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Acelerando a Redução da
Pobreza em Moçambique:
Desafios e Oportunidades
Dezembro, 2016

Índice

Agradecimentos v

Documentos de Referência v

1 Sumário Executivo 1

2.0 Progresso de Moçambique na Redução da Pobreza 14


2.1 Evolução e Distribuição Regional da Pobreza 14
2.2 Desigualdade e Prosperidade Partilhada 18
2.3 Quem são os Pobres? 20

3 Crescimento, Desigualdade e Redução da Pobreza: o Papel das


Províncias Mais Recuadas 27
3.1 A Elasticidade do Crescimento na Redução da Pobreza 27
3.2 A desigualdade como constrangimento para a redução da pobreza 30
3.3 Compreendendo a posição recuada de Nampula e Zambézia:
Isolamento e Retorno dos dos Activos Existentes 32

4 Porquê que a Agricultura não é mais Eficaz na Redução da Pobreza?


Baixa Produtividade e Crescimento Baseado no Mercado Limitado 38
4.1 Descrição Geral do Sector da Agricultura 38
4.2 Perfil dos Meios de Subsistência Rurais em Moçambique 41
4.3 O que está por detrás da baixa produtividade na agricultura? 45
4.4 O Isolamento e o Acesso Limitados à Informação Obstruem a Agricultura
Baseada no Mercado 56

5 Vulnerabilidade dos Agregados aos Choques Climatéricos 61


5.1 Alta Propensão de Moçambique às Calamidades Naturais 61
5.2 Padrões de Precipitação e Anomalias 64
5.3 Efeitos dos Choques da Precipitação durante a Infância no Bem-Estar
dos Humanos a Longo Prazo 66

6 Conclusão 77

Anexo 1
Concepção e dados empíricos usados para a análise dos efeitos a longo
prazo dos choques climatéricos (Capítulo 5) 79

LISTA DE FIGURAS

1.1 Ritmo da redução da pobreza baixou em Moçambique 2


1.2 O capital humano tem uma correlação forte com a condição de pobreza 4
1.3 Os agricultores com uma orientação para o mercado são mais produtivos 8
1.4 A produtividade agrícola baixa quando aumenta a distância aos
mercados de produtos alimentares 9

i
1.5 Grandes anomalias na precipitação por causa dos ciclones Eline e Judah
em 2000 10
1.6 A rendibilidade do milho em Moçambique é altamente sensível em
relação a falta de chuva 13

2.1 O ritmo da redução da pobreza desacelerou em Moçambique 14


2.2 A pobreza em Moçambique permanece com níveis altos no
contexto regional 15
2.3 Redução desigual da pobreza nas várias regiões de Moçambique 16
2.4 Algumas regiões rurais são responsáveis pela crescente proporção
de pobres 17
2.5 A desigualdade é alta e está a aumentar em Moçambique 18
2.6 Moçambique pertence ao grupo de países com altos níveis de pobreza
e desigualdade alta 19
2.7 O crescimento da renda em Moçambique beneficiou principalmente
aos não pobres 20
2.8 Os agregados com mais membros contribuem mais para a pobreza
per capita 21
2.9 O género e o estado civil dos chefes dos agregados têm correlação com
os níveis de pobreza 22
2.10 Os analfabetos registaram uma redução da pobreza mais lenta 23
2.11 O capital humano possui uma correlação forte com a condição
de pobreza 24
2.12 maioria dos empregos dos pobres é de baixa qualidade 26

3.1 Moçambique é uma das economias de crescimento mais rápido na
África Subsaariana 27
3.2 Mas a redução da pobreza em Moçambique é metade mais rápida do
que na Africa Subsaariana 28
3.3 A elasticidade do crescimento do PIB per capita no crescimento médio
do consumo per capita é baixa e tem vindo a baixar 28
3.4 Os pobres não se estão a beneficiar do crescimento da renda como o
resto da população 30
4.1 A agricultura é um sector chave da economia mas o seu valor
acrescentado está a baixar 39
4.2 A maioria dos trabalhadores das zonas rurais está empregada no sector
da agricultura 43
4.3 Figura 4.3 Os agregados das zonas rurais encontram-se mais isolados
dos serviços básicos e dos mercados 44
4.4 A acessibilidade rural tem uma correlação forte com a pobreza 45
4.5 Os agricultores com uma mais forte orientação para o mercado são
mais produtivos 47
4.6 A rendibilidade da agricultura é maior entre os agricultores que usam
insumos tecnológicos 49
4.7 Choques climatéricos na ausência do seguro reduzem a
produtividade agrícola 55
4.8 A densidade das estradas em Moçambique é baixa 57
4.9 A conectividade é mais baixa nas áreas mais pobres 57
4.10 A produtividade da agricultura baixa a medida que aumenta a distância
para o mercado de alimentos 58
4.11 Os agricultores dependem dos amigos, familiares e da rádio para obter
informação do mercado 60

ii
5.1 A incidência dos choques naturais variam entre as regiões de Moçambique 63
As grandes anomalias de precipitação foram causadas pelos ciclones
5.2 Eline e Judah em 2000 64
5.3 Algumas províncias em Moçambique têm registado precipitações mais
baixas nas últimas décadas 65
5.4 As condições hidrográficas muitas vezes são sub-óptimas para o cultivo
e colheita da cultura do milho 70
5.5 A rendibilidade do Milho em Moçambique é muito sensível à escassez
de chuva 71
5.6 O capital humano e a riqueza da mulher moçambicana adulta aumenta
em função da sua altura 75

LISTA DE TABELAS

1.1 O aumento da desigualdade afectou a redução da pobreza 3


1.2 Nampula e Zambézia têm desacelerado a redução da pobreza
em Moçambique 4
1.3 Existem grandes discrepâncias de produtividade comparativamente
a outros países da região 6
1.4 O uso de insumos tecnológicos tem correlação com uma maior
rendibilidade agrícola após a verificação de factores como as características
dos agregados, acesso aos serviços e choques climatéricos 7
1.5 As anomalias de precipitação nos primórdios da vida também
aumentam o risco de pobreza 11

2.1 Os pobres têm agregados maiores e mais filhos 21


2.2 O subemprego é generalizado e a qualidade dos empregos é fraca 25

3.1 Nampula e Zambézia têm feito recuar a redução da pobreza


em Moçambique 29
3.2 O aumento da desigualdade afectou negativamente a redução
da pobreza 31
3.3 A desigualdade entre províncias aumentou ao longo do tempo
em Moçambique 31
3.4 A posse de activos na Zambézia e em Nampula cresceu a um ritmo
semelhante ao do resto do país 33
3.5 Diferenças nos dados do consumo per capita são causadas
principalmente pelos “retornos” dos activos 34
3.6 As diferenças nos índices de pobreza são principalmente causadas
pelos “retornos” dos activos 34
3.7 Os agregados em Nampula e Zambézia encontram-se mais isolados
que o resto do país 35
3.8 Os preços das culturas a porta dos campos de cultivo são mais baixos
em Nampula e Zambézia 36
3.9 As receitas médias das actividades agrícolas e não agrícolas são mais
reduzidas em Nampula e Zambézia 37

4.1 Existem grandes discrepâncias na produtividade comparativamente


a outros países da região 40
4.2 Algumas poucas culturas constituem a maioria dos produtos agrícolas 40

iii
4.3 O capital humano e os indicadores de nutrição são mais baixos nos
agregados rurais 42
4.4 O acesso aos serviços básicos e posse dos activos é inferior para os
agregados do meio rural (%) 42
4.5 O sector da agricultura é dominado pelos pequenos produtores 43
4.6 Características dos pequenos agricultores em Moçambique 46
4.7 A adopção de tecnologias que aumentam a produtividade é baixa no
sector da agricultura 48
4.8 O uso de insumos tecnológicos tem correlação com uma maior
rendibilidade agrícola após o controlo de factores como as características
dos agregados, acesso aos serviços e choque climatéricos 51
4.9 Serviços de apoio à produção aumentam a adopção de insumos e
tecnologias agrícolas 53
4.10 O pesado fardo dos riscos climatéricos para os agricultores 54

5.1 Moçambique apresenta uma exposição elevada às calamidades naturais 61


5.2 Anomalias de precipitação na tenra idade associadas a fraca
empregabilidade na idade adulta 67
5.3 As anomalias de precipitação na tenra idade também aumentam o
risco de pobreza 68
5.4 Os choques da precipitação deterioram a situação nutricional das
crianças afectadas 72
5.5 As crianças afectadas pela seca apresentam a menor participação e
resultados da frequência escolar 74
5.6 Os choques climatéricos parecem afectar o desenvolvimento físico mais
tarde na vida 75

iv
Agradecimentos

O presente estudo foi dirigido por Javier E. Baez (Economista Sénior, GPV01) e
Pedro Olinto (Líder de Programa, LCC5C). A equipa principal inclui Carlos da
Maia (Economista, GPV01), Alessia Thiebaud (Analista, GHN03), Jan Joost Nijhoff
(Economista Agrícola Sénior, GFA07), Ghada Elabed (Young Professional, GFA07),
Klaus Deininger (Economista Líder, DECAR), Eduardo Cenci (Consultor), Thiago
de Lucena (Consultor), German Caruso (Economista, GPV04), Siobhan Murray
(Especialista Técnica) e Niu Chiyu (Consultor). A equipa gostaria de agradecer a
Mark Lundell, Ruth Hill, Victor Sulla e Carolina Diaz-Bonilla pelos seus valiosos
comentários feitos à versão anterior do relatório. A equipa está igualmente grata
para com Peter Frisk, Michel Matera e Bontje M. Zangerling por permitirem o acesso
a dados usados na preparação de algum material de referência. O trabalho foi
realizado sob a orientação geral de Pablo Fajnzylber (Gestor de Práticas, Prática
Global sobre Pobreza e Equidade, Região Africana).

Documentos de
Referência
“Oaxaca-Blinder Decompositions: Explaining Welfare in Mozambique” por Pedro
Olinto, Carlos da Maia e Thiago de Lucena.

“Why is Agriculture not More Effective in Reducing Poverty in Mozambique?


Understanding the Constraints to Productivity and Marked-Based Agriculture” por
Javier E. Baez, Jan Joost Nijhoff, Ghada Elabed, Alessia Thiebaud e Carlos da Maia.

“Identifying Promising Interventions in Mozambique’s Agriculture” por Eduardo


Cenci

“Do Weather Shocks Influence Long-Term Household Well-being in Mozambique?


por Javier E. Baez, German Caruso, Niu Chiyu e Siobhan Murray

v
Sumário
Executivo

1. Durante as últimas duas décadas, Moçambique


caracterizou-se por um crescimento económico robusto Moçambique regista
e acelerado, todavia o progresso económico forte índices de redução
apenas se traduziu em níveis modestos de redução da da pobreza modestos
pobreza. A economia cresceu em média 7.9 porcento ao
ano entre 1993 e 2014, um índice impressionante segundo e geograficamente
os padrões regionais e globais. Todavia, Moçambique desnivelados
teve dificuldades de traduzir esse forte crescimento em a despeito do
redução da pobreza. O índice nacional de pobreza per
capita baixou 12 pontos percentuais entre 1997 e 2003, crescimento
passando de 68 para 56 porcento. Todavia, a pobreza teve económico robusto.
um declínio mais retraído a partir 2003, tendo baixado em
apenas 4 pontos percentuais atingindo 52 porcento em
2009. Entre 1997 e 2009¹, por cada aumento percentual
do PIB per capita na África Subsaariana, a pobreza reduziu
em 0.5 porcento na região. No mesmo período, por cada
porcento de crescimento económico em Moçambique
a pobreza baixou apenas 0.26 porcento no país,
aproximadamente metade do nível na África Subsaariana.
Consequentemente, Moçambique continua a classificar-
se entre os países com os mais elevados níveis de pobreza
(69 porcento dos indivíduos, usando a linha de pobreza
de $1.9 PPC² em 2011), juntamente com países como a
Libéria, Guiné-Bissau, Malawi, República Democrática do
Congo, Burundi e Madagáscar.

¹ Os dados da pobreza discutidos no presente documento baseiam-se na linha de pobreza nacional de


Moçambique, que em 2009 era de aproximadamente 16 meticais per capita por dia, ou seja aproximadamente
US$0.90 por dia em termos do PPP de 2005. Isto significa 28% mais abaixo do que a linha de pobreza extrema
segundo os parâmetros internacionais que é de US$1.25 por dia, cifra usada pelo Banco Mundial. Os termos
“pobreza” e “pobreza extrema” são usados neste relatório com o mesmo sentido, visto que todos os pobres
em Moçambique vivem abaixo da linha de pobreza extrema internacional.
² PPC significa Paridade do Poder de Compra.

1
Figura 1.1 Ritmo da redução da pobreza baixou em Moçambique

80.0
Taxas de Pobreza (%)

70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
0.0

Urbano Rural Moçambique


Fonte: Banco Mundial

2. O desempenho na redução da pobreza é desigual entre as várias regiões,


com algumas partes do país – especialmente a região centro e norte – com
uma representação desproporcional dos pobres. A distribuição da pobreza
em Moçambique varia significativamente entre as regiões. De um modo geral, as
províncias urbanas tendem a apresentar índices de pobreza mais baixos do que as
províncias rurais, particularmente as do centro e norte do país. Com 10 porcento,
a Cidade de Maputo apresenta os níveis mais baixos de pobreza no país. No outro
extremo da distribuição, a Zambézia apresenta uma taxa de pobreza de 73 porcento.
Ao invés de reduzir à semelhança do resto do país, a pobreza agravou-se entre
2003 e 2009 nas províncias da Zambézia, Sofala, Manica e Gaza. Como resultado,
estas cinco províncias juntas representavam aproximadamente 70 porcento dos
pobres em 2009, uma subida em relação aos 59 porcento em 2003. As províncias de
Zambézia e Nampula representavam juntas quase metade dos pobres do país em
2009 (48 porcento), uma subida em relação a 42 porcento em 2003.

O crescimento beneficiou principalmente os não pobres,


assinalando uma fraca inclusão.

3. O fraco desempenho de Moçambique na tradução do crescimento médio


do consumo per capita em redução da pobreza deve-se em grande medida
ao aumento da desigualdade no país. Os indicadores da desigualdade em
Moçambique agravaram-se consideravelmente entre 1997 e 2003 e permaneceram
altos em 2009. O Índice de Gini subiu de 0.44 em 1997 para 0.50 em 2003, e depois
baixou para 0.48 em 2009, permanecendo bem acima dos níveis registados nos
finais dos anos 90. Em geral, os grandes níveis de desigualdade tendem a reduzir o
impacto do crescimento económico no crescimento da renda para os que estão no
fundo da escala de distribuição. O crescimento poderia ter tido um impacto muito
maior na redução da pobreza em Moçambique se os seus efeitos não tivessem
sido afectados pelo aumento verificado na desigualdade. A pobreza baixou 16.3
pontos percentuais entre 1997 e 2009; se a desigualdade não tivesse aumentado, o
crescimento observado teria levado à redução da pobreza em cerca de 26.8 pontos
percentuais. Por seu turno, a taxa de pobreza teria baixado para 41.6 porcento ao
invés dos 52 porcento observados (Tabela 1.1).

2
Tabela 1.1 O aumento da desigualdade afectou a redução da pobreza

1997 2009 1997 - 2009

Taxa da pobreza per capita 68.4% 52.1%


Variação na pobreza - 16.3%
Componente do crescimento -26.8%
Componente da redistribuição 3.2%
Residual 7.3%
Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7 e IOF2008/9

4. Consequentemente, a ausência de crescimento inclusivo afectou a expansão


da prosperidade partilhada. Para expandir a prosperidade partilhada é necessário
uma economia em crescimento que traga mais benefícios para os escalões mais abaixo
da escala de distribuição de rendimento comparativamente ao resto da população.³
A economia moçambicana tem vindo a crescer continuamente desde meados dos
anos 90. Porém, os 40 porcento da população do escalão mais abaixo em Moçambique
registou níveis de crescimento mais lentos do que a população moçambicana em geral.
Isto significa que os pobres não se beneficiaram de modo igual com o crescimento
comparativamente aos mais abastados. Entre 2002/3 e 2008/9, a taxa de crescimento
anual da despesa per capita da população moçambicana no seu todo era maior do que
os níveis dos 40 porcento da população do escalão mais abaixo. Enquanto o crescimento
foi de 2.3 porcento por ano para a população em geral, a despesa do consumo per capita
cresceu 2 porcento ao ano no seio dos 40 porcento da população do escalão mais abaixo.

Subjacente aos limitados resultados equitativos em Moçambique


está um fosso significativo nos recursos e nas oportunidades
económicas dos pobres comparativamente aos não pobres.
5. Os agregados pobres caracterizam-se por terem o capital humano baixo, empregos
de qualidade inferior e rácios de dependência mais altos. As taxas de analfabetismo,
por exemplo, registaram uma queda moderada, excepto entre os pobres. A taxa nacional
de analfabetismo foi de 62.3 porcento em 1997 e baixou para 57.7 porcento em 2009.
A tendência é similar entre os não pobres. Todavia, no seio dos pobres, a taxa de
analfabetismo aumentou de 67.6 porcento para 69.2 porcento durante o mesmo período.
Relacionado com isto, a condição de pobreza de um indivíduo está associada com o nível
de escolaridade do chefe do agregado familiar. Quanto maior o nível de escolaridade do
chefe do agregado menor se torna a possibilidade de pobreza, e também a pobreza reduz
mais rapidamente nos agregados com chefes que possuem níveis de escolaridade mais
altos (Figura 1.2). E embora o mercado de trabalho de Moçambique seja típico de um país
de renda baixa (por outras palavras, taxas elevadas de emprego e de subemprego), a maior
parte das ocupações laborais dos pobres é de baixa qualidade. Os aspectos demográficos
têm um impacto negativo nos rácios de dependência dos pobres, pois o tamanho das
famílias dos pobres é maior em cerca de mais uma pessoa comparativamente as famílias
dos não pobres (5.16 e 4.23, respectivamente).

³ Em 2014 o Grupo do Banco Mundial introduziu os designados objectivos duplos (Twin objectives). O
primeiro propõe-se a erradicar a pobreza extrema. A percentagem das pessoas que vivem com menos de
US$ 1.9 dia deverá baixar para 3 porcento até 2030. O segundo objectivo relaciona-se com a promoção
da prosperidade partilhada. Este aposta na promoção do crescimento real da renda dos 40 porcento da
população do escalão mais abaixo em todos os países. Esta secção discute como Moçambique se posiciona
em relação a este segundo objectivo entre 2002/3 e 2008/9.

3
Figura 1.2 O capital humano tem uma correlação forte com a condição de pobreza

100.0
80.0
60.0
%

40.0
20.0
0.0
Sem educação Primária Secundária Superior
Nível de educação completo
2008/9 Incidência da pobreza 2008/9 Contribuição para a pobreza
Fonte: Banco Mundial com base no IOF2008/9

Algumas regiões, particularmente a região norte e a região


centro, encontram-se numa situação menos avançada em relação
ao resto do país.

6. O baixo impacto na pobreza na sequência do crescimento económico em


Moçambique resulta em parte do facto de as províncias de Nampula e Zambézia
terem ficado para trás em relação ao resto do país, particularmente entre 2003
e 2009. Em Nampula e na Zambézia, os índices de pobreza agravaram-se em mais
de 5 porcento ao longo deste período, quando no resto do país registou-se uma
redução de 17.3 porcento. Em 2003, Nampula e Zambézia representavam juntas 38
porcento da população e 42 porcento dos pobres do país. Em 2009, a sua proporção
da população total permanecia inalterada, enquanto a proporção de pobres
aumentara para 48 porcento. A elasticidade do crescimento na redução da pobreza
(GEPR), um mecanismo de medição da capacidade de um país converter a expansão
económica em redução da pobreza, seria muito mais alta se a computação fosse
feita sem as províncias de Nampula e Zambézia. Com efeito, a GEPR de Moçambique
teria mais do que duplicado entre 2003 e 2009, melhorando de -0.54 para -1.18, um
nível superior à média regional (Tabela 1.2).

Tabela 1.2 Nampula e Zambézia têm desacelerado a redução da pobreza em Moçambique

2003 -2009 Mudança na Crescimento da GEPR P-valor


Pobreza Despesa Per Capita
Contrafactual % Contrafactual % Contrafactual %

Moçambique -0.044 -7.7 3.072 14.4 -0.537 0.0000


Nampula e
Zambézia -0.091 -17.3 3.747 14.6 -1.17 0.0000
Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3, e IOF2008/9

7. Diferenças nas variações dos retornos dos activos ao invés de variações nos
activos que as famílias possuem é que contribuiu para o exacerbamento das
diferenças nos índices de pobreza entre as províncias de Nampula e Zambézia e o

4
resto do país. Embora as pessoas nestas duas províncias tendencialmente vivam em
agregados possuidores de menos activos do que no resto do país, não há evidências
de que a população do resto do país tenha estado a acumular activos a um ritmo
mais rápido. Os resultados das descomposições de Oaxaca-Binder mostram que as
diferenças em relação ao que se possui (elementos demográficos, capital humano
e composição sectorial da força de trabalho, entre outros) explicavam cerca de
metade das diferenças nos índices de pobreza em 2003. Em 2009, explicavam apenas
28 porcento. Pelo contrário, se a média dos retornos em relação aos activos que se
possuam tivesse aumentado nas províncias de Nampula e Zambézia ao mesmo
ritmo que no resto do país, a pobreza teria reduzido em cerca de metade nestas
duas províncias. Um dos possíveis factores que contribuem para estas diferenças
poderia residir no facto de os agregados nas províncias de Nampula e Zambézia
estarem em média mais isolados do que os agregados no resto do país. Os retornos
dos activos, especialmente a educação e a terra, parecem ser mais baixos nestas
províncias, especialmente nos agregados familiares das zonas rurais. Os agregados
rurais que se encontram em locais recônditos provavelmente conseguirão preços
mais baixos pelas suas culturas, pagarão preços mais altos pelos insumos e terão
menos oportunidades de encontrar fontes de rendimento fora da agricultura.

A baixa produtividade e o limitado crescimento da agricultura


baseado no mercado constituem importantes factores que
contribuem para a lenta redução da pobreza.

8. A agricultura é um sector chave para a aceleração da redução da pobreza, pois


representa mais do que um quarto da economia de Moçambique e emprega a
grande maioria da população. O sector da agricultura contribui com 25 porcento
do PIB de Moçambique e emprega cerca de 75 porcento da população. Todavia,
Moçambique possui um enorme potencial agrogeológico que em grande medida
continua por explorar. Nas zonas rurais, mais de 90 porcento dos chefes dos
agregados familiares dedicam-se a actividades agrícolas. Apesar do seu importante
papel como fonte fundamental de subsistência, o sector da agricultura não tem
estado a crescer a um ritmo firme nos últimos anos. O crescimento anual do sector
registou uma queda de 7 para 2 porcento entre 2008 e 2012. Nos últimos três anos,
a agricultura comercial voltou a registar um crescimento, contra-balanceando a
desaceleração do crescimento no sector dos recursos; todavia a agricultura de
média e pequena escala manteve-se com níveis baixos, tendo o seu crescimento
médio sido de apenas 4 porcento.

9.A influência do sector agrícola na economia é afectada pelos baixos níveis


de produtividade. Em Moçambique, a produção do milho era em média de 1
tonelada por hectare em 2013, enquanto a média no Malawi era de 2.2 toneladas por
hectare, 3.8 na África do Sul, e 2.5 na Zâmbia. Foram igualmente observadas grandes
discrepâncias de produtividade em relação aos países e termos da rendibilidade
do arroz, mapira, mexoeira e trigo, como ilustrado na Tabela 13 (Banco Mundial,
2015) (Tabela 1.3). Em 2009, a produtividade da força de trabalho era perto de sete
vezes maior no sector terciário e dez vezes mais elevada no sector secundário, em
comparação ao sector primário (Jones e Tarp, 2013).

5
Tabela 1.3 Existem grandes discrepâncias de produtividade comparativamente a
outros países da região
Milho Arroz Leguminosas Trigo Mapira Mexoeira Raízes e
tubérculos

Níveis de rendibilidade em 2013 (Ton/Ha)


Moçambique 1.0 1.2 0.6 1.7 0.5 0.3 7.2
Malawi 2.2 1.9 - 1.4 0.9 1.1 -
África do Sul 3.8 2.6 0- 3.6 0.5 2.8 -
Zâmbia 2.5 1.2 0.5 6.5 0.8 0.7 -
Zimbabwe 0.9 2.3 0.9 2.5 0.3 0.3 10.0
Crescimento anual médio dos níveis de rendibilidade 2000-2013 (%)
Moçambique 0.2 1.4 1.4 4.0 -1 -4 2.8
Malawi 1.7 1.2 - 4.5 5 12 -
África do Sul 2.3 -0.9 - 2.6 0 0 -
Zâmbia 2.8 0.2 0.9 0.4 4 7 -
Zimbabwe -3.9 0.9 2.8 -5.8 18 3 3.3
Fonte: FAOSTAT (2015)

10. A economia rural caracteriza-se por um elevado número de discrepâncias


quanto ao acesso aos recursos produtivos, serviços de apoio e orientação para
o mercado. Surge um grande fosso entre o meio urbano e o meio rural quando se
comparam os níveis dos recursos de que dispõem os agregados do meio rural e os
do meio urbano, no que concerne a uma grande diversidade de activos e acesso aos
serviços. O meio rural encontra-se em grande desvantagem em termos de capital
humano, nutrição, acesso aos serviços básicos, qualidade da habitação, posse de
bens duráveis, sector e tipo de emprego, conectividade, e padrões de migração. No
tocante a produção, a esmagadora maioria dos agregados do meio rural cultivam
em pequenos campos consubstanciando a agricultura de subsistência e apresentam
baixos níveis de adopção de insumos e tecnologias que aumentam a produtividade, e
têm acesso limitado aos serviços de apoio à produção (extensão, crédito, etc.), o que
conjuntamente leva aos baixos níveis de produtividade. A orientação para o mercado
na agricultura é diminuta e depara-se com os constrangimentos decorrentes da falta
de conectividade e do acesso limitado à informação sobre o mercado dos insumos
e da produção.

11. A melhoria do acesso e uso de insumos bem como um maior enfoque na


comercialização estão fortemente associados ao aumento significativo da
rendibilidade das culturas. A análise econométrica, que considera a influência
de vários factores, indica que os agricultores que adoptam tecnologias como as
sementes melhoradas, irrigação, fertilizante, e pesticidas, são mais produtivos do que
aqueles que não o fazem. Por exemplo, se todos os outros factores permanecerem
constantes, a adopção de pelo menos uma destas tecnologias agrícolas tem
correlação com o aumento de 14.8 porcento na rendibilidade média equivalente da
produção de cereais (coeficiente 0.138 na coluna 5 da Tabela 1.4). De igual modo, os
agricultores que vendem uma parte da sua produção são em média mais produtivos
do que aqueles que não o fazem. Os primeiros, por exemplo, produziram 1,007
quilogramas por hectare de culturas equivalentes a cereais, enquanto os últimos
só renderam em média 795 quilogramas por hectare (Figura 1.3).

6
Tabela 1.4 O uso de insumos tecnológicos tem correlação com uma maior rendibilidade
agrícola após a verificação de factores como as características dos agregados, acesso
aos serviços e choques climatéricos

Variável Dependente: Rendibilidade Equivalente de Cereais (Log)

1 2 3 4 5
Seca -0.108 -0.105 -0.101 -0.109 -0.106
(0.037)** (0.037)** (0.037)** (0.037)** (0.037)**
Cheias 0.004 0.007 0.003 0.003 0.004
(0.064) (0.064) (0.064) (0.064) (0.064)
Ciclones -0.126 -0.124 -0.118 -0.124 -0.127
(0.058)* (0.058)* (0.059)* (0.058)* (0.058)*
Queimadas 0.216 0.213 0.217 0.218 0.213
(0.042)** (0.042)** (0.042)** (0.042)** (0.041)**
Uso de Sementes Melhoradas 0.082

Uso da Irrigação (0.063) 0.287


(0.071)**
Uso de Fertilizantes 0.341
(0.088)**
Uso de Pesticidas 0.149
(0.064)*
Uso de qualquer Tecnologia 0.138
(0.039)**
Constante 6.533 6.532 6.502 6.523 6.512
(0.124)** (0.123)** (0.129)** (0.126)** (0.126)**
R² 0.07 0.07 0.07 0.07 0.07
N 6,049 6,049 6,049 6,049 6,049

Fonte: Banco Mundial usando o IAI (2012)


Notas: Os resultados da Regressão OLS da Rendibilidade Equivalente de Cereais (Log) relativamente ao Acesso aos
Serviços, Adopção de Tecnologias Agrícolas, Choques Climatéricos e das Características da Variação-Padrão dos
Agregados agrupados ao nível dos distritos são apresentados em parênteses. *** denota importância ao nível de
1%, ** denota importância ao nível de 5% e * denota importância ao nível de 10%. Os meios verificação incluídos
em todas as regressões incluem modelos no caso das características dos chefes dos agregados (idade, género,
nível académico), modelos para o acesso aos serviços (extensão, filiação em associações de agricultores, crédito
agrícola, e modelos das províncias.

7
Figura 1.3 Os agricultores com uma orientação para o mercado são mais produtivos

10 10
Freqüencia acumulativa

Freqüencia acumulativa
8 8
6 6
4 4
2 2
0 0
4 6 8 4 6 8
Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais
Cultura de rendimento Vendedores
Cultura normal Não vendedores
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
Nota: A distribuição cumulativa de funções cortada no 1° e 99° percentil. As linhas verticais apresentam
valores médios.

12. Similarmente, o acesso ao crédito, os serviços de extensão e a participação


nas cooperativas de produtores agrícolas têm uma correlação positiva com a
adopção de insumos e tecnologias agrícolas melhoradas, enquanto a incidência
elevada dos choques naturais reduz a produção agrícola. A fraca acessibilidade e
procura em relação aos serviços de apoio à produção agrícola, incluindo a limitada
participação nas associações agrícolas, pode afectar negativamente a adopção da
tecnologia e as oportunidades económicas. Com efeito, a análise econométrica
multivariada indica que os agricultores têm significativamente mais probabilidades
de adoptar uma tecnologia (dentre as sementes melhoradas, a irrigação, os
fertilizantes e os pesticidas) se tiverem tido acesso ao crédito, se fizerem parte de
uma associação agrícola ou caso tenham beneficiado dos serviços de extensão.
Os choques naturais também afectam um grande número de agricultores, com
efeitos directos e indirectos na produção agrícola e modos de subsistência rural. Em
2012, cerca de 73.6 porcento dos agricultores perdeu as suas culturas, animais ou
instrumentos de trabalho por causa dos choques climatéricos. Ao tentar precaver-
se contra estes choques, os agricultores moçambicanos preferem adoptar culturas
de baixo risco e de baixo retorno, abdicando de consideráveis ganhos económicos.

13. O isolamento e o acesso limitado à informação obstruem a agricultura


baseada no mercado. As redes de transporte são críticas para o desenvolvimento
agrícola, mas o sistema rodoviário em Moçambique parece estar menos desenvolvido
que o dos países vizinhos em termos de cobertura e de qualidade. Esta limitação
é mais acentuada nas zonas rurais, especialmente nas zonas mais pobres do país.
Cerca de 81 porcento dos habitantes do meio rural continuam não ligados a redes
de estradas fiáveis e transitáveis em todas as estações do ano. A qualidade das
estradas é também motivo de preocupação, particularmente nas zonas rurais, onde
a maioria das estradas que ligam as aldeias às sedes distritais não se encontram
pavimentadas e estão em mau estado. A ligação através do sistema de transporte
é particularmente fraca nas províncias do norte e do interior (casos de Niassa,
Sofala, Nampula, Zambézia e Tete) onde os índices de pobreza são também os
mais elevados. Consequentemente, os custos de transporte são também mais altos
nestas províncias. Por seu turno, a baixa produtividade agrícola e os altos custos
de transporte parecem estar associados a situação de fraca ligação que afecta os
agricultores. Estes, nas províncias mais isoladas, tendem a apresentar, em média,

8
níveis mais baixos de rendibilidade equivalente de cereais (Figura 1.4). Por outro
lado, também existe uma correlação negativa forte entre a produtividade e os
custos de transporte. Por exemplo, a produtividade média do milho é estimada em
cerca de 1.2 toneladas por hectare nos distritos com acesso a mercados próximos,
nomeadamente quando os custos de transporte são inferiores a US$2 por tonelada.
Inversamente, nos casos em que os custos de transporte ultrapassam US$20 por
tonelada, a produtividade do milho parece ser cerca de 20 porcento mais baixa
(Iimi e Rao, 2015). Um outro factor que dificulta a acessibilidade ao mercado é que
os agricultores deparam-se com grandes obstáculos para obter informação sobre
o mercado dos insumos e da produção. Os agricultores que recebiam informação
sobre os preços tinham maiores probabilidades de vender parte da sua produção.

Figura 1.4 A produtividade agrícola baixa quando aumenta a distância aos mercados
de produtos alimentares

1,300
equivalente de cereais, (kg/ha)

1,200
Média da rendibilidade

1,100
1,000
900
800
700
600
500
10 15 20 25 30 35 40
Distância média para o mercado de produtos alimentares (minutos)
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012

Moçambique é um país muito exposto a choques climatéricos


frequentes e fortes

14. Moçambique faz parte dos países da região mais expostos a diversos tipos
de calamidades naturais. Moçambique está mais exposto comparativamente aos
países vizinhos em termos de cheias, ciclones, seca e todas as outras calamidades
naturais de forma combinada (incluindo sismos e tsunamis). Secas prolongadas
e severas constituem uma ameaça recorrente que se regista a cada 7 em 10 anos
na região sul, e a cada 4 em 10 anos na região centro (GFDRR, 2012). A seca de
baixa intensidade ocorre ainda com maior frequência. Moçambique é igualmente
particularmente exposto a ciclones e inundações. A zona costeira, onde reside
mais de 60 porcento da população, é zona limítrofe de uma das bacias mais activas
de ciclones tropicais, o sudoeste do Oceano Índico. Todos os anos, em média,
Moçambique é atingido por uma tempestade tropical ou ciclone, e por três ou
quatro distúrbios tropicais adicionais (UN-Habitat, 2015). Os ciclones tropicais
tiveram efeitos devastadores no país, que foi atingido por cinco ciclones tropicais
(da categoria 1 a 4) entre 2000 e 2008. As cheias frequentes costumam resultar
dos altos ventos e chuvas torrenciais associadas aos ciclones, mas também da
combinação da precipitação excessiva, descargas a montante em importantes
bacias hidrográficas, e do deficiente sistema de drenagem. Em geral, as cheias
ocorrem a cada dois ou três anos. Embora de incidência relativamente baixa,
também está presente um certo grau de exposição a fenómenos geológicos.

9
15. Os custos das calamidades relacionadas com o estado do tempo são
bastante elevados por causa da grande dependência do país em relação ao
sector da agricultura, do qual depende a vasta maioria da população para a sua
subsistência. O potencial de perdas devido as calamidades no sector da agricultura
é extremamente alto em Moçambique. Com efeito, praticamente a totalidade da
produção (97 porcento) provém da agricultura de sequeiro, que é particularmente
vulnerável aos eventos climatéricos extremos. Uma estimativa dos custos da seca
e das cheias feita em 2009 coloca as perdas médias anuais do milho e mexoeira em
9 porcento e 7 porcento de cada cultura, respectivamente. Estima-se que também
ocorram perdas de aproximadamente 20 porcento das culturas uma vez em cada
dez anos (GFDRR, 2012). Os choques climatéricos não imputam custos apenas ao
sector agrícola, mas também às edificações e infra-estruturas físicas. Estima-se
que uma média de 100km de Estrada e 33,000 agregados sofrem o impacto das
inundações todos os anos em Moçambique. A alta concentração da população e
das actividades económicas na região costeira predispõe o país a grandes perdas
em caso de ocorrência de eventos climatéricos extremos. Por exemplo, no ano 2000,
o ciclone Eline, que provocou níveis record de precipitação (Figura 1.5), provocou
custos estimados em 20 porcento do PIB (GFDRR, 2012).

Figura 1.5 Grandes anomalias na precipitação por causa dos ciclones Eline e Judah
em 2000

Variação na precipitação pelos distritos (2000)

-1
Nota: Cada barra vertical corresponde a um distrito.

10
A variabilidade climatérica extrema reduz o bem-estar das
pessoas a curto e a longo-prazo
16. As pessoas severamente afectadas pelas cheias nos primórdios da sua vida
apresentam resultados mais débeis no mercado de trabalho e no consumo quando
adultas, incrementando a sua vulnerabilidade em relação a pobreza. A análise
econométrica que compreende os inquéritos aos agregados, censos populacionais e
dados do estado do tempo por via satélite e bastante desagregados mostra que as pessoas
que foram afectadas pela precipitação extrema (ou pela seca ou cheias) quando ainda no
útero ou durante o primeiro ano de vida apresentam menos probabilidade de participar
no mercado de trabalho quando adultos. Os indivíduos afectados apresentam em média
uma taxa de participação que é 6 porcento inferior quando comparado com os indivíduos
não afectados. Similarmente, as cheias estão associadas a níveis de despesa per capita
mais baixos – aproximadamente 14 porcento inferiores – e a uma maior probabilidade de
tais agregados serem pobres – cerca de mais de 18 porcento. Esta evidência sugere que os
efeitos dos choques climatéricos não assegurados que ocorreram há décadas apresentam
uma persistência forte ao longo do tempo e são ainda sentidos pelas pessoas afectadas
e pelas suas famílias até hoje (Tabela 1.5).
Tabela 1.5 As anomalias de precipitação nos primórdios da vida também aumentam
o risco de pobreza

Despesa per capita Probabilidade de ser pobre

Todos Rural Todos Rural


1 2 3 4 5 6 7 8
Falta de chuva 0.177 -1.370 -0.173 -1.181 0.070 0.020 0.092 0.039
- útero (4.693) (5.389) (4.799) (5.652) (0.101) (0.098) (0.101) (0.099)

Falta de chuva -0.245 -1.484 0.221 -2.107 0.069 -0.010 0.066 -0.009
- 1° ano (4.168) (4.895) (4.171) (4.889) (0.083) (0.077) (0.083) (0.077)

Excesso de -7.309* -5.017 -6.359* -4.742 -0.005 -0.027 -0.008 -0.028


chuva - útero (3.819) (4.968) (3.794) (4.975) (0.040) (0.038) (0.040) (0.038)

Excesso de -8.097*** -4.429* -7.045** -3.990 0.099** 0.093** 0.095** 0.092**


chuva - 1° ano (2.860) (2.693) (2.809) (2.674) (0.042) (0.039) (0.042) (0.039)

Coeficiente de
Regressão 0.011 0.038 0.011 0.033 0.015 0.084 0.015 0.083

Base de
Comparação 27.744 27.744 27.110 27.110 0.498 0.498 0.500 0.500

Observações 6,321 6,321 6,228 6,228 6,321 6,321 6,228 6,228

Distrito FE não sim não sim não sim não sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando o IOF-2008/09


Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito. Os choques
de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou para acima (cheias) em relação a
média histórica do distrito. *** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

11
17. O que em parte atribui a vulnerabilidade do bem-estar dos agregados aos
choques climatéricos é o fardo negativo que esses fenómenos colocam na
produção agrícola e a acessibilidade dos investimentos no capital humano
das crianças. A seca ou cheias severas provocam um impacto negativo na
rendibilidade agrícola e, consequentemente, na renda, consumo e segurança
alimentar do agregado. Relativamente a seca, por exemplo, uma medida que
analisa a relação entre as condições hídricas e a produção agrícola (o Índice de
Satisfação da Necessidade de Água, abreviadamente conhecido por WRSI4) revelou
a grande sensibilidade da rendibilidade agrícola em Moçambique em relação as
condições climatéricas extremas. Embora os dados sobre a rendibilidade ao nível
das províncias sejam esporádicos, olhando para a correlação incondicional entre
o WRSI para o milho e a sua rendibilidade correspondente é revelada a evidência
de uma relação positiva entre o fornecimento de água durante a época de cultivo e
o desempenho da cultura (Figura 1.6). Uma redução de dez unidades no índice da
necessidade de água cumulativa para a cultura mostra a queda da rendibilidade
do milho em 0,1 tonelada por hectare.

18. Consequentemente, a rendibilidade mais baixa das culturas pode reduzir


a renda e o consumo dos agregados, e afectar significativamente a capacidade
de os pais disporem de meios nutricionais para os seus filhos menores. Quando
confrontados com cheias ou com a seca, os agregados podem ser forçados a
corar investimentos básicos na nutrição e no capital humano dos seus filhos.
Como resultado, o mecanismo subjacente que faz com que os efeitos dos choques
da precipitação persistam ao longo do tempo é supostamente a sua influência
sobre elementos críticos das pessoas afectadas como a sua saúde durante um
período crítico do seu desenvolvimento físico (i.e. o ambiente nutricional no
ventre e o primeiro ano de vida). A análise econométrica que testa esta hipótese
investiga os impactos de curto-prazo das cheias e da seca na antropometria das
crianças (0 aos 4 anos), mais concretamente na pontuação z na relação altura
idade, uma forte indicação sobre a altura na idade adulta. Os resultados mostram
que depois de uma seca severa, por exemplo, as crianças afectadas são menores
numa magnitude de 0.6 desvios padrões em relação às crianças não afectadas,
cuja média antes do choque é de -1.89 desvios padrões, abaixo do estipulado pelo
grupo de referência internacional da Organização Mundial da Saúde. Uma análise
subsequente apresenta evidências sugerindo que as crianças afectadas pelos
choques têm um desempenho inferior em termos de indicadores escolares (como a
participação e assiduidade na escola), e apresentam lacunas no desenvolvimento
físico, e as mulheres adultas (dados antropométricos para os homens não se
encontram disponíveis) têm uma altura 0.5-0.7 centímetros inferior em relação
as mulheres adultas não afectadas. E o desenvolvimento físico é relevante para
a actividade agrícola. Os resultados referentes a Moçambique apresentam uma
relação positiva entre a altura das mulheres e o capital humano e a acumulação
de riqueza.

4 O Índice de Satisfação das Necessidades de Água é definido como o rácio da efectiva evapotranspiração
sazonal das culturas em relação a necessidade sazonal de água para a cultura, e capta o impacto esperado
de défice de água captada em diferentes períodos de tempo durante a época de cultivo.

12
Figura 1.6 A rendibilidade do milho em Moçambique é altamente sensível em relação
a falta de chuva

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando dados e mapas agronómicos da FEWS NET e da FAO
Nota: A média provincial de WRSI desde os posto administrativos é medida no eixo X. A rendibilidade do milho
ao nível provincial é medida em toneladas por hectare nas províncias do eixo Y: Cabo Delgado, Gaza, Inhambane,
Maputo, Manica, Nampula, Nassa, Sofala, Tete e Zambézia. Anos: 2002, 2005, 2006, 2007 e 2008.

A resolução da falta de inclusão requer políticas de base alargada


que considerem factores estruturas em importantes áreas

19. A manutenção do crescimento e partilha dos seus benefícios de forma


mais nivelada requer a resolução de factores estruturais que agravam as
desigualdades regionais, trazendo constrangimentos à produtividade e ao
crescimento agrícola baseado no mercado e que deixam as pessoas muito
vulneráveis aos choques climatéricos. Os ganhos do crescimento devem ser
distribuídos mais amplamente através do investimento nas zonas do país mais
isoladas, para que essas regiões possam beneficiar-se das oportunidades económicas
resultantes da expansão económica e reduzir o fosso em relação ao resto do país. Os
esforços de promoção da diversificação económica e de aceleração do crescimento
do sector privado – necessários numa economia que depende muito da riqueza
dos seus recursos naturais – deveriam contribuir para apoiar um progresso mais
equitativo. Considerando a importância da agricultura para a redução da pobreza,
uma maior produtividade neste sector tem de ocorrer em simultâneo com uma
maior ligação aos mercados. Os esforços na forma de políticas para alcançar estes
objectivos devem também reconhecer os factores que constituem constrangimentos
para os agricultores com o potencial de enveredarem pela produção em moldes
comerciais, e integrarem-se em cadeias de valor assim como os constrangimentos
dos agricultores cujo enfoque é a agricultura de subsistência com potencial limitado
de comercialização. Subjacente a estes objectivos está a necessidade de fortalecer os
investimentos no capital humano, físico e institucional do país. Por último, por causa
da alta exposição de Moçambique às calamidades naturais, torna-se necessário
fortalecer os sistemas formais e informais de gestão de risco para impedir que as
condições de vida da população seja demasiadamente influenciadas pelos grandes
choques que estejam fora do seu controlo.

13
Progresso de Moçambique
na Redução da Pobreza

2.1 Evolução e Distribuição Regional da Pobreza

20. Os níveis da pobreza baixaram marcadamente em Moçambique nos anos


que se seguiram ao fim da guerra civil, mas o ritmo da redução da pobreza
desacelerou nos princípios da década de 2000. A economia moçambicana cresceu
em média 7.9 porcento por ano entre 1993 e 2014, uma taxa impressionante em
comparação com as economias não dependentes do petróleo na África subsaariana
(4.4 porcento), os países de baixa renda (4.7 porcento), os países de renda alta-média
(5.4 porcento) e a economia mundial (2.8 porcento). Apesar deste forte crescimento
nas últimas décadas, Moçambique não foi capaz de traduzir essa crescimento alto
em redução da pobreza. A taxa da pobreza per capita baixou 12 pontos percentuais
entre 1997 e 2003, de 68 para 56 porcento. A pobreza passou a registar um declínio
menos acentuado a partir de 2003, baixando apenas 4 pontos percentuais tendo-se
situado em 52 porcento em 2009.5 Ao analisar as regiões, verifica-se que os índices
de pobreza nas zonas rurais e urbanas seguiram um padrão idêntico, mostrando
um redução acentuada no período 1997-2003 mas seguindo-se depois uma fase de
redução mais modesta (Figura 2.1). Entre 1997 e 2009 o crescimento populacional
sobrepôs-se à redução da pobreza, aumentando assim o número de moçambicanos
que vivem na pobreza extrema em 400,000 passando para o total 11.2 milhões de
pessoas. Para alcançar o objectivo de erradicação da pobreza extrema até 2030, o
ritmo da redução da pobreza em Moçambique terá de aumentar substancialmente.

Figura 2.1 O ritmo da redução da pobreza desacelerou em Moçambique

80.0
Taxas de Pobreza (%)

70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
0
1997 2003 2009
Urbano Rural Moçambique
Fonte: Banco Mundial

5 Os dados da pobreza discutidos no presente documento baseiam-se na linha de pobreza nacional de


Moçambique que em 2009 era aproximadamente 16 Meticais per capita por dia, ou seja cerca de US$0,90
por dia em termos da Paridade do Preço de Compra de 2005. Este valor é 28% inferior a linha de pobreza
extrema internacional de US$1.25 por dia usada pelo Banco Mundial. Os termos “pobreza” e “pobreza
extrema” são usados no presente relatório indistintamente, visto que todos os pobres em Moçambique
vivem abaixo da linha de pobreza extrema internacional.

14
21. A despeito do progresso registado na redução da pobreza durante as últimas
duas décadas, a pobreza em Moçambique permanece com índices altos quer em
termos globais quer no contexto regional. A linha de pobreza de $1.9 por dia, per
capita, avaliada com base na paridade do poder de compra de 2011, permite que se
façam comparações internacionais significativas dos níveis de pobreza em vários
países. Em 1993, um ano depois do fim da guerra civil, Moçambique era o terceiro
país mais pobre do mundo. Em 2013 era o 13° país mais pobre, o que constituía um
sinal de avanços na redução da pobreza. Porém, aos 69 porcento, Moçambique
situa-se entre os países com os níveis mais elevados de pobreza, juntamente com
países como a Libéria, Guiné-Bissau, Malawi, República Democrática do Congo,
Burundi e Madagáscar (Figura 2.2).

Figura 2.2 A pobreza em Moçambique permanece com níveis altos no contexto regional

Fonte: Banco Mundial – PovCalNet


Nota: Incidência da pobreza em percentagem (%) da população; a linha da pobreza é $US 1.9 PPC per capita por dia.

15
22. O desempenho relativamente a redução da pobreza é desigual nas várias
regiões, com algumas partes do país – especialmente a região centro e a região
norte – albergando uma porção desproporcional dos pobres. A distribuição da
pobreza em Moçambique varia significativamente por região. Em geral, as províncias
urbanas têm a tendência de apresentar níveis de pobreza mais baixos do que as
províncias rurais, particularmente as do centro e norte do país. Com 10 porcento,
a Cidade de Maputo possui os índices de pobreza mais baixos do país. No outro
extremo da distribuição, a Zambézia apesenta uma taxa de pobreza da ordem dos
73 porcento. Ao invés de baixar como no resto do país, a pobreza agravou-se entre
2003 e 2009 nas províncias da Zambézia, Sofala, Manica e Gaza. O número de pessoas
pobres nestas quatro províncias e em Nampula – uma outra província que vem
registando uma taxa lenta de redução da pobreza – aumentou em 1.6 milhão (2.4
porcento ao ano) entre 2003 e 2009 (como se ilustra na Figura 2.3). Como resultado,
em 2009 estas cinco províncias juntas albergavam aproximadamente 70 porcento
dos pobres, uma subida considerável de 59 porcento em 2003. As províncias da
Zambézia e de Nampula juntas albergavam cerca de metade dos pobres do país em
2009 (48 porcento), uma subida em relação aos 42 porcento em 2003 (Figura 2.4).

Figura 2.3 Redução desigual da pobreza nas várias regiões de Moçambique

90.0
80.0
70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
0.0
Niassa

Cabo
Delgado

Nampula

Zamézia

Tete

Manica

Sofala

Inhambane

Gaza

Maputo
Província
Maputo
Cicade

Províncias Moçambique
1997 2003 2009
Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

16
Figura 2.4 Algumas regiões rurais são responsáveis pela crescente proporção de pobres

1996/7
1996/7 2002/3
2002/3 2008/9
2008/9
Contribuição para
Contribuição paraaapobreza
pobreza
Maputo Cicade Inhambane Tete Cabo Delgado
Maputo Província Sofala Zambézia Niassa
Gaza Manica Nampula
Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

23. Entre 1997 e 2009, o fosso da pobreza, que mede a profundidade da pobreza,
permaneceu praticamente inalterada, oscilando entre 57 e 59 porcento da linha
da pobreza. Os níveis da pobreza per capita reflectem a proporção de pessoas vivendo
abaixo da linha da pobreza, mas não fornecem informação sobre a profundidade da
pobreza. O fosso da pobreza indica a que distância a pessoa pobre comum se encontra
para escapar da pobreza. Em Moçambique, o consumo diário de uma pessoa comum a
viver na pobreza era um pouco acima da metade da linha de pobreza nacional, em redor
dos 58 porcento em 1997, 2003 e em 2009 (57.2, 59 e 58.5 porcento, respectivamente).
A maior contribuição para baixar a profundidade da pobreza, particularmente entre
2003 e 2009, veio da província de Maputo, onde o consumo médio de uma pessoa
pobre subiu de 66 porcento da linha de pobreza entre 1997 e 2009. No resto do país,
pelo contrário, as pessoas que vivem na pobreza hoje parecem ser tão pobres como
os que viviam na há 20 anos. Na Zambézia, por exemplo, o consumo médio de uma
pessoa pobre reduziu de 65 porcento da linha da pobreza em 1997 para 60 porcento
da linha de pobreza em 2009.

24. Dada a profundidade persistente da pobreza em Moçambique, a quantidade


de recursos necessários para tirar a todos da pobreza aumentou em termos
absolutos, mas baixou como proporção do PIB. O Défice da Pobreza ou Fosso
Agregado da Pobreza é o rendimento anual agregado necessário para levar todas as
pessoas a transporem a linha da pobreza.6 Para Moçambique, o Défice da Pobreza
inicialmente reduziu entre 1997 e 2003, tendo baixado de $1,072 milhões para $910
milhões. De 2003 a 2009, todavia, o Défice da Pobreza de Moçambique voltou a subir,
atingindo $987 milhões em 2009.7 Como proporção do PIB de Moçambique, todavia,
o Défice da Pobreza tem vindo a reduzir de forma constante desde 1997, passando
de 18 porcento do PIB em 1997, para 15 porcento em 2003, e para 9 porcento em
2009. Apesar de ter reduzido significativamente, o Défice da Pobreza em Moçambique

6 Défice da Pobreza = (1-P1) x linha da pobreza x o número de pobres. P1 é parte das medidas de pobreza FGT e
corresponde ao rácio do fosso da pobreza. É usado para medir a profundidade da pobreza.
7 Por outras palavras, se tivéssemos uma varinha mágica e conseguíssemos efectivamente alcançar cada
indivíduo pobre, e aumentar marginalmente o seu rendimento até a linha da pobreza, em 2009 Moçambique
necessitaria de aproximadamente $987 milhões por ano (de acordo com o valor do Dólar em 2009) para
eliminar a pobreza. O valor do Défice da Pobreza, porém, não é o mesmo que o custo da erradicação da
pobreza extrema. Trata-se do tamanho do problema, que é diferente do tamanho (custo) da solução.

17
como proporção do PIB continua a ser cerca de 18 vezes mais alto do que a média de
todos os países em vias de desenvolvimento (0,5 porcento). Todavia, esses níveis são
comparáveis à média dos países de renda baixa, estimada em aproximadamente 8
porcento do PIB (Olinto et al., 2013).8

2.2 Desigualdade e Prosperidade Partilhada

25. A desigualdade não é apenas alta como também apresenta sinais de uma
tendência crescente a longo-prazo. Os indicadores da desigualdade em Moçambique
registaram um agravamento considerável entre 1997 e 2003 e permaneceram altos
em 2009. O Índice de Gini subiu de 0.44 em 1997 para 0.50 em 2003, tendo depois
baixado para 0.48 em 2009, permanecendo bem acima do nível registado nos finais
dos anos 90 (Figura 2.5). Em geral, os altos níveis de desigualdade tendem a diminuir
o impacto do crescimento económico no crescimento da renda para os que estão nos
níveis inferiores da distribuição. Com efeito, como será discutido na secção seguinte,
os níveis altos e crescentes da desigualdade entre 1997 e 2009 parcialmente explicam
o declínio da pobreza relativamente modesto apesar do crescimento rápido do PIB
e do consumo médio per capita observado durante o período. A desigualdade é
também elevada ao nível global. Moçambique pertence a um grupo de países em
que tanto a pobreza assim como a desigualdade são elevados (Figura 2.6).

Figura 2.5 A desigualdade é alta e está a aumentar em Moçambique

0.52
0.50
Índice de Gini

0.48
0.46
0.44
0.42
0.40
1996/7 2002/3 2008/9

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3, e IOF2008/9

8 A linha da pobreza de 2009 para Moçambique é de aproximadamente 16 Meticais per capita por dayia, i.e.:
aproximadamente 0,90 de Dólares de Paridade do Poder de Compra por dia. O rácio do Défice da Pobreza
em relação ao PIB para os países em vias de desenvolvimento e os países de renda baixa foi, pelo contrário,
computado com a Paridade do Poder de Compra com a linha de pobreza de $1.25. Por conseguinte, é
provável que o Défice da Pobreza de Moçambique segundo a linha internacional de Paridade do Poder de
Compra de $1.25 PPC seja maior do que actualmente estimados 9 porcento do PIB.

18
Figura 2.6 Moçambique pertence ao grupo de países com altos níveis de pobreza e
desigualdade alta

70
70
65
65
60
60
55
55
50
50
45
45
40
40
35
35
30
30
25
25
20
20
00 10
10 20
20 30
30 40 50 60 70
70 80
80 90
90

Pobreza $1.25 PPC


Fonte: Banco Mundial – PovCalNet
Nota: Incidência da pobreza em percentagem (%) da população; a linha da pobreza é $US 1.25 PPC per
capita por dia.

26. O crescimento impressionante não se traduziu na elevação da prosperidade


partilhada, mas beneficiou mais os que já se encontravam em situação de vantagem.
A elevação da prosperidade partilhada requer uma economia em crescimento que
beneficie os que se encontram no escalão inferior da distribuição relativamente
mais do que o resto da população.9 Por outras palavras, requer a expansão do
tamanho do bolo continuamente e a sua partilha para reduzir a desigualdade. A
economia moçambicana tem vindo a crescer continuamente desde os meados
da década 90. Todavia, a curva de incidência do crescimento sugere que os 40
porcento da população do escalão mais abaixo em Moçambique cresceu a um
ritmo mais lento do que a população moçambicana em geral. Isto significa que os
pobres não se beneficiaram tanto com o crescimento como os mais afluentes. Entre
2002/3 e 2008/9, a taxa de crescimento anual da despesa per capita da população
moçambicana no seu todo foi superior do que ao nível dos 40% da população do
escalão mais abaixo. Embora para a população em geral o crescimento tenha sido
de 2.3 porcento por ano, a despesa do consumo per capita cresceu 2 porcento por
ano entre os 40% da população do escalão mais abaixo (Figura 2.7).

9 Em 2014, o grupo do Banco Mundial introduziu os chamados objectivos duplos. O primeiro propõe-se
eliminar a pobreza extrema. A percentagem de pessoas que vive com menos de US$ 1.9 por dia deveria
reduzir para 3 porcento até 2030. O segundo objectivo relaciona-se com a promoção da prosperidade
partilhada. Este propõe-se promover o crescimento real da renda de 40 porcento da população do escalão
mais abaixo em todos os países. Esta secção discute como Moçambique se posicionou com relação a este
último objectivo entre 2002/3 e 2008/9.

19
Figura 2.7 O crescimento da renda em Moçambique beneficiou principalmente aos não pobres

7
6
Taxa de crescimento

5
4
3
2
1
0
-1
-2
-3
-4
-5
0 20 40 60 80 100
Percentis
Intervalos de confiança de 95% Mediana Taxa de crescimento na média
Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3 e IOF2008/9

2.3 Quem são os Pobres?

Características Demográficas

27. A estrutura demográfica dos agregados em Moçambique permaneceu


essencialmente inalterada nas últimas duas décadas e, em média, os agregados
com mais membros são os mais pobres. As características demográficas dos
agregados como o tamanho e a estrutura das famílias jogam um papel importante na
determinação da situação socioeconómica e do nível de pobreza dos agregados. No
caso de Moçambique, as famílias grandes com filhos prevalecem. O tamanho médio
de um agregado era de 4.8 pessoas por agregado em 1997 e também em 2003, e em
2009 quase que permaneceu constante em 4.7 (Tabela 2.1). O tamanho das famílias
dos não pobres tem cerca de uma pessoa menos em relação as famílias das pessoas
pobres (4.23 e 5.16, respectivamente), e este padrão tem sido consistente ao longo
do tempo. Esta diferença é explicada principalmente pelo número maior de filhos
com idades entre 0 e 7 anos e também entre os 7 e os 14 anos no seio das famílias
de pessoas pobres. Inversamente, o número de adultos é inferior nos agregados
das pessoas pobres. Esta estrutura demográfica tem implicações adversas nos
rácios de dependência das famílias de baixa renda. Em 2009, os agregados com um
só membro contribuíram com menos de 1 porcento para pobreza total, enquanto
os agregados com 7 ou mais membros contribuíram com até perto de 40 porcento
para a pobreza (Figura 2.8). A idade média dos chefes dos agregados é de cerca de
42 anos, relativamente similar entre os agregados dos não pobres e os agregados
das pessoas pobres.

20
Tabela 2.1 Os pobres têm agregados maiores e mais filhos

Probres Não Pobres População Total

1997 2003 2009 1997 2003 2009 1997 2003 2009

Tamanho do agregado 5.5 5.2 5.1 3.7 4.3 4.2 4.8 4.8 4.6

N° de filhos com menos de 7 1.3 1.4 1.5 0.6 0.9 0.9 1.0 1.1 1.1

N° de filhos com idade entre 7-14


anos 1.4 1.2 1.2 0.7 0.8 0.8 1.1 1.0 1.0

N° de adultos com mais 15 anos


de idade 2.7 2.5 2.3 2.3 2.5 2.4 2.6 2.5 2.4

Idade média do chefe dos


agregados 42.9 42.5 42.4 41.1 42.9 42.0 42.2 42.7 42.2

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

Figura 2.8 Os agregados com mais membros contribuem mais para a pobreza per capita

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

28. Outros factores da estrutura dos agregados, como a questão do género e o


estado civil do chefe do agregado estão também associados aos níveis de pobreza.
As pessoas que vivem em agregados chefiados por mulheres eram inicialmente mais
pobres do que as pessoas a viver em agregados chefiados por homens. Todavia,
o fosso foi reduzindo ao longo do tempo. Em 1997, 64 porcento das pessoas que
viviam em agregados chefiados por homens eram pobres. Esse valor em relação
aos agregados chefiados por mulheres era de 65 porcento. Em 2009, as pessoas que
viviam em agregados chefiados por mulheres eram menos pobres (51.8 porcento) em
relação as que viviam em agregados chefiados por homens (52.2 porcento) (embora
a diferença não fosse estatisticamente significante). Os agregados chefiados por
mulheres solteiras ou divorciadas registavam níveis de pobreza mais acentuados.
Em 2009, as pessoas que viviam em agregados chefiados por mulheres solteiras

21
apresentavam níveis de pobreza mais elevados (22.7 porcento) do que pessoas
que viviam em agregados chefiados por homens solteiros (18.4). O fosso do género
na pobreza era alarmante em relação aos chefes dos agregados divorciados ou
separados: a taxa de pobreza per capita nos agregados chefiados por homens era
de 26.7 porcento, atingindo 59.4 porcento nos agregados chefiados por mulheres
(Figura 2.9).

Figura 2.9 O género e o estado civil dos chefes dos agregados têm correlação com os
níveis de pobreza

70.0%

60.0%
Incidência da Pobreza (%)

50.0%

40.0%

30.0%

20.0%

10.0%

0.0%
Feminino Masculino Feminino Masculino Feminino Masculino Feminino
Masculino Feminino

Solteiro(a)
Solteiro(a) Casado(a)
Casado(a) União
UniãoMarital
MaritalMonógama
Monógama União Marital Poligama D

70.0%

60.0%
Incidência da Pobreza (%)

50.0%

40.0%

30.0%

20.0%

10.0%

0.0%
no Feminino Masculino Feminino Masculino
Masculino Feminino
Masculino Feminino Masculino
Feminino Masculino Feminino
Masculino Feminino Masculino
Feminino Masculino Feminino
Masculino Feminino Masculino Feminino
Feminino

sado(a) União Marital Monógama União


UniãoSolteiro(a)
MaritalPolígama
Marital Poligama Divorciado(a)/separado(a)
Divorciado/a)
Casado(a)separado(a)União Marital
Viúvo(a)
Monógama União Marital Poligama D
Viúvo(a)

Pobreza em 2008/9
Fonte: Banco Mundial com base no IOF2008/9

22
Capital humano

29. As taxas de analfabetismo em Figura 2.10 Os analfabetos registaram uma


Moçambique tiveram uma redução redução da pobreza mais lenta
moderada, excepto entre os pobres.
A taxa nacional de analfabetismo
era de 62.3 porcento em 1997 tendo
reduzido para 57.7 porcento em 2009. A
tendência é similar entre os não pobres. 72.5
No seio dos pobres, porém, a taxa de 63.5
analfabetismo aumentou de 67.6 60.7
porcento para 69.2 porcento durante o
mesmo período. O acesso à educação 57.5
aumentou substancialmente durante a 41.4 36.8
última década, mas a qualidade entre
os pobres degradou-se. Em 1997, a
pobreza atingia 72.5 porcento entre Analfabeto Não-analfabeto
os analfabetos e 57.5 porcento entre
os alfabetizados. Em 2009, a pobreza Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7,
IAF2002/3 e IOF2008/9
reduziu ao nível dos dois grupos, mas
o declínio foi mais acelerado entre as pessoas alfabetizadas (Figura 2.10). As taxas
de analfabetismo variam nos vários grupos socioeconómicos, sendo mais baixas
entre os jovens (com idades entre os 15 e os 24 anos), os escolarizados e no seio
da população urbana. Existe também uma variação espacial considerável entre
regiões. As taxas de analfabetismo são mais altas nas zonas rurais. Em 2009, mais
de 65 porcento da população rural era analfabeta, enquanto no meio urbano essa
cifra situava-se nos 36 porcento.

30. A condição de pobreza de um indivíduo em Moçambique tem relação


com o nível de escolaridade do chefe do agregado. Quanto maior o nível de
escolaridade do chefe do agregado menores são as probabilidades de pobreza e a
pobreza regista uma redução mais rápida nos agregados cujos chefes apresentam
níveis de escolaridade mais altos. A pobreza era mais alta em relação a indivíduos
de agregados cujos chefes não tinham qualquer escolaridade e mais baixa entre as
pessoas de agregado cujos chefes tinham o ensino superior. Em 2009, por exemplo,
a taxa de pobreza per capita entre as pessoas de agregados cujos chefes não
tinham qualquer escolaridade era de 58.2 porcento, 29.6 porcento relativamente
as pessoas de agregados cujos chefes haviam concluído o ensino primário e 8.7
porcento se o chefe do agregado tivesse concluído o ensino secundário (Figura
2.11). Não existia pobreza entre os que viviam em agregados cujo chefe tivesse
concluído o ensino superior. Adicionalmente, entre 1997 e 2009, a pobreza
baixou 14.7 porcento entre as pessoas que viviam em agregados com chefes sem
escolaridade, mas em 49 porcento entre aqueles cujo chefe do agregado tinham
concluído o ensino secundário. Embora o acesso à educação tenha crescido
rapidamente na última década, a maioria das pessoas (80 porcento) ainda vive
em famílias chefiadas por indivíduos sem educação formal. Mais de 80 porcento
da população moçambicana vive em agregados em que o respectivo chefe não
tem nenhuma escolaridade. Esta situação constitui um importante problema
socioeconómico em Moçambique e muito provavelmente deverá estar associado
a baixa produtividade da força de trabalho e aos rendimentos baixos.

23
Figura 2.11 O capital humano possui uma correlação forte com a condição de pobreza

100.0
90.0
80.0
70.0
60.0
50.0
40.0
%

30.0
20.0
10.0
0.0
Semeducação
Sem educação Primária
Primária Secundária
Secundária Superior
Superior
Nível de educação completo
Nível de educação completo
2008/9 Incidência da pobreza 2008/9 Contribuição para a pobreza
2008/9 Incidência da pobreza 2008/9 Contribuição para a pobreza

Fonte: Banco Mundial com base no IOF2008/9

Mercados do Trabalho
31. O mercado do trabalho de Moçambique é típico de um país de renda baixa. O
emprego assalariado é uma raridade. A maioria das pessoas trabalha por conta própria
na agricultura de subsistência ou em empresas caseiras. As pessoas que trabalham
em actividades familiares sem remuneração constituem uma porção enorme da força
de trabalho. De acordo com a definição de desemprego da OIT, Moçambique tem
níveis de desemprego muito baixos. Mas o subemprego é comum e a qualidade dos
empregos é baixa. Quando se considera as pessoas que trabalham em actividades
familiares sem remuneração como desempregadas (a definição do país), então as
taxas de desemprego referentes a 2009 sobem para 38,6 porcento. Por outro lado e
conforme já foi mencionado, uma grande parte dos que se consideram com emprego
dedicam-se ao autoemprego com baixa produtividade, têm emprego informal na
agricultura e nas empresas caseiras (Tabela 2.2).

32. Cerca de 81 porcento da população em idade activa estava empregada em


1997. Esse valor permaneceu aproximadamente o mesmo em 2003, nos 81.5 porcento,
mas subiu para 86.4 porcento em 2009. A população em idade activa como proporção
da população total parece ter registado um declínio ao longo do tempo, de 54.1
porcento em 1997 para 51.5 porcento em 2009. O peso da juventude na população
total e na população activa permaneceu relativamente estável entre 1997 e 2003, mas
teve uma ligeira queda em 2009. Relativamente a taxa de trabalho infantil, esta teve
um declínio entre 1997 e 2003, mas registou uma subida no período subsequente.

24
Tabela 2.2 O subemprego é generalizado e a qualidade dos empregos é fraca

Indicadores do Mercado de Trabalho (%)

1997 2003 2009

Taxa de desemprego (Definição da


OIT) 10 0.6 1.9 2.0

Taxa de desemprego (Definição de


Moçambique) 11 24.7 37.9 38.6

Rácio de emprego e idade activa da


população 81.3 81.5 86.4

População activa como fracção da


população total 54.1 53.4 51.5

Jovens (25-24 anos) como fracção da


população total 18.6 18.3 16.7

Rácio da juventude em relação a


população activa 34.4 34.3 32.4

Taxa de trabalho infantil 19.2 10.3 31.5

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3, e IOF2008/9

33. As taxas de pobreza variam entre diferentes tipos de emprego e ocupações.


Quando se considera a pobreza por tipo e sector de emprego, a heterogeneidade
torna-se mais clara. De um modo geral, os que trabalham sem remuneração como
membros da família, os que trabalham por conta própria (sem trabalhadores), os
que realizam o trabalho doméstico e os que trabalham na agricultura apresentam
as taxas de pobreza mais altas per capita (acima de 50 porcento). Os do sector
formal público e privado, e os que trabalham por conta própria com trabalhadores
apresentam as incidências de pobreza mais baixas (Figura 2.12). As pessoas que
trabalham nos campos agrícolas apresentavam níveis de pobreza altos, atingindo
uma taxa de pobreza de 58.5 porcento per capita. Os que estão bem posicionados
e com ocupações como gestores seniores, profissionais, técnicos e funcionários
registavam baixos níveis de pobreza (abaixo de 12 porcento).

10 Salvo indicação contrária, esta secção apresentará as estimativas de emprego e desemprego segundo
a definição da OIT.
11A principal diferença é que na definição de Moçambique os trabalhadores da família não remunerados
são tratados como desempregados.

25
Figura 2.12 A maioria dos empregos dos pobres é de baixa qualidade

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

26
Crescimento, Desigualdade e
Redução da Pobreza: o Papel
das Províncias Mais Recuadas

3.1 A Elasticidade do Crescimento na Redução


da Pobreza

34. Moçambique é uma das economias com índices de crescimento mais altos na
África Subsaariana (ASS), mas não tem conseguido traduzir o seu forte crescimento
do PIB em redução da pobreza. No decurso das últimas duas décadas, a taxa de
crescimento anual foi em média de 7.4 porcento em termos reais. Desde o final da
Guerra Civil em 1992, o PIB per capita do país mais do que duplicou em termos reais
(Figura 3.1). Todavia, comparativamente ao resto da ASS, a redução da pobreza em
Moçambique tem-se beneficiado consideravelmente menos do crescimento. Entre
1997 e 2009, relativamente a cada porcento de aumento do PIB per capita na ASS,
a pobreza baixou 0.5 porcento na região. No mesmo período, relativamente a cada
porcento de crescimento em Moçambique, a pobreza baixou apenas 0.26 porcento no
país, quase metade do ritmo de redução da pobreza da região (Figura 3.2). Esta baixa
Elasticidade do Crescimento na Redução da Pobreza (GEPR) constitui um grande desafio
que Moçambique vai ter de solucionar para acelerar a redução da pobreza no futuro.

Figura 3.1 Moçambique é uma das economias de crescimento mais rápido na África
Subsaariana

Fonte: Indicadores do Desenvolvimento Mundial (2014), Banco Mundial


Nota: $PPC Internacional Constante em 2011.

35. Dois fenómenos distintos explicam a GEPR per capita baixo em Moçambique:
primeiro, a fraca elasticidade do crescimento do PIB no crescimento médio per
capita do consumo; e, em segundo lugar, a fraca elasticidade do crescimento do
consumo médio per capita na redução da pobreza. Entre 1997 e 2009, relativamente
a cada aumento percentual do PIB per capita em Moçambique, o consumo médio per

27
capita aumentou apenas 0.73 porcento (Figura 3.3) Em particular, entre 2003 e 2009,
relativamente a cada porcento de crescimento no PIB per capita, o consumo per capita
médio cresceu 0.47 porcento (e não os 0.81 porcento entre 1997 e 2003).
Figura 3.2 Mas a redução da pobreza em Moçambique é metade mais rápida do que 19901
na Africa Subsaariana

PIB Per
PIBCapita
Per Capita
($) em
($)Moçambique
em Moçambique Pobreza
Pobreza
(%) em
(%)Moçambique
em Moçambique
PIB Per
PIBCapita
Per Capita
($) na
($)ASS
na ASS Pobreza
Pobreza
(%) na
(%)ASS
na ASS

Fonte: Indicadores do Desenvolvimento Mundial (2014), Banco Mundial


Nota: $PPC Internacional Constante em 2011.

Figura 3.3 A elasticidade do crescimento do PIB per capita no crescimento médio do


consumo per capita é baixa e tem vindo a baixar

1996/7 to 2002/3 2002/3 to 2008/9 1996/7 to 2008/9

Fonte: Banco Mundial

36. Para além de não traduzir integralmente o crescimento do PIB per capita
em crescimento do consumo médio per capita, Moçambique teve também
dificuldades em traduzir este último aspecto em redução da pobreza. Entre 1997
e 2009, relativamente a cada porcento do aumento médio no consumo per capita, a
pobreza reduziu em apenas -0.44 porcento, consideravelmente menos do que a média
da região estimada em -0.7 porcento. Esta elasticidade era inferior (-0.50) durante o
período de crescimento mais alto (entre 1997 e 2003), ao valor mais alto (-0.54) durante
o período de crescimento mais lento (entre 2003 e 2009).

37. O baixo GEPR de Moçambique deriva em grande medida do facto de as


províncias de Nampula e Zambézia terem ficado para trás em relação ao resto
do país, particularmente entre 2003 e 2009. Em Nampula e Zambézia, os índices de
pobreza subiram em mais de 5 porcento durante este período, quando estes baixaram

28
17.3 porcento no resto do país. Em 2003, Nampula e Zambézia conjuntamente
representavam 38 porcento da população e 42 porcento dos pobres do país. Em
2009, a proporção em relação a população total permaneceu a mesma, enquanto a
sua proporção dos pobres aumentou para 48 porcento.

38. O GEPR de Moçambique seria significativamente mais alto do que a média da


ASS de -0.7 se a computação fosse feita sem as províncias de Nampula e Zambézia.
Nampula e a Zambézia têm vindo a desacelerar a redução da pobreza afectando
negativamente o GEPR de Moçambique entre 2003 e 2009. Para estimar em que
medida estas duas províncias haviam ficado para trás, indicadores “contrafactuais”
podem ser calculados para estimar o desempenho que o país teria sem o impacto
negativo das províncias de Nampula e Zambézia. A Tabela 4.1 apresenta a mudança
“contrafactual” nos índices de pobreza, despesa per capita e GEPR que se iriam
observar em Moçambique se as províncias de Nampula e Zambézia fossem excluídas
dos cálculos desses indicadores. Conforme se ilustra, Nampula e Zambézia são as
duas províncias relativamente as quais o GEPR contrafactual é o mais alto. Se estas
fossem excluídas dos cálculos dos indicadores nacionais, o GEPR de Moçambique
mais do que duplicaria entre 2003 e 2009, melhorando de -0.54 para -1.18, acima da
média da ASS (Tabela 3.1).

Tabela 3.1 Nampula e Zambézia têm feito recuar a redução da pobreza em Moçambique
Mudança na Crescimento da GEPR P-valor
2003 - 2009 Pobreza Despesa Per Capita

Contrafactual % Contrafactual % Contrafactual %

Moçambique -0.044 -7.7 3.072 14.4 -0.537 0.0000


Niassa -0.034 -6.1 2.665 12.3 -0.490 0.0081
Cabo Delgado -0.027 -4.9 3.034 14.1 -0.344 0.0000
Nampula -0.047 -8.6 2.871 12.4 -0.691 0.0000
Zambézia -0.076 -13.8 3.784 16.5 -0.835 0.0000
Tete -0.034 -6.1 2.815 12.7 -0.480 0.0005
Manica -0.054 -9.3 3.221 15.1 -0.620 0.0000
Sofala -0.053 -9.3 3.544 16.6 -0.557 0.1242
Inhambane -0.031 -5.6 2.678 12.2 -0.454 0.0000
Gaza -0.051 -8.8 3.395 16.1 -0.545 0.5219
Maputo
Província -0.038 -6.5 2.920 14.3 -0.458 0.0000
Maputo Cidade -0.040 -6.9 2.966 15.9 -0.433 0.0000
Nampula e
Zambézia -0.091 -17.3 3.747 14.6 -1.178 0.0000

Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3, e IOF2008/9

29
3.2 A desigualdade como constrangimento para
a redução da pobreza

39. O fraco desempenho de Moçambique em termos de tradução do crescimento


do consumo médio per capita em redução da pobreza deve-se principalmente a
uma maior desigualdade no país. A desigualdade aumentou significativamente entre
1997 e 2003, e só registou um ligeiro declínio entre 2003 e 2009. O Índice de Gini subiu
de 0.44 para 0.50 entre 1997 e 2003, e depois baixou para 0.48 em 2009 (Figura 3.5 na
secção anterior). As Curvas da Incidência do Crescimento (GICs) apresentam evidências
adicionais de que os benefícios do crescimento económico não foram igualmente
distribuídos pela população de Moçambique (como ilustrado na Figura 3.4). Entre 1997 e
2003, embora a população no seu todo tenha registado um crescimento na despesa do
consumo, os que estão no escalão dos 20 porcento do topo da distribuição beneficiaram-
se muito mais do que os restantes 80 porcento. Entre 2003 e 2009, o crescimento geral
da despesa do consumo baixou e os mais pobres de entre os pobres beneficiaram-se
menos do crescimento (seguindo-se os mais abastados). Os grupos de renda média
foram os que registaram o maior crescimento na despesa para o consumo.

Figura 3.4 Os pobres não se estão a beneficiar do crescimento da renda como o resto
da população

Curva de Incidência do Crescimento: Curva de Incidência do Crescimento:


1996/7 - 2002/3 2002/3 - 2008/9
7 7
6 6
Taxa de crescimento

Taxa de crescimento

5 5
4 4
3 3
2 2
1 1
0 0
-1 -1
-2 -2
-3 -3
-4 -4
-5 -5
0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100
Intervalos de confiança de 95% Intervalos de confiança de 95%
Taxa de crescimento na média Taxa de crescimento na média
Mediana Mediana
Curva de Incidência do Crescimento: 1996/7 - 2008/9
7
6
Taxa de crescimento

5
4
3
2
1
0
-1
-2
-3
-4
-5
0 20 40 60 80 100
Intervalos de confiança de 95% Taxa de crescimento na média Mediana
Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9
Nota: Preços constantes de 2009.

30
40. O crescimento poderia ter tido um impacto muito maior na redução da pobreza
em Moçambique se os seus efeitos não tivessem sido abafados pelo aumento da
desigualdade que foi observado. A pobreza registou um declínio de 16.3 pontos
percentuais entre 1997 e 2009; se a desigualdade não tivesse aumentado, o
crescimento registado teria levado ao declínio da pobreza em cerca de 26.8 pontos
percentuais (Tabela 3.2). Por seu turno, a taxa da pobreza teria baixado para 41.6
porcento e não se situaria nos 52 porcentos observados. Se a economia não tivesse
tido qualquer crescimento entre 1997 e 2009, a pobreza teria aumentado 3.2 pontos
percentuais, exclusivamente como resultado do aumento da desigualdade.

Tabela 3.2 O aumento da desigualdade afectou negativamente a redução da pobreza


1997 2009 1997 - 2009

Taxa da pobreza per capita 68.4 % 52.1 %


Mudança na pobreza - 16.3%
Componente do crescimento -26.8%
Componente da redistribuição 3.2%
Residual 7.3%

Fonte: Banco Mundial com base na IAF1996/7 e IOF2008/9

41. O aumento da disparidade entre as províncias – particularmente entres as


províncias de Nampula e Zambézia e o resto do país – e não dentro das províncias
contribuiu para o aumento da desigualdade em Moçambique. A desigualdade no
país pode-se decompor em duas componentes: desigualdade dentro das províncias
e a desigualdade entre províncias (Tabela 3.3). Entre 1997 e 2009, a contribuição para
a desigualdade total da componente entre províncias parece ter aumentado mais
comparativamente a componente dentro das províncias. Em particular, a contribuição
de Nampula e Zambézia para o aumento das disparidades em relação ao resto do país
aumentou. Relativamente as estas duas províncias, a contribuição entre províncias
aumentou de 3.9 para 6.8 porcento do total da desigualdade entre 1997 e 2009.

Tabela 3.3 A desigualdade entre províncias aumentou ao longo do tempo em Moçambique

Ano 1997 2003 2009

Desigualdade no Índice de Theil 0.558 0.558 0.494

Províncias Dentro do Grupo 79.0% 76.8% 76.9%


Entre Grupos 21.0% 23.2% 23.1%

Localização Dentro do Grupo 84.5% 81.4% 81.3%


Entre Grupos 15.5% 18.6% 18.7%

Nampula & Zambézia, Dentro do Grupo 96.1% 94.1% 93.2%


Rest of the país Entre Grupos 3.9% 5.9% 6.8%

Fonte: Banco Mundial com base no IAF1996/7, IAF2002/3 e IOF2008/9

31
3.3 Compreendendo a posição recuada de
Nampula e Zambézia: Isolamento e Retorno dos
Activos Existentes

42. Porquê Nampula e Zambézia de forma crescente entravaram a redução da


pobreza em Moçambique entre 2003 e 2009? Será que os agregados que vivem
nestas províncias acumularam menos activos do que agregados do resto do país? Ou
os retornos desses activos aumentaram a um ritmo mais lento? Para compreender
o papel relativo das mudanças nos níveis dos activos possuídos e as alterações nos
retornos dos activos, uma decomposição de Oaxaca-Blinder das diferenças nos níveis
de pobreza e no consumo médio per capita entre Nampula e Zambézia e o resto de
Moçambique é aqui apresentada.12 A técnica de decomposição de Oaxaca-Blinder
permite decompor estas diferenças no consumo médio per capita e nas taxas de
pobreza para isolar o papel das mudanças dos activos que o agregado familiar possui
do papel das mudanças nos retornos desses activos. Duas componentes podem ser
identificadas: a componente “explicada” da diferença no consumo per capita ou a
diferença nas taxas de pobreza são atribuídas às mudanças nos activos do agregado,
enquanto a componente “não explicada” é atribuída as mudanças no retorno desses
activos.13 Começamos por comprar os níveis e as mudanças nos níveis dos recursos
que possuem e que têm maiores probabilidades de ter impacto no consumo per capita
dos agregados e na pobreza.

43. Não existe uma indicação clara de que os agregados que vivem em Nampula e
na Zambézia acumularam activos a um ritmo mais lento do que no resto do país
entre 2003 e 2009. Enquanto as pessoas em Nampula e na Zambézia tendem a viver
em agregados em desvantagem em termos de dotação de activos comparativamente
ao resto do país, não existem evidências de que a população do resto do país tem
vindo a acumular activos a um ritmo mais acelerado. Como se ilustra na Tabela 4.4,
os agregados em Nampula e Zambézia apresentam maiores probabilidades de se
localizarem, em média, nas zonas rurais comparativamente aos agregados do resto
do país; também tendem a ter um número inferior de adultos com o ensino primário e
o ensino secundário concluídos, um número mais elevado de adultos empregados no
sector primário e um número inferior de adultos a trabalhar nos sectores secundário,
terciário, da saúde, educação e administração pública. Todavia, em termos das
mudanças entre 2003 e 2009, é difícil chegar a conclusões definitivas quanto ao ritmo
geral de acumulação de activos nestas duas províncias em relação ao resto do país.
Os agregados na Zambézia e em Nampula acumularam um certo número de activos
valiosos a um ritmo mais rápido (e.g. em termos do número de adultos com o ensino

12 Os dados usados para esta decomposição resultam de dois inquéritos diferentes, o Inquérito aos Agregados
Familiares (IAF) de 2002/2003 e o Inquérito aos Orçamentos Familiares (IOF) de 2008/2009. Conduzidos pelo
Instituto Nacional de Estatística, o IAF e o IOF são inquéritos nacionais sobre o consumo dos agregados
familiares em Moçambique e foram concebidos para produzir estimativas da despesa, renda e características
dos agregados familiares.
13 O método usado foi o “Recentered Influence Functions” (RIF, Firpo et al. 2009) em que a decomposição
tradicional de Oaxaca-Blinder é aplicada a diferentes percentis da distribuição do consumo. Isto permite
que se faça uma avaliação do nível de redução da pobreza que pode ser determinado pelas mudanças nas
características dos agregados e das pessoas (‘recursos de que disponham’) comparativamente a natureza
mutável da economia e da pobreza em Moçambique. Na análise RIF, o enfoque recai no aspecto contrafactual
de uma relação constante entre os recursos de que se dispõe e a pobreza em Moçambique no período
2003-2009. Este aspecto contrafactual é usado para determinar que mudanças nos recursos possuídos
poderiam contribuir para a redução da pobreza, e em que medida redução da pobreza poderia variar por
causa da mudança da relação entre a pobreza e os recursos de que se dispõe. Este último aspecto é as vezes
referido como mudanças no retorno dos activos, mas na realidade representa a forma como a correlação
condicional entre um determinado recurso possuído e o consumo mudaram.

32
primário concluído). Entretanto, o seu desempenho foi pior que o do resto do país
em termos de outros activos (por exemplo: em termos do número de adultos com o
ensino secundário concluído), como se ilustra na Tabela 3.4.

Tabela 3.4 A posse de activos na Zambézia e em Nampula cresceu a um ritmo semelhante


ao do resto do país
Nampula & Zambézia Resto do país
2003 2009 Δ %Δ 2003 2009 Δ %Δ
(2003- (2003-
09) 09)
Localizado em zonas
rurais 0.71 0.78 0.06 8.5% 0.58 0.65 0.07 11.7%
Idade média, adultos 28.97 29.12 0.15 0.5% 29.00 29.77 0.77 2.6%
N° de mulheres adultas 1.74 1.71 -0.03 -1.5% 2.46 2.11 -0.35 -14.2%
N° de adultos com ensino
primário 0.29 0.44 0.14 49.0% 0.65 0.84 0.19 29.6%
N° de adultos com ensino
secundário 0.03 0.03 0.00 -9.4% 0.08 0.10 0.02 20.0%
N° de adultos 3.63 3.40 -0.24 -6.5% 4.63 3.90 -0.73 -15.7%
N° de adultos empregados
no sector primário 2.07 2.55 0.48 23.3% 2.00 2.35 0.35 17.3%
N° de adultos empregados
no sector secundário 0.04 0.06 0.02 42.9% 0.12 0.14 0.03 21.2%
N° de adultos empregados
no sector terciário 0.30 0.16 -0.14 -46.6% 0.53 0.39 -0.14 -26.3%
N° de adultos empregados
na saúde/educação 0.07 0.05 -0.02 -30.4% 0.07 0.06 -0.01 -19.2%
N° de adultos empregados
na administração pública 0.02 0.02 0.00 -19.0% 0.04 0.04 0.00 0.0%

Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3 e IOF2008/9

44. As diferenças em relação aos activos possuídos tornaram-se


significativamente menos importantes do que as diferenças no retorno dos
recursos possuídos para determinar as diferenças no consumo médio per
capita e os níveis de pobreza entre Nampula e Zambézia e o resto do país. Os
resultados da decomposição de Oaxaca-Binder mostram que as diferenças nos
recursos existentes (elementos demográficos, capital humano e composição do
sector da força de trabalho, entre outros) explicavam cerca de 36 porcento das
diferenças no consumo per capita em 2003. Em 2009, explicavam apenas 28 porcento
(Tabela 3.5). No caso da pobreza, as mudanças são ainda mais surpreendentes. Em
2003, as diferenças nos activos possuídos explicavam aproximadamente metade
das diferenças nas taxas de pobreza entre Nampula e Zambézia e o resto do país.
Em 2009, apenas 28 porcento das diferenças eram explicadas pelas diferenças nos
recursos possuídos (Tabela 3.6).

33
Tabela 3.5 Diferenças nos dados do consumo per capita são causadas principalmente
pelos “retornos” dos activos
2003 2009

Nampula + Zambézia 2.436*** 2.486***


Resto do País 2.762*** 2.971***
Diferença: 0.326*** 0.484***
Diferença Explicada 0.117*** 0.134***
Diferença Não Explicada 0.209*** 0.350***
% Diferença Explicada 35.8% 27.7%
% Diferença Não Explicada 64.2% 72.3%

Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3 e IOF2008/9

Tabela 3.6 As diferenças nos índices de pobreza são principalmente causadas pelos
“retornos” dos activos
2003 2009

Nampula + Zambézia 0.625*** 0.658***


Resto do País 0.527*** 0.436***
Diferença: -0.099*** -0.222***
Diferença Explicada -0.050*** -0.063***
Diferença Não Explicada -0.049** 0.159***
% Diferença Explicada 50.96% 28.25%
% Diferença Não Explicada 49.04% 71.75%
Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3 e IOF2008/9

45. Se o nível médio dos activos possuídos pelos agregados que vivem em Nampula
e Zambézia tivesse aumentado a exactamente à mesma taxa que nos agregados
que vivem no resto do país, a pobreza mesmo assim teria aumentado nestas duas
províncias. Uma análise contrafactual pode aclarar melhor em relação aos resultados
obtidos com a decomposição Oaxaca-Blinder. Se os agregados em Nampula e na
Zambézia tivessem registado a mesma mudança percentual no seu nível de activos
a semelhança do que foi observado no resto do país, a pobreza teria efectivamente
aumentado de 62.5 porcento em 2003 para 66.8 porcento em 2009.

46. Por outro lado, se o retorno médio dos activos possuídos tivesse aumentado
em Nampula e na Zambézia ao mesmo ritmo que no resto do país, a pobreza teria
baixado em cerca de metade destas duas províncias. A pobreza teria baixado nestas
duas províncias de 62.5 porcento em 2003 para 33.9 porcento em 2009, diferentemente
do aumento observado de 62.5 porcento em 2003 para 65.8 porcento em 2009. A análise
contrafactual, por isso, corrobora ainda mais com a hipótese de que são as diferenças
nas mudanças dos retornos dos activos e não as mudanças nos activos possuídos que
contribuíram para o alargamento do fosso de pobreza entre Nampula e Zambézia e o
resto do país. Os resultados da análise contrafactual mostram que Nampula e Zambézia
poderiam ter acumulado ganhos significativos em termos de redução da pobreza se
tivessem registado a mesma mudança nos retornos dos activos que o resto do país
registou entre 2003 e 2009. Com efeito, a pobreza em Moçambique no seu todo, teria
baixado para 40 porcento em 2009, ao invés de se situar nos 52 porcento. Por outro

34
lado, se as províncias de Nampula e Zambézia tivessem a mesta taxa de acumulação
de activos que o resto do país, a pobreza no país teria sido ligeiramente mais alta,
nomeadamente de 52.4 porcento, ao invés de 52 porcento.

47. Porquê os agregados familiares que vivem em Nampula e na Zambézia tiveram


aumentos mais baixos no retorno dos activos que o resto do país entre 2003 e 2009?
Um dos factores que possivelmente tenha contribuído para estas diferenças pode residir
no facto de os agregados nas províncias de Nampula e Zambézia, em média, estarem
mais isolados do que os agregados do resto do país. Nesse caso, os retornos dos activos,
especialmente a educação e a terra, provavelmente serão mais baixos, especialmente
nos agregados do meio rural. Os agregados que se encontram em zonas rurais recônditas
provavelmente cobrarão preços mais baixos pelas suas culturas, pagarão preços mais
altos pelos insumos e contam com menos oportunidades de geração de renda fora da
actividade agrícola.

48. Com efeito, os agregados nestas duas províncias encontram-se, em média, mais
isolados do que os agregados do resto do país. As distâncias médias percorridas a
pé para os mercados, paragem de autocarro, escolas primárias, esquadras da polícia e
centros de saúde são significativamente maiores em Nampula e na Zambézia do que
no resto do país. A proporção dos agregados localizados mais do que uma hora a pé do
mais próximo mercado de alimentos, paragem de autocarro, escola primária, esquadra
da polícia e centro de saúde é indicada na Tabela 3.7. Em 2009, uma maior proporção de
agregados localizava-se a 60 minutos de distância ou mais a pé em relação ao mercado
de alimentos mais próximo em Nampula e Zambézia (21 porcento) do que o resto do
país (10.7 porcento). O mesmo cenário era observado em relação a distância para a
paragem do autocarro (18.3 porcento em Nampula e Zambézia, 14 porcento no resto
do país), para uma escola primária (18.8 porcento e 13.7 porcento, respectivamente),
para uma esquadra de polícia (75.7 porcento e 59.6 porcento, respectivamente), e para
um centro de saúde (68 porcento e 51.5 porcento, respectivamente).

Tabela 3.7 Os agregados em Nampula e Zambézia encontram-se mais isolados que o


resto do país

Moçambique Nampula & Resto do país


Zambézia

Mercado
0-60 minutos 85.7% 79.0% 89.3%
60+ minutos 14.3% 21.1% 10.7%
Paragem de autocarro
0-60 minutos 84.6% 81.7% 86.0%
60+ minutos 15.4% 18.3% 14.0%
Ensino Primário
0-60 minutos 84.3% 81.2% 86.3%
60+ minutos 15.7% 18.8% 13.7%
Esquadra da Polícia
0-60 minutos 34.3% 24.3% 40.4%
60+ minutos 65.7% 75.7% 59.6%
Centro de Saúde
0-60 minutos 42.2% 32.0% 48.5%
60+ minutos 57.8% 68.0% 51.5%

Fonte: Banco Mundial com base no IAF2002/3 e IOF2008/9

35
49. A maior parte dos preços das culturas praticados pelos agricultores em
Nampula e na Zambézia são inferiores aos recebidos pelos agricultores no resto
do país, levantando questões sobre o funcionamento dos mercados. Os preços a
porta dos campos de cultivo em 2012 em Nampula e Zambézia eram mais baixos
do que preços pagos aos agricultores no resto do país relativamente a maioria das
principais culturas de rendimento. Este não era o caso em relação a todas essas
culturas em 2008. Ademais, entre 2008 e 2012, os preços de venda de diversas
culturas aumentaram a um ritmo mais lento em Nampula e Zambézia do que no
resto do país (Tabela 3.8). O preço da mandioca, por exemplo, aumentou 2.45
porcento no resto do país, mas apenas 0.39 porcento em Nampula e Zambézia. No
resto do país, o preço subiu de 3.06 MZN/kg para 3.45 MZN/kg, enquanto em Nampula
e na Zambézia passou de 0.77 MZN/kg para 1.29 MZN/kg. A mesma tendência foi
observada em relação ao milho, arroz, mexoeira, amendoim grande, feijão vermelho,
feijão-frade, feijão bóer e feijão mungo.

Tabela 3.8 Os preços das culturas a porta dos campos de cultivo são mais baixos em
Nampula e Zambézia

Nampula & Zambézia Resto do país

2008 2012 % 2008 2012 %

Milho 4.0 4.3 3.3% 4.0 4.5 3.5%


Arroz 8.3 12.2 11.2% 11.2 12.4 11.4%
Mexoeira 8.0 5.0 4.0% 4.0 5.2 4.2%
Mapira 5.9 N/A N/A 5.9 26.0 25.0%
Amendoim grande 12.5 20.2 19.2% 13.8 23.5 22.5%
Amendoim pequeno 11.2 19.2 18.2% 9.8 12.8 11.8%
Feijão vermelho 16.8 16.8 15.9% 16.8 17.6 16.6%
Feijão-frade 7.6 8.9 7.9% 7.5 9.2 8.2%
Feijão Jugo 5.4 9.9 8.9% 9.0 7.8 6.8%
Feijão Bóer 5.4 7.8 6.8% 5.0 7.9 6.9%
Feijão Mungo 5.5 10.0 9.0% 3.0 10.3 9.3%
Mandioca 0.8 1.4 0.4% 1.9 3.5 2.5%
Batata-doce OF 2.4 6.9 5.9% 2.9 4.5 3.5%
Batata-doce WF 1.5 4.0 3.0% 3.1 3.0 2.0%

Fonte: Banco Mundial com base no TIA 2007/08, TIA 2011/12

50. Os reduzidos níveis de ligação provavelmente tenham contribuído para


manter baixos os retornos da força de trabalho e da terra em Nampula e Zambézia.
Todavia, para que a ligação limitada sirva de explicação para as mudanças nos
retornos ao longo do tempo, era preciso que a acessibilidade aos mercados e
infra-estruturas públicas principais aumentassem mais rapidamente no seio dos
agregados familiares ao longo do tempo. Para realizar este teste, foram usadas
decomposições adicionais de Oaxaca-Blinder que incluem a variável da ligação

36
(distância para a paragem do autocarro14). Quando são incluídos nos modelos a
variável da ligação verifica-se que só era estatisticamente significante em 2009.15 Em
2009, os retornos em relação a esta variável explicam os 23 porcento da diferença no
registo da despesa per capita e 32 porcento da diferença do índice de pobreza entre
Nampula e Zambézia e o resto do país. Isto indica que os retornos decorrentes de
uma melhor ligação aumentaram mais rapidamente nos agregados menos pobres
(i.e. do resto do país). Outros possíveis factores que determinam as diferenças
nos retornos (não explorados com profundidade no presente estudo) poderão
incluir o fraco acesso à informação sobre os mercados (preços, procura e oferta),
logística fraca para apoiar as actividades económicas no meio rural ou a qualidade
relativamente baixa dos serviços básicos (educação, água, electricidade, saúde, etc.).

51. Na mesma perspectiva, os agregados de agricultores em Nampula e Zambézia


conseguem rendimentos médios relativamente mais baixos pela realização
de actividades agrícolas e não agrícolas. Conforme ilustrado na Tabela 3.9, o
rendimento médio anual a partir das actividades agrícolas de um agregado em
Nampula e na Zambézia era de cerca de USD 51 em 2008 e USD 82.4 em 2012. No
resto do país, esse valor seria o correspondente a USD 201.9 em 2008 e 255.6 em
2012. Apresentam também um rendimento anual significativamente mais baixo
relativamente as actividades não agrícolas quando comparado com o resto do
país. O rendimento médio anual decorrente das actividades não agrícolas para um
agregado em Nampula e na Zambézia rondava os USD 110.4 em 2008 e USD 266 em
2012, comparativamente a USD 467.89 em 2008 e 785.35 em 2012 no resto do país.

Tabela 3.9 As receitas médias das actividades agrícolas e não agrícolas são mais reduzidas
em Nampula e Zambézia

Nampula e Resto do país Moçambique


Zambézia

Rendimento da agricultura, 2008 51.0 201.9 163.0


Rendimento da agricultura, 2012 82.4 255.6 209.7

Rendimento não agrícola, 2008 110.4 467.9 375.7


Rendimento não agrícola, 2012 266.0 785.4 646.3

Fonte: Cálculos do autor usando o TIA 2007/08, TIA 2011/12

52. Por último, as disparidades na afectação orçamental entre as províncias pode


contribuir para alargar o fosso entre Nampula e Zambézia e o resto do país. Com
efeito, considerando o tamanho da população, a porção do orçamento atribuída a
Nampula e Zambézia entre 2009 e 2014 é a mais baixa. Em média, Nampula recebeu
7 porcento do orçamento provincial per capita e a Zambézia recebeu 5 porcento,
enquanto as restantes províncias receberam porções maiores. Embora estes dados
sejam referentes aos anos mais recentes, os mesmos apresentam uma indicação
do fosso na afectação de fundos entre as regiões por parte do governo central para
as províncias.

14 Embora a distância de deslocação para uma paragem de autocarro não seja o único elemento determinante
da ligação, é a única variável fiável disponível ao longo do tempo.
15 As variáveis dependentes destes modelos são os registos da despesa per capita e a pobreza fictícia como
variáveis dependentes.

37
Porquê que a Agricultura não é mais
Eficaz na Redução da Pobreza?
Baixa Produtividade e Crescimento
Baseado no Mercado Limitado

4.1 Descrição Geral do Sector da Agricultura

53. O sector da agricultura representa mais de um quarto da economia de


Moçambique e emprega a vasta maioria da população. O sector da agricultura
contribui com mais de 25 porcento do PIB de Moçambique e emprega cerca de
75 porcento da população. Nas zonas rurais, mais de 90 porcento dos chefes dos
agregados dedicam-se a actividades agrícolas. Apesar do seu papel fundamental
como fonte de subsistência, o sector da agricultura não tem vindo a crescer a um
ritmo firme nos últimos anos. O crescimento anual do sector baixou de 7 para 2
porcento entre 2008 e 2012 (Figura 4.1) (Banco Mundial, 2015). Nos últimos três anos,
o crescimento da agricultura comercial voltou a ter uma retoma, contrabalançando
a redução do crescimento no sector dos recursos, mas a agricultura de média e
pequena escala desaceleraram, crescendo em média apenas 4 porcento.

54. Moçambique tem um vasto potencial agrogeológico, que se encontra ainda


por explorar. Estima-se que até US$567 mil milhões resultante da produção agrícola
poderiam ser atingidos, se o preço dos produtos for alto,16 e os ganhos resultantes
iriam essencialmente beneficiar os mais pobres e a maior parte das zonas rurais
das províncias do centro e norte do país. Presentemente, apenas 5 dos 36 milhões
de hectares de terra arável são cultivados, dos quais 90 porcento é usado pela
agricultura de subsistência de pequena escala. A exploração do potencial agrário de
Moçambique parece ser particularmente importante a luz do facto de que embora
Moçambique gere actualmente cerca de US$3 mil milhões a partir de culturas
agrícolas, o país continua a importar também cerca de US$600 milhões em alimentos
e produtos agrícolas anualmente (Iimi e Rao, 2015). O aumento da produtividade
agrícola teria implicações positivas em termos de auto-suficiência alimentar e na
balança de pagamentos, e contribuiria também para a redução da pobreza e para
o crescimento inclusivo.

16 Estas estimativas foram avaliadas em relação ao ano 2010.

38
Figura 4.1 A agricultura é um sector chave da economia mas o seu valor acrescentado
está a baixar

35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
0%
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Agricultura, valor acrescentado (crescimento % anual)
Agricultura, valor acrescentado (% do PIB)
Fonte: Banco Mundial, 2015

55. A diversidade agro-ecológica é uma característica proeminente de


Moçambique. As regiões sul e sudoeste, constituídas por zonas áridas e semiáridas,
tendem a ser propensas à seca e estão associadas a fraca fertilidade do solo. As
regiões do centro e do norte, que distam mais de 1,000 km da capital, compreendem
zonas que são mais sub-húmidas. Por isso são mais propícias para agricultura de
sequeiro e de irrigação. Os custos de transporte permanecem altos, pois as ligações
entre o sul e as outras regiões continuam a depender essencialmente de única
estrada (Jones e Tarp, 2013). A agricultura de sequeiro é a predominante no país:
menos de 0.5 porcento de todos os campos cultivados tem irrigação e quase que
exclusivamente para a produção da cana sacarina (Salazar-Espinoza et al. 2015).
Como resultado, o sector da agricultura em Moçambique é muito sensível em relação
as condições climáticas. As secas, cheias e outras calamidades relacionadas com
o clima são frequentes. Os modelos das mudanças climáticas apontam para um
risco acrescido de eventos climatéricos extremos com consequências negativas
potencialmente severas para o sector da agricultura (Suit e Choudhary, 2015).

56. A contribuição do sector da agricultura para a economia depara-se com


constrangimentos decorrentes dos baixos níveis de produtividade. Em
Moçambique, a rendibilidade do milho era em média de 1 tonelada por hectare em
2013, enquanto a média era de 2.2 toneladas por hectare no Malawi, 3.8 na África do
Sul, e 2.5 na Zâmbia. Grandes discrepâncias na produtividade comparativamente aos
países vizinhos foram também observadas em relação ao arroz, mapira, mexoeira
e trigo, conforme ilustrado na Tabela 13 (Banco Mundial, 2015) (Tabela 4.1). Em
2009, a produtividade da força de trabalho era quase sete vezes mais alta no sector
terciário e dez vezes mais alta no sector secundário do que no sector primário
(Jones e Tarp, 2013).

39
Tabela 4.1 Existem grandes discrepâncias na produtividade comparativamente a outros
países da região

Milho Arroz Leguminosas Trigo Mapira Mexoeira Raízes e


tubérculos

Rendibilidade em 2013 (Ton/Ha)


Moçambique 1.0 1.2 0.6 1.7 0.5 0.3 7.2
Malawi 2.2 1.9 - 1.4 0.9 1.1 -
África do Sul 3.8 2.6 0- 3.6 0.5 2.8 -
Zâmbia 2.5 1.2 0.5 6.5 0.8 0.7 -
Zimbabwe 0.9 2.3 0.9 2.5 0.3 0.3 10.0
Crescimento anual médio da rendibilidade 2000-2013 (%)
Moçambique 0.2 1.4 1.4 4.0 -1 -4 2.8
Malawi 1.7 1.2 - 4.5 5 12 -
África do Sul 2.3 -0.9 - 2.6 0 0 -
Zâmbia 2.8 0.2 0.9 0.4 4 7 -
Zimbabwe -3.9 0.9 2.8 -5.8 18 3 3.3

Fonte: FAOSTAT (2015)

57. Vários factores adicionais têm criado obstáculos ao sector da agricultura.


Estes incluem a adopção limitada de insumos e práticas modernas de cultivo que
aumentam a produtividade, fornecimento irregular de electricidade, insegurança
na posse de terra, acesso limitado aos serviços de extensão no meio rural, restrições
no acesso ao crédito, e infra-estruturas deficitárias.

58. A maior parte da produção dos


pequenos agricultores destina-se ao Tabela 4.2 Algumas poucas culturas
seu próprio consumo e as culturas constituem a maioria dos produtos
alimentares básicas representam agrícolas
uma grande porção da produção Cultura Porção da área
total. O valor dos alimentos retidos
corresponde a mais de metade da renda
total do agregado (Salazar-Espinoza et Milho 31.9%
al. 2015). A grande maioria (99 porcento) Leguminosas 16.1%
dos produtores agrícolas são produtores Mandioca 15.5%
de subsistência: em 2012, apenas 18
porcento dos pequenos agricultores Amendoim 7.9%
vendeu parte da sua produção de milho. Arroz 7.4%
Os agricultores costumam ter pequenos Mexoeira 6.2%
campos, cultivam em áreas pequenas,
empregam principalmente a força de Outros 15.0%
trabalho familiar e têm acesso muito Total 100.0%
limitado aos insumos e à mecanização.
Em 2012, seis culturas principais eram Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
responsáveis por 85 porcento do total da área cultivada, conforme ilustrado na Tabela
4.2 (Banco Mundial, 2015). Todas são culturas da dieta básica: milho, leguminosas,
mandioca, amendoim, arroz e mexoeira.

40
59. A maior proporção de agregados dedicados a agricultura verifica-se nas
províncias mais pobres, e onde o isolamento é mais acentuado. Cumulativamente,
as províncias de Nampula e da Zambézia albergavam 43 porcento dos agregados
dedicados a agricultura e 48 porcento dos pobres do país em 2009, mas lá residia apenas
38 porcento da população. Juntas, estas duas províncias registaram um aumento nos
níveis da pobreza de mais de 5 porcento entre 2003 e 2009, enquanto o resto do país
registou uma redução de 17.3 porcento (Banco Mundial, 2015). Adicionalmente, os
agregados das zonas rurais em Nampula e Zambézia são em média mais isolados do
que os agregados do resto do país. As distâncias médias para os mercados de alimentos,
paragem dos autocarros, escolas primárias, esquadras da polícia e centros de saúde
são significativamente mais elevadas nestas duas províncias do que no resto do país.

4.2 Perfil dos Meios de Subsistência Rurais


em Moçambique
60. Os índices de pobreza continuam a ser bastante altos em Moçambique, e
são significativamente mais altos nas zonas rurais do que nas zonas urbanas.
O progresso rumo a redução da pobreza abrandou desde 2003. Entre 1997 e 2003,
os níveis de pobreza registaram um declínio rápido, tendo passado de 70 porcento
para 56 porcento. Depois de 2003, porém, a redução da pobreza situou-se abaixo do
crescimento económico, e o índice de pobreza per capita teve apenas uma pequena
redução, situando-se nos 52 porcento em 2009. De um modo geral, entre 1997 e 2009,
a elasticidade do crescimento da redução da pobreza em Moçambique era de apenas
cerca de metade da média da África Subsaariana. Adicionalmente, existe uma notória
divisão entre o meio rural e o meio urbano, que tem vindo a acentuar-se nos últimos
anos: em 1997, a pobreza urbana era estimada em 53.1 porcento, e a pobreza rural era
de 72.3 porcento. Em 2009, todavia, a pobreza urbana havia baixado para 23.7 pontos
percentuais, entretanto a pobreza rural baixara apenas 10.3 pontos percentuais. Como
resultado, o fosso entre a pobreza urbana e rural ampliou-se em 13.5 pontos percentuais
(de 19.2 pontos percentuais para 32.7 pontos percentuais).

61. Surge um grande fosso entre o meio urbano e o meio rural quando se
comparam os níveis de recursos que os agregados possuem nos meios rurais
e urbanos relativamente a diversos activos e ao acesso aos serviços. Embora
sejam demograficamente similares, os agregados rurais e urbanos tendem a divergir
significativamente em termos de capital humano, nutrição, acesso aos serviços,
qualidade da habitação, posse de bens duráveis, sector e tipo de emprego, ligações e
padrões de migração (Tabela 4.3). Por outro lado, o acesso aos serviços básicos como
água, saneamento e electricidade é significativamente inferior nos agregados dos meios
rurais (Tabela 16). Perto de 95 porcento dos agregados rurais consome água extraída de
poços não protegidos contrariamente a apenas 46 porcento nos agregados urbanos. O
nível dos agregados rurais, menos de 2 porcento têm acesso a água canalizada e mais
de 60 porcento não possuem retretes. O acesso à electricidade é também muito desigual
entre as zonas urbanas e as zonas rurais, atingindo 41.7 dos agregados urbanos, mas
menos de 2 porcento dos agregados do meio rural.

62. Foram igualmente observadas grandes disparidades entre as zonas urbanas e


as zonas rurais em termos da qualidade da habitação e posse de activos duráveis.
Em geral, as habitações das zonas rurais tendem a ser construídas com materiais menos
duráveis, como capim, tijolo cru e estacas (Tabela 4.4). Os materiais de habitação usados
nas zonas urbanas tendem a ser mais duráveis, com a maioria coberta com chapas de
zinco e as paredes costumam ser de alvenaria. Os agregados rurais possuem também

41
menos recursos em termos de activos duráveis quando comparados com os agregados
das zonas urbanas. Embora a posse de rádios sejam relativamente uniforme nas zonas
rurais e nas zonas urbanas, a posse de telemóveis é significativamente mais comum
entre os agregados das zonas urbanas (52.4 porcento) quando comparado com os
agregados das zonas rurais (11.2 porcento). Apenas 0.7 porcento de todos os agregados
das zonas rurais possuem um fogão comparativamente a 14.7 porcento nos agregados
das zonas urbanas.

Tabela 4.3 O capital humano e os indicadores de nutrição são mais baixos nos agregados rurais

Localização Nível de O chefe do O chefe do Três refeições


escolaridade agregado não agregado não por dia
o chefe do sabe ler ou sabe ler ou (%)
agregado (anos escrever (%) escrever (%)

Urbana 5.24 27.83 83.89 45.14


Rural 2.72 56.12 72.70 29.40
Total 3.51 47.90 76.09 33.98

Fonte: Banco Mundial com base no IOF 2008/9

Tabela 4.4 O acesso aos serviços básicos e posse dos activos é inferior para os agregados
do meio rural (%)
Água e Saneamento
Latrina não
tradicional
melhorada

melhorada

melhorada
Autoclismo
canalizada

protegido

protegido
Poço não

lavabos
Latrina

Latrina
Água

Sem
Poço

Urbano 39.2 15.2 45.6 13.2 16.1 12.3 36.1 22.3


Rural 1.2 3.1 95.8 0.3 0.7 4.4 34.3 60.2
Activos Duráveis
Carro Novo
Telemóvel

Bicicleta
Relógio
Fogão
Rádio

Cama

Urbano 47.9 52.4 64.0 5.0 14.7 28.6 24.2


Rural 45.1 11.2 28.9 0.6 0.7 16.9 44.0

Fonte: FAOSTAT (2015)

63. A grande maioria dos habitantes das zonas rurais trabalha no sector da
agricultura sector. A proporção dos chefes de agregados que se dedica às actividades
agrícolas atinge os 90.9 porcento nas zonas rurais. Praticamente todos os empregos
do sector da agricultura concentram-se em actividades de baixa produtividade e no
auto-emprego (Banco Mundial, 2015). O emprego em outros sectores (como venda,
serviços, manufactura e administração pública) é muito menos comum nas zonas rurais,
sugerindo pouca diversificação da renda fora da agricultura (Figura 4.2).

42
64. O sector da agricultura é dominado pelos pequenos agricultores, com muito
poucas operações de média e grande escala. Do total de 3.9 milhões de agregados no
sector, cerca de 3.86 milhões dedicam-se a agricultura de pequena escala (com base no
IAI 2012). Apenas 52,851 agregados encontram-se registados como agricultores de média
escala e somente 618 como agricultores de grande escala (CAP/INE, 2010). Em termos
gerais, a agricultura de pequena escala continua ainda a representar mais de 99 porcento
de todas as formas de agricultura em Mozambique (Banco Mundial, 2016) (Tabela 4.5).

65. A maioria dos agricultores em Moçambique são classificados como pequenos


e caracterizam-se por posse limitada de activos produtivos, e fraco envolvimento
em actividades não agrárias. Menos de 1 porcento dos chefes dos agregados que
trabalham nos campos de pequena escala possuem pelo menos 3 meses de estudos
agrários e menos de metade sabe ler ou escrever. Reflectindo a privação geral de meios
materiais e as oportunidades económicas limitadas nas zonas rural de Moçambique,
os pequenos produtores tendem a possuir menos activos e têm menos probabilidades
de complementar o seu rendimento agrícola com receitas adicionais provenientes de
actividades não agrárias.

Figura 4.2 A maioria dos trabalhadores das zonas rurais está empregada no sector
da agricultura

100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
Agriculutura/
Silvicultura

Indústria
extrativa

Indústria
manufactureira

Construção

Transporte

Comércio

Serviços

Educação

Saúde

Administração
Pública

Urbano Rural
Fonte: Banco Mundial com base no IOF 2008/9

Tabela 4.5 O sector da agricultura é dominado pelos pequenos produtores

Tipo de fazenda % N

Pequena escala 98.7 4,074,111


Escala média 1.3 53.564
Total 100.0 4,127,675
Fonte: Banco Mundial com base no IOF 2008/09

43
66. Os agregados do meio rural parecem estar significativamente mais isolados
do que os agregados das zonas urbanas e fisicamente têm menos mobilidade.
Os agregados rurais são mais do que duas vezes mais distantes da fonte de água
mais próxima do que os agregados urbanos, em média (Figura 4.3). Os agregados das
zonas rurais também tendem a localizar-se mais longe dos mercados de alimentos,
paragem de autocarros, escolas primárias, centros de saúde e esquadras da polícia
do que os agregados das zonas urbanas. Estima-se que penas 17 porcento da
população rural vive dentro de 2 quilómetros da estrada mais próxima que esteja
em boas condições, de acordo com a medição do Índice do Acesso Rural (RAI). Como
resultado, aproximadamente 16 milhões de pessoas não têm ligação a uma estrada
transitável em qualquer época do ano (Banco Mundial, 2015).

67. A acessibilidade rural está fortemente correlacionada com a pobreza. Nos


distritos com o RAI inferior a 20 porcento, os índices da pobreza tendem a situar-
se acima dos 60 porcento enquanto os distritos com o RAI acima de 60 porcento
apresentam índices de pobreza da ordem dos 20 porcento (Figura 4.4). Os agregados
rurais e urbanos seguem também padrões de migração marcadamente diferentes:
enquanto a maior parte do primeiro grupo tendencialmente permanecem na sua zona
de origem (80.3 porcento dos agregados rurais nunca migraram), e os últimos têm mais
probabilidade de migrar (53.9 porcento dos chefes dos agregados urbanos vieram de
outros distritos, tipicamente em busca de oportunidades emprego).

Figura 4.3 Os agregados das zonas rurais encontram-se mais isolados dos serviços
básicos e dos mercados

45
Distância, (minutos)

40
35
30
25
20
15
10
10
0

Urbano Rural Total


Fonte: Banco Mundial com base no IOF 2008/09

44
Figura 4.4 A acessibilidade rural tem uma correlação forte com a pobreza (distritos)

Taxa de pobreza. 2007


Fonte: Banco Mundial, 2015

4.3 O que está por detrás da baixa produtividade


na agricultura?

68. A produtividade da agricultura é mais baixa em Moçambique do que nos


países equiparados. Como indicado acima, grandes discrepâncias de produtividade
comparativamente aos países vizinhos são observadas entre Moçambique e tais
países vizinhos em termos de rendibilidade dos cereais (milho, arroz, mapira,
mexoeira e trigo). Durante a última década, a rendibilidade dos cereais tem
igualmente vindo a subir a um ritmo mais lento em Moçambique do que nos países
vizinhos. Por exemplo, a rendibilidade média da mapira e mexoeira tem vindo a
baixar, em média, em Moçambique (por -1 porcento e -4 porcento, respectivamente,
entre 2000 e 2013), enquanto aumentou ou permaneceu a mesma no Malawi, África
do Sul, Zâmbia e Zimbabwe (FAOSTAT, 2015). De igual modo, quer o número de
agregados dedicados a agricultura quer a área cultivada em Moçambique têm vindo
a aumentar gradualmente ao longo do tempo, o que se traduz no aumento da
produção agrícola por via da expansão da área cultivada, e não através do uso mais
intensivo da terra existente. Com efeito, a área plantada com culturas alimentares
aumentou entre 3 porcento e 9 porcento ao ano no período 2002-2012, bem acima
do crescimento populacional.

69. Parece existir uma forte correlação negativa entre a pobreza e a rendibilidade
média em Moçambique. Os agricultores nas províncias mais pobres continuam
a ser menos produtivos, em média, do que os do resto do país. Em Nampula e
na Zambézia, onde os índices de pobreza per capita são particularmente altos, a
rendibilidade média dos cereais é de cerca de 761 quilogramas por hectare. No resto
do país, a rendibilidade média é de 910 quilogramas por hectare, 19.5 porcento
mais elevada.

45
Distribuição da terra e escolha das culturas

70. A grande maioria dos agregados cultiva em pequenos terrenos, relativamente


aos quais não possui direitos formais de uso e aproveitamento. A Lei da Terra
de Moçambique proclama que a terra é propriedade do Estado, mas determina
igualmente várias modalidades de confirmação dos direitos de uso e aproveitamento
da terra. O Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT) é um direito seguro,
renovável e de longo prazo que pode ser herdado, transferido ou transaccionado.
Os DUATs são usados essencialmente pelos grandes operadores, enquanto os
direitos costumeiros e acumulados de uso da terra para os pequenos produtores
individualmente assim como certificados de delimitação para as comunidades são
igualmente reconhecidos.17 Apenas 2.1 porcento dos agregados inquiridos no IAI
2012 indicaram que possuíam o título de uso e aproveitamento da terra (i.e. DUAT),
e apenas 3 porcento disseram que possuíam um documento alternativo que lhes
conferia o direito de uso da terra. Para além de poucos possuírem o título de uso
e aproveitamento da terra, de um modo geral os terrenos são pequenos. Cerca de
98.7 porcento dos campos de cultivo em Moçambique têm menos de 10 hectares,
e em média os campos de cultivo ocupam uma área correspondente a cerca de 1.7
hectares (Tabela 4.6). A maior parte da terra é cultivada continuamente, com as áreas
de pousio representando apenas uma pequena porção da área total (uma média de
0.1 hectare em 2012). Desde os meados da década de 2000, a procura de terra tem
vindo a aumentar significativamente devido a subida dos preços dos alimentos,
maior procura de biocombustíveis e aceleração da urbanização.

Tabela 4.6 Características dos pequenos agricultores em Moçambique


Campos cedidos (% de
todos os agricultores)

(% da produção, para
Número de culturas
Área cultivada (HA)

Área de poisio (HA)

Milho eq.* vendido

os que venderam)
Área Total (HA)

(% de todos os
agricultores)
Vendedores

2012 1.5 0.1 1.7 3.9 5.3 22.2 19.3

Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012


Nota: a medida de cereal equivalente inclui o milho, arroz, mexoeira, mapira, amendoim, mandioca, e
batata-doce. Conjuntamente, estas culturas representam 85 porcento do total da área cultivada.

71. A maior parte da terra é usada para cultivar culturas alimentares básicas para
subsistência e não para as culturas de rendimento, e como resultado, a porção

17 A Constituição (1990) consagra que a terra pertence ao Estado, mas refere também que o ‘uso e
aproveitamento da terra é direito de todos os moçambicanos’. Este direito é conferido a qualquer pessoa
que queira usar a terra para fins sociais e económicos, através do Direito de Uso e Aproveitamento da
Terra (DUAT). A Lei da Terra (1997) materializa estes princípios através do seu Artigo 10 (os homens e as
mulheres podem ser titulares do DUAT); e o Artigo 12, que é a pedra basilar do quadro legislativo e detalha
a forma como se adquire o Direito de Uso e Aproveitamento da Terra: a) ocupação por indivíduos e pelas
comunidades locais, de acordo com normas e práticas costumeiras desde que não sejam contrárias à
Constituição; b) ocupação por cidadãos nacionais que de boa-fé tenham usado a terra durante pelo menos
dez anos; e c) autorização de um pedido apresentado por entidades individuais ou colectivas nos moldes
prescritos na lei.

46
da produção vendida no mercado é pequena. Em média, os agricultores cultivam
5.3 culturas e seis principais culturas alimentares básicas, constituindo 85 porcento
do total da área cultivada (nomeadamente, milho, leguminosas, cassava, amendoim,
rice e mexoeira). Em 2012, apenas 22.2 porcento dos agricultores venderam parte da
sua produção. Consequentemente, a grande maioria da produção agrícola é retida
pelos produtores para consumo pelo agregado. A porção média da produção vendida
corresponde a apenas 19.3 porcento da produção total.

72. Os agricultores com uma forte orientação para o mercado são mais
produtivos.18 Como seria de esperar, os agricultores que vendem uma porção da
sua produção são em média mais produtivos do que aqueles que não o fazem. Muito
ligado a esta observação, existe também uma relação entre o tipo de cultura (alimentar
básica ou de rendimento) e a produtividade. Os agricultores que cultivam culturas de
rendimento em geram são mais produtivos em relação aos que só cultivam culturas
alimentares básicas (Figura 4.5). Os agricultores que venderam parte da sua produção,
em média produziram 1 007 quilogramas por hectare de culturas equivalentes a
cereais. Inversamente, os que não venderam a sua produção apenas obtiveram uma
média de 795 quilogramas por hectare. Similarmente, os agricultores que cultivaram
culturas de rendimento em média produziram 903 quilogramas por hectare de culturas
equivalentes a cereais, enquanto os que não o fizeram, em média produziram 828
quilogramas por hectare.

Figura 4.5 Os agricultores com uma mais forte orientação para o mercado são mais
produtivos

10 10
Freqüência acumulativa

Freqüência acumulativa

8 8
6 6
4 4
2 2
0 0
4 6 8 4 6 8
Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais
Cultura de rendimento Vendedores
Cultura normal Não vendedores
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
Nota: As funções de distribuição cumulativa cortadas no 1° e 99° percentil As linhas verticais mostram
valores médios.

18 A rendibilidade equivalente de cereais usa-se para medir a produtividade das áreas de cultivo neste relatório.
A medida equivalente de cereais permite uma comparação directa da rendibilidade entre Moçambique e outros
países, dado que este tipo de agregação é comummente usada nos estudos sobre agricultura. As culturas
alimentares mais importantes de Moçambique (i.e.: milho, arroz, mexoeira, mapira, amendoim, leguminosas,
mandioca e batata-doce) encontram-se agregadas em equivalentes de cereais seguindo a metodologia
apresentada pela FAO (2009) e Rask e Rask (2014). Primeiro, o valor energético médio (Kcal/100g) é calculado;
depois o valor energético de cada cultura é dividido pelo valor para obter o factor de conversão. Os valores de
conversão são depois usados como pesos para agregar a produção de diferentes culturas alimentares. Por último,
a rendibilidade equivalente de cereais (em quilogramas por hectare) é calculada medição da produtividade do
campo agrícola. Considerando que o valor energético do milho é similar ao de um cereal normal, o indicador
obtido aproxima-se da medida “equivalente de milho”.

47
Taxas baixas de adopção da tecnologia

73. As taxas de adopção de tecnologias de aumento da produtividade parecem ser


demasiado baixas, particularmente entre os agricultores que apenas produzem
culturas alimentares básicas. Dados de 2012 indicam que apenas 8.8 porcento dos
agricultores usaram as sementes melhoradas enquanto apenas 2.7 porcento dos
agricultores usam algum método de irrigação. De igual modo, o fertilizante inorgânico é
usado por apenas 2.6 porcento dos agricultores e apenas 5 porcento aplicavam pesticidas
(Tabela 4.7). As taxas de adaptação da tecnologia são particularmente baixas no cultivo
de culturas alimentares. Restringindo a amostragem deste grupo de agricultores mostra-
se basicamente que não houve adopção de quaisquer desses insumos.

Tabela 4.7 A adopção de tecnologias que aumentam a produtividade é baixa no sector


da agricultura

Adopção da Tecnologia Práticas Agrárias Acesso aos Serviços

Sementes melhoradas 8.8 Rotação das Culturas 29.3 Extensão agrária 6.6
Irrigação 2.7 Cultivo intercalado 73.7 Filiação em Associação 4.5
de Agricultores

Fertilizantes inorgânicos 2.6 Plantio em linha 38.6 Crédito Rural 2.0


Pesticidas 5.0

Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012

74. A evidência disponível sugere que os agricultores que adoptam tecnologias como
sementes melhoradas, irrigação, fertilizantes e pesticidas, são mais produtivos
do que aqueles que não fazem.19 A análise da correlação mostra que, em média, a
rendibilidade equivalente de cereais na primeira época de cultivo era mais alta para os
que adoptavam a tecnologia (Figura 4.6). Por exemplo, a produção média equivalente
de cereais totalizava 1 340 quilogramas per hectare para os agricultores que cultivavam
com irrigação, mas apenas 830 quilogramas por hectare para os que não faziam, 61
porcento menos.20 Similarmente, os agricultores que usavam sementes melhoradas
obtiveram em média 967 quilogramas por hectare de produção equivalente de cereais,
enquanto os que não o fizeram apenas obtiveram em média 831 quilogramas por
hectare. A diferença na rendibilidade média foi igualmente grande entre os que usavam
e os que não usavam fertilizantes: enquanto os primeiros produziram 1,118 quilogramas
de equivalente de cereais por hectare, os últimos produziram apenas 835 quilogramas
por hectare, equivalente a 33 porcento menos. Por último, os agricultores que usavam
pesticidas obtiveram em média 955 quilogramas de produção equivalente de cereais por
hectare, enquanto os que não fizeram produziram apenas 835 quilogramas por hectare.
A magnitude destas diferenças não é apenas significativa em termos económicos como
também em termos estatísticos.

75. O uso de sementes melhoradas, fertilizantes e outros insumos e tecnologias


para a agricultura resulta numa maior rendibilidade das culturas, mesmo

19 Para uma análise mais completa da relação entre o uso de insumos e a produtividade agrícola em
Moçambique, uma discussão das sinergias entre os diferentes insumos seria necessária. Todavia, por causa
da limitação dos dados, não foi possível investigar mais a fundo esta relação neste trabalho.
A medida sobre a produção agrícola usada neste trabalho baseia-se no conjunto de seis culturas principais
(i.e.: milho, arroz, mexoeira, mapira, amendoim, leguminosas, mandioca e batata-doce). Conjuntamente,
estas seis culturas representam mais de 85 porcento do total da área cultivada.

48
depois do controlo de outros factores relevantes. A adopção de tecnologias
para a agricultura (i.e.: sementes melhoradas, irrigação, fertilizante, pesticidas, ou
qualquer um destes) tem uma correlação positiva e significativa com a rendibilidade,
mesmo quando se considera o acesso aos serviços agrários (i.e.: serviços de
extensão, associações de agricultores e crédito), considerando as características
demográficas (i.e.: idade, género e nível de escolaridade do chefe do agregado),
os choques climatéricos (seca, ciclones, cheias e queimadas), e relativamente aos
bens fixos regionais (Tabela 4.8). A adopção de pelo menos uma tecnologia agrícola
(incluindo sementes melhoradas, irrigação, fertilizante e pesticidas) tem correlação
com o aumento de 14.8 porcento em média na rendibilidade equivalente de cereais,
ceteris paribus (coeficiente 0.138 na coluna 5 da Tabela 5.8). Conclusões semelhantes
são aplicáveis para cada tecnologia agrícola individualmente. Em particular, o uso
de pesticidas e o uso de fertilizantes estão associados a uma maior rendibilidade
de 16.1 porcento e 40.1 porcento, respectivamente (como reflectido nas colunas 3
e 4). A agricultura de irrigação também tem correlação com um aumento médio da
rendibilidade de 33.2 porcento (como ilustrado na coluna 2). Por último, a adopção
de sementes melhoradas está associada a um aumento médio na rendibilidade de
8.5 porcento, embora este resultado não seja estatisticamente significante ao nível
dos 10 porcento (como indicado na coluna 1).

Figura 4.6 A rendibilidade da agricultura é maior entre os agricultores que usam


insumos tecnológicos

10 10
Freqüência acumulativa

Freqüência acumulativa

8 8
6 6
4 4
2 2
0 0
4 6 8 4 6 8
Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais
Fertilizante Não fertilizante Pesticidas Não pesticidas
Fertilizante Não Fertilizante Pesticidas Não pesticidas

10 10
Freqüência acumulativa

Freqüência acumulativa

8 8
6 6
4 4
2 2
0 0
4 6 8 4 6 8
Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais
Irrigação Não irrigação Sementes melhoradas
Irrigação Sementes melhoradas
Não sementes melhoradas
Não irrigação Não sementes melhoradas
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
Nota: As funções de distribuição cumulativa cortadas no 1° e 99° percentil As linhas verticais mostram
valores médios.

49
76. A rotação das culturas e o cultivo em linha são práticas pouco comuns.
Apenas 29.3 porcento dos agricultores usavam a rotação das culturas, mudando o
tipo de cultura plantada nos campos todas as épocas ou cada ano, e somente 38.6
porcento usavam o cultivo em linha, plantando as sementes com a ajuda de um
instrumento como uma máquina semeadora (como se ilustra na Tabela 4.7 acima).
A produtividade média dos agricultores que adptaram a rotação de culturas era
ligeiramente mais alta do que a produtividade daqueles que não o fizeram: 871
quilogramas per hectare, contra 829 quilogramas por hectare respectivamente,
embora estatisticamente não fosse significativo. Este resultado é consistente com o
efeito da rotação que resulta no aumento da produtividade por causa das melhorias
na qualidade física do solo e matéria orgânica (vide, por exemplo, Bullock 2008).
Os agricultores que usavam o cultivo em linha, pelo contrário, eram em média
significativamente mais produtivos do que aqueles que não faziam: produziam
924 quilogramas per hectare, contra 785 quilogramas por hectare, em média,
respectivamente.21 Para além do benefício através do aumento da rendibilidade,
o plantio em linha tem taxas de adopção baixas entre os pequenos agricultores,
principalmente por causa da falta de força de trabalho qualificada para realizar esse
tipo de plantio (Vandercasteelen et al. 2014).

21 O cultivo em linha resulta numa maior rendibilidade comparativamente ao método em que as sementes
são espalhadas, principalmente porque reduz a pressão das ervas daninhas e maximiza a fotossíntese
através de uma maior exposição a luz solar (Crop Review, 2015).

50
Tabela 4.8 O uso de insumos tecnológicos tem correlação com uma maior rendibilidade
agrícola após o controlo de factores como as características dos agregados, acesso aos
serviços e choque climatéricos

Variável Dependente: Rendibilidade Equivalente de Cereais (Log)


1 2 3 4 5

Seca -0.108 -0.105 -0.101 -0.109 -0.106


(0.037)** (0.037)** (0.037)** (0.037)** (0.037)**
Cheias 0.004 0.007 0.003 0.003 0.004
(0.064) (0.064) (0.064) (0.064) (0.064)
Ciclones -0.126 -0.124 -0.118 -0.124 -0.127
(0.058)* (0.058)* (0.059)* (0.058)* (0.058)*
Queimadas 0.216 0.213 0.217 0.218 0.213
(0.042)** (0.042)** (0.042)** (0.042)** (0.041)**
Uso de Sementes Melhoradas 0.082

Uso da Irrigação (0.063) 0.287


(0.071)**
Uso de Fertilizantes 0.341
(0.088)**
Uso de Pesticidas 0.149
(0.064)*
Uso de qualquer Tecnologia 0.138
(0.039)**
Constante 6.533 6.532 6.502 6.523 6.512
(0.124)** (0.123)** (0.129)** (0.126)** (0.126)**
R² 0.07 0.07 0.07 0.07 0.07
N 6,049 6,049 6,049 6,049 6,049

Fonte: Banco Mundial usando IAI (2012).


Notas: Resultados de uma Regressão OLS da Rendibilidade Equivalente de Cereais (Log) sobre o Acesso aos
Serviços, Adopção de Tecnologias Agrárias, Choques Climatéricos, e Características dos Agregados. Variações-
padrão agrupadas ao nível distrital indicadas entre parenteses. *** denota importância ao nível de 1%, **
denota importância ao nível de 5%, e * denota importância ao nível de 10%. Os controlos incluem todas as
regressões e incluem dados hipotéticos relativamente as características do chefe do agregado (idade, género,
nível de escolaridade), dados hipotéticos os relativos ao acesso aos serviços (serviços de extensão, filiação em
associações de agricultores, crédito à agricultura), e dados hipotéticos sobre as províncias.

51
Acesso à informação, desenvolvimento de competências e
serviços de apoio à produção

77. Os pequenos agricultores têm acesso limitado a serviços chave de apoio à


produção. Os serviços de extensão agrária ou por via da filiação em associações de
agricultores e o crédito à agricultura não se encontram amplamente disponíveis ou
não são amplamente usados pela população rural. Em 2012, apenas 6.6 porcento
dos agricultores tinham recebido informações dos serviços de extensão agrária;
apenas 4.5 porcento referiram que eram membros de uma associação de agricultores
e somente 2 porcento haviam recebido crédito para a agricultura.

78. A fraca acessibilidade e a procura de serviços de apoio à produção agrária,


incluindo a fraca participação nas associações de agricultores pode afectar a
adopção da tecnologia e as oportunidades económicas. Quando existem falhas
de mercado, a capacidade dos agricultores de adoptarem insumos e tecnologias
destinadas a aumentar a produtividade é muitas vezes limitada. Esta situação
nota-se particularmente nas zonas rurais, onde os mercados do crédito, seguro,
força de trabalho, insumos, e de produtos são muitas vezes afectados por tais falhas
e pelas questões relacionadas com as ramificações da adopção da tecnologia e
informação assimétrica. Os mercados de crédito são particularmente importantes
para acelerar a produtividade, por causa do aumento das necessidades financeiras
da agricultura moderna, que passam por uma maior mecanização e uso extensivo
de fertilizantes e sementes melhoradas, entre outras práticas. A participação
em associações de agricultores, por seu turno, pode ajudar na obtenção de
recursos, explorar as economias de escala, mobilizar os recursos comunitários
para encontrar oportunidades económicas e suprir algumas falhas como a falta
de crédito ou os passivos individuais. Os membros de cooperativas podem ter o
acesso facilitado a insumos agrícolas como sementes, combustível ou fertilizantes,
apoio em termos de transporte, distribuição e comercialização de produtos
agrícolas e em termos de fontes de financiamento. Os agricultores que recebem
informação dos serviços de extensão são mais produtivos, em média, do que os
agricultores que não recebem informação: a rendibilidade equivalente de cereais
foi em média de 957 quilogramas/hectare para os primeiros comparativamente a
834 quilogramas/hectare para os últimos.

79. A análise multivariada mostra que o acesso ao crédito, serviços de extensão, e a


participação nas cooperativas de agricultores têm de facto correlação positiva com
a adopção de tecnologias e insumos agrícolas melhorados. Os agricultores parecem
ter muito mais probabilidade de adoptar qualquer tecnologia agrária (incluindo
sementes melhoradas, irrigação, fertilizantes e pesticidas) se tiverem tido acesso
ao crédito, estiverem filiados numa associação de agricultores ou tiverem recebido
serviços de extensão em 2012 (Tabela 4.9). A filiação em associações de agricultores
parece ter uma relação muito estreita com o uso da irrigação e fertilizantes, enquanto
o crédito está mais associado ao uso de fertilizantes e pesticidas. Adicionalmente,
os serviços de extensão parecem aumentar a probabilidade de adopção de todas
as tecnologias agrícolas relevantes. O género e o nível de escolaridade do chefe do
agregado também parecem afectar a probabilidade de adopção de tecnologias para
o meio rural. Os chefes dos agregados com maior nível de escolaridade têm maiores
probabilidades qualquer tipo de tecnologia, e as mulheres chefes dos agregados
têm menos probabilidade de adoptar qualquer tecnologia. Este resultado aplica-se
a qualquer tipo de tecnologia e é consistente com o facto de os agregados chefiados
por mulheres tenderem a ser mais pobres.

52
Tabela 4.9 Serviços de apoio à produção aumentam a adopção de insumos e tecnologias
agrícolas

1 2 3 4 5

P(Fertilizantes)

P(Pesticidas)
melhoradas)
Variável
P(Sementes

P(Irrigação)

tecnologia)
P(qualquer
Dependente:

Crédito Recebido 0.170 0.209 0.675 1.162 1.009


(0.156) (0.183) (0.163)** (0.169)** (0.146)**
Associação de 0.229 0.234 0.244 0.057 0.206
Agricultores (0.102)* (0.117)* (0.136) (0.119) (0.087)*
Serviços de 0.247 0.258 0.365 0.244 0.293
Extensão (0.106)* (0.101)* (0.106)** (0.098)* (0.078)**
Idade do Chefe do 0.001 0.003 -0.005 -0.002 -0.002
Agregado
Escolaridade do (0.002) (0.002) (0.002)* (0.002) (0.001)
Chefe do Agregado 0.040 0.016 0.019 0.003 0.025
Mulher Chefe do (0.008)** (0.011) (0.011) (0.010) (0.007)**
Agregado -0.170 -0.104 -0.279 -0.278 -0.264
(0.063)** (0.068) (0.084)** (0.085)** (0.047)**
Constante -1.815 -2.213 -1.241 -1.353 -0.961
(0.140)** (0.199)** (0.210)** (0.178)** (0.123)**
N 6,049 6,049 6,049 6,049 6,049

Fonte: Banco Mundial usando IAI (2012)


Notas: Os resultados da regressão Probit das tecnologias agrícolas sobre o acesso aos serviços agrícolas e
características do chefe do agregado. Variações-padrão agrupadas em parênteses. *** denota importância
ao nível de 1%, ** denota importância ao nível de 5% e * denota importância ao nível de 10%. Os controlos
incluídos nestas regressões incluem dados hipotéticos sobre as províncias.

53
É elevada a exposição e a vulnerabilidade aos choques naturais

80. Observam-se nas zonas rurais de Moçambique altos níveis de incidência de


choques relacionados com o clima. Como ficará evidente no próximo capítulo, o
país é frequentemente confrontado pela seca, cheias, ciclones, pragas e doenças que
representam riscos significativos para a agricultura. Isto por seu turno pode suscitar
problemas de disponibilidade e acessibilidade dos alimentos para as populações
das zonas rurais e para os consumidores urbanos, e ocasionalmente resultar subida
abrupta da população em situação de insegurança alimentar. A seca foi identificada
como o mais importante risco para a agricultura, e a seca ocorreu em 1979, 1983,
1988, 1992, 1994, 2005, 2008, 2009 e mais recentemente em 2015/16. As cheias
parecem ser o segundo risco mais importante relacionado com o clima no país e
provavelmente poderão trazer preocupações adicionais num futuro próximo visto
que há previsão de eventos de precipitação excessiva mais frequentes na sequência
das mudanças climáticas. Por último, os ciclones são comuns junto a linha de costa
durante a época chuvosa e tendem a infligir maiores danos nas infra-estruturas
agrárias e culturas arbóreas (Mozambique Risk Assessment, 2015).

81. Os choques naturais afectam um grande número de agricultores, com efeitos


directos e indirectos na produção agrícola e nos modos de subsistência rural. Em
2012, cerca de 73.6 porcento dos agricultores perderam as suas culturas, animais
ou instrumentos de trabalho como resultado dos choques climáticos. Um número
semelhante de agricultores indicou que sofreu perdas por causa das calamidades
naturais em 2005 e 2008. Em 2012, 62.1 porcento dos agricultores foram afectados
pela seca (Tabela 4.10). As cheias, ciclones e queimadas foram outros choques que
afectaram 11 porcento, 7.4 porcento e 16.5 porcento das famílias rurais em 2012,
respectivamente. Na ausência de mercados funcionais para o crédito, poupança
e seguro, os choques de grande impacto poderão reduzir a produção agrícola e,
consequentemente, afectar negativamente os meios de subsistência nas zonas
rurais. Em particular, a seca e os ciclones parecem ter exercido um forte impacto
negativo na produtividade agrícola (Figura 4.7). Os agricultores afectados pela
seca tiverem níveis de rendibilidade mais baixos (economicamente e em termos
estatísticos) do que aqueles que não foram afectados: 804 quilogramas por hectare,
contra 915 quilogramas por hectare, em média. Similarmente, os campos atingidos
pelos ciclones tinham, em média, níveis de rendibilidade de 705 quilogramas por
hectare, e os que não foram atingidos tiverem a rendibilidade de 853 quilogramas
per hectare, em média, em 2012. A ocorrência da seca e dos ciclones está ligada a
redução média de 10.1 porcento e 11.9 porcento na rendibilidade equivalente de
cereais, respectivamente.

Tabela 4.10 O pesado fardo dos riscos climatéricos para os agricultores (2012)
Seca 62.1%
Cheias 11.0%
Ciclones 7.4%
Queimadas 16.5%
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
Nota: Percentagem de agricultores que declaram ser afectadis pelos choques climatéricos.

54
Figura 4.7 Choques climatéricos na ausência do seguro reduzem a produtividade agrícola

10 10
Freqüência acumulativa

Freqüência acumulativa
8 8
6 6
4 4
2 2
0 0
4 6 8 4 6 8
Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais Log dos Rendimentos Equivalentes de Cereais
Seca Não seca Ciclone Não ciclone
Fonte: Banco Mundial com base no IAI 2012
Nota: As funções de distribuição cumulativa cortadas no 1° e 99° percentil As linhas verticais mostram
valores médios.

82. As decisões sobre as terras de cultivo sub-optimizadas em parte reflectem


o desejo dos agricultores moçambicanos se precaverem com seguro próprio
contra os choques climatéricos. Na ausência de mercados completos de crédito e
seguro a escolha das culturas é muitas vezes a única solução viável que continua
disponível para os agricultores gerirem os riscos. Adicionalmente, a ocorrência de
choques influencia a escolha das culturas ao moldar as percepções dos agricultores
sobre os riscos gerais do ambiente que os rodeia.22 Após a ocorrência de eventos
climatéricos extremos em Moçambique, a tendência é transferir o uso da terra de
culturas de alto risco para culturas de baixo risco. Os agricultores tendem a reafectar
os recursos retirando-os das culturas de rendimento e das culturas perenes depois
da ocorrência de cheias e seca (Salazar et al. 2015). Esta reafectação segue um
padrão de curto prazo, que é consistente com a ideia de que os agregados primeiro
recorrem as suas reservas de alimentos para consumo quando ocorre um choque.
Com a intensificação das mudanças climáticas, prevê-se que os eventos climatéricos
se tornem mais frequentes e mais severos, e na ausência dos mercados de seguros,
as escolhas das culturas provavelmente continuarão a ser sub-optimizadas. Isto
poderá ter consequências sérias nos países em que uma grande parte da população
ainda depende muito da agricultura para a sua subsistência, como no caso de
Moçambique. Mais especificamente, esta situação poderá retardar ainda mais o
ritmo da adopção da produção agrícola comercial ou das tecnologias de aumento
da produtividade por parte dos pequenos produtores, particularmente em áreas
em que os riscos da segurança alimentar são altos.

22 As escolhas dos agricultores para a diversificação dos seus sistemas de cultivo de modo a se precaverem
contra os choques climatéricos encontram-se amplamente documentadas na literatura (Benin et al., 2004;
Di Falco et al., 2010; Bezabih e Sarr, 2012; Bezabih e Di Falco, 2012).

55
61
4.4 O Isolamento e o Acesso Limitados à Informação
Obstruem a Agricultura Baseada no Mercado

Acessibilidade física aos mercados

83. As redes de transporte são críticas para o desenvolvimento da agricultura,


entretanto o sistema das estradas em Moçambique parece estar menos
desenvolvido que o dos países vizinhos em termos de cobertura e qualidade.
A rede de estradas de Moçambique consiste em cerca de 30 000 quilómetros de
estradas classificadas e funcionais, e as estradas são usadas 98 porcento do tempo
para o transporte de passageiros. Entretanto, apenas 23 porcento da rede de
estradas classificadas encontra-se pavimentada. A densidade das estradas é baixa
comparativamente aos países vizinhos, sendo em média 2.9 quilómetros por 100
metros quadrados de terra em Moçambique, comparativamente a 10.8 no Quénia
e 5.5 na Tanzânia (Figura 4.8) (Iimi e Rao, 2015).

84. A escassez é mais acentuada nas zonas rurais, especialmente nas regiões mais
pobres do país. Cerca de 81 porcento dos habitantes das zonas rurais continuam
desligados das redes de estradas fiáveis e transitáveis em todas as épocas. Isto
significa que cerca de 14.5 milhões de moçambicanos encontram-se isolados dos
principais centros urbanos, dos mercados e das infra-estruturas públicas (Iimi e Rao,
2015). Esta é uma situação menos boa que a dos outros países da região. Embora as
estimativas preliminares do RAI geral para Moçambique seja de cerca de 19 porcento,
essa estimativa é de 58 porcento no Quénia.23 A qualidade das estradas é também
motivo de preocupação, particularmente nas zonas rurais, onde a maior parte das
estradas que ligam as aldeias às sedes distritais não se encontram asfaltadas e estão
em mau estado (Iimi e Rao, 2015). A ligação de transporte é particularmente fraca
nas províncias do norte e do interior (como Niassa, Sofala, Nampula, Zambézia e
Tete) onde os níveis de pobreza são os mais elevados (Figura 4.9).

Índice de Acessibilidade Rural

O Índice de Acessibilidade Rural (RAI) é um indicador-chave de transporte criado


para dar enfoque ao papel crítico do acesso e mobilidade na redução da pobreza
nos países em vias de desenvolvimento. O RAI estima a proporção da população
rural com acesso adequado ao sistema de transporte. Nesta secção, usa-se o
RAI recentemente desenvolvido que usa tecnologias como dados da rede de
estradas georreferenciadas e dados da distribuição da população desagregados.
O Índice estima a população que vive a uma distância inferior a 2 km da estrada
mais próxima em bom estado.

23 Uma versão preliminar do RAI encontra-se publicada no próximo relatório: “Mozambique: Spatial Analysis
of Transport Connectivity and Growth Potential”, Banco Mundial, 2106. Um novo RAI está a ser calculado
presentemente com dados actualizados da rede de estradas.

56
Figura 4.8 A densidade das estradas em Moçambique é baixa

16
16
Densidade de estrada

14
14
(km per 100 km²)

12
12
10
10
88
66
44
22
00
Etiópia

Quênia

Moçambique

Tanzânia

Zâmbia

Média da África
Subsariana
Classificado Rede total
Classificado Rede total
Fonte: Gwilliam (2011)

Figura 4.9 A conectividade é mais baixa nas áreas mais pobres

MOÇ_ cidades

Principal_3_ portos

ANE_ estrada
Ferrovias_AICD_proj

Total_TC

0-4 5-7 8-10


11-14 15-18 19-23

24-29 30-41

Fonte: Iimi e Rao, 2015. Cálculos com base em dados fornecidos pela Administração Nacional de Estradas
Nota: Os valores da variável Total_TC denotam níveis mais baixos de conectividade.

85. A baixa produtividade da agricultura e os altos custos do transporte parecem


estar associados com a baixa conectividade dos agricultores. Os agricultores nas
províncias mais isoladas, em média, tendem a ter níveis mais baixos da rendibilidade
equivalente de cereais (Figura 4.10). Neste caso, a distância para o mercado de alimentos
mais próximo é usada como representação do isolamento. A associação negativa também
se aplica quando se usam diferentes medidas de representação do isolamento como a
distância para a paragem de autocarro, centro de saúde e escola primária mais próximos.
Provavelmente por causa da fraca ligação, também existe uma correlação negativa forte
entre a produtividade e os custos de transporte. A produtividade média do milho, por
exemplo, é estimada em cerca de 1.2 toneladas por hectare nos distritos com acesso fácil
aos mercados, nomeadamente nos casos em que os custos de transporte são inferiores a

57
US$2 por tonelada. Inversamente, quando os custos de transporte ultrapassam os US$20
por tonelada, a produtividade do milho parece ser cerca de 20 porcento mais baixa (Iimi e
Rao, 2015). Embora não seja possível estabelecer uma relação de causalidade por causa
da limitação de dados, estes resultados são consistentes com a ideia de que as distâncias
para os mercados não proporcionam incentivos aos agricultores para aumentarem os seus
níveis de produtividade, porque os custos de transporte com que se deparam são mais
altos em relação as receitas que obteriam com a actividade de comercialização.

86. A fraca ligação dos agricultores ao que parece tem contribuído para impedir que
Moçambique alcance o potencial de produção agrícola. A análise de simulação sugere
que uma redução de 10 porcento nos custos de transporte para as principais cidades
aumentaria o valor da produção agrícola dos agregados em 2.7 porcento (Iimi e Rao,
2015). Este resultado é consistente com a ideia de que os investimentos nas estradas
poderiam contribuir para aumentar a produtividade agrícola, ligando as zonas rurais de
grande potencial aos mercados. Considerando que a população rural de Moçambique
deverá crescer de 15 milhões para cerca de 25 milhões em 2050, os esforços de melhoria
das infra-estruturas de transporte rural serão particularmente relevantes para ajudar a
criar melhores oportunidades económicas e sociais para os habitantes das zonas rurais
(Iimi e Rao, 2015).

87. A relativa produtividade mais baixa das zonas mais isoladas parece dever-se
ao fraco acesso e uso reduzido de alguns insumos agrícolas importantes. Embora
a relação negativa não seja aplicável a todos os tipos de insumos e serviços de apoio à
produção, existem alguns casos em que os agricultores com menos ligação declaram níveis
mais baixos da utilização de tecnologia agrícola melhorada. Por exemplo, as províncias
com baixo RAI caracterizam-se por uma baixa proporção de agricultores que pertencem a
associações de agricultores. A percentagem de agricultores que usam a irrigação também
parece ter correlação com a proximidade das estradas. Adicionalmente, os agricultores
com melhores ligações têm também melhores probabilidades de usar fertilizantes, embora
os níveis permaneçam baixos em todo país. Isso aplica-se a todas as províncias, excepto
Niassa e Tete, que partilham a fronteira mais longa com o Malawi, onde existe um vasto
programa de subsídio aos fertilizantes.

Figura 4.10 A produtividade da agricultura baixa a medida que aumenta a distância


para o mercado de alimentos

Fonte: Banco Mundial com base no IOF 2008/2009 e IAI 2012

58
Acesso à informação do mercado

88. Os agricultores moçambicanos ainda enfrentam obstáculos consideráveis


par obter informação sobre o mercado de insumos e de produtos que lhe
poderia a ajudar a tomarem as melhores decisões sobre as escolhas de culturas
e sobre a colheita. Para que os agricultores se possam beneficiar da proximidade
dos mercados, o acesso a informação oportuna e fiável é crucial. A informação
pode ajudar os agricultores a tomarem melhores decisões sobre onde comprar os
insumos ou vender a sua produção, como se preparar para eventos climatéricos,
como seleccionar e plantar as melhores variedades de sementes, e como combater
as doenças e as pragas mais eficazmente. O acesso à informação sobre os preços
dos produtos agrícolas é particularmente relevante para os pequenos produtores
decidirem vender parte da sua produção. Todavia, o acesso a este tipo de informação
continua a ser limitado no seio dos agricultores moçambicanos. Em 2012, apenas
61 porcento dos agricultores declararam ter recebido informação sobre preços nos
12 meses anteriores (IAI 2012). Adicionalmente, apenas 7 porcento dos agricultores
declararam ter recebido informação sobre extensão durante o mesmo período.

89. Os agricultores continuam a depender grandemente de amigos, familiares e


da rádio para obter informação sobre os preços de produtos agrícolas. Mais de 76
porcento dos agricultores que receberam informação sobre preços indicaram como
fonte os seus amigos ou familiares. Enquanto mais de 34 porcento dos agregados
declararam que possuíam um telemóvel, apenas 3.4 porcento citaram que o
telemóvel era fonte de informação sobre preços. Em geral, menos de 16 porcento
dos agricultores referiram que haviam recebido informação de outras fontes que
não fossem os familiares, amigos e a rádio (Figura 4.11). Em algumas regiões rurais
particularmente pobres, esta proporção baixa consideravelmente (na Zambézia, por
exemplo, apenas 9 porcento dos agricultores receberam informação sobre preços
de fontes que não fossem os familiares, amigos e a rádio).

90. Os agricultores que recebem informação sobre preços têm maiores


probabilidades de vender parte da sua produção. Apenas 18.7 porcento dos
agricultores que não receberam informação sobre preços venderam alguns dos seus
produtos agrícolas contra 24.7 porcento dos que receberam tal informação (IAI 2012).
Ao que tudo indica, expandir o papel e o alcance das tecnologias de informação
e comunicação para permitir a disseminação atempada e módica de informação
relevante para os agricultores ajudaria a reduzir os custos das transacções no sector
da agricultura de Moçambique, promover a participação no mercado e elevar a
eficiência económica.

59
Figura 4.11 Os agricultores dependem dos amigos, familiares e da rádio para obter
informação do mercado

Todos agregados familiares

0% 10% 20% 30% 40% 50%

Agregados que receberam informação

40% 50% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90%

Fonte: Banco Mundial com base no IAI (2012)

60
Vulnerabilidade dos
Agregados aos Choques
Climatéricos

5.1 Alta Propensão de Moçambique às


Calamidades Naturais
91. Globalmente, Moçambique está entre os países mais expostos aos vários tipos de
calamidades naturais. O país é extensamente e de forma crescente propenso a ciclones,
cheias e seca, bem como a calamidades secundárias decorrentes de tais eventos.
Enquanto 17 calamidades naturais (i.e. seca, tremores de terra, cheias e temporais)
foram registadas no país entre 1993 e 2002, um total de 28 calamidades ocorreram
entre 2003 e 2012 (Banco Mundial, 2013). Moçambique corre mais riscos que os países
vizinhos em termos de exposição a cheias, ciclones, seca e todas as calamidades naturais
juntas (que incluem também tremores de terra e tsunamis), como ilustrado na Tabela 5.1
(EMDAT, INFORM, 2016). O país apresenta também níveis altos em relação a duas outras
dimensões (vulnerabilidade e falta de capacidade de superação) do mesmo índice.

Tabela 5.1 Moçambique apresenta uma exposição elevada às calamidades naturais

Calamidades

RISCO INFOR
Tremores de

Tropicais

Naturais
Tsunami

Ciclones
Cheias

PAÍSES
Terra

Seca

Moçambique 2.5 5.8 6.7 8.3 5.2 6.0 5.8


Madagáscar 0.1 6.6 7.4 7.6 3.7 5.7 4.9
Tanzânia 4.5 5.4 4.2 0.3 4.6 4.0 4.6
África do Sul 0.4 5.0 5.5 0.4 4.8 3.5 3.7
Malawi 3.8 5.2 0.0 0.8 5.1 3.3 4.2
Zimbabwe 0.2 3.8 0.0 0.4 6.2 2.5 4.2
Zâmbia 1.4 4.3 0.0 0.0 3.7 2.1 4.2

Fonte: INFORM, 2016


Nota: A pontuação é calculada na escala de 0-10, em que 0 representa o risco mais baixo e 10 o risco mais elevado.

92. As secas severas e prolongadas constituem uma ameaça recorrente. Secas


severas ocorrem em 7 de 10 anos na região sul, e em 4 de 10 anos na região centro
(GFDRR, 2012). Secas de baixa intensidade ocorrem com maior frequência ainda.
Contrariamente a outros choques climatéricos, as secas tendem a afectar vastas áreas
e têm consequências negativas durante períodos prolongados. Em geral, estima-se
que as secas já afectaram mais de 17 milhões de moçambicanos desde 1956, e prevê-
se que o risco de seca aumente nos próximos anos, em termos de maior frequência e
duração mais prolongada (EM-DAT, GFDRR, 2012).

61
93. De igual modo, Moçambique é particularmente exposto a ciclones e cheias.
A linha de costa de Moçambique faz fronteira como uma das mais activas bacias de
ciclones tropicais, o Sudoeste do Oceano Índico. Anualmente, Moçambique em média
é atingido por ciclone ou tempestade tropical e por outros três ou quadro distúrbios
tropicais adicionais (UN-Habitat, 2015). Os ciclones tropicais têm provocado efeitos
devastadores no país, com cinco ciclones tropicais (da categoria 1 a 4) atingindo
o país entre 2000 e 2008. A região costeira, onde residem mais de 60 porcento dos
moçambicanos, é a mais fortemente afectada e muitas vezes ocorrem destruições
generalizadas de infra-estruturas e a movimentação da população, como resultado
dos ciclones (GFDRR, 2012). As cheias frequentes, uma outra ameaça comum, tendem
a resultar de ventos altos e chuvas torrenciais associadas aos ciclones, mas também
da combinação de precipitação excessiva, descargas a montante a partir das principais
bacias hidrográficas, e resultam da deficitária infra-estrutura de drenagem. Em geral,
as cheias ocorrem a cada dois ou três anos, principalmente durante a época chuvosa
e ao longo dos nove principais regimes hidrográficos dos rios internacionais em todo
Moçambique ou nas áreas baixas, densamente povoadas junto a costa. As cheias
extremas tendem a ocorrer em intervalos de 15 a 20 anos. Estima-se que as cheias
tenham afectado mais de nove milhões de moçambicanos desde 1958 (GFDRR, 2012).

94. Existe também algum grau de exposição aos perigos geológicos, embora
sejam relativamente baixos em Moçambique. Em geral, Moçambique tende a ser
considerado como estando livre de actividade sísmica. Todavia, desde 2006, o país foi
atingido por mais de 80 tremores de terra, com magnitudes que variaram entre 3.9 e 7.
Adicionalmente, desde os princípios de 2015, a actividade sísmica continua tem sido
registada, tendo atingido um máximo na magnitude de 7.0 (UN-Habitat, 2015). Por
isso, embora os riscos geológicos do passado tenham sido particularmente severos
no país, presentemente não representam uma preocupação efectiva.

95. Os custos das calamidades relacionadas com o clima são particularmente


altos por causa da forte dependência do país em relação ao sector da agricultura
como meio de subsistência para a vasta maioria da população. O potencial de
prejuízos provocados pelas calamidades no sector da agricultura é extremamente alto
em Moçambique. Com efeito, quase a totalidade da produção (97 porcento) provém
da agricultura de sequeiro, que é particularmente vulnerável a eventos climatéricos
extremos. Uma estimativa de 2009 sobre os custos da seca e das cheias coloca a perda
anual média de milho e mexoeira nos 9 porcento e 7 porcento, respectivamente. Estima-
se que perdas adicionais de cerca de 20 porcento das culturas ocorrem em intervalos de
dez anos (GFDRR, 2012). Os choques climatéricos não impõem custos apenas no sector
da agricultura, mas também nos edifícios e infra-estruturas físicas. Estima-se que uma
média de 100km de estrada e 33,000 agregados sofrem o impacto das cheias todos
os anos em Moçambique, resultando em prejuízos directos de cerca de US$700,000 e
US$17.5 milhões respectivamente. A alta concentração da população e das actividades
económicas nas zonas costeiras predispõe o país para grandes danos em caso de eventos
climatéricos extremos. Por exemplo, em 2000, o ciclone Eline impôs um custo estimado
igual a 20 porcento do PIB (GFDRR, 2012).

96. Existe uma grande variação regional em Moçambique relativamente a


ocorrência de choques climatéricos. A exposição às calamidades naturais, tanto
em termos de frequência como de intensidade, varia substancialmente no país. Por
exemplo, as regiões do sul e do interior são mais propensas a sofrer da seca do que as
regiões do norte e costeiras. Inversamente, as áreas mais afectadas pelos ciclones em
geral situam-se ao longo da linha de costa. Com relação as cheias, as áreas próximas
dos regimes hidrográficos dos principais rios internacionais são as que têm maior
probabilidade de ser afectadas, conforme ilustrado na Figura 5.1 (UN-Habitat, 2015).

62
Figura 5.1 A incidência dos choques naturais variam entre as regiões de Moçambique

(Mapa de frequência de (Mapa de frequência


tremores de terra) dos ciclones)

Alto Moderado Baixo Alto Moderado Baixo

(Mapa dos perigos de cheias) (Mapa dos perigos das secas)

Alto Moderado Baixo Alto Moderado Baixo

Fonte: INFORM, 2016

63
5.2 Padrões de Precipitação e Anomalias

97. Moçambique tem um clima tropical com duas épocas. A estação húmida
(chuvosa) entre Outubro e Março, caracterizada por mais chuva entre Dezembro e
Março. A maior parte dos ciclones também ocorrem neste período, especialmente
nas zonas costeiras. A época seca começa em Abril e prolonga-se até Setembro, e
é particularmente pronunciada no sul do país, tornando-a mais propensa a seca.
Por causa da localização de Moçambique na zona tropical, as temperaturas não
flutuam muito entre as estações ou ao longo das estações.24

98. Os choques de precipitação são comuns nas diversas regiões de Moçambique.


Neste capítulo os choques são definidos como eventos de precipitação anual cumulativa
ao nível distrital entre 1950 e 2014 e que se situavam em dois desvios padrão acima
(para as cheias) ou abaixo (para a seca) em relação ao valor médio anual para o
correspondente distrito. O valor médio histórico anual é calculado ao longo do período
1901-2014 para cada um dos 128 distritos em que as 11 províncias de Moçambique
se encontram divididas. Foi observado que a precipitação extrema (em défice ou
em excesso) ocorre com relativa frequência. Existe uma grande variação geográfica
ao nível do país; as províncias como Niassa, Tete, Inhambane e Manica registaram o
maior número de anomalias em termos de precipitação. Calamidades marcantes como
as cheias de 2000, que foram provocadas pelo Ciclone Eline e pelo Ciclone Judah e
afectaram principalmente os distritos das províncias de Inhambane e Gaza províncias,
encontram-se bem captadas na variável dos choques de precipitação (Figura 5.2).

Figura 5.2 As grandes anomalias de precipitação foram causadas pelos ciclones Eline
e Judah em 2000

Fonte: Cálculos dos-1funcionários do Banco Mundial usando dados do CRU-TS


Nota: Cada barra vertical corresponde a um distrito.

99. A análise adicional dos dados climatéricos ao longo de um longo intervalo de


tempo revela que algumas regiões de Moçambique estão a registar uma redução

24 A identificação das anomalias de precipitação, a dimensão mais importante da variação climatérica em


Moçambique, requer dados climatéricos históricos ricos. Os dados usados para a análise empírica deste capítulo
foram obtidos da base de dados do CRU TS, gerida pela Unidade de Pesquisa Climatérica da Universidade de
East Anglia. A base de dados fornece dados matriciais espaciais e temporais amplos de precipitação mensal
para áreas de terra ao nível global, cobrindo o período 1901-2014, com uma resolução de 0.5 x 0.5 graus (50 x 50
km). Os dados foram compostos usando os registos de mais de 2 400 estações meteorológicas do mundo inteiro.
As anomalias da estação foram interpoladas em células matriciais e combinados com dados climatológicos
locais para obter valores mensais absolutos. As variáveis incluídas na base de dados para além da precipitação
são a temperatura média, variação diurna da temperatura, frequência de dias húmidos, pressão do vapor e
cobertura de nuvens (Harris, et al. 2014). Para a análise empírica, as variáveis de precipitação e temperatura
são ponderadas em função da população ao nível distrital e são obtidas com a sobreposição dos dados
climatéricos matriciais da CRU TS com a população e os mapas matriciais do nível distrital.

64
na precipitação total. Uma das consequências esperadas de um mundo mais quente
é a mudança na precipitação total ao nível regional. Em Moçambique, algumas
províncias registaram níveis de precipitação na década de 2000 que quantitativamente
e estatisticamente são inferiores aos níveis registados em décadas anteriores. Por
exemplo, Cabo Delgado registou a precipitação média anual de 957 e 943 milímetros
na década de 1990s e na década de 2000, respectivamente. Estes níveis de precipitação
são estatisticamente inferiores à média da precipitação anual da década de 1970
(1,035 milímetros). No caso da Zambézia, os níveis de precipitação dos últimos 25 anos
são inferiores aos registados entre as décadas de 1950 e de 1980. Um padrão similar é
observado em Nampula, que conjuntamente com a Zambézia são as províncias mais
pobres do país (Figura 5.3).

Figura 5.3 Algumas províncias em Moçambique têm registado precipitações mais baixas
nas últimas décadas

Cabo Delgado

1150
Precipitação annual (mm)

1100

1050

1000

950
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1900 2000

Zambézia
Precipitação annual (mm)

1400

1300

1200

1100
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1900 2000

Nampula
Precipitação annual (mm)

1150
1100
1050
1000
950
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1900 2000
Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando dados do CRU-TS

65
100. Todavia, não existe qualquer evidência de mudanças em relação a época
chuvosa no país e na variabilidade ao longo dos anos. As mudanças climáticas
também deverão alterar outros aspectos do regime de precipitação, como a
distribuição da época chuvosa em termos espaciais, nomeadamente uma mudança
do momento em que começa a época chuvosa e a época seca nas diferentes regiões.
De igual modo, a literatura prevê alterações na variabilidade durante o ano. Ambas
as variações provavelmente terão efeitos na produção agrícola e nos modos de
subsistência dos agricultores. Os dados sobre a precipitação do CRU TS relativos
a Moçambique não apresentam evidências dessas mudanças: os níveis médios de
precipitação mensal de 10 anos são estatisticamente semelhantes aos referentes a
cada mês ao longo do período 1930-2014, sugerindo que as alterações sazonais na
precipitação registada relativamente a Moçambique situam-se dentro dos intervalos
de variação padrão. De igual modo, não existe qualquer evidência de alterações
sistemáticas na variação da precipitação ao longo dos anos.

5.3. Efeitos dos Choques da Precipitação durante a


Infância no Bem-Estar dos Humanos a Longo Prazo
Os choques climatéricos reduzem o bem-estar dos agregados
101. O objectivo desta análise é estimar empiricamente o efeito causal
da exposição aos choques da precipitação na tenra idade nos resultados
socioeconómicos a longo-prazo em Moçambique. A análise baseia-se na variação
da precipitação no espaço e no tempo. Mais especificamente, faz-se a comparação
dos resultados dos adultos que se encontravam em distritos expostos a anomalias
de precipitação extremas por volta da altura do nascimento (i.e. no útero ou durante
o primeiro ano de vida) com os resultados dos indivíduos da mesma coorte etária
que residiam em distritos não afectados pelos choques climatéricos assim como
com os resultados de indivíduos de coortes ligeiramente mais velhos ou mais novos
dos distritos afectados e dos distritos não afectados. Os efeitos causais dos choques
foram obtidos usando a análise de regressão estatística que medem os resultados
a longo prazo de um certo indivíduo i num distrito d e em determinado período de
tempo t, e os indicadores dos choques climatéricos (vide Anexo 1 para mais detalhes
sobre a concepção e os dados empíricos).

102. A exposição às anomalias de precipitação na idade tenra e particularmente


às cheias parece ter uma relação negativa com a empregabilidade dos
indivíduos na idade adulta. Primeiro, a análise investiga se os indivíduos afectados
pela seca ou cheias severas quando no útero ou durante o primeiro ano de vida
apresentam menos probabilidade de participar no mercado de trabalho ou não.
São definidos dois indicadores: o primeiro (Participação na Força de Trabalho
1) mede a participação ou o desejo de trabalhar em actividades remuneradas,
enquanto o segundo (Participação na Força de Trabalho 2) acrescenta a participação
em actividades não remuneradas à primeira definição. Os resultados indicam
que o excesso de precipitação enquanto no útero tinha um efeito negativo na
respectiva probabilidade de participar no mercado do trabalho mais tarde na vida
no mercado de trabalho (Tabela 5.2). Os indivíduos afectados apresentam uma
taxa de participação média 6 porcento mais baixa comparativamente a base de
comparação. Este subconjunto de constatações é bastante consistente ao nível das
subamostras (todos versus o meio rural) ou a inclusão de uma variável para factores

66
que são específicos para os distritos (também conhecidos como “efeitos fixos”).25
Relativamente as secas, não há indícios de que influenciam a participação na força de
trabalho, independentemente de ocorrem quando no útero ou no primeiro ano de vida.

Tabela 5.2 Anomalias de precipitação na tenra idade associadas a fraca empregabilidade


na idade adulta

Participação na Força de Participação na Força de


Trabalho 1 Trabalho 2

Todos Zonas Rurais Todos Zonas Rurais


1 2 3 4 5 6 7 8
Falta de chuva no 0.025 0.015 0.019 0.014 0.017 0.015 0.013 0.010
útero (0.034) (0.031) (0.034) (0.031) (0.034) (0.031) (0.034) (0.031)

Falta de chuva no 0.044 0.040 0.036 0.036 0.037 0.040 0.031 0.032
1° ano (0.029) (0.027) (0.030) (0.027) (0.029) (0.027) (0.029) (0.028)

Excesso de chuva -0.030** -0.041** -0.034** -0.040** -0.033** -0.041** -0.036**


no útero (0.015) (0.016) (0.015) (0.016) (0.015) (0.016) (0.015) -0.040***
(0.015)
Excesso de chuva 0.006 -0.012 0.005 -0.011 0.004 -0.012 0.004
no 1°ano (0.015) (0.014) (0.014) (0.014) (0.014) (0.014) (0.013) -0.008
(0.013)
Coeficiente de
regressão 0.093 0.139 0.090 0.127 0.100 0.139 0.098 0.126
Base de
comparação .657 .657 .659 .659 .667 .657 .669 .669
Observações 19,018 19,018 18,593 18,593 19,018 19,018 18,593 18,593
FE Distrital não sim não sim não sim não sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando o IOF-2008/09


Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito.
Participação na Força de Trabalho 1 = 1 se uma pessoa trabalho nos últimos 7 dias ou se não trabalhou,
mas tinha emprego. Participação na Força de Trabalho 2 é igual a Participação na Força de Trabalho 1 mas
também inclui pessoas que trabalharam nos 7 dias anteriores ou que estavam a procura de trabalho no
mês anterior. Os choques de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou
para acima (cheias) em relação a média histórica do distrito. *** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

103. De igual modo, as cheias estão associadas a níveis mais baixos de despesa
per capita e a maiores probabilidades de os agregados serem pobres. A análise
investiga igualmente a relação entre a seca e as cheias, e as despesas per capita.
Para indicar os efeitos directos no bem-estar dos agregados, a subamostra desta
parte da análise consiste em indivíduos que são os chefes dos agregados. Em
consonância com os resultados da participação na força de trabalho, os agregados
chefiados por indivíduos atingidos por cheias quando no útero e durante a
tenra idade registam um consumo per capita mais baixo, aproximadamente 14
porcento menos do que o consumo médio do grupo de comparação (Tabela 5.3). Os

25 Considerando que o IOF de 2008-09 não recolheu dados sobre o mês exacto de nascimento (apenas o
ano) das pessoas entrevistadas, a janela usada para definir os períodos no útero e durante o primeiro ano
de vida tem uma medição imprecisa. Ao que tudo indica, isso pode explicar porque os efeitos das cheias
são vistos apenas em relação ao período no útero.

67
resultados são estatisticamente mais fracos em relação a subamostra rural. Quanto
a vulnerabilidade em relação a pobreza, o menor consumo per capita devido as
cheias que afectaram as pessoas na tenra idade aumenta a probabilidade de os
agregados que chefiam na idade adulta situarem-se abaixo da linha da pobreza (9
pontos percentuais ou cerca de 18 porcento). Esta evidência sugere que os efeitos
dos choques climatéricos sem cobertura do seguro que ocorreram décadas atrás
a uma forte persistência ao longo do tempo e são ainda sentidos pelas pessoas
afectadas e pelas suas famílias até hoje.

Tabela 5.3 As anomalias de precipitação na tenra idade também aumentam o risco de


pobreza

Despesa per capita Participação na Força de


Trabalho 2

Todos Meio Rural Todos Meio Rural


1 2 3 4 5 6 7 8
Falta de chuva no 0.177 -1.370 -0.173 -1.181 0.070 0.020 0.092 0.039
útero (4.693) (5.389) (4.799) (5.652) (0.101) (0.098) (0.101) (0.099)

Falta de chuva no -0.245 -1.484 0.221 -2.107 0.069 -0.010 0.066 -0.009
1° ano (4.168) (4.895) (4.171) (4.889) (0.083) (0.077) (0.083) (0.077)

Excesso de chuva -7.309* -5.017 -6.359* -4.742 -0.005 -0.027 -0.008 -0.028
no útero (3.819) (4.968) (3.794) (4.975) (0.040) (0.038) (0.040) (0.038)

Excesso de chuva -8.097*** -4.429* -7.045** -3.990 0.099** 0.093** 0.095** 0.092**
no 1°ano (2.860) (2.693) (2.809) (2.674) (0.042) (0.039) (0.042) (0.039)

Coeficiente de
regressão 0.011 0.038 0.011 0.033 0.015 0.084 0.015 0.083
Base de
comparação 27.744 27.744 27.110 27.110 0.498 0.498 0.500 0.500
Observações 6,321 6,321 6,228 6,228 6,321 6,321 6,228 6,228
FE Distrital não sim não sim não sim não sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando o IOF-2008/09


Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito.
Os choques de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou para acima
(cheias) em relação a média histórica do distrito. *** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

68
Porquê Efeitos Negativos? O canal da produção agrícola

104. O fardo criado pelos choques da precipitação na produção agrícola a curto


prazo é identificado como o canal mais plausível que provoca os resultados
socioeconómicos a longo prazo. Nos anos 70, praticamente todos os moçambicanos
(aproximadamente 98 porcento) vivia nas zonas rurais. Nessa altura, a agricultura
– mais nessa altura do hoje – constituía a principal fonte de subsistência. Assim,
pode argumentar-se que a agricultura é o principal mecanismo em causa que está
por detrás dos impactos negativos observados, na medida em que os choques
analisados no presente estudo deverão afectar fortemente a equilíbrio da água
subterrânea. Como resultado, a seca ou cheias severas podem exercer um impacto
negativo na rendibilidade e, consequentemente, na renda, consumo e segurança
alimentar do agregado.

105. No caso da seca, pode ser usada uma medida que analisa a relação entre
as condições hidrográficas e a rendibilidade da agricultura em Moçambique
para avaliar os possíveis efeitos da falta de água na produção agrícola. O Índice
de Satisfação das Necessidades de Água (WRSI) é uma medida usada pelo Sistema
de Aviso Prévio da Fome (FEWS NET) para a previsão dos resultados das colheitas e
para identificar potenciais problemas de segurança alimentar numa base sazonal.
O WRSI é definido como o rácio da evapotranspiração sazonal efectiva da cultura
em relação a necessidade sazonal de água da cultura, e capta o impacto esperado
do défice de água na colheita em diferentes momentos da época de cultivo. O WRSI
é específico para cada cultura, explícito em termos espaciais e identifica de forma
dinâmica o início da época com base nos padrões da precipitação. A variação é entre
0 e 100, com os valores abaixo de 50 indicando níveis de água subterrânea muito
abaixo do mínimo. As suas limitações incluem a não indicação da água em excesso
(e.g. cheias) e a resolução de certa forma pouco nítida de alguns dos seus elementos
estáticos (e.g. capacidade de retenção de água subterrânea). A computação do
WRSI para Moçambique confirma a alta prevalência de anos em que a humidade
dos solos está muito abaixo dos níveis críticos necessários para o cultivo normal e
colheira do milho (Figura 5.4).

69
Figura 5.4 As condições hidrográficas muitas vezes são sub-óptimas para o cultivo e
colheita da cultura do milho

2004 2005 2006 2007

2008 2009 2010 2011

2012 2013 2014 2015

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando mapas agronómicos da FEWS NET e da FAO
Notas: A cor laranja denota áreas geográficas onde as culturas de milho tinham projeções de falha por causa
da excessivamente baixa humidade do solo.

106. Os dados climatéricos e os modelos de crescimento das culturas revelam


a alta sensibilidade da produção agrícola em relação às condições climatéricas
extremas em Moçambique. Embora os dados sobre a rendibilidade da agricultura
ao nível provincial sejam escassos, considerando a correlação incondicional
entre o WRSI para o milho e a correspondente rendibilidade revela a evidência
de uma relação positiva entre o fornecimento de água durante a época de cultivo

70
e o resultado da cultura (Figura 5.5). Uma redução de dez unidades no índice das
necessidades de água cumulativas para as culturas reduz a rendibilidade do milho
em 0,1 toneladas per hectare. A Figura 6.5 mostra também que existe uma relação
positiva entre as anomalias na rendibilidade (i.e. desvios dos valores médios ao
nível provincial) e as anomalias do WRSI. Dado que o WRSI tem como teto 100 e
não foi concebido para medir o excesso de água, os pontos localizados na parte
inferior do gráfico podem revelar os efeitos negativos das chuvas em excesso ou
das inundações. Valores baixos do WRSI são observados com muita frequência em
Moçambique, e isso pode ser uma indicação de falhas recorrentes das colheitas nas
zonas em que os níveis de precipitação se situam muito abaixo das médias históricas
(como ilustrado na Figura 5.5).

Figura 5.5 A rendibilidade do Milho em Moçambique é muito sensível à escassez de chuva

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando mapas agronómicos da FEWS NET e da FAO
Nota: A média provincial do WRSI ao nível do posto administrativo medido no eixo X. Medição da rendibilidade
do milho ao nível provincial calculada em toneladas por hectare no eixo Y. Províncias: Cabo Delgado, Gaza,
Inhambane, Maputo, Manica, Nampula, Nassa, Sofala, Tete e Zambézia. Anos: 2002, 2005, 2006, 2007 e 2008.

107. A rendibilidade mais baixa das culturas devido aos choques climatéricos
pode reduzir a renda e o consumo dos agregados, e afectar significativamente
a capacidade de obter produtos nutritivos para os seus filhos menores. Quando
confrontados por situações de seca ou cheias, os agregados podem ser forçados a
cortar investimentos básicos na nutrição e no capital humano dos seus filhos. Como
resultado, os mecanismos subjacentes que fazem com que os efeitos dos choques

71
de precipitação persistam ao longo do tempo são ao que parece a sua influência
em relação aos recursos críticos das pessoas afectadas, como a sua saúde durante
um período crucial do desenvolvimento físico (i.e. ambiente nutricional no ventre
e no primeiro ano de venda). Por conseguinte, a mesma estratégia de identificação
usada nos modelos acima é usada para explorar os impactos contemporâneos (i.e. a
curto prazo) de algumas situações de cheias e de seca nas crianças antropométricas
(0-4 anos de idade), mais especificamente na pontuação z na relação altura idade,
uma forte indicação sobre a altura na idade adulta.

108. Os resultados mostram uma relação forte entre as anomalias de precipitação


(seca e cheias) no primeiro ano de vida e a pontuação z na relação altura
idade. Pouco depois da ocorrência dos choques estremos, as crianças afectadas
apresentam um desvio em relação ao padrão, sendo 0.6 menores em relação as
crianças de referência, cuja média antes do choque é de -1.89 de desvio em relação ao
padrão, abaixo do estipulado pelo grupo de referência internacional da Organização
Mundial da Saúde. Os resultados ilustrados na Tabela 5.4 são robustos em termos das
especificações e são estatísticamente significativos no sentido quantitativo.

Tabela 5.4 Os choques da precipitação deterioram a situação nutricional das crianças


afectadas

Pontuação z na relação altura idade

Todos Meio Rural


1 2 3 4
Falta de chuva no útero -0.160 0.154 -0.054 0.174
(0.194) (0.176) (0.184) (0.176)
Falta de chuva no 1° ano -0.779*** -0.582*** -0.670*** -0.559***
(0.172) (0.165) (0.158) (0.165)
Excesso de chuva no útero -0.500 -0.449 -0.409 -0.447
(0.363) (0.286) (0.361) (0.286)
Excesso de chuva no 1°ano -1.177** -0.818** -1.072** -0.805**
(0.515) (0.363) (0.510) (0.362)
Coeficiente de regressão 0.026 0.110 0.028 0.104
Base de comparação -1.893 -1.893 -1.987 -1.987
Observações 5,620 5,620 5,056 5,056
FE Distrital não sim não sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando o IOF-2008/09


Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito.
Os choques de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou para acima
(cheias) em relação a média histórica do distrito. *** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

72
Porquê os Efeitos Negativos? O Canal do Capital Humano e da
Produtividade a Curto e a Longo Prazo

109. As crianças afectadas pelos choques têm pior desempenho em termos


dos indicadores de escolaridade e possivelmente isso seja influenciado pelos
efeitos negativos das anomalias de precipitação na sua saúde quando crianças.
Os resultados das análises econométricas sobre a participação na escola e as
realizações mostram que a seca reduz a probabilidade de as crianças em idade
escolar requentarem a escola regularmente. De um modo, as crianças afectadas
acumulam 0.2 menos anos de escolaridade, equivalente a uma redução dos
seus resultados escolares de 6 porcento relativamente à média das crianças não
afectadas (3.3 anos) (Tabela 5.5). De igual modo, as pessoas afectadas têm 1.4
pontos percentuais (2.8 porcento) menos probabilidade de acumular algum nível
de escolaridade. Há pouca probabilidade de anomalias de precipitação que tenham
ocorrido por volta da altura do nascimento exerçam um impacto directo no ingresso
escolar e na frequência, progresso e resultado escolar das crianças. Com efeito, os
bebés afectados tinham de esperar pelo menos 4 ou 5 anos depois da ocorrência dos
choques antes de começarem a frequentar a escola formalmente. A explicação mais
plausível é, por isso, que os efeitos negativos da seca e das cheias na escolaridade
das pessoas afectadas são reconciliados pela influência que tais choques exerciam
na sua situação nutricional e de saúde quando bebés.

110. As privações nutricionais sofridas na infância também parecem ter


consequências de longa duração no desenvolvimento físico das crianças
afectadas. Num esforço para ligar os choques de saúde na tenra idade – provocados
por condições climatéricas extremas – e o bem-estar na idade adulta, a análise
considera a altura dos adultos várias décadas depois de terem sofrido com a seca
ou cheias por volta da altura do nascimento. Embora seja rara a disponibilidade
de dados antropométricos de adultos nos inquéritos aos agregados, o Inquérito
Demográfico e de Saúde (DHS) constitui uma excepção, mas recolhe apenas
dados das mulheres com idades entre os 15 e 40 anos, e não sobre os homens.
O DHS também carece de informação relativa ao local e data de nascimento dos
adultos na amostragem. Para esta análise, usam-se os dados antropométricos
das mulheres (i.e.: altura, medida como percentagem de um grupo de referência
internacional) no DHS. Uma tentativa de contornar a falta de informação sobre
a data e local de nascimento é feita com a restrição da amostragem, incluindo
apenas os distritos com taxas de migração permanentes inferiores a 20 porcento.
Para esse efeito, usou-se o censo de 1997 para calcular a porção de adultos que
nasceram no mesmo distrito de residência permanente. Os resultados a partir de
formas reduzidas desta amostragem aparecem nas colunas 5 e 6 da Tabela 5.6.26
Os resultados indicam que os eventos de precipitação extrema ocorridos durante
a infância, particularmente a seca para os modelos de efeitos fixos ao nível dos
distritos, afectam o desenvolvimento físico das mulheres. As mulheres afectadas
são cerca de 0.5-0.7 centímetros menos altas comparativamente as mulheres não
afectadas, em média.

26 A validade interna destes resultados podem ficar comprometidos pelo facto de as decisões de migração
serem provavelmente exógenas em relação aos choques climatéricos. Todavia, a regressão ao nível distrital
das taxas de migração em relação aos choques climatéricos e os efeitos fixos ao nível distrital não revelam
diferenças sistemáticas nos padrões de migração entre as aldeias afectadas e as aldeias não afectadas.

73
Tabela 5.5 As crianças afectadas pela seca apresentam a menor participação e resultados
da frequência escolar
Resultados Escolares

Frequência Escolar Alcançados Qualquer


Escolaridade

Todos Meio Todos Meio Todos Meio


Rural Rural Rural
1 2 3 4 5 6
Falta de chuva no -0.261*** -0.262*** -0.213 -0.201 -0.015* -0.014*
útero (0.069) (0.069) (0.274) (0.277) (0.008) (0.008)

Falta de chuva no 0.064 0.064 -0.466* -0.446* 0.011 0.013


1° ano (0.041) (0.041) (0.247) (0.252) (0.008) (0.008)

Excesso de chuva -0.005 -0.003 0.220 0.220 0.007 0.009


no útero (0.011) (0.011) (0.190) (0.190) (0.006) (0.006)

Excesso de chuva -0.008 -0.009 0.057 0.047 0.008 0.010


no 1°ano (0.012) (0.012) (0.165) (0.167) (0.008) (0.008)

Coeficiente de
regressão 0.077 0.078 0.260 0.243 0.197 0.170
Base de
comparação 0.932 0.931 3.438 3.348 0.532 0.509
Observações 8,304 8,134 14,232 13,871 488,192 457,854
FE Distrital Sim Sim Sim Sim Sim Sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando dados do DHS de 2011 referentes a Moçambique
Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito.
Os choques de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou para acima
(cheias) em relação a média histórica do distrito. A variável altura para a idade é definida como percentagem
da relação altura para a idade numa população de referência.*** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

111. Evidências sugestivas de retornos positivos em relação a saúde são


encontradas em Moçambique, implicando que os choques climatéricos sem
seguro que agravam a situação nutricional também levam a uma produtividade
mais baixa. A existência de uma associação positiva entre a melhoria nutricional
e uma maior produtividade é muitas vezes presumida e tem sido amplamente
demostrada na literatura empírica. A boa saúde é particularmente importante entre
os que se dedicam a agricultura nos países em vias de desenvolvimento, onde a
estrutura do trabalho requer um forte desenvolvimento físico, particularmente ao
nível dos homens. Para contextualizar os efeitos negativos dos choques climatéricos
na altura dos adultos, o presente estudo apresenta estimativas não paramétricas da
relação entre a altura e os resultados conseguidos na escola e a saúde das mulheres
adultas em Moçambique (Figura 6.6). Os resultados mostram uma relação positiva
entre a altura das mulheres e o capital humano e a acumulação da riqueza. Isto
implica que o desenvolvimento físico perdido por causa de condições climatéricas

74
extremas provavelmente traduzir-se-á em níveis de produtividade mais baixos e,
em última análise, no bem-estar inferior.27
Tabela 5.6 Os choques climatéricos parecem afectar o desenvolvimento físico mais
tarde na vida

Relação Altura Idade em Adultos

Todos Meio Rural Baixa Migração


1 2 3 4 5 6
Falta de chuva no -0.338 -0.467 -0.299 -0.558 -0.333 -0.406
útero (0.544) (0.580) (0.588) (0.626) (0.437) (0.457)

Falta de chuva no -0.287 -0.582* -0.205 -0.627* -0.332 -0.610**


1° ano (0.330) (0.323) (0.341) (0.337) (0.306) (0.304)

Excesso de chuva -0.522** -0.328 -0.524** -0.329 -0.483* -0.330


no útero (0.250) (0.207) (0.264) (0.229) (0.259) (0.250)

Excesso de chuva -0.196 -0.111 -0.175 -0.095 -0.137 -0.109


no 1°ano (0.293) (0.269) (0.306) (0.270) (0.298) (0.294)

Coeficiente de
regressão 0.012 0.105 0.012 0.105 0.012 0.097
Base de
comparação 94.772 94.772 94.703 94.703 94.708 94.708
Observações 7,445 7,445 6,954 6,954 7,305 7,097
FE Distrital não sim nào sim não sim

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando dados do IOF-2008/09 e do Censo
Populacional de 2007
Nota: Variações-padrão robustas em parênteses agrupados por ano de nascimento – ao nível do distrito. Os
choques de precipitação são definidos como dois desvios do padrão para baixo (seca) ou para acima (cheias)
em relação a média histórica do distrito. Qualquer escolaridade é uma variável binária que tem o valor de 1 se
o indivíduo tiver um ou mais anos de escolaridade, e zero se esse não for o caso. *** p<0.01, ** p<0.05, * p<0.1.

Figura 5.6 O capital humano e a riqueza da mulher moçambicana adulta aumenta em


função da sua altura

2
Esolaridade

-1
140 150 160 170 180 190
95%IC
95% IC Ipoly
Ipolysmooth
smooth

27 A relação é estimada com muito menos precisão para as mulheres com mais de 175cm por causa do
número reduzido de observações nesta categoria de altura.

75
95% IC Ipoly smooth

Índice de riqueza 300,000

200,000

100,000

-100,000
140 150 160 170 180 190
95%
95%IC
IC Ipolysmooth
Ipoly smooth

Fonte: Cálculos dos funcionários do Banco Mundial usando dados do DHS de 2011 sobre Moçambique
Nota: Diagrama de dispersão de ponderação local (LOWESS). Largura de banda = 1.94 para a função de
altura-resultado da escolaridade alcançado e 1,8 para a função do índice altura-riqueza. Intervalo de 95%
de confiança apresentado em cinzento (método Bootstrap).

76
Conclusão

112. Durante as últimas duas décadas, Moçambique caracterizou-se por um


crescimento económico robusto e acelerado, todavia o progresso económico forte
apenas se traduziu em níveis modestos de redução da pobreza. A economia cresceu
em média 7.9 porcento ao ano entre 1993 e 2014, um índice impressionante segundo
os padrões regionais e globais. Todavia, Moçambique teve dificuldades de traduzir
esse forte crescimento em redução da pobreza. Entre 1997 e 2009, por cada aumento
percentual do PIB per capita na África Subsaariana, a pobreza reduziu em 0.5 porcento
na região. No mesmo período, por cada porcento de crescimento em Moçambique, a
pobreza baixou apenas 0.26 porcento no país, aproximadamente metade do ritmo da
redução da pobreza ao nível da região. Situando-se em 52 porcento em 2009, o índice da
pobreza é alto tanto em termos regionais assim como globais. Em 1993, um ano depois
do fim da guerra civil, Moçambique era o terceiro país mais pobre do mundo. Em 2013
era o 13° país mais pobre, dando sinais de avanços na redução da pobreza. Todavia,
com níveis de pobreza de 69 porcento ($1.9 PPP em 2011), Moçambique continua entre
os países com os mais altos níveis de pobreza, juntamente com países como a Libéria,
Guiné-Bissau, Malawi, República Democrática do Congo, Burundi e Madagáscar.

113. A pobreza não só reduziu a um ritmo mais lento do que o esperado, como
também os ganhos no rendimento e no crescimento do consumo caracterizam-se
por uma distribuição desigual no país e entre grupos de pessoas. Algumas partes do
país – especialmente a região centro e norte – têm uma representação desproporcional
dos pobres. De um modo geral, as províncias urbanas tendem a apresentar índices de
pobreza mais baixos do que as províncias rurais, particularmente as do centro e norte do
país. A Cidade de Maputo apresenta os níveis mais baixos de pobreza no país. No outro
extremo da distribuição, a Zambézia apresenta uma taxa de pobreza de 73 porcento.
Ao invés de reduzir a semelhança do resto do país, a pobreza agravou-se entre 2003 e
2009 nas províncias da Zambézia, Sofala, Manica e Gaza. Como resultado, estas cinco
províncias juntas representavam aproximadamente 70 porcento dos pobres em 2009,
uma subida em relação aos 59 porcento em 2003. Analisando os diferentes grupos de
rendimento, os mais abastados beneficiaram-se desproporcionalmente do crescimento
económico. Entre 2002/3 e 2008/9, a taxa de crescimento anual da despesa per capita
no escalão dos 40 porcento mais abaixo da população foi inferior em relação taxa do
escalão do topo da distribuição.

114. Três factores contribuem para a fraca equidade na distribuição dos ganhos
em Moçambique: acesso desigual às oportunidades económicas nas várias regiões
e grupos de rendimento, baixa produtividade e baixo crescimento na agricultura
baseada no mercado e elevada vulnerabilidade aos choques climatéricos. O
crescimento teria tido um impacto maior na redução da pobreza em Moçambique
se os seus efeitos não tivessem sido anulados pelo aumento verificado nos níveis de
desigualdade. A desigualdade deve-se em grande medida ao facto de terem ficado para
trás as regiões mais isoladas do norte do país, especialmente Nampula e Zambézia.
Embora não exista uma clara indicação de que os agregados que vivem nestas

77
províncias acumularam activos a um ritmo mais lento do que o resto do país, que sejam
substancialmente menos capazes de conseguir ganhos apreciáveis com os seus activos
produtivos, a falta de ligação é um factor importante subjacente a essa incapacidade.
Uma segunda explicação é o fraco desempenho da agricultura, um sector que emprega
a grande maioria dos pobres. O sector é dominado pelos pequenos produtores, pela
agricultura de subsistência e taxas baixas de adopção de insumos e tecnologias para
o aumento da produtividade, e é limitado o acesso aos serviços de apoio à produção
(extensão, crédito, etc.), o que resulta em baixos níveis de produtividade. A orientação
para o mercado na agricultura é reduzida, depara-se com o constrangimento da falta de
ligação e do acesso limitado a informação sobre o mercado de insumos e de produtos.
A terceira hipótese investigada no presente estudo documenta efeitos negativos
consideráveis dos choques climatéricos sem seguro (como as cheias e a seca) no
mercado de trabalho, nos resultados da renda e do consumo dos indivíduos afectados.

115. A aceleração da redução da pobreza requer a abordagem de factores


estruturais que afectam a inclusão do crescimento. Os retornos do crescimento
devem ser distribuídos amplamente para se investir nas áreas mais isoladas do país
para que essas regiões possam beneficiar-se das oportunidades económicas resultantes
da expansão económica e reduzir o fosso em relação ao resto do país. Os esforços
de promoção da diversificação económica e de aceleração do crescimento do sector
privado – necessários para uma economia muito dependente da riqueza dos recursos
naturais – deveriam contribuir para apoiar um progresso mais equitativo. Considerando
a importância da agricultura na redução da pobreza, uma maior produtividade neste
sector tem de concretizar-se juntamente com uma maior ligação aos mercados. As
acções de política para alcançar estes objectivos devem reconhecer os factores que
constituem constrangimentos para os agricultores com potencial de praticar a agricultura
comercial que se enquadre nas cadeias de valor e os factores que são constrangimentos
para os agricultores envolvidos na prática da agricultura de subsistência com pouco
potencial para a comercialização. Subjacente a estes objectivos está a necessidade
de aprofundar os investimentos no capital humano, físico e institucional do país. Por
último, considerando a grande exposição de Moçambique às calamidades naturais, é
necessário fortalecer os sistemas formais e informais de gestão do risco para impedir
que as condições de vida da população seja demasiadamente influenciada por grandes
choques fora do seu controlo.

78
ANEXO 1: Concepção e dados empíricos usados
para a análise dos efeitos a longo prazo dos
choques climatéricos (Capítulo 5)

79
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