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“NÃO SOU CRONISTA”: ANÁLISE E REFLEXÕES SOBRE CRÔNICAS DE

CLARICE LISPECTOR
1
Autora: Marina da Silva Lopes
2
Co-autor: Francisco Evair Silva das Chagas
3
Orientador: Márcio Fonseca Pereira
RESUMO
Este artigo partiu da afirmação de Clarice Lispector de “não ser cronista”, bem como da
observação da crônica como gênero de potencial literário subestimado. Dessa forma, nosso
principal objetivo foi analisar e refletir, à luz de CANDIDO (2003), SOUZA (2008) e
outros referenciais teóricos, sobre a construção da autora como cronista, a partir do
compilado de crônicas do livro A descoberta do mundo, publicado originalmente em 1984.
Destaca-se que, ao optarmos pelo estudo das crônicas de Clarice contribuímos não apenas
para a valorização desse gênero literariamente desmerecido, mas também para a
valorização da mulher cronista, que salvo algumas exceções como Rachel de Queiroz,
Cecília Meireles e a própria autora em estudo, pouco ganham destaque quando comparadas
aos extensos estudos sobre cronistas masculinos. Trata-se de uma pesquisa de caráter
analítico. Como resultado, foi possível constatar como Clarice paulatinamente ganha força
na crônica e que, se nos contos hipnotiza o leitor através de um falso distanciamento
narrativo, na crônica se expõe como realmente é e se sente, levando o gênero para um
patamar mais profundo que um mero relato do cotidiano
Palavras-chave: Crônicas. Clarice Lispector. Análise. Literatura Brasileira

1. INTRODUÇÃO
Este ensaio, assume um caráter reflexivo a respeito das crônicas de Clarice
Lispector compiladas no livro A descoberta do mundo, publicado originalmente em 1984.
Partimos da afirmação da autora em não se considerar cronista e até mesmo rejeitar a ideia,
dessa forma nosso objetivo é apontar à luz de Cândido (2003), SOUZA (2008) e outros
referenciais teóricos, como a consagrada escritora brasileira ganha força na crônica. Ao
optarmos pelo estudo da crônica de Clarice, contribuímos de maneira sucinta para a
valorização desse gênero literariamente subestimado e também para a valorização da
mulher cronista, que salvo algumas exceções como Rachel de Queiroz, Cecília Meireles e
a autora que encabeça este ensaio, pouco ganham destaque nos estudos desse gênero
quando comparado aos extensos estudos sobre cronistas masculinos.
Antes de tudo, é preciso compreender que Clarice Lispector sempre esteve inserida
em seu momento histórico e apesar de abster-se de comentá-lo diretamente, expõe como
1
Graduanda do curso de licenciatura em Letras – Português e Inglês, no Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). E-mail: marynalopes10@gmail.com
2
Graduando do curso de licenciatura em Letras – Português e Inglês, no Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). E-mail: Silvaevair12@gmail.com
3
ninguém as angústia e desejos daquele período. Bosi (2013, p. 416) sintetiza bem o que
acontecia no Brasil e no mundo naquele tempo, “Socialismo, freudismo, catolicismo
existencial: eis as chaves que serviram para a decifração do homem em sociedade e
sustentariam idelogicamente o romance empenhado desses anos fecundos”. Ampliando
um pouco mais o cenário social que cercava a autora, deve-se relembrar que em 1945 o
mundo testemunhava o fim da Segunda Guerra Mundial, que havia dizimado milhões de
pessoas e devastado grande parte do continente europeu. Enquanto isso, no Brasil, a Era
Vargas propunha uma nova constituição que estabelecia novos pactos tidos como mais
justos e modernizantes para o país. A aparente euforia com o período democrático e o
início da guerra fria que estabelecia os EUA como potência econômica em ascensão dava
vazão a um novo estado das coisas, em que a literatura pôde caminhar em direção à
experimentação, e os autores, vislumbrando outros temas além dos sociais de linguagem
simples e direta puderam entregar-se a uma pesquisa estética, especialmente em torno da
própria linguagem literária.
Nesse cenário, aflora a 3ª geração modernista, que diferente das anteriores que
buscavam uma identidade literária brasileira e uma conscientização da população a
respeito dos temas nacionais, propunha novos contornos para a literatura buscando abordar
temas de caráter psicológico, regional e urbano. Estabelece-se dessa forma o que Candido
(2014, p. 134) define como “a separação abrupta da preocupação estética e a preocupação
político-social”. É nesse meio que surge, o que seria alguns anos depois um dos maiores
nomes da literatura nacional, Haya Pinkhasovna Lispector, ou simplesmente Clarice
Lispector. Como um dos nomes de maior destaque da terceira geração modernista, ela
reinventa a produção literária da época com sua obra cheia de aforismos, profundidade
psicológica e uma complexidade-simples que desestabilizou até a crítica mais incisiva
como Álvaro Lins.

2. A CRÔNICA NOSSA DE CADA DIA: BREVES CONSIDERAÇÕES


Considerada por alguns autores como um gênero menor devido ao tom trivial, uma
vez que se ampara na vida cotidiana para se inspirar, ou por em certa medida aparentar um
ar despretensioso,“[...]o que interessa é que a crônica acusada injustamente como um
desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, é o próprio fazer literário”
(PORTELLA, 1979, p. 15). Ainda sobre o desprestígio injusto incorporado a esse gênero,
Cândido (2003) advoga em seu texto, “A vida ao rés-do-chão”, que é justamente o aspecto
aparentemente simples que a faz se ajustar à sensibilidade de todo dia.

Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo
de ser mais natural. Na sua despretensão humaniza; e esta humanização lhe
permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa
profundidade de significado [...] que podem fazer dela uma inesperada candidata
à perfeição. (CANDIDO, 2003, p. 89-99)

No Brasil, a crônica desde a sua popularização nos periódicos no século XIX,


permitiu que grandes autores exercitassem a escrita, como por exemplo, Machado de
Assis, Carlos Drummond, Rubem Braga, Fernando Sabino, Clarice Lispector, entre outros.
Ademais, vale salientar que “escritores estreantes viam na imprensa um caminho para se
profissionalizarem, uma vez que o mercado editorial brasileiro era escasso e os jornais se
constituíam numa ponte para uma possível publicação de seus livros” (MICHELLINE,
2005, p. 111). Em relação a possibilidade de recriação de um novo meio de circulação da
crônica, que não o jornal, atenta-se ao que (CÂNDIDO, 2003, p. 89-99) declara, “uma vez
que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita
originariamente para o livro”. Obviamente, Clarice Lispector ao ter mais de 400 crônicas
de sua autoria compiladas pela primeira vez em A descoberta do mundo, lançado em 1984,
transgrediu esse limite, levando o gênero a um novo patamar muito mais substancial.
Outro aspecto que merece destaque é o fato de a crônica brasileira, não com
exclusividade, explorar de forma quase magistral a linguagem irônica, espontânea e em
casos singulares, como o de Clarice Lispector, a linguagem poética, todas amparadas em
uma escrita rápida e certeira. Por focar no contingencial e no fugaz, a crônica amplia a
visão do leitor desatento, quebrando e reconstruindo sua realidade, culminando desse
modo, na criação de um vínculo atemporal que a faz estabelecer para si uma singularidade
quase inquestionável, Redmond (2009). Sobre a sua subestimação, (REDMOND, 2009, p.
140-141) aponta sobre a crônica:

[...] que se trata de um gênero brasileiro, considerado por muitos um gênero


menor e maior. Menor pela sua origem, características e classificação de alguns
estudiosos em literatura [...]. No entanto, é maior pela sua complexidade em
questões do cotidiano, encontrada em jornais, diversificando assuntos políticos,
sociais, artísticos, literários, enfim, quando coloca o ser humano em “foco”.

Diante das considerações citadas, resta-nos reiterar a grandeza desse gênero que por
atingir a verdadeira realidade, torna-se não melhor ou pior que os demais, mas transcende
ao mero aspecto textual ou literário para se tornar algo íntimo que cativa uma proximidade
conosco, leitores.

2.1 “NÃO SOU CRONISTA”, DISSE CLARICE


A incursão em um novo gênero não foi fácil e indolor para Clarice Lispector, que
sem rodeios afirmou na crônica intitulada “Ser cronista” que, “Sei que não sou. mas tenho
meditado ligeiramente no assunto. [...] Vou dizer a verdade: não estou contente”
(LISPECTOR, 1984, p. 67). Contudo, apesar da aparente insegurança com o novo ofício e
contrária a ideia de ganhar dinheiro com o que escrevia, pois como afirmaria anos mais
tarde em entrevista concedida a TV Cultura (1997) “Não sou uma profissional, eu só
escrevo quando eu quero”, acabou por aceitar em 1967 o convite de Alberto Dines, então
editor-chefe de o Jornal do Brasil, para escrever crônicas aos sábados.
No período em que se manteve na coluna semanal do jornal, Clarice, com toda a
profundidade de sua escrita intimista de contornos filosóficos e psicológicos, tornou a
crônica um veículo para comentários sobre autoria, literatura, e os desafios de escrever,
contribuindo exponencialmente para a valorização do gênero.

A reunião das crônicas de Clarice Lispector permite ao leitor entrever uma


escritora ciente das características da crônica: a brevidade, a subjetividade, o
diálogo com o leitor, podendo o autor desenvolver o monólogo ao fazer sua
autorreflexão e suas observações (MOISÉS, 1979, p. 257 apud NOGUEIRA,
2007, p. 87-99)

É possível visualizar essas características na crônica já mencionada, “Ser cronista”,


onde a autora demostra uma grandiosa façanha em conseguir dizer muito com pouco. A
subjetividade assume tom quase confessional, quando ao narrar em primeira pessoa divaga
sobre suas inquietações a respeito do que é crônica, quais mudanças o novo ofício infligirá
ao seu modo de escrever, etc.

Crônica é um relato? É uma conversa? é o resumo de um estado de espírito? Não


sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito
romances e contos. Quando combinei com o jornal escrever aqui aos sábados,
logo em seguida morri de medo [...] basta eu saber que estou escrevendo para
jornal, isto é, para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro,
que só é aberto por quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo
de escrever se transforme. (LISPECTOR, 1999, p. 67-68)

Outra coisa que parece afligi-la ao fazer crônica é a insegurança de que isso talvez a
conduza a revelar demais sobre si mesma – como se o deleite que causa nos leitores através
de sua escrita complexa e por vezes de difícil compreensão fosse ameaçado pelo
jornalismo, (SADLIER, 2012). Porém, é perceptível que Clarice nunca soube separar
inteiramente sua vida e reflexões do exercício da linguagem, como afirma claramente na
crônica “As três experiências”:
Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci
para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos [...] nasci
para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância
várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era
escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras
vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o
aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei
estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. (LISPECTOR, 1999,
p. 59)

Como astuta observadora do cotidiano, Clarice é uma exímia escritora que foca na
investigação interior. Faz isso de tal forma que consegue com delicadeza ir de encontro ao
fato social. Ainda assim, a ausência de temas importantes do conturbado período da
história mundial e o excessivo enfoque em seu universo interior fazem com que ela seja
apontada como “não-engajada” (SOUSA, 2008). Na crônica “Vietcong”, porém, é possível
inferir a razão para tal.
Meu filho, então, disse: “Por que você não escreve sobre vietcong?” Senti-me
pequena e humilde, pensei: que é que uma mulher fraca como eu pode falar
sobre tantas mortes sem sequer glória, guerras que cortam da vida pessoas em
plena juventude, sem falar nos massacres, em nome de quê, afinal? A gente bem
sabe por quê, e fica horrorizada. Respondi-lhe que eu deixava os comentários
para um Antônio Cal ado. Mas, de súbito, senti-me impotente, de braços caídos.
Pois tudo o que fiz sobre vietcong foi sentir profundamente o massacre e ficar
perplexa. E é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência
revolta e tristeza. Essa guerra nos humilha. (CLARICE,1999, p. 187)

Fica evidente na crônica, que a autora não se abstém de discutir os acontecimentos


que marcaram aquele período por alienação ou mesmo negação dos fatos, ela até se
interessa por esses temas, mas por se sentir impotente diante da violência e horrores das
guerras opta por não os comentar diretamente.
Porém, se como comentarista do que acontecia no Brasil e no mundo Clarice se
resguarda, já não é possível afirmar isso quando se trata de datas comemorativas, onde cria
com os leitores uma espécie de relação afetiva ao escrever de forma íntima e quase
despretensiosa sobre o dia das mães, por exemplo.

Mas não desisto, disse baixo.


– Não desiste de quê? – De ter um filho. O médico disse que de novo eu poderia
perder. Mas, mesmo que numa segunda gravidez eu perca, não desisto: ficarei
grávida muitas vezes e aceito a possibilidade de perder. Até que um dia, lá para
um dia, eu com muito cuidado conserve ele em mim nove meses, dando até
então muita coisa boa para ele ir bebendo e comendo através de meu sangue que
vou enriquecer. Até que ele nasça. E será uma vitória nossa, minha e dele.
Porque eu sei: é mesmo difícil nascer. Olhei-a quase no escuro. Sofrida,
machucada, corajosa. Sim, ela era uma mãe, a dançarina de Degas.
(LISPECTOR, 1999, p. 280)

Seguindo as inconstâncias de seu espírito perspicaz, Clarice ora afirma ter vergonha
de ser escritora, “Chega de arte, embora eu seja artista. Tenho vergonha de ser escritora –

não dá pé.” (LISPECTOR, 1999, p. 290), ora se contradiz, como por exemplo, na crônica
“Um degrau acima: o silêncio”, onde reflete que não poderia não escrever.

Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente,
gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já
poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase
inalcançável. (LISPECTOR, 1999, p. 278).

À parte de seus altos e baixos com as letras, é visível que com o ritmo do jornal e o
carinho dos leitores, logo Clarice começa a se sentir respeitada e amada. Dessa maneira,
chega a reescrever uma outra opinião, diferente daquela que tinha antes de começar a
escrever crônicas para a coluna semanal de “O Jornal do Brasil”.

Mas ser cronista tem um mistério que não entendo: é que os cronistas, pelo
menos os do Rio, são muito amados. E escrever a espécie de crônica aos sábados
tem me trazido mais amor ainda. Sinto-me tão perto de quem me lê. E feliz por
escrever para os jornais que me infundem respeito. (LISPECTOR, 1999, p. 54)

3. CONCLUSÃO
Seria ambicioso, e até certo ponto leviano tentar classificar Clarice em um patamar
superficialmente identificável, principalmente quando ela própria encontrava dificuldades
em se definir no meio literário. Se nos contos hipnotiza o leitor através de um falso
distanciamento narrativo, na crônica se expõe como realmente é e se sente, levando o
gênero para algo mais profundo que um mero relato do cotidiano. É notável que aos
poucos, suas crônicas vão ganhando intimidade, virando confissões e devaneios
existenciais. Com uma sensibilidade e elegância inerente ao sexo feminino, o diferencial de
Lispector como cronista é fazer não apenas com que o leitor compreenda o que ela expõe,
mas fazê-lo se sentir tocado com sua escrita. “Então a voz disse: sou uma leitora sua e
quero que você seja feliz. Perguntei: Como é seu nome? Respondeu: uma leitora.”
(LISPECTOR, 1999, p. 38).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANDIDO, Antônio. “A vida ao rés-do-chão”. In: Para gostar de ler: crônicas. Volume
5. São Paulo: Ática, 2003.
_________________. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 13. ed.
Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2014. 201 p. ISBN 9788588777613.
LISPECTOR, Clarice: A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro. Editora Rocco, 1999
MICHELLINE, Èrica. A Crônica no Universo Jornalístico e Literário. Capa > v. 3, n. 1
(2005).
NOGUEIRA, Nícea. A crônica de clarice lispector em diálogo com sua obra literária.
Capa > v. 6, n. 11/12 (2007)
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix,
2013. 567 p. ISBN 9788531601897.
PORTELLA, Eduardo. Visão prospectiva da literatura brasileira. In: ______. Vocabulário
técnico da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro, 1979.
REDMOND, William Valentine. ASPECTOS DA CRÔNICA NO BRASIL: UMA
REFLEXÃO CRÍTICA. Capa > v. 9, n. 17 (2010)
SADLIER, Darlene J. Um estudo sobre a crônica de Clarice Lispector. Disponível em:
https://litcult.net/2012/12/10/nao-sou-cronista-um-estudo-da-cronica-de-clarice-lispector/
acesso em: 03-06-2019
SOUZA, Thais Torres de. Clarice Lispector, uma plagiadora de si mesma:
republicação nas crônicas do Jornal do Brasil (1967-1973). 2008. Dissertação
(Mestrado em Literatura Brasileira) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/D.8.2008.tde-05082009-
144657. Acesso em: 05-06-2019