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O Cruzeiro: revista síntese de uma época1.

ALVES, Marcelo. Graduação. Pontifícia Universidade Católica PUC - Rio.

Introdução

Antes de entrarmos nas décadas de 40 e 50, tempo este que levará a Revista O
Cruzeiro a seu auge, é importante darmos conta do processo de construção de nossa
imprensa. Não se trata aqui de aprofundar questões tão bem desenvolvidas por Isabel
Lustosa, Nelson Werneck ou Maria Beatriz Nizza, no que diz respeito ao
desenvolvimento da imprensa no Brasil. Através de um breve histórico tentaremos dar
conta das condições em que a imprensa se encontrava nestas décadas, principalmente
em relação a expansão e consolidação do periódico de Assis Chateaubriand..
Estas décadas são consideradas épocas de transição entre o período de guerras da
primeira metade do século XX e o tempo das revoluções comportamentais. O Brasil
vivia um momento pós- guerra e pós-ditadura varguista. O rádio tão eficiente, utilizado
como “arma” política, por todos os presidentes desde 30, passava a dividir na década
de 50 espaço com a televisão. Não que esta vá chegar a todos os lares, porém ao longo
desses dez anos irá se consolidar como meio de comunicação de massa, vindo a ser uma
das maiores propagadoras da chamada cultura de massa.
Segundo McLuhan a era eletrônica vai promover mudanças radicais na vida dos
seres humanos2.

Quanto aos meios de comunicação elétrica, a sua


instantaneidade, a velocidade com que a difusão das mensagens é
feita, o caráter massivo da sua recepção (difusão), não só permite a
partilha de experiências distantes e exóticas, como promove um novo
tipo de aproximação social, agora em larga escala

Entre 30 e os anos 50 a revista sobreviveu graças ao seu alcance junto à


população brasileira. Em suas capas estavam sempre estampadas personalidades muito
1
Titulo em referência ao texto publicado pela professora Marialva Barbosa da Universidade Federal
Fluminense (UFF) no sitio Ciberlegenda, 2002.
2
-POMBO, Olga. www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/mcluhan/estudo_mcl_olga

1
admiradas, verdadeiras celebridades. Seguindo o sucesso do rádio, a revista transforma
em imagem aquilo que as pessoas só ouviam. A construção imagética era um de seus
pontos altos.
Muitas de suas páginas eram ilustradas com cartum, caricaturas ou fotografia.
Vários foram os fotógrafos que passaram pela revista e contribuíram para o seu sucesso.
Se hoje vivemos em uma sociedade que hiper valoriza a imagem podemos dizer que “O
Cruzeiro” ajudou em muito nessa construção.
Os editores (gatekeepers) da revista somente publicavam reportagens, artigos e
textos literários com um alto grau de noticiabilidade. Os repórteres tinham a liberdade
de indicar pautas e desenvolvê-las. O que mais se praticava na revista era a união entre
redatores das matérias e um fotógrafo. Assim fora feito com a dupla David Nasser e
Jean Manzon. Um experiente reporte que chega a revista em 1943 e um dos mais
gabaritados fotógrafos, ex-funcionário da revista Macht.
Um dos principais prêmios do jornalismo brasileiro teve como ganhadores
iniciais os repórteres Mario de Moraes e Ubiratan Lemos. Os dois se aventuraram em
uma viagem de Salgueiro (Pernambuco) até Duque de Caxias ( Rio de Janeiro) junto a
um grupo de caminhões “paus-de-arara”. O ano de 1956 tornou-se um marco tanto
para o Esso quanto para a “O Cruzeiro”. Em primeiro lugar porque a revista mostrava
o quanto estava forte perante o mercado. Seu estilo a fazia reinar absoluta. Em segundo,
pelo fato de o Esso ser até hoje referência ao premiar o bom jornalismo, sendo
escolhido pela própria comunidade jornalística.
Hoje ”O Cruzeiro é referência para todos os estudantes de jornalismo do Brasil.
Nas diversas instituições de ensino de jornalismo a revista sempre é citada por conter
uma redação de tamanha proporção. O que só viria a ser superada com o
desenvolvimento da televisão. Muitos livros vêem a revista como “síntese de uma
época.

Expansão da palavra impressa no Brasil: alguns marcos

A história da imprensa no Brasil inicia-se com a vinda da Família Real para o


Brasil, com a criação da chamada Imprensa Régia. Esta, porém tinha muito mais caráter

2
administrativo do que de imprensa propriamente dita. Vale lembrar que as experiências
de se ter reproduzida na colônia uma idéia, fora totalmente descartada pelo controle
português.
No período colonial algumas experiências de impressão de idéias e ideais, estão
presentes nos experimentos de 1706, em Recife, onde Francisco de Castro instalou uma
pequena tipografia para impressão de letras de Cambio3 ou em 1746 no Rio de Janeiro,
em que foi escrito alguns trabalhos pelo português Antônio Fonseca como A relação da
entrada do bispo Antônio do Desterro. Ambos sofreram censura por parte da autoridade
real.
A partir da modernização da Universidade de Coimbra, a partir de 1750,
proposta por Marques de Pombal, ministro de Dom José I, percebendo que não poderia
conter o avanço das idéias propostas pelo movimento de ilustração. Muitos livros
“Proibidos” em Portugal começam a chegar a colônia. Livros escritos pelos chamados
representantes das luzes chegam até aqui sob forma de contrabando. Vários desses
escritos vão servir de base para a eclosão dos movimentos de contestação, propostas de
rompimento total do pacto colonial.
Inaugurando o período Joanino, temos o surgimento do periódico “O Correio
Braziliense” de Hipólito da Costa. Livre por ser editado e impresso fora dos domínios
reais, o jornal pode ser considerado um marco. Suas páginas registravam matérias,
artigos e escritos sobre política. Tinha como objetivo conquistar adeptos para sua
postura ideológica.
1808 representa, portanto um período de sistematização e institucionalização da
produção de papéis impressos. Porém, somente na década de 1820 surgem uma maior
circulação de material impresso, como folhetins, jornais e outros escritos.
Os movimentos políticos de 1820, tanto no Brasil quanto em Portugal (Revolta
do Porto), defendem uma maior liberdade de imprensa. Esse fato faz com que os papéis
avulsos tornem-se uma constante. Muitos jornais e folhetins são canais para o debate
político, sobre a continuidade ou não de Dom João no Brasil.
Com o retorno do rei a liberdade de imprensa sofre uma melhoria. Não dura
mais que alguns anos já que em 1824, Dom Pedro I, editando o Poder Moderador freia

3
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Ed. Civilização Brasileira. Rio de janeiro. 1966.

3
esse avanço4. Varias Perseguições afetam a liberdade de imprensa, embora o imperador
fosse vinculado ao grupo dos liberais.
O aumento da quantidade e qualidade dos periódicos que circulavam pelo
império do Brasil vai se dar com a abdicação, ou seja, a partir do dia sete de abril de
1831 inicia-se um marco. A entrada da palavra impressa no cotidiano torna-se mais
freqüente. Como havia poucos leitores, a prática da leitura era um habito. Também data
desse momento a melhoria na impressão.
Nesse momento temos um impulso na circulação de vários periódicos como
folhetins e Pasquins. Com fisionomia ácida, como a de toda pequena imprensa, este
modelo de comunicação impressa assume a voz do povo5.
A aparição desses periódicos veementes, insultuosos,
lembrando represálias, excitando o patriotismo e tratando de
aumentar o ardor, a luta dos partidos, luta que muito em breve devia
trazer grande mudança à política do país.
Muitos desses pasquins, não duravam mais do que uma tiragem. A circulação de
livros era bem menor. Muita produção letrada aparece em revistas, folhetos e jornais.
Romances como “O Guarani” de José de Alencar surgem em periódicos. Muitos desses
dependiam da assinatura para sobreviver, uma garantia de publicação. As letras são
uma constante nos meios da elite. Desse modo também Machado de Assis se tornará
um grande escritor. O clássico, Memórias Póstumas de Brás Cubas é lançado na Revista
Brasileira, em 1879. Muitos autores, teatrólogos ou romancistas em via de regra
escreviam para vários jornais ao mesmo tempo. Muito de nossos maiores escritores
começaram suas carreiras nos jornais.
Muitos folhetins trazem histórias cotidianas e biografia. As primeiras foram
publicadas em revistas como as do Instituto Histórico e geográfico Brasileiro6. Essa
instituição criada ao modelo francês de academia literária, vai ser durante todo o
império a principal instituição defensora das letras e das artes impressas.

4
LUSTOSA, Isabel. O nascimento da imprensa brasileira. Jorge Zahah, Rio de Janeiro, 2003.
5
AZEVEDO, Moreira. Origem e desenvolvimento da Imprensa no Rio de Janeiro, Rio, 1865. Apud SODRÉ,
Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Ed. Civilização Brasileira. Rio de janeiro. 1966.

6
Instituição criada em 1838 durante o período regencial sob a proteção do Imperador do Brasil Pedro II.
Outro local de desenvolvimento das letras fora criado em Dezembro de 1837, vindo a ser chamado de
Colégio Pedro II.

4
Idealizada por membros da elite como o religioso Januário da Silva Barbosa e o
militar Raimundo Cunha o local foi palco de diversas discussões a cerca da história do
Brasil. Um de seus pilares era dar conta de uma possível identidade Nacional e sua
territorialidade.
Escritores como Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães faziam parte da
quase confraria. Um dos principais destaques do estabelecimento era o historiador e
diplomata Varnhagen. Muitos de seus escritos são referencias até hoje. Era um
excelente copiador dos documentos sobre a história do Brasil em Portugal. Sua
produção intelectual era impressa na revista do Instituto, considerada a revista cientifica
mais antiga do mundo, sendo publicada desde o primeiro número sem interrupção7.
Após a década de 1870, há nos jornais o aparecimento mais declarado das
questões relativas ao movimento Republicano e o aumento do abolicionismo. Trava-se
na imprensa duelos entre ativistas dos grupos monarquistas e antiabolicionistas com os
que pensam ao contrário.
A idéia da chamada geração de 1870 era romper com o passado velho, trazendo
a tona personagens que foram renegados pela colonização portuguesa. Dava-se espaço
ao folclore, ao regionalismo e ao nativismo, valorização dos grupos indígenas.
Na capital do império fervilham grupos de intelectuais e boêmios que
utilizavam a linguagem humorística para demonstrar as mudanças que estavam
ocorrendo em meios políticos e sociais. As sátiras e caricaturas ganham cada vez mais
espaços nos jornais, folhetins e revistas da época. As caricaturas abordavam temas da
cultura cotidiana, mostrando as ambigüidades da nossa modernidade, de uma forma ágil
e acessível. O jornal do Brasil nos primeiros anos da República vai dar bastante espaço
e ênfase a essa arte.
Os sentimentos de rebeldia e exclusão social passam a fazer parte dos
periódicos. A imprensa nesse momento já se coloca como porta voz das camadas menos
favorecidas do império brasileiro.
O modernismo no Rio de Janeiro ocorre na dinâmica do cotidiano, representado
por personagens dos mais variados grupos sociais. É nessa união do erudito com o

7
RIHGB. Esta revista foi local em que boa parte da elite imperial publicava seus artigos e estudos. Ela
tinha uma idéia de cientificidade ao haver um imenso estudo das documentações históricas, estudos
geográficos e científicos de outras ordens.

5
popular que se esboçam as bases de uma identidade coletiva, intensamente inspirada em
expressões da cultura popular.

O surgimento da Grande Imprensa8

A chamada grande imprensa surge com o advento da Republica. Muitos jornais


continuam o mesmo, como o Jornal do Comercio, Gazeta de Notícias e do Brasil. Sendo
os dois primeiros os conglomerados de maior atividade. Nesses jornais, os anúncios já
representam grande parte da movimentação financeira dos empresários. Pode-se
perceber uma diminuição do espaço destinado a redação. A publicidade ganha espaço
dia-a-dia. Esse momento foi palco para o surgimento de grandes jornalistas como Rui
Barbosa, Quintino Boacaiuva, Euclides da Cunha e João do Rio.
Nos primeiros anos da República, a imprensa teve de se adaptar ao novo
político. Muito dos jornalistas que escreviam em jornais de média ou grande circulação
eram adeptos a monarquia. Isso fica claro ao lembrarmos-nos do incidente que depredou
o jornal a Tribuna, após serem escritos nessas páginas criticas a Deodoro da Fonseca e
ao grupo de militares. Em resposta, vários jornais se reuniram e publicaram uma carta-
manifesto assinada pelos principais periódicos da época, entre eles: Jornal do Comércio,
O País, Diário do Comercio, Gazetas de Notícias, Mequetrefe e Revista Ilustrada9.
As crises políticas da primeira República também estavam presentes nos jornais.
Um dos casos mais famosos é o texto de Euclides da Cunha publicado no diário Estado
de São Paulo, em que o jornalista afirma estar em curso a restauração da monarquia ao
acusar o movimento de Antonio Conselheiro como adepto da monarquia.
No texto “A nossa Vendéia” Cunha compara os sertanejos aos sans-culottes
franceses. Pessoas que queriam derrubar o regime. Um verdadeiro ato de exaltação a
Republica que somente será desconstruído a partir da publicação dos textos sobre a
Guerra de Canudos para o mesmo jornal. Ou mais ainda no livro intitulado “Os
sertões”.
Junto com a formação republicana brasileira, surgem novidades no que diz
respeito às técnicas. Isso se deve ao fato de as redações se alinharem com o modelo
8
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Pag. 267. Ed. Civilização Brasileira. Rio de
janeiro. 1966.

9
Idem

6
empresarial de comunicação. Moderniza-se as condições de impressão, esta tarefa faz
com que haja um aumento do número de jornais em circulação. O que não se vê ainda é
a melhoria na distribuição, esta continua sendo feita em carroças, por vendedores e
pequenas bancas. Outro fato importante está condicionado ao fato de agora os jornais
de médios e grandes portes serem impressos diariamente.
Com a entrada de maiores divisas os jornais se profissionalizaram. Os folhetins
dão lugar a empresas jornalísticas. Prédios sólidos, melhores equipamentos gráficos,
impressão de fotos. “O jornal como empreendimento individual, como aventura
isolada, desaparece, nas grandes cidades”. O que temos nesses espaços geográficos
são verdadeiros empreendimentos que tendem a disputa pelo mercado.
Vemos cada vez mais a aliança entre o poder e os meios de comunicação. Boa
parte dos espaços passam a ser ocupados por propagandas do governo. Orna-se mais
fácil comprar um jornal do que abrir um.

O Cruzeiro

Surgida na tumultuada década de 20. Tempo em que o Brasil se colocava entre


uma nação urbana e campestre, entre agrário e industrial. Mudanças profundas nas
estruturas sociais brasileira. Uma década iniciada com a Semana de Arte Moderna,
palco do Movimento Tenentista, crescimento industrial e de uma camada média urbana.
Porém, como afirma Werneck Viana, a ausência de hegemonia da burguesia no Brasil,
desencadeou a permanência de relações patriarcais e paternalistas.
O primeiro número de “O Cruzeiro” surge em 1928 e em seu editorial trás os
objetivos de suas publicações. Ser uma publicação voltada para a escrita de contos e
novelas, e pequeno espaço para publicações locais. O que vai ser totalmente modificado
na década de 50, pois será uma revista com um bom jornalismo, caracterizada por dar
voz a grandes reportagens e acontecimentos sociais da época.
A relação da revista com os intelectuais da época era grande. Muitos artistas
famosos criaram capaz para o Cruzeiro. Figuras como Anita Malfatti, Di Cavalcante e
Portinari foram alguns dos criadores de estampas para as publicações. O mesmo
acontecera com a literatura, ainda muito presente nos meios impressos. Nomes como

7
Manuel Bandeira, Graça Aranha e Menotti Del Pichia, Raquel de Queiroz e Nelson
Rodrigues passaram por sua editoria.
“O Cruzeiro” tivera seu nome comprado por Assis Chateaubriand de Edmundo
Miranda, e a partir desse momento transformou-se em uma revista síntese de um
período histórico brasileiro. Momentos importantes para nossa historiografia fizeram
parte das capas da revista. Como a chegada de Vargas ao governo provisório em 1930.
“O capital que viabilizou10 “O Cruzeiro” saiu do cofre de um banqueiro gaúcho, sob
pressão direta do ministro da Fazenda de Washington Luís, Getulio Vargas”.
Esse episódio foi capa de “O Cruzeiro” de 1930 cuja capa foi estampada por
Getulio Vargas, ainda com uniforme da Revolução. O interior da edição trazia
reportagem sobre os acontecimentos recentes de então, São Paulo Proclama vitória,
Oswaldo Aranha no Rio e o empastelamento dos jornais governistas.
Na década 40 temos a presença das colunas Pif-Paf e Raquel de Queiroz, na
última página. O conteúdo da revista cada vez mais diversificado atraia não somente o
publico alvo a que se destinara a classe média. Geralmente as capas traziam modelos,
atrizes e mulheres bonitas. Eram raras as capas políticas. Getúlio Vargas, JK, João
Goulart e Jânio Quadros estão entre essas raridades. A primeira personalidade a
aparecer em uma capa foi o rei Alberto da Bélgica, no número 2, e a primeira capa
utilizando uma foto mostravam Santos Dumont (número 5)11.
As celebridades da época eram a miss Brasil Marta Rocha, Cantoras do rádio
como Emilinha Borba, Marlene e a sapoti Ângela Maria, entre outras. Muitas modelos
posavam para a capa de maiô, um sinal do avanço da década de 50. Muitas seções eram
especializadas no público feminino. Imprimia-se desde como cuidar do lar e da família,
do relacionamento homem-mulher até de desquite, uma novidade para aqueles anos.
Mesmo após a queda da bolsa de valores de Nova Iorque, a revista modificou
seu parque gráfico, modernizando-se com equipamentos importados na Alemanha. A
melhoria técnica ainda estava longe dos exemplares da Europa ou Estados Unidos, mas
certamente uma das melhores da America Latina.
Um dos problemas enfrentado pela revista já nos primeiros anos da década de 30
relacionava-se a produção nacional de papel para prevenir o país da escassez que o
mundo estava enfrentando desde a primeira grande guerra. Uma década se passou e a
10
CARVALHO, Luiz Maklouf, Cobras criadas: David Nasser e o Cruzeiro. 2ª Ed. Senac, São Paulo, 2001.
11
WWW. O Cruzeiro\curiosidades o cruzeiro.htm

8
questão não. Em 1940 Vargas propôs a Chateaubriand que ele abrisse uma fabrica de
papeis para atender ao jornalismo. O governo daria subsídios com empréstimos do
Banco do Brasil. Assim ele não aceitou, dizendo Presidente, meu negocio é imprimir
papel e não fabricar12. Não é uma atividade que me interessa.
A imprensa vinha se desenvolvendo, resistindo a inflação, os jornais
encareceram. Somente em 1935 a profissão de vendedor foi regulamentada em São
Paulo pelo prefeito Fabio Prado. Nessas condições ficava cada vez mais difícil manter
um jornal. Esse momento foi o divisor de águas entre os pequenos jornais que faliam
aos montes e as poderosas editorias dos grandes empresários. As empresas de
Chateaubriand estavam na segunda categoria.
Como todo empresário Chateaubriand estava ora ligado ao governo, ora
publicando mal dizeres a seu respeito. A relação do empresário com Vargas era assim.
Como afirma PEREGRINO13 (1991) “A política do Estado Novo de Vargas exerceram
grande pressão sobre as empresas de Assis Chateaubriand”. Em um primeiro momento
como aliado e após a Revolução de 32, como árduo adversário.
Com a eclosão do golpe em 1937surge o Estado Novo. Este fora

um golpe "branco e silencioso", representando menos uma ruptura do que a


consolidação de um processo que já estava em curso desde a Intentona. O medo do
comunismo reuniu a elite civil, a elite militar e o povo. Era preciso proteger o Brasil de
ameaças externas.

Entre os anos de 1937 e 1945 temos os chamados anos negros. Vários jornais e
revistas foram fechados. Com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda
(DIP) a imprensa tornou-se cada vez mais vigiada. Esse órgão era regulamentador
nacional. Nos Estados quem ditava as ordens era o Departamento Estadual de Imprensa.
Vale lembrar que o Rio de Janeiro como capital contava com a ação de ambos “olhos do
poder”. Segundo SODRÉ (1966), os jornais passaram a contra gosto a servir a ditadura.
A caricatura típica de outras ações políticas perderam espaços.
O DIP oferecia verbas para os jornais. Muitos como as edições de Chatô
tornaram-se mais ricos. O órgão repressor exigia que a imprensa louvasse o ditador14.

12
CARVALHO, Luiz Maklouf, Cobras criadas: David Nasser e o Cruzeiro. 2ª Ed. Senac, São Paulo, 2001.
13
PEREGRINO, Nadia. O Cruzeiro: A revolução da fotorreportagem. Ed. Dazibau. Rio de Janeiro, 1991.
14
CARVALHO, Luiz Maklouf, Cobras criadas: David Nasser e o Cruzeiro. 2ª Ed. Senac, São Paulo, 2001.

9
Tinha a força da política da distribuição do papel, o dinheiro
fácil das matérias pagas, a polícia política, a censura sistemática e a
violência institucionalizada do regime – tudo isso materializado nas
prisões cheias e nos estados de sítio e de guerra decretados em
diversas ocasiões.

O mesmo continuou ao longo do tempo. A aliança entre os meios de


comunicação e o poder vem de longa data. O governo como podemos observar sempre
foi um dos grandes recursos financeiros dos meios de comunicação. Por mais que se
fale em liberdade de imprensa, os empresários de comunicação são cautelosos ao
publicar reportagens que atinja diretamente o governo que os sustenta.
Chatô é bastante característico quanto ao seu posicionamento enquanto
empresário de comunicação. Sua revista funcionava como as grandes editorias do
mundo. Podemos dizer que as reportagens passavam pelo crivo dos Gatekeepers15. O
controle social da redação já era evidente em “O Cruzeiro”. Conforme aponta Breed
(2000) Cada empresa de comunicação “tem uma política editorial admitida ou não [...]
A orientação manifesta-se na parcialidade [...] A orientação política é disfarçada
devido à existência de normas éticas de jornalismo”.
Na revista o repórter tem a liberdade de indicar pauta e fazer as reportagens,
porém o texto ou fotografia passa pelo crivo da redação, diagramação, composição e
encadernação16. Isso mostra que há toda uma organização nas redações de “O Cruzeiro”.
Essa estrutura facilita a comunicação entre os integrantes da equipe de redação. Esse
fora um dos diferenciais entre a Revista O cruzeiro e outras da mesma época.
As reuniões de pauta eram semanais, cada reporte ou fotografo escolhia as
reportagens de acordo com sua área de interessa. Dentro desse sistema temos que o
fotógrafo Luís Carlos Barreto, hoje produtor de cinema, especializara-se em futebol,
Indalécio Wanderley em concurso e vida de “miss” e Flavio Damm em reportagem
sobre o sertão e crimes.

15
Sobre esse termo temos o texto do pesquisador em teoria do jornalismo WHITE, David Manning. O
gatekeeper: Uma análise de caso na seleção de notícias. In TRAQUINA, N. (ORG ). O poder do
Jornalismo: análise e textos da teoria do agendamento. Coimbra: Minerva, 2000. Pág.142 – 151.
16
PEREGRINO, Nadia. O Cruzeiro: A revolução da fotorreportagem. Ed. Dazibau. Rio de Janeiro, 1991.

10
Nessa revista os fotógrafos faziam dupla com os redatores. Entre os nomes mais
importantes destacavam-se os da dupla David Nasser e Jean Manzon. Esses foram sem
duvidas os maiores jornalistas da história da revista. A experiência em grandes
reportagens de Nasser a quem Chatô chamava de turco, com a do fotógrafo francês
Manzon, ex-fotografo da famosa revista Match, que propusera as sucessivas renovações
tecnológica da revista e sua maior qualidade tornaram a revista em um dos maiores
sucessos de venda a partir da década de 40.
O par Nasser-Manson tornou-se um dos principais trunfos da revista. Com
reportagens históricas eles percorreram o deserto, estiveram na Bolívia, rememoraram
as batalhas de Monte Castelo ou, somente Nasser, sobre a derrocada do Brasil na Copa
do mundo de 1954 em que ao invés de reportagem típica foi publicado o depoimento do
reporte a cerca da cobertura do campeonato, o que acontecera em campo, no vestiário e
nos bastidores das reportagens realizadas pela equipe da revista.
“O Cruzeiro conseguira tirar vários profissionais de outras empresas
jornalísticas. Flavio Damm, José Amádio, saíram do “O Globo”, Indalécio Wanderley e
Luiz Carlos Barreto de A cigarra, Mario de Moraes e Luciano Carneiro do “Jornal das
Moças”, só para citar alguns. O prestígio atingido pela revista em meados dos anos 40,
já dava pista do que seria a década seguinte. Nos anos 50 a revista chegava a seus anos
áureos. Em 1945 a tiragem da revista chega a 80 mil exemplares. Em agosto de 1954,
com a publicação histórica sobre a morte de Getulio Vargas a revista chegou a vender
720 mil exemplares. Se comparado com a população da época, este fato foi um
verdadeiro marco.
O cruzeiro foi aos poucos se tornando o meio de comunicação impresso mais
importante do Brasil. A publicação semanal era junto com o rádio as maneiras de se
manter informado. Por todos os lugares da cidade tem-se uma revista por perto. Para
Flavio Damm a revista era, na época, mais do que a Globo é hoje17. Ao longo dos anos a
revista conseguiu juntar repórteres e colaboradores por todo o Brasil e por algumas
partes do mundo como em Nova Iorque, Lisboa, Paris, Roma, Madri, Londre e Berlin18.
A reportagem que abre a década de 50 trás com título “Profecias para 1950”
escrita por José Leal e Douglas Alexandre. Os repórteres de “O Cruzeiro encontraram

17
Flavio Damm em entrevista a Karen Worcman.
18
BARBOSA, Marialva. O Cruzeiro: uma revista síntese de uma época da história da imprensa brasileira.
Sitio Ciberlegenda, número 7, 2002.

11
um profeta da Armênia e o catedrático em grafologia Professor Saturno. Um prevê que
a miséria e a idéia serão armas mais poderosas que a bomba atômica, o entrevistado
carioca debocha dizendo que neste ano haverá muito escândalo amoroso e muitas ações
de desquite.
Cada vez mais diversificada a revista chegara ao auge na década de 50. A
revista, na década de 50 não tinha concorrente a sua altura no que diz respeito a sua
política editorial. Grandes fatos sociais enchiam suas páginas. Cinema, teatro e outros
pontos de encontro, arte e cultura eram figurinhas fáceis. Sem falar das festas da alta
sociedade em que participavam boa parte dos políticos, socialites, artistas, empresários
como Chateaubriand e jornalistas famosos, como Nasser, Manzon, Mario de Moraes e
Ubiratan Lemos.
A dupla acima citada levou para a redação o primeiro Premio Esso, concedido
em 1956. Com a reportagem sobre a migração do nordeste para Baixada Fluminense, no
Rio de Janeiro, os repórteres dentro de uma investigação participativa integraram um
grupo de “paus-de-arara” que fugiam de um estado de miséria para viverem o sonho da
cidade grande.
Os jornalistas construíram suas reportagens interagindo com o meio. Esse
modelo de construção narrativa foi teorizada por GEERTZ. Para o autor em “A
interpretação das culturas”, a construção do texto cabe ao etnógrafo (e não só a ele)
sendo feito a partir do que foi observado e cabe igualmente a tarefa de interpretar, dar
sentido para que se torne inteligível. Esse modelo fez escola.
Anos depois, em 1995, mais uma experiência do tipo foi contemplada com o
premio principal do Esso. Para realizar sua reportagem a jornalista Rebeca Kritsch, do
Estado de São Paulo19.
viveu cinco dias como uma sem-teto nas ruas de São Paulo.
Durante esse período, aprendeu a mendigar, entrou no ramo da
reciclagem de latas e se abrigou na vasta rede de auto-ajuda e
solidariedade que os sem-teto estenderam pela cidade, constatando,
que o povo das ruas tem que estar bêbado para enfrentar a vergonha
de pedir.

19
Sitio Prêmio Esso.

12
Outra característica do periódico semanal era o de trazer todas as semanas
grandes reportagens. As escolhas das mesmas eram feitas a partir do maior apelo
público possível, isto é que possui um maior critério de noticiabilidade. Como exemplos
práticos temos as reportagens sobre o concurso de miss Brasil, ou como em 12 de
setembro de 1959, como crime do Sacopã, que rendeu várias publicações no recheio da
publicação. A “audiência em ambos os casos fora muito alta.
Muitas reportagens em “O Cruzeiro” se fossem publicadas hoje estariam fora do
contexto ético do jornalismo. Um caso Clássico diz respeito ao disco voador na Barra da
Tijuca. Parte do texto dizia

O Cruzeiro apresenta, num furo jornalístico espetacular, a


mais sensacional documentação jamais conseguida sobre o mistério
dos discos voadores. O estranho objeto veio do mar, com enorme
velocidade, e foi visto durante um minuto, de cor cinza-azulado,
absolutamente silencioso, sem deixar rastros de fumaça ou de
chamas. Relato completo da fascinante aparição na Barra da Tijuca".
Reportagem de Ed Keffel e João Martins. Acompanhando o texto
“fotos” do possível óvni. O texto informava: "Fantástico, mas real! O
disco voador sobrevoando a Pedra da Gávea, vendo-se a sua parte
inferior.

Muitos dos textos publicados na revista não passavam de pura imaginação de


seus idealizadores. As reportagens, nessa época, apesar de passarem pelo crivo de um
editor, se permitiam a tais fantasias. A idéia de objetividade jornalística podia ou não ser
expressa no texto. O lead que acabara de ser criado nos Estados Unidos só irá aportar
no Brasil ao iniciar a década de 1960.

Conclusão

A revista “O Cruzeiro” foi um marco histórico para o jornalismo brasileiro. Por


sua redação passaram diversos jornalistas que se tornaram conhecidos em todo o país. A

13
maneira com que a revista fizera seu jornalismo, antenado com as transformações
sociais a tornou um sucesso.
A revista conseguira mesmo em tempos difíceis, como a ditadura de Vargas,
manter a melhorar sua produção textual. Colunas regulares, grandes reportagens e
experiências etnográficas não faltaram. O rigor jornalístico, com o controle social das
redações, era uma realidade, porém em relação a apuração dos fatos e da veracidade das
histórias parecia ser mais flexível.
As capas da sempre eram chamativas. A revista dava grande valor aos efeitos da
imagem. Muitas mulheres famosas, varias celebridades e poucos políticos as ilustraram.
O radio eram um grande aliado da revista. A maioria das celebridades criadas por esse
veículo tinha sua exposição aumentada e hiper valorizada.
Como um meio de comunicação de massa “O Cruzeiro” tornou-se referência
para quem deseja conhecer como se deve fazer um jornalismo cujo objetivo seja vender
cada vez mais exemplares como a marca dos mais de 700 mil vendidos com a cobertura
da morte de Getulio Vargas.
“O cruzeiro” é fonte de muitas pesquisas. Nos meios acadêmicos, a revista é um
referencial para os estudos de jornalismo. Muitos teóricos a utilizam como
embasamento para a construção de suas teses. Por mais que tentemos dar consta ainda, a
revista ainda tem muito mais a nos mostrar em relação a existência de uma boa redação
e como se faz um bom jornalismo.

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