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MEC-EST

AS LEIS DE STEFAN-BOLTZMANN E WIEN

Prof: Luca Moriconi


Instituto de Fı́sica – UFRJ

Os dois resultados concretos mais importantes da termodinâmica do corpo-negro, na era pré-Planck, são as
leis de Stefan-Boltzmann e Wien. As deduções dessas leis demarcam o limite do que foi possı́vel alcançar,
usando apenas as ferramentas da termodinâmica e do eletromagnetismo clássico, sob a ignorância completa dos
fenômenos quânticos. São resultados fabulosos que serviram como um ponto de partida bem estabelecido e seguro
para a análise de resultados experimentais, bem como os trabalhos posteriores, audaciosos e revolucionários, de
Planck e Einstein.
A lei de Stefan-Boltzmann afirma que a densidade de energia total de um corpo negro é proporcional à quarta
potência da temperatura: u = aT 4 . A constante a não é determinada por argumentos clássicos. A lei de Wien,
por outro lado, estabelece que a densidade espectral de energia possui a seguinte forma: ρ(ν, T ) = ν 3 f (ν/T ),
onde f (ν/T ) é uma função que os argumentos clássicos, novamente, não são capazes de definir.

A Lei de Stefan-Boltzmann

Nossa motivação é estudar a termodinâmica do corpo negro, inspirados na teoria cinética dos gases. Assim,
imaginamos que analogamente ao que ocorre com moléculas, a reflexão de radiação eletromagnética nas pare-
des de um recipiente revestido internamente com material totalmente refletor seja responsável pela pressão
termodinâmica do corpo negro. Veja a Figura 1.

FIG. 1: Radiação refletida em uma parede imóvel do corpo negro.

Uma onda monocromática de frequência ν transporta momento linear p = U/c, onde U é a energia eletro-
magnética total. A colisão indicada na Figura 1, dessa forma, transfere momento 2p cos(θ) = 2U cos(θ)/c ao
longo da direção normal à parede. A pressão P (θ) que esta onda exerce sobre a parede é igual à duas vezes a
densidade de corrente de momento projetada na direção normal à parede, isto é:
U
P (θ) = 2 cos(θ) × [c cos(θ)] . (1)
Vc
Em um corpo negro, supondo isotropia, as reflexões ocorrerão em todas as direções do espaço com pesos iguais.
A pressão média exercida sobre a parede é, portanto,
2π π/2
1 U U u
Z Z
P = hP (θ)i = dφ dθ sin(θ) cos2 (θ) = = , (2)
2π V 0 0 3V 3

onde u é a densidade de energia eletromagnética da onda. Apesar do argumento ter sido desenvolvido para uma
única onda de frequência fixa, ele se aplica a todas as frequências e como a relação (2) é linear, vale também
para a pressão total do corpo negro.
De acordo com a primeira lei da termodinâmica,
   
1 P 1 ∂U 1 ∂U P
dS = dU + dV = dT + [ + ]dV . (3)
T T T ∂T V T ∂V T T
2

Consequentemente,
   
∂S 1 ∂U
= ,
∂T V T ∂T V
   
∂S 1 ∂U P
= + . (4)
∂V T T ∂V T T

Usando as relações anteriores, podemos escrever ∂ 2 S/∂T ∂V de duas maneiras diferentes, obtendo a seguinte
equação diferencial parcial (de validade geral na termodinâmica):
   
∂P 1 ∂U P
− − =0. (5)
∂T V T ∂V T T

Escrevendo, agora, que U = V u(T ) e usando que P = u/3, a Equação (5) nos dá

du u
=4 , (6)
dt T
cuja solução geral é u = aT 4 .

Lei de Wien

Suponha que uma das paredes do corpo negro seja puxada lentamente com velocidade uniforme v, como ilustrado
na Figura 2a. Devido ao efeito Doppler, a radiação refletida terá frequência ligeiramente menor do que aquela
associada à onda incidente. Considerando uma onda plana incidente de frequência ν, representada na figura
2b, seja δν(θ, φ) a variação de frequência devida à reflexão, como função dos ângulos θ e φ que parametrizam a
direção de incidência em coordenadas esféricas.

(a)

(b)

FIG. 2: Efeito Doppler associado ao movimento lento de uma parede do corpo negro.

De acordo com o eletromagnetismo clássico,


v
δν(θ, φ) = −2ν cos(θ) . (7)
c
Ao invés de pensarmos rigorosamente em uma onda plana monocromática, imaginemos, para estreitar a analogia
molecular, em um pacote de ondas, de frequência e direção de propagação razoavelmente bem definidas, com
dimensões muito menores do que as dimensões lineares do recipiente. Um sistema de N pacotes de ondas é,
dessa maneira, análogo a um gás de N moléculas de densidade N/V . O número médio de colisões de um pacote
de ondas, durante o intervalo de tempo ∆t, sobre a área total A da parede móvel é
1
c cos(θ)A∆t . (8)
V
3

Usando as Equações (7) e (8), o desvio médio de frequência, portanto, vem dado por
2π π/2
1 1 v δV
Z Z
δν = dφ dθ sin(θ) c cos(θ)A∆t × [−ν cos(θ)] = −ν , (9)
2π 0 0 V c 3V

onde δV = vA∆t é a variação de volume do recipiente durante o intervalo de tempo ∆t.


Seja ∆U a energia total dos pacotes de ondas de frequências entre ν e ν + ∆ν. Como o recipiente expande-
se adiabaticamente, δS = 0 e δ[∆U ] = −P δV = −∆U δV /3V (conferir a discussão anterior sobre a lei de
Stefan-Boltzamnn). Assim,

δ[∆U ] δV
=− . (10)
∆U 3V
Como ∆U = V ρ(ν, T )∆ν, obtemos, imediatamente,

δ[ρ∆ν] 4δV
=− . (11)
ρ∆ν 3V

Por outro lado, definindo a energia total do corpo negro como U , e levando em conta que δU = −U δV /3V com
U = aV T 4 , encontramos
δT δV
=− . (12)
T 3V
Devido ao efeito Doppler e a redução de temperatura causada pela expansão adiabática, o grupo de pacotes
de onda que contribui para a densidade de energia total com ρ(ν, T )∆ν irá contribuir, após o incremento de
volume δV , com (note que δν e δT são ambos negativos)

δν
ρ(ν + δν, T + δT )∆ν(1 + ). (13)
ν
Escrevemos, desprezando termos da ordem de (δν)2 e δνδT ,

δν
δ[ρ∆ν] = ρ(ν + δν, T + δT )∆ν(1 + ) − ρ(ν, T )∆ν
ν
δν ∂ρ ∂ρ
= [ρ + δν + δT ]∆ν
ν ∂ν ∂T
δν δν ∂ρ δT ∂ρ
= [ρ + ν + T ]∆ν . (14)
ν ν ∂ν T ∂T
Utilizando as relações (9), (11) e (12) para substituir as quantidades δν/ν, δ[ρ∆ν], e δT /T na Equação (14),
obtemos
∂ρ ∂ρ
ν +T = 3ρ . (15)
∂ν ∂T
Definindo, agora,
1 ρ
ψ= ln( 3 ) ,
3 ν
x = ln ν ,
y = ln T ,
(16)

re-escrevemos a Equação (15) como

∂ ∂
[ + ]ψ = 0 . (17)
∂x ∂y

A Equação (17), familiar na teoria de ondas, possui como solução geral ψ(x, y) = g(x − y), onde g(x) é uma
função arbitrária. Obtemos, portanto, ρ = ν 3 exp[3g(ν/T )], ou, equivalentemente,
ν
ρ(ν, T ) = ν 3 f ( ) , (18)
T
onde f (x) = exp[3g(x)].

***