Você está na página 1de 3

“do século XV ao século XVIIIa nossa atenção irá em primeiro lugar para os alimentos

majoritários, portanto para os que fornece a agricultura, a mais antiga de todas as indústrias.
Ora, a agricultura sempre teve de incidir, desde o princípio, nesta ou naquela planta
dominante, depois de se construir com base nesta opção antiga e prioritária de que tudo ou
quase tudo irá depender a seguir. Três delas tiveram um destino brilhante: o trigo, o arroz e o
milho; continuam hoje a disputar a vida material e por vezes a vida psíquica dos homens com
grande profundidade, a ponto de se tornarem estruturas quase irreversíveis.” (p. 92)

De acordo com Braudel, o “trigo é antes de tudo, o Ocidente, mas não só.” (p. 93)

“A partir da Europa, o trigo foi longe nas suas conquistas. A colonização russa levou-o para
Leste, para a Sibéria, para além de Tomsk e de Irkutsk; o camponês russo, a partir do ´seculo
XVI consagrou sua fortuna nas terras negras da Ucrânia, onde as conquistas de Catarina II
terminam em 1793. Muito antes dessa data, o trigo triunfa aí, mesmo de maneira
intempestiva. (…)
Na realidade, a grande hora do trigo ‘russo’ soará mais tarde. Na Itália, em 1803, a chegada
de barcos carregados de trigo ucraniano assume, aos olhos dos proprietários fundiários, o
caráter de uma catástrofe. (…)
Da Europa, muito antes destes acontecimentos, o trigo atravessa o Atlântico. Teve de lutar na
América ibérica, contra as traições de climas demasiado quentes, de insetos devoradores, de
culturas rivais (o milho, a mandioca). Sucesso na América, terá o trigo tardiamente, no Chile,
nas margens do são Lourenço, no México, mais ainda nas colônias inglesas da América, no
século XVII e sobretudo no século XVIII. Os veleiros de Boston transportam então a farinha e
trigo para as Antilhas açucareiras, depois para a Europa e para o mediterrâneo. A partir de
1739, navios americanos desembarcam farinha e trigo em Marselha. No século XIX, o t’rig
triunfa na Argentina, na África austral, na Austrália, nas ‘pradarias’ do Canadá e do Middle
West, por toda a parte afirmando, com a sua presença, a expansão da Europa.” (pp. 93-94)

Europa marcada no período por momentos de carestia alimentar. “Todos juntos, os cereais
panificáveis nunca criam a abundância; o homem do Ocidente tem de adaptar-se a penúrias
crônicas.” (p. 97)
“O trigo não pode ser cultivado dois anos seguidos na mesma terra se grandes danos. Tem
de se deslocar, de rodar.(…)Na Europa, onde quer que se cultive, o trigo é deslocado de um
ano pra outro.” (p. 98) demandando assim, grandes parcelas de terra
Também de acordo com Braudel, “trigo e pecuária recomendam-se, associados entre si,
tanto mais que se impõe o recurso a animais de tiro: é impossível pensar que um homem
que pode cavar quando muito um hectare por ano (…) se encarregue, sozinho, de preparar
toda a terra ‘trigal’” (p. 101). Os animais também colaboram para com a adubação, sendo
fonte substancial de esterco. Assim sendo, não só o espaçamento necessário para o cultivo
do trigo, mas como também o necessário para os pastos dos animais, faz-se necessário,
aumentando, ainda mais, a porção de terra utilizada.
“O pecado imperdoável do trigo é o seu fraco rendimento: alimenta mal a sua gente. Todos
os estudos recentes estabelecem os números com um luxo arrasador de pormenores. Do
século XV ao século XVIII, onde quer que as sondagens operem, os resultados são
decepcionantes. Por cada grão semeado, a colheita é muitas vezes 5, às vezes muito
menos. Como é preciso tirar o grão da sementeira seguinte, eis que ficam para consumo
quatro grãos para cada um semeado.” (p. 104)
Ainda de acordo com Braudel, o rendimento de cerais na Europa tivera um progresso de
rendimento de cerca de 60% a 65%, no perído de 1200 a 1820, entretanto, de acordo com
ele, mesmo esse progresso a longo prazo “não excluem recuos de duração bastante grande,
como de 1300 a 1350, de 1400 a 1500 e de 1600 a 1700, datas aproximadas” (pp. 106-107),
que coincidem com o período aqui analisado (séculos XV ao XVIII). Ainda de acordo com
Braudel “observar-se-á também que os progressos obtidos na últma fase, 1750-1820,
assistem à promoção de países populosos, Inglaterra, Irlanda, Países Baixos.” havendo
“evidente correlação entre a subida dos rendimentos e a alta demográfica.” (p. 107)

“O milho é sem dúvida uma planta miraculosa: forma-se depressa e os seus grãos, antes
mesmo de estarem maduros, são já comestíveis. (…) Um arqueólogo atento a estas
realidades (a do milho), Fernando Márquez Miranda, assinalou recentemente, melhor do que
qualquer outro, as vantagens dos camponeses do milho: só lhes pede, por ano, cinquenta
dias de trabalho, um dia em cada sete ou oito conforme as estações. E ei-los livres, livres
demais.” (p. 141)
“Em todo o caso, no séulo XV, quando e formaram as civilizações asteca e inca, já há muito o
milho estava presente no espaço americano, associado à mandioca, no leste da América do
Sul; ou sozinho e submetido ao regime de sequeiro; ou sozinho nos terraços irrigados do
Peru e nas margens dos lagos mexicanos.” (pp. 140-141)
“No século XIX, Alexandre de Humboldt na Nova Espanha, Auguste de Saint-Hilaire no Brasil
observaram uma circulação e mulas, com suas estações, os seus ranchos, os seus currais,
as suas passagens obrigatórias.” (p. 143)