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Departamento de Ciências de Educação e Psicologia

A Imagem e a Exercitação na Aprendizagem Inicial da Leitura

Orquídio Mimósio NHAMPOSSA

(Estudante do Curso de Licenciatura em Ensino Básico, 4º ano)

Universidade Pedagógica – Quelimane CEAD – Mocuba

Resumo
O presente trabalho surge no âmbito das Jornadas Científicas da UP-Quelimane no Centro de
Educação Aberta e Distância de Mocuba. Com o intuito de fornecer alguns subsídios a questão
do desenvolvimento de competências leitoras dos alunos na iniciação escolar, este artigo visa
discursar sobre uma orientação metodológica que une a imagem e a exercitação para uma
aprendizagem baseada nas características e competências do aluno, bem como sugerir acções
concretas de leccionação.

Uma vez que existem estudos variados a esse respeito este artigo baseou-se numa pesquisa
bibliográfica assente em diversas fontes com enfoque especial para as ideias de Comenius, Teles
e o Programa de Ensino Primário revisto em 2015. Os últimos 2 livros do aluno da primeira
classe serviram de suporte prático contextualizado para exemplificações.

O estudo permitiu verificar que o uso adequado da imagem aliada aos métodos multissensoriais e
uma exercitação estruturada e cumulativa favorecem sobremaneira o desenvolvimento da
consciência fonológica nos leitores iniciais. Os professores que optem pela aliança entre a
imagem e a exercitação variada e cumulativa podem assim impulsionar, de forma agradável e
criativa, na criança o domínio das competências leitoras através de um rápido desenvolvimento
de sua consciência fonológica.

Palavras-chave: aprendizagem, imagem, leitura, exercitação, consciência fonológica.

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Introdução
Citando Michel Tardy (1976, p.27), Cristiane Rodrigues de Lima afirma que actualmente os
alunos pertencem a uma civilização icónica, enquanto os professores pertencem a uma
civilização pré-icónica. As crianças crescem vendo pessoas, objectos, fenómenos, assistindo o
televisor sempre ligado em casa, divertindo-se com os vídeos dos telemóveis que se lhes
apresentam, e, criando assim um fascínio pela imagem desde a mais tenra idade. Os professores,
dos quais muitos são pais, sabem que os alunos (tal como seus filhos) têm uma sensibilidade
enorme pela imagem; mas ainda não parecem utilizar métodos de ensino que façam da imagem o
ponto de partida para a construção do conhecimento. Neste trabalho procura-se, entre outros
aspectos, mostrar como é importante que se criem “pontes” para que professores e alunos
possam arquitectar novas formas de construção de conhecimento através das imagens.

A leitura de imagens é bastante estimulada nas escolas e praticada por alguns professores, para
além de que o recurso a estas imagens é uma praxe observada pelos professores na introdução
das letras do alfabeto, tal como aparece no manual da primeira classe adoptado pelo ministério
da educação e desenvolvimento humano. Entretanto muito professores, apesar de fazerem um
estudo de introdução de letras usando imagens, menosprezam o recurso a imagens nas aulas de
consolidação; do mesmo modo põe-se de lado a variação dos exercícios, limitando-se muitas
vezes nos poucos existentes no livro do aluno (ignorando-se ainda a inadequação de alguns deles
como mostra-se neste trabalho). Quando elaborados, geralmente, os exercícios têm sido muito
abstractos forçando a criança a interiorizar sem entender o que está estudando, resultando em
aprendizagens mal acabadas ou não alcançadas.

O presente trabalho vai ainda versar sobre a forma como o professor pode usar da imagem e da
variação dos exercícios para a construção de habilidades leitoras mais profundas nas classes
iniciais. A abordagem vai iniciar por apresentar algumas competências necessárias para a
aprendizagem da leitura, a origem da dificuldade leitora, o uso da imagem e dos exercícios na
aprendizagem da leitura.

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Origem da dificuldade de leitura
“O saber ler é uma das aprendizagens mais importantes, porque é a chave que permite o acesso a
todos os outros saberes” (Paula Teles, 2004). A leitura é uma competência cultural específica que
se baseia no conhecimento da linguagem oral, é contudo uma competência com um grau de
dificuldade muito superior à da linguagem oral. Aprende-se a falar naturalmente sem
necessidade de ensino explícito mas a escrita utiliza um código gráfico que necessita de ser
ensinado explicitamente. Para decifrar o código escrito, é necessário tornar consciente e
explícito, o que na linguagem oral era um processo mental implícito. Por isso a leitura exige
algumas competências prévias. Paula Teles apresenta algumas competências necessárias a
aprendizagem da leitura:

 Para aprender a ler é necessário ter uma boa consciência fonológica, isto é, o
conhecimento consciente de que a linguagem é formada por palavras, as palavras por
sílabas, as sílabas por fonemas e que os caracteres do alfabeto representam esses
fonemas. A consciência fonológica é uma competência difícil de adquirir, porque na
linguagem oral não é perceptível a audição separada dos diferentes fonemas. Quando
ouvimos a palavra “pai” ouvimos os três sons conjuntamente e não três sons
individualizados.
 Para ler é necessário conhecer o princípio alfabético, saber que as letras do alfabeto têm
nomes e representam sons da linguagem, saber encontrar as correspondências
grafofonémicas, saber analisar e segmentar as palavras em sílabas e fonemas, saber
realizar as fusões fonémicas e silábicas e encontrar a pronúncia correcta para aceder ao
significado das palavras.
 Para realizar uma leitura fluente e compreensiva é ainda necessário realizar
automaticamente estas operações, isto é, sem atenção consciente e sem esforço.
 A capacidade de compreensão leitora está fortemente relacionada com a compreensão da
linguagem oral, com o possuir um vocabulário oral rico e com a fluência e correcção
leitora.

Mas o que a experiência dos professores mostra é que muitos alunos aparecem com
características diferentes das que se esperam de uma criança em idade escolar. Boa parte dos
alunos da primeira classe apresentam dificuldade em compreender que as palavras se podem

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segmentar em sílabas e fonemas, e, dificuldade em associar as letras aos seus sons. Mesmo
depois de muitas aulas tais alunos revelam erros de leitura de palavras por desconhecimento das
regras de correspondência, outros mostram dificuldade em ler monossílabos e em soletrar
palavras simples e curtas.

Assim, o professor das classes iniciais depara-se com alunos que, por vezes recusam ou insistem
em adiar as tarefas de leitura e escrita; ou ainda com necessidade de acompanhamento individual
do professor para prosseguir e concluir os trabalhos. A relutância, lentidão e necessidade de
apoio dos pais na realização dos trabalhos de casa também afligem tais alunos.

Estas características fazem com que haja queixas dos pais e dos professores em relação às
dificuldades de leitura e escrita. Na verdade muitos pais acabam rotulando mal os professores ao
mesmo tempo que os professores atribuem a culpa aos pais pelos fracassos dos filhos, sendo que
nem uns nem outros estejam completamente certos.

A origem da dificuldade leitora deve-se a outros factores. TELES argumenta que as dificuldades
na aprendizagem da leitura têm origem na existência de um défice fonológico. Os leitores
iniciantes “embora falem utilizando palavras, sílabas e fonemas, não têm um conhecimento
consciente destas unidades linguísticas, apresentam um défice a nível da consciência dos
segmentos fonológicos da linguagem, um défice fonológico” (TELES 2004).

As crianças que apresentam maiores riscos de futuras dificuldades na aprendizagem da leitura


são as que no jardim-de-infância, na pré-primária e no início da escolaridade apresentam
dificuldades a nível da consciência silábica e fonémica, da identificação das letras e dos sons que
lhes correspondem, do objectivo da leitura e que têm uma linguagem oral e um vocabulário
pobres.

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A imagem na aprendizagem da leitura
“A palavra “imagem” vem do latim imago e corresponde à ideia de semelhança, que por sua vez,
teve origem no grego mimeses, corresponde à ideia de imitação” (CAMARGO, 2007 cit. in
LIMA). Uma imagem também é a representação visual de um objecto através de técnicas da
fotografia, da pintura, do desenho, do vídeo ou de outras matérias” (http://conceito.de/imagem).

É importante recordar que a “assimilação dos conhecimentos não se dá instantaneamente, como


se o aluno registasse de forma mecânica na sua mente a informação do professor, como o reflexo
num espelho. O ensino, ao invés disso, tem um papel decisivo à percepção sensorial das coisas”
(Comenius citado em Daniel Walker). Assim, há que aproveitar o contributo que a visão pode
trazer na aprendizagem explorando o máximo possível as imagens. Estas, as imagens, para alem
de servir de um motor motivacional facilitam a memorização aliando o abstracto ao concreto.

“As crianças com dificuldades de leitura para além do défice fonológico apresentam dificuldades
na memória auditiva e visual” (TELES), o que pode inspirar alguma desmotivação na
aprendizagem da leitura. Os factores motivacionais são muito importantes no desenvolvimento
da capacidade leitora dado que a melhoria desta competência está altamente relacionada com o
querer, com a vontade de persistir, pese embora, as dificuldades sentidas e a não obtenção de
resultados imediatos. Um dos meios de motivação extrínseca e de atracão para a aprendizagem é
a imagem. Isabel Martins explica que as imagens são também importantes recursos para a
comunicação de ideias científicas ao afirmar que as “imagens são mais facilmente lembradas do
que suas correspondentes representações verbais” e concluindo que “as imagens comunicam de
forma mais directa e objectiva do que as palavras”.

Há que observar um aspecto importante apontado pelo MINEDH no Programa de Língua


Portuguesa 1º ciclo ao enfatizar que “as estratégias de ensino devem basear-se numa metodologia
que torne o processo de ensino-aprendizagem agradável, divertido e útil, dando uma grande
relevância à interacção professor/aluno, aluno/aluno, aluno/comunidade” (INDE-MINEDH,
2015). Percebe-se que o professor deve atrair a atenção dos alunos para o conteúdo e abordar os
mesmos conteúdos tendo em conta os esquemas mentais dos mesmos alunos. É indiscutível que
as representações das palavras que os leitores iniciais conhecem são maioritariamente imagens
de coisas, pessoas, vídeos, imaginações, etc. Então as estratégias invocadas pelo MINEDH
começam a basear-se nas imagens que as crianças têm do mundo e das coisas.

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Fazendo alusão a um dos princípios da didáctica Magna de Comenius Daniel Walker lembra que
os conhecimentos devem ser adquiridos a partir da observação das coisas e dos fenómenos,
utilizando e desenvolvendo sistematicamente os órgãos dos sentidos.

Mais adiante o Programa de Língua Portuguesa alude a uma “perspectiva de ensino da leitura e
escrita iniciais com base no método analítico - sintético, com ênfase no ensino da letra, em vez
do som”. A esse respeito Vera Lúcia Câmara Zacharias sublinha que uma criança pode saber que
ao símbolo escrito E corresponde o som [e], que ao símbolo L corresponde o som [l], mas,
mesmo assim, ela pode não ter compreendido o mecanismo que permite formar uma palavra
escrita. Com recurso a imagens o aluno pode facilmente relacionar as combinações fonémicas e
silábicas com as mesmas imagens e desenvolver o princípio alfabético. Por exemplo: com a
imagem de uma LARANJA os alunos podem assimilar a ideia de que na junção da letra L com a
letra A vai se ler LA; da mesma forma a imagem de LEITE ajudaria bastante na compreensão de
que a junção do L com E lê-se LE; assim seria com as imagens do LIMAO, LOBO e LUVA; isso
supondo que os alunos já aprenderam as 5 vogais (conforme proposto no Programa do Ensino
Primário).

Outro aspecto relevante apontado pelo mesmo programa de ensino é que “deve-se dar um maior
enfoque ao percurso da síntese, exercitando a combinação de letras para a formação de novas
sílabas e palavras”. Mas o que se verifica é que muitos professores usam apenas a síntese na aula
introdutória da letra quando depois de partirem da frase à letra voltam da letra à mesma frase,
talvez porque (infelizmente) o livro do aluno anteriormente adoptado pelo ministério da
educação apresentava exemplos desse tipo. Ora, a síntese deve levar à construção de novas
palavras ou frases e esse processo pode levar mais de uma aula pois antes deve se exercitar a
combinação de letras para a formação de sílabas; só depois forma-se novas palavras e novas
frases (aqui justificam-se as dez aulas que o actual programa do ensino primário pede). A
formação da consciência fonológica não é um acto instantâneo, leva algum tempo. Tal como
refere Sónia Martins a aprendizagem é um processo complexo, dinâmico que resulta em
modificações estruturais e funcionais permanentes no Sistema Nervoso Central, exigindo do
professor muita paciência e calma na fase inicial da aprendizagem da leitura pelo aluno.

O primeiro livro concebido para aulas com imagens foi o Orbis Sensualium Pictus, de Comenius,
um livro de vocabulário ilustrado, publicado em 1658 para a educação infantil. O objectivo era

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ensinar nomes das coisas em latim accionando os sentidos pela contextualização com as
imagens. Comenius acreditava que as experiências sensoriais auxiliavam a memória e que a
percepção ajudava a imprimir a imagem na mente. (LIMA)

A exercitação no ensino da Leitura


A palavra exercício tem origem no latim exercitĭum que significa acção de exercer, exercitar ou
exercitar-se. Um exercício é um trabalho prático que permite pôr à prova e em prática o ensino
teórico.
As aulas introdutórias de uma letra são o primeiro passo para o conhecimento da letra e futura
leitura da mesma em suas diversas combinações com as demais. Esta aula tem sido fielmente
dada por boa parte dos professores que inclusive usam boas técnicas para que a criança aprenda a
escrever as palavras. Mas no campo da leitura a aula inicial confere apenas noções e urge que se
use uma exercitação estruturada para transformar as noções em habilidades que criem
competências leitoras permanentes. Já dizia Comenius citado por Daniel Walker que a “Instrução
nunca chegará a ser realmente sólida se não se instituírem repetições e exercícios, frequentes e
bem feitos”. O que se nota em muitas crianças é que elas tem alguma noção do alfabeto mas por
falta de exercitação não apresentam as competências leitoras que seriam de se esperar.
TELES salienta que todas as competências leitoras têm que ser integradas através do ensino e da
prática. Essa prática vai ser executada com exercícios. Os exercícios devem, por sua vez, ser
elaborados de modo estruturado e cumulativo considerando que as os leitores iniciais podem
também apresentar dificuldade de automatização. “A organização dos conteúdos a aprender
segue a sequência do desenvolvimento linguístico e fonológico. Inicia-se com os elementos mais
fáceis e básicos e progride gradualmente para os mais difíceis” (TELES 2004). Por mais que o
professor use imagens quer de vídeos (quando a escola reúne condições para tal) quer em
fotografias, objectos, cartazes ou ilustrações no quadro, se estas não foram seleccionadas de
forma estruturada e cumulativa serão de pouco proveito para o aluno. Por exemplo: se usamos o
exercício da página 51 do antigo livro da primeira classe que apresenta a imagem do pássaro e
pede que o aluno complete com a letra P o espaço em branco, estamos na melhor das hipóteses
treinando a escrita e não a leitura porque as demais letras ou sílabas são desconhecidas até o
momento pelo mesmo aluno (lembrar que exercícios similares aparecem em quase todas as
restantes exercitações da leitura de letras no mesmo livro). Se para o mesmo exercício fosse

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usada a imagem de uma PAPAIA ou de um MAPA, além da escrita o aluno estaria exercitando a
leitura. Importa salientar que no actual livro do aluno esse problema parece ter sido ultrapassado.
Entretanto exercícios existem no actual livro do aluno como por exemplo na página 63 onde se
pede que o aluno complete com a letra os ditongos IO, EU, AI e IA as palavras PAI, PNEU, TIA
e PÁTIO, ilustradas por imagens; tais exercício permitem que a criança aprenda a inserir as
vogais em palavras mas obrigam que o professor dite os ditongos de cada palavra para que o
aluno acerte; se fossem usadas imagens cujas iniciais fossem os mesmos ou outros ditongos
(OITO, OURO, AI/AU) os alunos consolidariam a leitura dos ditongos (relacionando a imagem
com a letra inicial) e sua escrita inserida em palavras. Um exercício que ilustra positivamente a
ideia pretendida nestes comentários é o da página 61 do actual livro do aluno na consolidação
das vogais (exceptuando a vogal E).

Quanto a forma de letra a ser usada pelo professor é mais proveitosa a letra de forma ou de
imprensa. Rosa Maria Antunes de Barros explica que “para a criança que ainda não se
alfabetizou, ler em letra de forma é bem mais produtivo, já que ela pode trabalhar com as letras
em separado, o que lhe permite reflectir sobre quais e quantas letras tem uma palavra. Além do
que, a letra de forma está muito mais presentes na vida quotidiana do que a letra cursiva, o que
possibilita que a criança estabeleça relações interessantes entre o que aprende na escola e o que
vê no out door da rua, na revista, no jornal, na televisão...”. Mas existe a necessidade de não
permitir que o aluno a escreva tal e qual, ou seja, a escrita pelo aluno deve ser com base no
manuscrito (letra cursiva); isso vai dar ao exercício da cópia um outro sabor: o da transformação
da escrita de imprensa em letra cursiva (essa letra cursiva sempre é ensinada nas aulas
introdutórias e o actual livro do aluno explora quase de forma equitativa exercícios com letra
cursiva e de imprensa). Além disso esta forma de exercício vai eliminar futuras tendências de
confundir as letras que têm uma grafia semelhante, como p-q, d-b, n-u, a-e, etc.
De tempos em tempos devem ser elaborados exercicios de revisao das aprendizagens anteriores,
tal como TELES ressalta que os “conceitos ensinados devem ser revistos sistematicamente para
manter e reforçar a sua memorização”.

Os exercícios conducentes a aprendizagem da leitura também exigem a perfeição leitora do


professor no recurso a aprendizagem Multissensorial uma vez que a leitura e a escrita são
actividades multissensoriais. As crianças têm que olhar para as letras impressas, dizer, ou

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subvocalizar, os nomes, fazer os movimentos necessários à escrita e usar os conhecimentos
linguísticos para aceder ao sentido das palavras. São utilizadas em simultâneo as diferentes vias
de acesso ao cérebro, os neurónios estabelecem interligações entre si facilitando a aprendizagem
e a memorização. Deste modo, nos exercícios ao longo da aula, o professor pode socorrer-se de
um dos métodos multissensoriais do século XIX chamado Fonovisuaticolótorio de Maria
Montessori. Grazielle Diniz Borges explica que os exercícios do método Fonovisuaticolatório
fazem com que o aluno escute e reproduza o som, perceba como a boca movimenta na pronúncia
de uma e doutra palavra permitindo que o aluno consiga processar o som e diferenciar as
pronúncias das consoantes com mesmo ponto de articulação. Por exemplo distinção entre o B e o
P.

Os exercícios tanto orais como escritos devem permitir o Ensino Diagnóstico, ou seja, deve ser
realizada uma avaliação diagnóstica das competências adquiridas e a adquirir. Nesse sentido, ao
cabo da aprendizagem de uma letra devem ser apresentados ao aluno exercícios que permitam
avaliar se as competências a aquele nível já estão acomodadas na sua estrutura mental, e, outros
exercícios que preparem a assimilação e acomodação de novas competências leitoras no actual
esquema fonológico do aluno.

Paula Teles recorda que os diferentes conceitos devem ser ensinados directa, explícita e
conscientemente, nunca por dedução. A aprendizagem deve pautar por exercícios baseados no
método indutivo que, de acordo com Comenius citado em Daniel Walker, consiste na
“observação directa, pelos órgãos dos sentidos, das coisas, para o registo das impressões na
mente do aluno. Primeiramente as coisas, depois as palavras”. Assim a imagem deve fazer parte
dos exercícios na aula até que o aluno logre a automatização das competências aprendidas, ou
seja, as competências aprendidas devem ser treinadas até à sua automatização.

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O uso adequado da imagem na exposição e na exercitação
Numa aula introdutória a imagem da palavra com a letra por se estudar não precisa ter muitas
letras estudadas mas deve na medida do possível ser uma imagem do conhecimento dos alunos e,
obrigatoriamente, ter por letra inicial a letra em estudo. Por exemplo UNHA na introdução da
letra U, OVO para a letra O, CANETA para a letra C (ou COPO), como aparecem ilustrados nas
páginas 32, 34 e 75 respectivamente no anterior livro do aluno – 1ª classe; entretanto tais
imagens não são de rápida interpretação. Assim também são exemplos das mesmas imagens as
páginas 49, 52 e 97 do actual livro do aluno.

Na exercitação do tipo escreva as palavras por baixo das imagens, as imagens que ajudarão
melhor a leitura serão as que enceram em si todas letras conhecidas pelo aluno, ou seja,
estudadas pelo aluno como por exemplo na página 98 do actual livro do aluno contrapondo-se o
exercício da página 73. Nos exercícios em que se devem completar palavras as imagens que
tenham na sílaba inicial (a tal que deve ser usada para completar) letras já estudadas como o
exercício da pagina 71 do actual livro do aluno. Isso ajuda a treinar a fusão fonémica e a fusão
silábica.

Já no momento de se fazer a leitura de frases é sempre bom ilustrar as frases com imagens que
ressaltem as palavras, é claro que tais palavras devem ser escritas com letras e combinações já
estudadas. Por exemplo: a ilustração de um menino lavando tomate para a frase “O LELO
LAVA O TOMATE”, como se apresenta no anterior livro do aluno da 1ª classe na pagina 82; ou
o exercício TRAVA-LINGUAS da pagina 123 do actual livro do aluno. O mesmo serve para os
testos como se pode observar na página 122 do mesmo livro.

Aplicação correcta da exercitação


TELES acrescenta que “devem ser realizados exercícios de ensino explícito da “Fusão
Fonémica”, “Fusão Silábica”, “Segmentação Silábica” e “Segmentação Fonémica”. Os
exercícios devem seguir os passos da síntese sem pressa começando pela fusão fonémica onde o
aluno adquire habilidades de leitura de sílabas isoladamente, os quadros silábicos são exemplo
desses exercícios; passa-se de seguida pela fusão silábica em que o aluno habilita-se a ler
palavras simples isoladas e inseridas em frases, sem nunca se esquecer de pautar pelo método

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cumulativo. Por exemplo exercícios que sugiram a formação de palavras com as sílabas PA-NE-
LA, e outras, tal como aparece no anterior livro do aluno nas páginas 94 e 95.

Posteriormente faz-se a segmentação silábica mais conhecida por divisão silábica. Nos dois
livros do aluno não se faz alusão a este tipo de exercício. Mas é de indiscutível valor para a
formação da consciência fonológica do aluno, que tanto nos exercícios orais como nos escritos,
se use essa forma de exercício. Por exemplo com a palavra CANETA segmentar em CA-NE-TA.
O mesmo se diz da segmentação fonémica ou soletração. A soletração permite a aplicação da
orientação do programa de ensino que sugere “o ensino do nome da letra (grafema) e não o som
da mesma (fonema) ” (INDE-MINED, 2015). Por exemplo a soletração da sílaba CA em C-A,
aqui muitos alunos tendem a chamar letra CA a letra C, e nesta soletração seriam advertidos que
a letra se chama C.

Ao elaborar exercícios de consolidação ou avaliação há que olhar antes para os objectivos de tais
exercícios para evitar avaliar aspectos não aprendidos pelo aluno como pedir que o aluno nomeie
as imagens de SAPATO e SAIA, como aparece na pagina 81 do anterior livro do aluno, bem
como na pagina 82 em aparecem as palavras AS e MÃOS, quando ainda não se estudou a letra S;
no actual livro do aluno isto ocorre, como já foi aludido, na página 73.

Por fim, ao exercitar a leitura de palavras dentro de um contexto como exposto anteriormente, o
professor auxiliaria mais seus alunos se fosse capaz de construir as frases com os mesmos alunos
que soletrassem as palavras em causa para o professor as escrever no quadro ou para um colega o
fazer.

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Considerações finais
A aquisição e consolidação das competências leitoras iniciais dependem muito do uso adequado
das técnicas que materializam os métodos eleitos pelo professor. A base fundamental da
aquisição de competências leitoras não está centrada nas capacidades do professor nem na sua
forma de ensinar mas sim na estrutura mental da criança e na sua forma de aprender, posto isto, o
professor que quiser ver seu aluno realizar-se na escola é obrigado a pautar por um estudo da
criança, ou seja, tal como sugere o método Montessoriano explicado por Gabriel Salomão a
tarefa do professor é a de observar como a criança desenvolve e entender como pode auxiliar tal
desenvolvimento da forma mais natural possível. O que está em causa não é o conteúdo a ensinar
mas sim como ensinar a partir dos pré-requisitos do aluno e a escolha dos exercícios que possam
mais facilmente apoiar a construção da consciência fonológica do aluno. Isso pode ser bastante
trabalhoso e exigir do professor alguma individualização do ensino, o que consumiria muito
tempo, mas se os métodos multissensoriais forem aliados à imagem, o sucesso do aluno estará a
ser promovido.

A aula da leitura inicial deve ser um espaço em que o aluno explore no máximo as imagens e
dedique-se por meio de uma exercitação constante de forma agradável e atraente. Sem a
exercitação pouco o aluno vai lograr de memorização e muito penosa vai ser sua futura relação
com as palavras; consequentemente sua realização escolar será muito baixa e a reprovação ou
retenção serão quase certas.

Seria muito bom que os manuais apresentassem uma diversidade de exercícios bem estruturados
e em quantidade suficiente para que as 10 aulas programadas para o estudo de cada letra fossem
feitas directamente no livro pois haveria alguma economia do tempo por parte do professor e
maior tempo de exercitação por parte do aluno. Além disso as dificuldades do professor em criar
situações de aprendizagem aliadas a imagens causadas pela escassez de recursos não seria
justificativa uma vez que os manuais teriam quase tudo que o aluno precisa. Mas nesse ínterim
espera-se que cada professor seja criativo, por isso este deve ter um perfil investigador e
maleável a mudanças.

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Acesso em 07 de Setembro de 2016
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http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3539510 actualizado em 27/07/2015
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Acesso em 08 de Setembro de 2016
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http://conceito.de/exercicio#ixzz4KKXbjt5m
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