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o WGAR DA TRADIÇAO
NA MODERNiDADE
LATINO-AMERICANA: A

ETNICIDADE E GENERO*
Lia Zanotta Machado
do Depto. de Antropologia/UnB

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RESUMO ABSTRACT

Tomando como referência empirice o depoimento de uma lider THE PLA.CE OF TRAOITION IN LATIN AMERICAN MOOERNITY:
indígena da Gueternala, examina-se o processo de construção CONSTRUCTION OF ETHNIC ANO GENOER IOENTITY. T.~king
da identidade étnica e de gênero. que conforma uma nova lin- as empine reference tho statements of ri Guatemalan indian
guagem político-cultural articulada à neo-modcmidade ociden- ferninine leadet, the papor cxemmcc the prcccss ot constructing
tal. Nem mero resgate da tradição, nem submissão à moderni- cthnic and gender identity which shapes a r,ew political and
dada; nem dissolução da tradição, nem repúdio à modernidade. cultural languagc articulated to westem modernity. Neither mete
8 nova linguagem dos movimentos sociais que eclodirem na rescue of traditicn, por submission to modernity; neither
América Latina a partir dos anos 70 - especialmente de indí- dissoíution of tradition nor tctusal of modemity, the new
genas e de mulheres - parece apontar para um confronto de language from the mcvemcnts thet emerqod ln Latin América
altoridades culturais que promove a deconetruçêo e construção in the 70's - particulatfy indi •.\O and womcn's movemento --
da igualdade e da diferença. soem to point to a confront of cultural ulterttios that promete
deconstruction and construction cf cquality and difference.

Esse trabalho foi apresentado no Seminário Temático América Latina na Década de 90, curente o 14~ Encoutto Anual da ANPOCS.
Caxembu MG, outubro de 1990.

Cad. Pesq., São Paulo (77): 34-45, maio 1991 35

.....L.
J\J CI.'u\'éé:; I<~....;~)rj
PUê./SF·
de interpor CÓdigos específicos de "recepção" dos bens
Nc literatura classica hegemõnica das ciências sociais Na perspectiva de encarar as heterogeneidades co-
simbólicos hegemOnicos, cada vez menos silo capazes
dOS anos 50 aos 70, a questão das diferenças culturais mo podendo ser da natureza da diferença cultural, as na- de CÓdigos especlficos de expressão culturat.
e sociais estava circunscrita e subordinada a um dos terogeneidades silo também entendidas no trajeto social
de fazer-se no espaço e no tempo, mas o entrecruza- A modernidade americana combina uma série de ló-
dois eixos paradigmáticos: ou eram atribufdas à oposição
mento de tempos e espaços pode se dar tanto no interior gicas dfspares, mas a heterogeneidade cada vez mais é
entre campo e cidade e tradição e modernidade, ou eram
e um mesmo universo simbólico (versões) como entre explicável e encompassada pelo poder de imposição, de
atribufdas à oposição de classes.
universos ou códigos culturais que se possam perceber desestruturação das culturas locais e de expansão do
O futuro do desenvolvimento da América Latina su- como alteridades. O "vivido" não é aqui remetido direta- mercado industrial de bens simbólicos. A diversidade cul-
punha a homogeneização cunuraí e o fim das heteroge- mente às condiç6es de classe em circunstâncias espe- tural atual remete assim muito mais à modernidade que
neidades tanto para os teóricos da modernização como cfficas, mas entende-se que a vivência destas condições à reprodução das tradições culturais anteriores.
para os teóricos marxistas. Para os teóricos centrados no está mediada por modelos culturais que se conformaram Schwartzman, em seu debate com Morse (1988), en-
eixo do capitalismo desigual ou dependente, as catego- ao longo da história e que estão inscritos como memória fatiza de uma forma ainda mais linear que Brunner (1988)
rias da desigualdade e da dominação prevaleciam sobre disponível na história incorporada dos sujeitos do grupo a prevalência da modernidade na América Latina, em
as da diferença. e classe social (Bourdieu, 1980). Na história objetivada contraponto à impossibilidade de "volta ao passado". A
da América Latina, as culturas indígenas, a cultura ibero- questão da diversidade cultural só será tratável pelas
mediterrânea dos primeiros colonizadores, as culturas ciências sociais contemporâneas "desde que a livremos
ENTRE A DESIGUALDADE E ~ DIFERENÇA africanas e as cultoras européias e asiáticas dos imigran- da penumbra das tradições culturais qualitativamente ir-
tes mais recentes marcaram e inscreveram-se d~erente- redutíveis entre si, e aceitemos que podem mudar com
mente, no decurso da trajetória das relações das ativida- grande velocidade ..." (Schwartzrnan, 1989, p.193).
Entre a forma simplista e etnocêntrica de tratar das dife- des agrícolas no período colonial escravista até as rela-
renças culturais pelos teóricos da modernização e a re- As tradições culturais não-ocidentais. como a das ci-
ções sociais capitalistas com a presença das atividades vilizações indígenas malas, astecas e incaicas, são iden-
dução da questão cuhural à questão ideológica referida industriais, em situação de internacionalização crescente
ao poder e dominação de classe com tendência homo- tfficadas com o passado, este visto como morto, termi-
do mercado interno. nado. Em visita à Guatemala, Scnwartzrnan, ao ser infor-
geneizante, pouco espaço tiveram os estudos das dife-
renças culturais referidas ao ethos, a visões de mundo Na América Latina, o paradigma do entrecruzamento mado de que as vestes típicas dos indígenas guatemal-
e à axpenêncla de vida. Não foram poucos os cientistas de modelos cunurats de alteridade é o confronto das cul- tecos foram impostas pelos colonizadores espanhóis,
sociais, especialmente antropólogos, que realizaram estu- turas indígenas face ao modelo ocidental. É em nome do conclui que não há "passado" para se voltar, porque não
dos de comunidades, estudos étnicos e de populações confronto com o modelo ocidental que Bonfil B. (1987) representa siqniticado cultural e de identidade próprios
indfgenas, mas ficaram à margem das interpretações ma- configura o modelo civilizatório dos indígenas para além (Schwartzman, 1989). A modernidade na América Latina
croestruturais, nelas não produzindo efeitos. de suas díterenças internas culturais, que não são pou- é para ele um projeto incompleto, que desenvolveu de-
cas. São substantivos os desafios políticos deste con- sigualdades e pobreza. A noção de diversidade cultural
Hoje, parte deste quadro está revertido pela impor- fronto de alteridades culturais. Embora camponeses, mi- fica, assim, subsumida à desigualdade. Reafirma-se o
tãncia das diferenças culturais, que cresceu como res- neiros e trabalhadores das mais diversas atividades ocu- processo de modernização como de etapas sucessivas,
posta a um duplo movimento: o esfacelamento de qual- pacionais na cidade, os modelos e códigos culturais que em que a tradição é já passado, ou assim está se tor- nização é concebido como um futuro contínuo de ruptura
quer teoria modelar pronta e acabada, que acompanhou informam a identidade, assim como o ethos e a visão nando "com velocidade". com o passado. Uma ciência social "modernista" (na de-
o ceticismo frente à modernidade iluminista e racionalista de mundo destes grupos indígenas, são outros. Daí os nominação de Marcus, que coincide em vários aspectos
Morse (1988) e Bonfil B. (1987) propõem o resgate
dos países desenvolvidos, e os múltiplos movimentos movimentos indígenas, com especial ênfase nos países com a concepção "pós-modernista" de Vattirno, 1986)
de histórias culturais da América Latina negadas pelo
sociais na América Latina, que cada vez mais explodiram andinos e meso-americanos, propugnarem a plural idade propõe epistemologicamente a critica a uma verdade ilu-
predomfnio da modernidade atual. Para Morse, a tradição
em nome de suas d~erenças, embora, ao mesmo tempo, de nações e lutarem por um Estado que viabilize esta minista e objetivista e a um tempo unilinear. Trabalha
ibérica garante uma identidade latino-americana por sua
de uma forma ou de outra expressem fundamentos co- plural idade (ver, por exemplo, Iturralde, 1988). com a possibilidade da fragmentaçáo, das versões e da
visão abrangente e un~icadora do mundo, que pode se
muns da situação latino-americana Irente à crise de sua procura da totalidade como evocação Assim, entre pas-
contrapor à crise moral da cultura anqlo-saxõníca indivi-
posição no sistema capitalista internacional. Por d~eren- sado e presente, tradição e mocerrucade, não há ruptura
dualista e liberal. Para Bonfil, a cultura indígena meso-
tes e cruzados caminhos, historiadores sociais, antropó- nem compartimentação Uma volta metodológica à me-
ENTRE A MODERNIDADE E A TRADiÇÃO NA americana, negada pelo Estado Moderno, não só tem
logos, sociólogos e cientistas políticos deixaram os mo- mória coletiva e individual é proposta para encontrar os
AMÉRICA LATINA uma história milenar, como vive na cultura cotidiana dos
delos fechados e passaram a reivindicar, para estudos nexos de significação entre tradição e modernidade, pas-
povos indfgenas. A diversidade cultural é reconhecida
localizados e concretos, a novidade de deverem ser o sado e presente. O passado tem eieitos no presente atra-
como ponto de partida e é a meta central do projeto de
ponto de partida das grandes interpretações das socie- Na atual controvérsia sobre a construção da identidade vés da memória, que é efetiva porque Informa práticas
construção de uma nação pluricultural e um estado píu-
dades latino-americanas, abrindo espaço para pensar latino-americana, Schwartzman (1988, 1989), Brunner de reprodução social e de um etbos cultural.
riétnico.
suas heterogeneidades em parâmetros microestruturais. (1988), Morse (1988, 1989) e Bonfil B. (1987) podem ser Nosso desafio neste trabalho é recolocar as articu-
tomados como exemplos paradigmáticos do novo deba- Morse e Bonfil expressam a proposta de resgates
Muitas são as questões hoje controvertidas. Qual é lações de sentido entre ettios culturais de alteridade: um
te sobre as heterogeneidades culturais e sociais e sobre culturais, Schwartzman aponta a impossibilidade do res-
o estatuto dessas diferenças? Devem ser tratadas como centrado na modernidade (o valor da ruptura. do novo
as articulações entre tradição e modernidade. gate do passado. Será, no entanto, que sobre diversida-
especificidades, como versões sempre referidas imedia- continuamente reposto e do inoívíduaüsmo) e outro na
de cultural somente se pode falar de resgates ou de su-
tamente às diferenças inter e intra classes em seu fazer- Brunner trata da peculiaridade cultural da América tradição (o valor da conservação ceruraco em ethos no-
bordinação à modernidade? 80nfil não se circunscreve lista).
se, no espaço e no tempo, em suas condições e circuns- Latina referindo-a à sua maneira de se inserir na moder- ao resgate. Centra-se na cotícãarudaos da diferença cul-
tâncias? Aceitando este ponto de vista, só se pode falar nidade imposta pelos centros hegemõnicos norte-ameri- tural. Trata-se, portanto, de uma proposta teórica de apon-
da heterogeneidade em nome do caráter particular e con- cano e europeu, através do movimento internacional de tar a presença entrecruzada de códigos culturais tradicio-
difusão de "bens simbólicos". A América Latina se apro- A diversidade cultural, como alteridade ao ethos mo- nais em valores reconhecíveis como modernos e secu-
creto de cada circunstância do entrecruzamento de tem-
pria das sínteses culturais modernas, segundo "CÓdigos derno, pode ser pensada como coexistindo com ela, se larizados.
po e espaço. Assim, a formação da classe operária bra-
deixarmos de lado as concepções das ciências sociais
sileira, para Maria Célia Paoli (1982), apresenta heteroge- locais de recepção", a partir de suas contradições, po-
"realistas". Por ciência social "realista", Marcus (1990) de-
neidade por advir da diferença de processos de trabalho, breza e potencialidades, constituindo assim uma identi-
nomina a ciência social moderna concebida nos padrões
da divisão técnica, sexual e etária do trabalho industrial, dade cultural heterogênea. Sua heterogeneidade é articu- IDENTIDADES ÉTNICAS E DE GÊNERO
racionalistas e iluministas da nascente modernidade, que
das distintas formas de disciplinamento e exploração e lada enquanto pastiche. É em parte de construção da cul-
construiu uma noção de objetividade onde as categorias
do caráter particular de cada empresa industrial. São, ao tura ocidental, mas é também desestruturação da trama
de totalidade e tempo são prévias a, e explicativas do A linguagem política e cultural do reconhecimento da di-
que nos parece, identificáveis com versões de uma mes- local de cultura. A indústria de produção cultural interna- objeto analisado. A noção de tempo que prevalece é uni- ferença está presente nos modernos movimentos indíge-
ma forma: a cultura da classe operária, cuja fala e coti- cionalizada desloca as fontes de construção cutturaí das linear, de etapas sucessivas. O processo de moder- nas e feministas que eclodem na América Latina a partir
diano se confrontam com a classe dominante. comunidades locais. Se elas são, por um lado, capazes

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....I...
dos anos 70. As reivindicaç6es pela igualdade, denun- euIa no discurso diplomático de organizações internacio- contrários a ou diferenles dos valores modernos A torça
ciando a dominação elou discriminação, são faladas a nais e não governamentais. da tradição aflora assirn articulada às transíor maçóes da
partir da dfferença de ser indlgena ou ser mulher. A eclo- modernidade e delas também é propugnadora.
As transformações ocorridas nos movimentos relati-
são destes movimentos nos anos 70, ao lado do debate vos à identidade feminina também devem ser articuladas O presente trabalho insere-se num projeto mais am-
da defesa da ecologia, foi rnottas vezes explicada como à neo-modernidade ocidental. O feminismo do século XX plo de análise comparativa da construção de identidades
sendo a única forma de expressão de movimentos so- anterior aos anos 70 centrava-se na reivindicação pela pessoais articuladoras destes tradicionalismos e moder-
ciais posslvel diante da consolidação de regimes milita- igualdade de direitos (polfticos, civis, sociais) e não é nidades no interior de recentes Ou contemporãneos mo-
res ditatorlais na América Latina. possível pensá-Io dissociado da expansão da ideologia virnentos políticos nos países andinos e meso-america-
Entendemos, contudo, que não estávamos apenas individualista pelo capítaüsrno industrial. Estamos pen- nos, através da análise de biografias Ou autobiografias
diante de respostas posslveis à força repressiva das di- sando na concepção de individualismo tal como analisa- de militantes poííticos indígenas. O estudo de biografias
taduras, mas sim diante da conformação de uma nova da por Dumont (1985) e na relação entre individualismo de militantes possibilita o efe~o amplificador de uma me-
linguagem polhica que respondia às configurações ini- e feminismo muito bem apontada, entre outros, por Fran- mória individual que se constitui por referência a um con-
ciais de um novo quadro internacional polltico e econô- chetto et aI. (1981). A partir dos anos 70, mais especial- texto público inserido na cena política, podendo-se assim
mico, que viria desencadear na recomposição do bloco mente na década de 80, o feminismo vai cada vez mais dialogar corn a versão representante de uma memória
europeu, no desaquecimento da guerra fria, no rsaunna- incluindo em sua pauta o reconhecimento e a defesa da política coletiva.
mento com o Terceiro Mundo e no crescimento de in- diferença. Ao lado da igualdade de acesso ao poder, pro-
Aqui esboçaremos a análise da memória biográfica
certezas quanto ao futuro unjlinear da ocidentalização põe o valor da oiíerença pela busca de uma outra ética, de uma líder do campesinato indígena guatemalteco, Ri-
mundial e à expansão dos estados de bem-estar social de uma busca ou reconhecimento de outro modo ou
goberta Menchu, transcrita na forma de monólogo, a par-
nos moldes dos palses desenvolvidos. A critica à razão estilo de exercer o poder, de estabelecer relações soli-
tir do diálogo - entrevista com a antropóloga Elizabeth
iluminista encompassa a heteronomia polltlca a nrvel in- dárias (sorority) e de construir um perfil emocional espe- Surgos (1985).
ternacional e a disputa por poderes locais, tanto nacio- cffico.
nais quanto étnicos, a nlvel mundial. A segunda parte do trabalho está apoiada em pes-
Não é o feminismo que tomaremos como objeto,
quisa de campo recentemente realizada durante dois me-
A nova linguagem polftica internacional caracteriza- mas sim o modo pelo qual, nos novos movimentos po-
ses na América Central (Guatemala, EI Salvador, NIcará-
se por deslocar da primeira linha do debate as propostas líticos indígenas e populares, as identidades femininas se
gua e Honduras) junto a líderes comunitários de cama-
civilizatórias de progresso e as disputas entre os mode- constroem, articulando criativamente elou contraditorla-
los capitalista e socialista para questões ecológicas e cul- das populares urbanas periféricas e de lideres de coo-
mente a relação entre igualdade e d~erença. perativas rurais integrados ern projetos de desenvolvi-
turais. As categorias de igualdade e confronto, que antes
informavam o debate político internacional, parecem dar Ainda que brevemente, esperamos ter apontado a mento comunitário, que carregam características nitida-
mesma novidade presente nos movimentos indígenas e mente modernizantes porque concebidas fora das comu-
lugar a questões sobre a Inserção possível ou não de
feministas dos anos 70 e 80: a postulação da diferença, nidades locais, por organismos internacionais (como o
diíerenças sociais e culturais naqueles modelos societais,
a inserção em um contexto de diálogo internacional e na UNICEF), organizações não governamentais elou pelos
assim como de críticas globais ao industrialismo tecnicis-
linguagem política da neo-modernidade, o que implica re- governos nacionais. São concebidos em nome de uma nesta questão. Nossa hipótese é que quaisquer ternáticas
ta e seus efe~os anti-econõmicos. .
pensar a chamada pós-modernidade como uma versão qualidade e estilo de vida moderna e universal, e dialo- sociais não podem ser apreciadas nurna ótica neutral em
Sem discutirmos em profundidade, neste momento da própria modernidade, porquanto não a nega mas pro- gam (impondo, fracassando ou interagindo) com grupos relação ao gênero, rnas sim em ótica que evidencie os
e neste espaço, a inserção desta linguagem na crftica à duz sua fragmentação. Encontros latino-americanos e in- sociais de ethos culturais distintos. A observação destas efeitos diferenciadores da presença cultural do gênero.
razão iluminista e na configuração de uma neo-moderni- ternacionais de indígenas e de mulheres surgem, cres- relações perrnitlu um acesso privilegiado às reflexões dos Mais do que isso, a questão de gênero é atravessada
dade ou pós-modernldade (se vista pelo seu lado cético cem e se expandem (sobre os movimentos indlgenas inforrnantes sobre estilos de vida que articulam tradição pelas novas articulações entre tradição e modernidade.
diante dos resultados civilizatórios e culturais do progres- dos anos 70 é fundamental ver Bonfil B., 1981). e modernidade. Demos especial ênfase à articulação en-
so tecnológico). queremos enfatizar que a linguagem de Contudo, neste trabalho, centrar -nos-emos na re-
tre tradição e modernidade tal como se dá no processo
resistência dos movimentos indlgenas alcança uma de- O direito à ditarança é uma outra forma de esta nova construção e interpretação da memória de Rigoberta
de construção das identidades de gênero e de etnia.
terminada configuração e lugar face à força desta neo- linguagem política internacional falar sobre a persistência Menchu, líder indígena de rnovimento camponês guate-
modernidade ocidental (ver, por exemplo, Vattimo, 1986; de tradições culturais, que a razão iluminista do progres- Enquanto as biografias de militantes indlgenas de malteco, participante da Frente Popular 31 de Enero fun-
Habermas, 1989; Berman, 1986; e algumas considera- so tecnológico e do projeto ocidental civilizatório supu- movimentos políticos visarn iluminar a construção das dada em janeiro de 1981, data de aniversário do massa-
ções em Machado, 1988 e 1989). nha (ou propunha) fazer desaparecer. identidades onde a cena macro-política é o referente, a cre de um grupo de indígenas quiché que ocupou a Em-
atenção às representações dos líderes cornunítáríos visa baixada da Espanha na Cidade de Guatemala, do qual
Os rnovimentos indlgenas andino e meso-americano As ciências sociais, portanto, trataram hegemonica-
iluminar identidades referidas a cenas micropolílicas co- fazia parte seu pai, Vicente Menchu, que morto se tornou
(regiões onde sua importância demográfica é substanti- mente da tradição como "passado", "sobrevivência" e
tidianas. herói nacional.
va) denunciam a única nacionalidade branca e hispânica "persistência", porque a razão iluminista (presente tanto
dos estados-nações pós coloniais. Suas reivindicações no marxismo como na teoria da modernização) informa- Aos olhos do Cone Sul da América Latina, as Amé- Procuraremos focalizar como tradições étnicas e de
eram até então pensadas na linguagem política então do- va seu horizonte cultural. Dar se poder explicar a atual ricas Andina e Central apresentam a especificidade de gênero, de alteridade face à modernidade, nela se inscre-
minante como inseridos em sua posição de campesinos. postulação de Schwartzman, para quem falar de tradição uma forte base populacional indígena com cultura con- vem e colocam a presença de sua própria configuração
São agora reivindicações que se querem étnicas em no- é falar de "volta ao primitivo". Ainda que se lhe dê razão trastante, onde os movimentos indígenas por territoriali- nos rumos contemporâneos dessa modernidade.
me de tradições culturais, filosofia, cosmovisão e sistema ern sua crftíca a Morse - pois este autor de fato enfatiza dade e autonomia poutíca .(mesmo que parcial) têm um
econômico diferentes e que propugnam o reconhecimen- o caráter de resgate e de vona da cultura ibérica - o forte impacto politico, e também por estarem realizando
to nacional e internacional de um povo ou de uma nação que se está querendo aqui mostrar é que as tradições propostas de movimentos sociais clássicos e totalizantes ETNICIDADE, MEMÓRIA E TRADiÇÃO
com dire~os a territorialidade e algum grau de autonomia indígenas permanecem, pela reelaboração contínua no (revoluções sociais, lutas por reforma agrária, movimen-
política. contexto das transformações da modernidade, delas to- tos guerrilheiros), enquanto no Cone Sul se expandem a
mando parte ativamente. luta pela dernocracia tout court e os chamados novos Meu pai era o elegido da comunidade e minha mãe tam-
Postulam a igualdade de direitos e acesso ao poder, bém. Meu pai dizia, 'não fazemos isso para que os vi-
movimentos sociais, de base mais fragmentária e locali-
porém não mais na linguagem dos direitos individuais de Hoje, na predorninância deste novo horizonte cultural nnhos digam que somos bons, fazemos por nossos an-
zada, encompassados somente por uma proposta anti-
cidadania e sim na nova linguagem dos direitos de um que postula as diferenças, podemos ensaiar uma nova tepassados' (...) Ele punha a culpa no tempo que esta-
autorhárla (ver, por exernplo, Calderón e Jelín, 1987). O
povo ou nação, a serem exercidos como uma coletivi- perspectiva de pensar (interpretar) as diferentes formas mos vivendo, mas esse tempo que estamos vivendo, le-
enfoque sobre a América Central e Andina permitirá uma
dade holista ou comunitária, não como coletividade as- de articulação entre, por um lado, o processo de mo- mos que vencê-to com a presença real de nossos ante-
maior aproximação à relação entre tradição e moderni-
sociativa (sindicato, associações etc.). A defesa das tra- dernização sócío-econõrníca e a expansão da moderni- passados. (...) Meu av6 ainda é vivo, acho que comple-
dade através do rnaior impacto político da etnicidade.
dições, se não deixa de estar imprimida pela continuida- dade cultural e, por outro, os processos sociais de per- tou cento e dezesseis anos, é o pai de minha mãe. En-
de das diferenças culturais tradicionais, faz-se, produz e sistência de identidades tradicionais que buscaram a A introdução da questão de gênero fugirá aos mol- tão, esse av6 contava muitas partes da vida dele, dizia
encontra um lugar na linguagem neo-moderna que cir- conservação de modelos coíturaís com ethos holistas des tradicionais de pesquisas exclusivamente centradas que viveu durante a escravidão (...) Para nós, era como

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uma conversa polftica, cada vez que falávamos com vo- mentação de Identidade nurn sistema de Integração mun varado em Quetzaltenango E termina-se dizendo que

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vô. Ele nos explicava por que as pessoas hoje não vivem dial) tem como valor a ruptura da tradição, a busca da "nem os mais ricos acabarão com nossos costumes, ain-
tanto como nossos antepassados (...) Ele dizia vocés, fi- novidade que deve ser continuamente superada por ou- da que os filhos venham a ser serventes e trabalhado-
lhos, vocás não são culpados, culpados são os aparatos tra ruptura. A continuidade das transformações ou a con- res". Reportam-se então aos segredos indígenas, ao mi-
modernos que vieram para nossa terra' (...) A raiz de nos- tinuidade das rupturas é que se tornou um valor, ainda lho, ao feijão, às ervas mais importantes e à concepção
sa situação eram os espanhóis. Começaram a levar um que evidentemente se possa falar também da "tradição de que a criança é formada de milho. Este resumo da
montão de coisas de nossas terras (...) até as reínas I moderna" do valor da ruptura (mas esta já é uma tradi- descrição do ritual por Rigoberta permite evidenciar que
que eram escolhidas por nossa comunidade eram viola- ção que não se quer tradição). a memória geracional dos vivos e a memória histórica
das. Dai é que salram os ladinos. Os caxlanos. Ou seja, se inscrevem nos rituais de seu tempo mítico.
A cuttura quiché, nas palavras de Rigoberta Menchu,
de dois sangues, indlgena e espanhol. Caxlan quer dizer indígena quiché, tem como valor a conservação, mas já O primeiro ritual de preparação para o casamento é
um pouco misturado. 'Não liguem para os caxlanos, vo- num contexto onde o referente é a cultura ocidental bran- a "abertura das portas" da casa da noiva para a famOia
cês guardem tudo de nossos antepassados' (...) Conver- ca e moderna, pensada como aquela que pode transfor- do noivo. Na segunda cerimOnia, a família do namorado
sava conosco constantemente, sobre sua vida, sobre ele mar e romper sua tradição. leva 75 tamales (pamonhas), uma ovelha viva e uma
mesmo. Então, isso ajudou a que nós ainda conserve- morta, tortillas, assim como o guaro, aguardente feita
Nós temos ocultado nossa identidade porque soubemos
mos nossas coisas; a maior part(J do povo conserva mui- clandestinamente pelos indígenas. Enquanto, na referida
resistir, temos escondido o que o regime quer tirar de
tas coisas. Mas também muitas se perderam. Ou não se cerimOnia de preparação, toda a alimentação é natural e
nós. Seja pelas religióes, seja pela repartição de terras,
fazem exatamente como eram (Rigoberta Menchu, apud as velas - tais como as do ritual de nascimento - são
pelas escolas, seja por meio de livros, do rádio, de coi-
Surgos, 1985, p.214-5). feitas de cera das abelhas do campo, assim como os
sas modernas, tentam nos empurrar outras coisas e tirar
cigarros são acesos com pedrinhas, na terceira cerimO-
Rigoberta Menchu, neste trecho, fala da vontade po- o que é nosso. Mas é nesse sentido que nós fazemos
nia as velas e o guaro são comprados no mercado, ofe-
I~ica da tradição entendida corno conservação dos cos- o processo das cerimônias, por exemplo (apud Surgos,
recem-se água gasosa, pão, ovos, chocolate e café. Os
tumes dos antepassados. A memória da vivência de seu 1985, p.196-7). avós passam a explicar que não se deve ensinar o uso
avO reportada à memória de gerações anteriores torna Nos rituais de nascimento, de passagem da vida in- desses itens aos filhos, pois "é algo que trata de matar
claro que o tempo histórico das populações indígenas fantil à adulta (aos dez e doze anos), de casamento e nossos costumes. São coisas que passaram por máqui-
meso-americanas é mais profundo do que, em geral, o de morte estão presentes as falas e os simbolismos re- nas e nossos antepassados nunca usaram máquinas.
das populações indígenas brasileiras, onde o tempo mí- ferentes ao valor da conservação das tradições dos an- Estas fazendas são as que fazem com que morramos jo-
tico desponta com mais rapidez no espaço de poucas tepassados e à ameaça dos costumes modernos e ladi- vens" (apud Surgos, 1985, p.196-7).
gerações. Mas a memória da conservação dos costumes
nos.
não é pensada apenas como valor da permanência. É O pão passa a ser a metáfora do homem ladino. O
já pensada num movimento que evoca a totalização da No ritual de nascimento, a criança é recebida por pão é a mistura do trigo com ovos. O trigo não é mais
relação entre tradição étnica e a resistência à moderni- três casais que representam a comunidade: o casal dos puro. É misturado. O ladino é uma mistura de sangue
dade ladina (o termo ladino tem uso amplo na Guate- elegidos (líderes ao mesmo tempo politicos e religiosos indígena e branco. Sua comida é misturada. O ladino é
mala e refere-se a mestiços ou indígenas que deixaram escolhidos pela comunidade), os avós patrilineares e os misturado, revuelto. O homem indígena é de milho, ínte-
seus costumes). Esta conservação é já resistência e evo- matrilineares, que podem ser substituídos pelos tios pa- gro. O passado passa a ser presente, e O presente é ri- rnllia), sem condições de terem suas cerimOnias, sem
trilineares e matrilineares. Mata-se uma ovelha para a fa- tualizado. condições de serem indígenas, mas apenas "índios": os
ca uma totaíização em aberto, que dá visibilidade ao du-
rnüía. Chegam vizinhos com comida e lenha. A mãe deve que não dominam a situação de trabalho nem a de des-
plo processo alternativo de constituição das identidades Se o não uso da indumentária indígena (identificada
provar de tudo o que lhe dão os vizinhos. Por oito dias locamento (são levados e trazidos de volta em cami-
indígena e ladina. A irredutibilidade da cultura indígena como tal, ainda que já não seja a mesma anterior à con-
a criança fica somente com a mãe, sem que a ele ou a nhões sem visão de por onde passam) e os que não
não pode ser naturalizada ou reificada como, sem o que- quista/invasão) e da introdução de alimentos modernos
ela tenham acesso a tarnüía e os outros filhos. Suas falam a não ser com seus feitores (ladinos que falam o
rer, o pensamento iluminista a vê. Ela somente pode se são vistos como ladinização, e como tal censurável aos
mãos e seus pés são amarrados, pondo-os retos. "As espanhol e a língua quiché, indígenas com o sangue mas
colocar como irredutivel num processo de interação com olhos indígenas, é porque a ladinização é um processo
mãos se tornam sagradas para o trabalho, não vão abu- sem as tradições). Permanecer tão-somente na fazenda
a modernidade, quando se quer irredutivel (vontade cul- sar da natureza e saberão respeitar a vida de tudo o que que sempre se apresenta como possibilidade. Os rituais
tural e política) e encontra as condições de se atualizar. da cultura indígena são não somente sólidos (porque, se é uma possibilidade; mas é já ladinizar-se.
existe". No oitavo dia, mata-se um outro animal para se-
Assim, a tradição cuttural da diferença não é naturalizada parar o filho da companhia exclusiva da mãe e integrá-Ia não o fossem, a permanência dessa diferença cuhural já O sentido de ladinização é também construído por
como irredutivel e nem é naturalizada como fadada ao no universo. São acesas as primeiras velas porque é um ter-se-ia esvaído), mas expressam a situação frágil face Rigoberta a partir da experiência da cidade: a experiência
desaparecimento. membro a mais na comunidade. Uma vela para cada ele- à ameaça da presença da modernidade transcunuraí con- de ver seu pai inclinado diante dos burocratas, tal como
mento de "tudo o que existe": terra, água, sol, homem, tinuamente capaz de ser atualizada. o fazia na comunidade diante da importância das leis dos
Para Nietzsche, o espírito moderno opõe-se à von-
tade da tradição. "O que hoje mais se ataca é o instinto mais as velas da criança. A criança deixa sua pureza e A vontade da conservação cultural que desponta antepassados representada nas cerimOnias rituais. É a
e a vontade da tradição: todas as instituições que devem inteira-se de toda a humanidade. dos rituais indica que, se a ladinização é um processo experiência de ser empregada doméstica, "índia suja". É
sua origem a esse instinto opõem-se ao gosto do espírito Desde o dia em que nasce, recebe um morralito, bol- sempre possível e aberto, a possibilidade de continuida- a experiência do encontro com ladinos pobres e ricos.
moderno.. No fundo não se pensa e não se faz nada sa pequena com alho, cal, sal e tabaco para que enfrente de da construção da indianidade está centrada na pos- A identidade indígena e seu alter, a identidade ladina,
que não persiga o objetivo de arrancar pelas raízes esse todo o mal que existe.e para que saiba acumular e guar- sibilidade de continuidade da cultura do milho, sem o são construídas multilocalmente, como não nos deixa
sentido da tradição. Toma-se a tradição como fatalidade; dar tudo o que vem dos seus antepassados. que não mais haveriam "homens de milho". Em torno do esquecer Marcus (1990). Contudo, é a relativa possibili-
ela é estudada, é reconhecida (como 'herança') mas não Quando a criança completa seus quarenta dias, é o milho são construídos os rituais do plantio e da colheita, dade de a comunidade se manter parcialmente (em ter-
se a quer" (Nietzsche, 1986, Fragmento 65). momento do batismo. O casal dos elegidos faz uma fala que atualizam as concepções cosmológicas do sol, da mos de espaço e tempo) distante da compressão do
aos pais para que ensinem a criança a "guardar todos lua, da terra e da água. Do tempo e do espaço. Do mas- tempo-espaço da nova modernidade (í-tarvey, 1989) que
O anti-moderno, para Nietzsche, é a tradição, isto é, culino e do feminino.
os segredos, para que ninguém possa acabar com a propicia a força da tradição indígena. Não fora a perma-
o valor da tradição que se quer tradição. Ela se quer,
nossa cultura, com nossos costumes. Então é uma crí- O sentido da ladinização não é só construído a partir nência da comunidade num território onde se realiza a
nas palavras de Sornheim (1987, p.18), "eterna, determi-
tica com respeito a toda a humanidade e a muita de nos- da vivência no espaço da comunidade, mas também no cultura do milho, sua possibiHdade seria outra, provavel-
nando não apenas o passado e o presente, mas o pró-
sa gente que perdeu seus costumes" (apud Surgos, espaço do trabalho temporário nas fazendas. mente teria menor força de permanência e resistência.
prio futuro". E claro que estamos entendendo que as tra-
1985, p.33).
dições cutturaís têm história e são diversas. Mas, neste Se o altiplano é o lugar da cultura do milho, o oriente
debate sobre o lugar das tradições na modernidade, o Nesta mesma cerimOnia menciona-se Tecún Umán, e a costa são os lugares das fazendas ladinizadas da
que vale ressaltar é que, apesar da diversidade das for- capitão geral das forças quiché que morreu em fevereiro cana-de-açúcar e do café. Lá os indígenas passam al- TRAJETÓRIAS POLíTICAS
mas culturais e históricas, a cultura ocidental moderna de 1524 combatendo contra as tropas de Pedro de AI- guns meses do ano como trabalhadores temporários,
contemporânea (quer em suas premissas iluministas, vivendo juntos em galpões (cerca de quatrocentas pes-
"Rainhas" de festas promovidas pelos hispânicos. É a luta pela terra, como luta pela sobrevivência da "cul-
quer em sua versão pós-modernista que aponta a frag- soas), sem condições de terem um lar (fogo para a ta-
tura do milho" e de sua identidade indígena, que leva Vi-

40 Cad. Pesq. (77) maio 1991 O lugar da tradição ..

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nações anexadas (nações indígenas) com respeito ao deve dar mais comida pois "aumenta todo seu trabalho".
Me lembro que quando dizíamos que a raiz de nossa Estado guatemalteco". Nesta mesma época, vários pri- E tem-se uma alegria a mais quando nasce um varão.
cente Menchu, pai de Rigoberta, em nome de sua co-
problemática vinha da terra e de sermos explorados, eu meiros congressos regionais e internacionais de nações
munidade, como seu elegido, ao trajeto do movimento A menina "tem valor como algo da terra, que dá seu
sentia como que uma condição a mais, isso de ser in- indígenas são roauzaooss.
político. Por vinte e dois anos realiza suas idas e vindas milho, que dá seu feijão, que dá suas ervas, que dá tudo.
dígena (...) Ficava pensando em toda minha história de
às burocracias estatais para obter a legalização de suas A linguagem da reivindicação por direitos em nome A terra é como uma mãe que multiplica a vida do ho-
menina, quando ia ao mercado e, como náo falávamos
terras. Nos momentos políticos em que a comunidade de uma outra nacionalidade ou em nome de direitos co- mem" (apud Burgos, 1985, p.35-6). O masculino e o fe-
o castelhano, nos enganavam quando fazíamos compras
consegue se estabilizar, os quiché constituem-se em pe- munitários se expande e configura o novo indigenismo, minino, homem e mulher se relacionam complementar-
(apud Burgos, 1985, p.194)
quenas parcelas familiares que são obrigadas a pagar tendo como atores as próprias comunidades e/ou na- mente tal como o sol e a terra. No momento do plantio,
por cada árvore derrubada para fazer lenha. A comuni- E ela não se refere apenas à discriminação. Fala ções. é feita uma oração para a terra nestes termos: "mãe terra
dade, apesar dessa parcelização legalmente imposta, também de um outro lugar: "Descobri que nós indígenas que és sagrada, tem que nos dar de comer, tem que nos
temos algo em comum, apesar das barreiras idiomáticas, Se o contexto internacional desta linguagem permitiu
continua a trabalhar parte da terra em conjunto, mas dis- a estabilização deste discurso, não deixou de homoge- dar tudo o que nossos filhos necessitam". Para o sol se
persa suas casas. Em outros momentos, o governo volta as barreiras étnicas, as diferenças de traje. Que nossa diz: "tu como pai tens que dar calor, tua luz sobre nos-
neizar seu formato e suas reivindicações. O diálogo dos
a exigir a saída dos indígenas através de demarcações cultura é o milho" (apud Burgos, 1985, p.194-5). sos animais, milho e feijão. (...) O sol é a totalidade, a
movimentos indigenistas com o espaço internacional pro-
e da força. Vicente Menchu é levado a assinar papéis Parece-nos que, no discurso de Rigoberta, o lugar força, a vida. Assim, o homem. A terra é distribuição, é
duziu e reproduz sua apropriação, pela fala crftíca neo-
que lhe retiram os direitos, pois lhe dizem que o que de sua luta pela identidade indígena no contexto do CUC dádiva. Assim, a mulher". '
moderna contra "os excessos da modernização desuma-
estava escrito era o reconhecimento permanente do di- não parece resolvido. Por um lado, declara-o resolvido nizante e anti-ecológica". A preservação de ambientes A relação de identidade entre terra e mãe explica o
reito comunitário às terras. De fato, o texto falava em di- porque o CUC dá lugar para a fala indígena. Mas, por ecológicos e de cultura índígena são identificados e en- costume da mulher indígena sentar-se no chão. Por esta
reito ao uso das terras por dois anos improrrogáveis. outro, em seu relato, sempre depois de referir-se à de- contram lugar no novo discurso crítico e cético diante mesma identidade é que a mulher é a última a comer,
A comunidade paga advogados que a enganam. Vi- núncia da exploração e da desigualdade, volta a falar ou dos resultados da modernização e da industrialização. depois de distribuir a comida ao esposo e às crianças.
cente Menchu aproxima-se dos sindicatos operários co- a contar dos ensinamentos do pai sobre o que é ser in- Contudo, cada vez mais os mesmos processos de ex- E é por essa diferença simbólica entre homem e mulher
mo estratégia de obtenção de apoio. Passa a se orga- dígena. A vontade política da permanência da diferença pansão da civilização industrial, quer capitalista quer so- que cabe exclusivamente à mulher o cuidado de alimen-
nizar com outros camponeses e com os operários. não encontra expressão na lógica artículadora do discur- cialista, mais exigem novos territórios, exatamente aque- tar os filhos e o homem e, por aí, o cuidado da casa e
so do CUCo Apresenta-lhe um paradoxo. Possíveis alter- les onde as diferentes tradições puderam ter a força de de carregar a água. Sua diferença é sua importância.
A trajetória política de Rigoberta Menchu inicia-se
nativas históricas e trajetórias distintas se apresentam. se conservar. Daí que hoje, cada vez mais se torne im-
com a defesa da comunidade indígena diante do exército Quando Rigoberta Menchu se pergunta sobre o ma-
que quer obrigar a retirada. Rigoberta lidera a estratégia É talvez deste lugar da expressão da diferença, da possível não falar das diferenças. Mais difícil é dar cre- chismo? É em referência às relações com o mundo la-
de esconder-se. A comunidade utiliza armadilhas e armas valorização de uma cultura que se quer outra, que a for- dibilidade a uma modernidade onde as diferenças desa-
dino e com sua trajetória política. Refere-se à dificuldade
caseiras que são segredos da comunidade indígena. ça da tradição irrompe na modernidade contemporânea, parecem como se fosse de sua "natureza". São, ao con-
de sair sozinha sern ser acompanhada pela mãe, ao fato
Atraem um soldado numa armadilha e lhe ensinam como dando-lhe uma configuração peculiar. trário contínuos processos de confrontos e reelabora- de não ter aprendido o espanhol, e ao fato de saber
urn soldado indígena não pode estar matando seus ir- O mundo transcultural da modernidade ocidental ções. que, para uma comunidade indígena, uma mulher de sua
mãos. Soltam-no. Ele é morto pelos companheiros, que quanto mais avança para a integração mundial, mais A construção das identidades indígenas na moder- idade (23 anos), solteira e saindo sozinha provoca sus-
o consideraram traidor porque saiu vivo depois de ser atualiza a ameaça da dissolução de tradições, não só de nidade do fim do século XX está se fazendo, pois, mul- peitas. E acresce: "neste sentido não há tanto problema
preso por "guerrilheiros comunistas". Logo depois, Rigo- suas anteriores configurações culturais por ela mesma tilocalmente: do contexto da vivência comunitária ao quando os pais estão seguros que a mulher é virgem".
berta passa a apoiar informalmente a organização para criadas, como de tradições culturais distintas e locais, espaço intelectual e político de contexto internacional.
Quanto à divisão sexual do trabalho na vida comu-
a defesa de outras comunidades. Inicia dirigindo-se às que puderam se manter por circunstâncias históricas e
nitária, Rigoberta enfatiza sua equivalência em relação ao
aldeias onde tem amigas. Em 1979, Rigoberta Menchu espaciais. tempo dedicado ao trabalho. Todos acordam cedo. Os
se liga formalmente ao Comité de Unidad Campesina
A modernização realiza-se através da expansão de REFLEXÕES SOBRE O FEMININO homens preparam os instrumentos agrícolas. As mulhe-
(CUC) que vinha se organizando há tempo, mas com
um processo de dominação que torna visível a nova or- res preparam os alimentos. O cuidado dos alimentos, da
existência pública reconhecida somente em 1978.
dem que se está implementando. Esta nova ordem é de- As reflexões de Rigoberta Menchu sobre o gênero cen- casa e de carregar água é exclusivo da mulher, mas o
O processo de incorporação de Rigoberta ao CUC finida e designada pelas outras configurações de vida, trabalho agrícola é compartido por homens e mulheres.
tram-se no diálogo interno permanente entre sua posição
é o da passagem de uma defesa da cultura indígena, das abrindo possibilidades para resistências. A tradição me- Para Rigoberta, o sofrimento da mulher indígena é maior
de "mulher líder indígena, camponesa e cristã" - que cir-
terras e do direito a ser, para a defesa de uma causa so-americana, com a profundidade de seu tempo histó- porque é seu o cuidado com os filhos na situação ali-
cula entre diferentes etnias indígenas, padres, monjas, or-
revolucionária, que requer e supõe a identificação entre rico de resistência e de seu tempo mítico e cíclico que mentar precária em que vivem.
ganizações de camponeses, de operários e que organiza
indígenas e ladinos pobres, entre indígenas e campesi- é um outro diante da modernidade, tem potencialmente atividades de companheiros homens e mulheres - e sua Os costumes indígenas permitiam à mulher a possi-
nos, e a definição como inimigos não de todos os ladi- maior força de resistência e de impacto (pela importância condição de mulher. bilidade de separar-se do marido se esta sofresse, desde
nos, mas apenas dos ladinos ricos, especialmente dos de sua densidade demográfica, do que outras tradições
terratenientes. O governo, pensado antes como o gover- Se a memõria de sua vivência como indígena é que buscasse apoio na comunidade de origem. Foi o ca-
conformadas ao longo dos diferentes momentos de
no dos ladinos e o país dos ladinos, passa a ser per- construída para explicar a entrada no mundo político (o samento moderno civil e religioso que trouxe a obrigato-
espaço e tempo da conquista e independência na Amé-
cebido como abarcando também os espaços comunitá- passado expiicando o presente), é, ao contrário, sua po- riedade de estabilidade para dentro da comunidade indí-
rica Latina. gena.
rios indígenas. O governo já não é mais o poder que é sição de mulher no mundo político, diterente do que tinha
Assim, os processos de mundialização e de integra- na comunidade quiché, que a faz perguntar sobre o que
um "outro" e que é o "inimigo". Passa a ser um poder A trajetória política de Rigoberta assemelha-se mais
çào global não produzem apenas a homogeneidade, é ser mulher no mundo indígena (o presente configuran-
que pode ser modificado. Ladinos passam a ser com- à de sua mãe, cont'qurando uma carreira feminina, se
mas estreitam as relações entre heterogeneidades e tra- do o passado). Indagada se há ou não machismo indí-
panheiros de luta de Rigoberta. Guatemala pode vir a ser comparada com a trajetória do pai. Sendo o pai e a mãe
o estado-nação encompassador das culturas indígenas. dições distintas. gena, sua resposta não configura a desigualdade. A mu- os elegidos da comunidade, os dois voltam-se para a
Delineava-se com nitidez, desde os fins dos anos 70, lher compõe significados de valor diferentes do homem. questão da defesa da terra. Mas é o pai que, ainda quan-
O CUC coloca como questão primordial o acesso à
um outro histórico possível para a atualização das reivin- São valores relacionados, relativos e comparativos.
terra para os camponeses. A questão indígena é subsu-
dicações pelas diferenças das tradições indígenas, resul- A primeira referência sobre gênero é a identificação Diferentemente da Guatemala, onde o confronto político e a
mida à questão camponesa em seu discurso. A questão
tado deste mesmo processo de estreitamento do mundo do sol como masculino e da lua como feminina. "O pai guerra civil foram duros e contínuos (ainda que tenham de·
indígena passa a ser uma questão de desigual acesso
ou compressão do tempo-espaço na análise de David único é o coração do céu, que é o sol. É masculino por- clinado de intensidade a partir do governo eleito em 1985),
à terra e é incorporada ao discurso de esquerda, também em dois países andinos, Bolívia e Equador, as reivindicações
fundado na modernidade iluminista. Harvey (1989) que a mãe que nós consideramos é a lua. É uma mãe
pelo direito à diferença e pelas terras comunais (aylJus) qa-
Em maio de 1978, houve na Guatemala uma reunião terna, que alumia (...) É ele que sustém o universo" (apud nharam força (ver, a respeito, Untoja et al.. 1990; Urioste,
Mas a memória de Rigoberta constitui como seu ob-
de 35 grupos indígenas quiché e, em setembro de 1978, Burgos, 1985, p.34). 1990). Diversos eventos vêm se realizando: inclusive, no
jetivo político fundante o valor da defesa da "cultura do
reuniu-se o Conselho Regional de Povos Indígenas. O homem é um como o chefe da casa, mas "não Equador, em junho de 1990, um grande levantamento indí-
milho para os homens do milho" Pela defesa da cultura
Criou-se então o IXIM, "periódico para criar consciência no mal sentido da palavra", senão porque "tem que res- gena consegue fechar estradas para obter a atenção gover·
do milho é que empreendeu a defesa da terra, não o
índia". IXIM diferencia o Estado guatemalteco das nações ponder por um monte de coisas". Assim, ao homem se namental para sua luta por terras.
contrário. A partir desta memória, reflete então sobre a
indígenas. Fala do "princípio da autodeterminação das
nova situação e sua lógica articuladora:
O lugar da tradição .. 43
Cad. Pesq. (77) maio 1991
42
do a etapa do ciclo familiar é a da presença de filhos igualdade de poder poíítico. Talvez seja esta a fala que dOI. E a deconstrução da naturalização da sexualidade.
pequenos, se distancia da família nas andanças por rei- a tradição indígena inscreve na contemporaneidade da Mas, por distinção frente ao discurso terrunísra da igual.
vindicações pela legalização das terras. É um trajeto que modernidade atual.
se inicia pela aproximação com interlocutores públicos e dade universal de gênero fundada também nas premis
O discurso de Rigoberta sobre a mulher não é o da sas iluministas, propõe a valorização da construção cuí-
formais, ladinos e indígenas, até sua ínteqraçáo formal
dissolução da tradição, nem do repúdio à modernidade turat Inscreve-se assim no paradoxo crtanvo da decons-
no CUCo
ou da submissão à modernidade. É o discurso articula- trução e da construção, da igualdade e da diferença
As trajetórias políticas de mãe e filha iniciam-se na
ampliação informal do espaço mais privado da comuni-
dade para outras vizinhas; a mãe, desenvolvendo O tra-
balho comunal de cuidados de saúde e de atendimento REFERÊNCtAS BIBlIOGRÁFtCAS
ao parto, a filha desenvolvendo trabalhos de catequista
junto a mulheres e crianças. A mãe conversa informal- BARTOLOMÉ, M. La dinámica social de Ias Mayas aot Yucatán.
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é a de que não se propõe a reproduzir as "sementes da contextualização é a luta contra o regime político guate- sangüíneos e afins em uma vila portoalegrcnse. Revista UnB, 1989. (Série Anlropologia, 85)
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restrições à vida privada porque a vida privada tradicional Paulo, CEBRAP(22):185-92,out, 1988.
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Trata-se aqui de referência rápida a conclusões da pesquisa cumentos. Caracas/Paris. UNESCO, 1988. gía, La Paz, 1990)
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de campo mencionada anteriormente, que constituiu a se- . Naciones indígenas y estados nacionales cn América
tro do contexto da comunidade, o casamento seria a co- VATTIMO, G. EI fin de Ia modemidad: nihilismo y hermenéutica
gunda parte deste trabalho, mas náo apresentada aqui. --L-atina hacía el ano 2000. Quito, UNESCO, 1989. mimeo.
roação de sua identidade feminina, pois lhe propiciaria en Ia cultura postmoderna. Barcelona, Gedisa, 1986.

44 Cad. Pesq. (77) maio 1991 o lugar da tradição ..


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