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Disciplina: Interpretação Bíblica da História

Unidade: 2
Aluno: Joyce de Souza Ferreira de Oliveira

2.300 tardes e manhãs


“E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será
purificado.” Daniel 8:14

O período profético proposto em Daniel 8:14 tem sido interpretado, em uma


linha historicista, pelo princípio dia-ano. Tal princípio encontra em duas passagens
bíblicas razões para identificar, dentro de uma profecia, um dia como equivalente a
um ano.
Esse princípio foi utilizado por Deus ao determinar os anos de peregrinação
do povo de Israel pelo deserto: “Segundo o número dos dias em que espiastes esta
terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas
iniquidades quarenta anos, e conhecereis o meu afastamento” (Números 14:34).
O mesmo princípio foi citado na profecia que Deus deu ao profeta Ezequiel:
“E, quando tiveres cumprido estes dias, tornar-te-ás a deitar sobre o teu lado direito,
e levarás a iniquidade da casa de Judá quarenta dias; um dia te dei para cada ano”
(Ezequiel 4:6).
A utilização de tal princípio tem encontrado questionamento pelo fato de ser
tomado para interpretar alguns textos e não para outros. Por exemplo, mesmo
dentro do livro de Daniel, entende-se que os setenta anos citados em Daniel 9:2
devem ser interpretados literalmente e não profeticamente. Por que, então, tomar o
período proposto em Daniel 8:14 como 2.300 anos?
Ainda que não seja único nem suficiente para embasar toda a aplicação do
princípio dia-ano, um argumento que auxilia nessa justificativa é o de que toda a
visão dada em Daniel 8 está em miniatura e, portanto, o período também deve estar
miniaturizado na visão (TIMM, 2004). Entende-se por miniaturização o fato de que
símbolos menores são utilizados para representar realidades maiores, como animais
representando nações ou reinos. Se em Daniel 8, um carneiro pode representar o
grande império Medo-Persa, o período de tempo ali registrado também deve se
referir a algo maior.
Quando o texto cita “2.300 tardes e manhãs” retoma a forma literária de
Gênesis 1 para representar cada dia da criação: “E Deus chamou à luz Dia; e às
trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro” (Gênesis 1:5). Por
isso, literariamente entendemos que 2.300 tardes e manhãs são 2.300 dias. E
profeticamente, entendemos que esses 2.300 dias se referem a 2.300 anos reais.
E quando teria começado e terminado esse período? Essas e outras
perguntas sobre a visão atormentaram o profeta Daniel que enfraqueceu e esteve
enfermo “por alguns dias” (Daniel 8:27). No capítulo 9, o profeta relata que um anjo
foi enviado para “fazer entender o sentido” (verso 22). O anjo passa a relatar
diversos tempos proféticos que poderão ser identificados como parte dos 2.300
anos. E, entre essas explicações, apresenta o marco para o início do período
profético: “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a
Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas
semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos” (Daniel
9:25).
Muitas posições há sobre qual decreto corresponderia à “ordem para
restaurar e para edificar Jerusalém”, que não caberiam a essa proposta. Tomamos,
como sugeriu o enunciado, o ano de 457 a.C., data em que Artaxerxes I ratificou o já
decretado por Ciro e Dario no tocante a reconstrução de Jerusalém, dando agora
condições para que realmente fosse reedificada.
Considerado este início, somando-se os 2.300 anos, chegaríamos ao ano
1843 (2.300-457=1843; subtraem-se os 457 anos, posto que estão na linha do
tempo no período chamado a.C.). Tal forma de contagem, no entanto, está incorreta,
pois à época da execução do citado decreto, já tinha transcorrido ¾ do ano de 457
a.C. "Portanto, a data é 457 a.C, mas o número de anos é 456 completos mais 1/4
de 457, que ainda faltava transcorrer”, o que empurraria seu resultado para “outubro
de 1844” (Cálculo das 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14, [20--].
Utilizando o Google como site de pesquisa para a pergunta: “O que
aconteceu em outubro de 1844?”, o resultado em destaque é o artigo na Wikipédia
para “Dia do Grande Desapontamento”. O artigo explica como os mileritas
aguardaram com base na profecia de Daniel que Jesus voltasse em 22 de outubro
de 1844.
“Miller baseou seus estudos da volta de Jesus em 1844 numa crença
popular que dizia na época que "a terra era o santuário de Deus". Quando ele
interpretou no livro de Daniel "purificação do santuário" concluiu
erroneamente que seria a purificação da terra. Após o Desapontamento
alguns poucos reestudaram as profecias e entenderam que o Santuário a que
se referia o livro de Daniel era o Santuário Celestial. Com outros demais
estudos bíblicos é que em 1863 originou-se a Igreja Adventista do Sétimo Dia
e também outros grupos.” (DIA DO GRANDE DESAPONTAMENTO, 2019).

O entendimento correto da profecia de 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14


é, portanto, essencial à crença de que um evento ocorreu no Santuário Celestial no
ano de 1844.

CÁLCULO DAS 2.300 TARDES E MANHÃS DE DANIEL 8:14. In: Bíblia.com.br, [20--].
Disponível em: https://biblia.com.br/perguntas-biblicas/por-que-o-periodo-profetico-2300-
tardes-e-manhas-se-inicia-em-457-a-c-como-encontrar-isso-na-biblia/ Acesso em 14
abr2020.

DIA DO GRANDE DESAPONTAMENTO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida:


Wikimedia Foundation, 2019. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?
title=Dia_do_Grande_Desapontamento&oldid=56532320>. Acesso em: 14 abr 2020.

TIMM, A. R. Simbolização em miniatura e o princípio ‘dia-ano’ de interpretação profética.


Revista Parousia, 2004. Disponível em:
http://circle.adventist.org/files/unaspress/parousia2004023310.pdf Acesso em 14 abr 2020.