Termas

Aproveitando a depressão natural do terreno, que ajuda à captação e à


concentração das águas pluviais, os Romanos instalaram, numa das zonas mais baixas
da cidade e ligeiramente afastadas da zona central 167, umas termae publicae ou
balnea168. Com as zonas aquecidas viradas a Sul para concentrar o calor, obedecem, de
algum modo, aos cânones vitruvianos (De Architectura, V.X.1).
Constituídas por dois edifícios, de construção não muito distante no tempo e que
se adossam, maximizando, desse modo, algumas das suas infra-estruturas, este
complexo duplo foi edificado na zona sudoeste do aglomerado urbano, ocupando os
vestígios actualmente postos a descoberto 169 uma área aproximada de 1 100m 2.  Fot.
66.
Este imóvel foi objecto de bastantes trabalhos arqueológicos, tendo a planta mais
pormenorizada do mesmo sido publicada pela equipa americana que dedicou ao
complexo e aos materiais arqueológicos aí exumados grande parte da sua edição (BAR,
1988) e que avançou com uma tentativa de reconstituição para a zona de entrada das
«Termas Oeste».
Os edifícios que as compõem são: as «Termas Este», as primeiras a ser edificadas
no século I d. C., e que sofreram várias ampliações nessa centúria; e as «Termas Oeste»,
que, segundo a equipa luso-americana, foram construídas posteriormente, a partir da
segunda metade do século II d. C. (BIERS et alii, 1988: 111).
No entanto, alguns dos elementos escultóricos das «Termas Oeste», colocam-nos
algumas dúvidas em relação às cronologias atribuídas a este edifício, nomeadamente o
capitel «corintizante com influências da ordem compósita» 170, que combina volutas
vegetais próprias dos capitéis corintizantes171 com elementos decorativos próprios dos
compósitos (BIERS et alii, 1988: 199-201), como são os óvulos e os dardos.

por ser necessário tapar tudo de modo a não impedir a cultura do trigo» (ALMEIDA, 1963: 149).
167
Nas Províncias Ocidentais estas estruturas situam-se normalmente na parte central dos
aglomerados e são das primeiras infra-estruturas construídas nos mesmos, datando, na grande
parte, dos séculos I-II d. C. (NIELSEN, 1990: 91-92. I).
168
Segundo NIELSEN, 1990: 3 e MAR, 1994: 285, poderão tratar-se de Balnea. O conceito de Balnea
é utilizado por Nielsen como, tratando-se de edifícios de estrutura dupla, contemplando a
separação por sexos, e sem palestra, muito possivelmente de uso público, mas de exploração
privada (BARRIENTOS, 1997: 267). De notar, no entanto, que o complexo de Miróbriga tem
grandes dimensões, e ocupa um espaço superior às insulae, podendo ter possuído uma palestra.
Poderia contemplar, não obstante, o balneum muliebre e o balneum virile. O termo Balnea é
utilizado para edifícios que podendo ser igualmente importantes, são, não obstante, menos
complexos ou monumentais do que as Thermae (GROS, 1996: 389). Atendendo a estas definições,
consideramos mais correcto considerar-se o complexo de Miróbriga como tratando-se de
Balnea. Segundo Yegül, as principais diferenças entre Termae e Balnea residem na escala e na
propriedade dos edifícios, sendo as primeiras genericamente de maiores dimensões e estatais e
os segundos de menor tamanho e privados (YEGÜL, 1995: 43).
169
São de menores dimensões do que as termas de Trajano em Conímbriga, que ocupam uma
área de 3 800 m 2 (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 132), mas maiores do que as termas flavianas de
Tongobriga, cujo espaço utilizável ocuparia cerca de 911 m 2 (DIAS, 1997: 35).
170
Trata-se do capitel que foi colocado por D. Fernando no templo centralizado.
171
Em Mérida são bastante comuns os capitéis corintizantes com volutas vegetais (BARRERA,
1984).

69
A equipa luso-americana inclina-se a datar este elemento arquitectónico entre os
finais do século I (BIERS et alii, 1983: 40; BIERS, 1985: 40) e o século II d. C. (BIERS et alii,
1988: 199-201).

Entretanto, outros elementos arquitectónicos, como os capitéis coríntios de


pilastra de folhas lisas, apontam para uma construção situada em meados do século I d.
C., a exemplo dos espécimes existentes no forum flaviano de Conímbriga (BIERS, 1985:
40; BIERS et alii, 1988: 201-202; ALARCÃO e ETIENNE, 1977: 104) 172. A utilização de silhares
rusticados na entrada, em moda a partir dos reinados de Cláudio e Nero (MARTA, 1991:
14), fazem-nos admitir uma cronologia mais antiga para a sua edificação, que se deverá
ter efectuado ainda durante o século I d. C.
Um estudo tipológico de termas considera as termas de Miróbriga entre as de
«simple ring type» (NIELSEN, 1990, C. 119: 71, I e 17, 63 e 127, II), uma vez que não se
verifica qualquer eixo que defina a edificação simétrica dos compartimentos ou das
piscinae do frigidarium, ao contrário do que acontece nas termas de Trajano em
Conímbriga, que são axializadas (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 131), ou nas de
Tongobriga, desenvolvidas segundo um eixo (DIAS, 1997: 35).
As «Termas Este», construídas a uma cota mais baixa, são acessíveis por uma
calçada muito íngreme que serve os dois edifícios termais  Fot. 67.
Uma vez que se trata de uma zona mais baixa, à entrada das “Termas Este” há um
pequeno ressalto construído em tijolos e revestido a opus signinum, que ajuda a desviar
as águas pluviais para a canalização existente nas «Termas Oeste», e que, inflectindo
para Este serão escoadas pela cloaca, junto à ponte.
Várias situações de articulação entre os dois edifícios, nomeadamente toda a
estrutura dos esgotos, fazem-nos admitir a hipótese de que os mesmos possam ter tido
praticamente um projecto contemporâneo, pesem os desfasamentos cronológicos que
são veiculados pela equipa coordenada por William Biers.
As «Termas Este» estão como que praticamente encravadas na rocha e para a sua
construção foi necessário escavar e/ou aplanar o afloramento xistoso. Esta situação é
bem visível no lado norte das termas onde se cortou a rocha para a construção do
edifício, fazendo-se depois um muro de grandes dimensões que serve, paralelamente, de
talude de contenção e de apoio à obra, porque a ele se adossam outros muros e
compartimentos do balneário. Junto a esse talude edificado a uma cota um pouco mais
baixa, os Romanos construíram uma canalização em opus signinum para escoar as águas
pluviais e um muro paralelo ao talude, onde devia assentar o telhado.  Ilust. 9-16.
Numa pequena sondagem efectuada a Norte do muro que serve de talude
concluiu-se que a face do mesmo, em contacto com o xisto, não foi aparelhada, muito
possivelmente porque não era visível. O muro, construído em opus caementicium com a
parte visível em opus incertum, é feito como que em fiadas de pedra unidas por
argamassa. Quando do assentamento ou sobreposição de umas nas outras, verifica-se
que a argamassa se expande para fora da face do muro, o que demonstra um
acabamento pouco cuidado (também devido à sua não visibilidade). Do lado exterior
dessa obra detectou-se no afloramento xistoso uma depressão circular, que poderá ter
tido a função de «buraco de poste», para ajudar a fixar uma estrutura de apoio ao
telhado da construção. Este muro, que conserva ainda uma considerável altura, era,
172
Da Alcazaba de Mérida existe, contudo, um exemplar (n.º 84) que tem bastantes
semelhanças com o de Miróbriga e que foi datado de meados do século II d. C . (BARRERA, 1984:
56).

70
portanto, o muro de limite das «Termas Este». Uma situação semelhante se verifica nas
«Termas Oeste», onde um muro de grandes dimensões, que as limitava a Poente, serve
também de talude de contenção, apresentando as mesmas características construtivas.
As «Termas Este» são de menores dimensões do que as «Termas Oeste»,
ocupando, contudo, uma área maior do que a actualmente posta a descoberto
(aproximadamente 400 m2), como aliás é fácil deduzir pela sua planta e pelos muros
que afloram junto ao talude do lado sul.
A entrada nas «Termas Este» faz-se descendo inicialmente dois degraus, que se
situam junto aos que conduzem às «Termas Oeste». Continua-se a descer através de
uma calçada em declive, porque este edifício se situa a uma cota mais baixa do que a
construção a ela adossada, até à porta de entrada.
Através desta porta acede-se, através de dois degraus revestidos a opus signinum,
a uma zona porticada que deveria ser coberta e circundar uma pequena palestra (?). O
pavimento era também aí revestido com opus signinum, ainda praticamente intacto em
vastas áreas. À sua volta desenvolve-se um corredor que, inflectindo para o lado sul das
termas, dá acesso a um compartimento de funcionalidade desconhecida e a outros que
ainda não foram escavados, sendo também visíveis, em alguns pontos, os muros que
deveriam servir de limite ao edifício.
Do seu lado norte, desenvolve-se um longo compartimento que conduzia, quer às
zonas aquecidas, quer ao frigidarium e respectiva piscina. A todo o comprimento desse
compartimento, com funções de apodyterium, existe um banco revestido a opus
signinum, utilizado pelos utentes das termas.  Ilust. 17.
Segundo as sondagens efectuadas pela equipa de Missouri, este compartimento
pertence a um segundo momento da construção das termas, até porque inicialmente se
trataria também de uma zona porticada. As sondagens aí efectuadas contribuíram para
datar essa primeira fase de construção do edifício na segunda metade do século I, da
época flávia (BIERS et alii, 1984: 46 -47) e para detectar as transformações arquitectónicas
efectuadas na segunda metade do século II d.C. (BIERS et alii, 1988: 88). É nessa altura que
o pórtico circundante do lado norte da palestra (?) foi eliminado e transformado,
passando essa área a funcionar como o apodyterium alongado a que nos temos vindo a
referir.
Efectivamente, após uma limpeza superficial efectuada em 1997 neste
compartimento, verificou-se que a parede mais antiga utilizara como elementos
regularizadores da construção fiadas de tijoleira, aparentando a mesma ser de uma
tipologia próxima do opus mixtum. Essa parede foi num período posterior recoberta
com o revestimento de opus signinum que reveste toda a sala.
Este longo corredor era decorado com frecos, como ainda se pode verificar em
alguns pontos, designadamente junto do compartimento circular a que nos referiremos
de seguida.
Do lado esquerdo da entrada havia, portanto, uma construção circular, localizada
a uma cota ligeiramente mais alta do que o pórtico, que deveria tratar-se também de um
compartimento com funções de apodyterium (BIERS, 1988: 85). Este compartimento era
selado por uma porta, à qual se acedia através de um degrau.
Do apodyterium alongado poderia passar-se directamente ao frigidarium e à
piscina. Ainda revestida, na sua parte inferior, com opus signinum apresenta,

71
superiormente, uma decoração com pinturas a fresco. Estas pinturas foram objecto da
publicação da equipa americana (BAR: 87 e Apêndice E).
O escoamento das águas da piscina ou pequena natatio far-se-ia para o lado
nascente, juntando-se, possivelmente, à descarga geral das termas, perto da ponte, como
se pode verificar através de uma canalização existente no fundo da piscina. Nas
escavações promovidas em 1997, tendo em vista obviar à retenção de águas pluviais no
interior da piscina, detectou-se, junto à parede que delimita a Este o complexo termal, a
existência de uma outra conduta a um nível superior, que se deveria articular com a do
fundo da natatio.
Do lado sul do frigidarium havia uma porta por onde se entrava no tepidarium e
no caldarium. Nestes compartimentos providos de hipocaustum com suspensurae,
existem três aluei. Na pequena decapagem aí efectuada, em 1993, tendo em vista apoiar
os trabalhos de consolidação e restauro, verificou-se que, por debaixo de um nível de
derrube do telhado, eram visíveis os topos dos arcos construídos com tijoleiras,
pertencentes ao hipocaustum.
Tendo em vista os trabalhos de manutenção, foi feita, ainda durante o ano de
1993, uma outra pequena decapagem junto à zona do praefurnium e foram limpos dois
perfis.  Fot. 73 e 74 Nos níveis mais baixos dos mesmos foi detectada uma enorme
concentração de cinzas provenientes da fornalha, confirmando a identificação do
compartimento localizado no limite este do edifício. No interior da fornalha é visível
uma escada que permitia o acesso da mesma a um piso superior onde se situavam o
tepidarium e o caldarium com os respectivos aluei.
Em relação a este complexo balnear, colocam-se-nos também algumas dúvidas
quanto à interpretação arquitectónica e quanto à atribuição de algumas das cronologias
apontadas pela equipa coordenada por W. Biers, nomeadamente ao justificar a
construção mais tardia das «Termas Oeste» pelo facto de uma das paredes da latrina
servir também como muro da zona porticada das «Termas Este» (BAR, 1988: 109).
Efectivamente, esta é uma das zonas de contacto entre os dois edifícios que contribui
para aceitarmos a articulação entre os mesmos, desde um primeiro momento, até
porque se verifica que as paredes dos dois edifícios estão travadas uma na outra e não
apenas encostadas, como acontece em obras de acrescento.
O sistema de evacuação que se desenvolvia contornando as «Termas Oeste» e
mais especificamente do seu lado este, em cujo sistema geral foram integradas as
latrinas, parecem-nos corroborar essa hipótese. Dificilmente se poderia admitir que não
pertencessem, pelo menos, a um programa construtivo delineado em conjunto, apesar
de não ser nossa intenção questionar as cronologias apontadas para as várias fases de
construção das «Termas Este», a partir dos exaustivos levantamentos e das sondagens
efectuadas por estes investigadores em zonas pontuais das «Termas Este e Oeste». 
Fot. 68 a 72.
Julgamos, assim, que há que rever alguns dos pontos tidos como assentes, e mais
especificamente no que diz respeito à técnica construtiva, até porque, à excepção de
algumas diferenças pontuais, os edifícios apresentam genericamente as mesmas
características. Não nos parece, contudo, oportuno colocar mais objecções às propostas
apresentadas pela equipa americana, sem que previamente seja efectuado um trabalho
aprofundado de reanálise de todos os dados.

72
As «Termas Oeste», genericamente em melhor estado de conservação, têm uma
forma rectangular e se bem que não escavadas na íntegra, podem ser consideradas como
um dos bons exemplos dos balneários das províncias ocidentais.  Fot. 75 e 76.
O edifício construído quase totalmente em opus incertum apresentava na
fachada, mais cuidada, grandes silhares rusticados, cuja utilização parece apontar para o
período neroniano ou pós-Nero. O acesso fazia-se por uma calçada muito íngreme que
servia os dois edifícios.
A entrada fazia-se descendo três degraus, que permitiam aceder a uma cota
inferior. Nas extremidades do primeiro degrau havia «três altas colunas cilíndricas, de
fino mármore, uma delas nichada» (SILVA, 1945: 344) e com capitéis corintizantes em
calcário fétido de S. Brissos. Nenhuma destas colunas se encontra actualmente in situ,
tratando-se das que foram levadas por D. Fernando de Almeida para o forum.
Ao nível inferior, onde se implantava o edifício, podia-se entrar directamente
para a zona da latrina, que era fechada por uma porta, atendendo à soleira que ainda aí
se encontra.
À frente dos degraus da entrada dos balnea localizava-se também uma porta de
grandes dimensões, como se pode concluir pela soleira ainda in situ, onde «perto das
ombreiras e em baixo, existem cavidades com a parte inferior revestida de ferro,
indicando, assim, o sítio onde girava o eixo da couceira» (SILVA, 1945: 345). Um dos
fragmentos desses elementos metálicos a que este autor fez referência encontrava-se
ainda muito recentemente no local, tendo sido retirado, uma vez que se estava a
deteriorar.
Era através desta porta que se acedia a uma ampla sala de entrada ou uestibulum,
que tinha em anexo dois compartimentos mais pequenos, possivelmente com funções de
apodyteria173. Um deles, situado do lado direito da entrada, tinha o opus regularizado
por fiadas de xisto, sendo pontualmente utilizadas tijoleiras. Não se poderá, por esse
motivo, inscrever nas características do aparelho construtivo designado por opus
mixtum, pois a utilização dos materiais cerâmicos nos muros das termas não é regular,
mas episódica.
O pavimento do uestibulum era revestido com placas de calcário e possuía lambris
a toda a volta, situação que é praticamente comum a todo o edifício. Cruz e Silva refere
que estes lambris tinham aproximadamente um metro de altura (SILVA, 1946: 345). Os
vestígios que ainda se encontram in situ, embora praticamente todos fragmentados,
corroboram esta descrição. Em algumas salas são visíveis os negativos em opus
signinum onde as placas eram colocadas na horizontal, bem como os orifícios onde
entravam os espigões que as prendiam. Por sua vez, as ombreiras das portas e algumas
soleiras eram revestidas de calcário fétido de S. Brissos.
A meio do uestibulum encontra-se uma coluna duplicada ou geminada de grandes
dimensões, também de calcário de S. Brissos, que aí se encontra há muitos anos, pois já
nas publicações de Cruz e Silva é visível na mesma posição. A partir da sua análise não
conseguimos detectar a que local pertenceria originalmente. No entanto, é claro que aí
foi pousada e não terá apenas tombado, uma vez que o pavimento calcário se encontra
intacto por debaixo da mesma.

173
Cruz e Silva admitia que um deles, localizado do lado esquerdo de quem entra nas termas,
se tratava do elaeothesium, destinado a «massagens simples ou com óleos» (SILVA, 1945: 347).

73
Nessa sala, também edificada em opus incertum, foram utilizados grandes silhares
aparelhados junto às ombreiras das portas, nomeadamente as que ligam o uestibulum
aos apodyteria e ainda ao frigidarium. Nos apodyteria deveriam ter existido armários
em madeira para guardar o vestuário dos utentes, uma vez que não há qualquer vestígio
arqueológico que testemunhe o seu fabrico num outro material não perecível.
Os grandes silhares de opus quadratum que marcavam alguns dos ângulos do
edifício, ou cunhais174, eram também revestidos, porque ainda existem os orifícios onde
eram presas as placas nas ombreiras.  Fot. 77, 78 e 79.
Ainda no vestíbulo, há uma zona nichada onde poderia ter sido colocado algum
elemento escultórico.
Estes compartimentos deveriam ser decorados a fresco, pois, segundo a descrição
de Cruz e Silva, ainda eram visíveis, quando das escavações por ele dirigidas, o sítio
das molduras para painéis decorados (SILVA, 1946: 345) bem como outros difíceis de
identificar pela sua descrição, mas que o autor trata como «laconicum» e «frigida
lavatio» onde «o reboco era pintado às listas de diversas cores, destacando-se o azul, o
laranja, o verde e o mescla» (op. cit.: 346).
Jane e William Biers admitiam em 1992 que esta zona deveria ter sido o núcleo
inicial do edifício, dadas as suas características construtivas (BIERS et alii, 1992: 31) que,
de algum modo, se diferenciam das do resto da construção, apontando a sua edificação
para o século II (BIERS et alii, 1993: 47). Esta opinião parece difícil de partilhar uma vez
que dificilmente se admitiria que um balneário não contemplasse, desde o início, a
globalidade das infra-estruturas.
Depois do uestibulum acedia-se através de duas entradas ao frigidarium. Este
compartimento tem uma forma rectangular, existindo nos topos duas piscinae, uma
como que formando um nicho, e outra bastante mais funda, de forma praticamente
quadrangular175, que quase se poderia tratar de uma pequena natatio (NIELSEN, 1990:
155).  Fot. 80, 81 e 82. Nessa piscina existiam degraus interiores, que deveriam ser
parcialmente submersos176, e um sistema de escoamento para a latrina.
Dessa sala havia uma passagem para um compartimento que se desenvolvia a Este
com um hipocausto com suportes verticais  pilae, que possivelmente se trataria de um
sudatorium com ligação directa ao praefurnium.
Posteriormente passava-se ao tepidarium, dotado de suspensurae e hypocaustum
construído com arcos de tijolos argamassados, sendo as salas dotadas de paredes
duplas177, edificadas em opus testaceum.
174
Como acontece em Conímbriga (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 114) e em Tongobriga (DIAS,
1997: 165 e 169)
175
Em Segobriga existe uma sala com funções de frigidarium com uma natatio na zona central
que é um bom paralelo para a de Miróbriga. De notar que também aí o sistema de escoamento
era bastante eficaz (ABASCAL, 1997: 39-41).
176
A exemplo do que acontecia no frigidarium de Tongobriga (DIAS, 1997: 167, Estampa 4). Na
maioria dos balneários do Norte de África, a natatio é uma piscina interior de grandes
dimensões localizada no frigidarium que difere, portanto, do tipo de natatio a céu aberto,
comum nas termas imperiais (YEGÜL, 1995: 408). De salientar que em Miróbriga foi parcialmente
escavado um grande tanque que deveria tratar-se de uma natatio descoberta.
177
Em Roma o opus testaceum é usado vulgarmente a partir de Tibério, adquirindo quase um
carácter oficial (ROLDÁN GÓMEZ, 1987 2: 36). Na Península a sua utilização é tardia, sendo mais
comum a partir da época flávia, e foi usado mais profusamente nos edifícios termais. Mais
comum é a utilização do opus mixtum, que na Hispânia se vulgariza mais cedo do que o opus
testaceum.

74
Deste sistema de aquecimento existem bons paralelos em Pompeios e em Óstia
(ADAM, 1989: 292-93; YEGÜL, 1995: 41, 50, 53, 363 e 365) , se bem que o sistema construtivo
de Miróbriga seja diferente, pois não utiliza nem tubuli nem tegulae mammatae, sendo
as paredes duplas unidas por tijolos. Ao nível do pavimento há um estrangulamento que
permite a entrada do ar quente nas salas sob pressão.
O caldarium, de forma praticamente quadrangular, tinha dois aluei de diferentes
dimensões, sendo o de topo absidiado, dada a necessidade de concentrar o vapor e o ar
quente necessários. Ambos os aluei apresentam no fundo canos de chumbo que
escoavam para o sistema de evacuação das termas. O caldarium estava virado a
Sudoeste para aproveitar o calor da tarde. A Este situava-se o praefurnium e as áreas
de serviço.
As suspensurae das zonas aquecidas assentavam nos arcos do hipocausto. O
pavimento de circulação dos utentes era revestido com opus signinum, sobre o qual
foram colocadas lajes calcárias. Entre os arcos e o opus signinum ainda existem, in situ,
imbrices de grandes proporções, que permitiam, por um lado, uma melhor circulação do
ar aquecido e, por outro, um melhor apoio para o pavimento.  Fot. 83, 84, 85 e 86 O
chão do hipocausto utilizava tijolos rectangulares.
Algumas das salas absidiadas do tepidarium e do caldarium tinham janelas
viradas a Poente para um pátio ou pequena palestra (?) que circundava desse lado o
edifício, permitindo o arejamento das salas aquecidas. Ao pátio, que eventualmente
teria uma função semelhante a um solarium, dada a sua localização, podia-se aceder
apenas pelo interior do edifício, através de uma porta existente a noroeste do
uestibulum. Esta porta apresenta características construtivas diferentes das outras aí
existentes, pelo que possivelmente não pertenceria à fase inicial da obra (BIERS, 1983:
47). O acesso fazia-se vencendo um degrau de uma altura relativamente elevada.

O pátio, pavimentado a opus signinum, desenvolvia-se até ao muro que delimitava


a Oeste as termas, numa situação de algum modo semelhante ao que acontecia nas
«Termas Este». As arestas interiores eram revestidas com meias canas salientes. Uma
conduta subterrânea, paralela à que existe do lado nascente das «Termas Oeste», corria
ao longo desse pátio, sendo ainda visíveis alguns dos seus respiradores.
Como já anteriormente dito, a maioria dos compartimentos das «Termas Oeste»
era revestida de placas calcárias, quer no pavimento, quer nas paredes, permitindo uma
fácil manutenção do edifício. As placas eram fixadas à parede através de «gatos»
metálicos como ainda recentemente, em acção de consolidação e restauro na piscina do
frigidarium das «Termas Oeste» se pôde verificar. Já Cruz e Silva havia feito notar a
utilização dessa técnica (SILVA, 1946: 345).  Fot. 87 e 88.
Teríamos, pois, os muros construídos em opus incertum, com revestimento a opus
signinum, no qual eram presas as placas calcárias com espigões de cobre ou de bronze.
Provenientes do laconicum das «Termas Oest»” são as bases de coluna com
plinto, depositadas no Museu Municipal de Santiago do Cacém que Cruz e Silva
registou (SILVA, 1946: 346).  Fot. 89 e 90.
Uma latrina, implantada nas «Termas Oeste», a que se acede através de um
corredor em forma de L logo à entrada do complexo, pode, segundo a equipa luso-
americana ter servido simultaneamente os dois edifícios, após a construção deste
último. Esta hipótese parece-nos difícil de aceitar se admitirmos que os dois edifícios
servissem diferenciadamente os dois sexos. Muito possivelmente, nas «Termas Este»,

75
onde uma concentração de alfinetes de cabeça em alguns compartimentos parece
indiciar uma utilização mais feminina (BIERS et alii, 1988: 115), poderia haver outras
latrinas. É de salientar, no entanto, que as latrinas localizadas nas «Termas Oeste» eram
fechadas por uma porta, como o comprova a existência de uma soleira que ainda se
encontra in situ, à sua entrada.
Para estas latrinas encontrámos um bem paralelo, nas «Terme dei Sette Sapienti»,
em Óstia.
Num dos cantos do compartimento onde se encontram as latrinas existe o
negativo de um pequeno reservatório com saída de águas que dão para o sistema de
evacuação geral das termas. O citado reservatório poderia servir para as abluções, a
exemplo do que acontecia em Óstia, nas termas do forum (ADAM, 1989: 278), ou para
guardar os instrumentos com que se faziam algumas limpezas higiénicas.
A latrina, cuja forma mais comum é a rectangular (NIELSEN, 1990: 163), como
acontece em Miróbriga178, utiliza também as águas da piscina do frigidarium que
escoam através de uma canalização em chumbo. Sob as latrinas são visíveis os esgotos
que evacuavam a água proveniente do sistema hidráulico geral das termas e onde se
recolhia também a oriunda da piscina anteriormente referida.
Quer nas «Termas Este» quer nas «Oeste» parece atestar-se o percurso de
utilização frigidarium-tepidarium-caldarium, reconhecido em inúmeros balneários
romanos179.
Em 1996 foi parcialmente posto a descoberto, sob os empilhamentos de pedras de
anteriores escavações, um reservatório construído em opus incertum e revestido no
interior com opus signinum, com meias-canas nas arestas do fundo, para permitir que o
mesmo fosse estanque. Edificado num ponto alto, por cima do local onde se adossam os
dois complexos termais, devia garantir o abastecimento temporário de água às termas.
Possivelmente, este reservatório seria coberto, para garantir a limpeza da água e
dificultar a evaporação da mesma (YEGÜL, 1995: 390). Esta solução de tanques elevados,
opera signina, é comummente utilizada, sendo aliás recomendada por Vitrúvio, tal
como o recurso a poços  putei  e cisternas (De Architectura, VIII, I, 17 e VIII, VII, 13 e
14).  Fot. 91, 92 e 93.
Uma cisterna construída em patamares, de secção quadrangular, pavimentados
com lajedos e paredes em alvenaria argamassada180, serviria possivelmente para
decantação das águas pluviais (ou as águas de alguma mina hoje seca) e poderia
colaborar na manutenção das termas. A água era depois conduzida por um canal
subterrâneo abobadado, construído em pedra calcária, que posteriormente se dividia em
vários ramais que circundavam todo o complexo termal  Oeste e Este  e que
evacuavam para uma cloaca, ainda visível e em bom estado de conservação junto à
ponte.

178
E também em Tongobriga, que se situam na II e III fases de construção junto à
entrada/apodyterium (DIAS, 1997: 157, Estampa 8). No entanto, no Norte de África são muito
comuns latrinas circulares (YEGÜL, 1995: 413).
179
De que as termas flavianas de Tongobriga são um exemplo, entre tantos (DIAS, 1997: 36).
180
Segundo Plínio, as «cisternas devem construir-se com uma mistura de cinco partes de areia
pura de grão grande e duas de cal viva, e com fragmentos de sílice ... construídas deste modo
deve reforçar-se o solo e as paredes com umas barras de ferro. Torna-se mais útil construí-las
de duas em duas, para que as impurezas da água se depositem na primeira e por meio de um
filtro passe a água limpa à seguinte» (PLÍNIO, N. H., 36, 173, segundo TORREGO, 1988: 170).

76
Para esse sistema eram também despejadas as águas de várias das piscinas ou
aluei das termas. Esse escoamento fazia-se, como já mencionado, através de canos de
chumbo181 que ainda se encontram in situ no interior dos aluei do caldarium e na
piscina ou natatio do frigidarium das «Termas Oeste».
O fornecimento de água deveria ser, contudo, reforçado por uma fonte existente
nas proximidades, como se pode deduzir pelo canal que permitia a adução da água pelo
lado sul do reservatório ou natatio (?). Infelizmente, não foram encontrados quaisquer
materiais arqueológicos que nos pudessem datar esta construção. Apenas numa cota
bastante alta, de abandono do mesmo, foi exumado um conto de lança em ferro.
A natatio (?) era construída em opus incertum revestido de opus signinum, com
várias camadas. No fundo da mesma existe também uma meia-cana saliente.  Fot. 94 e
95.
Não são conhecidas actualmente quaisquer nascentes localizadas a sul das termas
que pudessem permitir o enchimento dos reservatórios. A única mina de água que
ainda é actualmente utilizada situa-se na área limítrofe a Miróbriga, a nascente da
ponte.
Nas proximidades das termas localiza-se uma ponte de um só arco quase perfeito,
que dever ter servido de matriz às pontes medievais e pós-medievais com as mesmas
características que se encontram na região. Construída em opus incertum, também com
pedra calcária, aparentemente regularizada por fiadas de xisto. Esta construção deveria
permitir a articulação entre esta zona e a área residencial a Noroeste, através de uma
calçada de que só se conhecem alguns vestígios, até porque ainda funciona em parte
como caminho.
D. Fernando de Almeida publicou esta construção romana em 1964 (ALMEIDA,
1964: 38) e nessa altura devem ter sido feitos alguns restauros e reconstruções. No
entanto, ainda segundo informação deste último investigador, debaixo da terra ainda
existiria integrada no tabuleiro uma calçada romana (ALMEIDA, 1988: 24). Numa pequena
sondagem aí efectuada não conseguimos detectar qualquer vestígio desta «calçada», até
porque, a ter existido, seria num nível muito mais baixo, como já referimos.
Na campanha de 1992, quando se procedeu a uma limpeza prévia da zona onde
se efectuaram as escavações, adjacente à ponte, detectou-se uma fissura no arco dessa
construção, que poderia ameaçar a sua estabilidade. Decidiu-se, por este motivo, a sua
consolidação182. Verificou-se, assim, a existência de elementos não romanos no seu
aparelho, tais como cimentos modernos. Nessa ocasião, foi feito um levantamento
pormenorizado do alçado poente da ponte à escala 1/10. .............. (desenho?????)
Posteriormente, esta construção foi objecto de um estudo pormenorizado da sua
estabilidade, que tem em vista o seu reforço e consolidação, esperando-se que, a breve
prazo, seja efectuada a sua conservação.  Fot. 96 e 97.
Tendo em atenção o facto de as termas e a ponte se situarem na zona mais baixa
de Miróbriga, há necessidade de garantir maior vigilância à sua conservação, até porque
anualmente esta área é fustigada por verdadeiras correntes que se formam com as águas
pluviais provenientes das áreas mais altas. Esta situação é agravada pela existência de

181
Vitrúvio preconizava também a utilização de condutas de chumbo (De Arch.,VIII. VI. 21 e
25-34).
182
Esse trabalho foi coordenado por Joaquim Garcia.

77
profundas valas que foram abertas por D. Fernando de Almeida e que canalizam as
águas para esta zona.  Fot. 98 e 99.

78
V PARTE  O CONJUNTO FORENSE

1. O forum  características gerais

Mais do que em qualquer outro lugar do Império, no Ocidente, onde a


arquitectura urbana se afirma tardiamente, o forum «representa o local no qual se
concentram todos os símbolos da dignidade municipal, os edifícios administrativos e
religiosos que definem a paisagem urbana e no qual as gerações que se sucedem,
qualquer que seja o estatuto da cidade, adquirem a consciência de pertencer a uma
comunidade». Os seus monumentos são a «verdadeira memória da cidade ... da sua
autonomia, e das suas relações com o poder central» (GROS, 1992: 339).
A par de Munigua, Tarragona (GRÜNHAGEN, 1970: 101; GROS e TORELLI, 1992: 280-
81; HAUSCHILD, 1992: 133), Bilbilis183, localizada num ponto alto onde o forum e templo
dedicado ao imperador se destacava de todo o aglomerado urbano (MARTÍN BUENO,
1987: 101; PINA POLO, 1993: 91) e Saguntum184, construídas em locais acidentados, onde é
necessário vencer desníveis (JIMÉNEZ, 19872: 174; ARANEGUI et alii, 1987: 73, 1994: 73), ou
ainda Iuliobriga, onde as edificações se adaptam à topografia através de terraços
(IGLESIAS-GIL, 1994: 209; FERNÁNDEZ VEGA, 1993: 23), Miróbriga é um dos bons
exemplares de implantação em patamares da Península Ibérica.  Fot. 100 e 101 e Ilust.
5.
O aspecto cenográfico é acentuado, porque construindo-se o forum em terraços,
na zona mais elevada, onde existira o povoado da Idade do Ferro, a zona central da
cidade é visível de quase toda a povoação. Um podium e um templo centralizado
coroam, por seu lado, a praça pública185.  Ilust. 2.
O enquadramento com pórticos e a sua elevação em relação ao nível da praça,
dominando todo o forum, foram, aliás, características comuns aos edifícios religiosos
em período imperial (JIMÉNEZ, 19872: 175).
Presidindo a todo o conjunto forense, com a fachada principal do templo
orientada para a praça pública, o forum de Miróbriga parece, assim, corresponder ao
esquema básico de um forum romano ocidental, do início do período imperial (JIMÉNEZ,
s/d: 49).
O traçado da praça segue uma orientação Noroeste/Sudeste186.

183
Deveriam ser várias as dificuldades dos antigos em assentar um programa arquitectónico
num local com estas características, uma vez que implicou nivelações e obras preparatórias do
terreno de grande envergadura, pois trata-se de um urbanismo em terraços (MARTÍN-BUENO,
1987: 99-101).
184
Em Saguntum foram feitos vários aterraçamentos e muros de sustentação de terras para a
construção do forum numa plataforma artificial.
185
Uma situação muito semelhante podemos encontrar em Bilbilis, onde o templo dedicado ao
imperador tem uma visibilidade impressionante, ao ponto de Pina Polo afirmar que
«dificilmente se pode imaginar um melhor símbolo de poder romano e da sua capacidade de
atracção» (PINA POLO, 1993: 91).
186
Tal como acontece em Bracara Augusta (ALARCÃO et alii, 1994: 71-81).

79
Se bem que os resultados publicados das sondagens efectuadas na praça pública
pela equipa luso-americana no forum não sejam suficientes para podermos aferir
cronologias, um facto é que, do ponto de vista arquitectónico, o programa do forum
aparenta ser o mesmo187.  Ilust. 4
Inclinamo-nos a admitir que todo o conjunto monumental deverá ter sido
construído na segunda metade do século I d. C., na época flávia, correspondendo muito
possivelmente às obras que andam associadas à municipalização188.
Os materiais arqueológicos provenientes de algumas sondagens efectuadas no
canto sudeste do forum pela equipa luso-americana, onde foram exumados, sob o
pavimento, fragmentos de Terra Sigillata itálica e sudgálica, datáveis entre o período
tiberiano e flaviano (BIERS et alii, 19811), e os da época de Cláudio ou Nero, encontrados
abaixo do nível do pavimento da calçada que se desenvolve a Sul189, numa cota bastante
mais baixa, junto às tabernae, parecem apoiar a hipótese da intervenção monumental
no forum se ter realizado, efectivamente, no período flávio.
A praça pública era porticada e ladeada de inúmeras construções cuja função
deveria corresponder às comuns a um forum provincial alto-imperial de pequenas
dimensões  uma Basílica asseguraria a administração da justiça e permitiria o
comércio e na Cúria decorreriam os actos administrativos e eleitorais.
A zona ao ar livre era rodeada de pórticos de todos os lados, porque admitimos
que a mesma fosse completamente fechada. Kathleen Slane defendeu que o forum tinha
pórticos dos três lados (BIERS et alii, 1988: 15). No entanto, se se aceitar que junto às alae
do templo centralizado havia uma zona porticada, que fechava a praça do lado norte, e
que o mesmo se passaria no topo sul, temos então um forum ocluso, característico do
período imperial, que se assume como um espaço sob o «controlo dos deuses e do
imperador» (BALTY, 1994: 96).
A partir de finais da época republicana ou melhor da construção do Forum
Caesaris ou Forum Iulium em Roma, iniciada em 51 a. C. e que se tornará rapidamente
num modelo, pelo seu rigor planimétrico e poder simbólico, centrado no templo
dedicado a Venus Genetrix (GROS, 1996: 212), a arquitectura forense foi-se alterando.
Passa a vigorar a ideia de uma praça porticada dos três lados, rodeada de tabernae ou de
outras construções, templo ao fundo e basílica no extremo oposto (MORA e ORIA, 1991-
92: 121), ou seja o forum bloco. A praça passa a ser fechada à circulação viária e a
unicidade de acesso à mesma rompe definitivamente com o sistema aberto do forum
tradicional (GROS, 1996: 212-13).
Esse modelo fechado foi o mais difundido em todo o Império em função do
próprio desenvolvimento do culto imperial: «tímida ainda nos inícios do Império, a
divinização do imperador triunfou sob os imperadores flávios» (ALARCÃO, 19922: 91)
187
Em Conímbriga o complexo monumental dos Flávios aparenta ser também um conjunto uno
e coerente, desenvolvido em torno de um só eixo de simetria (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 87).
188
Contudo, há autores que atribuem ao principado de Cláudio a fundação do uicus industrial
de Tróia e o desenvolvimento urbanístico de Salacia, talvez provocado pela dinâmica
introduzida no Sudoeste da Hispânia com a conquista da Mauritânia, opinião que Vasco
Mantas partilha com Romanelli, Storia delle Province Romane dell’Africa, Roma, 1959
(MANTAS, 19962: 363). Baelo Claudia, que também foi atingida pelas guerras com os mauritanos,
recebe do imperador Cláudio a condição de município e, a partir desse momento, o seu
urbanismo torna-se mais esplendoroso (LEÓN, 1993: 46).
189
J. Nolen estudou vários fragmentos de «paredes finas» do Grupo B, datáveis do período
Cláudio-Nero, provenientes «do leito da rua a sul do forum traçada no início da época
flaviana» (NOLEN, 1976-77: 428).

80
contribuindo para que se erguessem recintos exclusivamente consagrados ao culto
imperial.
Assiste-se, portanto, a uma perda de protagonismo na manifestação do culto da
tríade capitolina em função dos cultos dinásticos, mais ou menos directamente ligados à
pessoa do imperador (JIMÉNEZ SALVADOR, 19872: 173; BALTY, 1994: 94). A noção de
axialidade ganhou, assim, um grande impulso, vindo o culto dedicado ao imperador a
reforçar esta centralidade.
Por outro lado, o desenvolvimento das actividades administrativas e judiciais que
se prende com o desenvolvimento das próprias instituições romanas determinou a
separação funcional e física das funções administrativas e religiosas, permitindo o
protagonismo crescente da Basílica. A Basílica torna-se fundamental ao conceito alto-
-imperial, e sobretudo augustano, de forum, enquanto que a Cúria foi perdendo
representatividade entre os esquemas monumentais.
O mesmo se verifica em relação aos edifícios comerciais que passam a agrupar-se
em mercados independentes (JIMÉNEZ, 19871: 173).
Em território actualmente português também se fazem sentir essas alterações
ideológicas. Se, por um lado, a construção do forum augustano de Conímbriga inclui
templo, basílica, cúria e tabernae porticadas que ocupavam os lados menores do
complexo arquitectónico, concentrando portanto as funções religiosas, administrativas e
comerciais, já no forum flaviano «foram expulsos administração e comércio»
(ALARCÃO, 1988: 67 e 72; 1992 2: 91)190.
Em Miróbriga também parece, de algum modo, confirmar-se esta alteração
ideológica, uma vez que no forum se instalam somente os edifícios administrativos e
religiosos (BALTY, 1991: 403). No entanto, e se bem que não exista propriamente um
edifício destinado a ser mercado  macellum  as tabernae são afastadas do centro do
conjunto forense, desenvolvendo-se nas áreas limítrofes, como veremos noutro ponto
deste trabalho.
Todas estas alterações contribuíram para a concepção de um modelo construtivo,
presidido pela oposição topográfica entre templo e basílica, protótipo que ganhou
grande divulgação no período imperial e que colaborou no aspecto fechado que se
verifica nos fora do período alto-imperial ( JIMÉNEZ, 19872: 176). Por seu lado, a
existência de uma zona porticada em alguns fora contribui para solenizar o espaço
sagrado definido pela construção religiosa, segundo os modelos de forum da dinastia
júlio-claudiana (JIMÉNEZ, 19871: 52).
A posição tradicional da basílica191, frontal ao templo  ou seja com os eixos do
templo e da basílica perpendiculares , que Ward-Perkins denominou basilica-forum
type, não se parece verificar, contudo, em Miróbriga.
Embora se tenha levantado a hipótese de poder ter existido uma grande
construção frontal ao templo, com funções de Basílica, ocupando todo o lado sul do
mesmo, sustentada pelas tabernae que aí se desenvolviam, a uma cota inferior, e que
poderiam ter exercido uma função similar a um criptopórtico, é um facto que os
190
Ver o forum de Baelo Claudia e as alterações a que foi sujeito, quando assumiu
características eminentemente religiosas ( LEÓN, 1993: 47).
191
Em Pax Iulia, Seilium e Ebora a Basílica localiza-se num dos lados menores do rectângulo,
oposta ao templo. No caso de Seilium a Cúria compartia com a basílica o lado sul do forum
(PONTE, 1989: 12), tal como acontecia no lado oeste do forum augustano de Conímbriga
(ALARCÃO e ETIENNE, 1977 : lám. XI) possivelmente acontece em Miróbriga.

81
vestígios arqueológicos existentes, nomeadamente os restos de um grande talude de
contenção que se eleva até a uma altura assinalável, não nos permitem demonstrar essa
ideia, pois a construção teria que ser estreitíssima192.  Fotos 101, 138 e 139 e Ilust. 2
Admitimos, portanto, que a praça seria fechada também desse lado sul, mas
utilizando como oclusão os pisos superiores das tabernae que se desenvolviam até essa
cota.  Ilust. 6 e 7.
A opção de localizar uma Basílica do lado oeste da praça, paralela ao seu eixo
longitudinal  Fot. 102, como julgamos acontecer em Miróbriga, é comum a outros
fora193 , nomeadamente às edificações augustanas de Conímbriga e de Emporiae, a
Bilbilis194, cuja construção é datável de Augusto-Tibério (MARTIN-BUENO, 1987: fig. 2;
JIMÉNEZ, 19871: 116; GROS, 1994: 96 ) e ainda a Saguntum (ARANEGUI et alii, 1987: 90-92;
ARANEGUI, 1994: 74).
Em termos gerais, o modelo básico de fora construídos na Hispânia, em período
imperial, é caracterizado pela combinação de três elementos fundamentais: templo,
praça e basílica (JIMÉNEZ, 19871: 116).
Em todo o mundo romano, a basilica forensis é, normalmente, um espaço
relativamente grande (segundo os cânones vitruvianos é um espaço rectangular mais ou
menos alongado, spatium medium, rodeado por uma colunata que define um
deambulatório  porticus), onde um dos lados mais compridos dá para a praça pública
(GROS, 1996: 235).
Na Península Ibérica a maioria destas construções195 são efectivamente
rectangulares, de proporções variáveis, tendo o seu comprimento pelo menos duas vezes
mais do que a sua largura. Têm normalmente uma colunata no seu interior que define
um espaço central à volta do qual se desenvolve um deambulatório 196 que, muitas vezes,
toma o aspecto de um pórtico do lado virado para o forum (GROS, 1996: 248).

192
A equipa luso-americana identifica esta zona como «peristilo rebaixado que  corre de SW
para NE encostado à fundação da parede Sul do mesmo forum». Defende duas fases de
construção para essa zona: «uma primeira com degraus onde se projectavam colunas ou
pilastras e de que apenas sobrevivem bases de silharia e uma segunda, num nível mais elevado,
que eliminou a necessidade de se subir para o forum propriamente dito» (BIERS et alii, 19811).
Por esta descrição, não conseguimos, contudo, localizar a zona específica a que se referem os
autores. Efectivamente existe uma escada que uniria a zona mais baixa  onde se desenvolvem
as tabernae  ao forum, e que, num dado momento, é fechada. No entanto, não conseguimos
detectar a existência de bases de coluna junto a essa escada. Apenas na zona identificada como
«peristilo rebaixado» existem silhares de grandes dimensões adossados ao muro que limita a
sul do forum, que nos admitem tratar-se, de facto, de uma zona porticada, se bem que as
«bases» estejam colocadas de uma forma assimétrica. Cabe-nos salientar que, em muitos
casos, as antigas escavações foram feitas até ao nível das fundações, ou mesmo da rocha de
base, o que dificulta, nos nossos dias, uma interpretação arquitectónica dos conjuntos, como se
verifica na canalização que corre encostada ao muro que serve de limite sul do forum.
193
No forum de Cáparra dois templos in antis, um dos quais centralizado, e possivelmente
dedicado a Júpiter, desenvolvem-se num dos topos da praça. A Cúria, por seu lado, foi
edificada em frente da Basílica. Segundo Gros e Torelli a localização da Basílica num dos
lados do forum parece ser típica nos fora de pequenas dimensões (GROS e TORELLI, 1992: 344).
194
Não se pode confirmar arqueologicamente quantas naves teria a Basílica de Bilbilis
(MARTÍN-BUENO: 1987: 105).
195
Nas províncias ocidentais parece não ter sido construída qualquer Basílica antes de Augusto
(GROS, 1996: 248).
196
A Basílica augustana de Saguntum tem 40m de comprimento por 20 de largura. Consta de
uma nave central com 10m de largura rodeada por um deambulatório de 5m de largura
(ARANEGUI et alii, 1987: 90-92).

82
Na maioria dos casos em que a basílica se desenvolve lateralmente, o seu
comprimento corresponde à largura da praça (JIMÉNEZ, 19871: 46), o que aliás parece
acontecer em Miróbriga, onde a largura da praça é de 22,08 m e o comprimento da
basílica e construção anexa (Cúria?) é quase o mesmo (19,50 m)197.  Ilust. 2.
Em Miróbriga a construção que interpretámos como basílica tem uma só nave 198,
à frente da qual, na fachada que dá para a praça pública, se desenvolveria uma colunata.
Esta zona porticada delimitava uma espécie de deambulatório que corria ao longo da
Basílica e da Cúria (?).
Edificada numa posição frontal em relação à basílica, existe uma construção,
identificada por D. Fernando como «casa de peristilo», cuja funcionalidade continua
indefinida. A sua planta, centrada num pequeno podium ladeado por escadas, sugeriu-
nos a existência de um altar. No entanto, o átrio possivelmente porticado e revestido a
opus signinum coloca-nos algumas questões quanto à sua interpretação.  Fot. 103 a 106.
Chegámos a admitir, numa primeira fase, a hipótese de se tratar da cúria, uma vez
que, ao longo dos muros que se desenvolvem no compartimento centrado pelo átrio, se
adossam umas banquetas, que poderiam ter servido como assentos. Apesar da sua
presença identificar, muitas vezes, as cúrias (BALTY, 1991: 33), não encontrámos,
contudo, quaisquer paralelos seguros para uma construção com as características da de
Miróbriga199, embora a cúria de Sabathra tenha alguns aspectos que se assemelham ao
nosso edifício. Naquela edificação o acesso fazia-se através de uma espécie de átrio
colonado, que tinha no eixo da entrada uma exedra absidiada. Era através desta zona
porticada que se passava à aula propriamente dita, que se desenvolvia em degraus, e
onde existiam, aí sim, banquetas ao longo de uma das paredes (BALTY, 1991: 34).
Em Miróbriga só com muita imaginação se poderia conjecturar que a aula seria
um dos compartimentos anexos, do lado sul, a essa zona porticada. No entanto, a
existência de um podium axializado com a entrada, onde possivelmente se colocaria
uma estátua, tem algumas semelhanças com outras cúrias africanas,como a de Palmira
(BALTY, 1991: 52), e os desníveis ou degraus existentes no pavimento lembram muito
outras construções com essa função, existentes nas Províncias Ocidentais.
A sua localização, do lado direito da praça pública, formando um segundo eixo na
mesma, perpendicular ao marcado pelo templo centralizado, situação que é bastante
comum nas cúrias (BALTY, 1991: 82 e 402), contribuiu também para levantar a hipótese de
se tratar de um edifício com essa função.  Ilust. 3 e 4.
Contudo, não será de excluir a possibilidade de a mesma se tratar de uma
biblioteca200 ou de um tabularium, embora na Hispânia apenas se conheça um exemplo
atribuído a Munigua (JIMÉNEZ, 19871: 72; HAUSCHILD, 1992: 140).
As referências de D. Fernando de Almeida ao aparecimento num dos
compartimentos contíguos de duas pequenas mós (ALMEIDA, 1964: 30) contribui para
acentuar as dúvidas quanto à sua funcionalidade. As intervenções efectuadas por esse

197
A Basílica augustana de Conímbriga tinha três naves e media internamente 33 x 13,65 m . A
Cúria tinha 5,44 x 13,65 m (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 35).
198
Em Munigua existe uma basílica de uma só nave (JIMÉNEZ, 19871: 71; HAUSCHILD, 1992: 140).
199
Em Cáparra a Cúria situa-se do lado oposto à Basílica, mas tem características bastante
diferentes.
200
Segundo P. Gros, a fraca difusão destes equipamentos nas províncias hispânicas prova que
eles não faziam parte da panóplia urbana de base e que o modelo de cidade romana em vigor
nesta parte do Império nunca integrou verdadeiramente este anexo cultural (GROS, 1996: 370).

83
investigador nas duas colunas de quadrante, quase integralmente reconstruídas,
colaboram também na dificuldade de interpretar a planta desta estrutura. Infelizmente,
não existem evidências seguras quanto ao local da sua implantação nos sítios onde
agora se encontram, pois apenas uma delas apresenta uma base pétrea, estando a outra
assente numa base cerâmica que nos parece ser «restaurada», num nível mais baixo. No
entanto, numa fotografia publicada em Miróbriga dos Célticos são visíveis, de facto,
duas colunas, se bem que uma delas, mais a Poente, aparente ter outra localização.
Mesmo tendo em atenção que a existência da cúria 201, como edifício destinado a
sede oficial do Senado do Município ou da cidade, fazia parte obrigatória da
administração local e era imprescindível nos municípios recém-fundados (BALTY, 1991:
82; GROS, 1996: 263), como é o caso de Miróbriga, é um facto que foi gradualmente
perdendo a força entre as construções do forum, tal como aconteceu com os templos
dedicados à tríade capitolina202.
Deste modo, a cúria de Miróbriga parece coadunar-se melhor com a construção
que se desenvolve do lado oeste do forum, anexa à basílica203, que mede interiormente
7,20 m (24 pés) x 5,40 m (18 pés), com um compartimento de pequenas dimensões na
parte de trás, situação que se assemelha à de Khamissa (BALTY, 1991: 93 e 216). A
maioria dos muros deste edifício medem 60 cm, à excepção do que o fecha do lado sul,
mais largo.
Em Conímbriga, na época flávia, é construído um novo forum de características
meramente religiosas e edificou-se um novo templo (próstilo, tetrástilo e
pseudoperíptero) rodeado de um pátio e de um pórtico com criptopórtico, consagrado
ao imperador (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 111) . Essa intervenção arquitectónica
obedece, de algum modo, à política de fomento municipal de cariz marcadamente
imperial que é feita sobre o antigo forum204.

201
André de Resende fazia referência a uma lápide de Caio Numisio Fusco que tinha sido
mandada fazer com a permissão da «Curia Merobrigense», transcrita por Macedo e Silva do
seguinte modo:
NVMISIO G. F. FVSCO
VIRO. SEN.
TATINIA. Q. F.
FVLVIANILLA
VCSOR
PERMITTENTE. ORD.
MEROBRIG.
202
De facto, estas transformações arquitectónicas correspondem também a uma alteração
ideológica que o período imperial introduz a um sistema político onde as autonomias locais
tradicionalmente reconhecidas pelos estatutos urbanos não têm lugar a existir senão num
quadro estrito e controlado do ponto de vista simbólico pelo poder sacralizante do imperador
(GROS, 1996: 267).
203
Numa situação semelhante, mas do lado nascente do forum, se situam a basílica de três
naves e a pequena cúria do forum augustano de Conímbriga. Nesta cidade, do lado oposto à
basílica desenvolviam-se, nessa primeira fase de construção, os estabelecimentos comerciais
precedidos por um pórtico. O templo ficava no lado norte, se bem que algumas hipóteses
levantadas mais recentemente apontem para uma outra interpretação do conjunto (CONGÈS, 1987:
711-751). Na Hispânia existe uma outra situação em que a basílica e cúria se localizam num dos
lados mais longos do forum, nomeadamente em Ampúrias. (BALTY, 1991: 376-379).
204
«Um grande programa de obras públicas foi levado a cabo, como aconteceu em muitas
outras cidades hispânicas, quando lhes foi concedido pelos imperadores Flávios o estatuto
municipal .... Neste foro a função religiosa obscurece a religiosa e administrativa em
consonância com o grande desenvolvimento que o culto imperial alcançou neste período»
(BLÁZQUEZ, 1991: 213).

84
Em Conímbriga, a única entrada do forum flaviano é axializada em relação à
cella do templo (e, portanto, para a estátua de culto), contribuindo para acentuar o
triunfo da majestade do soberano e o aspecto fechado do forum (ALARCÃO e ETIENNE,
1977, I*: 111 e lâm. XII). Ainda com essa finalidade, o podium torna-se mais destacado.
Em contrapartida, as entradas no forum de Miróbriga seriam duas, fazendo-se
respectivamente pelo lado oeste do forum, a Norte  Fot. 107 e 108  e pelo lado sul da
Basílica. Uma escadaria escavada na rocha permitia aceder, numa primeira fase, das
tabernae ao forum, ligando-se directamente à calçada que existia a sudoeste do conjunto
monumental. Esta entrada permitia uma leitura mais grandiosa do forum e do templo
centralizado. Como já anteriormente referimos, esta escada é, em data que se
desconhece, fechada.
Ainda do lado sul do forum, e oposto à entrada a que nos referimos, existia uma
construção semicircular que se poderia tratar de um aedicula, para albergar a imagem
de uma divindade205, e que D. Fernando de Almeida interpretou como rostrum
(ALMEIDA, 1964: 55), até porque, encostado, se encontrava o pedestal onde estava
inscrita uma dedicatória a Gaio Ágrio Rufo, adoptado como cidadão de Itálica 206
(ENCARNAÇÃO, 1984, IRCP 151).  Fot. 111 Este pedestal de«mármore de S. Brissos» foi
colocado por D. Fernando em cima de uma base localizada entre o acesso ao templo
absidial e a calçada por onde se entrava, a Noroeste, no forum (ALMEIDA, 1964: 55).
Para esta construção absidial encontrámos um bom paralelo em território
português, pertencente a Tongobriga. Nessa cidade, junto à entrada do forum, foi
identificada uma edificação onde se albergava uma ara com inscrição nas quatro faces.
A utilização de plantas absidiais, muito comuns na arquitectura civil e religiosa desde
início do Império com a finalidade de glorificar, parece, no caso de Tongobriga,
dedicar-se aos deuses protectores do aglomerado (DIAS, 1997: 66).
Em Miróbriga, muito próximo da construção que interpretamos como aedicula foi
implantado um grande silhar de 90x 60 cm ao qual foi chumbada uma argola de ferro,
já referido por D. Fernando de Almeida 207, que provavelmente estava associado a essa
obra, porque nela poderia ter assentado qualquer escultura.  Fot. 109 e 110 Ainda
bastante perto da aedicula, encontra-se uma base que mede 78 x 87 cm, que poderia,
por seu lado, ter pertencido ao pedestal deslocado.  Ilust. 2.
Não aceitamos, deste modo, a ideia de a edificação semicircular se tratar de um
rostrum, que, a ter existido, se poderia situar em frente ao templo, ulilizando a
cenografia do podium ou pulpitum.

205
Em Munigua, se bem que tendo características arquitectónicas diferentes, existe uma
construção com essas funções que também foi edificada junto à colunata do pórtico. Em frente
do mesmo apareceu uma ara dedicada a Mercúrio e uma inscrição (HAUSCHILD, 1992:142). A
situação, no seu conjunto, aparenta algumas semelhanças com a que julgamos poder ter
existido em Miróbriga.
206
Se tivermos em atenção a investigação epigráfica e a análise das leis municipais que
parecem confirmar que no forum só deveriam existir dedicatórias aos imperadores e aos altos
cargos da administração do império ou da cidade (ARRIBAS e TARRADELL, 1987: 130), teremos pois
que admitir que Gaio Ágrio Rufo foi um importante dignitário em Miróbriga.
207
«Uma grande pedra, como base de pilastra, mostra uma unha de ferro; outrora serviu para
segurar um monumento colocado sobre ela» (ALMEIDA, 1964: 29).

85
2.  A modulação do conjunto forense: os sistemas construtivos

O forum de Miróbriga pode considerar-se de pequenas dimensões se comparado


com outros fora da Lusitânia, nomeadamente alguns situados no actual território
português. Segundo Jorge Alarcão, o forum pacense deveria medir 80x160 m, ocupando
a basílica o lado sul do mesmo e destacando-se perpendicularmente a ela a cúria, de
planta quadrangular (ALARCÃO, 1992:78); o de Conímbriga mediria 23,60x36,80 m,
respeitando do ponto de vista da sua modulação os cânones vitruvianos (ALARCÃO e
ETIENNE, 1977, I*: 99) e a praça pública de Tongobriga rondaria os 90 m de
comprimento por 60 m de largura (DIAS, 1997: 65).
Segundo Vitrúvio (De Architectura, V.1.2), o forum deveria ter uma largura igual
a dois terços do comprimento208, o que não acontece em Miróbriga se tivermos em
atenção apenas a praça a céu aberto.
A largura da praça a céu aberto é de 22,08 m (73 pés) 209. O comprimento até ao
podium varia entre 25,50 m (85 pés) e 26,40 m (88 pés), tendo em conta as zonas
salientes e reentrantes do mesmo.
A praça pública ao ar livre tem, portanto, o aspecto mais quadrangular a que nos
referimos, a exemplo de outros fora que, embora mais monumentais, se inscrevem no
grupo constituído por recintos dotados de praças quadrangulares, como são exemplo
Bilbilis210, Baelo Claudia211 e Emporiae (JIMÉNEZ, 19871: 89; LÈON, 1993: 46), e que
alguns autores quiseram filiar nos principia (GROS e TORELLI, 1992: 348; EUZENNAT,
1994: 197-203)212.

No entanto, se considerarmos o total da praça de Miróbriga  contando o sítio


onde fecha, junto às alae do templo centralizado , ela assume um aspecto mais
rectangular medindo o comprimento total da praça quase duas vezes a largura da
mesma, podendo definir-se seis módulos. Por seu lado, o seu comprimento pode
subdividir-se em três partes, ou módulos: do podium até às alae mede um terço; o resto
da praça dois terços, aproximadamente.  Ilust. 3 e 4.
Por seu lado, o templo centralizado tem de largura um terço da largura da praça
pública. Ladeado por duas alae, em forma de L, que fechavam a praça e que ocupavam,
por sua vez, aproximadamente dois terços da largura da mesma (um terço cada uma) 213,
pode dizer-se que o forum era dominado na íntegra por este edifício religioso.
208
A essa medida obedece o forum augustano de Conímbriga, que mede 38,10x25,35 m. A
praça de Clunia, com uma planta alargada, tem uma proporção que se aproxima também dos
cânones vitruvianos dos dois terços (JIMENEZ, 19871: 95; PALOL, 1987: 153-157 ).
209
Uma largura semelhante teriam os fora de Pollentia, com 26m de largura, e de Ruscino,
com 20 m (ARRIBAS e TARRADEL, 1987: 123-125).
210
A praça ou forum de Bilbilis media 48,64 x 44,88 m e tinha pórticos à sua volta (MARTÍN-
BUENO, 1987: 103).
211
O forum de Baelo Claudia tem uma forma quase quadrada, medindo 30x33 m (LÈON, 1993:
46).
212
Jean Ch. Balty recusa qualquer tentativa de filiação directa dos fora com essas
características nos principia. Para este tema ver a sua obra Curia Ordinis, 2.ª Parte, IV: 357 e
603. P. Gros também não está de acordo com a marcante influência do modelo dos principia
nos fora das províncias ocidentais (GROS, 1996: 220).
213
Em Évora o templo municipal/imperial, intimamente relacionado com o culto da água,
como acontece com o templo imperial de Mérida (BERROCAL, 1987: 31), ocupa um espaço igual
às áreas que o ladeiam até ao pórtico. Cada um dos lados ocupa, portanto, metade. A praça
pública corresponde, por seu lado, a uma área igual à ocupada pelo templo e pelo pórtico
circundante.

86
O podium de Miróbriga214, construído em opus caementicium revestido com
placas calcárias, deveria medir 1,50 m de altura (apesar de muito reconstruído em
alguns locais, é clara a construção original) por 15 m de comprimento, na zona mais
próxima da praça pública (50 pés). Esta construção tem também um aspecto bastante
cenográfico, formando como que nichos rectangulares e curvilíneos, possivelmente
influenciada num pulpitum de um teatro (BIERS et alii, 19811: s/p; ALARCÃO, 1990: 465). O
acesso ao templo fazia-se através das escadas laterais do podium215.
A maioria dos muros das construções que rodeiam a praça medem 60 cm (2 pés).
Apenas diferem os muros do topo sul do forum, que medem 70 cm, e os do templo
centralizado, que têm 90 cm em média.
A Basílica, por seu lado, não corresponde aos cânones vitruvianos, porque o seu
comprimento não mede duas vezes ou três vezes a largura, nem tão pouco se assemelha
a uma nave rodeada de pórticos. Esta construção mede internamente 13,80 m (46 pés) x
9 m (30 pés) e tem apenas uma nave. No entanto, se adicionarmos o compartimento que
se lhe anexava, correspondendo à Cúria, temos um comprimento total das duas
construções de 21, 9 m (73 pés) que perfaz mais que o dobro da largura exterior das
mesmas (10, 20 m  34 pés) conferindo um cariz mais canónico ao conjunto.
O opus incertum216 é o aparelho de construção mais utilizado em Miróbriga, de
acordo com o que se passa no resto da Hispânia. De tamanho médio, a maioria dos
blocos pétreos utilizados varia entre os 20 a 30 cm. Em algumas construções de
Miróbriga, a exemplo das termas e das tabernae, é usado o opus quadratum em «zonas
principais» e muito excepcionalmente as opera mixta217.
O aglutinante mais usado em todo o aglomerado urbano é uma argamassa com
base de cal e areia, possivelmente de origem fluvial, aliás já considerada por Vitrúvio
como a mais aconselhável, caso não existissem pedreiras (De Architectura, II, 4, 2) a que
se adiciona, por vezes, uma terra argilosa218.
No forum, tendo em vista dar regularidade ao paramento externo da maioria dos
muros construídos em opus caementicium, que deixavam a sua face externa com um
aparelho de pedras irregulares  opus incertum  foi utilizado quer o revestimento com

214
Em Idanha-a-Velha conserva-se sob a torre de menagem o podium de um templo
romano com 9,2 m x 17, 2 m, ocupando uma posição destacada e axializada num recinto que,
possivelmente, corresponderia ao forum (MANTAS, 1987: 44).
215
O acesso ao templo centralizado de Clunia fazia-se também através de duas escadas
lateriais. A base do podium na sua fachada media 19,60 m (PALOL, 1987: 157).
216
O opus incertum começa gradualmente a ser substituído em Roma nos finais da República
pelo opus reticulatum, pelas vantagens que assume a sua estandardização e seriação. No
entanto, a utilização deste último na Hispânia é quase excepcional, continuando o opus
incertum a ser o mais divulgado. O opus vittatum foi também bastante utilizado em programas
construtivos de algumas cidades hispanas, uma vez que era um sistema mais acessível e
adequado, dentro do programa de reorganização e promoção urbanas promovidas desde o
tempo de Augusto (BENDALA GALÁN, 1992: 218 e 220).
217
O uso de tijolos na construção é um processo relativamente tardio no século I d. C. e
bastante limitado na Hispânia. Aliás, na Bética, quase não se pode falar do uso sistemático.
Apenas em Munigua e em Itálica se pode falar da opção pelo uso sistemático ou, pelo menos,
em grande quantidade de opus testaceum. O uso de tijolos é, em contrapartida, mais usual em
opera mixta, servindo para nivelar ou estabilizar construções (BENDALA GALÁN, 1992: 220).
218
Plínio, por sua vez, referia três tipos de areia : «a obtida nas escavações, à qual se devia
juntar uma quarta parte de cal, a fluvial e a marinha, que devem misturar-se com uma terça
parte de cal. Se se juntar um terço de telha picada, o produto melhora» (PLÍNIO, N. H., 36, 175,
segundo edição de TORREGO, 1988: 170).

87
estuques,  Fot. 112, como se pode ver na entrada norte do mesmo, quer com placas
calcárias.
Algumas dessas placas calcárias (calcário fétido de S. Brissos) estão ainda in situ
como acontece no podium e nos muros que fechavam o forum do lado este e sul. No
podium reconhecem-se também os encaixes onde essas placas se agarravam ao aparelho
construtivo, que deveriam funcionar como lambris (ALMEIDA, 1968: 93).  Fot. 113 a 116.
Este tipo de intervenção é muito comum em período alto-imperial, pois, a partir
de Augusto, acentuara-se a «moda» de dar uma aparência marmórea e sumptuária aos
monumentos (RODÀ, 1994: 324)219.
Não é pois de admirar que mesmo nas mais longínquas fundações se quisesse
imitar, à medida local e sem nunca atingir os níveis verificados na capital ou nas
cidades italianas, a grandiosidade romana. Apesar de alguns investigadores
considerarem que os reflexos dessa «nouvelle mode» foram muito rapidamente
assimilados em todo o império (KEAY, 1995: 305), parece, contudo, que esta nova atitude
monumental foi introduzida um pouco mais tarde nas cidades das Províncias
Ocidentais, algumas das quais só assistiram ao fenómeno de monumentalização na
dinastia flávia (HAUSCHILD, 1994: 200).
Em Miróbriga, a praça pública era pavimentada com blocos calcários (calcário
fétido de S. Brissos) assentes em opus signinum, técnica que é comum às termas.
Embora só algumas das placas que a revestiriam estejam ainda colocadas in situ, no
entanto, são visíveis os negativos das mesmas em quase toda a praça.  Fot. 117.
A maioria dessas placas são rectangulares e, tendo em atenção o seu negativo,
mediriam 1,50x0,60 m. Atendendo à largura da praça que mede 22,08 m seriam, pois,
necessárias na largura trinta e cinco placas, uma vez que elas têm o seu lado maior
paralelo ao comprimento da praça. Nos cantos ou reentrâncias foram utilizadas algumas
placas praticamente quadrangulares, medindo 0,75x0,72 m, que contribuíam como que
para rematar o pavimento, como se pode verificar junto ao podium e nas zonas anexas à
basílica.
Tendo em atenção o comprimento da praça que é de 25,15 m, seriam necessárias
dezasseis placas rectangulares e uma praticamente quadrangular (com 0,72 m
comprimento). Utilizando essa associação, teríamos uma soma de 24,72 m que, se
contarmos com as juntas, perfaz praticamente a totalidade da praça.
O aspecto monumental é reforçado pela sua construção em patamares, como já
referimos anteriormente, cortando e aplanando a rocha para criar várias plataformas.
 Ilust. 5-7. Esta situação é bem visível no lado norte do forum, onde um grande muro
de contenção foi construído para vencer a diferença de alturas existente entre as duas
plataformas: a mais alta onde se localiza o templo centralizado e o templo de Vénus e a
praça pública propriamente dita220, a uma cota mais baixa. Esta situação repete-se

219
Augusto vangloriava-se a propósito das grandes obras por si promovidas em Roma que
«deixava-a feita de mármore a mesma que havia recebido de ladrilho» (SUETÓNIO, ed.1986:82-83).
O período imperial criara, pois, uma nova concepção filosófica e cultural que se reflectia na
arquitectura. A cidade da firmitas, da utilitas e da venustas vitruviana assumira, com o novo
regime, um carácter mais monumental e mais sumptuário, coroando o poder do imperador,
«instrumento divino da nova ordem» (MURGA GENER, 1976:11). O Forum de Augusto «uma das
obras mais belas jamais vista», segundo Plínio, foi o primeiro exemplo de um grande conjunto
arquitectónico totalmente revestido em materiais pétreos, alguns dos quais marmóreos. A
arquitectura tornou-se, com o Império, a arte por excelência.

88
também no declive sul do forum onde foi feito um terceiro talude em opus
caementicium, a que se adossam as tabernae.  Ilust. 5.
Os taludes construídos verticalmente entre as duas primeiras plataformas usaram
também opus caementicium revestido aqui com estuques, alguns dos quais pintados.
Para o comprovar há o negativo feito a compasso com elementos decorativos,
localizado junto à escadaria de acesso pelo lado oeste do templo centralizado. Este
revestimento contribuía para dar um aspecto mais uniforme e grandioso à praça.
Paralelamente a esse talude existe uma calçada por onde se entrava, pelo lado
Noroeste, na praça pública.  Fot. 118. Esta mesma entrada dava acesso, através de uma
escadaria, a um outro edifício de planta absidial, à qual tem sido atribuído o culto a
Vénus. A orientação desta construção obedece à mesma do forum, sendo praticamente
paralela ao templo centralizado. De ambos os lados dessa escadaria desenvolve-se o
talude a que anteriormente fizemos referência e que se adossa ao afloramento xistoso
cortado.  Fot. 119 e 120.
A poente deste templo e praticamente anexas a ele, se bem que com uma
orientação diferente, existem várias construções, edificadas em opus incertum, cuja
função se desconhece, porque ainda não foram escavadas na íntegra. Deveriam
articular-se com as tabernae que se desenvolvem paralelamente, mas a cota mais baixa,
correspondendo à plataforma por onde se fazia a entrada, pelo lado norte, na praça
pública.  Ilust. 2.

220
Em Munigua a construção em terraços socorreu-se também de grandes muros de contenção
(HAUSCHILD, 1992: 133).

89
3. O templo centralizado

Vários são os exemplos de arquitectura religiosa no território actualmente


português221.
Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. 2, 2), os templos, ou melhor dizendo,
aedes in antis  por templum é entendida a plataforma ou terraço onde se elevava o altar
ao ar livre222  têm muros laterais que se prolongam para a frente da cella  a parte
essencial da aedes, onde se conserva uma estátua da divindade ou um símbolo sagrado
 e que constituem as faces laterais do pórtico ou pronaos. Entre elas deverão existir
duas colunas. Por cima existirá um frontão que ajuda a suster a cobertura.
Segundo este autor dos primórdios da época imperial, o templo, aqui utilizado
como sinónimo de aedes, e a estátua devem estar virados preferencialmente para o
Ocidente para permitir que, quando os devotos para aí dirijam o olhar, enfrentem
também o Oriente. Caso não seja possível, deverá ter debaixo dos seus olhos o maior
número de devotos possível (De Architectura, IV. V. 2 , 3 e 5).
Adverte ainda para a localização indicada para erigir os templos, sugerindo que os
templos de Júpiter, Juno e Minerva deverão estar situados em pontos altos, dominando a
cidade (I, XII, 4), portanto, num ponto proeminente do aglomerado (De Architectura,
IV.V.4).
Em território português os edifícios religiosos conhecidos têm em comum
exactamente a localização num ponto elevado ( HAUSCHILD, 1989-90: 72) em relação à
platea, obedecendo, deste modo, aos cânones vitruvianos.
Em Miróbriga, no mais alto dos patamares do forum de Miróbriga foi edificado,
como já referido, um templo, que T. Hauschild admite poder interpretar-se como
próstilo (HAUSCHILD, op. cit.: 72), muito provavelmente dedicado ao culto imperial,
cujo podium coroa a praça pública.  Fot. 121 e Ilust. 5-7.

221
No Conventus Pacensis são conhecidas várias edificações religiosas, como a de Santana do
Campo, Arraiolos. Aqui, uma construção rectangular (20x9 m) com contrafortes em dois dos
muros laterais, que foi posteriormente adaptada a capela cristã, parece denunciar a existência
do embasamento de um templo (HAUSCHILD, 1989-90: 68). Pelas suas medidas, este templo tem
uma proporção aproximada de 1x2. Em Évora, também numa zona alta da cidade romana,
encontra-se o templo períptero, popularmente conhecido por «Templo de Diana». O seu
podium completamente conservado mede 24 x15x3 m (HAUSCHILD, 1992: 107). Este templo era
envolvido por três lados por um pórtico cuja largura (cada um dos lados) corresponde a
metade da do templo, portanto, 7,5 m. Numa segunda fase de construção, foi rodeado por um
tanque de água com um metro de profundidade, cuja largura varia entre 4 e 5 m (HAUSCHILD,
1994: 197), associando o culto da água com o culto imperial. T. Hauschild atribui ao templo de
Évora o culto oficial do Municipium, uma vez que o culto imperial surgiu na Península como
um culto «municipal». Em Beja, os vestígios que Abel Viana identificou num ponto elevado da
cidade e que atribuiu ao culto de Serápis, foram posteriormente considerados como
pertencentes a um templo centralizado no forum (ALARCÃO, 1992: 78). Segundo os cálculos de
Abel Viana, este templo mediria 29x16,50 m, mas Jorge de Alarcão pensa que as suas
dimensões seriam maiores. No Algarve, em Faro, um templo foi também edificado sobre um
podium na parte mais alta da antiga cidade de Ossonoba (HAUSCHILD, 1989-90: 72).
222
Aedes indica, pois, o lugar onde habita a divindade, enquanto o templum é o espaço definido
por um ritual. Mas como a aedes também era constituída por esse ritual, considerava-se
igualmente templum. Os dois termos são, portanto, usados com frequência como sinónimos
(BLÀZQUEZ e MONTERO, 1993:: 470).

90
Esse templo foi, como já fizemos referência, objecto de escavações e de
reconstruções efectuadas nas campanhas de D. Fernando de Almeida e apresenta, nos
nossos dias, um aspecto cenográfico que domina toda a praça pública.
Alguns desses restauros dificultam, em algumas zonas, a verificação da planta
inicial, fazendo-nos mesmo duvidar da forma como o edifício poderia funcionar,
nomeadamente uma abertura central que foi entaipada e onde se construiu uma parede
cimentada para ajudar a suportar o peso das colunas que D. Fernando aí colocou. D.
Fernando refere mesmo que «o rectângulo é a base e aquela parede, em tempos
continuada para cima, servia de separação entre a cela e o pórtico, ligados pela porta
bem clara, nos seus alicerces, entre os dois troços deste muro» (ALMEIDA, 1964: 28).
Fot. 122-127.
Este investigador acrescenta ainda que no seu interior encontrou moedas, terra
sigillatta do século I, dois fragmentos de cerâmica «tipo campaniense» e, na zona mais
baixa da escavação, junto ao solo virgem, uma zona de carvões e muitos objectos
metálicos (ALMEIDA, 1964: 28).
Na campanha de 1996, foi feita uma sondagem no interior da cella, tendo-se
concluído que o acesso ao templo se deveria fazer por uma escada que descia, uma vez
que a cota da cella era muito mais baixa do que a plataforma do pronaos. Detectou-se
ainda que as fundações do edifício se faziam a uma cota aproximada de 2 m abaixo do
nível onde foram implantadas as colunas, como já o havia verificado a equipa luso-
americana (BIERS et alii, 19812)223. Não se conseguiu encontrar qualquer nível
correspondente ao pavimento, que poderá ter sido rebentado em escavações anteriores,
pois no meio dos entulhos com que posteriormente foi cheia a cella há grandes blocos
revolvidos de opus signinum. Nesses níveis mais baixos encontraram-se cimentos
recentes, que devem datar da altura da reconstrução do edifício.  Fot. 128.
Através de uma fotografia publicada por T. Hauschild, verifica-se que algumas
partes da construção foram mesmo desmontadas para, em seu lugar, serem reedificados
novos muros (HAUSCHILD, 1989-90: lâmina 3, 2.). Conclui-se que a cella era construída
em opus incertum e que nos cantos havia silhares de maiores dimensões, situação que
actualmente não se verifica. Através da análise dessa fotografia, ficamos também na
dúvida se os muros se estenderiam para o pronaos, uma vez que esses silhares de
maiores dimensões parecem travar um dos cantos da cella. Nada indicia nesse registo
fotográfico que a construção tivesse as colunas com a disposição que D. Fernando de
Almeida lhe deu.
No entanto, em 1996, foi encontrada uma coluna adossada, junto às escadas que
acedem, do lado oeste, ao templo centralizado. Os tambores desta coluna haviam sido
colocados, em época que se desconhece, a servir de degraus das escadas. Um deles, de
maiores dimensões, mede 43 cm de largura e 25 cm de espessura. Não conseguimos, no
entanto, obter a altura total da mesma, porque verificámos pelo seu sistema de encaixe e
pela articulação de todos os elementos  a coluna ia estreitando gradualmente  que
falta pelo menos um dos tambores. Também desconhecemos que destino possa ter tido
o capitel que a encimava.  Fot. 129 a 132.
Admitimos, portanto, que se possa tratar de um templo in antis, e que o mesmo
pudesse ter colunas na fachada.
223
A equipa luso-americana admitia que «aparentemente deveria ter uma base, uma vez que é
visível uma abertura com cerca de 1,88 m e que se prolonga mais de 2 m abaixo do nível da
moderna reconstrução das bases das colunas» (BIERS et alii, 19811: s/p).

91
O templo in antis é o tipo mais rudimentar de edificação religiosa, da qual
derivam construções mais complexas. Este tipo de construção, de que existem inúmeros
exemplares na Hispânia romana224, contrariamente ao que se verifica noutras províncias
do Império, parece ter sido, tal como os templos perípteros (ou pseudoperípteros), um
dos meios eficazes de difundir a romanização nas províncias hispânicas ( BURGHOLZER,
1994, II: 78-79).
No território actualmente português, para além de Miróbriga, conhece-se uma
construção de Almofala225, que foi estudado e publicado por Helena Frade que o
classifica como templo próstilo tetrástilo (FRADE, 1994: 1026), e que alguns autores
haviam interpretado como edifício funerário (HAUSCHILD, 1989-90: 64). Recentes
escavações promovidas em Ammaia, coordenadas por Jorge Oliveira, vieram trazer à
luz os restos de uma estrutura, que aparenta ter as características de um podium de um
templo (OLIVEIRA et alii, 1996: 17 e 18), provavelmente in antis.
Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. II. 4, 5) os templos in antis deverão ter
entre as paredes duas colunas e os muros deverão ter a espessura das colunas (De
Architectura, IV. IV. 5). Se o edifício tiver mais do que 20 pés em largura deverá ter,
no frontispício, para além das pilastras, duas colunas na fachada entre os muros (De
Architectura III. II. 4 e 5), que sustinham o frontão. Esta situação pode ter-se verificado
em Miróbriga, pese a dúvida que existe sobre a proveniência das duas colunas centrais.
O edifício de Miróbriga, portanto, parece obedecer a algumas das características
típicas dos templos etrusco-itálicos: dotado de pronaos e cella, com colunas na fachada
e alae laterais (MARTA, 1990: 121) e frontalidade, fazendo-se a entrada só pela frente,
através de degraus de número ímpar que, por sua vez, assentava num podium226, a
exemplo de muitos outros templos da Península (BLÁZQUÉZ, 1993: 471).
Do ponto de vista da orientação o templo centralizado de Miróbriga cumpre
parcialmente as normas vitruvianas, porque a sua entrada está virada a Sudeste.
O acesso à parte superior do podium era feito, por seu lado, por duas escadas
laterais227, cujos degraus eram implantados na rocha escavada e que estão, do lado
nascente, praticamente intactas.  Fot. 133. No cimo desse podium existiam
centralizados os degraus por onde se fazia a entrada no templo in antis.  Ilust. 2.

224
Conhecidos na Península Ibérica são pelo menos dezasseis exemplos de templos in antis,
sendo o de Miróbriga um dos poucos que domina um forum urbano. Na maioria dos casos, os
templos in antis conhecidos são de pequenas dimensões e subordinam-se a outras construções
do núcleo urbano, como acontece em Ampúrias com os «templos gémeos» a que faremos
referência mais detalhada, em Baelo, no forum monumental, em Bilbilis, no teatro, ou em
Alcântara, junto à ponte romana (BURGHOLZER, 1994, 2.º: 78).
225
Este templo a cujo pórtico se acedia através de uma escadaria com nove degraus, foi
construído sobre um podium de 2,60 m de altura. A contrução mede 16,30x8,15 m (FRADE, 1994:
1026).
226
Recentemente, em Cartagena, documentou-se um podium com aproximadamente 33 m de
comprimento e elevado 2,50 m sobre uma praça, marcando o limite do lado norte do que seria
o antigo foro de Cartago-Nova, sobre o qual deveria assentar um templo ou templos
(Capitolium?) aos quais se acederia por escadas laterais (ROLDÁN, 1996: 57), como acontece em
Miróbriga.
227
Na Hispânia existem vários exemplos de templos dotados de escadas laterais, se bem que
todos de maiores dimensões, como são os de Évora e de Mérida (HAUSCHILD, 1994: 199). Se bem
que alguns autores tivessem querido associar a existência de escadas laterais ao culto imperial,
como acontece nos templos de Évora, Clunia, Idanha-a-Velha e, possivelmente também
Mérida, é um facto que existem outros edifícios religiosos onde se verifica uma situação
semelhante (HAUSCHILD, 1992: 138).

92
A coluna adossada que se encontra presentemente no forum  e aí colocada por D.
Fernando de Almeida  mede 3,62 m de altura, tendo a sua base 26 cm de altura e 51
cm de largura. O capitel mede 42 cm de altura.  Fot. 134. Se tivermos em atenção os
cânones vitruvianos, que defendem que a altura do capitel coríntio devia ter a espessura
da coluna, e se compararmos com as medidas da que foi recentemente encontrada,
poderemos dizer que em Miróbriga as colunas adossadas do templo poderiam ter tido,
efectivamente, esse tipo de capitéis, pese embora o exemplar aí colocado tenha
pertencido às termas.
Não obstante, mesmo admitindo-se que o templo de Miróbriga se pudesse tratar
de um templo próstilo com quatro colunas na fachada, ou pseudotetrástilo, esta nunca
poderia ter funcionado como na reconstituição apresentada por D. Fernando de
Almeida. A existirem colunas, elas estariam colocadas à frente do pronaos e não à
entrada da cella como se verifica na reconstrução efectuada.  Fot. 135.
O pronaos poderia ser fechado com muros laterais, isto se admitirmos que a
coluna recentemente encontrada estaria adossada às paredes do templo. Por seu lado, a
entrada para a cella far-se-ia pela porta que foi entaipada nesses trabalhos.
O templo centralizado de Miróbriga mede: no espaço interior do pronaos 5,4 m
de largura (18 pés) por 2,10 m de comprimento (7 pés) e a cella tem interiormente 5,4m
de largura (18 pés) por 7,20m de comprimento (24 pés). A largura do exterior do
edifício é de 7,20 m (24 pés) e o comprimento total exterior é de 12 m (40 pés).
As alae, apresentando nos nossos dias uma aparência irregular que se deve, muito
possivelmente, às fissuras, desmoronamentos, ou mesmo reconstruções efectuadas no
conjunto do templo centralizado, deveriam ser regulares. Aliás, nos primeiros
levantamentos efectuados por Dario de Sousa, ao tempo das escavações promovidas por
D. Fernando de Almeida, essa regularidade parece mais óbvia.
Segundo os cânones, a espessura dos muros deveria corresponder à oitava parte da
altura (o que em Miróbriga corresponderia a 7,20 m e, portanto, igual à largura do
edifício). Aceitando-se que as colunas mediam efectivamente 3,62 m, como a que aí foi
colocada por D. Fernando de Almeida, e que sobre elas ainda se desenvolvia um
entablamento encimado por um frontão no frontispício, pode admitir-se que a sua altura
se aproximasse desse valor, a partir da base do templo.
Um elemento arquitectónico em calcário, que se encontra do lado nascente do
forum e que apresenta nos topos um prolongamento que funcionaria como sistema de
encaixe, poderia ter pertencido à arquitrave do templo. No entanto, as suas dimensões
1,47x0,75x0,28 m228 , e mais especificamente, a sua largura, não se adaptam às do
templo centralizado, cujos muros têm 0,90 m de largura, a menos que se admitisse que
apenas pudesse encimar o frostispício.  Fot. 136.
Ainda segundo os cânones vitruvianos, a cella deverá ser um quarto mais
comprida do que a sua largura, sendo a largura metade do comprimento no total (De
Architectura, IV. IV. 1 e 2). Em Miróbriga, a cella do templo in antis obedece a esses
princípios, se bem que o comprimento total da construção seja ligeiramente inferior ao
dobro da sua largura. De notar, no entanto, que o edifício de Miróbriga tem a largura
exterior igual ao comprimento interior da cella.

228
D. Fernando de Almeida refere este elemento arquitectónico num dos seus cadernos de
campo (Museu Nacional de Arqueologia), localizando-o no local onde ainda se encontra.

93
Pelas características dessa construção e das estruturas existentes no forum,
anteriormente descritas, dificilmente se aceitará que este templo pudesse ser dedicado a
Esculápio229, parecendo-nos, deste modo, que esta construção de meados do século I,
seria, de facto, consagrada ao culto imperial 230 que, nas províncias ocidentais, teve o seu
auge com a municipalização.

229
Segundo Vitrúvio, os templos consagrados a Esculápio deveriam situar-se exactamente num
local salubre e perto de fontes de água também ela salubre (De Architectura, I. III . 13).
230
Esta ideia foi aliás já inúmeras vezes veiculada por vários autores. No entanto, Vasco
Mantas defendeu, no II Colóquio Internacional de Epigrafia, realizado em Sintra, em 1995, que
o templo centralizado do forum era efectivamente dedicado a Esculápio, cujo culto seria
dominante em Miróbriga. Baseia-se este autor nas características cenográficas e na
arquitectura contorcionada e barroca do podium onde assenta o templo, a exemplo de outros
que existem no Norte de África. Contudo, o exemplo que conhecemos de um templo dedicado
a Esculápio em Lambaesis, datado do século II d. C., embora dotado de um podium
contorcionado, apresenta características completamente diferentes, porque a esse complexo
estão associadas salas de cura (GARCIA Y BELLIDO, 1990: 452; GROS, 1996: 198). Por outro lado, o
templo de Lambaesis tem uma planta absidial que em nada se poderá comparar ao de
Miróbriga. Em contrapartida, dois dos templos do Asklepieion de Ampúrias, embora de
cronologias diferentes, poderão, a alguns níveis, assemelhar-se mais ao de Miróbriga, uma vez
que se trata de construções in antis e tetrástilas. No interior do mais antigo, datável do século
IV a. C., foi encontrada parte da estátua da divindade. A segunda construção data do período
republicano (SANMARTÍ, 1990: 136-139). Não obstante, em Ampúrias, a existência de cisternas e
poços em frente dos templos, atestando a existência de abluções rituais, a construção de
edificações com funções terapêuticas e ainda a associação destas com outras relacionadas com
o culto de Serapis, poderão corroborar a ideia de que se trata efectivamente de um santuário de
características curativas (SANMARTÍ, 1990: 139), situação que não se verifica no local que
estudamos. No entanto, a existência da ara dedicada a Esculápio continua, como já vimos, a
fazer admitir da existência de um templo dedicado a esta divindade (ALARCÃO, 1990: 465;
ENCARNAÇÃO, 1996: 138). Julgamos ser aceitável que possa ter havido uma aedicula consagrada
a esta divindade, a exemplo de Nova Cartago, a que já anteriormente nos referimos.

94
4. O Templo de planta absidial

Uma outra construção, de planta absidial, tem sido atribuída ao culto de Vénus 231
(ALMEIDA, 1964: 26 e 71), baseando-se na arquitectura do edifício, comum, segundo
D. Fernando de Almeida, a outros templos dedicados à mesma divindade e nos dados
arqueológicos232 conhecidos.
Se, por um lado, a sua planta tem levantado algumas dúvidas, porque os templos
basilicais são pouco usuais em edifícios religiosos, na Lusitânia 233, que aqui apresentam
maioritariamente um aspecto rectangular (JIMÉNEZ, 19871: 53), sendo mais comum o seu
uso em edifícios civis234, é um facto que em Itália este tipo foi muito utilizado a partir
dos começos da época imperial (GROS, 1996: 140).
O primeiro exemplar conhecido de «templo de abside» é exactamente dedicado a
Venus Genetrix e foi construído em posição dominante do Forum Iulium para
homenagear a origem mítica dos Iulii235 (GROS, 1996: 140).
Data de 2 a. C. a inauguração do templo de Mars Ultor que também apresenta
uma planta da mesma tipologia, ocupando a abside um lugar na cella análogo ao templo
de Venus Genetrix (GROS, 1996: 142).
No entanto, o aspecto cenográfico do templo dedicado a Venus Genetrix,
construído sobre um podium de 5 m, poderá, a uma escala diferente, lembrar a
localização sobranceira que no forum assume o templo absidial de Miróbriga. A
escadaria pela qual se lhe acederia, contribuía para dar ao edifício um aspecto ainda
mais imponente.
O facto de o culto a Vénus estar atestado em Miróbriga, quer arqueologicamente,
através de fragmentos de uma estátua onde a deusa Vénus Capitolina é representada
com a ânfora, quer através de epígrafes236, contribuiu para que a associação se fizesse.
De facto, em Miróbriga existem duas inscrições dedicadas a Vénus a que já nos
referimos: uma, cujo dedicante é Caius Iulius Rufinus, magister, indígena romanizado
que adoptando o gentilício e um praenomen comum da gens Iulia, adoptou também o
culto privilegiado da mesma gens (IRCP 146; ALARCÃO, 1985 2: 110) e que poderá ter

231
Segundo Vitrúvio, os templos de Vénus deveriam situar-se fora das muralhas para que os
jovens e as mães de família não se habituem às paixões de Vénus (De Architectura, I. XII. 11).
232
«Por ali perto apareceram fragmentos de uma estátua de mármore branco (parte da perna e
do pé esquerdo), bem como uma ânfora e a roupagem sobre ela colocada» (ALMEIDA, 1988: 27).
233
No entanto o templo de Milreu, de cronologia tardia  século IV d. C. , apresenta uma
planta absidial (HAUSCHILD, 1989-90: 74 e 1997: 410). Em Clunia existe também um templo
porticado cujo podium, na sua parte posterior, tem uma planta absidial (PALOL, 1989-90: 45 e 48).
234
Sobre este tema ver BALTY, 1991: 179. No entanto, em Clunia existe um edifício de planta
absidial, que P. Palol interpreta como capitolium (PALOL, 1987: 157). Em Córdova foi construído,
em finais do século III-inícios do século IV, um complexo monumental, onde um conjunto de
construções de planta absidial, muito vinculada à arquitectura imperial (BALTY, 1991: 605), se
articula com um pórtico (HIDALGO PRIETO, 1994: 207-208; HIDALGO, et alii, 1994: 51). Trata-se de
edifícios administrativos, nomeadamente, de basílicas ou cúrias (BALTY, 1991: 402 e 404).
235
Segundo Suetónio, Júlio César, no discurso fúnebre de sua tia Júlia, terá afirmado «é de
Vénus que descendem os Júlios, que constituem a nossa família» (SUETÓNIO, ed. 1978: 23).
236
Não obstante, também existe uma dedicatória homenageando Marte (ENCARNAÇÃO, 1984:
221), sem que alguma vez se tenha associado esta inscrição ao templo absidiado.

95
desempenhado funções religiosas237; e outra, consagrada a Vénus Vencedora Augusta
em honra de Lucília Lepidina (ENCARNAÇÃO, 1984: 224)238 .
A equipa americana, atendendo à planta do edifício, caracterizou-o como
assemelhando-se a uma «basílica cristã» (BIERS et alii, 1988: 15).
O acesso a este templo fazia-se através de uma escadaria escavada na rocha que o
une à praça pública, como anteriormente referimos. Esta construção, edificada
relativamente perto do templo centralizado, é também construída em opus
caementicium. O seu pavimento é revestido com opus signinum que assentava, por sua
vez, numa obra com características semelhantes ao statumen. Não há vestígios de terem
sido aplicadas sobre o mesmo quaisquer placas calcárias ou marmóreas. No centro da
abside é visível uma base de altar.  Ilust. 2-4.
O templo era dividido em três naves, medindo as laterais cerca de 4 m. A largura
total do edifício é de 15 m e o comprimento é de cerca de 10 m.

237
O culto a Vénus sem um dos atributos habituais, Augusta, Victix ou Domina, está atestado
pela primeira vez na Península (ENCARNAÇÃO, 1984: 222).
238
Dedicada por uma mulher, Flávia Tícia (ENCARNAÇÃO, op. cit.: 223), da gens Flavia, que Jorge
de Alarcão admite remontar à municipalização de Miróbriga (ALARCÃO, 19852: 110).

96
5. As tabernae

O movimento comercial é parte integrante da vida de qualquer cidade romana.


Para os comerciantes é, primordialmente, um centro de troca de produtos.
O forum que, na sua fase inicial, para além de centro religioso e político-
-administrativo, assumia a polarização dos aspectos sociais e comerciais vai
gradualmente, a partir do final da época republicana, alterando as suas funções, ou seja,
em termos gerais, vai-se especializando.
Os aspectos mercantis passam a agrupar-se, então, em mercados independentes,
macella239, em alguns dos casos situados nas imediações dos fora (JIMÉNEZ, 19872: 173;
PALOL; 1987: 157; BALTY, 1993: 31; KEAY, 1994: 256 ) ou em tabernae não integradas no
forum. Esta tendência é acentuada a partir das grandes renovações claudianas (JIMÉNEZ,
19871: 64).
O aspecto geral do forum e das tabernae de Miróbriga apresenta, pois,
semelhanças com alguns desses fora imperiais, em que as actividades comerciais
manifestam tendência para ser afastadas do forum.
Muitas dessas lojas, as tabernae240, são de pequenas dimensões e situam-se no rés-
do-chão das habitações, comunicando directamente para a rua. Em alguns casos a
ligação aos aposentos fazia-se através de escadas que acediam a um piso superior. Os
depósitos ou armazéns podiam localizar-se em compartimentos mais interiores, na parte
de trás das tabernae.  Fot. 138 e 139.
Em Miróbriga, as tabernae parecem concentrar-se junto das calçadas concêntricas
que se desenvolvem em volta do forum241. Do restante aglomerado pouco se conhece,
até porque, como já anteriormente referimos, não foram identificadas, até à presente
data, muitas habitações.
Apenas no declive a sul do forum e numa das calçadas que o circunda pelo lado
noroeste é óbvia a associação das actividades comerciais à arquitectura doméstica,
porque é clara a existência de mais do que um piso.  Ilust. 3-7. Dos restantes edifícios
também classificados, pelas suas características, como tabernae  como é o caso dos
que se desenvolvem do lado norte da calçada que desce em direcção às termas , poucas
ilações se conseguem tirar, porque apenas são visíveis os vestígios de muros de
compartimentos unicelulares, sem aparente ligação. Em alguma dessas possíveis
tabernae o pavimento era revestido a opus signinum.  Fot. 140 e 141.

239
Em Braga parece documentar-se a existência de um macellum (ALARCÃO et alii, 1994: 71-81).
240
As tabernae providas, na sua maioria, de um balcão a todo o comprimento, vendem toda a
espécie de bens que vão desde os artefactos metálicos, cerâmicos, vítreos, marmóreos, às peças
de vestuário e de pele e às iguarias vindas de todo o Império. Para o consumo de alimentos
existem as lojas que assumem características semelhantes ao que entendemos hoje por tabernas
 são os thermopolia.
241
Se bem que as ruas fossem, em algumas cidades, organizadas de acordo com as várias
especializações e associações profissionais, desenvolvendo-se o comércio com lojistas
especializados, na maioria dos aglomerados urbanos elas espalham-se por todo o lado sem
qualquer tipo de organização preestabelecida, o que origina um sistema de produção
marcadamente personalista (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 88).

97
No declive do lado sul do forum é visível um conjunto dessas construções,
obedecendo uma parte deste conjunto à orientação geral da praça. O desnível entre a
praça e a rua onde desembocam algumas dessas tabernae vence-se através da edificação
de um talude de sustentação que, paralelamente, foi utilizado como muro onde adossam
essas construções. Esta situação tem aliás um certo paralelo com as «Termas Este».
Na sua maioria, um só compartimento ocupa o piso térreo (algumas delas foram
só parcialmente escavadas, pelo que não podemos assegurar que não existam situações
de dois compartimentos). Deveriam ter dois ou três pisos, atendendo à altura do muro
de sustentação visível do lado sul do forum e os pisos superiores poderiam ter sido
utilizados como áreas habitacionais.  Ilust. 6 e 7.
A existência de uma argola de ferro cravada e soldada numa das construções desta
zona comercial tem contribuído para a relacionar com as actividades mercantis (BIERS
et alii, 1981: 34).

O tipo de soleira vulgarmente usada nesta zona de Miróbriga  onde não são
visíveis encaixes para as portas, mas apenas uma ranhura ao longo de toda a soleira 
permite admitir que as tabernae seriam fechadas por tapumes de madeira movíveis que
se fixam às portas, a exemplo dos termopolia de Herculano.
As tabernae de Miróbriga são também construídas em opus incertum. No entanto,
em alguns casos, na zona da fachada são usados grandes silhares aparelhados, alguns
dos quais rusticados, característicos da época de Cláudio-Nero, mas cuja utilização, nas
províncias, poderá ser ligeiramente mais tardia. Esta cronologia é, em Miróbriga,
confirmada pelos materiais arqueológicos provenientes das sondagens efectuadas nesta
área pela equipa luso-americana (BIERS et alii, 1982: 36).
Numa dessas tabernae, de planta irregular, pois alarga no sentido da rua (8,70 m
de comprimento e 1,88 m de largura no topo norte e 2,58 m de largura na zona sul)
encontra-se um silhar aparelhado com uma cabeça de touro esculpida. Localiza-se junto
à escadaria que permitia, numa fase inicial, o acesso ao forum a partir da calçada ao
longo da qual se desenvolvem as tabernae (ALMEIDA, 1964: 30; BIERS et alii 1992: 37).
Esta escada deve ter perdido a sua função, numa fase posterior, porque na parte
superior, por onde acedia à praça pública, foi feito um estrangulamento.
O silhar esculpido é de relativamente grandes proporções (alt. 38 cm; comp. 92
cm; espess. 43 cm. A cabeça de touro naturalista assemelha-se a algumas imitações dos
motivos helenísticos datadas do século I a. C. O touro ocupa um campo quadrangular de
22x22 cm, enquadrando-se no lado esquerdo. O bloco está fragmentado em duas partes.
Deve estar fora do seu contexto (BIERS et alii, 1981: 34), uma vez que se encontra no
nível térreo das construções e não tem qualquer ligante ou argamassa que o una aos
próximos.
Tratando-se de um motivo decorativo com as características que tem, deveria
estar implantado num lugar visível da construção a que pertencia. Não existe, no
entanto, qualquer referência à sua deslocação para este local, pelo que só escavações na
área poderão contribuir para um melhor conhecimento dos espaços arquitectónicos no
seu conjunto. A sua cronologia deverá corresponder ao século I d. C. (BARATA: 1994, 73-
77).
Nas redondezas, há outros blocos de grandes dimensões, colocados de uma forma
indiscriminada, alguns deles rusticados, apontando para a existência de grandes
construções em época claudiana ou pós-claudiana, uma vez que é nesse período que

98
entra em moda o aparelho rusticado. Muito possivelmente estes silhares provêm das
construções do forum e devem aí ter sido colocados em trabalhos arqueológicos
anteriores, mas de que não há registo. Em muitos deles são visíveis os orifícios onde se
prendiam os ferrei forfices utilizados para a sua elevação.
Em frente das construções que deverão corresponder à zona mercantil de que
temos vindo a falar, existe uma edificação que tem sido identificada como hospedaria
ou stabulum (BIERS et alii, 1984: 48-51), pela existência de vários quartos e salas de
refeições decorados com pinturas murais, datáveis de meados do século I d. C. (op. cit.,
loc. cit.; BIERS et alii, 1982: 38; 1983: 60-61), fazendo parte do massivo desenvolvimento
urbano de Miróbriga (BIERS et alii, 1984: 48-51). Muito recentemente, já em 1996, foi
encontrado no interior de um dos compartimentos desta construção o fragmento de uma
taça em terra sigillata marmoreada, cuja cronologia aponta para a época de Nero.
No entanto, a planta do designado stabulum  que é só parcialmente conhecida,
até porque parte desta construção, erigida junto a um grande declive, se tem vindo a
desmoronar  articula-se em torno de um átrio que deveria ser porticado, fazendo-nos
admitir, como já referimos, que a mesma se trate de uma domus.
A equipa luso-americana aponta a construção da calçada que medeia as tabernae e
a edificação que designam com «south building» ou hospedaria para uma data
compreendida entre 60 e 70 d.C. (BIERS et alii, 1983: 63; 1984: 48-51).

99
VI  CONCLUSÃO

Como expressámos na Apresentação deste trabalho  onde, de algum modo,


levantámos algumas das questões que, do nosso ponto de vista, dificultam a abordagem
deste Sítio Arqueológico, no estado actual dos conhecimentos, e ainda as que se
prendem com o processo de Romanização no Sudoeste Peninsular, e mais
especificamente da ciuitas de Miróbriga -, mais do que conclusões, poderemos apontar
caminhos para uma futura investigação.
Gostaríamos, no entanto de justificar, as duas vertentes de trabalho que nos
propomos delinear: o aglomerado urbano e a sua Ciuitas.
No que se refere ao aglomerado urbano e às construções que nele se inserem,
fomos confrontadas com a dificuldade em poder atribuir uma cronologia segura a
grande parte das estruturas arquitectónicas conhecidas, uma vez que os materiais
arqueológicos inéditos, em depósito em Miróbriga ou no Museu Municipal de Santiago
do Cacém, provenientes de antigas escavações, não possuem qualquer contexto
arqueológico ou alguma referência relativa ao seu achado.
Muitas das publicações de materiais arqueológicos de Miróbriga, que referimos
no capítulo I deste trabalho, se bem que nos tenham sido muito úteis do ponto de vista
das balizas de ocupação do aglomerado, participam, contudo, dessa dificuldade em
contextualizar os achados, porque da maioria dos espécimes descritos e classificados se
desconhece o local de origem. Acresce-se ainda a estas dificuldades o facto das
sondagens efectuadas pela equipa luso-americana no forum e nas áreas residenciais,
cujo conhecimento seria do maior interesse para o nosso trabalho, não terem sido,
infelizmente, publicadas. Deste modo, o trabalho editado sob a coordenação de William
Biers, se bem que incidindo fundamentalmente nas termas e no hipódromo, foi de uma
importância crucial para o estudo que efectuámos.
Por outro lado, cabe-nos ainda salientar que as escavações promovidas sob a
nossa coordenação em Miróbriga obedeceram genericamente a critérios patrimoniais,
uma vez que se prentendia, numa primeira fase, resolver questões prioritárias quanto à
preservação dos vestígios arqueológicos. Os materiais arqueológicos provenientes
dessas intervenções estão em fase de estudo, nomeadamente os referentes à domus
localizada na área limítrofe à capela de S. Brás, cuja escavação ainda não se terminou.
Alguns dos resultados obtidos foram, não obstante, pontualmente introduzidos ao longo
do texto.
Deste modo, tendo em vista responder a muitas das questões que se colocam ao
conhecimento da arquitectura e do urbanismo de Miróbriga, torna-se, pois, necessário
viabilizar um conjunto de acções, cujo programa foi já sistematizado, e que esperamos
se possa concretizar a médio prazo.
Em primeiro lugar, é fundamental clarificar algumas das zonas parcialmente
escavadas, como as termas, cujos edifícios, embora conhecidos em grande parte, não o
são na totalidade; as construções que se desenvolvem no lado sul do forum,
identificadas como tabernae, cuja escavação, efectuada há algumas décadas, se reduziu
à parte frontal das mesmas; as edificações que se situam junto à calçada que desce em
direcção às termas, onde apenas os muros de limite foram postos a descoberto, em

100
intervenções promovidas por D. Fernando de Almeida, e as zonas habitacionais, que são
muito pouco conhecidas.
Estas acções permitirão, de algum modo, ajudar a compreender as estruturas
básicas do aglomerado romano.
Por outro lado, é fundamental promover um estudo aprofundado dos vestígios de
ocupação sidérica em Miróbriga, efectuando sondagens e escavações no Castelo Velho.
Paralelamente deverão ser feitos registos pormenorizados dos vestígios dispersos
na envolvente da zona nuclear do aglomerado urbano, que permitam uma melhor
definição da extensão de Miróbriga.
Deverá ainda ser feito um levantamento gráfico (desenho) e fotográfico de todas
as estruturas arqueológicas postas a descoberto em antigas escavações, mas que ainda
não foram registadas em pormenor, nomeadamente dos seus alçados, para que se possa
continuar o estudo arquitectónico das mesmas.
A segunda vertente de investigação - a ciuitas - prende-se com a necessidade de
entender a forma como se processou a ocupação deste território. Do nosso ponto de
vista, deverá, por um lado, ser feito um estudo aprofundado dos vestígios da ocupação
sidérica em Miróbriga e, por outro, ser efectuado um levantamento exaustivo dos
povoados da Idade do Ferro que foram romanizados nesta região. Estes dados deverão
ser confrontados com as cronologias apontadas para os vestígios de ocupação romana
ex-novo, de molde a poder aferir-se a existência (ou não) de um modelo de
Romanização no Sudoeste Peninsular e as cronologias respeitantes a uma ocupação
plena do território.
Apesar de terem sido já referenciados bastantes vestígios que parecem
corresponder a uillae e a antigas minas, é também imprescindível, por um lado, fazer
um levantamento sistemático dos recursos que justificam a implantação romana, e, por
outro, tentar identificar os mecanismos de produção e de circulação de bens e
mercadorias, pois só assim é possível uma melhor caracterização da ciuitas de
Miróbriga, no que diz respeito a:
- Recursos metalúrgicos
Deverá ser feito um levantamento sistemático das minas e dos fornos
metalúrgicos e averiguar a sua origem romana, nomeadamente na área compreendida
pelo actual concelho de Santiago do Cacém, com particular incidência na Serra do
Cercal, que deveria ser um dos locais de maior exploração mineira.
- Recursos agrícolas e organização da produção
É fundamental proceder a prospecções mais sistemáticas tendo em vista
confirmar a existência de casas agrícolas romanas na envolvente de Miróbriga e da sua
interligação com o aglomerado urbano.
- Produção de preparados piscícolas
Deverá ser efectuado um levantamento de possíveis complexos fabris de
transformação do pescado, nomeadamente na periferia do que seria a Lagoa de Pêra e a
Lagoa de Santo André.
- Produção oleira

101
Torna-se necessário proceder ao reconhecimento de fornos de produção de
ânforas e das cerâmicas locais características de Miróbriga, identificadas pela equipa
luso-americana como «Pink Miróbriga».
- Eixos de circulação viária
Deverá proceder-se a prospecções no sentido de clarificar a existência de vestígios
de possíveis estradas vicinais.

 Limites da Ciuitas
Deverão ser incentivadas prospecções que colaborem numa melhor definição dos
limites da ciuitas, tentando localizar possíveis termini.

Pesem as dificuldades apresentadas e os planos de acção que nos propomos


desenvolver a médio prazo, tendo em vista esclarecer muitas das questões em aberto,
não desejaríamos, contudo, de deixar de fazer uma caracterização sumária de
Miróbriga. Para esse efeito organizámos uma ficha - Apêndice I - baseada no
inventário publicado em Architecture et Urbanisme en Gaule Romaine, coordenado por
Robert Bedon, Raymond Chevallier e Pierre Pinon, em 1988.
Apresentamos ainda o «Projecto de Valorização»- Apêndice II - onde fazemos o
balanço das actividades desenvolvidas desde 1990, data em que iniciámos a nossa
colaboração em Miróbriga, desejando que este trabalho possa ser um levantamento das
questões em aberto e que possa servir, futuramente, como uma espécie de guião na
busca de algumas respostas.

102
APÊNDICE I
Miróbriga

Localização: Chãos Salgados, concelho de Santiago do Cacém, distrito de


Setúbal.

Fontes: Plínio e Ptolemeu.

Quadro geográfico: Miróbriga fica situada no limite de uma faixa acidentada que
se desenvolve a Este, constituída pelos contrafortes da Serra de Grândola e do Cercal,
de que a colina onde se situa o oppidum se pode considerar a retaguarda. A Oeste,
distando aproximadamente 15 Km em linha recta, o Oceano Atlântico.

Antecedentes/ocupação anterior: Oppidum da Idade do Ferro. Alguns


investigadores (Carlos Tavares da Silva) fazem-na recuar até à Idade do Bronze.

Contacto com Roma: a partir de finais do século II a. C.

Ocupação plena: Século I d. C.


Oppidum Stipendiarium, segundo Plínio. Ascendeu a Municipium na época
flávia.

Grandes intervenções arquitectónicas: Época flávia.

Esquema da malha urbana: A área nuclear do aglomerado urbano ocupa


aproximadamente 3 ha. Aparecem vestígios dispersos numa área com cerca de 8-9 ha.
A sua malha urbana adapta-se à topografia, desenvolvendo-se o casario em volta do
forum como que em anéis concêntricos.

Arquitectura doméstica: Várias insulae que atestam uma ocupação entre o


século I d.C. e o século IV d. C. e três domus (?).

Obras Públicas
Forum: Orientado Noroeste/Sudeste. Praça praticamente quadrangular e templo
in antis centralizado com podium. Estruturas que devem corresponder a uma Basílica e
a uma Cúria.
Arquitectura religiosa: Dois templos  um dedicado ao culto imperial e outro a
Vénus (?).

103
Termas: Balnea com dois edifícios adossados e articulados entre si,
provavelmente para uso descriminado dos dois sexos. Datáveis da segunda metade do
século I-século II d. C.
Estruturas hidráulicas: São conhecidos inúmeros esgotos e canalizações ao
longo do aglomerado. Não se conhecem fontes ou poços no interior do núcleo urbano
actualmente conhecido, onde apenas se identificaram reservatórios e um poço de
decantação junto às termas. Nos terrenos adjacentes foram, contudo, localizados dois
putei.
Locais de espectáculo: Um hipódromo ou circo, distando do centro do
aglomerado aproximadamente 1 Km. Não se conhecem vestígios das suas bancadas. A
sua construção deve datar do século II d. C. e o auge da sua utilização deve ter
correspondido ao século III d. C., seguida do seu declínio a partir de finais dessa
centúria.
Rede viária: Os troços conhecidos de calçadas são construídos com grandes lajes
assentes directamente no afloramento xistoso ou sobre o solo. Carecem de qualquer
tratamento para a sua colocação, ou seja statumen e rudus. Medem, em média,
aproximadamente 10-11 pés de largura.

Divindades identificadas: Vénus, Marte, Cibele (?) e Vulcano (?).

Necrópoles: Apenas se conhecem duas sepulturas tardias, possivelmente


medievais. Recentemente foi identificada uma terceira sepultura (ainda não escavada),
que aponta para o período tardo-romano.

Programa de Valorização: Tem vindo a ser desenvolvido desde 1990.

Infra-estruturas de apoio: Uma recepção e uma pequena exposição na capela de


S. Brás. Espera-se que este Sítio Arqueológico possa vir a ter um «Centro
Interpretativo» que permita, paralelamente, servir o seu estudo, conservação e fruição
pública.

Estado de conservação: Razoável. Tem vindo a ser objecto de várias acções de


manutenção, conservação e restauro, fundamentalmente nos Balnea.

104
APÊNDICE II

O PROJECTO DE VALORIZAÇÃO
E AS ÚLTIMAS CAMPANHAS REALIZADAS EM MIRÓBRIGA

1. O «Projecto de Valorização»

No seguimento da sua entrada para o ex-Serviço Regional de Arqueologia da


Zona Sul do IPPC, Susana Helena Correia fez uma proposta de intervenção para este
Sítio Arqueológico, em que se propunham uma série de medidas, de curto e médio
prazo, para a valorização de Miróbriga242 (CORREIA, 1987: 47-50).
Para dar continuidade aos trabalhos encetados ou propostos nessa altura, cuja
coordenação estava, à altura, a cargo de Susana Helena Correia, e atendendo ao facto de
que o então Instituto Português do Património Cultural considerava o Sítio
Arqueológico de Miróbriga como necessitado de uma intervenção prioritária, no
conjunto das estações arqueológicas que lhe estavam afectas, decidiu o extinto Serviço
Regional de Arqueologia da Zona Sul elaborar um novo programa de acções, contando,
a partir dessa data, com a nossa colaboração. Foi nessa medida que apresentámos, em
1990, à apreciação do IPPC/IPPAR um plano de trabalho que tinha em vista a
Valorização de Miróbriga (BARATA, 1990: 61-67)243.
Deste modo, a primeira necessidade que se colocou foi de identificar prioridades,
definir critérios e planificar acções, tendo-se optado por fazer um «Plano de Gestão» e
«Planos de Acção» periódicos244 para Miróbriga.

Fez-se, pois, um levantamento das situações que necessitavam de uma mais


urgente intervenção, tendo como princípio que, paralelamente a quaisquer escavações,
devessem ser preparadas acções de conservação, consolidação e restauro das estruturas
arqueológicas, para que pudessem ser minimizados os factores de destruição dos
vestígios, após as intervenções.

Sempre que possível  estando dependente da existência de meios logísticos


apropriados  deveria ser considerada a hipótese do tratamento local do espólio

242
Nesse programa eram considerados prioritários, em termos gerais, os seguintes aspectos:
arranjo da capela de S. Brás para criação de um espaço de introdução à problemática da
estação; arranjo dos acessos e infra-estruturas de apoio aos visitantes; limpeza e manutenção;
sinalização; edição de um desdobrável e de um roteiro.
243
Por «Valorização» entendemos um conjunto de acções que têm em vista salientar a
importância cultural de um Sítio Arqueológico e contribuir, paralelamente, para o seu
conhecimento, preservação, divulgação e fruição pública. Esse «Programa» tinha como pano
de fundo um outro documento entregue ao IPPC sobre a «Conservação, Salvaguarda e
Valorização dos Sítios Arqueológicos», onde, em traços gerais, se tentava aferir alguns
critérios para a definição de prioridades sobre os Sítios Arqueológicos a ser intervencionados.
Alguns anos depois, esse trabalho foi retomado, tendo conduzido a uma reflexão
«Conservação, Salvaguarda e Valorização dos Sítios Arqueológicos» apresentada no Encontro
de Arqueologia Urbana de Braga, em 1994 (BARATA, 1994).
244
Segundo os conceitos usados por CARRERA, 1993: 103 e 106.

105
exumado. Para esse efeito, os programas de intervenção deveriam integrar arqueólogos
e técnicos ligados ao restauro de estruturas e materiais.
No «Projecto de Valorização» que apresentámos fazia-se um balanço sucinto de
todas as anteriores intervenções, apresentava-se um conjunto de acções a implementar e
era feita uma sistematização dos principais objectivos de que o mesmo deveria
enformar245.
No seguimento dos projectos apresentados foi desenvolvida uma série de
actividades que visavam fundamentalmente a criação de infra-estruturas de apoio ao
visitante, através da recuperação da capela quinhentista de S. Brás, em Miróbriga .
 Ilust. 8.

245
l. Protecção da Área Arqueológica
1.1. Agentes erosivos atmosféricos
1.2. Vandalização
1. 3. Desbloqueamento do processo de aquisição das parcelas particulares já vedadas.
2. Manutenção
2. 1. Limpeza/desmatação
3. Restauro e consolidação de estruturas
3.1. Avaliação das situações prioritárias
3.2. Levantamento dos meios humanos, económicos e técnicos para as intervenções
4. Levantamento de toda a documentação relativa à estação arqueológica de Miróbriga
4.1. Levantamento da documentação relativa às intervenções de natureza arqueológica havidas
nesta estação, quer a nível das sondagens e escavações, quer a nível de trabalhos de protecção,
conservação e restauro, bem como das publicações sobre os materiais exumados.
4.2. Tentativa de organização desta documentação e estudo da sua eventual utilização numa
exposição monográfica
5. Levantamento do espólio da estação
5.1. Levantamento do espólio exumado nesta estação e disperso por muitos museus,
instituições e lugares e seu eventual levantamento fotográfico.
6. Prospecção  Escavações
6.1. Prospecção Geofísica
6.2. Teledetecção por satélite
6.3. Escavações
7. Obras Novas  Infra-estruturas
7.l. Continuação das obras de arranjo da capela de S .Brás, bem como da área envolvente
7.2. Arranjo dos acessos
7.3. Definição de zonas de estacionamento
7.4. Telefone
8. Clarificação dos Percursos  Sinalização
8.1. Estudo e clarificação dos percursos de acesso aos núcleos arqueológicos
8.2. Projecto de implementação da sinalização de I nível  painéis explicativos dos núcleos
principais e avisos aos visitantes
9. Divulgação
9.1. Edição do Roteiro de Miróbriga (com texto e coordenação de Susana Helena Correia)
9.2. Edição de um desdobrável sobre a estação
9.3. Edição de uma colecção de diapositivos sobre a estação
9.4. Edição de postais
9.5. Vídeo sobre a estação
9.6. Criação do logotipo da estação
9.7. Estudo de formas de integração da estação em roteiros turísticos nacionais e
internacionais, fazendo a sua divulgação junto de entidades culturais e agências de viagens 
Região de Turismo da Costa Azul.
l0. Exposição Monográfica na Capela de S. Brás
10.1. Estudo do guião
10.2. Projecto Museográfico
10.3. Execução
11. Perspectivas de Continuação da Investigação em Miróbriga

106
Nesse contexto, em Julho de 1990, inaugurou-se nesse local uma pequena
exposição sobre «Miróbriga no Mundo Romano» e realizou-se um espectáculo no
forum, que pretendiam sensibilizar o público para a importância de Miróbriga  Fot.
142.
Ainda nesse ano e seguinte continuou-se o trabalho de inventariação dos materiais
arqueológicos provenientes de anteriores escavações que se encontravam depositados
em Miróbriga, trabalho esse que, desde essa altura, tem sido coordenado por Susana
Helena Correia, e fizeram-se algumas acções que tinham em vista a manutenção do
Sítio.
A partir desse momento, realizaram-se múltiplas acções, quer de intervenção
directa em Miróbriga, quer de âmbito mais abrangente, tendo em vista uma participação
mais directa da comunidade, com especial destaque para a população escolar de
Santiago do Cacém. Poderíamos genericamente agrupá-las nos seguintes items:

2. Acções de sensibilização e de divulgação

Iniciou-se 246 com alunos e professores do «Clube Europeu de Arqueologia» da


Escola Secundária de Santiago do Cacém um conjunto de actividades que tinham em
vista a sensibilização ao património arqueológico e a divulgação e valorização de
Miróbriga, nomeadamente:
A organização de um ciclo de conferências sobre a Arqueologia no Litoral
Alentejano247;  Fot. 143.
A reconstituição da Taberna Romana de Miróbriga248, onde se pretendia fazer
uma sensibilização aos vestígios arqueológicos do aglomerado urbano de Miróbriga,
tendo como base a réplica de uma taberna, e ainda dar a conhecer o vestuário, os
objectos utilizados na vida quotidiana e alguns dos hábitos alimentares do mundo
romano. Em paralelo foi feita a edição de um pequeno desdobrável sobre as tabernae.
Fot. 144.
O Clube colaborou ainda na edição da brochura Miróbriga no Mundo Romano,
visando a população escolar249, e elaborou o texto de apoio O que é a Arqueologia?250.

(Numa primeira fase as escavações devem obedecer fundamentalmente a critérios patrimoniais


e só numa segunda fase se implementará um projecto que tenha em vista o melhor
conhecimento do urbanismo de Miróbriga.
246
O «Clube Europeu de Arqueologia» foi criado e coordenado pela signatária na Escola
Secundária Manuel da Fonseca, Santiago do Cacém, local onde havia sido colocada a fazer a
profissionalização em exercício, no ano lectivo de 1991-1992.
247
Este ciclo de conferências de iniciativa do «Clube Europeu de Arqueologia» teve a
colaboração da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, da Associação Cultural de Santiago
do Cacém, do Centro de Recursos Educativos de Santo André e de investigadores de todos os
períodos cronológicos que têm trabalhado no litoral alentejano.
248
Esta actividade realizou-se com o apoio do IPPC/IPPAR e teve lugar durante a Feira Agrícola
de Santiago do Cacém.
249
Baseada no guião da exposição que se pode ver em Miróbriga, de nossa autoria e de Susana
Helena Correia, esta publicação serve de apoio ao conteúdo programático da disciplina de
História do 7.º ano do Curso Unificado e é complementada com uma ficha de observação da
estação arqueológica.
250
Com texto da signatária e desenhos de Maria Antónia Tinturé.

107
Foram ainda publicados alguns artigos sobre a necessidade de uma nova abordagem da
arqueologia no ensino secundário251.
Em 1993 realizou-se no hipódromo romano de Miróbriga um espectáculo 252, cuja
ideia tinha como base recriar o ambiente lúdico vivido num local com estas
características e que teve o apoio de várias entidades Fot. 145 e 146.
Paralelamente às actividades de sensibilização e de divulgação o «Clube Europeu
de Arqueologia» passou a participar, a par dos profissionais e voluntários provenientes
de Universidades nacionais e estrangeiras, nos campos de trabalho em Miróbriga, sendo
as actividades aí desenvolvidas coordenadas pela equipa responsável do «Projecto de
Valorização de Miróbriga», que passou a contar, a partir dessa data, com o apoio de
uma equipa de conservação e restauro253.
Simultaneamente, activaram-se vários mecanismos de promoção deste Sítio
Arqueológico, através da edição de materiais de divulgação e encetaram-se contactos
com a Secretaria de Estado do Turismo no sentido de Miróbriga ser integrada em
circuitos turísticos.
Essas negociações culminaram com a assinatura, em Miróbriga, em Novembro de
1994, de um acordo entre a Secretaria de Estado da Cultura, através do IPPAR, e a
Secretaria de Estado do Turismo, através do Fundo de Turismo, que tem como
objectivo a criação de «Itinerários Arqueológicos no Alentejo e Algarve»254.
Para essa ocasião foi feita uma pequena exposição e foi editada uma brochura
onde se explicitavam os objectivos desse acordo e onde se apresentavam sumariamente
os programas de valorização existentes para os Sítios Arqueológicos 255.  Fot. 147.
Ainda no âmbito da divulgação, em 1995, no dia do concelho de Santiago do
Cacém, realizou-se em Miróbriga um espectáculo, «The Ermine Street Guard»,
recriação de uma legião romana em combate 256,  Fot. 148. Nessa ocasião promoveram-
se ainda outras acções de divulgação, como a execução de vários materiais
promocionais, e ainda a mostra de uma pequena exposição sobre o exército romano257.

251
Nomeadamente para o Centro de Recursos Educativos, para a Associação de Municípios de
Setúbal e para o Ministério da Educação.
252
Organizado pelo IPPAR, Clube Europeu de Arqueologia, Câmara Municipal de Santiago do
Cacém, Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Santiago do Cacém, Comando Geral da Guarda
Nacional Republicana e Centro Equestre de Santo André.
253
Coordenada por Antónia González Tinturé e Joaquim Garcia.
254
Esse acordo ainda em vigor contempla treze sítios arqueológicos do Alentejo e do Algarve,
tendo em vista, genericamente, a concretização de acções de conservação, manutenção,
restauro, estudo e valorização e ainda a criação de infra-estruturas de apoio aos visitantes.
255
Para a estação arqueológica de Miróbriga foram consideradas prioritárias as seguintes
intervenções: criação de um centro de acolhimento aos visitantes; sinalização das estruturas
visitáveis; arranjo paisagístico das ruínas e sua envolvente; cobertura de áreas que
prioritariamente dela necessitassem; vedação (substituição parcial da rede existente, muito
degradada); execução de material promocional (edições e réplicas); escavações arqueológicas;
conservação e restauro de estruturas arqueológicas em zonas carenciadas; acções de divulgação
e de sensibilização junto da comunidade local e do público em geral.
256
Esta inciativa conjunta do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico
e do Instituto Português de Museus realizou-se em Conímbriga e Miróbriga, respectivamente a
23 e 25 de Julho de 1995.
257
Esta iniciativa teve a colaboração do Museu Monográfico de Conímbriga, que a concebeu e
nela participou, tendo-se realizado o mesmo espectáculo em Conímbriga.

108
3. Limpeza, desmatação e manutenção

Tem-se vindo a efectuar, ao longo dos anos, a limpeza e desmatação do Sítio


Arqueológico  que se espera venha a ser articulada futuramente com um estudo de
arranjo de exteriores258  de toda a área arqueológica vedada, tendo em vista um melhor
conhecimento dos vestígios arqueológicos e das suas necessidades de conservação, bem
como a criação de percursos de visita.
Procedeu-se ainda à remoção de entulhos de antigas escavações, uma vez que, em
alguns casos, dificultavam a conservação, o conhecimento dos vestígios arqueológicos
existentes e a continuação das escavações em curso.
Executaram-se coberturas para estruturas arqueológicas que, pela sua fragilidade,
assim o exigiam, nomeadamente construções com pinturas a fresco e foram efectuados
trabalhos de manutenção na capela de S. Brás. Fot. 149.

4. Acções de conservação e restauro

Em relação a este ponto não nos prenderemos exaustivamente uma vez que, como
anteriormente nos referimos, os trabalhos de conservação e restauro têm sido orientados
por técnicos desta área.
No entanto, e tendo em atenção o levantamento prévio das inúmeras situações que
necessitavam desse tipo de intervenção, a filosofia que presidiu às acções tem como
ponto de partida a noção de que as acções deveriam prioritariamente atender à
preservação dos vestígios arqueológicos. As poucas reconstruções efectuadas tiveram
em atenção os dados objectivos da estrutura existente (anastilose) e tinham como
finalidade, por um lado, conservar os vestígios arqueológicos e, por outro, objectivos
didácticos. Optou-se, portanto, por evitar quaisquer intervenções que tivessem intenções
meramente cenográficas.
Miróbriga, pelas características das intervenções de «restauro» a que foi sujeita
em períodos anteriores, funcionando como que um «laboratório» de experiências nessa
área, levanta-nos bastantes questões, quer do ponto de vista ético, quer científico às
reconstituições cenográficas aí efectuadas259.
258
O estudo de Arranjo de Exteriores está a ser elaborado pelo arquitecto paisagista Mário
Fortes do IPPAR.
259
Mesmo quando se utilizam materiais «reversíveis» é questionável que essa atitude não
tenha consequências irreversíveis para os sítios, uma vez que legitima a criação de memórias
artificiais sobre o mesmo com que dificilmente se pode romper a posteriori. Não se imaginará
que seja fácil optar, a bem do conhecimento científico, pela demolição das
reconstruções/reconstituições efectuadas, em décadas passadas, nas termas ou no templo
centralizado do forum. Não é de ânimo leve que se destruiria actualmente uma memória com

109
Foi, pois, após aturada discussão entre a equipa responsável pelo «Projecto de
Valorização» e a equipa de restauro que aí vem trabalhando nos últimos anos que se
optou por, só muito restritamente, e apenas nos casos anteriormente descritos, recorrer à
reconstrução.
Os trabalhos de conservação e restauro iniciaram-se na área das termas, uma vez
que, apesar de se tratar de um dos conjuntos melhor conservado em território nacional,
apresentava problemas que podiam pôr em causa a conservação do hipocausto, dos
pavimentos e das paredes.
As intervenções efectuadas na área das «Termas Este» centraram-se nos arcos do
hipocausto que apresentavam um mais avançado grau de deterioração, nas piscinas e
nas paredes que ameaçavam derrocada.  Fot. 150.
Nas «Termas Oeste» as acções centraram-se na piscina e nos pavimentos do
frigidarium, onde foram feitos restauros e consolidações de placas calcárias que se
encontravam caídas, partidas ou deslocadas, e ainda nos aluei do caldarium  Fot. 151.
Foi ainda feita uma consolidação do lado poente da ponte romana, cujo arco
apresentava uma brecha, confirmando-se que este imóvel tinha sido já previamente
«restaurado» porque eram visíveis cimentações modernas. Para a consolidação integral
desta construção e tendo em vista que, futuramente, a mesma apenas deverá funcionar
para uso pedonal, foi feito um aturado estudo, que esperamos possa vir a ser em breve
executado. Paralelamente, foi também consolidado o muro de suporte do lado norte das
«Termas Este», bem como a canalização de escoamento das águas pluviais.
Em 1995 iniciaram-se consolidações na zona habitacional, nomeadamente numa
das casas com frescos e nos sistemas hidráulicos adjacentes às mesmas.
Todas as acções foram registadas através de desenho e de fotografia, tendo-se
optado por ser identificável e visível, sempre que possível, a intervenção.
Ainda na campanha de 1995, foi feito um diagnóstico da situação dos edifícios do
forum, tendo-se concluído da necessidade de consolidar o pavimento de algumas
construções, nomeadamente das existentes na praça pública e no edifício de planta
absidial conhecido por «templo de Vénus».
Uma das prioridades tem sido também a consolidação de áreas recentemente
escavadas.
Esperamos poder dar início, a curto prazo, a um conjunto de acções que têm em
vista o estudo, a manutenção e a conservação do hipódromo.

5. Levantamento topográfico de pormenor

Uma vez que da estação arqueológica só existiam levantamentos topográficos de


pormenor de áreas muito específicas, nomeadamente o efectuado pela equipa de

que o sítio passou a ser identificado, até porque, por um lado, mesmo esses elementos já
constituem como que a «História do Sítio» e, por outro, não é fácil dimensionar o efeito que
teria a sua demolição na própria estabilidade das construções anteriormente intervencionadas.
E, contudo, é óbvio que, em muitos casos, essas reconstruções, nem sempre devidamente
assinaladas, dificultam o conhecimento de muitas das estruturas arqueológicas.

110
Missouri nas termas, sentiu-se a necessidade de o mesmo ser alargado aos restantes
vestígios, tendo sido utilizadas alidade e prancheta260.
Deste modo, registou-se todo o forum, sua envolvência e parte da zona
habitacional.  Fot. 153.
Foi ainda efectuado o levantamento topográfico da capela de S. Brás e da área
limítrofe, incluindo as zonas recentemente escavadas. Deseja-se que este levantamento
seja estendido a todas as áreas já escavadas e nas que venham a ser intervencionadas.

6. Escavações

Uma vez que as escavações efectuadas em Miróbriga sob nossa coordenação não
constituem, senão no que diz respeito a algumas referências de índole arquitectónica, o
objecto deste trabalho, apenas gostaríamos de salientar que obedeceram,
fundamentalmente, a uma vertente patrimonial, tendo, na maioria dos casos, como
intuito primordial a conservação e manutenção do Sítio ou a criação de infra-estruturas
no mesmo.
Sempre que possível, usou-se o sistema de referência que havia sido implantado
em Miróbriga pela equipa luso-americana, que foi estendido para as áreas recentemente
intervencionadas, passando a estar todos os registos das escavações e de conservação e
restauro integrados no mesmo.
O sistema tinha como base a divisão da área de Miróbriga em quatro quadrantes a
partir de um ponto gerador colocado no forum, designadamente: M(eridianos) Este e
Oeste e P(aralelos) Norte e Sul.
Os complexos atribuídos em todas as escavações por nós promovidas são
entendidos e referidos como unidades de recolha, quer as unidades estratigráficas, quer
as unidades de recolha artificial, quando ainda não é possível referir realidades
arqueológicas bem definidas. A este último caso correspondem genericamente os planos
de superfície, onde para maior controlo da recolha se divide a área em vários
complexos, enquadradros e delimitados pelas quadrículas, sempre inseridas no sistema
geral de coordenadas implantado neste sítio arqueológico.
Tendo em vista a compreensão da área delimitada pelo complexo termal e a ponte
romana, onde se colocam alguns problemas de interpretação à definição da estrutura
termal, decidiu-se, em 1992, fazer uma sondagem na área adjacente à ponte. Alguns
muros indiciavam a existência de estruturas, mas estavam mal clarificados, uma vez que
lhe tinham sido sobrepostos entulhos de anteriores escavações, ficando muito
parcelarmente à vista. A escavação ficou inserida nas seguintes coordenadas: M=6,5 W
e 10,2 W e P=124 S e 129 S, tendo sido posta a descoberto uma Natatio (?).
Houve, ainda em 1993, necessidade de se proceder a uma escavação numa
pequena área de uma sala aquecida  compartimento 15 das «Termas Este» da planta da
equipa luso-americana «simplified plan of BATH complex, 1983»261.

260
Este trabalho tem vindo a ser coordenado por Armando Guerreiro com desenho de Maria
Luísa Sebolão Nata, autores de grande parte dos levantamentos e desenhos apresentados neste
trabalho.

111
Nas campanhas efectuadas em 1995 e 1996, efectuaram-se várias sondagens em
diferentes pontos da estação arqueológica, contando com a colaboração de uma equipa
de arqueólogos262 e de desenhadores263, bem como voluntários provenientes de
universidades portuguesas e espanholas.
No entanto, o principal objectivo dessas campanhas foi escavar a área limítrofe à
capela de S. Brás, tendo em vista conhecer do ponto de vista arqueológico a zona
envolvente da mesma, onde se pensava, inicialmente, poder implantar o «Centro
Interpretativo de Miróbriga», opção essa que as escavações vieram a demonstrar ser
impossível. Fot. 154. No entanto, contamos dar continuidade ao estudo dessa zona,
tendo em vista clarificar algumas das insulae de Miróbriga.  Ilust. 18-23.
Em 1997 deu-se início a novas sondagens numa área recentemente adquirida, a
oeste da capela de S. Brás.  Ilust. 24. Estas intervenções inciaram-se na Primavera de
1997, devendo ter continuidade em 1998.
De todas as zonas intervencionadas foi feito registo gráfico  desenhos a uma
escala 1:20  e fotográfico que tencionamos venha a ser objecto de um trabalho
monográfico, após a conclusão da escavação. Os relatórios destas escavações foram
entregues ao organismo competente.

7. Estudos

Para além de alguns estudos parcelares que foram objecto de publicação, nos
últimos anos, foi também recentemente elaborado um trabalho da autoria de José Carlos
Quaresma sobre algumas das terra sigillata provenientes de antigas escavações e que se
encontravam depositadas em Miróbriga.
Desejamos ainda que outros estudos, nomeadamente os referentes às cerâmicas
comuns, às ânforas e aos materiais arqueológicos provenientes das recentes escavações,
possam ser muito em breve efectuados, estando já constituída uma equipa com essa
finalidade.
Urge, contudo, promover um novo plano de intervenções que tenha em vista o
esclarecimento de muitas das questões levantadas por este trabalho, nomeadamente do
ponto de vista do seu urbanismo romano e pré-romano.
No que diz respeito ao enquadramento paisagístico e do que nele se relaciona com
a conservação do Sítio e sua envolvente estão em curso vários estudos, nomeadamente o
hidrológico, o da fauna e da flora, coordenados por Mário Fortes.
Para melhor conhecimento dos materiais de construção de Miróbriga foi ainda
solicitado o apoio do Centro de Geologia de Santo André que os tentará classificar do
ponto de vista litológico.

261
Uma vez que o complexo termal tem uma orientação que não corresponde à da quadrícula
geral da estação arqueológica, montou-se um sistema adequado ao mesmo. Foi-lhe atribuído
um sistema de coordenadas a e b, tendo como ponto de origem um ponto que corresponde às
coordenadas luso-americanas M= 40 W P=110 S, e que fizemos corresponder a a= 20 e b= 60.
262
Jorge Vilhena, Emílio Ambrona, José Carlos Quaresma.
263
Maria Luísa Sebolão Nata a tempo inteiro e Luís Cruz a tempo parcial.

112
113
APÊNDICE III

ARQUIVOS CARTOGRÁFICOS CONSULTADOS TENDO EM VISTA UMA


MELHOR COMPREENSÃO DO TERRITÓRIO

Arquivo Histórico Militar

Novissima et accurantissima/Regnorum/Hispanie et Portugallie/Mappa


Geographica de Matthaus Seutter
1678-1757
Esta carta é muito interessante porque o rio Sado aparece representado como se
fosse navegável até Melides e Alvalade.
Santiago do Cacém aparece situada na margem do rio.
Tratar-se-á possivelmente de um erro de representação cartográfica.

Le Royaume de Portugal et des Algarves


Século XVII
4.1-17308-AV III

Partie Méridionale du Royaume de Portugal


1751
4.1-17991-AV VI

Mappas das Provincias de Portugal, novamente abertos e estampados em Lisboa


1762
4.2.1-Alentejo-123- AV I

Carta Militar das Principais Estradas de Portugal


Lisboa, 1808
Segundo Romão Eloy de Almeida
4.1-1547-AV. II
Esta carta, cuja cópia se encontra em exposição, apresenta a Lagoa de Pêra com
dimensões enormes, indo praticamente até S.Tiago do Cacem.
Estão ainda representadas ligações viárias a Santo André, Melides, Comporta, a
Norte, a Sines, a Oeste, e ao Cercal, Vila Nova de Milfontes e Odemira, a Sul.

Nova Carta Militar do reyno de Portugal com Estradas, Montanhas e Rios


Londres 1810
(por Elliot)
4.1-5.AV I
A Lagoa de Pêra está representada.

Carta Civil e Militar de Portugal e de Hespanha


(Folha 3)
1824
3-16510/1 a 6
A Lagoa de Pêra está representada, mas quase não é perceptível, comparando com
outros mapas da mesma altura.

114
Carta Geral dos reinos de Portugal e Hespanha
(Para servir de esclarecimento à História de Guerra da Península),
por Simão José da Luz Soriano
3-AVI-7(8.1.4)

Mapa de Espanha y Portugal


Publicado y de la Propriedad de Diego Peñuelas
3-5050-A VII
Está representada a ligação a Sines, a Grândola e ao Norte.

Mappa dos Caminhos de Ferro de Portugal e Hespanha


1898
3-17655-AV III

A new Map of Spain and Portugal,


Exibiting the chains of mountains with their passes, the principal & cross roads,
with other details.
London, 1910
3-2319-AV II
Está assinalada a ligação a Sines e caminhos que ligam Santiago do Cacém para
Norte e para Sul.

The King doms of Spain & Portugal


London 1811
3-3853 (Armário Metálico)

Nova Regni Portugalliae et Algarbiae


4.1-17308-AV III

Nuevo mapa de España y de sus Colonias


Editor en Bruselas, Irun
1889
Santiago do Cacém aparece representada junto a uma cordilheira montanhosa.

Carta Agrícola
Direcção dos Serviços da Carta Agrícola.
Direcção Geral de Agricultura, 1910
4.5-18597/1/2

Costa Oeste de Portugal


Missão Hidrográfica da Costa de Portugal, 1927 e 1928
18578/5 Pasta VII

Descrição do Reino do Algarve e descrição do Reino de Portugal


5.5-18894/1 e 2

115
Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar

Carta Geográfica de Portugal


Londres, 1762
4096-2A-24A-111
Está assinalada a Lagoa da Pêra.

Carta Geográfica do Reino de Portugal


Reinado de D. José, 1763
4072-4-48-60

Mapa ou Carta Geográfica dos Reinos de Portugal e Algarve


Londres, 1790
4067/I-2A-29-41

Carta Esferoidica dos Pontos mais notáveis da Costa de Portugal


1799 e copiada em 1826 pelo Real Archivo Militar
4100-2A-24A-111

Mapa Geographico do Reino de Portugal


2.ª Divisão Militar
Autor: José Maria Neves Costa
Finais do Século XVIII
4062-4-48-60
Não estão praticamente assinalados percursos que liguem a Santiago, porque não
deveria ter grande interesse do ponto de vista militar.

Carta Militar de Portugal


1808
4093-2A-24A-111

Mapa Chorographico do Reino


1809
9959-1-7A-95

Carta Geographica de Portugal, Divisão Territorial, Administrativa e Judicial


1837
4094-2A-24A-111
Estão representadas duas pequenas lagoas interiores perto de Santiago do Cacém.
A rede viária liga a Santo André, a N, Sines, a W e Cercal, a S.

Carta Topografica da Província do Alentejo


n.º 503-1-4-7
O papel é de 1838 e, portanto, a carta é posterior a essa data.
A Lagoa da Pêra aparece representada

Carta de Divisão Administrativa


1863

116
n.º 4080-4-48-60
Em 1863 Alvalade do Sado já não é sede de concelho e pertence a Aljustrel.

Carta Geographica de Portugal


Filipe Folque (Geral Conselheiro do Reyno)
1860-1865
4100/A-4-48-60 e 10516-2A-28A-79
É o primeiro levantamento exaustivo do território. A Lagoa da Pêra já não
aparece
representada.

Carta Geológica de Portugal


1876
Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos (Carlos Ribeiro, Joaquim Filipe Nery
Delgado)
4081-I-4-48-60
Santiago do Cacém é assinalada no centro de um enclave jurássico lias, com
rochas calcárias e afloramentos xistosos.

Esboço de Carta Geográfica


(sem data nem autor)
4073-4-48-60

Carta Agrícola-mineral
1892
4076

Carta Agrícola de Portugal


Direcção Geral de Agricultura
1890/1891
Direcção da Carta Agrícola, publicada em em 1893
Col. 4075-4-48-60
Doc. 6606, 6607, 6608
Do século XVIII ao século XIX há uma complexificação dos percursos de acesso a
Santiago. Nas cartas anteriores ao Terramonto quase não há ligação a Santiago.

Levantamento Geográfico de Portugal


4078-4-48-60

Carta Geographica de Portugal


1894
4079-4-48-60
Nesta carta a Lagoa de Pêra já não está assinalada.

Carta Geológica de Portugal


1899
4081-II-4-48-60

Carta n.º 4083/II-2A-29-41

117
Serviços Cartográficos do Exército

Levantamentos aéreos:
1943  Fiada C, Foto 3, Filme 40 1/16.000
1947  Voo da RAF
1953-54  1/40.000 (até Sines)
1958-60  1/26.000 (Santiago do Cacém e Ruínas)
1969-70  1/25.000

Cartas publicadas:
1945
1989, folha 516; 1/25.000

Serviços Geográficos e Cadastrais

Serviços Geológicos de Portugal

Biblioteca Nacional

Mappa de Purtugal e Castella, parte


do engenheiro Militar João Tomás Correia
Inícios do século XVIII.
B. N. L., Iconografia, E 762

Cartografia existente no Museu de Sines

Les Estats de la Couronne de Portugal en Espagne


1693 (?)

Hispaniae Antiquae Tabulae


1641
Miróbriga aparece assinalada.

Portugalliae (…)
1600
A Lagoa de Pêra aparece representada até Santiago do Cacém.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Livro dos Copos (fol. 53)

118
Alegação feita no tempo de D. Dinis
51/Liv. 272 C.F. 158

«Carta de Foral» de D. Dinis de 1323.


(Cópia do Documento n.º 9, Maço 8 da Gaveta 14 que se fez por ordem do
Guarda Mor deste Archivo para milhor inteligencia do seu original. Lisboa10 de
Julho de 1773).

Carta de El Rey D. Afonso 4º porque confirmou os Privilegios da Villa de S.


Tyago de Cacem, dada em Evora a 20 de Abril. Era de 1363.

Carta Del Rey D. Fernando porque confirmou aos moradores de Santiago de


Caçem os privillegios que lhes avia concedido El rey seu Pay.
Dada em Lisboa a 23 de Julho, era de 1406
O original está na Gaveta 14, Maço 3, doc. 28.

Maço 11 dos Forais Antigos, n.º 6


de 20 de Novembro de 1477

Forais Novos do Alentejo/Tejo e Odiana


F. 36 V Col.2
Licença de El Rey D. Diniz ao seu conselho para uzar dos seus privilegios.
Gaveta 14, Maço 8, nº 9
1295

Livro III, folha 132 da Chancelaria de D. Dinis


Carta de Declaração aos artigos sobre os danos dos seus sobrais e azinhais.

S.Thiago de Cassem - Confirmação de Privilegio por El rey D. Affonso 4º


e D. Fernando
Gaveta 14, Maço 3 e nº 18; nº 28 (20 de Abril de 1325 e 23 de Junho de 1368)

CHªs Antigas da Ordem de Santiago

Assento que consta passarse cart. De Tabelião da dita Villa a Alvaro Pires
de 31 de Janeiro de 1477
Livro 1 de Suplemento 7 V.

Carta de Escrivão dos Orfaos desta Villa a Alvaro Pires.


De 30 de Janeiro de 1477.

Carta de Escrivão de Almotaçaria da dita Villa a Diogo Pires.


De 31 de Janeiro de 1477
Livro 1 de Suplemento. Folha 8 V

S. Tiago de Cassem, Collos e etc.


Cart. Que determina a demarcação de limites dessas villas, e que se cumprisse. De
22 de Junho de 1487. Livro 3 de Suplemento, 141 V.

Carta de Mercê da renda do Moinho do cabo no Termo da dita Villa a

119
D. Henrique Henriques.
De 25 de Maio de 1477.
1 do Suplemento. Folha 45

Carta de Aprezentação do Privado da Igreja da dita Villa ao Pe. Luiz Pires.


De 8 de Setembro de 1477.
Livro 2 de Suplemento 73 V

Assento que consta passarse cart. De Escrivão da Camara da Villa a Mendo


Rodrigues.
De 26 de Janeiro de 1477
Livro 1 de Suplemento, F. 11

Carta de Doação desta Villa a Pedro Pantoja com a faculdade de a poder


nomear em hum de seus filhos.
De 25 de Setembro de 1477. Livro 1 de Suplemento.
Folha 74 V

Assento porque consta passarse Carta de Tabellião do Judicial e Notas da dita


Villa a João Fernandes.
De 28 de Junho de 1485.
Livro 2 de Suplemento. Folha 44

Carta de Tabelião do Judicial e Orfão da dita Villa a João Rodrigues


De 29 de Novembro de 1485.
Livro 2 de Suplemento. F 53 V

Carta para que Pedro Pantoja lograsse as rendas da dita Villa de que era Senhorio
recebendo primeiro o habito da Ordem.
De 1486. Livro 3 de Suplemento. Folha 126 V

Assento por que consta se passou Cart. De Juiz dos Orfaos das ditas Vilas a Pedro
da Silva. De 10 de Agosto de 1495.

Visitações da Ordem de Santiago


Visitação de 1518 à Igreja de Santiago, Livro 167.
Conventos Diversos da Ordem entre elas Cacém Livro 192, 1546
Conventos Diversos da Ordem de Santiago. Tombo de propriedades das Vilas de Sines e
Santiago. Livro 238

Corpo Cronológico, parte II, Maço 3, nº 23


Sentença de 1 de Agosto de 1500

Chancelarias de D. Manuel
Livro 1 de Guadiana, Folha 50

120
Livro 25, fol.79 e Liv.7 do Guadiana
«A Tereja Lopez, sobrinha de dona Catarina, molher que foi de Pº Pantoja morador na
Villa de Santiago»
Livro 29 de Guadiana, Folha 4
Por seu Commendador Affonso Pires Pantoja: sentença a favor de El Rey sobre
jurisdição.
Gaveta 10, Maço 9, n.º 8
Agosto 17, 1537

Em toda a documentação acima referida não há qualquer referência à antiga


cidade de Miróbriga. Nem nas «Visitações» da Ordem de Santiago que tivemos a
oportunidade de consultar se encontrou qualquer anotação sobre o assunto.
No entanto, ela foi extremamente útil para poder comprovar o tipo de recursos
existentes, como os agrícolas e pecuários e a forma como a propriedade se organizava
ao longo da Idade Média, que, a alguns níveis, não difere radicalmente do que seria no
período romano.

121
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