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PÁSCOA JUVENIL AGOSTINIANA 2020

QUINTA-FEIRA SANTA

CRISTO VIVE NO AMOR E NO SERVIÇO

QUE É O AMOR?
O amor e a máscara
Se nos dessem para escolher um símbolo para o amor verdadeiro e outro
para o amor falso e as hipóteses de escolha forem um coração e uma
máscara, sem dúvida escolhíamos o coração para o amor verdadeiro e a
máscara para o amor falso.

Mas se hoje mos colocassem estas duas imagens para simbolizar o


verdadeiro amor e o falso amor, que imagem, qual seria a nossa escolha
para simbolizar o amor autêntico e o falso amor? O abraço pode se tornar
uma irresponsabilidade, o beijo uma condena, uma traição e a máscara um
compromisso para proteger os outros.

Hoje vamos falar do amor e do serviço, e a vida deu-nos agora uma


perspetiva diferente daquela que tínhamos por costume e que nos ajuda a
aprofundar muito mais no tema.

—1—
A definição do dicionário
Se formos buscar uma definição do amor ao dicionário, encontramos algo
assim:
Amor (ô) s. m.
1. Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a
pessoa pela qual se sente afeição ou atração; grande afeição ou
afinidade forte por outra pessoa (ex.: amor filial, amor materno). =
afeto ≠ ódio, repulsa
2. Sentimento intenso de atração entre duas pessoas. = paixão
3. Ligação afetiva com outrem, incluindo geralmente também uma
ligação de cariz sexual (ex.: ela tem um novo amor; anda de amores
com o colega). (Também usado no plural.) = caso, namoro,
relacionamento, romance
4. Ser que é amado.
5. Disposição dos afetos! para querer ou fazer o bem a algo ou alguém
(ex.: amor à humanidade, amor aos animais). ≠ desprezo,
indiferença.

—2—
SANTO AGOSTINHO E O AMOR.
O amor define o que somos
Santo Agostinho fala muito no amor, mas, de facto, não dá uma definição
taxativa do amor. Mais do que definir o amor, santo Agostinho diz que é o
amor o que define a nossa vida para bem ou para mal. Se amarmos bem, a
nossa vida será boa; se amarmos mal, a nossa vida não prestará.
Para Santo Agostinho, o verdadeiro amor só pode acontecer entre sujeitos
porque o que não pode faltar no amor são Amante e Amado ou Amada, a
pessoa que ama e a pessoa que é amada. Está claro que no verdadeiro
amor, o habitual é as pessoas assumirem ambos os papéis. Mas Deus ensina
que o mais importante é ser amante, aquele que ama, sem esperar nada
em troca.
O amor não é um acaso que acontece porque sim, é uma relação entre
pessoas livre e consciente, no caso do bom amor.
O amor, diz santo Agostinho, tem um lugar central na nossa vida. Por isso é
importante conhecer o que amamos e quem amamos. Amas Deus? Então
irás sentir a necessidade de conhecer Deus. Ora bem, por muitas coisas que
chegues a conhecer de Deus, o conhecimento frio não é mesma coisa do
que o amor. O conhecimento do que amamos fortalece e complementa o
amor, mas não o substitui.
É verdade que o amor define a nossa vida, mas não se fica por aí. O amor
nos define a nós mesmos: somos o que amamos. Como podes saber o que
amas? Não olhes tanto para o que dizes (eu gosto muito disto, eu gosto
muito daquilo) mas olha para o que fazes.
Por isso, santo Agostinho nos lembra que é cristão só aquele que age com
amor.
O amor é compassivo
Santo Agostinho afirma que há muitas formas de amar, mas em todo o
amor não pode faltar a compaixão. A compaixão é muito mais do que ter
pena de alguém. É sentir no coração a situação do outro, sim, mas também
é sentir uma profunda solidariedade com a pessoa porque reconhece
humildemente que afinal todos somos iguais.

—3—
O exemplo de Deus
O maior exemplo de coração misericordioso é Deus. «Foste ao nosso
encontro para que nós saíssemos à tua procura», diz santo Agostinho. E ao
sair ao encontro de Deus é que o podemos conhecer.
«Deus faz-se humilde por causa de ti» (Comentário ao Evangelho de São
João, 25, 16), diz santo Agostinho. O lava-pés, que Roma pediu para hoje
não fazermos na celebração, não é um sinal de humilhação, mas sim de
amor e serviço. Ainda que hoje não haja lava-pés na celebração, era bom
lavarmos os pés, entre outras coisas, porque as pessoas que estão ao pé de
nós ficarão agradecidas com certeza. É um gesto de amor que redunda no
bem-estar dos outros. É u serviço humilde que fazemos aos outros. «Dei-
vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também»(Jo 13,15),
disse Jesus aos discípulos, diz-nos Jesus também a nós.
A humidade de Deus é tal que santo Agostinho, que tem palavras para
tantas coisas, não consegue expressar. Por isso ele faz um convite:
«Seja o Senhor quem vos explique interiormente. Quem habita dentro de ti
sabe expressar o amor muito melhor que qualquer um de nós a gritar desde
fora de ti. Aquele que começou a habitar nos vossos corações seja quem
vos descubra a graça da sua humildade» (Comentário ao Evangelho de São
João, 3, 15)
As obras de misericórdia
Tradicionalmente é ensinado que existem 14 obras de misericórdia1. Santo
Agostinho reduz as obras de misericórdia à esmola. Ele lembra-nos que
esmola é uma palavra de origem grega e que significa misericórdia. A
misericórdia é a atitude daquele que tem um coração misericordioso. O
contrário dum coração misericordioso é um coração duro. Mas um coração
misericordioso não é um coração mole e sim um coração forte, capaz de
reagir. O amor é a chave para a misericórdia, e a misericórdia é a porta que
nos leva a transformar o mundo. E o primeiro a ser mudado somos nós
mesmos.

1
Obras Corporais: 1ª Dar de comer a quem tem fome; 2ª Dar de beber a quem tem sede; 3ª Vestir os nus;
4ª Dar pousada aos peregrinos; 5ª Assistir aos enfermos; 6ª Visitar os presos; 7ª Enterrar os mortos.
Obras Espirituais: 1ª Dar bons conselhos; 2ª Ensinar os ignorantes 3ª Corrigir os que erram; 4ª Consolar
os tristes; 5ª Perdoar as injúrias; 6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; 7ª Rogar a
Deus por vivos e defuntos.

—4—
Santo Agostinho convida-nos a exercer a esmola, a misericórdia connosco
mesmos: «Compadece-te da tua alma agindo de forma agradável a Deus»
(Sermão 106,4). Porque é que agir conforme a vontade de Deus é uma
esmola, uma dádiva, um dom para nós? Porque quando ages em
conformidade com o que és, cresces e te fortaleces como pessoa, é mais tu
mesmo.
Tu és irmão dos outros e quanto menos viveres como irmão, serás menos
tu, serás menos pessoa, serás mais banal.
«A esmola é mais do que uma ação puramente económica, e mais do que
um gesto de generosidade desprendida, é uma opção de vida que quer que
o amor de Deus e do próximo ocupe o 1º lugar no coração. Todo o cristão
tem de se tornar esmola para os outros»2.

O SERVIÇO DA MISERICÓRDIA NOS DIAS DE HOJE


Há muitas formar de operacionalizar a esmola, a misericórdia, de viver o
amor de maneira prática. O Papa Francisco lança muitas pistas na sua
Exortação aos Jovens Cristo Vive!
Ontem, quarta-feira, foi publicada uma entrevista ao Papa com motivo da
situação que estamos a viver. O Papa salienta a importância e o valor dos
«servidores essenciais», aqueles que que nos permitem lutar contra a
pandemia: os médicos, os enfermeiros, os funcionários dos hospitais, os
polícias… Mas também podemos alargar o leque aos serviços de limpeza,
aos empregados dos supermercados, aos fornecedores, aos agricultores…
Aqueles que nunca foram muito considerados antes da pandemia mostram-
se como essenciais. E todos somos testemunhas de que eles estão a cumprir
as suas funções com espírito de generosidade e sem reclamar tais ou quais
direitos económicos que habitualmente – e agora também- não são
respeitados. Contudo, eles agora estão focados em dar o melhor serviço.
O Papa salienta especialmente a todos os agentes da saúde, e reconhece
neles os heróis desta pandemia. Eles são, diz o Papa, os santos da porta ao
lado, aqueles aos que não vemos fazer milagres sobrenaturais mas que

2
J. GARCÍA ÁLVAREZ, Misericordia en S. Agustín, in Ser misericordiosos. Solo la misericordia puede cambiar
el mundo. XVIII Jornadas Agustinianas, Guadarrama 2016, pp.105-199, p. 173.

—5—
conseguem fazer do seu trabalho ordinário um testemunho extraordinário
de humanidade, de compromisso com os outros, de amor.
A situação que vivemos agora facilita que vejamos a sociedade como uma
comunidade, onde uns cuidam dos outros, onde as pessoas sentem a
responsabilidade por si e pelos outros, onde as irresponsabilidades de
alguns repercutem no mal de todos. Assim acontece em todas as
comunidades: a sociedade, a paróquia, o grupo, a JAP…

ALGUMAS QUESTÕES PARA A REFLEXÃO

Quais são as coisas das quais realmente gosto?


Que situações já me fizeram desistir duma amizade?
Como é a tua relação com Deus?
Que parte considero mais complicada para me entregar de todo
aos demais?
Como vejo as pessoas na situação atual?
Como vejo a sociedade?
Como vejo a Igreja?
Como vejo o meu grupo?

—6—
ALGUNS TEXTOS DE APOIO.
[TEXTO 1] Um Deus que é amor
112. Eis a primeira verdade que quero dizer a cada um: «Deus ama-te». Mesmo que já
o tenhas ouvido – não importa! –, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto
na tua vida, aconteça o que acontecer. Em toda e qualquer circunstância, és
infinitamente amado.
113. Talvez a experiência de paternidade que tiveste não seja a melhor: o teu pai terreno
talvez se tenha mostrado distante e ausente ou, pelo contrário, dominador e possessivo;
ou simplesmente não foi o pai que precisavas. Não sei! Mas o que posso dizer-te com
certeza é que podes lançar-te, com segurança, nos braços do teu Pai divino, do Deus que
te deu a vida e continua a dá-la a cada momento. Sustentar-te-á com firmeza e, ao
mesmo tempo, sentirás que Ele respeita completamente a tua liberdade.
114. Na sua Palavra, encontramos muitas expressões do seu amor. É como se Ele
estivesse procurando maneiras diferentes de to manifestar para ver se, com alguma
dessas palavras, pode chegar ao teu coração. Por exemplo, às vezes apresenta-Se como
aqueles pais carinhosos que brincam com seus filhos: «Segurava-os com laços humanos,
com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu
rosto» (Os 11, 4).
Há vezes em que Se apresenta repleto daquele amor com que as mães amam
sinceramente os seus filhos, com um amor entranhado que é incapaz de esquecer ou
abandonar: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo
fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria» (Is
49, 15).
Mostra-Se até como um enamorado que chega a tatuar na palma da sua mão a pessoa
amada, para poder ter o seu rosto sempre perto: «Eis que Eu gravei a tua imagem na
palma das minhas mãos» (Is 49, 16).
Outras vezes destaca a força e a firmeza do seu amor, que não se deixa derrotar: «Ainda
que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será
abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará» (Is 54, 10).
Ou então diz-nos que desde sempre nos esperou, não aparecemos neste mundo por
acaso. Já antes de existirmos, éramos um projeto do seu amor: «Amei-te com um amor
eterno. Por isso, dilatei a misericórdia para contigo» (Jr 31, 3).
Faz-nos notar que Ele sabe ver a nossa beleza, aquela que ninguém mais pode
individuar: «És precioso aos meus olhos, te estimo e te amo» (Is 43, 4).
Ou leva-nos a descobrir que o seu amor não é triste, mas pura alegria que se renova
quando nos deixamos amar por Ele: «O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como
poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele
dança e grita de alegria por tua causa» (Sf 3, 17).

—7—
115. Para Ele, és realmente valioso; tu não és insignificante. Importa-Se contigo, porque
és obra das suas mãos. Por isso, presta atenção e lembra-Se de ti com carinho. Precisas
de confiar «na recordação de Deus: a sua memória não é um “disco rígido” que grava e
armazena todos os nossos dados, a sua memória é um coração terno e rico de
compaixão, que se alegra em eliminar definitivamente todos os nossos vestígios de
mal».3 Não quer guardar a conta dos teus erros e, em todo o caso, ajudar-te-á a aprender
alguma coisa também com as tuas quedas. Porque te ama. Procura ficar um momento
em silêncio, deixando-te amar por Ele. Procura calar todas as vozes e alarido interior, e
para um momento nos seus braços amorosos.
116. É um amor «que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza, não
obriga a estar calado nem silencia, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do
Senhor: amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade,
amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos que
de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que
de condenar, mais de futuro que de passado».4
117. Quando te pede alguma coisa ou simplesmente permite os desafios que a vida te
apresenta, Deus espera que Lhe dês espaço para fazer-te avançar, promover-te, deixar-
te mais amadurecido. Não Se aborrece, se O questionas; aquilo que O preocupa é que
tu não Lhe fales, que não te abras sinceramente ao diálogo com Ele. Conta-se na Bíblia
que Jacob teve uma luta com Deus (cf. Gn 32, 25-31), sem que isso o afastasse do
caminho do Senhor. De facto, é Ele próprio que nos exorta: «Vinde agora, entendamo-
nos» (Is 1, 18). O seu amor é tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona
uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo. Enfim, procura o abraço do teu Pai do
céu no rosto amoroso das suas corajosas testemunhas na terra!
PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Cristo Vive (25-03-2019), n. 112-117.
[TEXTO 2] A chamada à amizade com Ele
250. O ponto fundamental é discernir e descobrir que aquilo que Jesus quer de cada
jovem é, antes de tudo, a sua amizade. Este é o discernimento fundamental. No diálogo
do Senhor ressuscitado com o seu amigo Simão Pedro, a pergunta importante era:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?» (Jo 21, 16). Por outras palavras: Amas-Me como
amigo? A missão que Pedro recebe de cuidar das ovelhas e cordeiros de Jesus estará
sempre ligada com este amor gratuito, este amor de amigo.
251. E, se fosse necessário um exemplo de sentido contrário, recordemos o encontro-
desencontro do Senhor com o jovem rico, que nos mostra claramente como aquilo que
aquele jovem não percebeu foi o olhar amoroso do Senhor (cf. Mc 10, 21). Depois de ter
seguido uma boa inspiração, foi-se embora triste, porque não conseguiu separar-se das
muitas coisas que possuía (cf. Mt 19, 22). Perdeu a ocasião daquela que poderia

3
Francisco, Homilia na Eucaristia da XXXI Jornada Mundial da Juventude (Cracóvia 31 de julho de 2016):
AAS 108 (2016), 923.
4
Francisco, Discurso na Cerimónia de Acolhimento e Abertura da XXXIV Jornada Mundial da Juventude
(Panamá 24 de janeiro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 29/I/2019), 9-10.

—8—
certamente ter sido uma grande amizade. E ficamos sem saber o que poderia ter sido
para nós, o que poderia ter feito pela humanidade, aquele jovem único a quem Jesus
olhou com amor e estendera a mão.
252. Com efeito, «a vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida
que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é
uma salvação suspensa “na nuvem” – no disco virtual – à espera de ser descarregada,
nem uma nova “aplicação” para descobrir ou um exercício mental fruto de técnicas de
crescimento pessoal. Nem a vida que Deus nos oferece é um “tutorial” com o qual
apreender as últimas novidades. A salvação, que Deus nos dá, é um convite para fazer
parte duma história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e
quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos.
Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo».5
PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Cristo Vive (25-03-2019), n. 250-252.

[TEXTO 3] Os santos ao pé da porta


6. Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito
Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque
«aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer
ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O
servisse santamente».6 O Senhor, na história da salvação, salvou um povo. Não há
identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como
indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações
interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa
dinâmica popular, na dinâmica dum povo.
7. Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos
com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa,
nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de
continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas
vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo
da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade».7
8. Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através
dos membros mais humildes deste povo que «participam também da função profética
de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade».8
Como nos sugere Santa Teresa Benedita da Cruz, pensemos que é através de muitos
deles que se constrói a verdadeira história: «Na noite mais escura, surgem os maiores
profetas e os santos. Todavia a corrente vivificante da vida mística permanece invisível.

5
Francisco, Discurso na Vigília da XXXIV Jornada Mundial da Juventude (Panamá 26 de janeiro de 2019):
L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 05/II/2019), 6.
6
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 9.
7
Cf. Joseph Malègue, Pierres noires. Les classes moyennes du Salut (Paris 1958).
8
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.

—9—
Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente
influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais
sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida
pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o está oculto for revelado». 9
9. A santidade é o rosto mais belo da Igreja. Mas, mesmo fora da Igreja Católica e em
áreas muito diferentes, o Espírito suscita «sinais da sua presença, que ajudam os
próprios discípulos de Cristo».10 Por outro lado, São João Paulo II lembrou-nos que o
«testemunho, dado por Cristo até ao derramamento do sangue, tornou-se património
comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes».11 Na sugestiva
comemoração ecuménica, que ele quis celebrar no Coliseu durante o Jubileu do ano
2000, defendeu que os mártires são «uma herança que fala com uma voz mais alta do
que os fatores de divisão».12
PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (19-03-2018), n. 6-9.

9
Vida escondida y epifanía: Obras Completas, V (Burgos 2007), 637.
10
São João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), 56: AAS 93 (2001), 307.
11
Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994), 37: AAS 87 (1995), 29.
12
Homilia na Celebração ecuménica das testemunhas da fé do século XX (7 de maio de 2000), 5: AAS 92
(2000), 680-681.

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