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CARTA DA LAPA

Reunidos durante o Festival da Lapa 2010 (Festival de Filmes de


Época), diretores de cinema, produtores, assistentes de arte e de produção,
cineclubistas, professores, alunos, representantes de escolas de cinema e de
entidades do cinema paranaense, cinéfilos e cidadãos lapeanos,
participaram das mostras, oficinas, bate-papos e mesas de debates.
Questões ligadas ao filme de época, ao movimento cineclubista, à relação
entre cinema e educação, à formação técnico-profissional, à pesquisa e
preservação cinematográficas foram abordadas. Por aclamação dos
presentes, as proposições e considerações feitas durante o encontro seguem
sintetizadas nesse documento.

Afirmou-se a importância da continuidade e do fortalecimento do


Festival da Lapa, referência cada vez maior para as questões relacionadas
aos filmes de época: direção de arte, figurino, maquiagem, adereços e
fotografia. Espera-se que em suas próximas edições possa sediar de forma
ainda mais sistematizada encontros das categorias diretamente envolvidas
com a temática.

Definiu-se como urgente que os cinéfilos e os que trabalham com cinema


no Paraná façam a sua parte no processo, retomado em 2003 durante o
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, de rearticulação dos cineclubes
brasileiros, reafirmando (como na memorável Carta de Curitiba, redigida
quando da realização em fevereiro de 1974, no Teatro do Paiol, da VIII
Jornada Nacional de Cineclubes/III Encontro Sul-Americano de Cineclubes)
sua clara posição em defesa do cinema nacional, seu compromisso com o
desenvolvimento do projeto cultural brasileiro. Em sintonia com o Conselho
Nacional de Cineclubes Brasileiros e com o Programa Cine Mais Cultura do
MinC, cabe aproximar os cineclubes em funcionamento no Paraná e atuar,
inclusive com propostas de políticas públicas, visando implantar cineclubes
na maioria dos espaços possíveis: universidades, escolas, institutos,
bibliotecas públicas, museus, sindicatos, clubes, câmaras municipais,
unidades da rede SESC, associações e centros culturais.

Desta forma, se estará contribuindo com a formação do público e de


público para o cinema brasileiro, de quadros que possam fazer crítica de
cinema, -- buscando retomar uma tradição que iniciou em Curitiba no final
dos anos 40 e que se desenvolveu até pouco depois de meados dos anos
60, sobressaindo nesse período, por sua sólida cultura cinematográfica, os
nomes de Armando Ribeiro Pinto, Francisco Bettega Neto e Lélio Sottomaior
Júnior --, e de quadros que possam se orientar, ampliadas as parcerias entre
cineclubes universitários, cursos de cinema e Cinemateca de Curitiba, para
as atividades de pesquisa, preservação e difusão, para o trabalho em
arquivos audiovisuais. Em conseqüência, com a implantação de cineclubes,
também se quer dar um passo na formação de um ainda necessário
jornalismo cultural paranaense, verdadeiramente capaz de fazer a mediação
entre as manifestações artísticas e o público. Se o desafio é imenso, os
cineclubistas hoje também contam com a Programadora Brasil e com a
Filmoteca Carlos Vieira, ambas com um acervo de filmes devidamente
licenciados, em condições, portanto, de resolver suas dificuldades iniciais de
programação.

Dentre os espaços citados, sublinhou-se a possibilidade do museu, ao


lado da exibição e discussão de filmes, servir como plataforma de diálogo e
inclusão cultural. Se presentes nas escolas, os cineclubes trazem a
expectativa de que a cultura cinematográfica ajude os estudantes a projetar
sua autonomia intelectual. Neste sentido, fez-se clara menção de apoio ao
1o. Seminário de Cinema e Educação: cineclube, escola, comunidade,
proposto pelo Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e aprovado pelo
Comitê Consultivo da SAV- Secretaria do Audiovisual/MinC. O objetivo do
Seminário, de suas comunicações e debates, é produzir um elenco de
sugestões concretas e programáticas a ser submetido à aprovação e
execução pela administração pública. Os presentes estenderam também
todo o seu apoio ao programa Cinema Perto de Você, que está sendo
lançado pela Ancine/Agência Nacional de Cinema visando incentivar o setor
privado (por meio de linhas de financiamento do Fundo Setorial do
Audiovisual e do BNDES e ainda por conhecidos mecanismos de
desoneração tributária) a abrir cinemas nas imediações de grandes centros
urbanos e em municípios sem essa alternativa cultural. Sua prioridade
localiza-se nos 89 municípios com mais de cem mil habitantes e sem
nenhuma sala de cinema!

Na linha da formação profissional, reafirmou-se o reconhecimento da


importância do técnico cinematográfico e a urgência da criação de cursos
técnicos profissionalizantes para o setor audiovisual na rede federal de
educação profissional e tecnológica (Institutos Federais, Universidade
Tecnológica, Cefets e Escolas Técnicas vinculadas às Universidades). Se, de
um lado é compreensível que todos queiram se tornar diretores, diretores de
fotografia, diretores de arte e diretores artísticos, por outro, há grande falta
de técnicos em muitas áreas da produção. No atual contexto do cinema
brasileiro, as carências de técnicos têm sido supridas de modo paliativo, por
meio de oficinas de formação realizadas, em muitos casos, em plena
produção! Sem desmerecer a relevância nem os benefícios do “modelo”
oficinas, é preciso ir além. A carência maior, em cada produção pelo Brasil
afora, é de técnicos intermediários e de suporte, portanto urge formá-los. São
necessários cursos de cenotécnica, elétrica de cena e iluminação, adereço,
maquiagem de teatro e cine, produção gráfica, produção de arte, assistente
de produção, câmera, maquinaria, animação, prospecção, recuperação e
preservação, enfim, cursos de produção voltados ao cinema e vídeo.

No âmbito da preservação, entendendo preservar como oferecer


condições para tornar perene a obra cultural (na sua materialidade,
integridade, integralidade física e nas suas documentações conexas), para
fins de difusão, pesquisa, estudos e fruição, é preciso estabelecer políticas
públicas efetivas, inclusive de acervos digitais, bem como definições claras
para o acesso aos acervos. O acesso ao material preservado, seja para
novas produções ou para estudos é o que lhe empresta sentido, mostrando
aspectos da história e do imaginário, levando à reflexão sobre o passado e
suas esperanças. Considerou-se também como de maior importância incluir
na pauta do audiovisual que a preservação começa na produção, que cabe
aos produtores incluir em seus planos de trabalho cópias de preservação e
guarda de materiais que integram o processo de criação/produção (como
versões de roteiros), que caracterizam a documentação da obra.

Apontou-se também a carência de profissionais que se dediquem à


macroestrutura de uma produção, ao planejamento do roteiro, da filmagem,
do lançamento e da distribuição (o que supõe, muitas vezes, o conhecimento
do mercado internacional e de como nele negociar, entre outras
qualificações). Atualmente, quase sempre quem exerce esta função é um
diretor, em seu próprio filme ou no de um diretor amigo. Sendo assim, para
evitar esta sobrecarga, que as escolas de cinema avaliem se não caberia
programar cursos, pelo menos de extensão, voltados a esta macroestrutura
da produção.

Durante o Festival foram aplaudidas as manifestações de apoio às


entidades de classe do cinema paranaense, especialmente o SIAPAR
(Sindicato das Indústrias Audiovisuais do Paraná) e a AVEC (Associação de
Vídeo e Cinema do Paraná). Ressaltou-se a relevância do Estado não
concorrer com a produção independente local, mas sim instituir e
desenvolver ações de fomento e estímulo como, por exemplo, editais para
alocação de recursos visando o desenvolvimento do setor. Chamou-se a
atenção para a necessidade de suplementar a informação das empresas
quanto aos modos de funcionamento das leis de incentivos fiscais, mais
especificamente da Lei do Audiovisual, um excelente instrumento à
disposição dos realizadores, mas ainda com baixa utilização pelas empresas,
seja por desconhecimento ou até mesmo por falta de uma prática contínua
para investir em filmes parte do seu imposto de renda a pagar.

E, em acordo com a Carta de Atibaia, produzida e assinada pelo


Congresso Brasileiro de Cinema, em janeiro de 2010, reafirmou-se a
importância da continuidade e da ampliação dos programas do Ministério da
Cultura nas suas diversas áreas, sobretudo, pelo que significam em termos
de democratização do acesso à cultura, como afirmação do direito dos
cidadãos brasileiros à cultura.

Finalmente agradecemos a Prefeitura da Lapa, ao Instituto Borges da


Silveira, ao Instituto Cultural e Artístico da Lapa, ao Governo do Paraná e ao
Ministério da Cultura, patrocinadores do evento.
Lapa, 12 de junho de 2010.

Entidades Presentes:

AVEC/PR – Associação de Vídeo e Cinema do Paraná

Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro/Regional do Paraná

Cinemateca de Curitiba

Comissão Organizadora do Cineclube Campus Central da Ufpr

Comissão Organizadora do Cineclube da Lapa

Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná

FAPR/Faculdade de Artes do Paraná

Instituto Borges da Silveira (c/ sede na Lapa)

Instituto Artístico e Cultural da Lapa

IFPR/Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná

Kinoarte/Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina

Nesef-Ufpr/Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Ensino de Filosofia

Núcleo de Vídeo e Cinema da Lapa

Programa Mais Cultura/Cine Mais Cultura do MinC

SIAPAR/Sindicato das Indústrias Audiovisuais do Paraná