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01/05/2020 Agroecologia ou Colapso (1).

Por Paulo Petersen e Denis Monteiro | Combate Racismo Ambiental

Agroecologia ou Colapso (1). Por Paulo


Petersen e Denis Monteiro
 1 de Maio de 2020 (https://racismoambiental.net.br/2020/05/01/agroecologia-ou-colapso-1-por-

paulo-petersen-e-denis-monteiro/) •  Destaque

(https://racismoambiental.net.br/category/destaque-combate/), Mundo

(https://racismoambiental.net.br/category/mundo/) •  Combate Racismo Ambiental ()

No esforço por repensar o mundo, é preciso olhar ao campo. Ali há um sistema de produção
cooperativo e sustentável. Subestimado inclusive pelo marxismo ortodoxo, está sendo redescoberto.
Será uma das bases para o pós-capitalismo

Em Outras Palavras (https://outraspalavras.net/crise-brasileira/agroecologia-ou-colapso-1/)

No dia 8 de abril, a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) publicou uma proposta


(https://agroecologia.org.br/2020/04/08/paa-programa-de-aquisicao-de-alimentos-da-agricultura-
familiar-comida-saudavel-para-o-povo/) para retomada do Programa Aquisição de Alimentos da
Agricultura Familiar (PAA) (https://www.youtube.com/watch?v=R5MZDuFBbMQ). O documento foi
assinado por 774 organizações, redes e movimentos sociais do campo e das cidades e propõe a
alocação imediata de 1 bilhão de reais para compra e distribuição de alimentos para as
populações em situação de fome e de insegurança alimentar e nutricional, montante que deve 
chegar a 3 bilhões até o m de 2021. Como procuraremos demonstrar, esta proposta é coerenteTOP
com a perspectiva agroecológica para transformação dos sistemas alimentares, cuja con guração
hegemônica atual é responsável pelo encadeamento de crises que tem nos levado a um

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verdadeiro impasse civilizatório. Apresentamos aqui o sentido político desta proposição nesse
momento histórico de extrema gravidade marcado pelo súbito aprofundamento de crises pré-
existentes de agrado pela disseminação do coronavírus. 

A necessidade de um enfoque sistêmico

Crises que se agravam enquanto realimentam-se reciprocamente, como as que se tornaram


evidentes nesse momento, conformam um quadro político de excepcional complexidade.
Superar os enfoques setoriais que prevalecem no mundo da gestão pública é condição
indispensável para que as medidas emergenciais implementadas contribuam para desarticular
os círculos viciosos regressivos que fazem com que causas e efeitos da pandemia se confundam.
Nesse sentido, urge desfazer a falsa dicotomia entre saúde e economia que polariza o debate
público e as iniciativas governamentais no Brasil, enquanto o número de mortos se multiplica e a
economia vai à bancarrota. Em um e em outro caso, são as camadas mais empobrecidas e
vulneráveis da população as mais penalizadas. 

Entender a saúde como direito a ser ativamente promovido pelo Estado e a economia como a
administração das riquezas sociais para a promoção do bem comum é condição primeira para
que o antagonismo intersetorial característico das gestões neoliberais dê lugar a estratégias de
intervenção pública capazes de impulsionar círculos virtuosos entre economias justas e
democráticas e a saúde coletiva. 

É nessa perspectiva que a proposta apresentada pela ANA deve ser entendida. Mais do que
nunca, o fomento público à demanda por alimentos saudáveis mostra-se como uma estratégia
ganha-ganha indispensável ao equacionamento combinado de desa os sociais e econômicos de
longa data, mas agora agudizados pelo surto da Covid-19. Indo mais além, trata-se de uma
estratégia triplamente ganhadora, na medida em que também traz consigo o potencial de
produzir benefícios ambientais de suma relevância quando levamos em conta o fato de que os
sistemas alimentares organizados segundo lógica técnico-econômica do agronegócio respondem
pela emissão de quase 40% dos gases de efeito estufa, sendo ainda responsáveis por acelerados
ritmos de desmatamento e perda da biodiversidade, de degradação da terra e dos corpos
hídricos. Além desses efeitos desestabilizadores da dinâmica ecológica planetária, numerosos
especialistas (https://www.soberaniaalimentaria.info/otros-documentos/debates/717-entrevista-
rob-wallace?
fbclid=IwAR1aympQV5EE2LuITjEtTSsmfFSjzvKDoHhwvdQjxmI3hVOTQM97nznqfU0) vêm
apontando a relação direta entre surgimento de pandemias e os mega con namentos nos
criatórios industriais do agronegócio (https://www.grain.org/es/article/4032-recordando-la-
gloria).

Ao m e ao cabo, a crise do coronavírus escancara os limites do capitalismo neoliberal como


modelo de gestão política e econômica das sociedades contemporâneas. No mesmo bojo,
escancara os limites do regime agroalimentar corporativo (ou neoliberal)
(https://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2020/04/coronavirus-mostra-urgencia-em-superar-dieta-
neoliberal/), abrindo novos horizontes políticos para que a agroecologia seja socialmente
assumida e defendida como um enfoque para a transformação dos padrões dominantes de 
produção, bene ciamento, distribuição e consumo de alimentos.  TOP

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A retomada imediata do PAA segundo a proposição defendida pela sociedade civil insere-se
nesse contexto como uma medida emergencial de caráter estruturante. Uma medida
politicamente exequível, desde que fortemente apoiada pela cidadania ativa e suas organizações
em um momento em que o receituário neoliberal está colocado em xeque. 

Fim de linha da ordem neoliberal?

Muitos têm a rmado que não voltaremos ao mundo que tínhamos até 11 de março de 2020,
quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia. Um sinal
vermelho foi aceso e repentinamente veri cou-se em todo o mundo uma abrupta redução nos
frenéticos uxos de pessoas e mercadorias em função do isolamento social adotado como
medida para restringir a disseminação da Covid-19. Da noite para o dia, dogmas neoliberais
caíram por terra, levando expoentes do pensamento conservador a clamar pelo
intervencionismo estatal. Uma unanimidade se formou em todo o espectro ideológico: sem a
ação incisiva dos governos, seria impossível enfrentar a pandemia e suas consequências
econômicas e sociais. 

O editorial de 03 de abril do insuspeito Financial Times (https://www.ft.com/content/7e 769a-


74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca), destacado veículo do pensamento liberal,  dizia que “a pandemia
de coronavírus expôs a fragilidade da economia em muitos países”, que “são necessárias
reformas radicais para forjar uma sociedade que funcione para todos” e que  “os governos
devem aceitar um papel mais ativo na economia, assumindo os serviços públicos como um
investimento”. Um card viralizou nas redes sociais sintetizando o fenômeno com fulminante
ironia: “Acreditávamos que o medo de morrer convertia ateus em crentes. Na realidade, converte
neoliberais em keynesianos”.  

Em que pese a súbita “virada estatista”, nada indica que as políticas keynesianas redivivas vieram
para car. Pelo contrário, no atual contexto, a intervenção emergencial dos governos mais parece
representar para eles um remédio amargo indispensável nos momentos de crise aguda do que
uma mudança de hábitos de vida necessária à prevenção de novas crises. Seja como for, a
tragédia põe a nu as falácias impostas como verdades inquestionáveis durante os 40 anos de
hegemonia neoliberal. Margareth Thatcher, primeira-ministra britânica nos anos 1980, decretou
que “não havia alternativas” à nova ordem que então se impunha. No mesmo embalo, Francis
Fukuyama, lósofo conservador e ideólogo do governo Reagan, anunciou o “ m da História” com
a chegada de um suposto modelo ideal de sociedade.

A atual crise, já considerada a mais grave do último século, relembra que a História não avança
por linhas retas pré-estabelecidas, mas por bifurcações, deixando claro que autoritarismo político
e arrogância intelectual são péssimas companhias quando nos deparamos com uma dessas
disjuntivas históricas. Possivelmente, estamos diante de uma das mais decisivas crises dentre as
que já vivenciamos em nossa aventura planetária como espécie. Uma crise que não surgiu com a
atual pandemia, mas da progressiva exaustão de um sistema de poder incapaz de reproduzir o
seu próprio princípio básico de funcionamento, ou seja, a acumulação desmedida de capital.
Argutos críticos do capitalismo, entre os quais Immanuel Wallerstein
(https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-tempo-em-que-podemos-mudar-o-mundo-2/), 
recentemente falecido, e David Harvey (https://outraspalavras.net/outrasmidias/harvey-o- TOP
colapso-da-espiral-de-acumulacao-in nita/), há tempos apontam o fato de que as contradições
desse sistema chegaram aos seus limites terminais em sua fase neoliberal.
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A pandemia iluminou essas contradições, tornando-as mais visíveis. É como se o coronavírus


emitisse um grito ao pé dos ouvidos moucos de oportunistas e negacionistas que há décadas
impedem a construção política de um novo contrato social capaz de tornar a convivência entre e
dentro das nações mais harmônica. Superar o sistema de poder que perpetua e aprofunda as
abissais disparidades sociais é condição para que tal harmonia seja construída e mantida. Mas a
mensagem da atual crise vai além. Provocada por um ser da natureza diante de processos de
degradação ambiental sem precedentes responsáveis pela criação de uma nova era geológica, o
antropoceno, a crise deixa claro que o novo pacto de convivência social só terá vigência se for
igualmente assumido como um “contrato natural” entre a comunidade humana planetária e os
demais seres da Biosfera. Estamos, pois, diante de mais um chamado da Natureza, talvez o
último, como alertou o agroecólogo Victor Toledo
(https://www.jornada.com.mx/2020/04/07/opinion/022a2pol), atual Secretário de Meio Ambiente
e Recursos Naturais do México.

A necessidade de urgências estruturantes

Dada a excepcional gravidade do momento histórico, mesmo destacados ideólogos da direita


chamam a atenção para a necessidade da implantação de medidas emergenciais que
simultaneamente apontem para transformações estruturais em um sistema à beira do colapso. É
o caso de Henry Kissinger (https://www.brasil247.com/ideias/coronavirus-cria-uma-nova-ordem-
mundial-diz-henry-kissinger), ex-secretário de Estado norte-americano, segundo o qual vivemos
um “período épico” no qual “o desa o histórico para os líderes é o de gerenciar a crise enquanto
construímos o futuro”. Em um tênue equilíbrio entre o emergencial e o estrutural, as medidas
tomadas de imediato in uenciarão as condições objetivas do futuro pós-pandemia, um futuro
em disputa (https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-08/o-futuro-pos-coronavirus-ja-esta-em-
disputa.html?event_log=oklogin&o=cerrbr&prod=REGCRARTBR), como alertam numerosos
analistas. (https://outraspalavras.net/videos/que-mundo-vira-depois-da-pandemia/)

Pela  extrema direita, campo ideológico que ascendeu recentemente ao poder institucional no
Brasil e em vários países no vácuo de legitimidade criado pela crise da hegemonia neoliberal,
apresenta-se o caminho que nos levaria ao aprofundamento do autoritarismo demagógico, do
capitalismo voraz de corte nacionalista e do salve-se quem puder na arena competitiva dos
mercados. Um segundo caminho, também à direita, aponta para a continuidade da democracia
liberal, justamente o estilo de gestão política que esgotou seu repertório de respostas frente à
acentuação da crise do neoliberalismo. Com auxílio da mídia corporativa, são esses os caminhos
que vêm hegemonizando os discursos no plano institucional e junto à opinião pública.

Na contra-hegemonia, estão as forças progressistas. Em grandes traços, elas também poderiam


ser identi cadas em dois grandes blocos. De um lado, está a aposta na possibilidade de
conciliação entre a gestão neoliberal com políticas redistributivas, sem que para isso realize
reformas estruturais necessárias para uma substancial alteração nas relações entre o capital e o
trabalho. Uma conciliação tensa, por alguns denominada de neo-desenvolvimentista, que se
sustentou politicamente em vários países latino-americanos no período de excepcional
desempenho da economia puxado pela exportação de commodities agrícolas e minerais. Do

outro lado, apresentam-se forças que questionam a democracia liberal, lutando pelo
TOP
aprofundamento de uma democracia econômica (http://diplomatique.org.br/review/democracia-

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economica-um-passeio-pelas-teorias/) assegurada por um Estado garantidor de direitos e


assentada em valores da solidariedade e da cooperação em defesa dos bens comuns e da
sustentabilidade ecológica.

O avanço de valores e práticas de uma esquerda democrática comprometida com o cuidado


ambiental dependerá fundamentalmente da capacidade de articulação de lutas populares neste
momento em que atravessamos o túnel escuro da pandemia sem saber o que encontraremos na
saída. São exatamente as lutas imediatas travadas nos territórios com o sentido de amenizar o
sofrimento humano causado pela crise do coronavírus
(https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,paraisopolis-cria-rede-de-solidariedade-para-conter-
danos-do-coronavirus,70003270413) as que poderão iluminar caminhos para a superação
da razão neoliberal (https://outraspalavras.net/sem-categoria/razao-neoliberal-dissolucao-da-
democracia-e-alternativas/), abrindo espaço para o desenvolvimento de instituições radicalmente
democráticas fundadas em práticas de solidariedade social e de cuidado com os bens comuns da
natureza.

Solidariedade como fundamento econômico 

Falar em aprofundamento da democracia e da generalização de práticas de economia solidária


nos tempos distópicos que correm pode parecer uma fuga numa utopia irrealizável. No entanto,
exatamente no momento em que uma pandemia atinge uma nação desgovernada por uma
extrema direita obscurantista, parcela importante da população se auto-organiza em redes locais
descentralizadas, acionando sua criatividade e seu espírito de cooperação para proliferar práticas
extraordinárias de solidariedade em todo o território nacional. Enquanto o governo federal
alimenta a paralisante polarização entre a gestão da economia e a da saúde pública, retardando
em semanas a efetivação de medidas de proteção social aprovadas no Congresso Nacional, as
redes de solidariedade da sociedade civil deixam claro que o cuidado com a vida e com o bem
estar individual e coletivo deve ser o objetivo central da economia
(https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/para-superar-a-pandemia-uma-economia-do-
cuidado/).

Em carta enviada aos movimentos sociais (https://youtu.be/MBGqVhK3jrE) no domingo de Páscoa


(12/04/2020), o Papa Francisco exaltou justamente o papel dessas redes invisíveis que se
multiplicam no Brasil e no mundo. “Se a luta contra a Covid é uma guerra”, disse Francisco, “vocês
são um verdadeiro exército invisível que luta nas mais perigosas trincheiras. Um exército cujas
armas são a solidariedade, a esperança e o sentido de comunidade que rebrota nesses dias em
que ninguém se salva só. Vocês são para mim verdadeiros poetas sociais, que das periferias
esquecidas criam soluções dignas para os problemas mais prementes dos excluídos”.

Engana-se, porém, quem entende a solidariedade como um valor acionado somente nos
momentos de crise. Não fossem as práticas cooperativas próprias da economia solidária
disseminadas no cotidiano de nossas sociedades, o “moinho satânico” dos mercados capitalistas
(na certeira imagem criada por Karl Polanyi) já haveria conduzido a humanidade à completa
barbárie. Não nos referimos aqui às expressões efêmeras de solidariedade corporativa. Por
importantes que sejam, essas ações de caridade pontual tendem a passar junto com a crise, não
sem antes receberem sua contrapartida em termos de marketing empresaria TOP
(https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/04/14/solidariedade-sa-conheca-acoes-

https://racismoambiental.net.br/2020/05/01/agroecologia-ou-colapso-1-por-paulo-petersen-e-denis-monteiro/ 5/15
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solidarias-de-empresas-e-empresarios-durante-a-pandemia.ghtml)l. Enquanto isso, as formas


permanentes e difusas de solidariedade social seguirão ativas, embora invisibilizadas pelas
mídias corporativas, reprodutoras da retórica própria da ortodoxia neoliberal. 

Romper essa hegemonia é um desa o de primeira ordem para que práticas de economia
solidária na defesa dos comuns sejam socialmente reconhecidas e, se necessário, desenvolvidas
com o apoio decisivo das políticas públicas. Mulheres organizadas em movimentos feministas
denunciam uma das expressões mais eloquentes dessa combinação paradoxal entre a
onipresença e a invisibilidade das práticas de solidariedade responsáveis pela manutenção das
sociedades modernas. Ao jogar luzes sobre o papel determinante dos trabalhos de cuidados e
domésticos (https://outraspalavras.net/outrasmidias/cuidar-trabalho-invisivel-agora-
escancarado/) nos circuitos de reprodução do capital, a crítica da economia feminista
(https://outraspalavras.net/feminismos/hora-de-outro-modelo-a-economia-feminista/) ao
capitalismo revela o indispensável lugar dessas atividades não remuneradas exercidas
predominantemente pelas mulheres.

De forma análoga aos movimentos feministas anti-sistêmicos (https://outraspalavras.net/crise-


civilizatoria/pandemia-reproducao-e-comuns/), a maior categoria pro ssional do mundo
contemporâneo, a agricultura familiar camponesa
(http://revistacarbono.com/artigos/04agricultura-camponesa-paulopetersen/), também associa
suas lutas por emancipação sociopolítica à luta contra a invisibilidade das práticas de trabalho
solidário intrínsecas ao seu modus operandi econômico. Previsões relacionadas a um inevitável
desaparecimento do campesinato diante do avanço do capitalismo nos campos são reiteradas
desde o século 19 por teóricos liberais e marxistas. Em grande medida, essa quase unanimidade
explica porque até hoje os modos de produção e reprodução da agricultura familiar camponesa
sejam tão mal compreendidos e desvalorizados, embora, como aqui defendemos, sejam pilares
indispensáveis para a sustentação das economias dinâmicas, democráticas e sustentáveis de que
necessitaremos no futuro. 

Felizmente, passado mais de um século de aberta hostilidade política e econômica de governos


situados em todas as posições do espectro ideológico, a agricultura camponesa permanece entre
nós, contrariando as teorias econômicas dominantes, obcecadas pelo viés produtivista das
economias de escala e pela ideia de crescimento. E não cabe dúvida que o mundo estaria muito
pior se ela houvesse de fato desaparecido. Como bem identi cou Teodor Shanin
(https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2020/02/teodor-shanin-mpa-perde-um-amigo-e-
apoiador-da-luta-camponesa/), notório pensador campesinista recém falecido, “dia após dia, os
camponeses fazem os economistas suspirarem, os políticos suarem e os estrategistas
praguejarem, malogrando seus planos e profecias em todos os lugares do mundo”. 

Em âmbito mundial, estamos falando de 2 bilhões de seres humanos envolvidos cotidianamente


na produção de comida, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação – FAO. No Brasil, segundo o último censo agropecuário (dados de 2017 só
divulgados em 2019), cerca de 10 milhões de agricultores e agricultoras familiares  representam
67% da ocupação no setor agropecuário e respondem pela parcela majoritária dos alimentos que

chegam às nossas mesas (https://www.youtube.com/watch?v=4iPd67msH1k), em que pese o fato
TOP
de disporem tão somente de 23% das terras agrícolas.

Qualidades econômicas a serem politicamente promovidas 


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A imensa capacidade da agricultura familiar camponesa de perseverar em um mundo


crescentemente hostil à sua existência revela uma das qualidades centrais a serem fortalecidas
nos sistemas econômicos do futuro: a resiliência. Resiliência que é mais uma vez colocada à
prova durante a pandemia, quando agricultores e agricultoras familiares seguem trabalhando em
silêncio, prestando um serviço vital para a sociedade, enquanto a economia é virtualmente
paralisada pela necessidade do distanciamento social. De onde vem essa virtude da economia
camponesa? Como reproduzi-la no conjunto do sistema econômico? 

Questões como essa têm motivado nos últimos anos uma prolí ca produção intelectual nas
ciências sociais, sobretudo entre economistas. O eixo comum que uni ca esse amplo e crescente
campo de economistas rebeldes (https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/eis-os-economistas-
rebeldes/) é a necessidade de superação do “pensamento único”, imposto a partir do auto-
intitulado “consenso de Washington”, para dar verniz cientí co à narrativa legitimadora da
hegemonia neoliberal. É evidente que as ideias contra-hegemônicas não ganham terreno na
sociedade somente por suas virtudes, mesmo quando carregam promissoras respostas a crises
profundas como a que atravessamos. Considerando que o funcionamento da economia é
regulado pelos pactos estabelecidos na sociedade e não por mecanismos teóricos relacionados a
supostos equilíbrios nos mercados, tal como reza a cartilha neoliberal, o desa o de construção
de alternativas econômicas efetivas se desloca para o plano político. 

Daí a relevância da iniciativa do Papa Jorge Bergoglio de propor, em maio de 2019, um amplo
movimento mundial para re exão sobre alternativas ao pensamento e às políticas neoliberais. Ao
articular jovens ativistas de todo o mundo com economistas críticos, sendo alguns ganhadores
do Nobel, a re exão proposta vai além da dimensão estritamente técnica da ciência econômica
para que os fundamentos éticos que dão sustentação ao sistema dominante sejam também
questionados. Não fosse a pandemia, esse processo descentralizado de re exão crítica teria
convergido para o evento intitulado “Economia de Francisco”, originalmente programado para os
dias 26 e 29 de março na cidade italiana de Assis, onde viveu o frade que se despojou de sua
riqueza para se solidarizar com os mais pobres e com os outros seres da natureza. 

Recuperar a solidariedade como valor vertebrador dos sistemas econômicos do futuro é a


mensagem que o Francisco papa de hoje quer resgatar do Francisco frade do século XIII. Para
coordenar essas re exões no Brasil, formou-se a Articulação Brasileira para Economia de
Francisco  (https://ecofranbr.org/)(ABEF), cujos debates resultaram na contribuição brasileira a
ser levada à Assis, a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara
(http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/594766-carta-de-clara-e-francisco-direto-do-brasil-para-o-
encontro-mundial-em-assis). No bojo dos debates que conduziram à carta, a ABEF entendeu que
“para as novas economias no século XXI, masculino e feminino têm que caminhar lado a lado,
ombreados, nem à frente nem atrás, mas de mãos dadas, como o “Irmão Sol” e a “Irmã Lua”.
Economia de Francisco e Clara é o que pretendemos praticar e honrar”. 

A agricultura familiar camponesa é apresentada na carta como uma das principais expressões
vigentes de economia social e solidária a serem reconhecidas e desenvolvidas pelas políticas
públicas. Ao contrário da racionalidade econômica capitalista, orientada para a extração e a

apropriação privada da riqueza gerada pelo trabalho alheio, na agricultura familiar é a própria
TOP
família, enquanto uma micro-comunidade econômica, aquela que aciona o capital mobilizado
pelo seu processo de trabalho. Por ser simultaneamente trabalhadora e proprietária dos meios

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de produção, ela depende da preservação do seu patrimônio produtivo. Isso implica uma
racionalidade peculiar de gestão técnico-econômica voltada à otimização a longo prazo das
rendas geradas pelo seu trabalho, diferindo diametralmente dos critérios da empresa capitalista,
estruturada essencialmente para a obtenção de lucros no curto prazo.

Apostar nas qualidades da agricultura familiar


(http://aspta.org.br/ les/2014/02/Agriculturas_Caderno_Debate-N01_Baixa.pdf), em síntese,
signi ca fortalecer sistemas alimentares fundados em economias redistributivas e regenerativas,
tal como sugere Kate Raworth, em seu livro Economia Donut
(https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/economia-da-rosquinha-uma-proposta-para-o-
seculo-21/): uma proposta para o século 21. Signi ca cultivar agentes econômicos socialmente
propensos à solidariedade intra e intergeracional. Signi ca gerar postos de trabalho digni cantes
dedicados à produção de comida em quantidade e diversidade para o abastecimento do
conjunto da população com alimentação saudável. Signi ca reduzir drasticamente as emissões
de gases de efeito estufa e promover sistemas alimentares com maior capacidade de adaptação
às já inexoráveis mudanças climáticas. Signi ca, nalmente, desarticular o poder de controle
de grandes corporações do agronegócio (http://www.ipes-
food.org/_img/upload/ les/tbtf_internet_quality_spanish%281%29.pdf) sobre os circuitos que
encadeiam globalmente a produção, o processamento, a distribuição e o consumo de alimentos. 

(continua)

Foto: Júlia Rohden

agroecologia concepção de mundo direito à luta


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“Amanhã sentirei saudades, hoje só consigo sentir


dor, indignação e revolta”
(https://racismoambiental.net.br/2020/04/30/amanha-
sentirei-saudades-hoje-so-consigo-sentir-dor-
indignacao-e-revolta/)

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Isto se (https://racismoambiental.net.br/2020/05/01/isto-
chama se-chama-genocidio-por-michael-lowy/)
genocídio.
Por
Michael
Löwy*

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