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ARTIGOS

DE SRILA
TRIPURARI
MAHARAJ
CORRIGIDOS/COM SUBTÍTULOS
ARTIGOS ANTIGOS CORRIGIDOS
ÍNDICE

1. JIVA TATTVA
2. KRISHNA TEM UM PROBLEMA
3. SRILA PRABHUPADA ACARYA
4. LENDAS E DOUTRINAS DA CULTURA MODERNA
5. A RESPEITO DE DIKSA
6. ALEGORIA, MITOLOGÍA E LILA
7. RESPOSTAS DIVERSAS - QUESTÕES DOS BELIEFNETS
8. INSPIRAÇÃO, AUTOENGANO E MAIS SOBRE MULHERES E
SANNYASA
9. KRISHNA LILA, A REALIDADE MAIS ELEVADA
10. O BHAGAVAD-GITA QUE LEVA A VRINDAVAN
11. BHAKTI TATTVA VIVEKA, SIDDHA-DEHA E SUDHA NAM
12. UMA QUESTÃO DE FÉ : 'ENCONTRA UM MAHAJANA'
13. A DESCIDA DE DEUS PARA O MUNDO FENOMÊNICO
14.‘ANAYARADHITA’, A ADORAÇÃO MAIS ELEVADA
15. MORRER PARA VIVER
16. MULHERES E O GAYATRI MANTRA
17. BHAVOLLASA RATI
18. HARINAMA E DIKSA MANTRA
19. OUÇA E CANTE SOBRE KRISHNA
20. IGUALDADE,VARNASRAMA TRANSCENDENCIA
21. MAHADEVA SIVA E O VAISNAVISMO
22. B.R. SRIDHARA DEVA GOSWAMI AND THE MAHAMANDALA
23. OS DEMONIOS DE DENTRO
24. BRAHMA GAYATRI E O CORDÃO SAGRADO
25. DAIVA VARNASRAMA
26. DIFICULTADES NO CAMINHO: 'NAS MÃOS DE DEUS'
27. OS COMPANHEIROS MAIS INTIMOS DE KRISHNA
28. BUDISMO E VEDANTA
29. JESUS E RAGA MARGA
30. PRESENTES DE SRI GURU
31. PELA FORÇA DO AFETO
32. CONTRADIÇÕES REAIS OU APARENTES
33. GOVARDHANA LILA: "ASPIRAÇÕES CATIVANTES"
34. SAKTYAVESA E NITYA SIDDHA
35. TOMANDO REFÚGIO EM UM MESTRE ESPIRITUAL
36. A DIETA DE KRSNA É BHAKTI
37. SENDO CASTO A SRILA PRABHUPADA
38. MULHERES, DEGRADAÇÃO E CONFIANÇA
39. A MAGIA DE DIKSA
40. COBIÇA POR VRAJA BHAKTI
41. DESPERTANDO A LILA NO CORAÇÃO
42. O JOGO DA VIOLÊNCIA
43. A GRANDE CIRCUNFERÊNCIA
44. SEGUIR CEGAMENTE A DINÂMICA DA VIDA ESPIRITUAL
45. ESCUTANDO DE UM RASIKA ACARYA
46. TRANSPLANTES E TRANSFUSÕES
47. SADHANA/SADHYA, O CAMINHO E O OBJETIVO
48. RECEBENDO MANTRA DIKSA
49. DO BHAGAVAD-GITA AO SRIMAD BHAGAVATAM
50. SRILA PRABHUPADA SAKTIAVESA E SAKHYA-RASA
51. GOURA KRISHNA E KRISHNA MANTRA
52. BOAS QUALIDADES E O DEVOTO SUPERLATIVO
53. A NATUREZA MAGNÂNIMA DE NITYANANDA PRABHU
54. DIKSA MANTRAS
55. ANIMAIS E KARMA, UMA VIDA CENTRADA NO GURU GAYATRI
56. KARMA SEM COMEÇO
57. ALÉM DE TODAS AS NOSSAS CONCEPÇÕES
58. ALÉM DE NOSSOS SONHOS MAIS SELVAGENS
59. BHAKTI ATRAVÉS DE DIFICULDADES
60. DAIVA VARNASRAMA
61. DEVOTOS DESCONTENTES
62. DIVINA ORTODOXIA
63. IGUALDADE, VARNASRAMA E TRANSCENDÊNCIA
64. EXPANSÕES, FORMAS E ENERGIAS
65. GEORGE HARRISON E INICIAÇÃO
66. DEUS JOGA
67. GOURA NITAI NAMASKAR
68. HARI BHAKTI VILAS
69. OUVIR E CANTAR SOBRE KRISNA
70. JAYO RUPHE! JAYO RADHE!
71. AMIZADE DIVINA
72. O PLANETA DA FÉ
73. QUANDO A VIDA REAL COMEÇA
74. GOURA NAGARA BHAVA
75. GURU PARAMPARA, NOVOS TEMPOS, PALAVRAS E LIVROS
76. INTERJEIÇÕES NAS ESCRITURAS
77. ONISCIÊNCIA DO GURU (novos)
78. SAKTI E A SUPREMA SAKTI
79. AUTENTICIDADE NOS ENSINAMENTOS DE SRILA PRABHUPADA
80. DECLARA OUSADAMENTE
81. GAUDIYA VEDANTA E SAGUNA BRAHMAN
82. APRAKRITA SIDDHI E ACINTYA SAKTI
83. BALA KRISHNA, O FILHO SUPREMO
84. DO PRETO E BRANCO AOS TONS DE CINZA
85. GURU PRANALI E A CORRENTE DA ESPIRITUALIDADE
86. A COR DA ROUPA
87. UMA VEZ EM ALTO PREÇO, O ARROZ NÃO TEM VALOR
88. LUTAR OU NÃO LUTAR, O BHAGAVAD-GITA E A GUERRA DO
IRAQUE
89. O FOGO DA RAZÃO E O METAL DA NOSSA FÉ
90. PENSAMENTO ESPIRITUAL CRÍTICO
91. SECTARISMO E FÉ DIVINA (antigos revisados)
1. JIVA TATTVA
"O karma é adquirido na forma humana de vida, e na vida animal é apenas
uma reação pelas atividades realizadas na vida humana. Então, algumas
almas vestem a roupa humana e depois vestem a roupa animal, se
degradando a um sofrimento e desfrute. O fato de se ter vida animal está
diretamente relacionado com o que foi feito na vida humana".

Amor a Krishna e pregação

Sri Krishna explica no Bhagavad-gita que apesar de todas as almas O


seguirem, Ele é recíproco na medida em que elas se aproximam Dele.
Todas as almas liberadas experimentam algum aspecto de Krishna,
semelhante a se submergir em Sua refulgência, um amor reverencial a
Deus, etc. Entretanto, alcançar o amor a Krishna, Krishna prema, e adentrar
a sentimentos mais íntimos no madhurya-lila – como o discutido no
Gaudiya Vaisnavismo – consiste num caminho muito específico, para o
qual nem todo mundo é elegível ou está intrinsecamente atraído.

A palavra "nirvana"
No Bhagavad-gita, o "nirvana" se refere a extinguir o sofrimento material,
enquanto se alcança a salvação. No Bhagavad-gita 2.7 se diz: "Ó Partha!
Tendo alcançado o seu divino estado, a pessoa não se ilude; se ela se fixa
nessa consciência, ainda que no momento da morte, ela alcança o Brahman
e a cessação de todo sofrimento (nirvana)". Este verso descreve a condição
iluminada como Brahma nirvana; A palavra "nirvana" é distinta do
budismo, apesar de que isso também é encontrado em alguns textos dos
Upanisads. Aqui Krishna inclui o Brahma à Sua refulgência, essa visão
beatífica; Literalmente, "nirvana" significa "soprar", assim como uma vela
é extinguida pela luz. A palavra tem uma conotação negativa, então o
budismo às vezes tem sido considerado uma forma negativa da
espiritualidade. Isso é negativo, entretanto, de uma maneira positiva. Seu
objetivo é negar o sofrimento em que consideravelmente consiste o mundo.
A cessação do sofrimento também é concomitante ao objetivo do
Bhagavad-gita, então tudo isso está incluído no nirvana e dentro de uma
concepção da iluminação de Krishna. A palavra Brahma aparece depois nos
capítulos do Bhagavad-gita como um aspecto de Krishna. Isso não é uma
expressão completa da divindade, a qual Bhagavan, Krishna mesmo, O é.
No segundo capítulo do Bhagavad-gita, no qual o verso em questão é
encontrado, Krishna não revelou inteiramente tudo o que um estado de
iluminação completa da consciência de Deus inclui, apesar de que Ele dá
dicas sobre isso nos capítulos: 2.59, 2.61 e 2.64 do Bhagavad-gita; no
capítulo 5, Krishna usa a palavra "nirvana" três vezes; no Bhagavad-gita
5.24 - 26 e no curso da elaboração da condição iluminada do samadhi
(divina absorção), que Ele explicou na sessão de conclusão do capítulo 2
(Bg. 2.55-72). Em cada um desses versos Krishna chama essa condição de
iluminação como Brahma nirvana, entretanto, Ele termina o capítulo 5
situando a realização Dele mesmo dentro da equação da iluminação (Bg.
5.29), quando Ele diz que a paz da iluminação (sat) é alcançada
rapidamente por reconhecer Ele mesmo como o ideal dos contemplativos
(Brahman), os yoguis (paramatma/superalma) e Seus devotos (Bhagavan,
Deus mesmo). No capítulo 6, o qual envolve uma discussão extensa das
práticas espirituais de yoga que levam à iluminação, Krishna elabora, mais
adiante, sobre a condição de iluminação incluindo a realização da
característica de Paramatma dentro do Absoluto chamado Paramatma
Samhita – (Bg 6.7). Na mesma sessão, 6.15, Ele revela que o estado de
iluminação da realização yoguica inclui a cessação pacífica suprema da
existência material no Brahman (santim nirvana-paramam), a qual está
contida dentro da realização da Sua pessoa (mat-samstham/Bhagavan). Ele
conclui o capítulo 6 chamando a yoga da devoção, bhakti, a mais alta
expressão de yoga. Essa yoga corresponde ao sentido completo da
iluminação do Bhagavad-gita – a realização de Deus.
Dessa forma, dentro dessa sessão que conclui o capítulo 2, a descrição de
Krishna da pessoa iluminada, refere-se em última análise, ao Seu devoto.

Baddha jiva e lila

A baddha-jiva (a alma condicionada), a qual está implicada no karma, que


é anadi (sem começo), é parte e parcela de Krishna, não sendo
completamente independente. Pode Krishna ser culpado por ter feito algo
para Si mesmo quando ninguém além Dele existe no começo de tudo? Isso
é lila, o qual não é um assunto de razão. A lila transcende a razão. A menos
que você se torne um membro consciente de Sua lila, você irá entender.
Nós não temos nada a dizer sobre este assunto. Nenhuma objeção está
baseada na ilusão que nós somos independentes de Deus. Em outras
palavras, se é MahaVisnu O qual deseja tornar-se muitos e, então,
manifestar-se como baddha jiva, se diz que a jiva é condicionada por causa
da proximidade de Visnu e da relação com Maya. Para remediar o problema
resultado desse envolvimento com Maya que brotara do Seu desejo de se
tornar muitos, Ele entra no mundo de Maya como um avatara e salva as
baddha-jivas.

Brahmaloka e retorno ao samsara

Dependendo de como é usado, o termo Brahmaloka possui dois


significados. Um dos significados de Brahmaloka é a morada do senhor
Brahma, a qual é descrita no Bhagavad-gita como estando situada dentro
do plano material. Esse Brahmaloka não é eterno, e aquele que toma
nascimento ali está sujeito a repetidos nascimentos e mortes – no entanto, a
maior parte das almas que alcançaram esse plano chegaram à liberação
junto com Brahma no momento de sua morte. O segundo significado de
Brahmaloka é Brahman, o Absoluto, isso se refere à terra do não retorno,
conforme o discutido nos Brahma sutras.
Primeiro nascimento da jiva

Não é que toda jiva é nascida primeiro como Brahma e depois, em sua
próxima vida como o Brahma, cai nas formas mais baixas de vida. O
correto entendimento é que Brahma representa o que está referido como
samasti-jiva, um estado coletivo das jivas. Isto é descrito no Srimad
Bhagavatam 3.20.16, “sarva-jivanikayauko yatra svayam abhut svarat”.
Também é explicado no Srimad Bhagavatam que o samasti-jiva é referido
como o vairajah-purusa. De acordo com Prabhupada Bhaktisiddhanta, a
palavra vairajah nesse verso indica a totalidade das almas individuais, as
quais originalmente tomam nascimento do Brahma e voltam para ele no
momento da aniquilação. Então o Brahma representa o aspecto coletivo da
jiva, e nesse sentido a jiva nasce primeiramente como Brahma, o qual é
também a primeira jiva nascida.

Shakti-tattva e nitya mukta jivas

O termo shakti-tattva se refere a todos os aspectos de Krishna, constituídos


de Sua energia (sakti), como contrárias a Si mesmo (shaktiman). Isso inclui
Maya-shakti (energia ilusória), svarupa-shakti (energia interna) e jiva-
shakti (as almas individuais), etc.
Nitya-mukta são almas eternamente liberadas (jivas), e são também
constituídas de Sua sakti.

Sandhini-sakti

A Sandhini-sakti é a divisão da svarupa-sakti, esse aspecto existencial.


Então, ela é responsável pela manifestação dos reinos espirituais. Maya-
sakti é a sombra dessa svarupa shakti. Aquilo que dentro de Maya-sakti
corresponde a sandhini-sakti, compõe as partículas atômicas (paramanu)
do mundo material. Isso não significa que cada átomo é uma jiva, mas que
a consciência está na fundação da matéria.

Diferença na pregação dos acaryas


Diferentes acaryas oferecem diferentes explicações em consideração a
audiência deles. Tal é a natureza da pregação. O que é comum entre todas
as explicações é a tentativa de exonerar a culpa de Deus para o sofrimento
das almas neste mundo material. Todas as respostas para essa questão
falham em nos oferecer uma resposta inteiramente satisfatória para nosso
intelecto, então a ênfase deveria ser colocada no fato de nosso
condicionamento material e nos meios para remediar isso, mais do que em
uma explicação que tenha o desejo de satisfazer o nosso intelecto. O
progresso está baseado mais na fé e na prática espiritual do que no
intelecto. Os santos e as escrituras nos ensinam que através da fé e da
prática espiritual uma pessoa pode transcender as limitações da mente e do
intelecto, e ganhar entrada no mundo da experiência espiritual; neste ponto,
essa questão pode ser colocada para descansar de uma vez por todas. Uma
vez que nós saibamos o que realmente significa ser uma alma, nós podemos
compreender completamente a natureza desse condicionamento material.
FIM DO ARTIGO
2. KRISHNA TEM UM PROBLEMA

Bhaktivinoda parivara
Pode-se encontrar mais informações relacionadas aos tópicos de
entendimento acerca do relativo (artha-prada) e absoluto (paramartha-
prada) no Krishna Samhita, de Srila Bhaktivinoda Thakur. Nós temos um
grande débito com ele pela sua luz dentro da natureza do absoluto que
desce para o reino da relatividade. Ele traçou o curso do futuro do Gaudiya
Vaisnavismo neste e nos séculos prévios, enquanto ele mesmo se
considerava um mero varredor de rua do movimento de sankirtana de
Mahaprabhu. Por sua vez, Prabhupada Bhaktisiddhanta considerou a si
mesmo como uma palha da vassoura de Srila Bhaktivinoda Thakur.
Swami Maharaj Prabhupada considerou o serviço de Prabhupada
Bhaktissidhanta como a extensão da missão de Srila Bhaktivinoda Thakur.
Estamos muito felizes de estar conectados com Bhaktivinoda parivara.

Ensinando o Gita
Sugere-se que se tente atrair os estudantes ao encanto e filosofia de Krishna
como apresentado por Sri Caitanya Mahaprabhu e Seus seguidores,
enquanto, no espírito universal de Bhaktivinoda Thakura, se reconheça que
há outras interpretações do Gita. Logicamente e gramaticalmente existem
muitas formas de se explicar o Gita. Na edição do Bhagavad-gita, Srila
Prabhupada enfatiza dois temas como sendo principais, um sendo que o
Advaita Vedanta é uma interpretação forçada da Verdade, e a outra é que
Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, Krishnas Tu Bhagavan
Svayam. O primeiro ponto é fundamental para a vida do bhakti e o segundo
ponto é fundamental para alcançar Krishna prema. Uma pessoa não pode
ser um suddha bhakta de Bhagavan Sri Krishna e ao mesmo tempo aceitar
a falsa noção da identidade absoluta entre Brahman e a jiva como
apresentada na filosofia de Advaita Vedanta.
Em relação ao segundo ponto (Krishnas Tu Bhagavan Svayam), se terá
grande dificuldade para alcançar Vraja bhakti sem primeiro entender que
Krishna é a fonte de todas as manifestações da divindade. Quando uma
pessoa entende Sri Krishna como a fonte última (Bg 3:54) aham sarvasya
prabhavo mattah sarvam pravartate, ali está o objetivo de entrar em um
tipo de prática espiritual que gera amor por Deus em intimidade, iti matva
bhajante mambudha bhava samanvitah, raga bhava samanvitah.

É preciso tentar entender perfeitamente estes pontos e discuti-los com os


estudantes, não de uma maneira autoritária, mas ao contrário, de um modo
sem conflitos, energizados pelo modo como encanta O amigo de Arjuna,
Partha-sarathi. Assim, conduzir uma classe para o próprio
aperfeiçoamento espiritual, e como dessa forma uma pessoa se beneficia,
assim também os outros serão beneficiados. O sucesso de uma classe será
julgada pela realização pessoal do palestrante.

Senhor Caitanya, Krishna no humor de Radha

Um ponto importante a se estabelecer é que Sri Krishna Caitanya é Krishna


e transmitir isso para o mundo. Apesar que Krishna tenha Se disfarçado
como um devoto de Si mesmo na forma de Sri Caitanya, nosso serviço é
revelar este segredo para o mundo todo. Render este serviço irá purificar
nossos corações e ajudar aos outros também.
Quando Krishna se torna devoto de Si mesmo como Sri Caitanya, Ele faz
isso para provar o êxtase de Seus devotos e ensina-os a respeito da
devoção. Não há ninguém mais devotado a Ele do que Sri Radha. Ele adota
o humor Dela. Dessa forma, Ele ensina a mais alta devoção com o intuito
de prová-la. Assim, apesar que Sri Krishna Caitanya é Krishna e que nós
deveríamos ensinar aos outros essa Verdade, é também importante para nós
entender o humor da devoção que Ele têm adotado e seguir esse exemplo
de devoção. O amor abnegado de Sri Radha manifesta-se em Sri Caitanya,
isso então nos guia para aprender como ser devotos.
Tão logo nos tornamos avançados em bhakti, nós iremos internamente nos
conceber como servos amigos de Sri Caitanya. Isso é o apropriado para os
devotos avançados que estão internamente em nama bhajan. Semelhantes
devotos tentam assistir a Sri Caitanya em Seus esforços de provar o amor
de Radha. Eles fazem isso em profunda meditação resultante da absorção
em nama sankirtana.

O nome de Sri Radha

Radha nama, o nome de Radha, parece encoberto no maha mantra Hare


Krishna sob o nome de “Hare”. “Hare” é o vocativo de “Hari” e também é
o vocativo para Hara. Por isso é dito harati krsna-manah krsnahlada-
svarupini ato harety anenaiva sri radha parikirtitah, que significa: “Por
que Ela rouba a mente de Sri Krishna e por que Ela é a encarnação do
prazer de Krishna, Sri Radha também é conhecida pelo nome de Hara”.
Nesse entendimento da palavra “Hare” os Gaudiya Vaisnavas cantam o
Maha Mantra Hare Krishna desejando se unir à Radha e Krishna no amor
romântico transcendental. Isso é o ideal, a união de Radha e Krishna.

Emoções relacionadas a Krishna

Às vezes é comum as pessoas religiosas chorarem quando leem uma


escritura ou realizam alguns serviços, mas semelhantes lágrimas não são
necessariamente reflexos de uma emoção espiritual genuína. Na realidade a
maioria das pessoas que tem tomado seriamente o Krishna bhakti irão
admitir ter tido alguma emoção no início de seu processo.
Ainda antes de começar a vida da devoção, nós podemos chorar
simplesmente escutando algum belo aspecto da teologia e filosofia de
forma profunda a respeito de Krishna lila. Semelhantes lágrimas empurram
aqueles que são verdadeiramente sinceros para uma vida de serviço divino.
Então, começando com sadhana bhakti, outros tipos de lágrimas irão
aparecer. Os estudantes sinceros irão chorar porque apesar que sentem que
o Krishna Nama é generoso, eles não têm alcançado nenhuma atração por
ele e eles estão facilmente distraídos. Em relação a isso nos ensinamentos
de Sri Caitanya Mahaprabhu, ele ora: “Durdaivam irdrisam ihajani
nanuragaha”, que corresponde a “eu sou tão desafortunado que não tenho
nenhuma atração por Krishna nama”.
Então, se nós nos tornamos estáveis na devoção e temos sucesso em
sadhana bhakti por desenvolver um gosto e apego por bhakti, este é então o
objeto: Sri Krishna. Nós experimentaremos lágrimas de êxtase que nos
levará ao bhava. Caitanya Mahaprabhu ora para portar esses sentimentos
extáticos e lágrimas relacionadas a isso. “Nayanam galad ashru dharaya”
que significa: “Enquanto cantamos Teu Santo Nome, quando de meus
olhos fluirão torrentes de lágrimas?”. Então, quando falamos de prema
bhakti, Ele declara: “yugayitam nimesena caksusa pravrsayitam ”, “meus
olhos choram como nuvens de monção”.

Então do começo ao fim bhakti está relacionado a chorar para Krishna.

Krishna tem um problema

Krishna é a Suprema Pessoa, isso é um ângulo de visão em consideração à


conclusão das escrituras “Krishnas Tu Bhagavan Svayam”. Entretanto,
mesmo este ponto central do siddhanta é verdadeiro apenas quando nós
olhamos para Sri Krishna objetivamente através da lente do bhava ou rasa.
Por que Sri Krishna é Rasaraja, sendo assim Ele é A Pessoa Suprema, mais
elevado que Narayana mesmo. De outra maneira, Krishna e Narayana são
Um.
Entretanto através da lente subjetiva do bhava, rasa ou lila, grandes
devotos perdem de vista que Krishna é A Pessoa Suprema e pensam que
Ele é seu amigo, filho, amante... Mãe Yasoda não pensa Nele como sendo a
suprema personalidade de Deus e nem Krishna mesmo quando Ele está
mamando no peito dela.
Apesar que Krishna é Deus e que nesse sentido Ele não tenha problemas,
em Sua lila Ele tem muitos problemas. Por exemplo, quando Srimati
Radharani exibe mana (amor com ciúmes), com o qual Krishna tem grande
prazer, Ela irá algumas vezes proibí-Lo de se aproximar Dela na intimidade
e Suas assistentes bloqueiam Sua entrada em alguns momentos. Nesses
momentos, Krishna procura consolo com Seus amigos como Subhala, o
qual o aconselha sobre como resolver esses problemas.
Através da escrita de Sri Krishna Dasa Kaviraja Goswami encontramos:
“Apesar que Eu Sou a verdade completa espiritual e Sou feito de completo
prazer, o amor de Radha me deixou louco.”
Não é um problema se Deus se torne louco? Na realidade, o completo
advento de Caitanya Mahaprabhu se baseia no problema que surgiu para
Sri Krishna durante Sua rasa lila. Naquele momento Ele percebeu que o
amor de Radha por Ele permitiu que Ela saboreasse o tamanho do amor que
Ele próprio nunca pôde com privilégio experimentar. Apesar que Ele fala
no Bhagavad-gita que Ele irá proporcionalmente ser recíproco ao amor
com o qual uma pessoa se aproxima Dele, Ele realiza durante a rasa lila
que ao amor de Radha Ele não pode ser recíproco de nenhuma maneira.
Sendo derrotado pelo Seu amor, Ele tenta roubar isso em um último
esforço. Então, na realidade, o aparecimento de Caitanya Mahaprabhu
também vem com um grande problema. Em Seu lila, Ele passa a maior
parte do tempo como um louco, derramando lágrimas por que está absorto
em um sentimento de separação de Radha. Apenas pela misericórdia dos
associados íntimos de Radha feito Lalita e Visakha na forma de Svarupa
Damodara e Ramananda Ray é que foi possível para Caitanya Mahaprabhu
resolver esse assunto, que é eterno e que apresenta uma oportunidade de
ouro de serviço para nós.

FIM DO ARTIGO
3. ADI GURU E FUNDADOR ACARYA

É importante notar que Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta é o fundador


acarya de uma instituição e não de uma religião ou mesmo de uma
linhagem. O fundador da religião de Prabhupada é Sri Caitanya, isso é
explicado por Sri Jiva Goswami, no seu sarva-sambandini. Na religião de
Sri Caitanya Mahaprabhu existem muitas linhagens, Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta é um membro e um proeminente guru de uma delas dos
tempos modernos, um dos seguidores da visão de Srila Bhaktivinoda
Thakur. Na realidade, Prabhupada Bhaktisiddhanta identificou esse
movimento como um movimento de Srila Bhaktivinoda Thakur. Essa
citação é meramente factual, e isso não minimiza Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta, e nem precisaria se dizer isso se não fosse as pessoas que
tentam identificá-lo como um fundador acarya, como fundador de uma
sampradaya, semelhante a Madva, Ramanuja, Sri Caitanya. Infelizmente
esse tipo de glorificação feita a Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta é feita
frequentemente para minimizar outros acaryas Gaudiya Vaisnavas, e
inadvertidamente as nuvens de discussões filosóficas com emoções e
lágrimas, mancham a tinta nas páginas impressas do sastra.
Quanto à institucionalização do Gaudiya Vaisnavismo, além da forma mais
branda de institucionalização na forma de literatura, pouco foi feito antes
de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura. Ele pode ter sido o primeiro a
fazer um experimento de institucionalização do Gaudiya vaisnavismo,
apesar que ele faz um grande número de afirmações a respeito dos
potenciais problemas que poderiam suceder disso. Dado o que ocorreu em
algumas instituições nestas décadas recentes, deve ser mais interessante
espalhar os preceitos de Sri Caitanya Mahaprabhu, colocar mais ênfase em
seus ensinamentos essenciais do que tanta ênfase na institucionalização.
Srila Bhaktivinoda Thakur escreveu: "A ideia de uma igreja organizada de
uma forma inteligente marca o fechamento de um movimento espiritual
vivo. Os grandes estabelecimentos eclesiásticos, são diques e represas para
reter a corrente que não pode ser detida por quaisquer destes dispositivos.
Eles, na realidade, indicam um desejo por parte das massas de explorar um
movimento espiritual para seu próprio propósito. Eles também
inconfundivelmente indicam o fim do absoluto e da não convencional guia
de um mestre espiritual fidedigno".
O Padma Purana diz que existem quatro sampradayas. De acordo com essa
afirmação, nossa sampradaya seria a Brahma sampradaya e nosso adi
guru seria Brahmaji. Ele passou os ensinamentos através de Narada e
Vyasadeva, o qual compilou os Vedas. Quando os ensinamentos chegaram
a Madva acarya, ele não somente repetiu o que tinha escutado dos outros,
ao contrário, ele deu uma nova luz aos Vedas por interpretá-los de acordo
com a sua própria realização espiritual. Sua interpretação, conhecida como
dvaitavada, deu nascimento a um novo movimento espiritual, no qual
proeminentes membros mais adiante elaboraram na filosofia de Madva uma
tradição desenvolvida com seus próprios ritos, rituais e práticas espirituais.
Depois na Brahma Madva Sampradaya, Sri Caitanyadeva, de acordo com
sua própria experiência espiritual, derramou uma nova luz nos
ensinamentos de Brahma recebidos de Krishna. Seus discípulos, os seis
Goswamis de Vrindavana, mais adiante também elaboraram os
ensinamentos de Sri Caitanya. Dessa maneira, o ramo de Caitanya da
Madva Sampradaya passou a existir e a desenvolver seus próprios ritos,
rituais e práticas espirituais. Essa foi a religião de Sri Caitanya que Srila
Prabhupada veio estabelecer ao vir para o ocidente. Ele não veio
estabelecer uma nova sampradaya ou nova religião. Ele veio promover a
Brahma-Madhva-Gaudiya sampradaya, e fez isso para inovar a pregação, e
não simplesmente imitou o que tinha escutado de seu guru.

O ponto aqui é o quanto é verdade que os ensinamentos devem ser


passados sem adulteração. O real espírito do parampara envolve dar uma
nova luz aos ensinamentos, fazendo deles relevantes para as pessoas.
Enquanto Srila Prabhupada costumava dizer para passar adiante o que uma
pessoa ouviu sem adulteração, seu próprio exemplo de ajustar os
ensinamentos de acordo com tempo e circunstância, claramente demonstra
que pregação envolve entender os ensinamentos suficientemente bem para
distribuir a mensagem essencial e ao mesmo tempo alterar alguns detalhes
que não são essenciais. A associação discipular não está necessariamente
relacionada com repetir o que você tenha escutado do seu guru prévio. Isso
é um assunto de realização pessoal.
O termo adi-guru e fundador acarya são definidos aqui de uma maneira
romântica. Exceto por uma instância, eu nunca li algo de algum acarya que
tenha usado o termo adi-guru para se referir a outra pessoa a não ser
Krishna, o guru original. Similarmente, o termo fundador acarya não é um
termo escritural. Se fosse, seria uma tradução de um termo sânscrito.
Fundador acarya refere-se ao acarya fundador de uma instituição. Srila
Prabhupada Bhaktisiddhanta foi o fundador acarya da Gaudiya Matha,
Srila Prabhupada foi fundador acarya da Iskcon, Srila Sridhar Maharaj foi
fundador acarya da Sri Caitanya Sarasvati Math e assim sucessivamente.
Srila Prabhupada mesmo nunca explicou o termo de adi-guru e fundador
acarya de certa forma. Então, desde o início, nós somos levados a aceitar a
explicação destes termos sem nenhuma evidência como suporte. De fato,
há evidências contrárias.

Srila Prabhupada escreveu "se nós formos aceitar um guru, então o guru
original é Krishna, porque Ele instruiu o Senhor Brahma, a primeira
entidade viva criada dentro deste universo. Tene brahma hrda ya adi
kavaye [SB 1.1.1]. Ele instruiu o adi-kavi (Brahma, o poeta original, do
qual as escrituras védicas emanaram). Ele é o guru, Krishna. E no
Bhagavad-gita, Ele também diz, imam vivasvate yogam proktavan aham
avyayam [Bg. 4.1]. Então Ele (Krishna) é o adi guru. No Bhagavad-gita
Ele também instrui Arjuna. Ele é o adi-guru.
Srila Bhaktivinoda Thakur escreve que o adi-guru de todos os mestres
espirituais está na sucessão discipular e Ele é Bhagavan, a Suprema
personalidade de Deus. Mostrando Sua grande misericórdia Ele instruiu
Brahma, o adi-kavi, essas verdades foram ensinadas pelo Senhor Brahma
para Sri Narada, e de Narada para Sri Vyasa, e de Vyasa para Madva
acarya. Essas instruções passadas por sucessão discipular são chamadas
guru parampara upadesa. Em última instância o adi guru se refere a não
outro mais do que Krishna. Bhaktivinoda Thakur em seu Harinama
Cintamani, refere-se a Madva, a Ramanuja e Visnu Swami como adi gurus
também. Esse termo "fundador acarya" primeiramente apareceu durante a
época de Prabhupada Bhaktisiddhanta e isso não é encontrado em outros
escritos de Bhaktivinoda Thakur, nem no Harinama Cintamani. Ele não
interpretou esse termo de nenhuma maneira. Existe uma diferença entre adi
guru e fundador acarya. Sri Caitanya Mahaprabhu é o fundador do
Gaudiya Vaisnavismo, não Srila Bhaktivinoda Thakur. Existem muitos
tipos de siksas gurus, e com certeza o fundador acarya da instituição é um
deles. A influência do fundador acarya na vida espiritual de um devoto em
particular dependerá de muitos fatores, mas geralmente o melhor siksa
guru para um devoto é aquele que o ajuda o máximo possível em um caso
particular em um determinado momento. Ao passo que Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta, Srila Sridhar Maharaj, Srila Kesava Maharaj e muitos
outros fundadores são acaryas para suas respectivas missões, cada um
daqueles que os representam tornam possíveis seus ensinamentos,
compreensíveis e acessíveis para os devotos e público em geral: Isso é que
esses acaryas fundadores fizeram em relação aos acaryas que vieram antes
deles. Sendo assim, para nós, um representante particular do fundador
acarya pode ser mais importante que o fundador acarya da fundação
mesmo, esse é o princípio dinâmico da sucessão discipular. Quando se diz
que o diksa guru dá sambhanda jñana, isso se refere ao fato de que ele dá o
mantra, onde o conhecimento da relação com Krishna pode ser encontrado.
Diksa significa dar o mantra e todas as coisas que seguem isso é siksa. O
discípulo requer siksa a cada passo do processo. Existe siksa no
sambhanda que é o conceito, orientação; siksa em abhideya que é a
natureza do caminho; e siksa em prayojana que é o objetivo. Siksa pode vir
de amigos ou associados, mas a siksa mais significativa vem da associação
de devotos avançados. Deveria-se buscar esse tipo de siksa onde quer que
possa ser encontrada.
A proibição para os devotos irem além dos limites institucionais para
buscar associação avançada, constitui uma ofensa ao princípio do guru.
Krishna não pode ser aprisionado dentro das paredes de alguma instituição
religiosa particular e isso é uma ofensa ao princípio do guru.

FIM DO ARTIGO
4. LENDAS E DOUTRINAS DA CULTURA MODERNA

Sristi-lila
As lendas e doutrinas da cultura moderna contam com a evidência
irrefutável de muitos animais grandes que habitavam na Terra em passado
distante. As escrituras védicas mencionam isso também; por exemplo, o
Srimad Bhagavatam fala de grandes elefantes que viviam na água, de
baleias gigantes, peixes também enormes chamados timingilas, também
falam de pássaros grandíssimos comparados às nuvens... Isso tudo poderia
ser uma referência da existência de seres pré-históricos, conhecidos como
os dinossauros.
O número de almas neste mundo material é um número ilimitado. O mundo
material é um passatempo particular de Deus chamado sristi-lila; essa lila é
algumas vezes manifesta e outras não manifesta. Então, nunca existirá um
tempo no qual todas as jivas serão liberadas. No Visnu dharma Purana uma
questão similar é colocada: "Um por um, kalpa depois de kalpa, as almas
individuais alcançam liberação. Ó brahmana! dessa maneira não pode o
mundo material se tornar gradualmente vazio em algum momento?". Para
essa questão Sri Markandeya risi responde: "Quando uma alma individual
alcança a liberação, Bhagavan, que tem potências inconcebíveis, implanta
e vai criando outras almas, dessa maneira mantendo o mundo material
sempre cheio". Sri Jiva Goswami cita e comenta esse verso em seu Priti
Sandarbha, explicando que nos universos materiais, que são inumeráveis,
existem inumeráveis jivas (almas individuais) nas quais o karma ainda não
despertou e as quais ainda estão dormindo imersas na natureza material.
Quando Bhagavan desperta essas almas e dá a elas corpos materiais
externos, isso se refere ao sristi lila. Porém, em realidade, as almas não tem
um começo ou um momento em que são criadas.
Krishna, Paramatma e Yoga maya
É uma tremenda estupidez negar que Deus possui um poder inconcebível.
Ela é constituída de uma de Suas shaktis e todas essas shaktis de Deus são
dependentes Dele. Ele é a fonte delas. Elas não têm existência
independente Dele, nesse sentido elas são uma com Ele. Mas, ao mesmo
tempo, as jivas são diferentes de Deus, O qual preside sobre elas. Somente
porque uma pessoa pode explicar isso de certa forma lógica, isso não muda
o fato que isso se realiza, por que Deus é inconcebível em Seu poder. Em
outras palavras, se uma pessoa pergunta por que a relação entre a jiva e o
Brahman poderia ser chamada acintya, ela pode ser explicada com base na
lógica de uma relação que envolve o Brahman sendo simultaneamente um e
diferente, bhedabheda, de suas shaktis. Assim como a presença simultânea
da unidade e diferença no Brahman pode ocorrer em um primeiro plano,
isso está além de nossa compreensão; pela lógica, há simultânea presença
da unidade e diferença de um mesmo objeto. Fogo e sua energia, calor, são
simultaneamente um e diferentes, e nós podemos citar esse exemplo da
presença simultânea da unidade e diferença em um objeto material para
explicar que o Brahman e a jiva são simultaneamente um e diferentes.
Entretanto todo esse exemplo nos diz que como o Brahman é acintya
bhedabheda, então também são os objetos materiais unos e diferentes de
Sua energia; sendo assim a metafísica de acintya bhedabheda é ilimitada
nesse objetivo, semelhante a natureza do ser.
Todos nós podemos dizer que isso é possível por que a realidade é possuída
de inconcebível poder pela qual semelhantes contradições mundanas e
lógicas podem apesar de tudo acontecer.
A característica de Paramatma, é que é o aspecto onisciente e observador
do mundo material do sristi lila; preside sobre o cosmos, sobre cada
universo e cada átomo. Ela é descrita em três fases: Karano-dakasayi
Visnu, Garbho-dakasayi Visnu e Ksiro-dakasayi Visnu. O ponto aqui é que
Visnu é onipenetrante; Ele está por toda parte e sabe de todas as coisas;
nada é mistério para Ele. As descrições dadas nas escrituras de Paramatma
como sendo do tamanho de um polegar e residindo perto ao coração
humano, como Paramatma individual é descrito dessa forma para ajudar
durante a meditação. Sua onisciência em relação a alma individual não
depende de sua residência próxima a jiva no coração humano. Isso é
explicado por nosso Gaudiya acarya Srila Baladeva Vidyabhusana em seu
Govinda-bhasya no comentário do Vedanta Sutra. Durante a meditação no
Paramatma, aparece para o yogui ou para o devoto, como uma forma
localizada no coração, mas o Paramatma geral é todo penetrante e
onisciente. A manifestação de Deus em relação ao mundo material é como
Paramatma e no mundo espiritual aparece como Bhagavan. Porque
Paramatma é uma manifestação parcial de Bhagavan, a onisciência de
Paramatma também pode estar presente em Bhagavan.
Em Vaikuntha, a onisciência de Bhagavan Narayana é pelo amor dos Seus
devotos, ao invés de ser usado com o propósito de testemunhar o feito das
jivas, assim como é o caso de Paramatma no mundo material. Narayana é
conhecedor de tudo no contexto da relação amorosa com Seus devotos, os
quais em Vaikuntha estão todos num humor de servidão. Maha Vaikuntha,
a relação amorosa de Deus com Seus devotos, muda do formal, como em
Vaikuntha, para a intimidade. Na relação amorosa íntima, a consciência de
Deus necessariamente recua para trás para facilitar a intimidade; o poder
para isso é conhecido como yoga maya, ou o divino autoesquecimento. Por
exemplo, em Dwarka lila, para experimentar uma troca de amor na
intimidade, Bhagavan/Krishna algumas vezes pede a Uddhava para
aconselhá-lo como se Ele não fosse onisciente. Dessa maneira, Krishna em
Dwarka, subordina a Si mesmo ao devoto. Em Dwarka Sua onisciência é
puramente eminente e Seu autoesquecimento, menos ainda. Entretanto essa
equação é revertida em Vrindavana lila, onde Sua onisciência é claramente
subordinada ao Seu divino autoesquecimento. Em Vrindavana Ele pensa
Dele mesmo não como Deus, mas como filho de Yasoda, ou amigo de
Madhu Mangala e amante de Radha. Deus nunca perde Sua onisciência,
mas para que a extensão de Seu amor íntimo penetre Sua relação com a
alma individual, Sua onisciência se torna de uma importância diminuída.

Planos materiais de consciência


O Bhagavad-gita fala que existe vida em todos os locais, (sarvagatah) e a
literatura védica fala de semideuses e outros seres desfrutando de vida em
outros planetas incluindo a Lua e Marte. Cientistas dizem que astronautas
tem ido a Lua e que existe um número muito grande de experiências com
robôs que têm sido enviados à Marte, mas tanto na Lua como em Marte,
não encontraram evidência de vida. Não aceito a ciência como uma
autoridade absoluta, mas se existe vida na Lua ou em Marte, por que a
ciência ainda não encontrou nenhuma evidência? Alguns devotos acreditam
que cientistas estão simplesmente enganando todo mundo a respeito de sua
ida à Lua ou a Marte, mas eu suspeito de outra coisa. Quando a escritura
védica fala de planetas nos quais formas de vida superiores existem, está
falando mais do o macroscópico mental dos planos da experiência que os
planetas que podemos ver no céu com nossos sentidos físicos; apesar que
os sábios reconhecem alguma correspondência ou correlação entre as Luas
quando eles falam de alcançar outros planetas. Descrevem o curso para se
alcançar isso muito diferentemente dos meios tecnológicos.
Assim como existe um plano da experiência física na qual os sentidos são
predominantes, na mente existe planos da experiência onde a mente ou a
inteligência são predominantes, bhur bhuvah svaha. No plano físico nós
não podemos experimentar todos os nossos sonhos; aqui nós não podemos
ver ouro ou uma montanha de ouro; no plano mental, entretanto, nós
podemos experimentar uma montanha de ouro e muito mais. A mente é o
plano da experiência na qual é particularmente ativa. A noite, quando o
plano físico, ou seja, quando nossa experiência física está adormecida, ele
se identifica com a lua, com a luz da noite, da qual está dito que preside
sobre a mente e desejos, sendo oposta a razão. A Lua é também
identificada como o céu, ou o paraíso, a qual em certo sentido é a terra de
sonhos onde todos os nossos desejos materiais podem ser satisfeitos. No
plano celestial da mente existem possibilidades que não existem no plano
físico; ali se pode residir e desfrutar quase como os prazeres ilimitados
celestiais; no entanto isso é uma fantasia, pois não dura muito tempo.
Os sentidos são dependentes dos aspectos do cosmos para funcionar e nos
dar prazer. Por exemplo, para olhar com os nossos olhos, nós dependemos
da luz do Sol. Os sentidos não são nossos em todos os aspectos; pelo
reconhecimento de sua dependência nos aspectos da natureza, nós vivemos
igualmente com muito cuidado. Isso capacita o ser a incrementar sua
experiência no desfrute material, no reino mental celestial, sem ter passado
por muitas reações karmicas negativas depois de viver neste plano material
grosseiro. Então, o significado de ir a reinos celestiais envolve um pouco a
relatividade do controle dos sentidos. Tudo que é requerido para desfrutar
dos objetos dos sentidos uma pessoa reconhece, inclusive as deidades e
aspectos do cosmos que presidem sobre os sentidos. Em termos védicos
isso é chamado de yajña, ou sacrifício. Viver dessa forma é viver com o
sentido de gratidão e entendimento de como o universo trabalha. Acima do
plano mental está o plano intelectual alcançado pelo sadhana, prática
espiritual. A Lua minguante é o símbolo da decadência da mente: Que a
influência da mente possa ser eliminada. Todas as práticas espirituais estão
direcionadas a isso e adversos estágios. Semelhantes práticas diretamente
iniciam-se por purificar o intelecto elevado de santos e escritura. O
intelecto diferente da mente, traz certezas ao invés de fantasia.
Macroscopicamente falando, sábios os quais têm controlado suas mentes e
sentidos, habitam no plano do intelecto; eles vivem em samadhi, esperando
liberação. Semelhantes sábios não desejam prazer sensorial por que o
conhecimento e iluminação mística que eles possuem, possibilita que
controlem suas mentes e seus sentidos, fazendo isso tem o ser fechado e
voltado para Deus. Sendo assim nós não deveríamos estar preocupados se
as comprovações de Marte ou as experiências científicas em marte
retornam para a Terra sem nenhuma evidência de vida. Por mais incrível
tecnologia avançada que tenha sido utilizada. Aqueles envolvidos nisso não
tem ido a nenhum planeta elevado, no sentido que as escrituras védicas
falam a respeito disso. Ao invés de se preocupar tanto com experiências de
outros planetas que são tão elevados na nossa concepção, ou com reinos
superiores para também desfrutar, nós deveríamos estar mais concentrados
com o sadhana. O sadhana e a graça dos santos é infinitamente maior que
ir à Marte.

FIM DO ARTIGO
5. A RESPEITO DE DIKSA
A ideia geral de diksa na sucessão discipular seria que o mantra é
empoderado por essa sucessão. Isso é considerado como uma parte do
Pancaratrika marga. Quando nós falamos em paralelo da linhagem de
siksa em zig zag, nós estamos falando de uma sucessão bhagavata. O
bhagavata marga é realizado pelos devotos, enquanto que o pancaratra
marga pode não ser assim. O diksa mantra cai sobre o pancaratra marga.
Essa linha pode ser saudável, e assim é melhor. Se entretanto isso não for
dessa forma e uma pessoa compensa isso por tomar refúgio no siksa guru
que representa a bhagavata marga, a pessoa irá permanecer conectada.
Nesse caso é necessário para o discípulo receber o mantra novamente de
um siksa guru. Todo esse caso pode não ser necessário para um discípulo
aceitar novamente o mantra de um siksa guru, mas será necessário para o
discípulo tomar absoluto refúgio nesse siksa guru. Fazendo isso então o
discípulo pode querer escutar o mantra de seu guru, e se entende que isso é
aceitável. Aqueles que abraçam o Srimad Bhagavatam abraçam o
paramahamsa. Isso é, paramahamsa samhita, e param nirmatsaranam
satam. Nós abraçamos esse ideal ainda que não sejamos paramahamsa.
Então através de sraddha, o ideal do Bhagavata e Mahaprabhu, nós somos
elegíveis para tentar esse caminho; ainda que ao fazê-lo, necessitamos de
uma ajuda auxiliar para suportar nosso bhakti. Nós não podemos
simplesmente sentar e cantar como paramahansas. Então essa é a noção do
daiva varnasrama como é mencionado no décimo primeiro canto do
Srimad Bhagavatam. A ideia é que o movimento do absoluto é apenas para
o desfrutar, para a lila, este é seu único motivo. Deus não tem necessidades.
Quando nós percebemos o mundo de Krishna, tomando vantagem desse
ponto, isso virá nos mostrar a morada da lila de outra forma, quando as
almas percebem a compaixão do Senhor, que está realizando atos para
salvá-las. Mesmo no amor material, a pessoa gosta de ver o seu amante
ficar ciumento algumas vezes, porque isso serve para demonstrar a
extensão de seu amor. O mana de Radha, ou o amor ciumento, é muito
cativante para Krishna. Ele é subjugado por isso. Você pode entender que o
ciúme em Goloka é notadamente parecido como aqui. Todo mundo lá é
abnegado nesse amor por Krishna, e a insistência de Radha que Ela seja
honrada primeiramente, aparece do fato que Ela permite isso para poder
satisfazer Krishna completamente. Então Seus ciúmes são apenas uma
matéria para servir.
Srila Sridhara Maharaj e outros acaryas têm pregado usando palavras como
retornar, de volta a Deus, Você me deixou etc, para um efeito específico; e
por que existe também uma limitação da linguagem para expressar o
inconcebível. Enquanto os mestres algumas vezes falam dessa maneira,
eles também falam para nós que nós somos nitya-baddha, eternamente
condicionadas e que também ainda não experimentamos nossa relação
eterna com Krishna. Aos Seus olhos nós somos Seus servos eternos, apesar
que ainda não estamos capacitados para atuar dessa maneira. Então
podemos olhar e imaginar esse mundo material como um reflexo do mundo
espiritual.

FIM DO ARTIGO

6. ALEGORIA, MITOLOGÍA E LILA


As lilas de Krsna

O objetivo do Gaudiya Vaisnavismo é estabelecer uma associação dos


devotos por todo o mundo que tenham fé nas formas, passatempos e
qualidades de Krishna. Isso não é uma tarefa fácil. A ideia que Krishna é
uma pessoa e que Sua forma existe em todas as coisas, e que Ele está
situado em um local enquanto se move para outro local ao mesmo tempo,
então isso é muito esotérico e despertar a fé nisso não é uma tarefa muito
fácil. Nisso, Prabhupada teve muito sucesso. Ao mesmo tempo, a lila de
Krishna oferece muitos significados em outros níveis. Não são apenas
histórias, mas estão cheias de compreensão filosófica. Então quando nós
narramos a lila, nós damos um significado prático do que a lila nos ensina,
e nós temos de aplicar esse ensinamento em nossa prática. Só então
poderemos compreender Krishna como uma pessoa em Sua lila.
Os passatempos de Krishna acontecem eternamente e nos instruem em
muitos níveis.

A posição da manjari bhavolasa rati é muito elevada. De fato, isso é o que


Caitanya Mahaprabhu veio a provar. Somente através de manjari bhava
uma pessoa pode experimentar o amor de Radha. Como manjari bhava
uma pessoa se identifica com Radha, qualquer coisa que Ela experimenta, a
manjari também experimenta. Quando Radha era arranhada por Krishna
em seu namoro íntimo, esse mesmo arranhão aparece no corpo de Suas
manjaris. Isso é bem parecido com o conceito dos estigmas no catolicismo.
Então, isso é chamado “tadbhavecchatmika”, um desejo de provar os
mesmos sentimentos que Radha tem sentido sem se tornar Sua
competidora, isso é manjari bhava. Sri Jahnava, a esposa de Nityananda
diz no Murari-vilasa “quando Ela (Radha), e Seu amante (Krishna) estão
nos Seus mais íntimos e elevados passatempos, os cabelos de Radha se
arrepiam em Seu corpo e esse mesmo fenômeno acontece no corpo de Suas
amigas, as manjaris. Elas experimentam sete tipos de prazeres que Radha
também o faz.
Enquanto se participa da lila como uma testemunha na meditação, o bhava
do evento daquela lila manifesta-se no meditador. Isso pode ser comparado
à audiência de um drama, experimentando as emoções retratadas no
enredo. Mas claro, isso tudo é muito elevado, mas é valioso ter um
entendimento teórico do alto ideal e, então, focar naquilo que é relevante
para o avanço pessoal imediato.

De acordo com o siddhanta, Radha não tem nenhum marido a não ser
Krishna. Mas de acordo com o bhava, Ela tem. Para o prazer de Radha
Krsna na lila, Yogamaya manifesta o assim chamado marido de Radha com
o nome de Abhimanju, mas na verdade ele é uma manifestação parcial de
Krishna mesmo. Isso acontece no caso de todas as gopis. Krishna
manifestou-se Ele mesmo como todos os vaqueirinhos que foram roubados
por Brahma. Esse incidente coincide com a necessidade de casar as jovens
garotas de Vrindavana. Nesse momento, Krishna se casou com muitas
gopis aparecendo como outros meninos.
Esse arranjo torna possível o amor de amantes, no qual a excitação pelo
risco etc. aumenta as altas trocas de amor. Essa é a divina ilusão que dá o
prazer transcendental a Krishna e aquilo que satisfaz Hari é a medida do
dharma “samsiddhir hari tosanam".

FIM DO ARTIGO
7. RESPOSTAS DIVERSAS: QUESTÕES DOS BELIEFNETS

Adequada noção da vida sexual

O mundo material não é sobre desfrutar. De acordo com o Yoga-sutra de


Patanjali (2.15), o sábio entende que o prazer dos sentidos gera sofrimento
quer como uma consequência direta (parinama), na forma de antecipação
(tapa) dessa inevitável perda, ou na forma de um novo desejo (samskara)
para o prazer dos sentidos, que nasce das impressões incutidas na mente.
Então, o prazer dos sentidos é misturado com o sofrimento em todas estas
três fases do tempo.

A verdadeira felicidade vem da cultura da ação desinteressada, na qual uma


pessoa atua para à satisfação de Deus, e não para os sentidos materiais.
Todo o mundo reconhece que a vida sexual deve ser restrita de alguma
maneira. Esse sentimento desperta na vida humana. O casamento é uma
parte importante da cultura da ação desinteressada, e a indulgência sexual
deveria estar confinada dentro dos parâmetros matrimoniais para aqueles
que estão interessados em vida espiritual religiosa, na qual o verdadeiro
prazer pode ser encontrado.

No Bhagavad-gita (7.11) Krishna mesmo Se identifica como o amor que


está de acordo com a lei escritural. Enquanto o amor por natureza é sem lei,
Krishna advoga a domesticação do amor material. O efeito disso é que será
despertado na alma um prospecto para amar no plano espiritual. O amor
real aparece do auto sacrifício. Apesar que o amor não tem lei, ou melhor,
não tem razões, na vida material sua perseguição desenfreada chega a
ignorar as óbvias leis da natureza, o que no mínimo torna tal amor sem
valor. As escrituras apontam para que o amor material possa ser
redirecionado a um aspecto correto. Quando o amor está completamente
espiritualizado, ele transcende à escritura.

Como desenvolver fé
A divina fé desenvolve-se na companhia daqueles que a possuem, assim
como através do estudo das escrituras sob guia de almas realizadas. Por
isso devemos traçar o objetivo de nos associar com as almas realizadas e
encontrar a real sadhusanga.

A agitação na mente

A melhor coisa a se fazer em todas as circunstâncias é cantar os santos


nomes de Deus (Krishna). Esse único ato é completo em si mesmo. Se uma
pessoa faz isso, não haverá mais faltas em sua vida.

Morrer jovem

Quando uma pessoa morre jovem, isso não quer dizer que Deus seja cruel,
pois Ele nos deu a vida para viver. Quando os santos morrem jovens, nós
entendemos que Deus os ama muito, por isso Ele não pode suportar uma
separação tão longa. Se os entes queridos de um santo que foram deixados
para trás realmente amam a ele, eles devem servir a Deus assim como este
santo fez, pois há poucas dúvidas de que isso era realmente o que ele
queria. Além do mais, a razão pela qual os deixados para trás o amam
tanto, é de seu caráter santo.

Aborto e genética

De acordo com a escritura Hindu, a vida começa quando o sêmen do


homem fertiliza o óvulo feminino.

karmana daiva-netrena jantur dehopapattaye striyah pravista udaram


pumso retah-kanasrayah (SB. 3.31.1)

“Pelo divino arranjo, de acordo com o princípio do karma, a entidade vida


entra no ventre de uma mulher através da partícula de sêmen do homem
para assumir um tipo particular de corpo”.

Então não existe debate dentro do hinduísmo a respeito de quando a vida


começa. Sendo assim, o aborto nesse caso envolveria matar, o que na
maioria dos casos não é aceitável.
Apesar de não ser um argumento estudado, é provável que por motivos
semelhantes o hinduísmo se oporia à investigação acerca de células-tronco,
supondo que estas pesquisas são mais eficazes em células-tronco de fetos
abortados.

O período menstrual e práticas de adoração

As proibições a respeito do envolvimento da mulher com os procedimentos


ritualísticos de adoração durante o ciclo menstrual delas estão citadas nas
escrituras. Pelo menos é assim que aqueles que formaram linhagens tem
interpretado essas seções das escrituras que discutem este período. Por
exemplo o Bhagavat Purana atribui o ciclo menstrual como a quarta parte
da reação kármica que Indra recebeu por ter matado um brahmana de forma
inadvertida. De acordo com o Purana, Indra matou um brahmana e foi
então castigado por uma reação kármica por esse assassinato. Então ele
negociou com quatro grupos os quais concordaram em absorver um quarto
da reação por receber uma benção. A mulher, por exemplo, recebeu a
benção que ela poderia ter sexo durante a gravidez sem nenhum prejuízo
para o embrião e em troca ela aceitou um ciclo menstrual.

sasvat-kama-varenamhas turiyah jagrhuh striyah


rajo-rupena tasv amho masi masi pradrsyate (BP. 6.6.9)

O Purana também diz que uma pessoa não deveria comer alimento visto
por uma mulher durante seu período menstrual, bhunjitodakyaya drstam
(Bhagavata Purana 6.18.49). Alguma coisa a esse respeito é encontrado no
Manu Samhita.
Não somente a sociedade hindu anciã mas praticamente todas as culturas
religiosas pré-modernas consideram esse período menstrual da mulher
como impuro no mínimo. Esse período de impureza envolvia mais do que
impureza ritualística e muitas vezes sentenciava a mulher a um
confinamento solitário durante o ciclo. Então, concluímos que até as
culturas religiosas pré-modernas sabiam mais sobre o ciclo menstrual
feminino do que sabemos hoje, ou que o entendimento pré-moderno desse
período era também desinformado em algum nível.
O último parece mais provável, e basta ler sobre os variados medos que as
culturas pré-modernas tinham acerca deste período na vida de uma mulher
para saber que seu entendimento envolvia uma grande superstição.
Podemos entender que a falta de conhecimento sobre o tema era o que mais
vigorava tanto no passado quanto no presente, e a cultura hindu não é
exceção.
De fato, até os mais ortodoxos hindus têm alterado sua posição em relação
a esse assunto nos dias de hoje, enquanto a maior parte se apega a alguma
parte do pensamento pré-moderno a respeito da pureza ritual. Assim,
embora hoje em dia as mulheres hindus não fiquem mais confinadas em um
local solitário, suas roupas não sejam mais queimadas durante seu ciclo
menstrual, elas são comumente proibidas de adoração ritualística e até
mesmo de entrar nos templos. É provável que estas proibições correntes
também irão ser mudadas em um determinado momento.
A principal preocupação no hinduísmo parece ser em relação ao
sangramento; mesmo homens que estão sangrando com algum ferimento
não são permitidos participar em adorações ritualísticas. No entanto, hoje
permanece a questão de saber se os métodos modernos de limpeza que
controlam o sangramento não alteram a equação.
Srila Visvanatha Cakravarti Thakura diz no Bhagavad-gita em seu
comentário 9.26 que a palavra "prayatmanaha" refere-se à pureza física e
então proíbe a mulher de se ocupar em adoração durante seu período
menstrual. Mas, Swami Maharaj Prabhupada considerava que semelhante
adoração não contradiz as orientações escritas pela linhagem de nossos
fundadores. Em relação a isso ele escreveu: "De acordo com o smarta
viddhi, a mulher não pode tocar na Deidade durante seu período menstrual,
mas o goswami viddhi permite isso. Mas o melhor é não fazê-lo.
O fato é que o seva não deve ser interrompido por nenhuma razão, o
mesmo vale para cozinhar". (Aqui Prabhupada está dizendo que a mulher
pode fazer esse serviço para à Deidade durante o período menstrual se
necessário).
Na tradição do bhakti Deus é mais acessível, especialmente Krishna. Sendo
assim, nesta era de Kali-yuga, a mais efetiva prática espiritual é o canto dos
Santos Nomes e não existem proibições para Krishna kirtana. Semelhante
canto pode ser praticado por qualquer um, em qualquer momento sob
qualquer circunstâncias.
FIM DO ARTIGO
8. INSPIRAÇÃO, AUTOENGANO E MAIS SOBRE MULHERES E SANNYASA

Brahmacarini e sannyasa à mulheres

Não se trata de uma proposta que os livros de Srila Prabhupada tenham de


ser modificados. Entretanto, o entendimento literal da ideia de que os livros
de Srila Prabhupada poderão ser "lei para os próximos 10 mil anos" é
pouco fundamentada ou realista. Incidentalmente, essa afirmação atribuída
a Srila Prabhupada não pode ser encontrada em nenhum lugar no registro
de seus escritos.
Prabhupada escreveu que a mulher deveria ser sempre protegida em todos
os estágios de sua vida, quando criança pelo seu pai, como esposa pelo seu
marido e quando viúva pelos seus filhos. Apesar disso, ele mesmo criou a
ordem de brahmacarini na ISKON. Quem está protegendo elas? Talvez
Krsna. Prabhupada escreveu: “Na verdade, não existe brahmacarini, isso
não é permitido no sastra. Onde está essa questão de brahmacarini? Por
que de acordo com o sistema védico, tão logo a garota tenha entre quatorze
e dezesseis anos de idade, ela deveria ser casada de uma vez. De acordo
com o sistema védico, nenhuma menina devia permanecer sem casar-se.
Então não há questão de brahmacarini. Toda garota deveria se casar, Isso é
a cultura védica".
Mesmo tendo proferido tais palavras, ele estabeleceu o ashram de
brahmacarinis! Ele também disse: “Entretanto, no presente momento não
podemos estritamente seguir a cultura védica e nem nós estamos
estritamente seguindo, nem é possível estritamente segui-la. Na medida do
possível. Isso é tudo. Nossa concepção de brahmacarini está na sociedade
de Krishna, entretanto, especialmente na Índia, não existe brahmacarini;
mas aqui, no ocidente, os meninos e meninas se misturam muito
facilmente, livremente, então apenas para restringir essa liberdade de
associação entre homens e mulheres, nós pensamos que as meninas que não
estão casadas deveriam permanecer separadas. Essa é a contemplação. Mas
na realidade, no sistema védico não existe brahmacarini".
O que Srila Prabhupada cita aqui é a possibilidade de estabelecer o ashram
brahmacarini na sociedade apesar de que na cultura védica isso não era
feito.
Prabhupada estava muito satisfeito com o fato dos devotos que pudessem
estabelecer um ashram de brahmacarinis no ocidente; ele mesmo disse que
orava para Krishna para que isso pudesse ser feito. Ele mesmo disse a um
devoto em correspondências “se você pode organizar um brahmacarini
ashram, eu estarei muito satisfeito com essa ideia”. E disse a uma
discípula: "Eu estou muito orgulhoso de ver sua foto como uma
brahmacarini. A foto foi muito atrativa para mim, e eu oro a Krishna que
você possa fazer progresso adiante na consciência de Krishna, assim sua
beleza espiritual pode se tornar mais e mais evidente".
O exemplo da ISKCON de Srila Prabhupada é digno de nota: na ISKCON
de hoje, a posição do GBC é indiscutivelmente superior a sannyasa.
Embora as mulheres não fossem membros do GBC durante a presença
pessoal de Srila Prabhupada, os sábios líderes da atual ISKCON nomearam
mulheres membros do GBC. Quem está protegendo elas? Talvez a melhor
proteção para as mulheres na sociedade de hoje seja a educação, pela qual
elas serão ajudadas a preocupar-se melhor pelo seu bem-estar, e a ver mais
pretensiosamente a má intenção por parte dos machistas que disfarçam seu
sexismo em uma embalagem quase espiritual. Tais chauvinistas
dificilmente representam Srila Prabhupada e carecem de sua visão
espiritual dinâmica.
A questão de se as mulheres podem ou não aceitar a ordem sannyasa ou
não é um detalhe. De fato, toda a instituição do sannyasa dentro do
Gaudiya Vaisnavismo é um detalhe, que pode ser acrescentado ou deletado,
conforme o tempo e as circunstâncias justifiquem a determinação de
pregadores espiritualmente avançados. Detalhes podem ser mudados, como
foi feito por Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura quando ele instituiu
sannyasa para nossa sampradaya. Pode ser alterado para ressaltar os
princípios essenciais. Há mérito em considerar a possibilidade de que possa
ser útil pregar para conceder sannyasa às mulheres em nossa sampradaya.
Apesar do que Prabhupada disse sobre isso no passado, se ele estivesse
presente hoje, ele poderia reconsiderar isso. Afinal de contas, como
demonstrado acima em relação ao ashram brahmacarini, ele era conhecido
por fazer isso depois de receber novas informações ou conforme as
circunstâncias mudavam, revertendo sua posição sobre as questões de
tempos em tempos, como qualquer pessoa sensata faria.

Diferir do guru em opinião

Num certo estágio de avanço espiritual, um discípulo tem direito ao que


pode parecer ser sua própria opinião, enquanto abraça o espírito da
mensagem de seu guru, especialmente no que diz respeito à pregação e às
considerações de tempo, lugar e circunstância. Os devotos sinceros devem
considerar este ponto com cuidado.

Simplesmente porque um discípulo avançado oferece uma opinião


diferente da de seu guru, isso não é motivo para concluir que ele não é um
verdadeiro seguidor de seu guru. Srila Prabhupada declarou por escrito em
seu comentário no Bhagavatam que Brahma está em sakhya-rasa, enquanto
seu gurudeva, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Prabhupada, opinou que
Brahma está em madhurya-rasa. Este certamente não é um detalhe, mas
considero Srila Prabhupada um seguidor estrito de seu guru, apesar de seu
diferente ângulo de visão sobre essa importante questão.

No geral, é melhor sermos generosos em nossa atitude em relação uns aos


outros e, além disso, devemos elevar-nos ao nível de poder acomodar as
diferenças de opinião entre si sem sentir a necessidade de declarar a guerra
santa.
Amor pessoal pelo guru

Srila Bhaktivinoda Thakur disse   que veio à consciência de Krishna por ler
o Sri Caitanya-caritamrta, mas por que ele leu o livro e estudou a
mensagem cuidadosamente, ele nunca concluiu que deveria considerar-se a
si mesmo como um discípulo de seu autor, Krishna Das Kaviraj Goswami.
Nem ele pensou que tornando-se discípulo de outro guru iria de alguma
maneira tornar sua conexão com Krsnadasa Kaviraja de alguma forma
menor do que se fosse pessoalmente iniciado por ele. Em outras palavras,
ele entendeu o conceito de guru-parampara, pelo qual uma pessoa se
conecta com todos os nossos acaryas prévios.
Aqueles que começaram a cantar Krishna Nama porque Prabhupada pregou
isso em seus livros, deveriam realizar que essa pregação de Prabhupada
representa todos os seus predecessores, todos os quais pregaram a mesma
mensagem. Junto com esse conhecimento que todo o mundo deveria cantar
Krishna Nama, nosso guru parampara explica que a pessoa deveria então,
sob a guia de um guru apropriado, aceitar a iniciação dele. E aceitar a
iniciação envolve aceitar alguma coisa que está vindo dele, que está sendo
dada. Existem dois lados da equação: O futuro discípulo deve estar
disposto (e sem dúvida com amor), e o guru de seu lado deve estar disposto
a aceitá-lo. Se a nossa inspiração inicial veio de um guru falecido, isso não
significa que podemos nos afirmar como discípulos iniciados sem o seu
consentimento. Nem ele daria tal consentimento, dado que colidiria com a
doutrina Gaudiya estabelecida por seus antecessores, seus gurus. De fato,
para estabelecer uma conexão significativa com semelhante guru falecido,
devemos seguir o sistema de guru-parampara e, assim, seguir seu próprio
exemplo.
Não querer aceitar ninguém além de Srila Prabhupada como um guru,
mesmo que ele já tenha partido, é uma forma de auto engano promovida
pelo fanatismo em nome do amor. Evidentemente, não tem sido útil que
alguns de seus discípulos tenham se mostrado desqualificados para
representá-lo, mas isso não nos dá uma licença para mudar o siddhanta da
Gaudiya. Se uma pessoa sente afeição especial por Srila Prabhupada, mas
não foi iniciado por ele, sugere-se que ela procure aqueles que o
representam. Se a sua busca é sincera, ela o encontrará no que parece ser
outro, e encontrá-lo dessa maneira fará uma conexão visivelmente mais
substancial com ele do que esta conexão enganosa.

Expansões de Sri Radha

De acordo com Sri Jiva Goswami, todas as citações dos Puranas tem de ser
entendidas à luz das conclusões escriturais do Srimad Bhagavatam. Em seu
Tattva-sandarbha ele tem dado grandes explicações para demonstrar por
que o Bhagavatam mantém essa posição proeminente. Afirmações de
outros Puranas que de certa maneira   contradizem as conclusões do
Bhagavatam são ou uma propaganda, ou parcialidade da verdade. Por
exemplo, Saci é de fato uma manifestação parcial de Radha e está presente
dentro Dela, como é Laksmi Devi, quando Ela desce. Sri Radha é a shakti
primária de Bhagavan, Sri Krishna, e como tal Laksmi os poderes que
fortalecem todas as deusas dos deuses estão presentes dentro Dela.

A conclusão escritural do Bhagavatam é que não é possível se tornar uma


Vraja gopi de Krishna simplesmente realizando penitência por muito
tempo. O exemplo principal a este respeito é a própria Laksmi Devi.
Embora tenha feito penitência para cumprir este fim, ela não teve êxito. O
argumento é que, para se tornar uma Vraja gopi, é preciso seguir os passos
das Vraja gopis. Este é o caminho de raganuga-bhakti, como foi ensinado
pelos seguidores de Sri Caitanya Deva. Além disso, explicou-se claramente
por Srila Rupa Goswami que ninguém pode se tornar Radha nem tampouco
se tornar Krishna.

Inspiração e auto engano


Nós temos guru, sadhu e sastra para nos ajudar a determinar os parâmetros
do que está e o que não está dentro do siddhanta do Gaudiya Vaisnavismo.
No entanto, todas as respostas para a vida espiritual não estão nos livros, no
sentido de que, dentro desses parâmetros, há muitas escolhas individuais a
serem feitas. Com toda a sinceridade que está à nossa disposição, devemos
seguir nosso coração ao tomar decisões. Por exemplo, todos devem
escolher um guru. A escritura, o guru ou os sadhus não nos dizem qual
guru escolher. Eles nos fornecem diretrizes, mas a escolha é nossa. Não se
deve esperar que outros tomem cada decisão de nossa vida espiritual em
nome de evitar seguir os caprichos de nossa mente. Será necessário usar a
própria mente e inteligência para tomar muitas decisões importantes e, ao
fazê-lo, a decisão mental sobre como proceder deve ser feita a partir dos
parâmetros das conclusões escriturais da tradição e em consonância com o
coração em questão.
O autoengano e o desejo egoísta estão profundamente enraizados em todos
nós, mas também sabemos algo do que significa ser sincero. Ore para ser
sincero e será óbvio depois o que o autoengano e o egoísmo são,
relativamente a necessidade pessoal imediata de avançar em qualquer
momento particular.

FIM DO ARTIGO
9.KRISHNA LILA, A REALIDADE MAIS ELEVADA

"Os vaisnavas acreditam que cada unidade de consciência tenha o potencial


para estabelecer uma relação eterna com Krishna. Esses afazeres são
governados por sua energia pessoal ou a sua natureza pessoal (svarupa
shakti)."

A perspectiva de Joseph Campbell tem ajudado muito as pessoas a


estabelecerem uma ponte entre a religião ocidental e a religião oriental, por
encorajá-las a apreciar a verdade universal encontrada dentro de todas as
tradições espirituais. Entretanto, nós diferenciamos de Campbell no que diz
respeito a que nós não equiparamos Krishna lila com um mito de outra
tradição. Nós não pensamos que Krishna Lila é somente uma metáfora,
pela qual a verdade universal nos guia. Krishna lila está cheia de verdades
metafóricas, mas não apenas nisso consiste. A lila é uma realidade
ontológica. A mais elevada realidade. Em relação a esse assunto,
dificilmente outras tradições pensam de seus mitos da mesma forma que
nós pensamos de Krishna lila (com o paradigma de viver na realidade
eterna Deles) e também nem existem outras culturas ou mitos religiosos
que possuem aspectos tão charmosos, tão encantadores, detalhados e
profundos como Krishna lila. Krishna lila está em uma classe própria,
como deveria ser. Campbell não falha inteiramente a esse respeito, pois a
mitologia indiana era sua favorita. Entretanto, ele não tinha familiaridade
com a teologia vaisnava, e tinha uma inclinação distinta para a assim
chamada filosofia perene de Advaita Vedanta.

A ideia que Krishna é Deus é consideravelmente mais estruturada do que


encontrada em outras culturas ou outras mitologias assim como na Grécia.
A base teológica e filosófica da lila é considerável, para dizer o mínimo.
Não acredito que haja alguma comparação que possa ser feita com outra
mitologia religiosa. Se alguém insiste que a abordagem advaita de Krishna
lila é mais racional, este é um assunto para um debate ao vivo que iria sem
dúvidas embaraçar muitos Advaitins e também lançaria luz sobre muitas
inconsistências lógicas do Avaita Vedanta.
Aspectos da cultura hindu imbuídos na prática

Como um princípio geral, uma pessoa deveria tentar aceitar a melhor parte
da cultura ocidental e oriental e aplicar isso em sua própria vida. É natural
que uma pessoa influenciada por uma tradição espiritual baseada na
indiana, irá desenvolver afinidade por certos aspectos da cultura sócio-
religiosa hindu. Entretanto nem todo aspecto da cultura hindu é espiritual.
Muitos costumes sociais hindus são simplesmente tradições étnicas;
algumas são resultado de influências externas, e algumas ainda são
baseadas em superstição. Então nenhum desses tem muita relação com à
essência da espiritualidade. Sendo assim, se um aspecto particular da
cultura indiana faz alguém se sentir desconfortável, então por todos os
meios é necessário indagar a um devoto avançado sobre se isso tem alguma
atual relação com as práticas espirituais vaisnavas.
Práticas espirituais essenciais semelhantes ao canto do Krishna nama não
são baseadas no fato de alguém se tornar membro de uma cultura
particular. Na realidade, a cultura do Krishna bhakti (Krishnanusilanam),
centrada no canto do Krishna Nama, é uma cultura espiritual dentro de si
mesma. Krishnanusilam pode ser incorporado dentro de uma cultura étnica
ou estilo de vida.

Auto análise
Simplesmente por uma auto análise uma pessoa não pode realizar
completamente seu potencial espiritual. A auto análise é sem dúvida
nenhuma parte da cultura de Krishna Bhakti, mas por si mesma uma pessoa
não é capaz de realizar sua personalidade espiritual. Através da autoanálise,
pode-se entender que o sentido mental do ser, que nada mais é que um
produto da reação da mente ao impute sensual, não é duradouro e por isso
ganha ímpeto negativo para seguir Krishna-bhakti. Entretanto, a realização
espiritual de alguém é apenas possível através da graça, a qual no
Vaisnavismo deriva-se de escutar, cantar e relembrar os passatempos de Sri
Krishna, sobre a guia de um devoto avançado.

Relação entre a alma e a mente


A mente é uma manifestação sutil da matéria e neste sentido é diferente do
cérebro. Entretanto, a matéria é também diferente da alma. A "alma" (um
termo cristão) é consciência, algo que é oposto à matéria. Consciência é o
experimentador e a matéria é aquilo que é experimentado. Nesse contexto,
consciência não é a mente consciente, pelo contrário, é a vida, às vezes
sendo referida como "cit" ou conhecimento, sendo a unidade de vontade.
Vaisnavas acreditam que cada unidade de consciência tem o potencial para
estabelecer uma relação eterna com Krishna, cujos casos de amor (Krishna-
lila) são governados por Sua energia pessoal ou Sua natureza pessoal
(svarupa sakti). Na cultura do Krishna bhakti, a alma individual
gradualmente chega sob a influência dessa svarupa sakti, e conforme isso
acontece, a influência da energia ilusória de Krishna (maya sakti) é
diminuída proporcionalmente. Isso leva algum tempo, mas quando nós
estivermos sob a influência completa da svarupa sakti de Krishna, a nossa
personalidade espiritual será despertada e poderemos entrar na lila eterna
de Sri Krishna.

Manjari bhava

Sriman Mahaprabhu disse:

dasya, sakhya, vatsalya, srngara-cari rasa cari bhavera bhakta yata


krishna tara vasa
“Servidão, amizade, afeição paternal e amor conjugal são as quatro
melosidades transcendentais. Krishna é subjugado pelos devotos que
praticam o amor por Krishna nessas quatro melosidades”.

yuga-dharma pravartaimu nama-sankirtana cari bhava-bhakti diya


nacamubhuvana

"Eu pessoalmente venho inaugurar a religião da era, o canto


congregacional dos Santos Nomes, nama sankirtana. Eu vim fazer o
mundo dançar em êxtase, realizando as quatro melosidades do serviço
devocional amoroso.

Mahaprabhu abriu as portas para Vrindavana, onde tudo se move de forma


a conquistar Krishna. O chefe destes sentimentos é o amor de Radha por
Krishna e Vrindavana é totalmente sobre isso. Entretanto, o lila de
Vrindavana requer os outros três sentimentos (servidão, amizade e afeição
paternal) para que isso ocorra. Então todos os quatro são importantes e uma
pessoa pode ser especialmente atraída por algum deles. Ao mesmo tempo,
o amor de Radha por Krishna é o mais transcendentalmente compreensível,
feito para satisfazer Krishna ao máximo e que permite a Ela ter uma
experiência extraordinária de madana maha bhava, o mais alto êxtase do
amor espiritual. É este bhava que Krishna aparecendo como Sri Caitanya
quer experimentar.
Pelo fato de que Caitanya Mahaprabhu é nosso ideal, é natural que muitos
devotos desejem experimentar esse sentimento particular de amor que Ele
experimentou. Mas nem sempre esse é o caso, e como foi mencionado, os
outros três bhavas de Vraja também são importantes suportes para esse
maha bhava. Então, enquanto a maioria dos Gaudiya acaryas saboreiam o
amor de Radha na cultura de manjari bhava como assistentes de Radha,
existem algumas exceções.

Dharma no contexto do gaudiya vaisnavismo


Em geral dharma se refere a viver uma vida de virtude em relação a tudo.
Todas as atividades humanas estão enraizadas no desejo. Basicamente, é a
tentativa de alcançar prazer e evitar o sofrimento. As escrituras dividem o
desejos humanos em três categorias: Primeiro, o desejo pelo prazer sensual
(kama), o qual uma vez que nunca é completamente satisfeito, não
obstante, leva uma pessoa a persistir na mesma experiência sensual de novo
e de novo. Segundo, o desejo por aquisição material (artha), fortuna, poder,
honra, segurança e assim por diante, o qual é progressivo na medida em
que ele não necessita de repetições sem sentido, mas, em vez disso, ele
dirige um indivíduo a realizar metas consistentemente maiores, que
proporcionam alguma sensação de realização. Terceiro, o desejo por
virtude, bom caráter, justiça e assim por diante (dharma), o qual é mais
progressivo ainda e traz uma sensação de contentamento e iluminação,
clareza acerca da natureza do mundo. De acordo com o Bhagavad-gita,
esses três tipos de desejo são produtos da influência das três gunas, os
modos da natureza material, manifestando-se na psique humana. Esses
modos são conhecidos como tamas (ignorância), rajas (paixão) e sattva
(bondade), correspondem respectivamente a kama (prazer), artha (poder) e
dharma (virtude). Todos os três envolvem a perceptível necessidade de se
tornar algo: Ser gratificado, ser poderoso ou ser virtuoso.
O Bhagavad-gita nos diz que ser virtuoso é mais elevado que os outros
porque isso permite uma pessoa a vislumbrar o fato que uma vida baseada
na perceptiva necessidade se tornar alguma coisa obscurece aquilo que nós
já somos. Esse aspecto da vida virtuosa sozinho torna-se valoroso e
superior às aspirações por prazer e poder, os quais sob a influência da
virtude são vistos como tendo um valor limitado. Então, a verdadeira
virtude, o ego dharmico é uma ponte potencial para transcendência do falso
ego material, o qual está baseado na perceptiva necessidade de ser alguma
coisa. Atravessar essa ponte com a energia da prática espiritual leva à
moksa (liberação), liberdade da necessidade. Chegando ali, nós não temos
mais a necessidade de ser alguma coisa, porque nós já realizamos que
somos algo bem maior que qualquer coisa que a limitada experiência
humana possa proporcionar. Do reino do experimentado (matéria), nós
entramos no reino do experimentador (consciência) e ali encontramos o
nosso verdadeiro ser.

Contudo, do ponto de vista de Sri Caitanya Mahaprabhu, dharma também


aparece dentro da transcendência. Ele chama isso de prema-dharma, ou o
quinto objetivo da vida, e diz que este objetivo está além do dharma, artha,
kama e moksa. Prema significa amor. Sri Caitanya Mahaprabhu advoga a
virtude transcendental do amor de Krishna. No prema-dharma o prazer
buscado pelo gozo dos sentidos (kama), a busca da segurança e poder que
previamente se conquistava através do ganho material (artha), e o
conhecimento derivado de uma vida virtuosa (dharma), são subjugados
pela realização da existência eterna no Krishna lila (sandhini),
conhecimento transcendental da relação pessoal com Ele (samvit) e a bem
aventurança dessa relação (hladini), o subproduto do qual é moksa.
Enquanto moksa contém vida eterna (sat), conhecimento transcendental
(cit) e bem aventurança (ananda), a concepção de Caitanya Mahaprabhu de
sandhini, samvit e hladini no prema-dharma contém esses três e muito
mais. Prema-dharma domina o Absoluto, o doador de moksa, quem pela
força do prema dos devotos aparece para os devotos como seus amigos ou
amantes, Madana Gopala Krishna.

FIM DO ARTIGO
10. O BHAGAVAD-GITA QUE LEVA À VRINDAVAN

Deuses e deusas

No mundo material, os deuses e deusas conhecidos como devas são


manifestações parciais de Laksmi e Narayana, que são expansões de Radha
e Krishna, respectivamente. Os devas são divinos no sentido de que eles
recebem poder de Narayana e Sua consorte Lakshmi. As almas individuais
que alcançam os postos dos devas são devotos muito piedosos. Isso, no
entanto, não é o caso de Siva e Devi, os quais são um tipo especial de
manifestação da divindade, estão em uma classe própria. Siva é uma
transformação do Visnu. Essa transformação tem sido comparada com o
leite tornando-se iogurte. A consorte de Shiva, Devi, é uma expansão de
Laksmi, a qual é uma expansão de Radha.

O Bhagavad-gita diz que homens de pouco conhecimento adoram os devas


e recebem frutos que são limitados e temporários. Também diz que aqueles
que adoram os semideuses vão  para as moradas dos semideuses, enquanto
que aqueles que adoram Krishna alcançam Sua morada suprema (Bg 7.23 e
9.25).

Sobre a tradução do Bhagavad-gita

A tradução de Srila Prabhupada implica que o orador do


Bhagavad-gita é o Senhor de Sri, tanto quanto a Suprema Personalidade de
Deus no sentido pleno do termo é aquele que é abençoado por (Sri), pelo
amor de Radha. "Sri" significa Radha, que é a “svayam sakti” da qual
Laksmi é uma representação parcial. Assim, temos: "O Senhor de Radha
disse" (*quando Krishna fala, como tradução de 'Sri Bhagavan uvaca'). O
Senhor de Radha é a Suprema Personalidade de Deus (svayam bhagavan).

Se a voz do Gita é, em última instância, a da Suprema Personalidade de


Deus, a influência de Radha sobre Ele deve
estar de alguma forma no texto.  Isso foi elaborado para demonstrar quando
e com que dimensão isso tem espaço no Gita, na luz da teologia do
Gaudiya Vaisnavismo. Ao fazer isso, a tentativa é mostrar, seguindo os
passos de nossos Gaudiya acaryas, que a mensagem no Gita nos leva a
Vrindavana. Na luz desta ênfase, se foi traduzido (na versão de Srila
Tripurari Maharaj do Bhagavad-gita) "Sri Bhagavan Uvaca" como "O
Senhor de Sri disse".

Yogamaya e mahamaya

Assim como a energia elétrica pode servir para aquecer ou resfriar,


similarmente a yogamaya e mahamaya são, em última instância, uma
energia (sakti) que funciona em diferentes maneiras. Mahamaya serve para
submeter a alma a uma grande ignorância, o que permite que a alma se
esqueça de Deus, e yogamaya serve para submeter a alma a uma
ignorância divina, o que permite que ela participe nos passatempos do
Senhor.

A irmã mais nova de Krishna (anuja) é uma manifestação dessa sakti.


Então, em relação a Kamsa, ela tomou a forma de Devi (Durga), que
abertamente não é amiga do demônio. Yogamaya é geralmente
representada no Vraja-lila de Krishna como a idosa Paurnamasi, e às vezes
Vrnda Devi é também considerada uma parcial representação de
Yogamaya. Acima de tudo, Yogamaya preside sobre samvit sakti (potência
cognitiva) no Vraja lila, e por causa desta influencia, a potência cognitiva
aparece ausente na lila, passando por um tipo de divina ignorância.

Kali como a personificação do mal

Kali escrita com 'a' maiúsculo e Kali com 'a' minúsculo são diferentes
palavras sânscritas indicando diferentes pessoas. Kali com 'a' maiúsculo é a
Deusa esposa do Senhor Siva, quem é comumente adorada com o propósito
de dissolver o ego material. Kali escrita com 'a' minúsculo é a
personificação da era da desavença (Kali-yuga). Duryodhana do
Mahabharata e do Bhagavad-gita é considerado como sendo uma
encarnação parcial de Kali, a personificação dessa era degradada e não a
deusa Kali.
Brahman e Sri Krishna

No Gita, Sri Krishna diz que aqueles que pensam que os caminhos da ação
abnegada (niskama-karma-yoga) e do conhecimento (sankhya yoga) são
diferentes, não são sábios (sankhya-yogau prthag balah pravadanti na
panditah). O termo sankhya yoga nesse contexto se refere à contemplação
associada com a renúncia. Esse caminho não é diferente da ação
desinteressada, enquanto que os dois caminhos levam ao mesmo resultado.
(ekam sankhyam ca yogam ca).

A defesa de Krishna do niskama-karma-yoga sobre sankhya-yoga está, em


certo sentido, em consideração a elegibilidade. Aqueles que são elegíveis
para niskama-karma-yoga ainda não são elegíveis para sankhya-yoga.
Entretanto quando o seu niskama-karma-yoga está maduro, isso produz
auto conhecimento, qualificando-os para uma vida de contemplação e
renúncia. Então, Krishna enfatiza niskama-karma-yoga sobre sankhya-
yoga.
Ao mesmo tempo, um estudo cuidadoso do Gita, revela que a ênfase que
Krishna dá na ação desinteressada sobre a contemplação tem outro
propósito também. Ele deseja que Arjuna tome o caminho da devoção,
bhakti-yoga. Então, Ele enfatiza não meramente a ação desinteressada, mas
a ação desinteressada na qual os frutos da ação são dedicados a Deus
(bhagavad-arpita-niskama-karma-yoga), uma rudimentar forma de bhakti.

Os frutos da ação desinteressada e da vida contemplativa são também


subprodutos de Bhakti. Então, se uma pessoa é agraciada com fé no bhakti
e trilha esse caminho, ela obterá tudo que uma pessoa pode alcançar desses
caminhos da ação desinteressada e do conhecimento, a purificação do
coração e liberação. Além disso, semelhante bhakti yogi também colherá o
fruto do amor por Deus e uma vida eterna na lila de Bhagavan.
O fato que Deus esteja ocupado no lila, não significa, como alguns
filósofos interpretam de maneira equivocada, um exemplo de Brahman
contaminado por maya. De acordo com o Gita não existe nada mais
elevado do que Krishna (mattah parataram nanyat). Ele não é uma forma
inferior de Brahman. Krishna mesmo no Bhagavad-gita diz que o Brahman
é subordinado a Ele (brahmano hi pratisthaham). O Brahman está
governado por Ele (anadi mat param brahma) ou seja, não é ao contrário.

Os devotos adoram Param Brahman, o qual Arjuna declara ser Krishna.


Fazendo isso eles facilmente podem cruzar maya. Krishna mesmo
enfaticamente estabelece isso (mam eva ye prapadyante mayam etam
taranti te). Então, o devoto transcende maya e muito além. De novo, tudo
que pode ser conseguido através de sankhya yoga, é alcançado através de
bhakti yoga, mas tudo que é alcançado por bhakti yoga não pode ser
alcançável por sankhya yoga. Então Krishna enfatiza a ação desinteressada
com o objetivo de dar satisfação a Deus sobre sankhya yoga por que esse
tipo de ação desinteressada (bhagavad-arpita-niskama-karma-yoga) leva
naturalmente a um bhakti apropriado.

Simbolismo dos demônios

Em uma visão superior não existem demônios fora de nós mais do que
aqueles que residem dentro de nós. O devoto superlativo vê todo mundo,
menos a ele mesmo, como estando apropriadamente ocupado nos serviços
de Deus.
O Gita faz menção a dois tipos de seres, os divinos e os demoníacos. Mas o
mais importante nesse texto, não é como reconhecer o demônio, mas ao
contrário, como a pessoa pode tornar-se divina. Isso requer conhecer como
não ser também, por isso a discussão de qualidades divinas.

Em relação ao Krishna lila, neste drama podem existir alguns vilões, mas
internamente eles não são. Novamente, numa visão mais elevada, nós
pensamos que todos são devotos, exceto nós mesmos.

FIM DO ARTIGO
11. BHAKTI TATTVA VIVEKA, SIDDHA-DEHA E SUDHA NAM

Àqueles que dizem que é necessário receber o svarupa-jnana (o


conhecimento da identidade espiritual pessoal) do siksa guru para receber a
realização da eterna identidade que surge do diksa mantra e que sem isso o
bhakti é apenas uma sombra de real devoção, estas pessoas tem um mau
entendimento das instruções de Srila Bhaktivinoda Thakur no seu Bhakti-
svarupa-viveka. A edição em inglês dessa sessão está pobremente traduzida
e nos leva a mal entendimentos. Nessa sessão do livro da referida
discussão, Srila Bhaktivinoda delimita o que ele chama de bhakti-abhasa,
uma sombra do suddha-bhakti.
Sua discussão está baseada no terceiro capítulo da primeira onda do Bhakti
rasamrta-sindhu. Depois de descrever vários tipos de pessoas, semelhantes
a impersonalistas, pancopasakas etc, os quais estão envolvidos apenas no
reflexo (pratibimba) ou sombra (chaya) do suddha-bhakti, Srila
Bhaktivinoda Thakur descreve outro tipo de praticante cujo bhakti é apenas
a sombra do suddha-bhakti. Ele chama esse tipo de devoto como
(sampradayika Vaisnava) ou uma pessoa a qual está iniciada dentro da
Gaudiya Vaisnava e ainda assim esta sem o que Bhaktivinoda Thakur
chama de svarupa-jnana. Pelo termo svarupa-jnana, nesse contexto,
Bhaktivinoda está referindo-se ao conhecimento (jnana) da natureza
(svarupa) do suddha-bhakti e não ao svarupa ou identidade espiritual que
aparece do cultivo do mantra diksa de alguém. O ponto que ele está
fazendo é que se uma pessoa é apropriadamente iniciada e não recebe
instruções (siksa) de uma pessoa qualificada a respeito da natureza do real
praticante, a prática e o objetivo, sua iniciação não trará em si o resultado
desejado. Na época em que esse livro foi escrito, era comum que as pessoas
recebessem iniciação e não instrução no tattva.
Em relação a esta declaração: “Bhaktivinoda Thakura afirma em Bhakti-
tattva-viveka que, a menos que uma pessoa receba svarupa-jnana
(conhecimento de sua identidade espiritual/siddha-deha) de um siksa-guru,
mesmo sendo iniciado na sampradaya, a realização de sua eterna
identidade surge de seu diksa mantra não aparecerá, e que sua bhakti é
apenas uma sombra de verdadeira devoção”, imediatamente na sessão
seguinte a esta citação, Bhaktivinoda Thakur explica além disso esse ponto:
"A firme fé do sampradayika (apropriadamente iniciado) vaisnava na
Personalidade de Deus é muito mais forte do que os pancopasaka
vaisnavas. Por receber instrução apropriada no tattva, um vaisnava
apropriadamente iniciado permanece esperançoso de alcançar um estágio
elevado de Vaisnavismo exclusivo (suddha-bhakti)”. Então é importante
que nós recebamos instruções da natureza daquilo em que somos iniciados
por uma pessoa qualificada. Diksa apropriada combinada com esse tipo de
siksa será capaz de realizar nossa identidade espiritual no momento correto,
conforme cultivamos o ideal da devoção pura.

Siddha-deha do discípulo
Não é errado dizer aos discípulos a natureza do svarupa e dar instruções de
como cultivá-lo em seu bhajan. Entretanto essa prática têm sido tão
abusada que Prabhupada não colocou tanta ênfase nisto, nem foi ele
instruído por Bhaktivinoda Thakur ou por Srila Goura Kisora Das Babaji
Maharaj nesse aspecto. Babaji Maharaj disse a ele que ele poderia realizar
seu svarupa nas sílabas do Hare Krishna Maha Mantra.
Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur ensinou que a svarupa da pessoa pode
ser realizada através de bhajan, mesmo que não tenha sido falado para ele
sua identidade espiritual particular. O guru deve dar o mantra e partilhar o
conhecimento de seu significado. Dentro do mantra específico, o
conhecimento da relação com Krishna está presente, e isso vai aparecer
como um conhecimento realizado começando no estágio de ruci e, no
estado de ruci, a forma básica da sua identidade espiritual será sentida e
provada.
Como está mencionado no meu livro Sri Guru-parampara, mesmo Nitai
Dasa, o qual é um forte defensor da prática do sistema siddha-pranali e que
está fora da linha de Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur, admite que a
svarupa da pessoa pode ser realizada através da cultura espiritual sem ser
instruído acerca do svarupa antecipadamente. Srila Prabhupada não
recebeu o que é muitas vezes chamado de siddha pranali diksa de
Bhaktisiddhanta Prabhupada Sarasvati Thakur, nem Srila Sridhara Maharaj.
Como citado anteriormente, as seguintes instruções de Srila Bhaktivinoda
Thakur são relevantes para a discussão. Ele claramente explica que a
experiência da forma espiritual interna da pessoa (svarupa) requerida pela
cultura de raganuga-bhakti apropriada, é revelada pela graça de Krishna
nama.

“isat vikasi punah dekhaya nija rupa guna citta hari laya krsna pasa
purna vikasita hana vraje more jaya lana dekhaya nija svarupa vilasa”

"Quando o nome é levemente revelado, ele mostra minha própria forma


espiritual e características, ele rouba minha mente e me coloca do lado de
Krishna. Quando o nome é completamente revelado, ele me dirige
diretamente à Vraja, onde ele me mostra o minha função pessoal nos
eternos passatempos de Radha e Krishna".

Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura Prabhupada enfatizou essa instrução e


sobretudo a eficácia de kirtana. Nós deveríamos seguir esse exemplo.
Pessoas interessadas nestes assuntos deveriam ler Sri Guru-parampara.

Sendo assim, este ponto mencionado acima é relevante para a sessão do


Bhakti-tattva-viveka. De novo, isso não implica que um guru qualificado
nunca revela a natureza da svarupa ao discípulo através das instruções
explícitas antes que o discípulo realize isto. Entretanto, de novo com
ênfase, essa não é uma prática comum da Gaudiya Sarasvati Sampradaya e
nem é este o tópico sob discussão nessa sessão do Bhakti-tattva-viveka.

Conexão com guru


Nada remotamente parecido com isto (*a saber, a declaração que Srila
Visvanatha Cakravarti Thakura supostamente faz no Ragavartma Candrika
acerca de que uma pessoa deva buscar uma siksa qualificada se seu diksa
guru abandona o corpo antes da completa maturidade espiritual do
discípulo) está escrito em qualquer uma das minhas duas edições do
Ragavartma Candrika. Isso não quer dizer que não seja um bom conselho,
mas encontrar nossos gurus - diksa ou siksa - é mais um mandato de nossa
própria necessidade interior do que uma questão de legislação.
Embora as escrituras determinem que se deve aprender com o guru, essa lei
escritural tem amor em seu âmago. O discípulo sincero genuinamente sente
que sua perspectiva mais elevada está em ouvir e servir ao conhecimento
transmitido pelo guru: “Devo me render aqui, pois a perspectiva mais
elevada da minha vida se realizará ao fazê-lo.” Esse sentimento surge
quando ouvimos de alguém que foi autorizado para recolher nossa alma
para o serviço divino. É o amor que forma o vínculo entre o guru e o
discípulo, não a lei.

Estágios da vida devocional


O kanistha-adhikari canta principalmente nama-aparadha e às vezes
namabhasa. O madhyama-adhikari canta principalmente namabhasa, e nos
estágios mais elevados ele pode cantar suddha-nama. O uttama-adhikari
canta suddha-nama. Assim como o canto em namabhasa pode dar
liberação, mas nem sempre o faz, da mesma forma, suddha-nama pode dar
amor a Krishna, mas geralmente não o faz imediatamente. Contudo, é dito
que mesmo tendo proferido uma vez suddha-nama, este canto pode dar
tudo. Tal é o potencial de proferir suddha-nama. Isso não acontece com
todos. Quando um devoto avançado que está cultivando um relacionamento
particular com Krishna simplesmente canta os nomes do Senhor que são
mais queridos para Ele, esse cantar é relativo ao seu relacionamento
particular com Krishna. Esse tipo de suddha-nama, combinado com a
constante lembrança do amor do Senhor, produz o resultado desejado do
amor de Deus. Assim madhyama-adhikaris avançados e uttama-adhikaris
cantam suddha-nama consistentemente.

Qualificações do mestre espiritual


Os sintomas que descrevem os devotos kanistha e madhyama-adhikari são
observáveis externamente, porque esses devotos estão, até certo ponto,
preocupados e, portanto, conscientes do ambiente externo. Os sintomas que
caracterizam os vaisnavas uttama-adhikari, por outro lado, são internos e,
portanto, em sua maioria, não são observáveis.

Isto é assim porque o vaisnava uttama-adhikari está absorto internamente.


Seu comportamento é difícil de entender. Na maior parte, os vaisnavas
uttama-adhikari são aqueles que entraram em Krishna-lila e seu nível de
penetração em relação a dasya, sakhya, vatsalya e madhurya prema
determina sua posição dentro da categoria geral de uttama-adhikari.

Por exemplo, o uttama-uttama-adhikari está absorto em gopi prema,


enquanto o kanistha-uttama está absorto em dasya prema.

Quando o vaisnava uttama-adhikari se aproxima da plataforma madhyama


para se relacionar com o mundo, podemos então observar suas
características de madhyama e sentir sua absorção interna à medida que ele
flutua nessa direção de tempos em tempos. Ele funcionará dentro da
plataforma madhyama com maior influência do que o madhyama adhikari
que não alcançou o status de uttama-adhikari.

De acordo com uma edição que a Gaudiya publicou após o


desaparecimento de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura até então
amplamente aceita pelos discípulos de Saraswati Thakura, o kanistha-
madhyama é considerado murcchita-kashaya, um mahabhagavata que
ainda é ligeiramente influenciado por sattva-guna e correspondentes
samskaras e vasanas (desejos), mas não que eles impeçam sua bhakti, pois
ele tem nistha e ruci.

O madhyama-madhyama é considerado nirdhuta-kashaya, um


mahabhagavata que é livre da influência negativa dos gunas, mas não
amadurece no amor de Deus. Ele experimenta o ankura (broto) de bhava.
O uttama-madhyama aborda o status de um mahabhagavata conhecido
como bhagavata-parsada-deha-prapta, estando totalmente situado em seu
corpo espiritual, um estágio que geralmente implica deixar o sadhaka-deha,
como no caso de Narada Muni. Como mencionado acima, todos os uttama-
adhikaris são então diferenciados um do outro em termos de sua rasa,
sendo o uttama-uttama em gopi prema.

Estes três tipos de mahabhagavatas são discutidos no Bhakti-sandarbha de


Jiva Goswami. Srila Sridhara Maharaja estava usando essa descrição
quando articulou três tipos de gurus: Um com os dois pés aqui, mas com os
olhos no mundo espiritual, aquele que estende um pé ao mundo espiritual
enquanto mantém um aqui, e aquele que estende um pé aqui enquanto
mantém o outro em Goloka.

Esta descrição deve ser útil. Não é ofensivo tentar entender quão
profundamente um devoto é absorvido na consciência de Krishna antes de
aceitá-lo como um guru. Na verdade, é isso que devemos fazer com o
melhor de nossa capacidade, confiando nas escrituras e em nossa própria
sinceridade. O teste será se o sadhu puder remover nossas dúvidas de forma
consistente. Nós temos alguma fé, mas também temos dúvidas. Nós
devemos, respeitosamente, levantar essas dúvidas. Quando as dúvidas são
removidas pela pregação e pelo exemplo do sadhu, somente a fé permanece
e somos livres para prosseguir.

FIM DO ARTIGO
12. UMA QUESTÃO DE FÉ : 'ENCONTRA UM MAHAJANA'

O ideal do Gaudiya vaisnavismo e os vedas

O ideal do Gaudiya Vaisnavismo é representado de uma forma encoberta


pelos Vedas e de certa maneira em uma extensão limitada. Krishna é
mencionado no Narayana Upanishad 4: "brahmanyo devaki-putrah", "o
filho de Devaki é Brahman”. A glória de Radha é mencionada no Rig
Veda: “Radhaya madhavo devo madhavenaiva radhika/ vibhrajante
janesu", "no meio de todas as pessoas, está Radha, cuja companhia do
Senhor Madhava é especialmente gloriosa, assim como Ela é especialmente
gloriosa na presenca Dele”. O Chandogya Upanishad 8.13.1 diz: “syamac
chavalam prapadye, savalac chyamam prapadye, syamac.” “Pela ajuda do
negro (syama) nós podemos ser introduzidos no serviço do branco (savala);
pela ajuda do branco (savala) nós podemos ser introduzidos no serviço do
negro (syama)". Aqui, o negro indica Krishna e o branco indica a
compleição de Radha.

Se quisermos entender a importância dos Vedas, nós devemos então,


buscar os Puranas. Os Puranas completam (purna) os Vedas e é dito nos
próprios Vedas ser o quinto Veda. Sendo assim, é artificial separar os
Puranas dos Vedas. Independentemente de quando eles foram escritos, e
claramente a tradição difere neste ponto com o mundo secular, eles deixam
clara a importância dos Vedas. Entre os Puranas, se diz que o Bhagavata
Purana é o mais perfeito e eruditos concordam que sua teologia é a mais
desenvolvida entre todos os Puranas.
Os Vedas lidam principalmente com as três gunas. O Gitopanisad deixa
isso claro, e ali, Krishna encoraja Arjuna a transcender esta sessão dos
Vedas (traigunya visaya veda nistrigunya bhavarjuna). A menor sessão
dos Vedas lida com a transcendência, mas isso não significa que seja de
menor importância. Se menos ainda está escrito nos Vedas a respeito do
ideal mais elevado na transcendência (Vraja bhakti), isso não torna nada
menos significante, nem deveria causar duvidas em uma pessoa que este é
o ideal mais elevado. Quanto mais cara é a mercadoria, menos clientes
haverá, assim, pouco precisamos falar disso. Os critérios para determinar a
verdade mais elevada não são a medida de sua popularidade.

Kali yuga e o conceito de amor divino

Com o advento dessa Kali-yuga em particular, chegou a hora de


popularizar o ideal mais elevado e secreto. Porquê? Por que de uma forma
muito simples o avatara de Kali-yuga dissemina nama sankirtana e libera
as pessoas desta era. Nessa Kali-yuga Krishna mesmo (Svayam Bhagavan)
tem vindo como yuga avatara no êxtase de Srimati Radharani. Então em
Kali-yuga as portas de Goloka têm sido abertas amplamente e também os
parsadas de Gourangadeva têm revelado essa verdade amplamente através
dos comentários no Bhagavat Purana, e através do nama sankirtana nessa
particular Kali yuga, uma pessoa pode não somente ser liberada, como
também desenvolver Vraja prema e adentrar às portas de Goloka.
Deve haver um zênite da misericórdia e isso envolve não somente dar o
ideal mais elevado, mas entregar isso às pessoas mais desqualificadas. Essa
informação faz haver sentido. Mas tem de haver sentido? Essa loucura de
Deus desce em forma de amor e inunda o mundo inteiro. Essa incrível
realidade é muito convincente se você a entende. Não peça por justiça na
porta da misericórdia. As portas de Goloka são normalmente abertas para
poucos, apenas para os poucos que têm interesse nesse plano. Vaikuntha-
mukti, entretanto, está sempre disponível e comparativamente, existe um
considerável interesse nisto. O prema é abnegação ao extremo, na qual não
existe desejo por mukti ou até mesmo pela bem-aventurança do prema
mesmo. Quando você pensa a respeito disso, você pode encontrar que você
não está realmente interessado em si mesmo, ainda que isso esteja sendo
oferecido para você e que seja alcançável através de nama sankirtana.
Dúvida e especulação sobre as escrituras sagradas

As escrituras não são uma propriedade intelectual. Elas pertencem ao


domínio da alma. As almas auto realizadas (bhava-bhaktas) são capazes de
extrair coisas do texto de uma forma tão especial que os outros não podem
fazê-lo. Embora suas interpretações das citações Védicas podem nem
sempre parecer apropriadas para alguns, essas citações contém mensagens
ocultas que somente eles podem acessar. Muitos homens e mulheres viram
maçãs caindo das árvores, no entanto quando um homem, Newton, viu uma
maçã caindo, ele percebeu a lei da gravidade. Similarmente, grandes almas
veem coisas nas escrituras que nós não vemos. Quando nós dispensamos os
insights das grandes almas e consideramos nossas conclusões especulativas
intelectuais iguais ou melhores que seus insights, nós estamos fazendo um
desserviço não somente para nós como para os outros também.

Nossa especulação a respeito do mundo espiritual não são somente


desprovidas de evidência escritural e arbitrárias, mas também impedirá
nossa entrada ali se nós não a abandonamos. As conclusões dos Goswamis
a respeito da gradação da transcendência são sistematicamente baseadas em
rasa vicara e são repletas de evidência escritural. O mundo espiritual é uma
variada expressão de possibilidades do reino do êxtase estético: por isso,
que existe a gradação de Vaikuntha para Ayodhya, para Goloka, etc.

A respeito da relação dos Puranas com os Vedas, o Brihad-aranyaka


estabelece “... o que é conhecido como Rig Veda, Yajur Veda, Sama Veda,
Atharva Veda, Itihasa, Purana, foram emanados da respiração do Supremo
Senhor" (Br. U. 2-4-10). Outra vez, os Puranas nos ajudam a compreender
os Vedas. É significante que Narada no Chandogya Upanishad liste os
Puranas como textos que ele mesmo estudou. Parece também que a citação
de Jiva Goswami em apoio aos Puranas como sendo o quinto Veda
(Chandogya Upanisad 7.1.2) reconhece uma datação muito anterior dos
puranas do que uma opinião acadêmica defendida, e que pessoas como
Narada levaram mais a sério os puranas do que qualquer um.

A perda da fé

(*Registros pessoais de Srila Tripurari Maharaj):


Om Visnupada Srila A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada apareceu para
mim (Srila Tripurari Maharaj) em um sonho antes que eu pessoalmente
conhecesse ele. Isso me fez de repente despertar e me encontrar em êxtase.
Eu pessoalmente o encontrei três meses depois, e ao vê-lo meus olhos se
encheram de lágrimas, meu cabelo se arrepiou e o nome sagrado de
Krishna saiu espontaneamente da minha boca. Ele olhou para mim e
transmitiu através de sua mirada a sensação de que ele era meu amigo
perdido há muito tempo. Minhas lágrimas e sentimentos não eram emoções
mundanas. Prabhupada tinha a habilidade e bhava para abençoar qualquer
um com seu olhar ou com sua vontade, como foi descrito no Bhakti-
rasamrta-sindhu e no comentário do Gita Baladeva Vidyabhusana. Ele
tinha o poder de preencher um quarto cheio de devotos com seu êxtase no
semblante.
Srila Sridhara Maharaj declarou que ele foi empoderado por Nityananda
Prabhu. Seu status divino também foi confirmado por outras fontes
independentes fora da Gaudiya Sarasvata sampradaya. O falecido Radha
Govinda Das Babaji Maharaj tinha enviado um de seus discípulos para
Prabhupada, instruindo seu discípulo que Nityananda Prabhu havia
empoderado a Srila Prabhupada para sua pregação. E Nitay dasa Babaji, o
qual é considerado como um siddha mahatma, depois de emergir de uma
caverna aos oitenta anos e ver a foto de Prabhupada, imediatamente ele
proclamou que Srila Prabhupada havia sido empoderado por Nityananda
Prabhu, e ele guardou sua foto desde aquele dia.

Todas essas são fontes independentes chegam à mesma conclusão, e todas


elas exibiram claramente as características das almas espiritualmente
avançadas, assim como Srila Prabhupada para aqueles que sabem o que
procurar.
Uma pessoa pode não concordar com a teologia dos Goswamis e seus
seguidores, mas sua espiritualidade é inegável. Sim, sua teologia e
interpretações escriturais são influenciadas pelo sentimento deles, mas o
sentimento é a culminação da busca teológica. O sentimento dos
Goswamis, a sua experiência, é sobre o que o texto é. Se alguém puder
chegar a isso por qualquer método, que faça isso. As escrituras são apenas
um esboço do livro da vida. O intelecto é insignificante e o conhecimento é
uma coisa pequena. Devemos parar de pensar e deixar o coração agir
(Jnana sunya bhakti). O intelecto não é uma coisa perfeita ou capaz de
perceber a divindade. Se o apetite intelectual não for curvado pela
mensagem do Bhagavatam (jnane prayasyam udapasya) e substituído com
a devoção (namanta eva) isso vai devorar nossa vida, nossa fé (sraddha-
mayo 'yam puruso). Seremos conquistados e aprisionados pelo nosso
intelecto e ainda assim pensaremos que temos conquistado tudo. Enquanto
que aqueles que se movem neste mundo com o veículo da fé divina,
seguido por aqueles que a tem, conquistarão o inconquistável. ('jita jito).

Argumentos secos

tarko 'pratisthah srutayo vibhinna nasav rsir yasya matam na bhinnam


dharmasya tattvam nihitam guhayah mahajano yena gatah sa panthah

“Os argumentos secos são inconclusivos. Uma grande personalidade cuja


opinião não difere dos outros, não é considerado um grande sábio.
Simplesmente por estudar os Vedas, que são variados, uma pessoa pode
não vir ao caminho correto pelo qual os princípios da religião são
entendidos. A verdade sólida dos princípios religiosos é mantida no
coração das pessoas genuínas e auto realizadas. Consequentemente, como o
sastra confirma, uma pessoa deve aceitar qualquer caminho progressivo
que mahajanas defendem.”

FIM DO ARTIGO
13. A DESCIDA DE DEUS PARA O MUNDO FENOMÊNICO

A descida de Deus para o mundo fenomênico é um tema comum nos textos


sagrados hindus. O Bhagavata Purana descreve inúmeros avataras todos os
quais se originam de Krishna (Krishnas Tu Bhagavan Svayam) representam
aspectos de Krishna, Suas porções plenárias. Krishna é a fonte de todo o
mundo, Vishnu, e Dele incontáveis manifestações da divindade descem
para ajudar a cada espécie de vida. Todos esses avataras são motivados
pelo amor de Seus devotos, cujos corações puros causam Seu
aparecimento. Sem ser limitados pelo tempo e espaço, os avataras
aparecem  dentro de tempo e espaço. Eles aparecem dentro de nosso campo
de referência com o propósito de liberar-nos das limitações. Semelhante é a
graça de Deus e seus devotos nessa lila eterna.
Dentro da lista de principais avataras, Krishna mesmo faz Seu
aparecimento como se ele fosse um avatara de Vishnu. Entretanto, Sua
posição única é revelada no aspecto em que Ele não é apenas motivado
pelo amor, mas Ele é a própria corporificação do amor em Si mesmo. O
próprio Senhor Supremo desce à sociedade humana.  Krishna significa
“falling in love" — ser derrubado pelo amor, estar apaixonado —. O amor
é uma condição de debilidade, uma fraqueza tão forte que não pode ser
vencida. Krishna é o próprio coração da realidade última, Ele manifesta um
drama do amor divino diante dos olhos, convidando a todos a participar
dessa vida amorosa. Em Krishna nós aprendemos a fraqueza do Absoluto
— que Ele está inclinado para amar — assim sendo, o segredo para
capturar  a Verdade é revelado.
Jayadeva Goswami conhece esse segredo muito bem; em seu clássico livro
com poemas sânscritos, Gita Govinda, ele descreve o amor de Krishna por
Radha - o Absoluto conquistado pelo amor. Ecoando o mais esotérico
sermão do Bhagavat Purana, séculos depois, a poética visão de Jayadeva
tem como introdução sua poesia Dasa Avatara Stotram  que é uma poesia
de glorificação a Krishna (Kesava) no qual dez de Seus principais avataras
são descritos.
Uma invocação de Jayadeva declara que Krishna é o Deus universal, pleno
de todos os poderes divinos representados em Seus dez  principais
avataras. Isso está representado com o sentimento de maravilha
(chamatkara), o qual de acordo com a estética indiana, é a base de Seu
êxtase (rasa). Dessa forma, Krishna ali é introduzido de uma forma
apropriada, porque Ele é a  rasa divina  em si mesma, na sua mais alta
expressão. Ele é Todo Poderoso, assim, Ele mesmo apenas brinca de estar
apaixonado. Sua aparição com uma forma humana adota a expressão da
completa inundação de amor apaixonado do Absoluto. O Absoluto é o
Todo Poderoso e o  Todo Brincalhão, e somente para aquele que possui
todo o poder é possível brincar sem interrupção. Esse é Krishna, a fonte de
todos os avataras, a personificação do amor divino.
FIM DO ARTIGO
14.‘ANAYARADHITA’, A ADORAÇÃO MAIS ELEVADA

Se Krishna representa a vida privada do Absoluto, Sua relação com as


vaqueiras de Vraja, particularmente Radha nessa relação, constitui a vida
privada de Krishna. Nessa relação reina  o Amor Supremo, como quando
Krishna se curva à Radha. O supremo objeto da devoção adora a mais alta
devoção.
O humor de Radha é celebrado no Bhagavata Purana em tal medida  que os
conhecedores do êxtase estético o denominam de Radha-Bhagavatam ou
Srimad Bhagavatam, o Bhagavata (Krishna) de Sri (Radha). Neste
Bhagavat Purana, como no Gita Govinda, Radha prevalece e a devoção por
sua própria causa  é revelada como o meio e o objetivo da cultura
espiritual.
O zênite do romance entre Radha e Krishna é o rasa-lila, Sua dança
circular de amor. Isso é retratado  na estação de outono do Bhagavata
Purana e na estação da primavera do Gita Govinda de Jayadeva Goswami.
A rasa-lila aponta para o potencial mais elevado da alma. Aqui, o amor
mais elevado é expressado num egoísmo aparente. Quanto mais alto
subimos na escada do amor divino, mais difícil é de reconhecer isso. O
amor naturalmente se esconde dele mesmo.

As jovens vaqueirinhas foram encontrar Krishna no fim da noite. Sua flauta


era o sinal da chamada do amor para elas, aquele que insiste em deixar a
todo o resto para trás. As jovens moças escutaram o som da flauta de
Krishna desde o mais fundo de  seus corações. Se elas tivessem hesitado
mesmo por um momento em pensar na consequência do encontro com esse
jovem garoto na floresta no fim da noite, milhares de razões poderiam ter
surgido em suas mentes para que não se encontrassem com Krishna.
Razões familiares, sociais e inclusive religiosas. A mente procura nos
manter dentro de seu  mundo, um mundo sem coração. Para escutar o nosso
coração devemos parar de escutar nossa mente e  subordiná-la ao coração
de nossa alma. As gopis exemplificam esse ideal ao  se encontrar com
Krishna. Enquanto externamente podiam parecer desconsideradas com os
outros, na realidade, elas não estavam pensando em nada a não ser no mais
alto sacrifício, sendo assim atuaram em consideração a tudo isso.
Depois que as gopis foram roubadas de seus familiares, uma gopi, Radha,
roubou Krishna das outras gopis. Por isso as  gopis proclamaram que
Krishna não é aquele que possui tudo (Bhagavan), porque se Ele fosse isso,
porque necessitaria de Radha? Nem Ele era o Senhor que rouba o coração
dos outros, pois Seu próprio coração foi roubado por Radha. Nem Ele era o
controlador, (Isvara), pois Radha controlava Ele. Então qual é a posição
Dela? Ela personifica a mais elevada adoração, (anyaradhita), da qual  Seu
nome deriva.
Nós então deveríamos adorar a Radha ao invés de Krishna? Em verdade
Eles são iguais e  diferentes ao mesmo tempo, assim como o fogo dá calor
e luz. A adoração à Radha é a mais alta adoração a Krishna. A mais elevada
adoração de Krishna deve trazer O adorador para Radha. Krishna e Radha
são o supremo predominador e supremo predominado  aspecto da
divindade, e cada um deles é um aspecto independente da realidade última.
FIM DO ARTIGO
15. MORRER PARA VIVER

A vida é a respeito da morte, nada mais. Mas o que é a morte? Na tradição


sagrada da Índia, um rei perguntou a um jovem sábio sobre sua morte
iminente e o que deveria fazer. O jovem sábio respondeu com a narrativa
poética do Srimad-Bhagavatam. Ele disse ao rei que ninguém é realmente
um rei, pois a morte governa sobre todos. Mas a morte é a mão de Deus,
então devemos pegar esta mão e segurar firme. Há vida em compreender a
morte, do contrário não há.
A poesia do Srimad-Bhagavatam atinge seu ápice quando esotericamente
as gopis de Krishna morrem. Elas desistem de seus desejos do mundo e
arriscam tudo para se unir com Krishna no amor divino, para segurar Sua
mão estendida. Assim, elas desistiram de suas vidas, elas morreram para o
mundo dos sentidos para viver no mundo da alma. É assim que o jovem
sábio respondeu ao rei. Até mesmo um menino ou menina pode entender
isso. É questão de bom senso.

O mundo está aqui hoje, mas amanhã ele terá ido embora. Não podemos
nos apegar a isso. Mas todos nós nos propusemos a tornar-nos reis e a
possuir e a manter tantas coisas, e nessa perseguição louca perdemos de
vista o óbvio. É a interconectividade de todas as coisas que devemos
buscar, não a independência de tudo; não o nosso próprio reino. Nesta
busca, encontraremos liberdade da ilusão de que somos entidades
independentes. É essa ilusão que estimula o medo da morte – a ilusão da
morte que é realmente a mão de Deus. Devemos tentar mudar nosso ângulo
de visão.

B. R. Sridhara Deva Goswami gostava do seguinte trecho:

O orgulho da heráldia, a pompa do poder,


Toda essa beleza, toda essa riqueza
Esperam a hora inevitável;
Os caminhos da glória levam apenas ao túmulo.

Fora da cultura espiritual, todas as pessoas neste mundo estão apenas


cavando suas próprias sepulturas, nada mais, e a maioria dos planos
materiais levam a uma sepultura desconhecida. Essa é a natureza do karma.
Os fantasmas do nosso passado nos cercam e nossa vida atual é
assombrada.

Não há tempo como o presente, pois nele residem o futuro e o passado. O


presente determina o futuro e nos permite aposentar o passado. No entanto,
o presente está perdido para aqueles que permanecem controlados pelo seu
passado e não prestam atenção ao clamor de uma realidade espiritual que
nos fala incansavelmente a cada momento. A chamada é ouvida não apenas
nas escrituras e nas palavras dos sábios, mas também em todos os
movimentos da natureza – com todo nascer e pôr do sol.
A realidade inteira é simplesmente como notas diferentes que se
harmonizam juntas em uma música: A canção da vida além do cemitério da
existência material. Aqueles que ignoram isso nunca irão dançar na terra da
vida eterna.
Os santos e as escrituras nos dizem para residir entre os vivos, ou seja,
entre aqueles que estão espiritualmente vivos. Hegel disse: "Morra para
viver". Deixe a escravidão do apego ao nosso passado morrer e deixe-nos
despertar para uma nova vida no reino da alma. Nesse reino não há morte e
renascimento. A vida é de amor sem fim. Morra para viver!

Em tempos difíceis, devemos olhar para as escrituras em busca de conforto


e orientação, pois ver a vida através dos olhos da escritura (sastra-caksusa)
nos ajudará como nada mais pode. De fato, o segundo capítulo do
Bhagavad-gita conta toda a história da vida e da morte – a morte sendo
descrita ali como outra mudança de vestimenta para a alma. Por meio do
discernimento e da filosofia das escrituras, pode-se lidar verdadeiramente
com a morte, e lidar com o problema da morte é o que a vida é. Se
negligenciarmos este problema, nenhum outro esforço equivale ao tempo
bem gasto, pois nunca encontraremos felicidade duradoura trabalhando
contra o relógio para adquirir algo nesta curta vida. Esta é apenas uma
visão realista da vida neste plano mortal, onde o tempo nos tirará tudo
muito cedo.
O que é tempo? “O tempo sou Eu, destruidor de todos os mundos”, diz Sri
Krishna no Bhagavad-gita. Há, claro, mais a Sua mensagem do que isso.
Mas este é o começo. Uma vez que compreendemos completamente que a
presente vida que estamos vivenciando é aquela em que nascemos para
morrer, podemos começar a conhecer a eternidade, onde a vida real
começa.
Para viver a vida despreocupada que estamos procurando, devemos
atravessar a influência do tempo. O Gita nos diz que isso só pode ser feito
entregando-se à realidade de nosso completo desamparo diante da natureza
material, sob cuja jurisdição estamos vivendo. A partir desse
reconhecimento de nossa extrema necessidade, vem o ímpeto de pedir
ajuda – ajuda absoluta, pois somos absolutamente desamparados. Esse
chamado atrai a simpatia de Deus, que está sempre pronto para responder
àqueles que são mansos e humildes, assim nossa vida feliz além do tempo
está próxima. A experiência positiva da vida espiritual tangível não requer
validação racional. Não deixa dúvidas e cumpre a necessidade do coração
como nada mais pode. Não é irracional, mas pega onde a razão termina.
Tudo o resto empalidece em comparação.
FIM DO ARTIGO
16. MULHERES E O GAYATRI MANTRA

“Embora não fosse costume para as mulheres Gaudiya Vaisnavas iniciadas


na linha de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura cantarem o Brahma gayatri,
a inovação de Srila Prabhupada a esse respeito representa mais uma vez a
percepção de um devoto empoderado."

Se o guru deixa a prática

É mais importante começar a reconstruir a fé do que simplesmente declarar


a lei. Além disso, cada caso é individual.
Aqueles devotos cujos diksa-gurus não estão mais praticando - o que pode
significar muitas coisas - devem receber orientação de um siksa-guru
altamente qualificado. Tudo seguirá naturalmente disso. Se um devoto está
realmente obtendo algo valioso do siksa, sua fé renovada e genuíno
entusiasmo espiritual o guiarão naturalmente até a conclusão apropriada.
Isso é, ele vai ter encontrado seu sat guru. Ele tem de ir e sentar-se aos pés
deste guru. No entanto, tal guru escolhe o que procederá em relação à
iniciação, ou se uma nova iniciação é o melhor caminho. Deve ficar claro
que a instrução aqui é que se procure por um sat guru.

Adoração a Surya

Geralmente as pessoas adoram o deus Surya, o Sol, para ter uma boa saúde.
No entanto, uma pessoa deve se preocupar não só com a saúde de sua
estrutura mortal, mas mais com a saúde de sua alma. Portanto, deve-se
adorar não apenas Surya, mas Surya Narayana, e fazê-lo todos os dias da
semana. Visvanatha Cakravarti Thakura diz que a vida real e a alma de
todas as entidades vivas dentro deste universo é o sol e, portanto, o sol é
venerável, surya atma atmatvenopasyam. A ideia é que devemos ver o sol
como representantes de Narayana (Deus) e meditar no sol como uma
metáfora para Deus, que é a luz suprema que dissipa às trevas da
ignorância e nutre às almas de todos os seres vivos.

Mulheres e o Brahma Gayatri

Brahma gayatri é mais geral em sua petição do que os principais mantras


de nossa sampradaya, o Gopala mantra e o Kama gayatri. Embora se possa
extrair o ideal espiritual mais elevado do Brahma gayatri, esse ideal está
mais diretamente representado no Kama gayatri, que é o gayatri que deve
ser cantado em conjunto com o Krishna mantra de dezoito sílabas (Gopala
mantra). Assim, enquanto muitos Gaudiya Vaisnavas não cantam
regularmente o Brahma gayatri, todos os Gaudiya Vaisnavas cantam o
mantra de dez ou dezoito sílabas Gopala e Kama gayatri.

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura introduziu amplamente o canto do


Brahma Gayatri para os Gaudiya Vaisnavas iniciados, que antes de sua
política inovadora não era costumeiro. Embora não houvesse proibição, não
era o costume. De fato, aqueles de famílias brahmínicas que mais tarde
receberam Vaisnava diksa costumavam parar de cantar o Brahma gayatri e
remover seus cordões sagrados ao ganhar Vaisnava diksa.

Srila Bhaktisiddhanta introduziu sua política de dar o Brahma gayatri aos


seus discípulos do sexo masculino, à luz de seus esforços para estabelecer o
que Bhaktivinoda Thakura imaginou como "daiva varnasrama". Assim,
mesmo em sua missão, é representada mais a circunferência do que o
centro ideal da sampradaya. O fato de ele ter dado apenas aos homens é
mais uma prova disso, pois o coração do bhakti é puramente espiritual e
aberto a todos. Tradicionalmente no sistema sócio-religioso varnasrama, as
mulheres que nasceram em famílias brahmínicas não cantavam o Brahma
gayatri. Assim, ao estabelecer o daiva varnasrama, Prabhupada
Bhaktisiddhanta seguiu este mesmo princípio e apenas deu o Brahma
gayatri aos seus discípulos homens.

Contudo, a política de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura em relação


a dar este mantra teve muito a ver com encorajar seus discípulos que
estavam vindo a ele de uma atmosfera na qual o smartha brahmanismo era
considerado pelas massas como mais representativo da verdadeira religião
do que o Gaudiya Vaisnavismo. Assim, ao dar este mantra e o cordão
sagrado correspondente aos seus discípulos homens, ele fez uma declaração
sócio-religiosa e espiritual para a sociedade que Vaisnava diksa é mais
significante que brahmana diksa. Este último está incluído no primeiro.

Desta forma, ele procurou encorajar seus discípulos quanto ao significado


de seu status como Vaisnavas iniciados, bem como fazer uma declaração
ao público religioso geral. Ele também argumentou que vendo seus
discípulos usando o cordão e outros artigos, os outros não os criticariam
por adorar a Deidade e assim cometer Vaisnava aparadha. Naquela época,
na sociedade hindu, acreditava-se em grande parte que somente os
brahmanas podiam adorar à Deidade, e a concepção geral do significado da
adoração à Deidade era menos que totalmente transcendental; as pessoas
não estavam familiarizadas com a concepção Vaisnava de arcana.
Em consideração ao acima exposto, não é de surpreender que, ao chegar ao
Ocidente, o discípulo mais querido de Prabhupada Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura, Srila A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, deu o
Brahma gayatri tanto para seus discípulos masculinos quanto femininos.
Embora não fosse costume os Gaudiya Vaisnavas cantarem o Brahma
gayatri, Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, em consideração ao tempo e
às circunstâncias, instituiu esta política. Enquanto algumas seitas Gaudiyas
se opuseram à sua política, ela difundiu muito o Gaudiya Vaisnavismo, e
assim, às vezes, nós temos que adiar o tempo e dar lugar às políticas
subseqüentes de pregadores capacitados. Da mesma forma, embora não
fosse costume para as mulheres Gaudiya Vaisnavas iniciadas na linha de
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura cantarem o Brahma gayatri, a inovação
do Srila Prabhupada a este respeito representa mais uma vez um insight de
um devoto empoderado. No entanto, dada a relatividade desse tipo de
política, se algum pregador empoderado aparece e muda isso de volta, que
não seja rejeitado ou tomado como ofensor.

FIM DO ARTIGO
17. BHAVOLLASA RATI
AMOR POR RADHA-KRISHNA COMBINADOS

"O amor das manjaris, embora mais intenso para Radha do que para
Krsna, também é para Krsna. As manjaris amam ambos Radha-Krsna
combinados com ênfase em Radha, e assim eles estão em uma posição
única na qual Radha-Krsna se torna o objeto de amor romântico ".

No Caitanya Caritamrta afirma-se que Mahaprabhu veio distribuir os


quatro sentimentos espirituais de Vraja loka: dasya, sakhya, vatsalya e
srngara: cari bhava-bhakti diya nacamu bhuvana (Cc. 1.3.19), e que esses
sentimentos têm o poder de subjugar Krsna: dasya sakhya vatsalya srngara
- cari rasa cari bhavera bhaktayata krsna tara vasa (Cc. 1.3.11). De
acordo com Bhaktivinoda Thakura, Sri Caitanya Mahaprabhu
disponibilizou esses sentimentos para aqueles cuja natureza espiritual
intrínseca corresponde a qualquer um deles.

Os dois sentimentos mais proeminentes encontrados na Gaudiya


sampradaya são sakhya-bhava e gopi-bhava. Dentro de sakhya-bhava, o
sentimento do priyanarma sakha é mais proeminente. O priyanarma sakha
é o amigo mais confidencial de Krsna e está envolvido na vida romântica
de Krishna. Dentro de prema bhakti, seu amor se desenvolve através dos
estágios de sneha, pranaya, mana, raga e anuraga até o estágio de bhava:
subaladyera 'bhava' paryanta premera mahima (Cc. 2.23.55).

No entanto, Sri Visvanatha Cakravarti Thakura comentou que o bhava do


saiyah do priyanarma é sinônimo de mahabhava. Vrajanatha do Jaiva
Dharma de Bhaktivinoda Thakur alcançou o status de apriyanarma sakha,
e Akincana Krsnadasa Babaji, o tão conhecido discípulo de Srila
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, também alcançou esta sabedoria e
escreveu sobre isso para Pujyapada Sridhara Deva Goswami. Existem
outros exemplos também.

A gopi bhava de nossa sampradaya é mais comumente referida como


manjari bhava e especificamente como bhavollasa rati. Estende-se em
excelência espiritual para o mahabhava, e dentro do mahabhava para
toadhirudha-madan-mahabhava. Os devotos que alcançam esse status
espiritual se identificam como servos de Sri Radha e experimentam
indiretamente Seu êxtase. Este é, sem dúvida, o mais distante alcance da
própria experiência de Sri Caitanya e o sentimento mais proeminente
encontrado na Gaudiya sampradaya.

Sri Caitanyadeva distribuiu a festa completa do amor de Deus, e cada um e


qualquer dos devotos que venham à mesa irão participar de acordo com a
medida de seu apetite. Caso contrário, as declarações de
BhaktivinodaThakura sobre outras figuras religiosas e sua relação com as
melosidades devocionais de Vraja bhakti são formas generosas de
propaganda, com ênfase no zênite espiritual da contribuição de Sri
Caitanya Mahaprabhu para o mundo da experiência espiritual.

Expansão de Balarama e Senhor Shiva

De acordo com o Srimad-Bhagavatam, o objeto da meditação de Shiva é


Sankarsana. Sankarsana é outro nome para Balarama, assim como o nome
de uma das expansões de Balarama. Assim, a relação entre Siva e Balarama
é de devoção por parte do primeiro ao último.

Candravali e suas servas

Nós, Gaudiyas, temos pouco interesse no campo de Chandravali, porque


ela é a competidora de Radha na lila, mas Padma, Saibya e outras daksina
gopis (da ala direita/submissas) a servem, assim como Lalita, Visakha etc.,
servem à Radha. As servas dessas amigas de Chandravali são muitas.

O amor das manjaris por Krishna e bhavollasa-rati

Ninguém tem Krsna mais do que Radha e nenhum devoto tem Radha mais
do que suas manjaris.

Bhavollasa-rati, ou manjari-bhava, é tanto um tipo especial de sancari-


bhava (emoção transitória) quanto é, e mais ainda, um tipo especial de
sthayi-bhava. Quando Sri Jiva Goswami diz que é um tipo especial de
sancari-bhava, ele quer dizer que embora seja uma expressão de amor para
a amiga de Krsna (Radha) e não para O próprio Krsna, nesse sentido um
sancari-bhava, sob escrutínio, torna-se tão aparente que envolve o amor de
ambos, Radha e Krsna, e, portanto, é um tipo especial de sthayi-bhava.

Todos os devotos de Vraja possuem sancari-bhavas um pelo outro, onde


esses sancari-bhavas não dominam seu sthayi-bhava (emoção permanente)
em relação a Krishna. Se o manjari-bhava fosse somente para Radha, seria
verdadeiramente apenas um sancari bhava, mas porque é para Radha e
Krsna combinados é, na verdade, um sthayi-bhava. O termo "bhavollasa"
significa literalmente "aquele amor que anima o amor Deles [de Radha
Krishna] um pelo outro ".

Deve-se notar que a escritura sobre o amor dos habitantes de Vrndavana foi
escrita por Rupa Goswami com a ajuda de Jiva Goswami. Enquanto eles
usaram a teoria da rasa secular como uma estrutura para explicar o
Absoluto, que é a transcendental a rasa em si (raso vai sah) e sua
recompensa também, a explicação deles não caberia inteiramente dentro da
estrutura da teoria secular da rasa para que ela fosse válida. Existem várias
diferenças entre os dois sistemas. Por exemplo, na teoria secular da rasa, o
amante e os amados desfrutam igualmente da Sua união, enquanto na
transcendência, A amada (Radha) excede Krsna na Sua capacidade de
provar a rasa. Essa verdade e diferença entre a teoria secular da rasa e o
sistema de Sri Rupa dá origem a toda a explicação de Rupa Goswami,
porque ela exige a aparição de Sri Caitanya Mahaprabhu.

O problema que se percebe é, na verdade, o resultado de pensar que a


explicação de Sri Rupa da realidade mais elevada deve se encaixar em
todos os aspectos com a teoria secular da qual ele tomou emprestada a
linguagem para sua explicação.

Anteriormente escrevi o seguinte sobre este tópico: "Bhavollasa-rati é


peculiar na medida em que envolve o amor a Radha em um estado de
ânimo dominante (sthayi-bhava). Em Vraja todos os devotos têm um
sentimento dominante de amor por Krsna. Ele é o objeto de sua devoção
em humores de servidão, amizade, amor paternal e conjugal. Os devotos de
Vraja também têm amor uns pelos outros, ainda que esses sentimentos de
amor não dominem o humor, mas representam um tipo particular de
sancari, ou transitório, bhava. Este sancari-bhava nunca se sobrepõe ao
amor dominante dos devotos por Krsna, mas serve para aumentá-lo.

No caso de bhavollasa-rati, no entanto, o amor das manjaris dirigido a


Radha tem precedência sobre seus sentimentos de amor por Krsna em uma
base contínua. Assim, não é um sancari-bhava, ainda que seja direcionado
para Radha em vez de Krsna. Também não se deveria esperar que isso
fosse classificado como um stayi-bhava. A resolução desse dilema é que o
amor das manjaris, embora mais intenso para Radha do que Krsna, é
também para Krsna. O amor das manjaris é por Radha-Krsna combinados
com ênfase em Radha, e assim eles estão em uma posição única em que
Radha-Krsna combinados se tornam o objeto de seu amor romântico.
Representando bhavollasa-rati, Narottama dasa canta: jivane marane gati,
radha-krsna prana pati, que significa: "Na vida ou na morte meu ideal é
Radha-Krsna". Prana pati significa "Senhor da minha vida" e se refere ao
amante de alguém. Aqui o "amante" é Radha-Krishna.
FIM DO ARTIGO
18. HARINAMA E DIKSA MANTRA

"O conhecimento do relacionamento de uma pessoa com Krsna está dentro


do diksa mantra e o guru instruirá seu discípulo quanto à eficácia desse
mantra. Isso leva ao estágio liberado de svarupa siddhi."

Importância do sastra e do guru

O sastra pode ser útil para encontrar um guru, porque nos diz algo sobre a
natureza e as atividades das pessoas realizadas. Assim, podemos ler o
sastra e, num sentido geral, as escrituras nos ajudam a encontrar um guru.
Uma vez que tenhamos encontrado nosso guru, ele nos leva profundamente
dentro do sastra para entender coisas que não poderíamos ter entendido por
conta própria.
Por outro lado, eu (*Srila Tripurari Maharaj), por exemplo, encontrei meu
guru sem ter lido o sastra. A coisa mais importante em encontrar um guru
é o desejo de se entregar aos pés de uma alma realizada. Cultive esse desejo
e você encontrará seu caminho, mesmo sem o sastra. A sinceridade é
invencível. Krsna diz assim, na kalyana-krt kascid durgatim tata gacchati
(BG 6.40): "Quem é sincero não anda no caminho do infortúnio".

Bhagavata diksa e pancaratrika diksa

Bhagavata diksa se refere ao Harinama e raga marga de nama bhajana,


enquanto o pancaratrika diksa se refere ao mantra diksa do Gopala
mantra, kamagayatri, etc. O Caitanya-caritamrta nos diz que o Krsna
mantra (pancaratrika diksa) dá a liberação (samsara mocana), enquanto
Krishna nama entrega a pessoa aos pés de Krsna (krsna carana).

krsna-mantra haite habe samsara mocana krsna-nama haite pabe krsnera


carana
"O mantra de Krishna liberta um indivíduo dos nascimentos e mortes
repetidos neste mundo; o Santo Nome de Krishna dá um abrigo aos pés de
lótus de Krsna."

Srila Sridhara Maharaja deu o exemplo de um círculo menor dentro de um


círculo maior: "O Santo Nome de Krsna é o círculo maior. Ele se estende
do mais alto ao mais baixo. O círculo do mantra é um círculo menor dentro
do círculo maior. O mantra não pode alcançar o ponto mais baixo. O Santo
Nome pode se estender até a posição mais baixa. O mantra nos dá entrada
na libertação, e então o Nome nos leva mais longe. Essa é a natureza de
nossa conexão com o mantra e o Nome.
O nome se estende para a posição mais baixa, para os candalas e yavanas.
Todos podem receber o nome. Mas nem todo mundo é elegível para o
mantra. Somente depois de um ter atingido um estágio desenvolvido, o
mantra pode ser conferido a ele. E a jurisdição do mantra terminará quando
a libertação for alcançada". (Sri Guru e Sua Graça)

Importância do Harinama Diksa

O Harinama é muito importante. Sem harinama, ninguém pode atingir


Krsna-prema. Foi Advaita Acarya quem primeiro instituiu o harinama
diksa. Ele o fez seguindo a vontade de Mahaprabhu. Um dia, o jovem
Nimai (Sri Caitanya Mahaprabhu) se recusou a beber leite do seio de Sua
mãe Saci. Sri Advaita Acharya concluiu que o remédio era para Saci dar
início ao cantar do maha mantra Hare Krsna. Adwaita Acharya deu-lhe
esta iniciação e Nimai bebeu felizmente o leite materno novamente.
A principal mensagem aqui é que alguém deve ser iniciado no canto de
Hare Krsna. Outra mensagem é que devemos apenas aceitar as refeições
daqueles que são adequadamente iniciados.

Durante o tempo de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, o mantra diksa e o


bhajana marga (siddha pranali) foram amarrados juntos. Assim, muitas
pessoas foram levadas a acreditar que, a menos que recebessem o diksa
mantra em tal e tal linha, não poderiam trilhar o caminho do amor
espontâneo de Deus (raga marga). Bhaktisiddhanta viu o que ele chamou
de venda de mantras acontecendo e se opôs, colocando ênfase no
Harinama. Ainda assim, ele colocou em prática mantra diksa em sua
própria linha também.

Quando o siksa guru é proeminente

Se o nama guru é mais proeminente, isso deve ser enfatizado. Então,


novamente, os sentimentos do discípulo devem governar, e é possível que,
apesar do nama guru ser mais proeminente e até mesmo talvez ser o guru
do mantra guru, o discípulo possa sentir mais afeto e ajuda vindo do
mantra guru e enfatizar sua relação com ele.

Aqueles na linha de Bhaktisiddhanta estão todos recebendo os mesmos


mantras. Se alguém depois de tomar diksa descobre que siksa de outro
guru é mais nutritiva do que o que ele está recebendo de seu diksa-guru, ele
deveria estar livre para ouvir daquele siksa-guru sem a necessidade de
rejeitar seu diksa-guru e sua iniciação.
Vaidhi bhakti

Vaidhi bhakti não pode dar Vraja bhava, na qual os devotos compartilham
relacionamentos íntimos com Krsna em Vrndavana. Ele tem um bhava
próprio mergulhado na admiração e reverência encontradas em Vaikuntha.
Os super-excelentes bhavas de Goloka Vrindavana são realizados através
da cultura de raganuga bhakti. Assim, qualquer um interessado nessas
bhavas é, nessa medida, qualificado para trilhar o caminho da raga. Esse
interesse deve vir do coração, não da cabeça.
Raganuga bhakti é baseado no amor. Ao passo que o envolvimento de
alguém em raganuga bhakti é baseado na deliberação de seus méritos
como descrito no sastra, um senso de perspectiva de como alguém irá se
beneficiar de sua prática, ou sem medo, não é puro raganuga e pode ser
considerado ser misturado com vaidhi bhakti. A diferença entre vaidhi
bhakti e raganuga bhakti é de motivação.
Raganuga é sadhana e assim prática, mas esta prática é madura quando
nossa svarupa (identidade espiritual) é revelada. Antes disso, pode ser
praticado, mas será misturado e apoiado por vaidhi bhakti. Essa é a opinião
de Bhaktivinoda Thakura. Jiva Goswami chama essa mistura ajata ruci
raganuga bhakti, ou raganuga bhakti praticada no estágio anterior ao
desenvolvimento de um gosto espiritual por um bhava particular de Vraja.

Importância do Harinama e do diksa-mantra

A relutância em receber mantra diksa de alguém é provavelmente baseada


principalmente nas reservas que se tenha sobre ser considerado discípulo de
alguém, especialmente se já se recebeu o nome sagrado e japa mala de um
guru que faleceu antes que ele pudesse dar a seu discípulo mantra diksa.
Caso contrário, por que alguém não gostaria de aproveitar o principal
mantra de nossa sampradaya? Enquanto alguém pode apresentar várias
razões com ênfase na eficácia do Santo Nome e sua relação com o
bhagavata/raga marg em oposição à relação do mantra com o arcana e o
pancaratika marg, este raciocínio não se soma à justificação para renunciar
ao mantra diksa.
Os principais diksa mantras de nossa sampradaya são o Krsna/Gopala
mantra de 18 sílabas e seu correspondente kama gayatri. Sobre este mantra
Sri Krsnadasa Kaviraja diz, krsna-mantra haite habe samsara mocana
krsna-nama haite pab krsnera carana: "Cantando o mantra de Krsna, a
pessoa alcança a liberação e se entoa Krsna nama a pessoa alcançará os pés
de Krsna." Neste verso, Sri Krsnadasa distingue entre os efeitos de cantar
Krsna mantra e Krsna nama. Krsna mantra traz a libertação. Essa liberação
devocional é chamada svarupa siddhi, na qual se realiza sua svarupa e
nasce em Gokula, os passatempos manifestos de Krsna. Tendo atingido
este estágio, o mantra se retira e Krsna nama então nos leva aos pés de
lótus de Krishna no estágio final do vastu siddhi, no qual alguém entra na
lila não-manifesto de Goloka.

Em seu bhakti-sandarbha, Sri Jiva Goswami diz que, no momento da


iniciação, o guru transmite o diksa mantra e uma explicação do que está
contido no mantra. Isto inclui o conhecimento da forma de Krsna, Sua
natureza, e a relação do discípulo com Krsna, divyam jnanam hy atra
srimati mantra bhagavat-svarupa-jnanam tena bhagavata sambandha-
visesa-jnanam ca. Assim, o conhecimento do relacionamento de uma
pessoa com Krsna está dentro do diksa mantra, e o guru instruirá seu
discípulo quanto à eficácia desse mantra. Isso leva ao estágio liberado de
svarupa siddhi, muktir hitvanyatha-rupam svarupena vyavasthitih.

Assim, o diksa-mantra não se preocupa apenas com arcana, embora seja


também necessário para arcana, e, na maior parte, todos os devotos
precisam estar envolvidos no arcana a fim de serem purificados e
aproveitarem plenamente o Santo nome. De arcana, uma pessoa chega à
plataforma de bhajana, enquanto sankirtana do Santo nome permeia ambos
os estágios, purificando o coração no estágio de arcana e entregando uma
pessoa aos pés de lótus de Krishna no estágio de bhajana.

Teoricamente falando, tudo está dentro de Krsna nama, e Krsna mantra


pode não ser necessário, mas, na prática, os sadhakas exigem que Krsna
mantra tire vantagem de Krsna nama. O mantra de Krsna depende de
Krsna nama no sentido de que consiste em nomes de Krsna dispostos em
uma fórmula particular. A própria presença de Krsna nama no mantra é o
que lhe dá o poder revelador.

"Pegue toda a ajuda que puder conseguir!", essa foi a opinião de Srila
Prabhupada. Ele escreve: "O cantar do maha-mantra Hare Krsna é tão
poderoso que não depende da iniciação oficial, mas se alguém é iniciado e
se envolve em pancaratra-vidhi, sua consciência de Krsna desperta muito
em breve, e sua identificação com o mundo material será derrotada".

O guru que é mais importante para nós é aquele que mais nos ajuda, seja
ele o nama guru ou o mantra guru. É claro que em quase todos os casos
esse guru é o mesmo, mas sob certas circunstâncias pode ser dois gurus
diferentes. Se alguém tem grande fé em seu nama guru e precisa receber o
mantra de Krsna de outro guru porque o nama guru já partiu, deve-se
encontrar um guru no qual se sinta que o nama guru é mais
proeminentemente representado e discutir isso abertamente com ele. Os
sentimentos do discípulo por seu nama guru devem ser honrados
apropriadamente.
Eu acredito que o que foi dito acima é universalmente aceito em todos os
ramos do Gaudiya Vaisnavismo.

FIM DO ARTIGO
19. OUÇA E CANTE SOBRE KRISHNA

"Assim como Você está cheio de opulências, assim é a canção sobre Você.
Aqueles que a anunciam em toda a terra não são meros mortais. Eles são
os maiores benfeitores da sociedade humana. Eles representam Você em
todos os aspectos."

A sexualidade e compromisso no relacionamento

A união com o parceiro casado, mesmo quando realizada sem procriação


em mente, é maior do que o simples ato sexual sem o compromisso
encontrado nos relacionamentos conjugais. No entanto, a procriação
envolve um comprometimento ainda maior. De uma perspectiva espiritual,
todo o propósito da vida conjugal é que os indivíduos aprendam a se
sacrificar uns pelos outros e isso, em última instância, em consideração à
vontade de Deus. Por mais que isso seja o que está envolvido – na medida
em que o sacrifício envolve não apenas colocar o próprio desejo egoísta de
lado e abraçar o desejo de outro, mas centralizar o sacrifício na vontade de
Deus – o relacionamento é espiritualmente progressivo.

Reencarnação

Uma pessoa voltará a este mundo, mas não no mesmo corpo. Ela e sua
família continuarão a nascer em corpos diferentes até que estejam livres da
influência do karma, que é a reação da natureza para aqueles que escolhem
interagir com ela. O desejo faz o mundo girar, yayedam dharyate jagat (Bg.
7.5).

Compreendendo o termo raja yoga

O termo raja yoga não aparece no Bhagavad-gita. No entanto, o rei (raja)


do yoga é claramente descrito no Gita como bhakti yoga. Isto é enfatizado
na descrição de yoga que constitui os primeiros seis capítulos do Gita. Os
seis capítulos intermediários apresentam mais detalhes sobre a natureza da
bhakti yoga e, nesta seção (capítulo nove), a conclusão da Gita é dada.
Nisso Krsna claramente diz a Arjuna para se tornar Seu devoto, e essa
conclusão é reiterada no final do Gita, no capítulo dezoito.

Punições dos tempos védicos versus punições nos tempos atuais

Em primeiro lugar, não temos a liberdade de lidar com tais crimes (como
matar um ofensor nos tempos védicos) de forma alguma além de honrar as
decisões do governo vigente. Nós não vivemos em tempos védicos e,
portanto, sistemas de justiça apropriados para aqueles tempos não podem
ser aplicados hoje. Há um debate em andamento sobre a eficácia da pena de
morte. Mas não creio que seria prudente entrar neste debate em favor da
pena de morte apenas com base na prescrição da pena capital nos tempos
védicos e no raciocínio de que, ao aplicar a pena de morte, a parte
executada é libertada da reação karmica do ato criminoso. Se alguém
deseja entrar neste debate, deve começar por se tornar totalmente
informado com todos os argumentos de ambos os lados decorrentes das
circunstâncias sociais atuais.

No geral, é melhor para o nosso progresso espiritual pessoal cultivar o


perdão e lembrar-se da disposição misericordiosa de Sri Caitanya
Mahaprabhu e Nityananda Thakura. A missão Deles é uma missão de
reforma. Devemos tentar o nosso melhor para reformar o nosso próprio
caráter e saber que, ao fazê-lo, podemos ter o efeito mais positivo sobre
aqueles que nos rodeiam. Bondade e amor espiritual têm o poder de mudar
o caráter de qualquer pessoa ao longo do tempo, porque são as mesmas
coisas que todas as pessoas procuram e representam, a intervenção direta
de Deus. O castigo karmico condenado pela natureza material, embora
apropriado e justo, não tem o mesmo poder. A misericórdia é superior à
justiça, que deve se afastar e oferecer respeito quando a misericórdia
intervém. Preocupe-se com a obra de Deus, da qual você foi convidado a
participar diretamente. A natureza material continuará sua tarefa ingrata
sozinha.

Karma, disfunções psicossomáticas e prática devocional

Eu não sou muito familiarizado com TEPT (transtorno de estresse e


desordem pós-traumática), mas como resultado de nosso karma, podemos
ser incomodados por muitos distúrbios físicos e mentais. A prática
espiritual (sadhana) absolve nosso karma começando com as reações
karmicas que ainda não são manifestas, aquelas que estão na semente sob a
superfície de nossa atual realidade mental e física. Pela graça de Deus e
prática espiritual séria, essas sementes podem ser impedidas de se
manifestarem em nossas vidas. No entanto, esse karma que já dá frutos
leva mais tempo para erradicar. Algumas formas de prática espiritual não
são capazes de remover nosso karma manifesto, mas cantar o nome de
Deus tem esse poder.

É mencionado no Srimad-Bhagavatam que aqueles cujo karma manifesto é


muito problemático, mas que no entanto estão envolvidos em cantar
puramente o nome de Deus, tornam-se santos nesta vida e são mais do que
qualificados para realizar qualquer ritual védico, aho bata sva-paco
'gariyan yaj-jihvagre vartate nama tubhyam.

Isso significa que o karma manifesto dessas pessoas foi erradicado através
da poderosa prática espiritual de cantar o nome de Deus, e mesmo em seu
corpo atual, eles se tornaram santos. Assim, de todas as práticas espirituais,
seria melhor se envolver em cantar o nome de Deus. Ainda assim, apenas
uma alta qualidade de cânticos pode remover poderosos impedimentos
karmicos manifestos. Portanto, tente cantar puramente sem algum motivo
que não seja agradar a Deus, mas não espere que o seu TEPT desapareça
imediatamente. Na verdade, talvez seja necessário procurar orientação
médica, para amenizar os efeitos problemáticos em um nível que não
impeça a prática por algum tempo até que a prática governe a vida deste
indivíduo.

Crescimento do movimento de consciência de Krishna

É necessário se juntar àqueles que também estão preocupados com as


questões que nos preocupam no movimento da consciência de Krishna e
concentrar a inspiração na pregação, assim como em seus fundos para
facilitar a pregação sobre aqueles que já estão envolvidos na tradição, mas
que estão carregando a bagagem de coisas não essenciais em nome do
Gaudiya Vaisnavismo.
Enquanto isso pode alienar alguns, isso irá animar e reunir outros que têm a
mesma opinião, e uma nova encarnação do movimento se manifestará, que
será dinâmica, viva e vital. Este então será o movimento com o qual as
pessoas progressivas se identificam. Não deve ser necessariamente uma
instituição que se une, mas sim um ideal espiritual essencial do Gaudiya
Vaisnavismo, com o qual as pessoas podem se identificar e formar uma
associação firme em torno de seus preceitos, conforme articulado na
literatura Gaudiya Vaisnava contemporânea. O propósito exclusivo de tal
associação deve ser ouvir e cantar sobre Krishna.

Seis opulências de Krishna

Krsna e Krsna nama são Um e O mesmo, bhinnatvan nama-naminoh,


nama-naminoh abheda. Assim, se toda opulência é encontrada em Krsna,
ela também é encontrada em Seu nome. Além disso, o Srimad-Bhagavatam
afirma as virtudes do Hari katha assim:

tava kathamrtam tapta-jivanam kavibhir iditam kalmasapaham sravana-


mangalam srimadatatam bhuvi grnanti ye bhurida janah (Bg. 10.31.9)
Neste verso todas as seis opulências principais de Deus – Conhecimento,
desapego, força, fama, beleza e riqueza – são representadas com respeito à
discussão sobre Krsna, que inclui cantar Seu nome.
Neste verso as gopis rezam a Krsna:
"A canção sobre Você é como o néctar da imortalidade (kathamrtam) que
dá vida àqueles que estão sofrendo no mundo do nascimento e da morte
(tapta-jivanam). Portanto, possui as opulências do conhecimento. Os poetas
(kavibhir iditam) que conhecem o valor e o significado das palavras e do
seu arranjo elogiam essa música, e os próprios compositores ficam
maravilhados com a beleza e a eficácia dessas canções sobre Você, que são
originais e não de origem humana. Os oradores oferecem homenagem ao
Seu louvor que aparece nos lábios de Seus devotos, tendo sido infundidos
dentro de seus corações por Você mesmo. O subproduto de Seu louvor é a
soma e substância do conhecimento e desapego (jnana vairagya).

As canções sobre Você destroem os efeitos do pecado (kalmasapaham).


Elas são, portanto, virtuosas e heroicas, a própria essência do dharma ou
justiça, que é força real (viryasya). Aqueles que as ouvem tornam-se
afortunados (sravana-mangalam) e fama (yasasah) acompanha-os onde
quer que eles vão. Assim suas vidas se tornam espirituais e auspiciosas,
pois essa boa fortuna e fama não são comuns. É assim porque ao cantar esta
canção se atrai a atenção de Sri, consorte do Senhor que abençoa tais
devotos. A canção é cheia de beleza, riqueza e poder espiritual (srimad).
Além disso, essa música se espalha por todo o mundo (atatam), mas nunca
diminui, e é assim a maior riqueza e poder (aisvaryasya). Você está cheio
de opulências, assim como as canções sobre Você. Aqueles que as
anunciam em toda a terra não são meros mortais. Eles são os maiores
benfeitores da sociedade humana. Eles representam Você em todos os
aspectos. "

FIM DO ARTIGO
20. IGUALDADE,VARNASRAMA E TRANSCENDÊNCIA

Varnasrama lida com ética e moralidade, que não constituem a vida


espiritual propriamente dita. Assim, envolver-se em varnasrama não é o
objetivo da vida. Quando estamos preocupados em verificar o objetivo
final, muitas coisas serão rejeitadas, embora possam ter alguma utilidade na
realização do objetivo. A utilidade do varnasrama é que ele convida a
influência de sattva. Quando entendemos nossa realidade psicossomática,
estamos melhor equipados para levar uma vida equilibrada e buscar o ideal
espiritual. Nessa medida, o varnasrama, ou melhor, o espírito e a essência
desse sistema, tem valor em relação ao objetivo da vida.
Na terminologia do Gita, uma pessoa psicologicamente bem ajustada é
aquela que está ciente da influência particular que os gunas exercem em
sua psique e age em consideração a essas influências. Independente de qual
guna influencie predominantemente a pessoa, essa consciência básica é por
si mesma a influência de sattva, que governa sutilmente o sistema social
varnasrama do Gita. Na visão do Gita, o primeiro passo essencial da
bondade é situar-se no dever prescrito, um dever que corresponde à
psicologia da pessoa. Ao ser colocado corretamente, encontra-se um senso
de harmonia com o eu materialmente condicionado, o que possibilita o
cultivo de outros aspectos da bondade.
Aqueles cujas ações não são determinadas em consideração à sua
psicologia estarão desequilibradas e mais facilmente presas às influências
da paixão e da ignorância. Ao mesmo tempo, sattva em si também deve ser
transcendida, porque nos impede da liberdade suprema em união amorosa
com Deus. Sob sua influência, muitas vezes um indivíduo permanece
prisioneiro da tradição religiosa, em vez de perceber a mensagem essencial
da tradição.
Aqueles cuja psique é predominada por sattva podem, na medida
correspondente, buscar direta e naturalmente a vida transcendental,
enquanto aqueles dominados por rajas e tamas acharão este curso mais
difícil. Para tais pessoas, embora possam progredir em sentido absoluto,
problemas relativos, como disfunções psicológicas, podem surgir e criar
alguns impedimentos.
Essa noção das gunas e sua relação com a cultura espiritual e bem-estar
psicológico se encaixa bem com a psicologia transpessoal. Nesse modelo, a
necessidade de se desenvolver como uma pessoa psicologicamente bem
ajustada é considerada um pré-requisito ou uma disciplina paralela que
pretende complementar a cultura espiritual propriamente dita.
No interesse de “estabelecer varnasrama” devemos levar em consideração
até que ponto a sociedade moderna está gravitando em direção a um tipo de
integração social em vez da segregação social envolvida no varnasrama.
Devemos dar uma olhada essencial nessa tendência moderna, encontrar o
valor nela e seguir com isso, advogando algo que não vai radicalmente
contra a corrente de nossos tempos, mas que ainda cumpre a essência do
varnasrama.
A humanidade parece estar gravitando em direção ao terreno comum de
nossa espécie como seres humanos, em vez de diferenças percebidas de
raça, sexo, credo etc. Isso tem valor, mas a igualdade e a realização,
adequadamente compreendidas, não são alcançáveis dentro do reino da
moral. O humanismo e a moralidade nunca podem preencher a alma. A
moralidade tampouco pode realizar seu próprio ideal de sociedade humana
perfeita e permanecer vital, porque a própria moralidade depende de ter
uma sociedade necessitada de moralidade. Uma sociedade perfeita não
precisa de moralidade. A vida espiritual transcende o varnasrama.
Igualdade de oportunidade e representação, o coração da democracia,
pertencem ao reino da alma. A prática espiritual comum para todos
perceberem essa igualdade é cantar os nomes de Deus. Para fazê-lo de
forma pacífica e progressiva, será útil desenvolver-nos em termos de ser
indivíduos bem ajustados (sattva-guna). Embora isso possa acontecer
através da cultura direta da vida espiritual (ceto darpana marjanam),
praticamente descobrimos que muitas pessoas após anos de canto não
desenvolveram esse coração limpo, que é representativo da influência de
sattva.
Assim, a necessidade é de daiva-varnasrama, varnasrama para os devotos.
O coração do varnasrama é facilitar o desenvolvimento desse ser humano
bem ajustado e integrado, que se desenvolve a partir do conhecimento da
realidade psicossomática da pessoa. Isso, por sua vez, facilita a cultura
espiritual.
Em outras palavras, o princípio do varnasrama, baseado na consideração
das gunas, é universal. Não precisa se limitar a uma expressão literal dessa
universalidade em relação a tempos passados. Afinal, é material. Diz
respeito ao reino da relatividade – moralidade e ética. Seu valor reside, em
última análise, em sua defesa de uma realidade absoluta que transcende
isso. Moksa o torna totalmente sem sentido, enquanto prema, ao fazer o
mesmo, emprega-o superficialmente em lila.
Se não for entendido a esta luz, há pouca esperança de realizar nossa
igualdade ou “estabelecer o varnasrama” hoje – mesmo na sociedade dos
devotos, muito menos na sociedade humana.

FIM DO ARTIGO
21. MAHADEVA SIVA E O VAISNAVISMO

Sankaracarya é dito ser uma encarnação do Senhor Shiva. Os arquinimigos


da noção de Advaita Vedanta de Sankara são encontrados nas sampradayas
de Madhva e Ramanuja. Alguns na sampradaya de Madhva, enquanto
urinam, entoam um mantra que diz que estão urinando em Sankara. Uma
opinião muito forte. Na sampradaya de Ramanuja também há sentimentos
muito negativos sobre Shiva. Dizem que seria melhor entrar na boca de um
tigre e ser devorado do que entrar num templo de Shiva. Com isso, eles
querem dizer que, ao entrar na boca da concepção de Advaita Vedanta de
Sankara, que se originou do Senhor Shiva, perde-se toda a esperança por
qualquer perspectiva futura no Vaisnavismo.
Mas Caitanya Mahaprabhu procurou trazer alguma harmonia para a guerra
em curso entre os Saivitas e os Vaisnavites. Quando visitou o sul da Índia,
Caitanya Mahaprabhu visitou todos os templos do Senhor Shiva e mostrou
muita consideração por ele. O Senhor Shiva e Parvati até apareceram para
Ele no sul da Índia como um brahmana e sua esposa para obter Seu
darsana.
Portanto, devemos ter a devida concepção e consideração adequada pelo
Senhor Shiva: vaisnavanam yatha sambhu. Mahaprabhu entrou em todos
os templos do Senhor Shiva com isso em mente, que Shiva é um grande
Vaisnava. Mahaprabhu argumentou em discutir com os saivitas: “Quem é
melhor, Visnu ou Shiva?”. Embora houvesse longos argumentos,
discussões e citações de tantas escrituras, o que Caitanya Mahaprabhu
disse? Ele disse: “A água que banhou os pés de Visnu é o Ganges e o
Senhor Shiva leva o Ganges em sua cabeça. Portanto, Visnu deve estar em
uma posição superior a Shiva.” Desta forma, de uma maneira simples,
Mahaprabhu os converteu. Mas nisso não houve desrespeito pelo Senhor
Shiva. Como podemos ignorar alguém que tem o Ganges em sua cabeça
constantemente?
Se estudarmos o Bhagavatam em sua totalidade, vemos que
paradigmaticamente falando, Shiva representa jnana-misra bhakti, devoção
misturada com conhecimento. E acima de jñana-misra bhakti está
Prahlada, suddha bhakti, devoção pura. Isso é mostrado no comentário de
Sanatana Goswami, no Brhad Bhagavatamrta, que é uma explicação do
Srimad-Bhagavatam, mostrando a gradação de todas as diferentes
concepções religiosas. Então vai no mais alto reino para as gopis. Mas lá
encontramos Shiva também: Mahadeva Gopisvara. Shiva deseja se tornar
uma gopi.
Devemos notar isso sobre todas as grandes pessoas no Bhagavatam, como
Prahlada e Narada. Eles estão representando algo teologicamente, mas essa
representação não representa inteiramente sua personalidade, potencial ou
perspectiva na vida espiritual. Portanto, os Gaudiya Vaisnavas também os
encontram em Krishna lila. Narada Kunda está lá, onde Narada se banhou e
saiu como uma gopi. O Senhor Shiva apareceu como uma gopi e gopa
também, Gopisvara e Gopesvara. O famoso templo de Mahadeva
Gopisvara está em Vrindavan, e nessa lila, Shiva disse que desejava se
tornar uma gopi e entrar na dança rasa, mas finalmente foi postado no
portão como um guarda.
Por que Shiva é o guardião da dança rasa? Porque a menos que passemos
pelo que Shiva representa, esse desapego, como podemos entrar na dança
da rasa com Krishna? Essa dança da rasa, que se parece com o amor
comum, em todos os aspectos é completamente altruísta. É o amor
abnegado que se camufla como egoísmo. Temos que olhar de perto para
ver o que é. A ideia de o Senhor Shiva ser colocado no portão da rasa lila é
que temos que passar pelo que Shiva representa, completo desapego dos
objetos dos sentidos, se quisermos interagir com eles de tal maneira que
não sejamos implicados. No amor de Krishna, Gaudiya Vaisnavismo é
realmente sobre a interação com os objetos dos sentidos, compreendendo
adequadamente que toda oportunidade sensual no mundo é uma
oportunidade para satisfazer os sentidos de Krishna. É por isso que, em
relação aos Gaudiya Vaisnavas elevados, maha-purusas, que não estão
agindo como acaryas, às vezes é difícil entender algumas das coisas que
eles fazem, como Ramananda Raya ensinando as devi dasis a dançar.
Quando Mahaprabhu enviou Pradyumna Misra para aprender sobre
Krishna bhakti de Ramananda Raya, ele voltou um pouco desnorteado.
Mas Mahaprabhu o mandou de volta. Isso é uma coisa muito alta. Nós
devemos saber como entender isso. Para aplicar isso, para vivermos nisso,
temos que atravessar o plano do Senhor Siva. Ele está postado no portão da
rasa lila e ninguém pode passar por ele. Além disso, o Senhor Siva tem
uma alta posição no Gaudiya Vaisnavismo. Ele é na verdade o cunhado de
Krishna. De Yasoda nasceu uma filha e um filho. Quando Vasudeva trocou
Devaki-nandana Krishna pela filha, Devaki-nandana Krishna fundiu-se em
Nanda-nandana Krishna e a filha foi levada e ela mostrou uma forma
óctupla, Katyayani - Durga - e castigou Kamsa. Katyayani é a esposa do
Senhor Shiva e irmã de Krishna, então Shiva é o cunhado de Krishna. Até
mesmo o guru de Krishna, Sandipani Muni, era um Saivita, então Shiva
está em nosso guru parampara! Nós não podemos evitá-lo.
Assim, existem maneiras de harmonizar o respeito por Shiva e a
consideração por Krishna. Devemos considerar essas coisas e representar
adequadamente a capacidade de harmonização do Gaudiya Vaisnavismo.
Não se trata de fazer inimigos e desenhar linhas, em preto e branco.
Devemos saber que os parâmetros do Gaudiya Vaisnavismo são amplos.
Inclui tudo o que é espiritual, todas as possibilidades. Se lemos e
estudamos o Bhagavatam, podemos encontrar muito espaço para entender,
acomodar e apreciar o Senhor Shiva.
FIM DO ARTIGO
22. B.R. SRIDHARA DEVA GOSWAMI E A MAHAMANDALA

'Vani' se refere a escutar e aceitar os ensinamentos do guru e 'vapu' se


refere a estar fisicamente próximo do guru. A importância de “vani” sobre
'vapu' está bem estabelecida nos escritos de Srila Prabhupada, e seu
exemplo de enviar seus discípulos para fora de sua própria presença e
pregar fala mais que qualquer volume de escritos sobre o ponto. Da mesma
forma, com poucas exceções, Srila Sidhara Maharaj enviou muitos devotos
para fora da Iskon por que foram banidos devido à siksa que eles haviam
recebido dele mesmo. Como haviam recebido vani de Srila Prabupada
esses devotos também receberam vani de Srila Sidhara Maharaj através de
seus livros, gravações e vídeos.

O ponto é que o avanço espiritual não pode ser medido com precisão pela
quantidade de tempo que um discípulo passa na presença do guru. Ao
contrário, o avanço é mais uma coisa relacionada a como uma pessoa
guarda os ensinamentos do guru em seu coração.
Srila Sridhara Maharaj acomoda isso assim: “As escrituras dizem: ‘Lava-
mātra sādhu-saṅge sarva-siddhi haya: ‘Um momento com os agentes de
Krsna, se é apropriadamente utilizado, é suficiente para resolver todos os
problemas de nossa vida pela qual estamos eternamente vagando através de
milhares de milhares de nascimentos’. Nós devemos estar despertos para
nosso interesse; não devemos ser negligentes, mas vigilantes para com o
nosso próprio interesse”.
A evidência da devoção ao guru é encontrada na sua própria vida de
dedicação a Sri Guru e Gouranga. Sempre deveríamos dar ênfase na
essência ao invés da formalidade. Srila Sidhara Maharaj disse: “Sempre
que a verdade aparece, de onde o néctar do divino êxtase desce, eu deveria
me oferecer como escravo. Qualquer que seja a forma que ela tome não
importa muito; a forma tem algum valor, mas se existe algum conflito, se
deveria dar um imenso valor ao espírito interno da coisa sobre sua
cobertura externa. De outra maneira, se o espírito parte e somente a
conexão com o corpo permanece, nossa assim chamada vida espiritual se
torna uma imitação barata" (B.R Sridhara Maharaj, Sri Guru e Sua Graça).

FIM DO ARTIGO
23. OS DEMÔNIOS DE DENTRO

"Sem desejar superar obstáculos enquanto cantando, o progresso será


muito lento. Infelizmente, vemos isso com muita frequência. Apesar de
cantar durante anos, muitos acham que seu gosto por cantar o nome de
Krishna não aumentou."

Sobre Vyasadeva

A vida de Krsna Dvaipayana (Vyasa), o lendário editor das escrituras


védicas, está registrada no Mahabharata. Ele era o filho de Satyavati, filha
de um pescador, e do sábio Parasara. Mais tarde, ele foi pai de Dhrtarastra
no ventre da esposa de seu irmão, conforme o costume se o irmão de
alguém fosse impotente. Ele também foi pai de Sukadeva Goswami, o
célebre orador do Srimad Bhagavatam. Seguindo os passos de seu pai, Sri
Krsna Dvaipayana tornou-se um "vyasa", ou compilador de escrituras. O
título Vyasadeva implica que ele foi especificamente empoderado para este
empreendimento e é, portanto, considerado uma encarnação (saktyavesa)
empoderada da potência do conhecimento de Deus (jnana-sakti). De
acordo com a tradição, ele misticamente permanece vivo hoje e reside no
Himalaia. Na sua maturidade ele compilou o Srimad Bhagavatam. Este foi
o seu trabalho final, aquele que surgiu do seu samadhi, ou transe espiritual
em meditação no Krsna lila, samadhinanusmara tad vicestitum. Seu transe,
sua significância e a compilação do Srimad-Bhagavatam são discutidos
detalhadamente no Tattva-sandarbha de Sri Jiva Goswami.
É possível que ao longo dos tempos vários sábios tenham acrescentado ao
legado escritural de Vyasadeva, editando obras existentes e escrevendo
outras e, ao fazê-lo, podem ter atribuído seu nome ao trabalho,
considerando que ele foi empoderado por ele. Esta é uma maneira de
harmonizar a datação acadêmica das escrituras com o sentido da tradição
de que todo o corpus escritural dos Vedas, Itihasas e Puranas foram todos
escritos pessoalmente por Krsna Dvaipayana Vyasadeva.

Significado de rendição

Quando na conclusão do Gita, Bhagavan Sri Krsna nos diz para nos
rendermos, Ele quer dizer que aqueles em quem Ele despertou a fé
deveriam se refugiar somente Nele através da devoção. Tais almas rendidas
não se abrigam no caminho da ação (karma yoga), conhecimento (jñana
yoga), yoga mística, ou qualquer outro meio para a salvação, nem se
apegam a qualquer outro Deus ou Deusa. Sri Krsna nos instrui no na
conclusão do Gita de que a entrega é a própria vida da devoção. Sem o
espírito de rendição, bhakti é sem vida e mecânico. No Gita Krishna
primeiro nos diz para nos tornarmos Seus devotos (man mana bhava mad
bhakto). Então Ele nos fala sobre o altar no qual o sacrifício de devoção
deve ser realizado e, finalmente, o palco no qual o drama de Sua lila de
amor é encenado (mam ekam saranam vraja). Aquele altar e palco é
saranam (rendição), tanto para o iniciante quanto para o adepto,
respectivamente. A rendição, ou saranagati, é expressada como aceitar
aquilo que é favorável à devoção, rejeitando o que é desfavorável,
considerando Krsna como Seu protetor, considerando Krsna como o
mantenedor, abraçando a humildade e submetendo-se plenamente a Krsna.
Estas seis expressões de rendição são apoiados por cinco condições mentais
subjacentes: pratijna, a promessa de que eu farei tudo favorável e deixarei
tudo que for desfavorável; visvasa, confiança de que Krsna irá me proteger
e, portanto, eu não preciso procurar em outro lugar por proteção a qualquer
Deus ou mortal; nirbharata, dependência de Krsna de tal forma que eu
confio Nele para minha manutenção (a aplicação deste princípio será
diferente para os chefes de família e monges); dainya, humildade ou
renúncia ao espírito de desfrute; atma-nivedana, abandonar o espírito de
independência e abraçar a sensação de coração e alma de que Krsna é O
Seu dono. Das seis expressões de rendição, considerar Krsna como o
mantenedor é a principal característica (svarupa laksana) de saranagati. As
outras cinco expressões são suas características marginais (tatastha
laksana). [topo]

Adwaita Acarya e sua barba branca

Adwaita Acarya tem cinco etapas em sua lila: kumara (infância),


pauganda (infância), kishore (adolescência), yauvana (juventude) e
varddhakya (velhice). Ele esteve presente por 50 anos antes da aparição de
Mahaprabhu e 25 anos após seu desaparecimento. Ao todo, seus
passatempos manifestos duraram 125 anos e como ele era o mais velho
entre os devotos, até mesmo Caitanya Mahaprabhu demonstrou respeito.
Apesar de sua aparente idade, Adwaita nunca sofreu sintomas da velhice
porque como Caitanya Mahaprabhu, ele é o próprio Deus. Uma vez, no
entanto, Mahaprabhu criticou Adwaita por glorificar ostensivamente jñana
sobre bhakti. Durante essa lila, a esposa de Adwaita, Sita Thakurani, pediu
a Mahaprabhu que desistisse porque seu marido era um homem velho (ele
tinha aproximadamente 70 anos naquela época). Adwaita Acarya era,
portanto, transcendentalmente jovem, mas idoso ao mesmo tempo. Para
enfatizar sua antiguidade em Caitanya lila, alguns Gaudiya acaryas,
incluindo Srila Prabhupada, descreveram-no como barbado. Isso, no
entanto, não significa que eles achavam que Advaita Acarya sofria de
velhice. Neste caso particular, o que ilustra é que existem detalhes e
princípios. Srila Prabhupada e seu guru concordaram com os princípios
essenciais da consciência de Krishna. Isso é o que é importante. Às vezes
os acaryas, mesmo quando um é o guru e o outro o discípulo maduro,
diferem nos detalhes.

Demônios da Vraja-lila e os anarthas

Os lilas de Krsna de matar demônios e castigar aqueles que exibiam


qualidades demoníacas foram interpretados de maneira diferente por vários
acaryas. A interpretação de Bhaktivinoda Thakura é nova e muito útil para
o sadhaka (praticante) que leva a sério o avanço na vida devocional. Em
seu Sri Caitanya Siksamrta ele escreve: "O devoto que adora o santo nome
deve primeiro pedir ao Senhor a força para expulsar todas essas tendências
desfavoráveis e deve orar assim diante do Senhor Hari diariamente. Ao
fazer isso regularmente, o coração do devoto se tornará purificado. Sri
Krsna matou vários demônios que podem surgir no reino do coração. Para
destruir esses problemas, um devoto deve chorar muito humildemente
perante o Senhor e admitir a derrota. Então o Senhor anulará todas as
contaminações”. Bhaktivinoda Thakura, então, dá a seguinte análise dos
passatempos de Krsna de matar demônios em relação aos impedimentos no
caminho de bhakti: Putana (a bruxa) representa o pseudo-guru. Sakatasura
(o demônio do carrinho), representa o fardo de uma carga de velhos e
novos maus hábitos, assim como a letargia e a vaidade. Trinavarta (o
demônio do redemoinho) representa o falso orgulho, que vem da erudição
material e leva à aderência as falsas filosofias. Nalakuvara e Manigriva (as
árvores gêmeas quebradas de Arjuna) representam o orgulho, que vem de
prestígio inflado e está enraizado em uma loucura por riqueza. Vatsasura (o
demônio bezerro) representa uma mentalidade infantil que dá origem a um
tipo de ganância que resulta em malignidade. Bakasura (a cegonha
demoníaca) representa uma duplicidade astuta e um comportamento
enganoso. Aghasura (o demônio da serpente) representa crueldade e
violência. O passatempo de Brahma-vimohana (em que o Senhor Brahma
rouba os vaqueirinhos e bezerros) representa atividades mundanas e
escolasticismo especulativo. Dhenukasura (o demônio burro) representa a
inteligência materialista grosseira, a ignorância do conhecimento espiritual.
A serpente Kaliya representa a brutalidade e a traição. O passatempo de
Krsna de extinguir o incêndio florestal representa a discórdia entre os
Vaisnavas. Pralambasura representa inclinações luxuriosas e desejo de
ganho pessoal e honra. O segundo incêndio florestal representa perturbação
dos princípios religiosos e interferência com pessoas religiosas por parte
daqueles que são ateus. O passatempo dos brâmanes que realizam
sacrifícios representa a indiferença em relação a Krsna causada pelo
orgulho por causa de seu status ou casta na sociedade varnasrama. A
superação do orgulho de Indra representa a adoração dos semideuses e a
tendência a pensar: "Eu sou o Supremo". O passatempo de Nanda Maharaja
sendo capturado por Varuna representa pensar que a vida espiritual pode
ser aumentada pela intoxicação. O passatempo de Nanda Maharaja sendo
engolido por Vidyadhara (a cobra) representa resgatar a verdade da
consciência de Krsna de ser engolido por filósofos impersonalistas. O
demônio da concha e pegar a joia que foi roubada por ele representam
nome e fama adquirindo o desejo por gozo sensual sob o pedido de
devoção. Aristasura (o demônio do touro) representa o orgulho que advém
da indulgência em falsas religiões que foram criadas por trapaceiros. Isso
causa negligência do serviço devocional. Kesi (o demônio do cavalo)
representa o falso orgulho de sentir que "eu sou um grande devoto e mestre
espiritual". Vyomasura (o demônio no céu) representa a associação com
ladrões e outros patifes e com pessoas que se colocam à frente como
avataras. Ao considerar esses demônios, o sadhaka deve se sentir livre
para ajustar a análise do Thakura de uma forma dinâmica, tornando-a
aplicável a própria vida do indivíduo. Por exemplo, diz-se que Putana
representa o falso guru. Isso pode não se aplicar a uma pessoa que tenha
um guru qualificado, portanto, esse devoto pode pensar no assassinato de
Putana como superação da hipocrisia, o que poderia se aplicar a qualquer
um de nós, independentemente das qualificações de nosso guru. Pensando
em Krsna matando Putana, devemos orar para que a hipocrisia em nosso
coração, que está se disfarçando como outra coisa, seja exposta a nós como
a coisa feia que é. Alguém pode estudar uma lila em particular na qual Sri
Krsna matou um demônio e encontre qualquer número de qualidades
indesejáveis naquele demônio. Então pode-se pensar nessa lila em relação a
qualquer uma dessas qualidades demoníacas que se quer superar. Tenha
firme fé que Krsna pode remover essas qualidades indesejáveis do seu
coração. Krsna não é diferente de Seu nome, então o poder que Ele exibiu
em Sua lila de matar demônios está presente na forma de Seu nome.
Implore o nome divino para exibir esse poder em seu coração, cantando e
lembrando como Krsna fez anteriormente em Sua lila. Qualquer um que
canta dessa maneira obterá força e avançará na devoção. Sem desejar
superar os impedimentos durante o canto, o progresso será muito lento.
Infelizmente, vemos isso com muita frequência. Apesar de cantar durante
anos, muitos experimentam que seu gosto por cantar o nome de Krishna
não aumentou. Esses tópicos são importantes para serem discutidos. Nós
viemos a Mahaprabhu e Sri Krsna Nama por uma causa nobre. Essa causa
começa dentro de cada um de nós, primeiro sendo sinceros e depois
tomando cuidado para não nos enganar por sermos complacentes com
nossos anarthas. Há tanta riqueza para se obter na joia do Santo Nome -
nama cintamani. Pela graça do Santo Nome, todos os anarthas podem ser
removidos, limpando assim o caminho para prema.

FIM DO ARTIGO
24. BRAHMA GAYATRI E O CORDÃO SAGRADO

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura deu a seus discípulos o cordão


sagrado e Brahma gayatri por razões sócio religiosas e espirituais. Ele
incorporou esta prática em sua missão da Gaudiya porque os brahmanas
hereditários eram naquela época ainda vistos como representantes
respeitáveis da religião hindu. Em consideração a esta circunstância sócio
religiosa, Srila Bhaktisiddhanta fez com que seus discípulos iniciados
usassem o cordão sagrado, independentemente de terem ou não nascido em
famílias brahminicas. Esta era a sua maneira de ensinar que os Vaisnavas,
independentemente de casta, eram tão respeitáveis quanto os brahmanas,
um ponto que muitas pessoas não entendiam.
Tanto o cordão sagrado ainda é considerado respeitável quanto tem um
valor com os propósitos de pregação. No Ocidente, a importância de usá-lo
para fins de divulgação é insignificante, mas o cordão sagrado ainda parece
ser um símbolo religioso honrado na Índia. Neste momento, o significado
primário de usar o cordão sagrado no Gaudiya Vaisnavismo tem a ver com
como os seguidores de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura
Prabhupada o identificam com o espírito de suas missões.
Considerando o cordão sagrado, uma expressão de discipulado e
subordinação aos acaryas dá significado espiritual ao uso do cordão
sagrado, mesmo que para fins de pregação seu valor possa ter diminuído.
Um devoto de Sri Caitanya Mahaprabhu também pode considerar usar o
cordão sagrado como parte de sua identidade espiritual (svarupa) em
Gaura-lila, pois Gaudiya acaryas determinaram que os devotos de Sri
Caitanyadeva estão destinados a servir como meninos brahmanas nesse
reino. Se pensarmos no Brahma Gayatri a essa luz, estaremos cantando
para sempre. Deste modo, uma consideração sócio religiosa pode elevar-se
a uma espiritual. Sempre que o sócio religioso e o espiritual se unem, isso é
um plus; sempre que eles se separarem, devemos seguir a consideração
espiritual sem perda.
Pode-se também questionar a necessidade de Brahma Gayatri quando
nossos principais mantras, Gopala Mantra e Kama Gayatri, são dados na
iniciação (diksa), mas não se deve questionar a espiritualidade do Brahma
Gayatri. Brahma Gayatri tem um apelo mais amplo do que o Gopala
Mantra e Kama Gayatri, mas os escrituralmente adeptos Gaudiya
Vaisnavas sabem que Brahma Gayatri é muito mais do que um mero
mantra solar. Brahma Gayatri é apenas sobre o sol, quando o sol é usado
como um símbolo conceitual representando Brahman (Deus). O sol é
igualado a Brahman porque tudo neste mundo que necessitamos para
sustento depende do sol. Alguns hindus certamente concebem Brahma
Gayatri como um mantra solar, mas isso é porque eles não entendem a
importância total do mantra.
De acordo com Sri Jiva Goswami, Brahma Gayatri não se refere a ninguém
além de Bhagavan, completo com Sua sakti. Ele é muito claro sobre isso
em seu Tattva-sandarbha. As Escrituras também reconhecem que o Gayatri
Mantra emana da flauta de Sri Krishna, e o Garuda Purana afirma
claramente que o Srimad-Bhagavatam é um comentário sobre o Gayatri
Mantra. Como o Srimad-Bhagavatam é uma meditação sobre a Suprema
Verdade - satyam param dhimahi - também é o Gayatri. A declaração de
abertura do Bhagavatam indica que os passatempos de Radha-Krishna
(param) devem ser eternamente (satyam) meditados (dhimahi).
Todos os mantras Gayatri, incluindo Kama Gayatri, vêm do protótipo de
Brahma Gayatri, e dizem que Gayatri devi encarnou como Kama Gayatri
para perseguir o gopi bhava. O Kama Gayatri simplesmente se concentra
mais diretamente no mais elevado alcance do Brahma Gayatri. Gopi bhava
deve estar dentro de Brahma Gayatri, pois não é possível que algo
contenha mais do que sua fonte. A identificação do Gayatri Mantra com o
Srimad-Bhagavatam e o som transcendental emanado da flauta de Sri
Krishna, bem como o fato de que Kama Gayatri vem de Brahma Gayatri,
deve estabelecer resolutamente a natureza espiritual do Brahma Gayatri.
FIM DO ARTIGO
25. DAIVA VARNASRAMA

"Aqueles envolvidos no Gaudiya Vaisnavismo, independentemente da


seita, devem entender que estão em dívida com Bhaktivinoda Thakur, que
viu a necessidade de relacionar nossa tradição com a modernidade para
mantê-la viva no mundo".

O Varnasharama Dharma

Varnasrama dharma se refere ao sistema sócio-religioso indiano baseado


nas escrituras, que consiste em quatro varnas, ou ordens sociais
(brahmana-kstriya-vasya-sudra), que mais ou menos correspondem a
sacerdote, guerreiro, comerciante e trabalhador, e os quatro ashrams, ou
ordens espirituais, a saber, brahmacari, grihasta, varnaprastha e sannyasa,
que correspondem respectivamente ao estudante, chefe de família, chefe de
família renunciado e monge renunciante. A essência do varnasrama
dharma é alcançar o equilíbrio na vida entre a busca material e espiritual. A
ideia por trás disso é que uma pessoa que entende sua realidade
psicossomática está melhor preparado para levar uma vida equilibrada e
buscar um ideal espiritual. Sendo assim, varnasrama dharma tem valor em
relação ao objetivo da vida.

O Srimad Bhagavatam diz, dharmah svanusthitah pumsamvisvaksena-


kathasu yah nadadayadadim ratim srama eva hi kevalam: "A execução do
dever do varnasrama é apenas muito trabalhosa se esta não der origem ao
amor por Hari katha". (SB 1.2.8) Ele também diz, atahpumbhir dvija-
srestha varnasrama-vibhagasah svanusthitasya dharmasyasamsiddhir
hari-tosanam: "Ó melhor entre os duas vezes nascidos, é por isso que se
conclui que a perfeição mais elevada que uma pessoa pode alcançar por
cumprir os deveres do varnasrama, é agradar a Personalidade de Deus ".
(SB1.2.13) Estes versos estão na seção do Srimad Bhagavatam, onde Suta
Goswami responde a perguntas dos sábios sobre o dharma supremo. Nesta
seção que é muito importante, é explicado que varnasramadharma é
valioso na medida que sua execução agrade a Hari, e nós sabemos do
próprio Bhagavatam que o varnasrama dharma não faz isso muito bem
comparado com o quão bem o Bhagavata dharma agrada a Hari.
Bhagavatadharma significa essencialmente uma vida centrada na devoção
a Bhagavan Sri Krsna.

Muitos dos que advogam a implementação do varnasrama têm uma ideia


muito superficial do que o varnasrama dharma realmente consiste.
Varnasrama é muito detalhado e complexo. A ideia de quatro divisões de
trabalho e quatro ashrams é a estrutura básica, mas alguém teria que
estudar o dharma sastra para preencher todos os detalhes. Tal estudo pode
desencantar muitos de seus defensores modernos, porque eles estão
simplesmente escolhendo, e escolhendo o que parece para eles o
significado do varnasrama, enquanto deixam o resto fora.
Um olhar superficial sobre a questão de não conceder sannyasa para
mulheres em nome da defesa do varnasrama seria revelador. Tais
pesquisas não ordenariam sannyasa para a grande maioria dos homens
também, a menos que estejam prontos para dormir na floresta e usem casca
de árvore como roupa íntima. Sendo assim, claramente Bhagavata ou
Vaisnava dharma está acima de varnasrama dharma. O bhakti sastra
transcende o dharma sastra.

Bhakti sastra transcende o Dharma sastra

Dharma sastra é destinado à vida religiosa regulada, que idealmente deve


levar a bhakti. Bhakti Sastra descreve o objetivo e os meios para atingir
esse objetivo, que em ambos os casos evidentemente é Visnu bhakti.
Bhakti está ouvindo, cantando e assim por diante, sobre Krishna. Se alguém
tem fé de que todas as obrigações dharmicas são cumpridas somente por
bhakti, está seguindo o caminho de suddha bhakti (devoção pura). Só o fato
de desempenharmos as funções de varnasrama, indiretamente estamos
agradando a Bhagavan, da mesma forma que um bom cidadão agrada ao
presidente. Varnasrama não é o mesmo que bhakti porque o bhakti trata de
cultivar um relacionamento pessoal com Bhagavan.
Em última análise, somente bhakti pode dar bhakti, mas é bom ser religioso
também, porque os dharma sastras são a respeito disso. De fato, os devotos
avançados tendem a pregar ao setor religioso, dando-lhes a oportunidade de
desenvolver fé em bhakti. No entanto, o vício do assim chamado dharma -
deveres religiosos - também pode ser um problema. Pessoas que são
viciadas demais a esses deveres religiosos podem ter dificuldade em
desenvolver fé em bhakti. Tais pessoas tendem a se preocupar com o fato
de que se elas não seguem o dharma sastra, eles serão culpados mesmo
quando engajados em bhakti. Krsna aborda isso no Bhagavad-gita quando
Ele diz sarva-dharman paratyajya:
"Abandona todas as injunções religiosas (dharma), se renda totalmente a
Mim. Eu libertarei você de todas as reações pecaminosas, não tenha medo."
(Bg 18,66)

Significado de Daiva Varnasrama

Daiva varnasrama tem dois significados. Um significado é o sistema


varnasrama no qual o varna de uma pessoa não é determinado
exclusivamente pelo nascimento, mas sim em consideração da guna
(qualidade) e karma (vocação). O segundo significado de daiva
varnasrama refere-se a uma forma de varnasrama para os devotos. Este
segundo significado foi concebido por Bhaktivinoda Thakur, dando suporte
aos recém-chegados que tentavam assumir a prática de bhakti. Vaisnava
dharma é superior ao varnasrama dharma, mas isso não significa que os
praticantes neófitos no caminho sejam automaticamente transcendentais à
influência dos modos do material. Os devotos ainda precisam ser engajados
de acordo com suas propensões, pelo menos até que sejam suficientemente
puros, até que não se deixem mais levar por essas propensões.
Srimad Bhagavatam (12.2.12-14) diz: “No final da era de Kali yuga, os
corpos de todas as criaturas serão grandemente reduzidos em tamanho, e os
princípios religiosos dos seguidores de varnasrama serão arruinados. O
caminho dos Vedas será completamente esquecido na sociedade humana, e
a chamada religião será na maior parte ateia. Os reis serão na maior parte
ladrões, as ocupações dos homens serão roubar e mentir e a violência
desnecessária reduzirá todas as classes sociais ao nível mais baixo de
sudras. As vacas serão como cabras, os eremitérios espirituais não serão
diferentes das casas mundanas, e os laços familiares não se estenderão além
dos laços imediatos do casamento ".
Mais importante do que isso é o que o Bhagavatam tem a dizer sobre o
início de Kali-yuga, que tem a ver com a sua narração. O Srimad
Bhagavatam (1.18) detalha como se dá a degradação da classe brahmínica,
a qual marca o começo da era de Kali-yuga. Este capítulo descreve como
após o desaparecimento de Sri Krsna, o menino brahmana amaldiçoou o
grande devoto Maharaja Pariksit porque o rei aparentemente havia
desrespeitado seu pai. Este incidente colocou Kali-yuga em movimento,
mostrando que quando os brahmanas, que supostamente são os líderes da
sociedade varnasrama, se tornam orgulhosos e corruptos, todo o sistema
varnasrama se torna corrupto. Isso também estimulou o discurso do
Bhagavatam, no qual está estabelecido que o melhor meio de libertação em
Kali-yuga é se abrigar no sagrado nome de Krsna.
O estudo das escrituras essenciais, como o Bhagavad-gita, o Srimad-
Bhagavatam e o Mahabharata, revela que a posição social de alguém
(varna) é realmente determinada pelas próprias qualidades e atividades e
não é simplesmente uma questão de direito de nascimento. Quando
somente o nascimento é o fator determinante, o resultado é asura
varnasrama, ou o que é comumente conhecido hoje como o sistema de
castas. Esta corrupção de varnasrama foi proeminente durante o tempo de
Thakura Bhaktivinoda, então ele ordenou a seu discípulo Srila
Bhaktisiddhanta estabelecer a concepção correta de varnasrama, na qual
guna e karma determinam a posição social (varna). Além disso, ele queria
estabelecer um tipo de varnasrama que auxilie o caminho do Vaisnava
dharma, que é superior ao varnasrama dharma ordinário. É claro que, na
época, muitas pessoas pensavam diferente, achando que os brahmanas do
varnasrama eram superiores aos vaisnavas. Além disso, o mesmo equívoco
aconteceu ao pensar que o nascimento rejeitava as qualificações reais de
alguém e isso tinha transbordado no Vaisnava dharma, e assim, em
algumas linhagens Gaudiya Vaisnavas, os gurus eram determinados
somente pelo nascimento, independentemente de suas qualidades ou
realizações. Vendo tal confusão infiltrando-se no Gaudiya Vaisnavismo,
Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta procurou estabelecer o daiva
varnasrama para os devotos que ainda tinham desejos materiais, mesmo
que o caminho de bhakti transcenda o varnasrama.
Assim, Bhaktivinoda Thakur ensinou que basicamente havia três tipos de
varnasrama: a-daiva varnasrama (varnasrama ordinário),
asuravarnasrama (o sistema de castas) e daiva varnasrama (varnasrama
para Vaisnavas). Sua ideia de daiva varnasrama para os devotos vem dos
seguintes versos do Srimad Bhagavatam: "Despertando a fé nas narrações
de Minhas glórias, se sentir desgostoso de todas as atividades materiais,
saber que toda gratificação dos sentidos leva à miséria, mas ainda assim
sendo incapaz de renunciar a todo prazer sensorial, Meu devoto deve
permanecer feliz e Me adorar com grande fé e convicção. Embora ele às
vezes se envolva em prazer sensorial, Meu devoto sabe que toda a
sensualidade leva a um resultado miserável, e ele sinceramente se
arrepende de tais atividades. (SB 11.20.27-28)

Somente a fé torna alguém apto a trilhar o bhakti marga, mas, ao entrar


neste caminho,a pessoa não se liberta imediatamente do desejo material.
Normalmente, aqueles com desejo material são elegíveis para seguir o
karma marga ou varna asrama dharma. Entretanto, a fé em bhakti os alivia
desse fardo, mesmo enquanto os desejos materiais permanecem. Ao mesmo
tempo, os devotos não devem agir artificialmente como se fossem
completamente realizados como paramahamsas, porque na maioria dos
casos eles serão atraídos por suas propensões materiais, apesar de sua fé.
Portanto, que haja disposição para envolvê-los de acordo com a
consideração de bhakti. Essa é a ideia do daiva varnasrama para os
devotos: Para servir como apoio ao bhakti, proporcionando um sentido de
equilíbrio material em suas sociedades.
Dada a cultura sócio-religiosa na qual esta ideia surgiu, Srila
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura organizou seus discípulos em quatro
grupos de serviço e quatro ashrams aproximadamente análogos às divisões
de ocupação e status espiritual descritas no varnansrama dharma. Por
exemplo, em seu daiva varnasrama, aqueles inclinados a estudar, pregar e
adorar a Deidade eram considerados brahmanas, e somente eles poderiam
tomar sannyasa. Aqueles inclinados para a administração eram
considerados ksatriyas. Os proprietários de casa que financiavam a
pregação e os templos eram considerados vaisyas, e aqueles que com fé
realizavam serviam mas que tinham pouca disciplina espiritual eram
considerados sudras. Ele agrupou seus discípulos desta maneira, deixando
claro que o Vaisnava dharma era transcendental ao varnasrama dharma.
A visão de Bhaktivinoda a esse respeito e sua tentativa dinâmica de
implementá-lo através de Bhaktisiddhanta são dignas de louvor. Através
de sua visão e esforços, eles nos fornecem um precedente para enfatizar a
necessidade de um suporte horizontal para trazer equilíbrio material
àqueles envolvidos no crescimento vertical, no que concerne o Gaudiya
Vaisnavismo. Por mais interessante que pareça, a espiritualidade
contemporânea não poderia concordar mais. Bhakti, embora não
dependente de um desenvolvimento horizontal, é facilitado trazendo
equilíbrio psicológico e social, assim como princípios éticos para a vida do
praticante.
Devemos estar orgulhosos de sermos membros do Bhaktivinoda parivara,
e aqueles envolvidos no Gaudiya Vaisnavismo, independentemente da
seita, devem entender que estão em dívida com Bhaktivinoda Thakur, que
via necessidade de relacionar nossa tradição com a modernidade para
mantê-la viva no mundo. Nós não saberíamos da visão de Bhaktivinoda se
não fosse por Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura e seus discípulos.
Deve ficar claro que a corrupção do varnasrama dharma, que
acentuadamente enfatizou o nascimento como sendo superior as qualidades
e atividades de alguém, transbordou também no Gaudiya Vaisnavismo.
Assim, ao pregar a concepção correta do varnasrama, Srila
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura também pregou contra a ideia de que o
nascimento em um particular parivara, por si só, qualificava a pessoa para
ter uma posição de guru ou acarya. E claramente a conduziu à sua
concepção do bhagavata guru parampara.

FIM DO ARTIGO
26. DIFICULDADES NO CAMINHO: 'NAS MÃOS DE DEUS'

Prescrição de dezesseis voltas de japa

A receita particular para a prática é dada pelo guru iniciador. Um guru pode
aconselhar seus discípulos a cantar dezesseis rondas de japa, enquanto
outro pode aconselhar mais ou menos rondas. Essa instrução também pode
variar para os discípulos do mesmo guru. Certamente o espírito de cantar
deve ser sincero. Canta principalmente quando nos sentimos mal.
Precisamos perceber o quão ruim é a condição material é isso nos dará o
ímpeto que necessário para procurar a orientação, Sri Guru.

Encontrando o guru com o coração e mente abertos

O guru vai irá encontrar sobretudo aqueles que são sérios, e estes irão atrair
a reciprocidade de cima na forma de um guia. A sinceridade é o mais
importante. Algum conhecimento também é necessário. Livros como o
Bhagavad-gita descrevem claramente a natureza e as qualidades de pessoas
santas. Se deveria estudar esses livros cuidadosamente. E ser paciente. O
que se aconselha, é que se adore a Krishna e que se ore para Ele enviar um
guru.

Canto puro nesta vida

Leva tempo manter afastados os pensamentos mundanos e preocupações,


mas é necessário decidir dar prioridade a prática espiritual sobre qualquer
outra coisa. Não há razão para que isso não possa ser feito na vida familiar,
mas não é fácil. É preciso fazer da própria casa uma atmosfera propícia. O
canto deve ser feito na mesma hora todos os dias sem distração.

Quais são as chances de cantar puramente nesta vida? Muito boas se existe
preocupação com como se canta o maha mantra. Precisamos estar sempre
insatisfeitos com a qualidade de nosso canto.

Quando os pensamentos surgem durante o canto, temos que disciplinar e


negar a mente. Pensemos na mente como se fosse um filho, se sempre lhe
damos tudo o que quer, se tornara mimado. As vezes temos que dizer
"não!" Diga não à sua mente por duas horas todos os dias durante o seu
canto sempre que ela fala. Nós também temos que rir da mente às vezes.
Bhaktivinoda Thakura recomendou se trancar num quarto tampando os
olhos durante japa. Devemos tomar em conta o espírito dessa
recomendação. Façamos que a mente cante sem ofensas e assim obteremos
resultados rapidamente. Se a japa é muito difícil, façamos kirtana por uma
hora todos os dias. Sente-se ou fique em pé e cante em voz alta. Não
devemos nos preocupar com o que os outros vão pensar.

Caminhos para a transcendência

Há uma série de caminhos que levam à transcendência do sofrimento


material. Alguns deles falam de níveis de penetração mais profundos do
que outros em relação a transcendência. O vaisnavismo, e Gaudiya
Vaisnavismo em particular, são representatividades dos caminhos que
levam ao zênite do logro espiritual. No entanto, uma pessoa pode se
concentrar em práticas básicas que têm em comum acabar com o ego. Não
deixemos que as verdades teóricas do Gaudiya Vaisnavismo encham seus
praticantes adeptos com orgulho e interfiram no enfoque comum que
compartilha-se entre todos os praticantes. O conhecimento, a sabedoria
interna, amor por Deus serão experimentados somente por aqueles que
pagam o preço da prática espiritual constante, que envolve honrar a todos.

Experiência do sadhana-bhakti

Na história da humanidade há um longo debate sobre teísmo vs. ateísmo.


Muitos pensadores pensam sobre este assunto chegando a conclusões
diferentes. A partir disso parece que há suficiente lógica para apoiar a
realidade espiritual, ou pelo menos tanto apoio quanto existe em relação ao
ateísmo. Além da lógica está o reino de experiência espiritual. Sem dados
consistentes para sustentar que variadas experiências espirituais, de seita a
seita, e os diferentes níveis de experiência descritas dentro de várias seitas
podem ser consistentemente reproduzidas por descargas de substâncias
químicas no cérebro, somos deixados a acreditar no que os
transcendentalistas dizem sobre estas experiências. E depois podemos
prosseguir a experimentar isso por nós mesmos.
Se uma pessoa gosta das experiências que recebe da sua prática, o conselho
é continuar com ela, já que não há outro método comprovado pelo qual se
pode obter tal experiência. Além disso, o método prescrito pelos santos
para alcançar a experiência espiritual envolve tornar-se uma pessoa ideal
cujas ações (karma) são integradas com o conhecimento (jñana), tornando-
se apto para uma vida emocional equilibrada (bhakti). Tornar-se altruísta,
autocontrolado, equânime nas relações com os outros, satisfeito consigo
mesmo, e assim por diante, é desejável. Também é bem aventurança. Ao
longo dos séculos, as pessoas alcançaram consistentemente essas
qualidades através da disciplina espiritual e não por qualquer outro método.
Elas não são fáceis de alcançar, mesmo pelo método prescrito. A vida
espiritual é a respeito de ser uma pessoa ideal. É uma tarefa difícil, mas não
há desafio maior. Esforce-se por isso de qualquer maneira.

Divisões e desentendimentos na comunidades de devotos

É desconcertante ver como as divisões e desacordos estão acontecendo nas


comunidades de devotos. No entanto, todos estão se movendo de acordo
com sua fé, sua experiência. Desta forma, tudo pode ser harmonizado.
Podemos aprender com o pobre exemplo dos outros como não devemos nos
comportar. O conselho é que verdadeiramente, de uma vez por todas,
temos que nos colocar nas mãos de Deus. Não é difícil entender como fazer
isso. Mas é difícil de fazê-lo. No entanto, esta é a tarefa, nada menos do
que isso. Façamos isso e nosso futuro será brilhante, independentemente
do que os outros façam.

Linhagens autorizadas

A linhagem de Bhaktisiddhanta é autorizada. Ela reconhece a descida da


espiritualidade através de diksa e siksa e traça sua linha ininterrupta em
consideração a isso. Isso quer dizer, onde quer que sua conexão diksa seja
menos substancial, ela procura a influência de um siksa-guru de maior
realização que desempenhou um papel na descida do divya jnana. Por
exemplo, sentimos que a realização espiritual de Jagannatha dasa Babaji e
sua influência sobre Bhaktivinoda foi maior do que a influência do seu
diksa guru Bipin Bihari Goswami. Assim, ao traçar nossa linha, colocamos
seu nome antes de Bhaktivinoda, em vez do diska guru do Thakura. Nós
colocamos Bhaktivinoda Thakura em nossa linha porque sua influência
espiritual teve um tremendo efeito sobre Bhaktisidhanta Saraswati Thakura.
Bhaktivinoda também lhe deu o Santo Nome. Assim, vemos
Bhaktisiddhanta Saraswati Prabhupada como um discípulo tanto de
Bhaktivinoda Thakura como de Gaura Kishor das Babaji, de quem ele
recebeu seu diksa mantra. Desta forma, procuramos fortalecer a linha diksa
com o poder dos grandes siksa gurus que a influenciaram, fazendo disso
um real siddha pranali (linhagem de siddhas).
A linhagem é sem dúvida sinuosa como uma cobra, e, do mesmo modo, o
curso do amor. Como diz Rupa Goswami, 'aher iva gatih premnah
svabhava Kutila bhavet,' (Ujjvala-nilamani, Sringara-bheda-kathana 102).
O argumento contra essa linhagem é tão antigo que recebe nova energia
quando nossa linhagem demonstra a mesma fraqueza que procura criticar.
Caso contrário, não há muita substância nisso. Afinal de contas, este
argumento é cego para a espiritualidade óbvia de Srila Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura e alguns de seus seguidores.
O conselho é também entrar na linhagem da escolha pessoal para começar
a vida espiritual. Se uma pessoa procurar com afinco suficiente, sem dúvida
encontrará pessoas que aparentemente têm boas razões para desacreditar de
sua linhagem escolhida - e todas as outras linhagens para este assunto.

Agindo com responsabilidade

Devemos julgar as nossas ações pelos resultados que elas produzem. A


verdadeira virtude envolve conhecer nossa própria posição, nosso nível de
elegibilidade, nossa capacidade (adhikara) e agir de acordo. Isso é tão
virtuoso quanto permanecer no nível do dharma (agindo
responsavelmente), se é tudo que uma pessoa consegue, assim como para
praticar raganuga bhakti (se a pessoa está qualificada para isso). Não
tentemos pular adiante. Porque vamos cair. Agir com responsabilidade está
no final do espectro, pouco antes da prática do yoga. Raganuga bhakti está
do outro lado, quando o anseio por servir a Krishna de um modo particular
toma conta do coração de alguém.

Qual (Gaudiya) sampradaya é fidedigna?

Se nós realmente entendemos e praticamos a linhagem de Bhaktivinoda


Thakura, que vém atraves de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, vamos
sentir resultados positivos. Então, que se siga o ruci.

FIM DO ARTIGO
27. OS COMPANHEIROS MAIS ÍNTIMOS DE KRISHNA

"Priyanarma sakhas como Subala saboreiam mahabhava de um modo


similar ao das gopis. Assim, o desenvolvimento de prema excede o dos
devotos em vatsalya rasa".

Posicionamento do Gaudiya Vaisnavismo acerca de outras filosofias

A posição Gaudiya em todas as questões relativas ao tattva é claramente


apresentada no tratado de seis anos de Sri Jiva Goswami conhecido como
Sat-sandarbha. No entanto, ao parecer, apenas o primeiro ensaio, Tattva-
sandarbha, está disponível em inglês.
Os Gaudiya acaryas têm um ângulo de visão ligeiramente diferente da
visão de Madhva, Ramanuja, Nimbarka e Visnu Swami. Em seus escritos,
Sri Jiva Goswami se referiu especificamente a Madhva e Ramanuja como
veneráveis vaisnavas. Ele abraçou alguns dos seus conceitos, mas não
todos eles. Ao contrário de outros mestres Vaisnavas, os Gaudiya acaryas
não tentaram refutar outras narrativas vaisnavas, nem colocaram
comparações extensivas entre suas próprias metanarrativas e as de outras
tradições Vaisnavas. Isto é porque os Gaudiyas geralmente consideram que
outras cosmovisões espirituais Vaisnavas são ângulos particulares de visão
revelados por Deus. Essas cosmovisões têm sido articuladas por Vaisnava
Acaryas da melhor maneira possível dentro dos limites da linguagem, razão
e escritura. Uma pessoa que olha para a essência filosófica desses
ensinamentos das sampradayas Vaisnavas encontrará mais unidade do que
o contrário.

Serviço a Krishna

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura representa seu próprio sentimento


quando declara que "nós estamos dispostos a aceitar, como nossa funcão
eterna, nada menos do que o ideal de serviço às vaqueiras de Vraja,
ensinado e praticado por Sri Caitanya", e também o principal sentimento da
sampradaya — o amor das servas de Radha. No entanto, qualquer um que
compreensivamente leia os seus escritos e os de Bhaktivinoda Thakura,
verá claramente que estes acaryas têm reconhecido que outros sentimentos
também têm lugar na Gaudiya sampradaya.

O sentimento da Gaudiya Sampradaya

Aqueles que seguem Rupa Goswami em termos de seu próprio sentimento


são Rupanugas em um sentido específico. Aqueles que o seguem em
termos de seu ensinamento em suddha bhakti, mas não em termos de seu
próprio sentimento de gopibhava também o seguem, mas em um sentido
menos específico. Ambos se consideram Rupanugas porque ambos seguem
Rupa Goswami. No entanto, o primeiro (que o segue pelo sentimento)
também segue Rupa Manjari e pode, assim, ser considerado um Rupanuga
em todos os sentidos do termo. Rupa Manjari é uma seguidora de Lalita
sakhi. Também é importante notar que alguns priyanarma sakhas também
estão intimamente relacionados a Rupa Manjari nisso em termos do aspecto
madhurya de seu sakhya bhava, eles seguem o bhava de Lalita Sakhi. Sri
Krsnadasa Kaviraja Goswami escreve, nija nija bhava sabe kari 'manenija-
bhave kare krsna-sukha asvadane: "Cada tipo de devoto sente que seu
sentimento é o mais excelente, e assim, naquele humor, ele prova grande
felicidade com o Senhor Krsna."

Níveis de prema e senso de auto preocupação

Não há egoísmo material em qualquer expressão de amor transcendental de


Deus. No entanto, no drama de Krishna lila, diferentes graus de amor
desinteressado a Deus são exibidos. Por exemplo, Rukmini estava
completamente apaixonada por Krishna, mas Ela ainda pensava em Sua
reputação e dharma como princesa, assim Ela nunca fugiu para encontrá-
lo, mas secretamente enviou uma carta pedindo Krsna para sequestrá-la.
Por outro lado, as gopis de Vrndavana desconsideraram tanto a convenção
social e o dharma e encontraram Krishna na calada da noite. Embora
ambas Rukmini e as gopis amem Krsna e sejam completamente
materialmente desinteressadas, Rukmini exibiu um senso de auto
preocupação, mas esse sentimento não está presente nas gopis. Assim,
Caitanya Mahaprabhu ensinou que o amor das gopis por Krsna é a mais
alta expressão de amor desinteressado a Deus.

Uddhava e madhurya rasa

Uddhava não está rezando para mudar seu sentimento espiritual (*quando
diz que deseja receber a poeira dos pés das gopis ao almejar nascer como
uma grama). Ele está se preparando para servir Krishna com a mesma
intensidade que as gopis têm. Ele quer ser abençoado por elas, mas ele não
quer ser uma gopi. No entanto, associados eternos do Senhor podem servi-
lo em diferentes capacidades de lilas diferentes. Por exemplo, Sridama, o
forte amigo vaqueirinho de Krishna que muitas vezes luta com Krishna,
resultando em Krishna tendo que carregá-lo em Seus ombros, expande-se
para servir Krsna em outras lilas como Garuda, portador do pássaro de
Krishna. Outro exemplo é Narada, que se banhou em Vraja e saiu com um
gopi deha (corpo de gopi). Siva também recebeu um gopi deha. Entretanto,
esses exemplos não pertencem ao prospecto das baddha-jivas (almas
materialmente condicionadas), que entram na lila em um sentimento
específico através da prática espiritual (sadhana) ou da misericórdia
especial.

A essência das escrituras a se seguir

Há muitas coisas que acontecem em Krsna Iila que não servem como
exemplos de caráter santo. Portanto, seguimos o exemplo de Caitanya
Mahaprabhu, e ainda mais, o exemplo de Sri Rupa e os Seis Goswamis de
Vrndavana. Primeiro, torne-se um santo honrando a todos, e então você
pode entrar na lila com um coração puro e entender a natureza das
interações que ocorrem nela.

Formas dos parsadas de Sri Krishna

Na verdade, todas as formas dos parsadas de Sri Krsna são manifestações


de Balarama porque ele preside o sandhini sakti. Esse shakti expande o
dhama e todas as formas nele. Incluso a forma de Krsna é a manifestação
do sandhini sakti. Entretanto, mesmo que suas formas sejam constituídas
de sua sandhini sakti, as gopis principais são manifestações do desejo de
Radha de servir a Krsna. Além de Balarama presidir o sandhini sakti, ele
supervisiona vatsalya, sakhya e dasya rasa e serve Krsna em todos esses
sentimentos, como guru, amigo e servo - kabhu guru, kabhusakha, kabhu
bhrtya-lila purve yena tina-bhave vraje kaila khela.

Vatsalya e dasya rasa

Vallabhacarya foi contemporâneo de Caitanya Mahaprabhu. Sri Rupa


Goswami reconhece a Vallabha sampradaya duas vezes em seu Bhakti-
rasamrta-sindhu, dizendo que os ensinamentos de maryada e pusti de
Vallabha são similares aos ensinamentos da Gaudiya de vaidhi e raganuga.
No momento em que essas duas sampradayas foram mais interativas se
acredita que Caitanya Mahaprabhu finalmente abençoou Vallabha para
continuar sua própria sampradaya — uma extensão da Visnu Swami
sampradaya.

A Vallabha Sampradaya enfatiza vatsalya rasa e gopi bhava seguindo a


gopi Candravali, assim como a gaudiya sampradaya segue gopi bhava com
ênfase em Sri Radha. Parece que Vallabha, com as bênçãos de Caitanya
Mahaprabhu, fornece um canal mais direto a vatsalya prema que a Gaudiya
sampradaya, bem como ele também faz por certos tipos de gopi bhava
diferentes de Radha-dasyam. Em Krishna lila Candravali e Radha são
competidoras no servico a Krishna.

Quanto a dasya bhakti (relação de serviço) em Vraja, essa emoção é tingida


de sakhya (amizade). Pelo menos é muito diferente da dasya bhakti de
Vaikuntha. Assim, às vezes é dito que Vraja prema começa com sakhya. A
Gaudiya sampradaya enfatiza sakhya e madhurya, e um tipo de sakhya que
é tingido de madhurya (priyanarma sakha) tem sido enfatizado sobre as
outras variedades de sakhya rati.

Quando sakhya rasa é misturada com madhurya rasa, ela proporciona uma
experiência estética não encontrada no altamente exaltado amor paternal de
Deus, vatsalya rasa. Priyanarma sakhas como Subala experimenta
mahabhava de uma forma semelhante às gopis. Assim, o desenvolvimento
de prema excede o dos devotos em vatsalya rasa. A esse respeito,
Mahaprabhu instruiu Sri Sanatana Goswami, sakhya-vatsalya-rati paya
'anuraga'-sima, subaladyera' bhava 'paryanta premera mahima:

“Depois do amadurecimento do serviço de servidão, há as doçuras da


amizade e do amor paterno, que aumentam para subordinar o amor
espontâneo (anuraga). A grandeza do amor encontrado em amigos como
Subala se estende ao padrão do amor extático de Deus
(bhava/mahabhava)".

Além disso, o Srimad-Bhagavatam (9.24.65) declara: "Ninguém em


Vrindavana, homem ou mulher, que bebeu do festival dos olhos do belo
rosto de Krsna, com Seu sorriso brincalhão e bochechas adornadas com
brincos em forma de golfinho, fica satisfeito. Embora sentissem alegria,
esta felicidade se misturava com raiva, quando seus olhos piscam."
Sri Visvanatha Cakravarti comenta: "Este verso mostra como, entre os
Vrajavasis, as gopis e os priyanarma sakhas de Krsna têm a mais intensa
experiência da beleza de Krsna. De todas as partes do corpo, Sua face é a
parte mais bela. Seu rosto é dividido em metade superior e metade inferior,
nessa parte inferior esta a doçura suprema do sorriso de Krsna que irradia
com imensa beleza. Qualquer pessoa que vê o sorriso do Senhor, com Suas
bochechas brilhantes as quais se tornan ainda mais esplendorosas pelos
brincos de golfinho pendurados ao lado delas, ficam encantadas. A
efulgência que emana do Seu corpo extingue todas as misérias do mundo.
As mentes dos devotos que são como os pássaros cakora se nutrem pelos
raios da lua. Assim, não é de se surpreender que Sua beleza desperta
desejos sensuais nas gopis, deixando-as tão loucas que estão prontas para
sacrificar os seus deveres, as suas famílias e as suas vidas na sua
impaciência por estar com Ele. Bebendo esta beleza, elas ficam insatisfeitas
sendo incapacez de tolerar até mesmo a interrupção producida pelo piscar
dos olhos, por isso elas ficam com raiva. Este é um dos sinais dos logros
mais elevados do amor, conhecido como mahabhava, que é somente
encontrado nas gopis e em nenhum outro lugar, exceto talvez em
companheiros mais íntimos de Krsna como Subala".

FIM DO ARTIGO
28. BUDISMO E VEDANTA

"Enquanto o budismo é a respeito da negação do sofrimento, Vedanta,


que significa a conclusão do conhecimento, é a respeito do amor sem fim,
um amor que atinge o seu nível mais elevado em Radha-Krishna."

O desapego ao resultado do trabalho

Há algo mais importante do que o fruto do trabalho de alguém. De acordo


com o Gita, o que é importante em última análise não é se alguém ganha ou
perde materialmente, mas como alguém joga o jogo. O desapego do fruto
do trabalho de alguém e do compromisso obediente não significa não se
preocupar com o resultado final ou ser apático sobre a realização no campo
de uma pessoa. O desapego é mais sobre a identificação com o fato de que
existe um grande esquema das coisas. Nesse esquema, os frutos das
atividades são incidentais. A ignorância disso é uma atadura material
porque se considera que os frutos do próprio trabalho, como lar, família e
posses, são tudo. Vale a pena frisar que esta sessão do segundo capítulo do
Gita termina com a defesa do equilíbrio mental (Bg 2.38), que é muito
importante para a experiência yoguica. Não importa o quão capacitado seja
alguém para a aquisição material, toda aquisição desse tipo é de pouco
valor se a mente de uma pessoa não for pacífica. Por outro lado, não
importa quão pequeno seja materialmente, com paz de espírito ele pode ser
feliz.

Como a cultura ocidental e a luxúria

Não é ṕosssivel acreditar que nossa cultura ocidental não tenha lugar para
valores absolutos ou verdade, nem acho que uma cultura que rejeite a
noção de verdade absoluta possa falar convincentemente sobre as virtudes
da luxúria. A luxúria não é meramente uma proibição religiosa antiquada.
A luxúria é uma expressão de insatisfação e, objetivamente, sua busca não
leva a uma realização duradoura. Além disso, é um princípio
universalmente aceito que a luxúria é indesejável para todos em algum
nível. Isso é ilustrado pelo fato de que mesmo as pessoas mais luxuriosas
desprezam certas manifestações de seu excesso em sua própria categoria.
Por outro lado, a história mostrou que os membros mais cultos e instruídos
da sociedade reverenciam uma pessoa espiritual percebida como livre da
luxúria. Assim, é preciso entender o princípio que o Bhagavad-gita ensina
em sua condenação da luxúria, em vez de apenas vê-la como uma lei
religiosa antiquada que não tem apoio cultural.
Critério para iniciação e para escolha do cônjuge

É apropriado tomar iniciação quando o coração deixa claro para você que
sua fortuna espiritual é estar sob a guia de um sadhu em particular. Do
ponto de vista espiritual, a iniciação é mais importante que o casamento e,
portanto, a consideração primária na escolha do cônjuge deve ser similar na
fé. Juntos, o casal deve perseguir o ideal transcendental acima de todo o
resto.

Conselhos sobre mistura de caminhos espirituais

Subjacente a todos os caminhos espirituais que destroem o ego material, há


um terreno comum e, certamente, há sentido em ver como todas as
manifestações da divindade estão inter-relacionadas. Isso faz muito mais
sentido do que entrar em guerra pelas diferenças entre as várias
manifestações da divindade. Ao mesmo tempo, todos os caminhos que
destroem o ego não levam ao mesmo lugar, pois cada um representa uma
experiência única de vida além do egocentrismo. Além disso, alguns
caminhos religiosos são mais desenvolvidos teologicamente do que outros;
isto é, eles nos dizem mais sobre o que Deus é do que sobre o que Deus não
é, mais sobre a transcendência em si do que sobre a natureza da situação
material. Não devemos hesitar em tomar sabedoria de onde quer que ela se
manifeste. Embora seja louvável apreciar todas as manifestações da
divindade, humildemente se sugere que em na busca pessoal, o indivóduo
tente encontrar um guia realizado para a transcendência, que sem dúvida
representará um caminho particular, e segui-lo. Ao fazê-lo, o conselho é
que se aprecie os outros caminhos desde sua própria perspectiva.

Diferença entre budismo e hinduísmo

O budismo surgiu do hinduísmo, portanto, há muitas semelhanças entre os


dois. No entanto, há também muitas diferenças, e para complicar as coisas,
há também muitos tipos diferentes de budismo e hinduísmo. Ambos os
budistas e hindus aceitam a doutrina da reencarnação, se engajam na
meditação e buscam a iluminação. Ambas as tradições entendem que o
desejo material é a causa do sofrimento, um sofrimento que existe apenas
na mente. Assim, em ambas as tradições, a liberdade do desejo material é
entendida como o fim do sofrimento e, portanto, o fim do nascimento e da
morte (reencarnação). Embora ambos reconheçam a reencarnação, sua
compreensão do que ela envolve difere, assim como a natureza da
meditação de cada tradição e seu senso de iluminação. Talvez a diferença
mais importante seja que o budismo não reconhece a existência de Deus ou
uma noção duradoura de consciência (a alma), ao passo que o hinduísmo
reconhece os dois. Os budistas veem apenas a matéria em constante
transformação e tentam acabar com o que eles chamariam "o equívoco de
que somos indivíduos". Para os budistas, a matéria é tudo o que existe e,
como a matéria está em constante transformação, qualquer senso de eu
derivado da identificação com uma transformação particular da matéria é
ilusório. Os budistas ensinam que, ao liberar essa identidade mental, pode-
se se libertar da noção de nascimento e morte. O Hinduísmo, por outro
lado, ensina que enquanto a matéria está constantemente passando por
transformação, a consciência está observando e alimentando essa
transformação. Ela nos diz que a consciência é distinta da matéria, a
consciência é o experimentador e importa o que é experimentado. Também
nos diz que nós (a alma) somos consciência – ou uma partícula dela.
Assim, qualquer senso de si baseado na identificação com a matéria
(corpo/mente) é ilusório. No hinduísmo, o verdadeiro eu (consciência) não
é um composto de nossos apegos ou desejos que sofrem transformação
junto com esses apegos. Em vez disso, o hinduísmo ensina que o
verdadeiro eu é o testemunho da transformação da matéria e que,
conhecendo o nosso eu (consciência) e a nossa fonte (Deus), podemos nos
libertar da ilusão e do ciclo do nascimento e da morte.

Aceitando a escritura como verdade revelada

O budismo é incompleto porque o budismo é uma filosofia, enquanto o


Vedanta é tanto filosofia quanto teologia. Teologia refere-se ao estudo em
busca de Theos - Deus. Os budistas acreditam que não há Deus ou alma
(atman), pois estes dois não podem ser validados pela razão. Assim, o papa
João Paulo IV uma vez descreveu o budismo como uma teologia negativa.
Ele estava correto no sentido de que o budismo é sobre a negação, mas o
erro foi ter falado negativamente do budismo. Vedanta, por outro lado,
assume que há tanto Deus quanto a alma e ensina que eles só podem ser
conhecidos por revelação. O Vedanta raciocina que a mente finita não pode
capturar o infinito através da especulação filosófica e que Deus se faz
conhecido em Seus próprios termos. Como poderia ser de outra forma? O
argumento para a necessidade de revelação para chegar ao conhecimento
abrangente é forte. A razão sugere que, se existe um conhecimento perfeito,
é venerável àqueles que estão impregnados de imperfeição e, portanto, sua
busca envolve devoção. Até mesmo algumas formas de budismo
recomendam que algum tipo de devoção ritualística acompanhe o
conhecimento. O Vedanta-sutra diz que o conhecimento sozinho nunca
pode ser conclusivo, tarko 'pratisthanat. De acordo com o Vedanta, o
caminho para o conhecimento conclusivo é a devoção, que no começo é
apoiada pelo raciocínio das escrituras reveladas. Quando a devoção é
firmemente estabelecida no coração, a necessidade de filosofia recua para o
pano de fundo. Quando os budistas dizem que não há realização direta do
eu, eles querem dizer que eles acreditam que não há eu, nenhuma realidade
ontológica conhecida na linguagem de Vedanta como consciência não-dual.
O ideal do budismo é deixar de se identificar como algo que não seja a
matéria (consciência não-dual) ou uma combinação particular de matéria
(corpo/mente). Como os budistas não aceitam o espírito ou a existência de
uma energia consciente separada da matéria, ficam apenas com matéria,
matéria em fluxo constante. Assim, o nirvana do budismo deve ser prakrti
(material) nirvana, não o nirvana brahman (espiritual) do Vedanta.
Portanto, para o Vedanta, parece que a concepção budista do nirvana é
fundir-se na matéria, tornando-se a pedra, a árvore, a Terra, o céu, a
totalidade da matéria em sua transformação contínua, e se transformar com
a matéria, nunca se identificando com qualquer estado particular de
transformação como estando separado da totalidade da matéria em fluxo.
Em contraste, o Vedanta postula que a consciência é eterna e abençoada.
Reconhece os limites da razão e, portanto, a necessidade da revelação. Os
mantras dos Upanisads chegaram até nós através da revelação. Eles nos
dizem aham brahmasmi: "Eu sou Brahman (espírito/atman/consciência)" e
tat tvam asi: "Então você também é isso". "Isso" - consciência - é algo
positivo, a plena realização a qual não apenas termina com o sofrimento,
mas também permite que se prove a própria alegria. O Vedanta diz que, ao
saborear a alegria, um dia vem a se saber que Brahman é rasa, raso vai sah
- uma relação de amor. Isso se opõe à concepção budista de alívio derivada
da negação do sofrimento material. Assim, enquanto o budismo é sobre a
negação do sofrimento, Vedanta, que significa a conclusão do
conhecimento, é sobre o amor sem fim, um amor que atinge o seu zênite
em Radha-Krsna. Além disso, a compaixão não falta no Vedanta. Os Vedas
dizem amar e conhecer, e o amor no sentido pleno do termo envolve amar a
Deus e a todos os seres vivos, que no amor auto-realizado são
experimentados como a energia (sakti) de Deus. Eu pessoalmente admiro à
doutrina de Sri Caitanya Mahaprabhu, chamada Gaudiya Vedanta, que
traça suas raízes escriturais para os Upanisads. O Gitopanisad ensina que,
por compaixão, Deus vem à Terra para a libertação das almas que sofrem
em servidão material. Krishna amplia ainda mais a compaixão através de
seus devotos, que servem sua causa incansavelmente, e pelas escrituras,
através das quais ele revela o conhecimento de Si mesmo e de nosso
relacionamento com Ele. Assim, os Vedas ensinam que a conclusão do
conhecimento é devoção, porque pela devoção se ganha revelação - o dom
de Deus.

FIM DO ARTIGO
29. JESUS E O RAGA MARGA

"Há muitas manifestações do Divino e todas elas têm seu propósito e


sentimentos no grande esquema da vida de Deus. A coisa bonita e
apropriada a ser feita é honrar todos elas pelo que elas são, e não
desordenadamente mesclá-los juntos".

Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura disse que Jesus é a figura do filho


e do guru, não o Personalidade de Deus. Embora existam certamente outras
maneiras de ver Jesus, seguimos a opinião dele e a opinião do Gaudiya
parampara sobre o raga-marga.

O raga marga é definido como sendo relacionado aos moradores de


Vrindavana, que amam a Krsna principalmente em quatro sentimentos
espirituais de tal forma que Sua divindade (o fato Dele ser Deus, Krishna) é
obscurecida. Esses sentimentos são de servidão (dasya rasa), amizade
(sakhya rasa), parental/pai e mãe (vatsalya rasa) e amante (madhurya
rasa). Os residentes de Vrindavana são conhecidos como ragatmikas, ou
devotos que têm amor espontâneo por Krsna. O caminho de raga significa
seguir os ragatmikas em seu humor de amor por Krishna. Se nós
esticarmos este conceito para torná-lo genérico, devemos perguntar quem
são os ragamikas de Jesus que se supõe que se possa imitar, e que
passatempos particulares, humores, sentimentos, e assim por diante eles
exibem sobre o eterno, no plano transcendente de perfeição.

Além disso, tornar o raga-marga universal e aplicável a qualquer


manifestação de Deus é, em certo sentido, antinatural e derrota o seu
propósito. Existem muitas manifestações do Divino e todas elas têm seu
propósito e sentimentos no grande esquema da vida de Deus. A coisa
bonita e apropriada a fazer é honrar todas elas pelo que elas são, não
desordenadamente mesclá-los juntas. Esse tipo de fusão geralmente é feita
para reforçar a fé, mas no que diz respeito à raga-marga, fé na
singularidade da Vraja-lila de Krsna é central para nossa prática.

Em última análise, sob escrutínio, é evidente que a noiva de Cristo –


conceito postulado por Theresa e outros – supostamente não é para ser
tomada como uma realidade ontológica, mas como uma perspectiva
psicológica a partir da qual se pode se aproximar de Cristo. Ou seja, eu não
sei de qualquer santo cristão que ensinou que o objetivo do cristianismo é
residir no mundo espiritual como a eterna noiva de Cristo.
Vatsalya bhakti

A respeito de seguir o ideal de Sacidevi e desenvolver vatsalya bhakti por


Sri Caitanyadeva, os Gaudiya vaisnavas sérios questionariam essa ideia.
Certamente não há um exemplo disto. Nenhum dos siddhas escreveu sobre
isso, nenhum dos sadhakas é conhecido por cultivá-lo. Sri Caitanyadeva,
também conhecido como Gaura, retribui em vatsalya rasa com Saci,
Malini, Sita Thakurani e outras, mas esses devotos são todas manifestações
de Sua svarupa-sakti (energia interna). Eles são Seus associados eternos em
Krsna-lila. Os sadhakas estão em uma posição diferente. Gaura-lila
concede entrada para sadhakas em dasya bhakti, pela qual eles também
podem participar da Vraja-lila de Sri Krsna em dasya, sakhya, vatsalya ou
madhurya rasas.
Nós devemos honrar o Senhor em termos de Seu humor particular em
quaisquer de Suas aparições. Sem dúvida Gaura-lila é insondável, mas
qualquer relacionamento com Gaura para o sadhaka diferente de dasya
bhakti é em sua maioria para livros. Aqueles com poderes para ensinar
sobre Sua lila são silenciosos sobre — se não opostos a — quaisquer
outras sugestões.

Assim, mesmo dentro do Gaudiya Vaisnavismo, fazemos certas distinções


entre Gaura e Krsna, apesar de ensinarmos que Eles são essencialmente A
mesma personalidade divina. Suas lilas diferem ligeiramente, com Gaura-
lila concedendo entrada a Krsna-lila. Sendo este o caso, é questionável que
Deus na forma de Jesus Cristo se entretém em vatsalya bhakti com
sadhakas que têm a visão de estabelecer um eterno relacionamento com ele
no humor de Mãe Maria. Ao comparar este ideia com o raga-marg de Sri
Caitanyadeva, a questão é novamente quem são os ragatmikas de Jesus que
é preciso imitar para atingir a perfeição no humor parental de Mãe Maria?
Se alguém responde que a própria Maria é uma ragatmika em vatsalya
bhakti, devemos investigar mais a fundo a lila da infância de Jesus, pois é a
infância de Krsna que é central para o amor paternal de Yasoda por Ele. No
entanto, essa informação não existe. Além disso, que sadhana foi
estabelecido na Igreja católica ou de outra forma no cristianismo que ensina
a derrotar a concepção material do eu e entrar nesse estado de espírito? Em
consideração a tudo, o conceitos da Mãe Maria ou da noiva de Cristo não
são o objetivo do cristianismo e relacionam-se apenas vagamente com o
raga-marg do Gaudiya Vaisnavismo. Eu acredito que qualquer teólogo
católico que esteja familiarizado com o Gaudiya Vaisnavismo concordará
com essa afirmação.
Manifestação de uma forma particular do Senhor
"A Personalidade de Deus é um vasto oceano de muitos modos diferentes
de troca amorosa. Seus vários devotos respondem aos Seus vários
passatempos desenvolvendo variedades individuais de êxtase, e o Senhor
retribui esse êxtase mostrando-Se de maneiras diferentes. Seus devotos
estão preocupados com Ele somente e, portanto, sempre que um devoto
torna-se extremamente ansioso para vê-lo em uma forma particular, o
Senhor de uma vez mostra essa forma ao devoto ".

Essa citação de Sanatana Goswami se refere a dasya bhakti em Vaikuntha.


Os dasya bhaktas lá podem mudar formas (não rasas) para servir
Narayana. Se eles desejam ver Narayana em uma das Suas muitas formas
de avatara, Ele lhes concede aquele darsana. De acordo com os Gaudiya
acaryas, é possível obter dasya rasa em Rama bhakti. Sri Rama-lila é
única em Vaikuntha na qual Ele tem uma mãe e um pai. Outras formas do
Senhor em Vaikuntha têm todas as Suas Laksmidevi e dasya bhaktas
beirando a amizade, mas Ramacandra também provou vatsalya bhakti.
Entretanto, é correto em dizer que o vatsalya não é puro vatsalya, no
sentido de que não é exatamente o mesmo que o amor maternal de
Yasodamayi. O amor de Yasodamayi pelo filho Krsna é livre de maryada,
ou temor e reverência. De fato, todos os ragatmikas de Vrndavana amam
Krsna sem temor e reverência. Isto é do que se trata o raga-marg. Rama-
lila é maryada, impregnada de temor e reverência, que é o oposto de raga.

Existe uma seita que segue todas as rasas com Sri Ramacandra, incluindo
madhurya. No que diz respeito aos Gaudiya Vaisnavas, as práticas e
teologias desta seita são muito questionáveis. Eles praticamente pegaram a
essência do Bhagavatam e colocaram o nome de Rama no lugar de Krsna.

Acerca da rara aparição de Krishna ao longo das yugas

Não se encontrou uma referência escritural para apoiar a declaração de Sri


Krsnadasa sobre a raridade do aparecimento de Krsna e Mahaprabhu. Pelo
contrário, a razão da raridade de Suas aparências é que Eles estão dando
algo muito raro. Krsna está dando isso por meio da manifestação de Sua
lila e através de falar o Bhagavad-gita, e Mahaprabhu está dando isso por
exemplificar como seguir o ensinamento de Sri Krsna no Gita.
Por que não dar isso mais prontamente? Quão mais prontamente se pode
dar isso, se não que dando livremente às pessoas não qualificadas? Em
yugas anteriores dizia-se que as pessoas eram mais qualificadas
espiritualmente, mas suas qualificações torna difícil para elas se
relacionarem com a facilidade de nama-dharma. Além disso, o maior
alcance do nama-dharma (nama srestam) como ensinado por Sri
Caitanyadeva, O divino filho de Saci, é tão alta que gira o mundo religioso
em sua cabeça.
É difícil para pessoas sofisticadas e piedosas se relacionarem com a ideia
de lidar com Deus da maneira que os moradores de Vrndavana fazem, que
é o ideal do Gaudiya Vaisnavismo. Na religião, amor reverencial é a
norma. A devoção na intimidade, Vraja bhakti, é a exceção. Dentro esse
tipo de amor, Deus se torna completamente subordinado ao Seu devoto.
Este amor é dado ao mundo em um momento de loucura espiritual de Deus
- quando Vrajendranandana Krsna enlouquece ao ver a extensão do amor
de Radha. Neste momento, o reino secreto de Vrndavana bhakti se torna
disponível para o mundo através de Sri Caitanya.
Ele é Vrajendranandana Krsna em desespero - desesperado para provar o
amor de Radha. Esta é a principal razão para a descida de Sri Caitanyadeva.
Sua distribuição de Vraja bhakti é o subproduto de Sua loucura espiritual.

FIM DO ARTIGO
30. OS PRESENTES DE SRI GURU

Fé no guru

"Os saranagatas sentirão que estão fazendo progresso diariamente. Se você


não se sente assim, você tem que fazer o que for preciso para concentrar
sua mente e dar seu coração ao canto da sua japa mala, mantra e kirtana.
Nama e mantra são os presentes reais de Sri Guru. Use-os com sabedoria;
eles são sua verdadeira riqueza."

A resposta para como um discípulo pode aprofundar o relacionamento com


o seu guru reside no desejo de fazer isso, e isso muitas vezes nasce de
circunstâncias aparentemente desconcertantes.
O mestre espiritual é a personificação das escrituras. Nós podemos
encontrar o guru e aquilo pelo qual ele vive no sastra. Quando Srila
Prabhupada deixou o mundo, eu (Srila Tripurari Maharaj) tive a sorte de
me associar com meu siksa guru, Pujyapada B. Sridhara Maharaja. Ele me
ajudou a entrar mais profundamente no espírito do sastra e isso, por sua
vez, me ajudou a entender melhor tudo o que Srila Prabhupada representa.
Sripad Bhakti Tirtha Swami, escreveu muitos livros, e esses livros são
todos tirados de uma fonte comum e trazidos à vida por sua realização.
Essa fonte comum é o sastra. Se deve aprender a trazer o sastra para a vida
como ele fez e, em seguida, viver com ele no reino além da mente e dos
sentidos. Estes dois, mente e sentidos, bem como intelecto, podem dizer
muito pouco sobre Sri Gurudeva. Para conhecê-lo, uma pessoa deve ir até
ele através do sastra. Ao fazer isso, é necessário usar a cabeça para
suavizar o coraçã e fazer isto com orientação, então a fé tenra (komala
sraddha) que se tem no presente se tornará forte. Se tornará sastriya
sraddha, fé bem embasada pelo sastra. Com esse tipo de fé, saberemos que
o mestre espiritual está sempre em nossa companhia.

Oferendas a Guru e Krishna na adoração

No Gaudiya Vaisnavismo existem dois sistemas de adoração – um


ascendente, e outro descendente. Ambos os sistemas são válidos, mas em
sua instituição, Srila Prabhupada introduziu o método ascendente para
enfatizar que uma pessoa deve se aproximar de Krsna através do guru. No
entanto, ele também disse aos seus discípulos que eles poderiam aprender
mais sobre procedimentos para arcana da Gaudiya Matha e da Radha-
Ramana Mandira em Vrndavana.

No método ascendente, se oferece primeiro os artigos ao guru primeiro


com a ideia de que o guru irá, então, oferecê-lo ao seu próprio guru e assim
até que o item seja oferecido a Krishna. Externamente o ritual parece
inconsistente com esta ideia, pois na oferenda do arati fisicamente o devoto
oferece os artigos para todos no altar. Portanto, no que diz respeito ao
ritual, é importante entender que o espírito com que o ritual é realizado é
mais importante que o formalidades externas.

Oferecer a comida também apresenta um pequeno dilema. Em seu


Harinama Cintamani, Bhaktivinoda Thakura descreve os detalhes de
oferecer comida para Krsna. Lá ele diz: "O mestre espiritual deve ser
adorado primeiro; só então alguém pode adorar o Senhor Krishna. Ao
mestre espiritual deve ser oferecida uma parafernália diferente, como um
bom lugar, sapatos, banho nos pés, roupas, etc.; então, com a permissão do
mestre espiritual, pode-se adorar as Deidades de Sri Sri Radha e Krsna. A
comida deve ser primeiro oferecida às Deidades e depois oferecida ao
mestre espiritual, então aos semideuses e outros Vaisnavas. Sem a sanção
do mestre espiritual o devoto não pode envolver-se na adoração de Radha-
Krishna. Antes de cantar o santo nome, o discípulo deve lembrar o mestre
espiritual e suas instruções.

A ideia é que não podemos oferecer a prasada do guru a Krsna, e nós não
podemos oferecer comida a Krsna sem primeiro adorar o guru. Então, ao
oferecer bhoga nós primeiramente adoramos ao guru, tomando sua
permissão para adorar a Krsna. Então nós adoramos Krsna e oferecemos
sua prasada ao guru. Se nós adoramos nesta consciência, os métodos
ascendente e descendentes de adoração são harmonizados.

Prescrições e iniciação no harinama

Os padrões de iniciação de Srila Prabhupada eram mais rigorosos do que


aqueles exigidos por seu mestre espiritual. Talvez isso seja porque o
chamado comportamento normal que Srila Prabhupada encontrou no
Ocidente foi muito mais permissivo do que o comportamento normal na
Índia. Srila Prabhupada confrontou a permissividade ocidental ao
estabelecer padrões muito rigorosos de iniciação, e aqueles que tomaram
iniciação dele foram obrigados a prometer aderir a esses padrões de vida.
No entanto, a verdade seja dita, muito poucos de seus cerca de 5.000
discípulos iniciados foram capazes de manter os votos que eles fizeram no
início. Portanto, pode ser hora de reconsiderar a ideia de exigir que as
pessoas tomem tais votos de iniciação tão estritos, sabendo que dificilmente
alguém poderá mantê-los. Especialmente considerando que até onde a
tradição Gaudiya Vaisnava se preocupa, sraddha (fé) é o único requisito
para iniciação.
A ideia por trás de sraddha como padrão para a iniciação é que uma vez
uma pessoa é iniciada em cantar harinama, ela será incentivada em direção
a prática espiritual, que, por sua vez, fará com que os maus hábitos
desapareceçam. De fato, sem cantar, é improvável que os maus hábitos de
alguém vão embora para sempre. O exemplo citado é Nityananda Prabhu
que deu harinama liberalmente para qualquer um que tivesse fé em Sri
Caitanya Mahaprabhu e Krishna. No Gaudiya Vaisnavismo, esta é a única
qualificação escritural para receber harinama. Explicando a conclusão do
Bhagavad-gita, Mahaprabhu instruiu Srila Rupa Goswami, ei ajna-bale
bhaktera 'sraddha' yadi haya sarva-karma tyaga kari 'se krsna bhajaya,
"Se um(a) devoto(a) tem fé neste caminho (em se tornar Meu devoto),
ele(a) adorará a Krsna e desistirá de todas as outras atividades." Desta
forma sraddha e saranagati são sinônimos. O Srimad-Bhagavatam declara:

tavat karmani kurvita na nirvidyeta yavata mat-katha-sravanadau va


sraddha yavan na jayate

"Desde que uma pessoa não seja saciada por atividade fruitiva e não tenha
despertado fé em ouvir e cantar sobre Mim, é preciso que ela aja de acordo
com os princípios regulativos das injunções védicas (varnasrama dharma).
"

Mahaprabhu também disse a Sri Rupa:

'sraddha'-sabde-visvasa kahe sudrdha niscaya krsne bhakti kaile sarva-


karma krta haya

"Sraddha é a confiança, fé firme que, por render serviço transcendental


amoroso a Krsna, uma pessoa automaticamente cumpre todos os deveres
subsidiários (varnasrama dharma)."

Através da associação de sadhus, acidentalmente ou por escolha, a fé é


adquirida. Uma vez que a fé é despertada em alguém, essa pessoa então
deliberadamente se associa com sadhus com a intenção de encontrar o seu
guru. Quando um guru é encontrado, uma pessoa se abriga e recebe a
bênção do guru para cantar Krishna nama. Isso em essência é harinama.

FIM DO ARTIGO
31. PELA FORÇA DO AFETO

Conforme se encontra no Padma Purana e também no Bhagavatam,


referindo-se a Svayam Bhagavan Nandanandana Krishna, Ele nunca deixa
Vrindavana, esta é a consideração mais profunda dos Gaudiyas Vaisnavas
conforme nossos Goswamis. Isso tem sido trazido por Sanatana Goswami e
seu Vaisnava Tosani Tika no Srimad Bhagavatam, e Jiva Goswami também
no Gopala Campu assim também como em outras literaturas dos
Goswamis.
Srila Bhaktisiddhanta Swami Maharaj Prabhupada também falou a respeito
disso apesar que de uma forma menos explícita, em seu comentário no 10º
canto do Bhagavatam. Ele diz em seu comentário SB 10.4.9 “A palavra
anuja significa 'a irmã jovem' e isso é significante. Quando Vishnu ou
Krsna nasceu de Devaki, ele pode ter simultaneamente nascido de Yasoda
também. De outra maneira como poderia a Yoga maya ter sido anuja ou
sua irmã mais nova?
Vasudeva Krishna apareceu em Mathura. Ele é uma expansão de 'svayam
bhagavan', que às vezes exibe quatro braços e às vezes dois. Quando seu
pai, Vasudeva, o trouxe para Vrindavana, ele se fundiu em svayam
bhagavan, Nanda Nandana Krishna. Mais tarde, ele tornou-se novamente
manifesto pelos passatempos de Mathura.
De acordo com a linguagem oculta do Srimad Bhagavatam, Yasoda deu à
luz a um filho e uma filha. O filho apareceu primeiro e todo o mundo ficou
muito feliz. Sendo assim depois sem ninguém saber a filha também nasceu,
Yoga maya, a qual tem o poder de iludir para promover a lila. Quando
Vasudeva trouxe Seu filho para Vrindavana ele o trocou por uma menina,
não vendo o filho em quem emergiu Vasudeva Krishna.
Além do raciocínio acima e interpretação das escrituras, a realidade é que
as relações são medidas na escala de afeto. A afeição de Yasoda por
Krishna é transcendentalmente maior que a de Devaki, e assim, pela força
da afeição, Krishna é Seu filho mais do que Ele é o filho de Devaki.
Embora, para tornar as coisas ainda mais confusas, de acordo com os
Puranas, Devaki é outro nome para Yasoda, como Vasudeva para Nanda.

Livre arbítrio e a vontade de Krishna

Nós temos responsabilidades por todas as nossas ações e as subsequentes


reações. Deus não tem a culpa disso. Krsna menciona isso no Gita:
“Deus não cria nem os meios de ação (a ignorância da falsa autoridade)
nem as ações das pessoas, nem Ele causa o resultado. Isso é feito pela
natureza material (quando os seres se identificam com isso através do
desejo) BG 5:14”
'A Divindade totalmente auto satisfeita não aceita (responsabilidade por) os
atos bons ou maus de ninguém. Os seres são iludidos porque seu
conhecimento é coberto pela ignorância.' BG 5:15

Central para este conceito de nãoenvolvimento de Deus é o princípio do


livre-arbítrio inerente à alma finita, como é o princípio do karma sem
começo. Deus não cria a agência para ação. É a própria natureza da alma
individual na ignorância que surge da implicação kármica sem começo, que
é o agente da ação. Deus envolve o mundo dos seres que estão dispostos a
tal ação através da influência do desejo que surge da ignorância sem
começo, mas ele mesmo não cria essa agência.

Em razão de Deus ser auto satisfeito, Ele não direciona às entidades vivas
para satisfazer Seus desejos egoístas. Ele as dirige de acordo com as ações
anteriores dos seres vivos. Ele faz isso através do poder de Sua energia
ilusória (maya). Ao fazê-lo, ele não adquire pecado ou virtude, como os
seres vivos.
O mal do mundo é resultado do karma anadi (sem princípio). Ao mesmo
tempo, tudo está acontecendo pela graça de Deus (Sua sanção), que é
diferente de Sua própria lei do karma, o princípio da justiça. Se Ele não
fizesse isso, Ele seria culpado pelo caos. E porque Ele faz isso, há lugar
para a misericórdia, o que envolve ocasionalmente anular a justiça.
Se, devido à frustração resultante do prarabdha karma, uma pessoa matar
outra pessoa, este ato de matar não é o seu prarabdha karma. É uma ação
que trará o fruto do karma no futuro.
Quando nós experimentamos o sofrimento de uma criança sendo morta na
escola, este sofrimento e a morte da criança é nosso e seu prarabdha karma
respectivamente, entretanto, não está correto pensar que o assassino está
meramente agindo de acordo com seu prarabdha karma e portanto
ninguém é culpado. O assassino é responsável pela sua ação e ele irá obter
o resultado na forma do futuro karma. Isso é chamado agamini karma
phala, o resultado das ações praticadas na vida presente que no futuro irão
se frutificar.

FIM DO ARTIGO
32. CONTRADIÇÕES: REAIS OU APARENTES

"Encontrar a mais elevada harmonia é a beleza do Vaisnavismo".

Às vezes encontramos o que parecem ser contradições entre as vidas e os


escritos de um acharya e outro. Isso pode ser confuso para o neófito. Um
olhar mais acurado, no entanto, revela que essas contradições são apenas
aparentes contradições. Elas existem apenas dentro dos limites de nossas
mentes finitas. Aquele que permanece firme na fé divina irá receber às
contradições aparentes quando elas surgirem, vendo-as como
oportunidades para progredir na direção do infinito.

As contradições aparentes são resolvidas com uma das duas maneiras


baseadas na natureza da contradição. Um tipo de aparente contradição é
eventualmente entendido como uma diferença baseada na rasa, que quando
ela é apropriadamente entendida serve para encantar ainda mais o sadhaka
ao espaço da variedade, que faz do Vaisnavismo a doce vida que este é.
Um exemplo disso é o desacordo que existe eternamente entre vatsalya e
madhurya rasas. Simplificando, Yashodamayi quer muito que seu filho
Krishna tenha uma boa noite de sono, enquanto as gopis lideradas por Sri
Radha querem que Ele deixe a casa e dance com elas na noite de
Vrndavana.

Diferenças, no entanto, existem não apenas entre diferentes rasas, mas


também dentro da mesma rasa. Há gopis de esquerda e gopis de direita. As
gopis lideradas por Chandravali sempre tomam o lado de Krishna,
enquanto aquelas que estão no grupo de Radha sempre levam o lado Dela
ao extremo. Alguns dizem que o Yamuna é o lugar mais elevado de
adoração, enquanto nosso grupo liderado por Sri Rupa dá maior ênfase ao
Radha-kunda.

Certa vez, quando Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura estava


liderando a circumbalação da maior área de Vrindavana (braja mandala
parikrama), um de seus discípulos apontou que o Diwan de Bharatpura
tinha um grande respeito por Srimati Radharani. Naquela época, Diwan
estava circumbalando Radha-kunda, prostrando-se, levantando-se e
colocando os pés no ponto em que as pontas dos dedos tinham alcançado
enquanto se prostrava. Então ele se prostrava novamente e dessa forma
circumbalava todo o Radha-kunda. No entanto, Bhaktisiddhanta Saraswati
respondeu ao seu discípulo: "Seu ângulo de visão é diferente do nosso. Eles
reconhecem e reverenciam Krishna, e como Radharani é a favorita de
Krishna, eles também têm algum respeito com o Radha-kunda. Mas nossa
visão é exatamente o oposto. Nossa preocupação é com Radharani. E só
porque Ela quer Krishna nós temos uma ligação com Ele".

Nós aspiramos pelo serviço de Srimati Radharani e Seu kunda. Outros


podem enfatizar o Yamuna ou a importância de Krishna, como as
seguidoras de Chandravali gopi. Quem está certo? O Radha-kunda pode ser
o local mais sagrado onde os passatempos mais íntimos de Sri Sri Radha-
Krishna são encenados, mas a realidade é, em última instância, um
sentimento. Podemos dar conhecimento a alguém e eles concordam que
estamos certos, mas eles continuarão a agir de outra forma, porque a
sinceridade é, em última análise, um sentimento – o que sabemos é uma
coisa, o que sentimos muitas vezes é outra. No absoluto, isso é
absolutamente verdade. Portanto, mesmo que Radha-kunda seja a morada
mais alta do amor, alguns sentem o contrário, e não estão totalmente
errados nisso. As diferenças devem estar lá. Encontrar a harmonia superior
é a beleza do Vaisnavismo. Chandravali é, depois de tudo, uma expansão
de Radharani.

Um segundo tipo de aparente contradição surge no campo da pregação,


onde a classe intermediária de devotos está ativa. Madhyama significa meio
termo. Madhyama-adhikari Vaisnavas estão no meio da controvérsia. Suas
vidas são caracterizadas pela discriminação. Eles estão cercados de
contradições – a pregação e o siddhanta nem sempre são os mesmos. Os
missionários servidores são movidos de dentro para responder às diversas
circunstâncias com que são confrontados. Eles podem dizer coisas
diferentes em épocas diferentes para despertar a fé divina nos corações das
almas caídas. Assim, a pregação e o siddhanta aparentemente nem sempre
estão em sintonia. Porque o siddhanta, em certo sentido, é despertar fé. Às
vezes os missionários podem dizer qualquer coisa que sejam movidos a
dizer de sua sabedoria infinita para despertar essa fé. "Por bem ou por mal,
venda o livro" (do inglês 'by hook or by crook, sell the book').

A verdade mais elevada é dar consciência de Krishna. No campo da


aprendizagem, em um tempo, uma instrução pode ser dada; numa fase
posterior, podemos dizer o contrário. No entanto, seguir as duas instruções
no momento em que foram dadas é seguir a mesma verdade. Podemos nos
unir à missão formal do nosso guru com a força do chamado da flauta de
Krishna, sarva-dharman parityajya mam ekam saranam vraja. "Entregue
tudo e venha para mim." Mais tarde, como no caso de Srila Prabhupada,
que deixou a Gaudiya Math, podemos, no espírito do chamado da flauta de
Krishna, ter que deixar a missão formal, se a ausência de nosso guru se
tornar desprovida de seu espírito. Aquele que não consegue resolver esse
tipo de aparente contradição está sofrendo de anarthas (considerações
materiais).

Quando aparentes contradições não são resolvidas pelo devoto em avanço,


elas dão origem à contradições reais. As contradições reais desviam-se das
conclusões devocionais puras. Essas contradições reais são baseadas em
anarthas e devem ser transcendidas. Eles são mais tipicamente encontrados
no kanishtha-adhikari. Eles também podem ser encontrados no madhyama-
adhikhari, mas apenas na medida em que a mentalidade kanishtha-adhikari
perdura em sua consciência ou em seu desenvolvimento. Embora os
diferentes tipos de Vaisnavas, kanishtha, madhyama e uttama (neófito,
intermediário e superlativo) tenham sido descritos nas escrituras, há
considerável sobreposição entre eles.

Assim como entre o dia e a noite há o sandhyam, o amanhecer, meio-dia e


anoitecer, da mesma forma as divisões de Vaishavas não são pretas e
brancas. Temos que olhar para a tonalidade cinza em tudo. Na informática,
existem 256 tons de cinza entre preto e branco. Rasam-anandam é o
branco mais puro, e o desejo material é o negro mais escuro. Nas transições
do escuro-preto da vida material para o branco puro de nossa mais elevada
perspectiva espiritual, há talvez tons de cinza pelos quais devemos passar,
resolvendo aparentes contradições ao longo do caminho.

O que segue é um exemplo de uma aparente contradição nos escritos de


nossos acharyas. Resolver isso é um valioso exercício de nossa consciência
de Krishna. Na tradução de Srila Prabhupada do Bhagavad-gita (Bhagavad-
gita como é), ele traduz o seguinte verso assim:

aparyaptam tad asmakambalam bhisma bhiraksitamparyaptam tv idam


etesambalam bhimabhiraksitam

"Nossa força é imensurável e estamos perfeitamente protegidos pelo avô


Bhishma, enquanto a força dos Pandavas, cuidadosamente protegidos por
Bhima, é limitada." (Bg. 1.10)

O mesmo verso, no entanto, é traduzido de maneira bastante diferente por


Srila Sridhara Maharaja em seu Bhagavad-gita (Tesouro Escondido do
Doce Absoluto). Aqui encontramos o versículo como se segue:

"Nosso exército, liderado por Bhishma, é inadequado, enquanto o exército


dos Pandavas, protegido por Bhima, é competente."

Qual tradução está correta? Os dois poderiam estar corretos?


Antes de chegarmos à conclusão errada, devemos considerar os seguintes
pontos. Srila Prabhupada dedicou o seu Bhagavad-gita a Baladeva
Vidyabhushana, o grande Gaudiya acharya que deu ao mundo o 'Govinda
bhashya'. Este comentário sobre o Vedanta-sutra é um tesouro muito
precioso do siddhanta da Gaudiya. Dizem que Baladeva esteve presente na
lila de Sri Caitanya em um nascimento anterior como Gopinatha Acarya.
Apesar de ser um grande devoto, Gopinatha foi incapaz de converter seu
irmão-de-lei, Sarvabhauma Bhattacharya, à concepção de bhaktivedanta
(acintya-bhedabheda tattva) de Sri Caitanya. Mais tarde, no entanto, como
resultado de ficar por perto e ouvir o discurso de Sri Caitanya sobre o
vedanta falado a Sarvabhauma, ele se tornou um erudito. A explicação de
Sri Caitanya para Sarvabhauma foi mais tarde distribuída pelo devotado e
reconhecido Baladeva Vidyabhushana como Sri Bhashya.

Por que Srila Prabhupada dedicou seu comentário do Gita a Baladeva?


Porque a preocupação de Srila Prabhupada era dar ao mundo o siddhanta
de nossa sampradaya, em vez de nos concentrarmos em algumas das
preciosas jóias de nossas conclusões devocionais no seu comentário.
Depois que muitas traduções do Gita foram divulgadas no Ocidente,
nenhum devoto de Krishna surgiu. No entanto, o Gita de Srila Prabhupada
produziu e continua produzindo milhares de devotos de Krishna. Sem
dúvida, ele tinha algo específico em mente quando começou a traduzir e
comentar sobre o Gita.

O Gita é um livro profundo, do qual até mesmo a mais alta verdade de


parakiya-bhava pode ser tirada diretamente do texto por aqueles que são
mergulhados profundamente nas doçuras da devoção pura. Srila
Prabhupada saboreou esses pontos mais sutis do siddhanta com Srila
Sridhara Maharaja quando eles viveram juntos em Sita Kanta Bannerjee
Lane em Calcutá. Naquela época, Srila Prabhupada estava trabalhando em
sua tradução do Gita. Srila Prabhupada apreciou a percepção de parakiya-
bhava de Srila Sridhara Maharaja em sua interpretação do catur-shloki do
Gita. Quando foi trazida para Srila Prabhupada o pedido de sua opinião,
assim se referiu a Srila Sridhara Maharaja: "Sim, assim deve ser". No
entanto, em seu próprio artigo, Srila Prabhupada tinha algo diferente em
mente. Diferente, no sentido que ele queria ser um instrumento na ampla
distribuição da consciência de Krishna, tornando-a tão acessível quanto
possível para todos, sem diluir seu ensinamento.

Sridhara Maharaja era claramente de uma mentalidade diferente. Ele


preferia manter uma companhia próxima com menos devotos e examinar e
apreciar os pontos mais finos do siddhanta da Gaudiya. Uma vez ele disse
que "Swami Maharaja (Srila Prabhupada) e eu não somos um!". Isto foi em
resposta à tendência de pensar que, para ele ser consciente de Krishna, ele
teria que pensar em tudo exatamente como Srila Prabhupada fez. Fomos
tolos ao enfatizar tanto o ponto de nossa individualidade eterna. Mais tarde,
Srila Sridhara Maharaja disse sobre sua diferença de Srila Prabhupada,
"Swami Maharaja era um grande homem. Ele distribuía néctar como se
fosse água. E eu sou um homem pequeno". No entanto, ele era pequeno
apenas em sua própria opinião, um testemunho de sua grandeza. A tradução
do Gita feita por Srila Sridhara Maharaja era como muitas coisas que ele
escreveu ou falou. Ele tendia a discutir o estado de espírito da circunstância
em vez de relacionar a circunstância em si, muito parecido com
Vishvanatha Chakravarti Thakura, o contemporâneo de Baladeva
Vidyabhushana. Assim, sua decisão sobre o texto em discussão é uma e
diferente a de Srila Prabhupada. Suas diferenças são apenas aparentes, e
são análogas às diferenças de ênfase e estilo de Baladeva Vidyabhushana,
que deu o siddhanta como ele é, e Vishvanatha Chakravarti, que
consistentemente representava o tesouro oculto em seus comentários. Neste
particular contexto, Baladeva Vidyabhushana traduz o aparyaptam como
imensurável, dando a vantagem a Bhishma e paryaptam como limitado,
enquanto que Vishvanatha Chakravarti dá a vantagem a Bhima. O
dicionário sânscrito nos diz que ambas as palavras, aparyaptam e
paryaptam, podem ter significados opostos, e podem, portanto, ser usadas
para sustentar a tradução.

Bhishma era o maior dos kshatriyas; assim, ele certamente fortaleceu o


exército de Duryodhana, de acordo com a tradução de Srila Prabhupada.
No entanto, Bhishma também era um elemento fraco no arranjo militar de
Duryodhana, pois, embora fosse o mais forte para se opor aos Pandavas, ele
era o mais fraco em relação ao exterior. Bhishma estava formalmente do
lado de Duryodhana, enquanto no coração e em espírito ele era um membro
do exército do Pandava. Bhishma amava os irmãos Pandava e Sri Krishna
com todo o seu coração. Como poderia tal pessoa, por mais forte que fosse
militarmente, ser alguém com quem Duryodhan pudesse contar?

A verdade direta como é, é que Bhishma era um lutador formidável e um


recurso para Duryodhana. O tesouro escondido é que ele estava
enfraquecido no apoio de Duryodhana por causa de seu profundo amor
pelos Pandavas. Esta doce verdade também é mencionada no comentário de
Srila Prabhupada sobre o texto do primeiro capítulo do Gita. Lá Srila
Prabhupada diz: "Embora ele [Duryodhana] soubesse que os dois generais
[Bhishma e Dronacharya] tinham algum tipo de afeição pelos Pandavas, ele
esperava que todo esse afeto agora fosse completamente abandonado por
eles, como tinha acontecido durante as performances do jogo”.
"Ao discutir as vidas e escritos dos acharyas, devemos entrar em tal
discussão com uma ideia do que é o Vaisnavismo, caso contrário podemos
nos tornar vítimas de ofensas aos Vaisnavas (aparadha). Suas vidas são
todas sobre o amor, que resolve todas as contradições. O amor harmoniza
todas as coisas como nada mais pode. A vida de Srila Prabhupada e Srila
Sridhara Maharaja e seu relacionamento um com o outro são algo a partir
do qual podemos aprender sobre o espírito do amor.

Até o momento, houve consideráveis debates sobre a natureza de sua


relação. Devemos ter certeza de que é um amor absoluto, o que, assim
como o Ujjvala-nilamani nos diz, “Ele se move em zigue zague.” Assim,
não é compreendido por todo mundo e, certamente, não sem olhar por
baixo da superfície. Se a amada estiver discutindo com seu amante,
estaríamos errados ao concluir que os dois não estão apaixonados. Sri
Radha fala mal de Govindadeva, mas os verdadeiros devotos dos dois
conhecem a verdade e a profundidade de Seu amor um pelo outro. Aher iva
gatih premnah svabhava-kutila bhavet: "O amor, como uma cobra, move-
se em zigue zague". (Ujjvala-nilamani)

No amor deve haver diferenças, diferenças aparentes. A maior harmonia é


o que buscamos, além das concepções de amigos e inimigos.

FIM DO ARTIGO
33. GOVARDHAN LILA : “ASPIRAÇÕES CATIVANTES”

Krishna está chamando a atenção, não apenas dos habitantes de Vrindavan,


mas de todos nós, para aquilo que é essencial, o que é central para nosso
bem-estar e nosso alimento. Depois de descobrir de Nanda Maharaja
através de várias perguntas sobre o tipo do sacrifício que eles estavam
preparando, o Indra yajña, Ele descartou tudo aquilo e dirigiu o entusiasmo
de todos, e toda a parafernália que havia sido reunida, para a adoração de
Govardhan. Por quê? "Nosso meio de vida é derivado das vacas", disse
Krishna, "e aquilo que incrementa o sustento das vacas, as alimenta, faz
florescer, é o que é essencial para nós". Isso é Govardhan Puja.

De certo modo, Krishna está nos dizendo que devemos focar nossa energia
onde ela fará o melhor bem. Não na periferia, mas no centro. A vida é
curta, o tempo é limitado, devemos aprender a fazer mais pelo nosso
interesse no menor tempo possível. Devemos resolver e verificar o que é
essencial. Esta é a própria idéia de bhakti, consciência de Krishna: dirigir
nossa natureza e tendência inata servindo naquele lugar onde nós
obteremos o maior benefício. Há um ponto no cérebro que quando
pressionado todo o corpo fica paralisado. Então é assim: Pressionando este
ponto, a consciência de Krishna, vamos paralisar, suspender nossa vida
material e obter acesso à vida real, vida espiritual.

A vida espiritual é nosso interesse próprio e nosso interesse próprio está no


sacrifício. Então, em vez de adorar Indra ou qualquer outra pessoa, Krishna
ensinou os habitantes de Vrindavan, nesta ocasião, (Govardhan lila) a
adorar as vacas e aquilo que dá vida às vacas, que dá vida ao povo
vaqueiro. Go significa vaca, vardhana significa nutrir. Go também
significa Veda. Portanto, esta mesma ideia - Ele nos ensinou a nos
concentrar de tal forma que o verdadeiro coração (dos Vedas) será nutrido
e revelado.

Krishna está dizendo: “Vamos adorar o que os Vedas são realmente.


Vamos fazer o que vai trazer, produzir e expandir o que os Vedas
realmente são. Esta é a própria ideia de bhakti, Gaudiya Vaisnavismo.
Sendo assim, no Govardhan lila, Krishna surge para todos os habitantes de
Vrindavan e para todos nós como o supremo Deus dos deuses, como o
Indra de Indra.

A natureza de Krishna lila é tal que Seus devotos e Ele mesmo estão
envolvidos em um relacionamento íntimo que, pela necessidade de
intimidade, faz com que o Absoluto pareça finito. Para que o finito se
aproxime do infinito, o infinito assume uma aparência finita. Mas o fato é
que Ele é infinito e supremo ao extremo. Assim, Krishna diz: "Deixe de
lado todo esse arranjo para adorar a Indra, vamos adorar Govardhan, a
colina que sustenta nossas vacas e, portanto, nós". Este é o significado do
Govardhan puja.

Krishna diz no Bhagavad-gita, 'vedais ca sarvair aham eva vedyo vedanta


vit veda krt eva caham,” "por todos os Vedas que Eu devo ser conhecido, o
Vedanta é compilado por Mim." Se você realmente quer adorar os Vedas,
saiba que eles estão procurando por Mim, me encontrando. Isso nos
alimentará. Como o eu, a alma, é mais querido para nós do que o corpo,
Krishna, Govinda, é mais querido do que nossa própria alma sendo a fonte
de seu sustento. Então Krishna diz: "Deixa de lado o Indra yajña e adore
Govardhan". E Ele diz como realizar o puja de Govardhan oferecendo
pilhas e pilhas de comida. A divindade de Govardhan fez sua aparição e
exigiu a comida.

O que os semideuses estão fazendo?

Os deuses estão proclamando nesta lila que Krishna é a Suprema


Personalidade de Deus, que adorá-Lo é o real interesse de todos. A melhor
maneira de servir nosso interesse pessoal é adorando Krishna, Govinda.
Nós temos que dar de nós mesmos, essa é a nossa própria natureza. Somos
uma unidade com a tendência a se doar. Nós nos entregamos à mente, nos
entregamos ao chamado dos sentidos, ao mundo. Nós temos que encontrar
aquele lugar onde dar o nosso ego, nosso interesse próprio será levado ao
extremo. E na vida humana temos a chance de fazê-lo, mas o tempo é
curto. Então todos os deuses neste lila nos proclamaram que isto é o que
deveria ser feito. Eles estão todos adorando Krishna. Mas como adorá-Lo?
Como os semideuses fazem isso é uma maneira. Mas como os amigos de
Krishna e os outros habitantes de Vrindavan o adoraram – isso era muito,
muito melhor e muito extraordinário!

Como os semideuses adoram Krishna

Eles estão todos apenas se divertindo e brincando. Quando os semideuses


voaram para o céu, os amigos de Krishna se agruparam novamente em
volta dele e começaram a pegar a parafernália e dar tapas nas costas Dele,
rindo: "Por que você está usando essa coroa?" "Quem era aquele sujeito
com as quatro cabeças oferecendo orações e dandavats?", "E o que era
aquele elefante engraçado e aquele cara com olhos por todo o corpo?", E
assim por diante, zombando e Krishna rindo com eles, compartilhando os
presentes dos deuses, decorando-os e assim por diante. E como os deuses
estão voando, vendo isso, eles pensam como esses ornamentos que eles
deram a Krishna e que Ele agora está compartilhando com Seus amigos,
eles pensam que único valor deles é que eles servem para lançar luz sobre a
natureza daquele amor tão especial que esses amigos têm por Krishna. Esse
tipo de adoração.

Como as gopis adoram a Krishna

Em tudo isso, é claro, as gopis não são deixadas de fora. No Govardhan lila
elas tiveram a chance de ver Krishna em campo aberto. Elas tiveram a
chance de tocar Krishna quando elas estavam circumambulando a colina e
às vacas. E quando Krishna queria se aproximar de uma gopi, ela torcia o
rabo de um bezerro e empurrava o bezerro na direção daquela gopi e então
ele teria que ir buscar o bezerro e, nesse esforço, Krishna os puxava contra
Ele e elas conseguiam tocá-Lo e suas vidas se tornavam um sucesso.

Normalmente, que as gopis olhem a Krishna seria suspeito, não seria


apropriado. Mas quando Ele estava levantando a colina, todos tiveram a
chance de olhar. Não havia mal algum em olhá-Lo diretamente e Ele olhou
indiretamente para elas. Dizem que Ele segurou Sua mão com o pequeno
dedo para cima. Ele segurou a colina em um dedo para que os outros
pudessem se inclinar e dessa forma Ele podia ver e dar uma olhada nas
gopis e Sri Radhika. Sendo assim, nossos Gaudiya acaryas disseram que
Ele conseguiu a energia para levantar a colina de Govardhan através de
Radhika, Sua shakti primária, olhando para Ela, pensando Nela.

Dessa forma, as gopis tiveram a oportunidade de se aproximar de Krishna


como nunca antes, o que foi sua grande alegria. E quando Krishna se
retirou para seus aposentos, o que Ele fez? Ele tocou na flauta de bambu
dada a Ele pelo Senhor Siva. Jiva Goswami disse que Ele tocava "too, too,
too, too”."Too” é um termo de familiaridade que significa "você, você,
você." E toda gopi ouvia: "Estou chamando... Você, você, você”, e seus
corações saltaram em pensar que Krishna estava realmente reconhecendo
seus sentimentos mais profundos por Ele.

Esse é o tipo de devoção, de adoração que Caitanya Mahaprabhu nos


ensinou. Estar envolvidos e aspirar. Mesmo que seja simplesmente aspirar
por isso, Bhaktivinoda Thakura disse no Caitanya-siksamrita, já é uma
forma muito poderosa de adoração. Podemos não ser qualificados, mas ter
isso como nossa aspiração é muito poderoso e muito querido para Krishna.
"Assim como meus amigos e familiares me adoram, se você tem algum
apreço por isso, então aspire por isso." Isso chama a atenção de Krishna
para nós.

Os deuses proclamaram isso e logo Krishna com Seus amigos dançaram na


floresta enquanto estavam pastoreando as vacas todo o caminho de volta a
casa, vestidos e decorados como os deuses do céu. Então, devemos ter este
tipo de aspiração para Vraja bhakti e entender Govardhan Puja desta
maneira.

FIM DO ARTIGO
34. SAKTYAVESA E NITYA-SIDDHA

"Esta é a realidade subjetiva que supera a realidade objetiva. Quando


podemos ter a visão objetiva e discutí-la sem perder a fé, nossa
fé está firme e bem fundamentada. Isso é possível para um devoto
avançado.
Ele pode ter uma posição objetiva em prol da discussão sem o
risco de cair de sua realidade subjetiva ".

Significado de Saktyavesa

De acordo com as escrituras, o termo saktyavesa-avatara geralmente se


refere a quem é empoderado por um aspecto particular de Deus para um
propósito particular. Este termo pode se referir a uma jiva (alma individual)
ou ao próprio Deus.

No entanto, Sri Caitanya Mahaprabhu também diz a Sanatana Goswami


que são ilimitados os saktyavesa avataras de Krsna, saktyavesavatara
krsnera asankhya ganana. Ele instrui a Sri Sanatana mais profundamente,
distinguindo duas divisões de saktyavesa: Direto (mukhya) e indireto
(gauna), saktyavesa dui-rupa- 'mukhya' 'gauna' dekhi. Ele descreve essas
duas divisões como "avataras" que são diretamente capacitados e outros
que representam Deus indiretamente por possuir um vibhuti, Seu poder, ou
sua especial bênção, saksat-saktye 'avatara,' abhase 'vibhuti' likhi.

Os exemplos dados por Mahaprabhu do primeiro tipo referem-se ao próprio


Deus.

Seus exemplos do segundo tipo envolvem almas jiva (individuais) que são
empoderados por Deus para um propósito particular.
Os principais poderes são sete:
(1) Empoderamento para o serviço pessoal de Deus (sva-sevana-sakti);
(2) Empoderamento para suportar o mundo (bhu-dharana-sakti);
(3) Empoderamento para criar (srsti-sakti);
(4) Catuhsana, ou os Kumaras, especificamente empoderadados para
distribuir conhecimento transcendental (jñana-sakti);
(5) Empoderamento para distribuir (bhakti-sakti);
(6) Empoderamento para governar e manter (palan-sakti);
(7) Empoderamento para lidar com o demoníaco (dusta-damana-sakti).

A absorção divina (bhagavad-avesa) também é às vezes classificada como


saktyavesa. E como Mahaprabhu instrui Sanatana Goswami, o divino
empoderamento é ilimitado em sua variedade. Em apoio a isso ele se refere
ao Bhagavad-gita, onde muitos aspectos proeminentes da natureza são
referidos como representações autorizadas de Deus.

Srila Rupa Goswami explicou em Laghu-bhagavatamrta:

jnana-sakty-adi-kala ya yatravisto janardanah ta avesa nigadyante jiva


eva mahattamah

"Sempre que o Senhor está presente em alguém através de Suas várias


potências (as sete mencionadas acima), essa entidade viva é investida com
poder especial e é uma grande alma".
Então, o termo pode ser usado livremente ou pode ser mais específico com
referência aos sete principais tipos de empoderamento.

Não tenho conhecimento de nenhuma explicação específica ou discussão


sobre a natureza do empoderamento (avesa) de Srila Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura.
No entanto, poderíamos considerá-lo com poderes para distribuir bhakti
(bhakti-sakti). Foi a opinião de Pujyapada Sridhara Maharaja que Srila A.
C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, foi especificamente empoderado –
por um aspecto do poder de Nityananda Prabhu – a distribuir bhakti quando
ele estava atravessando o oceano para vir ao Ocidente pela primeira vez.
Ele conheceu Prabhupada antes que ele fosse, e ele se encontrou com ele
depois e notou a diferença. Depois de analisar a contribuição de
Prabhupada e natureza de sua campanha, Sridhara Maharaja chegou a essa
conclusão. Alguns outros fora da sampradaya Gaudiya Saraswata também
chegaram a esta conclusão.

Adoração ao guru na frente da deidade

Geralmente não é apropriado adorar alguém em frente do altar da


Divindade. De acordo com Srila Prabhupada, isso inclui a adoração ao
guru. Ele escreve em seu comentário do Caitanya-caritamrita: "De acordo
com às regras e regulamentos, ninguém deveria aceitar reverências no
templo do Senhor antes da Deidade. Nem é apropriado para um devoto
oferecer reverências e tocar os pés do mestre espiritual diante da Deidade.
Isso é considerado uma ofensa ".

Enquanto Srila Prabhupada escrevia isso, ao mesmo tempo ele aceitou


honra em frente da Divindade. Uma vez eu perguntei a ele sobre isso e ele
respondeu com um risada: "Dilema". Ele não deu
mais explicações. Minha explicação não vai muito além disso. O padrão
que Srila Prabhupada estabeleceu em relação aos seus discípulos honrando-
o na frente da Deidade era de alguma forma apropriado para ele, mas é
melhor que outros adotem um padrão que esteja mais de acordo com as
palavras escritas de Srila Prabhupada sobre este assunto.

Sannyasi e Babaji

O sannyasi mantra e o babaji mantra são iguais. Enquanto existe


obviamente alguma sobreposição, a vida de sannyasi é primariamente para
a prédica, a união com a proposta de lidar com o público. E a vida de
babaji é primariamente para um solitário bhajan (uma cultura interna). Na
nossa linha, nós damos ambos, iniciação em sannyasa ou babaji relativo à
elegibilidade do candidato.

Prabhupada, Nitya-siddha

O termo saktavesa avatara nem sempre indica um nitya-siddha. Os dois


termos não são sinônimos. A avesa (empoderamento) pode descer e
também pode ser retirada, como no caso de Parasurama.

Seja um sadhana siddha, kripa sidha ou nitya siddha, a palavra importante


é siddha. Esta foi a opinião de Srila Prabhupada. Quando ele mesmo foi
questionado sobre seu próprio status como siddha por Tamal Krsna
Goswami, Prabhupada escreveu: "Um mestre espiritual é sempre liberado.
Em qualquer condição de sua vida, ele não deve ser confundido como ser
humano comum. Esta posição de um Mestre Espiritual é alcançada por três.
Um é chamado sadhana siddha. Isso significa aquele que é libertado pela
execução do princípio regulador do serviço devocional. Outro é kripa
siddha, aquele que é liberado pela misericórdia de Krsna ou Seu devoto. E
outro é nitya siddha, aquele que nunca se esquece de Krsna durante sua
vida inteira. Estas são as três características da perfeição da vida.

Por exemplo Narada Muni, em sua vida anterior, ele era filho de uma
servente (empregada), mas pela misericórdia dos devotos, mais tarde, ele se
tornou um siddha e na sua vida seguinte ele apareceu como Narada com
completa liberdade para mover-se em qualquer lugar pela graça do Senhor.
Então, embora ele fosse o filho de uma empregada em sua vida anterior, ele
não teve um impedimento na realização de sua vida espiritual perfeita. Da
mesma forma, qualquer entidade viva condicionada pode alcançar o estágio
ideal da vida pelos processos mencionados acima e o exemplo vívido é
Narada Muni.
Srila Prabhupada Siddha deha

Numa carta de Srila Prabhupada, ele dizia: "As orações oferecidas por
Visvanatha Chakravarti a seu mestre espiritual têm um significado especial.
Seu mestre espiritual foi uma das gopis assistentes, então a oração foi
oferecida assim “nikunjayuno rati keli siddhai”. No geral, o mestre
espiritual, é um agente de Krishna. Ele é assistente das gopis ou assistente
dos vaqueirinhos.

Visão subjetiva ou objetiva realidade

Em geral, a realidade subjetiva da experiência do devoto se sobrepõe a


qualquer que seja a realidade objetiva. No entanto, quando podemos ter a
visão objetiva e discuti-la sem perder a fé, nossa fé é firme e bem
fundamentada. Isto é possível para um devoto avançado. Ele pode assumir
uma posição objetiva em prol da discussão sem o risco de cair de sua
realidade subjetiva. Ele pode admitir a realidade objetiva da posição
suprema do sringara rasa, assim como Anupama na discussão com Sri
Rupa e Sanatana, mas nunca perder de vista sua própria realidade subjetiva
na terra da fé. Nós vimos esse exemplo quando Anupama manteve sua
própria devoção amorosa por Sri Ramachandra.

FIM DO ARTIGO
35. TOMANDO REFÚGIO EM UM MESTRE ESPIRITUAL FIDEDIGNO

Srila Rupa Goswami explica que sadhana-bhakti começa com a proteção


de um guru (gurupadasraya). Sob esse abrigo de um guru, uma pessoa
recebe siksa e, finalmente, diksa, que é seguido por siksa adicional
(krsnadiksadi-siksanam). Ele também menciona que se deve prestar um
serviço afetuoso e fiel ao guru (visrambhena guroh seva) e seguir o
caminho dos sadhus (sadhuvartamanuvarttanam). Todas essas coisas estão
contidas dentro do que Rupa Goswami Prabhupada descreve como
anukulyena krsnanusilanam bhaktir uttamam, "Uttama bhakti, constituído
da cultura contínua de serviço a Krsna prestado com uma atitude
favorável".

Assim, a iniciação é integral à cultura de suddha bhakti, mas quando


Prabhupada afirma que para as atividades de uma pessoa terem "relação
com Krishna" é necessário que a pessoa em questão seja iniciada. Isto
significa participar da progressão acima descrita por Rupa Goswami. As
atividades de uma pessoa antes do início são benéficas se ajudarem-na a
preparar-se para à iniciação. Eles são inúteis apenas se não conduzirem à
iniciação.

Iniciação significa nossa aceitação na linhagem espiritual. Qualquer alma


sincera interessada no Gaudiya Vaisnavismo deve aspirar a receber este
sinal externo de aceitação de um membro espiritualmente avançado da
linhagem. Essa aceitação envolve transmitir conhecimento divino através
do mantra. No momento de transmitir o mantra, o guru instrui o discípulo
sobre o significado do mantra e como recitá-lo adequadamente. Depois de
transmitir o mantra, o guru rega a semente da iniciação com instruções
adicionais que ajudarão a orientar conceitualmente o discípulo de tal forma
que ele possa aproveitar melhor do mantra e chegar à plataforma de cantá-
lo perfeitamente.

Cantar o mantra com perfeição resulta em auto-realização (svarupa siddhi).


Mesmo que a realização do guru que dá o mantra não seja perfeita, se o
discípulo receber instruções espiritualmente capacitadas de um siksa-guru,
ele pode alcançar a perfeição contida no mantra.

Deve-se encontrar um siksa-guru competente para ser uma guia. Com o


tempo, o devoto também pode querer ouvir o mantra dele novamente, e se
ele achar que isso o ajudará, ele o recitará novamente. Não será suficiente
ler unicamente os livros de Prabhupada, isso já deve ser aparente. É
necessária uma orientação para trazer os livros dele à vida prática, no
tempo e nas circunstâncias atuais em que o devoto se encontra. De fato, é
isso que os próprios livros de Prabhupada aconselham.

O entusiasmo é de boa qualidade quando uma pessoa pode focalizá-lo em


um siddhanta apropriado de um Gaudiya Vaisnava sob uma boa orientação.
Assim, se será perdido o interesse pela vida material e se sentirá avançando
espiritualmente dia após dia. Este é o nosso único interesse: Fazer
progresso espiritual. É preciso saber quais são os sintomas do avanço
espiritual e procurá-los dentro de si. Humildade é um bom ponto de partida.

É preciso tentar focar a atenção em cantar puramente renunciando


desnecessariamente dos sentidos materiais. Todas as coisas auspiciosas
seguirão naturalmente disto. Abraçar isso é entender o que é a consciência
de Krishna. Isto é o que Srila Prabhupada e Srila Sridhara Maharaja
ensinaram, e se isso está ao alcance de alguém, então há toda razão para ser
encorajado.

Sem cultivar a humildade e cantar o santo nome nada mais levará a pessoa
para a plataforma espiritual, e somente com isso poderá atingir a meta da
vida. É claro que é para ser entendido que esta prática deve ser recebida de
um guru fidedigno, e que é remotamente possível que mesmo sem cantar,
por sua misericórdia, a pessoa possa atingir a perfeição.

Sastra-yukti

Sastra-yukti envolve inferência ou raciocínio em apoio a um argumento


particular que está sendo processado. O argumento em processo é aquele
que é apresentado pela escritura, e sastra-yukti é, portanto, o raciocínio que
procura apoiá-lo. Procura apoiar ambas as revelações, como o
compreensivo significado de conhecer e o tattva vicara das escrituras em
geral. Vaisnava-tantra define tarka (yukti/lógica) como raciocínio
apropriado em relação ao discurso das escrituras, com a visão de fortalecer
sua premissa. Assim, sastra-yukti é aquele raciocínio que dá suporte à fé,
que é definido no sentido de que o conhecimento abrangente é derivado da
revelação (escritura). A capacidade de se envolver em sastra-yukti é, em
certa medida, relativa ao conhecimento do sastra.

Kevala-yukti, por outro lado, é um raciocínio que não visa apoiar a


premissa da escritura. O sentido mais amplo da palavra tarka fala do
raciocínio que procura dispor de condições que invalidam a premissa na
qual uma inferência está baseada. Enquanto estas dinâmicas de tarka ou
yukti estão em vigor no sastra yukti, seu objetivo inteiro é apoiar tanto
positivamente quanto negativamente os princípios da escritura e, assim, a
fé de alguém, que determina sua posição em bhakti.

O Sastra-yukti só é útil enquanto nutre a fé de alguém na prática espiritual.


Somente nesse sentido o raciocínio assume características espirituais e se
torna parte da prática espiritual. Também é útil, se não essencial, para
pregar. Caso contrário, em geral, é útil apenas na medida em que a prática
de alguém depende dela e das injunções das escrituras. Assim, na maior
parte, aplica-se ao vaidhi-bhakti e é nesse contexto que o termo aparece no
Bhakti-rasamrita-sindhu (Brs. 1.217).

Também pode ser aplicável nos estágios iniciais de raganuga sadhana,


quando a inspiração para a prática depende da lógica e das referências
escriturais em apoio ao raganuga sadhana. Jiva Goswami chama esse
estágio de ajata ruci raganuga, uma forma mista de raganuga e vaidhi-
bhakti, no sentido de que depende do raciocínio e das escrituras, das quais
se diz que o próprio raganuga-bhakti é independente. A este respeito,
Krsnadasa Kaviraja Goswami diz satra-yukti nahi mané raganugara
prakrti, "A natureza de um raganuga sadhaka é tal que ele não se importa
com o sastra-yukti" (Cc 2.22.153). Sriman Mahaprabhu também disse a
Sanatana Goswami, sastra-yukti nahi ihan siddhanta-vicara ei svabhava-
gune, "alguém cuja atração por Krsna é espontânea não tem utilidade para
sastra-yukti ou introspecção sobre a natureza das conclusões escriturais."
(Cc 2.24.40)

Também é importante notar que nem toda declaração escritural que nos
adverte sobre o uso do intelecto da pessoa na prática espiritual refere-se
apenas ao kevala-yukti. Estudar a escritura para captar seu espírito é um
exercício importante que exige a aplicação da inteligência em um esforço
para fortalecer a fé e a prática de alguém. No entanto, a compreensão
intelectual da teoria das escrituras não é sinônimo de realização espiritual, e
somente quando alguém tem uma realização espiritual pode-se dizer que o
conhecimento da escritura é seu. Por exemplo, o conceito escritural de que
não somos nossos corpos é bastante abstrato no início. Por um estudo
cuidadoso, podemos realmente entender o que a escritura está dizendo a
esse respeito. Entretanto, mesmo depois de apreender intelectualmente o
ponto, não se necessariamente "possui" esse conhecimento, a menos que
esse entendimento seja colocado em prática. Colocá-lo em prática constitui
a medida completa da inteligência. Este é um ato que é inteligente, mas
transcende à inteligência ao mesmo tempo. Assim, a escritura
frequentemente nos adverte que também não somos nosso intelecto, e que a
mera compreensão teórica da escritura, que em si é difícil de captar, não é
sinonimo de realização espiritual.

FIM DO ARTIGO
36. A DIETA DE KRISHNA É BHAKTI
Ekadasi

Uma pessoa pode obter todos os benefícios do Ekadasi seguindo às


diretrizes de um satguru. Guru e escritura pedem a todos os devotos que
jejuem dos grãos. Isso agradará muito a Hari e ao guru, mas é claro que um
devoto pode ganhar mais mérito devocional jejuando de toda comida e
água e ficando acordado a noite toda cantando Hari Nama. No entanto, só
se deve observar essas austeridades adicionais se isso promover sua
lembrança de Hari e o tempo gasto glorificando-o. Este é o significado do
Ekadasi.
Tecnicamente, é possível comer grãos antes do início do Ekadasi, mas
tradicionalmente isso não é feito. De fato, o Hari-bhakti-vilasa fala do
início do jejum na noite anterior ao Ekadasi.

Vraja como um verbo significa "to go". Os residentes de Vrndavana


(Vrajavasis) podem ser considerados nômades. Eles estão no "go". A
palavra sânscrita "go" significa vaca. Os Vrajavasis com suas vacas
mudaram-se de Gokula para Vrndavana, para às gramas mais verdes e para
às vantagens da colina de Go-vardhana. Para nos tornarmos residentes de
Vraja, também teremos que ser nômades. Teremos que passar do plano de
exploração para o plano da dedicação. Além disso, para experimentar nossa
natureza imutável, devemos estar dispostos a mudar. Na vida material, o
ciclo interminável de nascimentos e mortes nos obriga a mover-nos e a
mudar independentemente, mas quando nos movemos daqui (da vida
material) considerando ir para lá (para Vraja), estamos nos movendo para
direção certa. Caso contrário, apenas mover-se dentro do mundo material é
seguir o chamado da natureza, dos sentidos (go) – outro sentido de "estar
em movimento".

Alimentos e consciência de Krishna

A Escritura diz que Krishna gosta de produtos lácteos. Ainda assim, não é
preciso beber leite ou oferecer leite a Krsna para ser um devoto. O
Bhagavad-gita diz, patram puspam phalam toyam, que se alguém oferecer
a Krsna com devoção uma folha, flor, água ou fruta, então Ele aceitará isto.
O ingrediente principal mencionado neste verso é a devoção, bhaktya
prayacchati. É o bhakti na oferenda que satisfaz Krsna. Portanto, se alguém
se abstém de oferecer leite a Krsna devido a objeções de consciência sobre
métodos desumanos de produção leiteira, não há mal algum.

Por outro lado, não acredito que todos os devotos devam ser obrigados a
boicotar o leite em oposição à agricultura industrial; ao contrário, eles
deveriam seguir sua consciência a esse respeito. No entanto, sinto que,
sempre que possível, os devotos devem evitar comprar leite de empresas
que maltratam as vacas, mesmo que o leite de empresas mais humanas seja
mais custoso. Afortunados são aqueles que podem alterar os seus estilos de
vida para terem a mesma situação. Caso contrário, não é necessariamente
preciso oferecer e consumir leite para praticar o serviço devocional. Uma
pessoa pode ser vegetariana e ainda ser uma devota de Krsna, mas deve
aspirar a ser um bhakta em primeiro lugar. E ser vegano, vegetariano,
frutívoro em segundo plano. Um bhakta é uma pessoa que valoriza a
devoção acima de tudo.

Eu não me lembro de ler que Krsna não aceita chocolates ou tofu. Posso
assegurar que Ele come isso. Como eu posso dizer isso? Por que a escritura
diz que ele aceita comida vegetariana que é oferecido a Ele com amor.
Claro, uma pessoa pode argumentar que há mais bhakti em oferecer a Ele
coisas que a pessoa sabe que Ele gostará de comer, coisas mencionadas nos
sastras. Enquanto isso pode ser de ajuda ao bhajana em certo sentido, nós
temos o exemplo do mais misericordioso Sanatana Goswami, que ofereceu
pão sem fermento e sal para sua deidade Madana-Mohana, por que isso era
tudo que ele podia fazer com os ingredientes que dispunha. Madana-
Mohana, claro, questionou sobre o sal em determinado momento. Mas
mesmo sem sal ela saboreava às oferendas de Sanatana Prabhu, pois elas
tinham sido feitas com amor. Ainda é possível obter esse pão sem sal no
bhajana kutir de Sanatana Goswami no templo de Madana Mohana em
Vrindavana, onde os devotos têm oferecido isso a deidade de Krsna por
pelo menos 500 anos. A lição é que se nós oferecemos amorosamente uma
comida a Krsna que tem sido feita com os ingredientes disponíveis, Krsna
irá comer.
Em alguns lugares como o templo do Senhor Jagannatha em Puri,
alimentos que não cresciam na Índia quando Sri Krsna estava presente não
são oferecidos, incluindo pimentas verdes. Contudo, Pujyapada Sridhara
Maharaj comentou que essa ideia era mais ou menos uma concepção física.
Existem muitos vegetais frescos disponíveis na Índia que originalmente
vêm de outras partes do mundo. Isso inclui berinjela, tomates e batatas,
todos os quais vêm das Américas. Nós vemos que Krsna adaptou Seus
hábitos alimentares à muitas culturas que existem na Índia. No sul ele
raramente recebe chapattis; o arroz no Norte é raro. Em Punjab, a Ele é
ofertado milho rotis. Jagannatha significa "Senhor do Universo", não
apenas "Senhor da Índia". Portanto, por que Jagannatha não adaptaria Seus
hábitos alimentares à outras culturas? Afinal de contas, bhakti é o que Ele
realmente come.

Muitos anos atrás, quando eu visitei pela primeira vez a Itália, os devotos
de lá serviram maravilhosamente incríveis pratos de massa. Comentei que
as oferendas deles eram deliciosas, mas eles responderam que só ofereciam
esses pratos aos visitantes porque haviam aprendido a oferecer apenas a
culinária indiana à Deidade de Krishna. Sugeri que reconsiderassem, pois
duvido que sua versão da culinária indiana fosse tão palatável quanto sua
massa.

Havia uma carta em que Srila Prabhupada escreveu que os devotos não
deveriam comer chocolate porque era um intoxicante. No entanto, em uma
carta escrita mais tarde por sua secretária, que lhe perguntou se o chocolate
poderia ser oferecido à Divindade, a resposta foi: "Sim, se não for
intoxicante". Assim, o debate continua entre os discípulos de Srila
Prabhupada sobre comer chocolate. Uma vez em São Francisco, Srila
Prabhupada notou que uma de suas discípulas casadas estava comendo uma
barra de chocolate no bar, o qual ela então tentou esconder. Prabhupada
perguntou: "Você não vai me oferecer nenhum pedaço?", ela sorriu e
ofereceu a ele comeu um pedaço. Depois espalhou-se a notícia de que os
devotos podiam comer chocolate, mas depois que os devotos se tornaram
abusivos, comendo em excesso, Srila Prabhupada disse a eles para não
comê-lo. A principal preocupação com o chocolate são as suas
propriedades intoxicantes, mas para ser afetado por isso, teria que comer
bastante. Outros itens, como açúcar, ghee, certas especiarias e mel também
são substâncias potencialmente intoxicantes e viciantes. Entre estes, o mel
tem a complicação adicional de ser feito por abelhas que usam seu longo
tubo como línguas para sugar o néctar de flores que eles armazenam em
seus especiais "estômagos de mel". As abelhas reunidas retornam à colméia
e passam o néctar para às abelhas operárias que então mastigam o néctar
até que ele se torne mel. Mas, apesar do fato de passar pelas bocas e
estômagos das abelhas e ter qualidades intoxicantes, o mel é oferecido
regularmente a Krishna nos templos Vaisnavas. Até mesmo o Bhagavatam
diz que Balarama bebe 'Varuni', uma bebida intoxicante que às vezes se diz
ser feita de mel.

As escrituras nos dizem que Balarama e Krsna tomam intoxicantes, como


“pan”, mel e outros itens semelhantes. A maioria dos Gaudiya Vaisnavas
não usa “pan”, mas é oferecida a Krishna em muitos templos Vaisnavas.
Quanto a comer o chocolate, não o coma em excesso e isso não prejudicará
seu bhakti, mas se você é viciado nisso, isso sim é um problema. Em geral,
acredito que é melhor evitá-lo quando está em conjunto com outras coisas,
como talvez na forma de chocolate quente feito com leite e chantilly, que é
delicioso. Ao falar de devoção mista, o Bhagavad-gita diz que o que quer
que você coma deve ser oferecido a Krsna. É preciso começar de algum
lugar. Comece com o espírito de oferta e tudo mais seguirá seu devido
curso.

FIM DO ARTIGO
37. SENDO CASTO A SRILA PRABHUPADA

O ideal que todos os devotos buscam é a dedicação exclusiva a Sri Guru.


Para os discípulos de Srila Prabhupada, isso, naturalmente, significa
devoção exclusiva a ele. Isso certamente envolve a castidade, mas em um
nível mais elevado envolve também a pureza, dentro da qual a expressão
dinâmica da castidade está contida. É possível ser casto mas não puro, mas
não é possível ser puro e não casto, pois a pureza do avanço espiritual
depende da graça de Sri Guru. Somente quando ele ou ela está satisfeito
com o discípulo pode o discípulo atingir a pureza, e ninguém pode agradar
seu guru abandonando ou relativizando ele ou ela - por não ser casto com
Sri Guru.
A castidade, em oposição à pureza, implica alguma força. Os famosos
cintos de castidade da velha Europa cristã são um bom exemplo. Enquanto
a pureza denota ausência de tentação, a castidade implica controlar os
impulsos e ações.
Por exemplo o purdah, a ideia muçulmana de castidade imposta às
mulheres, envolvendo total isolamento do mundo, a castidade desse tipo
tem suas vantagens - más influências são mantidas e a tentação é
minimizada; no entanto, o fruto dessas vantagens contém a semente de seu
lado negativo: A insularidade. No vácuo da insularidade, o tempo para, e se
alguém permanece nesse vácuo depois que seus frutos são alcançados e não
internaliza a castidade e avança, o que se segue é a rápida desaceleração do
crescimento pessoal e da pregação relevante.
Indo para o mundo maior do Gaudiya Vaisnavismo , encontrando outros
devotos e concepções, separando o relativo do absoluto, o siddhanta do
equívoco - essas coisas empurram e puxam um devoto e desafiam sua fé.
Nem todo mundo está pronto para fazer a transição da castidade insular
para o estágio madhyama que leva à verdadeira pureza, mas alguém cuja fé
é forte o suficiente sabe que ficar muito tempo no ninho da insularidade na
verdade verifica o desenvolvimento do serviço para Srila Prabhupada.

Deixe-me relatar a você como o próprio Srila Prabhupada abordou essa


questão. Dr. O. B. L. Kapoor (Adi Kesava dasa), um querido irmão
espiritual de Srila Prabhupada que o ajudou em Vrindavana e contribuiu
com artigos como “De volta ao Supremo”, uma vez expressou preocupação
de que os discípulos de Prabhupada pudessem eventualmente sofrer
insularidade por não se aproveitar da associação de outros devotos
avançados e a totalidade do cânon escritural da Gaudiya. Além disso, ele
sugeriu, eles podem sucumbir ao pensamento ofensivo em relação a outros
devotos avançados, pensando apenas em Srila Prabhupada como digno de
ouvir. Srila Prabhupada respondeu que ele olhou para seus discípulos como
árvores jovens em torno das quais ele havia construído uma cerca para
protegê-los em seus primeiros estágios de crescimento. No entanto, ele
disse que, à medida que crescessem até a maturidade, naturalmente
alcançariam além da cerca. Firmemente enraizados em um lugar em
devoção exclusiva a Sri Guru, eles também poderiam aproveitar a
associação dos outros sem se confundirem.
Outra maneira de pensar sobre como proceder da insularidade para uma
compreensão bem integrada e madura da castidade é em termos dos livros
de Srila Prabhupada. Ler os livros de Srila Prabhupada cuidadosamente
conduz naturalmente à totalidade do cânone da Gaudiya com sua ênfase
particular, a da linha de Bhaktivinoda Thakur - Bhaktivinoda parivara.
Afinal de contas, as inúmeras referências dentro dos livros de Srila
Prabhupada a outros textos da Gaudiya não estão lá para dizer ao leitor que
ele ou ela pode procurar esses textos para obter mais informações sobre um
assunto em particular? Apenas um que não tenha interesse em um assunto
específico reagiria de outra forma.
No começo, é natural e muito apropriado que um guru diga ao aluno para
ouvi-lo sozinho. Entretanto, se o aluno ouve bem, ele acabará percebendo
que o guru está em toda parte - a universalidade do Sri Guru - e que o nosso
guru iniciador (diksa) pode falar conosco através de outros devotos,
devotos que são puros o suficiente para servir na capacidade de um guru
instrutor (siksa guru). Como deveríamos tratá-los? As Escrituras são claras
sobre este ponto: O diksa e o siksa-guru são manifestações iguais da
divindade e, portanto, devem ser honrados igualmente.
Idealmente, não é falta de fé no diksa-guru que leva ao siksa-guru.
Identificar o siksa-guru é um exercício de fé pelo qual a fé divina é nutrida,
promovendo seu crescimento. Em contraste com a fé forte, a fé fraca requer
um inimigo. Como eu disse anteriormente, há um lugar para isso - mas não
um lugar na eternidade.
A fé divina é independente e pode aparecer onde ela quiser. Nós a
ofendemos por qualquer tentativa de governá-la e legislar onde e em quem
ela pode aparecer. Nós somos seus servos, não seu mestre. A fé divina é
nossa divindade, não nosso capacho.
Embora seja apropriado, numa etapa, advogar a insularidade, se, ao fazê-lo,
isso estimular o pensamento ofensivo para os devotos mais avançados, cuja
castidade é dinâmica no âmbito da pureza espiritual, os líderes devem
corrigir a situação. Eles devem se manifestar contra isso, pois é
contraproducente para o que ele procura realizar: manter e aumentar as
fileiras da instituição para o prazer de seu Fundador Acarya e Sri Krishna
Caitanya.
Sem se manifestar, os devotos moderados deixam o microfone nas mãos de
fanáticos fundamentalistas que agitam as bandeiras, que se orgulham de
pisotear a fé de outros em nome da castidade a seu Fundador Acarya. Os
moderados devem falar pela simples razão de que eles sabem melhor, e o
dom do conhecimento traz consigo o mandato de compartilhá-lo com os
outros. Apenas quanto os líderes falarem, se experimentará a castidade
dinâmica dentro da pureza. É claro que, ao fazê-lo, os líderes devem
exercer discrição espiritual, pois enquanto uma rejeição carta-branca de
todos fora da instituição em nome da castidade é falha, também é verdade
que nem toda associação de devoto é favorável e complementar à ênfase de
Srila Prabhupada.
No meu caso particular, eu aceitei Pujyapada Bhakti Raksaka Sridhara
Deva Goswami como meu siksa guru. Fiz isso seguindo a sugestão de Srila
Prabhupada, que nos disse que depois de sua partida poderíamos nos
aproximar de Srila Sridhara Maharaja para orientação filosófica.
Orientação filosófica é siksa, não aconselhamento técnico sobre como
realizar um ritual em particular. Além disso, nenhum devoto único recebeu
um endosso mais brilhante do Fundador Acarya da Iskcon do que Pujyapad
Sridhara Maharaja.
No entanto, compreendo as preocupações e sentimentos institucionais
pragmáticos que podem dificultar que a Iskcon permita que seus membros
aceitem autoridades espirituais que não são membros da instituição. Se
alguém é membro de uma instituição particular, ele ou ela deve aceitar a
autoridade espiritual daquela instituição, e se tal pessoa tiver uma segunda
autoridade espiritual enquanto permanecer dentro da instituição, isso pode
ser uma receita para problemas. Também é melhor permanecer com
aqueles que compartilham os mesmos sentimentos e importantes para
preservar os sentimentos pessoais de Srila Prabhupada dentro da Iskcon.
Ao mesmo tempo, acredito que uma política que leve em consideração
casos individuais é melhor do que uma política geral que proíbe todos os
membros da Iskcon de aceitar a siksa de devotos que não são membros da
Iskcon. Além disso, nos casos em que pode não ser apropriado para um
determinado membro permanecer na Iskcon enquanto aceita um siksa-guru
fora da Iskcon, a fé de tais pessoas deve ser honrada, e todas as relações
entre tais ex-membros e membros devem permanecer cordiais e
mutuamente respeitosa, promovendo a unidade na diversidade. Não é mais
espiritualmente correto estar de um lado ou de outro. O que é correto é
honrar o livre fluxo da fé divina.
Eu sou um e diferente dos meus irmãos e irmãs espirituais que não
abraçaram Srila Sridhara Maharaja como seu siksa guru. Somos todos
iniciados por Srila Prabhupada e somos, portanto, membros da Gaudiya
sampradaya e do Bhaktivinoda Parivara. Assim, devemos ser um
filosoficamente. Nós temos o mesmo diksa-guru. Nós também
compartilhamos o mesmo sentimento religioso para o nosso guru. No
entanto, tenho outro sentimento religioso por Sridhara Maharaja que eles
não compartilham. Embora devamos ser um filosoficamente (abheda),
também há espaço para uma variedade de sentimentos religiosos (bheda).
Essa diferença não é filosoficamente errada, nem é de algum modo
desordenada. A variedade de sentimentos na filosofia de Mahaprabhu
constitui sua beleza. Além disso, o sentimento que tenho por Srila Sridhara
Maharaja, embora não seja compartilhado por alguns de meus irmãos e
irmãs espirituais, é um que eu compartilho com o próprio Srila Prabhupada,
que chamou Srila Sridhara Maharaja de siksa-guru. Se Srila Prabhupada
tinha afeição por Srila Sridhara Maharaja, como ele deixou claro, e se ele
sentisse que Sridhara Maharaja ajudou a prepará-lo para vir ao Ocidente na
condição de um siksa-guru, como ele publicamente nos disse em
Mayapura, como alguém pode justificadamente objetar minha afeição por
Srila Sridhara Maharaja e minha fé em suas instruções?

O Sastra não coloca limites institucionais ao aceitar um diksa ou siksa


guru. Fala em termos universais e deixa detalhes práticos à fé e discrição
do guru e do discípulo. Em proporção ao nível de avanço do discípulo, o
guru o guia de acordo com o tempo, lugar e circunstância. Assim, o registro
mostra que na maioria dos casos, antes de sua partida, Srila Prabhupada
não queria que seus discípulos iniciantes se associassem com muitos de
seus irmãos espirituais. No entanto, suas palavras finais sobre o assunto
foram que seus discípulos poderiam ir para a filosofia de Srila Sridhara
Maharaja, o que eu fiz. Eu nunca me arrependi dessa decisão, embora por
causa disso eu não seja mais bem-vindo na instituição que Srila Prabhupada
fundou. Ainda assim, creio agora, como fiz naquela época, que na questão
de aceitar um siksa-guru eu fui verdadeiramente casto com as instruções e
missão do meu diksa-guru, Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami
Prabhupada.
FIM DO ARTIGO
38. MULHERES, DEGRADAÇÃO E CONFIANÇA

Certas declarações aparentemente sexistas a repeito a mulher (no


Bhagavad-gita e algumas outras no Bhagavatam também) têm que ser
equilibradas com a maneira pela qual Srila Prabhupada envolveu as
mulheres no serviço de Krsna. Ele lhes dava posições de responsabilidade,
e apesar do que ele escreveu que pode ser considerado sexista hoje em dia,
todas as suas alunas o amavam muito assim como ele a elas. As próprias
declarações surgem de um contexto cultural particular, do século XIX de
Calcutá e das antigas tradições védicas da Índia.
O comentário do Gita de Prabhupada foi escrito há mais de 50 anos. Se ele
tivesse escrito seu comentário hoje, poderia muito bem ser diferente. Ele
teria levado em consideração o clima social e cultural da época.
Prabhupada era de fato muito flexível e muito liberal. Dentro do Gaudiya
Vaisnavismo, ele deu passos revolucionários para melhorar o status das
mulheres e as envolveu na cultura espiritual. Seus comentários de 50 anos
atrás parecem conservadores e um tanto insensíveis à visão de mundo pós-
moderna de hoje. Mas temos que identificar Prabhupada com seu espírito
de tornar os ensinamentos de Caitanya Mahaprabhu relevantes para o dia
de hoje, e fazer isso nós mesmos com sua bênção, e continuar a partir daí
oferecendo nossos pranams a seus pés de lótus uma e outra vez.
"Ó Krsna, descendente de Vrsni, quando a irreligião aumenta, as mulheres
são aproveitadas, e quando as mulheres são abusadas isso dá origem à
mistura inapropriada entre homens e mulheres de castas diferentes que
produzem crianças indesejadas" (Gita, 1.40). O próprio texto se refere a
tempos passados. Embora seja certamente verdade que quando a irreligião
aumenta as mulheres podem ser aproveitadas, no mundo de hoje as
mulheres também podem tirar vantagem dos homens. A mistura
inadequada entre homens e mulheres geralmente produz crianças
indesejadas. Esta seção do Gita exalta as virtudes da vida familiar, aquilo
que é vital para uma sociedade saudável. Deve ser entendido dessa
maneira.
Caso contrário, o argumento levantado aqui por Arjuna é um dos muitos
argumentos que ele levanta no Gita com base em considerações materiais a
fim de justificar a não realização das ordens de Krsna. Todos esses
argumentos são refutados por Krsna quando ele leva a discussão ao nível
da alma no segundo capítulo. A conversa entre Arjuna e Krsna começa no
capítulo dois, e o assunto é a alma.
A partir daí, a discussão se move para o engajamento (yoga) que irá
capacitar a pessoa a perceber a alma da ação abnegada (karma yoga) para o
conhecimento, meditação e, finalmente, bhakti. Isto é seguido
apropriadamente pela teologia do Gita nos capítulos 7-12. Os capítulos 13
ao 18 também explicam o conhecimento que é relevante para a auto
realização e a realização de Deus, discutido nos primeiros seis capítulos.
No capítulo 18 é dada a conclusão do Gita, uma que reitera as observações
finais do capítulo nove.
Em suma, o Gita não tem nada a ver com se as mulheres podem ser
confiáveis ou não. Realmente Prabhupada confiava nas suas discípulas
mulheres, e seus discípulos masculinos frequentemente se mostravam
indignos de confiança. As declarações de Canakya Pandita* podem ter
sido sábias durante seu tempo, mas não são espirituais e, portanto, estão
sujeitas a reconsideração.

Mayavadis e Brahmavadis

A diferença entre um mayavadi e um brahmavadi é que um mayavadi é


aquele que adere à doutrina de Sankara, na qual a forma de Krishna é
considerada Brahman coberta por um adjunto constituído de natureza
material. De acordo com a doutrina Mayavada, enquanto esta expressão de
Brahman é útil para os iludidos, ela mesma não existe na realidade última.
Outros podem estar menos preocupados com a forma de Deus, mas não
negam sua existência eterna e seu caráter final. Eles são os jñani bhaktas
descritos no Bhagavad Gita. Às vezes as pessoas se referem a esses jnanis
como Brahmavadis. Eles não são impersonalistas no sentido negativo que
Prabhupada usa o termo.

Relação de adoração entre guru e discípulo

O discípulo é um representante do seu guru que veio para ocupá-lo no


serviço de Krishna. O guru vê seu discípulo dessa maneira.

Pais de Krishna e austeridades para recebê-lo como filho

Nanda Maharaja e Yasodamayi realizaram o dvadasi vrata na adoração de


Narayana por um ano. Eles ficaram perplexos porque toda vez que
pensavam em ter um filho, imaginavam um filho que fosse mais bonito que
Narayana. Percebendo que isso era impossível, eles decidiram executar o
dvadasi vrata, e então yogamaya fez Yasoda parecer grávida. De repente,
ela desenvolveu um apetite incontrolável por doces de leite, etc.

Criação das entidades vivas e expansão de Deus

O sristi lila de Deus é algumas vezes descrito como criação. É realmente a


emanação de Deus que ocorre de novo e de novo, assim como sua
contração em um ciclo sem princípio. Repetidamente Deus deseja
manifestar o mundo depois de ter estado adormecido durante Seu sono
místico. Neste momento, as almas condicionadas individuais são
novamente manifestadas por Deus. São manifestações de Sua tatastha sakti
(potência marginal/intermediária). Este é o ensinamento do Bhagavad-gita,
em que Krsna diz que Ele manifesta as almas individuais sendo a semente
que dá o pai à natureza material (Capítulo 14).
A menção de Krsna a isso no capítulo 14 é uma explicação do sruti em que
se diz "eko bahu syam": "O um se torna muitos". Deus se torna muitos
como as almas jivas, embora isso não seja um ato que tenha um começo no
tempo. Isso se manifesta em conjunto com o tempo, mas é ao mesmo
tempo sem começo. Assim como todas as manifestações de Deus (Visnu
tattva) são eternas e ao mesmo tempo parecem manifestar-se em um
determinado momento. Assim também são todas as almas jiva. A divindade
se manifesta como muitos (bahu syam), e assim todas as diversidades estão
dentro Dele, e Ele está dentro de todas as diversidades. Ao mesmo tempo,
Ele é diferente de todos eles. Ele tem um poder místico inconcebível.

Almas eternamente demoníacas

Madhvacarya interpreta versos como 18 e 19 do capítulo 16 do Bhagavad-


gita para chegar a essa conclusão. Aí Krishna diz: 'Aqueles que são
invejosos e cruéis, os piores da humanidade, eu repetidamente coloco no
útero da vida ímpia após a vida. Tendo entrado nos úteros dos ímpios, os
iludidos, sem conseguir me alcançar nascimento após nascimento, ó filho
de Kuntî, vão de lá para o destino mais baixo. '
Então Madhava não disse nada de errado. De fato, o próprio Krsna disse
que algumas almas são perpetuamente lançadas em ventres demoníacos.
No entanto, a Gaudiya sampradaya, enquanto aparece dentro da Madhava
sampradaya, lançou nova luz sobre a escritura. Fiel ao seu compassivo
Senhor, Sri Caitnaya, encontra esperança para todas as almas.
A respeito do verso acima se pode comentar: "Aqui Arjuna experimenta a
ira de Deus e reage de acordo. Esta é a natureza do piedoso. Ouvindo o
destino dos demoníacos, Arjuna considera que, certamente, ao ouvir isso,
os ímpios mudarão seus caminhos. Esta escolha é possível com a ajuda de
boa associação. No entanto, os ímpios não se importam com a associação
dos piedosos, e eles geralmente não têm medo de Deus. O medo é o nível
mais baixo de motivação para servir a Deus. Sendo desprovido disso, há
pouca esperança para eles. As palavras fortes de Krsna são uma tentativa de
salvá-las ".
Na verdade, existem muitas diferenças entre os ensinamentos de Madhava
e os ensinamentos de Sri Caitanya. Por exemplo, Madhava não aceita que
Krsna é a fonte de Narayana, enquanto isto é central para o Gaudiya
Vaisnavismo. Madhava não está errado em sua opinião, na medida em que
esta é a sua realização e o entendimento comum em Vaikuntha. Existem
diferentes maneiras de ver a realidade última. Dizer que Sri Caitanya é uma
encarnação de Mahavisnu não é errado, mas não é muito lisonjeiro.

Eternamente em Krsna lila e Goura lila

Opiniões conflitantes sobre a identidade espiritual dos devotos, seja em


Krsna lila ou em Gaura lila, não significam necessariamente que uma
opinião é correta e outra incorreta. Nem são necessariamente apenas
especulação. O principal devoto a revelar essas identidades é Kavi
Karnapura, que escreveu sobre elas em sua Gauragannodesa dipika. Em
alguns lugares ele mesmo oferece opiniões diferentes sobre os mesmos
devotos. A ideia é que ele identificou o bhava (emoção espiritual) dos
devotos de Krsna lila, ou uma aparência dela, que apareceu nos devotos da
lila de Krsna como Sri Caitanya - Gaura lila.
Esses devotos são todos nitya parsadas (associados eternos) de Krsna. Eles
são constituídos da svarupa sakti de Krsna (potência interna/primária), ao
contrário das jivas (almas individuais como nós) que são constituídas de
tatastha sakti (potência marginal/intermediária) de Krishna. As
possibilidades da svarupa sakti de Krsna estão além da nossa compreensão.
Nós somos como gelo. Eles são como a água. Em conexão com eles
podemos fluir, etc. Com a água também.
Kavi Karnapura refletiu sobre a interação entre Gauranga e Seus devotos
em toda Gaura lila e em diferentes momentos ele foi movido por várias
considerações. Ele expressou seus sentimentos em seu livro. Houve uma
época em que o lila refletiu sobre Ramanada Ray e sentiu as emoções de
Arjuna, e em outro ele sentiu o bhava de outro devoto de Krsna lila
manifestando em Gaura lila através de Ramananda Ray. Outros devotos
realizados podem fazer o mesmo e chegar a conclusões diferentes.
Sua conclusão é o que Krsna está Se revelando a eles naquele momento.
Outras possibilidades podem existir também. A princípio, podemos refletir
em relação às escrituras e, mais tarde, podemos até escrever nossa própria
escritura. O sentimento espiritual, bhava, nos leva do mundo preto e branco
da mente condicionada para a terra de todas as possibilidades. Chegando lá,
até mesmo a mente material mais ampla é estreita em comparação.
FIM DO ARTIGO
39. A MAGIA DE DIKSA

"Existe verdadeiramente alguma magia na transmissão do mantra.


Esta magia envolve a partilha da experiência do guru do mantra. É
um ato de doação, motivado por nada mais do que genuína
compaixão."

Rupa Goswami começa seu delineamento sobre os angas do sadhana


bhakti assim: guru pada asrayas tasmat krsna diksadi siksanam
1. Tome abrigo dos pés do guru.
2. Tome iniciação dele.
3. Tome siksa dele.
Então, primeiro nos sentaremos com o guru, ouviremos e observaremos
enquanto ele simultaneamente nos observa. Então diksa segue e é apoiado
por siksa. Enquanto os diksa e siksa gurus são um em propósito, o sastra
nos diz que sua função é diferente. O diksa-guru transmite o mantra, dentro
do qual está contido o nosso relacionamento com Krishna em forma de
semente. O siksa guru rega a semente com instruções relevantes. No caso
clássico, o diksa-guru é também o siksa-guru e desempenha o papel mais
proeminente na vida espiritual do discípulo. Entretanto, é possível que um
siksa-guru que não seja o diksa-guru possa desempenhar o papel mais
proeminente na vida espiritual de um discípulo, especialmente se o siksa-
guru for mais qualificado do que o diksa-guru. O último caso é
exemplificado na vida de Bhaktivinoda Thakur, cujo siksa-guru,
Jagannatha dasa Babaji, desempenhou um papel mais importante do que
seu diksa-guru, Bipina Bihari Goswami.
O diksa-guru é uma manifestação de Madana-mohana vigraha no sentido
de que ele dá sambandha-jnana na forma de diksa, sobre a qual a divindade
de Sri Madana-mohana preside. O sambandha-jnana é um. Envolve a
orientação conceitual para a cosmovisão metafísica Gaudiya Vaisnava e
inclui a transmissão do diksa mantra. Parte dessa visão de mundo é o
conhecimento de nossa relação de com Krishna. Novamente, isso está
presente no mantra.
Sendo assim, transmitir o mantra é comparado ao plantio de uma semente.
A semente é singular, e não há necessidade de plantá-la duas vezes. Ainda
assim, a semente precisa ser cultivada e, portanto, há a necessidade de
siksa. O siksa-guru é uma manifestação de Govindadeva, a divindade que
preside o abhidheya-jnana, ou o conhecimento relativo ao cultivo da
semente. Enquanto sambandha-jnana envolve uma orientação conceitual,
abhidheya-jñana envolve o que naturalmente segue a partir dessa
orientação: A atividade subsequente, que neste caso é bhakti. Em certo
sentido, os exemplos clássicos dessas duas manifestações de guru em nossa
tradição são Sri Sanatana e Rupa Goswamis. Sanatana Goswami escreveu o
Brhat-bhagavatamrta, uma orientação conceitual para o mundo do Gaudiya
Vaisnavismo. É um levantamento da paisagem interior que nos orienta para
o mundo da possibilidade espiritual em consideração à nossa posição atual.
Rupa Goswami, por outro lado, escreveu o Bhakti-rasamrta-sindhu, que
delineia a natureza de bhakti, ou aquela atividade que naturalmente se
segue do sambandha-jñana. O sambandha é estático, enquanto o abhideya
é dinâmico. Por exemplo, o que é o mundo, o que é a jiva, o que é Deus e
como eles estão relacionados não muda. Isso é sambandha-jñana. Como
cultivar bhakti, enquanto um em princípio, varia com respeito aos detalhes.
Os dois gurus são um no sentido de que eles representam completamente
Krishna. Madana-mohana e Govindaji são um. Os dois gurus diferem, no
entanto, no que diz respeito à sua função. Mais uma vez, a função do diksa-
guru é singular. Ele dá o mantra. A função do siksa-guru, por outro lado, é
plural; ele dá instruções. O siksa-guru rega a semente singular e mais de
um siksa-guru podem executar essa função. Naturalmente, alguém pode
legitimamente perguntar: "A instrução de sambandha-jñana também não é
uma forma de siksa?" A resposta é obviamente "sim", por que, enquanto se
estende o significado de siksa para incluir tais instruções, restringe-se o
significado de diksa à transmissão real do mantra - isso não é uma coisa
pequena.
Srila Sridhara Deva Goswami descreve a partilha do mantra assim: "Assim
como em um glóbulo homeopático externamente não pode mostrar que
tipo de medicina está dentro, o mesmo acontece com o som - o nome
Krishna.. Aquele que o entrega, o entrega junto com sua realização interna.
Então o Krsna da boca de um sadhu, e o Krsna da boca de uma pessoa
comum não são um e o mesmo. Qual é a ideia por trás desse som, de onde
vem, sua origem, é em Vaikuntha, em Goloka, em que rasa, e assim por
diante? Gradualmente, o som vai levar você até aquele lugar. Vaikuntha
nama grhanam, o nome deve descer do mundo infinito e não de qualquer
origem mundano.

Em um sentido, diksa é a formalização da relação entre guru e discípulo


que reconhece algo que já ocorreu, assim como o casamento formaliza um
relacionamento já em progresso. No entanto, dentro da cerimônia formal,
ocorre algo substancial: Os votos por parte do discípulo e a transmissão do
mantra por parte do guru. Enquanto a cerimônia pode ser uma formalidade,
a transmissão do mantra não é. Esta é a substância. A extensão em que esse
ato é substancial depende da realização do guru e da rendição do discípulo.
Da mesma forma que o poder de um siksa é dependente da medida em que
se realizou o siksa que se dá, similarmente o poder de diksa depende da
própria realização do diksa-guru do mantra que ele transmite. Por exemplo,
se uma pessoa foi à Índia, ela pode falar sobre a Índia de maneiras que
serão muito mais convincentes do que aquelas que puderam ler no folheto
de viagem. Sua experiência é transmitida através de seu discurso. Ele não
apenas tem exemplos e insights pessoais que apenas alguém que
experimentou o lugar seria capaz de relacionar, mas a própria qualidade da
fala, apoiada por sua experiência, é superior àquela de quem tem apenas
conhecimento teórico. Srila Sridhara Deva Goswami fala da transferência
da experiência espiritual do guru através do mantra desta maneira:
"Externamente, não podemos reconhecer que potência existe. Ela não pode
ser detectada. O que é isso? Somente o homem (guru) que a dá — sua
realização — é a potência dentro do som. "Portanto, dar diksa requer
realização, brahma nistham. Além disso, o diksa também requer solo fértil
e, portanto, cabe ao guru cultivar o coração do discípulo antes de transmitir
o mantra. Deve ser dado à alma fiel, não a qualquer um e a todos. Sri
Caitanyadeva disse a Sanatana Goswami que a iniciação envolve a
completa entrega para ser completa, no momento em que o discípulo se
torna um com Krishna, diksa kale kare tara atma samarpana. Ele percebe,
isto é, sua unicidade qualitativa com Deus, sei kale krishna kare tare atma
sama. Naquele momento, o sadhaka-deha do discípulo torna-se
espiritualizado, sei deha kara tara cidanandamaya, e continuando a servir
nesse corpo, ele obtém discernimento de seu corpo espiritual interno no
qual ele se envolve em Krsna bhajana, aprakrta dehe tanra carana
bhajaya. Assim, o processo de diksa leva tempo para ser concluído, e é
completado quando o discípulo realiza sambandha-jñana, abrindo caminho
para bhajana no estágio de asakti. Então, os discípulos entram em bhava-
bhakti, em que o insight obtido em sadhana-bhakti é mais adiante cultivado
— o processo de transformar bhava em prema. É claro que tudo isso
poderia acontecer no exato momento em que o mantra é transmitido, como
no caso de alguns dos associados eternos de Mahaprabhu, mas para nós,
isso levará tempo.

O siksa relevante segue diksa e assim as dúvidas são eliminadas. Mas as


dúvidas são esclarecidas mais completamente pela experiência do que pelo
próprio siksa. Isto é o que queremos, experiência espiritual tangível
resultante da aplicação do siksa que recebemos à nossa prática espiritual. A
prática espiritual (sadhana) em si não é um ato puramente racional.
Embora seja razoável sugerir que se engaje na prática espiritual, o ato em si
é transracional. Assim, há realmente alguma magia nela, assim como na
transmissão do mantra. Essa magia em torno da transmissão do mantra
envolve a partilha invisível da experiência do mantra pelo guru. É um ato
de dar, um ato de amor motivado por nada além de genuína compaixão,
karunayaha purana ghuyam. Não é um negócio. A compaixão é o motivo
por trás de dar o mantra, e embora possa ser razoável mostrar compaixão, a
ação compassiva em si não é uma função do intelecto. Há também magia
na maneira como o mantra funciona. O que aprendemos com siksa nos
ajuda a nos aplicarmos sinceramente na prática de cantar o mantra.
Através de sraddha (fé), saranagati (rendição) e mantra dhyana
(meditação) realizada no espírito de doação e auto sacrifício, levando ao
auto esquecimento do amor (svaha), o mantra magicamente revela tudo o
que está contido nele. Se você ama algo o suficiente, ele revelará todos os
seus segredos. Mesmo em sua experiência material, o ato de dar é
misticamente recompensador. Quando damos, chegamos, mas aquilo que
recebemos não podemos mostrar ou descrever adequadamente. O fato de
recebermos algo ao dar é evidente pelo nosso contentamento e pelo
entusiasmo com que tentamos relacionar nossa experiência. No entanto, a
razão não sugere que, por dar vamos receber; esta é a magia da vida. O
mundo se transforma em svaha. Receber o mantra significa receber um
segundo nascimento.
Bem do outro lado da janela nas vigas, um pássaro deu à luz a três filhotes.
Os pássaros são chamados dwija em sânscrito porque nascem duas vezes,
uma vez dentro do ovo e uma segunda vez quando os ovos eclodem. Nosso
nascimento material é como o das crias dentro do ovo. Neste nascimento,
nossas possibilidades são extremamente limitadas. Mas se tivermos sorte
de encontrar um sadhu genuíno e receber um segundo nascimento dele na
forma de diksa, nossas possibilidades de vida se expandem além de
qualquer coisa que possamos imaginar dentro do ovo de nosso nascimento
material. Se conseguirmos um segundo nascimento, podemos voar alto no
céu de nossa perspectiva espiritual! De ser uma criatura da terra, podemos
viver no céu. Tal é a magia de diksa e siksa também.

O espírito (pracodayat) em que se deve cantar o mantra diksa foi expresso


por Mahaprabhu, assim, ao elaborar no quinto verso de seu Siksastakam:
'dasa' kari 'vetana more deha prema-dhana, "Faça-me seu servo, meu
salário é a riqueza do amor de Deus". Em outras palavras, "Deixe-me
participar do serviço que é divino por si mesmo e nada mais, e deixe que
esse serviço divino aumente sem medida". O investimento total no banco
de serviços, sem pensar na retirada, encontra um grande número de pessoas
vivendo nos juros acumulados. É significativo que Mahaprabhu tenha feito
essa declaração ao explicar seu quinto sloka do Sikstakam. Este quinto
verso corresponde ao estágio devocional de asakti, o estágio final de
sadhana-bhakti, antes de entrarmos em bhava-bhakti e no mundo da
emoção espiritual propriamente dita.
Assim, Mahaprabhu indica que o diksa mantra nos ajuda dentro do reino
do sadhana até o estágio de asakti e se retira quando alguém entra em
bhava-bhakti como uma alma liberada. Depois que a liberação é alcançada,
o santo nome de Krsna recebido de Sri Guru vem para o primeiro plano, já
que o nome eternamente liberado só pode ser cantado por uma alma
liberada. Assim, o mantra de Krsna nos ajuda a tirar vantagem de Krsna
nama e o Krsna nama nos levara para Goloka. No Sri Chaitanya-caritamrta
Mahaprabhu diz que Seu próprio guru o instruiu assim, krsna mantra hoibe
habe samsara-mocana, krsna nama haite pabe krsnera carana: "Cantando
o mantra de Krsna, a pessoa será libertada do samsara. Cantando Krsna
nama a pessoa alcançara os pés de Krsna". Há também evidências disso no
Brhad-bhagavatamrta, em que Gopa Kumara desiste de cantar seu mantra
depois de alcançar a liberação e passa a alcançar Goloka por nama-
sankirtana e lila-samaranam.
FIM DO ARTIGO
40. COBIÇA POR VRAJA BHAKTI

“Algumas das pessoas liberadas que alcançaram esses quatro estágios de


liberação (salokya, sarsti, samipya, sarupya) também podem desenvolver
afeição por Krishna e ser promovidas ao planeta Goloka Vrindavana no céu
espiritual. Em outras palavras, aqueles que já são promovidos aos planetas
Vaikuntha e que possuem os quatro tipos de liberação também podem, às
vezes, desenvolver afeição por Krishna e serem promovidos a
Krishnaloka.”

Srila Prabhupada se refere nessa citação àqueles que voltam para Deus
passo por passo (krama-vikrama). Na literatura Gaudiya, o melhor exemplo
desse tipo de caminho é o de Gopa-kumara, no Brhad-bhagavatamrita, de
Sanatana Goswami. Sri Gopa-kumara alcançou Vaikuntha, mas continuou
subindo até o seu destino último, no Krisnha Vraja-lila. Isso não significa
que ele tenha mudado de rasa, mas que a sua própria rasa não foi
completamente desenvolvida em Vaikuntha, então, ele continuou em busca
de seu destino espiritual final.

Às vezes, alguma pessoa pode se sentir atraída por Narayana, em


Vaikuntha bhakti, e, ainda assim, gostar muito dos ensinamentos do Sri
Caitanya-caritamrta, das canções de Sri Narottama dasa e Bhaktivinoda
Thakur. Apesar de estar atraída por Narayana pode ter um forte sentimento
por Krisna bhakti. Isso não é um problema, nem uma contradição,
principalmente nos estágios iniciais da devoção, porque Rupa Goswami
disse que Narayana e Krishna são iguais em tattva, mas diferentes em
termos de rasa.

É possível para uma pessoa que está destinada à devoção a Narayana em


Vaikuntha alcançar isso através da Gaudiya sampradaya, sem ter que se
juntar a outra linhagem. Porque Vaikuntha (dasya/santa bhakti) está dentro
do ideal de Goloka, o qual é conhecido também como Maha Vaikuntha.
Além do mais, Mahaprabhu é svayam bhagavam e o maha mantra Hare
Krisna é o mantra universal atraves do qual uma pessoa pode alcançar a
qualquer meta espiritual. De fato, a maneira mais fácil de alcançar uma
meta espiritual é através da linhagem de Sri Caitanya. Assim, não se
destaca somente em termos da extensão de seu alcance, mas também em
termos de inclusão e facilidade.

O passatempo de Krsna cantando os nomes de suas vacas é descrito no


Srimad- Bhagavatam 10.35.18-19. É verdade que Radha e Krsna são
manifestos totalmente somente na dança rasa. A mais completa
manifestação de Krishna é como aquele que fica ao lado de Radha. Isto é
assim porque Ela representa o amor mais elevado de Deus, e Deus se
manifesta em reciprocidade com o coração de Seu devoto. Desta forma,
Radha e Krishna são Um. Ele corresponde com o coração Dela.

A deidade adorável de Prahlada Maharaj

O guru de Prahlada foi Narada, do qual o istadevata é Krishna. Quando


perguntado pelo seu pai a respeito do que ele havia aprendido na escola,
Prahlada Maharaja disse, matir na krsne paratah svato va: "A inclinação
para Krishna não é estimulada em pessoas que são demasiado adictas a
gratificação dos sentidos e à vida material.

Sukadeva Goswami disse a Maharaja Pariksit que Prahlada tem rati pelo
filho de Vasudeva (Krishna), vasudeve bhagavati yasya naisargiki ratih,
além disso, krisna-graha-grhitatma, “ele está completamente absorto em
pensamentos a respeito de Krishna, o qual afetou sua consciência como
uma influência astrológica”. Sukadeva diz ainda, govinda-parirambhitah:
“Ele foi abraçado por Govinda (Ele foi abraçado por Govinda e, portanto,
era alheio às funções normais da vida).
Isso também é mencionado no Srimad-Bhagavatam (1.12.19), que Maharaj
Pariksit deveria “ser paciente como Bali Maharaja e um firme devoto de
Krishna como Prahlada”, dhrtya bali-samah krsne prahrada iva sad-
grahah. Finalmente, a lila de Prahlada-Nararimha é descrita como uma
narração a respeito de Krsna, esa brahmanya-devasya krsnasya ca
mahatmanah. Por isso, é óbvio que a devoção que Prahlada segue é a
devoção por Krishna.

Prahlada é devoto de Krishna e Krishna protegeu Ele por manifestar Seu


cakra na forma de Narasimhadeva. Entretanto, essa devoção a Krishna não
significa que ele era um Vraja bhakta. Apenas aqueles que adoram Krishna
em raga-marga seguindo o bhava dos residentes de Vrndavana alcançam o
ideal de Vraja bhakti. Prahlada Maharaja é um vaidhi bhakta.

A respeito de santa rasa, todos os acaryas não concordam com a ideia de


que não exista expressão de santa rasa em Vraja, onde Krisna é rasaraja.
O nome rasaraja indica uma pessoa que realiza rasa no seu grau mais
elevado, incluindo todas as rasas.

- Raganuga-sadhana-bhakti está baseada na cobiça (lobha) para alcançar


os sentimentos de Vraja bhakti. A medida que essa cobiça é baseada nas
palavras das escrituras que exaltam as virtudes de Vraja bhakti, e no
pensamento que suporta essas atitudes, em oposição à ânsia de alguém com
o coração purificado, essa cobiça é de um neófito raga bhakta.
Enquanto Jiva Goswami refere-se a este tipo de raganuga-bhakti como
ajata-ruci raganuga, Bhaktivinoda Thakur às vezes se refere a isso como
vaidhi-bhakti em livros como Harinama Cintamani. O raciocínio de
Bhaktivinoda parece ser que, enquanto e na medida em que, a ânsia de uma
pessoa por seguir os Vrajabasis está baseada na análise da excelência disso
e nas declarações escriturais a esse respeito, tal lobha surge mais da
inteligência do que do coração e está, portanto, mais relacionado ao vaidhi-
bhakti do que ao raganuga propriamente dito.

No entanto, Bhaktivinoda Thakura também se refere a semelhantes neófitos


como aqueles que têm kanishta lobhamayi sraddha. Essa fé (sraddha) que
apareceu de gotas de cobiça (lobhamayi) por Vraja bhakti, é frágil e precisa
de suporte dos membros (angas) do vaidhi-bhakti. De outra forma,
raganuga-bhakti, num estágio maduro, não requer semelhante grau de
apoio.

Os devotos em raga-marga realizarão seu svarupa (identidade espiritual)


no devido curso da sua prática, vislumbrando isso no estágio de asakti e
realizando-o em bhava-bhakti. Em algumas linhagens da Gaudiya
Vaisnava, o guru diz ao discípulo o seu svarupa no começo do estágio da
prática.

Na maioria dos casos, esses gurus estão realmente dando ao discípulo um


protótipo do svarupa e fixando o objetivo, para ajudar ao discípulo realizar
o seu verdadeiro svarupa. Semelhantes protótipos são mencionados nas
escrituras.

A linhagem de Saraswati Thakur Prabhupada coloca mais ênfase em


escutar a respeito de protótipos das escrituras, do que em algo atribuído ao
sadhaka no momento da iniciação. Na sua linhagem, os discípulos estão
ocupados em escutar, cantar e servir, de forma que naturalmente leve a
meditação. Tão logo o discípulo purifica o coração e se torna qualificado
para meditar, um conhecimento geral com um svarupa particular – descrito
nas escrituras e correspondente com o próprio sentimento emergente –
pode ser introduzido. Os discípulos qualificados irão se identificar com
aqueles protótipos que eles vejam nas lilas de Krishna, de acordo com o
svarupa que os desejos de seu coração irão manifestar.

Assim, a familiaridade com a svarupa, ou siddha-deha, é uma parte


integral do raganuga sadhana e se realiza num momento de cultivo
espiritual. Primeiro, a pessoa purifica o coração, então ela se torna
familiarizada com o svarupa de uma maneira geral e gradualmente se
incrementa uma identificação com a essência do svarupa, que resulta em
realizar a verdadeira identidade de serviço no Krisna lila sob a guia de Sri
Guru.

Conforme já mencionado, algumas linhagens oferecem ao discípulo o


protótipo do svarupa para meditar no começo dos estágios da prática, mas,
em muitos casos, não se requer isso. Pode resultar, inclusive, muito
prejudicial. Bhaktivinoda Thakur mesmo adverte, em seu Bhajana
Rahasya, que a tentativa de meditar no svarupa sem a adhikara apropriada
é prejudicial ao avanço espiritual. Ele escreve, adhikari na labhiya
siddhadeha bhave viparyaya budhi jahme saktira abhave: “Se uma pessoa
medita no seu siddhadeha sem alcançar adhikara, a sua inteligência fica
confusa”.

Não é preciso ter medo de que algo esteja faltando na linhagem de


Prabhupada Bhaktisiddhanta.

FIM DO ARTIGO
41. DESPERTANDO LILA NO CORAÇÃO

Vrindavan, um lugar sagrado

Um lugar se torna piedoso porque os devotos do Senhor estão presentes lá.


Se os devotos do Senhor estiverem presentes, cantando seu nome, então o
Senhor também está presente lá. Isto é o que torna um lugar sagrado, um
tirtha para atravessar a existência material para o outro lado. O que Vidura
contou? Ele queria viajar em peregrinação aos lugares sagrados, tirtha-
yatra. Mas Maharaja Yudhisthira disse a ele, 'qual é a utilidade disso? Na
verdade, pessoas como você são lugares de peregrinação porque você leva
o Senhor em seu coração aonde quer que vá. Portanto, as pessoas santas
tornam o lugar santo, sagrado e piedoso, porque fazem o Senhor estar
presente ali".

Vrindavan é um lugar supremamente piedoso e onde quer que Krsna ande


nas florestas, tudo se torna ainda mais piedoso. Nós, peregrinos,
percorremos Vrindavan, adorando o pó, colocando-o em nossa cabeça em
todos os lugares. Mas em alguns lugares encontramos a pegada de Krsna e
isso torna o lugar ainda mais piedoso, mais auspicioso. No templo de
Radha-Damodara podemos ter o darshan da pegada de Krsna na pedra de
Govardhan. Há lugares em Vraja também onde podemos encontrar as
pegadas de Krsna fundidas na pedra, e esses lugares se tornaram cada vez
mais pios pela Sua pegada. E nunca devemos ir de sapatos lá — só com os
pés descalços. Krsna vai descalço quando leva Suas vacas para pastar.

Nós não podemos entrar no Krsna lila com nossos sapatos, sapatos com os
quais estamos arrastando tanta sujeira e poeira de nossa jornada material.
Eles devem ser deixados de lado. "Sem sapatos", esta é a ideia. Descalço
significa andar sem qualquer ansiedade.

Mãe Yasoda, é claro, está um pouco ansiosa quanto a Krsna quando Ele
anda descalço. Mas Krsna responde: 'Você não precisa se preocupar.
Vrindavan é um lugar tão legal. Há lindos cervos espanando as trilhas,
tornando-os suaves e arenosos como as praias. As vacas andam à frente e
quebram o chão e amolecem para Eu andar em cima. E as árvores se
curvam e varrem as trilhas, deixando tudo muito macio". Em Vrindavana,
todo o ambiente se eleva para servir Krishna em todos os sentidos. Mãe
Yasoda está preocupada com Seus pés ternos e as jovens gopis também
estão preocupadas. Mas Krishna assegura-lhes que não há motivo para
preocupação. Ainda assim eles continuaram preocupados. A natureza de
Vrindavan-dham, a morada do Senhor, é tal que facilita o serviço de
Krishna em todos os sentidos.

No mundo material, estamos lutando contra a natureza para servir a


Krishna. Parece que estamos nos movendo contra a corrente. Mas quando
nos absorvemos plenamente na consciência de Krsna, descobrimos que a
natureza vem para nos servir e facilitar. Srila Sridhar Maharaj costumava
dizer em sua própria linguagem poética: "o ambiente é amigável". Mas nós
vemos o ambiente como hostil. Achamos que somos amigáveis, mas o
meio ambiente não está cooperando conosco. Mas a visão das grandes
almas, os maha-bhagavatas, é exatamente o oposto. O kanistha-adhikari
pensa: "Estou fazendo um serviço tão bom, mas outras pessoas não estão
cooperando. Eu poderia servir muito bem se outras pessoas simplesmente
parassem de me atrapalhar. Eles pensam: 'Eu sou um devoto. Todos os
outros, de alguma forma ou outra , se opõem à minha devoção”. E o
uttama-adhikari pensa exatamente o oposto. Ele vê todo mundo como um
devoto. Ele acha que tudo, mesmo coisas inanimadas, estão oferecendo
melhor serviço a Krsna do que ele mesmo. 'Apenas eu que não sou servo de
Krishna.'

Temos que pensar sobre as coisas que estamos fazendo no serviço


devocional. Devemos passar de kanistha-adhikari para uttama-adhikari por
esse tipo de discriminação que é característica do madhyama-adhikari —
pensar em coisas com introspecção. Eu posso não pensar como um uttama-
adhikari, mas eu deveria saber teoricamente como eles pensam. Tanto
quanto é compreensível, como é descrito no Bhagavatam, eu deveria tentar
compreender essa visão. As gopis estão oferecendo respeito às árvores, aos
cervos, à própria terra. O que está no coração delas?

Como diz o Bhagavatam, 'atma-varta nite jagat'. O que está em nosso


coração, projetamos isso, vendo isso nos outros. Então o prema das gopis, o
amor delas por Krsna, é tão grande que elas vêem a todas e a todos amando
Krsna melhor do que elas mesmas. Portanto, devemos tentar cultivar esse
tipo de pensamento de um modo geral, como um madhyama-adhikari, com
discernimento, consideração e introspecção em nossa cultura devocional. A
vida do sadhaka não é mecânica. É uma vida muito pensativa. Acaso a
escritura nos diz para não usar nossa capacidade mental e racional?

Queremos despertar nosso sva-dharma. Agora temos o dharma de acordo


com o karma, uma composição psico-fisiológica particular. Mas temos
outra natureza que devemos despertar, 'paro dharma'. Esta é a mensagem
do Srimad Bhagavatam, isto é Krsna dharma, 'ahuituki apratihata yayatma
suprasi dati, 'aquela pela qual o Ser supremo está plenamente satisfeito e,
por conseguinte, pelo qual estaremos plenamente satisfeitos. Isso é serviço
a Krsna, é sem causa, não é um produto do mundo de causa e efeito. Está
além do karma. É sem causa, é sem começo e é sem fim. E sua natureza é
tal que aqueles que possuem isto não terminarão nem se deterão em nada
para satisfazer Krishna. Toda Vraja está se movendo assim. Eles não
deixarão nada entrar em seu caminho para satisfazer Krishna. Isto é Krsna
dharma, paro dharma, prema dharma.

Vraja é diferente para pessoas diferentes. Mas para os devotos é o próprio


amor de Krsna tomando forma prática, manifestando-se. Podemos extrair
isso simbolicamente de muitas maneiras. Mas não de tal maneira que a lila
desapareça e se torne apenas um símbolo para outra coisa. Vraja é ser tudo
ou nada. É conhecida por muito poucas pessoas, Goloka. Muito, muito
raramente alcançada. Mas 'golokera prema dhama, hari nama sankirtana'.
Mahaprabhu está tornando isso amplamente disponível. Então, se
quisermos ir até lá, temos que pensar um pouco sobre o que é esse lugar. E
devemos ler o Srimad Bhagavatam assim. Se você quiser fazer smarana,
comece dessa maneira. Isso é prático. Não que você se sente e imite
grandes devotos e vá para o inferno. Estude o Srimad Bhagavatam: 'O que
é Krsna-lila? O que é Brahma-vimohan lila? O que é esse Dhenukasura
lila?

Dhenukasura lila — aqui estamos estudando o primeiro verso, Krsna entra


em pauganda lila, Ele se inicia como um vaqueiro, e descalço Ele entra na
floresta 'sakhibi-saman', Ele não está sozinho, Ele vai com todos os Seus
amigos. Mãe Yasoda diz 'Rama, você vai na frente, e Subal pela sua
própria natureza, é melhor você ficar atrás, e Sridama de um lado, outro do
outro lado. Protejam Krishna por todos os lados. Então Ele está indo
sakhibi-saman, com seus amigos e vacas, descalço, tornando o já
extremamente piedoso Vrindavan muito mais piedoso onde quer que Ele
ande.
E nós andaremos com Ele, através da floresta. Neste Dhenukasura lila,
tantas coisas boas são encontradas, tantos tesouros, tantas jóias. Os amigos
de Krsna são mencionados: Subal, Stoka-Krsna, Sridama, seus nomes são
dados neste capítulo. O lila de Baladeva, seu relacionamento como guru de
Krsna, também aparece. Krsna glorifica a floresta de Vrindavan, Ele
glorifica Baladeva. Balarama se deita, Krishna massageia seus pés.
Baladeva tem esse tipo de relacionamento com Krsna como seu guru, como
servo, e também como amigo — triplo.
Conforme essa lila progride no Bhagavatam, toda a lila pauganda é dada
em um estilo aforístico, como um sutra. Depois de matar Dhenukasura,
Krsna está retornando da floresta e Radhika e as outras gopis estão
cumprimentando-o quando Ele retorna. Olhando para Ele e Ele olhando
para elas neste purva-raga, onde o fogo do amor começa a queimar. Então
Ele se move para o kaliya-damana lila e dá um vislumbre de rasa-lila para
todas as gopis, dançando nas cabeças de Kaliya, oferecendo uma prévia por
assim dizer, 'Eu sou um bom dançarino — apenas veja!'

Devemos fazer kirtan, então nama-smaranam — nossa japa, então estudar


a lila de Krsna. Este é um tipo de smaranam. Queremos estudar o
Bhagavatam, o Décimo Canto assim, em boa companhia e captar o espírito
dele. E nós seremos cativados por isso. Não há nada mais poderoso para
cativar a mente do que isso. Nós devemos saber quando Krsna fez isso,
quando Krsna fez aquilo. Nós nos chamamos de devotos de Krsna, mas não
conhecemos nenhuma dessas coisas, não temos interesse. Então, ao invés
de tentarmos pular para a frente, façamos isso, estudemos o Srimad
Bhagavatam, especialmente o Décimo Canto, sob boa orientação, e então
gradualmente a lila despertará em nosso coração. Em todos os detalhes que
não estão abertamente aqui, eles sairão. Não são apenas detalhes
encontrados por outros acaryas, mas você encontrará seus próprios
detalhes. Você escreverá sua própria página no livro de Krsna lila e seu
nome será assinado na parte inferior, como Gopa Kumar. Ele se tornou
Svarup e foi colocado na comunidade de vaqueiros pelo próprio Krsna
quando ele entrou em Goloka. Ele se tornou amigo de Krsna pela krpa de
Radharani, que veio a ele na forma de seu Gurudeva. Portanto, não
prossigamos com nossa vida espiritual de maneira mecânica ou artificial —
mas de uma maneira real.

FIM DO ARTIGO
42. O JOGO DA VIOLÊNCIA

Quando nós retratamos violência em um drama nenhum dos atores são


verdadeiramente feridos. Essa é apenas uma brincadeira. Talvez se
pudéssemos nos afastar do drama da vida cotidiana e encará-lo como se
fosse apenas isso: Um drama no qual somos apenas testemunha, nós
poderíamos entender melhor a violência em nossas vidas do ponto de vista
da alma. Poderíamos ver que ninguém realmente se machuca. Isso é o que
o Bhagavad-gita precisamente advoga, e a partir da posição de testemunha
do drama humano, ao invés de se envolver nele, Sri Krishna nos convida a
sair do teatro do drama humano e aceitar o departamento de outro drama: o
jogo de Krishna (lila).
A lila de Krishna é um círculo maior dentro do qual o drama da
humanidade aparece como um círculo menor. No entanto, o círculo maior
da lila de Krishna ocasionalmente aparece dentro do círculo pequeno da
humanidade para ter um insight místico dentro da natureza de ambos os
dramas. Bhagavad-gita é um exemplo principal disso.
O conselho de Krishna no Bhagavad-gita representa o segmento mais
concentrado do tempo que ele leva instruindo diretamente a humanidade
através da sua lila na Terra. A partir disso, nós aprendemos tudo o que
precisamos saber sobre o drama da vida humana. Nós aprendemos o
mistério de como a inação pode se tornar ação, como a não violência dentro
da humanidade pode ser violência. Também queremos aprender tudo a
respeito da lila divina, para preparar nós mesmos para um papel nela,
incluindo o mistério de como a ação pode ser inação. Como a violência
dentro da lila divina pode ser não violência.
O mistério a respeito da descida de Deus dentro da humanidade, é discutida
no começo do capítulo 4 do Bhagavad-gita. Nessa introdução, Krishna
explica coisas Dele mesmo, que fez sua divindade aparente para Arjuna.
Arjuna entendeu que seu querido amigo é Deus mesmo. Aparecendo
misticamente dentro do mundo como se fosse um ator desse drama
humano. O Gita então explica o princípio do avatara. Entender esse
princípio é fundamental para o entendimento da natureza da guerra yoguica
(batalha de Kuruksetra), na qual Krishna implora a Arjuna para participar,
Krishna começa o capítulo 4 por explicar a história da ciência da yoga e
sua própria participação nessa disseminação a qual envolve sua instrução
ao Deus do sol Vivasvan, milhares de anos antes. Sua afirmação cria uma
dúvida na mente de Arjuna, e então Arjuna questiona seu amigo e mentor.
Arjuna diz: "Você nasceu muito depois que Vivasvan, deus do sol. Como
então eu posso entender que você instruiu ele previamente?" Por questionar
a respeito do recente nascimento humano de Krishna em contraste com o
nascimento celestial do antigo deus do sol, no alvorecer da criação, Arjuna
abre o caminho para que Krishna o ilumine a respeito da Sua onisciência,
Sua eternidade, a natureza mística de Seu aparecimento neste mundo.
Krishna diz: "Arjuna, ambos passamos por muitos nascimentos. Eu
conheço todos eles. Enquanto você, subjugador de inimigos, você não.
Apesar que Eu Sou o controlador de todos os seres, apesar disso, Eu
permaneço controlando minha energia material. Eu a manifesto pelo Meu
próprio poder interno”.
Aqui o verso 6, é particularmente significativo. Krishna diz que Sua
descida está sob a jurisdição da Sua potência primária (atma mayaya) e
que quando Ele desce permanece no controle da Sua potência secundária, a
natureza material (prakrtim svam). Isso é significativo por que nos diz que
Deus, quando desce, permanece alheio à influência que governa o drama
humano da natureza material. Além do mais, nós aprendemos que Deus
tem uma potência mística que causa o Seu aparecimento.

Essa potência especial é a potência primária que governa todas as


atividades pessoais e de Seus devotos perfeitos. Isso é Seu próprio poder
pessoal, constituindo Sua essência ou natureza intrínseca (svarupa). A lila
de Deus veio sob a jurisdição de Sua potência primária, ainda quando Ele
aparece dentro desse pequeno círculo do nosso drama humano, Ele nunca é
influenciado pela Sua potência secundária, sobre a qual Ele tem todo
controle. É independente das leis da natureza material, mesmo quando está
funcionando dentro da natureza. Por isso a partir do lila de Deus, nós
podemos esperar milagres na terra. A batalha de Kuruksetra envolve
semelhantes milagres. A participação de Arjuna também exige nada menos
do que um milagre, pois ele deve se tornar tão bom quanto Deus.

O Bhagavad-gita nos ensina o que isso acarreta. O ponto de partida é o


desapego dos frutos do próprio trabalho. Por que a lila de Deus não se
baseia na leitura equivocada das manifestações materiais que aparecem do
apego a elas. O tanto que uma pessoa está apegada aos objetos é o quanto
os seus olhos da objetividade estão obscurecidos. Então o desapego revela
a natureza do mundo e a necessidade de temunhá-lo, ao invés de projetar-se
nele. Além do mais, desapego genuíno aparece do insight místico que faz a
pessoa se afastar da influência da natureza material e isso está relacionado
com a base da não-violência dentro da lila de Deus.

Antes de discutir a lila de Deus ainda mais a profundidade, vamos


primeiramente examinar a natureza do apego material dentro do drama
humano e como isso fomenta a violência ainda quando se fala de não-
violência. Deveríamos olhar para a tarefa de Arjuna no Gita e ver como a
sua defesa inicial da não violência na verdade constitui violência. Iremos
discutir como o Bhagavad-gita inteiro advoga transcender os apegos
materiais e a violência que eles envolvem para que assim possa entrar na
lila divina e na vida absoluta da não violência. Retornando a lila de Deus,
nós examinaremos a batalha de Kuruksetra, em particular, a qual é um
excelente exemplo de não violência dentro da violência sob a jurisdição da
potência mística de Deus.
Enquanto a lila de Deus envolve desapego, o drama humano é baseado no
apego. Segundo o Gita, o apego ao fruto do trabalho é a base da
exploração, e, portanto, da violência.
As almas pensam que são realizadoras de atos que são na realidade
realizados pela natureza material. Assim, vive uma realidade virtual sob a
mão severa da lei kármica que governa tanto o psíquico quanto o plano
físico. É o desejo ou apego material da alma que faz com que a natureza
material reaja e aprisione a alma em sua teia karmica.

Apego e identificação com a matéria, as unidades de consciência imaginam


necessidades que, na realidade, são apenas relativas à matéria. A alma é
eterna, ela luta com a ameaça da morte quando identificada com a matéria,
pois a manifestação material tem sido identificada como não duradoura.
Sob a lei kármica, a alma se afasta de uma necessidade nascida da
identificação material.
Porque o corpo tem necessidades, aqueles que se identificam com ele se
sentem necessitados. Nós vivemos no drama humano à custa dos outros.
Aqui todos estão na tomada. Um ser vivo é alimento para outro. A não ser
que percebamos essa situação e procuremos uma solução abrangente para
ela, nossa doação será tingida com a obtenção, a não-violência com
violência. Nesse plano, nós devemos matar para viver, entretanto de forma
polida.

No drama humano, as pessoas são seus apegos. O desejo faz o mundo do


samsara girar. A tarefa que o Gita traz diante de nós é matar nossos apegos
e extinguir o desejo material que gera o drama humano. Isso nos pede
morte ao ego para viver sem luta, para estar livre da violência e de todas as
formas de exploração. Nossa identificação com a matéria, nosso ego
material, devem morrer se nossa alma quiser ter vida própria. É isso que
Krishna pede a Arjuna: Matar o seu ego material. Enquanto Arjuna, devido
a seus apegos materiais e identidade subsequente baseada nesses apegos,
escuta Krishna pedindo a ele que lute contra seus próprios parentes, mas na
realidade, Krishna lhe pede matar seus apegos e assim libertar sua alma.

Arjuna fala eloquentemente no primeiro capítulo do Gita, advogando a


inação e a não-violência em face da grande guerra fratricida. Mas antes de
fazer isso, ele pede a Krishna que conduza sua carruagem entre os dois
exércitos para que ele possa ver quem se reuniu para lutar. Krishna faz isso,
explicando que ambos os exércitos são um — os parentes de Arjuna, os
Kurus. Krishna pára a carruagem de Arjuna em frente de Bhisma e Drona
por uma boa razão. Esses dois personificam os apegos mais elevados de
Arjuna.
Eles representavam a sua carreira marcial e seus laços familiares mais
íntimos, Drona sendo seu guru militar e Bhisma seu avô, o qual tomou o
lugar de seu falecido pai ao criá-lo. Ao parar a carruagem de Arjuna em
frente esses dois guerreiros contra os que Arjuna teria que lutar, Krishna,
em seu primeiro ato do drama do Gita, fala fortemente para nós a respeito
da natureza do apego material e seu poder de distorcer a realidade. Todos
os argumentos de Arjuna para a não-violência, apesar de serem razoáveis e
válidos sob diferentes circunstâncias, equivalem a uma grande
racionalização decorrente de apego material. Ele não está disposto a
desmantelar sua identidade dentro do drama humano, quando o tempo para
fazê-lo chega por conta própria em acordo ao cronograma de Deus.
Arjuna fala de compaixão e desespero pensando na violência que
semelhante guerra iria acarretar. O pensamento de lutar com seus parentes
faz ele sentir como se estivesse perdendo a cabeça. Ele não vê como
qualquer bem pode vir da batalha. Ele sente que enquanto outros podem
estar cheios de cobiça de ganhar um reino e, portanto, preparados para
lutar, ele não está. Ele argumenta com base na importância de preservar a
tradição familiar, os princípios religiosos e muito mais. Ele conclui que o
pacifismo é o melhor caminho: “Seria melhor ser morto desarmado e sem
impôr resistência.” Novamente, todos os pontos positivos não foram
levantados neste contexto particular.
O contexto é que Arjuna está sentado diante de Deus no meio de Sua lila
tentando libertar Arjuna do drama ilusório humano. Apropriadamente, a lila
de Deus coloca Arjuna diante de todos os seus apegos materiais que
compõem seu papel no drama humano. Arjuna é um discípulo militar de
Drona e neto de Bhisma. Materialmente falando, nós somos nossos apegos,
e matar eles envolve desmantelar nossa persona ilusória, efêmera e
material, que é um pré-requisito para colocarmos nosso papel na eterna lila
de Deus.
A relutância de Arjuna em lutar e advogar a inação ou a não-violência não
são apenas grandes racionalizações para manter apegos materiais, do ponto
de vista da atuação de Deus, elas são uma expressão de violência. Sua
visível inação e não-violência são formas sutis de agressão passiva. Eles
são violentos para a alma porque implicam a ele ainda mais na escravidão
kármica. Tudo pertence a Deus, e quando imaginamos as coisas como
pertencentes a nós mesmos, não apenas negamos a propriedade de Deus,
nós transformamos os outros em objetos da nossa indulgência pessoal e
necessidades emocionais, visualizando-os através da lente de nossa
identidade mental/sensual imaginada. Nós reforçamos os papéis ilusórios
que nós e outras almas desempenham no drama humano, ao custo da auto-
realização e um papel na lila divina.
Desde a perspectiva da pureza espiritual, o drama humano é, em última
análise, autodestrutivo. Enquanto a consciência anima a matéria, os
movimentos subseqüentes da matéria obscurecem o fato de que a
consciência é seu animador. A consciência então perde para si mesma.
Quando uma pessoa atua dessa forma que obscurece completamente seu
potencial, esquecendo quem ela é, nós chamamos esse ato de violência de
autodestruição. Então, do ponto de vista do jogo de Deus, a medida em que
uma pessoa não está envolvida em transcender a potência secundária de
Deus torna o drama humano inteiro um ato de autodestruição.
Isso não quer dizer que a não-violência dentro do drama humano seja pior
que a violência manifesta. O Gita considera a não-violência uma qualidade
piedosa, e isso poderia se desenvolver numa pessoa a qual esteja cultivando
uma vida espiritual. Arjuna, entretanto, é um ksatriya, um guerreiro. No
esquema sócio-religioso do Gita, a violência qualificada tem um lugar na
área política. Isso é considerado religioso para um guerreiro lutar por uma
causa religiosa. Mas o Gita, embora surja desse quadro sócio-religioso, não
é, em última análise, uma orientação sócio-religiosa para a vida. Do ponto
de vista puramente espiritual da conclusão do Gita, mesmo a vida religiosa
voltada para a remuneração material nesta vida e a realização celestial na
próxima é uma forma de exploração e violência para a alma.
A grande maioria das pessoas não lê o Gita por motivações da vida sócio-
religiosa, mas sim para inspiração na vida espiritual. No Bhagavad-gita, tal
vida sócio-religiosa só é mencionada ligeiramente, com uma visão
enfatizando o fato de que a vida espiritual tem em sua fundação obediente,
uma vida responsável. Em todo o Bhagavad-gita, existem apenas oito dos
setecentos versos nos quais Krishna encoraja diretamente Arjuna a lutar,
porque isso é um dever religioso de um guerreiro. Esses versos só
aparecem porque Arjuna argumenta que seria irreligioso lutar na guerra e,
mesmo respondendo à noção equivocada de Arjuna, Krishna conclui essa
seção de versos com uma defesa da yoga. Quando entendido no contexto,
quaisquer outros versos no Gita que aparecem para defender a justiça de
um tipo religioso de guerra estão claramente dados em um estágio
particular de busca espiritual yoguica na qual Krishna quer que Arjuna se
ocupe.
A vida sócio-religiosa envolve colorir o drama humano com um toque
divino, enquanto a vida espiritual envolve transcender completamente o
drama humano e entrar na lila de Deus. Leitores modernos do
contemporâneo Bhagavad-gita querem aprender sobre a espiritualidade do
yoga e encontram que a batalha da vida é vencida quando o ego material é
morto. Pode ser um dever de um militar lutar por uma causa justa, mas
todas essas causas enfraquecem em consideração ao sofrimento da própria
alma. Do capítulo 1 até o capítulo 18, é essa situação com a qual o
Bhagavad-gita se preocupa, essa é a perspectiva mais elevada da alma.
De fato, apesar de que Krishna pareça à primeira vista buscar a lealdade de
Arjuna em termos religiosos, essa conclusão final diz a ele para abandonar
completamente os aspectos religiosos e se fixar firmemente na lila de Deus,
prestes a entrar nesse drama de devoção. Auto-entrega na devoção e, mais,
auto-esquecimento no amor constituem o palco no qual o drama da lila
divina é realizado, um drama e dharma que não deixa espaço para
exploração ou violência — nem mesmo suas expressões religiosas.
Após 18 capítulos de discussão, Arjuna finalmente entende do que se trata
o sermão de Krishna. Assim, Arjuna se rende à vontade de Krishna, depois
de entender a realidade de sua alma como uma espécie de drama humano e
sua perspectiva mais elevada na lila divina. Ele luta sem apego, rendido,
por amor a um plano onde a ação é inação, pois não é uma implicação
karmática: Onde a violência é uma não-violência.
Totalmente desenvolvido em yoga, tendo matado seu ego material e,
portanto, livre da teia da lei karmica, e agora sob a influência da potência
primária de Krishna, Arjuna luta na batalha de Kurukshetra. Como
aprendemos no começo do Gita, o campo de batalha de Kuruksetra é
dharma ksetra. É um lugar justo, tornado sagrado por nada menos do que o
encontro de Krishna com a Deusa Radha, alí mesmo, cinquenta anos antes.
Foi alí, no fundo da lila divina, que Krishna admitiu que ele foi conquistado
pelo amor de Radha. Aqui Krishna se torna o quadrigário de Arjuna.
Dentro da lila divina de Deus e o devoto no sagrado Kuruksetra, onde o
devoto se torna a divindade de Deus, o que parece ser violência é a não-
violência.
O que é a verdadeira não-violência? Quando uma pessoa entende a si
mesma como sendo apenas uma testemunha do drama humano, ela para de
atuar em relação a isso, portanto, não está presa às implicações karmicas.

Além disso, sua ação esclarecida e imparcial exerce um efeito libertador


sobre os outros. Removido do drama em si, e deixando de gerar um papel
nele para si mesmo, tendo extinguido o desejo material, a alma é
finalmente pacífica e verdadeiramente não-violenta. Ele saiu da frenética
realidade karmica virtual ameaçadora à vida e alcançou a paz duradoura.
Não há tempo, ao que parece, para a guerra. No entanto, é a guerra, a
Batalha de Kurukshetra, que, apesar da evolução e compreensão yoguica de
Arjuna, Krishna pede que ele lute. Que tipo de guerra é esta então? Não é
uma guerra dharmica religiosa ordinária, embora tudo o que é religioso
esteja incluído em seu escopo. É uma guerra de prema-dharma, o dharma
do amor que constitui a lila de Deus.
O jogo de Deus não é ação que nasce de qualquer necessidade. Pode ser
bom concluir que, uma vez satisfeito, não há razão para se mover. Desejo
— necessidade — faz com que alguém se mova e gere uma falsa identidade
no drama humano. Livre do apego do desejo, por que uma pessoa deveria
se mover? A paz tem mais para nós do que todo o movimento do mundo.
Enquanto o Gita raciocina dessa maneira em termos inequívocos, a Canção
de Deus oferece também um raciocínio ainda melhor. Krishna diz a Arjuna
que, se alguém está verdadeiramente satisfeito e completo em si mesmo,
outro tipo de movimento é ordenado, o de celebração no serviço divino. Tal
é o movimento dentro da lila divina. Uma celebração de sua plenitude, a
lila de Deus transborda para a sociedade humana.
Pela lei da natureza — a influência da potência secundária de Deus —
todos morrerão apenas para nascer de novo, mas quando o jogo de Deus
vem dentro do drama humano, qualquer morte que ocorra está sob a
jurisdição da potência primária de Deus. A morte no jogo de Deus é
libertadora. Aqueles sob a influência da potência secundária de Deus que
entram em contato com Seu lila são liberados. Eles alcançam a liberdade da
realidade karmica virtual sem ter que passar pela árdua batalha da yoga.
Eles descansam na paz eterna de mukti, enquanto aqueles como Arjuna que
participam conscientemente da lila divina alcançam o fruto pleno da yoga
em celebração eterna. O que então foi o derramamento de sangue da
Batalha de Kurukshetra?
O contraste encontrado no Gita entre o pensamento de assassinar milhões
de pessoas — incluindo seus próprios parentes — e o estado puro de
consciência que Krishna deseja que Arjuna alcance deve ser notado e
ressaltado. Esse contraste está aqui para nos ensinar o quanto o devoto de
Krishna é puro e quão elevado é o papel de Deus. Em toda a Gita, Krishna
ensina a Arjuna o que significa estar livre do falso ego, não identificado
com os movimentos do corpo, renunciado, altruísta e assim por diante. Isso
não é uma realização pequena, e esse estado de consciência não pode ser
imitado. Por mais que Arjuna esteja triste diante da perspectiva de guerra,
ele fica impressionado com o que Krishna está lhe ensinando a ser.
A participação de Arjuna na guerra santa de Kuruksetra requer que ele seja
puro no mais alto sentido — livre de todo o preconceito, e sobretudo o
preconceito religioso. A possibilidade de abusar desse ensinamento do Gita
que leva ao antinomianismo (Doutrina Luterana que prega ser a fé a única
fonte de salvação) e a uma injusta assim chamada guerra religiosa é
verificada consideravelmente pelo padrão de consciência descrito
detalhadamente no texto. A pessoa a qual “não é culpada mesmo quando
mata muitas pessoas” e “a pessoa que de fato, não mata” é “livre de todo
egoísmo e puro no intelecto”. Ele alcançou um status parecido ao de Deus e
não precisa lutar, não precisa se esforçar.
Um estudo cuidadoso revela que é praticamente inimaginável que alguém
possa alcançar esse estado, mas a boa notícia do Gita é que é realmente
possível ser uma pessoa assim — um devoto — e que esta é a perfeição da
vida. Isso envolve um estado de consciência em que, por uma questão de
ênfase, até mesmo a violência é a não-violência. Tão inimaginável quanto
este estado exaltado é, assim como a batalha de Kuruksetra.
Diz-se que 640 milhões de guerreiros morreram na batalha de 18 dias em
um território de 80 milhas de circunferência. E quais eram as armas da
guerra? Arcos e flechas empoderados pelos mantras que produzem armas
nucleares extremamente sofisticadas de destruição em massa.
Isto constitui a maior carnificina humana na história do mundo, na qual
morreram oito vezes mais pessoas do que o número de civis e soldados
perdidos em todas as guerras do mundo moderno juntos. Além disso, diz-se
que o armamento da guerra era superior a qualquer coisa conhecida pela
humanidade neste momento, ainda que nós não temos memoriais de guerra
para nos lembrar da tragédia, nenhum cemitério, nenhuma arma para
replicar, nada para para lembrar ou documentar a guerra, só mesmo o
imortal Bhagavad-gita. Será que isso realmente ocorreu?
Sim e não. A batalha não é um evento histórico que pode ser documentado
com metodologia moderna, nem é algo que poderia ter acontecido dentro
do reino da possibilidade humana. No entanto, se a guerra é meramente um
mito, então ou não há nenhum jogo de Deus dentro do drama humano ou o
Bhagavad-gita e a Batalha de Kuruksetra não fazem parte da lila divina.
Segundo o Gita, nenhum desses dois é uma opção. Assim, chegamos à
conclusão de que a batalha aconteceu e não ocorreu. Sua violência é não-
violência.
A história dessa guerra é a história inconcebível do círculo maior da lila de
Deus que vem com o círculo menor do drama humano. Como isso pode ser
documentado? Através da prática de bhakti-yoga, a yoga do amor. Na
consciência do amor puro por Deus, os devotos maduros escutam a concha
de Krishna anunciando a vitória do dharma do amor enquanto ele encena o
drama do Bhagavad-gita e comanda Arjuna a tomar parte na batalha
yoguica de Kurukshetra — um evento infinitamente mais real para os
devotos percebidos do que o drama ilusório e mítico da má identificação da
humanidade com a matéria. Ela abre para eles a porta para um reino de
possibilidade que não pode ser encontrado dentro dos confins da matéria.
Na terra natal da alma, nada é impossível. É aqui que a peça de Krishna,
com todas as suas ramificações teológicas e filosóficas, é eternamente
praticada.
O jogo de Krishna é tão humano quanto divino. No drama da lila de
Krishna, muitas coisas ocorrem sob a influência de sua potência primária
que não se encaixa perfeitamente no cálculo material. Assim como no
drama acontecem coisas que não acontecem no “mundo real”, as coisas
acontecem na lila de Krishna que não correspondem ao nosso senso de
possibilidades. A lila de Krishna é despreocupada, e ao mesmo tempo é
maravilhosamente preenchida com conhecimento, lições pelas quais a
humanidade pode realizar seu próprio potencial para o amor.
Krishna brinca, e através desta brincadeira Ele nos ensina e atrai. Arjuna é
encorajado pelo Deus mais amoroso a ser instrumental na morte de 640
milhões de pessoas, e como se isso fosse pouco, alguns deles eram seus
próprios parentes. Por que Krishna não parou a guerra e converteu
Duryodhana por outros meios? Certamente Ele tinha o poder para fazer
isso. A razão é que esta era Sua lila, Seu drama pessoal em que ninguém é
realmente morto, e através do qual Ele nos ensina tudo o que precisamos
conhecer para ser absolutamente não-violentos.

FIM DOARTIGO
43. A GRANDE CIRCUNFERÊNCIA

A misericórdia de Sri Nityananda Prabhu.


Por Srila Bhakti Raksak Sridhar Dev-Goswami Maharaj
Sri Nityananda Prabhu está lá para consolidar o fundamento, a base. Isso
nos ajudará a fazer mais progresso. O progresso rápido sem uma boa base
pode provocar reações. Nosso fundamento vem de Nityananda Prabhu,
Gurudev. Que o fundamento não desapareça é a necessidade primária.
A misericórdia de Sri Nityananda Prabhu às vezes excede a de Sri
Caitanyadev. Caitanyadev às vezes não pode aceitar os caídos: Se um mau
precedente pode ser criado ao fazê-lo, então Ele não pode aceitá-lo, e então,
ele precisa considerar o status e a posição dessa pessoa entre outras coisas.
Mas a misericórdia de Nityananda Prabhu não se importa com nenhuma
circunstância desfavorável. É tão exuberante e cega. Não diferencia entre
pecadores de diferentes graus: Ele abraça a todos. E Mahaprabhu não pode
rejeitar a recomendação de Nityananda Prabhu. Esta é a conexão que nos é
dada a entender: Nityananda Prabhu deu abrigo mesmo àqueles a quem
Mahaprabhu rejeitou, e gradualmente Mahaprabhu teve que aceitá-los.
Então, a magnitude e a circunferência da graça de Nityananda é a maior.
Para nós, as almas mais caídas, esse é o nosso consolo.
bhaja gauranga kaha gauranga laha gaurangera nama
ye jana gauranga bhaje se haya amara prana
O dever de Nityananda Prabhu está concentrado em trazer todos para
Gauranga. Ele chama todo mundo para cair aos pés de Gauranga. Nada
mais é necessário. Tudo o mais, a maior fortuna, será alcançada
automaticamente. Ele simplesmente chama, recolhe as almas e as joga na
poeira dos pés de Gauranga. Nada mais é necessário, quem quer que seja:
Um muçulmano, uma pessoa de baixa classe, ou de outro jeito. Erudição e
a chamada pureza moral ou material não são necessárias.
Se alguém, mesmo que seja do tipo mais baixo, tiver conexão com os pés
de Gauranga, então todas as suas desqualificações podem ser removidas em
um segundo. Gauranga é tal pedra de toque, e qualquer coisa que Ele
converte não se torna uma joia de classe média, torna-se uma joia da mais
alta classe. Ele é tal pedra de toque.
Nityananda costumava vagar pelos dois lados do Ganges chamando todos e
todas: “Vem! Junte-se ao grupo de Sri Gauranga!
bhaja gauranga kaha gauranga laha gaurangera nama
ye jana gauranga bhaje se haya amara prana
“A vida da Minha vida é aquela que veio para se abrigar sob a direção de
Meu Senhor Gauranga. Ó almas caídas, reúnam-se e implorem ao Senhor
Gauranga por Sua graça! Automaticamente você se encontrará em
Vrindavan. Todas as coisas indesejáveis dentro de você serão liberadas em
pouco tempo e, inconscientemente, seu eu interior primitivo emergirá e
descobrirá de repente que está no meio do solo desejado, Vrindavan, que é
preenchido com a mais maravilhosa parafernália; você vai achar que está
em casa, de volta em casa. Consiga um ingresso aqui em Nabadwip e você
chegará rapidamente a sua casa.”
Nós obteremos tudo pelo coração mais magnânimo de Nityananda Prabhu.
hiena nitai videira bhai radha-krsna paite nai
drdha kari 'dhara nitaira paya
(Prarthana: 37.1)
Segure firmemente os pés sagrados de Nityananda. Tudo o mais virá para
você automaticamente. Gauranga virá, e quando Gauranga vier, tudo vem.
FIM DO ARTIGO
44. SEGUIR CEGAMENTE A DINÂMICA DA VIDA ESPIRITUAL

Novos tempos novas edições


Prabhupada traduziu e comentou sobre o Gita apesar das duas edições de
Thakura Bhaktivinoda. Ele traduziu e comentou sobre o Upadesamrita e
Caitanya Caritamrita, embora Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura já tivesse
feito isso. Ele escreveu suas próprias edições desses livros em vez de
simplesmente traduzir as edições de seu guru para o inglês. Uma pessoa
poderá encontrar isso em toda a sampradaya. Não há lei ou tradição que
restrinja um discípulo a traduzir e comentar um livro que seu guru já
traduziu e comentou. Fazer isso não implica que o discípulo se sinta melhor
que seu guru. Aqueles que pensam assim não entendem a dinâmica da vida
espiritual. Eles estão seguindo cegamente depois de tantos anos. Embora
isso possa ser bom no começo, deve ser substituído pelo pensamento
espiritual, que é um sintoma do progresso espiritual.
O próprio Krsna disse: "Aquele que explica este supremo segredo para os
Meus devotos se ocupa na devoção mais elevada a Mim. Ele virá a mim,
sem dúvida. Ninguém neste mundo é mais querido para Mim do que ele,
nem jamais haverá alguém na terra mais querido para Mim ".

Srila Prabhupada e suas filhas espirituais


À luz do conceito do parampara, ou sucessão de gurus, se explica a
tradição em relação ao tempo e às circunstâncias e cujo ensinamento,
enquanto constitui uma distribuição divina, transborda o dominio da
reforma social. Caitanya Mahaprabhu representa o zênite da distribuição
divina, mas Ele também é conhecido como um reformador social. Com
relação ao lugar das mulheres na sociedade de Bengala, em particular, Ele
melhorou consideravelmente sua condição.
Prabhupada não foi diferente. De fato, já houve algumas críticas sobre ele
de membros de outras missões de Gaudiya por sua política liberal em
relação às mulheres. Por exemplo, ele envolveu as mulheres de maneiras
que outros, até mesmo seu próprio guru, não permitiram. Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura não permitiu que as mulheres vivessem no mosteiro,
cantassem e dançassem juntas na mesma sala que os homens, que
cozinhem para a Deidade do templo ou que se ocupem diretamente no seva
puja da Deidade do templo.
Prabhupada permitiu que as mulheres fizessem todas essas coisas e, em
muitos casos, dava às mulheres a posição de chefe de pujari ou
encarregada do serviço diário da Deidade. Ele também permitia que as
mulheres viajassem com ele como sua cozinheira pessoal às vezes. Os
discípulos de Prabhupada consideram estas coisas como certas, como se
fossem a normais, mas outras pessoas de fora da missão de Prabhupada
freqüentemente consideram estas políticas como desvios.
É verdade que Prabhupada manteve sua posição, a qual pode ser
considerada sexista por alguns hoje em día, em consideração ao
pensamento moderno. Mas em relação à sua própria tradição e antecedentes
culturais, ele era frequentemente visto como alguém que cedia ao
pensamento moderno. Na realidade, ele não era nem sexista nem
comprometedor. Ele estava divulgando os ensinamentos essenciais de Sri
Gaurangadeva à luz dos tempos modernos através do filtro cultural de sua
própria experiência passada. Em seu Sri Krsna-samhita, Bhaktivinoda
Thakura reconhece o viés (parcialidade) cultural através do qual a
divindade se expressa e convida aos seus leitores a distinguir o relativo do
absoluto em sua abordagem das escrituras.
Embora a fé divina seja superior ao intelecto, ela deve passar no teste da
razão para ser assim. Então, com a razão totalmente à sua disposição, a fé
divina conquistará tudo.

Vallabha e madhurya
No pusthi marga de Vallabha, madhurya rasa também é cultivada por
alguns devotos. De acordo com os Gaudiya Vaisnavas, o próprio Vallabha
recebeu iniciação de Gadadhara Pandita em busca dessa melosidade. Isso é
mencionado no Caitanya Caritamrita.

O rasa especifico é de cada um


É verdade que a maioria dos devotos de pusthi marga adora Bala Krsna e
parecem estar atraídos por vatsalya rasa. Não tem problema. Na medida
que se avança, a atração natural se manifesta e isso geralmente corresponde
à atração do guru. Caso contrário, um arranjo será feito desde cima, como
no caso de Syamananda.

O que está por trás do som


O jazz obviamente evoluiu e a consciência por trás dele é às vezes muito
mais espiritual do que quando apareceu pela primeira vez, como no caso de
Coltrane, cuja música introduziu ragas indianas para muitos no Ocidente.
Independentemente da forma de arte de alguém, o espírito que esta por trás
dela, a consciência da pessoa, é a que terá um efeito sobre seus ouvintes.
Ao mesmo tempo, algumas formas de arte evoluíram a partir da
consciência sattvica (bondade), enquanto outras evoluíram a partir da
consciência rajasica (paixão) e tamasica (ignorância). Se pode ter uma
forma de arte sattvica com consciência rajasica/tamasica por trás dela, e
uma forma de arte rajasica/tamasica com consciência sattvica por trás
dela.

Desenvolver amor por Krishna


Cantar é a melhor maneira de desenvolver amor por Krishna. Faça-o
atentamente e observe que seu efeito se manifesta em sua vida cotidiana em
termos de desenvolver 'jiva daya', bondade para com todos os seres.
Comece com isso e avalie seu canto de acordo. Se o seu coração não é
purificado do egoísmo e suavizado para os outros, o seu canto não é
atencioso. Preste melhor atenção e reúna conhecimento em relação a
Krishna.
FIM DO ARTIGO
45. ESCUTANDO DE UM RASIKA ACARYA

Nos foi dito por Srila Bhakti Pramode Puri Goswami Maharaja que seu
Guru Maharaja, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, era muito
rigoroso ao ler ou escutar até mesmo os passatempos infantis de Krsna, o
que falar de ler ou escutar os passatempos amorosos do Senhor com as
gopis. Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, como um método de
prática, nunca recomendou tal coisa. Portanto, descobrimos que os
discípulos de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura nunca se entregaram
a tais assuntos no curso de suas atividades de pregação. Tópicos mais
elevados sempre foram reservados para os devotos mais qualificados do
Senhor. Os passatempos de Radha Krsna nunca foram levados ao público
ou aos ouvidos dos devotos neófitos. Na verdade, não há diferença entre
cantar puramente Hare Krsna e os passatempos de Radha Krsna, salvo e
exceto que o canto do santo nome é a posição mais segura. Portanto, é
aconselhável que se ouça o santo nome de Krishna. Srila B.P. Puri
Goswami Maharaja também gostava de dizer: "Tome um abrigo completo
do santo nome de Krsna e haverá menos comoção e mais promoção".
Apenas considere. Se, enquanto ainda estiver sujeito ao desejo sexual,
alguém tentar ouvir os passatempos de Radha e Krsna, mas falhar em
controlar a mente e nesse ponto permitir que algum pensamento prejudicial
entre, então uma grande ofensa será cometida. Nós ouvimos de Srila B.R.
Sridhara Deva Goswami Maharaja que quando tal ofensa é cometida contra
a lila do Supremo Senhor, os guardiões daquele plano tomarão nota e o
infrator poderá ser impedido de entrar ali para sempre. Certamente isso
deve ser levado muito a sério. Para nos salvar de um fim tão infeliz e
desafortunado, o processo recomendado para alcançar a purificação é
Krsna-Kirtan (cantar o santo nome) e não smaranam (o processo de
lembrança de lilas). O Srimad Bhagavatam, Srila Jiva Goswami,
Krishnadasa Kaviraja Goswami, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura,
nosso Prabhupada e muitos outros sadhus deram ênfase ao kirtan como o
processo mais efetivo para esta era.
kaler dosa-nidhe rajann asti eko mahan gunah
kirtanad eva krsnasya mukta-sangah param vrajet
"A era de Kali, o repositório de todos os males, tem apenas uma
característica gloriosa: Nesta época, aqueles que simplesmente cantam o
santo nome de Krishna são liberados e alcançam o Senhor Supremo".
(Bhagavatam12.3.51)
nama-sankirtanam yasya, sarva-papa-pranasanam
pranamo duhka-samanas, tam namami harim param
"O santo nome de Krishna pode nos aliviar de todas atividades
indesejáveis, todas as características imundas e todas as misérias. Vamos
todos nos curvar a Ele." (Bhagavatam 12.13.23)
bhajanera madhye srestha nava-vidha bhakti
krsna-prema. 'krsna' dite dhare maha-sakti
tara madhye sarva-srestha nama-sankirttana
niraparadhe nama laile paya prema-dhana
"De todas as formas de serviço divino, nove formas são superiores, que
com grande potência conferem aos devotos amor por Krishna e sua relação
pessoal com Ele; e das nove, o melhor é nama-sankirtan, o canto
congregacional do santo nome. Ao tomar o santo nome sem ofensas, o
tesouro do amor pelo Senhor é alcançado ". (CC. Antya 4.70,71)

Não apenas o processo do kirtan é recomendado pelo sastra (escritura),


todas as outras formas de prática devocional são subservientes ao kirtan.
yadyapy anya bhaktih kalau karttavya, tada
kirtan-akhya-bhakti-samyogenaiva
"Na Kali-yuga, das nove formas básicas de práticas devocionais, as formas
além do kirtan certamente deveriam ser praticadas, mas elas devem ser
conduzidas de forma subserviente ao kirtan." (Bhakti-sandarbha, sankhya
273)
Pode-se argumentar que, a menos que o santo nome seja cantado
puramente, ele não terá qualquer efeito, enquanto os passatempos do
Senhor são imediatamente prazerosos e purificadores. Mas este é um falso
argumento. Mesmo antes de o santo nome ser cantado puramente, ele tem
um efeito purificatório. Nama-bhasa é o estágio do canto antes que
suddha-nama (canto puro) seja alcançado. O canto contínuo durante o
estágio de nama-bhasa gradualmente nos promove a suddha-nama.
Os passatempos do Supremo Senhor são supramundanos e não podem ser
compreendidos ou apreciados pela mente e sentidos mundanos que são
cobertos pela luxúria. Pensar em Radha e Krsna quando alguém ainda é
uma alma condicionada, o que falar quando alguém está sofrendo de desejo
sexual, é no mínimo uma coisa ilusória. Isso quer dizer que a chamada
meditação neófita não tem contato real com o plano da realidade em que
Radha e Krsna estão situados. Em outras palavras, entrar em contato com a
lila de Radha e Krishna não é uma coisa deste mundo. É preciso atravessar
muitos planos inferiores antes de chegar à plataforma transcendental.
upajiya bade lata 'brahmande' bhedi 'yaya
'viraja' brahmaloka 'bhedi' paravyoma 'paya
tabe yaya tad upari 'goloka-vrndavana'
krsna-carana'-kalpavrkse kare arohana
"A trepadeira da devoção nasce e cresce para perfurar o muro do universo.
Ela atravessa o rio Viraja e o plano Brahman e alcança o plano Vaikuntha.
Então, cresce até Goloka Vrndavana, finalmente alcançando abraçar a
árvore dos desejos aos pés de lótus de Krsna. " (CC Madhya 19.153,4)
Este é o golpe mortal para os comerciantes de sentimentos. Eles querem a
rasa-lila que está situada no plano mais elevado da divindade, mas eles
querem essa experiência através do ajustamento intelectual, não pagando o
preço real. Na linguagem de Srila Bhaktivinoda Thakura, essas pessoas são
conhecidas como pukura-curiwale, ladrões de lagoas.
Descobrimos que Sri Caitanya Mahaprabhu às vezes se absorve em
pensamentos sobre a lila de Krsna. Quando o Senhor entrou em contato
com esse plano de consciência, Ele manifestou sintomas extáticos, como
tremor, vacilação da voz e inconsciência. Ele às vezes suava sangue e Seus
membros às vezes se contraíam dentro de Seu corpo. O Senhor manifestou
esses sintomas como resultado da conexão com o plano transcendental.
Srila B.R. Sridhar Deva Goswami Maharaja costumava dizer; "Nós
devemos apenas conjeturar o ideal. Mas se nós pensamos que nós o
alcançamos, tudo está terminado. Nós conseguimos outra coisa. É uma
coisa dessas, adhoksaja. Qualquer força de nossa mente ou inteligência
nunca pode capturá-la. Avan manasa gocara. Essa existência transcende
nossa especulação mental e também a consideração de nossa sensatez. Mas
ainda existe."
A purificação da mente e dos sentidos é necessária se quisermos progredir
para o plano transcendental e que a purificação é mais substancialmente
alcançada ao nos abrigarmos no santo nome de Krishna. Essa foi a opinião
de Sri Caitanya Mahaprabhu.
ceto-darpana-marjanam bhava-mahadavagni-nirvapanam
sreyah-kairava-candrika-vitaranam vidya-vadhu-jivanam
anandambudhi-vardhanam prati-padam purnamrtasvadanam
sarvatma-snapanam param vijayate sri-krsna-sankirtanam
"Todas as glórias para o cantar do santo nome do Senhor Krsna, que pode
limpar o espelho do coração e parar as misérias do fogo ardente da
existência material. Esse canto é como a lua crescente que espalha o lótus
branco da boa fortuna para todos os seres vivos. É a vida e a alma de toda a
educação. O cantar do santo nome de Krsna expande o oceano de bem-
aventurança transcendental, dá um efeito refrescante a todos e permite
provar o néctar completo a cada passo. "
Algum cavalheiro escreveu em uma publicação recente que qualquer um
que diga que não devemos ouvir a narração de Krsna-lila com as gopis é
certamente um ateu. Mas se seguíssemos essa linha de pensamento, até
mesmo os Mahajanas (grandes devotos) teriam que ser considerados ateus.
O fato é que aqueles com alta consideração pela Divindade sempre lidam
com a Divindade com a maior cautela, de modo que a ofensa não seja
cometida. Os neófitos, portanto, não deveriam se preocupar com a narração
do lilas de Krsna, tanto quanto deveriam se preocupar com o santo nome de
Krishna. Deve-se primeiro render-se ao santo nome. E se alguém é um
discípulo de um mestre espiritual fidedigno, deve primeiro preocupar-se
com as instruções desse mestre espiritual. Esse é o caminho do avanço na
consciência de Krsna.
FIM DO ARTIGO
46.TRANSPLANTES E TRANSFUSÕES

Transplantes: Contrários às leis de Deus?


Hoje em dia, a ciência e o avanço médico acerca de transplantes de órgãos,
pesquisas com células-tronco, bioengenharia e modificação genética, são
de grande interesse porque forçam o Gaudiya Vaisnavismo a ter uma nova
visão sobre tudo, pois a ciência e a tecnologia que os tornaram possíveis
hoje não eram prontamente disponíveis séculos atrás, quando as escrituras
Gaudiyas foram escritas. Assim, eles trazem questões éticas e espirituais
para as quais o Gaudiya Vaisnavismo não tem respostas, já que não há
versos nas escrituras aos quais os devotos possam se referir que
responderiam definitivamente a todas as perguntas que muitas dessas
descobertas médicas apresentam.
Talvez a ênfase apropriada aqui é que a humanidade pode pensar
profundamente antes de adulterar significativamente a natureza. Reverência
para a natureza é importante. Não é apenas superstição. Os sistemas da
natureza são ilimitadamente complexos e poderosos, e nós,
individualmente ou coletivamente, somos apenas uma parte menor da
natureza. Na busca de avanços a curto prazo, que são às vezes somente tão
longe quanto podemos ver (especialmente para aqueles que não têm uma
visão espiritual do mundo), o resultado a longo prazo pode muitas vezes ser
desastroso. Portanto, é importante determinar valores. Que tipo de
humanidade é mais desejável? Será que nossos saltos tecnológicos ou
científicos tornarão as pessoas mais gentis e compassivas?
Por exemplo, se através da genética a maneira como abordamos a medicina
é significativamente alterada no futuro, ela contribuirá para um mundo
mais amável? Está dito que, se nós sabemos, desde o nascimento, pelo
estudo dos genes de uma criança, que ela provavelmente desenvolverá uma
doença potencialmente fatal, então como isso alteraria a forma como a
sociedade se relaciona com essa criança? Ele ou ela será capaz de obter um
seguro de saúde? Será que ele ou ela será menos desejoso ou a qualidade de
sua vida - a sacralidade da vida - continuará a ser honrada? Seria desastroso
se, através dos avanços tecnológicos, vivêssemos mais.
Afinal de contas, apesar da teoria evolucionária posicionar que quanto mais
complexo um organismo é, mais avançado é, porque tem o poder de
dominar os outros e sobreviver, nossa sensibilidade humana vem dizendo
que as espécies mais avançadas deveriam ser mais amáveis, e isso pode
nem sempre ser assim. Eu sempre disse que o único cenário apocalíptico
que fazia muito sentido para mim – que tinha mais potencial para se tornar
realidade – era ambiental. A linha entre ser um guardião da natureza e
brincar de Deus é muito fina. Na medida em que errarmos de um lado,
perderemos significativamente.
Os transplantes de órgãos não negam a oportunidade de fazer uma jornada
de cura. Certamente, muitos oram antes e depois do transplante, e
submeter-se a tal procedimento médico requer que alguém seja tão
introspectivo sobre a vida espiritual quanto qualquer outra situação
arriscada da vida. Além disso, às vezes os bebês nascem com órgãos
defeituosos, e os transplantes são sua única chance deles sobreviverem até
o ponto em que suas faculdades mentais são desenvolvidas o suficiente
para permitir “alcançar a Deus".
Caso contrário, reconhecemos que o mundo está cheio de corrupção, mas,
qualquer corrupção que exista no estabelecimento médico, não coloca o
transplante de órgãos no mesmo nível do aborto. A medicina moderna
também está cheia de boas intenções e o transplante de órgãos é louvável
por quase todos como uma grande conquista. Durante a década passada, os
cientistas têm feito grandes avanços na regeneração de órgãos e tecidos
danificados. Eles produziram células hepáticas, pele, osso e cartilagem com
sucesso, e agora há sinais promissores de que a bexiga pode ser cultivada e
transplantada sem medo de rejeição. Os cientistas também estão cultivando
órgãos de células do próprio destinatário. No futuro, o transplante de
órgãos cultivados a partir de suas próprias células pode ser uma prática
comum.
Em qualquer caso, a pessoa tem a opção de receber ou rejeitar o
procedimento - doar órgãos ou não doá-los, então por que se deveria tentar
dissuadir as pessoas instruídas de endossarem essa prática? Embora
permaneça aberto a um raciocínio bem ponderado e verdadeiramente
convincente contra o transplante de órgãos, isso não é encontrado em sua
declaração. O único argumento que se oferece contra a prática é que ela é
antinatural e, então, contra a lei de Deus. O mesmo argumento poderia ser
usado contra todo desenvolvimento tecnológico desde a revolução
industrial. Rotular as descobertas científicas que não gostamos como anti
naturais enquanto abraça outros desenvolvimentos da ciência parece
questionável. Quem não dirige ou anda em um veículo motorizado? Nosso
param guru Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura fez isso em uma
época em que o protocolo religioso para um sannyasi ditava o contrário.
Sua mensagem era que todas as coisas da nova tecnologia deveriam ser
oferecidas em serviço a Krishna.
Quanto ao tratamento da causa raiz da doença, bhakti é o único método
viável. Por quê? Porque de acordo com a escritura, a doença é causada pelo
karma, que em última análise está enraizada na ignorância da alma
(avidya). Mesmo o conhecimento transcendental (jñana) não pode curar a
doença porque ele não tem o poder de parar o karma que já está
manifestado (prarabdha-karma). As escrituras dizem que somente bhakti
tem esse poder. Então, se nós estamos seguindo esse raciocínio de que a
medicina moderna não trata a raiz, seríamos levados à mesma conclusão
em relação à medicina naturopática, à medicina homeopática, à acupuntura,
a quiropraxia ou a qualquer outra coisa - que eles tratam os sintomas sem
chegar a raiz porque eles não envolvem pessoas em suddha-bhakti. Por esta
linha de raciocínio ouvir e cantar Krishna Nama é a única cura real para a
doença. Não há dúvida alguma disso, mas não insistimos que nenhuma
outra abordagem para tratar doenças vale a pena ser ressaltada.
Interessantemente, há uma série de histórias nos Puranas sobre o
transplante de órgãos. Em um deles é dito que Siva transplantou a cabeça
de um elefante para seu filho Ganesa. Srila Prabhupada não era contra
transfusão de sangue nem transplante de órgãos. Também me chama
atenção que um respeitado Acarya de Gaudiya acaba de receber uma
transfusão de sangue. Assim, no geral, podemos concluir que não existe
uma proibição no Gaudiya Vaisnavismo contra esses dois procedimentos
médicos, apesar que eu sinta que pode haver uma distinção sutil entre
transfusões de sangue e transplante de órgãos, em que o sangue é
constantemente regenerado.
Os devotos acreditam que um órgão é uma manifestação do prarabdha
karma de uma pessoa e que o corpo de um devoto (sadhaka-deha) é
especial porque é um corpo material que gradualmente se torna
espiritualizado e livre de karma através da energia interna de Krishna
(svarupa-sakti). A morte está sendo dita como a expiração do seu
prarabdha-karma, mas no caso de um transplante, o órgão e o karma
parecem viver e se tornar parte do karma de outra pessoa.

Então, uma coisa a dizer é: “Eu não sou este corpo” e outra é dizer: “Este
corpo pertence ao Guru e Krishna”. O primeiro é o Vedanta - o segundo é
bhakti. Nós bhakti-vedantinos não somos livres para fazer com nossos
corpos o que nós queremos, ou como o mundo secular dita, porque a
tradição enfatiza o respeito do sadhaka-deha, e isso é considerável. Este
respeito não é apenas para aqueles que aperfeiçoaram seu sadhaka-deha,
mas para todos os devotos e, finalmente, para bhakti. Vemos o corpo como
um templo sagrado de Deus, uma visão trazida à vida pelo praticante sério
e apoiada por uma riqueza de filosofia. Assim, a ideia de dissecar e
desmembrar um corpo que tem sido completamente dedicado ao serviço de
Krishna a fim de doar seus órgãos pode ser um tanto inquietante para a
maioria dos devotos, e com razão. No entanto, se um Vaisnava por
compaixão pelas pessoas em geral opta por doar seus órgãos, seria difícil
argumentar contra tal ato de misericórdia. Por compaixão, Vasudeva, o
uttama bhagavata, que era leproso, permitiu que os vermes se
alimentassem de seu corpo, e se eles caíam, ele os pegava e os colocava de
volta. Quem pode argumentar com isso?
FIM DO ARTIGO
47. SADHANA/SADHYA, O CAMINHO E O OBJETIVO

George Harisson e sua relação com Krsna-bhakti


George Harrison foi um grande amigo do movimento de Srila Prabhupada,
mas ele não foi um grande devoto; e que qualquer sentimento por George
que contradiga as escrituras não ajudará ninguém a avançar no Gaudiya
Vaisnavismo. O ideal da Gaudiya é bhakti puro, e as escrituras nos dizem
que o cultivo desse ideal requer iniciação por um mestre espiritual
fidedigno e devoção exclusiva por Sri Krishna (vyavasayatmika-buddhih).
Enquanto George tinha simpatia pelo movimento de Srila Prabhupada, ele
também tinha outros interesses espirituais, particularmente os ensinamentos
de Paramahansa Yogananda.
Ao encorajar as pessoas para o cultivo do bhakti puro, Srila Prabhupada foi
muitas vezes muito generoso com elas, como foi o caso citado - quando
Srila Prabhupada diz que George não precisava se tornar seu discípulo, por
que ele é mais do que seu discípulo, e que além disso George tinha simpatia
por seu movimento e que dava todas as bençãos a ele* - . Outro exemplo de
sua generosidade foi quando ele escreveu uma carta dizendo que eu (Srila
Tripurari Maharaj) era a “encarnação da distribuição de livros”. Tomar essa
afirmação literalmente poderia significar que eu sou um avatara de algum
tipo, mas essa não é minha opinião. Minha opinião é que declarações como
essas (e há muitas delas) são exemplos do encorajamento generoso de Srila
Prabhupada.

O caminho a Goloka Vrindavan

Aqueles que declaram que Paramahamsa Yogananda alcançou Goloka não


tem entendimento da diferença entre o caminho de Yogananda (sadhana) e
o objetivo (sadhya), e o de Sri Caitanya Mahaprabhu. Por exemplo, as
escrituras dizem que o yuga-dharma de Kali-yuga (a idade das trevas) é
nama-sankirtana, o canto do Santo Nome de Krishna. No entanto, de
acordo com o guru de Yogananda, a idade em que vivemos não é Kali-
yuga, portanto, a prática de nama-sankirtana não foi estimulada por esse
Yogui. Sri Caitanya Mahaprabhu difere dessa opinião. Ele ensinou que nós
estamos atualmente em Kali-yuga e que nama-sankirtana é, sem dúvida, o
caminho da auto-realização dessa era. Então, Mahaprabhu e todos os seus
associados, assim como todos os seus seguidores através dos séculos,
enfatizaram firmemente o canto do santo nome de Krishna. De fato, o
seguinte verso de Brhan Naradiya Purana é citado três vezes no Sri
Caitanya-caritamrta, a biografia autorizada de Mahaprabhu. Neste verso as
palavras harer nama (o nome sagrado) e nasty eva (nenhum outro meio)
são repetidas três vezes com ênfase: harer nama harer nama harer
namaiva kevalam. kalau nasty eva nasty eva nasty eva gatir anyatha (BNP
3.8.126) “Nesta era de Kali não há outro meio, nenhum outro meio,
nenhum outro meio de auto-realização do que cantar o Santo Nome, cantar
o Santo Nome, cantar o Santo Nome do Senhor Hari.” Este simples verso
ilustra o meu ponto muito claramente. Yogananda, como muitos
transcendentalistas, tinha grande consideração por Krishna, mas alcançar o
amor por Krishna (Krishna-prema) é, em primeiro lugar, algo
completamente diferente. De acordo com Sri Caitanya Mahaprabhu, o
sadhana para alcançar Krishna-prema é nama-sankirtana.

Aderindo ao Gaudiya Vaisnavismo

Acredito que as almas realizadas (também de outras tradições, como


Amacchi, citada no artigo original*) irão apenas desejar o bem da busca de
seus discípulos se eles optam pelo objetivo do Gaudiya Vaisnavismo. Os
discípulos delas, por outro lado, podem ver o interesse de uma pessoa em
Krishna-bhakti desde sua própria perspectiva materialmente condicionada.
Meu conselho é seguir o próprio coração e ao mesmo tempo respeitar os
mestres espirituais iniciadores de outras tradições (Amacchi, a gurina em
questão) por tudo que eles fizeram no caminho deste praticante. Rotular
Amacchi como falsa é um pouco duro. Ela é uma mística influenciada por
jñana e sattviki-bhakti. Ela difere de nossa tradição, pois estamos
envolvidos no cultivo de suddha-bhakti, no qual nos envolvemos em bhakti
por si mesmo e não em prol da liberação (mukti). Aliás, eu tenho um
estudante que foi iniciado anteriormente por Ammachi. Ele está praticando
o Gaudiya Vaisnavismo e avançando na vida espiritual sem nenhum
impedimento.

Patanjali, um vaisnava?

O yoga de Patanjali é um dos seis darsanas, ou filosofias do hinduísmo.


Em sua escola, a palavra sânscrita yoga (união) refere-se a uma condição
em que a mente é controlada através da mediação com o objetivo de
alcançar a superconsciência e submergir no Infinito. Vaisnavas, por outro
lado, são vedantistas, ou seguidores do Vedanta darsana. Os Vaisnavas
praticam bhakti a Visnu/Krishna, com o objetivo de alcançar o amor eterno
por Ele. O sadhana enfatizado pela maioria dos Vaisnavas é a adoração à
Deidade (arcana) e o cantar do Santo Nome de Deus (kirtana). A
afirmação de que Patanjali foi um Vaisnava é contrária à posição que os
acaryas Vaisnavas tomaram em relação à sua filosofia geral. Estou ciente
de que há algumas declarações nos Sutras de Patanjali que podem ser
interpretadas para apoiar a ideia de que ele era um teísta. Também está
claro que ele era um estudante de Vyasa; entretanto, todos os Vedantistas,
incluindo Sankaracarya, entendem a filosofia de yoga de Patanjali como
sendo diferente da Vedanta, particularmente por sua falta de confiança nos
Upanisads. No entanto, assim como os vedantistas rejeitam as conclusões
da filosofia Sankhya e ainda abraçam aspectos dela, da mesma forma, os
Vedantistas, embora rejeitem as conclusões da filosofia do yoga, também
abrangem aspectos dela. De fato, apesar da rejeição do siddhanta da yoga
de Patanjali, encontramos elogios entre os Vedantistas por seus
ensinamentos práticos sobre a renúncia e sua disciplina de oito membros.
Baladeva Vidyabhusana, o famoso Gaudiya acarya que comentou sobre o
Vedanta-sutra, assume essa posição, assim como Visvanatha Cakravarti
Thakura.
Bhaktivinoda Thakura escreveu um livro sobre uma abordagem iogue para
bhakti, intitulado Prema-pradipa. O ponto deles é que os membros do
astanga yoga são úteis na medida em que servem para promover bhakti. Se
diz que misturar prática de yoga com bhakti pode ser útil para algumas
pessoas é mais um reconhecimento dos efeitos práticos da yoga, em relação
ao controle da mente em particular, do que um endosso de suas técnicas
gerais. De fato, a técnica de yoga sozinha não pode conquistar a mente na
medida em que bhakti pode, e a yoga também pode ser uma distração
quando os poderes que ela promove se tornam manifestos e promovem um
senso expandido de autoconfiança, em oposição ao ideal Vaisnava de
saranagati ou auto-rendição.
Pujyapada Sridhara Maharaja diz assim: “Os Gaudiya Vaisnavas descartam
qualquer coisa artificial. Deus está com o coração e essa é a parte
importante. Devemos apelar para o coração e ter transações com o coração,
e não que, pela manipulação das forças naturais, adquiramos algum poder
místico e tentemos exercer isso em Deus. Isso é uma forma de adoração?
Para quem tem coração, a transação saudável é a mais natural. E isso é
serviço. A satisfação é para o Senhor, então qual é o valor de tentar ganhar
algum poder de outro lugar e por força disso, para tentar invadir Ele? Qual
é o resultado de fazer yoga? Vai dar algum poder, mas que efeito pode ter
esse poder sobre Ele? Nenhum. Não devemos tentar exercer nossa energia
sobre Ele, mas o oposto é necessário. Devemos considerar que nós somos
os mais caídos dos caídos e os mais mesquinhos da média. "Eu quero sua
graça. Por favor, aceite-me como escravo, como seu servo mais cruel'. Este
é o caminho para se aproximar do mais elevado. Não que estejamos para
reunir algum poder e por força desse poder saltar sobre a entidade superior,
pois não é o processo de obtê-Lo, de receber Seu favor".
A sociedade anciã hindu considerava a prática da yoga como
primariamente uma disciplina essencialmente espiritual, mas no mundo de
hoje a yoga é praticada principalmente por razões de saúde. É importante
manter a saúde física e mental da pessoa, e a yoga é certamente uma pura
(sattvica) abordagem para isso, que funciona bem nos tempos modernos.
Infelizmente, independentemente dos esforços em contrário, a boa saúde
acaba por desaparecer, e tanto Patanjali quanto os Vedantistas ensinam que
o objetivo final da vida é a realização espiritual. No entanto, qualquer um
que tenha lido Sutras de Patanjali sabe que na sociedade moderna a prática
real de seu processo de yoga místico com ênfase na brahmacharya
(celibato), aparigraha (ausência de posses) e tapas (austeridades) é quase
impossível. Por outro lado, a prática de bhakti, conforme delineada por Sri
Caitanya Mahaprabhu, é simples e sublime e pode ser realizada por
qualquer pessoa, em qualquer lugar e a qualquer momento. Nesta era, de
acordo com Brhan Naradiya Purana, “não há outro meio de auto-realização
do que cantar o Santo Nome, cantar o Santo Nome, cantar o Santo Nome
do Senhor”.
FIM DO ARTIGO
48. RECEBENDO MANTRA DIKSA

Mantra diksa por gravação em fita por Srila Prabhupada

A posição de Srila Prabhupada de dar o diksa mantra (iniciação) através de


uma gravação em fita de seu canto dos mantras diksa é clara a partir do
registro escrito, e não há nenhuma indicação de que ele sempre quis no
fundo iniciar plenamente aqueles que ele aceitou como discípulos quando
ele empregou essa convenção. A mais antiga das mais de cem cartas em
que ele afirmou claramente esta política foi em 1970. Naquela carta Srila
Prabhupada escreveu para Gurudasa como segue:
“O ponto mais importante nesta carta é o momento da segunda iniciação de
alguns dos devotos. Então estou enviando aqui a fita Gayatri Mantra e
papéis para promover a cerimônia, assim como os cordões sagrados e
instruções especiais para os devotos com o Gayatri Mantra. Ele ensinava
como as pessoas deveriam cantar o Gayatri Mantra nas divisões dos dedos.
As garotas não precisam do cordão sagrado mas elas simplesmente podem
cantar os Gayatri Mantras. Em cada caso individual, a instrução deve ser
dada e o mantra repetido.”
Nem pense que Srila Prabhupada tinha intenção de enganar seus discípulos
usando esse método de dar o Gayatri Mantra. Essas pessoas estão
equivocadas. Na realidade essas pessoas foram introduzidas inclusive na
adoração da deidade.
Prabhupada deu iniciação por gravação em fita — ou iniciação por outros
meios — apenas para os discípulos que estavam servindo ativamente e
seguiam estritamente por alguns meses os quatro princípios regulativos de
não comer carne, intoxicação, sexo ilícito ou jogos de azar. Esses
princípios ele estabeleceu como critérios restrito para viver em seus
ashrams e para iniciação. Viver nos seus ashrams e iniciações também
requer o canto de pelo menos dezesseis voltas de japa fielmente todos os
dias. Mesmo depois de atender a esses requisitos, um candidato ainda
precisava ser recomendado para iniciação por um devoto mais antigo antes
de ser aceito.
Se aqueles que Prabhupada iniciou por fita não foram qualificados, então, o
que os qualifica para ouvir os mantras de outro guru agora? Por muitos
anos não seguiram os princípios regulativos nem praticaram de maneira
adequada.
Rupa Goswami diz:
anasaktasya visayan yatharham upayunjatah nirbandhah Krishna-
sambandhe yuktam vairagyam ucyate
“Quando as pessoas aceitam objetos mundanos sem apego por eles,
empregando-os a serviço de Krishna, isso é chamado de desapego
equilibrado (yukta vairagya).” (Brs 1.2.255)
Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura estendeu a aplicação deste verso
para incluir mais do que simplesmente aceitar os remanescentes da Deidade
(guirlandas, roupas, alimentos, etc.) e coisas mundanas em moderação para
sua manutenção. Ele acreditava em empregar todos os dispositivos
modernos na propagação do Gaudiya Vaisnavismo e considerava isto como
uma expressão dinâmica para Krishna kirtana.
A política de Swami Maharaj Prabhupada envolvia seguir a linha de Srila
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, o qual tinha estendido o significado da
concepção de yukta vairagya de Srila Rupa Goswami. Entre inúmeros
exemplos sem precedentes de yukta vairagya, como andar de automóvel e
empregar prensas de impressão, Srila Bhaktisiddhanta certa vez deu
iniciação Harinama por telefone.
Srila Sridhara Maharaja foi perguntado a respeito dessa política de
Prabhupada para iniciar discípulos com uma gravação em fita de seus
cantos dos mantras diksa. Ao ouvir sobre isso, o próprio Sridhara Maharaja
e mais tarde Srila Bhakti Pramode Puri Goswami adotaram esta política
quando a iniciação pessoal não era possível. ( Eu tenho à disposição cópias
de Sridhara Maharaja e Srila Bhakti Promode Puri Goswami cantando
esses mantras em gravação em fita).
Aqui está um exemplo do que Pujyapada Sridhara Maharaja disse a
respeito este tópico:
Um devoto pergunta se era fidedigno usar esse método, e Pujyapada
Sridhara Maharaja respondeu: "A vontade do vaisnava é tudo. Os livros
escritos pelos mahatmas são algo parecido com uma fita de gravação. Eles
tem dado instruções por meio de muitos símbolos. Isso tem valor. A
vontade, o centro pelo qual a vibração é passada, se anda em conexão, se o
consentimento do vaisnava está presente, tudo irá funcionar. Nosso Guru
Maharaja através do telefone deu Harinama para uma pessoa em Dacca em
seu leito de morte. Ele foi recomendado por seus discípulos. Com o
telefone ele deu a iniciação, mas por que tinha seu consentimento, sua
vontade, a conexão estava ali. Então nós aceitaremos isso".
Quando perguntado a respeito da extensão da conexão entre Srila
Prabhupada e alguns de seus discípulos que ele nunca conheceu
pessoalmente, Sridhara Maharaja respondeu com a mesma resposta: “A
vontade do Vaisnava é o coração do caso. Se a sua vontade estiver em
vigor, se ele der o seu consentimento, a conexão estará completa e todas as
coisas ao redor da iniciação são secundárias.

Anusthanika diksa e vidvaviruddha iniciações


O termo anusthanika diksa refere-se aos externos do rito de iniciação, ou
uma cerimônia de iniciação que falta substância. O termo vidvaviruddha
diksa se refere à verdadeira transmissão do conhecimento espiritual. Dizer
que Swami Maharaj Prabhupada é um seguidor estrito de Bhaktivinoda
Thakura e, então, dizer que ele deu anusthanika (externo ou insubstancial)
diksa para muitos de seus discípulos é contraditório. Bhaktivinoda Thakura
pode ter falado sobre esses dois tipos de diksa, mas ele mesmo deu
vidvaviruddha (espiritualmente substancial) diksa, cuja essência é o desejo,
por parte de um guru qualificado, de distribuir sua própria experiência na
terra da fé em forma de semente para seu discípulo. Aqueles que em nome
de vidvaviruddha (substancial) cujas considerações estão excessivamente
preocupados com os detalhes da iniciação (como se a iniciação foi através
de fita ou não) podem estar mais envolvidos em considerações anusthanika
(externo). Melhor ser um saragrahi (buscador da essência) Vaisnava, assim
como foi Bhaktivinoda Thakura.
Devemos oferecer o devido respeito a todo professor genuíno do
Vaisnavismo ou da Consciência de Krishna. Ainda assim, todos sabem que
todos os gurus Vaisnavas e Gaudiyas contemporâneos que pregam no
ocidente estão vivendo quase inteiramente com os remanentes de Srila A.
C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada em sua bem-sucedida campanha de
pregação. Alguns gurus talvez não possam adotar a política de diksa por
meio de gravação em fita para si mesmos, nem recomendar isso, mas eles
devem ter a sabedoria de reconhecer que o que um pregador empoderado
faz em circunstâncias sem precedentes como aquelas que Srila Prabhupada
se encontrava certamente é válido. Os resultados mundialmente
encontrados na comunidade de devotos, falam por si mesmos e são ao final
de tudo pramana (evidência).
Apesar que muitos discípulos de Srila Prabhupada não tenham seguido
estritamente em sua ausência, não achamos que aqueles que receberam a
segunda iniciação por gravação sejam mais propensos a isso. É muito
comum para os discípulos ter mais entusiasmo na presença de um grande
devoto e ser influenciados por sua força espiritual. Em sua ausência, muitos
discípulos precisam do encorajamento e associação de outros para
continuar no caminho. Isso não é anormal ou qualquer falha por parte do
Guru ou do processo. Afinal, uma das qualidades de bhakti com real
sentimento (bhava-bhakti) é que isso é sudurlabha (raramente alcançada).
Gurus em qualquer ramo do Vaisnavismo que dizem àqueles discípulos que
eles não poderiam ter sido iniciados por fita, não foram realmente iniciados
porque eles eram desqualificados naquele momento, ou que a iniciação por
Swami Maharaj Prabhupada é de alguma maneira insubstancial ou não
válida, tornam eles mesmos questionáveis por isto. Isto é especialmente
evidente quando esses gurus desejam de uma maneira ou de outra, reiniciar
os devotos que já tinham sido iniciados por Srila Prabhupada. Os motivos
por trás de tal pregação são muito mais questionáveis do que o inovador
sistema de mantra diksa por gravação em fita que foi utilizado por Swami
Maharaj Bhaktivedanta Swami Prabhupada em sua campanha bem-
sucedida e sem precedentes para introduzir a consciência de Krishna no
mundo inteiro.
FIM DO ARTIGO
49.DO BHAGAVAD-GITA AO SRIMAD BHAGAVATAM

Medo da morte e do renascimento


As escrituras confirmam que o desejo de libertação recua à medida que se
avança em bhakti. Caitanya Mahaprabhu diz: “Eu não tenho desejo de
riqueza, mulheres bonitas, ou seguidores. Eu só quero o Seu serviço
devocional sem causa, nascimento após nascimento” (Siksastakam 4).
Este verso representa o estágio devocional do ruci (gosto espiritual),
caracterizado negativamente como uma condição na qual a pessoa não tem
gosto pela vida material e positivamente caracterizada como não se
importando com a morte ou libertação devido à absorção em bhakti. Neste
estágio, um devoto começa a viver dentro de sua mente purificada em
Vraja, vraje tad anuragi-jananugami (Upadesamrta 8), a morada de
Krishna onde não há morte.

Jñana-marga
 No Bhagavad-gita 4.36, Sri Krishna está falando da natureza purificadora
do jñana e assim propõe um cenário impossível para enfatizar Seu poder:
Jñana não se manifesta em um coração pecaminoso, mas se de alguma
forma o fizesse, purificaria esse coração. Ele não está falando de bhakti
neste verso, mas sim o resultado do niskama karma yoga, o yoga da ação
altruísta. No entanto, a discussão do poder purificador do conhecimento no
Bhagavad-gita 4.36 é transportado para 4.37, onde, de acordo com Srila
Prabhupada, o conhecimento em discussão é sinônimo de bhakti. Sua
interpretação deste versículo lembra como Baladeva Vidyabhusana
equivale mais ou menos conhecimento com bhakti em seu comentário
sobre o Vedanta-sutra.
Este é um verso muito significativo, o vastus-nirdesa sloka do Srimad-
Bhagavatam (dharmah projjhita-kaitavo 'tra paramo nirmatsaranam satam
SB 1.1.2). É o verso que descreve basicamente o que o Bhagavatam é. Ele
começa exatamente onde o Bhagavad-gita acaba. Na conclusão do Gita, Sri
Krishna diz "sarva dharman parityajya": “Desista de toda preocupação
com o dharma.” Isso é paralelo ao verso do Bhagavatam sob discussão,
dharmah projjhita-kaitavo 'tra. Neste verso, "kaitava dharma" refere-se a
todas as expressões do dharma não destinadas a prema (amor de Deus).
Isso inclui todo o karma-marga destinado a mera vida religiosa e aquisição
material, bem como o jñana-marga destinado à libertação.
Sridhara Swami, o antigo comentarista do Bhagavatam que era tão querido
por Caitanya Mahaprabhu, escreveu que a palavra "projjhita"
("completamente rejeitando") neste verso inclui dentro de seu escopo não
apenas a renúncia ao dharma mas também à moksa (liberação). Assim,
deve ficar claro, a partir deste verso do Bhagavatam, que a conclusão do
Gita que segue na sequência não é meramente a defesa de transcender ao
dharma em busca da libertação. Assim como o Bhagavatam, o Gita nos
chama para o ideal de prema dharma.
O vastus-nirdesa sloka do Bhagavatam aparece três vezes no Caitanya-
caritamrta de Sri Krishnadasa Kaviraja Goswami. No primeiro capítulo do
Adi-lila em seu próprio namaskara sloka, ele o cita no contexto da
glorificação de Gaura-Nityananda, vandë sri krishna caitanya nityanandau
sahoditau. Lá ele diz:
“Krishna e Balarama, as Personalidades de Deus, que anteriormente
apareceram em Vrindavana e foram milhões de vezes mais resplandecentes
do que o sol e a lua, surgiram no horizonte oriental de Gaudadesa (Bengala
Ocidental), sendo compassivos pelo estado decaído do mundo. A aparição
de Sri Krishna Caitanya e Prabhu Nityananda sobrecarregou o mundo com
felicidade. À medida que o sol e a lua afugentam a escuridão por sua
aparência e revelam a natureza de tudo, esses dois irmãos dissipam a
escuridão da ignorância que cobre os seres vivos e os ilumina com o
conhecimento da Verdade Absoluta. A escuridão da ignorância é chamada
de kaitava, o caminho da trapaça, que começa com a religiosidade, o
desenvolvimento econômico, a gratificação dos sentidos e a liberação”.
Seguindo estas palavras Krishnadasa Kaviraja Goswami cita todo o vastus-
nirdesa sloka do Bhagavatam. Nesta seção do Caitanya-caritamrta, Srila
Prabhupada traduz assim:
“A grande escritura Srimad-Bhagavatam, compilada por Maha-muni
Vyasadeva a partir de quatro versos originais, descreve os devotos mais
elevados e bondosos e rejeita completamente os modos de traição da
religiosidade materialmente motivada. Propõe o princípio mais elevado da
religião eterna, que pode efetivamente atenuar as triplas misérias de um ser
vivo e conceder a mais alta bênção de plena prosperidade e conhecimento.
Aqueles dispostos a ouvir a mensagem desta escritura em uma atitude
submissa de serviço, podem imediatamente capturar o Senhor Supremo em
seus corações. Portanto, não há necessidade de nenhuma escritura além do
Srimad-Bhagavatam ”.
Para colocar isso em um contexto cristão para iluminação adicional, o
Bhagavatam é realmente o Novo Testamento da Escritura Védica. Tudo o
que veio antes dela, que enfatiza os quatro objetivos da vida, a saber, a
religiosidade, o desenvolvimento econômico, a gratificação dos sentidos e a
liberação, é superado por sua mensagem de amor. O amor de Deus —
prema dharma — cumpre todas as leis e ensinamentos dos Vedas.
Gaura e Nityananda trouxeram o significado do Bhagavatam. Eles nos
deram o “livro Bhagavatam”, revelando todas as suas implicações, e nos
deram a “pessoa Bhagavatam” através do guru-parampara que personifica
sua mensagem. Sri Kaviraja Goswami diz:
dui bhai hrdayera ksali ’andhakara
dui bhagavata-sange karana saksatkara
“Esses dois irmãos (Gaura-Nityananda) dissipam a escuridão do núcleo
interno do coração, e assim Eles ajudam a encontrar os dois tipos de
bhagavatas.”
Eles também demonstram pessoalmente a eficácia da principal promoção
no Bhagavatam do nama sankirtana.
tattva-vastu-krishna, krishna-bhakti, prema-rupa
nama-sankirtana-saba ananda-svarupa
“A Verdade Absoluta é Sri Krishna, e a devoção amorosa a Krishna exibida
em puro amor é alcançada através do canto congregacional do santo nome,
que é a essência de toda bem-aventurança.”
Uma das coisas que decorre naturalmente da lógica que vê o Gita
introduzindo o Bhagavatam — o ensinamento de Krishna introduzindo os
passatempos de Krishna — é que a rendição (saranagati), a nota sobre a
qual o Gita termina, é a chave para entrar no mundo do Bhagavatam.
Saranagati é o que traz sravanam (ouvir sobre Krishna), kirtanam (cantar
sobre Krishna) e smaranam (lembrar de Krishna) para a vida. Saranagati é
o espírito da determinação de fazer progresso espiritual em devoção
exclusiva a Sri Krishna. Isto é o que o Bhagavatam está falando na primeira
linha de seu vastu-nirdesa sloka, o segundo dos três versos introdutórios.
Aqui na Audarya cantamos saranagati com essas palavras todas as
manhãs:
satya kori magi ami sukomala prana, tava priti bine prabhu na cahibo ana
“Oh, quando posso dizer com sinceridade, com um coração terno e
purificado, que não quero outra coisa senão Mahaprabhu?"
FIM DO ARTIGO
50. SRILA PRABHUPADA,SAKTIAVESA E SAKHYA-RASA
Por B. R. Sridhara Deva Goswami

Quando ele estava indo para a América, na jornada ele expressou seu
sentimento de brincar com Krishna em sakhya-rasa: "Correndo e brincando
nas muitas florestas de Vraja, eu vou rolar no chão em êxtase espiritual.
Quando esse dia será meu?" Essa foi a sua oração para os pés de lótus de
Krishna.
Quando ele estava atravessando o Atlântico, ele deu vazão a sentimentos
que poderiam ser os pontos salientes em sua Vraja Lila. Isso me pareceu
assim: Vrindavana sakhya-rasa.
Quando ele partiu para sua consciência de pregador mundial, então ele
estava lá. Está claramente expresso nestas palavras lá no Atlântico. Ele
descobriu os passatempos imanifestos (aprakrita) em Vrindavana, e em
Vrndavana, ele estabeleceu Krishna-Balarama e Gaura-Nitai. Isso é
indicativo de sakhya-rasa. A partir disso, podemos concluir que ele está em
sakhya-rasa e entrou nesses passatempos. Este é o meu entendimento sobre
a sua posição atual. Ele se expressou, sua posição eterna, o apogeu de sua
aspiração. Em Vrindavana ele tem estabelecido Balarama e Krishna e
Nitai-Gaura, e ele está dizendo assim, Nitai-Gaura são Krishna e Balarama.
Está muito claro que ele vem desse grupo. E agora ele está lá novamente.
Hare Krishna.
Ele expressou sua própria posição no lila eterno em seu poema. Eu
conjecturo assim. Hare Krishna! Em seu diário, em bengali, ele escreveu:
"Hoje eu cozinhei algumas bati-caccari. Estava delicioso. Então, eu comi
um pouco. Hoje expressei meus sentimentos internos ao meu amigo e
escrevi um poema sobre isso."
E esse amigo veio ao seu auxílio. Ele foi tão sincero em sua oração a
Krishna que ele poderia ser capaz de cumprir o dever que foi dado a ele
pelo seu Guru Mahārāja que Krishna pudesse descer para ajudá-lo, seu
amigo o ajudou neste trabalho de propaganda. Por isso, saktyavesa-
avatara.
Endereçando a Krishna ele escreveu: "Você é Meu eterno amigo.
Esquecendo-se de Você, eu vim a este mundo e eu tenho sofrido sendo
chutado por Maya, a deusa da concepção equivocada. Se você quiser se
juntar a mim nesta campanha, então eu poderei me juntar a você
novamente. Quando eu estarei com você novamente? Vou vagar com você
o dia inteiro mantendo as vacas na floresta. Correndo de um lado para o
outro na selva, na floresta. E então, lutaputi, para cair no chão, realizando
diferentes espetáculos de brincadeira. Aspiro isso depois desse dia. Eu
tenho essa boa oportunidade de servir ao meu Gurudeva. Por essa razão,
meu apelo de coração para você é que, por favor, venha me ajudar. Eu sou
o Seu eterno servo; sendo assim, tanta aspiração eu tenho por Você. Você,
não outro, Você é meu único recurso."
Assim, depois de realizar este serviço, ele aspira uma vida como
vaqueirinho na lila de Krishna, e ele está apreciando muito esse tipo de
serviço amistoso de Krishna do fundo de seu coração. Esta é sua aspiração
depois de terminar sua campanha de pregação mundana.
Entendo que Nityananda Prabhu deu algum reconhecimento especial à
seção da comunidade suvarna-vanik da qual Swami Maharaja veio. Ele tem
uma graça especial para aquela seção em particular e a pregação sobre
Gauranga, e isso é mencionado nas escrituras. O suvarna-vanik é a seção
mais favorita de Nityananda Prabhu. Isso é mencionado no sastra,
Caitanya-bhagavata. Eu penso que Nityananda Prabhu também é
responsável pela pregação sobre a glória de Mahaprabhu. Então eu entendi
que Nityananda Prabhu deve ter despertado alguma dedicação especial nele
em seus últimos dias o qual o ajudou a inundar com uma magnitude tão
inconcebível, o mundo inteiro.
FIM DO ARTIGO
51.GAURA KRISHNA E KRISHNA MANTRA

Gaura- Krishna e Gaura-Narayan


O yuga avatara é Gaura-Narayana. Nosso Caitanya Mahaprabhu é Gaura-
Krishna que veio no lugar deste yuga avatara. Ele se ocupa em sankirtana
e liberta o mundo com o maha-mantra Hare Krishna. Embora sankirtana
seja o dharma de Kali-yuga em geral, no atual ciclo de yuga existe uma
concessão especial. A concessão é que Gaura-Krishna teceu uma guirlanda
de flores em prema (amor a Krishna) e sankirtana, e Ele busca
enguirlandar o mundo com ela: nama-prema-mala ganthi 'paraila samsare
(Cc 1.4.40).
Quando Raja Prataparudra, o rei de Puri, testemunhou pela primeira vez o
sankirtana dos associados de Gaura, ele estava cheio de admiração
(camatkara). Ele nunca havia testemunhado esse tipo de kirtana, esse tipo
de dança, esse tipo de amor, aiche prema, aiche nrtya, aiche hari-dhvani
khan nahi dekhi, aiche kahan nahi suni. O Raja não era estranho à
glorificação de Krishna. Ele governava uma cidade que hospedava milhões
e milhões de peregrinos que vieram para a glorificação de Krishna como o
Senhor Jagannatha. Quando ele perguntou ao seu cunhado Gopinatha, que
estava familiarizado com o kirtana de Gaura, para lhe perguntar o que que
estava acontecendo, Gopinatha respondeu, caitanyera srsti-ei prema-
sankirtana, “Esta é a criação de Sri Caitanya. É chamado prema
sankirtana.”
Nem todas as formas de sankirtana oferecem prema, mas o sankirtana de
Gaura-Krishna é apenas sobre prema. O nama mantra recomendado por Sri
Caitanya é mencionado no sruti. Kali-santarana Upanisad chama isso de
nama mantra taraka brahma nama. As dezesseis palavras deste mantra são
três nomes, Hare, Krishna e Rama, dispostos de tal forma que os nomes
Krishna e Rama são pronunciados quatro vezes cada, e o nome Hare é
pronunciado oito vezes: Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare
Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. Taraka significa
libertação, e libertação é o resultado de cantar este nama mantra em Kali-
yuga. Ele liberta do samsara. No entanto, a concessão especial de Sri
Caitanya é resultado de Ele ser Gaura-Krishna, ao invés de Gaura-
Narayana.
Sri Caitanya não é o avatara habitual de Kali-yuga que aparece no mundo
para libertar pessoas desde o nascimento e a morte, advogando o yuga-
dharma. Ele não é um avatara de Krishna, mas sim o próprio Krishna.
Embora Ele ensine o yuga-dharma, Ele tem outra agenda interna própria, e
Ele nos instrui sobre isso no seu Siksastakam. Alí, depois de elogiar a
essência de toda prática espiritual com as palavras param vijayate sri
krishna sankirtanam, Sri Caitanya delineia sete efeitos sequenciais de
nama sankirtanam. Ao fazê-lo, Ele deixa bem claro que a mera libertação
do samsara não é o fruto completo de seu prema-sankirtana. Ele não canta
apenas ‘taraka brahma nama’, mas sim ‘paraka brahma nama’. Paraka
significa competência - competente para dar o tesouro de prema, krishna-
nama 'paraka hana kare prema-dana. Qual é então a necessidade de
qualquer outro sadhana?

Humildade
No segundo verso de seu Siksastakam, Sri Caitanya fala com lamentação,
assim como com humildade, uthila visada, dainya. Tomando a posição de
um sadhaka, Mahaprabhu está lamentando sua infeliz condição, que faz o
Seu coração transbordar de dainya, humildade. Um sadhaka deve se sentir
assim, pois a humildade sincera atrai a graça e a simpatia de Sri Krishna
Nama, que por sua vez termina de uma vez por todas a dolorosa
permanência temporárea do samsara. Portanto Sri Krishnadasa Kaviraja
Goswami comenta que embora Mahaprabhu expresse lamentação no
segundo verso de Siksastakam, toda a tristeza é silenciada ao ouvir o
significado do verso - yahara artha suni 'saba yaya duhkha-soka.
Independente de quão caído alguém possa estar, sinceramente
reconhecendo sua condição e subseqüentemente sentindo humildade, atrai
simpatia e, assim, poder se elevar acima do condicionamento material além
do que está dentro de si mesmo. Sriman Mahaprabhu, o grande mestre, nos
ensina esta lição aqui. A nossa condição desafortunada (durdaivam),
quando sinceramente reconhecida e compreendida, gera uma humildade
natural que atrai a simpatia de Krishna nama e, portanto, uma solução para
o dilema colocado na segunda estrofe de Siksastakam. A humildade e o
desejo de superar os anarthas (maus hábitos) não fazem com que todos os
anarthas desapareçam imediatamente. Mas por atraírem a simpatia de
Krishna nama, ele permanece com tais sadhakas apesar de seu histórico de
ofensas, e assim eles são gradualmente purificados por Sua graça enquanto
seu nama bhajana se torna firme.

Níveis de fé
Existem diferentes níveis de fé. A fé esclarecida pela compreensão das
escrituras é identificada nos devotos intermediários, ao passo que a fé não
esclarecida em base as escrituras é identificada nos neófitos. Mas está tudo
bem, é necessário talvez ser um devoto neófito (temos que começar em
algum lugar), mas não é benéfico para um neófito criticar ou minimizar
uma compreensão ou expressão de fé mais desenvolvida. Antes, um neófito
deve tentar desenvolver uma fé firme, porque essa fé leva à devoção fixa,
que é a única maneira de alcançar Krishna.
De acordo com Bhaktivinoda Thakura, a ideia é progredir além da komala
sraddha (fé tenra ou fraca), juntando a cabeça e o coração através do sadhu
sanga e do estudo das escrituras. A fé é fortalecida, não enfraquecida, pelo
estudo do sastra, nasta prayesu abhadresu nityam bhagavata sevaya. Os
bhakti-sastras com os comentários dos nossos acaryas são expressões de
sua fé, e é através desses sastras que nossos acaryas compartilham sua fé
com o mundo. Tire proveito de sua misericórdia estudando o sastra na
associação de devotos avançados. Dessa maneira, sua fé certamente
crescerá.

A vida da Deidade
Pujyapada Srila Sridhara Deva Goswami Maharaja disse que a vontade do
Vaisnava é o coração do assunto em questão. Isso significa que a essência
do prana-pratistha, ou qualquer outra cerimônia ou ritual, é a bênção e
sanção do acarya. Sem sua bênção e sanção, o ritual é sem vida. Assim
como cantar o santo nome sem a bênção do Vaisnava não dará prema, da
mesma forma seva puja/arcana sem a bênção do acarya não trará prema.
Existem, é claro, divindades auto-manifestas como as lilas de Saligrama e
Govardhana, mas, para adorá-las efetivamente, é preciso também ter a
bênção de um Vaisnava.
A bênção do Vaisnava é o elemento essencial de qualquer serviço ou ritual.

Canta Krishna e satisfaz a Mahaprabhu


A filosofia que coloca ênfase indevida em Gaura Nama é uma distorção
dos ensinamentos de nosso guru-parampara. Embora Nityananda Prabhu e
vários santos Gaudiyas tenham pregado dessa maneira às vezes, essa
pregação é o transbordamento de sua loucura divina de amor por Gaura.
Pela misericórdia de Nityananda, pode-se provar uma gota desse amor
seguindo sinceramente os ensinamentos de Mahaprabhu no guru-
parampara, não fabricando uma filosofia que seja contrária a esses
ensinamentos.
É bem sabido que Mahaprabhu pediu a todos os Seus seguidores que
cantassem principalmente o maha-mantra Hare Krishna, Hare Krishna Hare
Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama Rama Rama
Hare Hare. Depois que Mahaprabhu citou o famoso verso do Brhan-
naradiya Purana harer nama harerna harer nama eva kevalam, que é
seguido pelo maha-mantra, ele comentou com Tapan Misra assim:
ei sloka nama bali ‘laya maha-mantra sola-nama batrisa-aksara ei tantra
sadhite sadhite yabe premankura habe sadhya-sadhana-tattva janiba se
tabe
“Este verso é chamado o maha-mantra. Contém dezesseis santos nomes do
Senhor, compostos de trinta e duas sílabas. Se você continuamente cantar
esse maha-mantra, a semente do amor de Deus brotará em seu coração.
Então você entenderá a meta da vida e o processo para sankirtana”.
Em Kali-yuga, Krishna desce na forma do Seu santo nome, kali kale nama
rupe krishna avatara. Sri Jiva Goswami chama esta descenso de Krishna
nama o varna-avatara (sílaba avatara). Embora Mahaprabhu seja o próprio
Krishna, Ele veio nos ensinar a cantar Krishna nama, e assim Ele mesmo
cantou esse nome de Deus, que é universalmente reconhecido por todos os
Gaudiya Vaisnavas como o principal nome de Deus.
É este nome de Deus que o supremo abhidheya-tattva sloka do Srimad-
Bhagavatam se refere quando nos diz para adorar o avatara de Kali-yuga
por sankirtana – yajnaih sankirtan prayair yajanti hi sumedhasah. De fato,
o Caitanya avatara é o acarya de Krishna-lila, no qual Ele ensina pelo Seu
exemplo pessoal. O que Ele fez? Krishna varnam, Ele proferiu as sílabas
krs-na. Nós devemos seguir este exemplo e assim adorar Gauranga.
Mahaprabhu empoderou Srila Rupa Goswami em particular para nos
ensinar como praticar. Sri Rupa fez isso tanto em seus escritos quanto em
seu exemplo pessoal. Ele é o nosso abhidheya-tattva acarya. Assim,
independentemente da pregação de Nitai e seu amor por Gaura, como
sadhakas, devemos seguir o exemplo de Rupa Goswami. Isso não significa
que não possamos aprender com Nitai. De fato, não podemos avançar sem
a sua misericórdia. Inspirados por seu exemplo de amor por Gaura,
devemos seguir nosso guru-parampara em termos de como nos ocupar a
nós mesmos em sadhana-bhakti. Não podemos imitar a loucura de
Nityananda Prabhu no seu amor por Gaura, mas podemos implorá-lo por
sua misericórdia, o que nos leva a um guru-parampara autorizado. Lá
descobriremos que os nomes de Gaura e Nityananda são cantados
profusamente, mas não de uma maneira que busque desalojar Krishna nama
da posição suprema que ocupa no Gaudiya Vaisnavismo.
Criar uma doutrina que promova o canto dos nomes de Gaura-Nitai por
cima do canto do maha-mantra Hare Krishna coloca-nos em um caminho
diferente daquele que havia sido estabelecido pelos acaryas anteriores,
liderados por Sri Rupa. O caminho de Sri Rupa, baseado no cantar do
maha-mantra Hare Krishna, é testado a prova do tempo e autorizado por
ninguém menos que o próprio Mahaprabhu. Mudar a ênfase nesse caminho
de cantar Krishna nama para cantar Gaura nama, como se alguma nova
revelação ordenasse tal mudança, é uma imposição artificial sobre as
práticas espirituais estabelecidas por Mahaprabhu através dos Seis
Goswamis de Vrindavana. Qualquer invenção de qualquer pessoa, que
diminua esses ensinamentos essenciais é simplesmente um esforço para
atrair a atenção para si mesmo querendo se considerar um grande pregador
ou guru. O que acontece é que alguém cuja pregação é motivada por tal
pratistha (desejo por nome e fama) cairá na influência de Kali-yuga porque
sem Krishna-sakti, ninguém pode efetivamente pregar a glória de nama
sankirtan, krishna-sakti nahi nama pravartana. Krishna-sakti é derivada de
seguir estritamente os ensinamentos essenciais do nosso guru-parampara.
Enquanto cantar os nomes de Gaura-Nitai também são encorajados, o
principal e essencial meio de adorar Gaura-Krishna na Gaudiya
sampradaya é o cantar do maha-mantra Hare Krishna.
FIM DO ARTIGO
52. BOAS QUALIDADES E O DEVOTO SUPERLATIVO

Aceitar um guru
Nós devemos mostrar nosso amor por Sri Caitanyadeva seguindo
cuidadosamente Seus preceitos. Com relação a aceitar ou não um guru, o
próprio Caitanya Mahaprabhu aceitou vários gurus (diksa-guru, sannyasa-
guru, raga marga-guru). Ao fazê-lo, Ele procura nos instruir sobre a
importância desse princípio para todos os tempos, e especialmente em Kali-
yuga, durante a qual Ele apareceu.
Acredito que existe um potencial maior de se enganar do que de ser
enganado. Certamente se pode encontrar alguém que ama Mahaprabhu
mais do que nós. Devemos seguir o exemplo de um desses devotos e
encontrar nosso guru, que o próprio Sri Chaitanya enviou para recolher
nossa fé.

Falsa renúncia
Em relação aos esforços que uma pessoa possa fazer para se situar
materialmente de modo a poder assegurar uma prática contínua, ela deve
ver esses esforços como uma aplicação dinâmica do princípio de daiva
varnasrama. Daiva varnasrama refere-se à importância de situar os
devotos em consideração à sua composição psicológica e fisiológica, de tal
modo que eles possam gradualmente pisar no paramahamsa marga de
suddha bhakti, eliminando o perigo da renúncia artificial. Tal phalgu
vairagya (falsa renúncia) envolve não apenas deixar a família
artificialmente, mas mais do que isso, estar fora de contato com a realidade
da sua identidade material. Sendo assim, a pessoa ignora ou nega muito que
é preciso trabalhar para obter a liberdade do reino karmico e desenvolver o
amor de Deus. A falsa renúncia não significa simplesmente aceitar
artificialmente uma postura formal renunciada. Envolve um verdadeiro mal
entendimento de sua posição atual em bhakti e evitar a difícil tarefa de
lidar com as responsabilidades e deficiências materiais através dos meios
apropriados, mesmo quando esses meios parecem estar fora do reino de
bhakti propriamente dito.

Um bom sadhana
Com relação ao sadhana, o conselho geral é que se deve dedicar mais
tempo ao canto, mas a qualidade é mais importante que a quantidade.
Quanto ao estudo, uma coisa é ler um livro e outro estudar um livro. Uma
sugestão é que se passe pelo Sri Caitanya-caritamrta e leia os versos
bengalis, familiarizando-se com a narrativa. E sempre que Sri Krishnadasa
Kaviraja cita um verso sânscrito pramana para apoiar seus pontos, observar
esses versículos e procurá-los no Bhagavatam, etc., tornando-se
familiarizado não apenas com seu significado, mas com o contexto em que
eles aparecem. Este será um exercício útil. Em geral, este método deve ser
seguido quando se estuda: Procurar os versos citados no texto ou
comentário e, desse modo, mover-se de texto para texto. Aos poucos, se
entenderá a natureza fundamental dos textos e viverá dentro desse cenário.

Postura frente à deidade


 A palavra ista significa adoração e gosthi significa discussão. Assim,
manter um istagosthi significa discutir tópicos espirituais. É apropriado
conduzir tais discussões ante da Divindade. Entretanto, se a discussão
envolver assuntos práticos e problemas pessoais, assuntos que são
inapropriados para discussão diante da Deidade poderão surgir.

Conexão interna guru-discípulo


Se um satguru medita em seu discípulo, ele pode entender o que ele
necessita para conhecer sobre o progresso espiritual de seu discípulo, que é
seu principal domínio de preocupação. Entretanto, ele nem sempre parece
reconhecer seu discípulo em pessoa ou lembrar-se dele pelo nome dado a
ele no momento da iniciação, especialmente se ele tiver muitos discípulos.
Se o guru não parece reconhecer seu discípulo, não se deve concluir que o
guru não está ciente dele ou não está envolvido em seu progresso espiritual.
Srila Prabhupada frequentemente parecia esquecer o meu nome (Srila
Tripurari Maharaj) de iniciação e perguntava: “Qual é o nome dele, aquele
menino que está distribuindo tantos livros?", no entanto, eu nunca tive
nenhuma dificuldade em me sentir conectado a ele através da oração ou
meditação pela qual eu experimentei sua profunda presença espiritual em
minha vida. Não devemos nos preocupar tanto com o reconhecimento
externo, mas nosso objetivo deve ser entrar no coração de nosso guru
através do serviço e saranagati (entrega). Então, o reconhecimento externo
seguirá naturalmente.
Em relação à oferecer alimento à deidade e ao envolvimento do guru, isso
ocorre no mundo do ritual, que é uma janela para a realidade. Essa
adoração ritualística é em grande parte simbólica, na medida em que se
aproxima do serviço real a Krishna e ao guru, que é experimentado
internamente e dentro da lila de Krishna pelos devotos avançados.
Nenhuma oferta a Krishna é completa sem antes homenagear o
representante de Krishna, seu guru. Ele representa o ideal de serviço que
procuramos alcançar, e faremos isso seguindo seus passos. No serviço
ritualístico, meditamos em como nosso guru está servindo a Krishna e
aspiramos ajudá-lo neste serviço ou a experimentar seu amor por Krishna
em nós mesmos através de tal assistência.

Como reconhecer os devotos superlativos


É difícil para a maioria dos devotos reconhecer quem é um devoto
superlativo e quem não é. Essa habilidade se desenvolve à medida que se
avança no conhecimento teórico e na realização pessoal. Minha
recomendação é que se tente estudar as escrituras e depois se tente seguir o
próprio coração, e se depois de ter feito isso, este devoto achar que o guru
de sua escolha não é em sua opinião um devoto superlativo e ao mesmo
tempo possa reconhecer outro Vaisnava que seja desse calibre, nesse
momento pode-se aceitar o devoto superlativo como um siksa-guru,
continuando a mostrar respeito pelo diksa-guru.
Os devotos superlativos normalmente não se sentem assim, mas às vezes
saem e declaram sua posição ao público. No entanto, se alguém disser que
é um devoto superlativo, como se saberá que a afirmação dele é
verdadeira? Portanto, novamente,é preciso seguir o próprio coração
enquanto, ao mesmo tempo, se usa a cabeça para estudar a escritura na
associação de devotos que se acredita serem sinceros, bem versados em
conhecimento das escrituras e espiritualmente avançados.

Qualidades nos devotos e não devotos


O verso do Srimad-Bhagavatam (que diz que um devoto tem todas as boas
qualidades enquanto um não devoto não tem nenhuma qualidade) fala de
devotos muito avançados, descritos como akincana, ou livres de qualquer
desejo material - yayasti bhaktir bhagavati akincana. Falada por Prahlada
Maharaja, esta é uma glorificação de devotos superlativos que possuem
todas as qualidades da divindade e muito mais. Esses devotos vivem no
plano da consciência não dual, e não no pequeno mundo da mente, com
seus bens e males provincianos. Este verso contrasta tais devotos com
aqueles que são desprovidos de bhagavata bhakti e montam a carruagem
desenfreada da mente (mano rathena).
O ponto aqui é que, na medida em que uma pessoa é verdadeiramente um
devoto e, portanto, livre de desejo material, devemos esperar ver todas as
boas qualidades nele. Sriman Mahaprabhu sugeriu que isso significa que os
devotos são misericordiosos, humildes, sinceros, iguais a todos, sem falhas,
magnânimos, suaves, limpos, sem posses materiais, engajados em trabalho
de bem-estar para todos, pacíficos, entregues a Krishna, sem desejos,
indiferentes às aquisições materiais, fixados em serviço devocional, e
acima das seis más qualidades como luxúria, raiva, ganância e assim por
diante. Eles comem apenas o necessário e não estão intoxicados. Eles são
respeitosos, sérios, compassivos e sem falso prestígio, além de amigáveis,
poéticos, experientes e silenciosos. Entre todas essas qualidades, render-se
a Krishna é a mais elevada.
Obviamente, nem todos os “devotos” estão nessa plataforma. A maioria
não é akincana bhaktas. Assim, na medida em que os devotos se elevam
acima do pequeno mundo da mente na cultura de Krishna bhakti, podemos
esperar ver boas qualidades neles. Aqueles que, por outro lado, são
desprovidos de devoção a Deus — o "todo qualitativo" — são suspeitos
mesmo quando parecem possuir boas qualidades, pois no mundo da mente
apenas uma sombra da bondade real pode aparecer.
FIM DO ARTIGO
53.A NATUREZA MAGNÂNIMA DE NITYANANDA PRABHU
Srila B.R. Sridhar Maharaja

Sri Nityananda Prabhu é supostamente a encarnação de Baladeva em


Vraja-mandala. Narottama Dasa Thakura diz, balarama haila nitai.
Sanatana Gosvami também menciona Nityananda Prabhu como a
encarnação de Baladeva em Vrndavana, mas algumas pessoas dentro da
Gaudiya sampradaya pregam que Nityananda Prabhu é a encarnação de
Radharani. Assim, um protesto veemente é dado do lado da Gaudiya Matha
e não podemos reconhecê-los como os verdadeiros seguidores da fé
Gaudiya Vaisnava e Mahaprabhu.
Nityananda Prabhu nasceu no distrito de Birbhum, no lado ocidental de
Katwa, a noroeste de Ekacakra, onde os Pandavas disfarçados viviam por
algum tempo. Nas proximidades também é mostrada uma árvore onde o
Baka-raksasa foi morto por Bhimasena. Em Ekacakra perto de Garbhavasa
e em muitos outros lugares, podemos traçar os passatempos de Nityananda
Prabhu. O filho de Nityananda Prabhu estabeleceu um templo próximo, e
Sri Murtis foi instalado por Ele. Cerca de duzentos anos atrás, houve uma
grande tempestade nessa área e muitos arranjos antigos foram devastados.
Um grande zamindar e devoto da Gaudiya sampradaya veio e restaurou o
puja, os arranjos de adoração em Virachandrapura. Todos estavam
desolados naquele momento.
O nome da mãe de Nityananda Prabhu era Padmavati, e o nome de seu pai
era Hadai Pandita. Ojha era o título deles, embora agora não encontremos
nenhum título desse tipo. Quando Nityananda Prabhu tinha cerca de doze
anos, um sannyasi veio e implorou a Hadai Pandita por seu filho: "Eu quero
seu filho". O sannyasi veio e implorou pela criança, apenas um filho e um
filho como Nityananda Prabhu, que era muito charmoso. Era quase
impossível se despedir de tal filho, mas o que fazer? Um sannyasi veio e
perguntou por Ele e eles não puderam evitar o sannyasi. Eles tiveram que
dar seu único filho a ele. Esse sannyasi veio e levou Nityananda Prabhu
para longe de Sua casa quando tinha apenas doze anos de idade e
Nityananda Prabhu vagou com ele por toda a Índia, visitando todos os
lugares sagrados.
Mahaprabhu não visitou tantos lugares sagrados. Ele geralmente viajava
pelo sul da Índia, não pelo norte da Índia, apenas por Vrndavana e Prayaga.
Dvaraka e Badarinarayana foram excluídos por Mahaprabhu, mas
Nityananda Prabhu visitou todos os locais sagrados que existem na Índia.
Depois que Madhavendra Puri desapareceu, Ele estava vagando nos lugares
sagrados. Nesse meio tempo, Mahaprabhu, voltando de Gaya, iniciou Seu
sankirtana-lila em Navadvipa.
Nityananda Prabhu estava vagando aqui e ali e por último Ele foi para
Vrndavana. Ele estava procurando por algo por causa de sua identificação
interna com Baladeva. Quando Krsna veio, Ele estava sentindo alguma
tendência de atração por Ele. No último período, Ele começou a pesquisar
em Vrndavana com muito escrutínio, mas não encontrou isso. Então Ele
teve alguma inspiração onde encontrar Krsna. “Ele está agora em
Navadvipa. Eu irei lá." Com essa inspiração em Seu Coração, Ele foi para
Navadvipa-dhama.
Mahaprabhu já havia começado Seu movimento sankirtana, e Ele teve um
sonho à noite que alguém veio em uma carruagem e no pico da carruagem
havia uma palmeira; e Ele está procurando: "Onde fica a casa de Nimai
Pandita? Onde fica a casa de Nimai Pandita?" Alguém então disse: "Aqui
está a casa de Nimai Pandita". Mahaprabhu então disse aos devotos: "Uma
grande personalidade veio aqui a Navadvipa-dhama na noite passada.
Tentem descobrir essa grande pessoa". Os seguidores tentaram o seu
melhor – eles procuraram em todos os cantos e recantos, mas não
conseguiram encontrar Nityananda Prabhu. Eles relataram a Mahaprabhu:
"Nós tentamos o nosso melhor, mas não conseguimos identificar nenhuma
pessoa nobre, nenhum santo ou qualquer grande homem". Então
Mahaprabhu foi diretamente para uma casa particular que é conhecida
como a casa de Nandana Acharya, e lá eles encontraram um novo
cavalheiro, robusto e forte, e piedoso na aparência, sentado na varanda
daquela casa. Os devotos de Mahaprabhu poderiam então entendê-lo como
o homem de quem Sri Gaurangadeva estava falando. Ele estava sentado em
vestes vermelhas, todos os outros estavam vestidos de branco. Alguém
então cantou algum bhagavata-sloka, e tantos sintomas espirituais
gradualmente apareceram em Seu corpo. Eles poderiam então entender o
grande homem que Ele é porque Ele estava cheio de amor divino. Ele
concordou que era o personagem e gradualmente entrou em íntima
conexão com Ele; eles puderam entender que Ele era Sri Nityananda
Prabhu. Externamente Seus movimentos não eram como uma pessoa
erudita ou um homem comum; Ele foi sobrecarregado com um tipo elevado
de energia e divindade saindo de sua pele.
Mahaprabhu gradualmente começou a pregar. Haridasa Thakura e
Nityananda Prabhu receberam ordens. "Vá de porta em porta e peça-lhes
para deixar tudo de lado e tomar o nome de Krsna. Quem quer que você
possa encontrar indo de porta em porta, aproxime-se e peça-lhes para tomar
o nome de Krsna deixando de lado todo o resto."
Naquela época, Navadvipa-dhama estava mais cheio de tântricos, que é a
adoração de Maya-devi. Os tântricos dizem: “Este maya está nos
perturbando, por isso devemos nos abrigar sob seus pés. Quando ela for
propiciada e satisfeita, ela se soltará, abrirá a porta e sairemos e nos
tornaremos Siva. Por natureza, por nascimento, jiva significa Siva, Siva
significa o mestre de Maya. Estamos agora nas garras de Maya, engano.
Quando a deusa da ilusão estiver satisfeita conosco, ela então se retirará e
encontraremos uma porta, iremos para o outro lado. Há tantas almas
liberadas lá e nos uniremos a elas. Todos eles estão desfrutando da posição
de Siva, o mestre de Maya. Maya não pode forçá-los a fazer qualquer coisa
e tudo como ela preferir, ela serve seus mestres. Maya serve a Siva, as
almas liberadas. Maya os serve, embora na relatividade de Maya, mas eles
não podem controlar, então eles prestam algum serviço às almas liberadas e
são conhecidos como Shiva. Pasa baddho bhavet jiva pasa mukta sadasiva
– quando no cativeiro ela é jiva, uma alma caída, quando ela está fora da
servidão desta Maya, esse engano, então ela é sempre Siva. Ele pode então
se mover aqui e ali em sua doce vontade e Maya não pode forçá-lo, mas ela
virá para servi-lo, e isso é liberação. Então serviremos a Maya-devi e o
processo tântrico envolve alguma coisa, desta forma ela ficará satisfeita ”.
Eles usam muitas coisas eles podem beber vinho e comer carne. Eles os
oferecem às divindades Maya, Sakti e Kali. Eles também gostam das
mulheres de diferentes humores. Eles acham que o fato de se misturar fará
com que eles sejam libertados do encanto das mulheres. Desta forma, em
seu processo, eles aprovam o vinho, a carne e as mulheres – parece ser
muito prejudicial para nós, mas estes são os princípios subjacentes da
upasana tântrica.
“Em nosso método, nosso processo de abordar as coisas pelas quais nos
sentimos atraídos, é conseguir nos libertarmos delas. Elas vêm nos atrair
para elas, mas por um processo particular nós devemos lidar com eles. Nós
seremos mestres daquelas coisas venenosas.
Naquela época, Navadvipa estava cheio de tântricos. Mahaprabhu Sri
Gauranga começou sua pregação, tentando convencer a todos a desistir de
tudo e a cantar o Nome de Krsna, Narayana. Ele então disse: "Vocês não
apenas sairão de Maya, mas alcançarão vida positiva em Vaikuntha, em
Vrndavana. Essa é a realização mais elevada, e o que deve ser alcançado
pela adoração da sakti no método que eles estão seguindo, isto é
reacionário e em algum momento eles terão que evoluir". Isso é
mencionado no sastra, mas não muito extensivamente. Se você é muito
particular, então você terá que ver que a relatividade deste mundo negativo
não é segura. Você deve entrar no mundo positivo, então você estará
seguro. Isso não é apenas mera libertação, emancipação das forças opostas,
mas participação prática na linha servidora, que é muito pura. Não deve ser
não-egoísta, mas deve ser centrada em Deus. Deus sendo servio. O mundo
positivo está lá e está cheio de plena felicidade, e só podemos alcançá-lo
através do serviço. Aqui nós somos uma unidade de desfrute, uma unidade
de exploração, mas ela deve ser abandonada para sair da tendência
reacionária da vida. Mas não devemos esperar em cima do muro, pois essa
não é uma posição segura.
Então, novamente, isso não diz muito porque o afastamento do lado
negativo não é suficiente. Existe um mundo positivo e isso significa uma
verdadeira alta forma de vida, e isso pode ser alcançado através do serviço.
O serviço é ótimo, sacrificar o próprio interesse, não por qualquer parte,
mas pelo todo, pelo bem absoluto, isso é ótimo. Nada pode ser comparado
a isso. Não é calculista, mas automatico. Alcançar o estágio automático de
serviço com amor é um pagamento alto: assim, abandone todos esses
hábitos e esses compromissos anteriores com um padrão mais baixo de
adoração, penitência e todas essas coisas. "Morra para viver." Uma
mudança radical deve ser bem-vinda na vida. A vida vale a pena viver, a
vida vale a pena ser vivida e só está aberta à porção humana. Em outras
espécies, é impossível ter um vislumbre de luz tão alta e começar esse
modo de vida, pois há muito poucos seres humanos na criação. Qual é o
número de corpos humanos? Muito pequeno comparado com toda a
criação, e essa é a porta para o Céu, então você deve tentar ter uma vida
positiva. Ele é Krishna. Ele é todo atraente. Ele é lindo, Ele é a realidade
mais alta, Ele é todo acomodado e o mais charmoso. Nossa vida receberá
seu cumprimento se pudermos nos aproximar desse Senhor, especialmente
tomando o Seu Santo Nome. Nesta era de Kali, uma sanção especial nos foi
dada que, ao tomar o Santo Nome com satsanga, com os verdadeiros
santos, então podemos progredir, entrar e nos aproximar dessa alta linha de
pregação.
Nityananda Prabhu foi um dínamo de energia e Haridasa Thakura não
poderia seguir, um pequeno problema para realizar a ordem de
Mahaprabhu, o que fazer? Um dia havia tantas pessoas do tipo gunda, que
vieram com um espírito ofensivo: “Você está nos perturbando, não somos
religiosos e você veio pregar religião para nós: Que direito você tem? Por
que você vem nos perturbar? Como uma grande sociedade, estamos
seguindo um credo em particular, e você é tão corajoso a ponto de nos
culpar por não sermos homens religiosos. Você veio com uma nova ideia
de religião e nós devemos aceitar isso? Seus tolos! Se mais uma vez você
vier aqui, ensinaremos uma boa lição a você. ”
Desta forma, eles foram ameaçados, mas Mahaprabhu ainda disse: "Você
deve ir!" Então, um dia eles encontraram Jagai e Madhai. Jagai e Madhai
eram de nascimento brahmana, mas eles não tinham nenhum apego pela
religião. Eles também foram encarregados de alguma administração no
governo muçulmano. Eles tinham alguma conexão com o governo e eles
próprios eram gundas. Eles costumavam tomar qualquer coisa. Eles eram
um notório par de gundas – Jagadananda e Madhavananda.
Então um dia eles conheceram Nityananda: “Oh, seus patifes! Nós ouvimos
falar de você. Você veio para criar uma nova religião aqui – nunca! Se te
encontrarmos novamente na rua, você receberá uma surra e terá que
chorar.” De qualquer maneira, eles receberam tal aviso. Nityananda Prabhu
teve que reportar todos os dias o progresso que haviam feito em sua
campanha de pregação e quase desafiou Mahaprabhu. Ele disse: “Nossa
vida foi salva hoje do pior par (Jagai Madhai) de toda o Navadvipa-dhama,
mas se você puder liberá-los, então eu pensarei que Você realmente veio
prestar algum serviço. Eles são os maiores patifes já encontrados nesta área
e devem ser convertidos. Se Você puder fazer isso, então diremos que Você
tem algum poder com algum objetivo, e Você poderá fazer alguma coisa.”
Mahaprabhu sentiu: “Se for a vontade de Krishna, então tudo será
possível.” Eles novamente saíram pregando e eles encontraram esses dois
gundas. Haridasa Thakura voltou e Nityananda Prabhu ficou lá
corajosamente. Havia um pote de barro usado jogado fora no caminho. Foi
levado e jogado na cabeça de Nityananda Prabhu e Sua testa foi cortada,
com sangue escorrendo. Uma pessoa veio a Gaurangadeva dizendo que
Nityananda Prabhu foi ferido pelos patifes.
Mahaprabhu estava muito enfurecido e, com um humor excitado, chegou
lá. “Quem causou este ferimento no corpo de Nityananda Prabhu? Eu vou
exterminar toda cidade, vá adiante.” Então Nityananda Prabhu veio: “Não!
Não! Não fique enfurecido, Meu Senhor. Nesta encarnação Não devemos
usar nenhuma força, lembra disso?"
Enquanto isso, aproximou-se de outro e disse: "Não, não! Eles são
mendicantes vestidos de vermelho – existe alguma fama que os atinja? Eles
não são homens ricos ou homens de partido, apenas sadhus, não há crédito
por matá-los ou bater neles", e eles levaram Jagai e Madhai para longe.
Nityananda Prabhu então apelou para Mahaprabhu. "O que Você está
fazendo, isto não é apropriado. Nessa era, neste tempo, neste momento, o
que viemos fazer, usar a força? Nunca!”. Enquanto isso, Madhai chegou a
acertar Nityananda Prabhu, mas Jagai O salvou apenas se opondo a Ele e
Mahaprabhu se virou de repente, “Você Jagai, você protegeu Meu
Nityananda”. Mahaprabhu então abraçou-o e Jagai caiu a Seus pés e
começou a chorar. A transformação mental chegou em Jagai. Então
Madhai, que estava de pé, disse: "Para este ato nós dois somos grandes
pecadores, mas a condição de Jagai agora mudou." Naquela mesma
atmosfera, sua transformação também começou.
Então Nityananda Prabhu chegou para reconhecer que no mesmo lugar
com pessoas semelhantes, uma ganhará e a outra falhará, e assim Ele
pensou que Madhai também deveria ser salvo. Então Mahaprabhu disse: "O
próprio Nityananda Prabhu está implorando por você, e então você Madhai,
você também deve ser absolvido."
Mahaprabhu então abraçou-o e ele também caiu e começou a chorar. Ele
aceitou o Santo Nome de Krsna e converteu por atacado desses dois
grandes demônios. Em poucos minutos a cidade estava em alvoroço.
"Quem é este Nimai Pandita? Um erudito, que até agora podemos entender,
mas Ele é dotado de poder sobrenatural. Quem quer que visse esses dois
grandes demônios entraria em suas casas e fecharia suas portas. Tais
pessoas eram demoníacas, e Nimai Pandita converteu eles em uma hora,
que poder miraculoso!
Então, dessa maneira, Nimai Pandita conseguiu um pouco de equilíbrio.
Nimai Pandita não é um homem ordinário, não é apenas um erudito, mas é
dotado de algum poder sobrenatural. Nityananda Prabhu ficou famoso a
partir dessa época. Embora Ele tenha sido atingido na testa e o sangue
escorresse, ainda assim Ele tinha um coração extraordinário, paciente,
tolerante e afetuoso, que Ele louvou aquele gunda que Lhe causou o mal. A
posição de Nityananda Prabhu era muito segura e muito alta – uma posição
divina daquela época. Nityananda Prabhu não tem humor nem de
exploração nem de desfrute; Ele está vendido a Krishna.
Sanatana Gosvami deu isto em seu comentário: Na rasa-lila de Krsna,
Krsna estava desfrutando de todas as gopis, naquela época Balarama
também tinha Sua rasa-lila separada. Também é mencionado no
Bhagavatam e em outros Puranas, que Krsna teve Sua rasa-lila e que
Baladeva também teve Sua rasa-lila, mas Sanatana Gosvami deu o
significado. Isso é muito fino, muito sutil e muito difícil de entender.
Baladeva continuou rasa externamente, mas em Seu coração Ele tem feito
com que Krsna participasse dessa rasa. Ele é indiferente, Ele está de lado,
Ele está apenas se apresentando, gerenciandoi a rasa-lila com as gopis e
Krishna. Ele não é apenas indiferente, mas tem muita tendência e atitude de
serviço.
Em Vrndavana-mandala em vatsalya-rasa e sakhya-rasa, eles também têm
casamentos, eles têm seus filhos, mas eles não possuem um humor
desfrutador. Há união de homens e mulheres, mas não no humor de
desfrute, ou então eles terão que ser deixados aqui no mundo material.
Ambas as partes se encontram e estão unidas em um humor de servir, que é
particularmente outro tipo de humor, nunca um estado de espírito de
desfrute, ou então eles não seriam autorizados a entrar nesse domínio. Eles
serão jogados aqui na terra da exploração. Quando eles passam pela porta
da emancipação, liberação, e entram em Vaikuntha, lá também a tendência
de exploração é eliminada. Eles estão participando externamente, mas
internamente em um humor de serviço. Pode ser impossível pensar, mas é
assim, não apenas a forma humana, mas também os pássaros e as feras,
também estão aparentemente se misturando com um humor de desfrute,
mas na verdade o humor deles é de atitude de serviço. Semelhante
transformação tem que ser efetuada no Coração, mente e corpo, antes de
tentar entrar totalmente nesse domínio.
Então, Hegel disse: "Morra para viver". Se você realmente quer viver nesse
plano, então você terá que morrer por inteiro com tudo o que você acha que
é nesta vida, como carne, sangue e ossos. É do tipo oposto, a pureza está lá,
pode ser medida; não é não científico, mas é realmente científico. É o
processo de "morrer para viver"! E o amor está aí, a tendência moribunda
do objeto do amor, isso é amor propriamente dito. Caso contrário, é
imitação, é hipocrisia, é conspiração para a própria realização.
A coisa mais pura é que, se tivermos fé para essa concepção divina da vida,
deveremos então chegar ao Bhagavatam, o último presente no mundo
sástrico das literaturas védicas. O último presente de Vyasadeva no mundo
das literaturas védicas é o Bhagavatam. O Bhagavatam é muito elevado. A
tradução do dharmah projjhito kaitavo do nosso Guru Maharaja explicando
que, de todas as palavras e contos neste mundo em nome da religião, o
Srimad Bhagavatam diz que tudo é falso - tudo é adulterado e não puro! O
tipo puro de religião ainda não foi falado. Esta ali, todo egocêntrico, a
corrente é em direção ao centro, não apenas abnegação, mas auto-sacrifício,
auto-perdão, auto-esquecimento, assim devemos começarmos, e devemos
ir.
Sri Nityananda Prabhu veio e apelou: “Venha para Gauranga, Ele é o
depósito, Ele é o dínamo para enviar você para lá com muita facilidade”.
Ele cantou esses nomes de Gauranga nas margens do Ganges.
bhaja gauranga, kaha gauranga, laha gauranga nama
sei jana gauranga bhaje se amara prana
“Todas as pessoas vêm e se refugiam sob os pés divinos de Gauranga,
desistem de tudo e vêm e caem aos pés de Gauranga. Tome o Seu Nome,
lembre-se Dele e jogue-se totalmente à Sua disposição. Ele é minha própria
vida, eu considero que Ele seja minha vida, minha alma, meu tudo ”.

Nityananda Prabhu dizendo que isso começou a peregrinar na porta dos


chefes de família: “Ó chefes de família! Vocês devem fazer isso. ”Ele está
rolando e chorando:“ Aceite Gauranga! Você não sabe que grande
benefício você receberá ao fazer isso. ”Ele está rolando no pó na porta das
casas com tal apelo. Ele veio às massas ordinárias para lhes dar refúgio aos
pés de lótus de Gauranga - isto é Nityananda Prabhu. Ele veio para dar
Mahaprabhu até mesmo para Jagai e Madhai e Ele apelou para todos de
porta em porta para aceitar Gaurangadeva. "Você não sabe qual será a sua
maior perspectiva na vida!"

Nityananda Prabhu é nossa única esperança, Ele é tão benevolente, tão


generoso, tão gracioso, que facilmente podemos chamar a atenção Dele e
podemos obter Sua recomendação. Gauranga não será capaz de ser
indiferente a Sua recomendação, e quando tivermos a graça de Gauranga,
então a lila Radha-Krsna estará em nossa mão. A graça de Nityananda
Prabhu significa obter a graça de Mahaprabhu dentro de nossas garras e
obter Mahaprabhu, significa obter Radha-Govinda, Vrndavana, e então
tudo está em nossa mão.
FIM DO ARTIGO
54. DIKSA MANTRAS

Nomes de iniciação
Para os hindus, a data e hora do dia em que uma criança nasce sugere uma
sílaba adequada com a qual o nome de um filho deve começar. Esta é uma
consideração astrológica. Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta geralmente
escolheu um nome para a iniciação espiritual que começava com a mesma
sílaba que o nome de nascimento. Ele mesmo era um astrólogo, e parece ter
sentido que a primeira sílaba astrologicamente apropriada para o nome de
uma criança tivesse algum valor religioso. A maioria de seus seguidores
seguiu seu sistema de escolha de um nome para iniciação que começa com
a mesma sílaba que o nome de nascimento, mesmo quando o nome de
nascimento não foi escolhido em consideração ao insight astrológico. No
entanto, este sistema para escolher um nome de iniciação não é aquele que
deve ser seguido em todas as circunstâncias. De fato, podemos encontrar
muitas exceções mesmo dentro da missão de Srila Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura. Outro sistema envolve a escolha de um nome que seja
apropriado para Gaura-lila. Claro que ambos os sistemas podem ser
combinados também.

Se o guru desiste de sua posição


Se o seu guru desistiu de servir um devoto na qualidade de mestre
espiritual, então, para todos os efeitos, (isto quer dize que) este devoto não
tem um guru. Além disso, é questionável o quanto o guru em questão
estava bem situado no passado para fornecer uma orientação espiritual
abrangente para este devoto. Portanto, eu recomendo fortemente que se
procure um guru qualificado e aceite iniciação dele.

Discípulo, guru e rasa


É melhor que o próprio ideal seja o mesmo do guru. De fato, em um nível
mais profundo, muitas vezes é por isso que alguém é atraído por um guru
em particular — porque o guru incorpora o sentimento espiritual que o
discípulo está destinado a realizar. Sri Guru é saksad 'hari, representando
diretamente Krishna, mas mais importante é que ele ou ela incorpore um
sentimento transcendental amoroso particular para Sri Krishna, kintu
prabhor yapriya eva tasya. No entanto, às vezes descobrimos que um
discípulo percebe um sentimento espiritual diferente daquele de seu guru,
como no famoso caso de Syamananda Prabhu. Nenhum dano. Essa é a
vontade de Deus.

Prestar serviço ao guru no nitya-lila


A atitude não deve ser a de render os serviços ao guru no nitya lila tanto
quanto deveria continuar a servir ao guru aqui e agora. Devemos seguir ao
guru tornando-nos saranagatas. O drama de Krishna lila é encenado no
palco do saranagati. A rendição se manifesta no sadhana bhakti, e então o
anseio apropriado segue com ruci e leva a pessoa para bhava bhakti. O
bhajana é mais apropriado nos estágios mais elevados de sadhana bhakti e
bhava bhakti.

Cantar o gayatri no tri-sandhyam


Visvanatha Cakravarti apareceu em uma família brahmana, e parece (de
seu Gurvastakam) que ele combinou seu sandhya-vandanam com seu guru
mantra e guru gayatri, etc., como nós fazemos. Caso contrário, observar o
sandhya-vandanam é um dever brahmínico e, portanto, pertence ao brahma
gayatri e não necessariamente aos outros diksa mantras e gayatris. No
entanto, a prática do mantra dhyana nos três sandhyams é uma prática
excelente. É necessário que, três vezes por dia, se dê uma parada para
meditar, observando os movimentos do sol e pensando no sol como uma
representação simbólica de Deus. Isso exige uma mudança de estilo de vida
para a maioria. A ideia é que o sol representa Deus porque sem ele não
poderíamos sobreviver. O sol nos fala em voz alta todos os dias, mas não
ouvimos sua mensagem. Aqueles com experiência de vida muito profunda
nos dizem, ayur harati vai pumsam udyann astam ca yan asau: “Com o
nascer e pôr do sol, a vida de todos está sendo tirada, exceto, isto é, para
alguém que está empenhado em glorificar Krishna.
De qualquer forma, é difícil mudar o estilo de vida de uma sociedade que
não se inclina a isto, mas ainda assim devemos tentar. Não é necessário
propriamente cantar os mantras diksa no cordão sagrado se for
inconveniente, mas não se deve cantar de uma maneira que seja menos do
que meditativa se se espera obter algum benefício do canto. Portanto, um
ajuste prático do tri-sandhyam poderia ser cantar a primeira sessão de
mantra depois de subir e tomar banho, e depois cantar uma segunda vez
antes de sair para o trabalho. Ao deixar o trabalho, embora na manhã, leve
o sadhaka para o dia, por assim dizer, seguindo Krishna para a floresta.
Esse é o começo do que poderia ser interpretado como um dos três
principais blocos de tempo na rotina diária, sendo o primeiro de manhã
cedo, seguido de sair de casa para o trabalho, seguido de um retorno para
casa para o equilíbrio do dia. Usando este método pode-se cumprir a
obrigação de cantar gayatri em três junções do dia e não ter que fazê-lo em
uma situação que não seja propícia à meditação.
No Gaudiya Vaisnavism, Guru mantra e gayatri, Gaura mantra e gayatri,
Nityananda mantra e gayatri, etc., nem sempre são dados pelo guru, mas o
mantra de Gopala e o kama gayatri são. Estes são os principais diksa
mantras para Gaudiya Vaisnavas. Outros mantras e gayatris são
principalmente para seva puja, mas devemos cantá-los conforme instruídos
pelo nosso Gurudeva, sabendo que existem outros que podem ter sido
instruídos de forma diferente. Isso leva a outra discussão sobre a liberdade
dos acaryas. Por exemplo, o guru mantra e gayatri dados por nosso acarya
Sri Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, são diferentes daqueles
encontrados nos escritos de Gopala Guru Goswami e Dhyanacandra
Goswami, que os coletaram de várias escrituras. O bija dado por Srila
Saraswati Thakura é diferente, pois leva a conceber o Sri Guru em qualquer
um dos quatro sentimentos primários de Vraja, em oposição a apenas
madhurya rasa. É também uma meditação sobre a absorção de Sri Guru na
Vraja lila (krishnanandaya), em oposição a Gaura lila (gaurapriyaya).
Nem todos os Gaudiya Vaisnavas aceitam o mantra e o gayatri de Gaura
como eternos, nem todos os Gaudiyas reconhecem uma aprakata nitya lila
de Gaura. Há muita discordância por aí. Discordamos respeitosamente —
assim como a maioria das linhagens de Gaudiya — com aqueles que dizem
que não se deve cantar mantras de Guru e Gaura.
Muitos significados podem ser derivados do Brahma gayatri. Se o mantra é
dado pelo guru, não há necessidade de parar de cantar, a menos que sua
eficácia seja alcançada ou o discípulo não possa recitá-lo por alguma razão
em particular. Caso contrário, diksa mantras em geral se aposentam no
estágio de svarupa siddhi, enquanto Krishna nama não. O mantra é uma
petição em que o nome é expresso. Nesse estágio, mantra-mayi upasana,
meditação em uma imagem imóvel da lila, transforma-se em svarasika,
absorção no fluxo contínuo da lila. A realização da importação do mantra
retira a necessidade de recitá-lo. No entanto, diksa mantras são
frequentemente cantados mesmo nesta fase avançada. Isso é discutido no
Brihat-bhagavatamrita.
FIM DO ARTIGO
55. ANIMAIS E KARMA, UMA VIDA CENTRADA NO GURU
GAYATRI

No hinduísmo a vida humana é diferenciada de outras espécies, por que ela


pode dar oportunidade de diretamente buscar a consciência de Deus.
Consciência de Deus é o objetivo da vida, e a consciência humana dá
oportunidade para realizar isso. Esta é a única posição da humanidade;
entretanto, envolve a vida toda. O que está envolvendo é a consciência ou a
alma eterna. O hinduísmo define a consciência como uma centelha de vida
que anima a matéria, a qual tem potência divina. Aonde quer que exista
consciência, existe vida.
Quando a consciência se identifica com a matéria através do desejo
subsequentemente o apego a essas formas de identidade são distintas de si
mesmas. A falsa identidade material. Assim, as muitas formas de vida são
todas um produto da consciência identificando através do desejo de uma
forma ou outra com a matéria. Quando a centelha individual de consciência
envolve a vida humana, isso alcança a entrada da vida divina. Então no
hinduísmo todos os seres conscientes tem o potencial para realizar Deus.
Enquanto o veículo mais apropriado para fazer isso é a forma humana de
vida. Exatamente onde a pessoa está situada na escala da vida é
determinada pela regra karmica.
Almas corporificadas passam através de muitas espécies de vida mas
apenas como os seres humanos eles podem acumular karma. Apenas nessa
condição a pessoa está livre completamente desta manifestação.
Com liberdade chega a responsabilidade. Os seres humanos que utilizam
mal essa liberdade terão que perder a liberdade no futuro pelo menos por
um tempo.
O capítulo 16 do Bhagavad-gita diz que semelhantes seres humanos terão
que nascer em espécies baixas de vida. Então, algumas almas na vestimenta
humana terão que usar as vestes de um animal e se degradar, sofrendo ou
desfrutando eles tem uma vida animal, isso está diretamente relacionado
com aquilo que eles fizeram na vida humana. Animais não podem criar um
novo karma por que eles estão completamente controlados por sua
natureza. Similar aos criminosos sendo encarcerados pelo estado, as almas
que vem vestindo um corpo animal distribuem suas sentenças karmicas e
eles ainda são novamente elegíveis para forma humana de vida, aonde eles
terão uma outra chance de atuar com responsabilidade e progredir para a
liberação.
A regra geral é que o futuro nascimento de uma pessoa é determinado pelo
seu desejo. De acordo com o desejo de uma pessoa, a natureza material dá
a ela um corpo que ela merece. O corpo que melhor facilita a satisfação dos
seus desejos. Por exemplo, o corpo de um porco facilita a gulodice, muito
mais do que um corpo humano pode facilitar. E um chipanzé em seu
habitat tem a habilidade para desfrutar de atividade sexual irrestritamente
mais do que um ser humano. Vida humana está melhor situada para a
ocupação espiritual. Na verdade, isso é o que o diferencia de outras
espécies. E se na vestimenta humana uma pessoa não cuida dessa
oportunidade, ela simplesmente procura outras espécies que estão melhor
situadas para isto. A natureza material facilita que uma pessoa tenha a
oportunidade com um corpo para satisfazer estas buscas.
No que se refere ao futuro destino da pessoa, o Bhagavad-gita diz que a
predominância de tamas (ignorância, indolência) na psique da pessoa
manifesta-se na vida humana como a tendência para um vício excessivo de
indulgência sexual ou de desfrute sexual, empurrando a pessoa para a
próxima vida. A predominância de rajas (relacionada ao crescimento
material) mantém a pessoa perpetuamente na forma humana e na
predominância de sattva guna (bondade e virtude) impulsiona a pessoa
para a direção espiritual.
A vida inteira do animal* incluindo o próximo nascimento está
determinada por aquilo que a entidade faz na vida humana prévia. Na vida
humana uma pessoa pode assumir uma quantidade de karma que envolve
um numero de nascimentos em espécies inferiores de vida antes de retornar
à vida humana. Como no Gita diz: mudha janmani janmani, a pessoa pode
aceitar nascimento após nascimento em espécies de vida humana se ele
desperdiça seu tempo de vida humana de uma forma tola. Quase impossível
classificar tudo isso em termos de detalhes um entrelaçamento karmico
pois há muitos fatores envolvidos. No entanto, o padma purana discute 5
estágios de reações karmicas começando com o karma não manifesto
(aprarabdha karma) como aquilo que não produziu fruto ainda.
Manifestando também como prarabdha karma, aquilo que apareceu na
vida presente da pessoa .
O padma purana diz que as reações karmicas para as vidas prévias
aparecem na vida presente primeiramente na disposição psicológica sutil
(kuta) que é um viés em direção um tipo particular de ação. Isso é seguido
pelo aparecimento de um tipo particular de desejo (bidja) para atuar de uma
forma particular. Quando a pessoa atua com este desejo, o karma produz
fruto (phalonmukham) e isso então fica completamente não manifesto.
Essas ações voltam a criar mais karmas não manifestos, então o ciclo
karmico da ação e reação está perpetuado. A raiz de todos estes estágios de
repercussão karmica é a ignorância (avidya). Bhakti tem o poder de
desenraizar a ignorância e de destruir todos estes estágios de reações
karmicas. No momento de diksa uma pessoa se torna equipada para lidar
com essas reações. De fato está dito que diksa mesmo destrói, na medida
que se passa o divya jñana (divino conhecimento) na forma do mantra
diksa e sua explanação. Diksa leva tempo para se manifestar
completamente. Com o título de sambanda jñana que para o sadhaka
envolve a recepção de uma orientação conceptual apropriada para a vida.
Aquele que se estimula a escutar e cantar a respeito de Bhagavan. O
sambanda jnãna está completo e realizado no momento em que
gradualmente o sadhana bhakti entra em bhava-bhakti. Neste momento, no
estágio devocional de ashakti, uma pessoa não sofre as reações karmicas.
Quando Sri Krsna formalmente entra na nossa vida através de diksa, a
influência do karma sobre nós é alterada e nós nos tornamos devedores os
quais tem declarado falência e tomam refúgio na corte. Enquanto o karma
ainda permanece, nós atuamos no serviço devocional sobre a guia de Sri
guru, e deixamos de nos implicar ainda mais no karma. Além disso nosso
bhakti destrói o karma não manifesto, mudando sua disposição e
erradicando nosso desejo para atuar contrário aquilo que é favorável ao
bhakti. Afinal de contas, bhakti devi destrói nosso prarabdha e transforma
nosso sadhaka deha (corpo de praticante), aquilo que é chamado cid-
ananda mayi, repleto com svarupa shakti de Krsna. Então a vida do
sadhaka não está regulada sob a regra do karma e nem está inteiramente
livre da influência do karma, pelo menos até quando o sadhana esteja
maduro. Por exemplo, naturalmente podemos sentir alguma
responsabilidade relacionada a morte de um animal, como um gato,
entretanto nós deveríamos tentar ver isso como um incidente no qual a
manifestação do nosso karma coincide com a manifestação do karma do
gato. Nós não estaremos diretamente envolvidos. A vida está cheia de
semelhantes incidentes. Mesmo acender o fogo para cozinhar causa a morte
de muitos espécies. Mesmo nossa respiração causa a morte. Nenhuma ação
material está livre de culpa. No entanto, isso não significa que nos devamos
cessar de atuar. Sri Krsna no Bhagavad-gita 18-56 nos encoraja então:
"Apesar de estarmos ocupados em todos os tipos de atividades (karmani), a
pessoa que toma refúgio em Mim alcança Minha imperecível eterna
morada por Minha graça". Sendo assim, o centro da nossa vida tem de ser
guiado por guru bhakti, quando o nosso completo progresso espiritual
acontece nós seremos liberados do karma e do ciclo de nascimentos e
mortes e todos que entram em contato conosco serão beneficiados, no caso
do gato, como foi o exemplo, será beneficiado através da graça de Sri
Krsna.
FIM DO ARTIGO
56. KARMA SEM COMEÇO

A antropologia moderna está inextricavelmente ligada à teoria


evolucionista de que a consciência evolui da matéria. Nós discordamos
dessa premissa e afirmamos que a vida vem da vida, não que a vida evolui
de elementos materiais inertes. Nossa filosofia sustenta que a matéria tem
suas origens na consciência e que a alma, a consciência e a vida são
sinônimos. Com base nisso, as escrituras hindus reconhecem a evolução,
tanto a evolução da consciência quanto a evolução da matéria em conjunto
com a evolução da consciência.
A escritura hindu ensina que, em última análise, a consciência e a matéria
não têm começo. O mundo da matéria e seus habitantes são ambos saktis
particulares (potências) do divino que, em combinação uns com os outros,
fazem o mundo se manifestar e não manifestar ad infinitum. Assim, entre
os humanos, sempre houve vegetarianos. Aqueles que consideram a
bondade uma virtude fundamental do progresso cultural consideram o
vegetarianismo como a dieta da espécie humana mais evoluída. A bondade
também implica em maior complexidade, pois é preciso pensar não
somente em como sobreviver, mas em como sobreviver evitando danos
físicos e emocionais, indicando que quando um ser humano passa da caça e
coleta para uma cultura agrária não violenta, ele está evoluindo
positivamente. O intelecto governado pela verdadeira espiritualidade
fomenta a bondade divina através da qual a humanidade pode realizar seu
mais alto potencial. Por outro lado, a inteligência desprovida de
espiritualidade e governada por exigências sensuais leva a uma sociedade
governada pela ganância, que pode ser uma sociedade ainda mais violenta
do que a dos caçadores.
Na minha opinião, o ser mais evoluído é o mais gentil, dificilmente o mais
mesquinho. De fato, poucos escolheriam um Hitler sobre um Gandhi como
modelo. Não digo isso em um esforço para descartar a teoria da seleção
natural, para a qual há evidências consideráveis. Aliás, seria incorreto supor
que, se a pessoa mais evoluída é realmente a pessoa mais gentil, a teoria da
seleção natural está errada porque parece dizer que a pessoa mais evoluída
é a mais forte, aquela que prevalece sobre as outras e, portanto, a pior. Isso
seria um mal-entendido da teoria, que não faz nenhum julgamento moral.
Assim, a teoria implica que a espécie humana poderia evoluir uma
estratégia de buscar a bondade como o melhor meio de sobrevivência.
Não é de surpreender que algumas coisas sejam inconcebíveis. Os
matemáticos provaram que existem verdades que não são prováveis. Por
exemplo, Kurt Gödel, sem dúvida o mais brilhante matemático do século
passado, provou que o pensamento humano é menos (mais fraco) do que é
possível. Ele provou que existem verdades que podem ser conhecidas que
não podem ser comprovadas matematicamente e, portanto, que existem
verdades que estão além dos limites da razão. Por causa disso, aceitamos a
revelação como o meio para o conhecimento abrangente, e assim
reconhecemos os limites do raciocínio humano. Queremos que o mundo se
adapte ao nosso raciocínio, mas se Deus e o eu estão além do intelecto, tal
proposta não é razoável.
O Vedanta-sutra diz que o karma é anadi, sem começo. Se diz isso em
resposta ao argumento afirmando que o karma é a causa do sofrimento em
si sofre de regressão infinita - uma sequência de raciocínio ou justificação
que nunca pode chegar ao fim. Para nos ajudar a entender a natureza sem
começo de nossa situação karmica, os sutras apontam para nossa
experiência de como uma árvore vem de uma semente, ainda que a semente
venha de uma árvore.
Sabemos nos versículos das escrituras que a alma não tem começo, mas as
escrituras também às vezes falam de maneiras que parecem dizer o
contrário: que a alma vem a ser em um determinado momento. Esse é o
limite da linguagem. Nossa tarefa é harmonizar ambas as posições e
despertar para o fato de que estamos, na verdade, em um emaranhado
karmico muito sério. A boa notícia, no entanto, é que existe uma solução.
Se aceitarmos o verso citado, como deveríamos, o próximo passo lógico é
aceitar a solução que o Bhagavad-gita tem a oferecer, man-mana bhava
mad-bhakto mad yaji mam namaskur: “Fixe sua mente em Mim (Krishna )
e se torne Meu devoto. Desta forma você certamente virá a Mim”, e sarva
dharman parityajya mam ekam saranam vraja: “Abandonando todas as
injunções religiosas, tome refúgio exclusivo em Mim (Krishna). Eu te
livrarei de todas as reações karmicas. Não temais.”(Bg. 18,65-66)
As pessoas geralmente querem uma boa história para explicar tudo, mas
essas histórias muitas vezes não fazem justiça à realidade metafísica da
qual fazemos parte. Neste caso, a ideia de que estávamos presos no mundo
material porque nos "rebelamos contra o Deus todo-bom" torna as coisas
simples; a compreensão é que, se nos conformarmos com a vontade de
Deus, seguindo o conselho das escrituras, seremos livres novamente. Quase
toda religião usa algum tipo de “Adão e Eva” ou analogia de rebelião para
explicar a condição humana e exonerar Deus para a existência do
sofrimento e do mal no mundo. Algumas seitas até tomam a analogia da
tradição literalmente.
Analogias simples têm sua utilidade, mas com relação à alma e à criação,
as escrituras hindus relatam algo bem diferente. Diz que é o próprio Deus
como Maha-Visnu que veio para cá! Este é o mundo Dele. Ele não foi para
outro lugar nem enviou mais ninguém para a terra livre. As Escrituras
dizem que, por amor, Maha-Visnu desejou tornar-se muitos e assim entrou
em Seu mundo. Ele não tem outro mundo próprio, nenhum outro lila para
falar. Ele entra na existência material como energia - tatastha-sakti -
consistindo de inúmeras almas (jivas). Isso não quer dizer que a jivatma
não seja distinta do Paramatma. Paramatma é simultaneamente uma e
diferente da jivatma. No entanto, a próprio Paramatma nunca entra
totalmente na existência material, na medida em que permanece
transcendental a ela. Assim, para entrar verdadeiramente aqui, o torna-se
muitos. No entanto, porque os muitos são infinitesimais, eles não se saem
bem em relação à poderosa energia ilusória de Visnu (maya-sakti). Assim
Deus como Narayana envia avatares de si mesmo para ajudar a sakti de
Maha-Visnu em sua situação. Isso é srsti-lila, o jogo divino da criação.
As escrituras afirmam claramente que não há começo para o karma. É
anadi. O srsti-lila também é sem começo, mas Visnu manifesta sua
tatastha-sakti no alvorecer de cada criação. Então, da homogeneidade, a
heterogeneidade das jivas se desperta e elas tomam seu lugar no mundo em
conformidade com o karma. As jivas são manifestas no mundo ou não
manifestadas em susupti (sono místico) dentro de Visnu. Uma vez que as
jivas sejam manifestas, elas podem escolher se voltar para Deus/Bhagavan
ou se afastar Dele. Eles têm essa oportunidade durante a manifestação do
mundo, e quanto mais conhecimento eles têm, mais informada é a sua
escolha. Somente quando eles conhecerem a Sri Guru eles podem fazer
uma escolha verdadeiramente informada. As Escrituras dizem que a
posição da baddha-jiva que escolhe servir Bhagavan é a mais gloriosa.
Deve ser cuidadosamente observado que em lila não há consideração de
justiça - tudo é justo no amor. Além disso, em consideração ao tattva, há
apenas um, nenhum outro para culpar, Deus está meramente interagindo
com Suas potências.
 Eles são bastante semelhantes, o suficiente para que Srila Sridhara
Maharaja algumas vezes usasse o termo Brahman ao descrever susupti com
relação ao movimento de tatastha da homogeneidade para a
heterogeneidade. Nas Escrituras, esse profundo sono sem sonhos (susupti)
também é comparado a Brahman; entretanto, susupti é uma homogeneidade
que não perdura, na qual o karma é temporariamente suspenso, mas não
erradicado.
Os seguintes são talvez os mais pertinentes. Eles são de Vedanta-sutra
2.1.34-35.
vaisamya nairghrinyena na sapeksavat tatah hi darsayati na karma
avibhagat iti cet na anaditvat
A essência e espírito destes sutras sutis é: “Não há favoritismo ou
negligência da parte de Deus, porque a felicidade e angústia das jivas é
determinada pelo karma, conforme as escrituras. Assim, trata-se do que
eles fazem, não Deus ”.
“Não”, o segundo sutra responde: “A teoria do karma não isenta Deus de
tratos desiguais e, portanto, a responsabilidade pelo mal que vemos no
mundo, porque no início da criação não havia karma. Portanto, no começo,
as jivas devem ter sido criadas de forma desigual ”.
“Não”, a segunda metade do segundo sutra responde: “Karma não tem
começo. É anadi".
Em outras palavras, assim como Deus é eterno, também são as jivas e o
princípio da justiça (karma). As jivas têm interagido com maya-sakti
sempre, como Maha-Visnu sempre existiu e eternamente realiza sua srsti-
lila. A interação da jiva-shakti com a maya-sakti liga as jivas à natureza
material. Eles a exploram e ela responde. De fato, vemos que as
consequências de nossas ações são a própria natureza do mundo. As
pessoas dizem: "O que vai, volta" e "em última análise, temos o que
merecemos". Essas declarações comuns expressam a verdade das
escrituras, ainda que imperfeitamente. Enquanto algumas pessoas parecem
sofrer sem razão aparente, a teoria teísta do karma procura explicar isso
através do conceito de muitas vidas, sendo o karma a explicação daquilo
que estamos presentemente experimentando. As escrituras também
explicam como mudar nosso destino karmico, abandonando a exploração,
levando uma vida de amor.
Em última análise, Deus se torna disponível para as jivas em toda a criação,
através do qual eles podem escolher terminar sua escravidão através da
devoção (bhakti). Esta oportunidade está sempre disponível. De fato,
embora Bhagavan honre o princípio de justiça que implica as jivas no
sofrimento, Ele também intervém. Isso é chamado de "misericórdia". O
karma torna a misericórdia possível, pois sem justiça não pode haver
misericórdia. Através de bhakti, mesmo aqueles em formas menos
complexas de vida, como plantas e animais, são estendidos à misericórdia,
predispondo-os em vidas futuras a fazer as escolhas certas quando estão em
condições de fazê-lo.
Nós nos identificamos com a lógica de nossa tradição em maior ou menor
extensão por causa de nossa psicologia. Nossas emoções impactam nosso
raciocínio e nossa psicologia é o resultado das ações de nossa vida anterior,
sejam elas karmicas ou devocionais. A razão é dificilmente o árbitro final
em qualquer de nossas decisões. Pode parecer, mas se olharmos abaixo da
superfície, encontraremos outras causas. Embora a vida espiritual deva
fazer sentido para nós, há boas razões para que ela não faça sentido para
nós em todos os aspectos e não faça sentido para todos os outros. Assim, as
escrituras recomendam a abordagem transracional do conhecimento
abrangente.
Transracional significa além da lógica, mas não necessariamente sem
lógica. Obviamente, algumas coisas estão simplesmente além da lógica. Na
verdade, se você pensar bem, perceberá que as melhores e mais
maravilhosas coisas estão além da lógica. O jogo está além da lógica. O
amor está além da lógica. A vida em si está além da lógica.
As Escrituras nos dizem que a lila, ou o jogo divino do doce absoluto, é
transcendental, supramental (acima da mente) e, claro, sem princípio.
Conscientemente ou não, todos estão envolvidos em brincadeiras divinas,
já que a jiva nunca está realmente separada de Deus. Somos parte de Deus,
sua energia - tatastha sakti. Em Sri Gita, Krishna diz assim: “Eu sou a vida
de tudo que vive. Todos os seres vivos são parte de Mim; eles estão em
Mim; eles são Meus."
FIM DO ARTIGO
57. ALÉM DE TODAS AS NOSSAS CONCEPÇÕES

Krishna lila não pode ser conhecido por meio de pesquisa empírica. Não
dependa disso para servir, e somente servindo uma pessoa saberá o que é
Krishna lila. Os passatempos de Krishna estão além dos limites da mente e
da inteligência (adhoksaja/aprakrta). A evidência empírica está sempre
faltando em termos de validação da divindade. Pujapada Sridhara Deva
Goswami fala sobre isso assim: “É impensável, desconhecido,
incognoscível. É uma coisa tão inconcebível; é adhoksaja. Nunca pode ser
capturado pela nossa força mental ou inteligência. Sua existência
transcende nossa especulação mental e considerações lógicas. Mas ainda
existe. Isso é lila, incidentes eternos, eventos que se repetem de um modo
particular, como um drama. Um drama é repetido muitas vezes na morada
eterna. Por vontade de Krishna, algum vislumbre vem para o atual mundo
material como uma exposição, para atrair as pessoas desta era. ”(Siga os
Anjos)
O Srimad Bhagavatam procura descrever o significado teológico e
filosófico da aparição de Krishna no mundo. Embora o Bhagavata não seja
fictício, ele não documenta a história como nós documentamos hoje.
Vyasadeva se esforçou para capturar a essência dos eventos,
particularmente seu significado espiritual. Além disso, ao mesmo tempo em
que o Krishna lila ocorreu no mundo, é simultaneamente transcendental a
ele. É conduzido sob a influência da svarupa-sakti de Bhagavan, não de sua
maya-sakti. Assim, embora o Srimad Bhagavatam não seja exatamente uma
evidência empírica para a existência de Krishna e Suas lilas neste mundo,
talvez seja a melhor evidência que temos.
No entanto, há também evidências convencionais de que os gregos foram
influenciados por Krishna bhakti e que eles reconheceram Krishna como
um ser divino que apareceu na Terra em Mathura, ao longo das margens do
rio Yamuna. Isso pode ser encontrado em Indika, de Megasthen, um livro
do século IV aC, citado extensivamente pelos antigos escritores gregos
clássicos. Evidência arqueológica adiantada fala mais adiante do
embaixador grego Heliodoro sendo convertido a Krishna bhakti no
primeiro século aC. A inscrição na coluna de Heliodoro, que atesta a sua
conversão, refere-se a Krishna como o "Deus dos deuses" e é, portanto,
uma referência inicial ao insight Gaudiya de que Krishna é a fonte de todos
os avataras. Assim, é claro que a religião Bhagavata centrada em torno da
aparência histórica de Krishna estava prosperando muito antes do século IV
aC.
Os Gaudiya Vaisnavas também têm o exemplo histórico comparativamente
recente de Sri Caitanya. Sua divindade é atestada por um número de
escritores contemporâneos, que em seus relatos biográficos defendem Sua
divindade e identificação com Krishna referindo-se à literatura sagrada e
citando relatos de testemunhas oculares de seus feitos miraculosos. Assim,
eles estabeleceram com razão, evidência escritural e testemunho pessoal
que Krishna e Sri Caitanya são Uma e A mesma pessoa aparecendo em
momentos diferentes para basicamente o mesmo propósito. Além disso, o
próprio Sri Caitanya nos ensina que Krishna é uma figura histórica deste
mundo. Ele nos ensina que Krishna também não é diferente de Seu nome, e
cantando Seu nome, Sri Caitanya derreteu em êxtase em uma extensão que
não foi vista neste mundo antes ou depois.
Portanto, quando Sri Caitanya diz que Krishna aparece neste mundo,
aceitamos Seu testemunho sobre fé, fé bem fundamentada que é baseada na
evidência da divindade de Sri Caitanya. Nós não entendemos a fé divina
como a ausência da razão, mas sim uma conclusão bem fundamentada que,
entre outras coisas, reconhece os limites da razão e a evidência empírica em
termos de sua capacidade de lançar luz sobre a realidade última.
Pede-se evidências de Krishna. Como mencionado, é o Bhagavatam que
nos fornece o registro primário de Krishna lila. A evidência de apoio, o
testemunho dos santos Vaisnavas, é um registro contínuo que atinge seu
apogeu na vida de Sri Caitanya Mahaprabhu. Ele foi para Vrindavana e
através de Seu olhar de amor projetou Seu coração, Seu bhava no plano
terrestre, onde viu os passatempos de Krishna ocorrendo eternamente. Por
sua vez, Seus devotos honram o olhar carregado de amor de Sri Caitanya.
O que Ele viu, o que Seus poderosos seguidores Sri Rupa, Sanatana e
outros viram acontecer em Vrindavana, nós honramos; e eles descreveram
Krishna lila como um evento histórico transcendental.
No geral, eu recomendaria que alguém seja fiel à experiência de Sri
Caitanya e à Sua teologia defendida pelos Goswamis. No entanto, como o
assunto é transcendental, há espaço para entendimentos diferenciados em
relação ao avanço espiritual de cada um, na medida em que estimulam a
devoção. O ponto importante a ser lembrado é que a mente materialmente
condicionada não pode forçar sua entrada em Krishna lila, mas através de
bhakti a mente do praticante se purifica, e então e somente então Krishna
lila se revelará ao devoto. Quando a lila se revela, a experiência, sem
dúvida, transcende todas as suas concepções anteriores.

O próprio Srimad-Bhagavatam descreve Krishna lila como sendo revelado


em linguagem poética, e está correto dizer que a poesia não é uma
linguagem usada para exatidão literal. Krishna lila também é descrito como
tendo sido escrito no "samadhi bhasya" de Vyasa, a tentativa lingüística da
parte do sábio de explicar a experiência de seu samadhi devocional, ou
transe extático de iluminação no amor a Deus. Sua tentativa pode ser
comparada a ensinar música a surdos, ou explicar amor a quem não tem
experiência. O Bhagavatam é sua tentativa de relacionar o que está além da
linguagem e do pensamento àqueles confinados dentro dos limites da
linguagem e do pensamento. Esta é uma das razões pelas quais se
encontrará outras escrituras e santos descrevendo as mesmas lilas com
detalhes variados, tudo com o objetivo de transmitir aquilo de que a lila é
realmente constituída, bhava e rasananda (êxtase).

No entanto, enquanto o Bhagavatam é um livro poético, também é


profundo. Seu autor dançou em uma corda bamba de tensão entre a
opulência (aisvarya) e a doçura (madhurya), entre a divindade de Krishna e
aquilo que O torna mais acessível, Sua humanidade cativante. Ele escreveu
sobre como Aquele que não precisa de nada se encontra em necessidade e,
portanto, torna-se acessível no amor. Tão carente quanto Bhagavan Sri
Krishna é, é o tanto que Ele é cheio de amor, como o amor por Sua
natureza tem uma necessidade de compartilhar e celebrar a Si mesmo.
O Bhagavatam como entendido por Sri Caitanya pinta a arte de Krishna lila
em uma tela de acintya-bhedabheda. Esta metafísica não dualista teísta fala
do amor divino (prema) como seu objetivo (prayojana). Fala do amor
espiritual de Deus na intimidade como aquilo que deve ser alcançado. Ele
descreve uma realidade dinâmica não-dual que é simultaneamente una e
diferente com Suas energias (saktis) pela força de Seu poder transracional
ou inconcebível. No amor, você e eu nos tornamos "nós" em uma união
dinâmica que preserva tanto quanto dissolve nossa individualidade. Se essa
metafísica é compreendida, independentemente de quão literalmente se
toma a descrição de Krishna lila, nunca se terminará na nirvisesa Brahman,
ou consciência não diferenciada desprovida da lila variada e pós-liberada.
Se você compreende acintya-bhedabheda, a visão de mundo metafísica dos
Goswamis de Vrindavana, que nos deram os textos que explicam o êxtase
de Sri Caitanya à luz de revelações anteriores, como os Upanisads e
Puranas, você entenderá a necessidade ontológica da forma eterna,
qualidades e lila.
Krishna tem uma forma? Ele é a forma do êxtase. Assim, Ele foi
experimentado e descrito em termos daquilo que em nosso mundo nos leva
além de nós mesmos - a intoxicação da juventude, o amor romântico e
assim por diante. Ele é a forma de sat-cit-ananda: Ser, conhecer e entrar
em êxtase, com ênfase no êxtase. Ele aparece na terra? Como Ele não pode
aparecer quando Seus devotos se definham por Ele em separação, com
Seus corações ficando mais afeiçoados a cada dia? Ele aparece em Seus
corações e então eles O veem diante deles, porque a meditação somente
sobre Ele não satisfará seu desejo puro de amá-lo em intimidade. De fato,
Ele não é diferente de seus corações puros, como o amor por Krishna e O
próprio Krishna São únicos e diferentes simultaneamente. A forma e a
aparência de Krishna correspondem aos corações de Seus devotos. Antes
de Radha, o ápice da devoção - tanto Deidade quanto ideal de devoção -
Ele não pode aparecer na forma opulenta de Narayana com quatro braços.
E somos ensinados que Vrindavana, Sua morada terrena, não deve ser
considerada uma área geográfica limitada. Não, é ilimitado por medida de
devoção, por medida de amor.
Ao mesmo tempo, para a prática espiritual interna, os detalhes da lila,
conforme descritos pelos santos Vaisnavas, devem ajudar a fixar a mente
em meditação sobre a lila. Eles servem como um guia para a visualização
espiritual meditativa, mantramayi upasana, levando à meditação
espontânea sobre a sempre reveladora e expansiva lila do Senhor Sri
Krishna.
FIM DO ARTIGO
58. ALÉM DE NOSSOS SONHOS MAIS SELVAGENS

A maioria dos mantras usados em nossa sampradaya são encontrados no


Hari Bhakti Vilas tendo sido coletados nos tantras, sastras, agamas, e
assim por diante por Sanatana e Gopala Batta Das Goswamis. O sannyasa
mantra não é exceção. Este mantra é dado aos renunciantes, para os babajis
ou para os tridandi sannyasis. Srila Bhaktissidanta Sarasvati Thakur deu
este mantra de iniciação aos sannyasis. Ele não o escutou de Goura Kisora
Das Babaji Maharaj durante sua presença manifesta, ao contrário, ele o
recebeu em uma visão divina depois que Goura Kisora Das partiu do
mundo. Srila Prabhupada Bhaktissidanta nem sempre repetiu este mantra
verbalmente para os seus sannyasis na iniciação. Em muitas ocasiões ele o
deu aos seus discípulos sannyasis escrevendo em um pedaço de papel.
Pujapada Bhakti prajña Kesava Goswami Maharaj não falou o mantra no
ouvido de Srila Prabhupada quando lhe deu sannyasi. Ao contrário, ele deu
isso num pedaço de papel. Similarmente, Srila Prabhupada deu o sannyasi
mantra para muitos de seus discípulos desta mesma forma. E importante
notar aqui que a vontade do vaisnava, sua intenção e bênçãos, esta é a
essência da transmissão divina. Além do mais, iniciação através da visão
divina não é coisa desautorizada na nossa sampradaya. A literatura
gaudiya nos diz que Sri Syamananda recebeu a iniciação dentro do gopi
bhava numa visão divina. Originalmente, sua iniciação foi contestada, mas
eventualmente isso foi aceito devido a seu poder espiritual. Baladeva
Vidyabhusana também confirma em seu comentário do Vedanta-sutra que
os mantras são algumas vezes transmitidos do guru ao discípulo em sonhos.
O primeiro capítulo da revolução subjetiva da consciência, Pujyapada
Sridhara Maharaja faz uma referência às personalidades do livro de Srila
Bhaktivinoda Thakur, Jaiva Dharma, onde ele diz que talvez eles
apareceram em outro dia de Brahma. No capítulo seis ele também diz que
as características são reais e que isso aparece a alguma pessoa em algum
ponto, em algum momento na sua imaginação, isso aparece como uma
realidade completa. O mesmo ponto em outro momento. Além do mais, ele
conclui que a assim chamada realização é uma realidade concreta da
perspectiva da mente universal.
Em outro momento quando se acessa essa questão, Srila Sridhara Maharaj
replica que qualquer coisa que apareça na mente de um suddha bhakta
(devoto puro) é realidade. Então, ele foi da opinião que os personagens do
Jaiva Dharma são, de uma maneira ou de outra, reais. Independente disso, o
fato é que estes personagens são instalados no reino espiritual que existe
muito além do mundo mítico da mente. Então é correto dizer que o
sadhana é uma prática espiritual que gradualmente garante nosso acesso à
mente de Deus. O que é a realidade da mente de Deus? Isto é uma questão
importante. Uma pessoa que é bem direcionada no Jaiva Dharma trata isso
claramente definindo a relação eterna entre a alma e a superalma. De outra
maneira, o assunto dos sonhos é direcionado nos sutras de Vyasa. Onde
está escrito que a consciência do sonho (svapnas) e o standya, ou a junção,
entre o estado desperto (jagrata) e o sonho profundo (susupti). Nos seus
comentários dos sutras, o venerável Baladeva Vidyabhusana explica que as
figuras que aparecem nos sonhos são criadas por Deus para distribuir os
resultados de atos menores, bons ou maus, que a pessoa tem realizado
anteriormente. Sri Ramanuja Acarya confirma isso seu comentário Bhasya
do Vedanta-sutra, onde ele escreve: "As coisas vistas por uma alma
individual durante estes sonhos são especialmente criadas pela Pessoa
Suprema e têm o significado de retribuição, seja para recompensa ou
punição, para ações de menor importância: Desta maneira eles duram
apenas o tempo do sonho e são percebidos apenas por aquela alma". Em
seu comentário do Srimad Bhagavatam, Srila Prabhupada fala a respeito
como segue: "Devido às atividades pecaminosas, à noite nós temos maus
sonhos os quais são muito preocupantes, turbulentos. De fato, Maharaj
Yudisthira foi obrigado a ver o inferno por causa de um leve desvio no seu
serviço devocional. Dursvapna (pesadelos) ocorrem por causa de
atividades pecaminosas. O devoto as vezes aceita uma pessoa pecaminosa
como discípulo e para contra restar as reações pecaminosas ele aceita o que
o discípulo fez e ele tem um sonho ruim por isso.
Baladeva Vidyabhusana também citou em seu comentário que os sonhos
são tão reais como um estado de vigília. Ele citou como evidência o fato de
que algumas vezes algumas soluções para os problemas médicos são
encontrados em sonhos, mantras, são passados em sonhos e objetos vistos
em sonhos são depois algumas vezes vistos em estado de vigília. Além
disso, ele disse que os sonhos muitas vezes predizem eventos futuros e que
aqueles que sabem lê-los podem às vezes prever o futuro. O veredito de
acordo com os sutras e os grandes acaryas, os quais os têm comentado, é
que nós não somos, em última análise, os criadores dos nosso sonhos. Deus
é o criador dos sonhos e o controlador da lei do karma. Os sonhos sendo
uma forma pela qual nós atuamos com nosso karma. Entretanto os sonhos
algumas vezes são tão divinos que eles podem ter uma intervenção que
transcende o karma, apesar que semelhantes sonhos são muito raros. Com
certeza sonhar a respeito de Sri guru é sempre auspicioso. Entretanto, as
observações de Srila Baladeva Vidyabhusana não abordam profundamente
a miríade de questões relativas, a psicologia humana e a natureza dos
sonhos. Como expressão do karma, os sonhos são normalmente o resultado
da preocupação durante o estado de vigília.
FIM DO ARTIGO
59. BHAKTI ATRAVÉS DO SOFRIMENTO

A palavra "pecado" no contexto Vaisnava


A palavra sânscrita "papam" denota o oposto de "punyam" (piedade). No
contexto do Gita, estes dois referem-se, respectivamente, a não aderência
dos mandatos das escrituras (agindo assim de forma contrária) e à
aderência aos mandatos das escrituras. Em vez de “pecado”, a palavra
papam poderia ser traduzida como impiedade, mas acredito que traduzir
"papam" como "culpa" não faria justiça ao que é pretendido no Gita.
Sem dúvida, todos nós temos vícios, e esses vícios atrapalham nosso
progresso espiritual e geram reações negativas (mau karma), eles são
parecidos com a noção cristã de pecado, exceto talvez pelo fato de que tais
“pecados karmicos” nunca levam à uma condenação eterna como sua
reação karmica. No entanto, se uma pessoa se sentir mais confortável com
a ideia de que certos atos que não ajudam no progresso espiritual
constituem um mau comportamento e quer se referir a tais atos pela palavra
sânscrita papam, eu não penso que ela deveria se sentir culpada ou se sentir
pecando por tal uso.

Oferenda a Krsna em circunstâncias extraordinárias


Existem muitos exemplos na história de Krishna-bhakti, nos quais os
devotos se encontram em circunstâncias menos que ideais, circunstâncias
que inibem sua capacidade de cozinhar e oferecer alimento à Divindade.
Um exemplo simples e longe de ser extremo é o da pregação na Índia (de
todos os lugares). Quando os discípulos de Srila Prabhupada foram pregar
para as famílias indianas no esforço de conquistar “membros vitalícios”
para a Iskcon, eles não tinham condições de cozinhar, muito menos
oferecer o que eles poderiam ter preparado para a Divindade. Quando esse
dilema foi apresentado a Srila Prabhupada, ele lhes disse simplesmente
para comer em restaurantes vegetarianos. Em casos como este, deve-se
comer e rezar para que a energia derivada da alimentação seja gasta apenas
em Krishna-bhakti, assegurando assim que a pessoa não está mais
envolvida na vida material no curso da manutenção do corpo.
Vasudeva e Devaki foram presos por anos e seu captor Kamsa não lhes
deu facilidade para cozinhar e oferecer suas refeições. No entanto, Krishna
manifestou-se em seus corações e depois apareceu pessoalmente para eles
na prisão. Em outras palavras, a vida devocional deles não foi prejudicada
por sua falta de facilidade. Quanto ao Ekadasi, idealmente deve-se jejuar
inteiramente com comida e bebida, começando na noite anterior. Se uma
pessoa não puder fazer isso, o conselho é que simplesmente se abstenha de
grãos e beba apenas leite ou suco de frutas. Na prisão estes alimentos estão
comumente disponíveis, por exemplo. Ninguém o proibiria de tal
observância religiosa.
Sri Krishna diz no Bhagavad-gita (9.26) que se alguém lhe oferecer com
devoção e pureza uma folha, uma flor, um fruto ou água, ele aceitará essa
oferta de devoção. Devoção é mencionada duas vezes neste versículo
indicando que mais do que qualquer outra coisa é a devoção amorosa
envolvida na oferta que Ele aceita. A ideia é que quanto mais amor
envolvido na oferta, mais Krishna come. Idealmente, a Deidade comerá
toda a oferenda e o devoto ficará satisfeito com o jejum. Então, se o Senhor
sai do Seu caminho para ver que tal devoto consegue alguma coisa para
comer, chegando até a trazê-lo pessoalmente, como fez no caso de
Madhavendra Puri, tal alimento é verdadeiramente prasada - a misericórdia
de Krishna.
Krishna diz que Ele come o que é oferecido e preparado com amor. Se, no
entanto, alguém não puder oferecer-lhe amor tão puro, então Krishna diz no
verso seguinte (9.27), que alguém deve oferecer-lhe o que quer que faça, o
que quer que coma, o que quer que seja, ou quaisquer austeridades que
possa realizar. No entanto, neste verso, Bhagavan não diz que come quando
lhe oferecemos tudo o que comemos, pois a comida e o amor não são os
mesmos. Ainda assim, Ele encoraja os menos avançados a oferecerem o
que comem, e esse ato de oferta é purificador.
Em conclusão, não se trata de comer. É sobre oferecer. Em sua mente uma
pessoa pode oferecer todos os tipos de pratos saborosos para Bhagavan, e
Ele os aceitará. Essa prática é conhecida como manasa seva, que é uma
maneira perfeitamente autorizada de servir à Divindade. Assim, você pode
oferecer comida para Sua satisfação, mesmo na prisão. Quanto ao próprio
consumo de uma pessoa, mesmo, por exemplo, diante do fato de estar
encarcerada em uma prisão, se alguns alimentos vegetarianos estão sendo
regularmente trazidos pelo arranjo de Deus, então essa pessoa deveria
mostrar sua gratidão e oferecê-los de volta a Ele em sua mente. Acima de
tudo, lembremos que bhakti é mais sobre sinceridade do que sobre seguir
estritamente as regulamentações. Sejamos sinceros em fazer o máximo que
pudermos em termos de práticas formais, considerando as circunstâncias
em que nos encontramos. Entendamos a essência das formalidades e nos
dediquemos a isso. Se uma pessoa fizer isso, fará progressos onde quer que
esteja.

FIM DO ARTIGO
60. DAIVA VARNASRAMA

"Aqueles envolvidos no gaudiya vaisnavismo, independentemente da seita,


devem entender que eles estão em dívida com Bhaktivinoda Thakur, quem
viu a necessidade de relacionar nossa tradição com a modernidade para
mantê-la viva no mundo".

Varnasrama dharma refere-se a escritura indiana baseada em um sistema


sócio-religioso, composto de quatro varnas ou ordens sociais (brahmana,
ksatriya, vasya e sudra), que respectivamente correspondem a sacerdote,
guerreiro, comerciante e operário, e quatro ashrams, ou ordens espirituais
(brahmacari, grihasta, varnaprastha e sannyasa), respectivamente
estudante, chefe de família, pai de família, renunciado e monge. A essência
do varnasrama dharma é alcançar o equilíbrio na vida entre a busca
material e espiritual. A ideia por trás disso é que uma pessoa que
compreende sua realidade psicossomática está mais bem preparada para
levar uma vida equilibrada e buscar o ideal espiritual. Nesta medida,
varnasrama dharma tem valor em relação ao objetivo da vida.
O Srimad Bhagavatam diz: dharmah svanusthitah pumsamvisvaksena-
kathasu yah notpadayed yadi ratim srama eva hi kevalam: "A execução de
um dever em varnasrama é apenas muito trabalhosa se não der origem ao
amor por Hari katha". (SB 1.2.8) Ele também diz, atahpumbhir dvija-
srestha varnasrama-vibhagasah svanusthitasya dharma syasamsiddhir
hari-tosanam: "Ó melhor entre os nascidos duas vezes, é por isso que se
conclui que a mais alta perfeição que se pode alcançar ao cumprir os
deveres do varnasrama é agradar a personalidade de Deus ". (SB1.2.13)
Esses versos caem na seção do Srimad Bhagavatam, onde Suta Goswami
responde as perguntas dos sábios a respeito do dharma supremo. Nesta
seção tão importante, é explicado que varnasramadharma é apenas valiosa
quando sua execução agrada a Hari, e nós sabemos do próprio Bhagavatam
que o varnasrama dharma não faz isso muito bem comparado com o quão
bem o Bhagavata dharma agrada a Hari. Bhagavata dharma
essencialmente significa uma vida centrada na devoção a Bhagavan Sri
Krsna.
Concordo que muitos dos que advogam a implementação do varnasrama
têm uma ideia muito superficial acerca do que consiste realmente o
varnasrama dharma. Varnasrama é muito detalhado e complexo. A ideia
de quatro divisões de trabalho e quatro ashrams é a estrutura básica, mas
uma pessoa teria que estudar o dharma sastra para preencher todos os
detalhes. Tal estudo pode desencantar muitos de seus defensores modernos,
porque a maioria está simplesmente escolhendo o que agrada a eles sobre o
varnasrama enquanto deixa o resto de fora.
Um olhar superficial sobre a questão "não dar sannyasa para mulheres" em
nome da defesa do varnasrama seria revelador. Tais pesquisas não
concederiam sannyasa para a grande maioria dos homens também, a menos
que estejam prontos para dormir na floresta e usar casca de árvore como
roupa de baixo. Caso contrário, claramente, Bhagavata ou Vaisnava
dharma está acima de varnasrama dharma. Bhakti sastra transcende o
dharma sastra.
Dharma sastra é destinado à vida religiosa regulada, que idealmente deve
levar a bhakti. Bhakti Sastra descreve o objetivo e os meios para atingir
esse objetivo, que em ambos os casos é, evidentemente, Visnu bhakti.
Bhakti é ouvir, cantar e assim por diante, sobre Krishna. Se alguém tem fé
de que todas as obrigações dharmicas são cumpridas apenas por bhakti,
uma pessoa trilha o caminho de suddha (puro) bhakti. Cumprir os deveres
em varnasrama agrada a Bhagavan apenas indiretamente, de uma maneira
similar, ser um bom cidadão agrada ao presidente. Varnasrama não é o
mesmo que bhakti porque bhakti é sobre cultivar um relacionamento
pessoal com Bhagavan.
Em última análise, somente bhakti pode dar bhakti, mas é bom ser religioso
também, é disso que se trata o dharma sastra. De fato, os devotos
avançados estão inclinados a pregar para o setor religioso, dando-lhes a
oportunidade de desenvolver fé em bhakti. No entanto, o vício do assim
chamado dharma - deveres religiosos - também pode ser um problema.
Pessoas carregadas de deveres religiosos podem ter dificuldade em
desenvolver a fé em bhakti. Essas pessoas tendem a se preocupar que, se
não seguirem o dharma sastra, elas serão culpadas mesmo quando
engajadas em bhakti. Krsna aborda isso no Bhagavad-gita quando diz
sarva-dharman paratyajya: "Abandonando todas as injunções religiosas
(dharma), se renda totalmente em Mim, Eu te livrarei de todas as reações
pecaminosas". (Bg 18,66)
Daiva varnasrama tem dois significados. Um significado é um sistema
varnasrama no qual o varna de uma pessoa não é determinado
exclusivamente pelo nascimento, mas sim em consideração a guna
(qualidade) e karma (vocação). O segundo significado de daiva
varnasrama refere-se a uma forma de varnasrama para os devotos. Este
segundo significado foi concebido por Bhaktivinoda Thakura para dar
suporte aos recém-chegados que tentam assumir a prática de bhakti.
Vaisnava dharma é superior ao varnasrama dharma, mas isso não significa
que os praticantes neófitos no caminho sejam automaticamente
transcendentes à influência dos modos da natureza material. Os devotos
ainda precisam ser engajados de acordo com suas propensões, pelo menos
até que sejam puros o suficiente para não serem mais conduzidos por essas
propensões.
O Srimad Bhagavatam (12.2.12-14) diz: "Na época dos Kaliends, os
corpos de todas as criaturas serão grandemente reduzidos em tamanho, e os
princípios religiosos dos seguidores de varnasrama serão arruinados. O
caminho dos Vedas será completamente esquecido na sociedade humana, e
a chamada religião será em grande parte ateísta. Os reis serão na maior
parte bethieves*, as ocupações dos homens serão roubar, e a mentira e a
violência desnecessária reduzirão todas as classes sociais ao nível mais
baixo de sudras. Vacas serão como cabras, os eremitérios espirituais não
serão diferentes das casas mundanas, e os laços familiares se estenderão
além dos laços imediatos do casamento".
Mais importante do que isso é que o Bhagavatam tem a dizer sobre o início
da Kali-yuga, que tem a ver com o próprio Bhagavatam em si. O Srimad
Bhagavatam (1.18) detalha como a degradação da classe brahminica
marcou o começo da era de Kali-yuga. Este capítulo descreve como após o
desaparecimento de Sri Krsna, um menino brahmana amaldiçoou o grande
devoto Pariksit Maharaj porque o rei aparentemente havia desrespeitado
seu pai. Este incidente colocou Kali-yuga em movimento, mostrando que
quando os brahmanas, que supostamente são os líderes da sociedade
varnasrama, se tornam orgulhosos e corruptos, todo o sistema varnasrama
se torna corrupto. Isso também motivou a narração do Bhagavatam, no qual
está estabelecido que o melhor meio de liberação em Kali-yuga é se abrigar
no sagrado nome de Krsna.

O estudo de escrituras essenciais, como o Bhagavad-gita, o Srimad-


Bhagavatam e o Mahabharata, revela que a posição social de alguém
(varna) é, em realidade, determinada pelas próprias qualidades e atividades
e não é simplesmente uma questão de direito de nascimento. Quando
apenas o nascimento é o fator determinante, o resultado é asura
varnasrama, ou o que é comumente conhecido hoje como o sistema de
castas. Esta corrupção de varnasrama foi proeminente durante o tempo de
Bhaktivinoda Thakur, então ele ordenou a seu discípulo Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta a estabelecer a correta concepção de varnasrama, na qual
guna e karma determinam a posição social (varna). Além disso, ele queria
estabelecer um tipo de varnasrama que ajudaria aqueles no caminho do
vaisnava dharma, que é superior ao dharma ordinário do varnasrama. É
claro que, na época, muitas pessoas pensavam diferentemente, achando que
varnasrama brahmanas eram superiores aos vaisnavas. Além disso, o
mesmo equívoco no qual o nascimento rejeitava as qualificações reais de
alguém tinha transbordado dentro do vaisnava dharma, e assim, em
algumas linhagens gaudiya vaisnavas, os gurus eram determinados apenas
pelo nascimento, independentemente de suas qualidades ou realização.
Vendo tal confusão infiltrando o gaudiya vaisnavismo, Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta procurou estabelecer o daiva varnasrama para os devotos
que ainda tinham desejos materiais, ainda que o caminho de bhakti
transcenda o varnasrama.
Assim, Bhaktivinoda Thakur ensinou que basicamente havia três tipos de
varnasrama: A-daiva varnasrama (varnasrama ordinário),
asuravarnasrama (o sistema de castas) e daiva varnasrama (varnasrama
para vaisnavas). Sua ideia de daiva varnasrama para os devotos vem dos
seguintes versículos do Srimad Bhagavatam: "Tendo despertado a fé em
Minhas glórias, sentindo nojo de todas as atividades materiais, sabendo que
toda gratificação dos sentidos leva à miséria, mas ainda sendo incapaz de
renunciar a todo prazer dos sentidos, Meu devoto deve permanecer feliz e
Me adorar com grande fé e convicção.Embora ele às vezes se envolva em
gozo dos sentidos, Meu devoto sabe que toda a sensualidade leva a um
resultado miserável, e ele sinceramente se arrepende de tais atividades".
(SB 11.20.27-28)
Somente a fé torna alguém apto a pisar no bhakti marga, mas, ao entrar
neste caminho, não se liberta imediatamente do desejo material.
Ordinariamente, aqueles com desejo material são elegíveis para seguir o
karma marga, ou varnasrama dharma. Contudo, a fé em bhakti os alivia
desse fardo, mesmo enquanto os desejos materiais permanecem. Ao mesmo
tempo, os devotos não devem artificialmente agir como se fossem
completamente realizados como paramahamsas, porque na maioria dos
casos eles serão atraídos por suas propensões materiais, apesar de sua fé.
Portanto, que haja um arranjo para engajá-los apropriadamente em
consideração ao bhakti. Essa é a ideia de daiva varnasrama para os
devotos. Seu significado é servir como um apoio para o bhakti, que
proporcionaria um sentido de equilíbrio material em uma sociedade de
devotos.
Dada a cultura socioreligiosa na qual esta ideia surgiu, Srila
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura organizou seus discípulos em quatro
grupos de serviço e quatro ashrams aproximadamente análogos às divisões
de ocupação e status espiritual descritas no varnansrama dharma. Por
exemplo, em seu daiva varnasrama, aqueles inclinados a estudar, pregar e
adorar a Deidade eram considerados brahmanas, e só eles podiam tomar a
voto de sannyasa. Aqueles inclinados para a administração eram
considerados ksatriyas. Os proprietários de casas que financiavam a
pregação e os templos eram considerados vaisyas, e aqueles com fé que
realizavam seva mas que tiveram pouca disciplina espiritual eram
considerados sudras. Ele agrupou seus discípulos desta maneira, deixando
claro que o vaisnava dharma era transcendental ao varnasrama dharma.
A visão de Bhaktivinoda a esse respeito e a tentativa dinâmica de
implementá-lo por Bhaktisiddhanta são dignas de nota. Através de suas
visões e esforços, eles nos fornecem um precedente para enfatizar a
necessidade de apoio horizontal para trazer equilíbrio material aqueles
envolvidos no crescimento vertical sobre o qual está, em última análise, o
gaudiya vaisnavismo. Por mais interessante que pareça, a espiritualidade
contemporânea não poderia concordar mais. Isso salienta que o processo
espiritual vertical, embora não dependa de um desenvolvimento horizontal,
é, no entanto, facilitado por trazer equilíbrio psicológico e social, bem
como princípios éticos, para a vida do praticante.
Deveríamos nos orgulhar de sermos membros da Bhaktivinoda parivara, e
os envolvidos no gaudiya vaisnavismo, independentemente da seita, devem
entender que estão em dívida com Bhaktivinoda Thakur, que viu a
necessidade de relacionar nossa tradição com a modernidade para mantê-la
viva no mundo. Nós não saberíamos da visão de Bhaktivinoda se não fosse
por Prabhupada Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura e seus discípulos.
Deve ficar claro que a corrupção do varnasrama dharma, que acentava
excessivamente o nascimento das qualidades e atividades de alguém,
transbordava também para o gaudiya vaisnavismo. Assim, ao pregar a
concepção adequada do varnasrama, Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta
SaraswatiThakura também pregou contra a ideia de que o nascimento em
um particular parivara sozinho qualificava uma pessoa para a posição de
guru ou acarya. Isto naturalmente levou a sua concepção do bhagavata
guru parampara, como discutido em meu livro Sri Guru Parampara:
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, Herdeiro da Vida Esotérica de
Kedarnatha Bhaktivinoda.
FIM DO ARTIGO
61. DEVOTOS DESCONTENTES

Deturpações do Gaudiya Vaisnavismo


Há de fato um sério problema com a corrupção nos locais de peregrinação
da Índia, incluindo os locais sagrados associados aos passatempos de Sri
Caitanya Mahaprabhu. Algumas linhagens nessas áreas parecem ser
superadas pela ganância, em alguns locais coagindo os peregrinos a doarem
dinheiro por meio de ameaças e intimidações. Isso vale também para
lugares sagrados relacionados com outras tradições religiosas. No entanto,
o problema parece ser particularmente agudo na Índia, onde, em muitos
casos, os templos são de propriedade de uma determinada família e servem
como empresa familiar.
Os problemas também surgem porque a tradição Gaudiya é muito generosa
em seu alcance, abraçando pessoas que podem ter dificuldade em aderir aos
padrões ou seguir práticas espirituais.
As mais graves são as ofensas resultantes da má aplicação de nossa
filosofia em relação à vida romântica do Absoluto. Na literatura Gaudiya o
amor de svayam-Bhagavan Sri Krishna e Sua svayam-sakti Sri Radha é às
vezes comparado com a intensidade do amor encontrado neste mundo entre
dois jovens amantes. Embora a teologia Gaudiya claramente diferencie o
amor mundano do amor espiritual, os ainda assim chamados devotos
abusaram da adoração de Radha-Krishna usando o casal divino como um
modelo para suas relações sexuais ilícitas. Esta é a mais notória corrupção
do Gaudiya Vaisnavismo.
Não obstante, a minha experiência diz que, apesar dos problemas que
encontrei no Gaudiya Vaisnavismo, a sampradaya de Caitanya
Mahaprabhu permanece vibrante e é sempre puramente representada em
algum lugar. As coisas boas são frequentemente abusadas e a
espiritualidade não é exceção, mas a deturpação implica que a
representação apropriada também existe. Se você olhar com atenção,
encontrará.

O devoto madhyama
Madhyama, ou intermediários, são devotos caracterizados por apropriada
discriminação. Isso quer dizer, entre outras coisas, que a inteligência deles
está absorta no cultivo da consciência de Krishna. A discriminação é a
função do intelecto. Para regularmente e profundamente se estudar o
Srimad Bhagavatam (nityam bhagavata sevaya) se requer total aplicação
do intelecto de uma pessoa, e isso resulta em divorciar o intelecto de sua
relação prejudicial com os sentidos, os quais tornam os indivíduos servos
deles. Isso (esse "divórcio") permite que alguém se torne estável na prática.
O suicídio
O suicídio não é a resposta adequada aos problemas da vida. É verdade que
o renunciante Chota Haridasa cometeu suicídio depois de saber que
Mahaprabhu considerava sua conduta inadequada. Também é verdade que
Bhaktivinoda Thakur sugeriu que esse exemplo ilustrava um meio aceitável
de arrependimento para os renunciantes caídos. No entanto, Bhaktivinoda
Thakur fez esse comentário há mais de um século, e o suicídio de Chota
Haridasa ocorreu na Índia há mais de cinco séculos. Naquela cultura
passada, as normas sociais eram muito diferentes do que são hoje. De fato,
as regras para os monges naqueles tempos eram tão numerosas e rigorosas
que nenhuma ordem moderna seria capaz de abranger todas elas.
Portanto, ao discutir a questão do suicídio pelos renunciantes caídos, Srila
Prabhupada confirmou a santidade do suicídio de Chota Haridasa, assim
como o Caitanya-caritamrta, mas o proibiu estritamente para seus próprios
discípulos.
Quanto aos devotos fora da ordem renunciada, eles devem aceitar a dor de
suas circunstâncias com tolerância, cujo fruto é a liberação. Quanto ao seu
serviço, isso não depende de um corpo saudável. Pode-se servir bem ou
melhor com a mente.

Concepção sobre a Iskon


Na minha opinião, a Iskcon tem sido muito lenta em se mover com os
tempos. Além do apoio que ganhou da comunidade de imigrantes indianos,
a Iskcon, como instituição, não fez muito progresso ao ser aceita pelo
público americano, pelo menos não da mesma forma que muitas outras
seitas orientais, particularmente as seitas budistas, são aceitas. Por mais
ocidental que seja, a Iskcon se apega a uma quantidade razoável de
bagagem cultural em nome de ser verdadeira ou casta ao seu fundador,
Srila Prabhupada. Assim, seu sentido de seguir Srila Prabhupada é menos
que dinâmico, e isso mostra não apenas cultural e socialmente, mas
também espiritualmente. A Iskcon também tende a ser confusa com
questões de siddhanta (teologia). Além disso, desde a partida de Srila
Prabhupada, o grupo cometeu sérios erros espirituais, muitos dos quais
permanecerão assombrados por algum tempo no futuro.
No entanto, na Iskcon e em outras missões Gaudiya ativas
internacionalmente, você encontrará alguns pensadores dinâmicos e
também alguns devotos espiritualmente avançados. O que eu sinto que é
necessário é de alguma forma trazer esses devotos progressistas juntos -
para enfiar uma corda através dessas pedras preciosas e torná-las uma força
a se considerar. Eu escrevo o texto acima com relação ao alcance, mas se
quisermos falar apenas da vida interior como um medidor para o futuro de
nossa tradição, essa é outra discussão. Em resumo, minha experiência é que
a vida interior profunda ainda está viva e bem na sampradaya.
Oferendas opulentas a Srila Prabhupada

Ao que me parece, Kirtanananda Swami veio para Srila Prabhupada com


presentes que significavam algo para ele e os ofereceu nesse espírito.
Naquela época, ele estava construindo uma residência elaborada para Srila
Prabhupada em seu asrama/comunidade em West Virginia. Projetado e
construído inteiramente por devotos artesãos, a magnificamente
ornamentada estrutura chamada "Palácio de Ouro de Prabhupada" seria
cercada por sete templos adornados de Krishna. O projeto, aprovado por
Srila Prabhupada, foi para servir como uma atração de demonstração para
angariar interesse na consciência de Krishna.
Em sintonia com a construção do palácio, Kirtanananda Swami queria
tratar Srila Prabhupada como realeza pensando que este era o mais alto
padrão, assim, aplicava seus dons de pedras preciosas, etc. Entretanto, seu
pensamento nessa conexão era incorreto, pois a tradição védica ensina que
a realeza é indiretamente presidida por santos brâmanes, que são
desprovidos de desejo por riqueza pessoal e opulência. Neste contexto, o
Gaudiya Vaisnavismo ensina que a Vraja-lila de Sri Krishna, em toda a sua
simplicidade e humanidade, é transcendentalmente mais completa do que a
adoração a Deus em admiração e reverência.

Movimento de Srila Prabhupada e Iskon


A Iskcon deve ser reconhecida por seu alcance. Há muitos devotos que
vieram para a consciência de Krishna através da Iskcon, mas de alguma
forma ou outra fé foi perdida naquela organização. Aqueles que sentem
uma desconexão entre a atual Iskcon e o espírito revolucionário do Gaudiya
Vaisnavismo encontrado em Srila Prabhupada, devem estar cientes de que
Iskcon não é a única missão representando os ensinamentos de Srila
Prabhupada e Caitanya Mahaprabhu.
Portanto, devotos insatisfeitos devem tomar a iniciativa de avançar em
consciência de Krishna, buscando sadhusanga em outro lugar, que é o que
eu fiz quando fui forçado a sair de Iskcon tantos anos atrás. Desde então,
tenho tentado ajudar esses devotos, oferecendo-lhes uma alternativa
positiva à Iskcon e, por causa disso, tenho sofrido considerável oposição de
líderes nessa organização e, em muitos aspectos, pouco apoio mesmo
daqueles que simpatizam comigo. Este mês fiz 60 anos, com 12 anos
servindo Srila Prabhupada dentro da Iskcon e 25 anos servindo a ele fora da
Iskcon. Eu tinha 29 anos quando Srila Prabhupada deixou o mundo. É hora
de ser a mudança que nós desejamos. Se queremos que o Gaudiya
Vaisnavismo tenha vida no mundo hoje, comecemos dando sua vida a ele.
Encontremos um guia e entremos no fluxo eterno de krishnanusilanam.
Mudemo-nos e mudemos o mundo assim. O que diabos está te impedindo?
FIM DO ARTIGO
62- DIVINA ORTODOXIA

Eutanásia e suicídio
Eu não disse que eu condeno a eutanásia em todos os aspectos, mas sim
que eu não acho que a resposta para essa questão complexa seja preto e
branco. Como mencionei, a eutanásia (do grego) significa uma “boa
morte”. O que é uma boa morte? As Escrituras dizem que, apesar das
circunstâncias, se no momento da morte alguém se lembra de Deus, então a
vida e a morte são bem-sucedidas, ante narayana smrti. Assim, novamente,
existem formas de suicídio que, pelo menos na antiguidade, eram aceitáveis
e até louváveis para muitos hindus. Entre estes estão o jejum até a morte e
o controverso rito Sati, como evidenciado pela existência de mais de 300
templos históricos de Sati na Índia.
Basicamente, o hinduísmo tem duas visões morais distintas sobre o tema da
eutanásia. A primeira visão é que, ao ajudar a pôr fim a uma vida dolorosa
e, além disso, ao fazê-lo dentro do contexto da criação de circunstâncias
auspiciosas e espirituais, está-se realizando uma boa ação e, assim,
cumprindo obrigações morais.
A segunda visão é que, ao ajudar a acabar com a vida de uma pessoa que
sofre, está perturbando o tempo do ciclo de morte e renascimento. Nesta
visão, os envolvidos na eutanásia assumirão o karma restante do paciente.
Este segundo argumento sugere que manter uma pessoa viva em uma
máquina de suporte à vida também seria indesejável. Outra consideração é
que nossa vida material é em grande parte determinística, pois embora
sejamos unidades de consciência que são em certo sentido distantes das
determinações /leis da natureza, somos condicionados pela natureza devido
à nossa identificação com ela. Assim, não está claro que alguém que realiza
a eutanásia a pedido de outro ou de outra forma - em situações em que a
pessoa que está morrendo está inconsciente - está fazendo algo mais do que
agindo como um agente do destino e não sendo assim culpado por interferir
na determinação karmica da duração de vida da pessoa que está morrendo.
A ideia de que o karma da pessoa que está morrendo é transferida para o
agente da eutanásia também é suspeita, pois o karma está preocupado com
a intenção. É a intenção que determina mais do que qualquer outra coisa a
natureza da ação de alguém e, portanto, a reação karmica da pessoa.
O hinduísmo também faz distinções importantes em relação ao que pode
ser chamado de forma pré-moderna de eutanásia. Se alguém comete
suicídio por razões egoístas, continuará na roda do nascimento e da morte
(samsara). As pessoas que ajudam essas mortes também estão mais
implicadas no samsara. No entanto, se um indivíduo procura a morte de
forma consciente e voluntária por razões espirituais, um resultado diferente
se inicia. Assim, existem formas de suicídio espiritual.
Na tradição de Gaudiya, encontramos tanto Raghunatha dasa Goswami
quanto Sanatana Goswami desejando formas de suicídio espiritual em
algum ponto de suas vidas. Embora Caitanya Mahaprabhu tenha alertado
Santana Goswami de que o suicídio não seria favorável à sua busca de
prema, ele nem sempre se opôs ao suicídio. De fato, no caso de seu colega
Chota Haridasa, ele aprovou seu suicídio como meio de superar uma ofensa
(aparadha) para à libertação e ao amor. Assim, alguns sadhus sustentam
que a doutrina hindu permite o encurtamento da vida quando ofensas
impedem a disciplina espiritual em busca de moksa. As Leis de Manu
também permitem prayopavesha (jejum até a morte). Assim, diz-se que se
você comprometer seu corpo a uma dissolução lenta e voluntária para fins
espirituais, você se libertará da tristeza e do medo e alcançará a liberação.
Percebo que tais suicídios não são inteiramente análogos às formas
modernas de eutanásia, em que a morte é provocada pela mão de outra
pessoa, com ou sem o consentimento da pessoa que está morrendo. No
entanto, no caso em que a escolha é se deve ou não puxar o plugue em uma
máquina de suporte de vida (que é indiscutivelmente uma forma de
adulteração artificial com a duração de vida de uma pessoa) e
consentimento são dados por parte de uma pessoa interessada em
emancipação espiritual, vejo pouca diferença nessas formas pré-modernas
de suicídio espiritual. Em contraste, administrar um medicamento para
induzir a morte parece-me condenável.
Mais uma vez, eu não sou um defensor da eutanásia per se, mas ao
contrário sinto que os dilemas morais dessa natureza exigem um
pensamento sutil e uma compreensão essencial das escrituras, que devem
ser aplicadas levando-se em consideração as circunstâncias únicas que
surgem no mundo de hoje. Finalmente, como impliquei em minha
discussão original sobre a eutanásia, minha perspectiva é a de um
vedantista e não de um moralista, ambos os quais têm validade dentro do
hinduísmo e que podem diferir por razões importantes.

Sobre o uso de letras maiúsculas nas escrituras Vaisnavas


Discernir os pontos de vista de nossos acaryas anteriores sobre o uso de
pronomes pode não ser tão simples quanto se implica, dado o fato de que
nossos acaryas não têm um padrão uniforme. Em bengali não há letras
maiúsculas, mas o caso familiar de pronomes era geralmente usado em vez
da forma honorífica (ver Caitanya-caritamrta). Isso é o equivalente a usar
um pronome minúsculo em vez de um maiúsculo.
Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura, de acordo com o uso britânico
prevalecente da época, que se inclinava para um forte uso de letras
maiúsculas, ele tornou maiúsculos não apenas os pronomes referentes à
divindade, mas também muitos adjetivos e substantivos. Aqui está um
exemplo do estilo que ele usou:
“Reverências ao mais magnânimo, o Doador do Amor de Krishna, o
Próprio Ser de Krishna, o Senhor portando o Nome Krishna-Caitanya e
possuindo a Forma de cor dourada! Eu me submeto a Sri Krishna-Caitanya,
aquela pessoa misericordiosa de ações maravilhosas que, pelo néctar do
tesouro de Seu próprio Amor intoxicou o mundo, delirou com a ignorância,
libertando-o dessa enfermidade. ”(“ A Realização de Krishna Prema ”)
[Observe o uso em maiúsculo de palavras como“ Magnânimo ”,“ Doador
”,“ Amor ”,“ Forma ”e“ Quem ”.
Srila A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, também de acordo com o
uso predominante no tempo em que ele escreveu, tinha uma política
diferente de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura. Ele não tornou maiúsculos
os adjetivos e substantivos referindo-se à divindade. Além disso, na edição
do Brahma-samhita de Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura publicada
pelo Bhaktivedanta Book Trust (BBT), a escrita de Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakura foi apresentada no uso contemporâneo, em vez do estilo
que ele mesmo usou anteriormente:
“Krishna é a exaltada entidade Suprema, tendo Seu nome eterno, forma
eterna, eterna atribuição e passatempos eternos.” (Sri Brahma-samhita)
[Observe o uso das letras minúsculas em “entidade”, “nome”, “forma” e
assim por diante.]
As edições do Brahma-samhita de Sri Caitanya Saraswat Math e Gaudiya
Vedanta Samhiti também refletem essa tendência em direção ao uso mais
leve das letras maiúsculas.
O atual uso predominante, conforme delineado no Chicago Manual of
Style, o guia de estilo preferido para publicação de livros na América do
Norte, não é tornar maiúsculos os pronomes referentes à divindade.
Levando em consideração que nossos acaryas anteriores utilizaram o uso
predominante de seus tempos e o fato de que usar pronomes minúsculos
para se referir à divindade está de acordo com o bengali original, adotamos
cuidadosamente nossa política atual. À luz dos fatos acima, não podemos
concordar com a avaliação de que nossa política não seria aprovada pelos
nossos acaryas anteriores. Pelo contrário, a história mostra que a nossa
política está alinhada com a abordagem dinâmica dos nossos acaryas
anteriores, que procuraram apresentar o siddhanta Gaudiya nas formas
contemporâneas da língua inglesa em constante evolução.
Embora o bengali não utiliza letras maiúsculas, ele tem o seu próprio jeito
de fazer a mesma coisa: As formas honoríficas dos pronomes (*pronomes
que glorificam, enfatizam à divindade etc) . É significativo que nossos
acaryas da Gaudiya geralmente não usem estas formas para Krishna. A
razão para isto é que, embora de acordo com tattva-vicara, Krishna seja
Deus (correspondendo ao uso honorífico), do ângulo de rasa-vicara Ele é
meu amigo (correspondendo ao uso familiar). Em outras palavras, um
aspecto fundamental do Gaudiya Vaisnavismo é trazer a divindade a um
nível humano para facilitar a intimidade. Os Vrajavasis veem Krishna
como seu amigo, não como Deus. Assim, a partir de diferentes ângulos de
visão, tanto o uso honorífico quanto o uso familiar estão corretos, mas o
uso familiar é mais fiel ao coração do Gaudiya Vaisnavismo, e é o uso
empregado na maioria de nossas escrituras Gaudiyas.
Em segundo lugar, não se deve ignorar a evidência de que o uso do inglês
pelos nossos acaryas anteriores evoluiu em conjunto com a evolução da
língua inglesa. Embora nossos acaryas não estejam limitados pelas
convenções da linguagem, eles os seguem, porque são favoráveis a uma
apresentação contemporânea. Isso vale não apenas em termos de
linguagem, mas também de outras maneiras, como o uso de automóveis e a
imprensa. Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura chegou a dizer que estava
preparado para servir carne em Mayapur se fosse necessário para a
disseminação da consciência de Krishna. Assim, há uma base substancial
para uma apresentação progressiva do Gaudiya Vaisnavismo. De fato, a
verdadeira ortodoxia em nossa linhagem é dinâmica, não estática.
Um último ponto sobre a conclusão de que o uso de letras minúsculas para
pronomes referentes à divindade é uma tentativa de levar a divindade a um
nível mais baixo: Isso é mera especulação, embora generalizada, que revela
falta de conhecimento sobre a evolução da língua inglesa. O inglês antigo
continha muito mais capitalização (letras maiúsculas) como resultado de
suas raízes germânicas (todos os substantivos ainda são tornados
maiúsculos em alemão). Aqui está um exemplo de uma sentença de 1749:
“Examine seu coração, meu bom leitor, e resolva se você acredita nessas
questões comigo”. O uso de letras maiúsculas começou a mudar no século
XIX, principalmente devido à estética na tipografia. Em vez de usar letras
maiúsculas para todos os substantivos, apenas os nomes próprios foram
capitalizados. Assim, o uso das letras maiúsculas em inglês não pretende
ser um sinal de respeito, como é evidenciado pelo fato de que Satanás,
Hitler e Ku Klux Klan são maiúsculos, mas semideus e anjos não são. O
uso de letras minúsculas para divindade segue uma tendência maior de
aumentar a legibilidade diminuindo o uso de vírgula e a capitalização. A
Bíblia em suas línguas originais de hebraico e grego não tornou maiúsculos
os pronomes, e as edições mais atuais da Bíblia não tornam maiúsculos os
pronomes referentes à divindade. Como as três principais guias de estilo
nos Estados Unidos não tornam maiúsculos os pronomes (além de "I", por
razões tipográficas), isso dá às publicações uma sensação datada para
muitos leitores, e é altamente provável que isso só aumente no futuro. Nós
queremos liderar o bando ou ser puxados para trás contra nossa vontade?
Espero que se reconsidere os pontos de vista sobre esta questão, não tanto
em termos das próprias decisões de uso de uma pessoa, mas sim pela dura
condenação de nossa política de uso, a qual eu considero suficientemente
bem estabelecida e bem pensada, e não baseada em favorecer aqueles com
más intenções.

FIM DO ARTIGO
63. IGUALDADE, VARNASRAMA E TRANSCENDÊNCIA

Varnasrama lida com ética e moralidade, que não constituem a vida


espiritual propriamente dita. Assim, envolver-se em varnasrama não é o
objetivo da vida. Quando estamos preocupados em determinar o objetivo
final, muitas coisas serão rejeitadas, mesmo que tenham alguma utilidade
na realização do objetivo. A utilidade do varnasrama é que ele convida a
influência de sattva. Quando entendemos nossa realidade psicossomática,
estamos melhor equipados para levar uma vida equilibrada e buscar o ideal
espiritual. Nessa medida, o varnasrama, ou melhor, o espírito e a essência
desse sistema, tem valor em relação ao objetivo da vida.
Na terminologia do Gita, uma pessoa psicologicamente bem ajustada é
aquela que está ciente da influência particular que os gunas exercem em
sua psique e age em consideração a essas influências. Independentemente
de por qual guna a pessoa é predominantemente influenciada, essa
consciência básica é ela mesma a influência de sattva, que sutilmente
governa o sistema social varnasrama do Gita. Na visão do Gita, o primeiro
passo essencial da bondade é situar-se no dever prescrito, um dever que
corresponde à psicologia da pessoa. Ao ser colocado corretamente,
encontra-se um senso de harmonia com o eu materialmente condicionado, o
que possibilita o cultivo de outros aspectos da bondade.
Aqueles cujas ações não são determinadas em consideração à sua
psicologia estarão desequilibradas e mais facilmente presas às influências
da paixão e da ignorância. Ao mesmo tempo, sattva em si também deve ser
transcendida porque nos impede da liberdade máxima em união amorosa
com Deus. Sob sua influência, muitas vezes uma pessoa permanece
prisioneira da tradição religiosa, em vez de perceber a mensagem essencial
da tradição.
Aqueles cuja psique é predominada por sattva podem, na medida
correspondente, buscar direta e naturalmente a vida transcendental,
enquanto aqueles dominados por rajas e tamas acharão este curso mais
difícil. Para tais pessoas, embora possam progredir em sentido absoluto,
problemas relativos, como disfunções psicológicas, podem surgir e criar
alguns impedimentos.
Esta noção das gunas e sua relação com a cultura espiritual e bem-estar
psicológico se encaixa bem com a psicologia transpessoal. Nesse modelo, a
necessidade de se desenvolver em uma pessoa psicologicamente bem
ajustada é considerada um pré-requisito ou uma disciplina paralela que
pretende complementar a cultura espiritual propriamente dita.
No interesse de “estabelecer o varnasrama” devemos levar em
consideração até que ponto a sociedade moderna está gravitando em
direção a um tipo de integração social em vez da segregação social
envolvida no varnasrama. Devemos dar uma olhada essencial nessa
tendência moderna, encontrar o valor nela, e seguir com isso, advogando
algo que não vai radicalmente contra a corrente de nossos tempos, mas que
ainda cumpre a essência do varnasrama.
A humanidade parece estar gravitando em direção ao terreno comum de
nossa espécie como seres humanos, em vez de diferenças percebidas de
raça, sexo, credo etc. Isso tem valor, mas a igualdade e a realização,
adequadamente compreendidas, não são atingíveis no âmbito moral. O
humanismo e a moralidade nunca podem preencher a alma. A moralidade
tampouco pode realizar seu próprio ideal de sociedade humana perfeita e
permanecer vital, porque a própria moralidade depende de ter uma
sociedade necessitada de moralidade. Uma sociedade perfeita não precisa
de moralidade. A vida espiritual transcende o varnasrama.
Igualdade de oportunidade e representação, o coração da democracia,
pertencem ao reino da alma. A prática espiritual comum para todos
perceberem essa igualdade é cantar os nomes de Deus. Para fazê-lo de
forma pacífica e progressiva, será útil desenvolver-se em termos de
indivíduos bem ajustados (sattva-guna). Embora isso possa acontecer
através da cultura direta da vida espiritual (ceto darpana marjanam),
praticamente descobrimos que muitas pessoas após anos de cantos não
desenvolveram esse coração limpo, que é representativo da influência de
sattva.
Assim, a necessidade é de daiva-varnasrama, varnasrama para os devotos.
O coração do varnasrama é facilitar o desenvolvimento desse ser humano
bem ajustado e integrado, que se desenvolve a partir do conhecimento da
realidade psicossomática da pessoa. Isso, por sua vez, facilita a cultura
espiritual.
Em outras palavras, o princípio do varnasrama, baseado na consideração
das gunas, é universal. Não precisa se limitar a uma expressão literal dessa
universalidade em relação a tempos passados. Afinal, é material. Diz
respeito ao reino da relatividade - moralidade e ética. Seu valor reside, em
última análise, em sua defesa de uma realidade absoluta que transcende
isso. Moksa o torna totalmente sem sentido, enquanto prema, ao fazer o
mesmo, emprega-o superficialmente em lila.
Se não for entendido a esta luz, há pouca esperança de realizar nossa
igualdade ou "estabelecer varnasrama" hoje - mesmo na sociedade dos
devotos, muito menos na sociedade humana.
FIM DO ARTIGO
64. EXPANSÕES, FORMAS E ENERGIAS

O amor de Deus por todas as almas é diferente do amor de Krishna por


Seus devotos. Deus supervisiona o mundo em Sua forma conhecida como
Maha-Visnu. Por amor, Maha-Visnu deseja tornar-se muitos. Assim, Ele
manifesta o mundo (lokavat tu lila kaivalyam) e as jivas se expandem do
sono profundo homogêneo para uma vida heterogênea no mundo. Então, na
forma dos Vedas, Maha-Visnu manifesta Sua orientação para a sociedade
humana. Maha-Visnu é cheio de compaixão por todas as almas no mundo
material, e porque Ele é uma manifestação parcial de Krishna, pode-se
dizer que Krishna também está cheio de tal compaixão. Perto de seu
coração, Ele usa uma kaustuba mani (pedra lápis lazuli), que representa
todas as jivas. Então, Deus nos ama antes que O amemos, antes que
estejamos conscientes Dele.
No entanto, algumas almas preferem amar a Deus, enquanto outras não.
Entre aqueles que escolhem amar a Deus, também encontramos uma
gradação de amor. Alguns amam a Deus porque Ele os mantém. Outros
amam a Deus em um sentido mais abstrato, desistindo da exploração
material - aquilo que não é amor - em busca da salvação. O amor de
Krishna, no entanto, é desprovido dessas duas motivações. Além disso, é
constituído apenas de atos motivados pelo desejo de agradá-Lo. Esse tipo
de amor é chamado uttama-bhakti. Ele se manifesta na forma de uma
prática espiritual (sadhana-bhakti), bem como na perfeição (bhava/prema-
bhakti). Quando este amor atinge o estágio de prema, ele tem o poder de
cativar completamente Krishna.
 É verdade que existe um Deus que tem muitas formas e nomes. No
entanto, as pessoas se aproximam de Deus por diferentes razões. Assim,
todas as formas de adoração não são iguais. A medida em que Deus está
presente no culto de alguém é determinada pelo motivo com o qual alguém
adora a Deus. Algumas pessoas adoram com o objetivo de melhorar sua
situação material, algumas buscam a salvação, e alguns adoram a Deus
obedientemente, porque é a coisa certa a se fazer conforme as escrituras.
Embora todos esses motivos tragam a reciprocidade de Deus, nenhum deles
constitui a mais completa expressão de amor e, portanto, nenhum deles
conecta alguém com a expressão mais completa da divindade - o coração
de Deus.
Sri Caitanya ensina como se apaixonar por Deus. Em Sua abordagem, não
há preocupação com ganho material ou salvação, nem Deus é meramente
servido obedientemente, porque é a coisa certa a fazer. Seu método de
adoração é somente relacionado a fazer aquilo que, pessoalmente, agrada a
Deus, ao invés de seguir somente Suas leis, conforme detalhado nas
escrituras. Ela se preocupa em amar a Deus de tal forma que a distância
entre o adorador e o adorado é superada. Seu ideal é exemplificado pelas
lilas leiteiras e pastoris de Sri Krishna. Sri Caitanya opinou que na história
religiosa do mundo, nenhum melhor exemplo de amor divino altruísta pode
ser encontrado. Sob escrutínio, torna-se evidente que seu argumento é bem
fundamentado.
Enquanto Sri Caitanya defendia este padrão de amor, seus seguidores
respeitam todas as formas genuínas de adoração. Na medida em que Deus
está presente em uma seita particular ou na vida de um praticante, essa seita
e pessoa devem ser respeitadas. De fato, como um amante de Deus poderia
pensar o contrário?
Assim, acredito que os problemas sectários resultam mais de uma falta de
conhecimento real em Deus do que de qualquer outra coisa.

O benefício de adorar o Deus do Sol


Geralmente as pessoas adoram Surya por boa saúde. No entanto, uma
pessoa deve se preocupar não apenas com a saúde de sua estrutura mortal,
mas, mais ainda, com a saúde de sua alma. Portanto, deve-se adorar não
apenas o semideus Surya, mas sim Surya-Narayana - a Luz Suprema - e
deve-se fazê-lo todos os dias da semana. Visvanatha Cakravarti Thakura
explica que a vida real e a alma de todas as entidades vivas dentro deste
universo é o sol e, portanto, o sol é venerável, surya atma
atmatvenopasyam. A ideia é que devemos ver o sol como representante de
Narayana (Deus) e meditar no sol como uma metáfora para Deus, que é a
Luz Suprema que dissipa as trevas da ignorância e nutre as almas de todos
os seres vivos.

A ponte do Senhor Rama


A ponte de Rama construída por Hanuman e seus associados será
descoberta por aquelas pessoas corajosas que escolhem se esforçar para
conquistar o mal em seu próprio coração através do serviço desmotivado ao
Supremo. Esta é uma ciência muito diferente da arqueologia. A ponte de
Rama foi construída por seus devotos, simples e sem instruções. Eles a
construíram para unir Rama a Sita, um subproduto do qual envolvia o
assassinato do mal personificado: Ravana. Devemos tentar construir uma
ponte dentro de nossos corações, uma ponte para Sita. É aí que Sri Rama
reside.

O conceito de "espírito Santo" para os Gaudiya Vaisnavas


Talvez o paralelo mais próximo do Gaudiya Vaisnavismo com a noção
cristã do Espírito Santo seja a svarupa-sakti de Sri Krishna (energia
interna). Esta sakti capacita Seus devotos, capacitando-os a se conduzirem
em um estado de graça, mahatmanas tu partma daivim prakrtim asritah.
Os meses do calendário Vaisnava e formas de Krishna
Em Vaikuntha existem muitas formas de Visnu, uma das quais é chamada
Damodara. No entanto, esta forma de quatro braços de Deus é diferente de
Krishna, que é conhecido como “aquele cuja barriga está amarrada por uma
corda (dama-udara)”, em memória de Sua lila, na qual Sua mãe, Yasoda,
amarrou Seu filho com a corda de Sua afeição. Embora os meses do
calendário Vaisnava recebam o nome de doze Divindades Visnu, os
devotos de Krishna devem lembrar-se de sua forma como uma criança
pequena atada por Sua mãe durante o mês de Damodara. Eles também
devem pensar em todas as formas de Visnu como expansões de Krishna.

A posição de Laksmi Devi


Sakti-tattva deriva-se de Sri Radha e Visnu-tattva deriva-se de Sri Krishna.
Assim, todas as personalidades que aparecem como Bhagavan e Suas
consortes são manifestações parciais de Radha e Krishna. Laksmi é uma
manifestação parcial de Radha, assim como Narayana é uma manifestação
parcial de Krishna. Enquanto Laksmi e Narayana são pessoas em si
mesmos, ao mesmo tempo eles não são independentes de Sua fonte, Radha
e Krishna.

Como uma jiva toma o lugar do Senhor Shiva


Srila Sridhara Maharaja falou de "Siva" em termos da palavra que significa
“liberação”. Assim, a jiva pode se tornar Siva ou liberada.
Caso contrário, o “posto” de Siva referido por Sanatana Goswami e outros
acaryas não é a posição de Sadasiva, mas sim uma manifestação de Siva
neste mundo conhecido como as expansões de Raudra. Bhaktivinoda
Thakur explica isso em seu Kalyana-kalpa-taru, assim, sivatva labhiya
nara, brahma-samya tadantara asa kore 'sankaranugata: “Se alguém
alcança o posto de Siva, a única coisa a ser alcançada é a' unicidade' de se
fundir à refulgência do Brahman".

A escolha da jiva e o relacionamento com Deus

A tatastha-sakti (energia marginal) do Senhor é uma manifestação parcial


de Sua svarupa-sakti, que é a fonte de todos os saktis. A jiva (alma
individual) é uma partícula de tatastha-sakti. Quando a jiva obtém um
investimento de capital da svarupa-sakti, ela entra em um relacionamento
com Deus que equivale a Deus manifestando Seu amor (svarupa-sakti) no
coração da jiva. A escolha da jiva de servir a Deus e a abordagem de Deus
para ele são simultâneas, ye yatha mam prapadyante.
A natureza do relacionamento que se segue é algo que se desenvolve por si
mesmo. Um relacionamento particular com Deus não é melhor que o outro,
na medida em que todos os devotos servem de acordo com como Deus
escolhe aceitar o Seu serviço. Quando a jiva é purificada através do alcance
de Deus e da descida correspondente da graça de Deus, o viés espiritual do
devoto manifesta-se plenamente e leva-o a um plano particular de amor a
Deus.

A identificação das jivas


Este importante verso do Srimad-Bhagavatam é citado quatro vezes no
Caitanya-caritamrta. Em seu Bhagavata-sandarbha, nosso Gaudiya
tattvacarya, Sri Jiva Goswami, escreve sobre isso da seguinte maneira:
“Na descrição da percepção de Srila Vyasa em um transe espiritual do
Supremo (descrito no Tattva-sandarbha), as entidades vivas individuais são
claramente descritas como diferentes do Supremo. Por esta razão, ninguém
deve alegar que as jivas são idênticas ao Supremo, e ninguém pode
adicionar artificialmente a frase jiva iti ca sabdyate (e o Supremo também é
conhecido como jiva) a este verso do Srimad-Bhagavatam ”.
Aqui Jiva Goswami explica que a jiva não é Brahman em todos os
aspectos. Pelo contrário, é uma partícula da energia de Deus (sakti),
conhecida como tatastha, ou energia marginal. Tatastha-shakti é
caracterizada por sua capacidade de ser influenciada por seu ambiente,
portanto, pode estar sob a influência da energia ilusória de Deus (maya-
sakti) e esquecer completamente sua natureza espiritual.
Brahman, por outro lado, é sempre supremamente independente e nunca se
encontra sob a influência da ilusão. Isto é confirmado no primeiro verso do
Srimad-Bhagavatam. A jiva é identificada com Brahman apenas no sentido
de que é uma unidade eterna de consciência. Bhaktivinoda Thakura escreve
que quando sua cobertura de ignorância é removida, a jiva pode
experimentar Brahma jñana e Brahmananda - conhecimento de Brahman e
a alegria de Brahman. Ainda assim, a mera remoção da ignorância da jiva
não revela toda a identidade da jiva. Afinal de contas, sua ignorância é o
resultado de se afastar de Deus e, portanto, sua iluminação requer se voltar
para Deus (bhakti). Assim, Sri Caitanya Mahaprabhu disse a seu discípulo
Sanatana Goswami que a condição natural da jiva, sua svarupa, é “Krishna
dasa” e que o serviço a Krishna está além de Brahmajñana e Brahmananda.
Isso é discutido no seguinte verso do Bhagavatam:
bhayam dvitiyabhinivesatah syad isad apetasya viparyayo 'smrtih /
tan-mayayato budha abhajet tam bhaktyaikayesam guru-devatatma //
“O medo surge quando uma entidade viva se identifica erroneamente como
o corpo material por causa da absorção na energia externa e ilusória do
Senhor. Quando a entidade viva se afasta do Senhor Supremo, ele também
se esquece de sua própria posição constitucional como servo do Senhor.
Esta condição desconcertante e medrosa é afetada pela potência da ilusão,
chamada maya. Portanto, uma pessoa inteligente deve se empenhar com
firmeza no serviço devocional puro do Senhor, sob a orientação de um
mestre espiritual fidedigno, a quem ele deve aceitar como sua divindade
adorável e como sua própria vida e alma ”(SB 11.2.37).
Um exemplo prático da relação entre Bhagavan Sri Krishna e sua sakti é a
relação entre fogo e calor. Fogo e calor são um e diferentes ao mesmo
tempo, calor sendo a energia, ou sakti, de fogo. Similarmente, esta é a
natureza de Deus /Krishna /consciência não dual, que se expressa em três
fases: Brahman, Paramatma e Bhagavan. Krishna é um e diferente de tudo
o que existe (sua saktis) - natureza material, as entidades vivas e os
semideuses e deusas.
O Svetasvatara Upanisad confirma isso, parasya saktir vividhaiva sruyate
svabhaviki jnana-bala-kriya ca: Deus age manifestando Suas energias
ilimitadas e variadas. O Bhagavad-gita coloca assim: "Tudo depende de
Krishna, como as pérolas são amarradas em um fio."
FIM DO ARTIGO
65. GEORGE HARRISON E INICIAÇÃO

"O registro de serviço não anula a necessidade de receber a iniciação de um


mestre espiritual fidedigno. Até o próprio Krsna tomou iniciação, assim
como Caitanya Mahaprabhu. Sendo encarnações de Deus, eles não
necessitariam de iniciação, mas aceitaram para dar um exemplo aos
outros."
No Brahma-vaivarta Purana está escrito que Vyasadeva se casou com
Vatika, a filha de Jabali, e que eles praticaram austeridades juntos por
muitos anos. Eles conceberam um filho, e como a criança era auto realizada
antes mesmo do nascimento, ele permaneceu no ventre de sua mãe por um
tempo excepcionalmente longo para evitar a entrada no mundo e
potencialmente ser influenciado pelo poder da energia ilusória de Visnu
(Visnu-maya). Quando recebeu a garantia de Krsna de que ele não se
distrairia, ele nasceu e se chamava Sukadeva. Mais tarde, ele se atraiu pela
poesia que descreve Krsna lila e compreendeu que essa atração não poderia
ser a influência de Visnu-maya. Ele então estudou o Srimad Bhagavatam
cuidadosamente sob a orientação de Vyasa. É dito que ele falou o
Bhagavatam a Raja Pariksit na tenra idade de dezesseis anos. Imagine um
garoto de dezesseis anos instruindo um imperador! A verdade pode vir de
quartos inesperados. Tem uma vida própria e muitas vezes transcende
formalidades.
Os devotos avançados que se formaram em sadhana-bhakti e em bhava, às
vezes exibem três sattvika-bhavas (sintomas extáticos) em um grau
pequeno: lágrimas, arrepios e gagueira. Quando Mahaprabhu orou por
bhava-bhakti em seu Siksastakam, ele mencionou esses três sintomas.
Entretanto, a experiência de bhava é muito profunda e aqueles que a
alcançaram tendem a esconder esses sintomas. O amor é um assunto
particular. A este respeito, Bhaktivinoda Thakur cita as instruções de
Mahaprabhu a Rupa e a Sanatana Goswamis. Mahaprabhu disse a eles que
dessem a conhecer sua afeição por ele enquanto continuavam a assistir aos
afazeres mundanos, assim como uma esposa envolvida no amor de um
amante esconde seu amor, dando atenção extra a seus deveres domésticos.
De fato, Narada instruiu Gopa Kumara em Brhad Bhagavatamrta que
mesmo alguém que tenha alcançado prema, em que todos os oito sattvika-
bhavas se manifestem com maior intensidade, deve se esforçar para ocultar
esses sintomas. Ao mesmo tempo, Sri Rupa Goswami explicou que os
outros que ainda não atingiram bhava são aptos a imitarem esses sintomas.
Além disso, às vezes pela graça de Bhaktidevi esses sintomas aparecem por
um curto período de tempo em sinceros devotos que ainda não atingiram
bhava.
Portanto, se devemos reconhecer um devoto avançado, devemos olhar além
desses sintomas externos para o caráter interno de um devoto. Sri Rupa
menciona nove traços de caráter que devem estar presentes em um devoto
avançado: Fortaleza (ksantih), não desperdiçar tempo (avyartha-kalatvam),
desapego (viraktih), ausência da falta de coisas materiais (mana-sanyata),
confiança na misericórdia de Krsna (asa-sanyata), ansiedade
(samutkantha), atração constante pelo canto do Krsna nama (nama-gane
sada rucih), apego a discutir as qualidades de Krsna (asaktis tad-
gunakhyane) e atração pelos lugares onde Krsna realizava seus
passatempos (pritis tad-vasati-sthale) . Estes são sintomas de um devoto
avançado.
Existem muitas seitas budistas com detalhes variados acerca da iluminação.
O budismo não compreende a consciência da mesma forma que os
vedantinos compreendem. Enquanto que para os budistas a consciência não
é uma realidade ontológica distinta da matéria, os Vaisnavas (e os
vedantinos em geral) veem a consciência como categoricamente diferente
da matéria. Assim, o budismo é mais materialismo espiritual, se você
quiser. Além disso, o budismo é ateísta e o vaisnavismo é teista. Assim, os
estágios de iluminação do budismo não necessariamente correspondem
com os da bhakti-marga.
Certamente, a situação em que uma pessoa se encontra é resultado de seu
karma, mas é difícil determinar exatamente o que aconteceu no passado
para garantir esse resultado. Não é de modo algum certo que a condição de
uma coisa seja a punição por algo ruim que uma pessoa tenha feito em sua
vida anterior. Todos os problemas são, na verdade, uma oportunidade de
serviço. É preciso pensar os problemas sob essa luz e mude sua
perspectiva.
De acordo com o Bhagavad-gita, toda ação é realizada pelos modos da
natureza material, embora não se perceba. O eu é meramente a testemunha
dos movimentos da natureza material. Embora o eu anime a natureza
material, fica sobrecarregado pela influência da natureza material e se
considera executor de atos que, na realidade, são realizados pela natureza
material. Por exemplo, às vezes, quando as pessoas ligam a televisão, o que
passa na televisão assume suas consciências; da mesma forma, o eu anima
a natureza material pela força do desejo e, em seguida, a natureza material
consome o eu em um mundo ilusório de falsa identificação.
Para aqueles que desejam um relacionamento, o desejo sexual deve ser
satisfeito e, finalmente, transcendido através do casamento e do amor que o
casamento promove oferecendo uma ampla oportunidade para o sacrifício.
Deve-se ver o casamento como uma oportunidade de crescer através do
sacrifício, e neste espírito cantar o Krsna nama. O amor do parceiro
encoraja o sacrifício, e o sacrifício combinado com o canto de Krsna nama
promove o amor de Krishna. Conforme uma pessoa vai desenvolvendo-se
espiritualmente, o amor por Krsna (prema) substitui a luxúria.
O décimo primeiro capítulo do Bhagavad-gita é talvez o mais significativo
para os vaisnavas porque enfatiza a supremacia da forma de dois braços de
Krishna. Isso é bastante interessante, uma vez que, ostensivamente, trata-se
de Sua forma universal e, portanto, é também um dos capítulos favoritos
para os impersonalistas. Apenas veja como Sri Krsnacandra pode satisfazer
partes opostas com o mesmo ensinamento!
Quando lemos o gita, devemos tentar conhecer Este de quem se está
falando, amar e apreciar Suas qualidades. Sim, ele é o tempo e o tempo
destrói tudo, mas ele existe além do tempo também, em uma terra livre da
morte e transbordando de afeto.
George Harrison era uma pessoa especial, e sua popularidade na época
permitia que ele usasse com sucesso a mídia para transmitir o mahamantra
Hare Krsna em todo o mundo. Embora possa ser um bom sentimento
pensar que George estava além da necessidade da iniciação, esse
sentimento não coincide com as conclusões escriturais. Nem eu nunca ouvi
dizer que Srila Prabhupada disse que George ou qualquer outra pessoa não
necessitava de iniciação para atingir a perfeição no gaudiya vaisnavismo.
De fato, Sri Caitanya Mahaprabhu disse a Sanatana Goswami que o
processo sistemático de cultivar a devoção de bhakti pura requer que uma
pessoa aceite e tome iniciação de um mestre espiritual fidedigno.
Entretanto, nem toda pessoa que canta o nome de Krsna ou está
promovendo o preparo está pronta ou qualificada para ser iniciada. Srila
Prabhupada não achou que George estivesse pronto, e a história demonstra
que ele estava correto. Embora George apreciasse profundamente o
gaudiya vaisnavismo em certa medida, ele também se envolveu em várias
tradições espirituais além do gaudiya vaisnavismo. Em particular, os
ensinamentos de Paramahamsa Yogananda tiveram uma forte influência
sobre ele. Embora George tivesse alguma fé em Krishna-bhakti, parece que
para parte deles ele permaneceu na plataforma de jnata-sukrti, logo abaixo
do limiar de sraddha real, como evidenciado por sua eclética orientação
para a espiritualidade. Essas informações, no entanto, são as quais se
dispõem.
Ainda assim, está claro que, desde o início, George estava inspirado a levar
a sério a mensagem de Srila Prabhupada de cantar e prestar-lhe algum
serviço valioso. Então, pelo menos, George avançou em bhakti, mesmo
sem iniciação. Mesmo assim, o registro de serviço não substitui a
necessidade de receber iniciação de um mestre espiritual fidedigno. Até o
próprio Krsna tomou iniciação, assim como Caitanya Mahaprabhu. Sendo
encarnações de Deus, eles não precisaram de iniciação, mas aceitaram para
que, no entanto, dessem um exemplo para os outros.
O objetivo do gaudiya vaisnavismo é que cada indivíduo se torne
consciente de Krsna, não necessariamente tornar o mundo inteiro
consciente de Krsna. De acordo com Krsnadasa Kaviraja Goswami, deve-
se estar consciente de Krsna para mudar os corações dos outros - krsna
sakti vina nahe tarapravartana. George Harrison transmitiu o mantra Hare
Krishna no conselho de Srila Prabhupada. Foi Srila Prabhupada quem
realmente mudou o coração das pessoas, envolvendo-as no serviço de
Krishna. Muitos ouviram o mantra e ainda o estão ouvindo através da
música de George, mas somente aqueles que estabelecem uma conexão
com um mestre espiritual fidedigno colherão todos os benefícios de sua
audição. Assim, para todos, o desafio é tornar-se consciente de Krishna,
estabelecer um templo no próprio coração. O início formal e substancial
desse esforço é se abrigar em um guru fidedigno e eventualmente receber
iniciação dele.
FIM DO ARTIGO
66. DEUS JOGA

Conexão entre paramatma e alma individual


Paramatma significa a Alma Suprema, de modo que o termo é
intercambiável com todas as formas de divindade, mas na teologia Gaudiya
ele é usado principalmente para se referir às encarnações Purusas de Deus
que presidem sobre a natureza material. Essas encarnações são Maha-
Vishnu, o qual manifesta os universos individuais; Garbhodaksayi Vishnu,
o qual manifesta os planetas e os seres dentro de cada universo; e
Ksirodakasayi Vishnu, o qual permeia tudo dentro dos universos e que nas
palavras de Srila Prabhupada é conhecido como o Paramatma coletivo de
todos os seres.
Essas encarnações de Vishnu controlam o ato de criação (sristi-lila), que
envolve a expansão e contração de universos ilimitados de novo e de novo
para a eternidade. Quando os universos se contraem, as jivas não liberadas
que permanecem entram no corpo de Maha-Vishnu em um descanso
coletivo e homogêneo. Essa condição, que é chamada susupti, é ao que
Srila Prabhupada se refere quando escreve: “Como Ele (Paramatma) vê até
mesmo a morada onde os seres vivos coletivos descansam, Ele é o
Narayana original.”
Aqui Srila Prabhupada está identificando a encarnação Purusa Maha-
Vishnu com Narayana, o Senhor do mundo espiritual (Vaikuntha), como
Maha-Vishnu na expansão de Bhagavan Narayana. Assim, num sentido
mais amplo, Narayana também é conhecido como Paramatma, "a Alma
Suprema", diferenciando assim Deus e Suas encarnações das infinitesimais
jivatmas, ou almas individuais. Em santa rasa, ou na eterna adoração da
visão beatífica da Divindade, o objeto de meditação do devoto é
Paramatma Narayana. Isso quer dizer que o Paramatma imaginado dentro
do coração do yogi é manifestado como Bhagavan Narayana em
Vaikuntha, ou como Sri Krishna em Goloka. No Bhagavad-gita, o astanga
yoga misturado com bhakti descrita no capítulo seis visa essa realização.
Em qualquer caso, o verso citado do Caitanya-caritamrta nos diz que a
Alma Suprema, Paramatma, está de uma forma ou de outra sempre com a
alma individual em todas as situações, transcendental e material.
No entanto, nós Gaudiya Vaisnavas não estamos interessados na visão
santa rasa de Paramatma; alcançando Vaikuntha, a morada de Narayana; ou
mesmo em ver Sri Krishna como a Alma Suprema. Nosso Caitanya
Mahaprabhu veio para distribuir as quatro predominante rasas
predominantes de Vrindavana, dasya (relação de servidão), sakhya
(amizade), vatsalya (afeição parental) e madhurya (amor conjugal). Em
todas essas rasas, Sri Krishna é o objeto do amor, não o Paramatma ou
Narayana, e Ele é experimentado não como a Alma Suprema, mas na
intimidade como o filho de Nanda, Nanda-tanuja, pelo qual Sua divindade
é obscurecida. De fato, os Gaudiya Vaisnavas substituem o Paramatma em
seus corações pelo Syamasundara quando seus olhos se tornam tingidos
com a pomada do amor por Krishna, yam syamasundaram acintya guna
svarupam. Sri Caitanyadeva fala disso no quarto verso de Seu Siksastakam,
onde Ele se despede do Paramatma e do reino de Sua jurisdição, cheio
como é com o desejo material, e no lugar de Paramatma abraça o Deus
(isvara) que se adora em ahaituki (puro) bhakti - mama janmane
janmanisvare bhavatad bhaktir ahaituki tvayi. Este isvara é o prana isvara
dos seguidores de Sri Caitanya, a Deidade do seu sopro vital em eterna
bhakti pura, svayam Bhagavan Sri Krishna, o filho de Nanda.

Os avataras de Vishnu
Os avataras de Vishnu mencionados (Karanodakasayi, Garbhodakasayi e
Ksirodakasayi) são referidos coletivamente no Srimad Bhagavatam (1.3.1)
como a encarnação Purusa. Eles são expansões de Narayana, que é uma
manifestação de Sri Krishna. Isto é confirmado no Srimad-Bhagavatam
(10.14.14), onde Narayana é descrito como um angam, ou porção plenária
de Sri Krishna. Além disso, o Bhagavatam nos diz que os avataras de
Vishnu são incontáveis (asankhya). O Siddhartha-samhita descreve vinte e
quatro formas de Vishnu /Narayana, que são distinguidas pela colocação
particular de sua concha, taco, disco e flor de lótus em Suas quatro mãos.
Detalhes sobre isso podem ser encontrados na Adi-lila do Caitanya-
caritamrta, onde as encarnações de Purusa são referidas pelo nome (Cc.
1.2.49). Nisso, Sri Caitanya instrui Sanatana Goswami, entre outras coisas,
sobre as várias formas de Vishnu. Veja também Laghu-bhagavatamrta de
Sri Rupa.
Entretanto, o ponto significativo que nossos Gaudiya acaryas procuram
fazer ao mencionar todas essas expansões e encarnações é que Krishna é
svayam Bhagavan, a fonte de todas as formas da divindade - ete camsa
kalah pumsah Krishnas tu bhagavan svayam. Devemos sair dessas
descrições com esse entendimento, se tivermos estudado bem as escrituras.
Nossa tarefa, então, é focar nossa atenção em Krishna, de tal modo que
vemos todas as outras manifestações de Deus à luz do amor que cultivamos
por Ele. Isso também inclui como respeitamos os devas ou semideuses.
 Não conheço nenhuma referência escritural para isso, mas a ideia tem
mérito. Rasa lila requer um porteiro, mas nem todo mundo pode pegar este
posto. Deve ser tomado por uma gopi e por uma gopi especial. O desejo de
Shiva de saborear gopi-bhava é frequentemente descrito como a origem de
sua forma como Gopisvara, e é nessa forma que ele guarda a rasa-lila
como guardião do portão. O Bhagavata explica que Radha-Krishna é a
origem do adi rasa do amor romântico e que o mundo flui deste adi rasa,
onde o singular se torna plural. Então, se olharmos para a origem do mundo
a partir dessa perspectiva, onde Siva se encaixa? Shakti está à esquerda do
shaktiman; esta é a posição de Radha. À direita, encontramos o alter ego de
Krishna como Balarama; dele vem Sankarsana, MahaVishnu, e com Seu
olhar o mundo é animado. A aparência desse olhar é Sambhu, Siva. Então,
Shiva está conectado ao lado direito de Krishna, e Radha à esquerda. Mas
isso é o melhor que posso fazer para apoiar essa ideia. Mais uma vez, eu
não conheço nenhuma escritura que fale diretamente sobre Siva
manifestando-se do lado direito de Krishna no alvorecer da criação, mas eu
não ficaria surpreso em encontrar tal afirmação.

Significado de "Krsna lila"


Lila, ou peça divina, é uma necessidade filosófica /teológica que surge de
visões de mundo metafísicas, como a acintya bhedabheda de Sri Caitanya,
bem como outras interpretações Vaisnavas de revelação/Vedanta. Lila
também desempenha um papel proeminente, embora secundário, na
Advaita Vedanta, onde se diz que o jogo divino da Divindade é uma
manifestação da realidade última neste mundo que não perdura na
liberação.
O próprio Bhagavata é decididamente teísta e abraça uma vida pós-liberada
de participação em lila com Deus como seu fim (prema prayojana), assim
foi firmemente abraçado por Sri Caitanya. Embora Krishna lila, conforme
representado no texto, represente uma impressão da natureza e estrutura
básica de sua lila transcendental, representa ao mesmo tempo uma
aproximação da lila, pois Krishna lila está além do escopo do pensamento e
da linguagem. Basta dizer que Deus joga. Deus se celebra e, assim, dança
em plenitude. A natureza de Sua realidade estática (imutável/passiva) é que
ela é simultaneamente dinâmica (ativa). Assim, em várias formas, sua
realidade transborda para o mundo de nossa experiência, e textos sagrados
como o Bhagavatam tentam capturar e relacionar a essência dessa
expressão. Enquanto Krishna lila se refere especificamente à vida
romântica e despreocupada do svayam bhagavan, num sentido mais amplo,
refere-se a todas as formas de lila divina por parte dos vários avataras de
Vishnu. A alegoria pode desempenhar um papel na descrição dessas
expressões divinas, mas a própria lila é uma realidade ontológica.
Em alguns aspectos, as descrições de lila não precisam ser tomadas
literalmente, pois a experiência de lila transcende qualquer tentativa de
descrevê-la. No entanto, as descrições de lila representam o bhava dos
devotos imersos no amor de Deus, suas tentativas de descrever sua
experiência. As pessoas às vezes questionam se a lila é real como descrito.
É tão real quanto o bhava do devoto que a experiência e descreve, e bhava
é tão real quanto se pode obter.
No entanto, o mais importante em tudo isso é entrar no fluxo da própria
lila. "Dhara" significa fluxo, e o nome Radha, cujas mesmas sílabas são
encontradas ao contrário, implica que a corrente de amor de Deus flui de
duas maneiras: de Bhagavan para bhakta e de bhakta para Bhagavan.
Bhagavan é o oceano de rasa e o bhakta é uma gota, cujo fluxo da corrente
de amor - melhor exemplificada por Radha - conecta-se ao oceano de rasa.
Amar, dar, está no coração da lila. Dê a si mesmo e tente entrar na corrente
de amor - Radha Bhagavatam, Srimad Bhagavatam. Tomando a descrição
de lila no texto literalmente pode ser útil nesta busca, em bhajana. Nenhum
dano. Nosso interesse está em jnana sunya bhakti, bhakti livre de
conhecimento ou a necessidade de saber, e para esse assunto, amar é saber
no sentido pleno do termo.
FIM DO ARTIGO
67. GOURA NITAI NAMASKAR

"Sri Radha viu Gauranga em Seu sonho uma vez: Uma figura dançante e
dourada, em uma terra não-diferente de Sua próprio Vrindavan. Sua dança
e canto fizeram o universo inteiro chorar. Quando Ela acordou, Ela se
perguntou: 'Quem é essa figura dançante?"

Eu tenho pensado no mangalacarana namaskara sloka de Krsnadasa


Kaviraja Goswami no Caitanya Caritamrta. Neste verso Goswamiji oferece
seu pranam de uma maneira específica (visesa) à deidade presidente de sua
dissertação.

vande sri krsna caitanya nityananda sahoditau gaudadaye puspavantu


citrau san-dau tamo-nudau

Kaviraj Goswami oferece seu respeito (vande) a Sri Krsna Caitanya. Sri
Krsna significa Radha Krsna, que apareceu como Caitanya. Ele é Krishna
Caitanya, ou consciente de Krsna. Este nome foi dado a Ele por Kesava
Bharati Maharaja, e assim Mahaprabhu começou Sua lila de pregação. A
palavra 'Caitanya' significa consciência. Mahaprabhu está sempre
consciente de Krishna. 'Caitanya' também significa "alma". Mahaprabhu é a
alma de Krsna, Srimati Radharani, e assim Ele é consciente de Krishna
como só Ela pode ser. Krsnadasa Kaviraja Goswami quer falar todas essas
coisas. Ele quer que nós saibamos deste verso que Caitanya Mahaprabhu é
Sri Sri Radha e Krsna combinados.

Sri Radha viu Gauranga em Seu sonho uma vez, uma figura dançantes
dourada em um terra não-diferente de Sua própria Vrindavan. Sua dança e
canto fizeram o universo inteiro chorar. Quando Ela acordou, Ela se
perguntou quem seria essa figura dançante. Ele era Krsna, ou Ele era Ela
mesma em outra forma? Quando Krishna chegou e ouviu Ela falar sobre
isso, Ele apenas riu. No entanto, o kastauba mani (a jóia) que Ele usa
sobre o coração representando todas as jivas, de repente brilhou
vigorosamente revelando à Radha a razão pela qual Krsna havia apenas
rido. Ela entendeu a alegria das jivas resultante de pensar nessa figura
dourada, que era Ela e Krsna em uma mesma figura. Ela disse Krsna,
'Você, Gopala, é essa figura', tat tvam asi ', e, nessa figura, 'Eu também Sou
Você, Gopal' 'aham gopalo'. Esta é a verdade dos Upanisads.

Então Krsnadasa Kaviraja Goswami diz "nityananda sahoditau". A palavra


sahoditau refere-se tanto à ascensão figurativa simultânea do sol e lua
referida na terceira linha deste verso, bem como para a unidade de Gaura e
Nityananda. Esses dois são Um. Saha significa "junto com", e sugere ação
em comum. Krsna Caitanya aparece junto com Nityananda Prabhu, Seu
outro Eu, que não sabe nada além do serviço de Gauranga.

"Udita" significa "levantar-se alto", "exaltado". Nityananda faz com que o


Nome e Pessoa de Sri Krsna Caitanya suba alto no horizonte espiritual
através de Sua parte na conversação de Jagai e Madhai além de outras
façanhas de pregação. E Krsna Caitanya deixou claro para todos os Seus
devotos a exaltada posição de Nitai, para que Ele não seja mal interpretado
devido ao Seu comportamento heterodoxo.

Eles apareceram juntos em Gadadaye, o horizonte oriental de Gauda.


"Gauda" significa doce. Gaudadesha é o país doce que não é diferente de
Vrindavan, a terra da doçura, madhurya. Quando o sol e a lua se elevam ao
leste, 'udaye', implica nessa direção. Leste é a direção espiritual a que nos
voltaremos para descobrir o tesouro secreto de nossa herança espiritual. A
luz surge no leste, a direção dos deuses. A doçura de madhurya, forma
humana de Krsna, em Sua aprakrta lila parece ordinária e mundana
(prakrta), mas é piedosa ao extremo (aprakrta).

Gauda representa sua doçura, e udaya a direção leste, a de seu aisvarya.


Quando Ele que é todo majestoso aparece como se fosse comum, isso é
verdadeiramente doce. Quando os dois doces Deuses, Krsna e Balarama,
aparecem como Sri Krishna Caitanya Mahaprabhu e Prabhu Nityananda,
há algo mais adicionado a Suas doçuras.

No horizonte oriental da terra de madhurya, Eles apareciam como o sol e a


lua, como se esses dois orbes luminares tivessem simultaneamente surgido.
Kaviraja Goswami descreve isso como 'citrau', brilhante e maravilhoso.
Essa maravilha (camatkara) é a base do arrebatamento estético (rasa),
aquilo que Eles vieram conferir maravilhosamente e com brilhantismo, é
como a ascensão simultânea do sol e da lua.
A palavra puspavantau indica o sol e a lua. "Puspa" implica "nutrição".
Estes dois Deuses nutrem nossa alma docemente, enquanto o sol produz
chuva para nutrir as colheitas, é dito que a lua as torna suculentas.
Visvambhara sustenta o universo com bhakti e O sempre feliz Nitai faz o
mundo alegre, dando a todos Gauranga.

Este nascer de madhurya no horizonte oriental é o compassivo coração


magnânimo da Divindade que está tão exaltado em nossa mente.

Kaviraja Goswami diz 'sam-dau', indicando que a aparição de Gaura


Nityananda é madhurya com a adição de audarya (generosidade). Sama é o
filho do Dharma. Sama indica a ausência de paixão sexual e a tranqüilidade
que segue dessa ausência. Gaura Nityananda dão (dau) este calmante sama,
dando origem ao ananda da alma, e mais, o prema dharma de Vraja bhakti.

Para enfatizar ainda mais este ponto e deixar claro qual é o mais alto
alcance desta bênção de Gaura Nityananda , Kaviraja Goswami diz 'tamo-
nudau.' Gaura Nityananda tira a escuridão da ignorância. O que é essa
ignorância? Kaviraja Goswami diz 'ajnana-tamera nama kahiye kaitava. É
conhecida como 'kaitava' e aparece em quatro formas, 'dharma artha kama
moksa vancha adi sab'. Os desejos de piedade, desenvolvimento
econômico, indulgência sensorial e a liberação de tudo isso é kaitava,
trapaça. O desejo por estes quatro objetivos da vida são a escuridão (tamo)
da ignorância, especialmente o desejo para moksa, que ignora a natureza
inata de um servo de Deus.

O presente de Gaura Nityananda, Sua benção (sam-dau), é pancama


purusartha, 'o quinto objetivo da vida' prema pumartho mahan '. Kaviraja
Goswami diz 'tattva-vastu - krsna, krsna-bhakti, prema-rupa nama-
sankirtana-saba ananda-svarupa. ' A verdade absoluta, Krsna
(sambandha), Krsna bhakti (abhideya) e prema rupa (prayojan) podem ser
realizados por nama sankirtana, que é a essência de toda felicidade
(sabaananda-svarupa).
Este nama sankirtana ensinado por Gaura Nityananda dissipa a escuridão
do coração (ceto darpana marjanam) e nos leva a nistha bhakti no serviço
de dois bhagavatas, o livro bhagavata e aqueles que incorporam a sua
mensagem (nasta prayesu abhadresu nityam bhagavata sevaya).

Servir estes dois é a porta para bhakti rasa (dui bhagavata dvara diya
bhakti rasa). A natureza deste bhakti rasa é que tendo removido toda
ignorância do coração, Krsna se aprisiona dentro dele.

FIM DO ARTIGO
68. Hari Bhakti Vilas

Seguindo o Hari Bhakti Vilas


Gopala Bhatta Goswami e Sanatana Goswami, os autores do Hari-bhakti-
vilasa, eram ambos associados pessoais de Sri Caitanya Mahaprabhu.
Ainda assim, eu não tenho conhecimento de nenhuma seita Gaudiya
Vaisnava moderna que siga o Hari-bhakti-vilasa ao pé da letra. De fato,
nesta era tentar fazê-lo seria quase impossível. Um devoto na linhagem de
Gopala Bhatta Goswami, Srivatsa Goswami do templo Radha-Ramana em
Vrindavana, uma vez me disse: “Ninguém segue Hari-bhakti-vilasa mais
estritamente que nossa linhagem.” Ao ouvir isso eu ri e repliquei: “Então
você não o segue completamente também". Seu silêncio subsequente falou
volumes.
A história de Hari-bhakti-vilasa envolveu a necessidade de estabelecer
padrões de comportamento e adoração para a linhagem Gaudiya em uma
cultura religiosa na qual o smriti baseado em regras e sem amor dos smarta-
brahmanas era proeminente. O livro foi um esforço para fornecer uma
estrutura para a nossa sampradaya, para apoiar seus membros e dar
credibilidade à linhagem naquele momento. É um livro importante e
capacitado, mas os acaryas em nossa linhagem encontraram espaço para
abrir mão de alguns de seus detalhes processuais recomendados, ao mesmo
tempo em que estabelecem o princípio que pretendem apoiar.

Mantra diksa e Harinama no Hari Bhakti Vilas


O Harinama certamente tem o poder de libertar uma pessoa do ciclo de
nascimento e morte (samsara), assim como dar o amor extático de Deus
(prema). No entanto, diksa, ou iniciação no canto do Krishna mantra de 18
sílabas, é essencial em termos de ajudar as almas materialmente
condicionadas a aproveitarem plenamente o nome liberado de Deus -
harinama. A ideia é que podemos usar toda a ajuda que pudermos obter.
O Krishna mantra de 18 sílabas consiste principalmente nos nomes de
Hari, particularmente Krishna, Govinda e Gopi-jana-vallabha. Dentro do
mantra, esses nomes aparecem no caso dativo, indicando um objeto ou
recipiente indireto (“para Govinda eu me ofereço”, por exemplo). Em
contraste, o caso vocativo é usado para abordar ou invocar diretamente uma
pessoa ou coisa, e é assim que os nomes aparecem no maha-mantra Hare
Krishna. No Krsna mantra, os nomes são precedidos pelo kama-bija
(semente) e seguidos pelo svaha, ou a doação de si mesmo. Assim, o Krsna
mantra promove a auto entrega (saranagati), que é a plataforma na qual
bhajana e lila-seva são executadas com sucesso. Também revela o
svarupa, ou relacionamento com Krishna, que não é diferente de Seu nome.
O Krishna mantra facilita um relacionamento particular com o nome
divino. Quando isto é revelado, a eficácia do mantra é percebida e pode-se
então continuar a cantar o harinama de tal forma que o seu nama bhajana é
totalmente informado com o conhecimento realizado - sambandha jñana.
Tal nama bhajana nutre lila smaranam e juntos os dois, harinama e a
meditação sobre o relacionamento de uma pessoa com o nome divino, dão
Krishna prema.
Assim, é importante não evitar o diksa mantra, pois até mesmo Krishna e
Sri Krishna Caitanya aceitaram o mantra diksa para dar um exemplo para
os outros seguirem.

Arca Vigraha no contexto do Hari Bhakti Vilas


A arca vigraha, ou arca avatara, deveria ser devidamente instalada sob a
proteção de alguém que fixou a Deidade dentro de seu coração.
Primeiramente sri murti aparece no coração das almas realizadas, e a partir
daí é estabelecido externamente como uma partilha do amor divino daquele
Vaisnava. Em outras palavras, a Divindade parece aceitar nosso seva
através da vontade do Vaisnava Acarya. Se a vontade dele estiver em vigor,
a Deidade se manifestará plenamente. A vontade do Vaisnava é o coração
da descida da arca avatara. Todos os outros procedimentos são
secundários e servem simplesmente para auxiliar a vontade do acarya.
Assim, nós encontramos que, embora importantes, os procedimentos
citados no Hari-bhakti-vilasa em relação à instalação da Deidade são
detalhes que são descartáveis a critério do acarya. Por sua vontade divina,
meu Guru Maharaja estabeleceu muitas Divindades em todo o mundo e, ao
fazê-lo, modificou os procedimentos dados no Hari-bhakti-vilasa da
maneira que julgou conveniente. Em suma, se a vontade do Vaishnava está
por trás da instalação e nada mais, está completa, mas se todos os outros
procedimentos estiverem em vigor e a vontade do Vaishnava estiver
ausente, a instalação não estará completa. O aparecimento de Krishna, sob
qualquer forma, está ligado ao amor que Seus devotos têm por Ele. De fato,
o amor de Krishna e o próprio Krishna são O mesmo. Não se pode ter um
sem o outro.

Austeridade em Chaturmasya
Srila Rupa Goswami não menciona a observância de Chaturmasya como
sendo um membro (anga) de bhakti. No entanto, Rupa Goswami cita
evidências do Padma Purana apoiando a observância de Urja-vrata durante
o mês de Damodara/kartika. Este é o último dos quatro meses de
Chaturmasya e tal observância é uma anga de bhakti.
Além do Bhakti-rasamrita-sindhu, a observância da Chaturmasya vrata é
defendida no Hari-bhakti-vilasa em relação a Visnu-bhakti, e Prabhupada
Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura seguiu estritamente isso. No entanto,
em um quadro mais amplo, descobrimos que a estrita observância de
Chaturmasya por parte de Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura não foi
seguida na mesma medida por seus discípulos mais proeminentes que
tiveram contato direto com o mundo ocidental. Assim, sua relatividade é
trazida à luz. De fato, o próprio Prabhupada Bhaktisiddhanta Saraswati
Thakura só observou Chaturmasya estritamente por quatro ou cinco anos
antes de iniciar sua missão, e foi aconselhado por Bhaktivinoda Thakur
para renunciar tal estrita observância, que conforme Krishna diz no Srimad
Bhagavatam, não tem o poder de atraí-Lo da forma como sadhu sanga faz
(SB 11.12.1-2). Embora alguns dos discípulos de Srila Prabhupada
Bhaktisiddhanta continuassem a seguir os rígidos votos de Chaturmasya
dentro da missão, ele instruiu seus discípulos que os alimentos que
crescessem produzidos dentro dos mosteiros da missão poderiam ser
oferecidos à Divindade e honrados pelos devotos durante Chaturmasya
apesar do fato de que tais alimentos fossem supostamente proibidos para
Chaturmasya.
O verdadeiro propósito por trás dessa observância é promover o espírito de
doação de si mesmo. Pujyapada Sridhara Deva Goswami comenta sobre a
observância de Chaturmasya e de votos semelhantes, assim: “Somente para
efetivar a doação de si todos esses conselhos foram concebidos de maneiras
diferentes, adequadas a diferentes ambientes. Mas a substância para todas
essas observações é o samarpanam (dedicação total do eu). Assim como o
ghee é derramado no fogo, coloque-se no fogo e gradualmente entregue-se
às mãos do sadhu ”.
Assim, devemos tentar abraçar a essência da observância de Chaturmasya e
votos semelhantes. A penitência e a austeridade têm pouco valor em si
mesmas. Dar o coração é a doação real. Também deve ser notado que a
observância de festivais para Hari (outra anga de bhakti) deve levar em
consideração os recursos de uma pessoa. Assim, pode ser razoável
considerar que a observância dos votos de Chaturmasya com relação aos
detalhes deve ser feita de acordo com os recursos da pessoa, e os recursos
da pessoa são amplamente determinados pelo ambiente da pessoa.
Como mencionado acima, a observância do Urja-vrata relacionada ao mês
de Karttika foi diferenciada dos votos de Chaturmasya como uma anga de
bhakti. Visvanatha Cakravarti Thakura coloca-a no mesmo nível que a
observância de Ekadasi, identificando-a como algo que tanto promove
direta como indiretamente raga bhakti. Sobre sua observância, Sri Jiva
Gosvami escreve o seguinte, comentando sobre um verso do Padma
Purana:
“O mês é carinhoso assim como Damodara é carinhoso. Assim, um
pequeno serviço para Damodara se multiplica se for realizado durante esse
mês. Uru-karaka significa uma pessoa (neste caso, o mês) que aceita algo
muito pequeno e o torna grande, como uma pessoa que se sente
extremamente endividada e realiza grandes ações por outra pessoa. Da
mesma forma, seu mês, chamado mês de Karttika, dá grande benefício.
Leva o que é escasso e torna significativo. Svalpam uru-karakah significa
"O mês de Damodara é um futuro doador de resultados enormes para um
pouco de serviço."
Assim, eu aconselharia a observância do Karttika vrata e eu não enfatizaria
a estrita observância de Chaturmasya fora da Índia. Novamente, mesmo
dentro da Índia, tal observância, embora recomendada, não é uma anga de
bhakti, ao passo que a observância de Karttika é.
FIM DE ARTIGO
69. OUVIR E CANTAR SOBRE KRISHNA

"Assim como Você é cheio de opulências, também é o canto sobre Você.


Aqueles que repercutem isso em toda a terra não são meros mortais. Eles
são os maiores benfeitores da sociedade humana. Eles representam Você
em todos os aspectos ".

A comunhão sexual
A união com o parceiro casado, mesmo quando realizada sem procriação
em mente, é melhor do que o simples ato sexual sem o compromisso
encontrado em relacionamentos conjugais. No entanto, a procriação
envolve um compromisso ainda mais profundo. De uma perspectiva
espiritual, todo o propósito de vida de casado é para que os indivíduos
aprendam a se sacrificar uns pelos outros e isso, em última análise, em
consideração à vontade de Deus. A relação será espiritualmente progressiva
na medida em que o sacrifício envolverá não apenas colocar o próprio
desejo egoísta de lado abraçando o desejo de outro, mas centrando o
sacrifício na vontade de Deus.

Reencarnação
Uma pessoa voltará, mas não com mesmo corpo. Ela continuará a tomar
nascimento em diferentes corpos até que esteja livre da influência do
karma, o qual é a reação da natureza para aqueles que escolhem interagir
com ela. O desejo faz o mundo girar, yayedam dharyate jagat (Bg. 7.5)

Raja Yoga
O termo raja yoga não aparece no Bhagavad-gita. No entanto, o rei (raja)
da yoga é claramente descrito no Gita como bhakti yoga. Ela é enfatizada
na escada da yoga que constitui os primeiros seis capítulos do Gita. Os seis
capítulos intermediários apresentam mais detalhes sobre o natureza de
bhakti yoga, e nesta seção (capítulo nove) a conclusão do Gita é dada.
Krsna diz claramente a Arjuna para se tornar Seu devoto, e esta conclusão é
reiterada no final do Gita no capítulo dezoito.

A punição para crimes


Em primeiro lugar, não temos a liberdade de lidar com crimes de maneira
diferente a não ser honrar as decisões do governo vigente. Nós não vivemos
em tempos védicos, e, portanto, sistemas de justiça apropriados para
aqueles tempos não podem ser aplicados hoje. Há um debate em
andamento sobre a eficácia da pena de morte. Mas eu não acho que seria
prudente entrar neste debate a favor da pena capital unicamente com base
nos fundamentos que a pena capital foi prescrita nos tempos védicos e o
raciocínio que, ao aplicar a pena de morte, a parte executada é libertada da
reação kármica incorrida por seu ato criminoso. Se alguém deseja entrar
neste debate, deve-se começar por se tornar totalmente informado com
todos os argumentos de ambos os lados decorrentes das circunstâncias
sociais atuais.
No geral, é melhor para o nosso progresso espiritual pessoal é cultivar
perdão e lembrar-se da disposição misericordiosa de Sri Caitanya
Mahaprabhu e Nityananda Thakura. Essa é uma missão de reforma. Nós
devemos tentar o nosso melhor para reformar o nosso próprio caráter e
saber que, ao fazê-lo, podemos ter o efeito mais positivo sobre aqueles que
nos rodeiam. Bondade e amor espiritual tem o poder de mudar o caráter de
qualquer pessoa ao longo do tempo, porque são as mesmas coisas que todas
as pessoas procuram e Eles representam a direta intervenção de Deus.
Punição kármica condenada pela natureza material, embora apropriada e
justa, não tem o mesmo poder. A misericórdia é superior à justiça, que deve
se afastar e oferecer respeito quando a misericórdia intervém. Preocupe-se
com o trabalho de Deus, para o qual você foi convidado participar
diretamente. A natureza material continuará sua tarefa ingrata por sua
conta.

Doenças crônicas e intervenção no sadhana-bhakti


Eu não sou muito familiarizado com TEPT (transtorno de estresse pós-
traumático), mas como resultado de nosso karma, podemos estar
incomodados por muitos distúrbios físicos e mentais. A prática espiritual
(sadhana) absolve nosso karma começando com as reações kármicas que
ainda não se manifestaram, aquelas que se encontram na semente sob a
superfície da nossa presente realidade mental e física. Pela graça de Deus e
séria prática espiritual, estas sementes podem ser impedido de se
manifestarem em nossas vidas. No entanto, esse karma que já está dando
frutos leva mais tempo para se erradicar. Algumas formas de prática
espiritual não são capazes de remover nosso karma manifesto, mas cantar o
nome de Deus tem esse poder.
É mencionado no Srimad-Bhagavatam que aqueles cujo karma manifesto é
muito problemático, mas estão envolvidos em cantar o nome de Deus
tornam-se santos nesta vida e são mais do que qualificados para executar
qualquer ritual védico, aho bata sva-paco 'para gariyan yaj-jihvagre
vartate nama tubhyam.
Isso significa que o karma manifesto dessas pessoas foi erradicado através
da poderosa prática espiritual de cantar o nome de Deus, e até mesmo em
seu corpo atual eles se tornaram santos. Então, de todas as práticas
espirituais, seria melhor se envolver em cantar o nome de Deus. Ainda uma
muito alta qualidade de canto pode remover poderosos impedimentos
karmicos manifestos. Então tente cantar puramente sem motivo outro que
não seja agradar a Deus, mas não espere que o TEPT (ou outra doença ou
impedimento) desapareça imediatamente. De fato, a pessoa que padece
pode precisar procurar aconselhamento médico para manter os efeitos
incômodos em um nível que não impeça a sua prática por algum tempo até
que sua prática governe sua vida.

Tratamento às mulheres na consciência de Krishna


As mulheres que estão preocupadas com isso terão que se juntar aquelas
que também estão preocupadas com estes problemas. Concentre sua
inspiração para pregar, assim como seus fundos para facilitar a pregação,
sobre aqueles que já estão envolvidos na tradição mas estão carregando a
bagagem de itens não essenciais em nome do Gaudiya Vaisnavismo.
Embora estes problemas possam alienar alguns, isso irá animar e reunir
outras que são da mesma opinião, e uma nova encarnação do movimento se
manifestará. Isso será dinâmico, vivo e vital. Este então será o movimento
com o qual as pessoas progressivas se identificam. Isso não deve
necessariamente ser uma instituição a qual unir-se, mas antes, um ideal
espiritual essencial do Gaudiya Vaisnavismo com o qual as pessoas possam
se identificar e formar uma associação ampla em torno de seus preceitos,
como articulado na literatura Gaudiya Vaisnava contemporânea. O
propósito exclusivo de tal associação deve ser ouvir e cantar sobre Krishna.

As opulências de Krishna
Krishna e Krishna nama são Um e O mesmo, bhinnatvan nama-
naminoh,nama-naminoh abheda. Assim, se toda opulência é encontrada em
Krishna, também é encontrada em Seu nome. Além disso, o Srimad-
Bhagavatam afirma as virtudes de Hari katha assim:
tava kathamrtam tapta-jivanam kavibhir iditam kalmasapaham
sravana-mangalam srimad-atatam bhuvi grnanti ye bhurida janah (Bhag.
10.31.9)
Neste verso todas as seis opulências principais de Deus, a saber,
conhecimento, desapego, força, fama, beleza e riqueza, são representados
no que diz respeito a discussão sobre Krishna, que inclui cantar Seu nome.
Neste verso as gopis rezam a Krsna: "A canção sobre Você é como o néctar
da imortalidade (kathamrtam) que dá vida àqueles que estão sofrendo no
mundo do nascimento e da morte (tapta-jivanam). Portanto, possui
opulências de conhecimento e desapego. Poetas (kavibhiriditam) que
sabem o valor e o significado das palavras e seu arranjo elogiam tais
canções. Os próprios compositores ficam surpresos com a beleza e eficácia
daquelas músicas sobre Você, que são originais e não de origem humana.
Ótimos pensadores e oradores oferecem homenagem ao Seu louvor que
aparece a partir do lábios de Seus devotos, tendo sido infundido dentro do
coração deles por Você mesmo. O subproduto de seu louvor é a soma e
substância de conhecimento e desapego (jñana vairagya). "
"A canção sobre você destrói os efeitos do pecado (kalmasapaham). É
portanto virtuoso e heróico, a própria essência do dharma ou justiça, que é
força real (viryasya). Aqueles que ouvem isso se tornam afortunados
(sravana-mangalam) e fama (yasasah) os acompanham onde quer que eles
vão. Assim, suas vidas se tornam espirituais e auspiciosas, pois esse boa
fortuna e fama não são comuns. Isto é assim porque cantando essa música
uma pessoa atrai a atenção de Sri, consorte do Senhor que abençoa tais
devotos. Assim, a canção é cheia de beleza, riqueza e poder espiritual
(srimad). Além disso, essa música se espalha por todo o mundo (Atatam),
mas nunca diminui, e é assim a maior riqueza e poder (aisvaryasya). Assim
como Você está cheio de opulências, então é música sobre Você. Aqueles
que o anunciam em toda a terra não são meros mortais. Eles são os maiores
benfeitores da sociedade humana. Eles O representam em todos os aspectos
".
FIM DO ARTIGO
70. JAYA RUPA! JAYO RADHE!

Os Gaudiya Vaishnavas gostam de cantar “Jaya Radhe!” , o amor de


Radha, A principal consorte de Sri Krishna, é central para esta escola teísta
Vedanta. Tal amor é descrito como a joia mais brilhante do êxtase estético
sagrado, unnatojjvala rasa. Este amor é acessível aos devotos seguindo os
passos de Sri Rupa Goswami, tanto em termos de seu ensinamento sobre
bhakti rasa em geral quanto em termos de seu próprio ideal pessoal de
êxtase estético sagrado. O ideal pessoal de Sri Rupa é o de uma serva de
Radha (Radha dasyam) muitas vezes referido como manjari-bhava.
O termo agora comum "manjari-bhava" não é usado por Rupa Goswami.
No Bhaktirasamrta-sindhu, ele usa dois termos diferentes para explicar esse
amor por Radha. Sri Rupa primeiro se refere a este amor como tad-
bhavecchatmika (1.2.299) - esse tipo de bhakti cuja própria vida (atma) é o
desejo de provar o amor (bhava) que uma gopi particular tem por Krishna.
Tad-bhaecchatmika é tad-bhaveccha-mayi - ser preenchido (mayi) com o
desejo (eccha) pelo êxtase (bhava) Dela (tad). Sri Rupa descreve-o como
um tipo particular de madhurya rasa que é preferível e envolve o amor de
alguém que ama Krishna (bhava de Radha) ao invés de buscar um
relacionamento direto com Krishna. Rupa Goswami também descreve
outro tipo de madhurya rasa, que ele chama de sambogeccha-mayi, no qual
sambhoga que significa uma união direta ou relacionamento romântico
com Krishna. Mas sua preferência é claramente tad-bhaveccha-mayi, cuja
implicação é que tad-bhaveccha-mayi madhurya rasa realmente permite
que se experimente mais intimidade com Krishna do que buscar um
relacionamento direto com Ele. Como assim? Porque nenhuma donzela do
leite pode extrair tanta retribuição de Krishna quanto Radha pode. Assim,
se alguém se liga à Radha como Sua assistente e amiga íntima, a intimidade
que Ela experimenta com Krishna torna-se a experiência própria, uma serva
que está totalmente identificada com Sri Radha, à serviço Dela. Esta é a
posição de uma manjari de Sri Radha. Sri Radha é a videira do amor que
mais plenamente abraça Sri Krishna, e a flor (manjari) dessa videira é
nutrida como a própria videira é nutrida. O amor de Radha é tad-
bhavaeccha-mayi madhurya rasa. No entanto, Sri Rupa Goswami também
se refere a ele como bhavollasa e, como veremos, o amor de Radha
constitui a medida mais completa desse termo.
Madhurya rasa é descrita mais adiante no Bhaktirasamrta-sindhu em
termos de seu visaya (objeto de amor) e asraya (encarnação do amor). Tal
como acontece com outras rasas, Krishna sozinho é identificado como o
visaya de tad-bhavaeccha-mayi bhakti rasa. De fato, em seu comentário
sobre o texto 2.1.16, Sri Jiva Goswami enfatiza este ponto: “Só Krishna é a
visaya-alambana”. Isto, é claro, é muito do que o livro inteiro trata, como o
Bhaktirasamrta-sindhu começa descrevendo Krishna como "akhila
rasamrta murti". Somente Ele é O visaya, e Seus devotos que provam a
rasa em relação a Ele são os asrayas, ou personificações de cinco
sentimentos amorosos dominantes. Portanto, é claro que Krishna é O
visaya de tad bhaveccha-mayi kamanuga bhakti, sendo kamanuga uma
divisão de raganuga bhakti, centrada no amor romântico de Deus. O
asraya desse amor são aqueles devotos paradigmáticos como Rupa e Rati-
manjaris (Rupa e Raghunatha dasa Goswamis, respectivamente) que
personificam esse tad-bhaveccha-mayi - o amor de Sri Radha por Krishna,
Sua mahabhava. O asraya é o amor de Radha incorporado em Suas servas.
No entanto, como as servas de Radha concentram sua atenção Nela e não
diretamente em Krishna, isso levanta um dilema: Qual é a posição de
Radha em relação a esse tipo de madhurya rasa, visto que somente Krishna
é a visaya-alambana de bhakti rasa? Krishna é o objeto de tad-
bhavaeccha-mayi madhurya rasa, mas parece que Radha é mais o objeto
do amor de Suas manjaris. Sri Radha pode ser o objeto - a visaya-
alambana - desse tipo de bhakti rasa? Isto parece contradizer o claro
ensinamento de Sri Rupa no rasa tattva já mencionado: Krishna sozinho é
o visaya-alambana de bhakti rasa. Bhaktirasamrta-sindhu, o oceano da
ciência de bhakti rasa, dá uma resposta simples e direta ao dilema. Não
precisamos olhar para nenhum outro lugar, pois o tratado de Sri Rupa seria
terrivelmente incompleto se não abordasse esse ponto.
No texto 2.5.128, Sri Rupa Goswami ensina que há aqueles que têm rati
por Krishna (um sthayi bhava ou emoção amorosa dominante por Ele) e
que ao mesmo tempo têm amor por outro devoto. Geralmente esse amor
por outro devoto é menos do que o amor por Krishna, ou, na melhor das
hipóteses, igual ao amor por Ele. Em tais casos, esse amor por outro devoto
ou amigo é constituído de um sancari bhava, uma emoção amorosa que
aumenta a emoção amorosa dominante por Krishna. Rupa Goswami chama
esse amor por um amigo - outro devoto - um sancari bhava especial
chamado suhrt rati, “amor de um amigo”. Assim, aprendemos que em
Krishna lila o amor dos devotos um pelo outro constitui um sancari bhava
chamado suhrt rati que aumenta sua sthayi bhava, ou sentimento amoroso
dominante por Krishna como amigo, amante, etc. Embora este amor seja
abordado por Rupa Goswami no contexto da discussão de bhakti rasa
propriamente dita, em princípio também se estende até as vidas dos
sadhakas, praticantes espirituais. Os devotos se amam de uma maneira que
os ajudam a amar a Krishna. Assim, por exemplo, o amor espiritual
saudável do marido por sua esposa é um amor que ajuda ou aumenta seu
amor por Deus e vice-versa. Amor e apego têm seu lugar não apenas em
relação a Krishna, mas também em relação a Seus devotos.
No entanto, no mesmo verso, Rupa Goswami continua a destacar uma
exceção no que diz respeito a amar um amigo ou outro devoto. Em um
exemplo excepcional, um devoto pode amar outro devoto, mais do que se
ama Krishna! Este amor que ele diz aumenta a cada momento e, em vez de
nutrir o sthayi bhava do devoto por Krishna, o sthayi bhava do devoto por
Krishna alimenta-o! Assim, existem dois tipos de suhrt rati, ou “amor ao
amigo”. No primeiro tipo de suhrt rati, um devoto tem um sthayi bhava por
Krishna - amizade, amor romance, etc. - em um grau igual ou menor de
amor por outro devoto. Este suhrt rati é um sancari bhava no qual o amigo
é o objeto desse sancari bhava que nutre o sthayi bhava do devoto por
Krishna da maneira que os sancari bhavas normalmente fazem. Mas no
segundo tipo de suhrt rati, o devoto experimenta um sancari bhava que é
único no sentido de que não é um sentimento amoroso que aumenta o amor
por Krishna e assim é, às vezes, proeminente no relacionamento amoroso
com Ele e às vezes não. Ao contrário de sancari bhavas ordinários, é
sempre presente e sempre crescente. Além disso, em vez de nutrir o amor
do devoto por Krishna, o amor do devoto por Krishna alimenta-o! Assim
Sri Rupa Goswami distingue este sentimento amoroso do sancari bhava
conhecido como suhrt rati dando-lhe o seu próprio nome: bhavollasa - o
"sentimento amoroso mais exaltado".
Que tipo de devoto é aquele que pode extrair este extraordinário bhavollasa
de outro devoto? Sri Radha, como devota e amiga que se tornou divindade,
claramente incorpora o exemplo perfeito de quem Rupa Goswami está
escrevendo nesta seção do Bhaktirasamrta-sindhu. E as servas de Radha,
Sri Rupa e Rati-manjaris, incorporam perfeitamente essa bhavollasa. De
fato, encontramos Raghunatha dasa Goswami - Rati-manjari - depreciando
até mesmo Krishna em seu extremo amor por Radha! “Sem sua graça,
Radha, eu não suporto viver outro momento. E Vrindavana, que é ainda
mais querida para mim do que minha própria vida, estou enojado com ela.
É doloroso; está sempre me beliscando. E o que falar de qualquer outra
coisa, estou até mesmo enojado com Krishna. É vergonhoso proferir tais
palavras, mas eu não posso ter amor nem mesmo por Krishna a menos e até
que você me leve para dentro de seu campo confidencial de serviço. ”
Assim, tad-bhaveccha-mayi madhurya rasa envolve um sthayi bhava por
Krishna e bhavollasa para Radha. Krishna é o objeto do manjaris 'tad-
bhaveccha-mayi madhurya rasa e Radha é o objeto de sua bhavollasa. No
entanto, porque este bhavollasa age de duas maneiras como um sthayi
bhava - ele nunca recua no oceano de seu sthayi bhava para Krishna, e ao
invés de nutrir o sthayi bhava da manjari por Krishna, é nutrido por ele -
nesses aspectos ele funciona como um sthayi bhava. A única diferença
entre isso e um sthayi bhava é que seu objeto não é Krishna. Não obstante,
muitos devotos tradicionalmente preferiram se referir a bhavollasa como
sthayi bhava para Radha e Krishna - elevando assim Radha, neste caso,
para o objeto perfeito de amor junto com Krishna. Não há razão de
destronar Krishna de Sua posição como o visaya, mas há razão para elevar
Radha a se unir a Ele nesta rasa como o objeto do amor do casal divino. E
porque vemos isso no bhajana de grandes devotos como Narottama Das
Thakura, que por exemplo se refere a esse casal divino como o objeto
singular de seu amor (Radha-Krishna prana pati), os devotos se sentem
justificados em fazer essa afirmação extraordinária.
Mas esta elevação de Radha à posição do visaya junto com Krishna não
contradiz o Bhaktirasamrta-sindhu? Alguns diriam claramente "sim" e
adotariam uma abordagem mais conservadora, admitindo que Radha é
apenas a visaya do bhavollasa de manjaris - um sancari especial. Afinal,
nem Jiva Goswami nem Visvanatha Cakravarti Thakura disseram que o
bhavollasa é um sthayi bhava, muito menos centrado apenas em Radha.
Mas a teologia é algo que está sempre em formação, enquanto ao mesmo
tempo permanece fiel a tudo o que veio antes dela.
Baseando-se no sastra yukti em relação ao siddhanta de Bhaktirasamrta-
sindhu, descobrimos que o termo tad-bhaveccha-mayi pode ser entendido
como implicando que Radha e Krishna são o objeto do manjari bhava. O
ideal de manjari é tad bhava, e enquanto esse termo é geralmente traduzido
como “seu (tad) amor (bhava)” - o amor de Sri Radha por Krishna - pode-
se dizer que é “seu (tad) amor” - o amor combinado de Radha e Krishna -
esse é o ideal das manjaris, e não Krishna separado de Radha como em
sambhogeccha-mayi madhurya rasa. Nem é Radha separada de Krishna
(que o céu proiba). A divindade, no Seu sentido mais amplo, é rasa (raso
vai sah), e o amor da manjari é para essa expressão da divindade. O objeto
de amor das servas de Sri Radha é rasa, ou o mahabhava que envolve
Radha-Krishna tornando-se um em amor. Afinal, não há significado para
Rasaraja Krishna sem Mahabhava-svarupini Radha. E enquanto não há
nenhum significado para mahabhava sem rasaraja, mahabhava é sem
dúvida o mais importante dos dois: Krishna é Rasaraja por causa do
mahabhava de Radha, pois na teologia de Sri Rupa, Deus é o que seus
devotos o tornam. Ele é o amor deles mais do que qualquer outra coisa.
Jaya Rupa! Jaya Radhe!
FIM DO ARTIGO
71. AMIZADE DIVINA

O Mahabharata ensina tanto a sócio religiosidade quanto a devoção pura. A


moralidade cai sob o título de sócio religiosidade, ou dharma, e os
passatempos divinos (lila) de Bhagavan Sri Krishna são o coração e a alma
da devoção pura. O dharma e a devoção não são um e o mesmo, mas
idealmente seguir o dharma leva ao cultivo da devoção. O ápice da
experiência devocional é encontrado em Krishna lila, que é transcendental
às leis do dharma. Assim, Krishna diz no Bhagavad-gita (18.66) sarva-
dharman parityajya mam ekam saranam vraja: “Renuncie ao dharma e
tome refúgio exclusivo em mim.”
Os Pandavas exemplificam o ideal de se refugiar em Krishna. Eles são
membros de Sua eterna comitiva, e Krishna e Seus associados não devem
ser considerados pelos padrões comuns. De fato, Krishna nos adverte no
Bhagavad-gita (9.11) quando Ele proclama: “Tolos zombam de Mim
quando Eu desço nesta forma humana. Eles não conhecem Minha natureza
transcendental e Meu supremo domínio sobre tudo o que existe ”.
Na narração de Krishna lila encontrada no Mahabharata, os Pandavas não
estão desempenhando diretamente os papéis de santos ou mestres. Pelo
contrário, eles são membros da classe real que são totalmente entregues a
Krishna. O bhava (emoção espiritual) dos Pandavas é a verdadeira glória
deles, além de qualquer cavalheirismo e heroísmo contados no épico. No
entanto, aqueles que realmente compreendem o Mahabharata sabem que,
dada a posição dos Pandavas na sociedade, eles se conduziram de maneira
exemplar em geral como modelos para a realeza de sua época. Em sua
época, as regras do dharma eram bastante complexas, mas basta dizer que
indiscrições como caça, jogos de azar e até casos extraconjugais eram
esperados e um tanto desculpáveis para a realeza. Quanto à caça, havia um
lugar para isso entre as classes marciais (ksatriyas), enquanto não havia
lugar algum para o abate de animais de fábrica como é hoje generalizado.
Se todo rei se comportasse como o nobre Arjuna, não teria havido declínio
na monarquia, a despeito do caso extraconjugal de Arjuna em que ele não
tinha interesse pessoal. Lembre-se de que é o desejo de desfrutar de uma
maneira exploradora que é o coração da vida espiritualmente
contraproducente. Neste caso, Arjuna não tinha desejo pessoal de se unir a
Ulupi, nem era um ser terrestre. Além disso, ela encontrou uma maneira de
assegurar que Arjuna não incorreria em nenhuma reação pecaminosa ao
concordar com seu desejo. Tais circunstâncias são de fato extraordinárias e
de nenhuma maneira devem ser interpretadas como uma licença para
relações sexuais impróprias por parte de pessoas comuns, o que falar de
sadhakas, aqueles que tentam aderir a uma vida de prática espiritual
disciplinada.
O mesmo vale para Yudhisthira, o líder dos Pandavas, que pela força das
circunstâncias se viu em um jogo de azar. O Mahabharata nos diz que
quando Yudhisthira perdeu sua esposa Draupadi no jogo de azar, o
vencedor tentou desvesti-la publicamente. Draupadi, que estava
mergulhada em sakhya bhava, segurou seu sari com uma mão e gritou o
nome de Seu amigo mais querido, Govinda, com a outra mão levantada.
Quando seu sari se desvencilhou, em desespero ela o soltou em sua débil
tentativa de permanecer vestida. Naquela época, com as duas mãos no ar,
ela gritou: “Govinda, Govinda”, dependendo completamente de Krishna.
Foi então que Krishna apareceu, invisível para os outros, e deu a ela uma
extensão cada vez maior de sari, ilustrando que obviamente havia uma
vontade divina por trás do aparente desrespeito de Yudhisthira por sua
esposa, que de outra forma atraía a mais alta consideração de todos os
Pandavas. Assim, o envolvimento de Draupadi leva o jogo a um nível mais
alto, arranjado como foi para enfatizar a eficácia do nama kirtana em
saranagati (rendição). Desta forma, se quisermos perguntar como
Yudhisthira, o filho do dharma, poderia apostar e perder sua esposa em um
jogo de azar, devemos também perguntar como Draupadi poderia ter um
sari de duração ilimitada.
Note que os Pandavas exibiram um padrão para a realeza humana que
Krishna em Sua encarnação como Sri Ramacandra transcendeu. Sri Rama
não jogou, jurou casar apenas uma vez, etc. A ideia aqui é que
Ramachandra, sendo Deus, estabeleceu um padrão que nenhum rei humano
comum seria capaz de seguir; os Pandavas, sendo humanos, estabeleceram
que uma realeza humana padrão poderia seguir, uma que lhes ofereceu
subsídios cujas demandas nem sempre eram concedidas. Novamente, o
exemplo deles não é um precedente para o mau comportamento dos
sadhakas.
A realeza é agora uma coisa do passado. Como foi ser rei ou príncipe na
Índia há milhares de anos? Não podemos responder com precisão a essa
pergunta, portanto, não devemos impor padrões e sensibilidades atuais aos
membros dessa cultura passada. Em última análise, as escrituras
compensam ordenando os ksatriyas, se necessário, para dar suas vidas na
proteção do público e, de outra forma, expiar seus excessos, realizando
sacrifícios, construindo templos e obras públicas e, em geral, servindo à
humanidade.
Então, enquanto nós certamente veneramos os Pandavas reais, nós, como
sadhakas, não olhamos para eles por padrões de comportamento. Em vez
disso, olhamos para os discípulos de Sri Caitanya Mahaprabhu no guru
parampara, particularmente os Seis Goswamis de Vrindavana, para nosso
padrão devocional e modo de vida. Os Pandavas, entretanto, deram um
exemplo de amor por Krishna que nós temos muito que aprender deles, e
Sri Sanatana Goswami detalha isto em seu Brihad-bhagavatamrta.
Sakhya bhava
A base do Gaudiya Vaisnavismo é o exemplo e instruções de Sri Caitanya
Mahaprabhu, como nos foram transmitidas por seus associados íntimos e
seus principais discípulos, particularmente Krishnadasa Kaviraja e os Seis
Goswamis de Vrindavana. Sua literatura nos informa que, enquanto
Mahaprabhu reverenciava todos os genuínos devotos de Krishna, Ele
estava essencialmente preocupado com Vraja bhakti, devoção a Krishna no
humor dos residentes de Vrindavana. Assim, Gaudiya Vaisnavas atraídos
para o humor de sakhya rasa seguem o ideal dos vaqueirinhos de
Vrindavana, mais comumente o dos priyanarma sakhas, que são amigos de
Krishna envolvidos em sua vida romântica. Esses devotos experimentam
sakhya-bhava misturada com gopi-bhava, e aqui a ênfase está em ajudar
líderes de grupo (yuthesvaras) como os amigos íntimos de Krishna,
Madhumangala e Subala, ambos com assistentes ilimitados, assim como
líderes de grupos gopis (yuthesvaris).
Com relação ao elemento conjugal de sakhya bhava, cada líder do grupo
priyanarma (yuthesvara) serve a Radha-Krishna sob a direção de um líder
do grupo gopi (yuthesvari). Em nossa sampradaya, a líder do grupo
feminino mais enfatizada é Lalita-sakhi. Ela é qualificada para ser uma
líder de grupo independente, que compete pela atenção de Krishna, mas
escolhe se subordinar a Radha. Assim, ela é uma yuthesvari não no sentido
que as gopis a servem tentando atrair a atenção de Krishna para ela, mas ela
lidera as manjaris, como Rupa manjari (que em Caitanya lila não é outra
senão Rupa Goswami), em serviço a Sri Radha Ela também atua como líder
de grupo para alguns amigos de Krishna que O ajudam em Seus romances
com Radha. A este respeito, ela é a yuthesvari de Madhumangala. Visakha
gopi, cuja posição é semelhante a Lalita, também é enfatizada em nossa
sampradaya. Ela age como a líder do grupo feminino de Ujjvala, enquanto
a própria Radha é a líder do grupo feminino de Subala e seus associados.
Ao contrário dos devotos em sakhya-rasa que não são influenciados pelo
amor conjugal, o bhava do priyanarma sakha se estende em excelência
transcendental e intimidade além do alcance de vatsalya-bhava e até
mahabhava, embora esteja aquém do extremo da mahabhava
experimentada pelas manjaris de Sri Radha. Como mencionado no Brhad-
bhagavatamrta, esses amigos de Krishna sentem mais prazer em receber a
ordem de Radha e seu grupo do que em receber a ordem direta de Krishna.
Eles tendem a tomar o lado de Krishna em suas brigas de amor com as
gopis, a menos que estejam sozinhos com Krishna, quando tendem a falar
em nome de seus yuthesvari. Eles também entregam mensagens secretas a
Krishna, sussurrando em Seu ouvido, e entregam as mensagens de Krishna
às gopis.
Em geral, “indireto é melhor que direto” pode ser uma boa maneira de
descrever a posição do Gaudiya em Vraja-bhakti. Nós aspiramos a seguir
os passos dos associados eternos de Krishna — seguir o bhava deles
conforme ele começa a aparecer para nós na pessoa de Sri Guru. Assim,
colocamos ênfase em Sri Guru. De fato, guru-bhakti é mais agradável a
Krishna do que a Krishna-bhakti. Ninguém pode servir a Krishna sem
honrar o guru, mas se alguém faz do serviço a Krishna um aspecto de servir
o Sri Guru em vez de fazer do serviço do guru um aspecto de servir a
Krishna, tal abordagem é mais agradável a Sri Krishna. Esta é a opinião de
Sri Jiva Goswami mencionada em seu Bhakti-sandarbha.
FIM DO ARTIGO
72. O PLANETA DA FÉ

Fico encorajado a ouvir como a fé e a prática espiritual mudam a vida para


melhor. O consumo de álcool não é favorável à prática de bhakti. Devemos
nos esforçar para fazer a órbita de nossa bússola moral girar em torno da
aceitação daquilo que é favorável a bhakti e rejeitar aquilo o que é
desfavorável. Isto faz uma fundação firme de saranagati (rendição) na qual
nossa casa de bhakti pode ser construída.
Dito isso, a vida moderna é complexa e padrões morais antigos que não
levam em conta as nuances atuais muitas vezes deixam de fornecer um
impulso convincente para segui-los. A recomendação é que se faça o
melhor esforço para deixar de beber por completo. Deixar de beber não irá
causar alienação social, porque a abstenção de álcool é respeitável mesmo
em nossa cultura ocidental.
Acima de tudo, não desistir de cantar harinama sob nenhuma circunstância
é primordial, mesmo que uma pessoa se sinta hipócrita porque ainda não
abandonou todos os seus maus hábitos. Pujyapada Sridhara Maharaja
costumava dizer que a maioria das pessoas é incapaz de engolir toda a
grande pílula da consciência de Krishna de uma só vez, mesmo que elas
tenham percebido que é o remédio que elas realmente precisam.
Na Evolução Subjetiva da Consciência, ele diz: “Não é que, de repente —
de uma só vez — tudo esteja limpo. Antes, de acordo com nosso bhajana,
nosso sadhana, nossa tentativa, os elementos indesejáveis gradualmente
desaparecerão, irão embora. E por diferentes estágios, alcançaremos a
meta. ”

Como sraddha cresce


Todo mundo tem fé em algo, seja material ou espiritual. O Bhagavad-gita
diz: "sraddha-mayo" yam puruso", uma pessoa é sua fé; e a fé das almas
encarnadas nasce das qualidades materiais de sattva (bondade), rajas
(paixão) ou tamas (ignorância). Tal fé materialmente condicionada, sendo
um produto da matéria, promove ações que são karmicamente vinculantes
no caso de raja e tamas, e ações que apontam na direção da liberação no
caso de sattva.
Por outro lado, existe outro tipo de fé (fé divina) que é transcendente à
natureza material. No Srimad Bhagavatam, Sri Krishna identificou a fé em
si mesma como fé transcendental. Aquele que tem essa fé alcança a
transcendência.
A fé divina é caracterizada pela convicção de que o conhecimento
abrangente é possível apenas por meio da revelação. Essa orientação
ressalta as deficiências do intelecto em si, em termos de sua capacidade de
conceder conhecimento abrangente. Gaudiya Vedanta postula isso como
conhecimento pelo qual a alma/atma percebe a si mesma e sua perspectiva
de amor. Isso envolve perceber Brahman/Deus como rasa — raso via sah
— e saborear rasa ou bem-aventurança em relação a ele — rasam hy
evayam labdhvanandi bhavati. Assim, a fé divina, em oposição à fé
materialmente condicionada, resulta em "compreender a verdadeira
importância das escrituras".
A fé divina/sraddha cresce pela associação daqueles que a possuem. Tal
sadhu sanga é contagiosa em primeiro lugar, despertando komala ou terna
fé inicialmente e depois nutrindo-a em firme fé, na qual o intelecto se fixa
na busca espiritual. Através de sadhu sanga e da cultura espiritual
(sadhana), a fé firme acaba por engrossar e garantir ao praticante
permanecer na terra do ser e, dali, dançar. Este solo em si é a fé divina, no
qual uma vez que todas as dúvidas sejam removidas, a pessoa pode mover-
se livremente na terra natal do coração — em lila seva.
Assim, fé implica movimento. Bhaktivinoda Thakur equaciona isso com a
rendição (saranagati), assim como Sri Krishna na Gita. Quando tendo
despertado fé de Arjuna na eficácia de bhakti, ele diz-lhe que a aplicação
prática da sua fé é a rendição. O entendimento completo da fé equivale à
conformidade com a verdade, ao passo que o pensamento racional é apenas
um meio imperfeito de apreender a verdade. A conformidade com a
verdade envolve apreendê-la ou entendê-la teoricamente, mas,
teoricamente, a compreensão da verdade não envolve necessariamente a
conformidade com ela. A fé é o princípio animador de nossas vidas. Por
outro lado, o tanto que desconfiamos, será o quanto nosso movimento será
suspenso.
O fato de que a fé divina é transracional envolve experiência além daquilo
que é possível somente através do pensamento racional. Isso não implica
que ela mesma seja irracional. Fé por boa razão surge do mistério
subjacente à própria estrutura e natureza da realidade, um mistério que em
sua totalidade nunca será totalmente desmistificado, apesar que aqueles que
colocaram a razão em seu altar possam gostar que acreditemos. O mistério
da vida que dá origem à fé como um meio supra racional de desvendar o
mistério da vida — uma razão que não detém a chave para — sugere que a
fé é fundamentalmente racional na medida em que é uma resposta lógica
para o misterioso. Quando confrontados com o grande desconhecido,
devemos encontrar motivos para confiar.
Embora a prática dos devotos geralmente tenha alguma atração por Krishna
lila, isso varia de acordo com sua experiência de vida passada. A real
atração emocional por Krishna lila se desenvolve apenas em estágios
avançados de prática e repousa sobre uma compreensão adequada de sua
base filosófica. Então é bom que se tenha convicção na filosofia subjacente
à noção de lila. De fato, muitos dos que parecem muito atraídos por
Krishna lila têm pouca ou nenhuma profundidade de compreensão
filosófica e, em tais casos, frequentemente descobrimos que sua atração
inicial por Krishna lila não perdura e não leva o dia.

Como proceder em bhakti


É melhor proceder com práticas espirituais como ouvir e cantar Krishna
nama com a convicção básica de que a realidade última constitui transações
recíprocas na intimidade espiritual e no êxtase entre nós como uma unidade
de consciência e nossa fonte, raso vai sah rasam hy. evayam labdhvanandi
bhavati.
Em outras palavras, coloque sua fé na filosofia subjacente, a tela filosófica
— acintya bhedabheda Vedanta — na qual Krishna lila é desenhada e
prossiga com a prática de cantar. Krishna nama está cheio de lila e, com o
tempo, a atração espontânea para seus passatempos divinos se manifestará
em seu coração.

Alcançar pela adoração à deidade


 Na era atual (Kali-yuga), nama sankirtana é mais eficaz (que qualquer
outro processo). Isto é porque o avatara para esta era, Sri Chaitanya
Mahaprabhu, tem tecido nama sankirtana junto com Krishna prema e
enfeita o mundo com ele. Por Sua misericórdia, Krishna prema, que
normalmente é muito raro, é facilmente alcançado por nama sankirtana.
Ao mesmo tempo, outros membros de bhakti também são eficazes, e em
nossa linhagem três são mais importantes: Sravanam (audição), kirtanam
(canto) e smaranam (lembrança), enquanto arcanam (adoração à Deidade)
também é útil para iniciantes. É importante notar que no Gaudiya
Vaishnavismo, o processo de archanam é impregnado com o cantar do
santo nome em toda a oferta de adoração à Deidade.
Os outros membros principais de nava-laksana bhakti também são
eficazes, mas o prema que Mahaprabhu veio dar é alcançado
principalmente através de sravanam, kirtanam e smaranam. Se alguém
ouve bem e desenvolve uma profunda compreensão da teologia do nama
dharma, pode-se cantar atentamente com um coração humilde. Qualquer
um que canta nesse espírito experimentará a meditação profunda e a vida
interior, cuja cultura agita a emoção espiritual (bhava) em puro amor a
Deus - Krishna prema.
“Quando uma pessoa desenvolve sraddha, ela pode pensar sobre um
assunto e compreendê-lo, enquanto que não é possível fazê-lo sem
sraddha. De fato, somente uma pessoa que tenha sraddha pode refletir
sobre qualquer coisa. Sendo assim, uma pessoa deve-se questionar muito
especificamente sobre sraddha.” Chandogya Upanisad 7.19.1
A passagem seguinte do livro "Loving Search for the Lost", de B. R.
Sridhara Maharaja, credita o progresso da fé à associação favorável com
santos e escrituras.
“Assim como no mundo tangível existe o sol, a lua e tantos outros planetas,
no mundo da fé existe uma gradação de sistemas planetários. Temos que
examinar as escrituras, aproveitar as orientações dadas pelos santos e
entender como o progresso da fé no plano mais alto é alcançado eliminando
os planos inferiores ”.
Nesse sentido, os estágios de bhakti são todos desenvolvimentos de fé que
culminam na entrada dos “planetas da fé”, como Pujyapada Sridhara
Maharaja aqui se refere ao paravyoma (mundo espiritual). Similarmente,
Sri Jiva Gosvami escreve que sem ruci (gosto), não se pode efetivamente se
envolver em sastra-yukti, propriamente raciocinando sobre a importância
da escritura — svalpapi rucir eva syad bhakti-tatvavabodhika.
Aqui Sri Jiva está dizendo a mesma coisa que Chandogya Upanishad
7.19.1, mas usando a palavra ruci ao invés de sraddha. A implicação de
tais afirmações é que a lógica por si só não abre a porta para entender a
importância do sastra. A chave é sadhu sanga.
Por que tantos devotos são incapazes de pensar claramente sobre a
importância do sastra? É falta de fé/ruci? Eu diria que é devido à fé fraca
(komala sraddha), porque sraddha implica fé no sastra — sastriya
sraddha, e quanto mais forte a fé, maior a capacidade de compreender o
sastra. Outros problemas também podem estar à mão, como
ofensas/aparadha. O teste real não é tanto a capacidade inicial ou a falta de
capacidade de entender o que se lê, mas a capacidade de mudar o
pensamento de alguém ao ouvir as conclusões corretas de um sadhu. Por
um lado, você tem aqueles que podem mudar seu pensamento com sadhu
sanga e, por outro, você tem aqueles que são inflexivelmente contra a
conclusão apropriada encontrada no contexto da sadhu sanga. Muitos
devotos estão em algum lugar entre esses dois extremos.
Fé no sastra realmente leva à fé nos sadhus; O sastra enfatiza isso
repetidas vezes. Bhakti vem de bhakti no contexto de sadhu sanga. Ainda
assim, encontramos muitos com grande fé no sastra (particularmente os
livros de Srila Prabhupada) e sem fé nos sadhus, mas sim forte
desconfiança deles. Isso é compreensível até certo ponto, dado o mau
comportamento de muitos dos chamados sadhus. Ainda assim, o progresso
em bhakti requer que encontremos e mantenhamos a companhia de devotos
avançados. Negligenciar esse princípio importante por causa de alguma
experiência negativa é muito lamentável e um sinal de fé fraca em um
sentido dinâmico do termo. A fé baseada em sadhu sanga é a única coisa
que elimina a dúvida e a confusão. Na medida em que negligenciamos
sadhu sanga, seremos incapazes de compreender a verdadeira importância
do sastra e, por sua vez, permaneceremos distantes de nosso lar eterno no
planeta da fé.
FIM DO ARTIGO
73. QUANDO A VIDA REAL COMEÇA

Em tempos difíceis, devemos olhar para as escrituras em busca de conforto


e orientação, pois ver a vida através dos olhos das escrituras (sastra-
caksusa) nos ajudará como nada mais pode. De fato, o segundo capítulo do
Bhagavad-gita conta toda a história da vida e da morte – a morte sendo
descrita ali como outra mudança de vestes para a alma. Por meio da visão e
da filosofia das escrituras, podemos lidar verdadeiramente com a morte, e
lidar com o problema da morte é sobre o que é a vida. Se negligenciarmos
este problema, nenhum outro esforço equivale a tempo bem gasto, pois
nunca encontraremos felicidade duradoura trabalhando contra o relógio
para adquirir algo nesta curta vida. Esta é apenas uma visão realista da vida
neste plano mortal, onde o tempo nos tirará tudo muito cedo.
O que é tempo? “Eu sou o tempo, destruidor de todos os mundos”, diz Sri
Krishna no Bhagavad-gita. Há, claro, mais da sua mensagem do que isso.
Mas este é o começo. Uma vez que compreendemos completamente que a
presente vida que estamos vivenciando é aquela em que nascemos para
morrer, podemos começar a conhecer a eternidade, onde a vida real
começa.
Para viver a vida despreocupada que estamos procurando, devemos
atravessar a influência do tempo. O Gita nos diz que isso só pode ser feito
entregando-se à realidade de nosso completo desamparo diante da natureza
material, sob cuja jurisdição estamos vivendo. A partir desse
reconhecimento de nossa extrema necessidade, vem o ímpeto de pedir
ajuda – ajuda absoluta, pois somos absolutamente desamparados. Este
chamado atrai a simpatia de Deus, que está sempre pronto para responder
àqueles que são mansos e humildes, assim nossa vida feliz além do tempo
está próxima. A experiência positiva da vida espiritual tangível não requer
validação racional. Não deixa dúvidas e cumpre a necessidade do coração
como nada mais pode. Não é irracional, mas começa onde a razão termina.
Tudo o resto empalidece em comparação.

Existência de mensagens subliminares nas escrituras


As escrituras hindus contém segredos que só podem ser acessados por
aqueles que aplicam seus preceitos. O amor em si é o maior segredo. O que
é amor e como se ama no sentido mais amplo? Essas são as questões reais
da vida, e as respostas para essas perguntas podem ser encontradas nas
escrituras hindus, assim como em outros textos sagrados.

A culpa de Deus
Essa é uma questão com a qual todas as tradições espirituais têm que lidar
(Por que Deus deixa coisas más acontecerem). Na minha opinião, nenhuma
das respostas oferecidas pelas várias tradições satisfaz plenamente o
intelecto. Portanto, aqui, no início, pode valer a pena perguntar se a
satisfação intelectual é ou não necessária. Certamente é, até certo ponto,
mas podemos esperar que o intelecto entenda tudo? O Bhagavad-gita diz
que, embora o intelecto seja maior que a mente e os sentidos, é em todos os
aspectos inferior à alma. Assim, a alma e Deus – a alma Suprema – só
podem ser conhecidos por revelação.
A tradição hindu ensina que Deus não é responsável pelo mal no mundo,
nem é responsável pelo sofrimento dos habitantes deste mundo (jivas). A
situação das jivas é o resultado de suas próprias ações, ou karma. O karma
é a manifestação do princípio da justiça, que Deus honra para que ele não
seja culpado de caprichos. No entanto, a misericórdia está acima da justiça,
portanto, Deus pode mostrar misericórdia e anular a justiça às vezes, mas
em geral o princípio da justiça karmica governa o mundo material.
Pode-se argumentar que no início da criação não havia jivas e, portanto,
não havia karma. Portanto, quando as jivas se manifestaram, Deus deve tê-
las feito desiguais, pois, se fossem iguais, não haveria razão para acreditar
que seus atos teriam sido diferentes, resultando em karma diferente. Neste
argumento, Deus é acusado de ser desigual e, portanto, injusto, uma
posição que contradiz as declarações do Gita e outras escrituras que
proclamam a neutralidade de Deus em relação à felicidade e aflição neste
mundo. Em resposta, os sutras dizem que esse argumento é inválido porque
não há começo para a criação. A criação é um ciclo sem começo, assim
como o karma. Pode-se pensar nisso como se faz a pergunta desconcertante
sobre qual vem primeiro, a semente ou a árvore.
Outra maneira de entender isso é em termos da filosofia de acintya-
bhedabheda de Sri Caitanya Mahaprabhu, que ensina que Deus e suas
energias (sakti) são simultaneamente uma e diferentes. Se Deus fosse um
em todos os aspectos com as jivas, que estão entre os suas saktis, Ele seria
responsável por suas ações. No entanto, de acordo com Mahaprabhu, Deus
não é um em todos os aspectos com as jivas – não absolutamente –,
porque Deus é eternamente um e diferente de sua sakti. Na teoria em que
Deus e as jivas são um só, Deus ainda não poderia ser culpado pelos
sofrimentos do mundo, porque, para começar, não há ninguém para culpar
a Deus, visto que, nessa visão, somente Deus existe.

A misericórdia de Krsna e o karma


O Bhagavad-gita afirma que Krishna é igual em relação a todos, mas que
qualquer um que presta serviço a Ele recebe Sua atenção especial. Isso não
viola a neutralidade de Krishna, pois todo mundo é livre para se tornar Seu
devoto. No entanto, tudo o que acontece com cada devoto não é
diretamente feito por Krishna. Krishna é indiferente e absorto no amor por
Seus devotos mais íntimos. Somente quando os devotos avançam e ficam
sob a influência da energia interna de Krishna (svarupa-sakti) Ele se fixa
permanentemente em seus corações e desempenha um papel ativo em suas
vidas. Ele o faz com a intenção de guiá-los para si mesmo em termos de um
sentimento particular do amor divino. Antes que esse estágio de bhakti seja
atingido, o devoto permanece até certo ponto sob o governo karmico e deve
mais prontamente atribuir seus ganhos e perdas materiais a um bom e mau
karma.
Este karma, no entanto, pode muito bem ser considerado uma forma
abreviada de karma devido à prática espiritual do devoto e à graça de Sri
Guru. Por exemplo, Sri Jiva Goswami escreveu que bhakti primeiro destrói
o karma que está na espera e que ainda não se manifestou, enquanto o
karma manifesto não é destruído até que se atinja estágios avançados de
devoção. Isso não significa que Deus não esteja envolvido nas vidas dos
devotos neófitos. Ele está. Caso contrário, como poderia o karma não
manifesto ser destruído?
A Escritura apoia este ponto afirmando que uma mera sombra do nome de
Krishna (namabhasa) pode destruir o karma de uma pessoa. Esse
namabhasa representa a influência parcial de Krishna em nossas vidas,
destruindo o karma que nos impede de amá-lo. No entanto, quando o nome
puro de Krishna (suddha-nama) se manifesta em nossos corações,
chegamos diretamente sob os cuidados de Krishna. Neste estágio, Krishna
nos ajuda a desenvolver nosso sentimento nascente de amor e, ao fazer
isso, Ele pessoalmente nos mantém, carregando o que nos falta e
preservando o que temos: yoga ksemam vahami aham.

Buscar inspiração em outras tradições


Não há mal em se inspirar em outras tradições. Quando vemos boas
qualidades, intensidade de prática e dedicação em outras tradições,
devemos nos inspirar em tais exemplos para nos aplicarmos muito mais
dentro de nossa própria tradição. Nosso sadhana pode diferir daqueles de
outras tradições espirituais, mas onde e na medida em que vemos o fruto do
nosso sadhana aparecendo nos outros, independentemente de sua tradição,
nós inclinamos nossas cabeças.
Tendo dito isso, é importante notar que Sri Caitanya Mahaprabhu ensina
que as gopis são o melhor exemplo de devoção. Todos os membros
iniciados da tradição da Gaudiya devem se esforçar para entender por que
elas são assim, pois somente então elas serão capazes de realmente
entender o que suddha-bhakti é no sentido mais completo do termo. Isso,
no entanto, não é fácil de fazer. Até o próprio Krishna se esforçou para
entendê-lo – razão de sua aparição no mundo como Sri Caitanya.

O termo "inferno" nas escrituras


Uma interpretação ampla das duas primeiras linhas do versículo seguinte
poderia se aplicar para a compreensão disto:
paroksa-vada vedo 'inhame
anusasanam balanam
“Conhecimento (veda / sastra) é dado de forma disfarçada (paroksa-vada)
para guiar pessoas semelhantes a crianças (menos inteligentes).” (SB.
11.3.44)
Embora esse versículo se refira mais diretamente às seções da escritura que
falam do fruto da aquisição material derivada da adesão a uma regra
específica, ela pode ser estendida para se referir àquelas seções das
escrituras que buscam inspirar-nos a seguir as diretrizes escriturais com a
expectativa de alcançar algo ou o medo de punição por não segui-los. Nos
estágios iniciais da devoção, esses motivos estão presentes no coração do
praticante. Aos poucos, eles serão substituídos, primeiro com a devoção
nascida de um senso de dever e, finalmente, pelo amor, o motivo
desmotivado.
Escrituras como a Bhagavata são poesia, e assim elas tomam uma licença
poética quando explicam filosofia e teologia. Eles procuram sublinhar
verdades importantes e universais. Por exemplo, as seções que descrevem o
inferno buscam, entre outras coisas, nos dizer que há consequências para
nossas ações – um ponto importante a ser considerado. Quando lemos
assim e colocamos tais verdades em nossas vidas, podemos entrar no
mundo de todas as possibilidades.

O que é considerado como "jogos de azar"


A proibição contra o jogo tem a ver com o fato de que promove a
mentalidade de querer algo por nada. Enquanto o trabalho honesto é
purificador, tentar vencer o sistema não é. De um modo geral, investir não
seria considerado como jogo, embora, como o jogo, possa haver algum
risco envolvido. Isso porque, na civilização moderna, o investimento é
geralmente o melhor uso dos recursos financeiros e da inteligência.
O importante é que devotos, com exceção daqueles que vivem como
monásticos, como sannyasis, brahmacaris e vanaprasthas, devem ser
empregados em profissões honestas. Até certo ponto, o trabalho honesto e a
responsabilidade para com os dependentes purificam o dinheiro que se
ganha, inclusive o que vem dos retornos dos investimentos.
Independentemente disso, um chefe de família deve ser uma alma entregue
a Krishna (saranagata) e usar sua renda disponível para Vaisnava seva.

Virtude
Virtude é a influência do que o Bhagavad-gita se refere como sattva guna,
ou o modo de bondade. Fisicamente falando, sattva guna é a capacidade da
matéria de ser inteligível, a capacidade inerente de uma manifestação
material de se tornar conhecida. Psiquicamente falando, sattva guna é
clareza e pureza de pensamento, pensamento que compreende o valor da
virtude. Atos virtuosos derivam da influência de sattva. A virtude é melhor
porque leva à clareza de pensamento que revela a futilidade da “honra
celestial” e da “riqueza terrestre”. A busca deve ser retirada e, em vez
disso, deve-se buscar a vida eterna e altruísta no amor a Deus.

Perdas de entes queridos


O que poderia ser mais caro para os pais do que um de seus filhos, e por
que qualquer pai ou mãe tem que sofrer a perda súbita de uma criança
pequena de tal maneira? A única resposta que posso dar a essa pergunta
desconcertante é que Deus e a natureza material (karma) funcionam de
maneiras misteriosas.
Talvez devêssemos parar de tentar encontrar uma razão para as tragédias
(desse tipo). A vida em si não é muito razoável, nem cientificamente
falando nem espiritualmente. A vida é mística e, da perspectiva espiritual, a
vida é sobre amor e o amor não responde à razão. Tentemos crescer em
amor, universalizando o objeto do nosso amor. Em termos universais, um
filho representa uma oportunidade para os pais se sacrificarem, pois cuidar
de um filho requer muito de si mesmo. As Escrituras nos dizem que é
através do auto sacrifício que a pessoa encontra satisfação. Ele nos pede
para tentar ver o propósito da vida sob essa luz.
O Bhagavad-gita proclama que o sacrifício pessoal aproxima a pessoa da
realidade, porque o Absoluto está eternamente situado em atos de
sacrifício. Assim, a satisfação que se sente em auto sacrifício tem sua
origem no Absoluto, Sri Krishna. A mensagem das escrituras é que se deve
“dar para viver” e, ao fazer isso, receberá muito em troca. Vivamos esta
grande lição, “dar é receber” e continuemos "dando" de todas as formas
possíveis. Através da doação, nos aproximaremos de Deus e, através de
doações, se pode sentir a presença de um filho perdido.
FIM DO ARTIGO
74. GOURA NAGARA BHAVA

Caitanya Mahaprabhu através de Krishna Das Kaviraj


A verdade é que ninguém saberia muito acerca do que Sri Caitanya
Mahaprabhu ensinou sem o que seus discípulos escreveram sobre Ele, pois
há apenas dez versos atribuídos diretamente a Mahaprabhu. Estes são os
seus famosos oito versos de Siksastakam e dois outros citados em
Padyavali. Estes outros dois versos são:
“Eu não sou um ksatriya, um vaisya ou um sudra. Nem sou um
brahmacari, um chefe de família, um vanaprastha ou um sannyasi. Eu não
sou nada além do que o servo do servo do servo dos pés de lótus do Senhor
Sri Krishna, o mantenedor das gopis.”
“A mensagem dos Upanisads está longe dos tópicos de néctar do Senhor
Hari. Por essa razão, o estudo dos Upanisads não resulta em um coração
que derreta com emoção ou sintomas de êxtase, como tremores, lágrimas
derramarem dos olhos ou os pelos do corpo se arrepiarem”.
O Gaudiya Vaisnavismo é sobre ver Sri Caitanya Mahaprabhu através dos
olhos de Seus devotos. Outras seitas poderiam ver Mahaprabhu de forma
diferente, mas quem estaria em melhor posição para entendê-Lo do que
aqueles que o conheciam pessoalmente e dedicaram suas vidas a Ele? Os
celebrados Seis Goswamis de Vrindavana eram tais pessoas. Eles
transmitiram as experiências e realizações de Mahaprabhu a Krishnadasa
Kaviraja e o abençoaram para revelar a vida e os ensinamentos de Sri
Caitanya ao mundo através de seu livro Caitanya-caritamrta.

Aceitando a realização dos associados de Sri Caitanya Mahaprabhu


As pessoas aceitam Sri Caitanya Mahaprabhu como Bhagavan Sri Krishna
porque esta foi a realização de Seus discípulos diretos. O principal entre
estes eram os Seis Goswamis de Vrindavana, que foram os primeiros a
escrever que Sri Caitanya Mahaprabhu era Krishna, baseando sua
realização no sastra. Eles estabeleceram permanentemente essa percepção
citando evidências do sastra que apontavam para a aparição de Krishna
como Sri Caitanya Mahaprabhu.
Portanto, aceitar Mahaprabhu como Bhagavan, mas não aceitar os escritos
de Seus discípulos, particularmente Krishnadasa Kaviraja, é, no mínimo,
falta de informalçao. Os Seis Goswamis e outros discípulos diretos de Sri
Caitanya transmitiram Suas experiências e realizações a Krishnadasa
Kaviraja Goswami e ordenaram que ele os representasse por escrito. Sem o
conhecimento íntimo desses discípulos, das palavras e passatempos de Sri
Caitanya, ninguém hoje saberia que Ele era Krishna, ou mais
especificamente Radha-Krishna combinados. Todos os que aceitam Sri
Chaitanya Mahaprabhu como Krishna devem uma grande gratidão a Seus
discípulos, especialmente Krishnadasa Kaviraja e os Seis Goswamis de
Vrindavana. Aqueles que afirmam conhecer Sri Caitanya Mahaprabhu
independentemente dos ensinamentos de Seus discípulos estão apenas se
iludindo.

Adoração a Gadhadara vestido como Radha


Embora Gaura seja Krishna e Gadadhara seja Radha, essa adoração é
provavelmente uma expressão do que às vezes é chamado de “Gaura-
nagara bhava”. Em busca da Gaura-nagara bhava, as pessoas buscam um
relacionamento conjugal com Mahaprabhu no Seu svarupa de uma nagari,
uma garota de vilarejo. Os dois principais biógrafos de Caitanya
Mahaprabhu, Krishnadasa Kaviraja Goswami e Vrindavana dasa Thakura,
rejeitaram esse tipo de adoração.
No Caitanya-caritamrta Sri Krishnadasa Kaviraja escreve: gopika-bhavera
ei sudrâha niscaya vrajendra-nandana vina anyatra na haya: “Está
firmemente estabelecido que gopi-bhava é experimentado apenas na
relação a Vrajendra-nandana Krishna e a ninguém mais.” (Cc 1.17.278)
Em seu Caitanya Bhagavata, Vrindavana dasa Thakura também escreve:
“O Senhor era apto para entrar em um comportamento indiscriminado e
misericordioso para com todos, exceto que Ele nunca olhava para uma
mulher, mesmo por um olhar de soslaio. É sabido por todo o mundo que
Ele nem sequer permitiu que o nome de uma mulher penetrasse em Seu
ouvido. Aqueles que são Seus verdadeiros devotos, portanto, nunca se
dirigem a Sri Gauranga como "Gauranga-nagari", ou o desfrutador de
mulheres. Embora todas as formas de adoração sejam aplicáveis ao Senhor,
o sábio apenas canta aquilo de acordo com a sua natureza. ”(CB 15.28-31)
Bhaktivinoda Thakur condenou abertamente o sentimento de Gaura-nagara
bhava, assim como seu mais proeminente discípulo, Srila Bhaktisiddhanta
Saraswati Thakur. Embora se possa encontrar algumas linhas nos poemas
de Bhaktivinoda que pareçam indicar esse sentimento, essas linhas devem
ser entendidas à luz de sua crítica ao Gaura-nagara bhava. Essa mesma
verdade foi mantida pelos Seis Goswamis, que ou rejeitaram abertamente
esse sentimento ou silenciaram a respeito.
Alguns associados de Mahaprabhu, como Narahari e Locana dasa, parecem
ocasionalmente expressar esse sentimento, mas não discutiram nenhum
sadhana para alcançá-lo. Aliás, é possível que a poesia que expressa esse
sentimento tenha sido interpolada em um esforço para apoiar o conceito de
Gaura-nagara bhava. De fato, sem esse aparente apoio, os defensores de
Gaura-nagara bhava não teriam nada em que se apoiar.
No mínimo, deve ser enfatizado que nenhum associado eterno de
Mahaprabhu ensinou qualquer prática espiritual (sadhana) correspondente
à Gaura-nagara bhava. O sadhana não deve ser fabricado. Ele desce de
cima e corresponde com um objetivo particular (sadhya). Sem o sadhana,
como pode haver tal sadhya, ou se existe tal sadhya, como alguém o
alcançará sem sadhana? Não se pode inventar um sadhana correspondente
a um sadhya imaginado. De fato, fazer isso nada mais é do que um
distúrbio para a sociedade dos devotos.
sruti-smrti-puranadi-pancaratra-vidhim vina
aikantiki harer bhaktir utpatayaiva kalpate
“O serviço devocional executado sem referência aos Vedas, Puranas,
Pancaratras e assim por diante, deve ser considerado sentimentalismo. Não
causa nada além de perturbação para a sociedade ”(Brs. 1.2.101).

Goura-Nitai adorados no humor de Radha-Krishna


Como Gaura-Nitai podem estar no humor de Radha e Krishna? De acordo
com o siddhanta da Gaudiya, Nitai é Balarama e Mahaprabhu é Krishna no
clima de Radharani. Quando Mahaprabhu exibe o humor de Radha, Nitai
recua para facilitar Seu bhava. Portanto, Gaura pode ficar no altar ao lado
de Radha-Krishna para fazer a declaração de que Ele é um com Eles, mas
Nitai, sendo Balarama, não vai ficar no mesmo altar ao lado de Radha-
Krishna.
Novamente, Mahaprabhu pode ser visto como Radha-Krishna porque Ele é
Radha-Krishna combinados, mas Gaura-Nitai nunca serão vistos como
Radha-Krishna porque Eles não são Radha-Krishna, Eles são Krishna e
Balarama. Algumas pessoas tentam dizer que Nitai é Radha, mas não se
encontrará muito apoio para essa ideia em nenhum lugar do Gaudiya
Vaisnavism.
Gaura-Nitai e Radha-Krishna podem ser adorados em altares adjacentes,
mas não no mesmo altar. Sri Caitanya Mahaprabhu pode ser adorado com
Radha-Krishna no mesmo altar, porque Ele é Krishna no humor de Radha.
Ele é Radha-Krishna combinados. Este tipo de adoração à Deidade é
comum em todas as instituições da Gaudiya Matha. Em sua instituição
Iskcon, Srila Prabhupada estabeleceu amplamente o culto das Deidades
Gaura-Nityananda em deferência a Nityananda Prabhu, que o havia
capacitado para pregar. De fato, Srila Prabhupada era de uma família que
havia sido agraciada por Nityananda Prabhu algumas gerações antes.
Na maior parte, a pregação de Srila Prabhupada envolveu a introdução da
consciência de Krishna àqueles que, do ponto de vista do varnasrama,
eram excluídos. Ao enfatizar a adoração de Gaura-Nitai, ele procurou
invocar a especial misericórdia de Nityananda Prabhu, a quem Sri Caitanya
Mahaprabhu deu a tarefa de libertar os mais caídos. Srila Prabhupada foi
tão bem sucedido em seus esforços para introduzir o culto a Sri Caitanya
Mahaprabhu em todo o mundo que seu irmão espiritual, Srila Sridhara
Maharaja, se referiu a ele como Nityanadavesa, ou aquele que é
especialmente capacitado por Sri Nityananda Prabhu. Locana dasa Thakura
canta: “Meu Senhor Nityananda, a joia de todas as virtudes, afogou o
mundo inteiro em uma inundação de amor extático por Krishna”.
FIM DO ARTIGO
75. GURU PARAMPARA,
NOVOS TEMPOS, NOVAS PALAVRAS E NOVOS LIVROS

Há algo a ser dito sobre o valor do novo insight obtido da rendição ao seu
Guru. Este é o coração do guru parampara. O guru fala por todo o tempo.
Mas, ao mesmo tempo, a relevância de suas palavras também é
determinada em grande parte pelo tempo e pelas circunstâncias em que ele
as fala. Novos tempos e novas circunstâncias exigem novas palavras, novos
livros e novas edições de livros anteriores. Se a nova edição soa melhor do
que a anterior, é em grande parte porque a mesma verdade da edição
anterior está sendo dada novamente em consideração ao tempo e às
circunstâncias atuais. Ao escrever tal livro, não há como superar o nosso
guru. Envolve reapresentá-lo em novas circunstâncias.
A verdadeira questão é se o discípulo realmente entendeu ou não os
ensinamentos de seu guru. Nós nunca podemos superar nosso guru, mas
nosso guru também não quer nos reprimir. Ele quer nos libertar. Ele quer
que demos tudo o que podemos a serviço de Krishna. Ele quer que sejamos
gurus, não discípulos.
Em nome de não superar o guru de alguém, Prabhupada deveria ter parado
de abrir mais de 64 templos? Ele deveria ter escrito menos livros?
Narottama Das Thakura não deveria ter feito mais de um discípulo, porque
seu guru fez apenas um? Visvanatha Cakravarti não deveria ter escrito um
comentário sobre Ujjvala-nilamani porque Jiva Goswami já havia feito
isso? Ele estava errado em explicar mais sobre parakiya do que Sri Jiva
naquele comentário? Deveria ter ficado preso à apresentação de svakiya de
Jiva Goswami e deveria não ter tentado transmitir a realidade do tattva?
Caso contrário, para fim de registro, eu saí do fundo do poço, e é mais
profundo do que eu pensava que era. Eu não vou subir. Há vida abaixo da
superfície.
Mente e coração como sinônimos
O coração é refletido na mente. Citta é por vezes considerado o aspecto da
mente que corresponde ao coração. Citta é, no entanto, consciência
contaminada. O coração também pode ser análogo à própria alma, que, por
uma questão de conceituação, está situada no coração. Quando meditamos,
exercitamos a alma, não a mente. Cantar é um exercício do coração ou
alma, no qual a mente está quieta.
FIM DO ARTIGO
76. INTERJEIÇÕES NAS ESCRITURAS

Estudos objetivos do Bhagavatam mostram que existem edições variantes.


Em sua tradução do Sri Brihad Bhagavatamrita de Sanatana Gosvami,
Gopiparanadhana dasa lista uma série de variações encontradas em
diferentes manuscritos tanto do Bhagavatam quanto do Bhagavatamrta.
Nisso, ele escreve: “Para alguns versos do Srimad-Bhagavatam, o
comentário de Srila Sanatana Goswami dá um texto que varia daquele
fornecido na edição do Bhagavatam publicadada pelo Bhaktivedanta Book
Trust”. Ele lista 32 versículos que aparecem de forma diferente, explicando
que essas diferenças quase nunca mudam significativamente o significado
do texto.
Variações podem ser atribuídas à linguagem, à geografia e à influência do
tempo (a antiga Índia tinha numerosos reinos independentes e centenas de
idiomas diferentes). No entanto, mais importante, a própria natureza dos
textos Puranicos como o Srimad Bhagavatam se presta a variações ao longo
do tempo. Ao contrário dos Vedas (sruti), que são considerados
diretamente manifestos de Deus sem a autoria humana, os Puranas (smrti)
reconhecem a ação humana.
Por exemplo, na opinião de Jiva Goswami, Vyasa compôs o Bhagavatam
duas vezes, uma vez no contexto de compilar todos os Puranas e uma
segunda vez depois de ter sido inspirado por Narada para enfatizar bhakti,
pelo qual Narada corretamente concluiu que o coração de Vyasa seria
satisfeito. Na edição atual do Bhagavata, descobrimos que foi falada por
Sukadeva e, posteriormente, por Suta. O texto também revela que foi
falado em outro momento por Sankarsana aos Kumaras. Essa é a natureza
da literatura Puranica. Embora sagrados e autoritários, ajustes feitos em
consideração ao tempo e às circunstâncias não são vistos como desviantes.
Os Puranas, afinal de contas, são literatura que procura apresentar a
essência dos Vedas em um formato facilmente compreensível. Para realizar
essa tarefa, a literatura puranica deve ser fluida. Essa fluidez, no entanto,
não equivale a interpolação, mas atesta a natureza contínua da revelação.
Isso também explica por que é particularmente difícil atribuir uma data à
autoria do Bhagavatam. Quando isso foi escrito? A resposta correta é talvez
que ainda não esteja terminado.
Um exemplo dessa fluidez é a hagiografia de Sri Vrindavana dasa Thakura
sobre Sri Caitanya, anunciada pela comunidade Gaudiya como o “Caitanya
Bhagavata”. Ao nomear a obra de Vrindavana dasa, os Gaudiyas
reconheceram que enquanto o Bhagavata foi compilado milhares de anos
antes, ela foi, no entanto, uma narrativa em curso sobre a vida esotérica de
Sri Krishna. Esta narrativa foi, em essência, continuada por Vrindavana
dasa para descrever a aparição de Sri Krishna como Sri Caitanya.
Ao contrário da revelação em andamento, a interjeição refere-se à inserção
deliberada e anônima de um texto em um livro para se adequar ao propósito
de alguém. Algumas seitas Vaisnavas acreditam que os capítulos 12 a 14
do 10º canto do Bhagavatam são exemplos de interpolação, porque esses
capítulos não estão de acordo com certos aspectos de sua compreensão da
teologia do Bhagavata. Para Gaudiyas Vaisnavas esses capítulos são
particularmente importantes, pois estabelecem dentro do contexto da
narrativa de Krishna lila um ponto crucial: krishnas tu bhagavan svayam,
“Krishna é a origem de Deus” (SB 1.3.28).
É desnecessário dizer que nós, Gaudiyas, não achamos convincentes os
argumentos dessas seitas. Sri Jiva Goswami os refuta apontando que os
capítulos em questão estão de acordo com a ontologia geral do Bhagavatam
e já foram aceitos pelo renomado antigo comentarista do Bhagavatam
Sridhara Swami, assim como outros grandes acaryas. Em seu tratado
Krishna-sandarbha, Sri Jiva cita mais de trezentos pontos, principalmente
do próprio Bhagavatam, confirmando a interpretação Gaudiya de "krishnas
tu bhagavan svayam".
Perto da virada do século anterior, Bhaktivinoda Thakur encontrou
opiniões acadêmicas sobre o Bhagavata que não se conformavam aos
ensinamentos da tradição. Apesar de não rejeitar totalmente essas opiniões,
ele enfatizou que, independentemente de seu mérito, a filosofia e teologia
essenciais do Bhagavata representavam a joia da coroa do insight espiritual.
Por quê? Porque vemos que aqueles que abraçam sua mensagem obtêm de
todo o coração a rara joia de prema, que é a oração do texto.
Além disso, um estudo cuidadoso dos comentários do Bhagavatam revela
que os manuscritos de hoje não diferem significativamente do manuscrito
que Gadadhara Pandit chorou com suas lágrimas de amor ao ler e comentar
o texto para o prazer de Sri Caitanya. Entre os comentários Gaudiya, o
comentário seminal de Sri Sanatana Goswami revela que o próprio
Bhagavata reconhece Sri Caitanya como sendo Krishna reaparecendo na
era atual. Assim, se alguém estuda o manuscrito que o próprio Sri Caitanya
abraçou, não é necessário se preocupar com a interpolação.
Também é importante notar que os Gaudiya Vaisnavas reconhecem dois
Bhagavatas: O livro Bhagavata e o devoto Bhagavata. Sri Krishnadasa
Kaviraja os descreve como segue: “Os dois irmãos (Sri Caitanya e Prabhu
Nityananda) dissipam as trevas do coração, fazendo arranjos para que uma
pessoa encontre os dois Bhagavatas. Um Bhagavata é o Bhagavata sastra
(Srimad Bhagavatam) e o outro é o devoto absorvido em bhakti-rasa. Esses
dois Bhagavatas então abrem a porta do coração para bhakti-rasa, e assim o
Senhor, no coração de Seu devoto, fica sob o controle do amor do devoto.
Pujyapada B. R. Sridhara Maharaja gostava de se referir à pessoa
Bhagavata como agente ativo da divindade e ao livro Bhagavata como o
agente passivo da divindade. Enquanto os dois estão invariavelmente
interligados, a pessoa Bhagavata é sem dúvida mais importante que o livro
Bhagavata porque ele ou ela exemplifica o ideal do Bhagavatam. Sozinho,
o livro Bhagavata é insuficiente para o sadhaka, pois a orientação da
pessoa Bhagavata é essencial para entender completamente o significado
profundo do texto. Assim, mesmo se houver interpolação no livro
Bhagavata, não se pode adicionar ou subtrair do devoto Bhagavata, que é o
principal agente da divindade em nossas vidas.
É importante ressaltar que, como os Goswamis, estamos preocupados com
a essência do Bhagavatam. Essa essência é delineada no Sri Caitanya-
Caritamrta e tem pouco a ver com antigos costumes sociais e cosmologia
datada, mas tudo a ver com a metafísica de acintya-bhedabheda
(inconcebível, simultânea unidade e diferença), a primazia de Krishna entre
os avataras de Visnu, o amor de Radha por Krishna e assim por diante. O
Srimad Bhagavatam nos diz como viver nos dizendo como morrer. Fala-
nos com um senso de urgência e exige nossa atenção completa, nityam
bhagavata sevaya. Aqueles que realmente compreendem a essência do
Bhagavata morrerão uma morte do ego para viver para sempre em amor.

O nome de Krishna nos Upanisads


Krishna é mencionado no Chandogya Upanisad (3.17.6) como Devaki-
putram, o filho de Devaki. O Chandogya é um dos dez Upanisads que
Sankara comentou. Sankara também elogiou Krishna acima de todos os
outros avataras e O glorificou em sua poesia. Na linhagem de Sankara,
Krishna é considerado o purna avatara, a mais completa manifestação de
Deus. Em seu Abhilasastaka Sankaracarya escreve: “Eu desejo estar em
Vrindavana para que eu possa sentar na margem do Yamuna e passar cada
dia longo da minha vida em um piscar de olhos, meditando no Senhor
Krishna”.
Um quase contemporâneo de Sri Caitanya na linhagem de Sankara,
Madhusudana Saraswati, cuja erudição e espiritualidade são consideráveis,
escreve sobre Sri Krishna assim em seu comentário Gita: “Eu não conheço
nenhuma outra realidade além de Krishna cujas mãos são adornadas com
uma flauta, O brilho é como o de uma nova nuvem de chuva, que usa um
pano amarelo, cujos lábios são avermelhados como a fruta bimba, cujo
rosto é lindo como a lua cheia, e cujos olhos são como lótus... Aqueles
tolos que não podem tolerar a maravilhosa glória de Krishna são
condenados”. Também é importante notar que, de acordo com a tradição
védica, o Bhagavad-gita, falado por Sri Krishna, pode ser apropriadamente
referido como Gitopanisad. Não é menos importante que os dez principais
Upanisads.
Os Upanisads são melhor compreendidos através dos Puranas, que às vezes
são chamados de “quinto Veda”. Os Puranas explicam o significado
essencial dos Upanisads e são, portanto, considerados reflexões aprendidas
e realizadas sobre o significado dos Upanisads. É dentro da tradição
Purânica que a divindade de Krishna é mais claramente explicada, e mais
uma vez, esta explicação está diretamente relacionada com os Upanisads e
não deve ser pensada como separada ou não relacionada. Entre os Puranas,
o Srimad Bhagavatam está indiscutivelmente em uma classe própria em
termos de conteúdo literário, teologia, filosofia, sociologia e assim por
diante. O próprio texto declara que é o fruto amadurecido da árvore da
literatura védica, e sua afirmação é objetivamente verificável. É no Srimad
Bhagavatam que todo o significado de Krishna é revelado. Este livro deve
ser estudado sob a orientação de uma alma espiritualmente avançada.
Fora do Bhagavatam, há numerosas referências incontestáveis à divindade
de Krishna encontradas nos textos dos séculos V e IV aC, tanto na Índia
quanto na Grécia. A coluna de Heliodoro encontrada no norte da Índia é
uma evidência arqueológica significativa do século I aC de como as
pessoas naquela época consideravam Krishna como a deidade suprema. A
coluna, além disso, atesta, conforme sua inscrição, a conversão a Krishna-
bhakti de um importante enviado grego, Heliodoro.
Assim, a aparente falta de evidência no que às vezes é chamado de dez
Upanishads principais relativos à divindade de Krishna deve ser entendida
em relação a toda a tradição escritural. Além disso, a noção de que os dez
Upanisads Sankara comentaram sobre os principais Upanisads é discutível.
De fato, a partir do registro Puranico em que Sri Krishna é coroado Deus
dos deuses, parece que esses Upanisads em que a divindade de Krishna é
enfatizado estão entre os mais importantes dos 108 Upanishads principais.
O principal entre eles, Gopala-tapani, está disponível em inglês com um
comentário contemporâneo.
FIM DO ARTIGO
77. ONISCIÊNCIA DE SRI GURU

Ninguém pode servir a Sri Krishna sem servir a Sri Guru. Todo serviço a
Bhagavan é precedido pela glorificação de Sri Guru. Se o serviço a Krishna
é o corpo de bhakti, então o serviço a Sri Guru são os membros. Ou
também é possível conceber o serviço ao Sri Guru como serviço ao corpo
de bhakti e serviço a Sri Krishna como seu membro. Isso é guru bhakti.
Dos dois, o último, guru bhakti, é indiscutivelmente mais agradável a Sri
Krishna.

Melhor forma de compreender as escrituras


É melhor estudar as escrituras sob a orientação de um Vaisnava avançado.
Este é o princípio, mas isso não significa que o tempo pessoal gasto
estudando o sastra seja desperdiçado, a menos que se esteja fazendo isso na
companhia de um guru rasika. Na verdade, a maioria dos devotos passa
pouco tempo na proximidade física direta de seu guru. Estudar os escritos
do guru e os comentários dos acaryas anteriores é como a grande maioria
dos devotos ganha conhecimento das escrituras. Quão bem uma pessoa será
capaz de compreender esses escritos depende da medida em que ela aplica
sua inteligência a este estudo, bem como em seu nível de avanço espiritual.
Estudar o sastra ajudará uma pessoa a progredir, mas o serviço sincero a
Sri Guru a ajudará ainda mais, mesmo se ela não estiver na presença física
do guru.

Bhakti, o conhecimento e o desapego


 É importante entender que, embora o Bhagavatam diga que o
conhecimento e o desapego rapidamente seguem bhakti, normalmente
levará algum tempo para que isso se manifeste. Levará ainda mais tempo
para o gosto aparecer, pelo menos em um sentido duradouro.
Conhecimento e desapego correspondem um ao outro. No conhecimento
uma pessoa não tenta buscar a felicidade duradoura em relação às coisas
que não perduram. Então, conhecimento e desapego, por sua vez,
correspondem à liberação, que é subordinada ou segue bhakti. Assim, o
sentido completo deste versículo é que quando alguém recebe suddha
bhakti, o conhecimento e o desapego se seguem imediatamente. Portanto,
não há necessidade de seguir o difícil caminho do conhecimento ou
desapego (jñana e vairagya) porque, seguindo bhakti, que é
comparativamente fácil, jñana e vairagya seguem automaticamente.

A onisciência do guru em ouvir orações


O guru não precisa ser onisciente para ouvir as orações daqueles que o
amam. O dicionário de Webster define "onisciente" como tendo
consciência infinita ou possuindo conhecimento universal ou completo. A
consciência infinita e o conhecimento universal em relação ao
conhecimento de cada detalhe da existência material é onisciência física. A
onisciência física pertence somente a Deus. O que poderia ser chamado de
onisciência metafísica, ou conhecer o eu e Deus, é o que se quer dizer
quando se diz que a alma libertada é onisciente, tem todo conhecimento
(sarvajña).
Metafisicamente falando, aquele que sabe que Deus sabe de tudo, mas ele
ou ela não sabem necessariamente o que comeram no jantar da noite
passada. Então, novamente, no Gaudiya Vaisnavismo, dizemos, como
Kant, que Deus é, em última análise, desconhecido e incognoscível.
Ninguém pode conhecê-Lo completamente. Mesmo os associados eternos
de Krishna admitem ser incapazes de compreendê-Lo completamente. A
mãe de Krishna, Yasodamayi, é onisciente? E, em caso afirmativo, em que
sentido? Ela certamente não sabe o que Krishna fez com as gopis na noite
passada sob as estrelas!
O Vaisnavismo ensina que um devoto deve estabelecer uma argumentação
citando versos de apoio do sastra, então onde diz no sastra que o guru deve
ser onisciente? O Vedanta-sutra diz que as almas plenamente liberadas
(videha muktas) podem ter conhecimento difundido por meio de sua aura,
que se estende como a luz de uma lâmpada dentro de todas coisas,
presumivelmente nas coisas as quais eles escolhem para se estenderem,
pradipavat avesah tatha hi darsayati (Vs 4.4.15). Mas isso não significa
que eles automaticamente sabem tudo o que está acontecendo no mundo ou
mesmo na vida de seus discípulos. Só Deus conhece os detalhes intrincados
de tudo e de todos.
Nem todos os gurus são jivan muktas. Jivan mukti refere-se à liberação
dentro deste corpo e videha mukti refere-se à liberação final depois que o
corpo cessa. Para o jñani que é liberado enquanto ainda está no corpo, o
prarabdha karma, ou o karma que já frutificou na forma do corpo físico,
ainda está diminuindo. Quando uma pessoa atinge videha mukti, o
prarabdha termina quando ela entra em Brahman.
Para o bhakta, jivan mukti é atingido no estágio maduro de asakti, quando o
seu karma está extinguido. Após este estágio e enquanto ainda no mundo o
devoto alcança bhava bhakti, no momento em que Bhagavan assume o
corpo do devoto através de Sua svarupa-sakti, dá ao devoto completa
facilidade para desenvolver um corpo espiritual interno. No entanto,
perceber o corpo espiritual interno não é sinônimo de videha mukti. No
Gaudiya Vaisnavismo, um videha mukta é aquele que deixou
completamente este mundo mortal e se uniu a Sri Krishna em Sua nitya-
lila.
FIM DO ARTIGO
78. SAKTI E A SUPREMA SAKTI

No Gita encontramos que Krishna diz que ninguém é superior a Ele, “Ó


conquistador de riquezas, todas as coisas descansam em Mim assim como
pérolas ensartadas em um cordão” (Bhagavad Gita 7.7). Depois Krishna irá
dizer: “Mas que necessidade existe para todo este conhecimento extensivo,
Arjuna? Eu sustento esse universo inteiro com uma mera porção do Meu
Ser”. (Bhagavad Gita 10.2)
Aqui Krishna começa a descrever Sua manifestação divina mencionando
Paramatma. Ele descreve o Paramatma como uma fração (amsa) ou porção
plenária Dele mesmo, pela qual a manifestação material inteira é penetrada.
Krishna tem reiterado que Ele é a fonte de todas as coisas, incluindo
Paramatma a qual é uma parcela de Seu esplendor. No verso Krishna deixa
claro que Ele não é uma encarnação de Paramatma na forma de Maha
Vishnu. Arjuna está surpreendido pensando na opulência de Seu amigo, por
que Krishna é a fonte de Vishnu, O qual é Sua mera porção plenária. Este
temor inspira o próximo capítulo.

Dificuldades na vida espiritual


As dificuldades que encontramos na vida espiritual representam nosso
prarabdha karma, ou seja, nosso karma manifesto, e nós temos que tolerá-
las e continuar com a nossa prática. Sempre atuando dentro dos parâmetros
da guia de nossos gurus. Ele é o agente diretor de nosso karma, sob à sua
guia, semelhantes reações não causam tanto dano em nós. Se o seguimos
bem de perto, com o passar do tempo estaremos firmes em nossas práticas
e nossos sofrimentos e dificuldades irão parecer favoráveis, porque nós
entenderemos que eles representam nosso karma, acabando de uma vez por
todas com essas reações.

Sobre a jiva ser Siva


A palavra “Siva” não somente se refere ao Senhor Siva, mas também
significa auspiciosidade, fortuna, felicidade etc. E se refere à liberação.
Dessa forma Srila Sridhara Maharaj descreve 'Siva' (quando responde a
uma pergunta se a jiva pode se tornar siva, e expõe o verso 'pasa-baddho
bhavej jivah pasa-muktah sadasivah: "Quando ela está condicionada, ela é
'jiva', e quando está livre, ela é 'siva' - sivo 'ham"*) como uma condição a
qual o ser está livre das garras da exploração que caracteriza uma vida sob
a influência do karma. Então, quando o ser está liberado ele está em uma
posição conhecida como Siva. Entretanto, está mencionado no Brihat
Bhagavatamrta que a jiva pode assumir o “posto” do senhor Siva.

Bhaktas e saktas
Nossa Gaudiya sampradaya é formalmente a linhagem de bhaktas, não de
saktas. No entanto, em um sentido mais elevado, nossa linhagem é para
sakta por que nós veneramos a suprema sakti na forma de Sri Radha e
consideramos Ela como a corporificação do amor mais elevado. Um amor
tão puro, tão supremo, que Sri Krishna é conquistado por Ela. Nós
consideramos Shiva Sakti como sendo expressões de Radha e Krishna que
têm se expandido Deles para o propósito de manifestar este mundo. A
maioria das pessoas adoram Siva para atingir a liberação e Sakti para ter
ganhos materiais. Também adoram à Sakti querendo a liberação.
Aqui trata-se de outra ideia; adora-se a Radha e Krishna com ênfase em Sri
Radha apenas pelo propósito de amá-Los e tudo o que Eles representam,
sem nenhum tipo de preocupação por ganho material ou liberação do
nascimento e da morte. Esse é o caminho da devoção pura — a devoção
para seu próprio objetivo. Sri Radha não apenas é a corporificação da mais
elevada devoção, mas pelo Seu exemplo Ela nos ensina isso também.
Quando se fala de amor, Ela é o guru de Krishna.

Se nós somos atraídos para a sakti de Deus, nós deveríamos tentar aprender
mais a respeito da relação entre Radha e Krishna e a noção da supremacia
sutil da sakti na forma de Sri Radha.

Formas de Radha e Krsna


A informação acerca de Sri Radha durante a batalha de Kuruksetra, está a
disposição nos comentários de Srila Visvanatha Cakravarti Thakur do
Padma Purana. Se entende que ele fez umas distinções teológicas muito
finas a respeito da presença de Krishna em diferentes locais, em seus
comentários a respeito desse Purana encontrados em seu comentário
Bhagavata. Entretanto, não se tem encontrado nada a respeito de Sri Radha
pairando na batalha de Kurukshetra.
Ela visitou Kurukshetra antes da guerra e Ela e Krishna se encontraram, e
Krishna admitiu que Ele estava vendido a Ela. As formas de Radha e
Krishna no encontro (yugala milana) em Kurukshetra não são Suas formas
originais. A forma original de Radharani se encontra com Krishna em
Vrindavana. Quando Ele não esta manifesto ali e ostensivamente Ele vai à
Mathura, Radharani permanece em Vraja, e a Ela algumas vezes se refere
como Samyoguini Radha. Sua expansão que vai à Kuruksetra algumas
vezes se refere como Vyoguini Radha.
No momento da guerra de Kuruksetra, Svayam Bhagavan já tinha partido
do mundo junto com seus devotos de Vraja. Eles foram à Goloka e também
de forma invisível permaneceram em Bhauma Vrindavana junto com Ele.
(Isso é explicado no comentário do Bhagavad Gita de Srila Tripurari
Maharaj*):
“De acordo com o Srimad Bhagavatam (1.11.9) Krishna retornou à
Mathura para matar Dantavakra antes que o Gita fosse falado. O Padma
Purana revela que então Ele foi de Mathura para Vraja Dham. E depois de
permanecer em Vraja por dois meses Ele transferiu todos os Seus devotos
de Vraja a Seu imanifesto eterno lila de Goloka.
De acordo com o comentário de Srila Visvanatha Cakravarti Thakur no
Padma Purana, Krishna mesmo foi numa quase completa manifestação
(purna-kalpa-prakasa) em Goloka. Em outra manifestação mais completa
(purnatama-prakasa) que é uma manifestação plenária, Ele permanece
perpetuamente desfrutando de Vraja, enquanto é invisível aos olhos
materiais. E em outra manifestação plenária (purna-prakasa), Ele montou
Sua carruagem e retornou sozinho à Dvaraka.
Depois, Krishna falou o Bhagavad-gita, esse príncipe de Dvaraka sem
dúvida não parou de pensar no mais elevado tipo de devoção dos Seus
devotos de Vraja, enquanto fala a respeito da devoção para Arjuna. De fato
como foi mencionado antes, a lila inteira de Dvaraka não está não
relacionada com Vraja. Ele foi à Dvaraka para buscar proteção dos Seus
devotos de Vraja. Sanatana Goswami descreve que o príncipe de Dvaraka
está chamando pelo nome de Radha em Seu sonho, isso está no Brihat-
Bhagavatamrta (1.6.51-52).
Comentaristas Gaudiya Vaisnavas tem ouvido falar de Vraja bhakti pela
leitura das entrelinhas da canção a Arjuna. De fato, mesmo dentro do
abraço de sua principal rainha de Dvaraka, o príncipe Krishna pensa em
Vraja e no amor de Radha.
Umapati Dhara, citou no Padyavali (371) de Rupa Goswami e no Ujjvala-
nilamani (14,184) o seguinte: “No palácio em Dvaraka, nas margens do
oceano que é cintilante como as gemas, o corpo de Krishna arrepiou-se em
êxtase, com o abraço apertado de Rukmini, enquanto em Sua mente Ele
está se lembrando da fragrância do amor que Ele desfrutou com Radha nas
escuras águas do Yamuna...”
Então, se explica que os devotos encabeçados por Brahma criam nova
Vrindavana com o objetivo de amenizar o sofrimento de Krishna da
separação que Ele sente de Radha para evitar que Ele vá embora de
Dvaraka. Mais a este respeito se encontra no Brhad-Bhagavatamrta 1.6 de
Sanatana Prabhu.

A natureza do reino de Deus


O reino de Deus é constituído de uma consciência não dual (advaya jñana
tattva), cujo conhecimento é sufocado pela toda abrangente influência do
amor e beleza. Em Goloka todas as almas são unas com a vontade de Sri
Krishna. E todo o movimento alí (lila) é o êxtase de Krishna, o qual se
expressa para eles completamente com uma variedade ilimitada. Dessa
forma, unidade e diferença coexistem sem que um tenha compromisso com
o outro. Lá, todo passo é uma dança e toda palavra é um canto. O que seria
isso? O meio ambiente, a terra, às águas, vacas—todos eles são capazes de
satisfazer qualquer desejo, mas os residentes de lá não querem nada, essa é
a real opulência deste plano.
Em uma terra de cintamani, a pedra filosofal, as pessoas plenamente
satisfeitas desejam apenas uma coisa, não a fortuna nem a liberdade, nem
se importam com a fama, mas o gosto por duas sílabas que compõem o
nome de Krishna. Animado e inanimado, tudo está perdido em Sua
vontade, mas o que é que lhes permite moverem-se ainda assim? O amor
eterno, amor divino, amor de Krishna tão sublime, a verdade que é beleza
num reino além do tempo. Quem conhece esse lugar ao mesmo tempo sabe
de tudo, mas ao mesmo tempo não sabe absolutamente nada, pois a verdade
é beleza, mas a beleza chama, e este chamado, a beleza, confunde a todos
nós.
79. AUTENTICIDADE DOS ENSINAMENTOS DE SRILA PRABHUPADA

Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura Prabhupada, durante sua visita em


Vrindavan, tinha o hábito de visitar Srila Ramakrishna Das Pandit Babaji, o qual
sem dúvida foi um dos mais respeitados Gaudiya Vaishnavas durante a década
de 1920 a 1930. Nessa ocasião, Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta estava
louvando de forma muito elevada a Srila Gaura Kishora Das Babaji Maharaj, na
presença de Srila Ramakrishna Das Pandit Babaji. Srila Ramakrishna Maharaj
perguntou se ele havia recebido iniciação dele. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati
Thakur respondeu que tinha recebido num sonho. Srila Ramakrishna Das Pandit
Babaji disse que depois da morte ninguém poderia aceitar a iniciação, na
tradição de Caitanya, que isso não era comum. Prabhupada Bhaktisiddhanta
respondeu que havia recebido e terminou a sua visita.
Anos mais tarde, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati, já um homem famoso,
retornou a Vrindavana como acarya da Gaudiya Math. Ele visitou Sri
Ramakrishna Das Pandit Babaji novamente e foi perguntado se ele havia
recebido a iniciação de Srila Gaura Kishora Das.
Não existe registro de que Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur
Prabhupada teria ido a Vrindavan antes que ele começasse a Gaudiya Math,
e ele também não disse a ninguém que havia sido iniciado num sonho. Ele
relatou a história de sua iniciação por escrito. A história é bem conhecida.
Não há sentido de que ele tenha dito para alguém que recebeu a sua
iniciação em um sonho. Então, não podemos aceitar algo que tenha
simplesmente sido dito por outra pessoa como um fato real. Rumores não
são provas.

A história revela que Lalita Prasad ajudou na formação da Gaudiya Math e


que naquele momento Bhaktisiddhanta Prabhupada estava aceitando
discípulos ainda com Srila Bhaktivinoda Thakur e Srila Gaura Kishora Das
Babaji Maharaj presentes. Ou seja, com suas bênçãos. Mas depois do
desaparecimento de Srila Bhaktivinoda Thakur, Srila Lalita Prasad Thakur
deixou a Prabhupada Bhaktisiddhanta.
As fotos que vemos de Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta Sarasvati
Thakura, mostram que ele usava tilaka da Advaita-parivara ou do ramo
genérico da Gaudiya Vaisnava.

O cordão sagrado e o canto do Brahma-gayatri foram uma inovação Srila


Prabhupada Bhaktisiddhanta, influenciada por Bhaktivinoda Thakur. Sobre
a sua orientação ele recebeu o Brahma Gayatri.
Existe uma polêmica que os Panditas, Srila Gopal Guru Goswami e Srila
Dhyanacandra Goswami elaboraram uma lista de mantras para raganuga-
sadhana, mas o guru-mantra e o guru-gayatri dados por Srila
Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura eram diferentes desses. Entretanto, se
sabe que os mantras são iguais em significado, 99% tem a mesma forma.
Ele deu o Gopal-mantra e Kama-gayatri junto com o Goura e Guru
mantras/gayatris. Existe apenas uma ligeira diferença entre o guru mantra
dado em algumas outras linhas Gaudiyas. Esse não é um argumento
substancial. Os pontos levantados não são reais e nem têm substância.
Especialmente se levamos em conta muitas evidências que levam ao
sentido oposto. Ou seja, que Prabhupada Bhaktisiddhanta não inventou e
não modificou nenhum dos Gayatris.
FIM DO ARTIGO
80. DECLARA OUSADAMENTE

Tendo brevemente defendido a Si mesmo contra a acusação de


parcialidade, apenas  para admitir abertamente Sua preferência pelos Seus
devotos, anunciando isso em público, Krishna continua, sem pausa, até o
final desse capítulo, exaltando as virtudes da devoção a Ele. Aqui,
começando com o verso 26 e culminando no verso 34 e o último verso, nós
chegamos ao ponto mais elevado do Gita,o qual é reiterado de novo em
Suas palavras finais nove capítulos para frente.

Verso 30 e 31
"Ainda que uma pessoa tenha um muito mal comportamento, mas que Me
adora com uma devoção indivisa, ele deve ser considerado uma pessoa
santa, devido a sua resolução apropriada. Rapidamente ele se torna virtuoso
e alcança a paz duradoura.  Ó filho de  Kunti, declare isto ousadamente,
que Meu devoto jamais se perde e perece”.

Nesses dois versos os limites do bhakti para alcançar a salvação são


expressados com muito sentimento pelo conhecedor do amor, Sri Krishna.
Krishna diz aqui que o pecador (suduracaro) que adora a Ele
exclusivamente (ananya-bhakti) é definitivamente um santo (sadhu eva)
ainda que tenha um mal comportamento, devido a que têm submissão
(viavaseto) para o serviço e adoração a Krishna. A palavra mantavyah "ele
deve ser considerado como um Santo" está na forma de um comando para
enfatizar.
Sem dizer mais nada,  se tem a noção de que o bhakti ainda num estágio
imaturo de prática, é, em certo sentido, uma antinomia (contradição). Os
devotos de Krishna não são atados a uma obrigação moral.
Compreensivelmente, estes versos foram explicados de inúmeras maneiras
para qualificar o que Krishna parece estar falando, de modo que não se
pode citá-los para respaldar o mal comportamento em nome de bhakti. No
entanto, ao citar essas explicações, é preciso ter cuidado para não diminuir
o poder do bhakti, o qual  é o espírito do texto.

Caracteristicamente, Visvanatha Cakravarti Thakura enfatizou o poder de


bhakti em grande parte com o raciocínio de que o devoto, devido a sua
devoção, deve ser considerado como estando situado acima da lei. Em uma
explicação tão generosa, o que é enfatizado é o ideal do devoto  — o que
ele se tornará  — ao contrário de julgá-lo por sua condição presente, que
dizer de seu passado. A "svarupa laksana" (característica principal) na
forma de seu ideal devocional  anula o "tatastah laksana" (a característica
marginal) do devoto que  se manifesta como um mal comportamento.
Aqui, a explicação de 'ananya-bhakti' de Visvanatha Cakravarti é tal que
afasta a aparente contradição. Se um devoto é ananya bhakti, o que
significa não estar desviado na vida devocional pura, então  'sudacaro' o
(caminho do mal comportamento) o contradiz de alguma forma. Como uma
pessoa poderia ser um bhakta exclusivo como por exemplo:  'bhajate mam
ananya bhak' e 'anayas citayanto mam', encontrado nos versos 13 e 22,
respectivamente, e ter, ao mesmo tempo, um mal comportamento? Assim
sendo, Visvanatha Cakravarti Thakura explica 'ananya bhak' apenas como
devoção exclusiva a Krishna  e não a nenhum outro deus ou deusa.
As palavras 'ksipram bhavati dharmatma' no verso 31 são entendidas por
Visvanatha Cakravarti, devido ao fato de estarem no tempo presente, para
indicar um imediato ou contínuo logro do status da virtude. Assim, a
pessoa que não deseja servir a nenhum outro além de Krishna, mesmo que
ele tenha um mal comportamento, deve ser considerado santo. Com
respeito à mancha resultante de seu mal comportamento, ele é
imediatamente rectificado devido a seu  arrependimento e contínua
determinação. Arjuna é comandado em anunciar isso ousadamente e, ao
fazê-lo, as pessoas verão o próprio Arjuna como digno de louvor. Aquele
que pensa de maneira diferente está condenando a si mesmo, tendo
ignorado a ordem de Krishna, a qual é um mandato escritural.

Srila Visvanatha Cakravarti Thakura disse que uma pessoa deveria


concordar com a afirmação feita acima com a  condição de que o devoto
em questão se torne verdadeiramente virtuoso, (bhavati dharmatma),
abandonando seu o mal comportamento.  Pensando nisso, Krishna diz:
'kaunteya pratijanihi na me bhakta pranasyati': "Oh filho de Kunti, declare
isso ousadamente: que Meu devoto nunca perece!" Então, mesmo que o
devoto não se retifique ele mesmo, ainda assim ele é considerado uma
pessoa santa. Krishna ordena a Arjuna declarar esse fato publicamente por
que a promessa do devoto nunca será quebrada, pois Krishna olha para isso
mais do que está preocupado com a manutenção de Suas próprias
promessas.

Seguindo o comentário de Sridhara Swami,  Srila Visvanatha Cakravarti


Thakura diz que o espírito aqui é que Krishna  ordena a Arjuna a declarar
isso de uma forma aberta. O resultado é que todas as pessoas vão adorar a
Arjuna por isso.
Apesar de que  podemos notar que os comentários de Srila Visvanatha
Cakravarti Thakur   são de alguma forma liberais, também se pode notar
que quando os  devotos tem um mal comportamento eles mostram uma
verdadeira atitude de remorso ainda que eles não possam abandonar esse
mal comportamento, eles continuamente se  condenam a  eles  mesmos.
Então vemos que Srila Visvanatha Cakravarti Thakur não dá permissão
para ter um mal comportamento em nome da devoção.
Em seu Bhakti-sandarbha, Jiva Goswami diz que os versos são uma
tentativa de incutir uma fé inicial no bhakti exclusivo, o qual ao ser obtido
se evolui para uma fé profunda, fé nas descrições das escrituras a respeito
das práticas apropriadas do bhakti. Não existe também carência de
afirmações escriturais que condenam os maus comportamentos de todos os
tipos. Jiva Goswami diz que pensar que 'os devotos são absolvidos no mal
comportamento,  é a opinião de pessoas que não tem uma educação
escritural" . Para Jiva Goswami a palavra "api cet" no verso 30  significa
"apesar de", indicando que o mal comportamento na conduta do devoto é
de fato uma mancha.

'Api cet' pode ser entendido como “ainda que" implicando que o verso 30
fala apenas em um caso hipotético no qual um devoto realiza algo que para
um annaya bhakta não  é possível. Indesviáveis (annanya) devotos
(bhakta), os devotos desse calibre não se desviam. Se semelhantes devotos
exibem esse 'impossível' mal comportamento  pode ser um arranjo de
Krishna para seu próprio propósito. Krishna pode fazer que um devoto  que
é quase  perfeito caia. Depois do qual, o mesmo devoto se levanta usando a
humildade suficiente para alcançar o estágio perfeito da devoção.

Ainda que um devoto faça uma coisa imprópria no processo devocional


como por exemplo enganar a outro para envolvê-lo no serviço a Krishna,
ele deve ser considerado um santo. Se esse devoto vem de uma experiência
de vida de mal comportamento, isso poderá trazer consequências  na sua
nova vida devocional. Por isso ele não deveria ser condenado, ao contrário,
deveria ser considerado santo.
A terceira bela explicação é encontrada nos escritos de Kerdanatha
Bhaktivinoda Thakur. A harmonia mais elevada dessa interpretação
aparece nos escritos de Srila Jiva Goswami em seu Bhakti-sandarbha. Na
exposição de Jiva Goswami  dele sobre raganuga-bhakti (o sagrado amor
apaixonado) ele cita o verso 30 para dar suporte à ideia que os devotos no
caminho de raganuga-bhakti estão absolvidos ou isentos de seguir os
códigos de religião detalhados do dharma sastra. Ordinariamente, a
violação desses códigos é considerada como irreligião, entretanto por que
os devotos estão sob a jurisdição do bhakti ou a suprema expressão do
dharma (prema dharma), ele não necessita  estar preocupado com esses
mandatos religiosos menos elevados. De fato essa é a conclusão do Gita,
onde Krishna implora à Arjuna a esquecer-se todo dharma e se render a Ele
para alcançar o prema.

Srila Bhaktivinoda Thakur vê uma aparente contradição entre o uso das


palavras 'annanya bhak' e 'sudaracar'. Dessa forma, ele explica  ananya
bhakti em termos de seu significado encontrado no verso 13. Indicando não
somente a adoração a Krishna e não a outro Deus, mas aquele que adora a
Krishna com o mais alto standard de devoção — um devoto exclusivo.
Como poderia um devoto exclusivo ter mal comportamento? ele também
encontra uma aparente contradição na ideia que os devotos exclusivos
depois de ter um mal comportamento, se tornaram virtuosos (dharmatma).
Isso significa que desde o plano da devoção exclusiva, tendo caído, ele se
restabelece no plano da religião a qual descansa entre o  mal
comportamento e devoção exclusiva.

Srila Bhaktivinoda Thakur harmoniza tudo em relação aos pontos em


questão  aplicando esses versos nas gopis de Krishna as quais são annanya
bhaktas, podendo dizer que  elas estão aparentemente tendo mal
comportamento em termos de violar os códigos sócio-religiosos. Elas vão a
Krishna seguindo seus corações desolados pelo som da flauta de Krishna.
Fazendo isso, elas violam os mandatos religiosos no que é dito respeito a
esses sentimentos de fidelidade. Apesar que elas sejam ananya bhaktas ao
extremo, segundo a religião mundana a qual não entende o significado de
Krishna,elas estariam se  comportando de uma forma errada.
Como então as gopis se tornam religiosamente reformadas? Sabendo que
não tem exemplos disso, nem haverá algum apropriado. Srila Bhaktivinoda
Thakura diz que não são as gopis que se tornam virtuosas, mas aquele que
proclama a pureza das gopis de um 'aparente mal comportamento',
esquecendo o dharma sastra, em busca do amor sagrado e apaixonado, essa
pessoa imediatamente se torna virtuosa por falar a respeito dessa assim
chamada violação. E por glorificar para todo mundo esse 'aparente mau
comportamento' ele alcança a salvação (sasvac santim nigacchati) .
“Aquele (que declara ousadamente que meu devoto exclusivo nunca cai)
rapidamente se torna virtuoso, e alcança a paz última".
FIM DO ARTIGO
81. GAUDIYA VEDANTA E SAGUNA BRAHMAN

No Advaita Vedanta não se pode dizer que a jiva liberada não tem
autoridade sobre a criação enquanto que Brahman tem, a menos que se
esteja falando a respeito de jivanmukta como contrária a uma pessoa que
tenha alcançado videha mukti. A jivanmukta permanece neste mundo até o
momento que seu prarabdha karma termina. Sua posição não é a mesma
daquele que alcançou videha mukti. Videha mukti é a realização final, está
além do estágio corporificado de jivanmukta. No videha mukti o prarabdha
karma do jñani finaliza, assim sendo, seu corpo também.
De acordo com o Advaita Vedanta, o jñani é apenas uma 'jiva liberada' na
fase de jivanmukta. Em videha mukti ele não é nenhum tipo de jiva,
liberada ou não, pois a opção de mukti na Advaita Vedanta não permite
nenhuma jiva. O comentário atribuído a Sankaracarya só pode se referir à
jivanmukta e, portanto, sua posição não está de acordo com qualquer escola
do Vaisnavismo.

A jivatma como saguna-Brahman

No Bhagavad-gita diz que a jiva é condicionada pelas gunas mas não está
dizendo que a jiva é Brahman a qual se torna saguna. A jiva é qualificada
como purusa enquanto o Brahman, não. O Brahman não está sob o
condicionamento da influência das gunas. Além de tudo, a jiva tem
também sido descrita como prakriti no verso 7.5: "prakriti vidhi me param
jiva bhuta...". A jiva é paraprakriti de Krsna, Sua shiva shakti.
No famoso texto do Upanisad se diz: "Sarvam kalav kaloh idam Brahman",
significa que todas as coisas são Brahman. É notável que "tudo" não
deveria ser interpretado dessa forma como na interpretação de
Sankaracarya a respeito deste aforismo. Em outras palavras, o mundo
existe, não é meramente mithya (falso), uma superimposição no Brahman.
É uma das shaktis de Deus e nesse sentido é também Brahman, como Sua
shakti é uma com ele mas é simultaneamente diferente. Nesse sentido o
mundo é também Brahman, saguna Brahman. Mas isso não diz nada a
respeito de Deus mesmo, ou avatara, sendo saguna Brahman nos termos
da interpretação de Sankara. Também não está falando da jiva como sendo
saguna em oposição a nirguna.
Deveria ser notado em tudo isso que Deus pode ser referido também como
saguna (aquele que tem qualidades), mas não no sentido que Ele tem
qualidades materiais constituídas de sattva, pois isto, em última análise,
não existe. O mesmo se aplica às jivas. Como pode a jiva ter qualidades
materiais? Ela pode estar cercada por qualidades materiais e ser
influenciada pelas gunas materiais mas ela mesma não pode ser constituída
por qualidades materiais.

Jñani como mukta


O corpo em si mesmo é prarabdha karma. É possível ser liberado dentro
dele, mas o prarabdha karma ainda deve se manifestar. No estágio de
jivanmukta, o jñani é liberado enquanto ainda está no corpo, então, ele
testemunha o prarabdha mas não é afetado por ele. Ele é livre, mas o corpo
é o prarabdha karma que permanece nele até a morte. Existe uma diferença
entre jivanmukta e videha mukta. Quando o prarabdha é finalizado, então o
corpo que é feito dele também o é. Baladeva Vidyabhusana discute isso de
alguma forma em seu Govinda Bhasya.

Não é que a jiva em um momento é era para prakriti e em outro momento


deixa de ser. A jivatma sempre é paraprakriti, constituída da jiva shakti do
Senhor Krsna. Todas as shaktis são prakriti. "Jivabhuta" refere-se à essa
jiva shakti. De uma forma singular, Krsna se refere a uma classe inteira de
almas individuais. Também podemos ver no Bhagavad-gita 15.7:
"mamaivamso jiva-loke jiva-bhutah sanatanah" "as entidades vivas deste
mundo são Minhas eternas partes fragmentadas".
O Visnu Purana diz:

visnu-saktih para prokta ksetra jña khya tatha para


avidya-karma-samjñanya trtiya saktir isyate

"Visnu possui Sua potência interna superior assim como Sua potência
chamada de ksetra jñan shakti.”
Esse ksetra jña shakti também é potência espiritual, mas algumas vezes é
coberta pela terceira potência material chamada ignorância. Sendo assim,
devido a esses estágios de cobertura, o segundo, ou a potência marginal
(jiva shakti) é manifestado em fases evolucionárias diferentes.

Saguna Brahman a respeito de Deus e da jiva

Os Vaisnavas normalmente não chamam Krsna de saguna Brahman, mas


quando eles o fazem, isso não significa que Deus tenha qualidades
materiais, mas ao contrário, qualidades espirituais. A jiva é uma entidade
eterna de consciência e a pluralidade de almas nesse mundo não é
meramente o resultado do Brahman sendo influenciado pela natureza
material.
De acordo com o Gaudiya Vedanta o mundo é a transformação da shakti
(maya shakti) do Brahman interagindo com outra shakti do Brahman (jiva
shakti). Previamente foi citada a evidência do Padma Purana a respeito da
shakti de Deus em relação ao entendimento Gaudiya do Gita (jiva butha
maha baho yayedam dharyate jagat). Apesar disso e de milhares de
declarações a respeito da natureza da jiva aludidas na literatura Gaudiya,
sua base védica da sakti parinam vada como em oposição à vivartha vada
de Sankaracarya, apesar disso, uma pessoa pode continuar querendo pensar
que os ensinamentos de Mahaprabhu apoiam a ideia que a jiva na verdade é
Brahman em todo sentido, o Brahman sob a influência da natureza material
aparecendo como muitas almas.
Mas Mahaprabhu ensinou que a jiva e a natureza material são Brahman no
sentido que elas são saktis de Brahman e, por isso, são unas com o
Brahman e diferentes dele simultaneamente (acintya bedhabedha).
Na filosofia do Advaita Vedanta, se conclui que as conclusões não são
iguais às conclusões dos seguidores de Mahaprabhu. Sugere-se que se leia
o Tattva Sandharba se uma pessoa está realmente interessada em entender o
Vedanta dos seguidores de Mahaprabhu, e que também leia os comentários
do Gita. De acordo com os comentários vaisnavas, o Gita fala (começando
com o 2.12) sobre uma pluralidade de almas eternas:
"Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos
esses reis, nem no futuro ninguém deixará de existir".
De acordo com os comentários vaisnavas, os versos do Gita parecem falar
de uma singular classe de almas. Não apenas os Gaudiya Vaisnavas, mas
todos os vaisnavas entendem que as escrituras estão falando de uma eterna
pluralidade das almas, as quais individualmente não são meramente um
produto da associação com a natureza material. Se uma pessoa lê os
comentários do Gita de Madva, Ramanuja e outros, verá que suas opiniões
a respeito do Gita são diferentes daquelas dos seguidores de Mahaprabhu e
de todos os outros Vaisnavas Acaryas.
FIM DO ARTIGO
82. APRAKRITA SIDDHI E ACINTYA SAKTI
“Acintya kahlo je bhavah na tamas tarkyana jo jayet prakriti byaha param
yat tyatat acyntasia laksana”
“Aquilo que é transcendental à natureza material é certamente inconcebível
e, portanto, não pode ser compreendido através da argumentação. Uma vez
que a argumentação não pode tocar o aspecto transcendental, uma pessoa
não deveria tentar entender os aspectos transcendentais através disto.”
(Mahabharata Bhisma Parva 5.22)
Tanto os estudiosos, como os acaryas de outras sampradayas concluíram
que o termo usado por Ramanujacarya “aprtaki siddhi” (inseparabilidade),
ao tentar explicar de uma forma lógica a relação entre o Brahma e o
mundo/jivas, não faz isso para a satisfação de todos os envolvidos, e que os
gaudiya vedanta sentem que seu conceito de acintya shakti (poder
inconcebível) aborda de uma melhor forma essa relação, pois os Gaudiya
Vaisnavas veem o mundo e as jivas como sendo shaktis de Brahman que
são unas e diferentes dele. Ao invés de atributos do Brahman, eles não
concordam que a relação entre o mundo/jivas e o Brahman possa ser
logicamente explicada pelo conceito de inseparabilidade. Na visão Gaudiya
Vaisnava, Brahman e suas shaktis são interpenetráveis, então, o fato de que
Brahman tem sakti não compromete sua não-dualidade devido às
diferenças internas (svagatabheda), como a visão de Ramanuja do absoluto
que é qualificada por seus atributos.
Essa visão dos Gaudiyas está de acordo com o Srimad Bhagavatam, em
que se menciona a natureza não-dual do absoluto (advaya jñana tattva).
Embora os seguidores de Ramanuja tenham explicado essa afirmação do
Bhagavatam de forma diferente, a escola de Ramanujacarya não abraçou o
Bhagavatam tão intimamente como os Gaudiya Vaisnavas, para os quais
essa é a mais alta evidência escritural. De acordo com isso, Srila Jiva
Goswami dedicou uma boa parte de seu Tattva-sandarbha, assim como
também praticamente seu Bhagavata inteiro e Paramatma sandarbas para
justificar o entendimento Gaudiya sobre essa afirmação.
Dessa forma, enquanto o conceito de Ramanuja de inseparabilidade pode
parecer inteiramente lógico para seus seguidores, ao invés de satisfazer aos
Gaudiya vaisnavas, para ele isso é mais como uma tentativa de explicar
logicamente o que eles percebem como a identidade e a diferença
simultâneas do Absoluto com suas saktis – o que é, de fato, inconcebível.
De fato, o próprio Ramanujacarya afirma que o mundo não pode ser
absolutamente 'um' ou absolutamente diferente de Deus (Bs. Comentário
2.1.14, 2.1.22) e também defende uma forma de identidade na diferença
(Bs. Comentário 2.3.42). Entretanto, ele critica as relações de identidade e
diferença e identidade na diferença como inadequadas para chegar à
conclusão de sua noção de inseparabilidade.
Desse modo, parece que ele está a resolver de forma lógica a identidade-e-
diferença e identidade-em-diferença do Absoluto. Consequentemente os
Gaudiya Vaisnavas sentem que, quando Ramanuja fala de inseparabilidade,
ele está realmente apontando para algo que é inconcebível e de fato
renuncia a própria lógica quando invoca o conceito de inseparabilidade,
como os eruditos Datta e Chattergee, na introdução da filosofia indiana,
afirmam: “Isso (o conceito de inseparabilidade de Ramanuja) é
simplesmente desistir do jogo da compreensão lógica”. Por isso, não
pretendemos dizer que Ramanuja é ilógico, mas ao contrário, que, em
realidade, exatamente como identidade e diferença no Brahman se dão não
é um conceito possível de ser explicado dentro dos limites da lógica.
Sri Jiva Goswami estava bem familiarizado com todo o sistema da
Ramanuja Vedanta, mesmo assim, viu a necessidade de postular a doutrina
do acintya bhedabheda baseada no Srimad Bhagavatam, respeitando
profundamente a visão e a devoção de Sri Ramanuja. Não é uma crítica a
Ramanuja, mas outro ângulo de visão.
Será aqui explicado brevemente a posição Gaudiya Vaisnava e como Sri
Jiva Goswami chegou a isto depois de examinar minuciosamente as escolas
de Sankara Acarya e de Sri Ramanuja em particular. Por fazê-lo, também
brevemente será explicada a lógica do conceito Gaudiya de acintya, o qual
é fortemente ilógico, mas não é insustentável para as escrituras. De fato, o
tratado sêxtuplo de Sri Jiva Goswami no qual ele explica a sua doutrina
com um belo significado e suporte das escrituras, nunca encontrou nenhum
sério desafio desde o dia em que ele completou isso e ofereceu aos pés de
lótus de Sri Caitanya, cuja realidade espiritual é explicada com grande
detalhe.
Um estudo cuidadoso do Sat sandarbha de Sri Jiva Goswami revela que
ele estava completamente ciente dos argumentos de Sankara e de
Ramanuja, mas não inteiramente satisfeito com suas explicações sobre por
que a consciência é a última realidade inegável (no caso de Sankara) e por
que o mundo objetivo e as almas também são reais (no caso de Ramanuja),
mesmo aceitando ambos os conhecimentos. Srila Jiva Goswami sentiu que
ali havia algo essencial na consciência que não havia sido direcionado por
esses acaryas que ofereciam visões mais convincentes e confirmou ainda
mais suas realizações. Afinal, o raciocínio citado por Sankara e Ramanuja,
apoiando suas posições nestes pontos, não nos diz muito a respeito da
natureza da consciência em termos de uma satisfação positiva.

Sankara nos diz que a realidade é consciência porque é aquilo que não se
pode negar, já que a própria negação requer consciência. Sankara postula
uma realidade puramente subjetiva, que nega o mundo objetivo, pois todas
as manifestações materiais podem ser negadas no sentido em que elas não
permanecem.
Então ele nega o mundo objetivo. Ramanuja, no entanto, insiste que a
consciência requer um objeto que é consciente de que tem algum
significado real. Isso também requer uma entidade consciente. Tudo o que
é revelado pela consciência ou dentro da consciência é real. Portanto,
Ramanuja reconhece que a realidade é uma unidade de consciência que
inclui o mundo e as almas (jivas), a qual ele considera atributos do
Brahman (a substância).

Enquanto Sri Jiva Goswami não nega essas explicações, ele aceita o que ele
considerou a melhor entre ambas, na sua busca por algo mais convincente a
respeito da essência da consciência. Ao perseguir sua própria investigação
dentro da natureza do ser, Sri Jiva Goswami se viu inspirado a descobrir
exatamente o que é a natureza fundamental da consciência. Podemos citar o
Svatesvatara Upanisad 6.8 para justificar ou clarificar este ponto: parasya
shaktIr vi daiva sruyate. Em uma palavra é “sakti”, e é sobre essa palavra
que a sua visão de mundo inteiro paira. A doutrina de Jiva Goswami de
acintya bedha bedha está baseada na ideia de que para que algo exista é
necessário que tenha poder. “O ser existe”, é uma tautologia que todos,
apesar de tudo, podem aceitar. O poder pelo qual o ser existe e se expressa
é uno com ele e diferente dele ao mesmo tempo.
A realidade é estática e dinâmica ao mesmo tempo (igual e diferente). É
estática no sentido de que ainda é. Não tem um propósito para realizar, não
tem necessidade, então, não precisa se mover. No entanto, é ao mesmo
tempo dinâmica, então se move. É dinâmica no sentido de que se expressa
em sua plenitude. Não se expressa em busca da satisfação, mas na
celebração da sua plenitude. Assim, seu dinamismo é um fato necessário da
sua natureza estática.
Na visão de Sri Jiva Goswami, o Absoluto é unidade, uma unidade de
amor, que é quietude e movimento ao mesmo tempo. Na busca do amor
ninguém descansa até que o amor seja encontrado, mas, uma vez que se
encontra o amor, esse mesmo amor se define em um movimento próprio. O
absoluto se move e não se move, está perto e longe ao mesmo tempo, “tad
dure tad vantike” (Isopanisad 5). Isso é a consciência não dual e, na
realização de Sri Jiva Goswami, a consciência dessa consciência é o amor.
Existe sem propósito, na medida em que o amor não conhece razão. Não
existe razão para a rima no mundo. A realidade existe para o prazer de si
mesma, e é por alegria, por amor que Ele se torna muitos e o mundo
emerge: “lokavat tu lila kaivalyam”.
Por ser tratar de alegria (ananda), isso não apenas existe (sat), mas
também é cognitivo (cit) — sat, cit, ananda. Disso, a realidade das jivas e
do mundo segue. Eles constituem as potências intermediárias e secundárias
do absoluto, respectivamente.
Dessa maneira, na visão de Jiva Goswami, entender a satisfação positiva do
Brahman/consciência reside em conhecer Brahman como uma unidade de
amor entre si mesmo e Seu poder. Isso o que ele sente, nos diz mais sobre a
consciência, do que simplesmente afirmar que isto existe porque isso não
pode ser negado, ou que se deve incluir um objeto que seja consciente para
que ele tenha algum significado. Então, para Sri Jiva Goswami a ideia de
que o Brahman é uma unidade de amor entre ele mesmo e seu poder, que
causa a expressão dele mesmo na lila ou nos jogos divinos nos oferece uma
visão mais convincente sobre o porquê ele existe, assim como porque inclui
dentro de si o mundo e as jivas. Tudo o que existe deve fazer ou causar
algo. O Brahman existe por que é uma unidade de amor, em amor consigo
mesmo. Inclui o mundo e as jivas, pois eles constituem expressões deste
amor e os dois, Brahman e as jivas, porque constituem expressões deste
amos, e os dois, Brahman e seu poder pelo qual se expressa, são iguais e
diferentes simultaneamente, assim como uma pessoa e seu poder são ambos
iguais e diferentes ao mesmo tempo.
Se o poder do absoluto é diferente disso, isso comprometeria a não-
dualidade do absoluto. Se o poder não é diferente dele, que necessidade
existe em chamar alguma coisa semelhante como “poder” e, assim,
distingui-lo? Sri Jiva Goswami responde que porque é impossível de
conceber (acintya) o poder do absoluto como diferente dele. Nós
chamamos ao absoluto “um" (abedha) por que é igualmente impossível
conceber o poder do absoluto como idêntico a ele, o chamamos de
“diferente” (bedha). Brahman é seu poder e não é seu poder. Os dois são
então interpenetráveis e não inteiramente distintos, como são os atributos
de sua substância, apesar de sua inseparabilidade.
O Brahman não é nem absolutamente uno nem absolutamente diferente das
shakis. Se o Brahman fosse absolutamente um com as jivas e com o
mundo, suas faltas seriam as do Brahman. Se fosse totalmente diferente das
jivas e do mundo, isso constituiria dualismo, contradizendo o suporte das
escrituras da descrição da não dualidade do Brahman. A medida que Sri
Jiva Goswami explica com lógica e suporte escritural a identidade e a
diferença simultânea do Brahman com suas shaktis, ele ressalta que saber
que a identidade e a diferença coexistem no mesmo objeto não explica
como isso acontece. O argumento lógico impede essa presença simultânea
no mesmo objeto. A inconcebível relação entre bheda e abheda de
Brahman é evidente pela contradição que envolve.
Assim, o acintya do Gaudiya não é uma noção lógica que busca acabar
com uma lógica apoiada pela escritura. É primordial ter um ângulo
diferente de visão quando o assunto está relacionado à revelação do
absoluto.
No trabalho de Sri Jiva Goswami do Sat sandarbha, se releva a importância
do Srimad Bhagavatam na medida em que coloca em questão a necessidade
de muitos comentários do Brahma sutra que vieram depois deste Maha
purana. Citando o Garuda Purana, Jiva Goswami estabelece o Bhagavata
Purana como o mais perfeito comentário dos Brahma sutras – arthoyam
brahma sutranam – uma referência escrita pelo autor dos sutras.
Neste texto, central para a doutrina Gaudiya, e abraçada com mais calor
pelos Gaudiyas do que por outra linhagem, encontramos ampla evidência
da doutrina acintya bedha bedha. De fato, Vyasa mesmo nos diz no texto
de seu próprio samadhi de onde nasce o acintya bedha bedha e o Srimad
Bhagavatam. Realmente precisamos de alguém para nos dizer o que Vyasa
está dizendo em seus sutras, especialmente quando tal explicação ignora o
Srimad Bhagavatam por completo? Talvez não precisamos, ainda assim, os
Gaudiya Vaisnavas respeitam aqueles que oferecem suas próprias
explicações. No entanto, aqueles que afirmam representar tais acaryas, mas
desrespeitam o vedanta, não representam bem seus acaryas.
Os verdadeiros Gaudiyas não fazem parte dos séculos de luta entre as
diferentes seitas do Vaisnava Vedanta. De fato, nosso acarya Srila
Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur estabeleceu as murtis dos quatro
principais acaryas vaisnavas de Sri Dhama Mayapura. Além disso,
comparativamente falando, os verdadeiros Gaudiya Vaisnavas não fazem
um ataque tão severo de oposição ao Sankara acarya como fazem outros
vaisnavas.
Os Gaudiyas Vaisnavas mantém Ramanuja em uma alta posição. A escola
vaisnava tem produzido santos genuínos, isso é uma evidência completa da
validade espiritual de suas diferentes explicações de sua experiência.
Apesar do fato dos Gaudiya Vaisnavas sentirem que suas explicações são
melhores, isso não necessariamente é uma afronta a Sri Pada Ramanuja e a
comunidade de seus devotos. Vivemos em tempos religiosamente plurais.

FIM DO ARTIGO
83. BALA KRISHNA, O FILHO SUPREMO
Enquanto o cristianismo coloca ênfase em Deus como pai, o qual é
alcançável através de seu filho, o hinduísmo fala, além disso, de outras
relações que a alma pode ter com Deus. Em contraste com a concepção de
Deus como pai, muitos devotos de Krsna concebem Ele, O Senhor
Supremo, como Seu filho.
O amor do filho e da filha para seus pais é, geralmente, menos intenso do
que o amor dos pais para seus filhos. Pelo menos por algum tempo, as
crianças não sabem o que é o amor ou a forma como expressá-lo de forma
madura, mas a mãe ama seu filho apesar da rejeição do filho para uma
autoridade de parentesco. Qualquer mãe sabe que o amor é sobre sacrifício,
enquanto as crianças, muitas vezes, pensam que se trata de receber, em vez
de dar. Os devotos que concebem a Krsna como Seu filho, experimentam
uma grande intensidade e intimidade do amor de Deus, mais do que
devotos que concebem Ele como o Pai Supremo.
A principal devota de Krsna, que serve de modelo a outras que desejam
amar a Krsna como Seu filho, é a mãe Yasoda. Ela é descrita nos puranas e
sua realidade extática (bhava) é articulada, em particular, no Bhagavata
Purana.
Segundo esse Purana, Vallabha Acarya, contemporâneo de Sri Caitanya,
contribuiu muito para o mundo em termos de religião, articulando um
caminho espiritual do amor de Bala (bebê) Krsna. Vallabha Acarya chamou
esse caminho de pusty marg, o caminho da nutrição, o qual, embebido em
um sentimento espiritual de amor parental para Deus, é o ideal
proeminente.
Bala Krsna não é um filho obediente. Ele é mal comportado. Bala Krsna é
um ladrão, o qual rouba manteiga de seus vizinhos da comunidade pastoril
e distribui isso para os macacos. A manteiga e outros produtos lácteos são o
sustento dos pastores de vacas, e mesmo com eles vendo sua fortuna sendo
desperdiçada pelo bebê, Krsna é a Sua fortuna interna de amor espiritual.
Toda essa má ação é feita de forma descarada, mas Krsna não erra para
aqueles que têm os olhos do amor. Semelhantes olhos não são cegos,
entretanto, para o Deus ladrão isso é apenas uma brincadeira, uma vez que
todas as coisas pertencem a Ele.
A lila de Bala Krsna ocorre em um local do reino espiritual conhecido
como Gokula, um local transcendental de pastoreio. As queixas dos
vizinhos devotos a respeito Dele são uma oportunidade para servi-lo,
falando a respeito Dele, uma atividade que é a própria vida de Seus
devotos. Enquanto os vizinhos devotados com amor parental reclamam a
respeito de Krsna, mãe Yasoda responde, como fazendo com que essa falta
que se eles encontram em Krishna se torne uma glorificação a Krishna.
"Seu filho solta nossas vacas!”, “Ele não está ajudando você em seus
deveres?”, “Mas, madame, ele faz isso sem motivo.” “Então por que você
não repreende Ele?”, “Mas se fazemos isso, Ele simplesmente ri.” “Então,
por que você não dá para Ele um pouco de leite?”, “Por que Ele come
apenas as coisas roubadas.” “Isso é ridículo! Coloque leite fora de seu
alcance.” “Ele faz um furo no pote à distância.” “Como ele poderia saber
que o leite estava dentro do pote?”, “Ele é especialista em conhecer o
interior das coisas.” “Coloque Ele em um canto escuro de sua casa.” “Seu
corpo refulgente ilumina tudo.” “O que você diz é inacreditável.".
Não há dúvidas, Deus é não-nascido, ainda que Ele aceite o nascimento.
Isso é de fato um mistério que só pode ser revelado pela chave do amor
desinteressado.

FIM DO ARTIGO
84. DO PRETO E BRANCO AOS TONS DE CINZA

Pensar em uma mulher no momento da morte não necessariamente


significa que a pessoa irá tomar um nascimento como uma mulher em sua
próxima vida. Semelhante explicação sofre do defeito de ser muito
exagerada. A ideia que uma pessoa irá receber um nascimento baseado em
seus pensamentos no momento da morte é mencionado no Bhagavad-gita.
Entretanto, por um olhar mais criterioso está claro que Krsna está falando a
respeito de um estado de consciência que uma pessoa tem no momento da
morte. Além de simplesmente um pensamento que passa na mente, como a
causa determinante para o tipo de corpo que a pessoa aceita em sua
próxima vida.
O sábio Agnidhra era espiritualmente avançado e mesmo que ele tenha se
degradado na associação de uma mulher, sua atração por ela não eliminou a
espiritualidade que ele havia alcançado previamente. Ele foi uma pessoa
extraordinária, ainda que aparentemente tenha se tornado um homem muito
apegado a uma mulher.
Além do mais, não é mencionado que ele pensou na mulher no momento
da morte. Mas ele pensava nela dia após dia. “Evanudinam adhi-
manyamanas tasyah”.
A preocupação mental diária tem muito a ver com o que a pessoa vai
pensar no momento da morte. Assim, é possível que ele tenha pensado nela
nesse momento, mas se foi isso realmente o que aconteceu, ou exatamente
em que forma ele poderia ter pensado a respeito dela, nós não podemos
dizer.

Divya Yuga
A divya yuga consiste em 4.300.000 anos. As palavras varsa-ayuta sahasra
usadas descrevem a vida de Bharati relacionada à prosperidade material.
Geralmente significa 10.000.000 e pode ser interpretada como uma
liberdade poética para “um longo, longo tempo”. Não devemos nos
preocupar demais com exatidão literal das datas e números quando
estudamos o Srimad Bhagavatam.

Todas as coisas nas escrituras não devem ser tomadas ou aceitas


literalmente, entretanto o Krsna lila é uma realidade ontológica. Sua
compleição é Syama e Ele é o levantador da colina de Govardhana. Mesmo
assim existem três níveis de compreensão escritural e eles podem ser
aplicados à Krsna lila assim como a totalidade das escrituras: Literal (de
acordo com o significado literal), conotativo (conteúdo filosófico implícito)
e interpretativo (rasika).
Há um valor considerável em enfatizar uma abordagem literal no começo
por que isso pode ajudar a dar ao estudante algo a que ele se possa agarrar e
através da prática correspondente pode ganhar experiência. Sem essa
experiência, em nome de procurar um significado profundo, a pessoa pode
perder o ponto de vista da realidade esotérica apresentada na escritura.
O ponto é que Krsna é o coração do Absoluto e é repleto de forma,
qualidades e passatempos transcendentais (lila). A realidade é uma pessoa.
Quando a pessoa se torna um devoto experimentado em termos de vida
interna, ele pode desenhar uma visão filosófica implícita de narrativas da
lila de Krsna e aplicar isso em sua prática. Quando se lê o Damodara lila, o
devoto pode entender que entre todas as outras coisas, a implicação
filosófica da corda de mãe Yasoda que é duas polegadas menor em seu
esforço de amarrar a Krishna, é que Sua forma é ilimitada mesmo que
pareça ser de um tamanho particular. Nós aprendemos que o absoluto está
em todas partes e simultaneamente em um local. Em outras palavras essa
lila demonstra a metafísica de acintya bhedabheda que por sua vez,
quando é estudada cuidadosamente, oferece um terreno razoável para a
necessidade do Krishna lila, ao contrário de Advaita vada que raciocina
contra a realidade eterna do Krsna lila.
Através desse tipo de leitura conotativa da escritura, o devoto começa a
encontrar seu caminho dentro da tela em que a arte de Krsna lila está sendo
desenhada. Ele pode encontrar lições filosóficas dentro da lila que ele
aprende a aplicar na sua prática espiritual. O devoto que pode ler as
escrituras dessa forma realiza que a Krsna lila é cheia de sabedoria que é
integral à experiência de entrar nos passatempos repletos de amor de
Krishna. Estes passatempos não são meramente histórias. Eles são
realidade, e estão cheios de sabedoria capazes de desmantelar o império de
nossa mente.

Estes passatempos não são o que eles aparentam à primeira vista, nem o
que os devotos neófitos pensam deles enquanto eles tentam convencer os
outros de sua existência factual. Tais neófitos não estão errados em tentar
compartir seu entendimento, mas estão errados em pensar que seu
entendimento é completo. Eles necessitam se associar com devotos
avançados os quais são espertos em dar os significados filosóficos das
narrativas e explicá-las de tal forma que os neófitos podem progressar sob
sua tutela.
É importante - para os neófitos - avançar de um entendimento literal do
Krsna lila para um que tenha familiaridade com seus fundamentos
filosóficos e visão prática, destinada a nutrir sua prática. Isso poderia ser
desconcertante para eles porque eles devem se mover do preto e branco
para muitos tons de cinza. A compreensão em preto e branco é valiosa até
certo ponto, mas quando a pessoa se apega a tal compreensão quando é
hora de seguir adiante, muitas vezes se tornará orgulhosa e nessa condição
seu progresso pode ser dificultado ou parado completamente. Por outro
lado, entrar na área cinza de uma leitura conotativa da escritura engendra
humildade em relação à profundidade do assunto. Apesar do borrão do
preto e branco, sua entrada coloca o coração em harmonia com o intelecto,
o qual por sua vez promove um outro tipo de certeza interior, com
crescente humildade. Dessa forma a pessoa se torna fixa para ir longe e, em
certa medida, ajudar os outros.

Na medida que uma pessoa aplica o tattva ou a verdade metafísica


desenhada do Krsna lila para sua própria vida, a pessoa se move em
direção de ser capaz de ler a escritura de uma forma interpretativa. Quando
se alcança este estágio, o coração está simpatizado com a lila. Esse devoto
pode sentir a escritura, ele pode experimentar a lila. Sua interpretação da
lila são as jóias mais valiosas de sua realização e ele compartilha conosco
um vislumbre de seu próprio coração. Tal devoto é muito qualificado para
liderar os demais.
A lila de Krsna é uma realidade ontológica e os Gaudiya Vaisnavas têm
feito um grande esforço para explicar a necessidade filosófica e teológica
para isso. Além do mais, eles têm exibido belamente qualidades espirituais
e levado inegavelmente vidas extáticas como resultado da meditação em
Syamasundara, a beleza negra de Vraja. Sua forma negra (Syama) é a cor
do amor, e Sua beleza e a beleza do Seu lila são a experiência inexplicável
de auto-entrega absoluta, a qual é somente possível quando centrada no
perfeito objeto de amor – Krishna. A possibilidade que descansa na
devidamente centralizada auto entrega –que leva ao auto-esquecimento
absoluto – isso nós chamamos Krsna lila. Somente nessa experiência pode-
se haver uma familiaridade com satyam e shivam regulada por sundaram,
sat-cit- ananda-rupaya.
De fato, a narrativa de Krsna lila é a melhor explicação possível de como a
experiência da auto-entrega absoluta se desempenha, aquela que pode
silenciar o intelecto, especialmente quando é explicada conotativamente ou
por um coração que simpatiza por isso, mesmo se tal devoto explica isso
literalmente.

O intelecto é um mero reflexo de luz que não tem capacidade por si


própria de projetar a luz auto luminosa da alma, o que falar de Krishna, a
grande luz das luzes – purna brahma sanatanam paramanandam – o amigo
dos vaqueirinhos de Vraja encabeçados por Nanda Maharaj.
85. GURU PRANALI E A CORRENTE DA ESPIRITUALIDADE

Manter os votos de celibato


A dieta sattvika é a melhor para o celibato. Comer para viver e não viver
para comer. É preciso evitar alimentos picantes, alhos, cebola, carne, peixes
e ovos. O Bhagavad-gita nos ensina que a dieta sattvik é a melhor para a
vida espiritual em geral. Sattva refere-se à uma qualidade da bondade, a
qual está dito que é a responsável pela iluminação. A dieta sattvica é
vegetariana. Uma pessoa deve evitar todas as espécies de alimentos como
alho e cebola por que diz-se que estes alimentos excitam a paixão (rajas).
Carne, peixes e ovos são produtos de violência desnecessária e considera-se
que eles não são limpos. O mais importante de tudo, é que uma pessoa
deveria comer em gratidão e serviço a Deus.
O controle da língua está diretamente relacionado ao controle das
demandas dos genitais. Sendo assim, para a vida celibatária uma pessoa
deve ser cuidadosa não apenas de aquilo que come, mas também aquilo que
fala. Também se deveria controlar o impulso de querer argumentar para
vencer um argumento. Falar deveria ser apenas em respeito a Deus e para
Deus.
Para manter o voto de celibato é também muito importante manter boas
companhias com os outros os quais tenham uma mentalidade semelhante.
Isso fica mais fácil morando num monastério junto aqueles que têm
abandonado o desejo de vida familiar para mais diretamente buscar o
avanço espiritual. Viver dessa maneira e ter um ideal para uma vida divina,
uma consciência do amor, consciência de Deus e aprender a ver todas as
coisas em relação a Deus. Nessa visão a mulher e homem não são objetos
para o prazer dos sentidos. Os corpos são os locais de residência das almas
individuais e locais para se adorar a Deus.

Sofrimento e misérias no serviço a Krsna

De uma maneira geral bhakti é uma questão de amor. Tolerar o sofrimento


no cultivo da consciência de Deus retira os obstáculos kármicos. Aquela
pessoa que tenha essa visão transforma o sofrimento em felicidade. As
palavras de Bhaktivinoda Thakur (quando ele declara que "os sofrimentos e
misérias que eu suporto no serviço a Krsna são a fonte de minha maior
alegria") podem se referir também ao estado de raga o qual é um
desenvolvimento dentro do prema (não deve ser confundido com o
caminho do raga). No estágio do raga por exemplo, o sofrimento extremo
é experimentado como felicidade se isso traz a união com Krsna. Por
exemplo, no verão quente, quando Sri Radha vai observar a Krsna
cuidando das vacas, sabendo que Ele está do outro lado da colina de
Govardhana. Apesar, de que Seus pés são muito macios, e eles são
perfurados e queimados pelas pedras de Govardhan que são pontudas e
quentes devido ao calor do Sol, Ela não sente sofrimento nenhum. Ao
contrário, Ela sente prazer enquanto sobe a montanha porque Ela tem o
objetivo de chegar ao topo da montanha e observar a Krsna.

Qualificação de Srila Prabhupada Bhaktissidhanta

Srila Prabhupada Bhaktisiddhanta Thakur foi iniciado por Gaura Kisora


Dasa Babaji Maharaj, que era universalmente conhecido como um siddha
mahatma. Ele também foi um associado íntimo do reformador da Gaudiya,
Bhaktivinoda Thakur, seu pai e siksa guru, o qual lhe deu a missão de
pregação.
A especulação de que ele não foi iniciado começou porque ele não
enfatizou sua conexão de diksa guru pranali de Gaura Kisora Dasa Babaji
Maharaj ou Bhaktivinoda Thakur. Ao invés disso, ele enfatizou sua
conexão com Gaura Kisora Dasa Babaji Maharaj através de diksa e com
Bhaktivinoda Thakur através de siksa. E dali ele delineou sua conexão
com a siksa de Jagannatha Das Babaji Maharaj que é o siksa guru de Srila
Bhaktivinoda Thakur. Dessa forma se entende que ele mesmo está
conectado com a linhagem de siddhas (siddhas pranali) relacionado a cada
um, através de diksa e de siksa que estão conectados com Sri Caitanya
Mahaprabhu.
Nessa época havia um número grande de linhagens de diksa que não
tinham muita substância espiritual e que mais faziam um negócio com a
espiritualidade do que propriamente transmiti-la. Através da pregação e
exemplo, Bhaktisiddhanta tentou dissuadir as pessoas de serem intimidadas
pelas linhas discipulares que mesmo que tinham uma conexão com um
associado de Mahaprabhu através de diksa, com o passar do tempo se
tornaram corruptos ou menos vitais espiritualmente.
A Gaudiya Sarasvata Sampradaya veio através de Srila Bhaktivinoda
Thakur para Prabhupada Bhaktisiddhanta e seus discípulos, e aos
discípulos dos seus discípulos, que tiveram a suficiente capacidade para
satisfazer a profecia de Mahaprabhu de que Seu nome será escutado em
cada aldeia e cidade.
Tal poder de distribuição é devido que eles possuem uma capacidade para
poder distribuí-lo. Isso requer Krsna shakti. “Krsna shakti vinamnahe tarar
pravartana”. Qual é a shakti que espalha o sankirtana de Mahaprabhu?
Esse é o Krsna svarupa shakti (samvit e hladini shakti) o qual constitui o
bhakti apropriadamente dito (bhava bhakti). Por distribuir ambos, os nomes
de Krsna e realizadas e relevantes instruções a respeito dos meios para
alcançar a experiência espiritual do nome, Bhaktisiddhanta Sarasvati
Thakura e membros da linhagem têm provido ambos, sua conexão com a
corrente espiritual que está descendo de Caitanya Mahaprabhu assim como
também sua própria substância espiritual.
Ainda assim, nós não devemos sucumbir a ideia de que por conta da linha
de Bhaktisiddhanta ter mostrado tão grande vitalidade espiritual no
passado, não quer dizer que todo guru que venha dela seja qualificado.
Dessa forma, Prabhupada Bhaktisiddhanta nos ensinou que apesar que o
guru esteja em uma linha qualificada, ele ou ela deve ter uma realização
espiritual substancial para dar diksa e uma siksa relevante para apoiar a
diksa.
86. A COR DA ROUPA

A roupa açafrão não é uma roupa vermelha. Isso é para sanyasis tridandis,
os quais são numerosos exemplos em nossa sampradaya. A conexão com a
citação de Sanatana Goswami prabhu que foi citada no Caitanya Caritamrta
revela que ele não está condenando um tipo particular de cor, mas, ao
contrário, a cor do sannyasi mayavadi.
Sanatana Goswami estava vestindo um pano vermelho em sua cabeça com
o propósito de evocar os sentimentos de Jagadananda Pandita. Pandita
pensou que fosse Mahaprabhu. Quando Jagadananda percebeu que
Sanatana Goswami estava vestindo uma cor de mayavadi ele ficou muito
irado e expressou a sua raiva amorosa para a satisfação de Sanatana
Goswami no momento em que ele disse: “Sua cor vermelha não é
apropriada para um vaisnava vestir”. Ele não estava condenando a cor
vermelha em si mesma. Em outras citações se menciona uma referência à
cor vermelha e não açafrão. Algumas então se referem a uma cor real, uma
cor da realeza e ao azul e não a roupa de sannyasi.

A citação: rakta vastra vaisnavera podite na yuyay (Caitanya-caritamrta


3.13.61), e a citação que aparece no Sri Dhyanacandra Gosvami’s
Paddhati, dizendo que o guru é descrito como vestindo roupa branca*
(svetambaram gaura-rucim sanatanam) referem-se à cor vermelha e não
açafrão. Algumas delas se referem às cores primárias vermelho e azul e não
à veste de um sannyasa. Todas essas são citações do Vaisnava Smriti, o
qual está aberto a ajustamentos de acordo com tempo e circunstância. De
fato, muito do Hari-Bhakti-Vilasa não é seguido por muitas linhas do
Gaudiya Vaisnavas nos dias de hoje. A Gaudiya Sarasvati Sampradaya não
é exceção.

De fato, os aderentes mais íntimos à forma do Hari-Bhakti-Vilasa, os


Radha Ramana Goswamis, têm sidos conhecidos por vestir a cor açafrão.
Visvambara Goswami e Purusottama Goswami são exemplos, e eu tenho
visto que ambos usam açafrão. Àqueles que fazem muito caso com a cor da
roupa, acaso condenariam o Tinkrori Baba, um mahanta prévio no Rada-
kunda, por ele não usar branco?

O espírito das injunções a respeito da cor branca é distinguir a sampradaya


dos advaitas. Se existem outras maneiras de se fazer isso também, elas
podem ser adotadas seguindo o espírito das injunções. Essa é ideia da
tridandi sannyasi e à corresponde cor açafrão dentro do daiva-varnasrama
como concebido por Srila Bhaktivinoda Thakur e implementado por
Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur.

A evidência do vaisnava tridandi sannyasa é considerável. Sanatana


Goswami mesmo oferece isso em seu comentário no Brihad-bhagavatamrta
(27.14), no qual ele cita e explica o verso 3.5.39 do Srimad Bhagavatam, e
explica a palavra “yati” no verso do Bhagavatam como uma descrição do
devoto abnegado que toma sannyasi. Exteriormente suas roupas são como
de sannyasis, enquanto na realidade eles são bhaktas.

Nosso inquebrantável diksa parampara envolve dar Guru, Goura e Krsna


Mantras junto com os correspondentes gayatris. Nós também damos
brahma gayatri com a concepção de Vraja bhakti. Para isso, recomenda-se
ler o Brahma gayatri tika de Om Visnupada Bhakti Raksaka Srila Deva
Goswami Maharaj, publicado no seu comentário do Gita. Nós também
aceitamos o Maha Mantra diksa.

Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura Prabhupada recebeu o Maha Mantra de


Bhaktivinoda Thakur e o mantra gayatri diksa de Gaura Kisora Dasa
Babaji Maharaj. Algumas pessoas têm tentado provar que Prabhupada
Bhaktisiddhanta não foi iniciado por Gaura Kisora Dasa Babaji Maharaj,
mas eles próprios admitem que suas evidências não são muito conclusivas.

A evidência da espiritualidade de Prabhupada Bhaktisiddhanta, entretanto,


seria difícil de negar. Ele seguiu os votos de Haridas Thakur do Vraja
patana por quase nove anos antes de que ele começasse sua campanha de
pregação, e sua campanha envolvia satisfazer a profecia de Mahaprabhu.
Ele foi um inovador, e isso envolve sua ênfase em siksa guru e bhagavatha
guru-parampara junto com diksa guru-parampara. A ideia do bhagavatha
guru-parampara é que a maior ênfase é dada para aqueles cuja influência é
maior na linhagem, independente se eles sejam siksa-gurus ao invés de
diksa-gurus.

Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur enfatizou a influência de Jagannatha Das


Babaji Maharaj na vida de Bhaktivinoda e desenhou sua linha de acordo
com isso. Tal como a cor da roupa, aqui estamos falando da substância
sobre a forma.

Como o kama-sutra pode ser espiritual

Na realidade, Krsna utilizou o kama sutra na rasa lila como fez Balarama
em sua rasa krida. A respeito da rasa lila de Balarama, Sanatana Goswami
diz em seu comentário do Vaisnava Tosana: "Por que Ele é Ramaha, Ele é
esperto em casos conjugais e Ele é também o Senhor Supremo, assim como
Ele também é muito esperto em vários tipos de passatempos conjugais
mencionados nos Kama-sutras".
O autor do Kama-sutra foi um discípulo de Gauttama, que era um sábio
muito sóbrio. Os sutras tratam a respeito de como se fazer amor. Krsna
utilizou essa arte sem nenhum desejo material egoísta. Isso é rasa lila, e
essa é a diferença entre a vida espiritual e vida mundana. Entretanto, uma
pessoa não pode permanecer na concepção corporal da vida e experimentar
um aspecto completo de abnegação. E eu penso que muitas pessoas hoje
em dia não compreendem propriamente o kama sutra.
Eu penso que isso poderia ser melhor se o livro fosse colocado na filosofia
ocidental nas seções das livrarias. Mas mesmo se uma pessoa compra este
livro com uma razão equivocada, quando o lerem serão purificadas.

Diferença entre adoração a Yogamaya e Mahamaya

Pessoas geralmente adoram Mahamaya para ganhos materiais, ou, no


melhor dos casos, para liberação, enquanto Yogamaya está envolvida no
Krsna lila. A yoga da ilusão (yoga maya) é diferente da ilusão. Yoga está
derrotando a ilusão. Yogamaya é a ilusão dentro da união yóguica do
bhakti para o propósito da lila.

A destruição depois que Brahma foi dormir e a destruição do fim de


sua vida

A primeira destruilção (aquela que se deu quando Brahma foi dormir) é


parcial e a segunda é completa. No final da vida de Brahma ele alcança
Vaikuntha e o mundo material é destruído e entra de novo a condição na
qual os modos da natureza material perdem a sua dominância. Neste
momento todas as jivas não liberadas entram em um estado conhecido
como sushupti (sono profundo) dentro de Visnu. Pode-se ler mais a
respeito deste tópico na edição de Guru Maharaj (Srila Prabhupada) do
Srimad Bhagavatam onde ele é discutido de modo mais amplo.

Reincarnação e infernos

A ideia de planetas infernais é que eles são ditos como uma espécie de fim
para o mal antes de uma reencarnação. Ali uma pessoa é preparada para
entrar em outro ventre sofrendo condições infernais ainda que tenha que
nascer em espécies mais inferiores.

Mulheres gurus

Existem histórias na nossa linhagem de mulheres gurus. Qualquer um que


esteja qualificado pode ser um guru.
Pulindis no Krishna lila

Os Pulindis não são mencionados na lista de siddhas encontrada no terceiro


capítulo do Ujjvala-nilamani. Seu status social é de sem casta, e
externamente isso os inibe de realizar seu desejo romântico de amor
conjugal e a Radha dasyam que eles aspiram no prakata lila. No entanto,
um desejo puro não pode permanecer insatisfeito. Assim, mesmo que a
posição deles seja externamente a mesma no aprakata lila, a aspiração
deles não pode permanecer insatisfeita.

- Aquelas almas que têm alcançado o svarupa-siddhi e então tomam


nascimento em Krsna lila obtém a associação dos devotos parsada de Krsna
semelhantes a Nanda, Yasoda, Lalita, etc., s quais são as manifestações de
Seu svarupa-shakti. Eles são chamados de ragatmikas, em quem o amor
por Krsna está eternamente estabelecido. Eles não têm uma constituição de
tatastha-shakti.
A perfeição eterna em Vaikuntha loka não requer aceitar um nascimento
em Krsna lila antes de entrar lá. Narada Muni exemplifica isso no
Bhagavatam; ele alcança o svarupa sem a necessidade de tomar nascimento
em Krsna lila. Seu exemplo de sadhana é de vaidi bhakti. Aqueles que vão
a Goloka via raganuga-bhakti do mundo material são muito afortunados.

Discípulos e missão de Srila Prabhupada

Swami Maharaj Prabhupada disse que ele considerava que sua missão seria
um sucesso se apenas um de seus discípulos se tornasse puro. Entretanto,
eu não penso que podemos julgar a sua missão se baseando no status de
seus discípulos somente. Nós deveríamos olhar os seus grandes discípulos.
Além disso, foi ele que trouxe o reconhecimento internacional do Gaudiya
Vaisnavismo. Praticamente qualquer sucesso que a tradição experimentou
internacionalmente está conectada às suas realizações.

Srila Prabhupada e críticas aos seus irmãos espirituais

Historicamente podemos entender que a vinda de Prabhupada ao ocidente


era uma representação da missão de Prabhupada Bhaktisiddhanta que
naquele momento havia se dividido em várias missões. Prabhupada
correspondeu com várias delas. A de
Srila B. P. Kesava Goswami Maharaj, da qual ele recebeu sannyasi diksa e
as de Srila Bhaktivedanta Tirtha Maharaj, o qual tomou o cargo do yoga
pita de Mahaprabhu e considerou sua missão como sendo a verdadeira
instituição de Sarasvati Prabhupada, eram duas em particular. Ele também
se correspondeu com Srila Sridhara Maharaj na ocasião no espírito de
receber conselhos espirituais.

Por algum motivo, Srila Prabhupada não conseguia nenhum tipo de apoio
que estava procurando e em alguns casos ele foi criticado por seus esforços.
Inclusive alguns de seus irmãos espirituais se opuseram a ele e criaram
dificuldades para ele conseguir alguma facilidade em Mayapur para seus
discípulos ocidentais. Tudo isso feriu a Srila Prabhupada e em um ponto
determinado ele shifted* sua identificação de sua prévia associação com
seus irmãos espirituais para seus discípulos ocidentais. Ele sentiu que seus
novos discípulos eram mais preparados para ajudá-lo nos seus esforços de
pregação.

Com ele obteve muito sucesso, ele algumas vezes criticou seus irmãos
espirituais pelos quais ele percebia que tinham inveja de seu sucesso,
sucesso esse que ele originalmente almejava para que a glória de seu guru
Maharaj fosse exaltada. O contexto em que grande parte dessa crítica
aparece, revela que foi falado muitas vezes em resposta à informação que
ele recebeu sobre os negócios de seus irmãos espirituais dos seus
discípulos, alguns dos quais podem de certa maneira ter dado uma
informação imprecisa.

Entretanto, apesar de palavras duras (as quais foram largamente, se não


inteiramente, em resposta às críticas), Prabhupada mantinha um amor
fraternal com seus irmãos espirituais, isso também fica claro na sua
história. No final de seu lila manifesto ele enfatizou seu amor fraternal e
pediu que seus irmãos perdoassem ele de alguma ofensa que ele pudesse ter
cometido. Ele pediu que eles ajudassem seus discípulos.
Em particular ele indicou aos seus discípulos de forma pública que Om
Visnupada Srila Bhakti Raksak Goswami Maharaj (Srila Sridhar maharaj)
era adequado para atuar como seu siksa guru e por isso ele aconselhou seus
discípulos a consultar com ele a filosofia depois de sua partida.
FIM DO ARTIGO
87. UMA VEZ EM ALTO PREÇO, O ARROZ NÃO TEM VALOR

Madhvacharya e a influência no vaisnavismo

No seu Tattva-Sandarbha, que é o tattvacharya da linhagem Gaudiya


Vaisnava, Sri Jiva Goswami tem se referido a Sri Purnapragna Madva
acharya como um vaisnava venerável, em cuja revelação ele se inspirou, no
transcurso do estabelecimento das conclusões escriturais gaudiyas.
Embora existam diferenças de doutrina entre as Madhva e Gaudiya
sampradayas, a linhagem da Gaudiya reconhece laços com a linhagem
Madhva. Como Sri Krishna mesmo iniciou a linhagem Madhva através de
Brahma, ele similarmente escolheu abençoar os Madhva Vaisnavas por
aparecer pessoalmente na linhagem Madhva como o Senhor Caitanya, em
cujo momento ele inaugurou a linhagem Madhva-Gaudiya, como nossa
sampradaya é as vezes chamada.
Dois principais temas da doutrina Madhva tem sido totalmente abraçados
pelos seguidores de Sri Caitanya: A eternidade da forma de Deus e a
refutação de Madhva do Advaita Vedanta (Mayavada). Ninguém pode ser
um Gaudiya Vaisnava sem abraçar estes dois temas. Então, a Sri
Madhvacarya é venerável por todos os Gaudiya Vaisnavas, e com isso em
mente, Srila Bhaktisiddhanta Saraswati Thakura estabeleceu uma murti de
Sri Madhvacarya em sua principal math em Sri Mayapur Dham.

O real Mahabharata

De acordo com Srila Madva Acarya, o Mahabharata atual, durante sua


presença no século XII, estava completamente adulterado. Então, é
improvável que o manuscrito original seja encontrado em algum local hoje
em dia.

Sannyasa em Kali Yuga

"Nesta era de Kali, são proibidas cinco ações: oferecer um cavalo em


sacrifício, oferecer uma vaca em sacrifício, a aceitação da ordem de
sannyasa, oferecer oblações de carne aos antepassados e que um homem
tenha filhos com a esposa de seu irmão ". (Cc Adi 17.164)

Existem diferentes tipos de sannyasa. Nesse verso do Brahma Vivartha


Purana que Mahaprabhu citou para o Chand Kazi, todos os cinco atos
proibidos estão dentro do reino do karma. O sannyasi referido ali é o
karma sannyasi. Karma sannyasis são aqueles que aceitam sannyasi em
uma idade velha porque seus sentidos estão fracos ainda que eles não
tenham autoconhecimento. Noutros versos do Brahma Vaivarta Purana a
vida de sannyasi é glorificada.
Além de karma sannyasa, as escrituras falam de jñana sannyasa e
vaisnava sannyasa. No Padma Purana se menciona, jñana sannyasinah
keccid veda sannyasino 'pare karma sannyasinas vanye trividhah
parikirtitah.O termo veda sannyasi nesse verso se refere a vaisnava
sannyasi, cujo objetivo é paramatma nistha ou o serviço amoroso a Deus;
Se estudamos a sannyasi de Mahaprabhu como Ele mesmo descreve no
Caitanya-caritamrta perceberemos que Ele não aceitou karma sannyasi,
nem jñana sannyasi no qual o objetivo é imergir-se no Brahman (sayuja
mukthi).
Mahaprabhu, enquanto contemplava a aceitação de sannyasi do brahmana
de Avantipura descrito no 11º canto do Srimad Bhagavatam, diz que esse
sannyasi é para o propósito de servir a Mukunda (Paramatma nistha
mukunda sevayah). Seu desejo depois de aceitar sannyasi era somente o de
ir à Vrindavana servir Krsna.

Adoração à Salagrama Sila

A Salagrama Sila é uma manifestação de Vishnu em uma pedra que é a


apenas encontrada no rio Gandaki nos Himalaias. É possível que exista
muitas formas de Salagrama silas, como existem muitos avatares de
Vishnu. Cada Salagrama tem marcas particulares pelas quais a Sila pode
ser identificada como Vamana, Sudarsana, Narasingha etc. Todas essas
deidades são deidades vaiddi marga de Vaikuntha, onde a adoração é
estabelecida com reverência e temor.Enquanto que o aspecto yuga avatara
de Sri Caitanya Mahaprabhu é Goura Narayana, o qual é adorado de uma
forma reverencial. Sri Caitanya Mahaprabhu, em um sentido completo, é
Radha Krsna combinados, Sri-krsna-caitanya Radha-krsna nahe anya. Ele
é Krsna mesmo, com o coração e áurea de Radha.
Apesar que o vaiddi bhakti tem um papel importante em Seu lila, Sua
ênfase está em raga-marga de Vraja bhakti, não no amor que caracteriza
Vaikuntha. Então poderia ser difícil encontrar uma Salagrama Sila que
represente o particular advento de Sri Caitanya Mahaprabhu.
Entretanto, o poder de amor é ilimitado e por isso todas essas as coisas são
possíveis. Gopala Bhatta Goswami adorou muitas Salagrama Silas. Em
Nrsimha Caturdasi, Gopala Bhatta estava contemplando o amor de
Prahlada que causou o aparecimento de Narasimha avatara diante de
Prahlada em um pilar. Nesse momento, Gopala Bhatta Goswami se sentiu
sobrecarregado ao pensar na natureza desse amor e a reciprocação de
Krsna.
Prahlada foi um devoto de Krsna, Krsna foi Seu ishta-devata, e apareceu
diante dele com todas as Suas seis opulências na forma de Nrsimhadeva.
Gopala Bhatta Goswami também era um devoto de Krsna e ele tinha o
desejo de ser tão afortunado como Prahlada. Ele também desejou ter uma
deidade que poderia vestir e decorar com ornamentos, a qual a maior parte
desse aspecto não é uma parte tão importante da adoração da Salagrama
Sila.
Nesse momento Gopala Bhatta Goswami estava vivendo em Vrindavana e
estava esperando que Mahaprabhu pudesse novamente lhe dar o darsana
como Ele havia dito. Na manhã seguinte, quando ele despertou, para sua
surpresa ele viu que sua Damodara Salagrama Sila tinha se transformado
numa deidade de Krsna a qual a partir desse dia ficou conhecida como
Radha-Raman. Radha-Raman-ji é considerada como sendo a combinação
de Radha e Krsna. Então Ele satisfez completamente cada detalhe do
desejo de Gopala Bhatta Das Goswami. Nessa deidade de Salagrama Sila
nós encontramos Sri Caitanya Mahaprabhu.
Se temos uma Salagrama Sila devemos adorá-la apropriadamente com
folhas de Tulasi e amor e tentar entender a natureza da devoção pura que
Prahlada Maharaj exemplificou. Praticar o vaidhi bhakti e aspirar a
elegibilidade do ragha marga bhakti de Vrindavana. Lembrando que o
aspecto de yuga avatara de Sri Caitanya Mahaprabhu, apareceu através da
adoração da Salagrama Sila da Advaita. Oremos para que possamos
realmente entender o significado do aspecto yuga avatara de Mahaprabhu e
assim qualificar-nos para entender e realizar o significado dos motivos
internos da aparição de Sri Caitanya no mundo. Dessa forma vamos a
atravessar Vaikuntha e entrar em Goloka Vrindavana.
A razão pela qual Nityananda Prabhu não estava pessoalmente envolvido
nos últimos seis anos no Goura lila em Puri dham com Mahaprabhu, é que
Mahaprabhu mesmo pediu que Ele liberasse as almas caídas da Bengala.
Mahaprabhu tinha tanto esse desejo que pediu a Nityananda Prabhu que
não retornasse anualmente a Puri. Ao mesmo tempo Ele lhe dizia que Ele
sempre estaria presente no kirtana enquanto Nityananda Prabhu dançasse.
Mahaprabhu deu essas instruções à Nitai na presença de Advaita Acarya, o
qual está descrito no Caitanya-caritamrta como tendo ficado muito feliz
com essa proposta.
Além do mais, nos últimos anos em Puri, envolvido em seu bhajan, humor
e sentimentos de Sri Radha em separação (vipralambha) de Krsna,
propositalmente Nityananda Prabhu (Balarama) não estava envolvido
nisso. Mahaprabhu entrou completamente no humor de Radha durante o
ratha-yatra. Nityananda viu que realmente Ele havia tomado a forma de
Radha. Neste momento ele ofereceu respeito a Ele/Ela a uma certa
distância.
Preocupado pela falta de piedade e ao desprezo ao bhakti em Nadiya,
Advaita Prabhu apelou a Krsna para descer e fazer o trabalho de um yuga
avatara. Mahaprabhu foi a resposta de sua oração. Ele é Krsna mesmo, o
qual descende com Seu próprio propósito interno e simultaneamente faz o
trabalho de um yuga avatara. Quando Advaita realizou que o trabalho do
aspecto de yuga avatara de Mahaprabhu tinha sido completado, ele lhe deu
permissão de ir embora. Sendo assim simultaneamente facilitou o propósito
interno de Mahaprabhu em relação a realizar o humor (bhava) de Radha.
Mahaprabhu mesmo explicou as palavras de Advaita dessa forma para
Jagadananda e outros devotos.
A preocupação de Advaita Prabhu em relação ao sofrimento da
humanidade foi notável. Ele queria ver todas as pessoas abraçando o yuga
dharma. Ele não mantinha uma distância dos membros mais
desprivilegiados da sociedade. De fato ele rejeitou o orgulho brahminico
quando ele honrou Haridas Thakur, o qual tinha previamente sido um
muçulmano, com a prasada na cerimônia do ritual de sraddha. Essa é uma
honra reservada para os membros mais destacados da comunidade
brahminica. Ao fazer isso ele feriu os membros de casta da sociedade.
Seu respeito para Nityananda Prabhu não era menos do que ele tinha em
relação à Mahaprabhu. Essa é a opinião dos descendentes espirituais de
Advaita Acarya.
Além do mais, Sri Vrindavan Das Thakur descreveu as palavras de Advaita
Acarya faladas a Mahaprabhu no Caitanya-bhagavata, Madhya 6.167-9:
“Se é Tua intenção distribuir a devoção, Você também deve distribuí-la
para as mulheres, aos sem castas, às pessoas não educadas. Mas para
aqueles que são contra a devoção ou que obstruem os devotos devido ao
seu orgulho por conhecimento, riqueza, classe social ou habilidade para
praticar austeridades, que são considerados os mais pecaminosos, que
morram e queimem no inferno, enquanto que as pessoas de classes mais
baixas dancem em bem-aventurança ao som de Seu Santo Nome”.
FIM DO ARTIGO
88. LUTAR OU NÃO LUTAR?O BHAGAVAD-GITA E A GUERRA DO
IRAQUE

O exemplo do Gita na guerra do Iraque

A violência qualificada é uma realidade inevitável deste mundo, mesmo


quando vemos o mundo de uma perspectiva religiosa. Todos abraçam o
princípio da violência qualificada em algum nível. Qualquer pessoa
sensível pode sentir, ainda que sutil, o espírito de violência por trás da
indignação do protestante da paz, enquanto eles cantam pela paz ou
denunciam aqueles favoráveis à guerra.

Vivemos no drama humano à custa dos outros. Um ser vivo é alimento para
outro. Nesse plano, devemos matar para viver, por mais educadamente que
seja. Fazê-lo educadamente somente quando absolutamente necessário é o
curso religioso da ação. Além disso, o caminho espiritual leva à terra da
alma, a não violência própria e absoluta.

Aquelas almas nobres que buscam a não-violência completa devem olhar


além do mundo material, e até mesmo do mundo religioso, para este reino
da alma, para realizar seu ideal.

No Gita, Krishna instrui Arjuna nestes dois níveis: o religioso e o


espiritual, com o primeiro levando ao último.
Do ponto de vista religioso, no qual uma pessoa vê a si mesma como um
membro de um mundo pertencente a Deus sob cuja orientação ela deve
viver, Krishna diz a Arjuna que há um lugar para a violência quando a
diplomacia falha. Krishna também diz que deveria haver uma classe de
homens e mulheres que, nessas ocasiões, se envolvem na tarefa
desagradável de lidar com agressão inapropriada. Arjuna era um membro
desta classe militar. Assim, era seu dever defender-se militarmente contra a
agressão e a tirania.

Do ponto de vista espiritual, em que alguém se vê como categoricamente


diferente da matéria - uma partícula de consciência e, portanto, não
identificado com qualquer classe, nação, religião, etc. -, Krishna diz a
Arjuna para declarar guerra ao seu ego material, à identificação com a
matéria. Apenas seguindo esta instrução de Krishna Arjuna realizará a não-
violência absoluta, transcendendo todas as variedades de exploração.

Em última análise, a tarefa que o Gita coloca diante de nós é matar nossos
apegos e extinguir o desejo material que gera o drama humano. Ele nos
pede para morrer uma morte egóica se quisermos viver sem luta - estar
livres da violência e de todas as formas de exploração. Nossa identificação
com a matéria e nosso ego material devem morrer se nossa alma quiser ter
vida própria.
É isso que Krishna pede a Arjuna: matar seu ego material. Enquanto
Arjuna, devido a seus apegos materiais e subsequente identidade baseada
nesses apegos, primeiro ouve Krishna pedindo-lhe para lutar contra seus
próprios parentes, em última análise ele entende que Krishna está pedindo a
ele para matar seus apegos e assim libertar sua alma do sentido material de
realidade, em que a violência é inevitável.

Com base nos ensinamentos do Gita, parece justificável na atual situação


mundial tomar medidas para livrar o Iraque das armas de destruição em
massa e libertar os que vivem sob a tirania e a tortura de Saddam Hussein,
se de fato o Iraque tem tais armas e seu povo está sofrendo terríveis
violações dos direitos humanos sob o reinado de Saddam. O Gita opina
que, se a diplomacia falhar, os meios violentos são justificáveis.

A Gita, no entanto, fala apenas em princípio sobre a questão da violência


qualificada. A atual crise mundial é complexa demais para esperar que o
Gita forneça uma resposta específica sobre como proceder, militarmente ou
não. As Escrituras não fornecem respostas para todas as circunstâncias
humanas. Ele fornece conhecimento revelado - quanto à natureza de Deus,
o eu e sua situação material - que pode ajudar os indivíduos a tomar
decisões sobre todos os aspectos da existência humana, considerando a
natureza da realidade última.

Dharma dos soldados e líderes americanos e iraquianos

O Gita ensina que um guerreiro que luta por uma causa justa está agindo
religiosamente, e ele ou ela se beneficiará espiritualmente por tais lutas.
Sugere que deve haver regras de guerra, especialmente no que diz respeito
a civis inocentes. Se o que ouvimos é verdade em relação à crueldade do
regime de Saddam Hussein para com seus próprios dependentes, e o regime
mentiu para a ONU, de que de fato possui armas de destruição em massa e
que pretendem eventualmente usar em atos de agressão, essas forças da
coalizão. Lutar para libertar pessoas inocentes do reino de terror deste
regime está do lado do dharma. Nesse cenário, a melhor coisa que os
soldados iraquianas podem fazer é juntar-se às forças da coalizão e se
revoltar contra Saddam Hussein.

Se, por outro lado, como algumas fontes da mídia relatam, as forças da
coalizão são motivadas principalmente pelo desejo de governar o Iraque e
seu petróleo e o Iraque não tem armas de destruição em massa ou intenção
de adquiri-las para fins terroristas, as forças da coalizão não estão do lado
do dharma e o melhor seria desistir de sua campanha militar, enquanto os
soldados iraquianos que agora morrem em batalha são mártires.

Consolo do Gita

O Gita oferece o maior consolo para todos nós em sua defesa da não-
violência absoluta e sua explicação sobre como alcançar esse ideal nobre.
A atual crise mundial deve servir como um ímpeto negativo para perseguir
esse ideal a qualquer custo. Meu artigo The Play of Violence explica o
conceito de não-violência absoluta em detalhes consideráveis e a defesa do
Gita desse conceito puramente espiritual.
89. O FOGO DA RAZÃO E O METAL DA NOSSA FÉ
A voz política da comunidade vaisnava

Eu não voto. Em geral, como uma regra, os sannyasis, vanaprasthas e


brahmacaris não deveriam se envolver em nenhuma coisa diferente da
prática espiritual. Grihasthas entretanto podem se envolver em política e
até mesmo podem se candidatar. Bhaktivinoda Thakur deu um exemplo em
relação a isso.

Srila Prabhupada queria que a comunidade vaisnava formasse uma voz,


uma que possa representar seu valores. Ao que parece, para entrar no
mundo da política e ter sucesso hoje em dia, deveria se defender valores
menos específicos à tradição vaisnava religiosa que, não obstante, fazem
parte de uma visão geral do vaisnavismo. Ao fazer isso, a comunidade
deveria unir forças com outros que mantém similares valores, ou que
mesmo que não abracem os valores religiosos mais específicos da tradição
Vaisnava, mostrem respeito por ela.

Existem muitos obstáculos para estabelecer o varnasrama dharma, mas a


essência da aderência ao varnasrama dharma é a responsabilidade e a ação
responsável. Devemos saber que fazer o correto satisfaz a Deus, e na
medida que Deus está satisfeito, é a medida em que nossas ações neste
mundo são perfeitas. Sendo assim, pode ser possível para os vaisnavas
estarem envolvidos em ativismo social e falar contra muitas formas de
exploração abertas que são tão desenfreadas na sociedade de hoje em dia e
fazer isso de uma maneira que não comprometa suas convicções espirituais,
mas que as reforce.

Conciliar fé com razão

A fé divina é independente da razão. Isso é um resultado que depende da


graça de Deus e que envolve experiência, ao contrário da crença que existe
no reino intelectual. A fé divina pode ser auxiliada pela razão nos seus
estágios de brotamento, mas, esta também pode ser sufocada pela razão.
Uma boa lógica leva à uma disposição que atrai a fé divina para descender,
e a fé divina cresce onde a lógica vá embora. A desvantagem da lógica em
termos de ser um veículo adequado para alcançar uma verdade conclusiva é
óbvia: Para cada argumento existe um contra argumento. A lógica é
inconclusiva. Para nós alcançarmos uma verdade conclusiva nós teremos
de encontrar outro veículo: Fé é este veículo, a fé divina.
Religião (fé) e racionalidade, ambos são meios válidos de conhecimento.
Entretanto a razão resulta num conhecimento inconclusivo mesmo dentro
de seu próprio domínio, a menos que seja guiada pela fé. Quando guiada
pela fé, a razão leva a certeza que capacita a pessoa a se ocupar em práticas
espirituais estáveis as quais permitem que ela conheça tudo de uma forma
mais conclusiva. Em nossa vida diária nós podemos testar o metal da nossa
fé em Deus com o fogo da razão. Se esta começa a derreter, nós
deveríamos retroceder e procurar a prática espiritual e associação santa de
homens e mulheres com fé. Se ela está fortalecida com o fogo da razão,
esta fé já não é tenra (komala), e semelhante fé sustentará nossa prática
espiritual e ainda mais, dará entrada na vida espiritual e será capaz de
alimentar a prática dos outros.

Então, o que se torna a razão? Os fiéis não devem argumentar sobre Deus,
mas devem se questionar como servi-lo melhor em qualquer momento.
A natureza geral da fé é também discutida no Bhagavad-gita.
“O Senhor Hari disse: “A fé das almas corporificadas que nascem da
natureza material adquirida é de três tipos: sattvica, rajasica e tamasica.
Agora escute a respeito disso.” Bhagavad Gita 17,2.
Comentário:
A cor da fé da pessoa está diretamente relacionada a sua causa. Se a causa
da nossa fé é a associação santa e deliberação do significado das escrituras,
essa fé é uma fé iluminada, pura, sattva. Semelhante fé iluminada é, por sua
vez, a causa do progresso espiritual da pessoa, e a medida de sua
realização. Vivemos em um mundo de dúvidas, mas nossas maiores
perspectivas estão em entrar na terra da fé, onde todas as dúvidas são
removidas. A fé em geral é da natureza da influência material de sattva. Em
qualquer coisa que a pessoa tenha fé, essa fé é uma manifestação de sattva.
Assim, o sentido de ser virtuoso é universal. Essa é a convicção por trás do
esforço prolongado.
Entretanto, aquilo em que a pessoa coloca sua fé está determinada pela
influência da natureza adquirida. A natureza adquirida da pessoa no
nascimento é um produto de seu karma passado. Sua natureza está
constituída da combinação de três gunas, na qual uma dessas três
predomina. A predominância da influência de sattva, rajas ou tamas
determina o objeto da fé da pessoa e as nuances pelas quais a máscara de
sattva e rajas e tamas se estabelece. A causa primária da fé da pessoa está
na natureza adquirida. A causa secundária está na mente. Krsna pede a
Arjuna para colocar atenção. O Bhagavad-gita diz que a fé corresponde
com a mente: “Ó descendente de Bharata! Uma pessoa é feita de sua fé. Ela
é a sua fé”. BG17.3
A mente está indicada ali pela palavra sattva. Essa é a natureza de sua
iluminação. É a transformação do princípio do egoísmo (ahankara)
influenciado por sattva guna. Aqui Krsna diz que a fé da pessoa
corresponde com sua mente. Porque a mente é uma transformação de
sattva. A fé é intrinsecamente sattvika. Entretanto, cada mente individual
reflete a condição de seu coração sobre a influência das três gunas. A
natureza refletida da mente produz uma qualidade particular de fé, sendo
satvik, rasik e tamasik.
Mudar a natureza material adquirida é possível pela deliberação do
significado das escrituras e adoração de Deus de forma natural. Assim
sendo uma pessoa adquire sabedoria. Essa causa de sattva pura domina e
leva à iluminação necessária para a cultura de uma vida iluminada. A guna
dominante influencia à mente a determinar uma fé específica. Esta é a
posição daqueles cuja fé faz com que eles adorem algo, mas que não se
preocupem com deliberar sobre a importância das escrituras. A qualidade
de sua fé particular é revelada por meio do objeto de sua veneração.

Concectar-se exclusivamente com nossa sampradaya

A palavra parampara literalmente significa “um após o outro”. Se não


existe um sucessor após a partida do guru, não existe parampara. Esse
sistema de parampara é o que Krsna chama de “a ciência imperecível da
yoga” (yogam avyayam). Em si mesma é imperecível. Por isso, devemos
nos identificar e nos conectar com isso.

Vraja prema disponível aos mais caídos


A ciência de Deus é assim, representa a Sri Krsna Caitanya. A coisa mais
elevada é dada ao menos qualificado. Essa magnanimidade ao extremo é
chamada Sri Caitanya Deva.

Os ciúmes de Krsna
Krsna não é ciumento, mas Ele gosta de ver o ciúme de Radha.

Os rituais e o Gaudiya Vaisnavismo


É preciso entender desde o início que o ritual não é o objetivo. Isto é
a janela para a espontaneidade. A pessoa deve aprender a cozinhar
seguindo um livro de cozinha, usando colheres de medida, etc. Mas, bons
cozinheiros sentem o que eles estão fazendo. Eles não seguem um livro -
eles apenas cozinham.

FIM DO ARTIGO
90. PENSAMENTO ESPIRITUAL CRÍTICO
A violência doméstica é abominável e dificilmente é suavizada quando está
baseada nos assim chamados princípios religiosos. Qualquer mulher que se
encontra em semelhante situação deveria sair de essa situação pelo bem
estar de sua vida material e espiritual. Um casamento está relacionado ao
amor e a um compromisso com o serviço a Deus. Se isso se perde o
casamento não está funcionando. Quando algo não funciona devemos
tentar consertá-lo, mas se não pode ser consertado devemos continuar
nosso caminho. O casamento está situado dentro do reino da relatividade,
este deveria ser harmonizado com o chamado do Absoluto, mas nunca se
deveria permitir que se obscureça esse chamado em nome de
espiritualidade.

A alma adormecida
A alma no seu sono não é plenamente consciente da extensão na qual existe
ou outros aspectos de sua própria natureza. Sob a influência da natureza
material (ilusão), ela faz escolhas que não faria se não estivesse sob essa
influência, assim como é dito que alguém intoxicado se torna outra pessoa
diferente da que ela é, da mesma forma, a alma iludida não é o ser real (o
ser desperto).

Cantar o Gopala mantra para conceber um bebê


Ao invés disso (de cantar o Gopala mantra para conceber um bebê),
deveria-se cantar o Maha Mantra Hare Krsna. Sri Caitanya Mahaprabhu
recomendou isso para todo mundo. Ao ser purificada com semelhante
nama kirtana, e ao passo em que a orientação conceptual da vida
desenvolva-se em relação aos ensinamentos espirituais de Caitanya Deva,
então enfim uma pessoa se torna apta a receber o Gopala mantra de um
guru qualificado e se ocupa no mantra dhyana.

Identidade e diferença de Deus


Luz e calor são inseparáveis e ao mesmo tempo são diferentes do fogo.
Similarmente, estamos ambos identificados com Deus, ou seja, somos
iguais e diferentes a Deus ao mesmo tempo. Essa realidade transcende a
lógica.
Quando nós olhamos no mundo o que mais se assemelha a Deus, nós
encontramos a nós mesmos. Como unidades de consciência, nós somos
infinitamente superiores a tudo o que é inanimado. Nós experimentamos
enquanto que a matéria é experimentada. Se a matéria fosse mais
importante, independentemente da consciência, quem se importaria com
isso? Quem saberia disso?
Entretanto, no momento, nós encontramos nós mesmos cobertos pela
matéria, pensando que a matéria é mais importante que nós mesmos. Isso
indica que apesar que constitucionalmente nós somos superiores a matéria,
nós estamos subjugados por sua influência. Deus não é subjugado pela
influência da matéria. Se Ele fosse, não haveria significado para a
supremacia de Deus. Essa é uma diferença entre Deus e nós. Existem
muitas outras diferenças. Assim sendo nós somos iguais e diferentes de
Deus.

Palavra-por-palavra do Gita e a concepção de suas transliterações


Muitas vezes haverá uma diferença gramatical entre a transliteração ou
tradução palavra por palavra de um verso e a tradução real em si. As
palavras podem também mudar de transliteração para tradução sem mudar
o verdadeiro significado da palavra traduzida no esforço de fazer uma
tradução de sons que fique bem em inglês. Traduções podem ser literais ou
o tradutor pode ter uma licença poética para poetizar sua tradução, ou mais,
o tradutor pode incluir o seu significado dentro da tradução, dizendo que
“isso” é o que o verso original significa, dando um significado a essa
palavra.

No caso da tradução do Gita de Prabhupada, em alguns lugares ele inclui


seu significado na tradução. Entretanto, seu significado está baseado em
comentários de Gaudiya acaryas prévios os quais têm demonstrado em
seus comentários a correção gramatical apropriada. Aqueles que duvidam
da legitimidade gramatical da tradução de Srila Prabhupada ou da exatidão
de seus significados em termos de representar os significados dos versos
podem olhar os comentários de nossos Gaudiya acaryas prévios. Em seus
extensos escritos, esses acaryas estabeleceram as bases para chegar a uma
conclusão devocional assim como o significado do Gita.

Um estudo minucioso do Gita revela que ele pode ser interpretado com
uma inclinação que enfatiza ambos jñana sobre bhakti ou bhakti sobre
jñana. Os seguidores de Advaita Vedanta e suas ramificações entendem
que o Gita pode ser direcionado de jñana sobre bhakti, mas todos os
comentadores vaisnavas incluindo Ramanuja e Madva entendem o Gita
como sendo mais direcionado ao bhakti sobre o jñana. Eruditos os quais
não são praticantes também se encontram divididos em relação a esse
assunto.

Eu acredito que a leitura do Gita que enfatiza jñana como sendo superior
ao bhakti é forçada e não representa a conclusão natural do texto. Eu
também acredito que muitos leitores que podem se familiarizar com ambos
os lados dos argumentos irão também concordar com esse meu ponto.
Em última análise, o Gita responde o próprio interesse e psicologia do
leitor que no mundo do Bhagavad Gita é considerado como algo que é
formado durante muitas vidas, um produto da associação com aqueles que
trilham o caminho do jñana ou bhakti. Krsna mesmo diz no Bhagavad-gita
(4.11) que Ele reciproca na medida que uma pessoa se aproxima a Ele. Sri
Krsna é como uma jóia multifacetada e Ele se revela de forma diferente
para diferentes pessoas.

O conteúdo das escrituras como absoluto


Existe relatividade na escritura e os comentadores também diferem em suas
opiniões assim como no significado e aplicação de diferentes citações das
escrituras. Todos esses aspectos são difíceis de resolver é por isso que
recomenda-se orientação a cada passo. Na ausência de um guru seria
inteligente procurar ajuda de outro santo.

Em última análise, os praticantes espiritualistas precisam aprender a ser


pensadores críticos, pensar criticamente e ainda espiritualmente por si
próprios. As escrituras e os sábios são enfáticos nesse ponto. Um siksa
guru qualificado será capaz de nos ajudar a alcançar um nível espiritual de
discriminação, ser espiritualistas e ainda assim ser pensadores críticos.

As escrituras representam um corpo de conhecimento no qual o objetivo


supremo da vida é descrito junto com os meios para alcançar esse objetivo.
Entretanto, a escritura também procura direcionar a aqueles que não estão
interessados no objetivo último da vida. Para esse fim, ela fornece
conhecimento relativo de outros possíveis objetivos que a humanidade
pode alcançar e como a humanidade pode alcançar da melhor forma esses
objetivos inferiores.

A escritura contém leis que governam a realização de diferentes ideais que


aparecem na psique humana, e também oferece um significado objetivo da
determinação da hierarquia de valores humanos. Sendo assim, ela não é
dogmática. Ela convida aplicar à razão, deixando cada indivíduo
determinar o que é relevante para si em termos de seu ideal particular. A
razão também é convidada a participar em nosso entendimento a respeito
da conclusão dos Vedas, assim como justificar a escritura em face da
oposição daqueles que não reconhecem sua autoridade. O vedanta sutra em
si mesmo é exemplo disso.
Sendo assim, a submissão à uma autoridade espiritual genuína dever ser o
resultado último nesse tipo de pensamento espiritual crítico.
Desafortunadamente, muitas pessoas tentam fazer isso sem se submeter a
meios transrazionais do conhecimento ou em nome da submissão à uma
autoridade espiritual, procuram evitar a tarefa dificultosa de um
pensamento espiritual crítico. Por favor, note que, embora haja um
cruzamento considerável, o pensamento espiritual crítico e o pensamento
crítico não são o mesmo.
Srila Bhaktivinoda Thakur argumenta que a escritura em si mesma e os
comentários escriturais derivam das realizações pessoais das almas
espiritualmente avançadas. Sendo assim nós não podemos negligenciar
nosso próprio insight pessoal inteiramente e cegamente seguir a escritura
em nome da prática espiritual.
A respeito desse ponto, Bhaktivinoda Thakur escreve:
“É necessário cultivar conhecimento à luz da nossa própria realização
espiritual. Essa é a regra que governa o estudo escritural. Devido a que o
conhecimento nascido da realização pessoal é a raiz de todas as escrituras,
como podemos esperar ganhar algum benefício ignorando-os, dependendo
exclusivamente das escrituras, que são ramos que surgem desta raíz? A
alma condicionada é aconselhada a estudar o Veda com a ajuda da