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FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

Ano lectivo de 2019/2020


Contencioso da União Europeia (optativa)
4.º Ano – Turma de Noite
Regente: Prof.ª Doutora Maria José Rangel de Mesquita

Exercícios Práticos
Exercício 1
- Processo das questões prejudiciais –
Na sequência da aprovação, pelo Parlamento Europeu, de uma
directiva sobre
a livre circulação de estudantes universitários ao abrigo do programa
Erasmus, segundo a qual os Estados membros podem determinar o
valor da propina a pagar, o Governo aprovou um decreto-lei segundo
o qual a propina devida nas universidades portuguesas pelos
estudantes Erasmus nacionais de outros Estados membros é o dobro
da devida pelos alunos de nacionalidade portuguesa.
Em ação intentada no tribunal português competente pelo estudante
Erasmus A,
de nacionalidade espanhola, foi suscitada por este a questão da
desconformidade do diploma nacional com o Direito da União
Europeia e, em especial, com as regras
atinentes à livre circulação de pessoas e à cidadania europeia.
a) Pode o tribunal nacional considerar a diretiva inválida e afastar a
sua aplicação?
O tribunal nacional não pode considerar a diretiva (direito derivado)
da União Europeia inválida e afastar a sua aplicação, pois estaria a
violar o princípio do primado do Direito da União Europeia. Ou seja, o
direito europeu tem um valor superior ao dos direitos nacionais dos
Estados-membros, e estes não podem aplicar uma regra nacional
contrária ao Direito Europeu.
Por outro lado, o Tribunal de Justiça tem uma competência exclusiva
quanto à desaplicação e à invalidade de um ato da união europeia.
Assim sendo, se o tribunal nacional tiver alguma dúvida quanto à
aplicação do direito europeu, seja uma questão de interpretação ou
validade, pode pedir ao Tribunal de Justiça da União Europeia (quem
tem competência para decidir a titulo prejudicial – 267º TFUE) que se
pronuncie de forma a ficar esclarecido sobre o correto entendimento
(acórdão foto-frost).

b) Se o tribunal não tiver dúvidas sobre a validade da diretiva pode


questionar o
Tribunal de Justiça da União Europeia sobre a conformidade do
diploma nacional
com a mesma?
Mesmo se o tribunal não estiver duvidas, se se levanta uma questão
de validade, o tribunal não pode declarar a invalidade, sem colocar
uma questão prejudicial ao tribunal de justiça (Acórdão Foto-frost,
acórdão CILFIT e acórdão Gaston Schul)

c) Se decidir colocar ao TJUE uma questão prejudicial, qual o tribunal


da União
competente para o efeito?
Cabe exclusivamente ao Tribunal de Justiça a competência para
conhecer das questões prejudiciais (267º TFUE).
Segundo o 256º TFUE o tribunal geral é competente para conhecer as
questões prejudiciais que lhe sejam determinadas em estatutos,
contudo isto nunca veio a ser concretizado.
O tribunal de justiça é competente (256º/3 TFUE e 19º TUE), ou seja,
cabe exclusivamente ao Tribunal de Justiça a competência para
conhecer das questões prejudiciais (267º TFUE).
d) Pode o tribunal nacional, nesse caso, solicitar urgência na
tramitação do
processo ao Tribunal de Justiça da União Europeia?
O tribunal nacional apenas pode solicitar urgência se a questão
prejudicial for relacionada com matérias relativas ao espaço de
liberdade, segurança e justiça (Título V TFUE) – art.23º- A ETJUE, e
aqui não é esse o caso. O âmbito de aplicação da tramitação urgente
está previsto no art.107º do ETJUE.
e) Pode o estudante Erasmus A, simultaneamente com a ação
interposta no
tribunal nacional, intentar uma ação por incumprimento no Tribunal
de Justiça?
E o Estado da sua nacionalidade poderá fazê-lo?
Nada impede estando pendente uma questão prejudicial, iniciar-se
uma ação de incumprimento.
O estudante de Erasmus não tem legitimidade ativa para colocar uma
ação por incumprimento, apenas a comissão europeia tem (258º
TFUE). Contudo, existe a possibilidade do Estado da sua
nacionalidade intentar uma ação de incumprimento contra o Estado
que violou ou está a incumprir (259º TFUE).
f) Pode o estudante Erasmus A, impugnar a diretiva com fundamento
na violação
da competência do Conselho no âmbito do processo de aprovação de
atos de
direito derivado? E o Conselho pode fazê-lo?
16º TUE
263º INCOMPLETO
Responda às questões colocadas indicando, nas suas respostas, as
bases
jurídicas relevantes e a jurisprudência pertinente do Tribunal de
Justiça da União
Europeia.

Exercício 2
- Processo das questões prejudiciais –
Alberto, cidadão português, pescador, propõe contra o Instituto de
Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e Pescas
(IFADAP) uma
ação, no Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa, exigindo o
pagamento de um
subsídio para renovação da sua frota pesqueira, previsto em
regulamento da União
Europeia nos seguintes termos:
“Os armadores de navios de pesca têm direito a um auxílio de
100.000 Euros, a pagar pelas autoridades nacionais, para substituição
de navios com mais de 20 anos por navios novos”. O IFADAP
considera que Alberto não preenche as condições necessárias para
ser abrangido pelo termo “armador” do regulamento em causa,
invocando que o “armador” é o proprietário dos navios que não
exerce aí a sua atividade. Assim, recusa-lhe o pagamento. O IFADAP
invoca ainda que o Regulamento é inválido por erro na escolha da
base jurídica para a sua aprovação.
Alberto, pelo contrário, entende que a única interpretação possível
para
“armador” é a de proprietário de qualquer barco pesqueiro, exerça,
ou não, aí a sua
atividade.
Além disso, Alberto pretende obter, o mais rapidamente possível, o
subsídio ao
qual considera ter direito, para substituir, em particular, dois dos
navios da sua frota que já não reúnem condições de navegar, sob
pena de sofrer um elevado prejuízo
económico.
a) O Juiz do TAF de Lisboa é obrigado a colocar uma questão
prejudicial ao
Tribunal de Justiça da União Europeia para dirimir as questões
invocadas pelas
partes?
O tribunal em causa é um tribunal de 1º instância, logo não está a
decidir em última instância (267º ETAF), logo não existe obrigação de
suscitar uma questão prejudicial. Isto se estivesse em causa uma
questão de interpretação.
Como estamos perante uma questão de validade de um regulamento,
aí o tribunal já estaria obrigado a colocar a questão prejudicial
(jurisprudência fotofrost).

b) Se decidir colocar uma questão prejudicial, qual o momento


processual
adequado para a colocar, que forma deve a mesma revestir e a que
Tribunal da
União Europeia deve o Juiz do TAF de Lisboa dirigi-la?
Existe bastante discricionariedade para os tribunais nacionais
decidirem o momento indicado para colocar a questão prejudicial,
atendendo a considerações de economia e de utilidade processuais
que competem o órgão jurisdicional nacional. Contudo, existem
alguns limites quando por exemplo, quando não está assente a
matéria de facto, ou questões jurisprudenciais ou de direito
relevantes ainda não foram tomadas em conta.
A recusa, pelo TJUE, de se pronunciar sobre uma questão prejudicial
submetida por um órgão jurisdicional nacional só é possível quando
for manifesto que a interpretação do direito comunitário solicitada
não tem qualquer relação com a realidade ou com o objeto do litigio
do processo principal, quando o problema for de natureza hipotética
ou ainda quando o tribunal não dispuser dos elementos de facto e de
direito necessários para responder utilmente ás questões que lhe são
submetidas.
c) Pode o Juiz do TAF de Lisboa solicitar ao Tribunal da União Europeia
competente que a questão prejudicial seja tramitada como urgente?
Não, pois o tribunal nacional apenas pode solicitar urgência se a
questão prejudicial for relacionada com matérias relativas ao espaço
de liberdade, segurança e justiça (Título V TFUE) – art.23º- A ETJUE.
Só poderia solicitar tramitação acelarada.
d) Se for colocada uma questão prejudicial de validade e o Tribunal
da União
Europeia competente se pronunciar pela invalidade do regulamento,
pode o
mesmo ressalvar os seus efeitos até à aprovação de novo
regulamento com
idêntico conteúdo ou deve anular o regulamento?
Se estivermos perante questões prejudiciais de validade, sendo o ato
declarado inválido, ainda assim, o mesmo permanece na ordem
jurídica da União até à sua alteração ou revogação. Esta declaração
de invalidade vincula, todavia, quer os tribunais nacionais, quer os
órgãos da União Europeia, quer os Estados Membros a desaplicar o
ato em causa, gerando um dever de eliminação ou alteração
do ato em causa na Ordem jurídica da União Europeia pelos órgãos
competentes da União.
e) O acórdão prejudicial que o Tribunal da União Europeia competente
proferir
quanto ao sentido do termo “armador” é aplicável a Bartolomeu e
Carlos,
também proprietários de embarcações de pesca em que exercem a
sua
atividade como pescadores?
Alcance dos efeitos materiais da questão prejudicial de interpretação,
o efeito vinculativo é tendencialmente erga omnes.
A interpretação que, no exercício da competência que lhe é conferida,
o Tribunal de Justiça faz uma norma de direito, e esclarece e precisa,
quando necessário, o significado e o alcance desta norma, tal como a
mesma deve ser ou devia ter sido entendida e aplicada desde a sua
entrada em vigor.

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