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É uma manhã chuvosa de dezembro na região Pampulha de Belo Horizonte, mais precisamente

bairro São Bernardo. Estamos em visita à Chácara Santa Eulália, cuja área verde de 50 mil m² na
margem esquerda do ribeirão Pampulha que a separa do Aeroporto. Grande parte da mata foi
consolidada Reserva Particular Ecológica, modalidade de proteção ambiental criada em lei
municipal que se traduz em isenção fiscal ao proprietário em troca de assegurar a integridade da
área verde em um período mínimo de 20 anos.

A proprietária do imóvel, Priscila Freire nos aguarda na porta de sua casa. Priscila é bibliotecária de
formação, teve importante atuação no Teatro Marília da capital mineira e devido ao seu interesse
por cultura e artes, se destacou não somente como colecionadora, mas também diretora do Museu
de Arte da Pampulha por 15 anos, coordenadora do Sistema Nacional de Museus e
superintendente de Museus em Minas Gerais

A olaria foi construída na década de 30, época contemporânea ao barramento da represa da


Pampulha. Posteriormente a família Freire adquiriu a propriedade em 1953, adaptando a olaria
como residência. O andar térreo da casa preserva evidências da função anterior da construção,
com longo corredor de tijolos à mostra e passagens estreitas em formato de arco.

Dotada de longas prateleiras, Priscila ordenou uma vasta coleção de cerâmicas brasileiras, em
especial do Vale do Jequitinhonha. Ao mostrar a coleção Priscila cita procedências como Araçuaí,
Itamarandiba, Taiobeiras. Ela apelida carinhosamente de monstrinhos algumas esculturas de figuras
antropomorfizadas, seres fantásticos criados por artistas do norte mineiro. Ela também revela certa
predileção por esculturas mais simples, dotadas de “autenticidade e pureza”, não procedente de
escolas de escultura, mas oriundas da tradição local.

Ao subir no andar superior não são permitidas fotografias e filmagens, afinal trata-se de um
ambiente da vida privada e por questão de segurança do acervo, evitando-se especulações em
torno de seu acervo. A primeira parede que chamou bastante atenção possui quatro quadros de
Alberto da Veiga Guignard, sendo o último uma das notáveis pinturas da Festa de São João (1959).

Guignard foi estudante na disciplina de Farmacologia ministrada por Santiago Americano Freire, tio
de Priscila, de quem o pintor se tornou grande amigo.

O primeira quadro é uma releitura de quadro renascentista com uma araucária, que como lembra
Priscila, “Guignard era fascinado pela presença delas na Serra da Mantiquera”. Os dois quadros
centrais foram encomendas de pinturas dos filhos de Santiago, Natasha e Júnior.

Sentamos em volta de uma mesa baixa de madeira com forro de vidro, onde diversos
compartimentos organizavam uma imensa coleção de objetos, que segundo a Priscilla, “seduzem,
querem lhe pertencem”. Algumas obras em grafite foram mantidas em paredes menos duras, onde
não tivesse tanta umidade. Afinal foram feitas em material que se

Um quadro de 50 x 90 cm que a colecionadora aponta como o favorito é o Cristo no Jardim das


Oliveiras, uma curiosa leitura de Guinard do episódio bíblico, onde a oliveira apresenta traços de
uma roseira, assim como o personagem Jesus aparece com sapatos vermelho carmin. Priscilla
também ressalta que a moldura foi elaborada pelo pintor.
Ao final de nossa visita no segundo andar, Priscilla aponta medidas que ajudam a conservar a
coleção, como adotar espaçadores para que os quadros não fiquem colados às paredes que
poderiam transferir umidade, além de manter as aranhas, afinal elas são amigas da conservação
(sic): predam as traças que tanto degradam os tecidos e papéis.

Depois de sair da casa, passamos pela piscina e o jardim e entramos no galpão que era utilizado
como depósito de máquinas e engenharia. Sabendo de uma necessidade de mais espaço para seus
pertences, Priscilla providenciou com amigos a reforma do espaço, almejando um interior parecido
com uma “cavalariça italiana”.

Há 40 anos residindo na Chácara Eulália, Priscilla não esconde ambiciosos planos. Além do termo
para criação da RPPN, ela assinou outro acordo em que seu acervo é doado majoritariamente para
a Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) contanto que ele fisicamente não saísse daquele
local. Com a família vivendo na região Centro-Sul de Belo Horizonte, a colecionadora foi
aconselhada diversas vezes a se mudar, entretanto Priscilla resistiu. Hoje, ela se revela obstinada a
fundar na chácara um espaço de residência artística no eixo norte da capital mineira, que
inevitavelmente remete à ousada fundação do conjunto arquitetônico da Pampulha nos anos 40,
não distante dali.

Aos moldes de uma Casa Museu é muito provável que os jardins da Chácara Eulália serão parte
dos atrativos assim como as obras ali expostas, e o espaço sirva para o processo criativo de novos
artistas concomitante à disposição de obras do consagrado artista Guinard. Priscilla nos conta sobre
os entraves que há tanto tempo assola o Museu de Arte da Pampulha, onde desde sua direção era
apontada necessidade de um prédio anexo para condicionar determinadas exposições de arte. Não
sabemos quão distante a população belo horizontina está do seu museu público de arte, mas sonho
que se sonha junto se torna realidade, é o que sugere a parceria de Priscilla com a UEMG ali
mesmo, na Pampulha.